O HOMEM E A MULHER MODERNOS: ANATOMIA DE UMA DISSOLUÇÃO
Qualquer texto sincero pode desagradar a alguém. Foi escrito exatamente para esse propósito. Se alguém se sente ofendido com um diagnóstico, é bem provável que seja o paciente.
Gabriel G. Oliveira
5/28/202648 min read


A REALIDADE NÃO PEDE LICENÇA
A primeira coisa que precisa ser enfatizada é que este texto possui um público-alvo. Não se trata de um alvo vago, nem de "a sociedade" ou "os tempos modernos" como uma abstração que traz conforto. O alvo é real, possui uma identidade, expressa suas ideias e, na maior parte das vezes, é um jovem na faixa dos vinte anos que já tem opiniões firmes sobre temas que nunca chegou a estudar. Refiro-me àquela pessoa que se considera contemporânea. Não moderna no sentido de estar existindo no século XXI, o que seria uma observação geográfica e temporal sem qualquer mérito intelectual, mas moderna no sentido ideológico: aquela pessoa cuja totalidade de referências se baseia nas tendências atuais, no que é relevante nesta semana, e no que o ambiente digital aceita ou reprova em um determinado período de vinte e quatro horas.
Esse rapaz, esse jovem estiloso na casa dos vinte anos, tende a ser progressista. Ou pelo menos afirma ser progressista, o que já representa uma diferença significativa, uma vez que a maior parte daqueles que ostentam esse rótulo não consegue expressar de maneira coerente o que o progressismo implica em suas consequências lógicas mais básicas. Não se trata de uma acusação leviana: é uma constatação baseada na experiência. Questione qualquer progressista comum sobre as consequências de se levar cada uma das premissas do progressismo até suas últimas consequências, sem se deter no conforto dos slogans, e o silêncio que se segue será mais expressivo do que qualquer resposta que ele pudesse oferecer. Ele adotou uma perspectiva global sem explorar todo o território. Ingressou no labirinto pela bela porta e jamais teve curiosidade sobre para onde os corredores nos fundos levam.
De onde surge essa incapacidade fundamental de pensar até o final? Originada, em boa parte, de uma mentalidade que é mais antiga do que o Twitter ou qualquer outra rede social: a mentalidade protestante. A concepção de que cada pessoa, de forma autônoma, utilizando a ferramenta primitiva da sua própria subjetividade e sem contar com nenhuma tradição que a sustente, é capaz de interpretar a realidade, os textos e o mundo, e que essa interpretação individual possui o mesmo valor que séculos de estudos sistemáticos acumulados. Basta ter a vontade de olhar para conseguir ver. É suficiente acreditar que algo é verdadeiro para que realmente o seja. Aqueles que desejam explorar a estrutura filosófica dessa questão de forma mais aprofundada poderão encontrar, nos escritos do Círculo de Estudos Gnosis, uma análise minuciosa das razões que levam o protestantismo, por uma consequência lógica e não por um acaso, a culminar no gnosticismo luciferiano. Não se trata de uma acusação teológica superficial: é uma análise textual minuciosamente aplicada. Aqueles que tiverem coragem de seguir a linha de pensamento chegarão à conclusão.
O que mais perturba no protestantismo não é a teologia propriamente dita, mesmo que esta apresente problemas graves e evidentes. O que causa incômodo é a abordagem. O protestante não consegue pensar que interpretar um texto sagrado, histórico e teológico, como a Bíblia, exige instrumentos que não surgem de forma automática na mente de um indivíduo isolado. Exige uma abordagem historiográfica. É necessário que haja uma base teológica sólida. Exige o que por aqui se chama análise coesa, nada da autocontemplação de quem decide o significado do texto a partir de si mesmo. O que chamamos, neste contexto, de auto-interpretação, que a linguagem mais simples de Primavera do Leste descreveria como extrair de si mesmo sem qualquer fundamento, é precisamente isso: uma compreensão totalmente subjetiva que flutua livremente, sem se prender a nenhuma tradição comprovada, sem um critério externo que a ajuste em caso de erro, e sem qualquer mecanismo de autocorreção que não seja o próprio prazer do intérprete.
E observe o paradoxo histórico que isso gera: Lutero, o criador da tradição protestante, foi um crítico ferrenho do livre-arbítrio. Seu trabalho De Servo Arbitrio é, de fato, uma negação enfática da liberdade da vontade humana. Agora, se você retira o livre-arbítrio e ainda se considera cristão, você não faz parte do cristianismo; você está inserido em uma estrutura gnóstica, na qual a salvação não é fruto de uma escolha moral ou de uma responsabilidade pessoal, mas sim de um mecanismo interno que funciona de forma independente da vontade do indivíduo. O protestantismo possui essa contradição desde seu início, e ela se desdobra ao longo dos séculos em versões que se afastam cada vez mais da estrutura ética objetiva necessária ao cristianismo histórico.
Mas regressemos ao jovem contemporâneo, pois o protestantismo é apenas a origem intelectual de uma questão que se apresenta hoje de maneira muito mais abrangente e evidente. Este jovem, um progressista na faixa dos vinte anos, habita uma bolha em que política e religião são tópicos proibidos de discussão. Quem estabeleceu essa norma? A esquerda política. Todo o ativismo de esquerda contemporâneo, passando pelo petismo brasileiro em suas manifestações mais exageradas até as vertentes mais refinadas do progressismo nas universidades, nutre, de maneira constante, a noção de que algumas questões são intocáveis e não devem ser discutidas. Não porque sejam complicadas demais para serem discutidas, mas porque a discussão as revela. Pois se você refletir de fato, as premissas não se sustentam. A solução, portanto, é encerrar a conversa antes mesmo de ela se iniciar. Proclamar o tema como sagrado. Converter a divergência em insulto. Transformar a dúvida em violência simbólica.
O esquerdista típico não é uma pessoa que aprecia a reflexão. Isso não é um desafio: é um relato de comportamento que pode ser observado. Você vem com uma pergunta básica, simples, e ele já fica bravo. Está se encerrando. Começa a tratar a conversa como se fosse uma questão emocional. E isso não é um mero acaso ou uma fraqueza temporária: é o resultado inevitável de uma educação que trocou a lógica do raciocínio pela sensibilidade como padrão de verdade. Quando se utiliza o critério de que "isso me ofende", qualquer argumento que cause desconforto é prontamente desconsiderado, não pelo que diz, mas pelo impacto emocional que provoca. Chegamos ao término do raciocínio. É o início da política enquanto uma forma de terapia em grupo.
Ao observar, em Primavera até cerca de 2015, uma grande quantidade de pessoas agindo dessa maneira, senti um repulso imediato e sincero. Não é o nojo de alguém que se considera inerentemente superior, mas sim o nojo de quem vê o desperdício. O desperdício de inteligência potencial que se perde em tendências passageiras. A resposta foi a mais natural que se podia esperar: discutir. Precisamente para causar irritação. Não por má intenção, mas porque não suporto pessoas que não refletem. Detesto, com todas as forças e sem qualquer remorso, pessoas que se negam a defender uma opinião quando são desafiadas, que desmoronam diante da primeira pergunta que foge ao roteiro, que confundem fragilidade emocional com profundidade intelectual.
Nessa figura contemporânea, há um puritanismo invertido que merece ser nomeado com exatidão. O progressista é o puritano da liberdade moral. É o protetor indomável da falta de fronteiras. É aquele que converte a rejeição de qualquer critério objetivo em uma virtude concreta. A contradição se torna evidente nesse ponto: eles afirmam que a moral é subjetiva, que não há bem ou mal absolutos, que cada indivíduo cria sua própria verdade; no entanto, perseguem implacavelmente qualquer pessoa que tenha a audácia de discordar deles, como se existisse uma verdade absoluta e clara sendo infringida. A moralidade subjetiva serve apenas para justificar as próprias ações. Quando uma pessoa externa expressa sua discordância, o relativismo se dissipa, dando lugar à inquisição.
Há uma terminologia técnica para isso. Trata-se de uma inversão de valores. Antonio Gramsci elucidou a engrenagem cultural desse processo: fazer do que era considerado ovelha negra um oprimido e do que defende uma ética objetiva e verificável um agressor. Não se trata de uma conspiração: é uma estratégia cultural. Isso acontece porque a maioria das pessoas não possui um treinamento lógico adequado para perceber que estão sendo influenciadas por um novo arranjo de histórias, e não por uma alteração na realidade.
Considere, por exemplo, o conceito de masculinidade tóxica. O conceito é utilizado de maneira bastante seletiva: dirige-se ao homem de classe média que possui uma ética bem definida, ao indivíduo que tem uma noção clara do que é certo e do que é errado, ao cidadão respeitável, como geralmente o chamamos. Jamais, em nenhuma circunstância, você encontrará a mesma ideia sendo utilizada com a mesma intensidade em relação ao funkeiro do morro, ao traficante que exerce seu domínio sobre territórios inteiros por meio de violência verdadeira, ou ao homem que comete assassinatos ou agressões contra mulheres que recusam suas investidas. Por que razão? Isso se deve ao fato de que este último possui uma ética que é subjetiva. Pois este último, na linguagem progressista, é quase um propulsor da revolução: simboliza a quebra dos padrões estabelecidos, a rejeição da norma burguesa e a liberdade que vem das margens. É um verdadeiro paradoxo digno de tirar o chapéu: a esquerda que se proclama defensora das mulheres evita criticar sistematicamente os homens que mais as agredem, uma vez que esses homens pertencem a grupos que, no jogo das identidades, acumulam pontos de opressão suficientes para serem isentos de qualquer julgamento.
O cidadão de bem, por sua vez, é aquele indivíduo que afirma que existem ações corretas e incorretas, que essa distinção não pode ser ajustada de acordo com o estado de espírito da sociedade, e que, se essa linha for apagada, o que sobra é precisamente o que estamos testemunhando no Brasil atualmente: um tumulto moral no qual as referências se extinguíram e cada pessoa age de acordo com os impulsos do momento. É por isso que a esquerda o detesta. Não porque ele represente uma ameaça física, mas porque ele simboliza a memória de que existe um padrão. E esse critério é o que toda deterioração moral deve remover para se manter.
O tema da transexualidade se insere aqui de maneira particular e deve ser abordado com a mesma franqueza. As minorias revelaram-se um imenso capital político para a esquerda. A maneira como gerencia esse capital é clara e eficiente: identifica uma pessoa cuja vida a levou a uma situação de marginalização, transforma essa marginalização em uma identidade, essa identidade em uma causa, e, em seguida, oferece a ela a oportunidade de ser representada em troca da aceitação de todo o conjunto. O pacote traz pautas que a pessoa nunca aceitaria por conta própria. Uma pessoa trans que adota uma perspectiva de ética objetiva pode, sem problemas, afirmar que o aborto é algo errado. É totalmente viável defender a família como a base essencial. É totalmente possível ter uma opinião contrária às propostas econômicas de esquerda. Porém, o movimento não apoia essa versão. O movimento sustenta a versão que promove a dissolução, uma vez que é essa dissolução que é relevante para o projeto, e não o bem-estar real das pessoas que supostamente representa.
A própria Igreja Católica, alvo de acusações de ser o principal antagonista das minorias sexuais, apresenta uma postura mais nuançada do que a caricatura sugere. A Igreja Católica não se opõe, de forma interna, à ideia de que um homem possa ter laços emocionais intensos com outro homem. A doutrina proíbe o ato sexual que ocorra fora do matrimônio sacramental, que se estabelece entre um homem e uma mulher. Além disso, o matrimônio possui uma definição teológica clara, com propósitos específicos. Isto não é falta de critério: é a consistência interna de um sistema ético que, ao se desfazer de qualquer elemento, retorna sempre ao mesmo núcleo. Tornar a ética sexual subjetiva é o mesmo que tornar toda a ética subjetiva. Uma religião cuja ética é totalmente subjetiva deixa de ser uma verdadeira religião e se transforma em um serviço personalizado de bem-estar emocional. O protestantismo, como um exemplo histórico, tornou-se exatamente isso: uma forma que se adapta às preferências do cliente, incorporando qualquer demanda cultural sem oposição, uma vez que perdeu o recurso necessário para resistir.
Em um determinado momento, o movimento LGBT buscou uma imposição legal para que a Igreja Católica celebrasse casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Quem tem um conhecimento básico da estrutura teológica da instituição entende que isso seria como pedir que a álgebra reconhecesse, por decreto, que dois mais dois é igual a cinco. Não se trata de preconceito: trata-se de consistência interna. É exatamente essa consistência interna que provoca desconforto. O objetivo do projeto de fundo não é simplesmente incluir pessoas: é eliminar instituições que servem como repositórios de critérios objetivos. Quando todas as religiões forem indistinguíveis umas das outras, sem conteúdo doutrinário que obrigue a nada, o projeto estará cumprido. A filosofia de Helena Blavatsky deixa isso bem claro: uma religião que é universal e sincrética, capaz de incorporar tudo, o que a impede de defender qualquer coisa em particular. Não é por acaso que a maior parte dos ocultistas atuais se identifique com a esquerda. É uma consequência evidente: o ocultismo contemporâneo promove a desintegração das tradições como um meio de ascensão espiritual, assim como a esquerda busca essa mesma desintegração no âmbito político e cultural. Todas as águas convergem para o mesmo oceano.
É aqui que chegamos à parte em que o pensamento deve ser claramente expresso, sem rodeios: o esquerdista contemporâneo não é apenas um opositor político. É uma pessoa cuja lógica, se levada ao seu extremo, resulta na eliminação de todos os que não concordam. Não se trata de uma hipérbole retórica. É um padrão histórico observado. O mesmo movimento que se diz protetor dos oprimidos ou festeja ou fica em silêncio quando regimes de sua preferência ideológica perseguem, prendem e eliminam opositores. O que distingue o esquerdista contemporâneo do fascista do passado não é a disposição para empregar a violência contra os oponentes, mas sim quem, de fato, é considerado o oponente. Para ambos, aqueles que discordam não são mais considerados cidadãos, mas sim um impedimento.
Digo isto sem o menor entusiasmo panfletário, porquanto sou de uma estirpe judaica e sei por experiência o que é servir-se do extermínio como arma política. Na minha perspectiva, tanto os esquerdistas quanto os nazistas não se encaixam em categorias morais diferentes: ambos consideram o genocídio uma ferramenta para criar um mundo melhor, e a única distinção entre eles é quem são os alvos de suas ações. Affirmo isso diretamente a qualquer esquerdista que esteja disposto a debater, e o faço com a mesma firmeza com que expressaria qualquer outra crença que considero verdadeira.
Há um personagem que representa o homem moderno com mais exatidão do que qualquer conceito teórico. Esse personagem foi nomeado como Jurandir. O Jurandir não é uma figura exagerada criada: é uma concentração de características reais que podem ser observadas em uma porcentagem assustadora da população masculina adulta do Brasil. Jurandir é o tipo de homem, geralmente a partir dos trinta e cinco anos, que exibe uma barriga crescente e não tem nenhum plano de desenvolvimento pessoal. Sua vida gira completamente em torno de prazeres instantâneos, como futebol, churrasco, cerveja e sexo. Em si, nenhum desses elementos é problemático. O problema surge quando eles se tornam a totalidade da vida, quando não existe nada superior, nada que transcenda, nada que demande esforço sem que haja uma recompensa de prazer imediato.
A ética de Jurandir é totalmente utilitária: se me proporciona prazer, então é algo positivo. Se não me proporciona satisfação, não compensa. Esta é a bússola completa. Retoma os estudos? Não, pois estudar exige esforço antes de proporcionar satisfação, e Jurandir deixou de lado, durante a revolução sexual, a habilidade de adiar recompensas em prol de um objetivo maior. Jurandir pode parecer conservador à primeira vista, pode defender valores tradicionais para o filho e criticar o feminismo nas conversas com amigos, mas ao mesmo tempo pode estar traindo a esposa de forma recorrente, visitando casas de prostituição e agindo de acordo com uma ética totalmente subjetiva em tudo que diz respeito à sua própria vida. É o que Olavo de Carvalho chamava de paralaxe cognitiva: a incapacidade de se julgar pelos mesmos padrões que se aplicam aos outros.
Aqui reside a ironia que as feministas nunca conseguem admitir: Jurandir não é produto do conservadorismo cristão. Jurandir é um produto da revolução sexual. É o produto imediato e esperado de uma sociedade que soltou o instinto e não forneceu nenhum padrão ético para controlá-lo. As feministas que frequentemente criticam Jurandir foram, juntamente com os movimentos culturais que ajudaram a desenvolver, as responsáveis por facilitar esse processo. Os intelectuais associados ao Woodstock, esses renomados indivíduos que são frequentemente retratados como os heróis fundadores da contracultura, eram, na maioria das vezes, Jurandires em um sentido estrito quando se trata de suas vidas pessoais. A crítica ao patriarcado provinha de homens que viam as mulheres ao seu redor como meros instrumentos de prazer, sem valor algum além disso.
O Jurandir que apareceu após a revolução sexual possui uma frase que o caracteriza de forma mais eficaz do que qualquer análise: "tem que fazer o que a mulher quer, né?" Não se trata de bondade. Não se trata de respeito. É uma rendição estratégica para manter o acesso ao prazer com o menor conflito possível. Jurandir atende aos desejos da esposa não porque considere suas opiniões corretas, mas porque argumentar consome energia que ele prefere direcionar para outras atividades. A mulher se torna, nesse contexto, um componente do ambiente que precisa ser administrado, ao invés de ser uma pessoa com quem se desenvolve uma relação. A mulher que se conforma com isso e transforma o Jurandir em um subserviente logo perceberá, mais cedo ou mais tarde, que criou exatamente o tipo de homem que afirma detestar.
Jurandir afirma que tem fé em Deus. Alega ter fé na família. Quando se trata de criar um filho, recorre à fala sobre os valores. Mas ele está sempre em conflito constante com tudo o que defende, e essa contradição não o perturba, pois nunca realmente estabeleceu uma ética objetiva. O que ele possui são uma série de afirmações aceitas socialmente, que ele utiliza de acordo com o público. Entre amigos, a ética se torna mais flexível. Em casa, é intenso. Com a sua amante, ele some. Isso não se trata de hipocrisia trivial; é uma falta de caráter estrutural, que é algo mais sério e complicado de corrigir.
O protestantismo torna a vida do Jurandir muito mais simples, e isso não é por acaso. A teologia da graça protestante, em suas formas mais conhecidas e menos exigentes, proporciona ao Jurandir exatamente aquilo que ele necessita: um esquema no qual o arrependimento é um sentimento, e não uma jornada. Onde a absolvição elimina a necessidade de um trabalho espiritual que a torne realmente efetiva. Onde é suficiente perceber que Deus perdoou para que o perdão se realize. Discuti isso diretamente com um pastor, e a conversa foi assim:
PASTOR: O perdão de Deus é absoluto. Deus é amor. Se você se considera perdoado, então está perdoado.
GABRIEL: E o Deus que ordenou o extermínio de tribos inteiras no Antigo Testamento? O Deus que demonstrou uma fúria intensa em resposta à idolatria? Onde é que, na sua teologia, esse Deus se localiza?
PASTOR: No entanto, o Deus que você está retratando é um Deus cruel. Por que ele exterminou todos os Baalitas com tamanha brutalidade? Por que não concedeu o perdão?
GABRIEL: Você tem ideia do que aquelas tribos costumavam fazer? Você está ciente de que elas matavam os homens que capturavam, mantinham mulheres e crianças como escravas, praticavam rituais sexuais com meninos antes de queimá-los como sacrifício, e que tudo isso era feito de maneira sistemática, como parte de sua prática religiosa? Você acredita que, sendo descendente de judeus, eu deveria encarar a realidade desse extermínio e afirmar que Deus cometeu um erro ao proteger seu povo?
PASTOR: No entanto, é possível que a reação de Israel tenha sido excessiva...
GABRIEL: Dramático. É exagerado se justificar por defender um povo que esfolava crianças em rituais e mantinha mulheres escravizadas. Está bem.
PASTOR: (pausa silenciosa)
GABRIEL: Você possui uma ética pessoal que opera bem durante períodos de tranquilidade e conforto. Quando a realidade se torna opressora, ela não consegue lidar.
O pastor não soube o que dizer, pois a teologia que seguia era de um ambiente tranquilo. Deus como fonte de afeto curativo. Deus como validação emocional. Esta concepção de Deus não consegue, de maneira alguma, explicar o verdadeiro Deus apresentado na narrativa bíblica, que é um Deus de justiça inquestionável, que aplica punições severas àqueles que cometem atos malignos de forma sistemática e intencional. Ignorar esse aspecto não é mostrar compaixão: é fraqueza intelectual disfarçada de amor.
Um dos motivos pelos quais muitos judeus têm uma aversão aos cristãos, especialmente aos protestantes, reside precisamente na dificuldade que estes têm em aceitar o Deus do Antigo Testamento sem se sentir na obrigação de pedir desculpas por Ele. Cresci ouvindo, em casa, de origem judaica, que o cristão era fraco demais para perceber que defender o povo de Israel, em certas ocasiões, poderia envolver violência direta e necessária. Também compartilho do diagnóstico, especialmente em relação ao protestantismo popular. A concepção de que o Deus do Antigo Testamento era maligno, que promovia a imagem de um Deus rigoroso, enquanto o "verdadeiro" Deus de Cristo é todo gentileza, se assemelha a uma perspectiva quase gnóstica, na qual o Deus criador é visto como o vilão, e o Deus Salvador é aquele que nos vem libertar dele. Por essa razão, o Marcionismo foi declarado herético no século II. Ele retorna, sem ser mencionado, a milhares de púlpitos protestantes toda semana.
O Jurandir não fica longe dessa concepção teológica. Jurandir deseja um Deus que dê seu consentimento. Não um Deus que demande. O progressismo laico proporciona precisamente a versão secular do mesmo conceito: um mundo em que suas decisões são sempre aceitas, onde ninguém tem a autoridade para afirmar que você cometeu um erro, e onde o desconforto que você experimenta ao ser corrigido é a evidência de que aquele que fez a correção é, na verdade, o verdadeiro agressor.
Há uma obra que aborda esses temas com uma precisão simbólica rara em textos contemporâneos e que merece uma análise aprofundada: Devilman, de Go Nagai. Não estou mencionando isso por ser uma peculiaridade. Estou mencionando isso porque o mangá, que foi escrito originalmente na década de setenta para um público jovem, oferece uma das representações simbólicas mais sinceras do Apocalipse bíblico que a cultura popular já criou, e consegue isso sem se afirmar como um texto sagrado, sem a pretensão de ser profético, utilizando a linguagem crua e direta típica dos quadrinhos japoneses. O círculo de estudos Nous já fez uma análise formal da obra, mas é bom relembrar a estrutura aqui.
Akira Fudo, o protagonista, possui características messiânicas: ele é o único que pode confrontar Lúcifer diretamente, que é o líder do exército que busca salvar a humanidade de sua própria destruição. Nagai não declara isso abertamente, mas é evidente na forma como a história é contada. Akira nunca desiste, batalha até o fim por quem ainda está ao seu lado e defende a justiça mesmo quando está à beira da ruína. É o Cristo em batalha, e não o Cristo ornamental dos santinhos.
O que acontece com Akira no auge da história é exatamente o que o mundo moderno progressista faz com um verdadeiro cristão: considera-o um demônio. Ele o considera uma ameaça. O elimina em nome de uma suposta segurança coletiva, que na verdade se refere à proteção do grupo dominante em relação àqueles que não se conformam à sua narrativa. No mangá, o Estado é retratado como um estado de exceção de caráter socialista, e os grandes governantes vão se transformando gradualmente em demônios, em um aumento simbólico que culmina com o principal vilão sendo associado ao líder da União Soviética. Nagai faz uma crítica abrangente a todos os ismos modernos: o puritanismo religioso extremo, o estatismo, o progressismo e o globalismo. Não hesita em atacar aqueles que tentam utilizar a autoridade para oprimir os que têm opiniões diferentes.
A beleza angustiante da obra reside no aspecto mais perturbador: os Devilmen, seres humanos fundidos com demônios que, na verdade, são os defensores da humanidade, são considerados monstros pela mesma população que eles protegem em segredo. Os guerreiros de Deus durante o apocalipse, conforme descrito pelo próprio Nagai, são os cristãos finais, os santos dos últimos tempos e os anjos do fim. E ninguém os escuta. Pois a maior parte das pessoas prefere pensar que o inimigo é aquele que escolheram como tal, sem levar em conta qualquer prova do contrário.
No contexto atual, um cristão que defende uma ética objetiva é tratado como um verdadeiro demônio pelo progressismo contemporâneo, da mesma maneira. A mesma lógica se aplica. O funcionamento é idêntico. E Nagai, com uma honestidade intelectual que costuma ser rara na ficção voltada ao grande público, teve a coragem de incluir isso em uma história em quadrinhos para jovens na década de setenta. Não conheço nenhum trabalho contemporâneo que tenha mostrado a mesma coragem.
Agora, o homem contemporâneo em sua faceta mais funcional e rotineira: aquele indivíduo que, se você se atrever a questionar o comportamento de uma mulher, mesmo que ela esteja apoiando causas que são claramente prejudiciais, ele se apressará em defendê-la com uma fervorosa intensidade que será inversamente proporcional à solidez do argumento que possui. Esse personagem é sempre da mesma laia: mal-acondicionado, afeminado, de temperamento que se indigna com tudo que foge ao seu roteiro pré-aprovado. Apresse-se em proteger a mulher, não por uma convicção ética, mas porque sua educação cultural lhe inculcou que é interdito criticar mulheres, qualquer que seja o que digam ou façam. A mulher, por mais que possa apoiar as causas mais prejudiciais que se possa imaginar, isso não tem relevância. Criticar a agenda se transforma em um ataque ao indivíduo, e atacar o indivíduo é considerado um crime contra a identidade, que, por sua vez, é o mal supremo. O raciocínio custa o que custa uma conversa de elevador, mas resulta o que resulta uma inquisição.
O movimento feminista é digno de uma análise direta, pois é o local onde muitas dessas vertentes se encontram. Participei de uma discussão com uma feminista que estava bem informada sobre a literatura do movimento, e foi um debate bastante elucidativo. O formato se assemelhava bastante a este:
GABRIEL: A maior parte do financiamento do movimento feminista provém de grandes ONGs internacionais que estão ligadas a pessoas que, assim como aquelas que visitavam a ilha de Jeffrey Epstein, exercem uma considerável influência. Não se trata de uma conspiração: é monitoramento de movimentação financeira. Essas pessoas têm interesses específicos que financiam para serem defendidos. Aqueles que necessitam desse financiamento para sustentar a organização do movimento não têm a opção de se distanciar das diretrizes estabelecidas.
FEMINISTA: Você está ficando maluco. Não apoio nenhuma dessas ideias. O feminismo não tem uma liderança centralizada.
GABRIEL: À margem, descentralizado. Financiamento em foco. A cartilha que as ONGs exigem para liberar financiamento não é opcional. É condição necessária para o pagamento do salário. Você conhece as pioneiras do movimento? E aquelas que advogavam a castração química obrigatória para homens tidos como geneticamente inferiores? As que defendiam a diminuição significativa da população masculina?
FEMINISTA: Apenas algumas pessoas dentro do movimento. Elas não são a representação completa do feminismo.
GABRIEL: Você as apoia parcialmente?
FEMINISTA: Em certos aspectos.
GABRIEL: Isso já configura desonestidade. As seções que você concorda são, na verdade, implicações lógicas das seções com as quais você discorda. Não é possível puxar o fio de lã sem levar o novelo completo junto.
FEMINISTA: (começa a lançar ataques pessoais)
GABRIEL: Note o que ocorre: você não tem o que rebater ao que foi colocado e parte para o ataque pessoal. Este é o padrão que mencionei. É todo o movimento em escala reduzida.
A feminista com a qual discuti não era ignorante. Era desonesta, o que representa um risco maior. Estava familiarizado com os livros. Estava ciente das crenças deles. Ela ainda mantinha o rótulo como parte de sua identidade, como se fosse algo essencial à sua essência, como se questionar o movimento feminista fosse o mesmo que questionar a sua própria existência. Quando a identidade e a ideologia se entrelaçam dessa maneira, torna-se inviável um debate racional, pois qualquer dúvida levantada sobre a ideia é vista como uma ofensa pessoal. É um sistema de proteção absurdamente eficaz e absolutamente irracional.
A problemática da pedofilia em determinados setores do movimento deve ser mencionada de forma direta, sem eufemismos, pois é precisamente o tipo de questão que o progressismo contemporâneo tenta camuflar diante do clamor de acusações de intolerância. Há, de forma documentada e rastreável, uma presença de MAPs — que é a sigla para Minor Attracted Persons, a designação que o movimento de atração por crianças busca usar para se legitimar — em confluência com setores do movimento LGBT e com algumas vertentes do feminismo acadêmico mais radical. Figuras centrais do feminismo americano elaboraram textos defendendo de maneira clara a liberalização das relações sexuais entre adultos e menores. Não como uma perspectiva marginal: como uma proposição. Através de argumentação. Em prol das consequências. O fato de que 20% das vozes mais recentes do movimento não promovam isso de forma clara não diminui a realidade de que o núcleo fundador e intelectual do movimento o apoiava. Que as mesmas pessoas que sustentam financeiramente o movimento feminista também tenham sido aquelas envolvidas nos escândalos relacionados à ilha de Epstein não é uma mera coincidência estatística: trata-se de uma convergência de objetivos.
A lei Felca, em nosso país, funcionou como um exemplo claro dessa hipocrisia: a esquerda, que afirma defender as crianças e combater abusos, apoiou uma legislação que fornecia ao governo ferramentas para controlar e silenciar vozes dissidentes na internet, concentrando o poder de censura nas mãos do grupo político que mais deseja evitar determinadas discussões. A mesma esquerda que legitimou falas extremas sobre a liberação sexual de menores, ao se deparar com uma ferramenta de controle sobre seus oponentes, adotou a lei rapidamente e sem hesitar. A ideia inicial não era a proteção das crianças, mas sim a busca por poder. Nessa configuração, a criança ocupa a mesma posição que a mulher e as minorias: todos são usados como instrumentos retóricos para a validação.
Freire merece um momento à parte, pois sua influência na educação brasileira é tão profunda que não dá para compreender a atual geração sem ele. Freire não era um pedagogo ingênuo que cometeu erros de metodologia. Freire era um marxista ciente de suas intenções. O conceito de que alguém sem educação formal pode understand a realidade com a mesma credibilidade de uma pessoa que se dedicou aos estudos, de que a "leitura de mundo" derivada da experiência vivida equivale ao rigor intelectual acumulado, não é um engano pedagógico: é uma tática política. Quando você educa várias gerações a acreditar que podem avaliar qualquer situação apenas com seus próprios pensamentos, sem utilizar instrumentos externos de verificação, sem a aplicação de uma lógica formal, sem um método historiográfico e sem a filosofia como uma ferramenta de análise, você está criando um eleitorado que não consegue perceber o complexo labirinto que se estende além da porta de entrada. Freire estava ciente. Quando afirmou que barreiras à igualdade, à bondade, e a outras categorias que o marxismo classifica, podiam ser eliminados sem problema, estava sendo tecnicamente preciso dentro de sua visão de mundo: a palavra "obstáculo" é apenas um eufemismo pedagógico para "inimigo de classe". O inimigo de classe, segundo a tradição marxista, já possui um destino que não precisa ser detalhado.
O que está em falta na educação brasileira, de maneira evidente e prejudicial, é a lógica formal como uma disciplina. Lógica desde a educação básica. Lógica enquanto disciplina, enquanto instrumento fundamental de raciocínio, enquanto aquilo que era ensinado no Trivium e no Quadrivium da Idade Média: o alicerce indispensável de qualquer educação intelectual que se possa considerar séria. Qualquer um que tenha um conhecimento básico de lógica pode identificar uma falácia. Você consegue identificar quando uma premissa não é suficiente para apoiar a conclusão. Consegue entender que apoiar A enquanto se opõe à consequência lógica de A é uma postura inconsistente? Sem esse treinamento, o indivíduo não consegue absorver a demonstração e é facilmente influenciado pelas emoções. É o eleitorado perfeito para qualquer regime que precise de paixão sem reflexão.
A dissolução promovida pelo movimento progressista acontece em diversos aspectos: filosófico, religioso, cultural e também no que diz respeito à sexualidade. A sexualidade humana não é um tabu do intelecto, e deve ser abordada com a mesma rigorosa análise que qualquer outro fenômeno humano. Há uma mecânica concreta e observável pela qual a exposição prematura e excessiva a estímulos sexuais desvia o desenvolvimento da atração de seu curso natural. Isso não é moralismo: é uma explicação do processo. A janela de Overton, que explica o que é considerado aceitável por uma mente, também se aplica à esfera sexual: cada nova exposição a um estímulo que antes era visto como inaceitável, sem uma resistência, move os limites ainda mais para longe. Com a prática adequada, aquilo que parecia inviável passa a ser algo comum. E a rotina transforma o desejo.
Falei com amigos gays, um deles psicólogo, que me relatou esse processo em sua própria jornada de maneira tão clara que não havia necessidade de qualquer outra interpretação:
AMIGO (psicólogo, gay, católico): Gabriel era hétero na adolescência. No entanto, fui tomando decisões que não eram adequadas: absorvendo imagens que não deveria e permitindo que algumas situações se acumulassem sem me questionar. O processo foi gradual. Trans antes, homem depois. Não se tratou de uma revelação de identidade: foi um hábito construído.
GABRIEL: E quanto a hoje?
AMIGO: Hoje eu sou quem sou, e com isso estou em paz dentro da minha fé. Eu aconselho aqueles que me questionam: se você deseja se manter heterossexual, evite explorar essa questão. Evitar a exploração não é sinal de fraqueza moral. É sabedoria. A sexualidade humana é flexível demais para ser deixada à curiosidade descontrolada.
Este relato não deve ser visto como um julgamento para aqueles que alcançaram um resultado diferente do esperado. É um percurso representado em um mapa. O mapa é especialmente valioso para aqueles que estão decidindo qual caminho seguir. A questão não reside na pessoa que alcançou determinado patamar: o verdadeiro problema é o movimento que, de forma intencional, retira os sinais de trânsito da estrada e, em seguida, afirma que qualquer destino é igualmente aceitável.
Indivíduos trans têm o direito de ser reconhecidos e respeitados como pessoas. Isso não se trata de uma concessão progressista: é um princípio fundamental da ética. Uma pessoa trans que reflete, que possui valores definidos e que não adotou totalmente a ideologia que o movimento tenta impor, e que vive de maneira coerente com uma crença ou uma ética objetiva, é apenas alguém que trilhou um caminho diferente do convencional e que merece o mesmo respeito que qualquer outra pessoa. A questão não é a pessoa. O problema reside no movimento que a utiliza como símbolo para objetivos que, muitas vezes, ela própria não escolheu.
Estive em contato direto com essa situação. Uma amiga, que conheci no ensino médio quando ainda se via como um homem gay, começou sua transição hormonal muito cedo, e ao final do ensino médio, era praticamente outra pessoa: uma mulher com todos os traços femininos possíveis, resultado do tratamento hormonal precoce. Um de nossos amigos que passou muitos anos tirando sarro dela por ser gay, acabou ficando com ela anos depois. Atualmente, eles estão juntos e têm um filho adotivo. Não vejo isso como uma mera curiosidade: considero isso uma prova de que a realidade da experiência humana é tão complexa que não pode ser administrada por slogans, de qualquer lado da questão.
Esse mesmo amigo me contou que, para defendê-la de agressões em banheiros públicos, ele teve que agir fisicamente. Essa é uma realidade palpável: uma mulher trans que se apresenta de maneira totalmente feminina no banheiro masculino está, de fato, em perigo. Pô-la no banheiro masculino por princípio teórico é imolar um sujeito concreto num altar da abstração. A discussão sobre um terceiro banheiro ou um espaço unissex apropriado não se trata de uma rendição ideológica, mas sim de uma solução prática para um problema real que existe, independentemente de qualquer posição política.
A direita protestante no Brasil comete um erro constante nesse aspecto, e essa falha traz custos tanto políticos quanto humanos. Essa atitude de cuspir em pessoas trans, de vê-las como a personificação do mal, e de negar-lhes qualquer reconhecimento como seres humanos com uma vida real, não convence ninguém. Retira-te. E exclui indivíduos que, na ausência da pressão do repúdio, seriam totalmente capazes de preservar uma ética objetiva em suas vidas. O movimento conservador protestante empurra para a esquerda pessoas que não deveriam estar lá, pois só sabe agir atacando. O catolicismo, neste contexto, possui uma vantagem estrutural: aceita a complexidade do ser humano sem comprometer a doutrina. Pode receber sem consentir. É possível separar a pessoa de sua ação. Pode apresentar um caminho sem iludir que esse caminho é simples.
O maior paradoxo é que a direita protestante, por trás de toda sua retórica anti-LGBT, muitas vezes esconde em seus próprios líderes as mesmas ações que condena com veemência. Isso não é exceção: é um padrão bem documentado. O que Olavo de Carvalho denominava paralaxe cognitiva afeta de maneira especialmente intensa o conservador protestante, uma vez que o protestantismo, como já demonstramos, não possui um mecanismo eficaz para se corrigir. Sem a confissão, sem o sacerdócio, sem uma tradição interpretativa estabilizadora, o ser humano tende a elaborar uma ética pública que serve de vitrine e uma ética privada que funciona como depósito. O Jurandir de direita é ainda mais complicado do que o Jurandir de esquerda, uma vez que o Jurandir de esquerda, pelo menos, não simula a existência de uma ética objetiva.
A direita católica, que muitas vezes é negligenciada pelos outros grupos da direita brasileira, uma vez que a maioria desses grupos é protestante, e o protestantismo possui uma relação historicamente hostil em relação ao catolicismo, que disfarça mal um ecumenismo de conveniência, é a única vertente que oferece uma solução estruturalmente coerente. Não porque os católicos sejam indivíduos superiores, mas porque o sistema em que atuam não possibilita com facilidade a separação entre o que é dito e o que é feito. A confissão é, entre outras funções, um sistema de prestação de contas regular que obriga a confrontar as ações com os princípios defendidos. Elimine o álibi da autoisntância subjetiva.
O que o Brasil realmente necessita não é de uma nova ideologia ou de um novo movimento. É necessário contar com indivíduos capazes de diferenciar o que é real do que é apenas uma narrativa, o que constitui uma ética objetiva em contraste com uma preferência emocional legitimada por jargão político, e o que se configura como uma consequência lógica em oposição a um slogan chamativo. É necessário ter uma formação lógica verdadeira, utilizar a filosofia como uma ferramenta prática e abordar a história de maneira honesta o suficiente para demonstrar que todos os projetos de dissolução já foram tentados anteriormente, e que o resultado é sempre o mesmo: não o paraíso prometido, mas o caos que precede a tirania.
O Solar Punk, ideia que o Círculo de Estudos Nous desenvolve, sugere isso: não modernizar tudo de forma cega nem conservar tudo sem critério. Há aspectos que podem and devem ser transformados. A tecnologia, quando utilizada como um meio para alcançar uma vida melhor, é um recurso valioso. No entanto, existem instituições que são essenciais para a sociedade e não podem ser modernizadas sem comprometer sua integridade. A família como base da educação do ser humano. A ética objetiva é fundamental para uma convivência que seja duradoura. A tradição como depósito de conhecimento experimentado e aprovado pelo tempo. Modificar essas estruturas sem compreender o que elas sustentam é semelhante a tirar as vigas de uma casa para aumentar o espaço disponível. O espaço se revela. Por alguns instantes. Em seguida, o teto desaba.
O teto está desmoronando em câmera lenta, dando tempo suficiente para que qualquer pessoa com os olhos abertos perceba. O que se coloca em questão é quantas pessoas ainda optam por ignorar a situação e colocar a culpa em quem traz o alerta.
Um exemplo de vida meu que é uma conversa que torna um homem em um homem tradicional: Existem eventos que só conseguem ser entendidos anos mais tarde, quando a vida já sepultou indivíduos, deslocou a memória da casa para outro lugar e converteu uma conversa passada em uma espécie de legado espiritual. Naquele momento, acreditamos que estamos apenas conversando com o pai na sala, no quarto, ou em qualquer outro canto da casa, rodeados pelos objetos que sempre estiveram ali, com a luz incidindo sobre os móveis da mesma forma que em qualquer outro dia, e o ar familiar, carregado de rotina. Mais tarde, quando a morte se manifesta na narrativa e encerra definitivamente algumas possibilidades, aquela conversa passa a ser algo mais do que simples conversa. Ela se torna uma herança.
Estou redigindo isto neste momento, após muitos anos, ciente de que meu pai faleceu em 2016. Entretanto, o evento que relato neste texto pertence ao passado, a um período que antecede sua morte, quando eu era mais jovem e ainda tinha a capacidade de ouvi-lo responder, olhar em minha direção, corrigir meus excessos, compreender minha ira e nomear aquilo que eu mesmo não conseguia categorizar. Uma parte deste texto foi escrita recentemente, enquanto eu refletia sobre o presente, meu site e o crescimento surpreendente do número de pessoas que chegaram antes mesmo de seu lançamento. Contudo, a verdadeira origem desse tipo de pensamento não se iniciou recentemente. Isso teve início há muito tempo, antes de 2016, durante uma conversa que tive com meu pai, quando algumas palavras foram semeadas em mim, sem que eu tivesse noção do quão grandiosa seria a árvore que delas brotaria.
Quando descobri, há pouco tempo, que uma quantidade significativa de pessoas já havia acessado meu site antes mesmo de sua inauguração, e que esse número continuava a crescer, isso me impactou de uma maneira que ia além do aspecto técnico. Não refleti apenas sobre acesso, público, plataforma, projeto, visibilidade ou carreira futura. Refleti sobre o destino. Refleti sobre a carga espiritual que as coisas carregam. Imaginei que, em certas ocasiões, uma obra consegue atrair pessoas mesmo antes de sua finalização, como se algo nela tivesse sido iluminado nas sombras, já captando a atenção de olhares que eu ainda não conhecia.
E então surgiu em minha mente aquela questão antiga, que já não era apenas uma indagação do presente, mas também uma lembrança de uma conversa anterior: caso eu precisasse me sacrificar por Deus em algum momento, eu o faria?
No passado, eu acreditava que não. Eu acreditava que deveria viver intensamente, cuidar de mim ao máximo, aproveitar todas as experiências e alcançar o maior número de realizações possível. A vida parecia imensa demais para ser entregue. Eu contemplava o futuro assim como se observa um terreno ainda por edificar, mas já adquirido pela imaginação. Desejava tempo, desejava criação, desejava reflexão, desejava vida. Isso não estava totalmente incorreto. Ninguém vem ao mundo com a obrigação de odiar sua própria existência, como se a vida fosse apenas um fardo insignificante. Entretanto, havia uma compreensão que ainda não estava totalmente completa. Eu ainda não compreendia o conceito de herança.
Agora tenho um entendimento um pouco maior. Herança não se limita ao que está registrado em documentos, contas, nomes, bens móveis, terrenos, fotografias ou sobrenomes. Herança é tudo o que permanece agindo no mundo mesmo após o corpo ficar em silêncio. É a linguagem que transita pela morte. É a bravura que reside no interior de uma pessoa. É a lembrança que força o outro a se erguer quando desejava desistir. É a marca que não tem o propósito de adornar uma biografia, mas sim de preservar viva algo que o mundo teima em extinguir. Quem sabe por isso, nos dias de hoje, se me fosse exigido um sacrifício em nome de Deus, minha resposta não seria mais a mesma. Eu diria com receio, sim, pois apenas um tolo não sente o temor que acompanha a responsabilidade de uma entrega verdadeira. Responderia de maneira diferente. Hoje eu responderia que sim.
Essa transformação não se originou de um conceito teórico. Originou-se de eventos. Originou-se de diálogos. Originou-se da recordação do meu pai.
Naquele período, antes de sua morte, eu ainda podia não apenas recordar sua imagem, mas também desfrutar de sua companhia. Ele estava presente. Meu pai tinha uma maneira de se expressar que, em alguns momentos, não soava apenas como a opinião de um pai. Parecia uma sentença. Não de uma forma impessoal de julgar, mas de uma maneira intensa que ajusta uma alma que está excessivamente expansiva para caber dentro de si. Ele estava ciente de que eu possuía força, mas também compreendia que a força sem controle se transforma em destruição.
Em uma ocasião, ele me comentou:
— Você ainda tem toda a sua vida pela frente. Você tem o poder de transformar o que é possível em algo impossível.
Se qualquer outro homem dissesse isso, poderia parecer um incentivo superficial. Não na sua boca. No discurso dele, ela tinha substância, pois era acompanhada de lembranças, precisão e responsabilidade. Meu pai não era do tipo que confunde apoiar o filho com aplaudir qualquer tipo de excessos. Ele tinha a habilidade de reconhecer uma capacidade sem permitir que isso se tornasse uma justificativa para a injustiça.
Recordo-me de um acontecimento da minha infância. Um menino agredia outros meninos da minha turma. Isso me deixou furioso. Quando eu era criança, percebia a injustiça antes mesmo de compreender a importância da cautela, e isso podia me tornar uma ameaça. Dentro de mim, havia uma indignação genuína, embora ainda sem uma forma definida. Eu desejava proteger, mas não conseguia calcular. Eu queria consertar, mas não conseguia diferenciar entre justiça e impulso. Então, impulsionado por aquela raiva juvenil, eu cortei a orelha do menino com uma tesoura.
Não tem como deixar essa cena bonita sem enganar. Foi violento. Estava incorreta. Foi excessivo. Mas também não seria verdade afirmar que ela surgiu do nada, como uma maldade sem propósito. Ela surgiu de uma força primitiva, ainda não lapidada, de uma noção de justiça que se confundia com a agressão, de uma criança que testemunhava atos de violência e respondia com a ferocidade de quem ainda ignora que o bem, para permanecer como tal, necessita de limites.
Meu pai percebeu isso. Ele não me considerou um monstro, mas também não me tratou como um herói. Talvez tenha sido uma das minhas primeiras lições reais sobre virtude. O mundo contemporâneo frequentemente comete uma das duas tolices: ou justifica tudo em nome do trauma, ou condena tudo sem levar em conta a complexidade da natureza humana presente na situação. Meu pai realizou uma tarefa ainda mais desafiadora. Ele reconheceu o poder e pediu um governo.
Ele me falou:
— Sim, eu realmente desejava que você o agredisse. Mas você está ciente de que isso seria injusto de todas as maneiras. Você precisa escolher quem deseja se tornar. Com todo o conhecimento e habilidades que você possui, reserve isso para alguém que realmente merece receber um golpe, e não por uma brincadeira sem graça.
Aquilo me marcou profundamente. Naquele momento, eu provavelmente não compreendia a profundidade da frase. Agora tenho uma compreensão mais profunda. Ele não estava me ensinando a ter medo. Não estava me ordenando a suportar toda humilhação, a aceitar todas as injustiças, a sorrir diante do mal ou a considerar fraqueza como bondade. Ele estava me mostrando que a força precisa ter um propósito. Há uma grande distinção entre agredir por ter perdido a compostura e lutar porque a justiça exige. Nem toda incitação à briga justifica uma guerra. O homem que desperdiça sua energia em conflitos insignificantes se apresenta debilitado quando enfrenta a verdadeira batalha.
O homem contemporâneo não compreende isso, pois perdeu a percepção da forma. Ele considera que a virtude se resume a um sentimento agradável, que a bondade é simplesmente a falta de assertividade, que a tradição é apenas uma estética ultrapassada, que a masculinidade se manifesta como uma postura ou brutalidade, e que a espiritualidade é apenas uma forma de conforto emocional. De modo algum. Ser verdadeiramente tradicional é reconhecer que a alma possui uma certa ordem, que as paixões devem ser refinadas, que a coragem sem a devida prudência pode se transformar em uma forma de barbarismo, que a prudência sem coragem se torna covarde, e que a justiça, se não acompanhada de caridade, pode acabar sendo apenas uma vingança disfarçada de algo nobre.
A conversa que tive com meu pai seguiu por essa direção. Eu tinha muitas perguntas, e algumas delas eram excessivamente complexas para a minha idade. Eu tinha estudado Tomás de Aquino, ainda ateu. É fundamental destacar isso, pois não me refiro a uma fé adquirida sem questionamentos ou a uma crença tranquila que se recebe simplesmente por hábito. Existia dentro de mim uma luta entre a inteligência, a experiência, a negação, o anseio por verdade e indícios que eu não conseguia compreender. Foi nesse tempo que meu pai me apresentou a Deus convocando o arcanjo Rafael.
Sei que, ao afirmar isso, pode parecer insensato para aqueles que limitaram a realidade ao que se adequa aos padrões da época. No entanto, existem experiências que não se preocupam em obter a aprovação da descrença dos outros. Ainda era ateu e por isso aquilo não apareceu como confirmação emotiva de uma fé serena. Chegou como uma quebra. Como se o mundo tivesse se aberto um pouco, revelando que a realidade era mais vasto do que o meu ceticismo podia suportar.
Nesse instante, ergui uma prece. Não se trata de uma oração curta, memorizada e domesticada, daquelas que apenas solicitam paz por temerem mudanças. Era uma súplica intensa, quase volátil, uma prece de sabedoria, luta e formação interna. Eu declarei:
— Rafael, tu que és a dinâmica força mercurial do cosmos, rogo a ti que incessantemente pleiteie em meu favor pelos caminhos do saber. Que Deus me transforme em uma pessoa que os mais velhos reconheçam como sábia e que tenha determinação para combater o mal. Pois meu desejo, agora que estou ciente de que todos os sonhos são reais, é ter mais um sonho que pareça impossível.
E, nesse contexto, havia uma imagem que me atormentava: a de sonhar além do que é considerado razoável, lutar quando seria simples desistir, enfrentar o que todos consideram invencível, pisar onde os corajosos não se atrevem, suportar a angústia sem desviar do caminho, quebrar cadeias que parecem impossíveis, voar na fronteira do improvável, e alcançar o que parece estar fora de alcance. Não se tratava de uma mania de grandeza. Era mais arriscado do que isso. Era a convicção de que a vida humana atinge seu ápice somente quando abraça um propósito que transcende a mera preservação de si mesma.
Eu desejava consertar o que parecia estar além de qualquer reparo. Desejava amar de uma forma pura, mesmo que de maneira casta, sem converter o amor em uma possessão imunda ou em um sentimentalismo frágil. Queria tentar quando as energias se esgotassem. Desejava atingir a estrela que parecia impossível. Desejava que a minha profunda convicção se transformasse neste mundo, que se estabelecesse firmemente neste solo, não por orgulho, mas por lealdade a algo que me transcende. Se, ao final, a terra que eu beijasse se transformasse em meu descanso eterno e em meu perdão, eu desejaria, ao menos, ter a certeza de que valeu a pena delirar e sucumbir à paixão por uma causa grandiosa demais para as medições insignificantes.
Após a conversa, o ritual e a oração, seguidos de minha gratidão pela manifestação, meu pai me encarou com a seriedade de alguém que percebia muito mais do que apenas um filho à sua frente. Sentia que carregava dentro de mim todo o embate entre o céu e a terra.
Ele afirmou:
— Você e todos esses novos pensadores que almejam isso são a voz de Deus clamando contra a maldade humana.
Não posso dizer que essa frase tenha me orgulhado. Ela me apertou. Existem elogios que são sutis, enquanto há chamados que soam como elogios apenas para aqueles que não compreendem a situação. Aquilo não se tratava de uma medalha. Sentia-se como uma carga. Era como se ele afirmasse que minha existência não poderia ser apenas uma vida comum e confortável, protegida por justificativas contemporâneas. Para ser sincero, eu não desejava aquilo.
Eu disse:
— Não desejo me tornar isso.
Pai não me acusou. Isso não me fez sentir inferior. Não recorreu a manipulação espiritual. Ele apenas admitiu a dimensão do sacrifício.
— Não te culpo, meu filho. É um sacrifício imenso, excessivo para que qualquer pessoa consiga suportar. Contudo, você não é uma pessoa comum. Eu creio que você veio ao mundo por uma razão. Esses encontros com seres e com Deus, bem como as transformações que você está vivenciando, um dia você as reconhecerá como uma verdadeira bênção. E ao finalmente enxergar, você terá que tomar uma decisão: lutar e se apresentar com orgulho para todo o mundo, ou recusar tudo isso.
Ele parou por um momento. A casa parecia insignificante diante da frase. Não foi por causa das paredes que mudaram, mas sim porque algumas palavras têm o poder de expandir o destino.
Assim, ele prosseguiu:
— Em uma dimensão metafísica, existe um outro Pai que lhe atribuiu o mesmo nome. Há uma razão pela qual ele te mandou para cá. Mesmo que leve a vida inteira, é essencial que você encontre qual é esse motivo.
Essa afirmação penetrou em mim como uma faca. Não uma espada de morte, mas de divisão. Ela distinguia em mim a presunção da chamada, a ilusão do dever, o poder da falta de controle, a lesão do propósito. E por fim lembrei de uma amiga que tinha me alertado sobre o jeito que eu levava a vida.
Comuniquei ao meu pai:
— Uma amiga comentou que eu preciso ter cautela em relação à forma como vivo e contra quem estou lutando, pois, caso contrário, posso me ver em um beco manchado de sangue e à beira da solidão.
Pai perguntou:
— Você realmente acredita nisso?
Eu disse:
— A morte não me assusta.
Não se tratava de uma simples fanfarronada. Bravata requer uma audiência. Ali tinha apenas uma confissão árida. Na minha infância, era comum ouvirem que eu não atendia às expectativas. O mais incompreensível é que isso era afirmado por indivíduos cuja capacidade era significativamente inferior à minha. Queriam me mandar para todos os cantos, tentando limitar minhas habilidades, tentando me tornar mais efeminado, tentando tirar de mim a determinação, a luta, a postura ereta, a resistência. Desejavam me transformar em algo que pudesse ser controlado. Desejavam que eu me encaixasse na forma estreita das expectativas dos outros.
Eu combatia a todos. Não por eu ser inocente. Não é que toda a minha indignação estivesse justificada. Pelo fato de eu perceber que, se não me esforçasse, seria consumido por dentro. Eu pensava que era o plano de Deus. Deus nos fez a todos com um propósito, certo? Um propósito.
Eu declarei:
— Na minha infância, me rotulavam como abaixo do esperado, e isso vinha de indivíduos com habilidades muito inferiores às minhas. Mandavam eu ir pra todos os cantos possíveis, querendo limitar minhas habilidades e me tornar mais efeminado. Eu me opunha a todos. Eu acreditava que era a intenção de Deus, pois Ele nos fez a todos com um propósito, certo? Um propósito na vida.
Meu pai disse:
— Claro que sim. É isso mesmo.
No entanto, isso não solucionava tudo. Porque havia dentro de mim uma questão mais obscura, menos adequada, menos confortável. Havia em mim uma luta interna que não era apenas um temperamento explosivo. Existia algo bélico, algo agressivo, algo que clamava. E eu gostaria de entender se aquilo fazia parte da vontade de Deus ou se havia uma força negativa em ação.
Eu declarei:
— O meu anjo da guarda, segundo a cabala, é um anjo associado a Marte. Marte tem uma grande conexão com demônios. Então, por que Ele me colocou com o demônio? Por que há em mim uma sensação intensa, como um clamor, que deseja aniquilar tudo e todos com prazer e satisfação, como se habitasse uma sala dentro da minha alma? Se nada disso for parte do desígnio de Deus, então existe uma força maligna em ação?
Meu pai não respondeu como um professor que deseja finalizar a conversa. Respondeu como alguém que entende que nem tudo se resolve com uma frase clara.
— Quem sabe, por você ser oriundo de uma região do cosmos mais inclinada a Marte, você esteja responsável por convocar os mais nobres anjos de sua essência. Talvez seja essa batalha que você percebe em seu interior.
Eu indaguei:
— Como você pode ter certeza de que o anjo e o demônio que habitam em mim não são, na verdade, a mesma entidade?
Ele disse:
— Não sei. Mas estou ciente de que nada motiva as pessoas a irem à igreja com mais urgência do que o diabo beliscando os dedos dos pés delas durante a noite. Quem sabe se esse não era o desígnio de Deus desde o início. Pois Ele o fez e deixou cair em desgraça para ser temido como um exemplo até mesmo pelos mestres mais doutos de sua própria escola.
Eu indaguei:
— Lembrar de quê?
E ele comentou:
— Continuar na senda dos justos.
A conversa se encerrou, mas de certa forma, ainda continua. Existem diálogos que persistem em agir mesmo após o silêncio se instalar. Fui me deitar com aquilo pulsando dentro de mim. Não se tratava de um sono habitual. Era como se a alma estivesse exposta demais para ser apagada. A voz do meu pai, a prece a Rafael, a indagação sobre o anjo e o demônio, o chamado, o receio do sacrifício, tudo isso ficou rodopiando dentro de mim como uma roda de fogo.
Foi então, durante um sonho, que a resposta apareceu.
Não foi um daqueles sonhos que se dissipam ao abrir os olhos como poeira sem forma. Foi uma imagem onírica. Havia nela uma clareza incomum, uma confiança que não parecia derivar da minha própria imaginação. Então, naquele lugar onde a alma não consegue distinguir entre o sono e a visitação, Rafael deu sua resposta.
Rafael comentou:
— Filho da terra, cujo sopro traz a fagulha do Eterno: tu, que vieste do lamaçal onde a finitude se dobra diante da queda, atreves-te a olhar para a luz da estrela que guarda o saber dos fundamentos? A ânsia que arde em seu coração não é uma conquista, mas uma força que te puxa em direção ao abismo de sua própria metamorfose. A forja é difícil; o metal, antes de se tornar lâmina, precisa passar pelo fogo que distingue o ouro da escória.
Aquelas palavras, no sonho, não eram um elogio. Chegavam como se fossem uma correção. Ele não afirmava que minha vontade era digna de reconhecimento. Dizia-se que era gravidade. Isso é fundamental. O homem vaidoso converte um chamado em uma distinção, enquanto o verdadeiro chamado leva o indivíduo para uma forja. Para se tornar lâmina, o metal precisa primeiro passar pelo fogo. Para se tornar um instrumento, a alma deve primeiro ser purificada de suas impurezas. Quem sabe se toda a minha determinação, toda a minha indignação, toda a minha sagacidade, e todo o meu anseio por lutar, ainda não fossem virtude, mas apenas matéria-prima. Conteúdo que precisava ser incinerado.
Rafael prosseguiu:
— Eu sou o reflexo daquele que mantém a harmonia das inúmeras existências, o serviço que se curva em reverência ao Trono de onde provêm a Ordem, a Beleza e o Saber. Serei tua ponte, não em busca de tua glória, mas para que a Vontade que sustenta o firmamento se manifeste no vale das sombras. Aquele que governa a ordem dos mensageiros celestiais, em Sua infinita bondade, possibilita que o seu caminho se harmonize com a economia da salvação, na qual o Espírito, que flutua sobre as águas do princípio, entrelaça a renovação das almas.
No sonho, percebi que uma ponte não é um trono. É necessário mencionar isso, pois a alma humana tem uma tendência a converter qualquer indicação em evidência de superioridade. Rafael não mencionava a glória que era minha. Discutava sobre a Vontade. Discutava Ordem, Beleza e Conhecimento, não como adornos da mente, mas como fundamentos da realidade. Se algo me foi concedido, não foi para alimentar minha vaidade, mas sim para servir. Não era para eu me considerar superior aos outros, mas sim para que eu fosse sobrecarregado pela responsabilidade de não trair aquilo que me foi revelado.
E ele comentou:
— Fica, portanto, atenta à teia da vida: entre a luminosidade do Alto e a espessura da terra, o teu lar, não deixes que o teu olhar se ofusque. O desvio é a queda em si. O inimigo, que representa a falta de luz, sopram ecos de distorção por meio de seus mensageiros — sombras que tentam dividir a tua unidade interior e dispersar a tua concentração no barulho da vaidade. Não ouça eles. Não lhes dê casa em tua mente.
Essa parte me tocou profundamente porque identificava o risco. O risco não se resumia apenas à morte. Não se tratava apenas de ser derrotado, falhar, ser alvo de zombarias, terminar só ou não ser compreendido. O risco estava no desvio. Era a vista obscurecer. Era a presunção se apresentar camuflada de propósito. Era a alma dividir-se em sons. Era proporcionar abrigo em sua mente para aquilo que deveria ser banido. O inimigo não precisa, muitas vezes, aniquilar um homem externamente. Às vezes, é suficiente espalhá-lo internamente.
Rafael deu a ordem:
— Luta. A espada que desejas ter não é feita de metal, mas sim na firmeza do propósito. A armadura do fiel é construída com a Fé inabalável e a Verdade que fundamenta a existência. Se o teu coração for um sagrado altar onde a Luz do Filho descansa, e se a tua integridade for inabalável, a vitória não será um prêmio, mas sim a tua essência restaurada.
Ali era a resposta que eu buscava sobre Marte, anjo e demônio, poder e ruína. A espada não era feita de metal. A espada tinha um propósito claro e direto. A armadura não consistia em rigidez mental, arrogância, hostilidade ou a satisfação de derrotar inimigos. Era crença e realidade. A vitória não se resumia a um troféu. Não se tratava de aplauso. Não se tratava de notoriedade. Não se tratava de todo o mundo concordando que eu tinha razão. A vitória representava a recuperação do seu verdadeiro eu. Isso transforma a situação por completo. O homem que se empenha na busca por troféus se desvia de seu caminho, mesmo quando conquista suas vitórias. O homem que se esforça para recuperar sua própria alma pode ser considerado derrotado aos olhos da sociedade, mas ainda assim sairá completo.
Rafael continuou:
— Se rejeitares o chamado, se a tua vontade se desviar da Lei que governa a harmonia do universo, a própria realidade exigirá de ti o preço a pagar. O Criador, na Sua justiça incompreensível, não permite que a fagulha por Ele acesa se extinga na indiferença ou na rebeldia. O percurso está definido; a batalha é a tua redenção.
Isso não pareceu uma ameaça grosseira. Assim como a lei. A realidade impõe um custo àqueles que traem seu propósito fundamental. O homem contemporâneo se refere a isso como pressão, crise, ansiedade, bloqueio, trauma, inadequação, e em algumas ocasiões, esses termos realmente capturam algo verídico. No entanto, frequentemente, elas encobrem uma realidade mais difícil: a alma adoece ao se distanciar daquilo que, no fundo, sabe que deve seguir. A apatia também constitui um pecado contra a própria chama interior. A desobediência também é destrutiva. Não é suficiente apenas evitar praticar o mal externamente. Em algumas ocasiões, o mal se inicia quando deixamos de aceitar o bem que nos foi destinado.
Foi então que Rafael finalizou:
— Ergue-te. O tempo é o presente, e o presente é o fronteira da eternidade. Lute, porque na conquista da sua alma, a Obra Divina se exalta. O Verbo continua. A ordem foi firmada.
Levantei-me com isso pulsando em meu interior. E isso reorganizou a conversa que tive com meu pai. O que antes soava como um conselho paterno sobre destino, força e sacrifício agora se transformou em uma validação interna, uma resposta recebida através de um sonho, uma visão que não me permitia me gabar, mas que me impedia de escapar sem inquietação.
Atualmente, ao escrever no presente, após o falecimento do meu pai em 2016, tenho uma compreensão mais aprofundada do que ocorreu. Pai me falara como pai de carne e osso, de quem eu era filho e tinha o direito de conhecer, de corrigir, de amar. No sonho, Rafael respondeu como um mensageiro, como uma ligação, como a expressão de uma autoridade superior que não adula a alma humana. Um me disse que poder sem opção é só violência. O outro me ensinou que a verdadeira arma é a integridade da intenção. Alguém me aconselhou a trilhar o caminho dos justos. O outro me afirmou que a luta era um processo de purificação.
Assim, ao entrelaçar a conversa com o sonho, tive a revelação de algo que, hoje, considero fundamental: todas as virtudes têm sua origem na esperança.
Não se trata de uma esperança superficial e sentimental, daquelas que o mundo oferece em frases melosas para pessoas fatigadas. Esperança não significa ter a convicção de que tudo irá se resolver apenas porque eu desejo intensamente. É um otimismo típico de uma criança que foi excessivamente mimada. Esperança é continuar direcionado para o bem, mesmo quando parece inviável. É continuar obedecendo à luz quando a alma está cheia de ruído. É compreender que há uma fagulha, acesa por Deus, que não pode ser submetida à indiferença, à arrogância, à desobediência ou ao prazer sombrio de causar destruição.
O homem contemporâneo deve compreender isso se desejar descobrir o verdadeiro significado de ser tradicional. Ser tradicional não se resume a reter velhas práticas, defender tradições, apreciar símbolos, falar sobre ordem, citar autores, menosprezar a modernidade ou disfarçar a própria insegurança com uma aparência de invulnerabilidade. Ser tradicional é reconhecer a existência de uma ordem objetiva no ser. É reconhecer a necessidade de moldar a alma. É reconhecer que o poder deve ser usado em prol da justiça, e não para alimentar o ego. É reconhecer que a inteligência tem como propósito encontrar a verdade, e não simplesmente triunfar em uma discussão. É reconhecer que a liberdade sem propósito se transforma em decadência. É reconhecer que a vida não nos pertence por completo, uma vez que aquilo que recebemos também nos avalia.
Não estou compartilhando isso para me considerar superior aos outros. De maneira oposta. Se eu quisesse ser visto como moralmente íntegro, omitaria uma boa parte deste relato. Ocultaria a infância tumultuada, a tesoura, a fúria, a impressão de ter algo clamando dentro de mim, o receio do chamado, o desejo de não me tornar aquilo que meu pai afirmava que eu poderia ser. Mais texto verdadeiro não é suficiente para disfarçar a alma. Serve para apresentar o conteúdo e evidenciar o trabalho com a forma. O que realmente importa é não simular que nunca existiu um abismo. O que realmente importa é descobrir se o abismo será seguido ou superado.
A conversa que tive com meu pai, antes de sua morte, e a imagem de Rafael naquela noite me mostraram que a virtude não se inicia quando o homem está totalmente preparado. Inicia-se quando ele entende que não pode mais enganar a si mesmo. Inicia-se quando ele percebe que seu poder requer um altar. Começa quando a raiva deixa de ser uma justificativa e se torna um assunto a ser disciplinado. Inicia-se quando o saber deixa de ser orgulho e se transforma em ajuda. Inicia-se quando o homem contempla seu próprio fogo e se questiona: isso irá iluminar ou incinerar tudo?
Quem sabe se não é toda a minha vida, com suas derrotas, aprendizagens, lutas, pressentimentos, vexames, convites, impossíveis, toda ela, não será aprender a zelar pela esperança como primeira planta de Deus no coração do homem. Proteger essa planta não significa impedi-la de sentir dor. É defender ela contra a falsidade. Pois o sofrimento pode até atingir a esperança, mas a mentira a corrompe.
Meu pai me aconselhou a trilhar a senda dos justos. Rafael comentou que a luta representava minha purificação. Agora, refletindo sobre tudo o que aconteceu, percebo que essas duas afirmações transmitem a mesma mensagem, embora por meios distintos.
A justiça se torna o epíteto ético da esperança quando esta se torna consciente de sua capacidade de lutar.
E a esperança é a designação oculta da força quando esta, por fim, se submete à vontade de Deus.
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