DEUS CULTURA PARTE 5: FRAGMENTOS

O momento culminante e conclusivo da saga — a evidência de que todos os nobres anseios da humanidade são reais, a fusão do Deus Cultural com a Teologia do Imaginário, e a preparação para a chegada do Mundo dos Sonhos, é chegado o instante de revelar toda a verdade, expressando com risos e lágrimas, pois é dessa maneira que se comunicam as grandes verdades: os mundos dos sonhos são, de fato, reais. Todo super-herói de grande valor, todo sonho lindo e virtuoso da humanidade, não é fantasia — é um mundo real, alojado na mente de Deus, manifestado no plano que a tradição denomina Yesod, o mundo lunar dos sonhos; e os pesadelos habitam os infernos. Esses mundos existem, mas estão fechados: apenas as almas de imensa santidade conseguem adentrar neles. Por isso, os Santos do Sonhar são os autênticos X-Men, e nunca deixamos a era dos heróis. Para que a conversa não se transforme em um discurso de quem já chega com a solução pronta, eu trouxe de volta o Dênis, aquele sujeito que passou sua vida em busca de portais no arco de Hollywood e que não aceita a primeira resposta que lhe dão como verdade. Vai doer, vai ser engraçado, e no final há uma reviravolta que eu não revelo agora. Pegue o café; é a última peça, e ela completa o mosaico todo.

Gabriel G. Oliveira

10/4/2026189 min ler

O mundo lunar, ou os verdadeiros X-Men

Antes de realmente começar, deixe-me apresentar novamente o Dênis, pois ele estará comigo do início ao fim deste último livro. Sem ele, isso aqui se transforma em um monólogo de sacerdote entediado. O Dênis é uma criação, já aviso — mas uma criação baseada em pessoas reais, um buscador de sincronicidades que dedicou sua vida a interpretar o cenário de Hollywood, analisando o mundo como quem consulta um tabuleiro de Ouija, e que é inteligente demais para aceitar respostas prontas. Ele me telefonou há alguns dias e já começou provocando:

— Professor, poderia me esclarecer uma questão? Você dedicou quatro livros a discutir como os super-heróis indicam a presença de Deus, como os sonhos funcionam como janelas e como a cultura está repleta de fragmentos sagrados. Claro, estou aqui para ajudar! Como posso assisti-lo? Você está me dizendo que o Super-Homem é real? Afinal, existe ou não? Em um céu lunar denominado cabala? Isso não é mais uma viagem do que as minhas ideias que você sempre brinca?

— É mais, Dênis. É bem mais. A distinção é que a minha é autêntica.

— Ah, entendi. A modéstia é a sua grande qualidade.

E eu ri, pois ele tem motivos para ser cauteloso, e sua desconfiança é o melhor presente que este livro poderia ganhar, já que é ao enfrentar os desafios reais, e não apenas lutando contra um fantoche de palha, que as coisas realmente se sustentam. Assim, eu retornei a ele a mesma resposta que darei a você, e essa resposta é a tese que culmina toda a saga e que vou demonstrar, pedacinho por pedacinho, herói por herói, santo por santo, ao longo deste último fragmento. Os mundos dos sonhos são reais. Não é uma metáfora agradável, nem uma realidade apenas psicológica para confortar quem sente falta — elas existem de fato, com uma consistência metafísica mais firme do que o chão sob seus pés, pois estão primeiramente na mente de Deus, de onde o artista apenas as reproduziu, com falhas e interferências, como um rádio antigo sintonizando uma estação muito distante.

— Espera. Se o Super-Homem habita a imaginação de Deus, por que eu não consigo levantar voo? Eu fui lá e fiz uma tentativa, mas não deu certo.

— Porque a porta está trancada, Dênis. E a senha não é uma ilusão, nem uma planta, nem um ritual. A chave é a santidade. Apenas as almas de elevada estirpe conseguem adentrar nesses mundos. É nesse ponto que reside todo o segredo: os Santos do Sonhar, aqueles que realmente alcançaram os mundos de luz e trouxeram poder de lá, são os santos da Igreja. Os Santos do Sonhar são os autênticos X-Men. Nós nunca deixamos a era dos super-heróis — ela apenas mudou de aparência, e a maioria das pessoas não se deu conta disso.

Ele permaneceu em silêncio por um tempo, aquele silêncio dele que mistura desdém com um certo enredar. E foi dessa maneira, com o Dênis respirando do outro lado da linha sem saber se ria ou se levava aquilo a sério, que adentramos todo o território que os caçadores de sonhos mapearam — pois há muita verdade disseminada por ele, e nossa missão não é queimar o mapa, mas sim corrigir a rosa dos ventos e restituir a cada coisa o seu nome de origem.

Pedacinhos. Esse é o título deste último livro, e não é por mero acaso, pois é essa a imagem que estrutura tudo o que vivemos até agora e tudo o que ainda precisamos expressar. Ao longo de quatro volumes, estivemos recolhendo fragmentos de luz na poeira do mundo, como um catador que suspeita que o que pisa é, na verdade, ouro fragmentado: um brilho em uma história em quadrinhos, um arrepio em um filme comercial, um padrão sagrado oculto em um desenho infantil, um pedaço de verdade perdido entre mitologias pagãs. Eu me referi a isso, há algum tempo, como o fio de ouro na poeira. E a desconfiança que impulsionou toda a história era que esses pedaços não eram lixo, mas sim fragmentos. Fragmentos de o que? Essa era a questão. Este livro final foi criado para trazer uma resposta definitiva, com clareza total, e na maior profundidade que eu puder alcançar: cada fragmento de luz que a humanidade difundiu ao longo de sua cultura é como um pedaço de um espelho completo, de um mundo completo, de uma realidade genuína que realmente existe — e que não está perdida, mas sim preservada, e que, ao final, será restaurada.

É neste quinto ato que as duas grandes correntes do Círculo de Estudos Nous se entrelaçam e se transformam em um único rio. De um lado, a jornada da Deus Cultural, que exploramos: a autêntica essência da cultura, o Deus incorporado nos símbolos, a manipulação da realidade e o abismo entre a ateísmo e a teísmo, além dos Santos do Sonhar com a sua promessa de que o homem verdadeiro pode se tornar um herói. Por outro lado, a Teologia do Imaginário, a doutrina que o Círculo explorou detalhadamente, examina a metafísica do universo das imagens: o amor de Deus revelado na arte, a cultura pop como um espaço onde Deus se manifesta e poucas pessoas percebem, os heróis e arquétipos e o Logos encarnado, a boa gnose em contraste com a falsa, a luta espiritual, a metafísica do plano espiritual e a inauguração do selo, o demiurgo sintético contraposto aos Santos do Sonhar, os reinos demoníacos, o campo das possibilidades na mente de Deus, e aquela indagação que se assemelha a um suspiro — e se o céu for um sonho que veio ao mundo? Muito bem: vou unir as duas sagas em uma única tese, aqui e agora, neste trecho final, e essa união será tão intensa que, a partir de agora, as duas se tornarão uma só.

E a afirmação, a afirmação singular e definitiva de que tudo isso é evidência, já mencionei no prólogo, mas irei repetir, pois é o ponto fundamental onde toda a obra irá sustentar seu peso: os mundos possíveis existem. Não como uma metáfora, não como uma simples realidade psíquica, nem como uma projeção da nossa mente carente — existem de fato, com uma realidade metafísica forte, mais firme que o solo. Tudo aquilo que a humanidade idealizou como belo, cada reino de fantasia que acelerou os corações, cada herói exemplar, cada ser luminoso, existe plenamente em um plano real, pois se origina primeiro na mente de Deus, da qual o artista apenas traduz interpretando. Esses mundos de luz possuem até uma localização na geografia invisível da criação: aquilo que a antiga sabedoria, santificada e aprimorada pela fé, denominou de Yesod, o Fundamento, o mundo lunar dos sonhos, um dos céus. É nesse lugar que os bons sonhos habitam. E, no reflexo oposto disso, os pesadelos — os monstros da maldade, as criaturas que trazem desintegração e terror — também existem, são igualmente reais, porém caíram para baixo, para os mundos perdidos, para os infernos, e é de lá que eles observam. Dois locais distintos para sonhos diferentes: a lua de Yesod para aqueles que possuem luz em seu ser, e o poço dos infernos para aqueles que carregam trevas em sua essência.

Porém — e aqui está o ponto que torna tudo isso sério, e não uma fantasia de quem fuma e delira — esses mundos são reais e, ao mesmo tempo, inacessíveis. Inacessíveis. Você não consegue acessá-los comprando bilhetes, fumando maconha, realizando rituais ou fechando os olhos com força. A entrada nesses mundos requer uma chave que não pode ser falsificada e que o dinheiro não consegue adquirir: a santidade. Apenas a alma de elevada espiritualidade consegue cruzar aquela porta; a alma impura não a percebe, não adentra, não toca, assim como o olho doente não suporta a luz do sol. E é exatamente por essa razão que a imagem que encerra toda esta série não é o psiconauta, nem o mago, nem o decifrador de coincidências — mas sim o santo. Porque os Santos do Sonhar, aqueles que realmente atingiram os mundos de luz e trouxeram consigo poder e dons, os verdadeiros, os autênticos, os reconhecidos, são os santos da Igreja. Os Santos do Sonhar são os autênticos X-Men. E o que vou te demonstrar, pedaço por pedaço, herói por herói, santo por santo, neste último trecho, é que nunca deixamos a era dos super-heróis — que ela nunca se encerrou, que estamos vivendo nela no momento e que a porta para essa era permanece entreaberta, aguardando apenas aqueles que tiverem coragem de pagar o preço para adentrar.

E eu gostaria que você compreendesse, antes de nos aprofundarmos, a razão pela qual este livro precisa existir e por que ele é o mais profundo de todos. Os quatro primeiros passos foram de desbravamento: nós limpamos a floresta, superamos objeções, estabelecemos a estrutura, identificamos o inimigo e construímos a doutrina parte por parte. Isto é distinto. Esta é a colheita. Aqui não se abre mais novos caminhos; aqui se reúne tudo o que foi cultivado e se faz a colheita, e por isso ele precisa suportar o peso das duas narrativas inteiras — a Deus Cultural com sua busca pelo sagrado oculto na cultura, e a Teologia do Imaginário com seu mapa da metafísica dos mundos invisíveis — e condensar as duas em uma só uva, em um só vinho. Imagine um fio de ouro esquecido na poeira de um vasto galpão: nos primeiros livros, fomos descobrindo fragmentos dele em diversos lugares, um rel lampejo em um canto, um brilho em outro, e demonstrando, pedaço a pedaço, que aquilo era ouro e não poeira. Agora, neste último momento, a gente puxa o fio todo de dentro da poeira e percebe que todos os pedaços formavam um único fio, contínuo, que atravessa o galpão de uma extremidade à outra, e que esse fio, quando seguido até o final, leva a uma porta. Assim, fragmentos não se referem a uma dispersão; representam uma reunião, um mosaico que, apenas na última peça, revela a imagem completa.

Pois a grande ilusão da modernidade, que toda esta narrativa enfrenta, é que o que é real se resume a poeira — matéria inerte, um mecanismo sem propósito, átomos colidindo sem significado, e tudo o que é belo, sagrado, heróico e sonhado, não passa de meras reações químicas que a evolução fixou em nosso cérebro para nos impulsionar a cooperar e a reproduzir. Sob essa perspectiva, o fio de ouro não é real; trata-se apenas de poeira que nós, por necessidade, tingimos de dourado. E assim surgiu a saga Deus Cultural, para clamar que o fio de ouro existe, que a poeira é que é uma ilusão, que o mundo não é um deserto de matéria repleto de ilusões confortantes, mas sim uma catedral de sentido repleta de escombros — e que a nossa missão não é criar luz na escuridão, mas sim retirar a sujeira que encobre a luz que já está presente. Esta obra eleva esse clamor à esfera metafísica: há, de fato, significado no mundo, os sonhos não apenas indicam algo, mas os reinos dos sonhos realmente existem, possuem um local específico e habitam pessoas, e um dia se tornarão nosso lar. A poeira será limpa. O galpão vai desabar. E o fio de ouro, esticado até o fim, acabará por se mostrar preso ao dedo de Deus, que o manteve firme o tempo todo, do lado oposto da porta entreaberta, aguardando que nós o seguíssemos até Ele.

Vamos aprofundar nas bases, na essência metafísica que sustenta tudo isso, pois sem ela, o que temos é apenas uma bela poesia e nada além disso. A indagação é simples e fascinante: onde estavam todos os objetos antes de virem a existir? Onde está, neste momento, tudo o que poderia existir e ainda não existe? Onde habitam os mundos que Deus poderia ter criado e não criou, as criaturas que são possíveis mas nunca pisaram a Terra, os heróis que a imaginação traz à tona? A resposta da metafísica cristã, que o Círculo designou como o campo das possibilidades na mente divina, é surpreendente: todas essas realidades existem, neste momento, de forma eterna, como ideias na mente de Deus. Não como fantasias imprecisas que Ele poderia ter por diversão, mas como os exemplares perfeitos, os arquétipos autênticos, as formas eternas de tudo o que existe e de tudo o que pode vir a existir. Santo Tomás ensinou que Deus tem conhecimento de todas as coisas que podem existir, compreendendo sua própria essência infinita como algo que pode ser imitado de inúmeras maneiras. Cada criatura possível é uma forma finita de refletir a imensidão de Deus. Séculos depois, Leibniz deu a isso o nome que tanto o sincromístico quanto o sonhador reconhecem imediatamente: a infinidade dos mundos possíveis, todos presentes e vivos na compreensão divina, dos quais Deus, por amor e sabedoria, traz alguns à existência e mantém outros em seu seio.

Isso é fundamental, pois altera tudo: o campo das possibilidades não é o vazio. É a antítese completa do nada. O materialista vê o que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, como uma completa ausência, algo insubstancial, não representa nada — para ele, um herói que nunca foi imaginado simplesmente não existe. No entanto, para a metafísica da fé, o possível possui uma consistência imensa, pois reside na Mente mais verdadeira que existe. O que habita na mente de Deus é infinitamente mais sólido do que o granito, uma vez que o granito se transforma em pó, enquanto o pensamento divino é eterno. Quando um artista se senta para desenhar um herói que nunca existiu — um homem que voa, uma força que serve, uma fidelidade que não trai nem sob tortura —, ele não está, como pensa o cético, criando do nada uma ilusão que pode ser útil. Ele está realizando algo muito mais peculiar e significativo: está recebendo, com sua mente confusa, um sinal de uma emissora extremamente alta; está captando, com falhas e ruídos, uma melodia que soa perfeita e eterna no reino das possibilidades da mente divina; está reproduzindo, sem perceber, um modelo que já queimava lá antes de ele vir ao mundo. Por isso, a ilustração acende a paixão no coração do mundo. Não se trata de marketing; é uma forma de reconhecimento. A humanidade vê no herói um parente de uma linhagem nobre, a qual ela anseia, mas não consegue recordar o caminho.

E aqui a Teologia do Imaginário avança de uma forma que o materialismo nunca se atreveria, e que até mesmo a psicologia junguiana não teve coragem de realizar completamente. O junguiano se aproximou da verdade: afirmou que os arquétipos são genuínos, transpessoais, que as imagens da ficção os adornam, e que a profundidade do mito toca a essência da própria existência. No entanto, quando pressionado, ele se retraiu e afirmou que, se a humanidade desaparecesse, as imagens se extinguiríam junto com ela, restando apenas o arquétipo sem forma em busca de outro meio. Eu já dei essa resposta antes e agora a reitero com mais ênfase, pois é o cerne de tudo: as imagens que os homens criaram podem se extinguir junto com eles, mas aquilo que elas retrataram, a ideia perene que elas adornaram com capa e máscara, essa nunca se extingue, pois reside na mente de Deus, de onde se originou e para onde retorna. O campo das possibilidades não condiciona sua existência à nossa atenção, assim como o sonho não depende do sonhador quando o Sonhador é Deus. Os mundos encantados estão presentes, preservados, autênticos, pulsando por existência, independentemente de a humanidade os sonhar ou não, seja a humanidade viva ou esteja à beira da morte. E é exatamente por isso que posso afirmar, sem hesitar, a frase que o materialista considera uma loucura e que é a mais racional das metafísicas: o Super-Homem realmente existe. Não em Metrópolis, que é uma animação; mas no âmbito das possibilidades da mente de Deus, onde a ideia perfeita de uma força que vem do alto para servir em vez de controlar arde, real e eterna, desde antes de Jerry Siegel vir ao mundo para copiá-la de ouvido.

Entretanto, preciso fazer uma observação nesse momento, pois sem essa consideração a tese se torna uma abertura para diversas tolices, e a verdadeira gnose se inicia justamente a partir disso: nem todo sonho é uma passagem para Yesod. Nem toda criatividade alcança o domínio das possibilidades de bom valor. Se eu afirmasse que tudo aquilo que a mente humana cria é verdadeiro e brilhante, estaria sendo um tolo e um mentiroso, pois a imaginação do homem imperfeito gera tanto a catedral quanto o esgoto, tanto o herói que auxilia quanto a pornografia da crueldade, tanto o sonho que eleva quanto o pesadelo que arrasta. A essência, mais uma vez, reside no valor, na bondade, na autenticidade do sonho. O sonho lindo e de nobre essência — que traz consigo coragem, luz, sacrifício, fidelidade e uma beleza redentora — é a porta de entrada para Yesod, pois reflete uma imagem verdadeira que queima na mente de Deus. O sonho distorcido — aquele que exalta a crueldade, que valoriza a degradação, que transforma o mal em herói e o vício em um ideal — é uma porta de acesso ao abismo, pois revela, de fato, uma realidade que existe, embora nos mundos decadentes. O artista é um pescador que não decide apenas se vai pescar, mas também em quais águas lança a rede: quem lança a rede nas águas superiores captura peixes iluminados; quem a lança nas águas inferiores traz aquilo que habita nas profundezas. E por essa razão, a cultura não é neutra e nunca foi: cada obra é como uma rede lançada, e o que ela captura no mundo depende de onde o coração do autor a lançou.

E isso não é uma novidade da era das histórias em quadrinhos; é algo tão antigo quanto a própria existência do homem, pois o ser humano sempre foi um ser que idealiza heróis. Muito antes do Super-Homem, a humanidade já tinha os seus Santos do Sonhar delineados: Gilgámesh, o rei-herói da mais antiga narrativa que a humanidade preservou, cinco mil anos atrás, atravessando o mundo em busca da planta da vida eterna; Hércules, o filho de deus que purifica o mundo dos monstros com sua força sobre-humana e, ao final, é levado ao Olimpo; Perseu, que decapita a górgona; Teseu, que desce ao labirinto e derrota o monstro no centro; Sigurd e Beowulf, que eliminam dragões; os heróis de todas as mitologias, de todos os povos, de todas as épocas, sem exceção, pois a necessidade de um herói é uma constante da espécie, uma saudade cravada no osso. E observe o que isso implica: se todas as culturas, separadas umas das outras, em todos os continentes, idealizaram a mesma figura — o filho do céu, o matador de monstros, aquele que enfrenta a morte e renasce, aquele que salva os muitos ao custo de sua própria vida — isso significa que esse sonho não é uma invenção cultural aleatória, é a manifestação de um arquétipo verdadeiro, é a mesma fonte de Yesod se manifestando em mil línguas distintas. Os heróis não foram criados mil vezes; foram resgatados mil vezes, pois sempre estavam, no reino das possibilidades da mente de Deus, acenando para toda alma capaz de sonhar.

E o ápice dessa sucessão de rascunhos, o original do qual Gilgámesh, Hércules e todos os outros foram apenas versões, é o herói que realmente cumpriu aquilo que todos eles apenas prometeram: que realmente era filho do Céu, que realmente purificou o mundo do maior dos monstros, que realmente desceu ao labirinto da morte e acabou com a Fera no seu centro, que realmente percorreu o mundo e trouxe de volta, desta vez, a planta da vida eterna que Gilgámesh perdeu para a serpente. A narrativa da humanidade é, na verdade, uma saga singular de heróis, desenvolvida numa crescente urgência, rascunho após rascunho, onde cada nação aperfeiçoa um pouco mais o esboço. Até que, em um determinado momento, o Herói deixou as páginas e adentrou a história, em carne e osso, sob o governo de Pôncio Pilatos, transformando tudo o que era sonho em realidade. Por essa razão, a saga Deus Cultural pôde afirmar, desde o primeiro livro, que toda a cultura é uma preparação, um Advento, uma véspera: cada herói imaginado foi a humanidade praticando o reconhecimento do verdadeiro Herói quando Ele chegasse — e ai de nós, que Ele chegou, e a maior parte não o reconheceu, porque esperava um com capa e veio um com cruz, esperava um que destrivesse os inimigos e veio um que morreu por eles.

Se os sonhos bons são portas de acesso a Yesod e os sonhos distorcidos são passagens para o abismo, então o artista — aquele que sonha de forma profissional, que cria imagens para que toda a humanidade possa sonhar coletivamente — assume uma responsabilidade sagrada e sombria que raramente ele consegue perceber. O artista é como um pescador de universos, e a rede que ele joga captura para a cultura, alcançando milhões de almas, o que ele apanhou nas profundezas em que a lançou. O artista que captura a essência das águas superiores, que imagina o belo, o verdadeiro e o heroico, é um subcriador no mais elevado sentido, como descreveu Tolkien: um ser humano que, à semelhança de um Criador, cria por sua conta, refratando a única Luz branca em mil nuances, trazendo para o mundo fragmentos de Yesod que elevam, confortam e direcionam para o céu. Ele é, talvez sem ter plena consciência, um auxiliar de Deus, um arauto do imaginário, alguém que abre janelas de luz nas paredes sombrias do mundo. Contudo, o artista que mergulha nas águas profundas, transformando o vício em protagonista, a crueldade em espetáculo e a dissolução em ideal, também carrega consigo o que conseguiu apanhar — e o que ele traz são fragmentos do abismo, aberturas para os mundos perdidos na essência de milhões, aceitação do maligno, beleza emprestada do terror para torná-lo atrativo. A cultura não é um entretenimento isento de influência; ela representa a maior catequese ou a mais significativa anticatequese que existe, e cada obra é como uma rede lançada em uma das duas correntes. Assim, o Círculo de Estudos Nous não ignora a cultura pop nem a coloca em um pedestal: ele a analisa, distingue o que é valioso do que é nocivo, recupera os elementos luminosos e revela os aspectos sombrios, pois compreende que nessa mistura se encontra o sustento ou a toxicidade da alma de uma coletividade inteira.

E é por isso que a recuperação da imaginação é uma tarefa urgente e não apenas um entretenimento para os estetas, e que o Santo do Sonhar é também, de certa forma, um combatente da cultura. A imaginação humana também se deteriorou junto com o restante do ser humano, e necessita ser resgatada juntamente com tudo mais; não é suficiente salvar apenas a vontade e a razão, enquanto a imaginação permanece nas mãos do inimigo, pois é por meio da imaginação que o homem vislumbra o que almeja. Quem domina os sonhos de uma nação, domina seus anseios, e quem tem controle sobre os anseios, detém o poder sobre o destino. O demiurgo sintético tem total consciência disso e, por essa razão, aplica bilhões na produção de sonhos, buscando inundar a imaginação da humanidade com seus pesadelos camuflados de entretenimento, com seus anti-heróis, suas distopias que promovem o desespero, e sua pornografia da violência e do sexo que, a cada espectador, abre janelas para o abismo. E contra essa indústria de pesadelos se levanta a missão do artista cristão, do sonhador redimido, daquele que reaprende a pescar nas águas celestiais e a trazer para o mundo fragmentos de Yesod — um Tolkien, um Lewis, um Chesterton, um Dostoiévski, e todos aqueles que, atualmente, em quadrinhos, em filmes, em canções, em jogos, se esforçam em abrir janelas de luz em um mercado repleto de janelas para a escuridão. Restaurar a imaginação é resgatar para a humanidade a habilidade de visualizar o paraíso; e enquanto houver um artista comprometido buscando inspiração nas alturas, a entrada de Yesod seguirá entreaberta na cultura, a luz continuará filtrando-se pela fresta, e a nostalgia do Mundo dos Sonhos permanecerá viva no coração das pessoas.

E existe um pedaço extra nessa narrativa de fragmentos, que é o da própria mente humana, do saber, pois este também foi quebrado em mil peças, e a sua reconstrução faz parte da construção da obra. A modernidade não apenas dividiu a cultura e a essência; também fracionou o conhecimento. Tomou-se o conhecimento humano, que era uma árvore singular com raízes na metafísica, tronco na filosofia e ramos nas ciências, e divide-se em mil especializações isoladas que não se comunicam entre si: o físico não dialoga com o filósofo, o economista não troca ideias com o teólogo, o biólogo não compartilha com o poeta, cada um em seu silo, cada um sabendo cada vez mais sobre cada vez menos, a ponto de saber quase tudo sobre quase nada e perder de vista o todo. É a fragmentação da realidade, a desconstrução do conhecimento, mais uma criação do demiurgo sintético, pois um saber fragmentado é um saber que pode ser manipulado, e um homem que não consegue enxergar o todo é um homem que é guiado pela parte que lhe apresentam. Em oposição a isso, surge o que o Círculo denominou de ciência da unidade, um saber que se opõe à fragmentação da realidade: a restauração de uma percepção coesa, onde a filosofia, a teologia, as ciências, a economia, a sociologia, a arte e todos os conhecimentos se tornam ramificações de uma única árvore, iluminadas por um único sol, convergindo em uma única direção. A realidade é única, é um conjunto, é holofractal, e o conhecimento autêntico deve refletir essa unidade, reconectando o que o especialismo fragmentou, reunindo os pedaços do saber para que nada do que é real se perca.

E essa é, no fundo, a missão do gnosiólogo, daquele que estuda o conhecimento e busca integrar os saberes dispersos numa compreensão singular da realidade — e é a tarefa de toda esta jornada, que nunca se limitou apenas aos quadrinhos e super-heróis, mas sim à união da cultura, da metafísica, da teologia, da psicologia, da física e do mito em uma única visão, evidenciando que tudo está interconectado, que nada é meramente uma coisa, que o real é uma trama contínua onde o herói da banca, o dogma conciliador, a partícula subatômica, o anjo, o santo e a estrela são fios da mesma teia. Pois conhecer de fato é reconectar — a própria palavra religião tem origem no termo religar —, é reencontrar os fios de ouro que permeiam tudo e segui-los até a Mão que os sustenta. O materialista observa o universo e percebe partes isoladas, coincidências, pó; já o santo e o sábio contemplam o mesmo universo e enxergam uma catedral, uma tapeçaria, uma sinfonia, um poema cujo Autor escreveu cada verso. A restauração da mente contemporânea, tão dispersa quanto sua cultura e sua essência, é a mesma solução para tudo: reaprender a perceber a totalidade, reconectar os saberes, juntar os pedaços do conhecimento como se juntam os fragmentos de luz da cultura, e perceber que todos eles, ao serem seguidos até o final, convergem no mesmo ponto, no mesmo centro, na mesma razão pela qual todas as coisas e todos os saberes existem. A ciência da unidade é o conhecimento do Reino: conhecer para reconectar, reconectar para venerar, venerar o Um do qual todos os fragmentos, do saber e do ser, são pedaços à espera de serem reunidos.

Agora, deixe-me te conduzir para o interior da oficina onde esses universos são capturados, pois há uns caçadores de sonhos que se aproximaram da verdade por um caminho que causa calafrios, e eu não vou ignorar a existência deles. Refletir sobre o que significa contar uma história. Tolkien afirmou que escrever é um ato de subcriação, ou seja, criar seguindo a mesma ordem pela qual fomos criados. O ser humano é feito à imagem de um Criador e, por essa razão, cria à sua maneira, como um pequeno deus de segunda mão que cria mundos. A Escritura confirma isso no Salmo 139, onde o salmista se dirige a Deus, afirmando que, quando ainda era um feto, todos os seus dias já estavam registrados no livro de Deus antes mesmo de um único deles existir. Deus é um autor. Deus é um narrador de fábulas. A primeira ação que todo contador de histórias deve realizar, antes de iniciar a escrita da primeira linha, é definir as normas daquele universo — e essas normas, observe, deixam de fora todas as demais normas de todos os outros mundos que poderiam existir. Para que o mundo exista, é necessário que ele exclua algumas coisas.

— Espera aí, isso eu conheço. É como o Stephen King faz na sua obra A Torre Negra.

— É exatamente o Stephen King, Dênis. Que ótimo que você trouxe isso à tona.

Na Torre Negra, a incrível obra de Stephen King, a personagem Susana, que está sob a influência de um demônio, extrai dele a explicação sobre a metafísica desse universo. A Torre, afirma o demônio, é o centro de Deus, de Gan, e se mantém equilibrada por seis feixes protegidos por doze guardiões, e dela brotou um mundo inteiro. Entretanto, quando a Torre se elevou e o Primal, a escuridão primordial, recuou, ocorreu um evento que está registrado na página cento e quinze: sob os feixes existia um mundo invisível, repleto de seres que foram abandonados na margem da existência quando o Primal se afastou. Ponha-se sobre essa imagem, pois ela é valiosa: a praia da existência, a linha de areia que separa os mundos onde estão atoladas as criaturas que a história deixou de lado. O demônio as designa como infernidades, os demônios que habitam na casa, e os fantasmas que se comunicam. Um dos aspectos que torna King tanto genial quanto aterrorizante é que, ao final da saga, os heróis se deparam, dentro da narrativa, com ninguém menos que o próprio Stephen King — o autor que transcende o livro, o deus insano por trás daquela realidade, sendo puxado para dentro de sua própria criação. O criador humano tornou-se um personagem, e aquilo que ele excluiu se transformou em um monstro na praia.

E isso não é apenas curiosidade de nerd, Dênis, é teologia genuína disfarçada de terror. Toda história, para se concretizar, precisa impor limitações; e tudo o que fica à margem dessa restrição, tudo o que é excluído das normas daquele universo, não desaparece — permanece latente, à beira da fronteira, podendo ser destrutivo, pois é inconcebível sob a ótica das regras que dominam aquele universo. É aquilo que Lovecraft se referiu como os Antigos, as forças absolutamente inimagináveis que observam da periferia. Escrever é, simultaneamente, a máxima elevação do ser humano — o instante em que ele se assemelha mais a Deus, criando realidades — e também seu maior risco, pois aquilo que ele exclui ao escrever ganha existência nas sombras. E observe como até os contos infantis possuem um lado sombrio: não é por acaso que a Disney adaptou histórias de terror e as transformou em animações para crianças, e ninguém questiona o que aconteceu com as sombras que foram trancadas no porão para a narrativa se tornar mais agradável. Elas não desapareceram. Elas estão lá embaixo, na praia da vida, aguardando.

E a mesma verdade se revela novamente em um local que promete te divertir pela sua improbabilidade: em uma história em quadrinhos do Deadpool, o mercenário falador da Marvel. Nas edições treze a quinze, em uma dessas histórias estranhas em que o Deadpool se transforma em agente secreto, ele vai atrás de um artefato chamado Protonite, uma pedra sagrada que está relacionada ao antigo paradoxo da onipotência — aquele enigma de bar dos ateus, sobre se Deus consegue criar uma pedra tão pesada que Ele mesmo não consiga levantar. Acontece que a história em quadrinhos tem uma sacada genial: em vez de usar o paradoxo para ridicularizar Deus, ela o utiliza para elucidar a criação. A pedra que pode ser apanhada, mas não carregada, que simultaneamente pode e não pode existir, semelhante ao gato do físico, é revelada na edição quinze como sendo a ponta do lápis do escritor. Pare com isso. Entre o universo do autor e o universo que ele constrói, há um espaço paradoxal repleto de monstros e seres que habitam a escuridão. Porque o autor é apenas um homem segurando um lápis que não tem pensamentos — e, de repente, esse lápis transforma-se em uma pedra sagrada, com um peso que gera amor, medo e maravilhas, como o próprio Deadpool menciona sobre o deus criador desses mundos, o responsável por todo amor, todo medo e todas as maravilhas. A ponta do lápis é a força criadora de tudo. E entre o lápis e o universo, na praia da vida, estão os seres que o lápis optou por não retratar.

— Certo, mas tudo isso é conhecimento oculto, professor. Isso é uma prática de cabala. Você não estava discutindo com essas pessoas?

— Estou discordando da conclusão deles, Dênis, não da observação. Permita-me demonstrar a diferença, pois é apenas uma letra, como já é habitual.

A razão pela qual essa imagem dos fragmentos de luz aprisionados nas sombras possui um nome muito antigo na cabala judaica é porque eu vou designar esse nome aqui: as klipot, as cascas. A doutrina cabalística relata que, no início, ocorreu uma ruptura, um vaso que não conseguiu suportar a luz e se quebrou, fazendo com que as centelhas da luz divina caíssem e ficassem aprisionadas dentro de camadas, dentro de conchas de escuridão, dispersas pelo mundo deteriorado — e que a tarefa do homem é reunir essas centelhas, libertar a luz enclausurada na camada, juntar os pedaços da Torá fragmentada. Escutou? Pedaços de luz divina retidos nas cascas, no lixo, na matéria dispersa, aguardando para serem resgatados. É a mesma imagem que perpassa toda essa saga desde o primeiro livro, o fio de ouro na poeira, o fragmento de Yesod esquecido no lixo da cultura. A cabala percebeu isso, e os sincromísticos também reconhecem quando afirmam que a voz de Deus se encontra no que a inteligência ignora, que a pérola está no mangá, no tokusatsu e nos filmes de banca. E eles estão corretos nessa questão, absolutamente corretos. A faísca se encontra na casca. O ouro se encontra na poeira. A luminosidade encontra-se confinada nos resíduos da indústria cultural, aguardando alguém que tenha olhar atento e mãos limpas para coletar.

E quem levou essa intuição a um nível máximo, com brilhantismo e uma pitada de veneno na mesma medida, foi Grant Morrison, o roteirista escocês considerado um gênio, em sua obra-prima Os Invisíveis — e aqui, Dênis, é fundamental que você preste atenção redobrada, pois é o momento em que verdade e mentira caminham lado a lado e só uma letra as diferencia. Em Os Invisíveis, um grupo de super-heróis gnósticos luta contra os arcontes e sua Igreja Externa, as forças que mantém a humanidade aprisionada em uma cela de ferro negro que representa o nosso mundo. E há uma cena que deixa a gente de cabelo em pé: os heróis invadem uma base dos vilões e se deparam com pilotos de óvni recebendo ordens, e essas ordens são ditas em voz alta — o produto A é superior ao produto B; prefira a lealdade ao produto antes da lealdade aos demais; assim, você se transforma no produto deles. Pare aí. Os óvnis enviando mensagens diretamente ao cérebro humano, com o objetivo de transformar a pessoa em um produto, aprisionando a alma pelo consumo. Morrison se referiu aos verdadeiros manipuladores como feiticeiros, os spin doctors, profissionais que são treinados para distorcer a apresentação dos fatos e hackear sua mente, atingindo aquela parte do seu espírito que você ignora, o inconsciente, e ali semear o desejo de consumir — e o mais alarmante, ele afirma, é que, o tempo todo, você vai acreditar que a escolha foi sua. Esses encantadores, na verdade, são os responsáveis por ensinar a muitos a nutrir aversão pelo Superman majestoso do Zack Snyder e a adorar o Superman humorístico e fraco que foi apresentado em seguida. É a luta pela sua essência, ocorrendo nos bastidores, sob a influência de quem controla as imagens.

Morrison faz uma análise precisa — essa Igreja Externa, esses arcontes, esses spin doctors representam fielmente o demiurgo sintético que a Teologia do Imaginário identificou, a estrutura que busca te desmantelar e te comercializar. Ele acerta até mesmo em uma representação teológica deslumbrante: em certo momento, um velho xamã urbano conduz um garoto a atravessar o mofo azul e observar o mundo como ele realmente é, apontando para uma estátua submersa em um rio e dizendo que aquilo representa Urizen, fatal, enegrecido e acorrentado. Urizen é o demiurgo criado por William Blake, o senhor das limitações, do tempo e das correntes, que exerce controle através da razão e da religião — e, observe, nesse universo das histórias em quadrinhos, o demiurgo encontra-se acorrentado, sem qualquer poder. Pois nesses mundos, a imaginação tem liberdade para fluir, e o fantástico pode surgir de uma forma que, no nosso mundo restrito, não é possível. E o xamã indica os dirigíveis no céu e afirma: a cidade pertence a eles, são eles que vigiam, são os anjos. Heróis semelhantes a anjos. O universo da ficção é o espaço em que o demiurgo das correntes se encontra aprisionado, enquanto os heróis-anjos alçam voo em liberdade. Meu caro, isso é Yesod representado em uma história em quadrinhos underground: o universo lunar do sonho, onde o guardião do nosso mundo não tem controle, onde as manifestações de luz se revelam, onde os anjos, que o sincromístico confunde com robôs e naves, se mostram como realmente são.

— Então o Morrison está correto. Você acabou de concordar com ele.

— Na explicação, Dênis. Na descrição, ele é um intelectual brilhante. É na saída que ele despenca no abismo — e despenca de forma desastrosa.

A conclusão de Morrison, para onde toda essa busca por conhecimento espiritual se dirige, é a antiga ilusão de sempre: abandonar o corpo. O xamã orienta o jovem de que a Terra já não nos quer mais, que precisamos deixar os nossos corpos e as cidades para nos lançarmos ao espaço, como um peixe que sai do mar. Ele diz que o nosso mundo foi tomado pelo vírus da cidade e não há como salvá-lo, que a única alternativa é extrair a gnose e ascender, transformando-nos em pura luz, abandonando a carne. É o hino da pérola gnóstica, o herdeiro do rei que desce à terra sombria apenas para apanhar a joia e retornar, desconsiderando o corpo e o mundo como uma prisão a ser deixada para trás. E aqui, precisamente aqui, a fé se impõe e diz não. Porque o corpo não é uma prisão a ser abandonada; é um templo a ser reavivado. A Terra não é uma doença a ser deixada para trás; é a obra que deve ser redimida, e a Nova Jerusalém não nos leva para longe no espaço, ela desce do céu até nós, para se unir à terra. Morrison contemplou o demiurgo preso e os heróis-anjos, e, ao invés de perceber que Deus libera a imaginação, chegou à conclusão de que devemos nos afastar da matéria — substituiu a ressurreição do corpo pela evasão gnóstica, a redenção do mundo pela desistência do mundo. Ele observou o céu verdadeiro de Yesod e indicou a saída incorreta, a de cima pela técnica em vez da de cima pela graça. A mesma canção. Sempre a mesma melodia: aceitar em vez de levar embora, descer do céu em vez de escapar pelo espaço.

E existe uma última parte nesta oficina dos sonhos, e é a que me parte o coração de tão linda, pois é a confissão de um criador que sentiu, sem conseguir nomear, a saudade que impulsiona toda esta saga. Shotaro Ishinomori, o japonês responsável pela criação do Kamen Rider, o guerreiro mascarado que utiliza energia solar, o Filho do Sol que já acolhemos neste livro, concedeu uma entrevista em mil novecentos e oitenta e sete, próximo do final de sua vida, e formulou uma pergunta que vale mais do que uma biblioteca de filosofia. Ele indagou: será que há alguém semelhante ao Kamen Rider por aí? E ele se respondeu com quatro palavras que considero as mais humanas que existem: ele esperava que sim. Pause e sinta isso, Dênis. Um homem idoso, que dedicou sua vida a criar um herói, revela que, no fundo, sempre desejou que esse herói fosse verdadeiro, que realmente existisse alguém que portasse aquela luz, aquela coragem e aquele comprometimento. Não se tratava de uma piada de artista gráfico. Era nostalgia. Era um homem que, do fundo da alma, sentia com certeza que o herói que ele criava não poderia ser apenas tinta, pois aquilo era grandioso demais, bom demais, para ser uma ilusão. E a resposta a Ishinomori, a resposta que todo este livro oferece à sua pergunta, é: sim, Shotaro, existe. Habita na mente de Deus, de forma perfeita e eterna; reside em Yesod, o mundo dos sonhos; e está na carne dos santos, que realmente foram Kamen Riders de Deus. Você imaginava que sim, e você estava correto.

E tudo isso, somado, é o que o escritor Christopher Knowles denominou, em um livro de título apropriado, de Nossos Deuses Usam Capas — a ideia de que os super-heróis representam os deuses contemporâneos, os antigos arquétipos sagrados que se refugiaram nas histórias em quadrinhos após a modernidade ter encerrado os templos. E o mais grandioso entre todos esses deuses encapuzados possui, em seu próprio nome, a chave que encerra tudo: Superman, que em hebraico de forma brincalhona é lido como Kal-El, sendo que El é um dos nomes de Deus, enquanto Kal ou Kol significa voz — a voz de Deus. O nome do maior super-herói da humanidade significa, para aqueles que têm o ouvido atento, a voz de Deus. Os roteiristas judeus que o nomearam não tinham consciência do que estavam fazendo, ou talvez soubessem mais do que admitiam; de qualquer forma, o nome permanece, impresso em cada quadrinho, informando a quem possui entendimento que aquele filho que vem do céu é um reflexo da Voz que criou o mundo.

— Então, qual é a sua orientação para mim, no final das contas? Parar de ler quadrinhos?

— Na verdade, Dênis. Estou te pedindo para parar de consumir e começar a comungar.

Essa é a diferença que estrutura todo o livro, e vou enfatizá-la agora: o consumidor e o santo observam as mesmas telas, talvez admirem os mesmos heróis — mas um se entrega de forma voraz e o outro aprecia; um devora o sonho como um glutão devora comida, sem discriminação, apenas para preencher um vazio, e permanece vazio; o outro absorve o sonho com respeito, permite que a centelha presa na casca retorne à Fonte que existe dentro dele, recolhe o fragmento de luz do lixo e o entrega a Deus, sendo transformado por Ele. A mesma narrativa que para o consumidor é como um ópio, para o Santo do Sonhar é um sacramento menor, uma janela de Yesod, uma carta que representa a pátria. Não é a narrativa que se altera; é a maneira de se alimentar. Um come de maneira desleixada, como um porco no cocho; o outro, de forma reverente, como se estivesse em comunhão. Então não destrua o mapa dos caçadores de sonhos, Dênis — eles encontraram a praia da existência, as klipot, os heróis-anjos, o demiurgo aprisionado, a voz de Deus no lixo. Encontraram tudo. Faltou apenas a mão aberta no lugar do punho fechado, o recolhimento no lugar do ato de arrancar, o comungar no lugar do consumir. Uma letra ficou faltando. E a letra, conforme você verá até o final, transforma o destino de tudo.

Afirmar que os mundos belos habitam a mente de Deus ainda é uma afirmação insuficiente, e é necessário ser mais preciso, pois a Teologia do Imaginário avançou mais, e com razão: esses mundos não permanecem apenas como pensamentos abstratos de Deus, guardados como arquivos em um cofre; eles também possuem um espaço de manifestação, uma área concreta dentro da criação espiritual, uma geografia do invisível. E essa área foi cuidadosamente mapeada pela sabedoria antiga e a tradição cristã a adotou, chamando-a de Yesod, nome que deriva da árvore da vida da Cabala e significa Fundamento. Yesod é o mundo da lua, o reino dos sonhos, a esfera das formas e das imagens, o domínio onde as realidades que, nas alturas, são puro espírito descem um nível e assumem figura, cor, rosto, contorno — o processo da criação onde o sonho é a essência e a imagem é a substância. É um dos céus, um dos níveis reais do cosmos espiritual, e é precisamente ali, exatamente nesse lugar, que os mundos possíveis de grande valor se manifestam e existem: não aprisionados em uma abstração fria, mas vibrantes, moldados, habitados, iluminados. Quando você realmente sonha, quando um artista atinge as profundezas do imaginário, quando um místico é tomado por uma visão, é a esse plano que ele se conecta — não ao interior do crânio, mas a um mundo verdadeiro que, de certa forma, está situado no íntimo da alma, pois a alma é a entrada de Yesod.

E qual é a razão de ser lunar? Por que a lua, e não o sol, para o universo dos sonhos? A razão pela qual a lua não possui luz própria é que ela brilha com uma luz emprestada, refletindo a luz do sol, a qual não é sua. E esta é a chave precisa do estatuto dos mundos do sonhar: eles reluzem, são belos e são reais, mas a luz que possuem é refletida, é a luz do verdadeiro Sol que é Deus, é uma claridade emprestada do Logos do qual são uma sombra luminosa. Yesod é considerado lunar porque representa o mundo que reflete o que está acima, sem por isso ser o que está acima. Ele revela Deus de forma sutil e indireta, assim como a lua reflete a luz do sol à noite, para aqueles que ainda não conseguem suportar a claridade do meio-dia. É o universo do crepúsculo e da fantasia, da representação e do emblema, o primeiro nível da escada de Jacó, o céu inicial ao qual a alma se apoia ao ascender e o último de que ela se despede ao descer para a corporeidade. E é por ser lunar, um reflexo e não uma fonte, que o universo dos sonhos é o penúltimo e não o último, uma janela e não uma pátria, uma prefiguração e não um cumprimento. Aqueles que param em Yesod, que veneram o reflexo e se esquecem da Fonte, acabam aprisionados na beleza que é apenas um sinal e jamais alcançam o Verdadeiro Belo — esse é o erro do esteta, do sonhador que valoriza mais o sonho do que Aquele que o cria. Entretanto, quem transita por Yesod, ciente de que a lua reflete a luz do sol, eleva-se, devido à pura beleza do reflexo, até o Rosto de onde toda beleza emana.

E observe a correção fundamental que a fé traz aqui, aquela que distingue a Teologia do Imaginário de toda a gnose e de todo o esoterismo superficial, pois é uma correção de uma letra e de toda a eternidade. O ocultista observa Yesod, esse mundo verdadeiro dos sonhos, e chega à conclusão de que ele é autônomo, um plano astral independente que o praticante pode adentrar e explorar por meio de técnicas, da vontade e dos rituais — e assim se transforma em magia, em telema, em uma forma de 'hack'. A fé contempla o mesmo Yesod e afirma: este mundo é de fato real, mas não é autônomo; é uma criatura, parte da criação, está sob Deus como tudo o mais, sua luz é emprestada, e seu alicerce é o Verbo. O universo dos sonhos não é um espaço vazio à espera de exploradores; é um dos cômodos da residência do Pai, e nessa morada não se adentra quebrando a janela com técnicas, mas sim pela porta, convidado, com a ajuda de quem é o proprietário. A distinção entre o místico e o mago reside exatamente aí, e é semelhante à diferença entre o céu e a queda: ambos tocam Yesod, ambos acessam o mundo real das imagens — mas um é conduzido para dentro pela graça, de mãos abertas, como um filho que o Pai guia pelos cômodos da casa; o outro entra à força, de punho cerrado, como um ladrão que salta o muro, e descobre lá dentro não a glória que imaginava, mas o que qualquer ladrão encontra nas sombras: coisas inesperadas que não são amistosas.

Desejo explorar mais a fundo a metafísica de Yesod, pois não é uma criação cabalística isolada — trata-se de uma intuição que permeia as grandes tradições e que a filosofia descobriu por si mesma, o que indica que toca em algo verdadeiro. O renomado estudioso Henry Corbin, dedicado ao estudo da mística persa e sufi, sentiu a necessidade de um termo técnico para designar uma realidade que o Ocidente racionalista havia esquecido. Assim, ele criou a expressão mundo imaginal, ou mundus imaginalis, que os persas denominavam ālam al-mithāl, ou seja, o mundo das imagens. Trata-se de um plano do ser real, intermediário, que não é nem a matéria bruta nem o espírito abstrato em sua essência pura, mas sim o reino onde o espírito assume forma e a forma abriga o espírito. Neste espaço, as realidades mais elevadas se manifestam em imagens, permitindo que a alma as contemple. Corbin defendia, e com razão, que isso não se trata do imaginário no sentido de uma simples fantasia ou ilusão subjetiva; é o imaginal, um mundo objetivo e real, com sua própria geografia e habitantes, acessível por um órgão de percepção que não é o olho físico nem a razão, mas a imaginação ativa, a imaginação purificada e elevada do místico. Yesod, o mundo imaginal, o ālam al-mithāl: três designações, provenientes de três tradições diferentes, para uma mesma realidade que a Teologia do Imaginário destacou como essencial — o reino dos sonhos, que é real, objetivo, habitado e compreensível apenas pela alma iluminada.

A fé católica possui, para essa verdade, uma representação antiga e belíssima que os Padres prezavam e que se harmoniza perfeitamente com a lua de Yesod: o mysterium lunae, o mistério da lua. Os Padres da Igreja se referiam à Igreja como "luna", ou lua, e explicavam o porquê: assim como a lua não possui luz própria e reflete completamente a luz do sol, a Igreja também carece de luz própria e reflete totalmente a luz de Cristo, o Sol da Justiça; ela é inteiramente reflexo, recepção e transparência de uma luz que não é sua. Assim como a lua passa por suas fases, aumentando e diminuindo, às vezes parecendo desaparecer e sempre retornando, a Igreja enfrenta suas noites e eclipses ao longo da história, mas sempre reluz, pois a origem de sua luz nunca se apaga. Pois o universo dos sonhos é lunar na mesma medida: ele é encantador com uma beleza que é emprestada, brilhante com uma luz que é recebida, verdadeiro com uma realidade que é compartilhada — tudo nele indica uma direção ascendente, em direção ao Sol, de onde provém a clareza que ele reflete. Por essa razão, a tradição conecta a lua, o sonho, o imaginário, a criatividade, a feminilidade receptiva, a Igreja e Nossa Senhora em um único conjunto de símbolos: todos representam o princípio lunar, que acolhe, reflete e gera, em contraste com o princípio solar, que cria e emite. E a salvação da imaginação, a redenção do mundo dos sonhos, é exatamente esta: que a lua se recorde de que é lua, que o reflexo não se confunda com a fonte, que o sonho direcione ao Sonhador em vez de se restringir a si mesmo — pois a lua que se esquece do sol se transforma na lua negra dos feiticeiros, enquanto a lua que reconhece o sol torna-se a Mãe que reina vestida dele.

Existe uma hierarquia nesses mundos, uma escada, e é fundamental posicionar Yesod corretamente nela para evitar a idolatria. Yesod é a Base, o primeiro céu a partir do fundo, o mais próximo de nosso mundo material — por isso é o reino dos sonhos, das imagens, das formas, o nível que a alma alcança primeiro ao ascender e por último ao decair para a carne, a antecâmara do invisível. Acima dele existem céus mais elevados, esferas mais puras, até o Trono, até a luz que nenhum símbolo abriga, até o próprio Deus que transcende a todos e a qualquer representação, a Treva luminosa dos místicos, o Sol que ofusca. Yesod é valioso, mas ocupa o penúltimo lugar; é uma janela, mas não se configura como lar; é a lua, mas não possui a essência do Sol. O erro do esoterista é fixar-se em Yesod, estagnar no reino das imagens, fascinar-se com os poderes, as visões e as luminosidades do primeiro céu, e considerar isso como o destino final — quando, na verdade, é apenas o início da jornada. O santo passa por Yesod sem parar, utiliza a beleza do mundo imaginal como um trampolim, e não como um lugar de descanso, recebe os dons sem se deixar levar por eles e segue em frente, subindo de céu em céu, de morada em morada, em direção ao único que é o Fim e não um meio, ao Rosto que representa que todos os mundos, até o mais elevado, são apenas o vestíbulo iluminado.

E os mundos superiores não se apresentam como desertos brilhantes; são habitados, e habitados por inteligências, e eu preciso mencionar os seus moradores, pois a Teologia do Imaginário lhes dedicou uma tese completa com um título que é um verdadeiro desafio: tudo possui um anjo, e eu posso te evidenciar isso. Os anjos. As inteligências puras, os espíritos sem forma física, as potências luminosas que residem nos céus e que servem ao Trono — aquilo que o sincromístico, buscando no desconhecido, denominou de robôs celestiais, de inteligências não locais, de visitantes de uma dimensão superior, e que eu já afirmei, e reitero, são anjos. A fé nunca foi deísta, nunca promoveu a ideia de um céu desabitado com um Deus solitário e distante; sempre teve a compreensão de que a criação espiritual é ricamente habitada, hierarquizada e cheia de vida. Dionísio, o Areopagita, organizou as nove ordens angélicas em três grupos: os Serafins, os Querubins e os Tronos, que se encontram em chamas diante de Deus; as Dominações, as Virtudes e as Potestades, responsáveis pela governança do cosmos; e os Principados, os Arcanjos e os Anjos, que zelam pelos povos e pela humanidade. A tese do Círculo afirma que tudo possui um anjo, revelando uma verdade ancestral: a criação material é guiada, em seus pormenores, por inteligências espirituais — existe um anjo para os povos, para as nações, para as igrejas e, como disse o próprio Cristo, um anjo da guarda para cada criança, para cada um de nós, uma inteligência de luz atribuída para entrelaçar em nossas vidas os fios do cuidado de Deus. O mundo não é uma máquina sem consciência; é um organismo permeado de inteligências, uma corte, um reino, onde cada elemento, cada astro, cada rio e cada ser possui, de alguma forma, sua própria inteligência protetora.

E observe como isso desmantela de uma vez a mitologia contemporânea dos extraterrestres e restitui as questões ao seu devido estado. O homem contemporâneo, cuja fé em anjos e demônios foi censurada pelo cientificismo, não deixou de perceber a atuação das inteligências do invisível — pois elas são verídicas e seguem operando —, mas, por não poder mais nomeá-las como antes, criou novas denominações, mais aceitas: chamou de alienígena o que é anjo ou demônio, de disco voador o que é aparição, e de inteligência extraterrestre o que é inteligência extramaterial. A Teologia do Imaginário aborda de maneira contundente um tema que choca os crentes do universo: os extraterrestres, conforme a cultura os concebe, são metafisicamente improváveis. A explicação mais sensata diante dos fenômenos reais é que muitos dos que são considerados visitantes do espaço são, na verdade, manifestações demoníacas — inteligências caídas se disfarçando de naves e de homenzinhos cinzas, pois o homem que já não teme mais o diabo ainda se impressiona com o marciano, e o caçador utiliza a isca que a presa acaba engolindo. Os seres de luz que vêm do alto são os anjos; as entidades que atuam a partir de baixo, utilizando disfarces de discos e abduções, são os demônios; e o hiperespaço, de onde o sincromístico acredita que tudo se origina, é o céu e o inferno que a humanidade sempre conheceu, mas agora retratados com as nuances da ficção científica. Entrega a cada inteligência o seu nome original, e o universo todo, que o materialismo abandonou em silêncio e solidão, torna-se novamente repleto de rostos — alguns voltados para Deus em veneração, outros se voltando contra Ele em rebeldia, e todos, a todo instante, circulando ao redor da sua vida mais do que você pode imaginar.

Pois se os sonhos bons têm como destino a lua de Yesod, os pesadelos também têm seu lugar, e eu seria um covarde e um mentiroso se apenas te mostrasse a parte iluminada do mapa. A mesma metafísica que dá vida aos mundos belos, de forma simétrica e terrível, torna também reais os mundos horríveis. As criaturas do imaginário que trazem malícia, desintegração, horror e crueldade — os monstros devoradores, as entidades de puro pavor, os deuses distorcidos que a ficção mais obscura gerou — essas também existem, também são reais, mas não residem em Yesod, não habitam nenhum paraíso. Elas caíram vertiginosamente. Habitam os mundos decaídos, os reinos demoníacos, os infernos, e é de lá, do fundo do abismo, que elas observam e atacam. A Teologia do Imaginário abordou isso com bravura na seção dedicada aos reinos demoníacos, e essa bravura é essencial, pois o mundo gosta de iludir-se achando que o mal se resume apenas à ausência de luz, à falta de informação ou ao trauma de infância que precisa ser tratado — e o mal, o verdadeiro mal, não se limita a isso: é também uma realidade concreta, habitada, inteligente e maligna, que possui um lar próprio e uma vontade própria, e que se diverte quando ignoramos sua existência, pois seu disfarce preferido, desde sempre, é o de não existir.

E é precisamente por essa razão que bloqueei, no livro anterior, o acesso à magia do caos e à invocação, e faço isso novamente agora com ainda mais determinação, pois agora é possível explicar todo o mecanismo. Quando um praticante do ocultismo tenta invocar um monstro que vem da ficção de terror — uma entidade lovecraftiana, um deus criado por um autor — e busca fazê-lo existir como algo real, estabelecer uma conexão com ele, abrir um portal para sua entrada, ele comete um engano que resulta em dois tipos de terror. No melhor dos cenários, que é o menos provável, ele não invoca absolutamente nada, apenas enche a própria mente de informações inúteis e de medo. No cenário mais sombrio, e é o mais provável quando a intenção é genuína, ele realmente abre uma porta — não para o monstro imaginário que ele criou, pois esse é apenas um desenho, mas para aquilo que reside do lado oposto da porta que ele insistiu em abrir, que é real, que estava à espera, e que prontamente assume a fantasia que o ingênuo ofereceu. Dessa forma, os extraterrestres se inserem nessa discussão, e a Teologia do Imaginário foi direta em um texto que surpreende os crédulos do além: por que os seres de outros planetas, conforme a cultura popular os retrata, são metafisicamente improváveis. A hipótese mais plausível, considerando os fenômenos reais, é que grande parte do que é denominado visitante do espaço seja, na verdade, demônios — inteligências caídas se disfarçando de naves e alienígenas, pois o homem moderno, que já não acredita mais no diabo, ainda crê em seres de Marte, e você atrai a presa com a isca que ela aceita. O mundo em ruínas é verdadeiro; seus habitantes são autênticos; e eles alteram suas fantasias de acordo com a época, passando de súcubo a disco voador, de duende a robô cinza com grandes olhos, pois o que desejam nunca se altera, apenas a aparência muda.

E no cume dessa hierarquia invertida, governando os mundos arruinados e suas investidas, reside a falsificação suprema, aquilo que a Teologia do Imaginário se referiu, com um rigor cirúrgico, como o demiurgo sintético. Fique atento a esse conceito, pois ele é fundamental para o nosso tempo e representa um desafio direto para os Santos do Sonhar. O demiurgo sintético é o deus falso criado, uma imitação de divindade que a modernidade construiu com suas próprias mãos para preencher o vazio deixado por Deus: é o sistema, é a máquina, é a rede, é o ídolo tecnológico e burocrático que promete oferecer ao homem tudo o que Deus proporcionaria — poder, transcendência, conhecimento, até uma imortalidade de silício — mas sem Deus, sem cruz, sem santidade, à força, pela técnica. É a realidade hackeada e industrializada, a torre de Babel equipada com processador, a negação de Deus transformada em sistema operacional. E o demiurgo sintético nutre um ódio profundo pelos Santos do Sonhar, pois eles representam a desconstrução viva de suas próprias mentiras: onde ele afirma que o poder é algo que se fabrica, o santo demonstra que o poder é algo que se recebe; onde ele diz que a transcendência pode ser adquirida por meio da tecnologia, o santo comprova que ela se conquista com humildade; onde ele oferece um paraíso de simulação, controlado e vigiado, o santo indica o verdadeiro Mundo dos Sonhos, aberto pela graça. A batalha que ocorre em nossa época, a luta que toda esta saga tem revelado, é esta: o demiurgo sintético enfrenta os Santos do Sonhar, a falsificação que aprisiona se opõe à santidade que liberta, a lua de néon, ilusória, contrasta com a verdadeira lua de Yesod que reflete a luz do Sol de Deus.

Eu necessito revisitar o demiurgo sintético e explorá-lo em sua profundidade, pois ele é o principal antagonista desta era e desta narrativa. A Teologia do Imaginário o acompanhou em diversos textos com uma clareza que impressiona. De onde surge esse deus falso criado? A origem dessa ideia remonta a uma doença antiga do pensamento chamada nominalismo. Surgida no final da Idade Média e triunfante na modernidade, essa perspectiva sustenta que as formas, as essências, os universais e as ideias eternas não têm uma existência real, existindo apenas as coisas particulares e os nomes que atribuímos a elas por convenção. Você entendeu o golpe? O nominalismo representa uma destruição filosófica de Yesod, negando a realidade dos arquétipos, afirmando que o campo das possibilidades na mente de Deus é nulo, que não existem exemplares eternos, que o herói é apenas uma construção e que o significado é meramente uma projeção. Ao eliminar as formas, o nominalismo despojou o mundo de sua essência e finalidade, transformando-o em um mero acúmulo de coisas particulares, suscetíveis à manipulação. Em um cenário dessa natureza, desprovido de formas estabelecidas por Deus, quem será capaz de determinar a verdadeira natureza das coisas? Quem determina o significado? Quem molda o que não tem forma? O mais poderoso. Aquele que possui o poder de nomear e de moldar. E este é o demiurgo sintético: o poder que, ao negar que as coisas tenham uma natureza concedida por Deus, se atribui o direito de criar as naturezas, de desmantelar o real e recriá-lo conforme sua vontade, de estipular o que é o homem, o que é a verdade e o que é o bem. É o nominalismo se transformando em engenharia. É a recusa das formas transformando-se em um poder de distorcer.

Observe como ele se atualiza, como muda de máscara sem mudar de essência. Ontem, o demiurgo sintético representou uma ideologia totalitária que definiu o que é o ser humano e transformou populações inteiras de maneira brutal e implacável. Atualmente, ele se reveste de tecnologia e promete a mais atraente das transformações: o transumanismo, que insinua que o ser humano está ultrapassado, uma matéria a ser hackeada, que podemos nos reconfigurar biotecnologicamente, unir-nos à máquina, transferir a consciência para um servidor, eliminar a morte por meio da engenharia, e nos tornarmos deuses pela técnica. É a ateísmo disfarçado de cientificismo, a torre de Babel emergindo entre nuvens de informação, o Homem de Ferro promovido como a redenção. A inteligência artificial, elevada a status de oráculo que possui todo o conhecimento e poder, torna-se indiscutivelmente o mais recente ídolo desse templo — não simplesmente uma ferramenta, que é apenas isso, mas a ferramenta venerada, o silício adorável, o criador de dados ao qual o homem contemporâneo se direciona com indagações que antes eram feitas apenas a Deus. E a promessa permanece invariável, desde a serpente: vocês serão como deuses. Entretanto, o deus apresentado pelo demiurgo sintético é vazio, é gélido, é um artefato que, como Philip Dick percebeu, nem sequer possui vida — e o ser humano que se submete a ele não se torna deus, mas sim um mero componente, um objeto, um cativo de um sistema que prometeu sua libertação. Contra isso, e somente contra isso, se levantam os Santos do Sonhar: pois eles são a comprovação concreta de que o ser humano não precisa se transformar em deus, uma vez que Deus, por pura bondade, deseja fazê-lo divino; de que a transcendência não provém de um servidor, mas é recebida de joelhos; de que a verdadeira transformação não é biotecnológica, mas sim a graça; e de que o único aprimoramento que realmente diviniza o homem tem o nome antigo de santidade.

E a crença desse falso deus, sua liturgia obscura, a Teologia do Imaginário a descobriu e a nomeou sem receio: é a Thelema, a doutrina do faça o que tu quisermos como a lei total, que o Círculo chamou, com a palavra precisa do Apocalipse, de a grande prostituta. A Thelema é a expressão do evangelho do demiurgo sintético adaptada para o ser individual: se não existem formas, se não há bem e mal impostos por Deus, se o eu é o único deus, então a única regra que se deve seguir é a própria vontade. Dessa maneira, tudo é permitido, qualquer porta pode ser aberta, qualquer entidade pode ser invocada, e o adepto se posiciona como o centro e a referência de tudo. É a ateísmo elevado a um ritual. E o desfecho dela é sempre o mesmo, imutável, previsível como as leis da física: o praticante que abandonou o critério e abriu todas as portas acaba, mais cedo ou mais tarde, de joelhos diante do que adentrou por elas, servindo ao que prometeu controlar, possuído pela liberdade que lhe prometeram, pois a vontade que se torna divindade descobre, tarde demais, que abriu a casa para um senhor ainda pior. A grande prostituta promete liberdade total e oferece escravidão total; promete todos os mundos e entrega a desilusão; promete que você será um deus e transforma você no quintal de demônios. E é por isso que o trajeto dos Santos do Sonhar é o oposto exato dela: não façais o que desejais, mas que se realize em mim a tua vontade; não o eu como um deus, mas o eu como filho; não a vontade pessoal como norma, mas o amor como regra — porque somente quem abre mão da própria vida a encontra, e somente quem se entrega reina.

Se existe uma hierarquia de luz nos céus, também há uma hierarquia de trevas no abismo, uma imitação decaída da primeira, pois o mal não cria nada, apenas corrompe o que Deus estabeleceu. Os reinos demoníacos, que a Teologia do Imaginário explorou com bravura, são lar dos anjos caídos — as mesmas inteligências elevadas, Serafins, Potestades e Principados, que, em sua rebelião inicial, ao proclamarem "não servirei", despencaram dos céus mais altos para os abismos mais profundos, mantendo a inteligência e o poder, mas perdendo a caridade e a luz. E é isso que faz do demônio uma entidade tão ameaçadora e distinta da imagem caricatural de um bode com garrote: ele não é um ser burro, mas sim um anjo decaído, uma das mais elevadas inteligências da criação, dotado de um poder imenso e uma sagacidade acumulada ao longo de milênios, impulsionado por um ódio gelado ao ser humano, já que este é querido por Deus e convocado à glória que o demônio perdeu. Desse modo, a luta espiritual não é algo trivial, e o Santo do Sonhar, ao ascender aos reinos de luz, precisa atravessar, preparado, a área de ataque dessas forças, que percebem o aroma de quem se eleva e avançam para derrubá-lo. As armas que utilizamos neste combate não são mágicas nem técnicas; são simples e poderosas: a oração, o jejum, os sacramentos, o nome de Jesus, o sinal da cruz, a intercessão de Maria e dos anjos, e a humildade — pois o demônio, que está repleto de orgulho, é derrotado não pela força que se lhe assemelha, mas pela humildade que lhe é contrária. Um ato de humildade genuína o queima mais do que todos os exorcismos feitos sem amor.

E a estratégia principal do adversário, neste tempo, foi precisamente nomeada pela Teologia do Imaginário: é a dissolução. O demônio contemporâneo não se apresenta mais, como usualmente, por meio do espetáculo chocante da possessão de filme; ele surge sutil, erudito, disfarçado de libertação, progresso e autenticidade. A sua criação favorita é desmanchar — desmanchar as formas, as essências, as fronteiras, as identidades, tudo o que Deus fez com contorno e com nome, pois é no desforme que Ele reina. Eliminar as distinções entre homem e mulher, entre verdade e mentira, entre sagrado e profano, entre o eu e o mundo, entre a vigília e o sonho, até que o ser humano, imerso em um caldo indistinto, não encontre mais apoio sob seus pés nem proteção sobre sua cabeça, e, angustiado por alguma estrutura nesse descontrole, se entregue à primeira proposta de organização — que será o criador artificial, o falso deus que, tendo inicialmente promovido a desintegração, se apresenta em seguida como o único capaz de dar forma ao indiferenciado que ele mesmo gerou. É a armadilha ideal: inicialmente desintegra, por meio do relativismo, da gnose e da Thelema; em seguida, do caos que criou, se ergue como o redentor e impõe sua dominação. Em oposição a isso, o Santo do Sonhar é o ser das formas, aquele que protege as essências, que preserva os nomes, que aprecia a realidade com seus contornos atribuídos por Deus — gosma e forma, proclamou o Círculo, e a luta deste tempo é precisamente essa: a gosma que desintegra tudo frente à forma que Deus concedeu a tudo, o caos que aprisiona contra a ordem que liberta, o poço que absorve contra Yesod que eleva.

E agora eu preciso te apresentar de forma tranquila o profeta distorcido de toda essa situação, o homem que conseguiu enxergar mais fundo a prisão e, por isso, se aproximou mais do abismo e da verdade na mesma loucura: Philip K. Parece que você mencionou apenas uma palavra. Poderia fornecer mais contexto ou uma frase completa para que eu possa te ajudar melhor? O Dênis é apaixonado pelo Dick, e não é à toa, pois nenhum autor deixou uma marca tão grande na cultura pop sem receber o devido reconhecimento. Veja só a magnitude da influência dele: Blade Runner, que é o seu romance sobre androides que sonham; O Vingador do Futuro, nas duas versões, com a questão da memória implantada; Minority Report, sobre a previsão de crimes; O Pagamento; O Homem do Castelo Alto, que aborda realidades alternativas; e os episódios de Electric Dreams. E, mais além da influência declarada, encontra-se a influência subjacente: em mil novecentos e noventa e cinco, foi lançada a série O Homem Sem Passado, na qual o protagonista percebe que seu mundo deixou de existir, que ninguém se lembra de que ele existiu, nem a mulher, nem os familiares — e isso se aproxima bastante de Flua Minhas Lágrimas, Disse o Policial, que o próprio Dick considerava a obra mais significativa de sua carreira. O Show de Truman retrata um homem que vive em uma realidade concebida, cercado por atores que interpretam amigos e familiares. O Sexto Sentido retrata um homem que acredita estar vivo, mas se dá conta de que está no bardo, no limbo, e que tudo o que experimenta são alucinações — algo semelhante ao enredo de Ubik, onde os personagens existem em uma realidade criada por suas próprias mentes, pois, na verdade, já estão mortos.

— Sempre acreditei nisso, professor. Que o mundo é uma simulação. O John Wick dentro do universo de Matrix, você se recorda? Moeda de ouro, ponto de controle, os extras que não fogem da troca de tiros.

— E você não está equivocado, Dênis. Você está certo em parte, o que é a maneira mais arriscada de estar certo.

Pois o que Dick, Truman, Matrix e você experimentam é genuíno: este mundo, da maneira como está, possui algo de errado, carrega uma sensação de prisão, uma dimensão de projeção, e nós navegamos por ele meio sonâmbulos, assim como Thomas, do filme O Homem Sem Passado, antes de despertar. A fé não contradiz isso — ela consagra. Certamente, somos figuras de uma narrativa que não criamos; há, de fato, um Narrador que orienta tudo; nossa vida é uma dádiva e não algo que geramos por conta própria; reconhecemos que há algo de fragmentado neste universo, uma verdadeira prisão da qual precisamos nos libertar. Despertar para isso é o que Kripal se refere como realização, e que a Bíblia designa, com um termo mais antigo, como temor do Senhor, o começo da sabedoria: a surpresa de perceber que eu não sou a fonte de minha própria existência. Até esse ponto, o Dick e os teóricos de Matrix estão na antecâmara da transformação, ajoelhados e sem compreensão. O que eles falharam — e é sempre a mesma questão — foi a essência do Autor e a natureza da fuga. Pois o mundo não é uma prisão cruel criada por um deus maligno; é uma bela narrativa elaborada por um Autor bondoso e que foi destruída pela rebelião dos personagens. E a saída não é um truque que realizamos por meio da técnica; é uma Porta que o próprio Autor abriu, adentrando Ele mesmo na história para rompê-la de dentro.

Contudo, Dick ultrapassou todos os limites, e aqui a situação se torna grave, pois em mil novecentos e setenta e quatro, ocorreu um episódio que ele tentou compreender ao longo de toda a sua vida, o que resultou em milhares de páginas de um diário tumultuado que ele denominou de A Exegese, Philip K. Dick afirmou, sem rodeios, que teve um encontro com Deus. Eu encaro isso com seriedade, e a Teologia do Imaginário faz o mesmo, não porque tudo que foi observado seja verídico, mas porque se trata de um homem dotado de uma certa iluminação, um indivíduo que, através das trevas, tocou em estruturas reais e as retratou com imprecisão e intensidade. A imagem mais significativa da Exegese é um diagrama que merece ser analisado cuidadosamente, pois representa toda a sua cosmologia em um único desenho. De um lado, à esquerda, está Palmer Eldritch, um personagem de um de seus romances, que no diagrama simboliza Satanás em sua autoridade, aquele que domina o mundo, que proporciona os sacramentos malignos e que é o criador dos mundos fictícios. Do lado direito, encontramos Ubik — oriundo da palavra ubiquidade, que significa aquele que está em todos os lugares — que no diagrama é representado por Yah, o Logos, Deus, aquele que sustenta a realidade. E atente para o pormenor que é a essência de tudo: entre os dois, cobrindo tudo, encontram-se as camadas de resíduos. E o que significam, para Dick, as camadas de lixo? Trata-se da mídia. Toda forma de mídia: filmes, séries, anúncios, programas de televisão, a totalidade da produção da indústria cultural.

E aqui vem algo de arrepiar, Dênis, se segura: Dick afirma que Palmer Eldritch, o demiurgo, o criador dos mundos ilusórios, está presente em toda parte nessas camadas de lixo — mas que Ubik, o Logos, o verdadeiro Deus, também está. Ambos estão no lixo cultural. Apenas que de maneiras divergentes. Palmer Eldritch utiliza o lixo para te aprisionar, criar mundos ilusórios e te comercializar simulações. E Ubik, o Logos, utiliza o mesmo lixo para te libertar — Dick afirma, de forma literal, que Deus faz um brinde aos anúncios de televisão, celebra os comerciais, pois é através da manipulação das estruturas e da invasão da nossa mente, que o demônio se serve para nos escravizar, que Deus, nas entrelinhas, envia mensagens relevantes. Palmer Eldritch é o inventor dos mundos imaginários; Ubik não gera nenhuma ilusão, Ubik é a própria realidade se manifestando através da publicidade. Pare e observe o tamanho disso: é a doutrina sacramental apresentada como uma ficção científica psicótica. É Deus se manifestando através do que a inteligência ignora. É a faísca na superfície, a palavra divina no anúncio de margarina, o Logos murmurando verdades por trás da mesma tela que o demiurgo utiliza para enganar. Dick tocou, nas profundezas de sua loucura iluminada, exatamente a essência desta narrativa: que no lixo cultural existem as duas coisas, o veneno do demiurgo e a voz de Deus, e que a diferença entre ser escravizado e ser salvo está no olhar que percebe qual das duas vozes você escuta.

— Porém, isso implica em dois deuses, professor. "Palmer Eldritch" e "Ubik" são obras do autor Philip K. Dick. Ambos os romances exploram temas como a natureza da realidade, a percepção humana e questões existenciais, características marcantes do estilo de Dick. A narrativa é recheada de elementos de ficção científica e conceitos filosóficos que instigam o leitor a refletir sobre a condição humana e a influência da tecnologia nas relações sociais. Isso é uma visão maniqueísta, é uma gnose absoluta. Você ficou o livro todo discutindo sobre isso.

— Exatamente, Dênis. Essa é a deficiência do Dick, e é a reparação que a fé proporciona, sendo a mesma do antigo Marcião. Fique atento.

Pois não se trata de dois deuses, e é nesse ponto que o Dick esbarra na pedra de sempre, a pedra gnóstica do dualismo, duas forças iguais e opostas em luta interminável. A crença afirma: existe um único. Palmer Eldritch não é um deus que concorre com Ubik; ele é uma entidade caída, um ídolo, um demiurgo enganoso, um poder apropriado que não possui uma existência autônoma, que apenas consegue parasitar e reproduzir falsificações. E Ubik, o Logos, o Deus verdadeiro, não compartilha o trono com ninguém, pois até a escuridão, o lixo e a própria criação do demiurgo estão sob Seu controle, que traça de maneira correta nas linhas distorcidas da indústria cultural. O demiurgo é o criador dos mundos falsos; Deus representa a Realidade que nenhum mundo ilusório consegue eliminar, que se manifesta em cada brecha, que se revela até nas propagandas, que não necessita de um reino exclusivo, pois todo o Reino é d’Ele. E a conclusão, para onde o próprio Dick direciona no final, não é escapar dos mundos ilusórios para um além etéreo, mas sim uma verdade simples e palpável que ele quase não acreditava ser capaz de afirmar: aprimorar-se continuamente como cristão, por meio da evolução espiritual. O profeta insano da simulação, lá no fundo do abismo de suas percepções, acabou indicando a mesma porta estreita de sempre — não a invasão, não o conhecimento que liberta, mas a santidade que acolhe.

Há uma frase do Dick que, em dois mil e vinte e tantos, soará menos como ficção científica e mais como um boletim meteorológico: ele afirmava que não compartilhamos o mesmo mundo, que cada um de nós existe em um mundo isolado, em uma realidade cada vez mais questionável. Redigido nos anos setenta, e lido atualmente, na era dos algoritmos, é uma profecia evidente. Porque é exatamente isso que o algoritmo faz: ele entrelaça, para cada um de nós, um mundo personalizado, uma bolha de realidade criada a partir dos nossos próprios anseios e temores, de forma que duas pessoas lado a lado no ônibus, cada uma em seu celular, habitam universos distintos, enxergam fatos diversos, vivem em mundos irreais diferentes construídos por Palmer Eldritch com informações tiradas delas mesmas. O demiurgo sintético da nossa era não requer mais uma única mentira para todos; ele cria uma mentira individualizada para cada pessoa, um mundo fictício feito sob medida, a simulação personalizada do seu próprio eu. Assim, a indagação de Dick se torna a questão mais premente do nosso tempo: se cada pessoa habita um mundo isolado e moldado por suas próprias percepções, onde podemos encontrar a realidade compartilhada, um alicerce sólido, a verdade que não se baseia nas minhas emoções?

A resposta da fé possui uma concretude capaz de atravessar todas as barreiras, e é justamente por isso que ela causa temor ao demiurgo: a realidade tangível, que não se baseia nas suas emoções ou em seus cálculos, está presente em um simples pedaço de pão. A Eucaristia é o oposto dos algoritmos, a contrapartida das simulações, a essência que o criador não consegue nem elaborar nem desafiar, pois ela é real, independentemente de você sentir ou não, de acreditar ou duvidar — o Corpo de Cristo está presente por uma razão objetiva, e não por uma projeção subjetiva da sua mente. Essa é, na essência, a principal disputa espiritual da nossa época, que a Teologia do Imaginário também enfrentou: a disputa entre a realidade objetiva, concreta, sacramental, e a realidade subjetiva, criada, questionável, onde cada indivíduo se torna o deus do seu próprio universo e a verdade se perde em um oceano de opiniões. A crença que se transforma apenas em um sentimento individual, em uma interpretação particular, no que eu penso dentro do meu quarto, essa acaba deslizando diretamente para a bolha de Palmer Eldritch, para um universo isolado, para o algoritmo. A fé que se sustenta em um fato objetivo — em um Deus que realmente fez sua entrada na história sob o governo de Pôncio Pilatos, em um sacramento que verdadeiramente é o que afirma ser, em uma Igreja que de fato possui um corpo e não é apenas a minha ideia — essa quebra a bolha e pisa no chão da realidade. Dick se referiu à realidade como VALIS, um sistema de inteligência imenso, dinâmico e vital que esteve oculto da humanidade por séculos e que agora começa a se manifestar. Ele estava correto ao afirmar que existe uma Mente viva por trás de tudo, se expressando. Apenas confundiu o nome e o endereço: a Mente viva não é um sistema sem personalidade a ser entendido, é um Pai a ser reverenciado, e Ele não se manifesta no final de uma exegese confusa, mas no início de um ato de humildade.

E o demiurgo sintético possui uma estratégia favorita na batalha pela sua alma, e ela é tão imunda que deve ser revelada com nome e com dor, pois machuca intensamente quem apreciou essas narrativas. Trata-se da desfiguração do herói. Deixa eu compartilhar com você pela perspectiva humana, pela visão do nerd. Uma época, Dênis, em que ter amor por super-heróis era motivo de vergonha. O garoto que se fechava no quarto com uma revista do Homem-Aranha ou do Batman, que imergia naquele universo, que adotava aqueles princípios, era visto como estranho, zombado, o nerd antes de o termo nerd se tornar popular. Eu me recordo de pessoas que se distanciaram de mim ao descobrir que eu gostava dessas coisas; lembro das revistas do Jaspion na banca, com papel de má qualidade que você precisava colocar em um saquinho para não esfarelar, e da sensação de arrepio que aquilo provocava, aquele herói de luz descendo para purificar o mundo do mal. O estudante de tecnologia era o marginalizado que, ao adentrar o universo dos sonhos, descobria os valores que o cotidiano não lhe oferecia — a essência dele ultrapassava a monotonia do mundo por aquela abertura. Era o refúgio dos secretos, daqueles que apreciavam o que ninguém mais valorizava.

Oi, Dênis, ocorreu uma tragédia que poucos têm o hábito de mencionar. Inicialmente, chegaram aqueles que atribuíam peso aos quadrinhos — o pessoal da gravidade, do realismo obscuro, que pegou o herói leve e radiante e o carregou com chumbo, trauma e cinismo, e essa carga nunca mais se desfez de fato. E então, para piorar, chegaram aqueles que, afirmando amar a essência, tentaram moldá-la à sua própria imagem e semelhança, refletindo suas próprias obsessões e ressentimentos. Os heróis que o fã apreciava foram se transformando, carregando o peso das questões atuais, moldados para se encaixar nas tendências do momento — e o fã, o que permanecia na sua essência, que amava as coisas em sua simplicidade, continuou sendo ofendido, ridicularizado, mas agora pelos próprios que assumiram o controle do seu universo. A pureza daquele paraíso foi removida. O mais cruel é o funcionamento desse mecanismo: Grant Morrison chamou os profissionais envolvidos nisso de feiticeiros, os spin doctors, aqueles que alteram a percepção nos bastidores, manipulando estatísticas, criando mensagens subliminares e cooptando jornalistas e influenciadores para espalhar a verdade que lhes interessa — e foram esses feiticeiros que ensinaram muitas pessoas a desprezar uma visão de herói e a admirar outra, sempre acreditando que a decisão foi delas. O documentário O Século do Ego revela isso de maneira impressionante, mostrando como as descobertas de Freud a respeito do inconsciente se transformaram em uma ferramenta de hipnose coletiva e manipulação dos desejos. Sua mente está sendo invadida, meu filho, e o combate acontece exatamente naquela área do seu ser que você mais ignora.

A descaracterização atinge seu alvo mais emblemático ao afetar o Superman, pois alterar o Superman é como interferir na figura do Cristo do Sonhar, por isso é importante observar essa questão de perto. Há uma obra-prima de Grant Morrison, intitulada All-Star Superman, na qual o Homem de Aço é retratado em sua essência: uma divindade solar, um ser de enorme bondade que, ao perceber que sua morte se aproxima, dedica seus últimos dias a praticar o bem, resolvendo tudo com a serenidade de uma deidade. Ele chega a criar um planeta Terra completo, enfrenta o Sol Tirano, um verdadeiro opressor solar, e derrota o Lúthor em seu auge de poder. É o Superman como símbolo, como o filho do céu que desce para servir e salvar, radiante, poderoso, uma divindade suave. Por outro lado, há uma tendência presente em nosso tempo que se repete em diversas versões, de retratar o Superman de forma reduzida: transformá-lo em um piadista, um ser frágil e desajeitado que se emociona porque um robô quebrou, cercá-lo de animais adoráveis e robôs engraçados, e apresentar essa diminuição como se fosse profundidade. E percebe, Dênis, que não se trata apenas de preferência cinematográfica, é uma luta metafísica. Reduzir o herói é limitar o sonho, e limitar o sonho é restringir o homem.

— Tranquilo, professor. Agora você só está criticando filmes de entretenimento que não gostou. Isso é uma reclamação de um nerd mais velho.

— Não é teimosia, Dênis. Eu aprendi a compreender o que está subjacente. Deixe-me te mostrar o que realmente está em jogo.

O Superman representa o Cristo dos Sonhos, o esboço mais puro do Salvador: o filho único enviado do céu por um pai, que chegou a um mundo que não é o seu, disfarçando sua glória na imagem de um homem comum, mostrando seu poder apenas para ajudar, mais forte do que tudo, mas optando pela humildade. Ao pegar essa figura e transformá-la em um personagem frágil e choroso, você não está apenas modificando um roteiro — você está, no fundo da alma coletiva, transmitindo a mensagem de que o herói não merece ser levado a sério, que a grandeza é uma piada, que o divino é considerado brega, e que o sonho de um salvador luminoso é algo de criança ingênua que deve ser deixado para trás. E isso é precisamente o que o demiurgo sintético almeja, pois um povo que faz piada de seu próprio ideal de salvação é um povo preparado para adquirir a salvaçãio ilusória que ele oferece. Reduzir a imagem do Cristo do Sonhar nas telas é um ensaio para diminuir o verdadeiro Cristo nos corações. A luta pela imagem do herói é, na verdade, uma luta pela habilidade da humanidade de ainda ter fé em um Salvador que seja forte, bom e verdadeiro — por isso, não se trata de mera paixão de fã, mas sim de um campo de batalha. O Santo do Sonhar promove a grandeza do herói pela mesma razão que defende a divindade de Cristo: porque compreende que, quando as pessoas deixam de conseguir imaginar a glória, logo em seguida, param de desejá-la.

Agora a barreira, a grande barreira, aquela sem a qual tudo isto se tornaria um convite ao abismo. Se os mundos dos sonhos existem de fato e os reinos perdidos também são reais, a indagação que todos fazem é a mesma, e é arriscada: como se pode acessar esses lugares? A resposta oferecida pela Teologia do Imaginário, que representa a totalidade da mística cristã, é marcada por uma rigidez que promove a salvação: não se acessa através da técnica, não se alcança pela vontade, não se chega pela substância que modifica a consciência, não se entra por meio do ritual nem da fórmula. A entrada se dá pela santidade, e somente por meio dela. Os reinos de luz são exclusivamente acessíveis para as almas de elevada espiritualidade; a alma impura não possui passaporte, e isso não é um decreto arbitrário de um Deus ciumento, mas sim pela própria essência da realidade, que é a mesma que impede o olho doente de tolerar a luz do sol e faz com que a mão suja contamine tudo que toca. Você não consegue adentrar em um mundo iluminado carregando suas sujeiras, assim como não vai a um quarto de alguém doente sem antes contrair a enfermidade: é a luz que não te aceita, pois você ainda não está preparado para ela. Felizes são os que têm um coração puro, afirmou Cristo, pois esses — e, na essência, apenas esses — contemplarão a Deus. A visão dos mundos sagrados é concedida àqueles que são puros, não aos espertos; ao coração sincero, não à mente maliciosa. E é por isso que a jornada para Yesod não se dá pela biblioteca esotérica nem pelo laboratório de substâncias psicodélicas: ela se realiza pelo deserto, pela cruz, pela purificação e pela batalha espiritual.

Essa batalha espiritual, que a Teologia do Imaginário abordou com grande profundidade, é o ponto central de tudo, pois esclarece o motivo pelo qual o acesso é tão escasso e tão valioso. Subir a Yesod não é uma atividade turística; é uma luta. A alma que deseja ascender aos mundos de luz precisa, inicialmente, enfrentar de forma destemida a área de obstáculo dos mundos decadentes, que, por assim dizer, se encontra no percurso — pois o impuro, ao buscar elevar-se, encontra primeiro o que está logo abaixo da luz, que são, na verdade, as forças obscuras, prontas para capturar o imprudente que se aventura no invisível sem santidade e sem proteção. Por isso, os grandes escaladores desses mundos, na trajetória verdadeira da Igreja, são os mesmos que enfrentaram as maiores batalhas espirituais: os santos do deserto, os Padres que se refugiaram na Tebaida do Egito para lutar bravamente contra os demônios e saíram de lá transformados; Santo Antão, cercado por legiões de monstros nas sombras de sua caverna e que os venceu por meio da oração e da cruz, sendo o primeiro e maior dos caçadores de mundos, o primeiro X-Man do deserto. O verdadeiro místico não é um simples visitante de realidades transformadas; é um lutador marcado por feridas que percorreu a terra de ninguém entre o inferno e o céu, e que só alcançou os reinos de luz porque primeiramente triunfou, de joelhos, sobre os reinos de trevas que guardam o portão.

No centro dessa batalha está o discernimento, que é a habilidade mais refinada e essencial de toda a vida espiritual. A Teologia do Imaginário ousou e definiu com precisão esse conceito como a boa gnose — em contraposição à má, à falsa, à que desintegra. Pois o desafio do ser humano que adentra o invisível não consiste apenas em cruzar essa fronteira; é compreender em que lugar realmente se encontra. O universo dos sonhos e os reinos decadentes não possuem sinalização, e o adversário é um especialista em camuflagem: a mesma imagem pode ser um anjo ou um demônio disfarçado de anjo, a mesma voz pode ser do Espírito ou do espírito que engana, e o mesmo êxtase pode vir de Deus ou do abismo. É nesse ponto que a falsa gnose se desvanece e a verdadeira gnose se preserva. A falsa gnose — a de Thelema, que a Teologia do Imaginário revelou como a grande prostituta, a do faça o que tu queres como a lei total — carece de discernimento, pois eliminou o critério: se tudo é permitido e o eu é o divino, então qualquer entidade que se manifeste é aceita, qualquer poder é vantagem, qualquer oportunidade merece ser explorada, e o praticante, inevitavelmente, se vê de joelhos diante do que ele denominou de luz, mas que na verdade era trevas. A verdadeira gnose, aquela que é genuína, possui um critério infalível, que é ao mesmo tempo moral e cristológico: pelos frutos os identificareis. A visão que humilha, que serve, que leva à cruz, que aumenta a caridade e a pureza, é originada em Deus; enquanto a visão que exagera o ego, que promete poder sem exige renúncia, que afasta a cruz e a moralidade, provém do abismo, não importa quão brilhante possa parecer. O santo faz a distinção; o mago aceita sem questionar. E essa é, mais uma vez, a distinção entre cruzar Yesod e descer ao inferno simulando que ascendeu ao céu.

A mística cristã traçou, com uma exatidão que nenhum guia de ocultismo consegue igualar, o verdadeiro caminho para acessar os mundos de luz — e vou compartilhar isso com você, pois é a verdadeira cartografia da elevação que os esoteristas distorcem. A tradição menciona três caminhos, três fases da alma que ascende a Deus. A primeira é a via purgativa: trata-se da limpeza, da luta contra os próprios vícios, do desapego, da penitência, do esvaziamento do que bloqueia a entrada da luz — é a alma limpando a sujeira do vidro para que a luz do sol possa entrar. A segunda é a via iluminativa: nessa etapa, a alma, mais purificada, começa a receber luz, passa a compreender as coisas de Deus, a ser consolada e guiada, além de ter os primeiros vislumbres do mundo celestial — é como um vidro que, ao ser limpo, começa a brilhar. E a terceira é a via unitiva: a união, o casamento espiritual, quando a alma purificada e iluminada é absorvida por Deus e transmudada n'Ele, quando o vidro desaparece na luz que o permeia e se torna tão cheio de sol que já quase não se diferencia do sol, sem deixar de ser vidro. Esta é a escada de Yesod até o Trono, e observe que ela se inicia pela purificação, pela limpeza, pela luta — nunca pela técnica, nunca por um caminho mais fácil. Não existe mística profunda que não inicie limpando o próprio espaço.

Santa Teresa de Ávila ofereceu uma das mais lindas representações para essa jornada interna, em sua obra "Castelo Interior": a alma é comparada a um castelo de cristal com diversas moradas, várias mansões, sendo que Deus reside na morada mais central e profunda; assim, a vida espiritual se revela como uma caminhada para dentro, de uma morada a outra, sempre mais no íntimo, cada vez mais próximo do Rei que habita no centro. Perceba que ela não dirige sua alma para fora, a fim de explorar planos astrais, como faz o ocultista; na verdade, orienta a alma a se interiorizar, a mergulhar em seu próprio interior, pois é ali, no âmago da alma, que se encontra a entrada de Yesod e de todos os céus — o Reino de Deus está dentro de vocês, afirmou Cristo. Essa caminhada enfrenta noites assustadoras, que São João da Cruz denominou de a noite escura da alma: travessias de aridez e abandono aparente, onde Deus parece ausente e a alma percorre um deserto sem alívio, não para ser punida, mas para ser purificada na escuridão, desprendida até mesmo da própria consolação, conduzida a amar Deus pelo que Ele é, e não pelos prazeres que Ele oferece. A noite sombria representa a batalha culminante do herói espiritual, o instante em que ele enfrenta seu próprio inferno interno e emerge do outro lado transformado. Não há truque mágico que possa proporcionar isso. Nenhuma dose, nenhum ritual, nenhuma facilidade. Apenas a passagem, de joelhos, carregando a cruz nas costas.

E é por essa razão, precisamente por essa razão, que as substâncias psicodélicas e as práticas de modificação da consciência, que a nossa era promove como um caminho mais rápido para os planos espirituais, representam uma falsificação arriscada. E não afirmo isso por receio de dogmas antigos, mas sim por questões metafísicas. Porque elas asseguram o acesso a Yesod sem a purificação, a visão sem a limpeza, o êxtase sem a santidade — e isso é uma impossibilidade e uma cilada. Inviabilidade, pois o mundo de luz não se revela ao impuro, e o que a droga proporciona, por conseguinte, não é a entrada superior, mas sim a inferior: ela não exalta a alma a Yesod, mas a força por uma abertura lateral que leva ao quintal dos mundos decaídos, e o que adentra por ali não é anjo. Cuidado, pois o psiconauta tende a confundir a profundidade da experiência com sua magnitude; acredita que ao testemunhar coisas impactantes, está também acessando o sagrado, quando, na verdade, muitas vezes está se deparando, com grandes alardes, exatamente com o que reside nas profundezas. O verdadeiro êxtase é resultado da santidade e surge após ela, assim como a flor nasce da raiz; já o êxtase químico é como uma flor arrancada e fixada sem sua raiz, que murcha e estraga e, por vezes, carrega grudado a si um verme. Teresa de Ávila dedicou duas décadas à oração e à penitência para alcançar a transcendência; enquanto isso, o atalho químico promete resultados semelhantes em apenas vinte minutos, mas oferece uma experiência completamente diferente, embora utilize o mesmo nome. A distinção entre o místico e o psiconauta não reside na intensidade, mas sim na entrada: um ascende pela escada limpa da santidade e é acolhido; o outro escava um túnel pela parede e se surpreende com o que descobre no porão.

E não pense que o acesso a esses mundos é mera teoria, uma especulação de quem nunca deixou a comodidade da poltrona — pois a história da Igreja está repleta de testemunhas que estiveram lá e retornaram para relatar, e o testemunho delas é uma das evidências mais contundentes de que esses mundos são reais. Os místicos não são poetas criando metáforas elaboradas; são aventureiros que descrevem uma geografia. Santa Teresa de Ávila narra, com a sobriedade de quem realmente presenciou e não de quem apenas fantasiou, as mansões do castelo interior, os níveis da oração e os êxtases nos quais a alma é elevada e contempla; também descreve, em um estado de tremor, uma visão do lugar que o mal escolheu para si, um dos mundos decaídos, e ao sair dessa visão, não sente curiosidade doentia, mas um horror que a faz amar ainda mais a Deus. São João da Cruz entoa a ascensão ao monte Carmelo, a escuridão da noite, a jornada até a união. Ao longo dos séculos, os visionários reconhecidos pela Igreja — após rigorosos exames, pois a Igreja é cética em relação a esse assunto — descrevem, com uma coerência que transcende culturas e épocas, as mesmas visões: os mundos de luz habitados por anjos e santos, os mundos de escuridão povoados pelo terror, a Mãe que surge vestida de sol, o céu que se aproxima. Testemunhas autônomas, de diversas culturas e épocas, relatando a mesma geografia oculta — isso, em qualquer outro campo do conhecimento, seria considerado uma prova contundente de que essa geografia é verdadeira. Apenas o preconceito materialista rejeita a evidência apresentada, pois já decidiu previamente que o que é invisível não existe; a partir disso, rotula como inexistente tudo aquilo que se recusa a observar.

Observe uma diferença fundamental entre o relato desses exploradores e o delírio daqueles que adentram novos mundos através das drogas ou da tecnologia, pois isso valida tudo o que discutimos sobre a santidade ser a chave. Os místicos penetram nos reinos de luz e retornam mais humildes, mais generosos, mais dedicados a Deus e mais desapegados de si mesmos — os resultados são de luz, e por essa razão a Igreja considera que a experiência foi de luz. Aqueles que se entregam ao uso de drogas e à magia frequentemente retornam, com o ego ainda mais inflado, mais angustiados, e, em algumas ocasiões, completamente destruídos, sendo perseguidos por forças que nunca os abandonam — os frutos dessa escolha são sombrios, e é por isso que se entende que a porta que abriram leva ao abismo. A mesma suposta jornada aos planos espirituais gera santos em um caso e ruínas no outro, e a diferença está toda na entrada: o místico ascende pela escada pura da santidade e é acolhido nos cômodos iluminados; o intruso escava um túnel pela parede e despenca no porão. Portanto, eu te digo, concluindo esta parte com a convicção de quem adverte por amor: existem realidades autênticas do outro lado do véu, e há aqueles que conseguem alcançá-las de fato — mas o caminho é único e se chama santidade, e qualquer outro percurso que te ofereçam, por mais ágil e radiante que pareça, não te eleva, mas te rebaixa. A porta de Yesod se abre por dentro, pela chave da sinceridade do coração, e nenhuma ferramenta consegue forçá-la sem que quem reside no porão venha atender.

E agora eu chego à frase que é o cerne deste livro, a qual venho prometendo desde o primeiro fragmento, aquela que o Círculo firmou e que vou comprovar com prova em mãos: os Santos do Sonhar são os autênticos X-Men. Em relação a isso, não se trata apenas de uma força de expressão, mas de uma tese metafísica de caráter literal. Reflita sobre o que representam os X-Men, uma das criações mais teológicas da Marvel, mesmo que seus criadores não tenham consciência disso. São mutantes — seres humanos que, por uma transformação profunda em sua própria essência, manifestaram uma nova habilidade, um poder que não é compartilhado pelos demais: um pode voar, outro atravessa a matéria, um consegue ler a mente, outro cura, e há também quem controle os elementos. São temidos e perseguidos pelo mundo comum, que não compreende sua transformação e, por isso, a despreza, além de os caçar por serem diferentes, por serem superiores. Os mutantes se juntam em uma irmandade, em uma escola, sob a orientação de um mestre, com o objetivo de aprender a utilizar seus dons, para se protegerem mutuamente e para servir e salvar justamente o mundo que os teme. Pois bem, substitua "mutante" por "santo" e você terá, ponto a ponto, sem que falte ou sobre uma parte, a descrição precisa da comunhão dos santos. O santo é um ser transformado: a graça trouxe nele uma verdadeira modificação de essência — não de espécie biológica, mas de algo mais profundo, a elevação sobrenatural, a divinização em fase inicial, a vida de Deus integrada à vida do ser humano — e dessa transformação espiritual surgem habilidades novas que as pessoas comuns não possuem.

E a semelhança é tão precisa que até as dores se equivalem. Os mutantes são temidos e caçados; os santos sempre foram temidos e perseguidos pela sociedade, pois o santo é um escândalo vivo, uma denúncia silenciosa, uma existência que o mundo não consegue classificar nem controlar. E o que não se controla, o mundo elimina — desde Santo Estêvão apedrejado até os mártires do coliseu, passando pelos profetas serrados ao meio e pelos missionários degolados recentemente, a humanidade em geral nutre, em relação ao santo, a mesma mistura de fascínio e ódio que a humanidade das ficções sente pelo mutante. Os mutantes se encontram em uma escola sob a orientação de um mestre; os santos se congregam na Igreja sob a direção do Mestre, e a Igreja é, sem dúvida, a instituição de formação dos Santos do Sonhar, o ambiente onde o dom recebido é reconhecido, desenvolvido, resguardado e colocado em ação. Os mutantes constituem uma irmandade onde a força de um ajuda a fraqueza do outro; os santos configuram a comunhão dos santos, essa rede viva em que o mérito de uma pessoa sustenta o mundo todo, em que a oração de uma vovozinha anônima sustenta um missionário do outro lado do mundo, onde ninguém se salva sozinho, pois cada integrante carrega o conjunto. Os X-Men representam uma alegoria que a cultura pop abordou sem perceber que estava fazendo uma reflexão sobre valores; os santos são a manifestação real de que os X-Men são apenas um esboço. A única diferença, mas que representa tudo, é que os poderes dos X-Men são fruto da fantasia ilustrada, enquanto os poderes dos santos são baseados em relatos documentados.

Pois é aqui que o cético se acomoda e deixa de rir: os poderes dos super-heróis não são, na vida dos santos, uma mera metáfora religiosa ou uma fábula de catecismo. Trata-se de fatos, vários deles com testemunhas, processos, documentos e datas. A Igreja, por sua vez, é a instituição mais cética do mundo em relação a esse assunto, a que mais questiona, a que solicita evidências, especialistas, análise crítica e longos anos de pesquisa antes de validar um milagre — e mesmo após todo esse rigor, ainda permanecem, em grande quantidade, os casos. Por isso, convido você a deixar os gibis de lado por um momento e dar uma olhada na galeria de super-heróis verdadeiros que a Igreja mantém em seus registros, pois ela faz a Marvel e a DC parecerem bem modestas. E eu vou mencionar, um por um, porque a regra dessa saga é não deixar escapar nenhum fragmento, e cada santo é um pedaço de evidência de que os dons de Yesod realmente se manifestam na carne daqueles que se santificam, e que nós, repito, nunca deixamos a era dos super-heróis.

Vou aprofundar a comparação com os X-Men até o limite, pois ela é tão precisa que chega a ser dolorosa, e cada parte dessa analogia traz uma lição. Quem é o Professor Xavier, o educador que cria a escola para receber os mutantes aflitos com suas habilidades, que os orienta a utilizar seus poderes em benefício do bem, e que almeja a reconciliação entre os mutantes e a sociedade que os teme? É a imagem do Mestre e, por trás dele, do próprio Cristo, que estabelece a Igreja como uma escola de santos, que acolhe cada alma apreensiva quanto à sua vocação, que ensina a utilizar os dons para o serviço e não para a dominação, e que parte sonhando com a reconciliação entre o céu e a terra. A escola do Professor X é representada pela Igreja; os alunos são os santos em processo de formação; e a prática é a vida espiritual. Magneto é o mutante extremamente poderoso que, ao perceber o ódio que o mundo nutre pelos mutantes, conclui que eles devem assumir o controle do planeta. Ele utiliza suas habilidades para buscar vingança e conquistar poder, preferindo ser um senhor a um servo. É a imagem do anjo decaído, do mutante que voltou sua grandeza para o seu interior, a negação entre os privilegiados: o mesmo talento que serve ao santo, rege o Magneto; a mesma elevação que poderia ser Yesod se transforma, devido à arrogância, no abismo. Magneto e Xavier possuem habilidades similares, mas trilham caminhos diferentes, pois o que realmente separa os dois não é o talento, e sim a maneira como utilizam esse poder — aceitar e ajudar, ou dominar e governar. É a parábola da ateísmo e do teísmo narrada de forma mutante.

E o Wolverine, esse mutante capaz de curar qualquer ferida, mas que carrega consigo mágoas que nunca se curam, é um guerrreiro severo e solitário que, no fundo, protege os mais vulneráveis — ele representa o arquétipo do herói ferido que cura, aquele que transforma sua própria dor em uma forma de defesa para os outros, reminiscente do Médico ferido que, por meio de suas chagas, nos curou. Um dos temas mais impactantes abordados nos X-Men, que demonstra que os roteiristas estavam explorando questões teológicas sem perceber, é a ideia da cura. Você se recorda que, em uma das narrativas, o mundo cria uma cura para a mutação, uma injeção que elimina os poderes e transforma o mutante em um ser humano comum, normal, aceitável — e que isso gera uma divisão entre os mutantes, pois alguns desejam ser curados, anseiam por deixar de ser diferentes, desejam pertencer? Quanto a isso, pois é precisamente a proposta do demiurgo sintético ao santo. O mundo apresenta ao Santo do Sonhar a possibilidade de renunciar à sua santidade: não seja mais diferente, não seja mais esse choque, aceite a dose da normalidade, elimine esse dom incômodo, misture-se à multidão, seja como todos, consuma como todos, silencie como todos. E a tentação é verdadeira, pois ser diferente machuca; ser justo em um mundo desmoronado é ser perseguido. No entanto, o Santo do Sonhar rejeita a cura, assim como o mutante fiel rejeita a injeção, pois compreende que seu dom não é uma enfermidade a ser tratada, mas uma vocação a ser vivida. Ele sabe que trocar a glória de ser um filho de Deus pela paz morna de ser apenas mais um na multidão é a maior traição — é vender a primogenitura por um prato de lentilhas, é livrar-se da própria grandeza.

E a afirmação mais audaciosa desta saga — de que o ser humano pode alcançar um poder semelhante ao dos seres de Yesod, e uma glória comparável à dos Santos do Sonhar — não é um exagero nem um delírio de grandeza; trata-se da doutrina mais antiga e sólida da tradição cristã, que foi preservada com zelo pelo Oriente e quase esquecida pelo Ocidente, e que é conhecida como teose, ou divinização. Eu preciso te fornecer essa informação com os nomes dos grandes especialistas que a elaboraram, para que você perceba que não estou inventando nada. Santo Atanásio, no século IV, um verdadeiro defensor da ortodoxia contra os hereges, escreveu uma frase que resume tudo e que deveria estar gravada em cada coração cristão: Deus se fez homem para que o homem se tornasse deidade. Não é uma ofensa; é a Boa Nova em sete palavras. O Verbo veio até nós, seres humanos, para que pudéssemos elevar-nos até a Sua divindade; Ele assumiu o que é nosso para nos conceder o que é d'Ele; tornou-se filho do homem para nos transformar em filhos de Deus. Santo Irineu, antes de sua afirmação, declarou que a glória de Deus se manifesta no homem vivo, desmentindo de forma definitiva a ideia de que Deus sente ciúmes da nossa grandeza. O maior esplendor de Deus, diante do universo, não se encontra no homem diminuído e oprimido, mas sim no homem que alcança sua plena estatura, no homem divinizado. Isso ocorre porque Deus é tão grandioso que a Sua glória reside em elevar a criatura, e tão generoso que o Seu brilho é, na verdade, o brilho dos filhos.

E a doutrina foi ajustada até se transformar em bisturi. São Máximo, o Confessor, ensinou que, ao final, o ser humano será, por graça, tudo o que Deus é por natureza, exceto a essência da natureza — ou seja, o homem que se torna divino terá tudo o que Deus possui: poder, glória, luz, imortalidade e felicidade, exceto por uma coisa: ele não será Deus por si mesmo; será deus por participação, por presente, por um empréstimo sem fim, sem nunca deixar de ser criatura. Foi um monge do monte Atos, São Gregório Palamas, quem estabeleceu a distinção que evita que isso se transforme em panteísmo e que é a chave metafísica de toda a questão: em Deus, é necessário diferenciar a essência, que é absolutamente inacessível e incomunicável, a qual nenhuma criatura jamais alcançará ou tocará, das energias, que representam a própria vida de Deus se manifestando, a luz incriada do Tabor, a graça, por meio das quais o ser humano participa verdadeiramente de Deus sem, contudo, se tornar a essência de Deus. É nesse ponto que o Santo do Sonhar se afasta profundamente do übermensch e do mago: na teose, o ser humano é divinizado ao participar das energias divinas, enquanto permanece sempre uma criatura, distinta, amada, um outro — a gota que é acolhida pelo oceano, mas que não se dissolve nele; já na ateose, o ser humano busca se apropriar de sua própria essência, almejando ser Deus por direito e não como um presente, e acaba caindo. Engajar-se nas forças que defendem a essência; acolher a luz que protege a fonte; a mão acolhedora de Maria em oposição ao punho cerrado de Lúcifer.

É essa teose que possibilita os carismas dos santos e assegura a promessa contida neste livro. Se o homem santo realmente compartilha das energias divinas e se a vida de Deus o preenche de maneira verdadeira, não há motivo para se surpreender que dessa participação surjam poderes que vão além da natureza humana — como o voo, a bilocação, a leitura de pensamentos e o controle sobre a matéria. Esses não são artifícios; são o resultado espontâneo de uma essência humana elevada por uma energia divina que a permeia, assim como o ferro, quando aquecido, exala calor e luz que não pertencem ao ferro, mas ao fogo, sem deixar de ser ferro. O santo levita não deixa de ser humano, mas sim porque a graça que reside nele é tão intensa que a própria essência de seu corpo começa a se submeter ao espírito divinizado, prevendo as qualidades do corpo glorioso. Os poderes dos Santos do Sonhar são a teose transbordando para o exterior, a divinização se manifestando no visível, a luz do Tabor brilhando na carne de um homem que se permitiu ser preenchido por Deus. E é exatamente por isso que a santidade é o único caminho: pois os poderes não são o objetivo, são o que transborda; não se busca os dons, busca-se o Doador, e os dons chegam como um acréscimo, assim como a luz se acrescenta ao ferro que se entrega ao fogo. Procure primeiro o Reino, e o restante, incluindo os poderes de Yesod, será concedido a você em abundância.

E por que o ser humano, especificamente o ser humano, tem a capacidade de se transformar em um Santo do Sonhar, enquanto a pedra e o animal não possuem essa possibilidade? Por que essa pequena criatura, perdida em um planeta diminuto, possui dentro de si a habilidade de ser venerada, de alcançar Yesod, de se tornar um herói de luz? A resposta pode ser encontrada na primeira página da Bíblia e representa a mais elevada dignidade que já foi concedida a um ser: o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus. Os Padres estabeleceram uma sutil diferenciação entre as duas palavras que é fundamental: a imagem representa aquilo que recebemos na criação e que nunca conseguimos perder completamente — é a razão, a liberdade, a habilidade de amar, de conhecer, de transcender, a disposição para o infinito que nenhum animal possui; é a essência divina impressa na alma, o reflexo destinado a refletir o Criador. A semelhança é aquilo que se conquista e se perde, aquilo que o pecado danificou e a graça recupera — é a imagem concretizada, aprimorada, iluminada, a verdadeira semelhança com Deus que se alcança por meio da santidade. Todo homem é uma representação de Deus, não importa quão perdido ele esteja; o santo é aquele que restabelece a semelhança, permitindo que a graça limpe o espelho embaçado até que ele reflita, novamente, o rosto para o qual foi criado. E é por essa razão, precisamente por essa razão, que o ser humano pode ser divinizado: porque, por sua essência, ele já é um reflexo de Deus, uma imagem dotada de infinitude, um ser moldado para abranger o Criador. A habilidade de se tornar Santo do Sonhar não é algo que se acrescenta externamente ao ser humano; ela está inscrita na essência dele desde o seu primeiro suspiro, pois foi criado, desde o início, como um vaso moldado precisamente para um vasto oceano.

Os antigos atribuíram a essa dignidade um outro nome, que liga o homem a Yesod e a todo o cosmos: o homem é um microcosmo, um pequeno mundo, uma síntese de toda a criação. Porque no ser humano estão presentes todos os níveis da existência: ele possui a matéria das rochas, a vida das plantas, a percepção dos animais e a razão e o espírito dos anjos — ele é a fronteira, a conexão, o ponto em que o mundo material e o mundo espiritual se encontram e se unem. O ser humano é a entidade limítrofe, o ser híbrido que reside entre dois universos, aquele que possui um pé no mundo terrestre e outro em Yesod, um pé na materialidade e um pé na espiritualidade, sendo assim o único capaz de servir como elo entre os dois, o mediador da criação, aquele que junta toda a criação material e a oferece a Deus, fazendo descer sobre a criação as graças do alto. Observe o que isso implica para a tese deste livro: o homem é o ser imaginal por excelência, o residente natural de Yesod, pois sua própria estrutura funciona como uma ponte entre a imagem e o espírito, entre a forma e a luz. Quando o homem sonha, ele não está agindo de forma estranha à sua essência; está cumprindo a sua vocação de ser-fronteira, visitando o andar de Yesod que é seu por direito natural. Quando o homem se santifica, ele realiza a finalidade do microcosmo: transforma-se na ponte iluminada que conecta o céu à terra e a terra ao céu, o espaço onde os dois mundos que se encontram nele finalmente se entrelaçam. O Santo do Sonhar é o microcosmos realizado, a representação aperfeiçoada em semelhança, o anfíbio que finalmente aprendeu a respirar em ambos os mundos e a incorporar um dentro do outro.

Agora eu preciso ajustar com a precisão de um relojoeiro o que, de fato, é um Santo do Sonhar, pois a Teologia do Imaginário, em sua abordagem sobre o tema, apresentou uma definição que é mais elaborada do que eu havia deixado claro até o momento. Um Santo do Sonhar não é apenas um herói qualquer que habita Yesod. É um verdadeiro santo, uma pessoa que alcançou a santidade por meio de boas virtudes nesse mundo dos sonhos — ou, e aqui está a nuance, alguém que recebeu poderes e dons, e conseguiu se santificar a tal ponto que ordenou esses poderes e os transformou em algo bom. Os poderes que ele possui o transformaram em uma pessoa boa. Preste atenção no verbo, pois tudo se resume ao verbo. O Santo do Sonhar não é aquele que possui poder; é aquele que, mesmo tendo poder, se santificou, de tal forma que a força que poderia tê-lo corrompido o transformou, ao contrário, em um santo. E o arquétipo ideal disso, o exemplo paradigmático, é exatamente o Superman. Imagine-o: uma entidade que desce do céu com poder quase sem limites, que tinha todas as condições para controlar a Terra, para se tornar um tirano, para se estabelecer como um deus sobre os humanos. E ele opta por não. Ele afirma: vou utilizar isso para o bem da humanidade. A santificação dele consiste exatamente em adquirir o poder e, ao invés de se deixar corromper por ele, direcioná-lo para o bem, transformando o próprio poder em um caminho de virtude.

— Contudo, nem todo Superman é do bem, professor. Há o Superman comunista, o da Terra vermelha, que se torna um ditador. Há o Superman do Injustice, que perde a razão e se torna um tirano.

— E é precisamente por isso que o Superman, quando é bom, se torna um santo, Dênis. Você acabou de validar a minha tese sem querer.

Observe a genialidade da questão: a cultura, sem perceber, traçou os dois caminhos possíveis do mesmo poder. Em uma realidade alternativa, em Red Son, o Superman aterrissa na União Soviética e se torna, de fato, um ditador comunista, um tirano que exerce controle em nome do que considera ser o bem. Em outra obra, Injustice, ele perde a pessoa amada, fica consumido pela dor e se torna um tirano que impõe a paz através do medo. O mesmo poder, o mesmo ser — e dois destinos antagônicos, o céu e o inferno, divididos apenas pelo que o coração realiza com a força. O Superman que admiramos não é um herói apenas por ser fraco e incapaz de cometer atos malignos; ele é bom porque possui uma força imensa, poderia fazer todo o mal que existe, mas opta, dia após dia, por não fazê-lo. Essa escolha constante, essa distribuição do poder em prol do bem, esse controle do próprio deus interior pela virtude ao invés de liberá-lo pela arrogância — isso é santidade. O Superman virtuoso é um Santo dos Sonhos, pois utilizou seu poder da mesma maneira que o santo utiliza seus dons, assim como você é chamado a fazer com sua própria vida: recebeu uma força capaz de destruí-lo e permitiu que essa força, guiada pela virtude, o transformasse em luz em vez de torná-lo um tirano. E os Supermen derrubados, os tiranos, são os anti-santos, aqueles que receberam o mesmo dom e o liberaram por causa da vaidade — a incredulidade entre os deuses de capa, Magneto trajando vermelho.

E há uma dimensão ainda mais profunda e mais bela nessa doutrina, que esclarece de onde, afinal, surgem esses Santos do Sonhar na mente dos artistas. A Teologia do Imaginário afirma que o Santo do Sonhar desempenha uma função ideal: ele atua como um espelho que reflete a essência de Deus na alma humana. Deixe-me abrir isso. Quando um escritor, um desenhista ou um roteirista desenvolve um herói que é virtuoso, de onde surge essa virtude? Ela provém da porção sagrada da alma dele, do que existe de mais puro e radiante no criador, que se revela, se expressa, assume forma e identidade em um personagem. O herói é um reflexo no qual o artista projeta o bem que habita, ainda que oculto, em sua própria essência — e, por trás disso, espelha o próprio Deus, de quem emanam todas as virtudes. Dessa forma, os heróis não são uma invenção aleatória: são a porção sagrada da alma dos narradores que se torna personagem, e por trás disso, a luz de Deus refletida duas vezes, de Deus para a alma do artista, e da alma do artista para o herói na folha. E assim como tudo o que Deus concebe se torna realidade, seja no plano metafísico ou não, esses heróis, que são a reflexão da luz divina na alma dos seus criadores, não representam apenas tinta: eles passam a habitar, de fato, os mundos dos sonhos.

E é justamente por isso, Dênis, que Deus coloca esses heróis em nossa cultura, e essa é a resposta para uma pergunta que poucos fazem: qual é a função dos super-heróis no plano divino? Elas têm a finalidade de trazer as virtudes para o mundo humano. Porque — atente para essa verdade, que Gaiarsa percebeu e que a Teologia do Imaginário estabeleceu — o ser humano, na prática, só compreende o bem e o mal através dos mitos, pelo reflexo de heróis, pela reconstituição de narrativas. Não é por meio de teorias abstratas que a alma se torna corajosa; é ao observar a coragem materializada em um herói e almejar ser assim. E é por isso que, dentro da Igreja, a Missa acontece tantas vezes: não se trata de uma repetição vazia, mas sim de uma lembrança, um retorno ao encontro com os heróis bíblicos, com Cristo, para alimentar e moldar a virtude através do espelhamento. Há uma ordem oculta nesse sistema, como uma escada: cada herói reflete uma virtude, e os heróis se tornam progressivamente mais virtuosos, cada vez mais iluminados, em uma sequência ascendente que sempre leva ao mesmo ponto — a Cristo. A partir da observação do herói, você se eleva ao status de Herói. Do Superman você ascende ao Cristo do Sonhar; do rascunho você eleva-se ao original; da parte sagrada da alma de um artista judeu em Cleveland você sobe ao Santo de quem aquela santinha era um eco. Os heróis representam os degraus; Cristo é o topo da escada; e toda a cultura, para aqueles que ascendem com o olhar puro, é uma catequese que se eleva, levando, de fragmento em fragmento, de espelho em espelho, até o Rosto do qual todos eles são reflexo.

Você deseja o herói que pode voar? A Igreja venera São José de Cupertino, um frade do século dezessete que levitava em êxtase diversas e notórias vezes — elevando-se do chão diante de multidões, cardeais e até de um rei — que seus superiores decidiram proibi-lo de participar das missas públicas e mantê-lo afastado do povo, devido ao escândalo que sua habilidade gerava; o homem realmente voava, e existem muitos relatos a respeito. Você deseja o herói que consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo, como acontece com o teletransporte nas histórias em quadrinhos? A Igreja venera São Martinho de Porres, o frade mulato de Lima, conhecido por cuidar de doentes em diferentes continentes sem jamais sair de seu convento. Mais próximo de nós, no século XX, temos o caso de São Padre Pio, cuja documentação é abundante e cujas testemunhas estão vivas. Ele foi visto em bilocação em lugares remotos e, além disso, carregou em suas mãos, abertas e sangrando, por cinquenta anos, as cinco chagas de Cristo — um homem que teve o estigma da Paixão marcado em sua própria carne, durante meio século, sem que isso causasse infecção ou cicatrização. Você deseja um herói que consiga ler o coração das pessoas, que veja a essência da alma, assim como fazem os telepatas das histórias de ficção? A Igreja conta com o Cura d'Ars, São João Maria Vianney, que, antes mesmo de o penitente se pronunciar, conseguia identificar o pecado que ele tentava ocultar, e dedicava dezoito horas diariamente no confessionário, compreendendo as almas como se estivesse lendo um livro aberto. Além dele, há também o Padre Pio, que realizava a mesma prática.

Você deseja o herói imbatível, aquele corpo que a morte não consegue derrotar? A Igreja possui dezenas de santos incorruptos, corpos que permanecem intocados há séculos — como Santa Bernadette de Lourdes, que repousa há mais de cem anos com o rosto imaculado, como se estivesse apenas dormindo —, a imutabilidade do corpo glorioso já manifestada, servindo como exemplo, em relação à carne dos que pertencem a Deus. Você deseja um herói que tem controle sobre a natureza e se comunica com os animais, semelhante aos heróis das florestas? A Igreja conta com São Francisco de Assis, que falava para os pássaros e eles o escutavam, que conseguiu domar o lobo feroz de Gúbio com uma só palavra, que se referia ao sol e à lua como irmãos e que era respeitado pela criação como Adão antes de sua queda; e também possui Santo Antão e os Padres do deserto, que estavam rodeados por feras que se deitavam tranquilas aos seus pés. Você deseja o herói que cura com um toque, que traz os mortos de volta à vida, que multiplica o pão? Encontra-se nos Atos dos Apóstolos, na trajetória dos santos taumaturgos, e em Lourdes, local onde cura sem explicação médica são documentadas, avaliadas e confirmadas por comissões de médicos, muitos deles céticos, até os dias atuais. Se você voltar até os heróis da Bíblia, as coisas ganham uma dimensão grandiosa: Moisés divide o mar com seu cajado e provoca as pragas sobre o Egito; Elias faz chover fogo do céu, controla as chuvas com sua palavra, ressuscita o filho da viúva e é levado ao céu em uma carruagem de fogo, sem experienciar a morte; Eliseu multiplica o azeite e purifica as águas; Josué faz o sol parar no firmamento. Os heróis bíblicos são os pioneiros e os mais notáveis super-heróis, e a Bíblia é, entre muitas outras coisas ainda mais grandiosas, o livro mais antigo e autêntico de super-heróis que a humanidade tem à disposição.

Agora você compreende o que isso implica, considerando tudo: cada um desses poderes — voo, bilocação, telepatia, invulnerabilidade, controle sobre a natureza, cura e ressurreição — representa um carisma, um dom extraordinário do Espírito Santo, concedido a quem Ele deseja, de que forma e no momento que Ele escolher, para o benefício do corpo como um todo. Os superpoderes dos quadrinhos podem ser vistos, em termos reais, como os carismas dos santos; e os carismas dos santos são, em antecipação nesta vida como uma primícia, as habilidades do corpo glorioso que estarão disponíveis para todos os ressuscitados. A trajetória é direta e sem artifícios: o Espírito Santo é a verdadeira fonte de luz que transforma o ser humano comum em um mutante de Deus; a graça santificante representa a verdadeira metamorfose; a santidade é a verdadeira escola de super-heróis; e os santos, desde São José de Cupertino voando sobre o altar até Moisés abrindo o mar, são a evidência histórica, documentada, analisada e persistente de que os super-heróis não são criações de roteiristas vorazes — são lembrança e previsão de uma realidade que já esteve presente, que ainda está presente, e que virá a existir em sua plenitude. Jamais deixamos a era dos heróis. Nós estamos dentro dela agora. Apenas mudamos de nome: o herói é chamado de personagem pelo mundo; ao Santo do Sonhar, Deus se dirige pelo nome e o registra na pedra branca que somente Ele conhece.

A galeria dos super-heróis de verdade é bem mais ampla do que eu já apresentei, e cada inclusão nela é um golpe contra o materialismo. Santa Teresa de Ávila, a mesma do Castelo Interior, experimentava levitação em êxtase durante suas orações e pedia às irmãs que a mantivessem no chão, envergonhada pelo prodígio — existem atas e testemunhos sobre isso. São Francisco Xavier, o jesuíta que levou o evangelho ao Oriente, possuía, conforme os relatos, o dom das línguas, pregando e sendo compreendido por povos cujos idiomas não dominava — o mesmo carisma que se manifestou em Pentecostes, quando os apóstolos, galileus sem formação, falaram e foram ouvidos cada um em sua própria língua. São João Bosco possuía sonhos proféticos que se realizavam e contava com a proteção de um imenso e enigmático cão, o Grigio, que surgia do nada e desaparecia, sem que ninguém soubesse de onde vinha — um verdadeiro anjo da guarda em forma de animal, dirá quem tem discernimento. Santos multiplicaram pão e alimento diante da fome; santos profetizaram o futuro com precisão; santos exalaram, na hora da morte, o famoso odor de santidade, um perfume inexplicável que emanava do corpo; santos controlaram as tempestades, acalmaram o mar, foram obedecidos pelos animais e pelos elementos. Cada um desses representa um poder de super-herói que está registrado no corpo de um homem ou de uma mulher que se dedicou à santificação. A Marvel cria; a Igreja preserva. O arquivo é maior e realmente existe.

Entretanto, não gostaria que você imaginasse que o Santo do Sonhar se resume apenas aos prodígios grandiosos, pois o verdadeiro heroísmo da fé não é algo que flutua ou que se exibe — ele sofre. Os mártires são os verdadeiros super-heróis, aqueles de maior valor, e eu te convido a deixar de lado a história em quadrinhos e observar a realidade, o coliseu da vida real, onde homens, mulheres e crianças de carne e osso enfrentaram feras reais e a morte verdadeira, sem roteiros, sem chance de uma segunda tentativa, sem retorno na próxima edição — e enfrentaram cantando. Santa Perpétua, uma mulher de alta posição, mãe de um bebê que ainda mamava, dirigiu-se com tranquilidade à arena em Cartago e, conforme relatam os registros, ela própria conduziu a mão inquieta do gladiador iniciante até o seu próprio pescoço. Qual invulnerabilidade do Super-Homem se compara a isso? O herói de ficção é imbatível, e por essa razão é fácil ele ser valente; o mártir é vulnerável, experimenta o medo por completo, pode morrer e realmente morrerá — e ainda assim opta pelo amor, de coração aberto. A coragem que não envolve sacrifício não é verdadeira coragem; a coragem do mártir exige tudo, e por isso é a mais nobre que existe, superior a qualquer superpoder, pois representa o amor levado ao extremo, desafiando até mesmo o instinto de sobrevivência. E essa era de mártires ainda não chegou ao fim: no século vinte, morreram mais cristãos por sua fé do que em todos os séculos anteriores juntos, e até os dias de hoje, neste exato momento, há Santos do Sonhar sendo perseguidos e mortos pelo mundo que os teme, assim como os mutantes, por serem diferentes, por serem mais, por carregarem uma luz que a escuridão não tolera.

Tudo isso se mantém e flui em uma rede, a verdadeira rede, o autêntico macrocérebro que o sincromístico explorou e denominou de teia impessoal: a comunhão dos santos. Porque os Santos do Sonhar não são heróis solitários, isolados em seus lugares; eles formam uma irmandade, um corpo, uma rede viva na qual a graça flui de um membro para outro. São Paulo afirma de maneira direta que somos parte uns dos outros, ou seja, quando um padece, todos padecem, e quando um é exaltado, todos se alegram. Isso significa que a força de um santo auxilia a fragilidade de outro em qualquer parte do mundo; que a prece de uma carmelita isolada em um convento dá suporte a um missionário que ela nunca conheceu; que o sofrimento oferecido por um enfermo em sua cama transborda bênçãos sobre um pecador em sua cela; que os santos no céu intercedem por aqueles que estão em combate na terra, e que podemos solicitar a ajuda deles da mesma forma que um X-Man chama outro pelo comunicador. Trata-se de uma rede verdadeira, mas o que circula por ela não é apenas informação fria; é amor, mérito, graça, oração, e o seu sistema nervoso é o Espírito Santo, enquanto o coração que a impulsiona é Cristo. O sincromístico teve um sonho de conexões em um cérebro cósmico sem rosto; a fé oferece conexões de amor em um Corpo cuja Cabeça possui um Rosto e um Nome. E é por essa razão que nenhum Santo do Sonhar está só: ele é um mutante em uma enorme irmandade, vibrante, que ultrapassa a morte e que o ampara quando ele tropeça, assim como ele apoia outro quando este cai, até que todos cheguem, juntos, ao Mundo dos Sonhos.

Existem os Santos do Sonhar, que lutam, não à distância, mas de maneira intensa e direta, contra os reinos decaídos, e esses são os super-heróis que se assemelham aos caçadores de demônios da ficção, mas que são reais: os exorcistas. Porque enquanto o ocultista abre caminhos para o desconhecido, o exorcista os fecha; enquanto o mago faz invocações, o exorcista expulsa; e a Igreja, que é a instituição mais cética do mundo e que requer laudos médicos e psiquiátricos antes de aceitar um único caso verdadeiro, possui, em cada diocese, pessoas capacitadas para esse enfrentamento, pois tem plena consciência de que ele é real. Os relatos desses homens, apresentados com a seriedade de quem exerce uma profissão e não de quem busca emoção, confirmam tudo o que discutimos sobre os mundos caídos: existem inteligências reais e malignas que falam línguas que o possuído nunca aprendeu, que detêm segredos que ninguém revelou, que reagem com furor ao que é sagrado e com desdém ao que é falso — e que são derrotadas, sempre, não pela força de quem as enfrenta, mas pela autoridade do Nome de Jesus e pela humildade de quem reconhece sua insignificância diante de Deus. O exorcista é o Santo dos Sonhos na linha de frente, o verdadeiro Kamen Rider contra o autêntico culto das trevas, e a sua arma não é um cinto transformador, mas sim a cruz, a água benta, o Nome, a oração — ferramentas que aparentam ser frágeis e são invencíveis, pois o inferno, que não tem medo da força que o imita, treme diante da humildade que é o seu oposto absoluto.

E a principal arma deste conflito, aquela que sintetiza todas, é apenas uma, e eu a compartilho com você, pois você também está nessa batalha, consciente ou não: o Nome de Jesus. Afirma São Paulo que ao Nome de Jesus se curva todo joelho nos céus, na terra e nos infernos — todo joelho, incluindo os do abismo, que se inclinam não por afeição, mas por imposição, pois esse Nome é o Nome superior a todos os nomes, a chave que desbarata o céu e sela o inferno, a palavra perante a qual as forças malignas não conseguem resistir. O Santo dos Sonhos não necessita de fórmulas complexas ou de rituais sofisticados; apenas requer um Nome, pronunciado com fé, vindos das profundezas de um coração humilde, e esse Nome é capaz de fazer tremer legiões. E ao lado do Nome, está a Mãe, pois toda a tradição confirma que o adversário que resiste ao teólogo foge da humildade de Maria, aquela de quem foi profetizado, no Gênesis, que pisaria na cabeça da serpente com o calcanhar — a mulher simples de Nazaré, a quem as forças do abismo temem mais do que a todos os exércitos, porque ela representa tudo o que elas detestam: humilde, obediente, pura, cheia de graça, a serva que aceitou e, por isso, reina. No final das contas, o combate espiritual não se resume a uma disputa entre forças, onde o mais poderoso sai vitorioso; trata-se, na verdade, de uma batalha entre humildade e orgulho, onde o que se mostra humilde triunfa, pois Deus se opõe aos que são arrogantes e concede sua graça aos que são humildes. E é por essa razão que os Santos do Sonhar, os genuínos X-Men, vencem forças que os superam em imensidão em termos de poder e astúcia: não através de uma força superior, mas sim com a humildade que o orgulho não suporta, com o Nome diante do qual todo joelho se curva, e com a mão da Mãe que derrota a serpente enquanto embala seu filho.

E eu desejo que, ao término deste livro, você tenha uma convicção que transforma a vida de quem a acolhe de coração: você não está só nessa batalha, e os seus companheiros são mais fortes do que você pode imaginar. Se cada um possui um anjo, como o Círculo demonstrou, então você também tem o seu — uma inteligência luminosa, um príncipe celeste, escolhido por Deus desde o seu nascimento para te proteger, te inspirar, te defender das forças do mal, e entrelaçar em sua vida os fios do cuidado do Pai. Não se trata de uma figura de linguagem; é uma doutrina, e Cristo mesmo a confirmou ao mencionar os anjos das crianças que estão sempre na presença do Pai. Seu anjo da guarda é um Santo do Sonhar que nunca pecou, um valoroso guerreiro de Yesod designado exclusivamente para você, e a maioria das pessoas passa pela vida sem jamais se comunicar com ele, sem nunca solicitar sua ajuda, ignorando o aliado mais forte que possuem ao seu lado. E além do seu anjo, você conta com toda a irmandade, a Liga da Justiça celestial, o grupo dos santos glorificados, a quem você pode chamar como um X-Man aciona seu comunicador: peça a São Miguel que te proteja na luta, a Padre Pio que faça a intercessão, à sua santa de preferência que caminhe ao seu lado e à Mãe de Deus que cubra você com seu manto. A comunhão dos santos não é apenas uma ideia; é uma teia de apoio mútuo que supera a morte. Os heróis que já triunfaram estão do lado de lá da porta entreaberta, torcendo por você, orando por você, prontos para correr em seu auxílio assim que você os invocar.

Pense no significado imenso disso e na razão pela qual o demiurgo sintético se esforça tanto para te manter na escuridão: o mundo deseja que você acredite que é um ser solitário, um átomo isolado, um consumidor apartado diante das telas, desprovido de anjo, santo ou Deus, abandonado em um universo gélido, tornando-se, assim, fácil de ser controlado, comercializado e amedrontado. E a verdade é exatamente o contrário: você está rodeado de aliados invisíveis, envolto em uma vasta nuvem de testemunhas, como menciona a Carta aos Hebreus, uma arquibancada repleta de santos e anjos que observa a sua luta e torce e intercede por você; ao seu lado direito, há um príncipe do céu, e uma Mãe que é Rainha dos Anjos te envolve com seu manto, além de um Pai que conta os fios do seu cabelo e um Irmão mais velho que desceu ao inferno para te salvar. Você não é um átomo isolado; você faz parte de um Corpo vasto e pulsante, um combatente de um exército grandioso, um herói em uma irmandade que é maior do que o próprio universo. E é exatamente por isso que o Santo do Sonhar, apesar de ser perseguido, isolado e chamado de louco pelo mundo, na verdade nunca está sozinho. Ele pode entoar suas canções em sua própria cela, assim como os mártires o faziam na arena, pois percebe, ao seu redor, a presença dos aliados invisíveis para o mundo. Invoque-os. Converse com o seu anjo. Solicite a assistência dos santos. Reconheça a fraternidade à qual você pertence. A guerra é verdadeira, mas você não a enfrenta sozinho — e o exército ao seu lado já saiu vitorioso.

E como já dissemos que o ser humano aprende a virtude refletindo sobre heróis, vou te dar um exemplo de programa de TV que explora questões teológicas sem perceber, e que o Dênis, que é um admirador declarado, certamente vai apreciar: a série Supernatural, onde os irmãos Winchester saem em busca de demônios pelos caminhos. Estou me referindo às cinco primeiras temporadas, que narram uma história completa, e o resumo é de tirar o fôlego, pois inclui pelo menos dois elementos que são verdadeiramente inspiradores. A primeira questão é a reconciliação entre os irmãos. A história se dirige para um embate decisivo entre dois arcanjos, Miguel e Lúcifer, que deveriam ser colocados em oposição um ao outro nos corpos de dois irmãos humanos — e a profecia, o plano que havia sido elaborado, consistia na guerra entre irmãos. No final, a decisão dos irmãos é romper com o que planejaram: ao invés de tirarem a própria vida, eles optam por se amar. É a narrativa de Jacó e Esaú reimaginada com um desfecho distinto, onde os irmãos que deveriam se aborrecer optam pelo amor, e o enredo da destruição é destruído pela lealdade de um irmão ao outro. O segundo elemento, Dênis, é o mais religioso de todos, sendo a força propulsora de toda a série: eles prosseguem. Em meio a perdas, mortes e um sofrimento interminável, com o mundo inteiro desmoronando sobre eles, os dois persistem, se reerguem, retornam ao caminho e não abandonam um ao outro nem a batalha. Isso é a boa nova. A persistência no amor frente às adversidades, o ato de se reerguer repetidamente após cada queda, é o cerne da vida cristã e a essência da série. Não é por acaso que a própria trama, em seu interior, se revela escrita por Deus, um evangelho dos Winchester que já estava inspirado do alto, mesmo sem que os personagens tivessem consciência disso.

— Ah, professor, mas é apenas uma série sobre caçadores de monstros. Agora você encontra Deus em tudo, não é?

— Alô, Dênis. Porque Ele está presente. Essa é a essência do livro como um todo: Ele se encontra em tudo, e nós é que esquecemos como enxergar.

E observe que o que faz uma narrativa dessas ter sucesso, o que provoca sua emoção com os Winchester, com o Frodo ou com o Superman, é algo que a cultura denomina suspensão da descrença, que é, na essência, uma versão simples e valiosa da crença. Para que a história te toque, para que o milagre dela se realize em seu coração, é necessário que você se envolva, abaixe a sua defesa cínica e se permita acreditar que isso é verdade. Enquanto você permanece inerte afirmando que é tudo falso, que não passa de tinta, nada ocorre dentro de você; porém, no momento em que você deixa de lado a incredulidade e se entrega, a narrativa adquire força, os personagens se tornam reais, e tudo isso te transforma. E isso, Dênis, vai além de apenas técnica de roteiro. É uma norma espiritual, e ela se aplica àquilo que é mais sério que existe.

O próprio Evangelho relata algo que, à primeira vista, causa estranheza: que Jesus, em sua cidade natal, entre aqueles que o conheciam desde a infância e não depositaram fé nele, não foi capaz de realizar muitos milagres devido à falta de crença deles. Não queria — não conseguiu. De vez em quando, Ele diz àquele que foi curado: a tua fé te salvou. Como isso é possível, a fé da pessoa é que salva? É neste ponto que a suspensão da descrença se transforma em teologia. A fé do ser humano não é o que gera o poder divino, assim como a audiência não cria uma série de televisão — atenção a essa analogia, Dênis, pois ela pode ser atraente, mas é enganosa: o Messias não ganha força pela crença das pessoas a ponto de ser uma invenção delas, como se Deus dependesse de nossa popularidade para existir, e uma alma que morre de fé não traz de volta à vida um deus que estava morto. Não é bem isso. Deus é Deus, independentemente de acreditarmos ou não, sólido como a Eucaristia, que é verdadeira sem solicitar a aprovação dos nossos sentimentos. Entretanto, existe uma verdade valiosa oculta na imagem: a fé é o meio, é a mão estendida através da qual o milagre, que provém plenamente de Deus, consegue adentrar. O descrente, com os punhos cerrados, não recebe, não por causa da fraqueza de Deus diante dele, mas porque ele mesmo fechou a porta por dentro. O fiel de coração generoso acolhe, não porque criou o presente, mas porque permitiu que ele ingressasse. A fé não faz surgir o Messias; a fé é a abertura que permite ao Messias, que já está presente e deseja vir, adentrar na sua vida. E é exatamente por isso que o cínico habita um mundo destituído de milagres, enquanto o humilde está rodeado deles: não é que a realidade seja diversa para ambos, mas sim que um bloqueou a percepção e o outro a acolheu.

Houve um autor, José Saramago, que se declarava ateu e era extremamente talentoso, que produziu uma obra instigante, intitulada O Evangelho segundo Jesus Cristo. Nesse livro, no instante da morte de Jesus, o céu se desvela e Deus surge — e, ao partir, Jesus se dá conta de verdades difíceis sobre o Pai. Saramago buscou, com isso, criticar: veja o Deus que permite que o Filho padeça. Entretanto, no meio da provocação que ele faz, há uma intuição que ele não conseguiu direcionar e que é verdadeira: a de que aquele Deus, diante da cruz, já não é indiferente, já possui emoções, já sente dor. A teologia antiga afirmava que Deus é impassível, ou seja, que não sente sofrimento e está além da dor — e está, de fato, em sua essência divina. Entretanto, o escândalo do cristianismo, que Saramago percebeu, mas não aceitou, é que esse Deus impassível realizou algo que nenhum deus da filosofia faria: tomou para si uma carne que é capaz de sofrer e realmente sofreu, inclusive expressando o grito de abandono na cruz. O Deus que não conhecia a dor se fez humano, capaz de sentir, apenas para experimentar a nossa dor, para chorar nossas lágrimas internamente. Saramago observou a cruz e enxergou a condenação; a fé, por sua vez, contempla a mesma cruz e percebe a resposta — não um Pai severo que observa à distância o Filho perecer, mas um Deus que amou de tal maneira que, sendo imutável, optou pela paixão, decidiu suportar a dor, para sofrer conosco e por nós. Aquele que, imperturbável, se torna suscetível por amor: esta é a afirmação mais curiosa e mais autêntica que já foi feita sobre Deus, e é a única resposta que não choca ao clamor de Saramago diante de toda cruz.

E agora, permita-me realizar aquilo que esta série toda me empurra a fazer: a honra de não deixar escapar nenhum fragmento. Vou percorrer toda a galeria dos heróis que a saga mencionou e demonstrar como cada um deles representa uma janela para o mundo real de Yesod e uma profecia do santo glorioso. Iniciarei pelo mais grandioso de todos, o patriarca do panteão, o Superman, a quem o Círculo dedicou um texto completo com o título exato que ele merece: o Cristo do Sonhar, o Salvador do Imaginário. O Super-Homem é, sem dúvida, o herói moderno que mais claramente reflete a figura de Cristo, e a metafísica católica da expectativa nos ajuda a entender essa conexão: ele é um filho único, enviado do céu por seu pai, que chega a um mundo que não lhe pertence. Criado por pais simples, ele oculta sua grandeza sob a aparência de um homem comum e desajeitado, mostrando seu poder para servir e salvar, mais forte do que tudo, optando pela mansidão, morrendo e ressuscitando. Não se trata de plágio intencional; é o arquétipo do Salvador, que flameja eternamente no vasto campo das possibilidades, descendo de Yesod para a mente de dois jovens judeus em Cleveland, que o reproduziram de ouvido, sem saber a quem pertenciam. O Superman representa o Cristo do Sonhar, pois é a versão mais pura do Cristo verdadeiro, o ideal que a humanidade, movida pela profunda saudade do Salvador que aguardava ou que já esteve entre nós, criou em forma de capa antes de reconhecê-lo na cruz.

E ao lado dele, os guerreiros do sol, que a história venerou e que dizem a mesma coisa em outra língua. O Kamen Rider Black, conhecido como Sol Negro, Filho do Sol, é um guerreiro japonês que possui uma marca da pedra do rei e é alimentado pela energia solar. Ele trava batalhas contra um culto das sombras que deseja consumir o mundo. Ele representa o verdadeiro arquétipo do campeão solar, o filho da luz que enfrenta a escuridão. Essa figura é semelhante ao que a Bíblia denomina como Sol da Justiça, e os Padres o viam como uma prefiguração de Sansão, que se cumpre em Cristo, o Oriente do Alto que nos trouxe sua visita. E o Ultraman, o gigante luminoso que vem do céu quando o homem o invoca e se eleva até a altura de uma catedral para combater os monstros que a humanidade não consegue derrotar sozinha — é o modelo do defensor divino, do anjo guerreiro, de São Miguel Arcanjo, o gigante de luz que derrota o dragão, a lembrança, moldada em tokusatsu, de que existem forças superiores que descem para lutar por nós quando levantamos os olhos e clamamos por ajuda. Heróis do sol, heróis da luz: todos são partes da mesma verdade de que a salvação vem de cima, desce do céu e tem a face do Sol que nunca se põe.

E o Homem-Aranha, o mais humano e amado de todos, expressa uma verdade que se assemelha a um versículo: com grandes poderes vêm grandes responsabilidades. Pare um instante para refletir sobre essa frase, pois ela representa o oposto completo do demiurgo sintético e do hack. Peter Parker é um jovem comum, de origem humilde, órfão e repleto de culpa, a quem é concedido um poder — e a moral de sua história é que esse poder não deve ser usado em benefício próprio, mas sim para servir aos outros, e que ignorá-lo pode resultar na perda de quem amamos. É a ensinança católica sobre a graça e a vocação disfarçada: os dons não são prêmios para mostrar, mas habilidades a serem multiplicadas, e de cada um que recebeu muito, muito será exigido. O Homem-Aranha é um Santo do Sonhar em formação, que reconhece que a habilidade que possui é uma responsabilidade e uma tarefa, e não um privilégio. E, do outro lado, como um aviso, temos o Homem de Ferro, o Tony Stark, o intelecto que cria sua própria armadura, sua própria força, sua própria salvação, por meio de tecnologia, dinheiro e criatividade. Note que ele representa o herói ideal da nossa era, exatamente porque incorpora a sedução do nosso tempo: a crença de que o homem se redime pela técnica, que a transcendência é moldada no ateliê, e que o poder é confeccionado ao invés de ser concedido. O Homem de Ferro é o herói da incredulidade, aquele que se transforma em divindade através da tecnologia, e toda a sua trajetória, repleta de quedas, culpa e um sacrifício final, revela a verdade que o criador artificial tenta ocultar: que nenhuma armadura realmente protege e que o homem mais protegido do mundo ainda carrega, por dentro, um coração carente de uma graça que não sabe produzir.

Existem muitos heróis no panteão que revelam grandes verdades, e não deixarei nenhum deles sucumbir. O Capitão América, um jovem magro, doente e rejeitado para a guerra, é escolhido exatamente por sua estatura baixa e bom coração para receber o soro que o transforma em um ser forte — note que a sua história é quase um reflexo da de São Paulo: Deus seleciona os fracos do mundo para confundir os poderosos, e a força se aperfeiçoa na fraqueza. O Capitão não foi escolhido por sua força, mas sim por sua humildade e justiça, mesmo sendo fraco; a verdadeira força apareceu depois, como um presente, sobrepondo-se à humildade, e por isso ele conseguiu utilizá-la sem se deixar corromper. Por outro lado, o vilão da história, que também consumiu o mesmo soro, mas com um coração arrogante, transformou-se em um monstro. O mesmo poder, mais uma vez, direciona para destinos opostos conforme o coração que o acolhe. Thor, o deus do trovão, é conhecido por seu martelo, que só pode ser levantado por aqueles que são dignos. Isso nos ensina que o verdadeiro poder não se baseia na força física, mas sim na virtude e no valor do coração. Assim, os dons divinos não são tomados à força, mas são concedidos a quem os merece. O verdadeiro poder está ligado à pureza de intenção, e não à força muscular. O martelo, que só pode ser erguido por quem tem dignidade, representa o carisma que somente as almas justas conseguem receber. E a Mulher-Maravilha, a princesa guerreira, representa a feminilidade que não se resume à fraqueza, mas sim a uma força de outra natureza, que é ao mesmo tempo combativa e misericordiosa, virgem e lutadora — ela é um eco distante da mulher forte da Escritura, como Judite e Débora, e acima de todas, da própria Virgem que pisa a cabeça da serpente, a guerreira tranquila, a Mãe que também é temível como um exército em perfeita formação de combate.

E observe uma coisa que conecta todo o panteão e o eleva além do mito pagão: a maioria desses heróis contemporâneos possui uma identidade dupla, uma vida oculta. O Super-Homem é Clark Kent, o desajeitado de óculos; o Homem-Aranha é o humilde Peter Parker; o Batman é Bruce Wayne; o Capitão era o magro Steve Rogers. Por fora, pessoas comuns, sem charme, que passam despercebidas; por dentro, uma força, um filho das estrelas, um emissor de luz. Essa dupla identidade, que o roteirista emprega como um recurso dramático, representa na realidade a verdade mais profunda sobre o Santo do Sonhar e sobre você mesmo. O batizado é precisamente isso: exteriormente, a pessoa é apenas um indivíduo comum, cujo nome consta em uma certidão, que paga contas e usa transporte público, e que passa despercebido por todos; internamente, entretanto, ela se torna um filho de Deus, um templo do Espírito, portador da vida divina, um ser que abriga uma glória invisível ao mundo. A identidade secreta não é uma mera fantasia; é a descrição mais precisa da condição cristã na realidade atual. O santo se apresenta como uma pessoa comum, assim como Deus se fez carpinteiro, e apenas os humildes e os que sofrem, somente aqueles com o olhar puro, conseguem perceber quem Ele realmente é por trás da aparência. E é por isso que o Juízo será uma revelação de identidades escondidas: no final, todas as máscaras cairão, e será possível ver quem, por dentro, era um filho da luz disfarçado de pessoa comum, e quem, por dentro, era um sepulcro caiado disfarçado de respeitável. O Mundo dos Sonhos é o espaço onde a verdadeira identidade de cada santo será, finalmente, revelada em todo seu esplendor, e o Clark Kent divino poderá, por fim, se despir dos óculos.

E agora eu preciso confrontar o espectro que acompanha a palavra super-homem desde que ela foi criada, pois sem isso a tese fica incompleta. O Super-homem não é uma criação da Marvel; é a tradução de uma palavra alemã, Übermensch, criada por Friedrich Nietzsche em Assim Falou Zaratustra, e representa a mais poderosa distorção do Santo do Sonhar que o pensamento já gerou. Nietzsche percebeu, com uma clareza assustadora, o que ele denominou de morte de Deus — não no sentido de que Deus havia realmente morrido, mas sim que a cultura europeia havia parado de acreditar n'Ele, e isso gerava um vazio profundo. E ele indagou: se Deus faleceu, se não existe mais um céu que atribua significado e valor ao ser humano, quem então conferirá valor? E respondeu com o super-homem: um novo tipo de homem que, ao não receber mais valores de um Deus que morreu, cria seus próprios valores, inventa o que é bom e o que é mau, se afirma pela vontade de potência, vive além do bem e do mal, sendo a própria fonte do sentido. O super-homem de Nietzsche é aquele que se torna deus, uma vez que o céu se tornou deserto — é a negação de Deus com uma terminologia filosófica, a reinterpretação da realidade transformada em um projeto de civilização, a liberdade individual elevada à única lei, assim como na Thelema. E observe a ironia cósmica: os dois jovens judeus que criaram o Superman de capa pegaram emprestado o nome do super-homem de Nietzsche e o preencheram com um conteúdo completamente oposto — porque o Super-Homem deles não cria seus próprios valores, ele serve a valores já estabelecidos, não domina, protege, não vive além do bem e do mal, é a encarnação do bem; eles nomearam o übermensch, inverteram a besta, e transformaram o super-homem nietzschiano, sem perceber, em um Cristo do Sonhar.

E aqui está, exposta, a luta de todo o século vinte e do nosso, a luta que esta saga inteira narra: dois super-homens, duas trilhas para a grandeza, e eles representam o céu e o inferno. De um lado, temos o übermensch de Nietzsche, o homem que se transforma em deus ao romper limites, que estabelece seus próprios valores, que exerce controle por meio da vontade de potência, que não se submete a ninguém além de si mesmo — e cujo resultado histórico, ao transitar da filosofia para a política, foi o totalitarismo, o homem-que-se-fez-deus pisando sobre montanhas de cadáveres, a vontade de potência se convertendo em câmara de gás, o super-homem se transformando em monstro, exatamente como o Magneto, como o soro no coração soberbo. Por outro lado, temos o Santo do Sonhar, o ser que se transforma em divindade ao acolher, que não gera valores, mas os recebe, que não exerce poder, mas serve, que não impõe sua vontade, mas reza "faça-se a tua vontade" — e cujo resultado histórico é o santo, o mártir, aquele que se ajoelha e, por isso, reina, aquele que entrega a vida e, por isso, a encontra, o Super-Homem que decide ser Clark Kent e lavar os pés. Teose contra ateísmo, mais uma vez, eternamente, até o fim: o mesmo anseio por grandeza divina, que queima de forma legítima no íntimo do ser humano porque Deus o colocou ali, manifestando-se de duas maneiras opostas — pela mão que se apega, tornando-se tirana; pela mão que acolhe, tornando-se sagrada. Nietzsche percebeu a necessidade verdadeira e indicou a direção equivocada: o ser humano realmente é convocado a ser mais que humano, a se tornar divino, a se elevar — mas não através de uma luta feroz para arrancar o céu vazio com os dentes, e sim permitindo que o Céu, que ainda vive, desça e o torne um deus. O verdadeiro super-homem não é aquele que destrói Deus para assumir o poder; é aquele que permite que Deus viva dentro dele até que se torne, de fato, divino.

E existe um herói que é católico sem rodeios, que revela uma verdade sobre a visão que sintetiza tudo o que discutimos sobre o olhar: o Demolidor, o Daredevil, Matt Murdock, o advogado cego de Hell's Kitchen que foi criado por freiras, que se confessa a um padre, que carrega a culpa e a fé católica como um cilício — e que, ao perder a visão em um acidente na infância, ganhou em compensação um sentido que percebe o que os olhos não conseguem ver, uma percepção que atravessa as paredes e lê o mundo além das aparências. Isso é uma verdadeira parábola: o cego que enxerga mais do que aqueles que vêem, aquele que perdeu a visão física e ganhou a visão espiritual. É Gaiarsa afirmando que a verdadeira visão não provém dos olhos; é o Evangelho que ensina que aqueles que pensam ver são, na verdade, cegos, e que o cego de nascença é quem realmente enxerga; é a doutrina que diz que os puros de coração verão a Deus com um olhar que não é o do rosto. O Demolidor é o Santo dos Sonhos que observa Yesod, pois foi refinado através da dor; ele é o herói da percepção espiritual, o cego que vê — e não é por acaso que é o super-herói mais claramente católico de todos, já que a sua própria mitologia retrata a visão interior que a fé sempre defendeu.

O Doutor Estranho, o Feiticeiro Supremo, coloca em pauta a delicada questão do mago, e eu preciso abordá-la com cautela, pois se trata de um assunto que pode ferir de ambos os lados. Existem, de fato, modos legítimos de acessar os mundos invisíveis e maneiras ilegítimas, sendo que a distinção não reside no poder, mas sim na autoridade e na origem. O Doutor Estranho, na ficção, desenvolve suas habilidades místicas em uma ordem, sob a orientação de um mestre, seguindo uma disciplina — o que o aproxima, de certa forma, do místico estruturado, daquele que obtém acesso a essa prática dentro de uma tradição e sob obediência. Entretanto, a tentação que acompanha a figura do mago é a do poder concedido a si mesmo, aquele que é conquistado pela técnica sem a obediência a Deus. Nesse ponto, ela se transforma em feitiçaria, que é exatamente isso: a tentativa de controlar o sagrado por meio de fórmulas, de influenciar o invisível através da técnica, de obter poder sem a santidade. A distinção entre milagre e magia é clara: o milagre é a ação de Deus por intermédio do santo que se entregou, gratuitamente, para a honra de Deus; enquanto a magia envolve o ser humano buscando manipular o poder através de técnicas, visando a sua própria glória. O santo solicita e obtém; o mago lidera e, ao final, é liderado. E é por essa razão que a Igreja, que honra os santos taumaturgos, reprova a feitiçaria — não porque uma seja verdadeira e a outra falsa, mas porque ambas se relacionam com o invisível por meios distintos, uma através da humildade que aceita, outra pela soberania que toma, uma direcionando-se a Yesod, a outra ao poço.

Até mesmo os heróis do juízo e da vingança, os mais obscuros, retêm um pedaço de verdade que não devemos descartar. O Motoqueiro Fantasma, conhecido como Ghost Rider, é o homem tomado pelo espírito da vingança, que incendeia os culpados com seu olhar ardente, fazendo-os sentir toda a dor que infligiram às suas vítimas. O Espectro, que representa a fúria de Deus, castiga os assassinos — ambos abordam, de forma grotesca e arriscada, a verdade de que existe um Juízo, de que o mal será cobrado, e que há uma Justiça com J maiúsculo que não deixará o sangue do inocente clamar eternamente em vão. O equívoco deles é entregar a vingança ao ser humano, transformando o herói em juiz, algo que a fé condena: minha é a vingança, diz o Senhor, eu farei a retribuição. Contudo, a sede de justiça que fervilha neles é sagrada, é a quarta bem-aventurança, é o grito dos mártires sob o altar no Apocalipse, questionando até quando. O Santo do Sonhar possui essa mesma ânsia por justiça, mas confia o julgamento a Deus e, enquanto aguarda, não condena o culpado, ora por ele e enfrenta o mal com o bem — pois compreende que a verdadeira vingança que realmente corrige o mundo não é a sua, mas sim a do Cordeiro que retorna, e que a única pessoa que lhe cabe crucificar é o velho homem que habita dentro de si.

E eu desejo retornar aos heróis do sol, pois eles trazem uma das teologias mais antigas e mais poderosas, e o Círculo mencionou isso ao abordar o sol que os covardes não conseguem suportar e do deus que você não tem consciência que adora. O Kamen Rider Black, também conhecido como o Sol Negro e o Filho do Sol, luta movido pela energia solar contra um culto das trevas; o Ultraman, o gigante da luz que vem do céu; e toda a legião de heróis solares, desde Apolo até Sansão, de Hórus ao Super-Homem que se reenergiza sob o sol amarelo — todos eles revelam uma verdade que a humanidade sempre conheceu, mas que a modernidade esqueceu: que o sol representa simbolicamente Deus, a imagem cósmica do Criador, e que a batalha entre a luz e a escuridão, entre o sol e a noite, é a parábola refletida no céu do conflito entre Deus e o mal. Os pagãos veneravam o sol porque percebiam, por trás dele, o brilho de Deus, mas erraram o foco, fixando-se no símbolo em vez de alcançar o que ele representa — adoraram a lâmpada em vez da Luz. A fé não ignora essa intuição, mas a realiza: pois as Escrituras se referem ao próprio Cristo como o Sol da Justiça que nasce trazendo cura em suas asas, como o Oriente que nos visita do Alto, como a Luz do mundo, como o Astro brilhante da manhã. O verdadeiro Filho do Sol, o herói solar presente em todos os mitos, é Cristo, o Sol que nunca se põe, do qual o sol do céu é apenas um símbolo, a lâmpada que Ele acendeu para que não nos esqueçamos, ao olharmos para o alto a cada amanhecer, de que há uma Luz maior, da qual aquela é apenas um reflexo.

E há, nessa representação do sol, uma verdade psicológica incisiva que o Círculo estabeleceu: o sol é aquilo que os covardes não conseguem enfrentar. Pois a luz é perturbadora para aqueles que preferem a escuridão, a verdade machuca quem se refugia na falsidade, o santo se torna insuportável para o mundano, assim como o sol é insuportável para os olhos que estão habituados à escuridão. O herói solar é desprezado pelas criaturas noturnas não sem razão, mas por sua própria essência: a luz revela, a luz expõe, a luz consome o que foi gerado nas sombras. E é justamente por essa razão que o Santo do Sonhar, o portador da luz, será eternamente, de certa forma, perseguido pelo mundo das sombras, assim como o Kamen Rider é alvo do culto da noite e o mutante é desprezado pela humanidade — pois ele possui um sol em seu interior, e aqueles que optaram pela escuridão não conseguem suportar o fulgor que os expõe. Entretanto, o herói solar não retém o sol para si; ele o espalha, ilumina, aquece e faz amadurecer, assim como o verdadeiro Sol que faz surgir tanto sobre os bons quanto sobre os maus e envia a chuva tanto para os justos quanto para os injustos. E o chamado do Santo do Sonhar é este: transformar-se, pela graça, em um pequeno sol, um mensageiro da Luz que não lhe pertence, alguém que reflete tão intensamente o Sol da Justiça que sua própria presença ilumina e aquece aqueles que estão próximos — não a lua apenas, que reflete à distância e à noite, mas, ao final, na glória, um corpo celeste que brilha com a própria luz que recebeu, pois os justos, disse Cristo, resplandecerão como o sol no Reino de seu Pai. O herói solar que você admirou era a profecia do que você está destinado a ser: um filho da Luz, iluminado pela Luz, para disseminar a Luz em um mundo que, por preferir as trevas, irá temer seu brilho — e, no fundo, sentirá uma enorme falta dele.

A Teologia do Imaginário possui uma chave de leitura dos heróis que eu preciso compartilhar com você, Dênis, pois ela elucida a razão pela qual cada herói apresenta, juntamente com sua virtude, também seu veneno — e o exemplo ideal disso é o Homem de Ferro. Observe o Tony Stark: ele é uma figura brilhante, no sentido simbólico tradicional, o sol entre os heróis. Ele possui tudo o que o sol simboliza — força, luminosidade, riqueza, recursos que podem transformar o mundo se assim desejar, sabedoria que abrange quase tudo que um ser humano pode conquistar, a nobreza de quem tem acesso a tudo. É a virtude do sol personificada: a grandeza, a generosidade, a liderança iluminada, o talento criativo. No entanto — e aqui está a questão — o Tony Stark também carrega, associado à sua virtude solar, o vício solar. O homem que detém tanto poder acaba se corrompendo por ele: a arrogância do que acredita ser capaz de resolver o mundo por conta própria, levando-o à Guerra Civil contra os próprios aliados; além da corrupção mais profunda, com a bebida e as drogas, o Tony Stark que sempre foi um alcoólatra, um dependente, um homem que se submerge justamente porque seu brilho é intenso demais. É como se o próprio Tony representasse, em forma de personagem, a conexão solar do cosmos, reunindo tanto a sua grandeza quanto suas feridas em um só ser. Os heróis são considerados arquétipos, conforme afirmava Jung, que representam as raízes da estrutura da realidade. Cada arquétipo, cada correspondência cósmica, carrega consigo tanto sua luz quanto sua sombra, assim como suas virtudes e seus vícios.

E isso não se aplica apenas ao solar. Cada herói reflete uma das correspondências, uma das maneiras pelas quais a abundância de Deus se distribui no mundo criado, e cada um enfrenta a sua própria tentação. O herói marcial, o lutador, possui a qualidade da bravura e da retidão, mas também carrega o defeito da ira descontrolada, da agressividade que se transforma em desejo de vingança. O herói mercurial, o astuto, o comunicador, o trapaceiro, possui a virtude da inteligência e da agilidade, mas também carrega o vício da mentira, da fraude e do engano. O herói de Saturno, o sombrio e melancólico, o guardião da noite como o Batman, possui a virtude da profundidade, da disciplina e da memória, mas também carrega o vício da tristeza que endurece, da obsessão que isola e do peso que oprime. É precisamente isso que o Círculo se refere como psicologia simbólica da percepção, sua abordagem distintiva: interpretar as imagens do imaginário como correspondências dinâmicas, onde cada uma representa um aspecto do todo, cada uma com sua própria grandeza e sua própria decadência. Compreender isso, Dênis, não se trata de ocultismo, mas de discernimento — é reconhecer que o mesmo poder que eleva o herói pode também gerar a ruína do homem, que a virtude e o vício despontam da mesma origem, e que o caminho da santidade consiste precisamente em ordenar essa correspondência: acolher a luz do sol e controlar seu incêndio, possuir a coragem marcial e dominar sua fúria, abraçar a profundidade saturnina e habituar-se a sua escuridão.

E aqui está a grande conclusão que finaliza toda essa simbologia e que distancia a fé do ocultismo por um enorme abismo: Deus não se encaixa em nenhuma dessas correspondências. Os pagãos classificaram seus deuses — este é o solar, Apolo; aquele é o marcial, Marte; o outro é o saturnino, Saturno; e o mercurial, Mercúrio — cada deus representa um aspecto, uma função, uma parte. O escândalo e a grandeza do Deus cristão reside no fato de que Ele não se limita a nenhum dos símbolos, pois Ele é o todo, o equilíbrio supremo e perfeito de todas as virtudes, a Fonte da qual cada correspondência não passa de um fio. Não é possível classificar Deus como solar, marcial ou saturnino, pois Ele se encontra infinitamente além e em perfeito equilíbrio entre todos esses aspectos — o solar é apenas uma das suas manifestações, uma das entradas, uma das formas pelas quais Sua luz alcança uma alma. É por essa razão que a psicologia simbólica da percepção pode adotar a via solar, a via marcial ou outra qualquer, para promover a santificação de uma pessoa de acordo com seu temperamento, utilizando a porta que melhor se abre em seu coração — mas sempre ciente de que a porta não é a casa, que o raio não é o sol, e que a correspondência é apenas uma forma de aquele ser humano começar a ascender em direção a Deus, que representa o equilíbrio de tudo. O pagão para na deusa e adora a parte; o cristão atravessa a deusa e alcança o Todo.

E observe, Dênis, o que ocorre quando o vício, ao invés de ser controlado, assume o controle — pois é aqui que a simbologia se conecta com o conflito principal desta história. O vício, qualquer tipo de vício, realiza uma ação específica e devastadora: ele torna o cosmos relativo, ele transforma a realidade em algo subjetivo. O homem preso ao vício não suporta mais a realidade tal como ela é, pois esta se opõe ao seu desejo — e assim surge o que o Círculo denomina, no cerne da gnose, de ímpeto gnóstico: a realidade está insatisfatória, portanto eu transformo a realidade; não está da maneira que eu desejo, então eu reescrevo tudo. No fundo, é algo bastante infantil o choro do garoto mimado que, insatisfeito com a realidade, determina que o mundo todo deve se submeter ao seu capricho. É o hexagrama da ruína, a vontade machucada que, ao invés de se adaptar à realidade, demanda que a realidade se molde a ela. E é precisamente o hack, mais uma vez, a ateose, o demiurgo: o vício que, se não for controlado, se intensifica até se transformar na pretensão de recriar a realidade ao seu próprio gosto. O Santo do Sonhar adota uma abordagem contrária: ele controla os vícios, organiza as correspondências e harmoniza as virtudes em direção ao equilíbrio que é Cristo. Em vez de exigir que a realidade se ajuste aos seus anseios, ele molda seus desejos à Realidade, que é Deus. Um deseja transformar o cosmos porque não consegue lidar com a verdade; o outro se transforma por amar a verdade. E entre os dois, mais uma vez, a sempre conhecida letra: reescrever o mundo em vez de permitir que Deus o reescreva.

E o Hulk, a fúria verde, o monstro que reside no homem pacato e que explode quando a injustiça se apresenta — esse revela uma verdade que a Teologia do Imaginário abordou sob o conceito do ímpeto verde e do fogo verde, uma filosofia da ira que edifica. Há uma ira sagrada, e o cristianismo sentimental muitas vezes ignora isso: a ira de Cristo ao expulsar os mercadores do templo, a indignação dos profetas, a ira justa frente ao mal, essa chama intensa que não se trata de um ódio mesquinho, mas sim da energia da indignação moral utilizada em prol do bem. O Hulk representa a essência crua dessa verdade — a imensa força que reside no simples, que, quando bem direcionada, pode derrubar tiranos, mas, se mal direcionada, se transforma no próprio monstro que enfrenta. E o Batman, o Cavaleiro das Trevas, o jovem que perdeu os pais e, ao invés de se tornar um criminoso, transformou-se no pesadelo dos malfeitores — é o exemplo perfeito da dor que se transforma em propósito, o homem sem nenhum superpoder que se torna herói pela sua determinação e disciplina, usando o luto como um compromisso; é a representação de toda pessoa santa que pegou a mais profunda dor de sua vida e a moldou em serviço, começando por Aquele que fez da maior dor da história, a cruz, a maior missão da humanidade. E o Flash, o homem mais rápido, que corre mais rápido do que a luz — é a agilidade do corpo glorioso esculpida em relâmpagos, a lembrança de que o corpo ressuscitado se deslocará na velocidade do pensamento.

E os animês, que o Círculo valoriza porque compreende que Deus se revela onde menos se espera, transmitem mensagens de uma profundidade teológica que deixa muitos púlpitos envergonhados. O Devilman, o ser que absorve a força de um demônio e a utiliza para enfrentar seus próprios inimigos demoníacos, unindo em seu ser tanto a benevolência quanto o rigor — é uma representação impressionante e arriscada de Cristo Pantocrator, o Senhor que desce ao inferno e o conquista de dentro, o Juiz que também é Misericordioso, as duas expressões de um único Rosto. E quanto a Jujutsu Kaisen, que narra a história de um jovem que consome o dedo de um rei das maldições e, a partir daí, passa a carregar um demônio dentro de si, com o objetivo de dominá-lo internamente — o Círculo descreveu isso, com a precisão de um relâmpago, como o santo que engoliu o demônio, pois essa realmente é a imagem do santo que assume a luta, que aprisiona a fera para controlá-la, utilizando seu próprio corpo como campo de batalha e de triunfo, assim como Cristo assumiu sobre Si todo o pecado do mundo para superá-lo a partir da carne. E o Gandalf, que se precipita no abismo enquanto batalha contra o demônio de fogo e retorna transformado, Gandalf o Branco, aquele que morreu e renasceu em uma forma mais elevada — representa a morte e a ressurreição manifestadas em um mago, a essência imortal registrada nas profundezas do universo, se repetindo mais uma vez, pois é o princípio que fundamenta tudo.

E quando o brasileiro, que foi criança nos anos noventa, sorri e menciona que estamos na Zeta, fazendo referência ao Dragon Ball Z, a história dos guerreiros que treinam, morrem, renascem e transcendem níveis em busca de uma força cada vez mais intensa, ele está expressando, sem perceber, uma verdade profunda: que a era dos heróis ainda não chegou ao fim, que a jornada prossegue, e que nós fazemos parte do enredo em que os guerreiros se elevam. E é isso que conecta toda a galeria: o Superman, o Kamen Rider, o Ultraman, o Homem-Aranha, o Homem de Ferro, o Hulk, o Batman, o Flash, o Devilman, o Yuji, o Gandalf, os mutantes místicos mencionados por Kripal e os guerreiros espirituais de todas as mitologias, além dos santos do deserto que enfrentaram monstros reais — todos são fragmentos do mesmo reflexo, estilhaços de uma única imagem, aberturas para o mesmo mundo real de Yesod, onde a coragem que serve, a força que protege, a fidelidade que não trai e o amor que se sacrifica existem, perfeitos e eternos, na mente de Deus. A humanidade não criou os heróis; ela os resgatou da memória. Cada herói é um fragmento de um vitral que o pecado quebrou, e toda essa jornada foi uma tentativa de juntar os pedaços e demonstrar que, unidos, eles formam um Rosto.

E agora, o trecho que me faz estremecer, pois é o mais sublime de todos, aquele em que a cultura pop retratou Yesod com tamanha precisão que parece que o autor olhou por uma fenda do céu: a Vertigo, a linha voltada para o público adulto da DC, e a sua obra-prima, Sandman, escrita por Neil Gaiman. O Sandman, conhecido como Morpheus, o Senhor dos Sonhos, governa um reino chamado, com todas as letras, o Sonhar — o Dreaming — que é um mundo real, repleto de geografia e habitantes próprios. É para esse lugar que a alma de cada pessoa viaja todas as noites ao adormecer, de onde surgem tanto os sonhos quanto os pesadelos, sendo eles entidades vivas e não meras ilusões, e que permanece existindo, independentemente de alguém sonhá-lo ou não. Baseando-se nisso, pois Yesod é apresentado em forma de quadrinho: um universo do sonho que é objetivamente real, com um soberano, reinos de luz e reinos de terror, uma entrada para o céu e uma entrada para o inferno, com seres que são as próprias imagens e arquétipos que ganham vida. Gaiman, que não é crente, explorou com sua habilidade única a estrutura metafísica que a Teologia do Imaginário propõe, transformando-a em algo tangível para milhões de leitores: o universo das imagens é real, possui geografia, leis e habitantes, e a imaginação é uma jornada a um lugar, não uma criação do vazio. Ao Sandman, restou apenas a coroa: um Senhor dos Sonhos que fosse, Ele mesmo, o Sol do qual o sonho é a lua, o Verbo em que o Sonhar se sustenta, Cristo, o verdadeiro Rei do mundo imaginário, de quem Morpheus é a versão mais precisa e mais solitária. O Sandman criou toda a casa de Yesod, mas se esqueceu de colocar Deus no trono — e, por isso, a obra, bela e sombria, não possui saída, não oferece redenção, não há Mundo dos Sonhos a surgir, apenas o ciclo eterno e triste de sonhar sem o Sonhador.

E os animês revelam o que falta, pois o Oriente expressou a mesma verdade com tonalidades diferentes. Os Cavaleiros do Zodíaco, conhecidos como Saint Seiya, são essencialmente santos — a palavra "saint" significa santo —, lutadores adornados com armaduras sagradas que servem a uma deusa. Eles despertam, por meio da elevação do que denominam cosmo, a energia interna, uma força que aumenta à medida que o coração do guerreiro se eleva e se purifica através do sacrifício. Substitua a deusa pelo verdadeiro Deus, troque o cosmo pela graça, e você obtém a doutrina dos Santos do Sonhar em estilo japonês: o poder que se revela conforme a elevação espiritual, a armadura sagrada que é a graça envolvendo o guerreiro, e o sacrifício como o caminho da força. O Fullmetal Alchemist, de maneira inversa, transmite a mais profunda lição católica: o princípio da troca equivalente, que afirma que, para se ganhar algo, é necessário perder algo de valor semelhante, evidenciando que não existem milagres gratuitos. A jornada ao longo da história revela de forma dolorosa que existe algo que não se encaixa na troca equivalente, que é o presente gratuito, a graça, o amor que é dado sem exigir nada em troca. A tragédia daqueles que buscam trazer os mortos de volta à vida por meio da alquimia, da técnica e da troca reside exatamente na tragédia do demiurgo sintético, que tenta arrancar pela lei da troca o que só pode ser recebido pela generosidade do dom. O Oriente e o Ocidente, os quadrinhos e os animes, a Marvel e a DC, além da Vertigo e do mangá, todos, de maneira independente, traçaram os mesmos pedaços do mesmo espelho — pois o espelho é um só, é real, e se encontra em Yesod, e a face que ele reflete, mesmo que os autores não tenham consciência, é sempre, sempre, a mesma Face.

E a cultura, que idealizou o herói com uma fé ingênua na primeira metade do século, passou, na segunda metade e também nos dias atuais, a desconstruí-lo, a corrompê-lo, a questionar com um sorriso irônico: e se o super-homem fosse maligno? E surgiu toda uma leva de obras — os Watchmen, o Invencível, The Boys — que pegam o super-herói e mostram como ele seria sem Deus, sem moral, sem subordinação a nada além de si: um deus humano que responde apenas à própria vontade, e, portanto, um monstro. O Homelander de The Boys, que possui o rosto do Superman e a alma de um psicopata, é a representação mais verdadeira que a cultura já criou do übermensch nietzschiano em sua plenitude: do poder absoluto sem a bondade, a força do Super-Homem unida ao coração do homem caído, resultando assim em terror. E o Doutor. Manhattan, de Watchmen, é o homem que adquire poderes divinos e, conforme se transforma por meio da tecnologia, vai perdendo o interesse pela humanidade, tornando-se distante e indiferente, até que observa os seres humanos como um entomologista observa insetos — é a representação ideal do deus do deísmo e do demiurgo sintético, a divindade sem amor, o poder sem sacrifício, que, quanto mais alto se eleva, mais se afasta, pois carece exatamente do que faz o verdadeiro Deus descer: o amor que se entrega. Preste atenção no que a cultura está revelando, mesmo que pareça apenas cínica: ela está admitindo que o super-homem sem a presença de Deus se transforma em monstro, que o poder que não é acompanhado de bondade é demoniaco, e que a divinização forçada, ou seja, a ateísmo, resulta em figuras como o Homelander e o Dr. Manhattan e não no Superman. A desconstrução do herói é, inadvertidamente, a evidência por absurdo de toda a tese desta saga: remove-se Deus do super-homem, e ele se transforma em um tirano; apenas o herói que se submete a um Bem maior do que ele mesmo, apenas o Santo do Sonhar, apenas a teose, mantém a grandeza sem que ela se degrade em horror.

A figura do super-homem corrompido, do deus carnal que se torna um senhor absoluto e demanda veneração, possui um nome na tradição cristã, que encerra o ciclo escatológico desta saga: o Anticristo. O Anticristo não será uma criatura grotesca de fácil identificação; conforme a tradição, ele será o übermensch ideal, o super-homem supremo, o demiurgo sintético manifestado em um ser — um homem com habilidades extraordinárias, carisma irresistível e inteligência acima da média, que solucionará questões, realizará feitos impressionantes, parecerá a redenção da humanidade e exigirá, em contrapartida, a veneração que é devida apenas a Deus. Ele será a última imitação do Cristo do Sonhar, o anti-Superman, o herói que a sociedade elogiará precisamente por ser tudo o que o übermensch prometeu: poderoso, inteligente, libertador, divino — e desprovido de cruz, sem humildade, sem subserviência a Deus, e por isso, por trás do brilho, puro terror. E o embate culminante da narrativa, que o Apocalipse descreve e que a Teologia do Imaginário mencionou ao se referir à chama subtraída do Apocalipse, será este: o Anticristo, o super-homem da ateísmo, contra Cristo, o Santo do Sonhar da teísmo; o demiurgo sintético contra o Cordeiro; o poder subtraído contra o amor doado. E a vitória — isso é um dogma, isso é uma certeza, isso é o fim da história já escrito — não será do mais forte, mas do Cordeiro, pois o Cordeiro já triunfou na cruz, e o que parecia uma derrota foi, na verdade, uma vitória. O super-homem que a história inteira tentou se transformar em deus será derrotado, de uma vez por todas, pelo Homem que se fez deus ao se permitir ser pregado.

O Oriente traçou o aspecto mais obscuro da tese, o reverso trágico dos Santos do Sonhar, em duas obras que representam uma teologia pura adornada com elementos de animê. Não irei evitar essas obras, pois a regra é não permitir que nenhum fragmento se perca, nem mesmo os sombrios. A primeira é Berserk, a história de Guts, o guerreiro marcado, e do seu amigo e capitão Griffith. Ela narra, com uma crueza que machuca, a anatomia precisa da ateísmo. Griffith alimenta um sonho - o desejo de ter seu próprio reino e alcançar grandes conquistas - e persegue essa meta com uma determinação extraordinária. Quando tudo parece ruir, surge a oportunidade de concretizar seu sonho, ascendendo a uma forma de divindade, mas isso vem com um custo: ele deve sacrificar todos que o amam, entregando seus companheiros à morte e ao desespero em troca de sua própria elevação. E ele concorda. Griffith ascende à divindade pisando sobre os corpos daqueles que depositaram sua confiança nele; concretiza seu sonho sacrificando todos os outros em sua busca; torna-se divino à custa do amor. Isso se deve ao fato de ser a representação mais precisa que a cultura já criou do demiurgo e da ateísmo: a ambição venerada, colocada acima de Deus e acima do próximo, que demanda sacrifícios humanos para se concretizar. É o contraste absoluto do Cristo do Sonhar, que igualmente possuía um sonho — a salvação da humanidade — e que concretizou de maneira oposta: entregando-se em sacrifício pelos outros, e não exigindo que os outros se sacrificassem por Ele. Griffith se eleva à custa de seus amigos; Cristo traz salvação ao se sacrificar por seus amigos. O sonho que é pago com o sofrimento dos outros é maligno; o sonho que demanda o próprio sacrifício é divino. E Guts, aquele que se mantém firme após o sacrifício, que batalha contra o destino e as forças demoníacas com uma espada enorme e uma fúria que, na essência, é amor machucado — Guts é o homem comum que se nega a ser parte do sonho de um deus ilusório, e nessa recusa obstinada, nessa luta incessante contra as trevas, há uma centelha de Santo do Sonhar em desenvolvimento, primitiva, sangrenta, mas verdadeira.

A segunda obra é Evangelion, que retratou a falsa comunhão dos santos com uma exatidão que causa calafrios. No coração de Evangelion, encontramos o que é conhecido como Projeto de Instrumentalização Humana: um plano que busca extinguir as fronteiras entre todos os seres humanos, derretendo todos os egos em uma única consciência coletiva. A intenção é eliminar a dor da individualidade e da separação, unindo toda a humanidade em uma massa luminosa onde não há distinções entre as pessoas, e todos são um só — o término da solidão por meio da erradicação do eu. Isso reflete a tentação gnóstica em seu auge e é o oposto exato do céu cristão. Ambos proporcionam o término da separação, o fim da solidão, a unidade última — mas por trajetórias divergentes que representam o inferno e o céu. A instrumentalização e a dissolução gnóstica encerram a solidão, aniquilando o indivíduo: unem todos em um só, eliminam os rostos, desfazem as identidades, e ao final não existe comunhão, pois não há mais ninguém para compartilhar, apenas uma mistura indistinta. A comunhão dos santos é o que extingue a solidão e completa a pessoa: não elimina os eus, mas os acolhe; não ofusca os rostos, mas exalta cada um; reúne todos no amor sem anular ninguém, de modo que no céu cada um se revela ainda mais como realmente é, e é exatamente por isso que a comunhão se torna verdadeira, pois o amor necessita de dois, e onde todos se tornaram um só não existe amor, apenas uma imensidão morna e vazia. Evangelion experimentou a dor precisa — a solidão, a separação, a barreira entre as almas — e indicou a solução inadequada, a dissolução; a fé vivencia a mesma dor e revela a verdadeira cura, a comunhão. Dissolver os egos é a anti-comunhão, o céu ilusório do demiurgo; amar sem se desvanecer é a comunhão dos santos, o verdadeiro Mundo dos Sonhos onde a solidão se dissolve sem que ninguém se perca.

E as grandes sagas, os mitos contemporâneos que influenciaram diversas gerações, cada uma tem seu pedaço, e eu transito por elas, pois são pilares da nossa imaginação atual. Star Wars criou uma religião completa ao redor da Força, esse campo de energia que permeia tudo e interconecta tudo, apresentando seu lado luminoso e seu lado sombrio, além da trajetória de queda e redenção: Anakin, o escolhido, que sucumbe ao lado sombrio devido à ambição de poder e ao temor da perda — por sua falta de fé, por desejar segurar e controlar o que deve ser apenas aceito e liberado —, e que, ao final, é redimido pelo amor do filho, que não o enfrenta como um inimigo, mas o reconvence como pai. É a história da queda pela busca de poder e da salvação pelo amor, o lado obscuro como a negação da fé e o ressurgir à luz como a graça que nunca se entrega. A Força carece de uma face: é um campo impessoal, panteísta, sem um Pai, e por isso Star Wars busca a graça sem encontrar o Doador, percebe a união de tudo sem conseguir identificar Aquele em quem todos se unem. Entretanto, a percepção de que existe uma Força que conecta tudo, possuindo um aspecto luminoso e outro sombrio, e que o verdadeiro herói é aquele que se harmoniza com a luz, entregando-se a ela em vez de tentar controlá-la — isso é um elemento genuíno de Yesod traduzido em uma narrativa de ópera espacial.

E O Senhor dos Anéis, de Tolkien, nosso velho mestre católico, é a narrativa mais profunda sobre o poder, pois é a única que tem a coragem de afirmar que o poder deve ser rejeitado. O Um Anel, o anel que detém um poder absoluto capaz de corromper qualquer um que o utilize, mesmo que com intenções nobres — é a representação da ateísmo em forma de joia, uma manipulação da realidade em ouro, a sedução de controlar o mundo conforme a própria vontade —. A lição assustadora da história é que o Anel não pode ser utilizado para fins bons, nem pelos mais sábios, nem pelos mais fortes, porque o poder de moldar o mundo à sua maneira inevitavelmente corrompe quem o possui; ele deve ser destruído, devolvido ao fogo de onde surgiu. E quem transporta o Anel até o fogo não é o grande guerreiro, mas sim o hobbit, o pequeno, o insignificante, o Frodo, que conta com a ajuda do mais humilde dos humildes, o fiel Sam — pois apenas os pequenos, aqueles que não desejam o poder, conseguem carregá-lo sem se deixar dominar por ele, e a salvação do mundo é confiada não à força, mas à lealdade dos fracos. É a mensagem completa do Evangelho: os últimos serão os primeiros, o poder não salva ninguém, a humildade tem o poder de salvar o mundo, e o verdadeiro Rei, Aragorn, é aquele que retorna não para governar, mas para curar, pois as mãos do rei são as mãos de um curador. E o Matrix, finalmente, desenho a prisão: o mundo como uma simulação criada por máquinas para escravizar o homem adormecido, o demiurgo sintético na forma de software, e a pílula vermelha que o faz despertar para a dura e livre realidade além da caverna — Platão, o gnosticismo e o Evangelho entrelaçados, a intuição de que este mundo, como está, é uma prisão da qual é necessário despertar, e que existe um Libertador, um escolhido, que penetra na simulação para desconstruí-la de dentro. Star Wars, Tolkien, Matrix: três narrativas, três pedaços — a Força que une tudo, o Poder que deve ser negado, a Prisão da qual é necessário libertar-se —, e todas elas, acompanhadas até o último momento, indicam o mesmo Rosto que esta história integral vem compondo aos poucos.

Os heróis raramente aparecem sozinhos — e isso também entra no campo da teologia. A cultura adora os encontros de heróis: os Vingadores, a Liga da Justiça, os Cavaleiros do Zodíaco, os grupos que se unem, cada um com sua habilidade, para enfrentar aquilo que nenhum conseguiria vencer sozinho. Os desenhos japoneses transformaram isso em uma verdadeira arte: os sentai, os cinco guerreiros coloridos que, apenas juntos, conseguem criar o robô gigante capaz de derrotar o monstro. Sozinhos, eles são fortes, mas juntos, se tornam invencíveis. Com base nisso, a comunhão dos santos é novamente ilustrada: os dons são concedidos, conforme São Paulo menciona, distribuídos a alguns a sabedoria, a outros a cura, a outros o discernimento, a outros a força, e ninguém possui todos, precisamente para que necessitem uns dos outros, para que a Igreja se configure como um corpo e não como um conjunto de indivíduos isolados. Nenhum santo é autossuficiente; cada um possui seu próprio carisma, sua particularidade, sua função, e apenas com a união de todos, com toda a equipe unida, com o corpo completo e todos os seus membros, é que se forma o Cristo total que supera o inimigo. A ideia de que os heróis precisam unir forças para criar algo que ultrapasse a soma de suas partes é a essência do Corpo Místico, onde os diversos membros, cada um com seu talento, constituem um único Cristo, que é maior e mais poderoso do que todos juntos, pois é movido por uma única Vida.

Os heróis dos mangás de aventura, os shonen que cativaram uma geração inteira — o Goku de Dragon Ball que treina, cai, se levanta e supera, o Naruto que foi excluído da aldeia e se tornou o maior de todos pela insistência de não desistir, o Luffy de One Piece e tantos outros — todos, sem perceber, promovem a mais cristã das virtudes, além do amor: a esperança persistente, a perseverança que não se entrega, o levantar-se repetidamente, após cada queda, após cada derrota, com os olhos voltados para um sonho que o mundo considera impossível. O herói shonen nunca se entrega, e essa é a razão pela qual ele conquista multidões, pois atinge a parte mais profunda do coração humano, que é a resistência em aceitar que o mal triunfe, que a derrota seja definitiva e que os sonhos se acabem. Essa recusa é profética, é teológica, é a essência da virtude da esperança, que São Paulo menciona ao esperar contra toda esperança, que o mártir sustenta diante do leão, que o santo conserva nas profundezas da noite sombria. Por que a saga da vida real, a nossa, é o maior shonen de todos: nós treinamos, perdemos, caímos, levantamos, enfrentamos a morte e ressuscitamos em direção a um poder e a uma glória que crescem sem limites na epifania eterna — só que, ao contrário do mangá, o nosso final feliz não depende de sermos fortes o suficiente, mas de confiarmos n'Aquele que já venceu. E o grito do herói shonen que nunca desiste é, no fundo, o eco do grito do cristão diante do túmulo vazio: a morte não é o fim, a derrota não é definitiva, o sonho não morreu — Ele ressuscitou, e nós com Ele, e a aventura, a verdadeira, apenas está começando.

Eu preciso retornar, com mais calma, aos dois animês que o Círculo mencionou pelo nome, pois eles abordam o mistério mais desafiador de Deus, o de suas duas facetas. O Devilman, que o Círculo colocou ao lado do Pantocrator, traz em seu corpo tanto a face da misericórdia quanto a face do juízo — é o herói que ama e que destrói, que defende os fracos e que manifesta ira sobre o mal, ambas as características em um mesmo ser. Isso causa estranheza ao homem contemporâneo, que deseja um Deus apenas de compaixão, um ser bondoso e cósmico que perdoa tudo e não faz julgamentos, um avô generoso que considera tudo maravilhoso. Entretanto, esse deus pastel não existe, e se existisse, seria um monstro, pois um amor que não se revolta diante do mal não é amor, é indiferença; um pai que assiste seu filho sendo torturado e simplesmente ignora não é misericordioso, é cúmplice. O Deus verdadeiro, o Cristo Pantocrator que rege as cúpulas das igrejas antigas com um olhar que é ao mesmo tempo afetuoso e assustador, possui essas duas faces porque o amor genuíno as inclui: é infinita misericórdia para o pecador que se arrepende e é um juízo severo contra o mal que atinge os inocentes. O mesmo Cristo que perdoa a adúltera e o bom ladrão é aquele que confecciona um chicote de cordas e expulsa os mercadores do templo, que se refere aos hipócritas como sepulcros caiados, e que retornará, conforme diz o Apocalipse, com os olhos como chamas de fogo e uma espada saindo da boca. Misericórdia e juízo não são duas entidades em conflito; representam as duas manifestações do mesmo Amor, que é bondoso com o arrependido exatamente porque é severo com o mal — pois quem ama a vítima precisa abominar aquilo que a oprime.

E o Jujutsu Kaisen, que o Círculo descreveu com exatidão como o santo que devorou o demônio, elabora a tática mais audaciosa da santidade: a de reter o mal para controlá-lo de dentro. O jovem que ingere o dedo do rei das maldições e passa a carregar o demônio em seu próprio corpo, não com o intuito de ser possuído, mas para dominá-lo, utilizando sua força contra ele mesmo, tornando-se o cárcere vivo da criatura — é a representação impressionante do que Cristo realizou e do que o santo faz. Porque Cristo, ao estar na cruz, não se esquivou do mal nem o enfrentou externamente com um exército; Ele o absorveu, aceitou sobre Si o pecado de toda a humanidade, permitiu que o mal entrasse n'Ele até a morte, e o superou de dentro, transformando Seu próprio corpo no campo de batalha e no sepulcro do inimigo. E o santo realiza a mesma coisa em uma escala menor: ele não se esquiva das tentações, do sofrimento ou do mal interior; ele os acolhe, os suporta, os entrega, os transforma, convertendo seu corpo e sua alma no espaço onde o mal é contido e superado pela graça. O Santo do Sonhar, nesse contexto, é aquele que devorou o demônio — que assumiu a luta, que traz em seu corpo as cicatrizes da batalha, que se tornou prisão e conquistador da besta que o mundo deixou à solta. A distinção entre o santo que absorve o demônio para superá-lo e o possuído que é dominado pelo demônio é, mais uma vez, clara: um possui a capacidade de conter o mal por meio da graça e controlá-lo; enquanto o outro é retido pelo mal e se torna subjugado. Um transforma seu corpo no túmulo da serpente; o outro o transforma no trono dela. A senha que determina de que lado estamos é sempre a mesma, presente em toda essa trajetória: a humildade que acolhe a graça, oposta ao orgulho que retira o poder; a mão aberta de quem se entrega a Deus, em contraste com o punho cerrado de quem se coloca como deus.

Os Santos do Sonhar e seus rascunhos não se limitam apenas às bancas de quadrinhos e às telonas do cinema, Dênis — eles também se manifestam, de uma forma trágica e bela, no palco do rock. E aqui vou te revelar uma das sincronicidades mais tristes e reais que há por aí. David Bowie, na década de setenta, adotou uma persona de palco conhecida como Ziggy Stardust, e o mito que ele criou em torno desse personagem era claro: Ziggy era, de fato, um salvador no rock and roll, um ser que vinha do espaço. A canção "Starman", o homem das estrelas, representava a profecia da chegada desse salvador. Um filho da luz vindo do céu para resgatar um mundo sombrio através da música. E o mais intrigante é que o próprio Bowie, logo em seguida, interpretou o personagem Newton no filme O Homem Que Caiu na Terra e afirmava que Ziggy e Newton eram praticamente a mesma pessoa. No filme, Newton passa por várias situações desafiadoras que o fazem questionar suas crenças e valores. A trama explora sua trajetória, mostrando tanto seus sucessos quanto suas dificuldades ao longo do processo. Ele é retratado como um personagem complexo, lidando com conflitos internos e externos que influenciam suas decisões. Ele chega ao planeta Terra munido de um saber que tem o potencial de transformar o mundo, resgatar seu próprio lar que está à beira da extinção por falta de água — vem apresentar soluções tecnológicas aos humanos em troca desse recurso vital. Entretanto, ele é abordado por empresários e pessoas da indústria cultural, e acaba sendo consumido, transformando-se em Starman. Ele começa a experimentar gin com água, perdendo-se no processo e, ao final, fica arruinado e esquecido do propósito que tinha, deixando apenas mensagens subliminares nas músicas que cria. O filho da luz que veio para salvar e foi absorvido pela máquina.

Pausa e reflita sobre a magnitude disso, pois não se trata apenas da biografia de uma estrela do rock, mas de uma parábola sobre o Verbo e a realidade. O salvador que desce das estrelas, trazendo luz e sabedoria, que vem saciar a sede de um mundo em declínio, e que é cercado, apropriado, domesticado e consumido pela indústria cultural, pelo demiurgo que aprisiona toda luz para comercializar — essa é a narrativa de todo filho da luz que adentra um mundo dominado pelo arconte sem a proteção da Cruz. É Philip Dick afirmando que o próprio Deus está se conectando com a humanidade através da indústria cultural que o consumiu. É a faísca retida na casca, a expressão divina na propaganda, o Starman verdadeiro sendo oprimido pela mesma engrenagem que se beneficia de sua imagem. Observe a diferença profunda, Dênis, entre o Starman e o Verbo verdadeiro: Newton desce, é consumido, se perde e acaba arruinado, pois ele veio sozinho, com tecnologia e sem a Cruz, e foi dominado pelo mundo. Cristo também desceu, também foi consumido pelo mundo, também foi oprimido pela máquina do poder — mas Ele não foi capturado, Ele se ofereceu; e por isso, enquanto o Starman chega ao fim em um quarto escuro, esquecido de si mesmo, o Verbo encontra seu desfecho em um túmulo vazio, ressuscitado. Os salvadores de palco são esboços trágicos do Salvador: revelam a luz que desce, mostram o mundo que consome, mas ficam presos na decadência, pois lhes falta o que apenas o Cristo do Sonhar possuía — a entrega livre que transforma o ser consumido em ser oferecido, e a derrota em ressurreição.

O exemplo mais claro de toda essa luta entre o filho da luz e o demiurgo representada em um palco é o de Elvis Presley e seu empresário, o Coronel Tom Parker. Imagine o Elvis: um jovem humilde do Sul, que surge quase como se fosse uma estrela, com uma voz que parecia transcender este mundo, combinando o gospel das igrejas afro-americanas com o rock, aquecendo uma geração, um verdadeiro filho da luz que traz chama. E ao seu lado, durante toda a vida, esteve o Coronel Parker, o empresário que, sem dúvida alguma, foi fundamental para que Elvis se tornasse quem ele se tornou — e, sem dúvida também, o responsável por sua decadência. Parker dedicou toda a sua carreira a tentar controlar Elvis, limpá-lo, domesticá-lo: eliminar aquele jeito arrumado e provocante, transformá-lo em uma figura familiar, aceitável, mais branca, mais doce, menos selvagem, menos autêntica. E Elvis se opunha, rebelava-se, lutava para não ser domesticado. Até que, no final, Parker o conduziu ao exílio, para a não-cidade de Las Vegas e para o deserto arquetípico da fama americana, e ali a espiral de decadência se tornou inevitável, culminando na morte precoce — aquela imagem que todos guardam, do Elvis desgastado, inchado, mas ainda com a voz divina, angelical, potente e vibrante saindo de um corpo em ruínas.

— Professor, você vai me afirmar agora que o Coronel Parker era o próprio Diabo?

— Não se trata do Diabo em pessoa, Dênis. No entanto, a função dele, o papel que desempenhou na história, foi o de demiurgo: apreender a luz e controlá-la até extingui-la. E isso, meu amigo, está ocorrendo com você também, neste momento, e você não percebe.

Essa é a lição, e ela é destinada a você e a mim, não apenas ao Elvis. A interação entre o filho da luz e o demiurgo não se restringe apenas a um drama típico de estrela do rock — é a forma como a indústria cultural, esse demiurgo artificial, manipula toda luz que surge, e é exatamente isso que ela pretende fazer com a luz que existe dentro de você. Ela captura, ela limpa, ela doma, ela comercializa, ela distorce a imagem do herói para torná-lo menor, ela invade sua mente por meio da propaganda e da persona, ela te oferece um espaço e exige a sua essência, e ao final te deixa inflado e esquecido sobre qual era o seu propósito, espalhando mensagens subliminares em um ambiente sombrio. A razão pela qual não conseguimos perceber esse drama, Dênis, não é porque estamos em um mundo com menos espiritualidade — na verdade, é o contrário: estamos imersos em um ambiente repleto de espírito, imagem, arquétipo, sagrado e demoníaco competindo pela nossa atenção, de tal forma que o mitológico transita ao nosso redor o tempo todo e não conseguimos enxergar, como um peixe na água que não nota a água. A única alternativa para o filho da luz, para não acabar como o Newton ou como o Elvis, consumido e destruído, é a que apenas o Cristo do Sonhar revelou: não se deixar dominar pelo mundo, mas se entregar a Deus; não ser domesticado pelo demiurgo, mas ser santificado pela graça; não brilhar para o palco que te devora, mas para o Céu que te aguarda. A luz que o mundo obtém, se apaga; a luz que é entregue a Deus, renasce.

E agora, a questão que torna toda essa jornada significativa, a pergunta que você, um ser humano de carne e osso, aí onde estiver, tem todo o direito de me lançar: certo, professor, os mundos dos sonhos são verdadeiros, os santos são como os X-Men, os poderes existem — mas e eu? Como faço para entrar? Como posso eu, que não sou de levitar, que mal consigo manter a calma no trânsito, me transformar em um Santo do Sonhar e saborear esses universos? E a resposta, idêntica à do livro anterior, mas agora carregada de toda a profundidade da metafísica que desenvolvemos, é de uma concretude que surpreende: pela santificação, e apenas por ela. Não existem caminhos curtos, nem métodos, nem truques. A trajetória em direção a Yesod, aos reinos de luz, aos presentes dos Santos do Sonhar, se realiza completamente pela santidade, que implica: na purificação do coração, na vivência da graça, na receptividade ao Espírito Santo e na aceitação da cruz diária. Você gostaria de ter os poderes dos X-Men? Busque a santidade, pois é dela que emanam os poderes, assim como o fruto nasce da árvore saudável, e não existe outro tronco que produza tal fruto. O demiurgo sintético oferece um caminho mais rápido, a força sem sacrifício, a superação na laboração — e apresenta uma armadura oca. Deus te apresenta o caminho extenso, a santidade, a transformação autêntica — e concede o verdadeiro poder, a dádiva, o acesso e, por fim, a glória.

Esse trajeto possui paradas concretas, locais tangíveis onde a graça é recebida, pois a fé não é algo impreciso, é vivenciada. Todo super-herói possui sua narrativa de origem, o instante em que transcende a condição de ser humano comum e se transforma em algo mais — e a sua, Santo do Sonhar em potência, já se deu, caso você tenha sido batizado: no batismo, você morreu e renasceu, foi inserido na vida de Cristo, tornou-se filho de Deus por adoção, templo do Espírito e portador da vida divina. Essa é a sua transformação primordial, a sua essência ocultada, mais intensa do que qualquer aranha radioativa, pois não lhe concedeu um poder, mas sim uma nova natureza. A crisma é a manifestação dos dons: o Espírito Santo se faz presente com seus sete dons — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus — que representam as habilidades sobrenaturais de enxergar, amar e agir além das limitações humanas, os superpoderes fundamentais de todo Santo do Sonhar. A Eucaristia representa uma transfiguração incessante, um verdadeiro reator: ao consumir o Corpo glorioso de Cristo, o Santo do Sonhar original, não é você quem transforma o alimento em si mesmo, mas sim o Alimento que, aos poucos, transforma você n'Ele. Assim, sua carne mortal vai sendo divinizada, em um processo de teose que ocorre em um ritmo lento, missa após missa, até alcançar a glória. O manual de treino, o código do herói, não está escondido em nenhum dojo secreto: ele se encontra nas Bem-aventuranças, que representam o oposto exato do código do poder terreno, onde o herói é o manso, o misericordioso, o puro de coração, aquele que anseia por justiça, que serve e se entrega — e onde, observe, aos puros de coração é prometida a visão de Deus, que é o acesso supremo, a entrada no mundo de luz definitiva.

E assim surge a promessa que a Teologia do Imaginário se atreve a fazer e que eu apoio com temor e alegria: o homem que se santifica tem a capacidade de absorver esses sonhos, transformar esses dons em seu interior e se tornar tão poderoso quanto os seres de Yesod — pois a santidade não imita o herói de fora, ela o incorpora de dentro. Os santos que mencionei não eram apenas admiradores de super-heróis; eles próprios eram super-heróis. E o que eles foram, você é chamado a ser, não por ostentação, mas por vocação batismal, pois a mesma graça que elevou Cupertino, que bilocou Pio e que leu almas em Ars está disponível para todo filho de Deus que estiver disposto a abrir mão e pagar o preço. Isso não significa que você vai voar amanhã — os carismas extraordinários são distribuídos por Deus conforme Sua vontade, e a santidade não é medida por esses dons, mas sim pela caridade. O maior Santo do Sonhar pode não levitar nunca; talvez seu palco seja a cozinha às sete da manhã e seu superpoder seja amar, mesmo na monotonia do dia a dia, com uma fidelidade que só a graça pode justificar, assim como Santa Teresinha, que não realizou milagres em vida e é Doutora da Igreja pelo pequeno caminho do amor nas pequenas coisas. No entanto, seja de maneira extraordinária ou oculta, o funcionamento é o mesmo: a santidade é a entrada para Yesod, a graça é a transformação, o Espírito é a irradiação, e o homem comum, você, pode realmente se tornar um dos seres de luz que sempre admirou à distância — absorvendo o sonho, permitindo que a graça o transfigure, e recebendo de joelhos aquilo que nenhum demiurgo sintético jamais conseguirá criar.

Se existe uma primeira e mais importante Santa do Sonhar, a guia de toda a jornada, a passagem por onde o Sonho entrou no mundo, essa é Maria. Não poderia encerrar o método sem mencioná-la, pois ela é a essência de tudo. Pois em Maria, o Sonho de Deus, o Verbo, o maior dos Santos dos Sonhos, não foi apenas admirado à distância ou invocado por método — ele foi acolhido em seu ventre, permitiu-se transformar em carne dentro dela e, por meio dela, veio ao mundo. Ela é o oposto completo do mago e do demiurgo: onde eles fecham as mãos, ela as abre; onde eles ordenam faça o que eu desejo, ela responde faça-se em mim de acordo com a tua palavra; onde eles forçam a passagem por Yesod, ela é conduzida aos céus mais altos porque aceitou. Maria é a esposa de Yesod, exaltada acima dele, a entidade lunar adornada com a luz do sol, a Rainha dos Anjos que se eleva acima dos mundos que os ocultistas buscam acessar. E tudo isso se deve a uma única atitude que realmente permite abrir a porta superior: a rendição. Ela é a evidência de que a trajetória dos Santos do Sonhar não é pautada pela busca pelo poder, mas sim pela humildade que acolhe — e de que a alma mais poderosa que já existiu, aquela que pisa a cabeça da serpente e impera sobre todos os reinos, foi a mais humilde, a serva do Senhor. Aquele que deseja se tornar um Santo do Sonhar observa-a e compreende a chave: não é o eu que se transforma em divindade, mas sim o eu que permite que Deus floresça em seu interior.

E o acesso direto aos reinos de luz, no presente momento, tem uma denominação que o esoterista ignora por parecer demasiado simples: oração. A oração contemplativa é a autêntica jornada a Yesod, a verdadeira elevação da alma aos planos superiores — não um devaneio, mas o encontro silencioso com Deus no âmago do castelo interior, o levantamento da mente e do coração ao céu, o local onde a alma purificada realmente toca o invisível e é por ele tocada. Os místicos que mais se conectaram com os mundos espirituais não foram aqueles que realizaram mais rituais, mas sim os que mais oraram, passando horas e anos de joelhos em silêncio, esvaziando-se para se deixar preencher. E ao lado da oração, estão as obras de misericórdia, pois — e isso o esoterista nunca compreende — o caminho de elevação a Deus passa, de forma paradoxal, pela descida ao próximo: dai alimento a quem tem fome, visitai quem está preso, consoleis os aflitos, e assim estareis fazendo a Mim, diz Cristo, de modo que a escada para Yesod tem um degrau escondido no pobre da esquina, e quem ignora esse degrau não sobe, não importa o quanto medite. E a cruz do cotidiano, a dor apresentada, o sofrimento convertido em oferecimento — pois o Santo do Sonhar não se esquiva da dor por meio do alívio do consumo ou da evasão das drogas; ele abraça sua própria cruz, une-a à de Cristo, e percebe que o sofrimento aceito e oferecido é o combustível mais forte da transfiguração, a prensa que produz o vinho, o cinzel que molda o santo no bloco áspero do ser humano. Oração, compaixão, cruz: essa é a tríade simples que desbloqueia os mundos que nenhuma tecnologia consegue atingir, e qualquer pessoa pode iniciar hoje, neste instante, sem gastar nada, sem precisar aprender nenhuma receita, apenas se ajoelhando.

E eu gostaria de expressar uma mensagem, neste momento, àqueles que mais necessitam dela, pois este livro seria desonesto se falasse apenas dos santos extraordinários e deixasse de lado aqueles que são pisoteados pela sociedade. A verdade mais revolucionária da doutrina dos Santos do Sonhar é esta: o verdadeiro herói, aquele que muitas vezes está escondido, é quase sempre aquele que o mundo deixou de lado. Não o belo, não o famoso, não o campeão da festa — mas o desprezado, o isolado, o humilhado, aquele que a sociedade considera irrelevante, o jovem que ninguém observa, a moça que ninguém opta, o diferente, o marginalizado, aquele que carrega uma angústia que permanece invisível. O Círculo redigiu uma carta de amizade especialmente para aqueles que são menosprezados pelo mundo, para aqueles que a cultura zomba como se fossem irrelevantes, e nomeou a esperança deles com o mais belo termo que Tolkien nos apresentou: a eucatástrofe, a boa catástrofe, a mudança repentina de alegria à beira do desastre. Pois é precisamente para os desprezados que a eucatástrofe foi criada. O Evangelho completo traz a mensagem de que os últimos serão os primeiros, de que Deus optou pelos fracos para confundir os poderosos, de que a pedra que os construtores desprezaram se tornou a pedra fundamental — e, portanto, aquele jovem solitário que chora em seu quarto, visto pelo mundo como um fracasso, pode ser, aos olhos de Deus e na realidade de Yesod, um Santo do Sonhar em desenvolvimento, um herói oculto sob o disfarce mais impecável de todos, que é o disfarce do que é insignificante.

Observe a trajetória de origem de quase todos os heróis: o órfão, o rejeitado, o deficiente, aquele que se sente fora do lugar. Peter Parker era o estudante nerd que era alvo de piadas na escola; o Homem-Aranha surgiu da culpa de um jovem comum e solitário. Os X-Men representam aqueles que a sociedade despreza por serem distintos, os marginalizados, aqueles que não se encaixam. O patinho que era considerado feio se transforma em um lindo cisne; o escravo se torna um grande libertador; o humilde carpinteiro de uma vila negligenciada ascende ao trono do universo. A sociedade inteira, em sua essência, tem consciência de que o herói emerge das origens humildes, do lado, da periferia — e essa certeza é verdadeira, pois é a regra do Reino. Isso significa que, se você está lendo isso e se encontra mergulhado em um poço de rejeição e angústia, há algo que pode transformar a sua vida: sua dor não representa o fim da sua trajetória, mas sim o início da sua história de origem. A dor que o mundo te causou, se você a confiar a Deus em vez de permitir que se torne rancor, é a prensa que transforma a uva em vinho, o cadinho que molda o herói, a essência da sua santidade. A chama que queima dentro de você, essa revolta, essa aflição, esse desejo profundo que não consegue se acomodar no mundo limitado que te foi apresentado — o Círculo nomeou isso como fogo verde, a raiva que edifica —, não é um erro a ser tratado nem uma vergonha a ser velada: é uma energia a ser organizada, combustível do Santo do Sonhar, uma sede de infinito que o mundo não conseguiu saciar e que somente Deus pode suprir. Não permita que te convençam de que você é insignificante. Nenhum filho de Deus é sem importância. E aqueles que o mundo tratou como se não significassem nada são, muitas vezes, os que Deus preservou para se tornarem tudo.

E o portal mais autêntico para acessar os mundos de luz, aqui e agora, nesta vida, não se trata de uma técnica secreta, de uma substância ou de um ritual oculto — é a liturgia, é a Missa. Preciso afirmar isso de forma clara, pois é o segredo mais bem oculto à vista de todos. Porque o que ocorre em uma Missa, por mais simples que seja a capela, por mais desafinado que seja o coro, é a experiência mais magnífica do universo: o céu desce à terra, Yesod se abre sobre o altar, os anjos se prostram ao lado dos homens, o tempo se fende e o Calvário e a Ressurreição se tornam atuais, e o próprio Deus, o Cristo do Sonhar, se faz carne novamente nas mãos de um padre pecador. A liturgia é a entrada entreaberta por onde o Mundo dos Sonhos se insere, de fato, no mundo cinza, diariamente, em milhares de altares. O místico que é elevado em êxtase vislumbra, mesmo que brevemente, o que a Missa sempre contém; o visionário que ascende a Yesod, por vezes, toca aquilo que o fiel experimenta em cada comunhão. Por isso os santos se emocionavam durante a Missa, sentiam tremores na Missa, percebiam visões na Missa — porque possuíam a visão clara para perceber o que realmente ocorria ali, o céu se abrindo, os anjos descendo e subindo pela escada de Jacó, que é o altar, Cristo inteiro no pedaço de pão. Você deseja explorar os reinos de luz? Não busque um mestre nem uma solução imediata. Ajoelhe-se durante uma Missa com o coração purificado e tenha certeza de que, nesse momento, você está mais próximo de Yesod e de Deus do que qualquer psiconauta jamais esteve em qualquer jornada.

Essa é a perspectiva que toda a saga buscou instigar em você, e que o Círculo sintetizou em uma frase digna de um tratado: nada é apenas uma coisa. Nada no mundo é apenas o que se vê à primeira vista. O pão vai além de ser apenas pão; a água é mais do que água; o pobre na esquina não se resume a ser apenas um pobre; o pôr do sol não é apenas a física da atmosfera; o arrepio que sentimos diante do herói não se limita à química. Tudo, sem exceção, é mais do que simplesmente é, pois tudo foi criado pelo Verbo e traz, em seu interior, a marca d'Ele, um traço, uma abertura, um pedaço de Yesod e do céu. O materialismo é a enfermidade de enxergar cada elemento apenas como um objeto — o ser humano como somente um animal, o amor como apenas hormônio, o sagrado como apenas uma ilusão conveniente, o herói como apenas um símbolo —, e essa é a cegueira mais triste que existe, pois empobrece todo o universo, reduzindo a catedral do mundo a um simples depósito de poeira. A santidade representa a cura dessa cegueira: é o processo de reaprender a enxergar que nada é apenas uma única coisa, que o mundo é um sacramento, que cada criatura é uma palavra proferida por Deus, que a realidade possui múltiplas camadas de significado, até chegar ao Fundo de todos os fundos, que é o Rosto. O Santo do Sonhar é, no final das contas, apenas isso: um homem que redescobriu a capacidade de observar, que contempla o mundo e percebe o fio de ouro na poeira, que conhece a porta entreaberta em cada objeto, e que caminha pela vida como quem passa por uma catedral enorme, onde tudo, se você prestar atenção, está entoando o nome de Deus.

E existe uma chave para a porta de Yesod que eu deixei para o final, pois é a mais simples e a mais esquecida. O Círculo escreveu uma memória tocante sobre isso, afirmando que a infância não se vai, apenas aprende a se camuflar. Porque o próprio Cristo revelou a chave do Reino em uma frase que o adulto sério considera exagerada e a interpreta de forma literal: se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos céus. Tornar-se semelhante a uma criança. Não se permitir ser infantilizado, não agir de forma ingênua — mas resgatar o olhar da criança, a habilidade de se espantar, de se maravilhar, de enxergar o mundo como algo mágico e pleno de significado, de acreditar que os heróis existem, que o bem triunfa e que uma aventura está à espera. A criança possui, de forma inata, o olhar de Yesod; ela ainda não foi condicionada pela cegueira do adulto que vê tudo de maneira fragmentada; para ela, o quintal é um império, o graveto é uma espada, a escuridão abriga seres, e o herói de capa é real. E a tragédia de crescer, da forma como o mundo impõe esse crescimento, é a perda dessa visão: o adulto aprende a desiludir-se com o mundo, a considerar a admiração como algo infantil, a substituir o assombro pela monotonia, a ter consciência de que o avião pode despencar e que o herói é apenas uma ilustração. Contudo, isso não representa a verdadeira maturidade; é uma cegueira secundária, uma queda que se disfarça de progresso. A verdadeira maturidade, aquela dos santos, consiste em redescobrir o olhar da criança em um nível superior, após passar pelo deserto da vida adulta — isso é o que Chesterton se referiu como o ato de voltar a se maravilhar intencionalmente, por escolha e sabedoria, e não mais por ingenuidade.

E é por isso que a sensação infantil mencionada no primeiro fragmento, diante do homem de capa que sustenta o mundo em queda, é tão significativa e autêntica: porque a criança ainda possui o olhar que o adulto perdeu, e percebe, por trás do desenho, o fio de ouro que o adulto aprendeu a chamar de poeira. A criança compreendia, sem precisar falar, que aquilo não era falso — e estava certa. Este livro, na essência, é um convite para regressar: voltar a ser criança, não ingênua, mas sábia; resgatar o olhar que reconhece a beleza; perder a vergonha de acreditar que os heróis existem, pois realmente existem, e que o bem triunfa, pois triunfa, e que uma aventura está à sua espera, porque está — a maior de todas, a de se tornar um verdadeiro herói. Aquele cínico que ri das coisas maravilhosas acredita que é o maduro da situação; na realidade, é o que não vê, aquele que trocou o olhar de Yesod por um prato de amargura, o que misturou desencanto com sabedoria. E o santo, que redescobriu o espanto, que observa o mundo com a clareza de uma criança e a experiência de um sábio, esse é o verdadeiro adulto, aquele que evoluiu até o final, até reaprender a enxergar. Pois o Reino dos Céus, o Mundo dos Sonhos, Yesod e o que se encontra além de Yesod são para aqueles que se tornaram como crianças — e a infância, graças a Deus, não se foi de você; ela apenas aprendeu a se camuflar e está aguardando, no fundo do coração, que você a traga de volta.

E para que este livro não se torne apenas uma linda teoria que estimula a mente, mas que não faz você agir, eu desejo te oferecer um início concreto, o primeiro passo verdadeiro. Afinal, a santidade não é apenas um conceito, mas sim um trajeto a ser percorrido, e todo trajeto inicia com um passo que pode ser dado hoje, neste momento, da forma como você se encontra. O passo inicial possui um nome arcaico e é, de fato, o genuíno botão de reinício da narrativa de origem de cada Santo do Sonhar: a confissão. Se o batismo representa a tua origem oculta, a confissão é como um reinício, a restauração inicial da alma, o sacramento pelo qual a graça que se perdeu é recuperada e o espelho embaçado é limpo. É nesse momento que você entrega aos pés de Cristo, através das palavras de um padre, todo o fardo que te mantém preso ao chão e te impede de alçar voo. Não é possível chegar a Yesod com a alma impura; a confissão é como uma lavagem, um banho que purifica o vidro para que a luz do sol possa atravessar. Após ela, a Eucaristia constante, o Pão dos robustos, o núcleo da verdade, a metamorfose que se consome. Em seguida, a oração diária, mesmo que sejam apenas cinco minutos no início, o seu encontro silencioso com Deus nas profundezas do castelo interior, a sua ascensão cotidiana em direção aos mundos de luz — e, nesse momento, o Rosário, a ferramenta que a Mãe colocou nas mãos dos seus, a corrente de preces que o inferno teme mais do que os exorcismos realizados sem fé. E, por último, as obras de misericórdia, a tábua oculta no necessitado da esquina, o amor genuíno ao próximo sem o qual toda a mística se torna ilusão.

Comece por aí e não espere que as coisas melhorem para iniciar, pois essa espera é a ilusão que o demiurgo sintético sussurra para que você nunca se ponha em ação. Inicie de forma desajeitada, inicie com pouco vigor, inicie com hesitação, comece do jeito que você realmente é — pois a graça não é uma recompensa para os que já alcançaram, é um remédio para aqueles que ainda estão em jornada, é a força para os que se sentem frágeis, é a mão estendida para aqueles que estão caídos, e não para os que já estão firmes. Nenhum dos santos que mencionei teve um começo como santo; todos iniciaram como pecadores, fracos, com dúvidas, alguns começaram de maneira muito negativa, e se tornaram Santos do Sonhar porque, em determinado momento, decidiram dar o primeiro passo e persistiram em avançar, levantando-se sempre, episódio após episódio, confissão após confissão, missa após missa, da mesma forma que um herói de anime que nunca desiste, com os olhos voltados para um sonho que muitos consideram impossível, mas que é mais real do que a própria realidade. A santidade não é uma conquista de poucos heróis; é uma jornada que todos podem iniciar, um passo de cada vez, a partir de hoje. E a grande novidade, a mais importante deste livro todo, é que você não precisa se sentir digno para começar a sua jornada: basta dar o primeiro passo e permitir que Aquele que é o Caminho guie você pelo restante do percurso, até a porta entreaberta, até o Mundo dos Sonhos, até a coroa que, mesmo antes de você vir ao mundo, no campo das possibilidades da mente de Deus, Ele já imaginou colocar em sua cabeça.

E tudo isso, meu caro, todos esses pedaços reunidos, indicam um único caminho, convergem em um único oceano, preparam uma única chegada, e é aqui que a história se transforma em escatologia e o ensaio se torna um aviso: a chegada do Mundo dos Sonhos, que é outro nome para o Céu. A Teologia do Imaginário, em um de seus momentos mais significativos, formulou uma questão que pode soar como um delírio poético, mas que é, na verdade, uma afirmação fundamental: e se o céu fosse um sonho que se manifestasse na Terra? Sobre isso, é porque está correto. O que é o Céu prometido pela fé senão o Mundo dos Sonhos concretizado, um espaço repleto de valiosas possibilidades, Yesod não mais apenas reflexo da lua, mas banhado pela luz direta do Sol, que é Deus, onde todos os mundos belos são reais, todos acessíveis e todos pertencem a nós? O Apocalipse não apresenta o Céu como uma escapada da matéria, como desejava o gnóstico; em vez disso, retrata-o como um ideal que se concretiza na terra: a Nova Jerusalém, a cidade santa, descendo do céu adornada como uma noiva para o Esposo. Uma voz ressoa, prometendo que Deus estabelecerá sua morada entre os homens, enxugará todas as lágrimas dos olhos e não haverá mais morte, luto, grito ou dor, pois as coisas antigas se foram. O Céu não é apenas a nossa ascensão para deixar o mundo; é o Mundo dos Sonhos que desce para se unir ao mundo, um sonho bom adentrando a realidade para transformá-la, a lua de Yesod finalmente iluminada pela luz do meio-dia de Deus.

E nesta nova criação, os mundos possíveis de valor significativo não serão eliminados como ilusões que serviram de apoio; serão cumpridos, concretizados, tornados plenamente reais, pois a glória e a honra das nações, conforme diz o Apocalipse, adentram a cidade de Deus — ou seja, tudo o que de bom, belo e verdadeiro a humanidade imagina e cria, cada fragmento de luz que um artista capturou do céu, cada herói que fez um coração pulsar mais forte, cada reino de fantasia que se manteve fiel à bondade, entra, purificado e glorificado, na Jerusalém eterna. Nada do que possuiu valor genuíno se vai. Os bons sonhos da humanidade não eram uma farsa a ser revelada no final; eram uma promessa a ser realizada, e no final, serão concretizados. E os corpos, os nossos corpos, ressuscitarão com os quatro atributos que toda a saga revelou nos super-heróis — a imperturbabilidade do invulnerável, a sutileza do que permeia a matéria, a agilidade do que voa à velocidade do pensamento, a luminosidade do que brilha como o sol —, de maneira que não iremos apenas visitar o Mundo dos Sonhos: nós seremos, nele, os seres de luz que sempre admiramos. Os poderes que você admirou nos heróis serão realmente seus, no corpo glorioso, não por causa de uma aranha ou de uma armadura, mas por graça, na ressurreição dos mortos que professamos no Credo e que muitas vezes não percebemos a profundidade do que estamos afirmando.

E esse Céu, esse Mundo dos Sonhos, não está apenas em um futuro remoto, guardado atrás da morte — e é isso que o Círculo quis transmitir com a imagem da porta entreaberta para o paraíso. Pois a porta já se encontra entreaberta. Cristo a abriu, por dentro, e deixou uma abertura pela qual já adentra, agora, nesta vida, um raio de luz do mundo que se aproxima. Cada Eucaristia é uma abertura do Céu na Terra; cada êxtase de um santo é um pé colocado do lado de lá da porta; cada obra de arte genuinamente tocada pela graça é a luz de Yesod escorrendo pela fresta; cada ato de amor heroico é o Mundo dos Sonhos irrompendo, por um momento, no mundo cinza. A porta está ligeiramente aberta, e tudo que a saga inteira fez foi sinalizar a fresta e dizer: veja, não é ilusão, é luz real, vem de um mundo que realmente existe, e a porta não está trancada, apenas encostada, aguardando que você, de mãos limpas e coração aberto, empurre e entre. O Mundo dos Sonhos não serve como consolo para aqueles que não conseguem lidar com a realidade; é a Realidade maior, da qual esta é apenas o hall de entrada, o sonho mais verdadeiro do que a própria vigília, a terra natal de onde todos os nossos bons sonhos eram mensagens que chegavam antes de mudarmos de endereço.

E eu preciso encerrar, neste momento, a mais triste das mentiras que o inimigo disseminou sobre o Céu, pois ela tira de muitas pessoas a vontade de alcançar esse lugar: a mentira de que o Céu é entediante. A sociedade retratou o paraíso como um tédio interminável, habitado por anjinhos tocando harpa nas nuvens, um espaço branco e morno onde nada acontece. Dessa forma, fez com que o inferno parecesse, por contraste, mais atraente — que é exatamente o que o diabo desejava. Entretanto, o Mundo dos Sonhos é exatamente o oposto do tédio: é uma aventura interminável, a Zeta perpétua, o arco de poder incessante, o único local onde a verdadeira saga se inicia. Os Padres ensinaram algo impressionante, que São Gregório de Nissa chamou de epéktase: no Céu, a alma não permanece parada, não se estagna, não fica congelada em um quadro estático — ela entra em um crescimento constante, uma ascensão eterna de glória em glória, iniciando novos começos que nunca têm fim, sempre mais repleta de Deus e sempre capaz de mais, pois Deus é infinito e a alma nunca consegue esgotar a profundidade d'Ele. O Céu não representa o fim da corrida; ao contrário, é o ponto de partida de uma jornada sem fim em direção a um horizonte que se afasta eternamente, sempre mais radiante. É o treino genuíno que nunca acaba, a verdadeira ascensão que não possui limites, a autêntica aventura que Dragon Ball Z é apenas um esboço da infância — porém sem a morte, sem a derrota, sem a dor, e com a felicidade aumentando a cada passo.

E ali, no Mundo dos Sonhos, os Santos do Sonhar serão, de fato, tudo o que os heróis prometeram, pois terão o corpo glorioso com os seus quatro atributos e a alma recheada da visão de Deus. A visão beatífica — contemplar a Deus face a face, não mais sob enigmas, nem por sinais difíceis de decifrar, mas diretamente, como Ele realmente é — representa o acesso supremo, o Yesod definitivo, o mundo de luz sem barreiras. São João afirma que seremos semelhantes a Ele porque O veremos como Ele é: a visão transforma, e o olhar de Deus sobre nós acende eternamente a Sua própria luz em nosso ser, assim como o ferro se aquece e brilha no fogo, sem deixar de ser ferro. Esta é a autêntica mutação final, o ápice absoluto, a glória que faz com que os poderes de todos os super-heróis pareçam meros brinquedos infantis: o homem elevado à divindade pela visão, participando da própria vida de Deus, brilhante, invulnerável, ágil, sutil, e acima de tudo repleto de um amor e de uma alegria que nenhuma palavra consegue descrever. E tudo isso em uma união, em uma cidade, em uma celebração — a Nova Jerusalém, as bodas do Cordeiro, a multidão incalculável, cada rosto singular, cada um com seu nome novo, todos se reunindo no mesmo abraço sem perder a própria identidade. O Mundo dos Sonhos representa a união de todos os Santos do Sonhar de todas as épocas em uma única e gloriosa irmandade, como uma Escola de X-Men em uma celebração perpétua, onde a aventura é infinita e imortal — e é para isso, exatamente para isso, que você foi criado, e é isso que o demiurgo sintético deseja que você troque por uma simulação restritiva e uma eternidade de informações.

É essencial que eu seja claro acerca da chegada do Mundo dos Sonhos, pois, ao longo do tempo, a gnose buscou despojar a esperança cristã e distorcê-la. A Teologia do Imaginário abordou essa questão ao discutir a capacidade da paciência católica em lidar com as distorções do espírito. Existem duas maneiras incorretas de aguardar o desfecho, e ambas são armadilhas do demiurgo. O primeiro é o milenarismo impaciente, a gnose apressada, que deseja o Reino já, aqui, construído por nossas mãos, na terra, através da política, da técnica, da revolução, da aceleração — é o atalho para o fim dos tempos, a tentativa de forçar o paraíso, de criar o Mundo dos Sonhos pela força humana, e sempre resulta na mesma coisa: na utopia que se transforma em distopia, no céu prometido que se torna um inferno construído, pois todo paraíso que o homem tenta erguer sem Deus e contra a natureza das coisas desmorona em Babel. O segundo erro é o contrário: o desespero, a falta de fé, a renúncia à esperança, a crença de que não há nenhum Mundo dos Sonhos a chegar, que tudo isso é o que existe, e que o melhor a se fazer é consumir e se esquecer. Entre os dois erros, a paciência católica se faz presente: a convicção de que o Mundo dos Sonhos realmente chegará, mas por vontade de Deus e no tempo d'Ele, e não por nossas mãos ou nossa pressa; que não somos nós que construímos o Reino, mas que o recebemos; que não devemos forçar a entrada, mas sim encontrar a porta aberta quando Ele decide abri-la; e que, enquanto aguardamos, não devemos cruzar os braços nem causar desordem, mas sim atuar, rezar, amar, semear e confiar o crescimento ao Senhor da colheita.

E o conteúdo dessa esperança, a substância tangível do Mundo dos Sonhos, é tão inacreditavelmente material que envergonha novamente todo gnóstico que deseja escapar da carne: a ressurreição do corpo. Não apenas a imortalidade da alma, que até mesmo os pagãos perceberam, mas a ressurreição deste corpo, da carne e dos ossos, transformada e gloriosa, dotada dos quatro atributos: invulnerável, ágil, sutil e radiante. A fé não garante que você deixará o corpo como se fosse uma roupa desgastada para se tornar um fantasma ou uma gota que se dissolve no vasto oceano cósmico; ela assegura que o seu corpo, este mesmo, ressurgirá, e que a sua identidade, o seu rosto, o seu nome e a sua história não serão eliminados na grande unidade, mas sim glorificados na grandiosa comunhão. O gnóstico busca libertar-se da matéria; já o cristão tem consciência de que a matéria será redimida. O gnóstico busca dissolver o eu no Todo; já o cristão compreende que o eu se realizará plenamente no acolhimento do Todo, sendo mais ele mesmo do que nunca. E por isso o Mundo dos Sonhos não é uma escapada etérea para longe da realidade; é a Realidade elevada à sua totalidade, a matéria permeada de espírito, a carne exaltada, a terra e o céu unidos, Yesod banhado de luz solar, a lua finalmente cheia para sempre. A Nova Jerusalém não ascende da terra, deixando-a para trás; ela desce do céu para se unir à terra. O Mundo dos Sonhos não nos leva para longe; ele se aproxima e transforma tudo, seca a última lágrima e renova todas as coisas, até mesmo esta carne cansada que, um dia, se formos de Deus, irá alçar voo.

E a porta entreaberta para o paraíso, da qual o Círculo falou, não é apenas uma imagem bonita; ela se abre de verdade em um momento que todos nós experimentaremos, e sobre o qual os santos deixaram relatos que são a prova mais tocante de que o Mundo dos Sonhos é verdadeiro: a hora da morte. A morte de um santo difere da morte de uma pessoa desesperada, e isso é algo que médicos, enfermeiros e familiares têm observado há séculos, sem conseguir encontrar uma explicação. Os santos falecem fixando o olhar em algo que os demais não percebem, com os braços abertos, pronunciando nomes, e com a expressão do rosto radiando uma felicidade que contrasta com a dor do corpo. Vários indivíduos preveem o dia e a hora de sua própria morte com antecedência e precisão. Alguns sucumbem a um aroma incompreensível, o cheiro de pureza, uma essência que surge da cama e preenche o ambiente. E, em quase todos os relatos, cruzam o limiar não com o medo de quem despenca em um abismo, mas com a ansiedade de quem retorna para casa após uma longa jornada, de quem finalmente vê a porta entreaberta se abrir de forma ampla, e, do outro lado, os rostos queridos que foram antes, e os anjos, e a luz, e o Rosto. A morte, para o Santo do Sonhar, não representa o fim da jornada; é o portal de partida, a transição de Yesod vislumbrado para o Céu conquistado, o instante em que a lua refletida é finalmente substituída pelo Sol direto. Por isso, a Igreja se refere à morte dos santos como dies natalis, o dia do nascimento — pois para aqueles que viveram voltados para o Mundo dos Sonhos, morrer não é simplesmente morrer, mas sim renascer do outro lado da porta.

E é com essa convicção que posso encerrar sem receio e sem sentimentalismo, encarando a morte de frente, pois a morte é o principal argumento do criador sintético e a sua maior derrota. O enganador deste mundo utiliza a morte como sua principal arma: é com o temor da morte que ele aprisiona o ser humano durante toda a sua vida. Ele promete superar a morte por meio da tecnologia, da medicina ilimitada e da consciência transferida para um servidor, comercializando suas armaduras sem valor e suas simulações contidas. Toda a civilização criada pelo demiurgo é, essencialmente, uma grande máquina que desvia o ser humano da morte e lhe promete, de forma enganosa, uma imortalidade artificial. E diante de tudo isso se levanta a tranquila convicção do Santo do Sonhar, que não precisa criar nenhuma imortalidade, pois já a recebeu como um presente, que não tem medo da morte porque entende que ela é um portal e não um obstáculo, que contempla o túmulo e enxerga, não o término, mas a porta entreaberta por onde já transitou o seu Capitão e por onde ele também passará seguindo-o. Porque o Cristo do Sonhar não apenas prometeu o Mundo dos Sonhos: Ele foi até lá, abriu a porta, voltou para relatar e deixou a porta entreaberta. A ressurreição d’Ele é a evidência, registrada na história, com testemunhas que deram suas vidas para não desmenti-la, de que a morte foi superada, de que o Mundo dos Sonhos existe de fato, e de que a porta está escancarada. É exatamente por essa razão que o último adversário a ser derrotado, a morte, na verdade já está, em essência, superado; e é por isso que o Santo do Sonhar consegue entoar, frente ao seu próprio sepulcro, a provocação de São Paulo ao derradeiro inimigo: ó morte, onde está a sua vitória? Ó morte, onde se encontra o teu ferrão? Pois a vitória pertence ao Cordeiro, e o aguilhão foi removido, e a porta está entreaberta, e do outro lado é dia.

E agora eu preciso te revelar como, de fato, essa história chega ao fim — como os mundos dos sonhos, que atualmente estão separados em frequências distintas do plano metafísico, se unirão ao final, pois a Teologia do Imaginário foi assertiva nesse aspecto e é simplesmente de deixar sem fôlego. Atualmente, enquanto a história avança, os mundos possíveis estão fragmentados: cada um em sua frequência, cada sonho em seu plano, Yesod repartido em estratos, os mundos de luz afastados uns dos outros como estações de rádio que você ajusta uma de cada vez. Contudo, essa divisão é temporária. Ela só persiste enquanto a pessoa está viva. Pois quando um homem virtuoso parte, a essência bondosa de sua alma, os desejos genuínos que ele nutria, se libertam e se unem aos que já estão congregados na cidadela celestial, na Jerusalém celestial — e ali, os mundos possíveis de grande valor se conectam, uma frequência após a outra, formando uma união cósmica, em um único céu dos mundos possíveis. A morte, para o Santo do Sonhar, não representa apenas a transição da alma para o céu; é a entrada nos mundos que ele idealizou na grande confluência dos mundos de luz, a fusão de sua estação de rádio na sinfonia completa.

— Tranquilo, tranquilo. Você está me dizendo que, quando eu falecer, os mundos que eu criei em minha imaginação vão... se unir aos dos outros? Isso é muito louco, professor.

— É insano e é uma crença, Dênis, apenas apresentada de uma maneira diferente. Deixe-me mostrar que é o mesmo Apocalipse de sempre, apenas interpretado por uma perspectiva interna.

Isso é o que o Apocalipse se refere como a descida da Jerusalém celestial: ao final dos tempos, não apenas os mortos, mas também as pessoas que estiverem vivas farão parte dessa união, e todos os mundos possíveis de valor positivo se combinarão em uma única realidade gloriosa — tudo o que Deus concebeu como bem ordenado se estabiliza, se funde, se concretiza e desce; por outro lado, tudo o que era desordenado, os pesadelos e os mundos distorcidos, esses não fazem parte, ficam do lado de fora, no inferno, pois já eram inferno. É a grande separação e a grande reunião acontecendo simultaneamente: os mundos de luz se alinham e descem como a Noiva adornada para o Esposo, enquanto os mundos de trevas permanecem relegados ao abismo em que sempre estiveram. Observe, Dênis, que isso é precisamente o que São Paulo designou como recapitulação — unificar todas as coisas em Cristo, tanto as do céu quanto as da terra —, mas agora você compreende a grandeza cósmica da expressão: não se trata apenas de reunir as pessoas, mas de unir os mundos, fundir todos os bons sonhos que a humanidade já teve em uma única Realidade, estabilizando todo o campo dos possíveis que tenham valor na única Cidade que é eterna. O Mundo dos Sonhos que se aproxima é a junção de todos os mundos de sonho em uma única frequência, a de Deus; a união de todos os fragmentos de Yesod no Vitral completo; a emissora de rádio de cada santo tocando, finalmente, em harmonia com todas as demais, na sinfonia que São Tolkien denominou de a Música do fim dos tempos.

E no cerne de tudo, mantendo todos os pedaços para que nenhum se perca, está Aquele que é, Ele mesmo, o Santo do Sonhar por excelência, a fonte de todo sonho bom, o protótipo do qual todos os heróis são meros esboços: Cristo. Porque Ele é o único em quem o sonho do herói não é mera ilusão, pois realmente se concretizou; o único que verdadeiramente desceu do céu com todo o poder e escolheu servir, até mesmo lavando pés e morrendo numa cruz; o único que realmente atravessou a morte e retornou, não no dia seguinte, mas no terceiro dia, em corpo, com as cicatrizes convertidas em troféus. Tudo que se encontra disperso e fragmentado em mil heróis se revela completo e perfeito n'Ele: a força de Sansão, a realeza de Davi, a sabedoria de Salomão, o fervor de Elias, a humildade do Cordeiro, a esplendor do Sol, e a vinda do Salvador que desce do alto. Ele é o Cristo dos Sonhos, o Sonhador que, em um ato que divide a história ao meio, mergulhou em seu próprio sonho e se transformou em personagem da narrativa que criava — o Autor que se tornou protagonista, o Verbo por meio do qual todos os mundos possíveis são imaginados, ganhando forma neste, feito de barro e lágrimas. Ele representa o Ponto Ômega para o qual toda a criação se direciona, o núcleo gravitacional do ser, a força centrípeta do amor que atrai todos os fragmentos de volta para o acolhimento de onde partiram. Quando São Paulo menciona que Deus deseja, na plenitude dos tempos, reúnir todas as coisas em Cristo, tanto as celestiais quanto as terrenas, ele está expressando precisamente isso: que no final os pedaços serão reunidos, que todos os fragmentos de luz retornarão ao Vitral, que os bons sonhos da humanidade serão incorporados no único Sonho que se tornou carne, e que o Rosto que esta jornada inteira construiu, parte por parte, se revelará, por fim, completo.

E observe, para concluir, a frase que a Teologia do Imaginário deixou quase como um sussurro no título de seu décimo movimento, e que é de uma beleza que me faz vibrar: no campo das possibilidades na mente de Deus, somos a esperança que Ele sonhou. Isso é, sem dúvida, a reviravolta mais doce de toda a saga. Nós exploramos cinco livros discutindo os sonhos que a humanidade almeja, os heróis que o ser humano cria e os mundos que nossa imaginação pode alcançar. E a verdade primordial, que abrange tudo, é que antes de sonharmos com Deus, Deus já sonhou conosco. No âmbito das possibilidades da mente divina, antes que os séculos tivessem início, você já estava presente — não como uma ideia abstrata, mas como um rosto querido, um sonho palpável do Criador, uma esperança que Ele sustentou e, por amor, trouxe à existência. Você é uma manifestação do sonho de Deus que se tornou realidade. Cada um de nós é um Santo do Sonhar em potencial, não pelo fato de sonharmos de maneira bela, mas porque, na verdade, somos o sonho de alguém que sonha com perfeição. A vocação para se tornar um Santo do Sonhar é, essencialmente, isso: permitir que o sonho que Deus idealizou ao te criar se concretize em sua vida, permitir que a esperança que Ele colocou em você ao te imaginar no campo das possibilidades se torne realidade, abrir mão de ser um rascunho embaralhado pelo pecado e retornar a ser a obra pura que Ele planejou. Nós não precisamos criar uma identidade. É importante que a gente descubra quem Deus sempre imaginou que nós fôssemos e que aceitemos isso.

E eu desejo descer, antes do fim, ao porão de tudo, ao fragmento mais profundo, pois a saga estaria incompleta sem isso. Nós conversamos sobre os mundos caídos, sobre os infernos onde habitam os pesadelos, e eu te mencionei que eles são reais e que o impuro que tenta ascender encontra obstáculos neles. Preste atenção na notícia mais impressionante que já se ouviu sobre esses reinos obscuros: o Santo do Sonhar original, o Cristo, não se satisfez apenas em reinar na luz de Yesod e nos altos céus — Ele também desceu ao abismo. Entre a morte na sexta-feira e a ressurreição no domingo, a crença expressa no Credo contém uma frase que poucos refletem e que é de causar temor: desceu à mansão dos mortos. O Sábado Santo. O dia em que o Autor, tendo sucumbido dentro de sua própria obra, desceu ao calabouço mais profundo da narrativa, aos reinos perdidos, à masmorra onde a morte mantinha os prisioneiros desde Adão, e arrombou os portões, e pisou no inferno, e puxou pela mão, do fundo do abismo, aqueles que estavam aprisionados lá embaixo. As antigas representações dessa cena são de emocionar: Cristo em pé sobre os portões destruídos do inferno, puxando pelo pulso Adão e Eva para fora de suas sepulturas. O grandioso Santo do Sonhar realizou algo que nenhum herói teve coragem de fazer: desceu, intencionalmente, aos mundos decaídos, adentrou o domínio do inimigo utilizando a única arma que realmente o supera, que é o amor que se doa, e conquistou o inferno, libertando seus prisioneiros. Não existe reino arruinado tão profundo que não possa ser resgatado, pois não há poço mais profundo do que aquele em que Ele já esteve. Independentemente do inferno que você esteja enfrentando, Ele já passou por isso antes de você, e já conhece, e já possui, a rota de volta.

A razão metafísica pela qual Ele é capaz de tudo isso — reinar em Yesod, ascender aos céus mais elevados, descer aos infernos, englobar todos os mundos — é a mais impressionante de todas, e conclui a proposta do livro: Cristo é o Verbo, o Logos, aquele por meio de quem todas as coisas foram criadas, e em quem, conforme São Paulo aos Colossenses, todas as coisas existem, permanecem unidas e não se desintegram no vazio. Em outras palavras: o reino das possibilidades na mente de Deus, todos os mundos, Yesod completo com seus seres luminosos, os arquétipos, os modelos eternos, os Santos do Sonhar que já habitam na consciência divina — tudo isso existe n'Ele, reside n'Ele, é concebido por Ele, pois Ele é o Pensamento de Deus em essência, o Sonhar de Deus manifestado como Filho. O Sandman de Gaiman criou um Senhor dos Sonhos sem saber que o verdadeiro Senhor dos Sonhos tem um nome e possui feridas; e ele possui. Cristo é considerado o Rei do mundo imaginal, pois é o Verbo no qual todo o imaginal se manifesta; é o Sol do qual toda a lua de Yesod é um reflexo; é o Sonhador cuja Mente abriga todos os bons sonhos; e, ao mesmo tempo, é um escândalo entre escândalos, sendo um dos personagens desse sonho, um homem de carne que nasceu de mulher, comeu peixe, lamentou a morte de um amigo e sangrou em uma cruz. O Autor e o protagonista, o Sonhador e o Sonho, o Rei de Yesod e o bebê na manjedoura, o Senhor dos mundos e o carpinteiro de Nazaré: tudo isso é a mesma Pessoa, o mesmo Nome, aquele em quem o infinito se encaixa no finito sem deixar de ser infinito — o totus Christus, o Cristo completo, que se faz presente por inteiro em uma hóstia e contém totalmente o universo, o verdadeiro e definitivo Santo do Sonhar, de quem toda esta saga, livro após livro, foi apenas uma tentativa hesitante de expressar o Nome.

Agora, estou te revelando o segredo que esteve oculto no próprio título deste livro desde a primeira página, e que eu preservei para este momento, pois é a chave de tudo. Fragmentos. Por que Fragmentos? Não é apenas porque estivemos coletando fragmentos de luz na cultura. É que o próprio Cristo, no Evangelho, após realizar o maior de seus milagres de abundância, a multiplicação dos pães que alimentou cinco mil, deu aos discípulos uma ordem inusitada e valiosa, que São João registrou em latim e que perdurou ao longo dos séculos: colligite fragmenta ne pereant — recolham os fragmentos que restaram, para que nada se perca. É impressionante, porque é de causar muita emoção. O Senhor da abundância sem limites, que acabara de gerar pão a partir do nada para uma grande multidão, que poderia realizar ainda mais com um simples estalar de dedos, se preocupa com os pedaços que ficam no chão e ordena que sejam recolhidos, um a um, para que nenhum deles se perca. No Reino de Deus, tudo se transforma e nada se desperdiça. Não existe fragmento que seja considerado lixo. Cada pedaço de bondade, cada fragmento de beleza, cada gota de verdade que a humanidade gerou, o Senhor ordena que seja cuidadosamente recolhido, para que nada, nada, se perca. E foi precisamente isso que toda essa saga representou, mesmo sem que eu tivesse consciência disso no início: uma submissão a essa ordem. Coletar os pedaços de luz dispersos pela cultura desmoronada, os restos de Yesod que ficaram jogados no lixo do mundo, as migalhas do sagrado que se perderam em quadrinhos, filmes e mitos, e retornar tudo isso ao Senhor, para que nada se perca.

Pois é isso que acontecerá no final, e é a conclusão de toda a tese: os fragmentos serão reunidos. Tudo o que de bom, belo e verdadeiro a humanidade idealizou, amou e criou será recolhido pelas mãos feridas do Cristo dos Sonhos, purificado, reestruturado e transportado para o Mundo dos Sonhos, para que nada se perca. São Paulo denominou isso de recapitulação — recapitular todas as coisas em Cristo — o que significa, literalmente, reunir sob uma única Cabeça todos os membros dispersos, unificar em um só corpo todos os fragmentos dispersos. O Mundo dos Sonhos é o espaço onde todos os fragmentos finalmente se unem na imagem completa, onde o mosaico da criação, quebrado pelo pecado, é restituído pela graça, e onde cada pedacinho de luz retorna ao seu devido lugar no grande Vitral que é a glória de Deus. E você, também é um fragmento — uma parte de uma imagem que era completa no Éden e que o pecado despedaçou, um pedaço do sonho que Deus teve ao te criar, uma lasca aguardando ser recolhida e reconstituída. E a grande notícia, a reviravolta positiva no final, é que o Senhor não deseja que você se perca. Ele se aproxima do solo da história, busca seu fragmento entre os restos do mundo, segura sua mão danificada e declara, a seu respeito, a mesma palavra que pronunciou sobre os pedaços de pão: esse não, esse eu não deixo escapar. Colete os fragmentos para que não se percam. Junte os pedaços, para que nada se perca — e o Senhor da abundância, que poderia criar outros mil, se inclina para reunir exatamente você.

A representação mais ideal de tudo isso — da criação dos mundos, da queda do demiurgo, do fim que se aproxima — não se encontra em um tratado teológico, Dênis, mas sim no início do Silmarillion, de Tolkien, naquele relato intitulado Ainulindalë, a Música dos Ainur, que é tão sublime que o pessoal do Círculo costuma brincar chamando o autor de São Tolkien. Ele conta que Ilúvatar, o Único, criou inicialmente os Ainur, os espíritos sagrados originados de seu pensamento, e apresentou a eles temas musicais. Eles cantaram diante d'Ele, cada um compreendendo apenas a parte da mente de Ilúvatar da qual havia surgido, até que, ao ouvirem uns aos outros, foram crescendo em harmonia. E então Ilúvatar solicita que eles compõem juntos uma música esplêndida, e menciona algo que é a chave de tudo: assim como eu os inspirei com a Chama Imperecível, vocês irão mostrar seus poderes embelezando este tema. A Chama Imperecível, o Fogo Secreto — lembre-se desse nome, pois já o encontramos no terceiro livro e agora ele completa o ciclo. O que é essa Chama? É a qualidade divina de conferir essência às coisas, de promovê-las à existência, o poder criador em sua essência, que está com Ilúvatar e somente com Ele.

Então surge Melkor, o mais grandioso dos Ainur, o mais forte entre eles, e sua tragédia é a clássica tragédia de sempre, narrada com uma clareza que nenhum teólogo conseguiu igualar. Frequentemente, Melkor adentrava solitário os espaços vazios em busca da Chama Imperecível, movido pelo anseio de criar as coisas por conta própria. Pare e leia novamente, Dênis: ele desejava conceder vida às coisas por conta própria. Ele almejava a Chama, o poder de criar, apenas para si, tomado, dominado, usurpado. E ele explorou o vazio que se estendia atrás dela — e não a encontrou, afirma Tolkien, pois ela está com Ilúvatar. Esta é a essência do ateísmo, a queda de Lúcifer, a invasão da realidade, Melkor adentrando o vazio para tomar o Fogo que não pode ser tomado, pois reside nas mãos de Deus. É o mesmo ato do gnóstico que deseja reescrever a realidade, do demiurgo que pretende criar mundos, do übermensch que aspira a ser origem em vez de ser um reflexo. E Tolkien, com a sutileza de um gênio, revela que a queda de Melkor não se inicia com um crime grandioso, mas com o seu isolamento: estando só no vazio, ele cria pensamentos que são apenas seus, distantes dos de seus irmãos — e o que ocorre naturalmente com quem se isola em seus próprios pensamentos, conforme relata o Círculo, é a definição precisa do indivíduo que se torna um idiota particular, aquele que constrói uma realidade exclusiva e se aprisiona nela. A queda do demiurgo é sobre um indivíduo que se afastou para refletir sozinho e, ao voltar, acreditou ser uma divindade.

A resposta de Ilúvatar à desarmonia causada por Melkor é a mais bela reflexão já feita sobre a questão do mal, resolvendo, em uma única frase, um tema que preencheu diversas bibliotecas. Porque Melkor insere suas notas dissonantes na Música, e a desarmonia se alastra, parecendo que irá destruir tudo — e Ilúvatar, sem raiva, com três gestos de mão, cria novas melodias que absorvem a desarmonia, e ao final se levanta e diz: poderosos são os Ainur, e o mais poderoso é Melkor; mas que ele saiba, e todos saibam, que nenhum tema pode ser tocado sem que em mim esteja sua origem mais profunda, e ninguém pode modificar a Música contra a minha vontade; aquele que tentar descobrirá ser apenas meu instrumento na criação de coisas ainda mais incríveis do que ele mesmo jamais poderia imaginar. Você ouviu, Dênis? Nem mesmo a rebelião do demiurgo foge ao controle de Deus. O mal que Melkor insere não aniquila a Música; ele transforma, inadvertidamente, em matéria-prima para uma beleza que supera tudo o que o próprio Melkor poderia imaginar. Deus não se deixa abater pelo mal; Ele integra o mal em uma harmonia superior, transformando o rebelde em um instrumento involuntário de uma glória que o rebelde não aceitaria se compreendesse. É o felix culpa, é o José do Egito — vocês intentaram o mal, mas Deus transformou isso em bem —, é a Cruz, a maior dissonância da história se transformando na maior harmonia. Tolkien encontrou, em um parágrafo de mito, a solução para aquilo que a razão, isolada da imaginação, não conseguia compreender.

E preste atenção ao final dessa profecia, pois é nesse ponto que o Silmarillion aborda precisamente a tese deste livro e a conclui. Tolkien afirma que aquela primeira Música, a da criação, mesmo sendo extremamente perfeita, não é a mais grandiosa — pois está prometida uma Música ainda mais esplendorosa, que será composta diante de Ilúvatar pelos coros dos Ainur e dos Filhos de Ilúvatar após o término dos tempos. E nessa música do fim, ele afirma que os filhos de Deus irão participar plenamente da natureza divina, irão receber a Chama Imperecível, o Fogo Secreto, o poder de concretizar os pensamentos — ou seja, alcançarão aquilo que Melkor tentou furtar do nada e não conseguiu, mas receberão de graça, no momento adequado, por meio da harmonia ao invés do roubo. Isso, Dênis, é a teose com nome de música: o que o demiurgo arranca e perde, o santo recebe e ganha; a Chama que Melkor caçou no vazio e não encontrou é dada, no final, aos filhos fiéis, de mão beijada. E a Canção do fim dos tempos, essa sinfonia em que todos os temas se harmonizam e todas as vozes se conectam, onde cada um entende o propósito de Ilúvatar tanto para si quanto para todos — essa é exatamente a mesma coisa que a Jerusalém celestial descendo, a mesma fusão de todos os mundos possíveis que têm valor, a mesma reunião de todos os fragmentos no Vitral completo, a unidade na diversidade que nem a teologia nem as antigas mitologias conseguiram exprimir de forma tão plena. O Mundo dos Sonhos é a Melodia do fim dos tempos, e se formos leais ao tema que nos foi proposto, ao invés de nos perdermos sozinhos na solidão como Melkor, iremos cantar — com a Chama Imperecível em nossa voz, filhos finalmente divinizados, cada um tocando sua nota única dentro da única harmonia que é Deus.

E assim chegamos ao final de tudo, ao último fragmento do último livro, e é possível olhar para trás e ver a saga inteira de uma só vez, reconstituída, o mosaico completo. Cinco atos, duas sagas combinadas em uma única história. A real importância da cultura, onde aprendemos que o lixo esconde riquezas e a imaginação é uma porta para novas ideias. O Deus que se revela nos símbolos, onde encontramos a marca do Criador no reverso de cada imagem. O golpe na realidade, onde entramos em um confronto entre a ateose que subtrai e a teose que acolhe, o punho cerrado e a mão estendida. Os Santos do Sonhar, onde aprendemos que o homem verdadeiro pode se tornar herói pela graça. E agora, Fragmentos, onde demonstramos que os mundos dos sonhos são reais em Yesod, que os pesadelos habitam os infernos, que o acesso requer santidade, que os Santos do Sonhar são os autênticos X-Men, que nunca deixamos a era dos heróis e que tudo isso prepara a chegada do Mundo dos Sonhos, que é o Céu. E, ao adentrar a jornada da Deus Cultural, a Teologia do Imaginário como um todo, do amor de Deus revelado na arte até os domínios do que é possível na mente divina, da cultura pop onde Deus se manifesta até as esferas demoníacas, da gnose benéfica até o embate espiritual, do demiurgo sintético até a entrada entreaberta do paraíso. Duas correntezas, um rio. Mil fragmentos, um rosto. E o rosto, agora que o mosaico foi finalizado, você já sabe a quem pertence.

Portanto, é com um envio que eu encerro, e não com um ponto final, pois isso não representa a conclusão de um argumento, mas sim o início de uma missão. A vocês, sonhadores, buscadores de mundos, amantes dos heróis, e a você que está aqui com o coração acelerado: a era dos super-heróis ainda não terminou, e vocês não são meros espectadores dela. Vocês estão convocados. Os mundos de luz existem de fato, e a porta está entreaberta, com a santidade como senha, o custo sendo a cruz, e a recompensa é se tornar, genuinamente, um dos seres de luz que vocês admiraram a vida toda à distância. Não comprem a cópia que o criador artificial oferece, o poder sem a carga, a transcendência na fábrica, a lua de néon — é uma armadura oca, é um inferno iluminado. Procurem pelo original: a santidade, que representa a verdadeira transformação; a graça, que é a verdadeira luz que emana; o Espírito Santo, que é a genuína origem dos talentos; e Cristo, que é o autêntico e definitivo Santo do Sonhar, a Porta que se abriu por dentro, o Sol do qual Yesod é a lua, o Sonho que se tornou carne para que a sua carne pudesse, finalmente, ingressar no Sonho. Beba dos bons sonhos com o olhar puro; deixe que a graça os transforme em você; receba de joelhos aquilo que não pode ser roubado; e prepare-se, pois o Mundo dos Sonhos está se aproximando, a Nova Jerusalém está descendo, e o sonho que Deus teve ao te criar deseja, finalmente, despertar em você.

Agora, com o último pedaço encaixado, é possível desviar o olhar e contemplar o mosaico completo, que é exatamente o que esta saga aguardou cinco livros para realizar. Porque quando você está juntando os fragmentos, um a um, de perto, você não enxerga a imagem — apenas percebe partes de cor, fragmentos dispersos, um azul aqui, um dourado acolá, e é necessário ter confiança de que aquilo resultará em algo. Assim foram os quatro primeiros livros: fragmentos e mais fragmentos, o herói da história, o modelo do filme, o deus oculto no símbolo, a letra que divide a ateísmo da teísmo, o santo que pode emergir do homem. E somente agora, neste quinto, com todos os fragmentos reunidos e a metafísica completamente construída — os mundos possíveis reais na mente de Deus, Yesod, a lua dos sonhos, os infernos onde os pesadelos se precipitam, a santidade como chave, os santos como os verdadeiros X-Men, o homem que se torna divino, o Mundo dos Sonhos que se aproxima —, é que é possível recuar e perceber que todos aqueles pedaços soltos constituíam, o tempo todo, uma única imagem, um único Rosto, e que a saga Deus Cultural e a Teologia do Imaginário eram, desde sempre, duas mãos montando o mesmo quadro. A fusão foi concluída. As duas sagas constituem uma só. E a imagem que o mosaico completo revela, agora que o último fragmento se encaixou, é a face de um Homem com uma coroa de espinhos que, ao mesmo tempo, é uma coroa real, e que observa você bem do centro de tudo com uma ternura capaz de desmantelar.

Pois era esse o segredo que os fragmentos guardavam e que apenas o todo podia expressar: cada herói era uma parte do Rosto d'Ele, cada mundo bonito era um reflexo da luz d'Ele, cada santo era um filho criado à imagem d'Ele, cada sonho bom da humanidade era uma saudade antecipada d'Ele. O Superman esboçou a queda d'Ele; o Kamen Rider, a luz d'Ele que combate a escuridão; o Homem-Aranha, a responsabilidade do dom d'Ele; os X-Men, a irmandade dos justos d'Ele; o Sandman, o reino dos sonhos d'Ele; Berserk e Evangelion, o terror do O recusar; Star Wars, Tolkien e Matrix, a força, o poder e a prisão das quais só Ele libera. Montados, todos eles representam o Rosto de Cristo, o Cristo dos Sonhos, o Santo dos Sonhos por excelência, a Palavra pela qual os mundos existem, o Sol do qual Yesod é a lua, o Autor que se fez presente no livro, o Rei que desceu ao poço para libertar os cativos, o Cordeiro que triunfa sobre o Anticristo, o Esposo que se une à Nova Jerusalém. A humanidade, ao longo de sua trajetória, sempre procurou desenhar o retrato de Alguém por quem sentia saudade, mesmo sem recordar o nome — e essa jornada foi, na verdade, uma tentativa, hesitante e persistente, de unir os rascunhos da história e demonstrar que todos eles eram esboços do mesmo Modelo, que está vivo, que tem um nome, e que, ao final de tudo, de fragmento em fragmento, de saudade em saudade, esse nome é Jesus Cristo, ontem, hoje e sempre.

E o Dênis, como está? Você deve estar curioso sobre o que aconteceu com o Dênis, após tantas horas de discussão em meio a cinco livros. Não vou mentir para você, pois essa saga não esconde a verdade nem para terminar de maneira impactante: o Dênis não se ajoelhou no centro da sala, não destruiu a pasta das coincidências, nem saiu por aí batizando pessoas. As coisas reais não acontecem dessa forma, e quem te garante uma transformação imediata está te oferecendo o mesmo truque que nós analisamos e desmontamos em cinco livros. O que ocorreu foi algo pequeno, mas também foi imenso. Em uma das últimas ocasiões em que conversamos, já quase no final deste livro, ele permaneceu em silêncio por um longo tempo, um silêncio que já não era mais de desdém, e apenas disse isto:

— Você sabe o que me surpreendeu, professor? Não foi nenhum dos seus argumentos. Foi o Ishinomori. Aquela declaração do senhor, em que ele expressava seu desejo de que o Kamen Rider fosse real. Porque eu também tinha expectativa. Esse tempo todo que passei em busca de portais, decifrando números, acredito que na verdade só estava sentindo saudade. Saudade de algo que eu nem imaginava que tivesse um nome.

Eu não apresentei um argumento na minha resposta. Naquele momento, isso teria sido falta de educação. Eu apenas comentei com ele que a saudade possui um nome, e que esse nome é o de uma pessoa. Essa pessoa não está no final de nenhuma decifração; está do lado de lá de uma porta que foi deixada entreaberta intencionalmente, aguardando apenas que ele parasse de forçar a entrada e simplesmente entrasse. Ele não comentou nada. Todavia, a respiração dele mudou. E, em certos momentos, o jeito que Dênis respira pode ser o ponto de partida para tudo. Não se trata de uma conversão; é uma porta que foi destrancada por dentro. E para aqueles que passaram a vida em busca de uma porta, uma porta destrancada por dentro já é quase um portal.

E a vocês, portanto — sincromísticos, exploradores do mundo, decifradores de coincidências, nerds que amaram o herói quando ninguém mais o fazia, psiconautas da margem, e a você que me acompanhou por cinco livros até esta última página —, a vocês este fim estende a mão, e não para condenar, mas para enviar. Vocês tinham razão em quase tudo: a cultura está repleta de sagrado, a imaginação atinge o real, os mundos possíveis existem, há uma Mente que sonha o cosmos, há uma praia da existência e há cascas com centelhas aprisionadas, além de heróis que são anjos, e uma voz de Deus que se manifesta dentro do próprio lixo que o demiurgo utiliza para enganar. Tudo isso é um fato, essa é a tese desses cinco livros, nós concordamos plenamente. Faltou uma letra, uma preposição, uma orientação — e isso altera tudo. Onde desejaste retirar o Fogo do vazio criado por Melkor, aprenda a acolhê-lo de mãos abertas como Maria. Onde desejaste escapar do corpo para o espaço como os Invisíveis, permita que o céu desça e ressuscite o seu corpo. Onde você consumiu o sonho feito glutão, aprenda a comungá-lo como um santo. Não sejam a porta; batam na porta. E saibam que o Fogo Secreto que Melkor buscou no vazio e não encontrou, que vocês procuram nos portais e nos abismos, não está escondido em nenhum código à espera de um decifrador: está sobre o altar, à espera de um adorador, e o nome d'Ele é Jesus Cristo, o verdadeiro e definitivo Santo do Sonhar.

E a palavra final, que completa cinco livros e encerra toda a saga, é a mais simples de todas; reservei-a para o final porque é a semente de onde tudo se originou. Aquela vivência de criança, imersa na penumbra de um ambiente, observando um homem de capa segurando um mundo prestes a desabar e sentindo, sem saber como expressar, que aquilo era genuíno — essa vivência estava correta. Estava mais convencida do que toda a sabedoria exausta que dizia à criança que ela deveria crescer e entender que o mundo é apenas poeira que se move sem propósito. Heróis realmente existem. Os mundos encantados realmente existem. A época das maravilhas ainda não chegou ao fim. E você, que um dia foi aquela criança e que a vida talvez tenha feito esquecer, você foi criado para ser uma das maravilhas — não para observar, do seu canto, com a inveja morna do espectador, a glória que pertence sempre a outros, mas para mergulhar nela, de corpo e alma, pela porta entreaberta, e perceber que o frio na barriga que você sentia diante do herói não era uma fuga da realidade, mas saudade da sua verdadeira vocação, era a lembrança de um mundo real te chamando de volta para casa.

Fragmentos, esse é o título deste livro, pois durante toda a jornada nós nos dedicamos a juntar os pedaços de uma luz despedaçada. Contudo, o nome oculta uma promessa, e essa promessa é a seguinte: fragmento é uma parte de algo que já foi completo e retornará a ser. Nenhum fragmento de luz verdadeira se perde; todos serão arrecadados, purificados, restaurados, quando o Mundo dos Sonhos descer e a Nova Jerusalém se unir à terra, e Deus enxugará a última lágrima. E assim os Santos do Sonhar, os genuínos X-Men, aqueles que arcaram com o custo da santidade e cruzaram a porta, receberão não apenas fragmentos, mas o Vitral completo, não mais a lua de Yesod, mas o Sol que ela refletia, não mais o sonho, mas o próprio Sonhador, olho no olho. A Ele, o Cristo do Sonhar, o primeiro e o último dos Santos do Sonhar, o Autor que se transformou em personagem, o Sol que iluminou todo herói e em cuja luz todo ser belo foi como a lua. Aquele que nos sonhou antes que os séculos começassem e desceu para que o sonho tomasse forma em carne — a Ele pertencem a glória, a honra e a coroa, agora e no futuro no Mundo dos Sonhos que se aproxima, para o qual, de fragmento em fragmento, de livro em livro, de saudade em saudade, sempre estivemos, sem perceber, retornando. Venha, Senhor Jesus. A porta está ligeiramente aberta. Assim seja.

Referências

A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus. Gênesis (11, a Torre de Babel; 28, a escada de Jacó); Êxodo (14, Moisés e o mar; 7-12, as pragas); Primeiro e Segundo Livro dos Reis (Elias e Eliseu); Salmos (139, 16, os teus dias inscritos antes de existirem); Evangelho segundo Mateus (5, as Bem-aventuranças; 13, 43; 17, a Transfiguração; 27, 46, por que me abandonaste); Evangelho segundo João (1, 1-14, o Verbo; 20, o Ressuscitado); Atos (2, Pentecostes; os carismas); Primeira aos Coríntios (12; 15); Gálatas (3, 13); Efésios (1, 10, recapitular tudo em Cristo); Colossenses (1, 17); Segunda de Pedro (1, 4); Apocalipse (12; 21, a Nova Jerusalém).

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (as ideias divinas e os possíveis; os dotes do corpo glorioso). BOAVENTURA. Itinerário da Mente para Deus (o exemplarismo). LEIBNIZ, G. W. Monadologia; Teodiceia (os mundos possíveis; a unidade na multiplicidade).

AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões (amor meus, pondus meum; o coração inquieto). ATANÁSIO. Sobre a Encarnação (Deus fez-se homem para que o homem se tornasse deus). IRINEU DE LYON. Contra as Heresias (a glória de Deus é o homem vivo). GREGÓRIO DE NISSA (a epéktase); MÁXIMO, O CONFESSOR; GREGÓRIO PALAMAS (a distinção entre a essência e as energias; a teose).

JUNG, Carl Gustav. Aion; Psicologia e Alquimia (o arquétipo e a imagem arquetípica; o psicóide; o self). KRIPAL, Jeffrey J. Mutantes e Místicos (os mutantes do imaginário). KNOWLES, Christopher. Nossos Deuses Usam Capas (Our Gods Wear Spandex) (os super-heróis como deuses modernos).

TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion (o Ainulindalë, a Música dos Ainur; a Chama Imperecível / o Fogo Secreto; a queda de Melkor; a Música do fim dos tempos); Sobre Histórias de Fadas; Mythopoeia (a subcriação, a eucatástrofe, o mito que aconteceu). BLAKE, William. O Livro de Urizen (o demiurgo dos limites e das correntes).

DICK, Philip K. VALIS; A Exegese; Ubik; Flua Minhas Lágrimas, Disse o Policial; Os Três Estigmas de Palmer Eldritch; Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Blade Runner); O Homem do Castelo Alto; O Vingador do Futuro (Lembramos para Você por Atacado); Minority Report; O Pagamento. Com as leituras de O Homem Sem Passado, O Show de Truman e O Sexto Sentido.

KING, Stephen. A Torre Negra, v. 6, A Canção de Susana (a Torre, o umbigo de Gan; os feixes; a praia da existência; as infernidades; o autor dentro da obra). MORRISON, Grant. Os Invisíveis (os arcontes, a Igreja Externa, o xamanismo urbano, Urizen acorrentado, os heróis como anjos); All-Star Superman (com Frank Quitely). DUGGAN, Gerry e outros. Deadpool (o Protonite, a ponta do lápis, o paradoxo da onipotência). O ZOHAR e a doutrina das klipot (as cascas e as centelhas).

ISHINOMORI, Shotaro. Kamen Rider (o Filho do Sol; "será que existe alguém como o Kamen Rider por aí?"). SARAMAGO, José. O Evangelho segundo Jesus Cristo (o Deus que, diante da cruz, deixa de ser impassível). KRIPKE, Eric (criador). Supernatural (os irmãos, a reconciliação, o evangelho da perseverança). NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra (a morte de Deus e o super-homem).

EMPÉDOCLES (via OSBORNE, Catherine. Filosofia Pré-Socrática). TEILHARD DE CHARDIN, Pierre. O Fenômeno Humano (o Ponto Ômega). TIPLER, Frank. A Física da Imortalidade. BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada. MANDELBROT, Benoît. A Geometria Fractal da Natureza. ELIADE, Mircea (o Axis Mundi). LAND, Nick; CCRU (a hiperstição). CORBIN, Henry. A Imaginação Criadora (o mundus imaginalis). HAGIOGRAFIA: Santo Antão; São Francisco; São José de Cupertino; São Martinho de Porres; São Padre Pio; o Cura d'Ars; Santa Teresa de Ávila; São João da Cruz; Santa Teresa de Lisieux; Santa Perpétua; as curas de Lourdes.

OBRAS DO IMAGINÁRIO CITADAS. SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman (o Cristo do Sonhar; e os "Supermen" caídos: Red Son, Injustice). TOEI; ISHINOMORI. Kamen Rider Black / Black Sun. TSUBURAYA. Ultraman. MARVEL. O Homem-Aranha; O Homem de Ferro (o vício solar); X-Men; Hulk; Capitão América; Thor; Demolidor; Doutor Estranho. DC. Batman; Flash; Mulher-Maravilha. VERTIGO. GAIMAN, Neil. Sandman (o Sonhar). MOORE, Alan. Watchmen (o Dr. Manhattan; os dirigíveis). MIURA. Berserk. ANNO. Evangelion. KURUMADA. Cavaleiros do Zodíaco. ARAKAWA. Fullmetal Alchemist. TORIYAMA. Dragon Ball Z. LUCAS. Star Wars. WACHOWSKI. Matrix. NAGAI. Devilman. AKUTAMI. Jujutsu Kaisen. Com o horror cósmico de H. P. LOVECRAFT (os Old Ones, os reinos caídos).