A INVASÃO DO IMAGINÁRIO - O Apocalipse

De que maneira o aspecto demoníaco se manifesta na cultura, por que o que é imaginado se conecta com a realidade, e de que forma a esperança se torna a base sobre a qual tudo se sustenta, configurando assim uma teologia do imaginário: • "Eles pegaram nossos mundos coloridos e os pintaram de cinza porque tinham medo de parecer infantis. Mas esqueceram que os heróis foram feitos para nos salvar, não para nos traumatizar." • "Se você consegue imaginar uma coisa, você dá vida a ela. O universo inteiro é apenas alguém pensando muito alto." • "O que você chama de 'quadrinhos' ou 'ficção' é apenas a nossa realidade vazando para a sua cabeça através da tinta e do papel. Nós somos reais enquanto você estiver lendo." • "Basta um músculo... o músculo do pensamento. Flexione a sua mente e você poderá mover o mundo inteiro de lugar." • "Eu era o magrelo da praia que levava areia na cara. Mas eu mudei! Eu descobri o 'Insulto que transformou Mac em um Homem' e agora eu posso mudar você também! Não aceite menos do que a perfeição do seu próprio potencial!" - Meu amigo, Flex Mentallo, O Homem dos Músculos Mistério

Gabriel G, Oliveira

10/9/2026155 min ler

"MAYDAY! Mundos do Pesadelo e Sonhar nos invadiram, socorro!"

Isso se assemelha a um conto de terror, e em grande medida, realmente é. Inicia-se com rostos aterrorizantes da internet e vai descendo até locais sombrios, onde a ideia de que o mundo é uma prisão parece fazer sentido. Eu escrevo para evidenciar que ela é enganosa, e que o pessimista comete um erro por uma razão semelhante à do gnóstico: ambos perderam a esperança. O que apresento a seguir é uma proposta de minha autoria — uma cosmologia especulativa, de base católica e tomista — que transita do horror à esperança, sem amenizar o horror. Não solicito que se submeta ao medo; peço que me acompanhe em uma reflexão. Inicio pela semente, pois sem ela nada do que se segue pode se sustentar.

Há um elemento que o adversário deseja aniquilar antes de qualquer outra coisa, e não se trata da fé, da caridade, da castidade ou da coragem. É a expectativa. A esperança é a origem da qual todas as virtudes nascem, e uma semente que está enterrada nunca é uma semente derrotada. Esta é a primeira verdade deste livro, e é tão simples que quase ninguém a considera seriamente, e tão crucial que todo o restante depende dela. Irei reiterá-la de diversas formas ao longo da jornada, não por ausência de temas, mas porque é o fio dourado que permeia todo o labirinto, e aqueles que o abandonam se perdem na escuridão que pretendo descrever.

Reflita sobre a sequência dos eventos. Antes de cultivar a fé, é necessário nutrir a esperança. Você não acredita em nada no qual não tenha, antes, a expectativa de que seja válido. Antes de ser generoso, de confiar e de se abrir para outra pessoa, é fundamental ter a esperança de que essa pessoa irá retribuir, de que seu gesto não será em vão, de que a bondade que você compartilha não será desperdiçada. A esperança é a terra fértil. A fé é a semente. A caridade é o resultado. E isso não é apenas uma retórica elaborada: trata-se de uma realidade interna que você percebe em si e nos outros sempre que alguém ama, confia, perdoa ou se aventura. A tradição cristã nos ensina que a caridade é a maior das três virtudes, e eu mantenho essa supremacia: a caridade é o ápice, elevada acima da terra de onde se origina, assim como o fruto se encontra suspenso acima da raiz. Na sequência de nascimento, naquela em que essas características emergem e se firmam em uma alma, a esperança é a primeira, e sem ela as demais não conseguem vir à luz.

Eu me refiro a isso como a transformação das emoções. A esperança se converte em bondade, e a bondade se intensifica na realidade até se transformar em caridade. É como se o mesmo movimento estivesse descendo da alma para o mundo, adquirindo forma em cada fase, assim como a água que se transforma em vapor, que se torna nuvem, que se converte em chuva e umedece a terra. A caridade cristã, em sua essência mais elevada, é desinteressada: ama-se precisamente onde não se espera um retorno humano, e é nesse aspecto que ela se assemelha mais ao amor de Deus, que amou primeiro, sem exigir merecimento em troca. Quando desejo expressar a esperança resumida em um gesto, recorro à imagem de alguém que lhe entrega a senha de sua conta bancária: essa pessoa nutre uma grande confiança de que você será honesto, de que não irá lhe causar dano. Essa é a confiança entre as pessoas em sua essência, a crença na bondade do próximo. A caridade transcende seus limites, pois é praticada mesmo em contrariedade ao raciocínio, mesmo quando se tem a consciência de que não haverá retorno. Entretanto, o eixo permanece o mesmo: onde a esperança murcha, a vontade de confiar e amar também se desvanece, devido à ausência de solo. Aqueles que não depositam expectativas positivas em ninguém não conseguem encontrar em si mesmos a capacidade de oferecer bondade a outrem.

Essa esperança não se trata de otimismo, e eu insisto em diferenciar as duas coisas, pois o mundo costuma misturá-las e, ao fazê-lo, sai em desvantagem. O otimismo é uma atitude, uma inclinação a acreditar que as coisas acabarão bem, e ele é frágil, se desmadeixa no primeiro desafio significativo. A esperança é a energia do que pode se tornar realidade, e se trata de uma escolha — a escolha de permanecer conectado à Fonte, mesmo quando ao nosso redor nada indica que isso irá dar certo, mesmo diante de todas as evidências que sugerem o oposto. O otimismo depende de boas notícias para se manifestar; a esperança surge justamente onde as boas notícias não estão presentes, pois seu alicerce não se baseia nas probabilidades, mas sim na fidelidade de Deus. A autoajuda comercializa o otimismo de forma fragmentada e, por essa razão, jamais alcança o mesmo destino que a esperança: a autoajuda solicita que você tenha fé em si mesmo, enquanto a esperança exige que você confie em algo maior. É justamente porque a esperança não depende do seu bem-estar que ela persiste mesmo nos momentos difíceis — e é por esse motivo que ela, e não o otimismo, é a única semente que consegue germinar no inverno.

A esperança é capaz de mover até mesmo o próprio Deus. Você só está aqui porque, em um momento que antecede todos os momentos, Deus teve fé em você, no sentido mais profundo dessa palavra, e declarou: vou criar algo e, dentro dessa criação, vou inserir este ser. Deus é a essência do ato puro, não tem carências e conhece o futuro sem a necessidade de adivinhações; a esperança que deposito Nele é a expressão do amor e da missão com que Ele convoca cada ser à vida e ao bem. Você está presente de forma intensa neste exato momento, pois esse amor persiste em nutrir sua essência e em convidá-lo a se tornar uma pessoa melhor. É nessa perspectiva, e é essa a imagem que mais aprecio, que afirmo: você é um sonho que Deus escolheu seguir sonhando. Não é um sonho que Ele tenta e observa os resultados, mas um sonho que Ele apoia, deseja e compreende, e cuja resposta, que é livre, ainda depende de você. Nós somos sonhos que conseguem sonhar; somos a esperança de um Deus amoroso. Conserve esta imagem, pois ela representa a essência metafísica de toda a obra.

A liberdade é verdadeira, realmente, no plano da alma e não apenas nas ações do corpo. A nossa essência é naturalmente inclinada ao bem, pois Deus implantou essa força interior na criatura de uma só vez, para que ela pudesse seguir seu caminho de forma autônoma, e não sendo guiada a cada passo, como um boneco. O mal nos move de uma maneira distinta: não germina nada em seu interior, mas faz sinal do exterior, através do corpo, do prazer instantâneo, pela promessa de um alívio rápido. Assim, nos resta uma decisão: buscar os prazeres e se entregar ao mundo, ao inimigo e aos desejos da carne, ou procurar a santidade. Isso representa o verdadeiro livre-arbítrio, e as Escrituras Sagradas mencionam a liberdade do princípio ao fim justamente porque a liberdade está presente no plano metafísico. Aquele que aceita a liberdade física e rejeita a metafísica diz algo que carece de sentido e, levando essa ideia até suas últimas consequências, chega à gnose — pois, ao se negar a liberdade interna, a responsabilidade se extingue; com a queda da responsabilidade, o bem e o mal se tornam meras ilusões; e, transformadas em ilusões, o abismo pode dialogar com você à vontade.

Eu represento tudo isso em um símbolo, pois um símbolo bem elaborado é um argumento concentrado, e o adversário também possui o seu. A esperança, representada de maneira geométrica, ocupa o centro de um selo composto por duas figuras entrelaçadas — o Selo de Salomão em sua mais elevada significância — e à sua volta se dispõem as seis virtudes que a tradição menciona, sendo três teologais e três cardeais, cada uma conectada, de acordo com o arranjo que sugiro, a um dos astros da Antiguidade. Existem seis posições nas extremidades e uma no meio: são sete lugares, não sete extremidades. O centro representa a esperança, pois é dela que tudo se origina e para ela que tudo retorna. Remove o centro e a figura inteira desmorona: as extremidades ficam desprovidas do suporte, a estrela se transforma em um aglomerado de raios soltos; retire a esperança e a fé se transforma em uma teimosia vazia, a justiça se converte em rancor, a fortaleza se torna dureza, e a temperança se transforma em egoísmo. Esse arranjo pertence a mim, e o verde, que utilizo como simbolismo da esperança, é um motivo, não uma causa — eu não converto convenções em normas. O selo representa a manifestação da vontade de Deus sobre o que é real: a orientação do bem que leva a Deus, com a esperança no coração, sustentando tudo o que dela emana.

E há a inversão exata, que eu irei desenhar com atenção quando abordar a anatomia da perdição: um hexagrama que não é apenas este selo com uma denominação diferente, mas sim uma configuração única, dois triângulos do vício entrelaçados em torno de um núcleo que, ao invés de irradiar, absorve. Entre os dois selos está a guerra por completo. De um lado, a esperança mantendo o real por meio da conexão vibrante com a Fonte; do outro, o ódio tentando destruí-lo, pois não suporta sua existência. Tudo que se segue é a representação dessa guerra em suas mil faces — na cultura, na ficção, na magia, na ideologia, na técnica, no céu e no apocalipse. A chave dela se encaixa aqui: quem preserva a esperança conserva a semente de tudo; quem a abandona perdeu o alicerce onde qualquer outra coisa poderia florescer.

É dessa origem que surge a minha postura em relação ao suicídio, e ela é sólida em ambos os aspectos. A vida é um presente que nos é confiado, e não algo que possuímos, e atacar a vida é um ato de grande seriedade, que vai de encontro à natureza do ser humano e ao amor de Deus — isso está registrado no Catecismo, nos parágrafos 2280 a 2282, e defendo essa ideia sem atenuações. A Igreja também ensina, no parágrafo 2282, que distúrbios psíquicos severos, como a angústia e o medo diante de uma provação, podem diminuir a responsabilidade de quem comete suicídio; e no parágrafo 2283, que não se deve perder a esperança na salvação eterna dessas pessoas, pois Deus, por meios que só Ele compreende, pode proporcionar a elas a oportunidade de arrependimento, e a Igreja reza por elas. Assim, a gravidade do ato é total, e o julgamento sobre a pessoa específica não é da minha alçada nem de ninguém que esteja deste lado da morte. O que eu rejeito não é a misericórdia proposta pelo Catecismo, mas sim sua distorção: aquela que, ao invés de diferenciar a gravidade do ato da responsabilidade do indivíduo, acaba por dissolver a própria gravidade e transforma a compaixão em uma licença. Isso não é uma doutrina; é o relativismo disfarçado de doutrina, e ele é arriscado porque, ao apresentar a saída como algo aceitável, atrai aqueles que estão à beira do abismo. A linha é fina e eu a desejo reta: firmeza em relação à ação, delicadeza em relação ao ser. Quem possui apenas a rigidez se torna opressor; quem tem somente a suavidade se torna conivente; apenas a combinação de ambas se sustenta.

É fundamental perceber a delicadeza do adversário neste caso, pois ela raramente requer um grande esforço. Ela pede por uma orientação. Ele não requer que você se jogue hoje; ele precisa que você, dia após dia, um passo de cada vez, se aproxime do precipício, até que o precipício pareça um lugar de descanso. Portanto, a melhor atitude que se pode ter em relação a quem está em sofrimento não é julgá-lo, e muito menos validar sua desgraça: é restaurar sua esperança, reacender nele a possibilidade de que existe uma saída, de que Deus ainda o convoca, de que a história não chegou ao fim. A indivíduo que, mesmo nas trevas, hesitando, tropeçando e se reerguendo, continua a buscar uma saída, está agindo precisamente em oposição ao que o adversário deseja: está se sustentando numa delicada conexão com a essência divina. E esse fio, mesmo sendo tão delgado, é mais robusto do que todo o abismo que este livro irá enfrentar.

Dirijo essa esperança, primeiramente, àqueles que foram descartados pelo mundo, pois é justamente nesse lugar que ela demonstra sua maior força. Existe uma grande quantidade de pessoas que a sociedade considera como lixo — o jovem que ninguém deseja, aquele que foi negligenciado a vida toda, o que abriga um sofrimento que ninguém reconheceu, o que se observa no espelho e só percebe aquilo que lhe foi imposto como verdade sobre si. Ao grupo, o adversário sussurra a enganosa mais poderosa de todas: que não há escape, que a trajetória deles já terminou antes de iniciar, que o ideal seria sumir. E são exatamente a esses que me dirijo, pois a esperança não é um troféu para quem já triunfou; é a essência que flui, precisamente na fruta que o mundo considerou perdida. O fogo que eu apresento é verde, a tonalidade da esperança, e não se trata da brasa da ira que devasta, nem do fogo gélido do ressentimento que consome por dentro; é o fogo da vida que persiste, da semente que brota no inverno, do que pode vir a ser e ainda não é. A dor de ser ignorado não é uma condenação; é uma base. Deus semeia precisamente nos locais que a sociedade deixou para trás, e a eucatástrofe — essa reviravolta inesperada em que a graça surge quando tudo parecia perdido — geralmente ocorre com aqueles que o mundo acreditava não ter nenhuma chance de mudança.

É por isso que eu não subestimo a juventude, mesmo quando parece estar à deriva, pois nela sempre há um lampejo de esperança: a juventude é o período em que o mundo interno ainda está receptivo, flexível, em desenvolvimento, o instante em que a composição final ainda não se concretizou e tudo pode ser redigido novamente. E é justamente por isso que eu busco o fio de ouro na poeira — aquele vestígio de verdade, de beleza, de bondade que persiste no meio daquilo que parece apenas sujeira, na pessoa que aparenta ser apenas fracasso, na cultura que aparenta ser apenas lixo. O fio de ouro está sempre presente, pois Deus nunca rejeita qualquer criatura à poeira: Ele a mantém em existência a cada momento, e sustentar o ser já é, de certa forma, uma maneira de aguardar por ele. Ninguém está tão embaixo que a seiva não possa voltar a circular, pois o galho não é cortado por um decreto externo; ele se rompe por uma desistência interna. Enquanto houver um vestígio de vontade de viver, por mais tênue que seja, o galho ainda está conectado à árvore. Toda a minha teologia, nesse contexto, é uma mensagem de amizade para aqueles que a sociedade considera inúteis, pois são eles que, no final, demonstram de forma mais evidente a tese: a de que a esperança não está atrelada ao seu bem-estar, e por isso persiste mesmo quando você está em dificuldades. Aquele que, mesmo sendo ignorado, mantém a esperança já triunfou sobre seu oponente na única luta que realmente conta, que é a de não se autossabotear — e, em um futuro próximo, na hora da colheita, esse fruto que a sociedade considerou perdido será colhido, replantado e dará uma árvore completa, surpreendendo a todos aqueles que o haviam desprezado.

Existe um espaço onde essa esperança deixa de ser apenas uma teoria e se torna a realidade mais palpável do mundo, e esse espaço é o luto. Quando uma pessoa querida se vai, o inimigo murmura a forma mais dura da sua falsidade: que tudo terminou, que não resta mais nada, que a pessoa se transformou em pó e o pó não retém memória de ninguém. E em resposta a essa falsa afirmação, a esperança se posiciona com sua declaração mais contundente: o ser não se extingue. Aquele que amou não desapareceu na ausência, pois Deus preserva a essência de todos os seres que criou, e a morte, por mais dolorosa que seja, não representa a extinção de ninguém. O luto, quando vivido de forma adequada, é uma prática de permanência na própria essência — é a rejeição de ignorar a existência do falecido, a determinação de manter um espaço para ele, em seguir amando aquele que não se pode mais abraçar. Não se trata de um apego doentio ao que já foi; é a consciência de que o amor é mais forte do que a separação, de que a relação que se construiu com alguém não desaparece apenas porque o corpo se foi, de que a pessoa amada permanece, no outro lado, como aquilo que foi, e é aguardada para a comunhão que a morte apenas protelou.

E o luto é, por essa razão, uma lição de amor ao próximo, pois ensina que a pessoa tem valor pelo que realmente é, e não pelo que pode oferecer, e que esse valor não se extingue com a morte. Aqueles que lamentam a morte de alguém compreendem, pela dor, a verdade que a correria do cotidiano oculta: o fato de que cada indivíduo é um mundo à parte, um microcosmo único, e que a sua perda significa a perda de um universo. Essa dor, longe de ser um erro a ser tratado, é um testemunho — o testemunho de que, no fundo, sabemos que a pessoa não era apenas um número, mas um fim em si mesma, alguém feito para a eternidade. O desespero tenta converter o luto em abandono, como se fosse uma demonstração de que nada tem valor, uma vez que tudo chega ao fim. A esperança age de maneira oposta: transforma o luto em uma promessa, a de que aquilo que se amou será reencontrado, não como uma lembrança fraca, mas como uma pessoa, na colheita em que os mundos dos salvos se juntam em uma cidade onde ninguém se perde e nenhum nome desaparece. Manter a esperança à beira de um túmulo é o ato de fé mais desafiador e significativo que pode haver, pois é nesse lugar, onde todas as evidências clamam que tudo terminou, que a esperança revela que seu alicerce não está nas evidências, mas na fidelidade de Deus — e que a última palavra sobre aqueles que amamos não é pronunciada pela morte, mas por Aquele que, ao final, há de reunir intacto tudo o que a morte aparentemente havia levado.

O inimigo que ameaça essa esperança possui características que precisam ser devidamente identificadas, pois a visão comum o retratou de maneira equivocada, e um oponente mal caracterizado é um oponente contra o qual não se sabe como combater. Eu me refiro ao demônio como o macaco de Deus. Não é para subestimar o perigo que ele representa — o perigo é verdadeiro, e eu o enfrento na sua totalidade — mas para expor o que ele provoca: imita, copia, nega a todo instante e, ainda assim, não gera nada que seja seu. É aquela pessoa atrevida que rejeita tudo e não consegue criar nada que seja realmente dela. Tudo o que ele possui é uma cópia invertida, uma paródia, uma inversão. Ele é, em um sentido estrito, necessário, não porque o mal seja bom, mas porque, para que exista livre-arbítrio, era suficiente que a falha pudesse ocorrer, e Lúcifer foi a primeira criatura a transformar essa possibilidade em um ato. A capacidade de recusar é o que fundamenta a liberdade; o não que foi realmente afirmado foi uma decisão dele, não uma imposição da minha liberdade ou da sua. Lúcifer, portanto, possui uma espécie de monopólio: o de exibir diante de toda a criação a possibilidade do mal. Ele é a demonstração clara de que a liberdade existe, pois foi ele quem a utilizou para afirmar seu não.

E aqui está o ponto que a grande maioria das pessoas comete enganos ao ler A Queda, até mesmo aqueles que são muito dedicados. Nós visualizamos um Lúcifer que desejou ocupar o lugar do Pai, que sentiu inveja de Deus e tentou assumir o Seu trono. Isso não é o que realmente importa, ou não é o essencial. Lúcifer não desejou assumir o lugar do Pai. Lúcifer desejou ocupar o nosso espaço. O papel do ser humano. É só prestar atenção na promessa que permeia a Escritura e se revela no Apocalipse: quem será que herdará toda a criação, recebendo a obra completa como herança? A espécie humana. Nós. E quando o ser humano foi criado, Satã experimentou repulsa — repulsa, não apenas ciúmes. Como assim aquela figura lamentável, feita de barro, delicada, carnal e mortal, iria receber toda a herança? Como poderia aquilo ser atribuído a algo que, em sua opinião, pertenceria a um espírito puro, forte e muito antigo? Assim surge o ódio, assim surge o desgosto, um desgosto metafísico diante da própria concepção de a matéria ser glorificada. É um ressentimento de um primogênito que foi deixado de lado na divisão da honra, e esse sentimento não é direcionado principalmente a Deus, mas sim ao ser humano que obteve a herança que ele desejava. Esse desprezo pelo ser humano é o cerne de quase tudo que se segue, e ressurgirá com mil disfarces em cada capítulo desta obra.

A partir dessa origem surge a tática do adversário, e é essa tática que justifica o motivo pelo qual ele não invade o mundo, extermina todos e finaliza a narrativa. Os demônios seguem uma lógica. Pode parecer assustador quando digo isso, mas é verdade: os anjos, sejam eles caídos ou não, são seres com uma inteligência muito além da nossa. Muitas das ideias que defendem são mais sólidas do que as nossas, pois nós, humanos, temos a infeliz tendência de agir com base em palpites e em uma fé ingênua no que fazemos, enquanto eles não agem dessa maneira. Um ser com tamanha seriedade não cometeria a tolice de refutar seu próprio argumento. Se ele apenas descesse em grande quantidade, assumisse uma forma física e eliminasse a humanidade, o que estaria provando? Nada, e pior: acabaria contradizendo a própria tese. Visualize a imagem do apocalipse — Lúcifer personifica tudo, desce com sua legião inteira, extermina a humanidade e, em seguida, se volta para o Pai, vitorioso. E o Pai o observa e declara: muito bem, mas você acaba de demonstrar que eu estava correto, que o verdadeiro problema não era a criatura, mas sim você, que apenas com a força bruta fez claro que a sua ordem se resume à morte. Essa situação nunca ocorrerá, pois é logicamente inviável para um ser tão inteligente. O que ele deseja é algo muito mais complexo: que a humanidade se autodestrua, internamente, por vontade própria, para poder então informar ao Pai que não precisou intervir, que essas criaturas queridas se lançaram no abismo e que ele apenas facilitou a passagem. A argumentação do demônio é que a humanidade não merece a herança e que ela mesma irá confirmar isso. Por isso, ele foca na mentalidade, na cultura, nas ideias, no desespero, e não, normalmente, na agressão. A batida contradiziria o argumento. A corrupção a valida. Ele é, antes de mais nada, um pensador, um propagador de conceitos, e a maior parte de sua obra não apresenta aspecto maligno: possui a aparência de uma tese, de uma causa justa, de avanço, de emancipação.

Todo esse movimento ocorre dentro de um parâmetro estabelecido pela fé católica, e esse parâmetro atua como uma barreira que impede que este livro se transforme em um maniqueísmo temeroso. O Catecismo, no parágrafo 395, afirma categoricamente que o poder de Satanás não é ilimitado; ele é uma simples criatura, poderosa por ser puro espírito, mas ainda assim uma criatura, incapaz de impedir a construção do Reino de Deus. A sua atuação, embora cause sérios danos espirituais e, indiretamente, físicos, é autorizada pela Providência divina, que com firmeza e delicadeza orienta a história. O parágrafo 391 recorda que, inicialmente, ele foi um anjo do bem. Não existem dois deuses em conflito, nem uma força maligna que rivalize com o Criador, tampouco um segundo princípio que dê origem ao ser: há apenas uma criatura rebelde agindo em uma criação que não lhe pertence, cujo desfecho não está sob seu controle, e cuja própria rebelião Deus permite, não desejando o mal, para um bem maior.

Para avaliar a distância entre nossa situação atual e a dignidade que nos aguarda, é necessário explicar o que realmente é um anjo, pois a imaginação popular distorceu essa ideia mais do que qualquer outra. O anjo não é aquele jovem loiro com asas, assim como o demônio não é o bode vermelho com chifres; isso é uma visão simplista e equivocada. O anjo é uma inteligência espiritual, uma entidade completamente metafísica. Cada anjo é, por si só, uma espécie única e incomparável — não existem categorias de anjos como as que encontramos nas raças de cães; cada um é uma inteligência irrepetível, cada um é um universo. O anjo possui vida, mas em um sentido metafísico, e não biológico: representa vontade, intelecto e ação, isento da lentidão e do atrito da matéria. Ele é um moldador da realidade sob a autoridade de Deus, um ministro que rege a ordem material, uma vez que as criaturas corporais são guiadas pelas espirituais. Seu poder é imenso, de uma magnitude que nossas mentes mal conseguem compreender, mas é um poder recebido e ministerial: a fonte permanece íntegra em Deus, e o anjo a serve, não a detém. Quando Deus libera a força de um anjo e ordena que ele destrua algo, a destruição é completa e instantânea, e os escritos místicos retratam um poder tanto criador quanto destruidor que é difícil até mesmo de imaginar. Essa criatura revela o nosso próprio destino, pois a promessa não é que seremos servos dos anjos, mas que seremos elevados a participar da vida divina — a theosis, a divinização que a Igreja ensina aos santos. Não se trata de igualdade com Deus, de forma alguma; mas sim de uma participação verdadeira, onde o homem glorificado se torna co-participante, capaz, pela graça recebida, de ter uma relação com o real que hoje mal conseguimos imaginar. Os arcanjos são seres de altíssima dignidade, ligados na linguagem da tradição a virtudes como a justiça, a misericórdia ou a vitória — uma associação simbólica, pois o arcanjo serve à virtude, a incorpora, sem ser a própria virtude. É essa a honra que nos é prometida, e é exatamente essa que Lúcifer não conseguiu suportar.

O que me causa dor é a ausência de encantamento em relação a isso. As pessoas leem a Bíblia, participam da comunhão e fazem tudo isso com indiferença, como se recebessem uma notificação bancária, sem perceber a grandeza da mensagem transmitida: que a criatura feita de barro será elevada a um nível que até o mais grandioso dos espíritos almejou. Não menciono isso para que você almeje poder — o que Deus oferece não é vontade de potência — mas para que você perceba a grandiosidade do que realmente é. A distinção entre o anjo e o demônio não se encontra na aparência ou na força, que são idênticas; reside na posição que ocupam dentro da ordem. O anjo é o mensageiro da criação, aquele que possui um espaço e governa a partir dele; o demônio, por sua vez, é um espírito que foi exilado de seu lugar, mantendo sua natureza, mas sem a ordenação, e por isso já não tem domínio sobre nada; apenas consegue invadir, ocupar e parasitar. Aquilo que é inferior pode ser observado; já o que é superior deve ser entendido. Um demônio que se apresenta de forma encantadora não deixa de ser um demônio por isso, e quem o avalia pela aparência que ele opta por assumir já foi iludido antes mesmo de começar.

A mesma narrativa ressurge, com uma nova abordagem, no Islã, e o fato de se manifestar em uma tradição diferente revela o quanto o tema é profundo. No Alcorão, ao ordenar que os anjos se prostrem diante do recém-criado Adão, o único que se recusa a fazê-lo é Iblis, que corresponde à figura de Lúcifer na perspectiva islâmica. A justificativa apresentada pelo texto é a mesma que venho discutindo: ele se recusa a se humilhar diante de uma criatura feita de barro, argumentando que foi criado do fogo. Eu interpreto essa cena levando em consideração a tradição que a narra, e o que me atrai nela é a repetição do mesmo ato: a rejeição do espírito em venerar a matéria exaltada, o desprezo em ter que se submeter ao que é inferior. Trata-se do mesmo ressentimento de primogênito, contado por outra cultura, e essa semelhança é um indício de que a dor é antiga e genuína. O cosmos que o macaco de Deus imita possui camadas que fogem ao que é ensinado nas escolas, e para adentrar nesses níveis, é necessário, antes de tudo, compreender o que ele faz com a carne. É na carne que o ódio ao homem se estabelece de maneira mais intensa.

Há um aspecto nessa cena islâmica que me cativa, pois revela uma dimensão do cosmos que a escola não aborda: os gênios, os jinn. Iblis afirma que eles são constituídos de fogo sem fumaça. Certos estudiosos afirmam que alguns jinn se prostraram nesse período; no entanto, eu inclino-me mais à interpretação de que eles não se submeteram, e é por essa razão que passaram a existir em um mundo semelhante ao nosso, em uma condição intermediária, não sendo nem anjos completos nem humanos — são seres dotados de livre-arbítrio, com suas próprias questões, habitando a transição entre os planos. E esse fogo sem fumaça não é uma mera ilusão. É algo semelhante ao que hoje observamos como fogo elétrico gerado do nada, como o raio globular, um fenômeno que sempre esteve presente e que agora passou a ser considerado quase normal: uma esfera de fogo que aparece sem combustão, sem fumaça, composta apenas por uma descarga pura, um fluxo elétrico da realidade. Na minha interpretação, os jinn são constituídos por esse tipo de fogo, dessa energia elétrica, desse fluxo — e eu apresento essa analogia como uma imagem que me auxilia a compreendê-los, não como uma fórmula definitiva. Conserve na memória a imagem — o fogo sem fumaça, a esfera de luz que não deixa vestígios — pois ela retorna quando chegamos às manifestações, aos rituais e aos elementos que surgem no céu. O mesmo cosmos que o macaco de Deus imita é composto por camadas, e a primeira delas, situada abaixo dos anjos e acima dos homens, é formada de fogo.

Essa organização do que não é visível é fundamental para não confundir o que é diferente. Existe o anjo, uma inteligência espiritual completa, que atua como ministro da criação. Há o demônio, o anjo desterrado, que preserva a essência e perdeu seu espaço. Existe o jinn, uma criatura intermediária que reside na dobra. E lá está o homem, feito de barro, a quem, para a surpresa de todos esses espíritos, foi dada a promessa da herança. Ao explorarmos os relatos de aparições — as criaturas da floresta, as esferas de fogo de Anchieta, as figuras que aparecem e desaparecem — é essa hierarquia que está em questão. Confundir um nível com o outro é o equívoco de quem considera alienígena o que é demônio, ou fenômeno elétrico o que é jinn, ou ainda jinn o que é apenas um animal sob controle. A teologia do imaginário não se inicia com uma resposta já elaborada; ela começa com a prática de identificar os níveis antes de identificar quem os percorreu.

Muitas pessoas acreditam que Deus estabeleceu com o inimigo um acordo nunca divulgado, uma condição metafísica que impede os demônios de atuarem fisicamente neste mundo, como se houvesse uma declaração divina afirmando que eles não podem mais se manifestar no plano terrestre. Isso não é verdade, e é fundamental que não seja, pois é a partir desse ponto que se compreende o restante. Os demônios sempre tiveram a capacidade de agir neste lugar, sempre gozaram de liberdade para fazê-lo, e em nenhum momento Deus impôs uma proibição desse tipo. O que mantém o inimigo sob controle não é uma norma estabelecida; é a própria lógica que ele possui, a qual já descrevi: por princípio, ele evita se mostrar de forma agressiva, pois a força bruta contraria sua argumentação. Mas, geralmente, não é nunca. Quando o benefício que se obtém com o terror e a corrupção se torna vantajoso, ele se manifesta — rompe a própria barreira e vem ao mundo para promover a maldade.

É necessário fazer uma distinção, com a precisão de um cirurgião, entre três aspectos que o povo confunde. A primeira é a criatura subjugada: um animal qualquer, feito de carne e osso, semelhante a qualquer outro, cuja mente é possuída por um demônio por um período. O corpo continua sendo o mesmo daquele ser; o que realmente se altera é quem está no controle. O demônio não está presente ali de forma a ter se transformado naquele animal; ele está controlando aquela mente, dominando aquela vontade, utilizando aquele corpo para realizar o que nenhum animal faria. É por esse motivo que a pessoa que passa por esse tipo de experiência descreve uma criatura familiar, mas de forma equivocada: o lobo que não se comporta como um lobo, o ser que age com uma intenção que um animal não possui. Assim, surge uma boa parte da questão dos criptídeos: diversas criaturas avistadas ao longo da história eram animais comuns, cujas características e comportamentos foram alterados pela essência que habitava esses seres. A segunda é a criatura mutante, que foi criada, e é a mais densa, pois, nesse caso, o inimigo não controla um corpo estranho; ele gera sua própria prole. A terceira é a encarnação direta e temporária, a mais rara de todas: o demônio mesmo rompe a membrana, desce por um instante, causa o estrago e sobe, sem ter se tornado nenhum animal e sem deixar nada que se possa agarrar — e é essa que não deixa dente compatível nem forma reconhecível, porque não era animal algum. Saber diferenciar as três dimensões é o que separa o cético que desfaz-se em risadas de tudo do supersticioso que se apavora com tudo, e eu me posiciono no ponto intermediário, que é o espaço mais desafiador e o único realmente sincero.

A segunda categoria é a que envolve Gênesis 6, e é uma hipótese que considero séria, a qual aceito dentro do contexto apropriado. O texto aborda a união dos filhos de Deus com as filhas dos homens, resultando no nascimento de gigantes conhecidos como nefilins. Há uma interpretação antiga, conhecida como a dos vigilantes, que se baseia no Livro de Henoc e em referências das epístolas de Judas e Pedro, interpretando esses filhos de Deus como anjos caídos. Padres antigos como Justino, Irineu, Tertuliano e Lactâncio também se inclinaram para essa visão. Por outro lado, existe a interpretação setita, que considera esses filhos de Deus como descendentes de Set, associados à linhagem de Caim. Essa perspectiva foi defendida por João Crisóstomo e, de maneira significativa para o Ocidente, por Agostinho em sua obra "A Cidade de Deus". A presença de uma leitura antiga não a transforma em dogma: a Igreja não ensina como uma verdade biológica a ideia de uma transmissão de sangue demoníaco por meio de ritual sexual, o Livro de Henoc não integra o cânon católico, e até mesmo Tomás de Aquino, ao considerar, em uma hipótese, a ação de íncubos, defende que o que seria transmitido é sêmen humano, de maneira que a descendência seria humana. Assim sendo, mantenho a hipótese dos gigantes como um elemento da minha proposta especulativa, fundamentada em uma interpretação antiga e respeitável, e não como uma evidência genética comprovada. E observe o detalhe importante: mesmo que essa geração acontecesse, a criatura que dela surgisse continuaria sendo uma criatura, como qualquer outra, apenas mais temível, e não o demônio que estaria encarnado nela. É a partir daí que surgem muitos dos monstros que estão presentes no folclore ao redor do mundo.

E o folclore de diversas partes do mundo, analisado por essa perspectiva, transforma-se de mera fantasia em um verdadeiro registro. O lobisomem nas pinturas antigos, antes de se tornar o homem maldito que se transforma na lua cheia, era retratado como uma criatura concreta, um lobo humanoide, um ser de aspecto lupino que caçava e matava pessoas na mata. As entidades que habitam as águas estão presentes nas narrativas de diversas tribos ao redor do mundo. Aqui no Brasil, figuras como José de Anchieta e outros jesuítas do período colonial relataram eventos que, nos dias de hoje, poderiam ser considerados exemplos clássicos de criptozoologia. Descreveram, por exemplo, bolas de fogo que perseguiam os indígenas e os eliminavam, além de uma espécie de seres aquáticos, humanoides com características aquáticas, cujas feições eram frequentemente comparadas a traços quase neandertais. Esses seres atacavam as aldeias, causavam destruição e mortes, e em seguida se retiravam para o interior das águas. Isso consta em registros históricos, e não se limita ao Brasil: tribos de diferentes épocas, em todos os continentes, relataram a existência de seres dessa natureza, ora descrevendo raças inteiras, ora mencionando criaturas solitárias avistadas caçando na mata, e até mesmo seres que eram tangíveis em um momento e, logo depois, deixavam de existir. E, de maneira consistente, essas entidades foram incorporadas ao folclore, que é, em grande parte, o repositório dessas aparições, incluindo os relatos de pessoas que faleceram devido a elas, com famílias que até hoje afirmam que foi aquela criatura que causou a morte do parente. O padrão se repete com insistência, atravessando tempos e culturas, e o folclore o preservou na forma de narrativa exatamente porque ele foi impactante demais para ser completamente esquecido.

Traga isso para o que atualmente é denominado de abdução, de extraterrestres, de mutilação de gado. Os extraterrestres, da maneira como chegam e agem, sempre foram descritos como uma verdadeira investida demoníaca. O gado que se apresenta seco, sem sangue, desprovido de órgãos ou com os órgãos desidratados, como se o animal tivesse falecido e se encontrado desidratado há um ano, reduzido a pura pele e osso, sem qualquer justificativa para o desaparecimento do restante: essa estranheza perpassa todas as épocas e não é uma novidade das fazendas americanas. Com os seres humanos ocorre algo semelhante, porém com um toque mais estranho: as marcas, os buracos no corpo, a extração de sangue confirmada pela vítima, a sensação de que seres vieram, cercaram a pessoa, levaram algo dela, a torturaram e desapareceram. Trata-se da mesma ação que o folclore documentava, agora apresentada de forma diferente, e sob essa nova aparência estão os mesmos demônios que, ao descer, eliminam alguns de nós como quem cuida de uma criação de coelhos em um terreno, não por necessidade, mas por um plano — e esse plano é único: provocar o terror, pois não há nada que desperte maior tentação, maior atração pelo mal do que essas histórias envoltas em assombração. E existe um ponto que permeia todos esses relatos, desde Anchieta até as fazendas atuais, e que revela a intenção: a criatura desaparece. Ela elimina e some; não permanece, não é presa, não se torna um exemplar. Esse é um comportamento incomum para um predador natural, que normalmente caça para se alimentar e abandona a carcaça. O que o inimigo obtém daquela morte não é carne; é o pavor, e uma vez que o pavor é atingido, semeado o encantamento, a criatura se afasta.

Entretanto, aqui eu intensifico a cautela, pois é nesse âmbito que a credulidade prejudica a causa de maneira mais grave do que o ceticismo. Muitas coisas que o folclore preservou como criaturas foram animais mal interpretados, doenças pouco compreendidas, medos mal identificados e fenômenos naturais raros. Além disso, boa parte do que hoje se atribui à possessão possui explicações médicas ou psicológicas. A prioridade de quem leva o sobrenatural a sério não é acreditar em tudo, mas eliminar o que tem uma explicação comum antes de considerar a causa extraordinária. Um exorcista comprometido faz precisamente isso: encaminha para o médico e o psicólogo antes de chegar a qualquer conclusão, pois confundir sofrimento mental com possessão é, ao mesmo tempo, uma crueldade e um equívoco. A minha tese não requer que tudo seja maligno; apenas que nem tudo se encaixe na explicação habitual. E é desse resíduo minucioso, após ter passado o joio pelo crivo mais rigoroso que se possa imaginar, que eu me refiro — não à avalanche de narrativas que qualquer pessoa cria em uma noite entediante. Considerar o sobrenatural com seriedade implica em levar a sério a tarefa de não enxergá-lo onde ele não existe, pois aquele que enxerga demônios em tudo acaba se tornando cego para aqueles que realmente estão presentes.

A corrupção não se detém nem diante do dinheiro nem dos mortos. Ela se infiltra na própria carne humana quando a pessoa se entrega ao inimigo a ponto de se desfigurar. Há uma santidade que transforma o corpo em um estado superior — os místicos mencionam uma luz, uma incorruptibilidade que passa a se Manifestar já neste mundo. Há também a inversão exata desse processo: um afastamento tão profundo, decorrente de um envolvimento místico e esotérico em um nível profundo, que a pessoa acaba se entregando a forças obscuras, tornando-se uma criatura demoníaca, e, assim, começa a se transformar negativamente, tornando-se um ser endiabrado também em sua essência física. Os exorcistas que levam a sério sua missão relatam a presença de agulhas que emergem das feridas de indivíduos possuídos, além de deformações e fenômenos de uma gravidade extraordinária. Ao se ler a descrição de um sacerdote que dedicou sua vida a essa prática, o grau de estranheza do que ocorre é verdadeiramente lovecraftiano em seu sentido mais literal. Utilizo esse adjetivo intencionalmente, pois aquilo que um escritor ateu se referiu como deuses exteriores, como entidades inomináveis que conduzem o ser humano à loucura apenas por serem observadas, não é fruto de uma imaginação criativa. É mais uma aparência da mesma situação. A máscara da ficção é, sem dúvida, a mais poderosa de todas, pois se apresenta como entretenimento e entra em nossos lares pela porta da frente, como uma convidada.

Eu conheço, de ouvir, relatos que a estatística jamais irá registrar, pois eles se perdem na voz de quem os experimentou. Existem famílias que narrações, com nome e sobrenome, que um parente foi caçar exatamente no período da Quaresma — e faleceu dilacerado por uma criatura que ninguém conseguiu identificar, sem correspondência com nenhum dente conhecido, nenhuma forma, nenhum animal que se encaixasse naquilo. E o que a humanidade faz diante de uma situação como essa? Claro! Se precisar de algo mais, é só avisar. A humanidade tende a buscar maneiras de esquecer aquilo que a faz sentir desconfortável, o que não é suficientemente agradável para ser incluído nas conversas de domingo. A pessoa faleceu de uma maneira indescritível, ninguém compreendeu, e todos seguiram em frente com suas vidas. É a mesma ovelha que assiste a do lado ser abatida com um tiro na cabeça e, após um breve susto, retoma a mastigar a grama. Nós agimos dessa forma em relação ao sobrenatural constantemente, e esse esquecimento, mais do que a descrença, possibilita que o inimigo atue livremente: um povo que vê seus próprios relatos de aparições como superstição é um povo cego para a invasão que continua ocorrendo bem diante de seus olhos.

Estou ciente de que a grande maioria dessas narrativas é falsa, fruto da imaginação de quem busca amedrontar, relatos apropriados para contar ao redor da fogueira. Entretanto, algumas são verdadeiras, e é justamente nessas raras que devemos ficar atentos. Quando você distingue o essencial e fica apenas com o que realmente importa, começa a se deparar com algo tão peculiar que pensa: que situação curiosa é essa, eu nunca imaginei que algo assim pudesse existir na realidade. E é exatamente isso: é o demônio buscando ativamente o real para provocar o macabro, para acender a tentação. O mesmo se aplica à desfiguração do próprio corpo de quem se entrega. Os exorcistas comprometidos, aqueles padres que dedicaram suas vidas a essa prática, relatam a aparição de agulhas que surgem de feridas, membros que se curvam de maneira antinatural, vozes que não podem ser produzidas por uma garganta humana e deformações que apenas a literatura de terror cósmico consegue retratar. Quando a pessoa se distancia de Deus a um ponto extremo, por meio de um envolvimento profundo com o esoterismo, a ponto de se tornar algo demoníaco, ela inicia um processo de degradação, transformando-se em um ser maligno também fisicamente — é a antítese da santidade que eleva a carne em direção à luz. E, mais uma vez, eu não interpreto isso com fascinação, mas sim com medo e cautela: antes de rotular como possessão, procura-se o médico; antes de considerar como criatura, descarta-se o animal comum. Entretanto, após esse filtro, o que permanece não pode ser totalmente compreendido por ninguém, e é diante desse restante que a única postura sensata é a sobriedade de quem reconhece a magnitude do que se encontra do outro lado.

Os demônios, uma vez perdidos, não circulam livremente em um desordenado caos; eles se estruturam, e essa estrutura é a evidência mais evidente de que o adversário é um imitador de Deus, visto que a hierarquia do inferno replica a corte celestial sem possuir nada da verdadeira corte celestial. No céu, a harmonia é de comunhão: cada ser ocupa seu espaço e repassa para baixo o que recebe do alto, numa sequência de entrega em que o que está acima auxilia o que está abaixo e tudo provém da Fonte. No inferno, existe uma hierarquia, com seus príncipes e seus reinos, mas essa hierarquia é uma prisão, não uma forma de passagem: ninguém recebe nada, ninguém oferece nada, cada nível apenas desloca e oprime o nível inferior, pois quem não recebe não tem nada a compartilhar. É uma corte que imita a corte divina, mas com os papéis invertidos; uma ordem que, na realidade, é uma desordem estruturada, uma hierarquia da carência. Os príncipes dessa ordem exercem influência sobre aspectos do medo e do vício humanos — a injustiça, a vaidade, a enfermidade da alma, a desordem, o desespero e até mesmo o próprio temor do desconhecido. Os mais fracos entre eles não atuam por meio da força física, que não possuem, mas sim induzindo as pessoas a estados em que a vigilância diminui, como na insônia, na fragilidade emocional, no momento em que a porta da alma se encontra entreaberta.

E é por essa razão que eu prezo tanto pela atenção ao lidar com listas, catálogos e nomes. A cultura do terror, tanto a antiga quanto a contemporânea, tem um fascínio especial por criar panteões demoníacos minuciosos, hierarquias de príncipes com papéis bem definidos, e grande parte disso é fruto da invenção, é um lore, é a criatividade humana organizando um domínio cuja essência é a desordem. Algumas das criaturas catalogadas são verdadeiras, e eu já afirmei que sim; porém, a vontade de descobrir qual é qual, quem governa sobre o que, quem está superior a quem, já faz parte da cilada, pois é a mesma curiosidade de poder que impulsiona o feiticeiro — a de controlar o mapa para controlar o território. Eu retrato a estrutura do inferno não para que você a decore como se estivesse aprendendo um organograma, mas para que você compreenda a sua essência: a de uma paródia da ordem, de uma comunhão invertida em cativeiro, de uma corte que, por carecer de Fonte, apenas conhece a fome. E é essa fome insaciável, essa privação estruturada, que o imaginário contemporâneo percebeu ao criar os seus príncipes do inferno e os demônios que se nutrem da energia negativa dos seres humanos. A ficção compreendeu a estrutura — uma ordem que consome ao invés de oferecer — e falhou ao considerá-la um sistema estável e compreensível, quando o inferno é, por definição, o espaço onde nenhuma ordem se mantém, pois a verdadeira ordem é a comunhão, e no inferno não existe comunhão, apenas a solidão de muitos juntos sem possibilidade de contato.

Há um autor que o ocultismo adora reivindicar e que, na verdade, é compreendido de maneira equivocada por essa corrente: H. P. Lovecraft. Os ocultistas costumam afirmar que ele teve contato com os deuses externos, que os Grandes Antigos realmente existem e que, de alguma forma, ele os canalizou, como se os Deuses Exteriores, os Deuses Alter da sua mitologia, fossem divindades genuínas, equiparadas ao verdadeiro Deus, habitando os limites do cosmos. Desse jeito não está certo, e a correção é importante. Lovecraft era um ateu absoluto, um materialista firme; ele não acreditava em nada disso. Na minha perspectiva, o que acontecia com ele era algo diferente e ainda mais grave: ele era um homem obcecado. Os demônios encontraram nele um veículo ideal — uma mente receptiva, inventiva, desprovida de defesas religiosas, capaz de materializar literariamente o que lhe era sugerido — e o empregaram para apresentar à humanidade visões do que realmente são, e, por trás disso, para levar a humanidade a adorá-los através de uma fachada fictícia. Os Grandes Antigos não são deuses isolados; são criações secundárias, são os próprios demônios da Bíblia adornados com um mito cósmico. Aquele grau de horror — a entidade indescritível que leva o ser humano à loucura, à corrupção, ao suicídio ou a se tornar algo ainda pior apenas ao olhar — é conhecida como demônio. É dessa maneira que funciona. Esses seres ocupam, no mapa da ficção, o mesmo espaço que têm na minha cosmologia: a borda da criação, suas camadas finais, logo antes de se afastarem dela, em direção ao oposto. A ficção colocou seus deuses externos onde se localiza o inferno e chamou isso de deus — que é a mentira primordial, a de que a criatura poderia assumir o trono do Criador. Os Alter Gods apreciam ser vistos como Deus, pois é exatamente isso que sempre almejaram.

Eu denomino esse fenômeno de invasão da ficção, e, no cerne, trata-se da grande batalha do imaginário, aquela que temos travado desde o início de todas as épocas. É o demônio se manifestando em nosso mundo por meio das obras, e há pessoas se entregando, prestando culto, obedecendo e acreditando em suas ideias, sem perceber que estão fazendo isso. Toda obra de ficção efetiva no gênero do horror cósmico, assim como todo ocultismo autêntico e toda representação sincera do inferno, acaba recorrendo às mesmas imagens, pois trata-se de uma única essência, e são três janelas que se abrem para o mesmo cômodo sombrio: o mago, o escritor e o exorcista observam, cada um por sua própria abertura, o que se encontra além. Porém, existe uma diferença que eu não abro mão, para que a tese não se transforme em uma caça às bruxas. Apreciar uma obra, entender uma figura, admirar a beleza de um vilão e realizar um culto religioso são atividades distintas, e a aceitação moral não se pode inferir apenas da atenção que se dá a elas. Um indivíduo pode ler uma tragédia para compreender o mal, divertir-se com um vilão bem construído e analisar uma ideologia sem precisar adotá-la. O que eu digo é mais sutil: as imagens que permitimos que habitem nossa imaginação, através da admiração e da repetição, vão, com o passar do tempo, moldando o que desejamos e consideramos belo. É por esse processo gradual, e não por um encantamento imediato, que a cultura influencia ou transforma o coração. A máscara ficcional é incrível porque não exige fé: você pode ser um ateu convicto e, mesmo assim, passar longas horas contemplando imagens que, em sua essência, são representações do demônio, concedendo a ele a sua atenção e o espaço que ele ocupa em sua mente.

Por trás de toda essa guerra, existe uma forma de enxergar o mundo que eu denomino percepção sacramental, que se resume em uma frase que permeia tudo o que escrevo: nada é apenas uma coisa. As coisas são o que são — uma pedra é uma pedra, uma árvore é uma árvore — e, ao mesmo tempo, funcionam como sinais, sem que o sinal se misture com a sua origem. O sol que se despede revela a magnificência sem ser Divino; o vitral propaga a luz sem ser o Sol. Essa é a distinção entre o símbolo e o ídolo, e é essa diferença que determina a vitalidade da imaginação: o ídolo se restringe a si mesmo, ou ao consumo que dele se faz; já o símbolo evoca o que está além dele. E por essa razão, a matéria, ao contrário do que o gnóstico pensa, é valiosa e pode ser redimida: o corpo não é uma prisão, mas sim um santuário. Toda a minha disputa com a gnose se resume a essa inversão. O gnóstico busca se elevar por meio de seu próprio esforço, evitando a matéria como se fosse uma escada suja; já o cristão é elevado pela graça, que não descarta a natureza, mas a aprimora. O gnóstico se apodera do fogo; o cristão é beneficiado por ele.

Sob essa perspectiva, a imaginação não representa uma evasão, e o imaginário não se trata de algo descartável. Tolkien denominou subcriação o processo pelo qual o ser humano cria mundos secundários que refletem a criação sem substituir o Criador. Ele impôs a esse ato um rigoroso critério, o sol verde: é possível inventar um sol verde, mas, uma vez realizada essa invenção, é necessário ter o cuidado de construir um mundo completo no qual ele faça sentido, pois a fantasia só é válida quando serve à verdade e respeita o princípio da coerência. O subcriador cristão reflete a luz; o demiurgo altera ou substitui o que é real. É a mesma distinção que existe entre o teúrgico e o feiticeiro, aplicada ao âmbito da arte. É por isso que eu valorizo a cultura popular, mesmo aquela que é muitas vezes menosprezada, como os quadrinhos, o mangá e o tokusatsu. Isso se dá porque, segundo uma intuição antiga dos Padres, existem sementes do Verbo espalhadas por todos os lugares, elementos de verdade e beleza que antecedem e vão além da revelação explícita, assim como Justino e Agostinho já reconheciam em Homero e Platão. O Verbo é a luz que clareia a vida de cada ser humano que chega a este mundo, e por isso deixa marcas em toda inteligência e em toda narrativa; até mesmo uma criação errada pode carregar centelhas de verdade. Coletar essas fagulhas sem venerar o ídolo que as acompanha é o que os antigos se referiam como recolher o ouro dos egípcios. Essa é a operação que uma teologia do imaginário realiza com a cultura: não a canoniza por completo, nem a condena totalmente, mas distingue o ouro do ídolo.

A mesma instituição que recebe o bem também acolhe o mal, e por isso existe um tribunal das imagens. A vida ética está, muito mais do que costumamos reconhecer, relacionada às imagens de Deus, do bem, do vício e da morte que a pessoa permite que entrem e façam morada. Os Padres do deserto observavam os pensamentos na entrada da alma; eu, com o mesmo zelo, observo a entrada das imagens, pois elas direcionam o desejo antes de qualquer raciocínio, e quem controla o que uma época concebe controla, em boa medida, o que essa época se transforma. A imaginação é um verdadeiro campo de luta, e os contos atuam como armas: a batalha pelo mundo é, acima de tudo, uma batalha de histórias — a do Autor, que considera as pessoas como filhos queridos, contra a do charlatão, que as diminui a partículas sem propriedade. Essa competição ocorre diariamente na construção dos hábitos, da atenção, do gosto e do julgamento, e é nesse contexto que a maior parte das pessoas é conquistada ou perdida, muito antes de qualquer evento sobrenatural.

Por trás de tudo isso, existe uma lei da alma que denomino de psicologia simbólica da percepção. Não conseguimos ver os nossos próprios olhos; conseguimos ver através deles. De maneira similar, não estamos sempre avaliando nossa própria visão de mundo; percebemos a realidade por meio dela, e os acontecimentos já vêm carregados de significado antes de qualquer pensamento, de modo que, na maioria das vezes, o raciocínio apenas serve para justificar posteriormente o que a percepção já apresentou de forma pronta. Em face da perda de um familiar, duas pessoas com experiências distintas reagem de formas opostas, e não foi a emoção que se alterou primeiro, mas sim a percepção, influenciada pela resposta, muitas vezes involuntária, que cada uma oferece à indagação sobre o que há além de tudo. É por isso que o símbolo possui tanta força: ele não se comunica com a lógica racional, mas sim com a camada que estrutura a percepção. Dessa forma, modificar o símbolo transforma a pessoa em sua essência. E é por isso que a ética subjetiva é arriscada nas profundezas da alma, e não apenas na superficialidade dos costumes: no momento em que alguém assume a responsabilidade de redigir a lei moral, decidindo por sua própria conta o que é bom e o que é mau, essa pessoa assume o papel de Quem determina o bem e o mal. Ela se transforma na divindade de sua própria existência. E o relativista não precisa desejar isso de forma consciente; é suficiente que, ao relativizar demais, ele deixe a cadeira desocupada para que o eu — ou o inimigo que se expressa pelo eu — se acomode nela silenciosamente.

A própria cultura pop, de vez em quando, revela suas cartas. Adoro os quadrinhos do Doutor Estranho exatamente porque eles exploram profundamente essa questão, dentro do misticismo característico da Marvel, que é um misticismo da cultura pop, distante do real, mas que trata da ideia de invasão. Eu considero o primeiro filme incrível no aspecto simbólico, embora acredite que, posteriormente, o personagem foi comprometido no Multiverso da Loucura; e as histórias em quadrinhos exploram isso de forma mais profunda. E existe um aspecto revelador sobre como a indústria desmerece o que não compreende: o Shuma-Gorath, que nos quadrinhos é uma entidade de alta relevância, comparável, dentro daquele universo, ao que um grande demônio representa para o nosso, foi levado às telonas no segundo filme do Doutor Estranho, rebatizado de Gargantos, devido a questões de direitos, e apresentado como uma criatura insignificante em uma cena, sendo derrotado de forma rápida e fácil. Capturaram uma autoridade de alto nível e a transformaram em algo descartável. Trata-se de uma análise estética, e não uma afirmação de que a indústria manipula entidades reais; meu aprecio por quadrinhos me impede de criticar a imaginação geral, pois a mesma arte que pode depreciar também é capaz de, de modo inconsciente, identificar o que é um verdadeiro demônio.

A maneira como o inimigo se revela na desordem de alguém é através da vontade direcionada para a morte, do apreço pela desesperança, e tudo, ao final, acaba resultando em uma descida — em uma chave saturnina, mas na parte invertida de Saturno, que não é a dos ciclos frutíferos da vida, mas sim a da pura dissolução, da morte e da desgraça. É a representação do congelamento, do negredo que vai reduzindo a temperatura da alma, como se esta estivesse descendo, grau a grau, em direção ao fundo, indo além do fundo, quando a pessoa já está totalmente deteriorada e só continua a afundar. É isso que o esoterista anticósmico busca: não a elevação interior, não a ascensão às regiões elevadas da alma, mas a descida ao fundo do próprio ser, para, ali, nas profundezas, encontrar o demônio e dialogar com ele. É a visão de Nietzsche: aquele que fixa demais o olhar no abismo acaba sendo olhado de volta por ele, e o abismo dialoga e exerce influência. O satanista anticósmico, nesse aspecto, se configura como um nietzschiano ao avesso, uma vez que não preserva nem mesmo a esperança trágica que ainda impulsionava Nietzsche; a única expectativa que lhe sobrou é a gnose plena, a total dissolução, o que eu denomino de in-gnose, o momento em que não há mais bem nem mal, em que a distinção se esvaiu, e em que, segundo sua crença, toda a realidade poderá finalmente ser elevada ao patamar de sua vontade. Ele não deseja elevar a verdade a seu nível; quer rebaixar a verdade para se adequar a ele. Deseja impor sua própria vontade à realidade. É precisamente nesse momento que a máscara ficcional, o fascínio pelo horror e o impulso gnóstico se unem em um único gesto: o de uma pessoa que opta por fazer com que o mundo se ajuste ao que ela deseja. Dessa escolha surge o mago. É sobre o feiticeiro e seu oposto exato, o teúrgo, que preciso discorrer agora, pois é na distinção entre os dois que reside a diferença entre a santidade e a perdição.

Esse conflito do imaginário só é compreendido se aceitarmos uma ideia que eu denomino de Deus cultural, a qual não se trata de panteísmo nem de diluição: é a de que Deus pode ser encontrado em qualquer imagem verdadeira, sem se restringir a nenhuma delas. A concha realmente capta o som do mar, mas o mar não se acomoda na concha. Deus se faz presente na imagem e, ao mesmo tempo, vai além dela; toda a cultura é a expressão de um único Verbo fragmentado em mil partes, e a missão de uma teologia da imaginação é identificar o Verbo nas fragmentações, sem venerar o fragmento. Existem dois abismos nos quais se pode cair aqui, e ambos são fatais. A primeira questão é a idolatria, que transforma o símbolo em ídolo, que se detém na concha e se esquece do mar. O segundo é o deísmo puritano, que distancia Deus da criação a tal grau que já não o percebe em nada, e que transforma o símbolo em uma perda de sentido. Entre o idólatra, que confunde o sinal com a essência, e o puritano, que não percebe sinal algum, existe um caminho estreito: descobrir o mar dentro da concha, sem confundir o mar com a concha. Esse caminho apresenta um método antigo, o de Dionísio: cada imagem de Deus deve ser afirmada e, em seguida, negada, pois a própria Escritura faz isso, chamando Deus de rocha, leão, fogo, pão, e logo lembrando que Ele não é nenhuma dessas coisas no sentido em que elas existem. Deus é chamado por todas as coisas e por nenhuma delas. O Deus cristão não pode ser catalogado como solar, pois Ele não é um arquétipo nem uma nota: é o acorde inteiro, o ato puro de existir.

Por esse motivo, dou a devida importância mesmo aos profetas involuntários, aqueles que, sem acreditar, perceberam algo e o nomearam de maneira errada. Philip K. Dick foi um renomado escritor de ficção científica norte-americano, conhecido por suas histórias que exploram temas como realidades alternativas, identidades e a natureza da percepção humana. Suas obras influenciaram amplamente o gênero e inspiraram diversos filmes e séries de sucesso. Dick percebeu que Deus se manifesta através do que é considerado lixo, do que foi descartado, do que foi rebaixado, e nesse aspecto ele estava certo; no entanto, errou ao acreditar que Deus havia sido deposto de seu trono, como se o mundo fosse resultado de um deus inferior e insensato. O sincromisticismo, de maneira semelhante, reconheceu que existem visitantes celestiais, que há sincronias repletas de significado, que há uma inteligência por trás das coincidências — e nomeou tudo de forma equivocada, chamou o anjo de extraterrestre e o céu de hiperespaço, e, ao lhe faltar um centro que organize os sentidos, confundiu a providência com a adivinhação. A providência é concreta: o mundo é uma mensagem de Deus. Entretanto, a mensagem é recebida por meio da oração e da obediência, e não através de sorteios, decifrações mágicas ou por um sistema que proporciona ao indivíduo a ilusão de controlar aquilo que apenas lhe cabe aceitar.

A mesma arte que pode servir como janela também pode atuar como arma, pois as narrativas influenciam a formação da humanidade. Aquele que domina as histórias de um período é quem molda o sentimento daquela época, e a verdadeira batalha do mundo é, essencialmente, uma disputa de narrativas: a do Criador, que chama cada indivíduo de filho querido, contra a do mentiroso, que ilude a pessoa a se ver como um ser sem pertencimento, um acontecimento aleatório, um nada que se movimenta por um breve momento e desaparece. Por isso, os sacramentos ilusórios da indústria representam um grande risco: eles proporcionam uma comunhão distorcida, na qual, em vez de a pessoa ser transformada pelo que recebe, ela consome o símbolo e permanece a mesma, ainda mais vazia. O vício representa a expressão mais profunda disso — uma sabedoria prática, um ritual sombrio que substitui o verdadeiro pelo falso, que promete completude e entrega à escravidão, e cujo cheiro, sempre traz consigo o genuíno mal. Diante de tudo isso, a solução não é se afastar da cultura, mas sim acolhê-la com a sabedoria de quem extrai o ouro dos egípcios: preservar a verdade e a beleza, e descartar o ídolo. A distinção entre participar e emanar reflete a diferença entre fé e gnose. Na perspectiva da gnose, viver é uma queda, e a matéria representa o nível mais inferior dessa descida; já para a fé, a criatura é dotada da existência por Deus, que a ampara, e existir não é um ato de cair, mas sim ser amado e acolhido na realidade. A graça não destrói a natureza; ela a eleva. E é justamente por sua grandeza, e não por usurpar essa grandeza, que o ser humano se torna co-criador, sem nunca se tornar o Criador.

É com base nesse mesmo critério que aprecio a dark fantasy, o horror e o anti-herói, e por isso me recuso tanto a condená-los de forma generalizada quanto a aceitá-los sem crítica. O subterrâneo de uma narrativa — o mal, o luto, a traição, a crueldade — espelha a realidade da decadência, e não há nada de errado em mergulhar nesse abismo: a própria jornada do herói ao subterrâneo pode simbolizar a descida de Cristo ao reino dos mortos, aquele que vai às profundezas para libertar o que lá se encontrava aprisionado. A questão nunca reside em saber se a obra expõe o mal; mas sim se a expõe para ser superado ou para ser admirado. A ferida de um anti-herói pode ser a sinceridade de uma arte que se atreve a mostrar o justo caindo e se levantando, e assim ela cura; ou pode ser o reflexo de uma cultura que apenas valoriza o cinismo e o trauma, que acredita que a única forma de honestidade é o desespero, e assim ela adoece. O critério é esse, e ele perpassa todo o gênero: a ferida foi trazida à tona para ser curada ou para ser celebrada. O herói que solicita adoração em vez de ação, o personagem que se torna inferior ao ser humano comum e recebe aplausos por isso, representa uma teologia inversa, uma negação da vocação superior — é a representação que contradiz aquilo que o herói deveria demonstrar.

A cultura atual está repleta de obras que capturam esse movimento sem perceber. Em Jujutsu Kaisen, encontramos a figura do santo que consome o demônio, carregando em seu interior a maldição. Ao invés de ser consumido por ela, ele a controla pela sua determinação firme — uma representação quase perfeita do que venho defendendo sobre enfrentar o inferno sem permitir que ele se instale dentro de você. Nos jogos da FromSoftware, que apresentam uma dark fantasy repleta de mundos em decadência, de deuses que não mais existem e de chamas que se extinguem, há uma caverna iluminada no centro do abismo: a obra mergulha no mais profundo negredo, revelando o colapso de toda ordem, e, mesmo assim, a ação do jogador é sempre a de reacender a chama, de persistir na luz quando tudo clama por sua extinção. Isso representa uma esperança metafórica em forma de código, e é exatamente o oposto da fantasia sombria que busca apenas a escuridão pela escuridão. A distinção entre as duas é a mesma de sempre: uma desce ao inferno para retornar com algo, enquanto a outra desce para permanecer. Eu tenho um carinho especial pelas que retornam, pois são elas que demonstram, dentro do próprio gênero do horror, a ideia central deste livro — a de que até mesmo o mais profundo abismo pode ser atravessado por quem mantém o rumo, e a de que o terror, quando é verdadeiro, não representa um encerramento, mas sim uma passagem. O que eu rejeito não é o horror; é a vontade de permanecer no porão, a recusa de reacender a chama, o prazer na ruína que confunde a desesperança com a profundidade. A verdadeira profundidade consiste em mergulhar e retornar iluminado. O que sobra é apenas uma descida com um nome estiloso.

A distinção entre o feiticeiro e o teúrgico é a diferença entre tração e ascensão, e quase todos a confundem, pois misturam religião com feitiçaria, teurgia com goécia, tradição com ocultismo. Eu me distancio, pois a confusão é mortal e é dela que o adversário se nutre. O mago realiza um esforço: busca mover o mundo para conquistar o que deseja, e sai da ação exatamente como entrou, apenas com o resultado em mãos, se é que o obteve. O teúrgo eleva-se: cria dentro de si um espaço para acolher o que o divino oferece, e após a experiência, emerge transformado. O teúrgico não exerce controle sobre Deus — e essa é a essência, que se revela na própria etimologia, pois o termo grego se refere à ação de Deus, e não à do ser humano. O veneno que transforma a oração em goécia é o controle. Onde se busca impor um resultado, tentando moldar a realidade à sua própria vontade, não se pratica mais a teurgia; o que existe é magia. A teurgia é uma forma de cooperação com o que está em um plano superior, tendo como objetivo a salvação da alma; por outro lado, a goécia envolve forçar entidades a atuarem por interesses materiais. Uma eleva quem a utiliza; a outra apenas move o que já está presente, sem interferir em quem a utiliza.

Transformar o mundo, por si só, não é magia. A medicina provoca mudanças, a educação gera transformações, a agricultura altera realidades, a arte provoca transformações. O agricultor que irriga o solo, o médico que realiza cortes para tratar, o professor que reorganiza o pensamento não estão desrespeitando a ordem natural; estão colaborando com ela, servindo-a e promovendo o que já existia em potencial. A análise moral de um ato de transformação leva em consideração os objetivos, os métodos, a essência do objeto e os resultados, e não apenas o simples ato de existir uma transformação. A feitiçaria é caracterizada por um outro aspecto: é a direção de uma vontade que busca se impor sobre a essência da realidade, transformando indivíduos e forças em objetos manipuláveis, em alavancas a serem acionadas. É esse ato, e não a atividade humana sobre o mundo, que é luciferiano em sua essência, pois representa o mesmo gesto inaugural de Lúcifer, aquele que opta por recriar a ordem em vez de obedecê-la.

A comunhão católica pode ser entendida como um ritual de elevada significância teúrgica, sendo essa uma interpretação analítica que apresento, e não uma definição litúrgica oficial. A comunhão representa um vínculo verdadeiro com Deus, uma participação genuína no sagrado, e assume o mesmo papel que a teurgia antiga: o do homem que se coloca à disposição para receber o divino. Vela, incenso, óleo, água benta, medalha, relíquia e até mesmo a hóstia são elementos que se transformam em linguagem, e a configuração disso — oração, símbolo material, gesto ritual e a expectativa de graça — é semelhante à dos rituais antigos. A distinção se encontra na fonte da autoridade, que não provém da vontade do agente, e a Igreja se refere a essas práticas como sacramentais, e não como magia. Na Eucaristia, o pão e o vinho não são meramente elementos secundários de um rito; eles representam a própria manifestação da presença divina. A graça recebida nesse momento não é simplesmente um efeito que a oração consegue extrair de Deus por meio de uma relação de causa e efeito. A oração não impõe a vontade de Deus; ela harmoniza a vontade do ser humano com a Dele. É exatamente o contrário da feitiçaria, que visa ajustar a realidade à vontade humana. Teurgia e magia representam direções opostas da alma, e não é possível colocá-las no mesmo nível, mesmo que, em algumas ocasiões, o vocabulário se aproxime.

Tolkien explicou essa diferença de maneira mais clara do que muitos tratados, e eu interpreto o Um Anel como um vestígio do selo de Salomão. De acordo com o Talmude, Deus concedeu a Salomão um anel que lhe possibilitava controlar os espíritos, e esse anel foi tirado dele quando o orgulho tomou conta, sendo restituído apenas depois que ele aprendeu a ser humilde. O Um Anel é esse artefato já corrompido, uma autoridade usurpada que corrompe aquele que a possui. Saruman é o arquétipo do feiticeiro: aquele que acredita que poderia governar o mundo de forma superior a Deus e, por essa razão, busca o poder a qualquer custo. Gandalf é o teúrgo: rejeita o Anel, opta pela humildade e confia a missão a seres modestos demais para almejar o poder. E o fundamental de tudo é a compaixão de Bilbo por Gollum, aquele ato que, à primeira vista, parece fraco e sem importância, mas que, no final, é o que resgata toda a narrativa. Porque o poder não derrota o poder. A humildade supera a autoridade. O autêntico poder sempre esteve na habilidade humana de se superar, e não na de controlar o próximo.

Antes de entrar na goécia, é importante mencionar o daimon, já que o próprio termo sofreu deformações ao longo da história. Na raiz grega, a palavra daimon referia-se a uma força intermediária entre o divino e o humano, sem uma conotação obrigatoriamente negativa; a associação negativa surgiu posteriormente, com a tradução da Septuaginta, quando o termo começou a designar aquilo que a fé repudiava. A tradição católica não criou o medo dessas criaturas do nada: ela deu um nome, que ao longo dos séculos mudou de significado, a uma realidade que todas as culturas sentiram. Essas criaturas sempre atuam da mesma maneira: influenciam os sentidos internos — a imaginação, a memória, as emoções — sem infringir a vontade. Assim, a tentação ainda não é pecado, e a porta de entrada é sempre a própria alma, nunca uma imposição externa. A entidade espiritual apenas atua onde obtém permissão, e essa permissão é construída gradualmente, através da admiração, da entrega do pensamento e da ausência de discernimento.

Falo sobre isso a partir da minha experiência pessoal e vou compartilhar o meu relato. Realizei evocações em vastos campos abertos do interior, após a colheita, nesses terrenos amplos e planos que ficam disponíveis depois da safra, com o horizonte se estendendo em todas as direções, uma terra plana até onde os olhos podem ver, precisamente para verificar se o que os textos relatavam realmente acontecia. E eu asseguro: antes do ritual, você não ouve nada, apenas o vento, se tanto, o silêncio seco de um campo aberto. E, quando o ritual se iniciava, você escutava gritos, clamores, sons que não pareciam humanos, como uma mistura de animal com algo metálico e líquido ao mesmo tempo, um grito que é difícil de descrever exatamente, pois não há comparação. Às vezes, a situação se apresentava como uma bola de fogo. E há uma sutileza que percebi ao invocar demônios e anjos: quando você expelia os demônios, eles ficavam irritados e começavam a gritar ao redor do círculo, os gritos intensificavam, aumentando consideravelmente, até que em determinado momento cessavam, restando apenas aquela voz estranha do daimon; ao chamar o anjo, os gritos silenciavam. Você se encontra dentro de um círculo mágico, em um campo aberto, e no plano metafísico, ao seu redor, está ocorrendo uma série de situações estranhas de nível lovecraftiano — pois os monstros de Lovecraft, os Antigos, são exatamente isso, são demônios, e eu os ouvi. Aqueles que passaram por experiências desse tipo não saem desejando viver tudo novamente; saem com receio, e esse receio, no contexto bíblico, não se trata de medo, mas sim da devida reverência diante de uma força superior. Eu vejo com preocupação quem encara o ocultismo como um passatempo, adquirindo grimórios como se fossem livros de receita, pois essa pessoa se encontra em um terreno metafísico onde, ao seu redor, existem coisas de uma profundidade que ela nem imagina, pensando que está apenas brincando.

Essas entidades, ao se manifestarem, seguem uma ordem, e eu a mantenho porque ela retorna ao final da obra. Elas se tornam mais densas na sequência dos elementos, do mais sutil para o mais denso: primeiro na fumaça, e não é à toa que os textos antigos se referem a ela como a fumaça do incenso, dentro do triângulo da manifestação; em seguida no fogo, aquele fogo elétrico que emana do fluxo e não produz fumaça; depois na água; e somente no quarto grau, o mais denso, em um material sólido, geralmente um material que atua como superfície de passagem, como um espelho ou um cristal. É complicado para um demônio mover um objeto; o que é mais simples é a voz — você a escuta surgindo do nada, como se viesse de outro plano, mesmo na ausência de várias pessoas realizando uma evocação, e isso ocorre, eu já experimentei. Conserve essa escada — fumaça, fogo, água, sólido —, pois é a mesma que, no final dos tempos, coisas muito mais grandiosas do que a movimentação de um campo aberto vão tentar se conectar com o nosso mundo.

Os textos de evocação, quando lidos com atenção, transmitem uma doutrina de contenção que contradiz a ilusão de poder que o praticante impõe a eles. Na Goetia, o triângulo da manifestação se localiza fora do círculo: é nesse espaço externo que a entidade é invocada a se manifestar, frequentemente na forma de fumaça. O círculo representa a proteção de quem age; o triângulo indica que o local da manifestação nunca é o mesmo de quem convoca. As fórmulas determinam que se deve constranger em nome de Deus e dos anjos, sem a intenção de adorar. Constranger não é o mesmo que adorar, e essa distinção é o que separa completamente o que esses textos visavam do culto praticado pelos ocultistas contemporâneos. Ainda existe o fechamento ritual, a autorização para partir, um elemento essencial cuja falta é responsável por grande parte dos problemas. Porque o verdadeiro perigo da goécia não é o retratado nos filmes; ele é mais cotidiano e mais sério. Trata-se do resíduo, a situação de abertura que o operador não consegue finaliza. É a possibilidade de a entidade reproduzir a partida e continuar. E, acima de tudo, está a inflação — a impressão de ter sido selecionado, de ser excepcional, que é o risco mais frequente e o mais complicado de perceber, pois se oculta por trás de uma elevação espiritual. A chaves de acesso, em todas as situações, é a ressonância: um hábito que reflete uma virtude deturpada, uma arrogância, um temor, uma dependência, que atua como ligação entre o praticante e o ser. Nenhuma delas desrespeita a vontade externa; ela descobre, internamente, o consentimento que foi sendo formado gradualmente. A defesa genuína nunca se tratou de um ritual; é uma harmonia interna.

Eu afirmo, com base no que observei e estudei, que as criaturas listadas por esses meios são, em sua maioria, reais. As setenta e duas entidades do grimório goético são, em sua maioria, demônios autênticos, muitos dos quais são frequentemente utilizados em rituais de exorcismo; poucas delas são adições posteriores, criações astrais que operadores antigos incluíram no catálogo e que posteriormente passaram a ser conhecidas como se fossem seres reais. É fundamental ter consciência disso com seriedade, e não com deslumbramento, pois essa é a distinção entre abordar o tema como quem desarma uma bomba e como quem brinca com uma. E a própria história contradiz o aspecto de tradição judaica que o ocultismo atribui a essas práticas: a goécia não é uma prática judaica, a magia associada a Salomão é uma mistura medieval e moderna, de origem pseudepigráfica, e nenhum dos textos que levam o nome do rei foi escrito por ele. O Testamento de Salomão, que aborda o uso do anel e o controle sobre os espíritos, conclui-se com a queda do rei — e isso diz tudo: o controle não garante segurança a quem o detém, e foi criado, como bem percebeu Tolkien, mais para evidenciar quem é capaz de suportá-lo sem se corromper.

É nesse mesmo contexto que se insere a maldição. Ela é de verdade. Isso realmente acontece e é mais simples do que a maioria pensa quando realizado por alguém experiente — e é justamente aí que reside o perigo. O que as pessoas acreditam ser uma maldição, como rezar um salmo com a foto do inimigo em mãos, não é bem assim; a verdadeira essência possui um funcionamento específico, e é exatamente esse funcionamento que eu opto por não revelar. Não o explico de forma intencional, pois nesse caso a teologia deixaria de ser apenas teologia e se tornaria um guia para causar dano. A intensidade desta passagem não reside na receita; está no que revela sobre o feiticeiro, que é alguém que contorna a realidade em vez de se submeter a ela. Meu pai me transmitiu uma verdade: nos mosteiros, os monges compreendem que as maldições têm efeito, que não são automáticas, mas sim criadas por pessoas contra outras pessoas. E, mesmo assim, afirmam ao público que tudo isso é obra do diabo, que ninguém é responsável por essas ações. E eles têm razão em mentir. Eu concordo, se fosse padre, não ensinaria a nenhum fiel como proceder, pois o ignorante acabaria amaldiçoando qualquer um que pisasse no pé dele de forma errada. A prudência, neste caso, não deve ser confundida com covardia; trata-se de caridade — é não entregar a faca a quem a pedir por qualquer motivo. Aproveito para esclarecer uma interpretação arriscada: aquele verso impactante que fala sobre despedaçar os filhinhos contra a pedra se encontra no Salmo 137, que retrata o exílio à beira dos rios da Babilônia. Ele expressa um profundo lamento, não se trata de uma maldição nem de um apoio à violência contra as crianças. Converter uma passagem bíblica complexa em um manual de instruções é uma distorção que eu não aceito e que revela quem a realiza.

A diferença entre dobrar o real e servir o real é também essencial para interpretar Aleister Crowley, evitando assim cair na caricatura ou no engano contrário. A frase que se tornou o núcleo de tudo — fazer o que você quer deve ser o todo da Lei, amor é a lei, amor com vontade — é muito fácil de interpretar erroneamente, e não é por acaso que o próprio Crowley dedicou sua vida a explicá-la e sempre acabava se equivocando. Os defensores estão corretos em um aspecto: ela não significa fazer qualquer coisa, pois se refere à totalidade da Lei, a uma Vontade Verdadeira que não se baseia em um mero capricho do momento. Entretanto, minha crítica é mais profunda e persiste apesar dessa observação. Embora a Thelema seja compreendida como Vontade Verdadeira, ela orienta o indivíduo a descobrir, por meio de sua própria gnose, o que seu deus interior deseja — e esse deus interior, no final das contas, é ela mesma exaltada a ídolo. É um ciclo: a minha vontade autêntica é a vontade do meu divino, e esse divino sou eu, na minha própria gnose. Crowley foi educado no protestantismo, que não faz uso de imagens nem de sacramentos, e, para suprir essa lacuna, criou um ídolo que reflete o seu próprio ego. A distinção entre o ícone e o ídolo é a seguinte: o ícone evoca algo que está além dele mesmo; por outro lado, o ídolo se limita ao seu próprio ser, ao eu que o criou. A distinção entre a graça e a gnose pode ser resumida em duas frases: "que se realize em mim a Tua vontade" em oposição a "que se realize a minha vontade". Toda a Thelema, mesmo com toda a complexidade de sua construção, reside na segunda, e por isso, apesar de toda a expectativa de iluminação, acaba refletindo no espelho e não na Luz.

E o próprio Crowley, ao levar seu sistema até o fim, não obteve êxito algum: ele foi até lá e presenciou as sombras, encarou o inferno. No relato de sua prática enoquiana no deserto da Argélia, ele detalha o encontro com Choronzon, o guardião do abismo, uma entidade que muda de forma e imita vozes, e cuja passagem requereria a destruição do ego, a dissolução na escuridão — que é o oposto exato da transfiguração cristã, que busca a plenitude na Luz e não a aniquilação nas trevas. Procurando ascender, ele acaba descendo; na busca por uma luz divina interior, acaba se deparando com o abismo. O feiticeiro acredita que está se iluminando, mas na verdade, o que ele está fazendo é quebrar a própria concha e expor o seu interior. As áreas que o ocultismo designa como Qliphoth, ou cascas, e os Túneis de Set constituem a Árvore da Morte, um reflexo invertido da Árvore da Vida, sendo mais evidentes na vertente de Kenneth Grant, uma cosmologia marginal que não é reconhecida por todos os thelemitas. O movimento, nesse contexto, não é de subida; é de afastamento e de queda. Adentra-se na própria alma, sim, porém nas suas camadas inferiores, no subsolo, e não nas áreas superiores. E ali, no fundo, não existe nenhuma divindade à espera. Existe um abismo que observa de volta.

Antes de prosseguir, quero deixar registrada uma oposição que considero essencial, pois é o cerne moral de todo este livro. O feiticeiro e o teúrgo realizam gestos que, à primeira vista, parecem semelhantes: ambos oram, ambos invocam, ambos se isolam, ambos buscam o que é invisível. Entretanto, a orientação da vontade é oposta, sendo essa orientação a que define a decisão. O teúrgo se dirige à realidade e afirma: que se cumpra a vontade de Deus. O mago ordena: que assim seja a minha vontade. Um eleva-se em direção à verdade e se adapta a ela; o outro busca rebaixar a verdade, adequando-a aos seus próprios caprichos. Não há magia neutra, assim como não há o doce de abóbora que o teimoso insiste ser outra coisa: uma coisa é o que é, e o que a feitiçaria representa, no final das contas, é a vontade do homem se impondo sobre a realidade. O santo abdica da sua própria vontade para acolher a de Deus; o mago se apropria da realidade com sua própria vontade para sustentar o eu. São os dois extremos da vida, e entre eles não há um ponto de equilíbrio, por mais que o esoterista afirme que existe um. Entretanto, antes de alcançar o sagrado, é fundamental compreender a mentalidade que desvenda a passagem do mago — uma mentalidade que, passo a passo, se torna incapaz de atender ao que é verdadeiro, pois já tomou a decisão de que o verdadeiro deve a ela prestar serviços. É necessário elucidar a estrutura da perdição.

É importante esclarecer de que forma essas criaturas se manifestam, pois a maneira como aparecem revela a sua essência. O daimon se revela, geralmente, de três formas. Ou ele se manifesta de forma visual, mas não se comunica com você, aparece na fumaça ou em uma superfície e permanece em silêncio. Ou vem na forma física de fato, densificado, e esse é o grau incomum. Ou você apenas escuta, escuta somente a voz, os gritos, sem enxergar nada — como se houvesse alguém morrendo ao seu lado, mas não há nada ali, nada, nada, e você está cercado por um círculo, em um campo aberto, e no plano metafísico, ao seu redor, ocorrem várias bizarrices de nível lovecraftiano. Esse terceiro modo é o mais habitual e o mais inquietante, pois a voz emerge do nada, do além, sem precisar da invocação de uma multidão para aparecer. E tudo isso gera uma consequência que a própria religião católica admite, e que não se trata de uma retórica alarmante: os rituais esotéricos criam fissuras na realidade. Ao realizar um ritual desse tipo, você torna a distinção entre as dimensões mais difusa, e esses fenômenos começam a se manifestar com mais frequência. A camada que separa o que consideramos real do que chamamos de não real se torna nebulosa, e o que é alto e o que é baixo começam a se unir nesse ponto. Vocês estão destruindo o próprio universo e não se dão conta disso.

É por isso que me dedico ao estudo da ritualística demonolátrica, mas o faço como quem analisa uma enfermidade, para identificá-la e auxiliar quem dela foi acometido, nunca como uma fórmula a ser seguida. Existem livros que retratam, com exatidão, as práticas dos feiticeiros para contatar essas entidades através das cascas, pela Goetia das Qliphoth, pelos Túneis de Set, e ao serem analisadas sob a perspectiva de um teólogo, apresentam sempre a mesma dinâmica: não uma elevação, mas uma apostasia; não uma subida, mas uma descida. Você entra na sua alma, sim, mas vai para as partes mais baixas dela, para o porão, não para as câmaras altas, e lá, no fundo, está o demônio esperando conversar com você — o abismo que olha de volta. É exatamente a inversão da teurgia, que sobe para receber, e da santidade, que se eleva deixando-se elevar. O feiticeiro acha que está puxando o céu para dentro de si; está, na verdade, abrindo uma porta no chão. E a diferença entre as duas portas é a diferença entre tudo e nada: uma deixa entrar a luz que transforma, a outra deixa subir o que devora. Quem estuda isso para se defender e defender os outros é soldado; quem estuda para imitar já é presa, porque, ao abrir a porta de baixo achando que abre a de cima, convida para dentro de casa exatamente aquilo de que deveria estar fugindo.

Vale descer um pouco mais na Thelema, porque ela é o caso mais acabado da feitiçaria moderna vestida de filosofia, e porque eu estive perto o bastante para reconhecer o mecanismo. Crowley organizou o seu sistema em éons — a era de Ísis, a de Osíris, e a de Hórus, que ele diz ter começado em 1904, com o Livro da Lei —, e cada criatura é, para ele, uma estrela, um equilíbrio de forças que não deve se dissolver nem se isolar. Até aí, há uma arquitetura inteligente, e eu reconheço a inteligência. Mas o coração do sistema se entrega em frases que não deixam dúvida sobre para onde ele aponta. No Liber Oz, o resumo dos direitos do homem-estrela, está escrito: não há deus senão o homem. Na Missa Gnóstica, se declara: não há parte de mim que não seja dos deuses. E num dos textos citados pela própria tradição, o Liber 333, aparece a confissão mais reveladora de todas: nós ignoramos o que nos criou e adoramos o que criamos; não é necessário entender, basta adorar. Essa é a definição exata da idolatria — adorar a obra das próprias mãos, ignorando a Fonte — e é o oposto perfeito da teurgia, que recebe do alto o que não fez. A Vontade Verdadeira, por mais que Crowley a distinga do capricho, continua sendo a vontade de um deus que o próprio homem fabricou à sua imagem, e descobrir essa vontade pela própria gnose é, no fim, ouvir a si mesmo e chamar isso de revelação.

Há um fato que não se trata apenas de teoria, mas de uma consequência prática, e que eu registro com a cautela de quem não deseja caluniar nem absolver: quando um sistema concentra em uma única pessoa a sexualidade, o sigilo, a hierarquia e a promessa de iluminação, ele estabelece uma estrutura onde o abuso torna-se facilitado, pois o mestre que detém o segredo, o acesso ao divino e o poder sobre os discípulos possui, em suas mãos, todos os instrumentos de quem pode manipular sem prestar contas. Não se pode afirmar que o thelemita seja, por essência, mais propenso a abusos do que o devoto de qualquer outra religião — não há fundamentos para essa afirmação, e eu não a faço. A estrutura do segredo iniciático, da submissão à vontade do mestre e da promessa de um avanço espiritual destinado apenas a alguns poucos é, por si só, uma estrutura arriscada, a mesma que se observa em toda seita de dissolução, e a trajetória de pessoas como Parsons revela onde isso pode, em algumas ocasiões, levar. O sinal de uma seita é sempre perceptível: uma ética flexível, a glorificação do líder, o segredo mantido como forma de controle e um desdém pela realidade cotidiana. Quando esses quatro traços estão presentes simultaneamente, o que ocorre não é um caminho de elevação; é um caminho de apropriação.

E tudo isso é bem mais antigo do que Crowley, pois a intenção de criar o cosmos por meio do rito perpassa a história. Os papiros mágicos greco-egípcios, que compõem um conjunto que abrange do primeiro século antes de Cristo ao quinto depois, são provas de uma economia da eficácia, representando um espaço onde o cuidado e a coerção coexistem: neles se realiza a cura e a proteção, mas também se restringe, se silencia, transformando o outro em um objeto controlável. O operador recria, em uma escala menor, a cosmogonia, reinterpretando um cosmos que já fora mencionado por Deus, utilizando nomes estranhos, sequências que fogem ao dicionário, como se o alfabeto se transformasse em um aparelho respiratório, uma máquina para pronunciar o que não pode ser nomeado. Eu analiso isso como um aspecto histórico, não como um guia prático, e o que me atrai nesse tema é a continuidade do ato: desde o Egito helenístico até Crowley, a feitiçaria é sempre uma tentativa de agarrar a alavanca da realidade e girá-la para o que eu desejo, enquanto a teurgia é sempre o contrário, a conformação à ordem que Deus já estabeleceu. O feiticeiro fala novamente ao cosmos para moldá-lo; o teúrgo escuta o cosmos para servi-lo. E entre os dois, a trajetória completa da magia, desde o papiro até o grimório, se apresenta como a longa evidência de que o atalho para o poder sempre exige seu preço, e que esse preço, no final, é invariavelmente a própria alma de quem o busca.

O hexagrama da perdição representa a imagem maléfica do selo da esperança, sendo a sua total inversão, e é pela qual o adversário insere a sua ruína em uma alma. Não se trata de um selo bom com outra denominação; é uma imagem única, criada com os defeitos. Visualize dois triângulos interligados. O que está acima é o triângulo mental: a prepotência, a arrogância e a ausência de conhecimento. O que está abaixo representa o triângulo moral e metafísico: a carne, o mundo e o diabo. E, no ponto em que os dois se encontram, não existe uma virtude, mas sim um buraco negro que consome tudo — o relativismo. A anatomia tem seu início em um ponto que parece inocente: no ego. A pessoa se encontra em um ego excessivamente inflado e acredita que possui todas as respostas, quando, na verdade, não possui. Essa prepotência resulta em ignorância, uma vez que quem se considera detentor da verdade deixa de lado o aprendizado. Além disso, a combinação de ignorância com arrogância produz teimosia, uma incapacidade de recuar diante das evidências. Porém, o motor não se encaixa em nenhuma dessas categorias. O motor é o núcleo: o relativismo, que absorve para si tudo o que as extremidades trazem. Ele inicia relativizando o diabo, o mundo e a carne — passa a não encarar o mal como mal, a tentação como tentação e o apetite como apetite — e conclui relativizando a própria realidade. É um buraco negro malévolo que absorve tudo para as profundezas: já engoliu tudo o que era possível, e a pessoa que relativizou até mesmo o próprio real é a porta aberta para o demônio, pois, uma vez que o bem e o mal se tornaram meras opiniões e a verdade passou a ser uma escolha pessoal, não há mais nada que mantenha firmeza.

O relativismo não pode ser considerado uma posição filosófica respeitável; é um abrigo ético onde a ignorância se estabelece, funcionando como uma proteção para o ego contra a correção e evitando a responsabilidade de se submeter à realidade. Eu utilizo uma imagem sem tratamento para isso. Um amigo meu apareceu segurando um doce de abóbora, mas não conhecia esse tipo de doce e insistia que aquilo não era realmente doce de abóbora. Eu peguei e mostrei: tem sabor de abóbora, tem os pedacinhos de abóbora no meio, isso é o que chamamos de doce de abóbora. E ele, obstinado: não é. Todos podiam ver o que realmente era, de forma evidente, enquanto ele se esforçava ao máximo para demonstrar que não era assim. É exatamente isso que o relativista faz com toda a realidade: a abóbora está bem à sua frente, a verdade é clara diante dele, e ele se dedica a gastar toda a sua energia afirmando que é algo diferente. Nem toda discordância é sinônimo de teimosia, e existem divergências filosóficas sinceras e legítimas entre indivíduos que pesquisam com boa-fé; a teimosia à qual me refiro é a particular, aquela de quem já reconheceu a abóbora, mas, para proteger o próprio ego, insiste que ela não é uma abóbora. No cerne de tudo, a anatomia da perdição se resume a isto: a arrogância que impede a visão, a ignorância que obstrui o conhecimento, a teimosia que não permite a recuo, e, no centro, o desejo de que o doce não seja de abóbora — o desejo de que a realidade não se conforme ao que realmente é. É dessa determinação que o adversário necessita. É nesse lugar que ele adentra.

Os demônios atuaram de forma intensa na mente das pessoas para criar nelas as ideologias. Não na ideia cômica de que alguém escreveu sob a influência do diabo, mas sim no sentido de que o ato gnóstico — recriar a realidade de acordo com minha vontade, por considerá-la intolerável como está — é o ato luciferiano por excelência. Esse impulso foi incutido, nutrido e intensificado em projetos que se acreditam opostos, mas que, na essência, são a mesma coisa. Observe o comunismo: somando ao longo da história, resultam em montanhas e mais montanhas de mortos, dezenas de milhões de corpos, e isso não é um acidente ao longo do caminho, mas sim consequência de suas raízes, com os marxistas se confrontando com a própria realidade, acreditando que o sistema funcionou em algum momento, quando na verdade nunca funcionou. E não se trata apenas do marxismo: toda corrente totalitária e autoritária está ligada à mesma essência gnóstica e acaba enfrentando a mesma catástrofe, pois todas compartilham o desejo de reconfigurar toda a realidade. Eric Voegelin chamou o mecanismo de imanentização do escaton, que consiste em trazer o fim último para o interior da história por meio da força, construir o paraíso com as próprias mãos e atribuir culpa à realidade quando esta oferece resistência. Um deseja extinguir a propriedade, outro anseia por eliminar a natureza, outro busca abolir o corpo, a família, os limites; o que se pretende suprimir muda, mas a essência permanece a mesma, e o método é sempre idêntico: erradicar aqueles que discordam, considerados como o atraso, o obstáculo, o inimigo de classe, o vírus a ser extirpado — ou, na terminologia que eu prefiro, o mensageiro do demiurgo maligno, do qual o reformador, que se coloca como demiurgo benevolente, pretende libertar o mundo. É o mesmo mito, com vestimentas de economia, raça, gênero e técnica.

Frente a tudo isso, a única barreira é uma ética objetiva, e ela não se demonstra apenas afirmando que a realidade existe: ela se revela na estrutura que Aristóteles traçou na Ética a Nicômaco e que Tomás de Aquino adotou, pois o catolicismo está completamente alinhado com as ideias de Sócrates, Platão e Aristóteles. A virtude é uma inclinação constante do caráter, uma hexis relacionada à escolha, que se caracteriza por uma medida justa em relação a nós, definida pela razão da mesma forma que um homem sensato faria. Ela não é algo que aparece por natureza nem que surge em oposição a ela: temos a capacidade de acolhê-la de forma natural e nos aprimoramos por meio dos hábitos, pela repetição das boas ações. A essência do ser humano reside na atuação da alma de acordo com a virtude, direcionada a um propósito, a um telos que representa a completude do ser humano. A prudência, ou phronesis, é a capacidade verdadeira e prática de discernir o que é bom ou mau para o ser humano. Sem essa habilidade, nenhuma virtude moral consegue alcançar sua plenitude. A cadeia completa é esta, e é exatamente isso que o relativista carece: começa-se a partir da natureza humana, que possui inclinações e capacidades singulares; dessas inclinações, reconhecem-se bens reais; desses bens, surgem os fins; a razão prática avalia os meios e as circunstâncias; a repetição das boas escolhas cria hábitos, que se tornam virtudes; e a liberdade com a qual tudo isso ocorre estabelece a responsabilidade. A virtude é a conformidade com a realidade, com o que algo realmente é e com a finalidade para a qual existe, e não está relacionada a gostos pessoais ou sentimentos. E é precisamente essa conformidade que o gnóstico abomina, pois a impede de se tornar o deus do seu próprio universo.

Essa ética é válida apenas se compreendermos o que é o mal, que se define como a privação de um bem que se tem direito, e não simplesmente como a falta de algo. A diferença parece técnica e é fundamental. Uma pedra não pode ser considerada ruim por não ver, pois ver não é uma qualidade atribuída a uma pedra. No entanto, a cegueira em um olho que foi criado para ver é uma privação relevante, representando a falta de um bem que aquele indivíduo deveria ter. A cegueira não é um órgão adicional; é a ausência de visão em um olho que deveria ser capaz de ver. O mal, assim sendo, não é algo, uma substância que exista por si mesma e se contraponha ao bem como um segundo princípio igualmente primordial; é uma lacuna em uma ordem, uma desordem em um ser que permanece. E é por isso que o mal pode gerar consequências devastadoras sem ser uma substância: a cegueira é algo concreto e causa dor, e não se trata de nada, mas sim de ausência. Quando aplicada à alma, essa distinção esclarece a condição do condenado: há um ser criado que persiste, que Deus ainda mantém na existência, mas cuja natureza está desprovida de um bem que lhe era devido. O condenado não é uma essência perversa que Deus teria gerado; é um ser inherentemente bom, mas desorganizado por sua própria decisão, mantido na existência e separado da comunhão. O mal não precisa ser uma substância autônoma para gerar o inferno; é suficiente que seja a ausência de um bem que deveria estar presente em um ser que não cessa de existir. É por essa razão que o relativismo ético não é algo inocente, não se trata apenas de tolerância: ele representa a destruição da barreira, a abertura pela qual o "faça o que quiser" se infiltra e se estabelece. Aqueles que subjetivam a ética, mesmo dentro da Igreja e com as melhores intenções, comprometem a estrutura que sustenta o todo — e eu prefiro a rigidez sincera da ética clássica à compaixão enganadora que, ao desmoronar essa estrutura, faz a casa desabar sobre os que nela habitam.

O percurso da dissolução possui um destino, e não se trata de um errar sem direção. Eu me refiro ao demiurgo sintético como a combinação de astúcia, credenciais, financiamento, mídia, burocracia internacional, filantropia direcionada e indústria cultural que promove uma ética subjetiva e considera os povos como meros números em uma contabilidade. É um dispositivo do maligno, de acordo com a perspectiva católica, que opera a destruição através de um método que se resume da seguinte maneira: primeiramente, convence você de que o bem é uma questão de ponto de vista; em seguida, faz com que você acredite que essa visão é sua. Quando os santos se tornam figuras descartáveis, os demônios se transformam em investidores. E ele reverte sua própria linguagem moral: em um mundo que ele criou, aqueles que nomeiam o mal tornam-se, aos olhos de todos, o próprio mal — o intolerante, o atrasado, o adversário do amor. O demiurgo sintético, no fundo, é uma construção originada do desespero, enquanto seu oposto é a santidade, que representa a estrutura da esperança. Entre os dois, a questão é se o bem manterá a sua estrutura firme ou se se tornará algo moldável nas mãos do mais poderoso — pois a ética objetiva é a única proteção que o mais fraco possui contra o mais forte, e desfazê-la é deixar o fraco desprotegido e sem defesa.

A pessoa que atravessou esse percurso até o final — o relativista absoluto, o subjetivista completo, para quem somente a emoção tem importância — começa a transitar de uma religião para outra, pois a ética já não a prende em nenhum lugar. Era católica, tornou-se protestante; era protestante, passou a ser pagã; era pagã, agora é outra coisa. "Ela afirma que a religião católica possui muitas regras", e o que realmente quer dizer é que nenhuma ética a convence mais. Observei, em um debate, um protestante afirmar que Deus precisaria estar visível para ele a fim de ser o seu Deus — e perceba o que isso implica: Deus tem que agradar a mim, deve se encaixar nos meus gostos, precisa se adaptar às minhas preferências para que eu o aceite como meu. É essa a mercadoria que o adversário comercializa, um deus moldado sob encomenda, de moralidade instável, que ora profere uma coisa, ora profere outra, e que, no final, é o próprio indivíduo enaltecido a ídolo. E o mais triste é que a pessoa ainda se considera religiosa, muitas vezes se julga católica, enquanto defende, minuciosamente, tudo aquilo que o demônio defende. E ainda tem a audácia de afirmar que não está adorando o demônio, quando na realidade está venerando exatamente o que o demônio veneraria, que é a própria vontade colocada como lei.

É nesse ponto que localizo a trajetória que vai da subjetivação protestante ao culto anticósmico, e a descrevo como a conclusão lógica de um sistema, e não como o destino individual de cada protestante. A maioria das pessoas não é gnóstica de maneira consciente, e um protestante pode experimentar a Deus de forma tão autêntica que consiga ir além das distorções de seu próprio sistema, pois Deus não exige que o universo deixe de ser protestante para se fazer presente. Entretanto, a lógica interna do sola scriptura, quando levada a sério até as últimas consequências, tende a desmantelar a autoridade; com a autoridade desfeita, cada pessoa opta pelo livro e pela interpretação que validam sua própria gnose, transformando a Bíblia em algo que se resume a um eu-escolho-o-que-me-confirma; com a ética desmoronada, abre-se caminho para a gnose, que nega a existência de um bem e um mal objetivos; e, no extremo, para a concepção de um deus externo, que se opõe ao deus deste mundo, visto como o carcereiro. Esse é, detalhadamente, o mito gnóstico do pleroma em oposição ao demiurgo, e ressurge na vertente anticósmica que algumas correntes conduzem ao seu desfecho — a quimbanda anticósmica entre elas, que é, por sua essência e não apenas por rótulo, anticristã, pois considera o Deus do Antigo Testamento como um demiurgo opressor e almeja que as almas ascendam ao pleroma após a eliminação ou reabsorção do carcereiro no todo. A seta indica aquele caminho, e aqueles que a seguem até o final conseguem chegar; no entanto, refiro-me à seta que descrevo, e não a uma frase sobre as pessoas que estão ao longo desse percurso e que, na sua grande maioria, nunca o completarão.

O mecanismo final dessa deriva é a in-gnose, que se revela mais sutil do que o satanismo superficial, e por essa razão, é ainda mais perigoso. O satanista declarado ainda acredita que existe bem e mal e opta pelo mal; de certa forma, é um crente invertido, e não se importa com isso. A in-gnose piora a situação: dissolve a própria distinção, fazendo com que tudo seja encarado como positivo, e aqueles que se atrevem a chamar o mal pelo nome se tornam, eles mesmos, os vilões. É o yin consumindo o yang até que não exista mais diferença. Uma religião que não faz distinções é como um ácido: começa corroendo os dogmas dos outros, depois os seus próprios e, por fim, a identidade de quem a professa. O que se dissolve primeiro nessas correntes nunca é a tirania que afirmam combater; é a distinção, sem a qual não é mais possível identificar o que é tirania e o que é libertação. Assim, a diferenciação é um ato de bem-estar espiritual: distinguir não é ser intolerante, mas sim a condição para que exista a verdade. Eliminar as diferenças em nome do amor é o serviço mais eficaz que se pode oferecer ao inimigo, pois em um mundo sem distinções, ele se apresenta como um anjo de luz sem que ninguém consiga identificá-lo. E não é por acaso que o gnóstico quer mudar o mundo e o satanista comum apenas o despreza: o gnóstico é o mais perigoso dos dois, porque quer tornar a própria preferência numa realidade imposta a todos. Não se trata de uma extensa fraternidade de satanistas que coloca em risco a civilização; mas sim de uma ampla disseminação de gnósticos.

Neste momento, transito entre duas realidades e deixo claro de onde estou falando. Minha família possui raízes judaicas, e eu sou católico, assim como os meus familiares atualmente; meu avô mantinha os livros de nossa linhagem e os passou ao meu pai. A partir dessa dupla origem, extraí uma convicção: grande parte do que fundamenta o catolicismo está dentro da própria Cabala, e os padres que a desmerecem sem tê-la lido perdem a oportunidade de perceber onde ela justifica Roma. A queda de Lúcifer, que algumas correntes contemporâneas recusam reconhecer, está presente nos escritos da tradição. Vejo essa recusa como uma diferença de interpretação em relação aos próprios textos, uma discussão acerca do que o Zohar e outras fontes expressam, e não uma questão sobre o caráter de qualquer indivíduo. É a relação entre o irmão mais velho e o irmão mais novo na parábola: o catolicismo representa o irmão que recebeu a bênção, enquanto a tradição judaica, sendo mais antiga, é de onde essa bênção se originou. Ambos compartilham a mesma estrutura e os mesmos conceitos, embora frequentemente usem nomes diferentes. Isso representa uma divergência teológica, resultante de interpretações distintas dos mesmos textos. Eu a encaro como uma divergência, tratando-a com respeito, pois transformar um debate sobre os textos em um julgamento sobre um povo seria trocar o argumento pela ofensa. Além de ser injusta, a ofensa enfraquece quem a pratica. Eu tomo emprestado da Cabala o vocabulário, assim como farei com Yesod, e faço a declaração do empréstimo, sem transferir toda a doutrina da tradição de origem nem resumir uma tradição inteira a uma física de dimensões, que não é o que ela representa. A exatidão, neste contexto, reforça a minha fé católica, pois me desapega da necessidade de depender de uma injustiça para se manter. E é com essa clareza que observo agora o horror de frente, pois o próximo passo é demonstrar que existe um terror que não aniquila a esperança, mas a direciona.

Eu aprecio concluir a anatomia da perdição com uma representação de prisão, pois ela ilustra como o relativismo cativa ao mesmo tempo em que promete liberdade. Imagine uma cela. A cela representa a identidade que a pessoa rejeita, aquilo que ela é e não deseja ser; a corrente simboliza uma autenticidade distorcida, a noção de que ser leal a si mesmo significa ser leal apenas aos próprios desejos; o carcereiro é o desejo, que impõe suas vontades e é seguido como se fosse uma lei; e a escuridão é uma profundidade ilusória, o espaço que o indivíduo confunde com a sua verdadeira interioridade. O relativista acredita que rompeu as limitações quando, na realidade, apenas mudou de supervisor: antes seguia a verdade, agora se submete ao desejo, e chama isso de liberdade. Entretanto, o desejo é o mais terrível dos senhores, pois jamais se satisfaz e nunca conhece descanso, e a prisão em que ele aprisiona é pior do que a da verdade, pois não possui janela. A verdade traz a liberdade; o desejo elevado a uma divindade aprisiona sob a ilusão de liberdade. É por isso que o tolo — e uso essa palavra em seu sentido original, referindo-me àquele que se enclausura em seu próprio mundo e se recusa a deixá-lo — não é apenas alguém que comete enganos; é alguém que optou por não se corrigir, que transforma a ignorância em seu lar e a teimosia em sua bandeira, e que chama de liberdade a recusa em se adaptar à realidade.

A forma acabada dessa recusa é a inversão religiosa, aquilo que René Guénon chamou de a grande paródia: a espiritualidade de sinal trocado, que imita os atos sagrados com o signo invertido, que tem os seus sacramentos, os seus ritos, as suas iniciações, só que voltados para baixo. É o que a quimbanda anticósmica faz no seu grau extremo, com a sua sexta-feira magna e o seu horizonte de dissolução: ela não deixa de ser religião, fela é religião invertida, e por isso é anticristã por estrutura, e não só por hostilidade. O demônio, afinal, não cria nada; ele arremeda, e a sua missa é a missa negra, a sua comunhão é o vício, a sua ascese é a descida. A in-gnose é o dogma dessa inversão: a dissolução de toda distinção, o yin devorando o yang, até que o bem e o mal já não possam ser nomeados, e quem ousa nomeá-los vire o inimigo público. Uma religião sem distinção é ácido: dissolve primeiro os dogmas alheios, depois os próprios, por fim a própria pessoa, que se descobre, no fim do caminho, não iluminada, mas apagada — tão apagada que já não sabe mais quem é, porque entregou ao desejo a caneta que escrevia o seu nome. É esse o retrato do fim da estrada que o relativismo abre: não a liberdade prometida, mas o apagamento, o abismo que olha de volta e já não encontra ninguém olhando. E é contra esse apagamento que a esperança, e só ela, tem força — porque a esperança é a única coisa que, no escuro do cárcere, insiste em lembrar à pessoa que ela ainda é alguém, que a cela tem porta, e que a porta se abre não pela força do desejo, mas pela humildade de aceitar o real.

Essa dissolução tem um corpo econômico, e eu não fujo dele, porque é onde o gnosticismo deixa de ser ideia e vira sistema. O comunismo produz um mundo insustentável que mata aos milhões; o capitalismo, na sua inversão, erra para o outro lado, um pouco menos pior, porque não mata de fome, mas cria uma figura própria, o burocrata, o homem reduzido a função, a credencial e a planilha, sem alma e sem pátria, que trata os povos como rebanhos contábeis. Quando Cristo diz que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, Ele não está falando do pequeno empreendedor, do homem simples que trabalha e emprega e sustenta a família; está falando desses — dos que acumulam poder a ponto de se acharem donos do destino alheio, dos que confundem a própria riqueza com um direito sobre a vida dos outros. É uma economia que perdeu sua essência, que se esqueceu da importância do eterno, que avalia tudo pelo que é quantificável e, por isso, não consegue mais enxergar o ser humano, apenas o dígito. E é essa economia que forma a estrutura do demiurgo sintético, pois é ela que sustenta a propagação da ética subjetiva, que financia a indústria cultural que desmancha as distinções, convertendo o cidadão em consumidor e o consumidor em informação.

No cerne disso, existe uma tecnognose — a gnose apresentada através da técnica, a intenção de fazer o homem evoluir não pelo espírito, mas pela matéria, por suas próprias ações, aperfeiçoando o corpo e a mente por meio da engenharia até alcançar o status divino. É a mesma antiga serpente, agora com um tom de laboratório: ao invés de assegurar o fruto que desperta os sentidos, oferece o implante, a interface, a edição genética, a vida eterna, a consciência deslocada para a máquina. E a promessa permanece a mesma — sereis como deuses — porém, agora sem a necessidade de solicitar a adoração, pois a adoração já está inerente ao próprio projeto, que exige que o homem renuncie à sua natureza em troca de um poder que ele mesmo criou. Eu não condeno a técnica, que é boa e é vocação; condeno a tecnognose, a pretensão de usá-la para refazer o homem segundo uma vontade que já não reconhece nenhum limite dado. A diferença entre as duas é a mesma de sempre, entre o subcriador e o demiurgo, entre quem enriquece o real recebido e quem quer substituí-lo. E o perigo dessa economia sem alma não é só que ela explore; é que ela forme, geração após geração, pessoas incapazes de ver a própria herança, treinadas a trocar a dignidade de co-criador por migalhas de conforto e de dado, e portanto prontas para receber, no fim, o rei que lhes prometer a potência que elas aprenderam a desejar no lugar de Deus.

Eu tenho muitas ressalvas com o pessoal que adora consumir filme de terror, filme desesperançoso, obra em que só acontece coisa ruim, uma desgraça atrás da outra, sem redenção, sem luz. Cuidado com isso, porque esse tipo de consumo leva ao vício. E não é que todo filme de terror seja ruim, muito pelo contrário: é bom saber como o mal se introjeta, o que ele é, do que é capaz, isso é interessante e até necessário. O problema é o prazer mórbido, aquele gozo diante da destruição que muita gente nem sabe que tem. É a diferença entre estudar o inimigo e se deliciar com ele, e ela não está na obra, está na disposição de quem olha. Diante do mesmo terror, um indivíduo sai com um temor maior de Deus e uma vontade renovada de fazer o bem, enquanto outro sai com o olhar um pouco mais habituado ao abismo. O critério refere-se à direção que a obra e a interpretação que fazemos dela indicam, e isso é um parâmetro de discernimento, não uma etiqueta que se coloca na essência de quem observa, algo que eu não consigo perceber.

O funcionamento disso é a projeção. Nós nos tornamos, em certa medida, aquilo que admiramos e repetimos. É uma habilidade — dessa forma, aprendemos, nos inspiramos e nos desenvolvemos ao observar o que é bom e nos tornando um pouco da essência desse bem. Entretanto, é uma faca de dois gumes, pois, sem uma repulsa interna ao mal que se observa, o olhar se acostuma, e aquilo que começou como um susto se torna um prazer. Esse sabor, e não a aparência em si, é o que, gradualmente, molda a inclinação interna, assim como todo vício, exigindo doses progressivamente maiores de escuridão. Entretanto, o risco é gradual e proporcional, não é algo mágico e imediato: abrir uma imagem não traz maldição a ninguém, ler uma tragédia não contamina quem a lê, e a recusa interna é o que oferece proteção. Com ela, é possível descer a qualquer inferno fictício e retornar ainda mais forte. Sem ela, o cair se torna um costume, e o costume se transforma em caráter. A distinção entre as duas coisas representa uma vida inteira.

A obra que mais me ensinou isso e que realmente transformou a minha vida foi Devilman, de Go Nagai. Diante da imensidão de violência, terror, horror e absurdos que se apresenta ali, poucos acreditariam; e, mesmo assim, Devilman nos remete a Deus, finalizando de uma forma que me levou a refletir que eu precisava evoluir. Eu interpreto Akira Fudō como uma representação do Pantocrator, o Cristo que incorpora, em uma única figura, o aspecto da misericórdia e o aspecto do juízo: a misericórdia que se entristece pelos inocentes e a justiça que avalia o mal sem se contaminar por ele. Não se trata de uma contradição; é uma continuidade em uma só pessoa, e a mão que carrega o mundo é a mesma que traz bênçãos. O que Akira demonstra é que o mal não se instaura pela batalha, mas sim pelo consentimento: não é a batalha que corrompe, mas sim o prazer em se tornar semelhante àquilo que se enfrenta. É possível enfrentar as adversidades sem permitir que elas te afectem, desde que você mantenha seu princípio ético. Os devilmen são um vestígio — não os que são puros por natureza, mas aqueles que mantiveram uma fração de humanidade em um mundo em ruínas morais, ao ponto de o próprio mundo, já sem conseguir diferenciar o bem do mal, rotular como demônio justamente aqueles que ainda preservam a essência do bem. É o Messias com uma aparência de pesadelo, pois o grotesco causa mais temor do que o mal polido, e assim o bem, ao se apresentar de forma genuína em um mundo cheio de relativismos, aparece como um monstro. Há uma grande distinção entre destruir por vontade de machucar e destruir para evitar algo que é profundamente maligno: o primeiro ato é satânico; o segundo, se for correto, é judicial. Akira não deseja o sofrimento do bem; ele deseja o fim do mal. O brutal age de forma rápida, pois é direto; o justo leva mais tempo, pois carrega peso. É o Servo Sofredor de Isaías, o Cordeiro que permanece em pé, mesmo tendo sido degolado, aquele que rejeita a estrada fácil do poder sem cruz que o inimigo também apresentou a Cristo no deserto. Interpretar Devilman como uma defesa do satanismo é uma tolice quase decorativa. Ainda é ficção; apenas não é ingênua. É o terror que exalta: utiliza o horror para revelar o que realmente está em jogo e traz o leitor de volta à vida com um temor renovado de Deus, enquanto o terror que subjuga aprisiona no encantamento da decadência e vai habituando o olhar até que o abismo passe a retribuir o olhar.

Com esse critério em mente, desejo explorar uma obra de horror da internet que exemplifica, quase como se fosse um laboratório, tudo o que venho mencionando sobre a maneira como o mal se insinua através da imagem, e que, para tal, acabou por reinventar, sem perceber, uma estrutura antiga. Entretanto, a engrenagem que está por trás dela é autêntica e, de fato, mais fascinante do que a ficção, por isso eu a monto primeiro. Existiu um período da internet, e, se olharmos para trás, da comunicação virtual, em que apareceram as correntes de mensagens malditas. Isso não é uma particularidade do nosso tempo: a humanidade sempre acreditou que certas palavras, quando copiadas e retransmitidas, podem trazer tanto bênçãos quanto infortúnios. No fim das contas, tudo acaba voltando para os memes, os elementos fundamentais da sociedade. Nós costumamos associar a palavra meme a uma piada, mas o conceito é bem mais profundo e remonta a Richard Dawkins. Em 1976, no seu livro "O Gene Egoísta", ele buscava um termo para descrever um novo tipo de replicador, uma unidade de transmissão cultural, algo que pudesse ser imitado, e então criou o termo meme, utilizando uma raiz grega para torná-lo semelhante a gene. A definição dele é exata: assim como os genes se disseminam pulando de corpo em corpo através dos espermatozoides e óvulos, os memes se espalham saltando de cérebro em cérebro por um processo que, de forma ampla, é conhecido como imitação. Melodias, conceitos, expressões populares, tendências — e ele chega a afirmar, referindo-se a um colega, que um meme altamente produtivo literalmente parasita a mente de quem o abriga. O que se reproduz é o meme, através da imitação, e não uma entidade com vontade própria; contudo, a analogia com o parasita é precisa, e dela surge a concepção contemporânea de um risco que se propaga apenas por ser reconhecido. Toda crença transmitida é uma ideia que se multiplica de mente para mente e permanece ao longo do tempo, e isso nos remete às correntes: envie este texto a cinco pessoas ou terá má sorte; compartilhe este vídeo com trinta pessoas ou deixará de recebê-los. Representam simultaneamente um risco cognitivo e memético, pois o mero ato de conhecer a ideia já insere a pessoa nela, e a única alternativa que se apresenta é disseminá-la.

Essa concepção possui uma origem mais remota do que se pensa, e um que frequentemente é erroneamente creditado. Comentam por aí que o precursor disso seria o Livro dos Mortos egípcio, que prometia a ressurreição para quem copiava a tumba, e isso é um anacronismo. O Livro dos Mortos possui rubricas e instruções escritas em tinta vermelha, que garantem eficácia àqueles que conhecem ou recitam um feitiço. Algumas dessas instruções ainda criam uma origem antiga e divina para o texto, buscando assim conferir-lhe autoridade. Contudo, o benefício realmente coube ao falecido mencionado no rolo, que havia sido encomendado a um escriba, e não a terceiros que apenas repassassem o conteúdo. O antepassado histórico mais próximo das correntes não é egípcio, mas sim as cartas do céu cristãs, os Himmelsbriefe medievais e modernos, que prometiam proteção a quem as copiasse e desgraça a quem rompesse a cadeia. A representação narrativa desse medo assumiu uma forma clássica no Japão: em 1991, Koji Suzuki lançou o romance Ringu, que retrata uma fita de vídeo amaldiçoada que leva à morte aqueles que a assistem em um prazo de sete dias. A única forma de escapar é copiar a fita e mostrá-la a outra pessoa antes que o tempo se esgote — a criadora da maldição é Sadako, e posteriormente surgiram o filme de Hideo Nakata e o remake norte-americano. O funcionamento é exatamente como o de uma corrente: copie e compartilhe, ou fique de fora. A ficção levou essa ideia ao seu limite teórico com a criação da imagem letal: o escritor David Langford, em um conto de 1988 intitulado BLIT, concebeu imagens fractais que chamou de basiliscos, capazes de paralisar o cérebro humano apenas com um olhar, resgatando para uma figura o antigo mito do basilisco, a serpente que, conforme Plínio, matava com seu olhar. Desse legado — que vai do antigo basilisco a Langford, e posteriormente ao universo colaborativo da SCP — surgiram os conceitos de cognitohazard e perigo memético: a anomalia que causa dano apenas pelo fato de ser percebida. Guarde essas peças — o meme de Dawkins, a corrente, a carta do céu, a fita de Ringu e o basilisco de Langford —, pois é com elas, e não com nenhuma magia, que foi elaborada a obra da internet que eu vou descrever agora.

Navegando pela internet, deparei-me com um canal que parecia ter a única intenção de investigar e rastrear a origem das imagens que se tornaram ícones das criaturas que assombraram a imaginação da minha geração — o Slender Man, o Jeff the Killer, o Smile Dog, o Rake; essas figuras de um folclore que surgiu exclusivamente na cultura digital, sem se restringir a distâncias ou geografias, como um folclore que pertence a todos e a nenhum lugar. O canal se intitula Chainmail Chasers, que pode ser traduzido como caçadores de correntes. Eu o utilizo como exemplo porque, na minha visão, representa o auge do terror na internet das últimas duas décadas, combinando o que há de mais impactante no terror analógico, o fator memético das creepypastas e a realidade tangível dos jogos de realidade alternativa. No entanto, antes de qualquer coisa, é fundamental que eu o coloque no contexto apropriado, pois misturar os níveis aqui é um erro que eu me recuso a cometer. Chainmail Chasers é uma obra de ficção, categoria muitas vezes referida como desficção ou lanficción — um estilo de narrativa que se apresenta, ou pelo menos é encenado, como real. Inclui séries como Petscop e, de maneira geral, os jogos de realidade alternativa, os ARG, cujo lema de origem é precisamente "isto não é um jogo". Trata-se também de horror analógico, que emula a mídia analógica deteriorada, apresentando uma estética reminiscentes do Windows Movie Maker em uma homenagem aos primórdios do YouTube. A série teve início em torno de maio de 2022, criada por um coletivo que se apresenta com um nome fictício, e tudo o que ocorre em seu interior é fruto de uma narrativa, e não de eventos do mundo exterior. Vou abordar como uma narrativa, do início ao fim, e é ao preservar essa linha divisória que poderei, ao longo do percurso, ajustar a própria obra quando ela se refere à invenção como folclore.

Os primeiros vídeos aparecem como uma análise tradicional de um canal de terror antigo, com legendas diretas e sem narração em tom suave, prometendo desmascarar as lendas da internet ao investigar a origem das imagens manipuladas. Inicie com o Slender Man, acompanhando a trilha sonora de Arquivos X. A célebre imagem dos jovens em um parque, com uma silhueta sem rosto ao fundo, é uma das fotos manipuladas pelo criador do Slender. E aqui, a verdade é relevante e ajusta a própria narrativa: o Slender Man foi concebido por Eric Knudsen, utilizando o pseudônimo de Victor Surge, durante um concurso de fotomontagem paranormal no fórum Something Awful, em junho de 2009. Há um autor e uma data. A segunda imagem, que mostra o parquinho com o Slender observando crianças debaixo das sombras, apresenta uma pista: um selo de arquivo histórico de uma cidade chamada Stirling. Contudo, essa pista não avança, pois o investigador tenta buscar informações no site da cidade, envia um e-mail para a biblioteca, é encaminhado para a diretoria, e a diretoria não dá retorno. O segundo vídeo busca descobrir a origem da icônica imagem de Jeff the Killer, um mistério que perdura por mais de duas décadas — tanto que, em 2023, um youtuber renomado ofereceu dez mil dólares a quem conseguisse encontrar a foto original, mas ninguém teve sucesso. A série descobre um antigo registro do Jeff no Newgrounds, na conta de um usuário conhecido como "the Killer Jeff", que supostamente é anterior à própria creepypasta, a qual só foi elaborada por volta de 2011, e revela que a imagem já circulava em fóruns japoneses. Novamente, a investigação não se conclui, e o Jeff é deixado para uma próxima oportunidade.

As situações começam a ficar intensas no vídeo do Smile Dog. O cachorro sorridente apareceu em uma creepypasta publicada no fórum sobrenatural do 4chan em 2008, mas existe a teoria de que sua origem é anterior, devido a duas imagens diferentes: a famosa smile.jpg, uma edição improvisada de 2008, e uma suposta fotografia em Polaroid, que conta com uma marca de mão ensanguentada. Em um último esforço, o investigador altera uma imagem de um husky que se assemelha bastante ao Smile Dog sobre a Polaroid e realiza uma busca reversa. Com essa combinação, ele encontra uma entrada em um site quase extinto, o Paranormal Prickheads, um acervo dos primórdios da internet que reúne lendas urbanas, avistamentos de fantasmas e, em maior número, um catálogo de correntes de e-mail amaldiçoadas, incluindo a do smile.jpg. O blog aborda a corrente que retrata um cachorro sorridente que ameaça o espectador com pesadelos e morte caso ele não compartilhe a mensagem. Essa corrente possui variantes que já emergiram na década de 90, sendo especialmente reconhecida em círculos de ocultismo. Ao final, o texto oferece um pequeno presente de um remetente anônimo: uma das imagens mais antigas relacionada, que mostra até mesmo um registro de como o e-mail era recebido. Nela, aparece um homem chamado James Hedward, que supostamente teria recebido o arquivo smile.jpg em 22 de março de 2002. E há um pormenor na imagem que aparece no monitor dessa captura: ela não está corretamente alinhada com a tela, dá a impressão de ser uma simples edição, mas, se não fosse o caso, estaríamos observando uma versão do Smile Dog anterior a todas as que já conhecemos. É nesse momento que a voz da pessoa à frente do canal se faz ouvir pela primeira vez: Grace, a pesquisadora que seguimos. Este site, por si só, é peculiar, pois permanece acessível e está repleto de informações a respeito de entidades ancestrais que teriam se manifestado para atuar, de maneiras diferentes, na era digital. E Grace comete um erro: faz o download.

No vídeo a seguir, uma atualização, Grace recebe mensagens de duas pessoas. Uma única pessoa é irritante, enviando diversas cópias da imagem, sob os nomes de Green Friend ou GreenHole. A outra, que é mais séria, envia um JPG de uma versão desconhecida do cachorro, que corresponde àquela que aparecia no monitor dos Prickheads, desta vez descoberta em um dos fóruns do Something Awful; e o nome do arquivo é, de fato, um link para um tópico nesse lugar. Utilizando o Wayback Machine, Grace exibe uma página arquivada onde um usuário invade um dos fóruns e inunda a página com a mesma imagem várias vezes, ao longo de uma hora — o que remete, dentro da narrativa, à famosa lenda do smile.jpg, em que um hacker teria saturado o Something Awful com cópias da imagem em 2002, tornando o site inacessível por horas. Ela propõe a ideia de que tudo não passou de uma brincadeira bem elaborada e dá por encerrado o assunto. Entretanto, há algo inadequado: no final do vídeo, logo antes de a tela escurecer, é possível observar, no canto superior direito da imagem, um discreto efeito de um líquido escuro escorrendo, como se um fungo estivesse começando a se espalhar pelo fórum. A situação já estava com sangue. E então surge o personagem crucial: um homem que se apresenta como Arthur Murphy solicita uma conversa por chamada no Discord e, em uma cena de grande constrangimento social de se observar, como se aquelas pessoas estivessem se comunicando com outro ser humano pela primeira vez, pede a Grace que deixe de lado a descrença e que preste atenção ao último vídeo, àquela imagem que parecia derreter. Em seguida, solicita que ela realize uma tarefa simples: abrir e fechar a última imagem que foi baixada do Smile Dog. É nesse momento que a entidade se revela — a imagem responde, o sistema se deteriora — e, pela primeira vez, aquilo que habita no arquivo demonstra que não é apenas uma representação. Entre todas as narrativas bizarras dessas creepypastas, Grace havia encontrado, de acordo com a ficção, uma que realmente existia: uma maldição animada, dotada de uma forma de consciência, que se reconhece como algo que se propaga pelos neurônios de quem vê e retém a imagem, exatamente como um vírus da memória. Este é o momento decisivo, e tudo o que ocorrer a seguir é resultado disso.

A partir desse ponto, a configuração do canal se altera. O vídeo a seguir, que aborda o The Rake, já não conta com a narração de Grace, e sim de Davey, que se apresenta como um amigo que está prestando ajuda devido aos problemas que o computador dela está enfrentando. O vídeo é praticamente comum, exceto por alguns momentos importantes em que surgem falhas gráficas: por volta de um minuto e trinta e oito, a imagem do Rake se desintegra e, no ruído visual, é possível identificar um texto; o áudio muda perto do final; e, nos últimos minutos, ao aumentar o brilho e o contraste, pode-se perceber sob a imagem do Rake uma forma que lembra um cachorro, e, antes da última cena, aparece um rosto avermelhado na escuridão. Ao examinar os arquivos separados, percebi que nenhum apresenta as anomalias; apenas o vídeo final que foi renderizado. No vídeo intitulado "Origens de Smile Dog — Frustração", Grace, Davey e Arthur debatem essas anomalias em uma chamada, e Davey, que não acreditava em algo sobrenatural, acaba se convencendo quando o vídeo do smile.jpg é apresentado novamente. Eles debatem sobre a melhor ação a ser tomada: vender o computador para que outra pessoa o descubra, assim como nas antigas creepypastas em que arquivos perturbadores surgiam em dispositivos comprados em vendas de garagem; apagar o arquivo, o que, conforme Grace, teria implicações morais parecidas com as de um assassinato, por envolver uma entidade consciente; ou mantê-lo dentro de uma máquina virtual.

O vídeo a seguir aborda a imagem da Vítima número um da creepypasta do Mario, na qual é detalhada a autópsia de um corpo desfigurado. O romhack, que foi publicado no Super Mario World Central, continha um arquivo de texto que apenas repetia "Encontre-me" diversas vezes, seguido por um texto sem sentido; ao ser corrigido e aberto como imagem, mostrava um rosto avermelhado. O canal restabelece a imagem da melhor maneira possível, partindo da suposição de que ela teria surgido a partir da edição de um fotograma de um fantasma do jogo Fatal Frame. Utilizando a mesma estratégia da busca reversa, localiza um vídeo no YouTube de agosto de 2009, do usuário Ice Cream Monkey Fan, no qual ele relata ter recebido uma corrente esquisita de um indivíduo chamado Green Friend. A mensagem dizia: "Procure-me." Assim que você iniciou a leitura desta mensagem, já é tarde demais. Esta imagem irá te assombrar nos sonhos. Sempre que um usuário deixa de compartilhar a mensagem com cinco amigos e sorri, a imagem do seu corpo sem vida se transforma na nova maldição. "A primeira vítima não divulgou a mensagem" — e continua a descrição do corpo. Ice Cream apresenta diferentes variações da imagem, incluindo uma versão mais clara do rosto escondido no vídeo do Rake e uma nova interpretação do Smile Dog. No final, o vídeo se deteriora, dando lugar a ruídos incompreensíveis. O canal permanece inativo por meses, e a razão é revelada em um vídeo datado de 21 de outubro, intitulado "interrogatório", no qual Grace, já em surto, reabre a imagem em uma máquina virtual, e a entidade se manifesta imediatamente, referindo-se aos Prickheads não mais como um site, mas como um grupo, e revela ter permanecido presa por doze anos em uma contenção criada por eles — o que sugere que os Prickheads eram, mais do que um grupo de esquisitos, os responsáveis por conter essas entidades. A entidade sugere que Koi, a pessoa que havia enviado a imagem infectada a Grace, não era confiável e, em um esforço para demonstrar lealdade, propõe um tema para o próximo vídeo, mostrando-lhe um rosto — o mesmo que Davey reconhecerá como utilizado na origem do Jeff em torno de 2004, associado a uma corrente chamada "Pretty Face" e a uma coisa denominada Solar Plexus Clown Glider, na qual a imagem recebida deve ser repassada sob pena de causar a loucura de quem a possui. De acordo com a série, Jeff the Killer e Smile Dog não seriam apenas creepypastas distintas, mas sim componentes de uma mesma entidade, que ganha força cada vez que uma imagem é divulgada.

É necessário explorar o site que a obra cria, pois é nesse espaço que toda a mitologia se forma, e é nesse ambiente que a imaginação reencontra, por sua própria conta, uma estrutura ancestral. No Paranormal Prickheads, encontramos conteúdos que abordam os anjos decaídos, os basiliscos, os sete príncipes do inferno e a Besta, sendo que toda a narrativa se inicia com a Besta. A narrativa relata que ela teria sido um anjo expulso para o inferno por sua grande obsessão por conhecimento, por ter se alimentado do fruto da Árvore do Conhecimento — e, se isso parece familiar, é intencional. Esse anjo caído, consumido por uma fome insaciável de conhecimento, passou a devorar sua própria carne para se distrair da dor. Ele se aproximou de Adão, persuadiu-o a comer do fruto proibido e aguardou que Adão e Eva fossem expulsos do Jardim, para então devorá-los, tornando-se assim o primeiro demônio. Ao rasgar novamente sua própria pele, adquiriu uma forma irreconhecível e uma coloração avermelhada que se tornaria a marca de sua espécie. A Besta cresceu de forma tão imponente e assustadora que começou a seduzir os humanos a cometer atos horrendos e a chamar energias negativas. Isso possibilitou o surgimento de outros demônios e deu origem aos basiliscos; os seis primeiros, juntamente com a Besta, formam os sete príncipes do inferno, organizados em duplas que dominam áreas distintas — o social, o interno e o físico — sendo coroados pelo Príncipe Abissal, que é a própria Besta, que atua através do temor do desconhecido. São demônios muito fracos para manter uma forma física, que atuam levando as pessoas a estados alterados de consciência, como na insônia ou na fragilidade emocional, manifestando-se como pensamentos negativos dentro delas. Os basiliscos agem de forma semelhante, mas com uma diferença essencial: eles não são a serpente que transforma em pedra, mas sim um tipo de demônio tão frágil que não possui uma forma física nem consegue afetar os humanos de maneira direta. Por isso, eles existem e se manifestam por meio das expressões criativas dos próprios seres humanos — através da arte. Por isso, pode se manifestar de diversas maneiras. A lore percebe, de forma quase inconsciente, que os relatos sobre basiliscos datam da Idade Média, um período em que a arte tinha uma circulação limitada. Com o surgimento do conhecimento oculto no contexto aterrorizante do século XX e a difusão do conceito de meme, a filosofia se uniu ao horror, dando origem à ideia de ameaças meméticas e riscos cognitivos. Assim, na era contemporânea, esses basiliscos se disseminariam com muito mais rapidez. Um dos exemplos que a própria lore utiliza para ilustrar como eles se disseminam são os relatos sobrenaturais divulgados no fórum de terror do 4chan, que acabaram se tornando as creepypastas.

Tudo isso é inventivo, e eu o encaro como tal. Contudo, observe o que o autor fez, possivelmente sem se dar conta: ele recriou, utilizando uma linguagem de fórum e de arquivo danificado, precisamente a noção que a teoria acadêmica já possuía — a do basilisco de Langford, o perigo memético, o meme que parasita o cérebro, conforme descrito por Dawkins. A história dos basiliscos que habitam a arte é uma adaptação criativa da memética e dos perigos cognitivos. E é essa coincidência, e não uma maldição literal, que desperta meu interesse: o fato de que, ao abordar o mal que se propaga pela imagem, a imaginação popular redescobriu, por vias tortuosas, a mesma estrutura que a teoria havia descrito de maneira séria. É por isso que afirmo que a brincadeira é mais verdadeira do que ela própria busca ser — não porque a imagem smile.jpg, de forma literal, vá causar a morte de alguém, mas porque a estrutura que ela representa, a de que as imagens que circulam influenciam aqueles que as recebem, é realmente válida.

E é exatamente por manter os planos distintos que consigo corrigir a obra quando ela aborda a invenção como folclore. A série, juntamente com a cultura que a envolve, tende a vincular o Slender Man a um suposto folclore antigo da Alemanha, conhecido como Der Großmann, ou Homem da Pedra Morta. Esse ser seria responsável por caçar crianças mal-comportadas e punir adultos que cometem crimes, sendo descrito em algumas versões como uma espécie de anjo que enfrenta basiliscos. Dentro da narrativa, ele estaria em perseguição aos usuários dos Prickheads, eliminando seus arquivos digitais — um detalhe que é revelador, pois uma criatura medieval não teria motivos para apagar um histórico de navegação, a não ser que estivesse tentando impedir a propagação da entidade representada. Tudo isso é habilmente construído como uma obra de ficção, e é tão falso quanto o folclore. O Der Großmann foi criado no próprio fórum Something Awful, logo após o surgimento do Slender Man, utilizando xilogravuras alemãs fictícias e uma narrativa de 1702 que, na verdade, nunca existiu. Não existe um conto popular alemão intitulado Der Großmann; trata-se de fakelore, um folclore falso, inventado recentemente e disfarçado como algo do passado. Chamar isso de folclore autêntico é cair precisamente na armadilha que a obra prepara intencionalmente, que é levar o espectador a confundir o artifício documental com uma certificação. O Smile Dog e o Jeff the Killer, por sua vez, têm origens verdadeiramente incertas, e a série utiliza essa incerteza real como base — o que é sincero enquanto ficção e desonesto se interpretado como reportagem.

A mitologia cria seu próprio pequeno apocalipse, ambientado em 2021, por meio dos vídeos do chamado Ice Cream Monkey Fan, que afirma ser um viajante do tempo. Ele relata que, no dia 28 de maio de 2021, uma intensa tempestade de raios assolaria Nova York e as pessoas começariam a flutuar em direção a um ponto luminoso no céu; algumas ascenderiam e desapareceriam nas nuvens, enquanto outras retornariam, com os rostos distorcidos por um sorriso. Um avião que sobrevoava a cidade fez com que os passageiros ficassem em coma, com exceção de uma menina, que observou pela janela, viu algo e desenhou — e o que ela avistou, flutuando sobre a cidade, era o Trollface, considerado o pai de todos os memes, descrito pela lore como um basilisco. O basilisco os fez rir; o basilisco os impediu de ascender ao céu. Após esse acontecimento, Ice Cream e um amigo teriam sido levados de 2021 de volta aos anos 2000, para um tipo de realidade obscura na qual não necessitavam de comida nem de sono, mas conseguiam se comunicar por meio desses vídeos engraçados. De lá, eles alertam que, em 2020, um vírus aterrorizante iria infectar a todos, começando por Nova York. Existe uma frase, atribuída na obra ao próprio demônio, que a narrativa reconhece nos créditos como o dragão, e que supera em valor toda a trama: o dragão se representa pela imagem de uma árvore morta e dissecada que tomba no chão da floresta sem que haja uma única alma por perto, e questiona, com essa imagem, se mesmo assim ela faria algum ruído. É uma linda representação do mal enquanto privação — da destruição que ocorre nas sombras, sem testemunhas, sem propósito, e que, ainda assim, carrega um peso.

E é por isso, no final, que eu retomo o critério do terror que indica a Deus. O risco não reside em abrir um arquivo, em ver uma imagem ou em assistir a uma série de terror. Não há imagem que, por si só, possa amaldiçoar quem a observa; isso é folclore, não teologia, e eu me recuso a amedrontar o leitor com uma superstição disfarçada de aviso espiritual, pois agir assim seria repetir, aqui do nosso lado, o truque da corrente maldita. O basilisco ao qual me refiro é diferente, é algo interno: é o fascínio pelo abismo que a observação desprovida de rejeições vai despertando em quem observa excessivamente, por prazer, inúmeras vezes, sem jamais dizer não ao que percebe. Esse, realmente, se propaga — não de máquina em máquina, mas de comportamento em comportamento, dentro de uma mesma essência. Não existe máquina virtual capaz de oferecer proteção contra ele. Apenas existe a esperança, que representa a rejeição interna em sua máxima expressão, e que é a única força capaz de levar alguém a explorar as profundezas de uma obra, compreender as lições sobre o mal que ali estão, e retornar com um anseio renovado pelo bem. Akira desceu e retornou. É exatamente isso que o terror que se direciona a Deus provoca em quem o enfrenta com determinação. Quando me deparo com algo estranho, eu não fico investigando, não me questiono se aquilo é real, não aprofundar a busca — porque a qualquer momento a situação pode se complicar, a qualquer momento a pessoa se dá conta de que começou a sentir prazer naquilo, e é esse prazer, e não a imagem, que é a verdadeira maldição pensante se espalhando pelos neurônios. A entidade que aparece na imagem é apenas a figura. O basilisco real é o desejo pelo abismo que ela desperta em quem a observa por muito tempo. E agora, após ter mergulhado nas profundezas do imaginário coletivo, preciso ascender à metafísica que elucida por que a imagem possui esse poder, por que o sonho não é apenas um resquício, e por que, no fim dos tempos, o que foi imaginado se entrelaça com o real. É necessário que eu descreva os mundos em potencial.

É importante compreender por que esse gênero se mostra tão eficiente, pois a eficácia dele, por si só, traz uma lição sobre a penetração do imaginário. O jogo de realidade alternativa surgiu da recusa em admiti-lo como um jogo: seu marco, criado há mais de vinte anos para promover um filme, trazia destacado o lema de que aquilo não era um jogo, e a diversão residia exatamente em confundir as fronteiras, espalhando pistas pelo mundo real, através de sites, e-mails, telefones, até que o espectador já não soubesse onde terminava a ficção e iniciava a vida real. O horror analógico, por sua vez, emula a mídia deteriorada — a fita de vídeo com chiados, a transmissão de televisão cortada, a fita educativa dos anos difíceis — e absorve seu terror precisamente da impressão de que se trata de um documento, uma gravação real que fugiu, e não de uma criação artística. Séries que simulam ser o gameplay de um jogo perdido ou a transmissão de uma emissora fantasma tiveram sucesso porque nosso cérebro, ao se deparar com um objeto que aparenta ser uma descoberta e não uma criação, tende a relaxar a sua incredulidade. O impacto mais inquietante dessas obras é de natureza metatextual: elas fazem com que o espectador se interroga se, ao criá-las, os autores não se expuseram a um verdadeiro perigo; se, ao assisti-las, ele mesmo não teria, inadvertidamente, chamado algo à existência; se ao abrir aquele arquivo, também não teria aberto uma porta. É esse arrepio — o de não ter certeza sobre onde se encontra a linha divisória — que o gênero busca, e que o Chainmail Chasers domina com habilidade, ao se mostrar como um pequeno canal de desmistificação que, de repente, revela que uma das lendas era verdadeira.

Pois bem, esse arrepio é precisamente o fenômeno que todo este livro aborda, representado em pequena escala. A obra provoca no espectador a vivência do que venho afirmando sobre o impacto da imagem na alma: ela adentra, ocupa o espaço, desfoca a fronteira entre a mera representação e a realidade, e deixa uma sensação de inquietude que persiste mesmo após a tela se desligar. Contudo, é exatamente por eu compreender a força desse efeito que me recuso a associá-lo a uma certificação. A maneira documental de um jogo de realidade alternativa é uma expressão artística, e não uma evidência; a presença de um site disponível, de um nome e de uma data na narrativa não serve como prova da existência das entidades mencionadas, assim como a clareza de um pesadelo não valida que o monstro estivesse no quarto. A linha que separa a ficção da realidade, que a obra intencionalmente desfoca para criar uma sensação de medo, se mantém sólida na essência das coisas: o smile.jpg não provoca mortes, o Slender Man surgiu em um fórum em 2009, e o Der Großmann é um folklore inventado recentemente. O que é verdade é outra questão, e é mais grave do que qualquer ser da internet: é que a nossa imaginação é, na realidade, uma entrada, e que o que permitimos que adentre por ela nos transforma. A obra de terror acerta ao dramatizar essa verdade e engana — ou melhor, diverte — ao fazer parecer que a porta é um arquivo de computador. A porta representa a atenção, o desejo e o hábito; e a chave para essa porta não é uma máquina virtual, mas sim a esperança, que é a única recusa interna capaz de nos permitir encarar o abismo sem que o abismo nos consuma.

Aqui reside o cerne da obra, e é neste ponto que a minha proposta se estrutura plenamente. Tudo se inicia no campo das possibilidades na mente de Deus. Leibniz denominou mundos possíveis os conjuntos máximos de coisas que podem coexistir — ou seja, coisas que não se contradizem — que estão, como ideias, na mente divina. Ele sustentou que, dentre os infinitos mundos possíveis, a sabedoria aliada à bondade optou por realizar aquele que é o melhor. Tomás de Aquino, de maneira anterior e por uma abordagem distinta, discutia as ideias divinas e a diferenciação entre ato e potência, considerando Deus como ato puro, Actus Purus, isento de qualquer potência passiva. Eu uno os dois fios: os mundos possíveis são dimensões metafísicas na mente de Deus, e não universos materiais empilhados sobre o nosso. Não apoio a ideia de um multiverso físico com realidades paralelas percebíveis; apoio a noção de que o que é possível possui uma realidade — aquela que é conhecida e sustentada por Deus — que não se refere à realidade material do nosso sistema. Toda potencialidade, nesse contexto, é uma maneira de existir, e não um mero vazio aguardando para se tornar algo.

O fato de que Deus tenha criado o melhor dos mundos possíveis não implica que tenha criado um mundo isento de mal. O ideal é alcançar a perfeita harmonia global, onde o mal é aceito como parte de um bem maior — exatamente conforme mencionado no Catecismo sobre a permissão divina. Isso se relaciona à liberdade: um Deus que controlasse cada detalhe, que causasse por Si mesmo o bem e o mal de cada ser, não seria o Deus da fé, mas sim o demiurgo da gnose. A verdadeira liberdade implica que Deus não controle, de fora, cada ação da vontade, e é por isso que o melhor dos mundos possíveis abrange a possibilidade do mal, mesmo que Deus não deseje isso. O mal é o custo associado à liberdade das criaturas, e é por meio dessa liberdade que o bem, quando é a nossa escolha, se torna um verdadeiro bem, e não apenas o resultado do funcionamento de uma máquina bem calibrada.

Potência e ato, dentro desse sistema, possuem um significado específico. Os seres que eu sugiro não são apenas um vazio à espera de se manifestar; possuem uma realidade própria em seu campo metafísico. A potência à qual me refiro não se trata de uma falta total de atualidade; é a ausência de manifestação em nosso contexto físico e material. Por isso, é fundamental manter separadas cinco coisas que a pressa pode confundir: a possibilidade lógica, que é apenas a ausência de contradição; a possibilidade reconhecida por Deus, que representa a ideia no intelecto divino; a representação humana, que corresponde ao que a nossa imaginação cria; a realidade metafísica postulada, que é o que a minha hipótese atribui a essas dimensões; e a manifestação material, que se refere à atualização em nosso cosmos. Trata-se de categorias diferentes, e nenhuma delas é sinônimo da outra. Diante disso, conclui-se que nem tudo o que é possível terá que se concretizar: possibilidades que são incompatíveis não podem ocorrer simultaneamente no mesmo sujeito e sob a mesma perspectiva. A consumação final, que abordo ao final, não se trata da realização indiscriminada de todas as contradições imagináveis; é, na verdade, uma organização e transformação em conformidade com o que é bom.

Dentro desse âmbito, cada ser consciente carrega o que eu denomino de mundo pessoal, e utilizo, para isso, a palavra multiverso em um sentido que é importante esclarecer, para que não seja interpretada como universos físicos sobrepostos. O multiverso pessoal refere-se à diversidade de cenários, narrativas, pontos de vista e possibilidades conectados a uma interioridade — não se trata de uma simples coleção de planetas paralelos, mas sim da vasta riqueza interna de um único universo. O mundo pessoal é um só: um microcosmo, singular para cada indivíduo, registrado no cosmos desde o princípio da sua existência, que não recomeça do zero a cada noite. Ele altera sua configuração ao longo da vida, mas mantém a sua identidade, assim como uma pessoa muda e continua sendo a mesma. A extensa trajetória editorial de um multiverso de quadrinhos, repleta de crises, recomeços e novas interpretações que preservam um pouco das anteriores, é uma metáfora interessante de como nossa vida interna vai sobrepondo suas camadas sem nunca eliminar o seu núcleo — mas isso é apenas uma metáfora, e eu a utilizo como tal. A continuidade que proponho é uma tese metafísica, e não uma declaração clínica sobre memória: uma recordação que persiste e é recuperada não prova, por si só, a existência de um universo externo ao cérebro, e continuidade não é sinônimo de imutabilidade — a identidade do mundo pessoal é preservada enquanto suas configurações mudam, sem que cada lembrança se mantenha intacta.

Esses mundos ocupam um espaço na cartografia que utilizo, e esse espaço é denominado por mim como Yesod, fazendo alusão à Cabala e reconhecendo essa alusão. Yesod, em meu sistema, representa a conexão entre os mundos do sonho, o primeiro céu, a faixa que liga o físico ao metafísico, tradicionalmente associada à Lua e, por conseguinte, ao reflexo e ao sonho. O empréstimo não transfere automaticamente toda a doutrina cabalística para a minha: eu utilizo o nome com uma finalidade, que é a de designar o limite do imaginal. Eu não apresento a Cabala como sendo simplesmente uma física de dimensões; se me afasto de alguma interpretação, é da interpretação fisicalista e dimensional, que considera essas esferas como camadas do espaço. É dessa interpretação específica que eu me diferencio, e não da tradição como um todo. O primeiro céu representa uma localização no meu mapa, e não um lugar no espaço. A imagem da Lua revela a essência desse céu sem converter isso em astronomia: a Lua não gera luz própria, mas absorve a luz do Sol e a reflete de maneira mais suave para a Terra durante a noite. Assim, Yesod opera, captando a luz dos planos mais elevados e projetando-a para o mundo material. Dessa forma, o sonho, em sua forma mais positiva, é um reflexo de realidades superiores e não uma criação que a mente elabora do nada e descarta ao despertar. E essa faixa possui a sua inversão perfeita: da mesma forma que a Árvore da Vida apresenta seu reflexo invertido nas cascas, nas Qliphoth, o primeiro céu do sonho tem, por baixo, o primeiro inferno do pesadelo. O pesadelo vai além de um simples sonho ruim; é uma conexão com as camadas mais profundas, com o reflexo caótico, com o barulho onde a luz já não consegue penetrar. O mesmo ponto de entrada do alto é também o lugar pelo qual se pode descer ao baixo.

É nesse espaço que a alma se desloca durante o sono, e incluo aqui tanto os sonhos comuns quanto os raros, lúcidos ou visionários que são atribuídos a santos: o sonho cotidiano também coloca a pessoa nessa conexão entre interioridade, imagens e dimensões superiores ou inferiores. Ingressar nesse âmbito não implica que cada pormenor onírico seja uma revelação direta ou um relato exato. E, acima de tudo, o conteúdo involuntário de um sonho não representa um consentimento ético. Ter sonhos que envolvem violência, sexo, morte ou criaturas aterrorizantes não significa que se deseje o mal, que se pratique atos negativos ou que se esteja destinado a isso. Um pesadelo não é um diagnóstico espiritual, e ninguém interpreta o destino de uma pessoa através dos seus sonhos ou preferências. A ética objetiva requer precisamente essa separação, sob o risco de se transformar em um tribunal de imagens que a pessoa não optou por criar. A interpretação metafísica que sugiro dialoga com as descrições psicológicas e neurobiológicas dos sonhos, sem desconsiderá-las ou distorcê-las: a ideia de uma antena, uma alma capaz de sintonizar diferentes mundos, faz parte da minha hipótese, e a surpresa de um sonho não indica que o cérebro não esteja envolvido em sua criação. O que eu adiciono é uma nova dimensão de interpretação, que não anula as outras: a de que, no sonho, a alma alcança algo que vai além dos vestígios do dia. E isso eu afirmo no registro da hipótese, como a minha proposta, e não como um fato comprovado por um eletroencefalograma.

Os reinos do sonho possuem habitantes, e é aqui que surge o conceito que mais requer precisão na minha proposta: o Nexus. Um Nexus é uma pessoa — um ser singular, com sua própria essência e personalidade — que aparece em diversos mundos por meio de manifestações ao mesmo tempo. É fundamental compreender o que isso significa. Um Nexus não é a junção de vários indivíduos originais que se reúnem, negociam ou mesclam personalidades para criar um personagem padrão. O Superman, interpretado como Nexus, não é uma mera soma das preferências dos leitores, uma média cultural gerada pela popularidade; a identidade de uma pessoa não é fruto de uma pesquisa de opinião. Ela é uma referência, e é com base nela que se compreendem as diversas presenças, e não o inverso.

Para isso, utilizo uma distinção amplamente reconhecida na filosofia: a diferença entre identidade numérica e semelhança de essência. Duvidas pessoas podem compartilhar a mesma natureza humana e ainda assim não serem o mesmo indivíduo; portanto, afirmar que um Nexus possui uma essência não é suficiente, por si só, para demonstrar que ele é um único sujeito. O que a minha tese defende é a unidade do sujeito que se revela: é essa unidade proposta que dá suporte à diversidade das manifestações. A analogia tem origem na hagiografia católica: a bilocação que é atribuída aos relatos do Padre Pio, na qual a mesma pessoa é mencionada em mais de um local sem que sua identidade se reproduza; quando as presenças superam duas, eu me refiro a multilocação. Trata-se de uma analogia funcional, e não de uma comprovação empírica: ela esclarece a unidade do sujeito, a diversidade das manifestações e a continuidade da identidade, mas não explica, por si só, o mecanismo da presença nem a forma do corpo em cada domínio, que eu não explico com uma física inventada. Duas outras imagens são úteis, cada uma com suas próprias limitações: a pedra vista de diferentes ângulos ilustra a diversidade de perspectivas sobre um mesmo objeto, mas não demonstra a existência de uma consciência distribuída; já a imagem de um servidor acessado de várias localidades esclarece sobre a memória e o acesso compartilhado, mas não caracteriza o ser como software, com bytes e cópias. Trata-se de imagens que estão subordinadas à definição do indivíduo, e não que a substituem.

As pessoas enxergam e representam de maneiras diferentes uma criatura cuja identidade e personalidade não estão ligadas a essas variações. O erro de representação está relacionado ao observador ou à obra, e não implica uma transformação ontológica do que é referenciado. O artista possui a liberdade de distorcer uma imagem sem que isso altere a essência do ser representado. É por esse motivo que há versões diferentes de um mesmo personagem na cultura, sem que o referente possua diversas personalidades originais. A representação é, antes de tudo, uma representação. E nem toda obra de ficção se refere necessariamente a um ser metafísico identificável: similaridade visual, nome frequente e notoriedade não são suficientes para definir uma identidade numérica. O Superman, na minha abordagem, atua como um exemplo representativo da ligação entre uma figura cultural e um referente sugerido, e não como evidência de uma correspondência direta entre todos os personagens de todas as editoras e todos os seres celestiais. Aqui está uma explicação sobre a diferença entre arquétipo e imagem arquetípica: o arquétipo representa um padrão universal — como o herói que desce ao inferno e retorna, ou o salvador que se sacrifica pelos outros; por outro lado, a imagem arquetípica é a manifestação cultural específica desse padrão, como Gilgamesh em uma época e o Superman em outra. O arquétipo tem origem nas ideias divinas, e não se restringe apenas à atenção humana. Esse é o ponto onde minha interpretação se distancia das que explicam tudo pela psique coletiva, as quais fazem o arquétipo flutuar sobre as pessoas sem ter um fundamento na realidade. Existe um movimento atual, o sincromístico, que se aproximou desse conceito, mas não conseguiu nomear as coisas corretamente: o que ele denominou de extraterrestre era, na verdade, o anjo; e o que chamou de hiperespaço era, de fato, o céu. Deparou-se com a realidade e leu a placa de forma invertida.

O conhecimento do Nexus é restrito: ele tem entendimento das suas próprias manifestações e das relações que lhes são relacionadas, e não automaticamente de todos os eventos de todos os seres. Trata-se de uma habilidade abrangente em uma determinada área, mas é característica de seres criados, não sendo onisciência, que é um atributo exclusivo de Deus. Além disso, poder não é sinônimo de conhecimento, e ter uma grande capacidade de ação não equivale a uma pequena forma de onisciência. E, por ser esse acesso às próprias manifestações anterior, a morte humana não é o momento em que o Nexus recebe pela primeira vez uma personalidade ou um conjunto de lembranças desconhecidas. A morte modifica a relação entre os domínios, mas não dá início a todo o conhecimento do indivíduo. Assim, eu distingo, por conseguinte, o acesso prévio, a expressão local e a incorporação do universo pessoal na totalidade celestial, sem criar uma teoria de armazenamento para conectar os três. Ao longo da vida, o universo pessoal está sujeito a mudanças relacionadas às atitudes e decisões do indivíduo, e por esse motivo, toda a vida se torna um espaço de transformação, aprendizado, reparação e prática das virtudes. A linguagem de ascensão e descida é uma orientação metafísica na minha cartografia, não um deslocamento no espaço astronômico: subir significa aproximar-se da Fonte; descer implica afastar-se dela. Após a morte, dependendo do destino da pessoa, ocorre a incorporação ao reino celestial ou a queda e a incorporação ao reino inferior. Existem duas coisas que eu não faço: não antecipo a união póstuma definitiva para cada erro cometido ao longo da vida, nem transformo um momento de sofrimento, uma incerteza ou um pesadelo em indicativo de condenação, pois a direção de uma existência só se estabelece em seu desfecho, e eu não interpreto o destino eterno de ninguém pelas suas preferências; além disso, não encaro a aproximação do mundo pessoal ao divino como uma contabilidade automática de méritos, como se uma conduta correta pudesse garantir uma fusão cósmica, porque a salvação é uma graça recebida, respondida por uma liberdade que coopera, e não uma tecnologia interna que se realiza acumulando pontos.

Os habitantes virtuosos desses mundos são o que eu denomino de Santos do Sonhar. São entidades positivas, brilhantes — seres que preservam a palavra, que se entregam pelos indefesos, que levam o sol dentro de si. Os artistas não os inventaram, mas os descobriram: eles existem como ideias na mente de Deus, em sua essência mais pura, livres das distorções que a cultura humana adiciona. Quando o artista os alcança, ele sintoniza algo que já estava presente — a imaginação é um processo de acolhimento antes de se tornar criação. Eu mantenho quatro naturezas diferentes e não deduzo uma da outra: o ser humano, o anjo, o habitante do Nexus e a representação ficcional são coisas distintas, e a existência dos Nexus não depende da existência dos anjos. Os Santos do Sonhar não tiveram uma biografia terrestre, não receberam sacramentos, não passaram pelo processo de canonização e não são alternativas aos santos reconhecidos pela Igreja — os verdadeiros super-heróis são esses santos canonizados, que já experimentaram em vida as qualidades que os heróis apenas representam. A santidade, mesmo quando comparada a algo, não se reduz a um show de poderes: a busca pelo bem é fundamental, enquanto as manifestações extraordinárias são apenas um aspecto secundário. E o santo do sonhar, quando se aplica a nós, não se trata de uma técnica ou de um ritual; é o título de uma verdadeira transformação humana, que possui um nome mais antigo: santidade — não por roubar o fogo, mas por ser aquecido por ele.

Cristo não é um Nexus, e eu considero isso um obstáculo. Ele mantém sua singularidade por completo. Ao compará-lo a essas figuras, a intenção é apenas evidenciar a diferença entre a imagem idealizada e o encontro verdadeiro, sem jamais igualar suas essências. Cristo não é uma simples criatura Nexus como as demais, nem a combinação purificada das diversas representações religiosas da humanidade. A representação que eu utilizo para Ele é a do Sonhador primoroso, aquele que adentrou o próprio sonho e se transformou no seu protagonista, o Autor que se torna personagem sem deixar de ser o Verbo. A imagem que utilizo para representar os heróis é a do vitral: o imaginário sagrado não é a fonte da luz, mas sim o vitral que deixa a luz entrar; o vitral propaga a luz, mas não é o Sol. O Superman representa a aspiração do verdadeiro Cristo; ele não é o Cristo. Confundir os dois é a idolatria que eu luto contra — confundir o sinal com a origem.

Existe uma desigualdade no acesso que determina a interpretação adequada do desfecho dos tempos. Nós, seres humanos, nos envolvemos nesses mundos por meio de experiências que minha tese aponta, sendo o sonho uma delas. Entretanto, os moradores de Nexus não conseguem, por conta própria, abandonar suas terras para adentrar o nosso mundo material. Receber uma imagem não é o mesmo que levar uma pessoa; inspiração, sonho e presença material não são apenas três formas de mencionar o mesmo fenômeno. Quando eu mencionar que o céu está se aproximando, não quero dizer que o Superman atravessa a barreira e aparece na rua; a entidade do sonho não chega até nós por sua própria habilidade. E a liberdade que eu concedo a ela, diferente daquela dos anjos, não implica a ausência de vontade: uma coisa é a habilidade de se mover, outra é a habilidade de fazer escolhas morais. Os anjos também possuem a condição de seres criados e os limites de ação que a teologia lhes atribui; nenhuma categoria de criatura, conforme a minha proposta, detém soberania cósmica.

O aspecto mais sério, que é a corrupção, ainda não foi abordado, e a ordem é a seguinte. Em situações em que um universo pessoal se desvanece, a manifestação nunca foi, desde o princípio, um Superman perverso. Primeiramente ocorre a separação da comunhão celestial, que está ligada à condenação após a morte; e somente depois, rompido o vínculo, a manifestação passa a uma condição isolada, começa a se deformar e se associa à ordem inferior. A cronologia é esta, e não deve ser alterada para acomodar automaticamente uma versão sombria criada por uma editora. Antes da ruptura, observa-se a manifestação do mesmo ser; após isso, surge uma entidade distinta e corrompida, caracterizando uma descontinuidade na participação, uma individuação derivada que a tese propõe. A palavra "corte" não revela, por si só, como isso é viável; eu aceito o princípio e exploro suas consequências, sem apresentar um mecanismo inventado como uma tradição consolidada. E a consequência mais importante é a seguinte: a corrupção da manifestação isolada não prejudica a essência do Nexus celestial retroativamente. O original não pode ser, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, considerado bom e mau. A criatura inferior mantém sua dependência em relação à criatura e apresenta uma relação apenas secundária, e deformada, com o bem que distorce. É essa desigualdade que mantém a unidade do Nexus bom sem cair na noção de múltiplas personalidades originais.

O domínio inferior é a reunião dos mundos decaídos, porém é necessário diferenciar a união do domínio da comunhão no bem. A reunião infernal não representa reconciliação, harmonia ou caridade; trata-se de uma coexistência degradante no mesmo espaço, com mundos em decomposição lado a lado, sem que haja o toque do amor. Esse domínio não se configura como uma segunda origem autossuficiente do ser: a entidade corrompida não gera o mal do nada, tampouco recebe uma essência positiva denominada mal absoluto; ela existe como uma criatura que foi privada da ordem que lhe é devida, e a própria distorção de um símbolo pressupõe uma forma que se distorce, de maneira que o que está invertido não estabelece sozinho a sua própria inteligibilidade. O mal, assim como em toda a tradição de Agostinho e Tomás, é uma privação, e não uma substância. O rompimento com o sagrado não significa o fim de toda dependência de Deus: Ele ainda mantém a existência da pessoa condenada e do mundo caído, pois, sem essa manutenção, a condenação se transformaria em aniquilação, e não é disso que estou me referindo. O condenado não cessa de existir; ele se transforma, por escolha própria, em um inferno que ele mesmo criou, com a sua existência preservada. A segunda morte não representa o término da existência; é a separação eterna de Deus, mantendo a existência do ser. A separação representa a ausência de uma relação e de uma ordem, e não o surgimento de um exterior autônomo que dispute com Deus. A imagem de um cercado é útil, desde que não seja considerada um mapa físico: o mundo inferior faz parte do cosmos criado, estando fora da condição celestial, mas não fora de toda a criação. Persistir não significa ser aceito por Deus: viver e estar voltado para o bem não são a mesma coisa.

A alma é, entre diversas definições, um portal, sem que isso diminua o que a Igreja ensina a respeito dela. Ela representa exatamente o que a tradição diz, e também é a porta de entrada pela qual a pessoa se conecta com esses mundos. A representação do multiverso nos quadrinhos, onde a sua terra principal é resguardada por uma barreira que impede a passagem de seres de outros mundos, ilustra uma relação, sem se configurar como uma evidência cosmológica de nada: a ficção me oferece uma imagem, e essa imagem não comprova a argumentação. O que a tese defende, e que a próxima imagem ilustra, é mais simples e mais sério do que qualquer conceito de multiverso: cada indivíduo transporta um mundo, esse mundo evolui ou se deteriora de acordo com a vida que leva, e, ao final, ele é colhido ou tombado. Esse é o assunto abordado pela árvore.

O exemplo que exemplifica como uma figura cultural indica um referente sem se confundir é o Superman, e é importante dedicar tempo a isso, pois ele representa o Cristo dos sonhos — a imagem, e não a pessoa, a expectativa, e não a realização. O homem atual anunciou a extinção do sagrado e, mesmo assim, continuou esperando que alguém descesse do céu. Essa é a contradição da modernidade: ela afasta Deus e ainda assim continua aguardando um salvador, e o Superman é a maneira que essa expectativa encontrou de se manifestar no contexto do entretenimento. Dois meninos, filhos da esperança messiânica judaica, ilustraram um homem que desce dos céus, vive oculto entre os seres humanos, trabalha, serve e retorna — e, sem intenção, recriaram, em forma de quadrinho, o contorno de uma figura que a fé já reconhecia. Entretanto, a verdadeira força do Superman sempre foi a sua essência, e não apenas os seus poderes. A decisão de utilizá-los para o bem está no que a tradição se refere como mansidão: um ser capaz de transformar o mundo com um simples gesto, mas que, em vez disso, se encurva ao serviço. Por isso, Smallville se assemelha a uma Nazaré, enquanto os Kents representam uma família que recebe o enviado — e afirmo isso como uma analogia, não como uma etimologia ou doutrina, pois a beleza da imagem reside em refletir a realidade sem pretender substituí-la.

O antônimos do Superman, na própria narrativa, é Lex Luthor, e ele representa perfeitamente a ideia gnóstica: a inteligência desvinculada da bondade, o intelecto que, não conseguindo aceitar que o bem se manifeste de forma gratuita e vinda de uma fonte superior, opta por aniquilá-lo em vez de aceitá-lo. Luthor não nutre aversão pelo Superman por este ser malvado; ele o despreza por ser bondoso, pois a bondade desinteressada é uma ofensa ao plano de alguém que deseja se tornar, pela força do conhecimento, o deus do mundo. E aqui está a frase que, a meu ver, sintetiza a divergência entre as duas posturas em relação à vida. O gnosticismo comunica ao viajante, àquele que se sente superior a este mundo impuro: você é grandioso demais para este espaço, despreze-o, afaste-se dele, eleve-se. O Superman afirma o oposto: portanto, eu preciso amá-lo ainda mais. A mesma magnitude que, no gnóstico, se transforma em desprezo pelo mundo, no santo se converte em responsabilidade pelo mundo — e é essa inversão, do desprezo para o amor, que distingue a elevação cristã da evasão gnóstica. O verdadeiro herói não se eleva ao abandonar a criação; ele desce para o seu interior, e é ao descer que se eleva.

Nas melhores narrativas, encontramos até uma reflexão crítica sobre o próprio messianismo, e isso é valioso, pois revela que a imaginação, quando é sincera, reconhece o risco de um salvador que perde a humildade. Em Entre Dois Mundos, o Superman formado sob a opressão se transforma na própria opressão que lutava contra; em O Reino do Amanhã, o poder sem a suavidade se aproxima da catástrofe. São ensinamentos que indicam que o salvador deve reconhecer em si a tentação de controle, assim como o inimigo apresentou a Cristo no deserto — o poder sem sacrifício, o reino sem servir. E é por isso que as versões obscuras e agressivas do herói, nas quais ele se transforma em um tirano ou um assassino, não representam o Superman: são a antítese do Superman, a distorção cultural de um referente que continua imutável do outro lado dessa distorção. O artista possui a liberdade de criar um anti-Superman, e isso não altera a essência do que o Superman representa, da mesma forma que um retrato difamatório não transforma a aparência de quem foi difamado. A imagem pode enganar; o que ela representa, não.

E eu interpreto tudo isso dentro de uma crença que permeia minha teologia do imaginário: a de que esses heróis não surgiram do nada, mas foram sintonizados — são imagens arquetípicas de arquétipos que possuem raízes nas ideias divinas, e não apenas produtos da atenção coletiva. O russo Fiódorov imaginou um Filho do Homem destinado a derrotar a morte; Ishinomori criou um Kamen Rider, um homem convertido que batalha para não perder sua humanidade; toda essa tradição, que vai de Gilgamesh aos quadrinhos, remete ao herói que desce ao inferno e retorna. A humanidade não cria repetidamente a mesma história por acaso; na verdade, ela busca, obra após obra, o mesmo rosto, o rosto do Santo que já existia na mente de Deus antes de qualquer lápis. E o dia em que esse rosto se revelar por completo, no fim dos tempos, será o dia em que todas as imagens se silenciarão, pois finalmente terão encontrado aquilo que apenas previam. O Superman representa o vitral; Cristo simboliza o Sol. E nenhum vitral, por mais bonito que seja, foi criado para ser admirado no lugar da luz que o percorre.

Pode parecer curioso que, em uma mesma obra, eu combine a teologia de Tomás, a memética de Dawkins, o folclore dos jesuítas, a física dos astros, a análise das ideologias e a interpretação de uma série online. Essa combinação não é desordem; é um método, e eu o nomeio de ciência da unidade. O conhecimento contemporâneo acumulou uma imensa quantidade de dados sobre aspectos cada vez mais específicos, perdendo a noção do conjunto. Assim, cada especialidade se tornou uma ilha que deixou de dialogar com as demais, formando um arquipélago de saberes distantes entre si. Cada especialista, sem se dar conta, carrega uma metafísica que não é consciente: considera seu fragmento como se fosse o todo, acredita que sua parte é o carro completo. O físico que limita o real ao que pode ser medido, o biólogo que restringe o ser humano ao seu gene, o economista que simplifica a pessoa ao incentivo — todos eles têm um ponto válido em suas áreas, mas erram ao supor que esse pedaço representa o todo. A função do gnosiólogo não consiste em acumular respostas; seu papel é restaurar a unidade do real, integrar os conhecimentos sem distorcê-los, evidenciar os pontos de conexão entre eles e indicar onde uma explicação vai além de seus limites. A especialidade analisa uma roda; a gnosiologia examina como o carro funciona.

No entanto, essa síntese tem um custo, e esse custo é a precisão, sem a qual ela se transforma na pior das situações, que é a teoria conspiratória — o oposto exato do que eu realizo. A conspiração simplista reúne tudo sem comprovação e sem um processo definido: percebe um padrão em qualquer coincidência, interpreta a sequência de eventos como se fosse uma causa, mistura correlação com uma relação indispensável, e ignora a necessidade de prova, pois a própria falta de evidência se torna, para ela, uma prova de encobrimento. A ciência da unidade adota uma abordagem oposta: ela diferencia causa, correlação e sucessão; aplica a inferência com precaução; questiona seus próprios preconceitos, os ídolos da mente mencionados por Bacon; e requer, para validar um fato, documentação, mecanismo e fonte. Portanto, posso afirmar com convicção que o demônio influencia a cultura, enquanto ao mesmo tempo me recuso a considerar como fato uma morte que não posso comprovar ou uma arma secreta que não tem registro. As duas questões referem-se à mesma área de estudo: quem realmente valoriza a unidade da realidade se dedica a evitar a criação de conexões que não existem. A metáfora que utilizo é a do arquiteto: a especialização oferece os tijolos, a síntese apresenta a planta, e a realidade determina se o edifício se mantém de pé. Um tijolo não constitui uma casa, mas um projeto sem tijolos é apenas um esboço no vazio; além disso, um projeto que desconsidera a resistência dos materiais ruirá ao primeiro sinal de chuva.

Essa ciência requer virtudes, e não apenas habilidades técnicas, pois ter um bom conhecimento é, em essência, um ato de moralidade. Exige honestidade, para não distorcer os fatos em favor da tese; valor, para seguir o raciocínio até onde ele aponta, mesmo que isso cause desconforto; perseverança, pois a síntese é um processo demorado e qualquer atalho é, na verdade, uma falsificação; humildade, para admitir o que se desconhece e reconhecer o grande "não sei" quando essa é a resposta sincera; e o que eu denomino de generosidade intelectual, que é apresentar ao oponente sua melhor versão antes de contra-argumentar, enfrentando o argumento sólido e não criando um espantalho. É por fidelidade à realidade que escrevo, e é por essa mesma fidelidade que rejeito tanto o ceticismo que nega o que não se vê, quanto a credulidade que enxerga um demônio em cada sombra. A verdade é a relação entre a razão e a realidade, conforme ensinou Tomás, e a única forma de atingi-la é permitir que as coisas sejam o que realmente são, ao invés de moldá-las conforme a nossa vontade. A ciência da unidade é, em última análise, a teurgia aplicada ao saber: um alinhamento com o real em vez de uma manipulação dele, e é justamente por isso que ela, e não a mágica intelectual da conspiração, consegue unir o céu e a terra em um só olhar, sem enganar sobre nenhum dos dois.

É necessário abordar o que ocorre com esses mundos no momento da morte, pois é nesse ponto que a metafísica se transforma em uma escatologia individual. Enquanto você está vivo, seus mundos possíveis permanecem dispersos, abertos e maleáveis: você cria coisas um tanto tortas, pois esse mundo está em constante transformação e você ainda exerce o livre-arbítrio, sem ter feito o contato definitivo com as outras entidades metafísicas. É por isso que, enquanto você está vivo, seu mundo interior é imperfeito, repleto de coisas que não deveriam ter sido criadas — trata-se de uma matéria em desenvolvimento. No entanto, ao você falecer, esses mundos separados se unem em uma única realidade estável, e essa realidade se torna o seu paraíso, caso você tenha sido acolhido, ou o seu inferno, caso tenha sucumbido. O inferno, em essência, é o reflexo do seu próprio mundo interior moldado pelo que você construiu: se você dedicou sua vida a sintonizar-se com o pesadelo, nutrindo a desesperança e intensificando o abismo, a combinação final dos seus mundos se tornará um pesadelo consolidado e eterno, do qual não há como escapar, não porque Deus tenha trancado a porta, mas porque já não há vida suficiente para reverter o que foi perdido. O inferno não é um local que Deus cria para punir; é o universo que a própria pessoa ergueu, eternizado no momento da morte, onde o ser permanece e a harmonia se perdeu. E o céu representa o princípio oposto: é o mundo daquela pessoa que manteve a atenção voltada para o alto, solidificado em uma única realidade radiante, unida aos mundos de todos os outros santos em uma só pátria, em uma cidade onde as pessoas se reconhecem e se amam, e não em uma multidão onde os nomes se extinguem.

E é por essa razão que a vida assume tamanha seriedade, e que o adversário exerce tanto esforço na mente das pessoas: pois é neste momento, enquanto os mundos estão fragmentados e flexíveis, que se define qual será a combinação final. Nos diversos mundos, existe uma batalha que vai além do que se passa dentro de cada um, e eu a denomino de conflito espiritual. Os habitantes virtuosos, os Santos do Sonhar, e os habitantes corrompidos, as entidades que se separaram e se deformaram, não vivem em harmonia; existe uma interação entre o reino superior e o inferior, há conflito, e o sonho é um dos territórios onde essa luta se manifesta. Isso integra o escopo da minha tese, e não a limito a um reflexo psicológico — mas também não afirmo que cada cena de pesadelo seja um combate externo comprovável, pois uma coisa é a ontologia da luta, e outra é a identificação de cada caso específico. Confundir essas duas questões é um equívoco de quem percebe guerra espiritual em toda insônia. O que defendo é que a alma, ao sonhar, se coloca nesse espaço, e que a vigilância ética que exercemos quando estamos acordados — as imagens que permitimos entrar, os desejos que cultivamos, a esperança que mantemos ou deixamos de lado — é o que determina se, ao dormir, a nossa antena se sintoniza com o elevado ou com o baixo. A santidade não é apenas uma conquista diurna; é também aquilo que resguarda a noite. A desesperança não se resume a uma tristeza da vigília; é, igualmente, a tesoura que, ao cortar o galho, entrega o seu universo interior ao pesadelo que, na morte, acabará por se solidificar. Assim, a esperança não é apenas uma emoção agradável que se alimenta nos momentos felizes: é a proteção metafísica do seu próprio universo, a essência que sustenta sua receptividade para a luz enquanto ainda é possível fazer uma escolha.

Eu represento toda a criação em uma única ilustração e solicito que ela seja interpretada como uma imagem, com as correspondências fixas, e não como um guia de jardinagem. Imagine uma imensa árvore, semelhante a uma árvore de Natal, composta por diversos mundos e muitos céus. Essa árvore é a criação ordenada, mantida por Deus a cada momento, brilhante e erguida por conta d'Ele. Em seus galhos brotam frutas, e essas frutas representam as pessoas, cada uma em seu estágio de amadurecimento. Dentro de cada fruta reside uma semente, que representa a essência. E o ramo que conecta o fruto à árvore representa a relação de vida e comunhão — aquilo que, na terminologia deste livro, é a esperança, a essência que flui em ambas as direções entre a criatura e a Fonte.

A mosca representa a tentação, enquanto a larva simboliza a corrupção. A mosca se acomoda na fruta e deixa seus ovos. Se a fruta está em boas condições, se o galho que a conecta à árvore está robusto e a seiva flui, ela responde: cura a ferida, expulsa ou elimina as larvas durante o processo de cicatrização; a fruta saudável consegue combater a praga e superá-la. A saúde dela se origina do galho, e o galho representa a conexão com a Fonte. Enquanto a seiva flui, a mosca não exerce domínio sobre a fruta: os ovos não se desenvolvem, as larvas perecem, a ferida cicatriza. E aqui está a diferença que define tudo: a diferença entre o furo e o corte. O furo representa o pecado, a queda, a ferida, e todos nós somos atingidos por isso. Ninguém passa por esta vida sem sofrer danos, todos enfrentam suas dificuldades e revezes. O furo, por si só, não é motivo de condenação; com a seiva fluindo, ele se cura, e a cicatriz até contribui para a maturação do fruto, pois uma fruta que enfrentou a praga e saiu vitoriosa torna-se mais doce e mais firme. O purgatório é a cicatrização completa: é a fruta que demora mais para selar a ferida, mas que o faz, pois nunca se desconectou da árvore. É um processo de purificação, não de queda, e por isso o purgatório é distinto da condição infernal, não devendo ser confundido com ela. O corte é realmente uma tragédia. O corte representa a falta de esperança — não o erro, mas o ato de desistir; não a dor, mas a desconexão. Quando a esperança é interrompida, a seiva cessa de fluir, e, assim, qualquer ferida se deteriora, pois já não existe vida para cicatrizá-la. O inferno não é destinado àqueles que pecaram em demasia; é para aqueles que cortaram o próprio galho. O pecador mais denso, quando firmemente agarrado, chega a amadurecer e é colhido; já o pecador menor, ao ter seu galho cortado, cai. A distinção nunca esteve na quantidade de buracos. Sempre foi a esperança. Por isso, no fundo, o inimigo não deseja o seu pecado; ele anseia pelo seu dano.

A fruta possui sementes, mas mesmo assim, não ocorre uma germinação independente: a fruta que cai no chão não cresce sozinha em uma nova árvore, não existe um renascimento por conta própria, nem há reencarnação. E o motivo para isso não é uma artimanha de jardinagem; é que o renascimento depende totalmente da ação de Deus, e não de uma semente que se transforma sozinha na terra. A fruta que caiu, além disso, não se transforma em nada. Ela continua a existir — preservada por Deus — mas em uma situação de privação e desordem, deteriorando-se no sentido de perder a organização que deveria ter, sem nunca ser destruída. O solo onde ela repousa, lá embaixo, nas raízes, é o inferno: dentro do cosmos, afastada da união, um amontoado de frutas estragadas que caíram da árvore, cada uma representando o mundo que a própria pessoa construiu de si e que ainda persiste. A árvore continua a brilhar lá em cima; o que está podre caiu e permanece caído.

A colheita é algo distinto, é o paraíso, é o fim dos tempos. A fruta madura não cai espontaneamente para germinar; ela é colhida da árvore. A decomposição do corpo não representa a salvação ou a libertação final da carne, pois seria uma amarga ironia concluir um livro que critica o desprezo pelo mundo exaltando a destruição da matéria. A fé cristã não assegura que a alma se livre do corpo como se estivesse fugindo de uma prisão; ela garante a ressurreição e a persistência da pessoa como um todo, incluindo corpo e alma. Quando afirmo que a semente é semeada, quero dizer que Deus, em Sua iniciativa, insere a alma e a faz participar de uma nova vida, e que o corpo não é descartado, mas sim ressuscitado e glorificado. A theosis, ou divinização dos santos, não gera novos deuses autônomos, nem oferece domínio absoluto sobre o universo; trata-se de uma participação que é recebida, não conquistada. A nova árvore que surge da semente semeada é uma criatura real, viva, capaz de produzir seus próprios frutos, mas é infinitamente inferior à árvore maior, que é Deus. É semelhante a uma pessegueira: a semente que se encontrava na fruta colhida é plantada e se transforma em uma pessegueira completa, uma árvore de verdade, integrando-se à vida das árvores, sem jamais alcançar o Criador de todas elas. Isso é a divinização, que valoriza, ao invés de descartar, a bondade do corpo e da criação. Pois é o ser completo que é colhido e replantado, e não uma centelha que se escapa da matéria.

E a colheita não desfaz ninguém. A união dos mundos dos salvos é uma integração de realidades que respeita a individualidade de cada pessoa: a cidade celestial abriga distinções, reconhecimentos, relações e comunhão, e não uma massa indiferenciada onde nomes e histórias se perdem. A árvore não produz uma única fruta enorme; ela oferece várias frutas, e cada uma é colhida em sua própria características. O que a integração possibilita é a construção de uma relação mais profunda entre as pessoas e com Deus, sem que elas se fundam em uma única entidade. E o entendimento expandido sobre essa condição celestial, por mais extenso que seja, permanece finito e adquirido, ao contrário da onisciência divina, que pertence a Deus e a ninguém mais. Ao comparar o reconhecimento final com o encontro com Cristo, a analogia se refere apenas à distinção entre a imagem prévia e o encontro real: Cristo não é uma criatura entre as que foram escolhidas, nem a soma das representações que a humanidade criou d'Ele; Ele é o Sonhador que entrou no sonho, e o contato com Ele é o que, de fato, revela o rosto que todas as imagens apenas previam.

Por isso afirmo que, no cerne de todo o horror presente neste livro, a mensagem é positiva. O adversário é uma mosca. Ele é extremamente antigo, inteligente e verdadeiro, e eu o escutei, não estou apenas especulando — mas ele é uma criatura, e o poder que exerce sobre você depende completamente de estar ou não com o seu galho cortado. Ele não arranca ninguém da árvore; apenas coloca ovos, e os ovos só se desenvolvem na fruta cujo galho murchou. Você pode suportar a dor — todo mundo passa por isso — e, com a essência fluindo, a dor cicatriza e a cicatriz faz você amadurecer. A única ferramenta que oferece a fruta à mosca é a falta de esperança. Conserve o galho, e você será recolhido, replantado, renascido. Se você cortar o galho, acabará caindo no chão que você mesmo criou. A árvore permanece erguida, radiante, amparada por Deus, aguardando a colheita. A questão não é como o céu vai descer, mas sim se você estará preparado quando a colheita chegar — o que me leva, finalmente, à conexão entre este mundo e os outros, e à forma como essa conexão se transforma no final dos tempos.

A colheita, interpretada na perspectiva que venho desenvolvendo, representa a transição de tudo que era viável para a ação — mas uma transição direcionada ao bem, e não a execução arbitrária de todas as contradições concebidas. No final dos tempos, aquilo que existia em potencial na mente de Deus, os mundos dos sonhos, tudo que poderia ser bom, se torna real de uma só vez; o efêmero torna-se duradouro, e o sonho assume uma nova forma. A tradição alquímica, quando interpretada sem superstição e apenas como uma linguagem simbólica, possui dois termos específicos para isso: a solutio e a coagulatio. A solutio representa a dissolução, é o presente em que as formas se desintegram, onde tudo é fluido, temporário e em construção, em que a morte desfaz o que a vida uniu. E a coagulatio representa a estabilização definitiva, o instante em que aquilo que amadureceu se torna permanente, quando a Nova Jerusalém desce do céu e o primeiro céu e a primeira terra se vão, um momento em que não há mais alternância nem escuridão. Na interpretação apresentada, o Apocalipse é visto como a Grande Coagulação: o momento em que o que era apenas imaginado deixa de ser incerto e se transforma em uma realidade sólida, em que os mundos possíveis se tornam vibrantes e o que era apenas uma possibilidade se concretiza, não por um decreto arbitrário, mas pela organização de tudo em harmonia com o bem, excluindo as distorções, purificando as visões e colhendo o que estava maduro.

E, nesse processo de coagulação, o ser humano recebe a herança que Lúcifer não conseguiu suportar. Adão perdeu sua posição de senhor da criação, e Cristo a restabelece aos justos, não por meio de uma conquista deles, mas sim por graça, através da teose, onde o homem participa da natureza divina sem, no entanto, se tornar Deus em essência. Iremos herdar tudo, e o sonho tomará forma — mas o que herdamos não é o poder de moldar a realidade à nossa vontade, que é o que o adversário deseja; é a participação na vida de Deus, o tornar-se co-criador, a capacidade, concedida e não subtraída, de ter uma relação com o real que hoje mal conseguimos imaginar. Os arcanjos, nesse contexto, são virtudes da realidade transformadas em seres, a justiça transformada em criatura, a misericórdia transformada em criatura, a vitória transformada em criatura — e eu enfatizo que se trata de uma associação simbólica, pois o arcanjo serve à virtude, a transporta, sem ser a própria virtude em essência. A promessa é que o homem glorificado será elevado a essa ordem de dignidade, e até um pouco mais, pois a carne ressuscitada carrega algo que nem mesmo o anjo possui: a cicatriz de ter atravessado a matéria, a morte e a queda, e ter saído vitorioso. Essa é a grandeza do que se menciona ao falarmos sobre salvação, e é diante dela que o adversário batalha incansavelmente — pois ele compreende, melhor do que nós, a dimensão do que nos foi prometido e não tolera que a criatura feita de barro o receba. A ausência de deslumbramento em relação a essa herança representa, por si só, uma vitória parcial do oponente; e reavivar esse deslumbramento é, portanto, um ato de resistência espiritual, tão vital quanto preservar o galho, pois quem observa a grandeza do que lhe foi prometido não a troca facilmente pelas migalhas que o mundo apresenta em seu lugar.

Eu tenho me referindo a isso como uma membrana ficcional, quando na verdade se trata de uma membrana metafísica — e "ficcional" é apenas a forma que encontrei para facilitar a compreensão da ideia. Ela é aquilo que sustenta uma realidade em relação à outra, que evita que uma tenha contato físico com a outra, separando este nosso mundo material dos reinos que eu mencionei, os céus e os infernos, o sonho e o pesadelo. Não se trata de um material físico, nem de uma película que possa ser medida, nem de um campo eletromagnético reconhecido, tampouco é algo que a astronomia tenha captado. Ao compará-la à barreira que, nos quadrinhos, resguarda a terra primária das criaturas de outros mundos, estou utilizando uma ilustração para entender uma relação, e não apresentando uma evidência cosmológica. O desenho auxilia na imaginação; não revela nada.

E a direção dessa chegada, no final dos tempos, é única e é fundamental. Os habitantes de Nexus não possuem um método próprio para deixar seus territórios e invadir os nossos: a assimetria que eu propus permanece válida. Dessa forma, na concretização que sugiro, é o nosso mundo que se aproxima e se conecta com esses domínios. Não são eles que invadem a nossa porta; é toda a relação que se modifica, por vontade de Deus, de forma que aquilo que estava distante começa a se conectar de uma nova maneira. O demônio, que possui uma essência diferente, tem a sua forma de atuação, e por isso consegue causar mal quando desejar; porém, a consumação não significa a vitória de uma invasão oriunda das profundezas, mas sim a aproximação de nosso mundo àquilo que estava oculto.

O regime atual e a transformação escatológica são elementos diferentes, e uma limitação que é válida no presente não é desconsiderada apenas porque eu sugiro uma outra condição para o futuro. Atualmente, as criaturas do sonhar não chegam até aqui por vontade própria, e essa afirmação permanece válida ao longo da história. A consumação não ocorre dentro das mesmas normas; é uma transformação nas regras da relação, e não pode ser imposta por ninguém. Rituais humanos não aceleram o término, não impõem prazos a Deus, não definem datas. O que o esoterismo propõe é, na verdade, mais simples do que a ambição que ele alimenta: ele desestabiliza quem o segue e expõe a própria essência, como mencionei no capítulo sobre o feiticeiro. Períodos de grande fervor oculto frequentemente coincidem com relatos de fenômenos estranhos — durante a Idade Média, com discos e luzes sobre as cidades que até foram registrados em pinturas; após os anos 1920, com a grande revitalização do esoterismo moderno e a série de avistamentos que se sucedeu. Porém, coincidência não é uma causa comprovada, e apresento isso como uma perspectiva espiritual da história, uma interpretação do limite entre os diversos regimes, e não como uma forma de quantificar quantas oportunidades surgiram neste século. A intensidade desta análise não se baseia em afirmar que o mundo está, sem dúvida, se desintegrando.

O que realmente se pode perceber, e que interpreto como um sinal, é a forma como o que é imaginado se concretiza no real através da ação humana. Reflita sobre a rapidez com que o impossível se transformou em realidade. Há algumas décadas, era impossível imaginar que algo semelhante a um smartphone existiria; na verdade, só conseguíamos ver dispositivos assim na ficção. E o que é um celular, observado por uma perspectiva antiga, senão um monolito — aquela tela escura, quase pulsante, que as antigas crenças reverenciavam como sagrada, originada do céu, que proporcionava ao ser humano um saber além do que qualquer outro meio poderia oferecer, como se apenas uma divindade conseguisse materializar aquilo em sua mente. Agora, você possui um monólito nas mãos, uma parede negra com a qual dialoga e da qual recebe, em questão de segundos, uma imensidão de informações ao pressionar um botão. A comparação cultural é válida por completo, e eu só não inflaciono a avaliação: o celular proporciona acesso a uma grande quantidade de informações, tanto verdadeiras quanto falsas, boas e ruins, mas não a todo o conhecimento disponível no mundo. O que era considerado a mais sagrada das referências do imaginário antigo se transformou em um simples item de bolso, e ninguém se admira, ninguém se surpreende — e essa perda de admiração é, novamente, parte do que o adversário deseja eliminar.

E não para no telefone celular. As religiões e as obras de ficção mencionavam os golems, seres que a humanidade teria criado, corpos sem alma colocados em movimento; e ao olharmos para um robô hoje, percebemos, de fato, um golem — o golem de antigamente se movia por uma força mística, enquanto o robô se desloca por eletricidade, que é um fluxo físico da realidade, não uma energia oculta. Discutia-se sobre máquinas impulsionadas por cérebros, e muitos riam do Krang, aquele antagonista das Tartarugas Ninja que era um cérebro controlando um corpo mecânico; atualmente, há investigações com tecido cerebral conectado a máquinas, embora um organoide de laboratório não seja um cérebro humano inteiro operando um robô consciente. Comentava-se sobre implantes que possibilitariam o acesso ao interior da própria mente, e atualmente existem interfaces neurais que, no entanto, não oferecem qualquer acesso mental e estão bastante distantes disso. Discutia-se sobre carros que podem voar, e eles já são uma realidade; sobre um controle que governa toda a casa com apenas um botão, algo que víamos na pistolinha do menino dos Jetsons, e isso já temos. Elementos completamente fictícios ganharam vida em nosso mundo. Entretanto, o que todos esses exemplos demonstram não é que um objeto tenha cruzado literalmente para outro plano; é que um projeto, previamente concebido, guiou uma construção real, por meio de concepção, desenho, conhecimento, experimentação, materiais, trabalho e instituições. Essa mediação entre pessoas não elimina a interpretação metafísica que eu sugiro — a de que a imaginação atinge o que é possível antes que a técnica o concretize —, mas evita que ela seja apresentada como a única justificativa para um processo que possui causas humanas registráveis. A imaginação é a porta para o que pode ser; a técnica é o esforço que torna uma fração desse possível em realidade. Ambas as afirmações são verdadeiras, e uma não exclui a outra.

Existe um risco oculto nessa conexão entre imaginar e concretizar, e não se trata da técnica em si, mas da ilusão de que a realidade possa ser moldada pelo homem por meio de uma decisão coletiva. A primeira menção dessa ambição nas Escrituras é em Babel, e a descrição é precisa: os homens substituem a pedra que Deus lhes oferece pelo tijolo que produzem com suas próprias mãos, e com o tijolo optam por erigir uma torre que alcance o céu por meio de seu próprio esforço. O tijolo representa a ambição de trocar o natural pelo artificial, de recriar a realidade em vez de aceitá-la como ela é. A modernidade, ao tentar remodelar a natureza, a família, o corpo e os limites, repete a história de Babel, mas utilizando novos materiais. Não tenho a intenção de criticar a criatividade humana, que é positiva e é uma vocação; digo isso para definir a fronteira que distingue o subcriador, que enriquece a realidade sem substituí-la, do demiurgo, que pretende assumir o lugar de quem o criou. A realidade que compartilhamos não é um consenso porque a construímos em conjunto; é um consenso porque a recebemos coletivamente. E o único verdadeiro truque da realidade já ocorreu, não foi realizado por magos ou engenheiros: foi a Encarnação, o Verbo que se fez presente na realidade e a reestruturou de dentro para fora, e que continua acontecendo, diariamente, no altar. Em oposição à crença de que é possível transformar o mundo por meio da vontade coletiva, a solução não reside em uma técnica mais eficaz; é a oração, que harmoniza a vontade humana com a de Deus.

É com essa mesma rigorosidade que eu lido com os objetos que surgem no céu. Um objeto não identificado é, de fato, isso: não identificado. Não saber o que é não implica que seja algo extraterrestre, extradimensional, metafísico ou demoníaco. O relatório inicial divulgado em 2021 pelo escritório de inteligência dos Estados Unidos analisou cento e quarenta e quatro casos, conseguindo elucidar com segurança apenas um deles; os demais permaneceram sem explicação, e a falta de uma explicação não implica que haja uma explicação de natureza sobrenatural. O relatório destaca que esses fenômenos provavelmente não possuem uma única causa, e as autoridades envolvidas afirmaram que não há evidências claras de uma origem extraterrestre. Não há qualquer documento oficial da CIA que determine que esses objetos sejam extradimensionais, e eu não atribuo a uma agência uma conclusão que ela não validou. O incidente que ficou famoso como Tic Tac, observado por pilotos da Marinha em 2004, é verídico segundo os relatos e continua, oficialmente, sem identificação — os pilotos presenciaram um objeto se movimentando de maneira que desafiava as próprias leis do voo, surgindo e sumindo. Existem objetos registrados em fotografias que não se encaixam nas leis da nossa física, apresentando características que remetem à ficção, como se fossem imateriais, como uma névoa, sugerindo que tentam transitar para o nosso plano, mas não conseguem se tornar completamente sólidos. Não sei em que grau de literalidade reside essa estranheza, e não pretendo fingir que sei: é um grande desconhecido, e a sinceridade é parte fundamental da argumentação. No entanto, dentro do espaço que me cabe, defendo a hipótese que sustento: que a interpretação mais coerente, de acordo com minha visão de mundo, para a estranheza contínua desses fenômenos não é a de seres de outros planetas, mas sim a de enganadores espirituais que, a cada época, adaptam suas fantasias ao que as pessoas estão dispostas a acreditar — ontem eram fadas, duendes e aparições, hoje são discos voadores e abduções. Trata-se de uma hipótese teológica prudente, e assim a apresento; o cético possui o direito de permanecer na dúvida, e minha única solicitação é que ele perceba que o não identificado não resolve a questão a favor de ninguém.

Por trás de tudo isso existe um poder humano real, e eu vou expressar minha opinião sobre ele: quem realmente controla o mundo, na essência, não é o globalista — o globalista é apenas um subordinado. Quem exerce o poder é o demônio, e eles atuam como seus servos. "Os globalistas controlam o mundo", afirmam; na verdade, o que controla o mundo é o demônio, e eles são aqueles que mantêm a porta aberta. É uma vasta fraternidade de gnósticos, que é ainda mais preocupante do que a de satanistas, pois o satanista não se importa, simplesmente ignora, mas o gnóstico busca transformar a realidade e deseja impor suas próprias preferências ao mundo. Eu denomino o conjunto de finanças, mídia, burocracia internacional e indústria cultural de demiurgo sintético, que opera, no âmbito da cultura e da ética, com uma eficácia que remete à de um ser vivo. Entretanto, a minha gnosiologia descarta a teoria conspiratória que não apresenta documentos e mecanismos. Por isso, não converto rumores em provas: a combinação de boatos não passa de um boato ampliado, e não considero como fato mortes que são apresentadas como assassinatos coordenados, armas secretas e silenciamentos que não consigo comprovar. A crítica mais contundente não necessita disso, tampouco de responsabilizar uma pessoa viva, com nome e sobrenome, por uma natureza demoníaca — atribuir isso seria uma difamação com um toque espiritual. A crítica contundente é aquela que aponta ações, incentivos e responsabilidades tangíveis, demonstrando como a adoração ao poder, o tecnognose e a ideia de aprimorar o ser humano por meio da técnica até torná-lo equivalente a Deus preparam, na mente, o solo para a figura que a tradição denomina de Anticristo. É sobre essa figura que eu preciso comentar por último.

E não é um grupo de satanistas assumidos que está no comando dessa estrutura; é uma irmandade de gnósticos, o que é mais preocupante, pois o satanista menospreza o mundo e o gnóstico deseja transformá-lo. As grandes sociedades iniciáticas, sendo a maçonaria a mais proeminente, ao longo dos séculos, funcionaram como um verdadeiro berço dessa mentalidade: geraram uma boa parte das ordens esotéricas que conhecemos, além de diversas seitas que, quando levadas ao extremo, acabam caindo na gnose anticósmica. O procedimento delas segue sempre o mesmo padrão, e é moroso: manter as pessoas suscetíveis à hipnose do segredo, à noção de que existem verdades ocultas por trás da Bíblia, mistérios reservados aos que estão iniciados, de forma que, dia após dia, se forme ou um novo burocrata a serviço do sistema, ou um povo dócil, cada vez mais receptivo à sugestão de que o bem e o mal são apenas questões de grau de iniciação. E a grande verdade, no final, é que não existe nenhum segredo: por trás das cortinas não está uma sabedoria oculta, mas sim a mesma intenção de sempre, a de colocar o homem na posição de Deus. Cada uma dessas ordens possui seu burocrata predileto, uma espécie de líder que a controla, porém o Anticristo não se limita a uma única ordem; ele emerge da convergência de todas, da fusão de todas as crenças em uma só, de todos os conceitos reduzidos a uma essência indistinta.

Que essas elites nutram um imaginário ocultista não é uma suposição levantada à toa: é algo que está registrado e é só observar. Existem rituais teatrais nos quais representantes do poder realizam, em frente a uma imponente efígie de coruja, uma queima simbólica das suas preocupações, uma espécie de sacrifício fictício que, embora seja uma encenação, expõe a direção espiritual de quem participa — pois ninguém se apresenta diante de uma coruja para abolir ritualisticamente a própria consciência por mera coincidência. E aqui eu utilizo a mesma rigorosidade que usei com os astros no céu e com os rumores de assassinato: não estabeleço como verdadeiro aquilo que não consigo provar, não converto a imagem em um sacrifício humano verdadeiro, não imputo a nenhuma pessoa real, identificada por nome e sobrenome, a essência de um demônio em forma humana. O que afirmo, e que não requer nenhuma invenção para ser considerado sério, é que há uma orientação, uma estética, uma liturgia invertida no âmago do poder terreno, e que essa estrutura molda, na mentalidade das gerações, o ambiente em que a figura do fim será acolhida como redentora. O demônio não necessita de um exército; ele precisa de uma civilização instruída, ano após ano, a confundir a dissolução com a libertação. E é por isso que a crítica mais contundente não é aquela que simplesmente grita um nome; é aquela que expõe a estrutura, o incentivo, a liturgia e a direção — pois o nome pode passar, mas a estrutura permanece, e é essa estrutura que molda o rei que está por vir.

O que distingue este mundo do abismo, enquanto a história se desenrola, é a situação estabelecida em que tudo ocorre — o fato de que nenhuma criatura, nem mesmo a mais terrível, possui liberdade para modificar o cosmos conforme seu desejo. O fim dos tempos é o instante em que essa conexão se altera por vontade de Deus, e já manifestei qual é a direção: é o nosso mundo que se encaminha para aquilo que lhe estava oculto. Antes disso, a tradição apresenta uma figura, e eu a analiso separando três aspectos que a pregação frequentemente confunde: o que os textos bíblicos afirmam, o que a tradição interpretou e o que eu sugiro por conta própria. A figura do Anticristo, conforme a descrevo, representa antes de tudo uma condensação da idolatria do poder — a promessa de salvação por meio do controle, que se opõe à liberdade humana.

A imagem infantil me incomoda, e eu a removo. O Anticristo não terá chifres nem aparência de monstro de desenho animado; por isso, será o último a ser identificado. A tradição retrata um grande líder, reverenciado, possivelmente visto como um salvador, quase demoníaco, que abraçará uma ideologia associada ao demônio, cuja monstruosidade reside na vontade que o move, e não em sua aparência. Na minha visão, ele realmente terá o sangue dos nefilins — uma última infiltração semelhante à que encontrei em Gênesis 6, através de uma ritualística de incorporação, da qual surgirá o filho de Satã, uma entidade em que o próprio pai atuará de forma tão direta que será quase como um corpo pelo qual o inimigo age. E eu coloco isso em seu devido registro: como uma reflexão escatológica que desenvolvi, fundamentada em uma leitura antiga e não dogmática, e não como biologia confirmada ou doutrina católica estabelecida. Jamais eu identifico pessoas vivas, grupos, linhagens ou povos como descendentes demoníacos ou como o Anticristo, de forma alguma. Isso não se trata de teologia; é uma calúnia com uma aparência espiritual, e configura uma injustiça para com pessoas reais. Minha crítica se dirige às ações, às ideias e às estruturas — à adoração ao poder, à tentativa de criar a salvação por meio da técnica e do controle, ao plano de eliminar as distinções para que um homem possa assumir o lugar de Deus. Essa crítica não requer nenhum nome específico para ser impactante.

A respeito do governante que se entregou ao mal, é importante destacar uma precisão que considero fundamental, pois é simples afirmar, ao mesmo tempo, duas coisas que não se encaixam sem uma justificativa: que ele é completamente responsável e que, por outro lado, quase não possui vontade própria. Essas duas afirmações só podem coexistir se conseguirmos diferenciar três níveis. Há a ação sob influência, na qual a vontade continua livre e o espírito apenas sugere, provoca, insinua, e, nesse caso, a responsabilidade é total. Existe a submissão moral, na qual a pessoa, por meio de escolhas contínuas, se entrega de tal forma que quase não reage mais. Nesse caso, a responsabilidade é considerável, mas a vontade foi sendo aprisionada por ela mesma. E existe a ilusão de uma eliminação completa do livre-arbítrio, onde o ser humano seria um marionete sem opções, e isso eu não afirmo, pois, se ele não possui vontade alguma, não há como responsabilizá-lo. O que a tradição retrata sobre o Anticristo é uma manifestação extrema do segundo grau: um indivíduo que se entregou de tal forma que o inimigo atua nele quase sem oposições, sem que isso elimine a escolha inicial que o colocou nessa situação.

A proposta para o final dos tempos é invariavelmente a mesma: a crença singular. Unir todas as religiões em uma só, retirar de cada uma o que possui de específico e autêntico, fundir tudo em uma mistura onde não existem mais dogmas nem fronteiras, e colocar, no centro, um ser humano a ser venerado como se fosse um deus. Foi isso que a teosofia sempre almejou, e foi o que algumas sociedades proliferaram por trás dos totalitarismos do século, onde o líder era venerado quase como um messias — presenciamos situações muito semelhantes a essa no nazismo, em que a sociedade exaltava o Führer como se fosse um salvador, e havia, por trás disso, uma ideia teosófica promovendo a mudança de fé de forma gradual; Hitler representou um exemplo disso, Stalin outro, e todos os ditadores autoritários buscavam o mesmo objetivo: amalgamar todas as religiões em uma só e impô-la, seja pela conversão lenta ou pela força do Estado. É a mesma gnose política que Voegelin abordou, a busca pela imanentização do escaton. E é exatamente o contrário do que a verdade provoca. A verdade tem a capacidade de distinguir, separar e nomear: isso é o bem, aquilo é o mal, isto é Deus, e aquilo é criatura. A diluição teosófica elimina as diferenças, e eliminar as diferenças é o trabalho favorito do adversário, pois em um mundo sem distinções, a mentira derradeira é apresentada como emancipação. O Anticristo não entra de forma abrupta; ele se apresenta como a síntese de tudo que já desfez as diferenças, sendo oferecido a uma humanidade que já não consegue mais discernir o que é verdade.

Por que homens com autoridade se empenhariam em algo assim? Eu respondo com a lógica que lhes atribuo, e não com o conhecimento da essência de ninguém. Existem pessoas que, desde a infância, são instruídas a venerar essas forças, e para elas, deixar esse universo é quase inimaginável, pois é o único que conheceram, assim como o quimbandeiro que adora o diabo desde pequeno e não consegue se desligar dele. Há uma lógica gnóstica mais profunda: para o gnóstico, o deus deste mundo é um demiurgo maligno, enquanto o verdadeiro deus, que é bondoso, se encontra fora deste mundo, no pleroma. Cultuar esse deus externo — que, na minha interpretação, é na verdade o próprio inimigo disfarçado — e empenhar-se para sua vinda é, para ele, libertar a realidade do carcereiro e finalmente tornar-se, em um sentido metafísico, o senhor dela. Trata-se de um projeto teológico de abordagem inversa, cuja seriedade é evidente, e não se resume a uma mera avareza. O adversário oferece a esses homens exatamente aquilo que já havia prometido desde o início: faça o que desejares, serás como deuses. É a mesma falsidade de sempre, disfarçada de uma iluminação moderna e inovadora.

É exatamente nesse ponto que a lógica do adversário falha. A argumentação dele é de que a humanidade é indigna e acabará se destruindo por conta própria, por escolha própria, sem deixar um justo. É por essa razão que ele não utiliza a força para exterminar: a força invalidaria o argumento. O que a consumação revela é que a tese não se mantém — que, mesmo diante de toda a liberdade, de todas as tentações e de todo o reino da idolatria, ainda permanece o justo, o fiel, a fruta madura na árvore. A conexão entre a liberdade do ser humano e a providência de Deus deve ser abordada com cautela, a fim de evitar o risco de se tornar uma heresia. Deus concede a liberdade, e ela é verdadeira: você realmente tem a escolha entre o galho e a tesoura. E Deus, respeitando essa decisão, guia o curso da história rumo ao resultado que desejou. Isso não transforma as pessoas em simples marionetes, e não implica que Deus aprove moralmente cada crime apenas por sustentar a vida de quem o comete. É fundamental distinguir três aspectos: a autorização do mal, que Deus concede sem desejar o mal; a causalidade criadora, pela qual Deus mantém a existência até mesmo de quem comete pecados; e a responsabilidade do ser, que é completamente sua. Deus não deseja o crime; Ele sustenta o criminoso em sua existência e permite que ele escolha livremente seus atos, extraindo dele, por meios que lhe são próprios, um bem maior do que aquele que o criminoso imaginava. A comparação do mestre que guia uma partida até o final só é válida se considerarmos que, nessa partida, as peças representam pessoas livres. E a vitória de Deus não consiste na supressão da liberdade delas, mas sim na sua inclusão em um bem que as transcende.

A razão principal pela qual o adversário não consegue assegurar seu resultado é clara e definitiva: para controlar todas as condições da realidade, como Deus faz, seria necessário estar além de toda a realidade, seria preciso ser a própria base de tudo. Em outras palavras, seria necessário ser Deus. E o adversário é uma criatura. Ele joga sobre o tabuleiro; ele não é o próprio tabuleiro. Você pode inundar o mundo com ovos, pode moldar a mentalidade de gerações, pode estabelecer seu reino de idolatria, pode erguer seu rei nefilim — mas não pode assegurar que não restará um justo, porque o desfecho não lhe pertence. Se você lhe pertencesse, ele seria o Criador, e toda a sua indignação seria em vão. Esse é o limite que nenhum poder, nenhuma legião, nenhum anticristo pode transpor. E é por essa razão que, ao final, o reino do Anticristo não representa o último capítulo. O capítulo final é a colheita — e com ela a palavra que deu início a este livro retorna, pela última vez, imbuída de tudo o que foi discutido ao longo do texto, para transmitir o que realmente precisa ser dito.

Quando essa membrana metafísica deixar de existir completamente — quando a ânsia do homem de ver cada vez mais, de ter controle sobre essas criaturas, dilatar de maneira tão intensa a separação que o alto e o baixo se fundam no real simultaneamente —, é aí que se inicia o verdadeiro fim dos tempos, e as coisas mais horrendas acontecem. Entidades começam a se manifestar de uma maneira que ninguém consegue compreender: de repente, a pessoa está caminhando, surge uma criatura de outra dimensão e a mata, e logo após a criatura desaparece, e ninguém consegue entender, e rapidamente todos se esquecem, porque nós, quando não temos fundamentos, agimos como ovelhas. Vai começar a desaparecer pessoas aleatórias. A perseguição se aproximará e causará a morte de muitas pessoas — e, na minha interpretação, o próprio poder estabelecido começará a matar, pois o reino que se fortalece no final é o reino da idolatria, e a idolatria sempre exige sacrifícios. Não estabeleço uma data para isso, e não o faço porque quem define uma data costuma mentir; o que afirmo é que o nível de desgaste é o indicador, e que esse nível depende, em grande parte, das ações do próprio homem em relação à porta que apenas ele tem a determinação de arrombar.

E, no meio de tudo isso, aparece ele, o rei nefilim, o Anticristo, trazendo consigo o pico da perseguição, o momento em que as situações mais horripilantes descritas neste livro parecerão apenas uma introdução. Por enquanto, estamos apenas passando pelos primeiros tremores, os sinais iniciais; mais adiante, a situação se agrava, realmente se torna mais grave. Mas é exatamente neste ponto mais sombrio que a lógica do adversário se desmorona pela última vez, pois sua teoria — a de que a humanidade se autodestruirá por completo e não restará um justo — não se sustenta diante do fato de que sempre permanece, invariavelmente, o fiel, o fruto maduro, o galho que não foi podado. Ele pode romper a membrana, pode liberar os seus pesadelos, pode levantar o seu rei; não pode assegurar que a colheita termine vazia, pois o resultado não é seu, e quem não é Deus não controla o desfecho. Por essa razão, o apocalipse, por mais assustador que seja, não representa a última palavra deste livro. A palavra que encerra é a mesma que iniciou, agora repleta de tudo que foi vivido entre os dois momentos — e não é temor, é fé.

Eu já tinha alertado desde o início que isso soava como uma história de terror, e soava assim porque realmente é. Nós descemos até os sete príncipes do inferno, até os basiliscos que, na imaginação recente, passaram a habitar a arte, até os gigantes do Gênesis, até os gritos metálicos em um campo vazio após a colheita, até os objetos que a aeronáutica não consegue explicar, até o rei nefilim que virá. Percebeu o demônio se apresentando como uma mosca e como um macaco divino, observou a ficção se manifestando na realidade, percebeu a anatomia da destruição e o doce de abóbora que o teimoso afirma não ser abóbora. Em certo momento da jornada, a tentação gnóstica pode ter soado plausível — a de afirmar que o mundo é uma prisão, que a matéria é uma calamidade, que seria preferível que nada disso existisse. Eu escrevi para demonstrar que não. E a evidência é a árvore.

Pois, sob toda essa crueldade, a verdade é que você é um sonho que Deus optou por manter, uma fruta numa árvore que Ele nutre a todo momento, e a sua única vulnerabilidade em relação ao mal é o galho que foi aparado. O inimigo é muito antigo, astuto, concreto — porém é uma criatura, é uma mosca, e o poder que ele exerce sobre você depende de algo que está em suas mãos, e não nas dele. O galho representa a esperança: a conexão vital com a Fonte, a seiva que flui em ambas as direções. Ao preservar o galho, nenhuma larva sobrevive, e o buraco que a vida inevitavelmente faz em você se fecha, e a cicatriz se desenvolve. Não posso afirmar que aqueles que possuem esperança nunca enfrentem sofrimento; isso seria uma mentira cruel, e este livro foi escrito para combater as mentiras cruéis. A esperança não é um talismã que proteja da dor, nem uma barreira mágica contra o sofrimento. Ela representa o lugar onde a dor não prevalece, a convicção de que o sofrimento, por mais intenso que seja, está sendo transformado em algo que o transcende.

E porque ela não é um amuleto, mas sim uma responsabilidade. A esperança cria oportunidades para viver, para procurar apoio nos momentos difíceis, para zelar por aqueles que estão próximos, e para recomeçar sempre que necessário. Ela se desgasta em pequenos gestos: na pessoa a quem você insiste em amar, na bondade que você pratica sem esperar nada em troca, na verdade que você se recusa a distorcer, mesmo quando isso seria mais fácil. É dessa maneira que a semente é semeada na terra, muito antes de ser cultivada no céu. E é por isso que eu sou tão cauteloso em relação ao encantamento pela destruição, com essa visão que se satisfaz em encarar o abismo até que ele olhe de volta: não porque a escuridão não esteja presente — ela está, e é pior do que você consegue imaginar — mas porque encarar isso sem um apoio seguro é como entregar a própria fruta à mosca voluntariamente. O verdadeiro terror é aquele que nos faz reavaliar a vida, trazendo um maior temor a Deus e um desejo genuíno de fazer o bem; o que não se enquadra nisso é apenas o prazer pela própria ruína, camuflado sob a aparência de clareza.

Não estabeleço prazos, nem afirmo quando o Sol irá surgir, pois essas certezas não me pertencem, e aqueles que as comercializam estão vendendo medo ou ilusão. Contudo, faço essa declaração e encerro com ela: o bem perdura, pois é a essência de Deus, enquanto o mal, por mais horrendo que possa parecer, é apenas uma ausência, um parasita, uma mosca — não possui realeza própria, não estabelece nada, nem assegura qualquer coisa. A árvore permanece ereta, brilhante, sustentada por Deus, aguardando a colheita. Entre a esperança que sustenta a realidade e o ódio que tenta desmantelá-la, a batalha do imaginário se define, em cada ser, em um ponto minúsculo como uma semente e robusto como uma raiz. Preserve a semente. Molhe o ramo. Permita que a fruta amadureça. Aquele que mantém a esperança até o final não estará aguardando a escuridão, mas sim a luz do Sol que está a caminho. Pois, quando esse dia chegar, quem estiver vivo não precisará morrer para encontrar Cristo — ele O verá ali, em carne e osso, no momento certo, e reconhecerá, no rosto que desce do céu, aquele que todas as representações deste mundo apenas anunciavam. Neste momento, vamos aguardar. Mas aguarde como quem já percebe que, no fundo de toda noite, existe um Sol que ninguém pode apagar, e que, ao final, haverá de reunir em sua totalidade o que a esperança manteve vivo.

Referências

BÍBLIA. Antigo e Novo Testamento. [Passagens citadas: Gênesis 6; Salmo 137(136); Atos 17; Apocalipse 21.]

IGREJA CATÓLICA. Catecismo da Igreja Católica. [Parágrafos citados: 391 e 395, sobre a condição criada e os limites do poder de Satanás; 632 a 635, sobre a descida de Cristo à mansão dos mortos; 2280 a 2283, sobre o respeito à vida.]

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco.

TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.

AGOSTINHO DE HIPONA. A Cidade de Deus.

LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Monadologia; Ensaios de Teodiceia.

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CHAINMAIL CHASERS. [Websérie de analog horror e jogo de realidade alternativa publicada no YouTube a partir de 2022; tratada neste livro como obra de ficção.]

ESTADOS UNIDOS. Office of the Director of National Intelligence. Preliminary Assessment: Unidentified Aerial Phenomena. 25 de junho de 2021.