O DEUS INTROJETADO NOS SÍMBOLOS - DEUS CULTURA, VOLUME 2
Deus Cultural, volume II — os mundos possíveis, os santos dos sonhos, e o Deus que se revela em toda imagem e não se restringe a nenhuma. No volume anterior, aprendemos a enxergar: que a imaginação não foi nos dada para a fuga, que existem duas vozes no lixo que a inteligência ignora, que os heróis são santos dos sonhos que apontam para um Santo verdadeiro, e que toda a cultura é o rosto de um único Verbo fragmentado em mil pedaços. Não retornaremos a este terreno; vamos edificar sobre ele. Pois permanece uma incógnita o fato de que aquele livro apenas roçou na superfície e este deseja encarar de frente: como é que Deus se permite ser introjetado nos símbolos — como Ele habita no lar de um herói, no salvador de uma história em quadrinhos, no sustentador de uma ficção simples — e, ainda assim, transborda de todos eles, sendo o Todo que nenhum símbolo consegue aprisionar. Isso é o que eu denomino Deus Cultural: um Deus que pode ser encontrado em qualquer imagem e que não se encaixa em nenhuma.
Gabriel G. Oliveira
9/30/2026156 min ler


O Deus que mora em toda imagem e transborda de todas
Vamos iniciar exatamente do ponto em que o outro livro finalizou, sem recapitular a jornada já percorrida. Nesse contexto, foi demonstrado que a imaginação funciona como uma janela e não como uma fuga, e que o enganador cria prisões de irrealidade que simulam essa janela. Permanece, assim, uma indagação que aquele livro deixou em aberto, como uma porta apenas entreaberta: se Deus espalhou traços de sua presença por toda a cultura, em qual sentido preciso Ele se encontra ali? Será que o autor se encontra no livro, ausente nas palavras e presente apenas na intenção? Estará como a luz que passa pelo vitral, sem ser o vidro? Ou estará de uma maneira mais chocante e pessoal, incorporado nas próprias imagens, vivendo na residência de um homem de ferro, no sacrifício de um homem de aço, na lembrança de um homem que desceu à Terra? A ideia central deste volume é a terceira, apresentando uma proteção que a resgata da idolatria: Deus permite que seja internalizado em cada símbolo verdadeiro da cultura, habitando realmente nele, e ao mesmo tempo é infinitamente maior do que o símbolo onde consentiu residir. Ele se encaixa na imagem como o mar se encaixa em uma concha que a criança coloca perto do ouvido — a concha realmente guarda o som do mar, mas o mar não cabe na concha.
É fundamental considerar, desde o início, a magnitude do risco enfrentado por aqueles que se envolvem nessa questão, pois existem dois abismos e não apenas um, e a maioria apenas consegue perceber um deles. O primeiro abismo é a idolatria: tomar um símbolo — como o sol, um herói, a nação, o amor romântico ou a natureza — e render-se a ele como se fosse Deus, confundir a concha com o mar, adorar o dedo que indica em vez de prestar atenção ao que ele está indicando. Diante desse abismo, o mundo inteiro já recebeu alertas inúmeras vezes, e todos os pregadores estão cientes de como clamar. Porém, existe um segundo abismo, no lado oposto, do qual poucos falam: é o deísmo gelado, o pavor puritano à imagem, o receio de que reconhecer Deus em uma ilustração o degrade, fazendo com que, por conta disso, afaste Deus tão longe do mundo, tão alto e tão puro, que Ele deixa de se conectar com qualquer coisa, e a criação inteira se torna órfã, como um relógio sem seu relojoeiro, uma casa sem proprietário. O primeiro abismo transforma o símbolo em um ídolo; o segundo transforma o símbolo em um desperdício. A fé católica, que é a religião do e-também e se opõe às religiões do ou-ou, trilha um caminho delicado entre as duas afirmações: Deus está presente na imagem, e, ao mesmo tempo, Deus ultrapassa a imagem — ambas as verdades coexistindo sem deixar de lado nenhuma delas. Perder o equilíbrio para a direita é como acender velas para o pôr do sol; perder para a esquerda é acabar não percebendo Deus em nada, seja na hóstia, no semblante do pobre ou na chama de uma narrativa bem contada. Este livro é uma prática de equilibrar-se entre esses dois abismos.
É importante explicar por que um livro desse tipo é necessário exatamente agora, neste momento e não em outro qualquer. Jamais uma civilização consumiu tantos mitos quanto a nossa, e jamais uma soube tão pouco sobre o que estava consumindo. Os antigos possuíam poucos mitos e os liam com respeito: compreendiam que Prometeu acorrentado e Perséfone raptada traziam mensagens profundas sobre o fogo usurpado e sobre a morte que extingue a primavera, adentravam na narrativa com os olhos bem abertos e o coração receptivo. Nós temos à nossa disposição mais heróis, mais divindades, mais jornadas ao inferno e mais ressurreições se desenrolando diante de nós em uma única semana de rolagem de tela do que um grego presenciaria em toda a sua vida — e passamos por todos eles dormindo, com o polegar deslizando, consumindo o sagrado como se estivéssemos beliscando um salgadinho, sem sentir o gosto, sem reconhecer nada do que engolimos. É a fome em meio à fartura, o analfabeto sentado no interior da biblioteca, o peixe rodeado de água e morrendo de sede. O resultado é uma geração completa que recebe, diariamente, grandes quantidades de arquétipos, símbolos e ecos velados do Evangelho, mas não transforma nada disso em sustento porque ninguém lhe ensinou a digerir — que sente, na penumbra do cinema, aquela saudade indefinida da qual este livro tanto discorre, e a perde antes mesmo que as luzes se acendam. Este livro é imprescindível porque a colheita está pronta e há falta de ceifeiros; porque a cultura transborda de sementes do Verbo e quase ninguém se dispõe a recolhê-las; porque milhões estão sendo catequizados sem perceber, dia após dia, por meio de histórias que, de forma secreta, os preparam para Cristo, e saem da sessão sem ter encontrado Aquele que, à distância e sem palavras, lhes anunciava durante todo o tempo. Ensinar a desmistificar, a identificar o verdadeiro rosto por trás da máscara e a transformar a saudade em prece — é para isso que estas páginas existem, neste momento exato em que, ao mesmo tempo, nunca houve tanto alimento jogado ao chão e tantas pessoas sofrendo de fome em cima dele.
É importante esclarecer, desde já, quais são as intenções deste livro e quais não são, para que o leitor tenha consciência da jornada que está prestes a iniciar. Ele não tem a intenção de demonstrar que Deus existe — isso é algo que a razão pode fazer de outras maneiras, e o primeiro volume já abordou alguns desses caminhos. Deseja algo mais peculiar e mais pessoal: instruir o olhar. Ensinar a perceber o Deus que já está presente, oculto à vista de todos, inserido nas imagens que consumimos sem refletir, espalhado no que a inteligência ignora. A verdadeira dimensão da cultura, como afirmava o título do primeiro livro, possui um andar inferior, onde já demonstramos que a imaginação é uma janela e não uma fuga; e conta também com um andar superior, ainda mais profundo e vertiginoso, que é o foco deste texto, onde a questão não é mais se a imagem remete a Deus, mas sim como o próprio Deus conseguiu se inserir na imagem sem se limitar a ela. Trata-se de um livro que ensina a descobrir. Aquele que consegue encontrar Deus em uma concha de histórias simples está se preparando para reconhecê-Lo em todos os lugares — no semblante do necessitado, na hóstia branca, no adversário que deve ser perdoado, e no momento cotidiano que, de repente, se revela. A cultura é o espaço onde aprimoramos o nosso olhar; e este livro funciona como um guia para uma caça ao tesouro em que o tesouro se encontra em todos os lugares, pois o Criador de tudo, por amor, decidiu se revelar.
Para compreender como isso é viável, é necessário adentrar na base metafísica de toda essa teologia, uma base que o senhor dos mundos possíveis, São Tomás, já havia estabelecido: a doutrina das ideias divinas. Na visão divina, antes de qualquer época, existem não apenas as coisas que Ele fez, mas também todas aquelas que poderia ter feito — um oceano interminável de possibilidades, cada universo que poderia se encaixar em um Verbo eterno. Camelot está presente lá. A Terra-média está localizada ali. Krypton, com seu sol avermelhado e sua linhagem nobre, está presente ali. Não quero afirmar que existem universos paralelos independentes, compostos por matéria própria em algum lugar do cosmos — isso seria trocar a metafísica pela ficção científica, e a fé não necessita disso. Desejo expressar algo mais sério e intenso: esses mundos realmente existem como pensamentos divinos, como possibilidades que Ele observa e aprecia. Por essa razão, não são meramente criações inexistentes geradas do nada pela mente de um autor. Quando um homem sonha com um mundo melhor, ele não cria algo do nada; ele descobre, explorando, uma ilha que já existia no oceano do que Deus poderia criar. É por essa razão que algumas histórias carregam um peso de verdade que uma mentira nunca consegue alcançar: pois, sem que o autor tenha consciência, ele se inspirou em um original que existe na única mente onde tudo o que é possível já é, de certa forma, real.
É importante se debruçar sobre isso, pois é o núcleo metafísico de tudo que se segue, e nossa época o perdeu de uma maneira que a torna incapaz de compreender a própria arte que aprecia. Para o materialista, uma narrativa de fantasia é apenas uma ilusão, uma forma de entretenimento, uma maneira de escapar. No melhor cenário, é apenas uma bela atividade para mentes desocupadas; não se relaciona com nada que seja verdadeiro, pois, para ele, o que é real se limita apenas ao que pode ser mensurado. Pois bem, isso é uma carência filosófica de causar pena. Um triângulo perfeito não pode ser encontrado em nenhum lugar do mundo físico — todo triângulo que é desenhado é imperfeito, aproximado, feito de linhas com largura —, e ainda assim o triângulo perfeito é mais real e mais sólido do que qualquer triângulo desenhado com giz, pois suas propriedades são eternas e não dependem de nenhuma mão para existirem. Onde ele está, então? A ideia existe como um objeto de reflexão, e, em última instância, como um conceito na mente de Deus, que é o único espaço onde as essências permanecem eternamente. Pois então: se o triângulo é desse jeito, por que não Camelot? Por que não imaginar um mundo totalmente coerente, belo e habitado por virtudes que podemos conquistar? A diferença reside apenas na complexidade, e não no status. O que o gênio da literatura faz não é criar do zero — apenas Deus cria do zero —, mas sim sintonizar, como um rádio, uma frequência que já ressoa na mente divina, e transcrevê-la com mais ou menos precisão dependendo da pureza de sua alma. Por essa razão, um mundo mal concebido parece falso, enquanto um mundo bem concebido parece verdadeiro, mesmo que se reconheça que é uma invenção: aqui, a falsidade e a verdade não avaliam se algo realmente ocorreu, mas sim se aquilo é possível diante de Deus, se realmente faz parte do vasto oceano de mundos que Ele poderia validar.
E existe uma consequência disso que causa arrepios ao ser refletida com seriedade, devolvendo à imaginação sua sagrada dignidade. Se os mundos possíveis habitam a mente de Deus, então o autor que imagina um herói virtuoso está realizando uma obra genuína, e não uma obra falsa – ele está desvelando um santo que Deus poderia ter criado, explorando os contornos de uma vida reta que se encaixa no plano do que pode ser criado. O leitor que se emociona com esse herói não está sendo iludido por uma simples boneca de pano; está sendo impactado por algo que pode ser divino, por uma das muitas formas que a bondade de Deus poderia ter se manifestado em um ser. Assim, a grande literatura tem a capacidade de educar a alma de uma forma que nenhum tratado consegue: ela coloca diante de nós, através das personagens, o que é possível de Deus, e nos permite ensaiar, na segurança das páginas, as decisões que tomaremos, mais tarde, na incerteza da vida. A ficção é o espaço onde se desenvolve a virtude, uma espécie de simulador para a alma, o ambiente em que aprendemos a identificar a coragem, a lealdade e o sacrifício, antes de termos que colocá-los em prática de fato. E o materialista, que acredita estar acima da ilusão ao desprezá-la, na verdade está abaixo dela, cego para a única coisa que a torna valiosa: que ela é, quando é grandiosa, um vislumbre autêntico do que Deus imagina.
É necessário aqui abordar a objeção que o filósofo apresenta no momento, pois respondê-la é compreender a diferença que distingue o cristianismo de todos os panteísmos: não estou afirmando, como Platão, que as coisas são meras cópias pálidas de ideias eternas que existiriam por si mesmas, em um céu de conceitos independente de Deus; nem estou dizendo, como os místicos da fusão, que o mundo é uma parte de Deus, uma emanação que flui d'Ele como a luz que irradia do sol sem que o sol tenha a intenção disso. A distinção é completa: as ideias divinas não representam um céu adjunto a Deus, mas sim a própria essência de Deus reconhecendo-se e, em sua infinitude, compreendendo todos os modos pelos quais poderia ser refletido pelas criaturas; além disso, a criação não é uma emanação inevitável ou um transbordamento automático, mas sim um ato voluntário, um presente gratuito, uma escolha de amor que poderia não ter ocorrido. Deus não tinha a necessidade de criar; fez isso por vontade própria e conferiu às coisas uma existência que lhes pertence de verdade, que é verdadeiramente delas, e não apenas um fragmento do que é dele. É a doutrina da participação, e ela é o elemento central que permeia toda essa teologia: a criatura não é Deus, mas compartilha de Deus, recebendo d'Ele, a cada momento, a existência que não possui por si mesma; ela existe como um espelho reflete a luz — uma luz verdadeira, uma luz real, mas que não lhe pertence, que provém de fora e que se extinguiria no instante em que a Fonte deixasse de concedê-la. É por essa razão que Deus pode estar em todas as coisas sem que tudo seja Deus: porque está em tudo como a fonte está no raio, como o cantor está na música, presente e distinto, íntimo e transcendente, mais interior a cada coisa do que ela é a si mesma, e ao mesmo tempo infinitamente acima dela.
Não sou o primeiro a afirmar que Deus deixou marcas de Sua presença na cultura daqueles que nem O conheciam; essa é uma das doutrinas mais antigas dos Padres da Igreja e é conhecida como as sementes do Verbo. Desde os primórdios, quando os cristãos se depararam com a questão do que fazer com a beleza e a sabedoria dos pagãos — incluindo a filosofia grega, os mitos e a poesia —, houve quem afirmasse, com uma ousadia radiante, que o Verbo de Deus, que mais tarde se tornou carne em Cristo, havia espalhado sementes de verdade por toda a humanidade desde o princípio. Assim, tudo que os poetas e filósofos disseram a respeito do verdadeiro e do belo já era, ainda que sem a consciência disso, um vislumbre daquele Sol que ainda não havia surgido por completo. Sócrates, afirmavam, foi cristão antes de Cristo, pois viveu de acordo com o Verbo que foi semeado; e o que havia de valor em Platão era uma propriedade que foi tomada, um ouro que já pertencia à Igreja antes mesmo de ela existir. Pois bem, o que esta obra realiza com as histórias em quadrinhos e os filmes é exatamente o que os Pais da Igreja fizeram com Homero e Platão: identificar neles as essências do Logos, os raios de luz antes do dia nascer, e trazê-los para a Igreja como se estivesse recolhendo algo que sempre lhe pertenceu. A cultura pop pode ser vista como a mitologia dos pagãos modernos, repleta de sementes do Verbo, assim como a mitologia grega. O cristão que é capaz de ler não a ignora nem se perde nela — ele coleta as sementes, descarta a casca e as semeia no único terreno que proporciona frutos eternos.
Daqui surge, com a exatidão de um compasso, a imagem que denomina a mais elevada dimensão da teologia da imaginação: o santo dos sonhos. Se os mundos possíveis habitam a mente de Deus, e se nessas esferas podem existir seres que alcançam a máxima virtude, então, nesses mundos, realmente existem santos — indivíduos que, nesse universo dos sonhos, se santificaram praticando o bem e rejeitando o vício. O santo do sonhar não é apenas o protagonista da narrativa; ele representa a santidade que pode existir naquele universo transformada em personagem. E aqui encontramos um recurso narrativo que, ao mesmo tempo, representa uma verdade espiritual: um herói pode vir ao mundo com todas as características para se transformar em um monstro e, em vez disso, pode se santificar por meio de seus próprios poderes, utilizando seu dom como um passo em direção ao bem, ao invés de usá-lo como uma ferramenta para o poder. O Superman é o exemplo ideal, e isso não é mera coincidência, sendo ele o primeiro. Ele poderia aniquilar a Terra; poderia ter se convertido no tirano que outras versões de si mesmo, em outros mundos possíveis, realmente se tornaram — o Superman que se transforma em ditador, o Superman soviético, o filho do sol que opta pelo poder. Ele refuta isso a todo momento. Realizo isso em prol do bem da humanidade, revela o seu gesto por completo. E nesse ato de negação, nessa recusa diária ao poder, ele se torna sagrado — e essa sua santidade não é menos verdadeira por ocorrer em um mundo de ilusões, pois a virtude é virtude onde quer que uma vontade opte pelo bem.
E observe que os próprios quadrinhos, mesmo sem perceber que estavam abordando temas teológicos, exploraram profundamente essa divisão, retratando lado a lado o santo e o tirano que surgiram do mesmo contexto. Existe uma versão em que o garoto de Krypton não aterrissa em uma fazenda de pessoas simples e devotas, mas sim sob a influência de um regime, crescendo para se tornar o braço forte de uma utopia imposta à força — a mesma potência, a mesma força capaz de mover planetas, agora a serviço da prisão em vez do lar. Existe a versão em que, ao ter perdido tudo o que amava por um instante de desatenção do mundo, ele decide que nunca mais permitirá essa desatenção. Assim, estabelece uma tirania global de vigilância total, onde ninguém sofre porque ninguém é livre — o inferno, como sempre, pavimentado pelas melhores intenções. O que é realmente assustador é que essas versões não são exageros: são realidades possíveis daquele mesmo homem, ramificações que surgem do mesmo tronco, dependendo de para qual lado sua escolha se incline. O que distingue o santo sonhador do tirano sonhador não é o talento, que é o mesmo; mas sim a resposta, reiterada a cada instante, à única questão que realmente vale: eu sirvo ou eu domino? Meus esforços se alinham à verdade e ao bem que vão além de mim, ou eu moldo a verdade e o bem de acordo com o meu poder? Toda a diferença entre o céu e o inferno se resume a essa dobradiça, e a cultura pop, ao apresentar o mesmo herói como salvador e tirano, está educando os jovens sobre a mais essencial das lições sem que os educadores profissionais ao menos se deem conta.
De onde é que provém essa santidade que resplandece no personagem? Aqui a situação se complica, e é necessário abordar o assunto com cautela. O santo do sonhar é um espelho refletor — um espelho que devolve o bem de Deus como ele existe na alma do narrador. Todo escritor, todo artista, todo criador de mundos possui, como qualquer ser humano, uma parte sagrada e uma parte machucada; e ao criar um herói virtuoso, é a parte sagrada de sua própria alma que ele realça, purifica e expressa em um rosto. O herói é, de um modo estrito, a santidade que o autor pode alcançar, tornada perceptível — o que ele seria se não tivesse receios em relação ao seu melhor. Assim, esses personagens não são meramente fruto da imaginação: eles expressam um bem que é verdadeiro na essência de quem os criou, e esse bem, por sua vez, é um reflexo do verdadeiro Bem que habita em toda alma moldada à imagem de Deus. É um espelho que reflete outro espelho que também reflete a luz do Sol. E é por isso que observar um herói pode, de fato, aprimorar quem observa: porque o leitor, ao admirar a coragem retratada, admira, sem perceber, o traço de Deus que passou pela alma do autor até chegar à página, e é incentivado a permitir que esse mesmo traço se desenvolva em sua própria alma. A cultura, quando é vasta, se assemelha a uma corrente de espelhos, e no fundo de cada um deles brilha o mesmo Rosto.
É fundamental designar a lei espiritual que orienta toda essa transformação do herói e do ser humano, pois ela é a chave mestra da teologia católica e o que a distingue de todo puritanismo: a graça não aniquila a natureza, mas a eleva. Deus não oferece a salvação ao homem eliminando sua essência, limitando seus talentos, retirando suas paixões ou esvaziando-o de vigor para preenchê-lo com uma fraqueza que se apresenta como santidade; ao contrário, Ele o salva acolhendo tudo que o homem é, elevando-o, curando sua natureza ferida e, em seguida, coroando-o. Assim, o santo não é um homem a menos, mas sim um homem a mais, um ser que alcançou sua plenitude. É por esse motivo que os verdadeiros santos raramente são aqueles apáticos, sem graça ou mornos; na verdade, costumam ser aqueles com um temperamento mais intenso, mais colérico, mais apaixonado, e que podem cometer grandes pecados justamente por serem capazes de um amor profundo — apenas a graça direcionou toda essa força para Deus. O mesmo fogo que transforma um tirano em um mártir; a mesma obstinação que leva um criminoso a agir, também cria um confessor firme na fé; a mesma ânsia por grandiosidade que destrói o orgulhoso pode salvar o santo, quando essa busca é redirecionada da glória pessoal para a glória de Deus. Pois bem, é precisamente isso que uma boa história de herói retrata, mesmo que sem intenção de ensinar: não um covarde sortudo, mas uma grande força, capaz de transformar o mundo, totalmente dedicada ao amor e a serviço dos menos favorecidos. O santo do sonhar é a força da natureza aperfeiçoada pela graça, sem ser substituída por ela; e é por isso que ele nos toca tão profundamente — porque sentimos, ao contemplá-lo, que também a nossa força, nossa paixão, toda a nossa sombra não precisa ser eliminada para que possamos ser salvos, mas sim entregue, purificada, elevada. A graça não deseja menos de você; ela quer que você seja completo, entregando-se por inteiro a Deus.
E é importante ressaltar que não estou trazendo nenhuma novidade que seja estranha à Igreja, mas sim algo que é profundamente enraizado na antropologia cristã: o fato de que o homem é a imagem e semelhança de Deus, e que essa imagem, ao criar, reflete o Criador. O que a teologia da imaginação traz é apenas a ousadia de considerar isso de forma séria dentro de uma história em quadrinhos. Se o homem é a imagem de Deus, então o que ele cria de positivo também é imagem da imagem, reflexo do reflexo; e a origem do bem que se manifesta em um herói pode ser acompanhada, passo a passo, até sua fonte. É a mesma lógica da liturgia, a propósito. A razão pela qual a Igreja celebra a missa repetidamente, século após século, está ligada à sua importância como um momento de comunhão com Deus e de celebração da fé. A missa é vista como uma renovação do sacrifício de Cristo, permitindo que os fiéis tenham uma experiência espiritual contínua e uma oportunidade de receber a graça divina. Além disso, a repetição da missa ao longo do tempo ajuda a preservar e transmitir os ensinamentos da Igreja, garantindo que as tradições e a espiritualidade sejam mantidas vivas entre as gerações. Não por desinteresse nem por encantamento, mas porque o ser humano só absorve o conceito de bem e mal ao observar exemplos, resgatando mitos e voltando a se conectar com os heróis das narrativas sagradas para se alimentar delas. O fiel retorna a Abraão, a Moisés, a Davi, aos mártires, e, reflexo após reflexo, vai se moldando, tornando-se cada vez mais virtuoso, até chegar ao único modelo que não reflete ninguém, pois é o próprio Original: Cristo. A observação dos heróis, quando feita de maneira adequada, se transforma em uma escada de rostos que eleva até o Rosto; e a cultura pop, sem perceber, funciona como uma catequese primitiva que ensina aos jovens os degraus mais simples dessa mesma escada.
Não sou o primeiro a perceber que os super-heróis atuam como uma hagiografia da era contemporânea, contando a vida dos santos para um mundo que já não consegue interpretar histórias de santos. Houve acadêmicos que se dedicaram a investigar, com surpresa, quantos dos autores de quadrinhos vivenciaram, eles próprios, experiências que podem ser consideradas místicas ou paranormais — visões, sincronicidades, encontros com o invisível — e de que maneira despejaram em seus heróis, camufladas sob a forma de raio cósmico e aranha radioativa, suas próprias intuições sobre os poderes ocultos na alma humana. O mutante que reconhece em si uma força que o apavora e o afasta dos demais; o jovem comum que, por um golpe do destino, é alterado e aprende na dor que um grande poder vem acompanhado de uma grande responsabilidade — que é uma reformulação secular e precisa do Evangelho, a quem muito foi dado, muito será cobrado; o exército completo de personagens dotadas de habilidades que as diferenciam dos outros e as impõem a mesma escolha de sempre, entre servir e dominar. Tudo isso se refere à linguagem, que é parcialmente recordada e parcialmente criada, dos carismas — os dons do Espírito mencionados por São Paulo, as graças que são concedidas gratuitamente não para benefício de quem as recebe, mas para o serviço de todo o corpo. O verdadeiro santo é o verdadeiro mutante: uma pessoa que foi atingida por uma força que não lhe pertence, que a distingue, que a isola, que a torna visível para o mundo, e em relação à qual ela só tem duas opções — usar essa força em benefício dos outros e se santificar, ou usá-la em benefício próprio e se transformar em um monstro. A cultura pop, ao narrar incessantemente essa história, está educando o mundo sobre a essência da santidade, enquanto este, distraído, acredita que está apenas se divertindo com fantasias de pessoas vestindo collant.
E aqui está a razão fundamental pela qual é tão importante quem narramos e como narramos, e por que a destruição dos heróis não é um mero capricho, mas sim um crime espiritual — algo que abordaremos com mais detalhes e nomes em um momento posterior. Se o herói é um degrau da escada que leva até Cristo, então desmerecê-lo, manchá-lo com lama, demonstrar que, na verdade, ele era egoísta, covarde, hipócrita, motivado por interesses, é cortar um degrau da escada pela qual as almas ascendiam. A criança que admira o forte que se torna servo está, sem perceber, praticando a admiração pelo Deus que se fez servo; o adolescente que se toca com o sacrifício do herói está preparando o coração para, um dia, se emocionar com o sacrifício da cruz. Remova-lhe o herói, mostre-lhe que todo forte não passa de um explorador disfarçado e que todo sacrifício é uma tolice de tolo, e você não terá feito o jovem mais lúcido — terá, na verdade, amputado dele o órgão com o qual reconhecemos a santidade, e o entregará adulto e cínico, incapaz de se ajoelhar diante de qualquer coisa, pois aprendeu cedo demais que ajoelhar-se é coisa de quem é ingênuo. A batalha pelos ícones da cultura é, em essência, uma luta pela habilidade humana de venerar; e aqueles que atuam do lado obscuro compreendem perfeitamente, ou se submetem a quem entende, o que realmente estão tentando eliminar.
Entretanto, os espelhos também refletem com fidelidade as sombras, e aqui surge uma distinção que a psicologia simbólica não pode omitir: cada herói representa uma virtude, mas traz consigo a sua própria fraqueza. Considere uma figura solar por excelência: o Homem de Ferro. Tony Stark é como o sol encarnado: possui uma fortuna capaz de transformar o mundo, detém um conhecimento que ultrapassa todas as fronteiras do que é humanamente possível, e exala o brilho, o calor, a generosidade e a exuberância do astro-rei. Ele é, praticamente, a representação solar do cosmos em forma humana — uma daquelas bases da estrutura da realidade que Jung, conforme sua perspectiva, denominou arquétipos, e que realmente existem nos reinos do sonho. Entretanto, o sol possui seu defeito, e esse defeito solar é conhecido como soberba, a intoxicação pelo próprio esplendor. Tony Stark é, nas palavras do quadrinho, um homem que se entrega à embriaguez — seja com álcool, substâncias ou a vaidade que, na Guerra Civil, o impulsiona a querer dominar todos os outros heróis em nome de uma ordem que, na essência, é apenas a sua. Ali se revela, despido, o vício do sol: o poder que, sem santidade, queima em vez de aquecer, ofusca em vez de iluminar, controla em vez de servir. O homem sagrado dos sonhos e o tirano dos sonhos têm origem na mesma habilidade; o que os distingue é a única coisa que sempre afastou o santo do maligno — não a capacidade, mas as escolhas que se faz com ela.
É importante compreender por que essa linguagem das correspondências não se trata de superstição, mesmo que os supersticiosos a utilizem de maneira inadequada. A antiga tradição, assim como a cristã que a sucedeu, sempre interpretou o cosmos como uma partitura onde tudo está em harmonia: o sol no alto, o ouro na Terra, o leão acima dos animais, o rei entre os homens, o coração no corpo e a generosidade na alma compartilham uma mesma essência — a essência solar — expressa em diferentes níveis, do mineral ao espiritual. Marte possui rimas com o ferro, com a guerra, com a cólera e com a coragem; Saturno combina com o chumbo, com o tempo, com a melancolia e com a sabedoria carregada dos mais velhos; Vênus rima com o cobre, com o verde, com o amor e com a beleza. Não se trata de que os astros governem nossas vidas, como sugere a astrologia das páginas de jornal — isso sempre foi negado pela fé, pois a alma é livre e Deus está acima das estrelas —, mas sim que Deus compôs o mundo como um poema, e em um poema as palavras se entrelaçam, e as rimas não são fruto do acaso, são a marca do autor. Esses feixes de correspondência à psicologia simbólica da percepção, essa linha característica do Círculo de Estudos, proporciona um uso claro e sagrado: empregá-los como caminhos, como tonalidades pelas quais cada alma se aproxima de Deus pela entrada que mais lhe ressoa — o colérico pela via marcial da luta contra o pecado, o melancólico pela via saturnina da contemplação da morte e da eternidade, o magnânimo pela via solar da generosidade. O erro não está em notar as rimas; está em se fixar nelas, em prestar atenção à nota em vez de ouvir a sinfonia, em venerar o dedo em vez de seguir para onde ele indica.
E a cultura, ao sonhar intensamente, retrata esse vício solar como um personagem distinto, para que se possa confrontá-lo diretamente. No mais grandioso poema em quadrinhos já criado sobre o Homem de Aço, quando o próprio sol da Terra adoece e coloca em risco a vida que deveria manter, o último inimigo se revela, e seu nome é sol: um astro tirano, uma inteligência estelar que busca dominar sozinha o céu e extinguir toda e qualquer outra luz. É o sol elevado ao seu extremo maligno — não o sol que aquece e se entrega, mas o sol que demanda adoração e não tolera concorrência, a estrela que se transformou em faraó. E não é por acaso que, na mesma narrativa, o herói solar por excelência triunfa sobre esse falso sol não com mais força, mas sim com mais entrega: desprendendo-se completamente, permitindo-se ser consumido pelo próprio astro para curá-lo, morrendo como sol para renascer como algo maior. O opressor dos sonhos deseja ser o foco; o virtuoso dos sonhos se contenta em ser o combustível. Toda a distinção entre o inferno e o céu se resume a esta preposição: um deseja que tudo orbite ao seu redor, enquanto o outro se permite queimar para que os demais possam viver. E o sol verdadeiro, aquele do qual ambos os astros são apenas sombras e vislumbres, não é nenhum dos dois, mas aquele que o profeta Malaquias referiu como o Sol de Justiça que surge trazendo a cura debaixo de suas asas — o único que pode ser adorado sem que se caia em idolatria, pois não é um dos nomes de Deus, é o próprio Deus se apresentando para aquecer um mundo congelado.
E é oportuno mencionar com mais calma o que constitui essa psicologia simbólica da percepção, essa abordagem peculiar do Círculo de Estudos que já mencionei, pois nela se encontra uma ferramenta de santificação que a nossa época, insensível ao símbolo, desaprendeu. A concepção é clara e extremamente antiga: a alma humana não é uma folha em branco nem uma calculadora; é um instrumento afinado internamente de acordo com as mesmas notas que harmonizam o universo, de forma que cada indivíduo vibra mais intensamente com uma ou outra das grandes cordas da criação — um se parece mais com o Sol, inclinado à generosidade, ao brilho e ao comando; outro tem uma natureza mais saturnina, ligada à profundidade, à melancolia e à reflexão; outro possui um caráter mais bélico, voltado para a luta, a justiça e a ira; e há aqueles que são mais venusinos, conectados à beleza, à ternura e ao amor. E a verdadeira essência da vida espiritual não consiste em forçar essa harmonia, em tentar ser algo que não somos, mas sim em reconhecê-la e purificá-la, ascendendo a Deus pela corda que ressoa mais intensamente dentro de mim, transformando a minha própria natureza em um caminho e não em um impedimento. A pessoa colérica não se torna santa apenas se disfarçando de mansa e reprimindo a raiva a ponto de adoecer; ela se santifica ao direcionar a cólera contra o seu próprio pecado e contra a injustiça, convertendo essa raiva em zelo. O melancólico não se santifica ao tentar impor uma alegria falsa; ele se santifica ao mergulhar, por meio de sua própria tristeza, na reflexão sobre a morte e a eternidade que os alegres superficiais nunca conseguem atingir. É por essa razão que os símbolos da cultura realmente têm significado para a alma, e não são meros objetos descartáveis: cada arquétipo que me toca indica qual é a minha essência, por onde Deus me alcança com mais facilidade, qual caminho de santidade é aquele que carrega o meu nome. Refletir sobre os amores culturais que nos tocam profundamente — quais heróis nos emocionam ao ponto de nos fazer chorar, quais histórias nos assombram, que imagens permanecem em nossa memória muitos anos depois — é, quando feito com atenção, uma maneira de fazer uma autoavaliação, um guia para entendermos nossa própria essência e as possibilidades de acolher a graça em nossas vidas. O que essa psicologia traz à antiga ascética não é nada inovador ou herético; é apenas a ousadia de interpretar esse mapa também nas histórias em quadrinhos e nas telonas, e de utilizar a cultura como um reflexo onde a alma se reconhece e como um patamar pelo qual ela avança.
E existe, ligada a essa harmonia da alma, uma outra forma de expressão que a arte utiliza constantemente e que a fé pode nomear sem receio: a dos tons e das iluminações, a psicologia das cores da imaginação. Não me refiro à ideia absurda de que uma determinada cor gera automaticamente uma emoção específica em todos, algo que parece mais um mito de livros de decoração; falo de algo mais profundo e mais genuíno, que todo grande narrador de imagens compreende intuitivamente, sem depender de teorias. A luz e a sombra, o calor e o frio, o claro e o escuro não são, na verdadeira arte, meras tintas: são a gramática visível da alma. O herói aparece iluminado por uma luz dourada, e a alma reconhece, antes mesmo de qualquer palavra ser proferida, a presença do bem; o vilão surge delineado em um azul frio ou em um vermelho ardente, e a alma percebe o perigo antes de compreendê-lo racionalmente. A escuridão que abafa uma cena não é apenas a ausência de luz; é a treva moral manifestada, um mundo sem Deus representado diante dos nossos olhos. E a luz que quebra essa escuridão, aquele raio que atravessa a nuvem densa no momento preciso da salvação, é a graça transformada em fóton, a esperança que se pode perceber com os olhos físicos. De fato, as Escrituras sempre expressaram essa mesma mensagem: Deus é luz, e nele não existe qualquer escuridão; o povo que caminhava nas sombras avistou uma grande luz; a luz resplandece nas trevas, e as trevas não puderam extingui-la. O cinema, ao retratar com luz e sombra a eterna batalha entre o bem e o mal, está expressando, sem perceber, o verdadeiro dialeto do Evangelho de João; e o cristão que tem compreensão não assiste apenas a um espetáculo de belos efeitos de luz, mas contempla uma teologia em movimento, reconhecendo, na luz que dissipa a escuridão do terceiro ato, o mesmo Verbo que, no início, proclamou que houvesse luz — e a luz se fez, e Ele viu que era boa.
É necessário reconhecer com gratidão o que há de verdadeiro nessa interpretação simbólica, mesmo que ela provinda de fontes pagãs ou junguianas, pois ela toca uma realidade que a fé compreende: a de que a criação está repleta de correspondências, que as coisas se conectam entre si, que o sol no céu e o ouro na terra, assim como o coração generoso do herói, fazem parte de uma mesma melodia tocada em oitavas distintas. A tradição cristã sempre reconheceu isso; interpretou-o como o sinal dos anjos que regem as causas secundárias, como a marca do Verbo por meio do qual tudo foi criado e em quem tudo encontra sua essência, como a harmonia que transforma o universo em um cosmos, ao invés de um caos. O que a fé agrega, e sem a qual tudo isso se transforma em astrologia de bar, é que essas correspondências são marcas, não governantes; são o alfabeto com o qual o mundo pronuncia o nome de Deus, e não divindades a serem adoradas. O solar, o marcial e o mercurial representam modos, caminhos e tonalidades da luz branca — e utilizá-los como etapas de santificação, aproximando-se de Deus pela via que mais ressoa com cada alma, é uma sabedoria antiga; confundi-los com o Fim é uma das mais antigas formas de idolatria.
Antes de apresentar essa tese central, é necessário incluir entre os caminhos que a alma percorre em direção a Deus uma alternativa que a nossa época seca quase deixou de lado, e que é a mais característica de toda essa teologia da cultura: o caminho da beleza. Os antigos ensinavam que existem três grandes conceitos pelos quais o ser se conecta ao espírito — o verdadeiro, o bom e o belo —, e que, na essência, todos eles são idênticos, sendo que essa identidade é Deus: Ele é a Verdade que a inteligência anseia, o Bem que a vontade almeja, e a Beleza que cativa o coração antes mesmo de a inteligência compreender e da vontade decidir. E a beleza possui um poder que as outras duas não possuem: ela seduz sem ferir, desliza pelos olhos e ouvidos antes de tocar a porta da razão, e por isso é a mais eficaz das maneiras, a única que ainda consegue atingir aqueles que já fecharam a porta para o argumento e para a norma. Um homem que já não escuta um sermão, que ri de uma evidência da existência de Deus, que se aborrece com um mandamento como se fosse uma coleira, pode ser surpreendido por uma catedral, por uma sinfonia, por um conto bem narrado, por um herói que o leva às lágrimas sem que ele consiga explicar o motivo — e naquele arrepio, naquela lágrima inesperada diante da beleza, Deus já conseguiu ultrapassar sua defesa, já semeou uma saudade que a razão sozinha jamais conseguiria cultivar. É por isso que a cultura é tão significativa, e não se trata apenas de algo superficial ou de um passatempo: a beleza é uma verdadeira via que conduz a Deus, talvez a principal nos dias de hoje, a última estrada larga ainda disponível em um mundo que fechou as outras; e um herói que toca o coração, uma canção que emociona, uma história que provoca uma saudade indefinida, estão realizando, no íntimo de milhões que já não frequentam mais as igrejas, o trabalho preliminar e oculto da graça — abrindo, por meio da beleza, uma fresta por onde depois podem adentrar a verdade e o bem. Aqueles que menosprezam a beleza da cultura como algo insignificante não percebem que estão subestimando a conexão que, neste momento, mais almas estão sendo atraídas para algo maior.
E aqui estamos no cerne deste livro, na ideia que lhe confere o nome, e é fundamental expô-la com toda a intensidade. O Deus cristão não pode ser classificado como solar. Nem de maneira mercurial, nem saturnina, nem marcial, nem de qualquer uma das faces que os antigos atribuíram às forças do cosmos. Por qual razão? Porque Ele é o Todo — o equilíbrio supremo e a origem de todas as virtudes que os símbolos compartilham entre si. O sol é bondoso, mas incendeia; Saturno é prudente, mas consome; Marte é poderoso, mas aniquila; Mercúrio é veloz, mas ilude. Cada poder simbólico representa uma virtude acompanhada de sua sombra, uma nota que se destaca à custa das demais. Deus não é simplesmente uma nota, por mais elevada que possa ser; Ele é o acorde completo, a mão que o toca e o silêncio de onde tudo surge. Ele possui toda a generosidade do sol, mas sem a queimadura, toda a justiça de Marte, mas sem a crueldade, toda a profundidade de Saturno, mas sem o peso mortal, pois n'Ele as virtudes não se excluem, mas se abraçam em uma simplicidade que os pagãos, amarrados ao símbolo, nunca conseguiram alcançar. Por isso se trata de idolatria — a mais sutil e a mais comum das idolatrias intelectuais — restringir Deus a um arquétipo, transformá-Lo no grande Sol, no grande Pai-Céu, no grande Arquiteto. Ele está além disso, assim como o branco está acima de cada cor do arco-íris: presente em todas, mas não preso a nenhuma.
É fundamental compreender por que isso não se trata de um mero jogo de palavras, mas sim da distinção que separa o Deus verdadeiro de todos os ídolos. Nas criaturas, as virtudes se restringem mutuamente, pois a criatura é finita e não consegue abarcar todas ao mesmo tempo: para ser justo com rigor, o juiz precisa silenciar a misericórdia por um momento; para ser amável, o gentil muitas vezes renuncia a uma certa dose de firmeza; a coragem que não se transforma em temperança se torna temeridade, e a prudência que não se converte em coragem se transforma em covardia. Somos compostos por virtudes que se equilibram como pesos em uma balança, e por isso nenhuma pode se expandir sem que outra precise recuar — o excesso de uma resulta sempre na carência de outra. Em Deus, a realidade é diferente, e aqui está o surpreendente: n'Ele, a justiça se manifesta como misericórdia, a força se revela na mansidão e a sabedoria se expressa no amor. Isso acontece porque Ele não possui virtudes como um cofre guarda moedas, separadas e contáveis; Ele é a própria virtude, é o Bem absoluto, de onde todas as virtudes brotam como os raios de um só sol. Isso é o que os teólogos se referem como simplicidade divina, uma noção que é, ao mesmo tempo, a mais complexa de entender e a mais essencial de aceitar: em Deus não existem partes, não há uma fração justa e outra bondosa que possam estar em conflito, mas sim um único ato infinito de ser que é, de maneira simultânea e sem qualquer contradição, tudo aquilo que nas criaturas se manifesta de forma fragmentada e em luta. Por essa razão, nenhum arquétipo O possui: o arquétipo é sempre uma nota, e Ele representa a origem da música.
E se perguntarmos qual é, então, o nome próprio desse Deus que não se identifica com nenhum dos nomes, a metafísica cristã oferece a resposta mais simples e ao mesmo tempo mais intrigante que se poderia dar: seu nome é o Ser. Quando Moisés, diante da sarça que queimava sem se consumir, indagou a Deus qual era o Seu nome, a fim de transmiti-lo ao povo, a resposta não foi um nome como os outros, nem um título entre os títulos dos deuses do Egito; foi Eu Sou o que Sou — Aquele que é. Os doutores da Igreja analisaram essa frase minuciosamente e chegaram à conclusão de que todas as criaturas possuem o ser, mas nenhuma é o ser em si. A pedra possui existência, a estrela possui existência, o anjo possui existência, mas todas obtiveram isso de fora; todas poderiam não ter existido. Cada uma delas mantém seu ser como alguém que segura, com a palma da mão, uma água que escorre e necessita ser reabastecida a cada momento. Apenas Deus não é um ser, mas sim o Ser, o ato de existir em sua essência, subsistindo sem causa, sem um fio que escorra, sendo a fonte da qual tudo o mais recebe, a cada momento, a existência concedida. E é por essa razão, exatamente por essa razão, que Ele não é solar, nem marcial, nem nada em particular: porque tudo que é particular é uma maneira limitada de ser — ser isso e não aquilo, ser sol e não mar, ser força e não mansidão —, e Ele não é uma maneira de ser, é o ser sem maneira e sem limites, a plenitude simplíssima de onde todos os modos emergem repartidos. Chamá-Lo de sol é expressar uma verdade limitada; referir-se a Ele como Aquele que é é afirmar a única verdade que não O constrange. O Todo que este livro busca tem, no final, este nome sem representação: não uma entidade suprema entre as entidades, mas o vasto oceano do ser no qual todas as entidades flutuam, mais próximo de cada uma do que ela é de si mesma, e infinitamente além de todas.
E, no entanto — e essa é a outra parte do mistério, sem a qual a primeira se torna um deísmo gelado — esse Deus que não se encaixa em nenhum símbolo permitiu que fosse assimilado em todos eles. Esse é o paradoxo do Deus Cultural, que se assemelha ao paradoxo da Encarnação, porém aplicado ao âmbito dos signos. O Verbo que ultrapassa toda representação tornou-se imagem; o Deus que não se limita a nenhum nome aceitou ser invocado por mil nomes. A profunda teologia da Igreja sempre compreendeu isso, e Dionísio, o Areopagita, apresentou a formulação precisa: Deus é denominado por todas as coisas e por nenhuma delas; podemos nos referir a Ele como rocha, leão, sol, fonte, fogo, uma vez que Ele é a origem de tudo isso e aspectos de cada coisa O refletem. Contudo, ao mesmo tempo, devemos recusar cada um desses nomes, pois Ele os supera infinitamente. É a combinação da afirmação e da negação em um belo balé: expressamos tudo sobre Deus e ao mesmo tempo negamos tudo, e é nessa dança que a alma se aproxima do que nenhum conceito pode tocar. Pois bem, é precisamente isso que a cultura realiza, mesmo sem perceber que pratica teologia: ela incorpora Deus na figura de um herói, no salvador de um outro, no mantenedor de uma ficção — e cada uma dessas representações é um nome verdadeiro, embora inadequado, do Inominável. A missão do cristão em relação à cultura é, portanto, ao mesmo tempo dupla e singular: identificar Deus em cada símbolo onde Ele se revelou, e recusar-se a limitá-Lo a qualquer um desses símbolos. Encontrar o mar dentro da concha, sem confundir o mar com a própria concha.
E observe como é produtiva essa dança de duas vias quando aplicada a uma imagem concreta, para não permanecer no abstrato. Referimos a Deus como rocha — e isso é verdadeiro: Ele é sólido, é sustento, é a base que nunca se abala, o abrigo onde a alma enfrenta a tempestade. Entretanto, é necessário corrigir: Deus não é uma rocha, pois a rocha é inanimada, é cega, é dura e sem afeto, enquanto Ele é vivo e infinitamente amoroso. Nós o chamamos de fogo — e isso é verdade: ele consome a impureza, aquece o frio, ilumina a escuridão e queima sem se extinguir. No entanto, é importante destacar: Deus não se assemelha ao fogo, pois o fogo queima sem intenção, não faz distinção do que incendeia, não nutre afeição pela madeira que consome, enquanto Ele purifica por meio do amor a cada elemento que encontra. Nós o chamamos de pai — e essa é a designação mais autêntica de todas, aquela que o próprio Filho nos revelou. E ainda assim é necessário corrigir, com Dionísio: Deus não é pai como os pais da terra, que envelhecem, que cometem erros, que às vezes ferem; Ele é a fonte de onde toda paternidade origina seu nome, e a ultrapassa infinitamente. Esse vai e vem não é ceticismo, não é afirmar que nada sabemos sobre Deus; é a maneira precisa de conhecê-lo: afirmar tudo que há de perfeito em cada imagem, negar todo o limite que essa imagem possui, e ser conduzido, por esse duplo movimento, além de qualquer imagem, em direção àquele que é mais do que tudo que se pode dizer a respeito dele. A cultura proporciona à alma uma multiplicidade interminável de imagens; a fé instrui a alma a utilizá-las todas sem se fixar em nenhuma.
E é importante observar, antes de prosseguir, que a própria Escritura é a pioneira e a mais audaciosa praticante dessa arte de incorporar Deus nas imagens. Assim, quem se escandaliza ao encontrar Deus em uma ilustração precisaria rasgar metade da Bíblia. Como o texto sagrado se refere a Deus? Chame-O de rocha e de fortaleza, de proteção e de espada, de pastor que carrega a ovelha nos ombros e de leão que ruge da tribo de Judá, de águia que ensina os filhotes a voar, empurrando-os do ninho, e de galinha que reúne os pintinhos sob as asas, de fogo ardente e de orvalho que cai suavemente na manhã, de esposo zeloso e de juiz sentado no tribunal, de oleiro que molda o barro e de rei em seu trono, de luz inacessível e de trevas densas onde Ele reside, de vinha, de porta, de caminho, de pão vivo que desceu do céu. A Escritura é um verdadeiro dicionário repleto de imagens extraídas da criação e entregues de volta a Deus, um verdadeiro festival de metáforas audaciosas, algumas quase chocantes em sua concretude — Deus que se arrepende, Deus que assobia para convocar os povos distantes, Deus que ri no céu dos que tramam, Deus que desperta como um guerreiro embriagado de vinho. Pois bem, se o Espírito Santo, que é o autor das escrituras sagradas, não hesitou em incluir Deus na rocha, no leão, na águia, no fogo e no pão, e nos ensinou a orar usando essas imagens, ciente de que nenhuma delas o encerra, que direito tem o cristão devoto de desdenhar de quem vê o mesmo Deus refletido em um heroísmo de uma narrativa simples ou no salvador de uma história em quadrinhos? A cultura, em seu nível mais profundo, não realiza nada essencialmente diferente do que um salmo: toma algo que foi criado e o utiliza como um nome reverente do Incriado. A única diferença é que o salmista tem plena consciência do que está fazendo, enquanto o autor do gibi não tem essa clareza; mas o Deus que se revela no leão do salmo é o mesmo que aparece no herói do quadrinho, e o cristão maduro consegue reconhecer seu Senhor em ambas as representações, sem se prostrar diante de nenhuma delas — apenas diante d'Aquele que ambas, mesmo à distância e sem perceber, retratam.
Disto surge um princípio milenar que a Igreja aprendeu desde os primórdios e que a nossa era covarde deixou de lado: o de privar os egípcios de seus bens. Quando o povo de Deus deixou o cativeiro no Egito, levou consigo, por determinação do próprio Deus, o ouro e a prata dos egípcios — e com esse ouro, extraído da terra da escravidão, mais tarde confeccionou os utensílios sagrados do culto, os itens do tabernáculo onde a glória de Deus deveria repousar. Os grandes doutores da Igreja interpretaram isso como uma parábola sobre como o cristão deve lidar com a cultura dos não crentes: não deve fugir dela com aversão, como se tocá-la o contaminasse — isso é medo, e o medo não é cristão —, mas deve adentrar essa cultura como alguém que entra na casa do egípcio, recolhendo o ouro que ali se encontra, a verdade, a beleza, a sabedoria, o genuíno vislumbre de Deus oculto no meio da idolatria, e levá-lo consigo, purificá-lo no fogo, e, com ele, criar vasos para o altar. A falha do puritano é despediçar o valioso ao lado do falso, incinerar toda a biblioteca por conter algo nocivo, rejeitar Homero, Platão, o cinema, os quadrinhos e o rock, como se fossem áreas do inimigo nas quais o cristão não deve entrar. O erro contrário, do sincretista, é venerar o ídolo juntamente com o ouro, aceitar a cultura completa sem análise, considerar como igualmente bom tudo o que brilha. E entre os dois, encontra-se a arte católica de sempre, a mais desafiadora: adentrar sem receios, pegar o ouro, abandonar o ídolo e transformar o que foi adquirido em um vaso de altar. É isso que este livro se propõe a realizar, página por página, com o tesouro presente na cultura pop: despojar os egípcios contemporâneos e conduzir seu ouro oculto para o único templo onde realmente reluz.
O mesmo impulso antigo se opõe a essa dupla fidelidade, que o volume anterior chamou de longe e este precisa abordar mais de perto: o ímpeto gnóstico. No cerne do gnóstico, existe um aspecto infantil, quase uma birra de criança: a realidade não está boa, então vamos transformá-la. Não está como eu desejo; portanto, a falha é da realidade, e não da minha vontade. É o núcleo da gnose, e representa uma imaturidade espiritual que seria engraçada se não fosse triste — a vontade de uma pessoa que, incapaz de lidar com a realidade, conclui que a realidade está equivocada e se coloca no direito de recriá-la à sua própria imagem. O que esse impulso gera, quando não se transforma, é a relativização do cosmos e a subjetivação da realidade: se cada pessoa pode e deve recriar o mundo de acordo com suas próprias vontades, então não existe um único mundo, mas sim bilhões de pequenos mundos pessoais, um para cada indivíduo, cada um isolado em seu próprio espaço. O vício, na essência, é isso: uma pequena ação de conhecimento do dia a dia, uma rejeição da realidade em prol da fantasia que me é favorável. E é por essa razão que o vício transforma a nossa percepção interna, desgasta a convicção de que existe um mundo compartilhado, autêntico, estabelecido, ao qual devo me submeter e não o inverso. A virtude atua de forma contrária: acolhe o real como um presente, rende-se a ele, e é nessa entrega amorosa que redescobre a conexão com todos aqueles que também se submetem ao mesmo real. Entre os dois caminhos se estende a linha que marca toda a luta — e essa linha não atravessa as galáxias, mas reside em cada coração, no momento ínfimo em que decido entre me submeter ao que é ou exigir que tudo se molde a mim.
E não se iluda quem pensa que essa proliferação de pequenos universos pessoais resulta em uma convivência harmoniosa de preferências, onde cada um no seu espaço vive e deixa viver. Conclui-se exatamente no extremo oposto, e a lógica é inflexível. Se cada um moldou o mundo à sua própria maneira e se não existe mais um valor comum diante do qual todos se curvem igualmente, então já não há um juiz, não há um terreno compartilhado onde as diferenças possam ser resolvidas pela verdade; sobra apenas o embate direto das vontades, e nesse confronto, não vence a mais verdadeira — que essa noção foi eliminada — mas sim a mais poderosa. O relativismo, que se apresenta como o encerramento de toda forma de tirania, com seu lema de que ninguém possui a verdade e que cada um tem a sua, acaba sendo, na realidade, o alicerce da mais danosa das tiranias. Isso ocorre porque, ao demolir a verdade que avaliava todos de maneira igual, ele libera o espaço para a pura força: quem detém o poder de impor sua visão de mundo sobre os outros o faz, e ainda se refere a isso, com um sorriso, como progresso ou tolerância. Atualmente, é evidente como um manual: fala-se incessantemente sobre a importância de respeitar todas as verdades, e, ao mesmo tempo, observa-se uma intensa punição para aqueles que discordam da verdade predominante. Um mundo onde não existe uma verdade comum não resulta em mil verdades felizes coexistindo; na verdade, é um cenário de mil vontades em conflito, aguardando que a mais forte sufoque as demais. No final, existe apenas uma verdadeira alternativa à tirania, e essa não é o relativismo, mas sim o seu oposto: uma verdade comum, que vem de Deus e não é criada por mim, à qual tanto o poderoso quanto o fraco devem obedecer igualmente — pois somente uma verdade que está acima de todos pode resguardar o mais frágil contra o mais forte de todos. Onde não há Deus acima do rei, o rei se torna um deus; e onde cada pessoa é o deus do seu próprio mundo, o mais poderoso se torna o deus de todos.
É necessário prestar atenção a um galês intrigante e brilhante, Arthur Machen, que em uma página famosa afirmou algo que a moral convencional nunca teria coragem de dizer: que a feitiçaria e a santidade são as únicas verdades, e que cada uma delas representa um êxtase, uma fuga da vida cotidiana. O grande santo e o grande pecador, ele escreveu, são ambos ascetas que deixam para trás as cópias imperfeitas e vão em busca dos originais perfeitos; por isso, o criminoso comum, aquele que mata por dinheiro ou por raiva, não é um verdadeiro pecador, mas apenas uma fera entre feras, mais próximo do tigre do que do inferno. O verdadeiro pecado, aquele em sua acepção mais profunda, é algo distinto, e Machen o caracterizou de forma incisiva: o santo busca recuperar uma dádiva que lhe foi subtraída; por outro lado, o pecador tenta alcançar algo que nunca teve, e ao fazê-lo, repete de maneira idêntica a queda. Aí está, expressado por um autor de terror, o cerne de toda essa luta. O gnóstico, o viciado, o demiurgo, o feiticeiro — todos representam pecadores na perspectiva de Machen, e não na acepção policial: não são indivíduos que simplesmente transgridem regras, mas aqueles que, insatisfeitos com o que receberam, estendem a mão para tomar o que não lhes foi concedido. Nesse ato, reencenam o gesto de Adão frente à árvore e o de Melkor diante da Chama.
É importante enfatizar essa distinção feita por Machen de forma precisa, pois ela desmantela um equívoco que nos tem cegado por séculos: o de avaliar o pecado com base em uma lista de delitos. O assassino de esquina, o ladrão, o brigão de bar, segundo a perspectiva de Machen, quase não cometem pecados no sentido metafísico — eles apenas se entregam à sua animalidade, agindo como criaturas famintas, e um bicho não blasfema, apenas se alimenta. O verdadeiro pecado é uma distorção espiritual, e por isso é incomum, residindo muitas vezes em pessoas de mãos limpas e reputação preservada. É o ato de pegar aquilo que é belo e inverter sua essência, de pegar a matéria divina da criação e compelí-la a brotar onde não deveria, em oposição à sua própria natureza — como se, segundo ele, as rosas de repente começassem a entoar uma melodia incomum e as pedras se transformassem em flores de pedra. No sagrado, a matéria também brota de maneira extraordinária, há também êxtase e maravilhas; mas floresce porque se reconciliou, porque a graça a levantou acima de si mesma sem agredi-la. No pecador, a mesma substância brota como um pesadelo, pois foi arrancada, torcida, forçada a oferecer o que não tinha condições de dar. Aquele que comete o sacrilégio ao profanar o que é sagrado peca de uma forma que nem mesmo o mais ignorante consegue compreender, pois para profanar é necessário, antes de tudo, reconhecer o que é sagrado e, em seguida, trilhar intencionalmente o caminho oposto. Por essa razão, os mais horríveis monstros da história não foram os brutais, mas sim os sofisticados — aqueles que compreendiam perfeitamente o que era sagrado e optaram pelo seu oposto com elegância. O verdadeiro mal carrega sempre um aroma de missa negra: é a ritualística do bem realizada de forma oposta.
E é por essa razão que cada vício se assemelha a um pequeno gnosticismo prático, uma missa negra íntima realizada diariamente, sendo o vício químico, a droga, o exemplo mais claro disso. Qual é, na essência, o efeito da droga? Proporciona um universo criado para aqueles que não conseguem suportar o mundo real. Promete um céu que você pode levar consigo, uma união sem sacrifícios, uma elevação que se adquire e se aplica, um paraíso que não requer nenhuma transformação, apenas dinheiro e uma veia. É o sacramento falso por excelência, a paródia exata da Eucaristia: também é uma substância que se consome, também promete unir o ser humano a algo maior, também possui seus rituais, seus templos e sua liturgia de gestos repetidos; porém, enquanto o sacramento verdadeiro oferece o real — o próprio Deus em carne — e, por isso, cura e liberta, o sacramento falso oferece o irreal, e, por consequência, escraviza e mata. O viciado é o gnóstico que se completou: rejeitou o mundo comum, real, sóbrio, com suas dores autênticas e alegrias genuínas, e trocou tudo isso por um pequeno universo particular, químico, sob medida, onde ele reina por algumas horas e se torna escravo pelo resto de sua vida. O mesmo esqueleto se encontra em todo vício, não apenas no da agulha: a pornografia é o falso sacramento do amor, uma comunhão com um fantasma em vez de uma comunhão com uma pessoa; a rolagem infinita da tela é o falso sacramento da contemplação, um dilúvio de imagens no lugar do olhar que se aquieta; a compra compulsiva é o falso sacramento da posse, preenchendo a casa com coisas para não preencher a alma com Deus. Todo vício consiste em substituir o real pelo irreal que é criado, exatamente como define a gnose; portanto, a saída de todo vício é a mesma que a de toda gnose, e tem um nome sacramental: comungar de verdade, receber o real de volta das mãos de Deus e descobrir, com surpresa, que o mundo sóbrio do qual eu fugia é infinitamente mais profundo e mais doce do que o pequeno mundo que eu criava para escapar dele.
E é exatamente por isso que uma antiga voz alemã, repleta de veneno e de clareza ao mesmo tempo, alertou sobre o que ocorre com aqueles que tentam expulsar o próprio demônio pela porta errada: muitos que desejavam se livrar do seu demônio, ela disse, acabaram entrando eles mesmos nos porcos. A cena evoca a Bíblia, representando a legião que Cristo envia para os porcos que se lançam no precipício; no entanto, a mensagem funciona como um alerta global contra uma espiritualidade desprovida de fundamentos. Aquele que detesta seu próprio corpo e tenta destruí-lo à força, ao invés de submetê-lo à bondade, muitas vezes se torna mais prisioneiro dele do que antes. Isso acontece porque reprimiu seus anseios sem transformá-los, empurrou o desejo para o subsolo em vez de exaltá-lo. Assim, o desejo reprimido retorna transformado em algo monstruoso. A castidade cristã sempre foi uma celebração do corpo, e não um desprezo por ele — isso é gnose, isso é maniqueísmo, isso é a antiga heresia de considerar a matéria como ruim; a castidade cristã representa o corpo em harmonia, o desejo ajustado ao seu propósito, a sensualidade transformada e não eliminada. O falso asceta, o puritano, aquele que despreza o material e almeja uma pureza desprovida de corpo, encontra-se, sem perceber, ao lado do gnóstico e de Machen, tentando conquistar por meio da violência um presente que só pode ser alcançado pela humildade. E no final, como alertou a voz alemã, ele mesmo se envolve com os porcos — aparentemente santo, mas podre por dentro, um sepulcro pintado, exatamente o tipo que o Evangelho abomina mais do que o publicano e a prostituta, pois estes ao menos têm consciência de sua queda, enquanto aquele acredita que está em ascensão.
Ninguém explorou esse abismo com tanta intensidade e tão pouco alicerce quanto Philip K. Dick — e chegou o momento de mergulhar com ele ainda mais fundo do que no primeiro volume, pois ele é o profeta involuntário desta obra, o coração e a alma de tudo que existe de mais fascinante na cultura pop. Dick passou toda a obra fascinando-se com uma única suposição: a de que os mundos em que habitamos podem ser ilusórios, criados, elaborados por uma inteligência que não é divina. Ela retorna em quase tudo que ele manipulou. Em Ubik, os personagens habitam uma realidade que acreditam ser normal, mas na verdade estão mortos, suspensos em uma semi-vida criada pela própria mente em processo de decomposição, enquanto o mundo ao seu redor regrede, envelhece e se deteriora — o cigarro que se desmancha, o leite que azeda antes do esperado, a moeda com um rosto que não deveria estar ali. Em "Fluam Minhas Lágrimas", um homem famoso desperta em um mundo onde ninguém se recorda de sua existência — nem mesmo sua esposa, seus familiares ou os documentos —, como se tivesse sido esquecido da narrativa de um dia para o outro. E a cultura ao redor se alinha com ele mesmo sem que tenha sido lido: o Homem Sem Passado, o Show de Truman, com toda a sua cidade de atores contratados em torno de um único homem que ignora ser o protagonista, o Sexto Sentido, com o falecido que não sabe que já partiu e confunde os vivos com alucinações. Dick daria a isso uma frase que hoje ressoa de forma profética até machucar: nós não dividimos o mesmo mundo; cada um de nós habita em um mundo isolado.
Ele mencionou isso antes do surgimento do algoritmo; atualmente, com cada tela apresentando a cada olho uma realidade personalizada, é praticamente uma descrição técnica do jornalismo. E é nesse ponto que a fé deve exercer seu papel de discernimento, distinguindo o que é verdadeiro do que é ilusório na própria intuição de Dick, pois ela é uma mistura de verdade e delírio, e a parte verdadeira é valiosa demais para ser descartada junto com a outra. O gnóstico na obra de Dick se entrega à desconfiança como se fosse uma revelação libertadora: se os mundos são ilusórios, então eu posso me livrar deles, despertar, transcender, demonstrar que sou mais do que a prisão que me envolve. O cristão identifica na mesma desconfiança a verdadeira essência da queda, mas a interpreta de modo inverso: não que o mundo seja uma ilusão — o mundo é real, é uma criação boa de Deus —, mas que o pecado nos aprisiona, um a um, em pequenos mundos particulares, em bolhas de percepção distorcida onde a verdade compartilhada não consegue mais penetrar. O inferno de Dick não é uma ilusão sobre a metafísica; é uma realidade acerca da alma em queda. Cada um de nós, conforme suas próprias falhas, acaba vivendo um pouco além da realidade, em um Ubik pessoal onde as coisas se deterioram porque nossa percepção se tornou doente, em um Fluam Minhas Lágrimas onde os outros parecem inexistir de fato, pois o egoísmo os eliminou da nossa história. A verdadeira cura não consiste em despertar para perceber que tudo era ilusório; é transformar-se para redescobrir que tudo é autêntico, que os outros são tão reais quanto eu, e que existe um único mundo que merece meu amor e respeito.
Existe um consolo oculto, uma resposta cristã iluminadora, para o pesadelo específico daquela narrativa em que um homem famoso acorda desconectado da realidade, esquecido por todos, riscado de todos os registros como se nunca tivesse existido — pois esse é, no fundo, o mais profundo dos medos humanos, até mais intenso do que o temor da morte: o medo de ser esquecido, de não ter sido importante para ninguém, de desaparecer sem deixar vestígios na memória do mundo, como se toda a nossa vida pudesse ser apagada e o universo continuasse exatamente igual. A cultura vive esse pesadelo porque a alma o teme, e a nossa época agravou isso como nenhuma outra, pois em meio a bilhões de pessoas, diante de telas repletas de estranhos, cada um se sente cada vez mais substituível, mais esquecível, mais um número que o mundo poderia apagar sem nem perceber a ausência. E diante desse pesadelo tão real, a fé traz uma mensagem quase chocante de tão carinhosa: existe um Deus que não se esquece de ninguém, que conhece o nome de cada um como se estivesse gravado na palma da mão, que conta os fios de cabelo da nossa cabeça e não permite que um único pardal caia sem que Ele saiba, que preserva cada lágrima em um odre e registrou em um livro cada dia da minha vida antes mesmo que um único deles tivesse acontecido. O homem que foi esquecido no romance, ignorado por todos, ainda assim seria lembrado por Um; e é essa lembrança divina, e não a efêmera e enganadora memória dos homens, que confere a uma vida seu valor eterno e insubstituível. Podem me ignorar, podem riscar meu nome da história sem piedade, podem não deixar traço algum de mim nos registros do mundo — e ainda assim, eu não terei vivido em vão, porque fui concebido desde tempos remotos, amado até a cruz, e serei eternamente lembrado por Aquele cuja memória nunca perde o que foi amado. A ressurreição, na essência, é isto: não se trata de ser lembrado por outros, mas de ser reanimado por Deus, ser convocado novamente pelo nome, em alta voz, por Aquele que nunca, nem por um instante, se esqueceu de mim.
Existe um diagrama, no centro da Exegese de Dick — aquele extenso e surreal conjunto de milhares de páginas que ele se dedicou a compor, noite após noite, na tentativa de dar forma à vivência em que afirmou ter visto Deus — que sintetiza toda a sua cosmologia e, batizado, também sintetiza a nossa. De um lado, à esquerda, ele coloca Palmer Eldritch, um personagem de um de seus romances, e o associa ao demônio: é Satanás no poder, aquele que comanda este mundo, o criador dos mundos fictícios, que oferece os sacramentos enganosos das igrejas que não se fundamentam em uma ética objetiva. No lado oposto, à direita, ele coloca Ubik — a palavra deriva de ubiquidade, que significa estar presente em todo lugar — e a associa ao Logos, ao próprio Deus, àquele que fundamenta a realidade. E tem um aspecto que causa arrepios: para Dick, esse Deus verdadeiro não se expressa a partir do centro, mas sim da periferia, das camadas de detritos, ou seja, da mídia, dos comerciais de TV, dos filmes, das séries, do completo desperdício da indústria cultural que o consumiu. Deus, segundo o diagrama de Dick, comunica suas mensagens mais relevantes exatamente através do lixo que invade nossa mente. Pois bem, aqui a leitura católica precisa realizar duas tarefas simultaneamente e fazê-las com determinação. É necessário acolher com surpresa a intuição — pois é a mesma deste livro: que Deus pode ser encontrado nas coisas mais simples, que se manifesta nas fendas do que é descartado culturalmente, que insere suas mensagens onde os sábios apenas enxergam propaganda. É necessário, com total convicção, corrigir o equívoco que o acompanha: o Deus verdadeiro não ocupa a periferia por ter sido despojado de seu lugar central por um demiurgo; Ele está no núcleo de tudo, sustentando cada átomo, e desce à periferia por humildade e amor, não por derrotismo. Dick percebeu que Deus se comunica através do lixo, e estava certo; pensou que isso acontece porque foi destituído do trono, e estava enganado. É só substituir a humildade pela derrota, e todo o quadro se harmoniza e se ilumina.
Caso alguém deseje escutar o próprio Dick em um momento de grande clareza emocional, há na Exegese uma página onde ele, sem perceber, proferiu um sermão cristão exemplar. Ele escreve sobre o conflito entre poder e sabedoria — e, sem dúvida, opta pela sabedoria em vez do poder. Tudo que é imenso, afirma, é engano; do desperdício descartado, da tralha que ninguém deseja, ecoa a voz suave, saudável e límpida. A veneração ao poder nos priva do nosso verdadeiro poder; não se submeta ao poder em si, pois isso é um ídolo enganoso, talvez o mais enganador de todos. E ordena que se leia o Antigo Testamento de forma inversa, buscando não o Deus dos exércitos e do trovão, mas o delicado fio da voz serena que a própria Escritura menciona ter se dirigido a Elias, não no vento que fendeu as montanhas, não no terremoto, não no fogo, mas na brisa quase silenciosa que se seguiu a esses acontecimentos. Pois bem, isso é o Evangelho que precede o Evangelho. O falso deus de Dick, que ele por vezes se refere como Samael, ou o criador encoberto — o demiurgo cego que acredita ser o único deus e nem sequer percebe que existe uma Luz acima dele —, é a representação precisa do poder que se considera divino: colossal, ruidoso, faraônico, e, no fundo, uma fraude. E o verdadeiro Deus, aquele que se expressa através do desprezível, é o mesmo que a fé reconhece, nascido em uma gruta repleta de criaturas, acomodado em um cocho com alimentos para animais, e que morreu em um patíbulo de criminosos, entre dois ladrões. Deus optou por se comunicar por meio do que é desprezado, pois foi sempre dessa forma que Ele se manifestou, do estábulo à cruz; e Dick, explorando a escuridão da sua razão perturbada, conseguiu perceber essa verdade e chorou ao reconhecê-la.
É necessário mencionar a origem de toda essa teologia intensa presente na obra de Dick, pois essa origem é, por si só, uma parábola precisa do nosso assunto. Em um determinado começo de ano, enfermo, sob medicação, exausto pela vida tumultuada que levava, Dick teve uma experiência que nunca conseguiu denominar com certeza e que passou o restante de seus dias tentando entender nas oito mil páginas da Exegese, escritas nas madrugadas, ano após ano, como se estivesse desvendando um enigma que nunca se revela. Um raio de luz rosa, dizia ele, o atingiu e despejou em sua mente, de uma só vez, informação, conhecimento, a súbita e inabalável convicção de que o mundo em que habitava não era o verdadeiro — de que o ano real não era aquele, de que a Roma imperial dos perseguidores nunca havia realmente acabado, de que uma inteligência viva e racional, a qual ele ora chamava de Logos, ora de Mente, ora de Valis, lhe falava através das coisas e o havia curado, inclusive, apontando-lhe um erro médico que salvaria a vida do filho. Em um de seus romances mais reveladores, ele se divide em dois personagens: ele próprio e um alter ego de nome engraçado e tocante, uma versão simplificada de seu sobrenome. Através desse alter ego, ele confessa sua loucura e sua incessante busca, sem se deixar levar completamente. Ele acreditava, em sua visão distorcida do universo, que sob o falso criador cego havia um homem imortal e iluminado, que existia antes mesmo do demiurgo, e que um dia destruiria o criador enganado, assim como o oleiro amassa e molda o barro mal formado. Pois bem, o que a fé faz diante de um relato como esse não é o riso preconceituoso do materialista, que descarta tudo como um episódio de um doente — embora realmente houvesse um surto, e sério —, nem a crença ingênua do ocultista, que vê tudo como uma revelação genuína. A fé reconhece, com cautela e com uma dor profunda, que Dick tocou em algo verdadeiro e se perdeu na interpretação: que existe, de fato, uma Mente que se comunica internamente com o mundo, e essa é o Verbo; que existe, de fato, um deus falso que cega os homens, e ele é o príncipe deste mundo; e que há, de fato, um Homem anterior a toda a criação decaída que virá para restaurar o barro danificado — mas que esse Homem não destrói o oleiro cego por vingança, mas sim vence o cegador ao morrer e ressuscitar, e restaura o barro não o esmagando, mas amando-o de volta à sua forma. Dick se deparou com um feixe de luz e não havia Igreja onde repousar; e uma luz sem uma Igreja para repousar queima a mão que a sustenta e enlouquece a mente que a retém. É a lição mais dolorosa e valiosa do profeta involuntário: a de que o vislumbre, sem a base sólida da fé e sem a comunhão que o apoia, não traz salvação — encanta, queima e, por fim, consome.
E há, dentro dessa mesma perspectiva, uma doutrina de Dick que parece ter vindo de um confessionário e que merece ser ouvida com atenção, pois toca a vida de cada um de nós. Ele afirmava que para cada alma há uma sentença — uma frase, uma palavra, uma verdade — capaz de destruí-la, de aniquilá-la, de despedaçá-la se proferida no momento certo; e para cada alma, há também outra sentença, apta a salvá-la, a curá-la, a reconstruí-la — e essa segunda sentença percorre o mundo em busca da pessoa a quem pertence, como uma chave à procura da sua fechadura. A vida espiritual, conforme essa interpretação, é a luta entre duas vozes: uma que me leva à morte e outra que me proporciona salvação, ambas competindo pela minha atenção. E quando, em um de seus romances, um médico cura o louco afirmando apenas que ele é a autoridade, o que ele faz é restituir ao homem destroçado o poder que a adoração do falso poder lhe havia tirado — colocá-lo novamente em pé como sujeito, como alma responsável, como filho e não como escravo. Pois bem, o cristão conhece a mensagem que traz a salvação, pois ela tem um nome e é uma Pessoa: é o Verbo, a Palavra que, desde o começo, existia e que se fez carne para buscar, uma a uma, as almas das quais é a chave. E você sabe qual é a frase que destrói: é a mentira milenar da serpente, sereis como deuses, uma expressão que promete poder e traz escravidão, que promete liberdade e aprisiona cada um em seu pequeno mundo. A palavra que traz a salvação não vem de um trono majestoso; ela se eleva a partir do chão, do lixo, da periferia, do celeiro — e por essa razão passa despercebida àqueles que só conseguem buscar Deus nas grandiosidades.
E existe um romance de Dick onde essa obsessão pelo tempo que deteriora assume a forma mais ingênua e mais aterradora que já se apresentou à entropia, e é necessário trazê-la aqui por completo. Em uma passagem de Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, um garoto que não consegue falar, preso em seu mundo silencioso, traça em um papel as construções de um conjunto habitacional. À medida que ele os desenha, os prédios vão se deteriorando, apodrecendo e se cobrindo de ferrugem e ruína diante dos olhos de quem observa. Ele rabisca algumas letras sobre a entrada, que eram o lema da cooperativa, "todos os homens se tornam irmãos" — mas, ao serem vistas por meio de sua perspectiva, adquirem ares de uma sentença de decomposição. O menino emite um som que não é uma palavra, uma espécie de gagueira, e os personagens se questionam, arrepiados, se aquele som não seria precisamente o nome do tempo: a força que representa decadência, deterioração, destruição e, por fim, a morte. Ali está, em um garoto que não se comunica, toda a nossa essência. O tempo é um desenhista silencioso que envelhece tudo o que percebe; a entropia é o som que desgasta até mesmo o lema mais solidário; e uma qualquer ficção contemporânea expressa isso claramente ao definir a maldição da humanidade como sendo a de ser o único ser que, ao estar acordado, carrega a consciência constante da própria morte, lutando incessantemente contra as forças da entropia. É um fato, e um fato que causa temor. No entanto, em oposição ao desenhista mudo que apenas consegue deteriorar o mundo, existe um outro Desenhista, que no início contemplou tudo o que havia criado e reconheceu que era bom, e que se comprometeu a não apagar o desenho, mas sim a reformulá-lo — a restaurar todas as coisas, não a criar coisas diferentes. Aquele lema escrito de forma despretensiosa pelo garoto é uma profecia dividida em dois: na visão da entropia, é a ferrugem que coloca todos os homens no mesmo nível perante o pó; na visão divina, é a promessa que se concretiza na cruz, onde todos os homens, de fato e eternamente, se tornam irmãos no sangue de um só — não pela decomposição que a todos rebaixa, mas pela comunhão que a todos eleva.
É apropriado, uma vez que chegamos até este ponto, apresentar de forma clara a antiga cosmologia gnóstica que permeia toda a obra de Dick, pois é somente ao nomeá-la integralmente que podemos perceber o que ela acerta e o que falha, e assim, sanar suas questões. O gnóstico da antiguidade afirmava, de forma semelhante, que o verdadeiro Deus, o Abismo bom, é infinitamente distante e não criou este mundo. Este mundo, imundo, doente e repleto de sofrimento e morte, foi obra de um deus inferior e tolo, um demiurgo cego que acredita ser o único deus, sem saber que existe uma Luz acima dele. Para o gnóstico, essa divindade é o Deus do Antigo Testamento, o legislador ciumento. Ele acredita que uma centelha divina, uma faísca do Abismo bom, caiu e ficou aprisionada na matéria, dentro de nós, onde permanece adormecida. A salvação, segundo essa visão, é o conhecimento secreto, a gnose, que desperta essa faísca e a faz libertar-se da prisão do corpo e do universo, retornando ao Abismo e atravessando as esferas guardadas pelos arcontes carcereiros. É simples entender por que essa narrativa atrai uma alma machucada: ela dá sentido à dor sem responsabilizar Deus, promete uma grandeza oculta ao que sofre — você é uma centelha divina em exílio, e não um pecador — e propõe a escapada em vez da transformação. É simples perceber, igualmente, onde ela não diz a verdade, e essa falsidade é dupla. É um engano considerar Deus como dividido entre um bom que está longe e um mau que está próximo, quando na verdade existe apenas um Deus, que criou o mundo e o fez bom. O que existe de mau nele não é fruto de um demiurgo, mas sim resultado da liberdade concedida às criaturas. E engana-se ao tratar a matéria como uma prisão e a fuga como a salvação, quando na verdade a matéria é uma criação divina, tão bela que até o próprio Deus se fez matéria, e a verdadeira salvação não consiste em escapar do corpo, mas em ressuscitá-lo. O cristianismo representa exatamente o oposto do gnosticismo, em cada aspecto: um Deus único em vez de dois, a matéria vista como boa em contraste com a matéria considerada má, a encarnação em oposição à fuga, a ressurreição em vez de evasão, a humildade em lugar da sabedoria oculta, e a comunhão em contraste com a iniciação. Toda a tragédia esclarecida de Dick é a de um homem que tocou nas dificuldades reais que o gnosticismo buscava solucionar — a dor, a ilusão, a falta de visão — e só teve como recurso, para enfrentá-las, o próprio gnosticismo, que é a enfermidade disfarçada de remédio.
E aquele demiurgo de Dick, Palmer Eldritch, criador de mundos irreais, representa exatamente o falsário mencionado no primeiro volume — não vou repetir aqui sua descrição, apenas conecto as ideias. Os sacramentos enganosos que ele apresenta são todas as falsas comunhões que a indústria comercializa: o produto que promete preencher a alma, a experiência que promete transcendência, a identidade vendável que promete um eu, a droga que promete um paraíso portátil e entrega um inferno em miniatura. Quando Dick distingue esses sacramentos dos sacramentos das igrejas que se baseiam em uma ética objetiva, ele busca, de sua maneira torta, entender a diferença católica — a diferença entre uma fé sólida, fundamentada na realidade, na doutrina e na essência das coisas, e uma religiosidade baseada em sentimentos e opiniões que cada um constrói em sua própria mente, e que por isso se torna incomparável à fantasia gnóstica de moldar o mundo conforme o desejo. No âmbito religioso, isso equivale ao que o vício representa no domínio moral: a troca do que é verdadeiro pelo que é artificialmente criado. Em resposta aos mundos fictícios de Palmer Eldritch, o cristão não apresenta um outro mundo forjado; ele defende o mundo real, que é criado e sustentado pelo Verbo, e o único sacramento que é genuíno, pois nele o próprio Deus se entrega em carne, e não em uma mera representação carnal. A saída dos mundos fantasiosos de Dick não é ascender, mas sim compartilhar; não se trata de perceber que estamos mortos, mas sim de permitir-se renascer por Aquele que desceu ao reino dos mortos e retornou.
E existe um último romance de Dick que merece ser destacado, pois nele a sua obsessão se transforma quase em uma parábola sobre o nosso momento político e sobre algo que a nossa época confunde constantemente. Em O Homem do Castelo Alto, a narrativa se desenrola em um universo no qual o Eixo saiu vitorioso na guerra. Nesse cenário, um autor cria uma obra proibida que apresenta uma realidade invertida, na qual os Aliados triunfaram. No desfecho, uma mulher aparece na porta do romancista e afirma que seu livro não é mera ficção, mas sim uma verdade, revelando que aquele outro mundo é o verdadeiro. Dick viveu sua vida com a impressão de que a realidade estava, pouco a pouco, se desintegrando — sentia que mundos extintos retornavam a se infiltrar no que era considerado oficial, como se já não estivéssemos todos imersos na mesma narrativa. É simples interpretar isso como um delírio, e em certa medida era; mas sob esse delírio reside uma intuição que a nossa época valida de maneira assustadora. Atualmente, não habitamos um único mundo. O que se denomina polarização é apenas uma designação sociológica simplista para algo muito mais profundo. É importante ser preciso nesse ponto, pois não se trata de relativismo pós-moderno. Não se trata do entendimento de que cada um possui sua "verdadezinha" e que todas têm o mesmo valor. Existem objetividades em conflito — indivíduos que realmente habitam universos distintos, cada um com seus próprios fatos, seus vilões e sua história sagrada. Quando se encontram, não apenas divergem em opiniões, mas colidem como se fossem de dois mundos que não compartilham a mesma realidade. Retornaremos a essa fratura e suas implicações; por enquanto, mantenha em mente o diagnóstico de Dick, pois nenhum sociólogo expressou isso de maneira tão precisa.
E existe um pormenor naquela narrativa do castelo elevado que aprofunda tudo e que é importante trazer à tona, pois nesse aspecto Dick busca, sem perceber, a distinção entre a adivinhação e a providência. Os personagens da obra estão sempre consultando um antigo oráculo chinês, lançando hastes e interpretando hexagramas para tomar decisões. O próprio Dick admitiu ter escrito o romance dessa forma, utilizando o oráculo em cada reviravolta da narrativa, permitindo que o acaso dirigisse a história — assim, o livro se torna, em si, uma forma de adivinhação. E no auge da história, quando a protagonista questiona o oráculo sobre a razão da existência do livro proibido dentro do livro, aquele que narra o mundo de forma inversa, a resposta que emerge é o hexagrama da verdade interior. Nesse instante iluminador, ela compreende que o romance é autêntico e que o outro mundo é o verdadeiro. Aqui está, em um único gesto, o verdadeiro meio caminho e o meio caminho extraviado de toda a nossa era esotérica. O verdadeiro caminho que se discute no mundo é que existe um sentido oculto nas coisas, que a realidade não se resume a um conjunto silencioso de átomos, mas sim a uma mensagem dirigida, e que a alma atenta é capaz de compreendê-la. O caminho intermediário é confiar essa leitura à sorte das hastes, ao oráculo, à adivinhação, convertendo a percepção do significado em uma técnica para extrair respostas, em um controle do futuro, em autoridade. A providência cristã reconhece o primeiro e rejeita o segundo: sim, o mundo é uma mensagem de Deus, repleta de significado, e nada que nele existe é fruto do acaso; porém, essa mensagem não se desvenda por meio de sorteios ou forçando o curso do destino, ela se compreende de joelhos, na oração, na obediência, na submissão a uma Vontade que me ama e que não necessito adivinhar, pois já se revelou em carne e osso. O adivinho busca extrair do mundo o segredo para controlá-lo; o crente recebe do mundo a mensagem para venerá-lo. E a verdade íntima que o oráculo de Dick revela sem ter consciência do que diz é, na essência, a única verdade interior que traz salvação: a de que este mundo decaído não é o último, e que há, sob ele e adiante, um mundo mais verdadeiro, o Reino, que não se conquista adivinhando, mas sim através da conversão.
Existe um método pelo qual os leitores de Dick e de toda a cultura pop aprenderam a interpretar essas rimas do mundo, e ele merece ser identificado e aperfeiçoado, pois é metade um caminho verdadeiro e metade uma armadilha: o sincromisticismo. A expressão casa duas refere-se às sincronicidades de Jung, que são aquelas coincidências significativas que fazem a alma parar e pensar que isso não pode ser por acaso, e ao misticismo, que representa o ato de se unir a Deus. O sincromístico nota que a cultura pop está repleta de coincidências que são grandes demais para serem apenas fruto do acaso — filmes que refletem uns aos outros sem terem contato, músicas que parecem prever eventos, datas que coincidem com fenômenos celestiais, atores que parecem trazer para suas vidas os destinos dos personagens que interpretam — e chega à conclusão de que existe uma inteligência viva e poderosa que é capaz de alinhar filmes e estrelas para nos transmitir uma mensagem; e que, ao compreendê-la, nossa mente se conecta a essa inteligência. Existe uma verdade profunda e um grande perigo, e o discernimento católico os distingue com precisão. A verdade é a providência: nada acontece por acaso para aqueles que acreditam que um Pai cuida até dos cabelos da cabeça, e a Igreja sempre soube interpretar os sinais dos tempos, as coincidências cheias de significado, as figuras com as quais a história faz rimas com a eternidade, os tipos do Antigo Testamento que anteveem o Novo. O verdadeiro risco está na superstição: converter a interpretação dos sinais em uma prática de adivinhação, enxergar mensagens celestiais em cada calafrio, transformar a coincidência em um oráculo — o que deixa de ser fé e se torna magia, reintegrando a alma ao vício de moldar o mundo à sua própria imagem, agora preenchendo-o com presságios personalizados.
É fundamental ser sincero quanto à origem desse método, pois ele possui um nome e um local específicos, e entendê-lo contribui para evitar suas armadilhas. Uma geração inteira de leitores da cultura, especialmente no mundo de língua inglesa, transformou o sincromisticismo em quase uma religião digital: pessoas que passaram a enxergar, em cada grande produção de Hollywood, mensagens secretas, rituais encobertos e profecias inseridas por um incessante fluxo midiático que estaria permeando toda a indústria do entretenimento. Alguns mantiveram a clareza e depois se distanciaram, percebendo o quanto a abordagem, livre, se deteriora em paranoia; outros se afundaram nela até se tornarem caçadores de demônios em cada logotipo. E o que os levou à perda foi sempre a mesma razão: transformaram o método em um fim em si mesmo e a decifração em uma forma de poder. O critério que distingue a interpretação genuína dos sinais da sua deturpação é singular e infalível: a interpretação verdadeira dos sinais sempre conduz a Cristo e à conversão, sempre torna a alma mais humilde, mais adoradora e mais apta a amar o próximo de forma concreta; a interpretação falsa, por sua vez, converge para o eu, para o meu poder oculto de saber o que os outros ignoram, para a minha vaidade de quem se considera iniciado e capaz de ver o que o rebanho cego não percebe. Uma leva para a missa; a outra leva para o espelho. E é por isso que o sincromisticismo que este livro aborda — vamos chamá-lo, para diferenciá-lo do tradicional, de um sincromisticismo cristão, um termo filosófico que criamos — não tem como objetivo revelar segredos para se exibir, mas sim buscar a providência para adorar: interpreta as rimas da cultura não para mostrar seu conhecimento, mas para reconhecer, com admiração e gratidão, que Deus está semeando o seu nome até mesmo nos filmes de entretenimento, e que nada, nem mesmo o que se considera lixo, escapa ao governo amoroso do Pai.
E que ninguém imagine que essa interpretação das rimas do mundo seja uma inovação contemporânea de pessoas desocupadas; na verdade, ela é o mais antigo e respeitável método de leitura das Escrituras, sendo conhecida como tipologia, a leitura das figuras. Os Padres enxergavam o Antigo Testamento na totalidade como uma vasta rede de sincronicidades sagradas, uma série de rimas que perpassam os séculos e se completam somente em Cristo. Isaac, o único filho que o pai leva ao monte para oferecer em sacrifício, carregando nas costas a lenha que seria utilizada, representa uma figura de Cristo carregando a cruz em direção ao Calvário. A passagem de Jonas passando três dias no ventre do peixe simboliza a sepultura e a ressurreição. A serpente de bronze levantada no deserto, que sanava aqueles que a contemplavam, simboliza o Crucificado elevado para a salvação de todos. O cordeiro sacrificado, cuja carne protege os primogênitos e cujo sangue afasta o anjo da morte, representa a verdadeira Páscoa. A arca que resgata das águas, o maná que nutre no deserto, a rocha que provê água ao toque do bastão, a escada de Jacó que conecta o céu à terra — tudo isso foi interpretado pela Igreja como rimas traçadas por Deus na história, coincidências relevantes que não são fruto do acaso, pois um único Autor as concebeu, conhecendo desde o início o destino da trama. O cristão, portanto, aplica esse mesmo olhar tipológico à cultura pop, reconhecendo que o Autor que conectou Isaac a Cristo não parou de fazer isso, mas continua a semear figuras do seu Verbo até mesmo nas histórias em quadrinhos e nos filmes, pois toda a história, e não apenas a sagrada, é fruto da sua criação. A tipologia é o sincromisticismo genuíno, o único que não leva à loucura: a interpretação das figuras que, a todo instante, culminam em Cristo, e nunca na vaidade daquele que as interpreta.
Vamos considerar um exemplo dessas rimas, e um dos mais belos, para observar o método operando com seriedade em vez de exagero. Em 1971, um jovem chamado Steven Spielberg realizou para a televisão o seu primeiro filme, Duel — conhecido no Brasil como Encurralado —, baseado em um conto de Richard Matheson: um homem comum, representando o arquétipo do cidadão qualquer, é inexplicavelmente perseguido por um caminhão sem rosto em uma estrada isolada; o motorista nunca é visto, nunca se compreende o motivo, há apenas a máquina e a perseguição. Anos mais tarde, foi-lhe apresentada a oportunidade de atuar em Tubarão, uma adaptação de um livro, e ele quase declinou a oferta, até perceber um detalhe que apenas um verdadeiro observador notaria. Duel e Jaws possuem quatro letras cada um; em um, uma máquina persegue um homem pelo deserto de asfalto; no outro, uma criatura do mar persegue um homem pelas águas. É um duelo no oceano, afirmou ele — e percebeu uma conexão espiritual entre as duas narrativas, a mesma essência em dois corpos distintos. A identidade não se restringia apenas ao tema, mas também ao som: Spielberg retirou o urro de morte do caminhão, no final de Duel, de um antigo filme de 1957 sobre um mundo perdido onde ainda habitavam os dinossauros; e reutilizou exatamente o mesmo som, o mesmo rugido pré-histórico, quando o tubarão explode e afunda. O mesmo rugido para a criatura jurássica e para o leviatã dos oceanos — como se, por trás de ambos, vivesse um único monstro ancestral, uma única fera desde o início dos tempos, com pelagens distintas.
Bem, Spielberg é judeu, e o leviatã não representa apenas um bicho qualquer na memória de seu povo: é o monstro marinho de Jó e de Isaías, a serpente veloz, a criatura do caos primordial que somente Deus pode enfrentar e que será derrotada no final dos tempos; e — afirmam as tradições rabínicas com uma ousadia que impressiona — no banquete dos justos, ao final da história, a carne do leviatã abatido será servida como alimento na mesa dos salvos. Conserve esta imagem, pois ela é fundamental para tudo que está por vir: o monstro que foi derrotado não é apenas vencido, mas devorado; a criação do caos se torna alimento na celebração do céu. E é isso que permeia, como um fio de ouro oculto, Duel, Tubarão, e até aquela outra fábula de Matheson sobre um homem que viaja no tempo em busca de um amor perdido — Em Algum Lugar do Passado, estrelada, em um arrepio de sincronicidade, pelo mesmo Christopher Reeve que foi o Superman, aquele que em sua primeira aventura no cinema inverte o próprio giro da Terra para resgatar a mulher que ama. O homem comum, como você e eu, está sendo chamado por todas essas narrativas a enfrentar uma luta contra um poder ancestral, primitivo, que remonta a épocas remotas, e que se manifesta de diversas formas: como o tempo, que arma armadilhas e sempre parece triunfar; como a criatura do mar; como a própria máquina que o homem criou e que agora o persegue — não por acaso o Superman, em sua primeira aparição, levanta um automóvel acima da cabeça para destruí-lo, exatamente no momento histórico em que a revolução industrial transformava a máquina no novo leviatã a consumir o homem comum.
E o mesmo Spielberg, que imaginou o leviatã, também concebeu, por sua vez, o hóspede do céu, e é apropriado colocar as duas obras lado a lado. Em um de seus filmes mais queridos, uma criatura oriunda das estrelas, diminuta, estranha e vulnerável, é deixada na Terra e acolhida por crianças; ela possui o poder de curar ao tocar com um dedo que se ilumina, ensina o amor a uma família machucada, é perseguida pelas forças deste mundo, morre, ressuscita e, finalmente, retorna ao céu de onde veio, transformando para sempre aqueles que a amaram — e em seu peito, no instante da cura e da ressurreição, brilha um coração de luz vermelha, uma imagem que a iconografia cristã reconheceria instantaneamente. Não é necessário que Spielberg tenha tido essa intenção: o arquétipo atuou em seu favor, e ele gravou, sem perceber, um pequeno evangelho voltado para crianças, a narração do ser celestial que desce, cura, morre, ressuscita e ascende. Em outro filme, mais sério, ele captou a fome que impulsiona tudo isso: pessoas comuns tiradas da sua vida monótona por um convite que não compreendem, atraídas por uma luz no céu, ascendendo uma montanha sagrada em busca do que as transcende, prontas para abandonar lar, família e razão, por um vislumbre do além. É a saudade do céu retratada como ficção científica, a lembrança de Deus camuflada em um disco voador — a mesma saudade que leva o homem a olhar para cima desde os primórdios, e que a fé não cria, apenas denomina e satisfaz. A cultura está repleta dessas duas forças, do desafio a ser superado e do visitante a ser acolhido, e ambas revelam a mesma verdade por vias distintas: que o ser humano foi criado para uma batalha e para um encontro, para derrotar um leviatã e para receber um Deus, e que toda a sua existência é a oscilação entre essas duas necessidades.
A mensagem que permeia tudo isso vai além da simples luta contra esse poder. É que precisamos, de alguma forma, assimilá-lo. Precisamos consumir o inimigo, e a sua assimilação nos tornará mais do que seres humanos. É uma intuição intensa, quase primitiva, e é necessário ter ousadia para acompanhá-la até o final, pois ao final dela encontra-se o Evangelho completo, o mistério fundamental da fé. Pois o que Cristo fez senão exatamente isso? Não se esquivou do leviatã da morte: o engoliu. Desceu à garganta da criatura, permitiu-se ser engolido pelo sepulcro, entrou no ventre da baleia como Jonas e, assim como Jonas, saiu de lá ao terceiro dia; e dentro da morte a superou, transformando o monstro em alimento — de modo que hoje o leviatã derrotado está, de fato, servido na mesa dos justos, sob as formas do pão e do vinho, e quem o consome não é devorado por ele, mas o devora, e nessa comunhão se torna mais do que um homem, filho de Deus por participação, herdeiro da vida eterna. A cultura pop, de forma inconsciente, imaginou a Eucaristia: o inimigo consumido, a morte assimilada, o ser humano comum elevado ao divino ao devorar o próprio monstro que o perseguiu. E não é mero acaso, é uma dádiva do destino, que o mesmo Reeve, que levantou o mundo como Superman, tenha posteriormente viajado no tempo em busca de um amor: pois a sede de superar a morte e a sede de reencontrar o amor que se foi são a mesma necessidade, e a Eucaristia é a única mesa onde ambas encontram verdadeira satisfação.
E é importante demorar-se na descida ao interior do monstro, pois ali está o coração oculto do Evangelho, e a fé já o cantou muito antes de qualquer roteirista. Jesus mesmo deu o sinal: assim como Jonas permaneceu três dias e três noites no interior do grande peixe, também o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra. Jonas, sendo engolido pelo leviatã e depois regurgitado vivo, simboliza a antiga representação da morte e ressurreição do Senhor. A Igreja sempre acreditou que, no sábado silencioso que se segue à crucificação e precede a Páscoa, Cristo não permaneceu apenas deitado em um túmulo — Ele desceu. Desceu à morada dos mortos, ao cerne da besta, ao lugar mais profundo do exílio humano, para onde seguiam todos os que a morte havia consumido desde Adão, e ali, no covil do adversário, fincou sua bandeira: arrombou as portas de bronze do inferno, despertou os mortos adormecidos, tomou Adão e Eva pela mão e os retirou do abismo. É a representação que o Oriente cristão faz em todos os seus ícones pascais: não um Cristo saindo sozinho de uma gruta, mas um Cristo pisando as portas rompidas da morte e puxando toda a humanidade pelo pulso para fora do sepulcro. O herói que consome o inimigo, ou que é consumido por ele e o derrota internamente, está vivenciando exatamente isso — a imersão no monstro, a conquista obtida não ao evitar a morte, mas ao enfrentá-la, a saída do ventre da baleia no terceiro dia. A diferença entre a fábula e o fato é a mesma de sempre: a fábula é um sonho, enquanto o fato é algo que realmente aconteceu, sob um determinado governante, em um determinado sepulcro que pode ser visitado.
E é por essa razão que a Eucaristia não é apenas um símbolo bonito ou uma recordação tocante, mas sim a realidade mais concreta e mais surpreendente do mundo, o momento exato em que toda essa teologia da imaginação deixa de ser apenas uma imagem e se transforma em carne. Os antigos a conheciam como o remédio da imortalidade, o antídoto contra a morte; e isso é verdade em sentido literal. Se o leviatã derrotado é apresentado como refeição na mesa dos justos, se o monstro da morte deve ser consumido para que o ser humano transcenda sua condição, então a mesa onde isso realmente ocorre, e não apenas simbolicamente, é o altar, e o que se serve como alimento é o próprio corpo do que desceu ao seio da morte e ressuscitou. No deserto, o povo sedento recebeu do céu o maná, um pão enigmático que ninguém conseguia denominar — a própria palavra maná quer dizer, segundo dizem, o que é isso? —, e sobreviveu dele por quarenta anos; e Cristo afirmou de forma clara que aquele maná era apenas um símbolo, que o verdadeiro pão que desceu do céu é a sua carne, e que quem a consome não morrerá eternamente. Aqueles que o escutaram consideraram suas palavras excessivamente severas e se retiraram. Ele não os convocou novamente para suavizar a situação, não afirmou que era apenas uma metáfora: permitiu que fossem embora, pois falava com sinceridade. Alimentar-se do inimigo derrotado, assimilar a morte e tornar-se filho de Deus por meio da participação — a cultura pop alimenta esse desejo em diversas narrativas de heróis que incorporam o poder da fera; a fé realiza isso, diariamente, em um pedaço de pão que é Deus. Aquele que participa da comunhão, ciente do que está fazendo, não está apenas realizando um rito simbólico de comunidade; está assimilando o leviatã domado, absorvendo a vida eterna, permitindo que o próprio Fogo Secreto penetre em si sob a forma simples de um pão sem sabor, que é a última e mais chocante camuflagem do Deus que se deixa ser absorvido em toda imagem e que escolheu, para se revelar de verdade, a mais humilde e a mais acessível de todas.
É necessário pausar por um momento diante desse inimigo que se apresenta como tempo, pois nossa era mantém uma relação doentia com ele, algo que a ficção já havia diagnosticado antes dos filósofos. Em Algum Lugar do Passado, o protagonista se enamora pelo retrato de uma mulher de uma época distante e consegue viajar ao passado através da força de sua mente, por meio da auto-hipnose e de um desejo intenso. No entanto, uma única moeda de 1971, que estava esquecida no bolso de um terno antigo, o arrasta de volta ao seu tempo como um anzol que fisga e retira o peixe: o tempo tende a armar armadilhas, e o tempo triunfa. Na trilogia Matrix, a intuição se torna ainda mais afiada e assustadora, e é importante atentar para as palavras do próprio arquiteto do sistema: a opressão da Matrix não reside em sua falta de realidade, mas na sua exaustão, na ausência de novos horizontes, em ser eternamente a transição de um milênio que nunca se concretiza. Todas as inovações já foram esgotadas; sobram repetições sem fim, reordenamentos dos mesmos elementos em formatos cada vez mais exaustivos e conhecidos. É a mais precisa caracterização do inferno contemporâneo — não o calor das chamas, mas o aborrecimento; não a dor intensa, mas a interminável monotonia da rotina; a totalidade restrita mencionada no primeiro volume, agora observada de dentro, como uma cela construída não com barras, mas com a repetição.
É necessário analisar cuidadosamente a imagem que gerou a riqueza daquela narrativa e que se tornou um assunto comum entre as pessoas, a das duas pílulas, pois nela reside tanto uma armadilha quanto uma verdade. Contudo, a nossa era absorveu a armadilha, acreditando que estava assimilando a verdade. Apresentam ao protagonista uma pílula azul, que o reconduz ao sono tranquilo da ilusão, à existência apática dentro da machine, ao esquecimento; e uma pílula vermelha, que o desperta para o árido da realidade, para a verdade crua e dolorosa que está por trás do sonho. Uma geração inteira começou a se autodenominar desperta, acordada, heroína da pílula vermelha, com cada grupo acreditando firmemente que somente eles conseguem enxergar a verdadeira realidade por trás das ilusões, enquanto os demais permanecem adormecidos e iludidos. Observe, então, o que há de profundamente gnóstico nessa imagem e por que ela exerce tanta sedução: a promessa de que a salvação reside em um conhecimento secreto que desperta os escolhidos, enquanto a maioria permanece adormecida e apenas os iniciados conseguem enxergar, e que despertar é libertar-se da prisão material em busca da verdade oculta. É a gnose novamente, com efeitos especiais. E existe, no cerne da narrativa, um personagem que ninguém almeja ser, mas que é o mais sincero de todos: o traidor, que, exausto da crueza da realidade, suplica para retornar à ilusão, desejando que apaguem sua memória e o restauram ao bife suculento que, embora ele saiba ser fictício, prefere ao árido da verdade — e profere a frase que condena toda a nossa civilização: a ignorância é uma bênção. Entre o fanático da pílula vermelha, que se considera o único acordado e, por isso, menospreza todos os que ainda dormem, e o traidor da pílula azul, que prefere a doçura da mentira à dureza da verdade, a fé propõe um terceiro caminho que não se enquadra em nenhum dos dois: não é o despertar orgulhoso do iniciado, nem o sono covarde do desistente, mas sim a conversão sincera do pecador, que não revela uma verdade oculta para se vangloriar, mas se entrega a uma Verdade que é uma Pessoa, que não é um deserto — é um Rosto, é um abraço, é um lar. A verdade que a fé traz não abandona o homem em um deserto solitário e superior; restitui-lhe, como filho e irmão, a um mundo repleto de amor.
O arquiteto da Matrix também revela um segredo que deve ser enfrentado, pois nele reside ao mesmo tempo uma verdade avassaladora e uma mentira igualmente avassaladora, unidas como gêmeas siamesas. Segundo ele, houve uma primeira Matrix, um mundo idealizado, sem sofrimento, sem dor, um paraíso artificial — que resultou em um desastre absoluto. Milhares de seres humanos se perderam, pois a humanidade rejeitou o paraíso, definiu sua existência pela miséria e pelo sofrimento, e descartou o mundo perfeito como um sonho do qual o cérebro não cessa de tentar despertar. A grande verdade nisso é que um mundo sem cruz, um paraíso barato e sem preço, é, na realidade, insuportável para a alma humana, que percebe, no íntimo de si, que o amor verdadeiro tem um custo, que a felicidade sem sacrifício é uma ilusão, que um céu adquirido em grandes quantidades não é céu, é apenas uma anestesia. A alma rejeita o Éden de plástico porque foi criada para um Éden que exigiu sacrifício. Entretanto, a grande mentira, unida a essa verdade, é a conclusão que o arquiteto chega: que a realidade é determinada pelo sofrimento, como se a dor fosse a base do ser, o alicerce, a palavra final. Na verdade, não é. A essência do ser é o Amor; o sofrimento existe e é intensamente real, mas é apenas a cicatriz do amor em um mundo deteriorado, e não a sua origem. O verdadeiro paraíso não é aquele mundo sem dor idealizado pelo arquiteto; é o mundo em que a dor foi enfrentada e superada pelo amor, onde as feridas ainda estão nas mãos do Ressuscitado, mas agora não causam mais dor — elas reluzem.
É necessário distinguir duas formas de reagir ao tempo esgotado, pois, embora pareçam semelhantes à primeira vista, são opostas em sua essência, e a nossa sociedade frequentemente confunde as duas. A primeira é a do eterno retorno, a sabedoria cansada dos antigos e de alguns gurus contemporâneos: se tudo se repete, se não há nada de novo sob o sol, então abrace a repetição, aceite o ciclo, gire com a roda sem esperar por uma saída, e chame essa resignação de paz e de sabedoria. É a tranquilidade do prisioneiro que já enfeitou sua própria cela e deixou de almejar a saída. A segunda resposta é a cristã, e é precisamente o contrário: em vez de aceitar o círculo, há o rompimento dele por algo que vem de fora. A liturgia entoa, ao invés do eterno retorno, o cântico novo — cantai ao Senhor um cântico novo, repete a Escritura sem se cansar —, e essa novidade não se trata apenas de uma volta da roda, uma reorganização dos antigos elementos, mas sim da irrupção de algo que a roda sozinha jamais poderia produzir: a graça, o perdão que restaura até o passado, o nascimento que não estava previsto, a ressurreição que a morte não tinha contemplado em seu contrato. Tolkien nomeou isso de forma encantadora: eucatástrofe, que significa a boa catástrofe. É a mudança repentina e inesperada que traz alegria no momento em que tudo parecia perdido de maneira irrevogável. Esse alívio é capaz de fazer o leitor chorar não por tristeza, mas por uma alegria intensa, quase como uma lâmina, pois, de maneira involuntária, ele percebe o eco de uma Boa Nova ainda maior. O tempo esgotado da Matrix e do eterno retorno é aquele em que não há eucatástrofe, um mundo onde nada de novo pode ocorrer, onde a porta está soldada por dentro; o tempo redimido do cristão é um mundo em que, a qualquer momento, mesmo no meio da repetição mais sombria e desesperançada, a porta pode ser aberta de fora, e a graça pode adentrar, rompendo de repente a monotonia por alguém que não estava previsto no roteiro e que traz nas mãos a única novidade que nunca envelhece.
Este é o momento em que a ficção do tempo se conecta com o mistério cristão do tempo, e é fundamental expressar isso de maneira bem clara, pois representa a libertação de toda e qualquer prisão. O tempo é, de fato, um adversário — São Paulo sabia disso ao chamar a morte, filha do tempo, de o último inimigo a ser superado —, e a nossa civilização, após ter perdido a eternidade, ao desligar o céu, se viu presa no tempo como numa Matrix esgotada, condenada a consumir novidades que envelhecem antes mesmo de surgir, a maratonar séries que são esquecidas na semana seguinte, a atualizar incessantemente, a rolar a tela para baixo com o polegar em um gesto que representa a oração invertida da nossa era, a busca sem fim por algo novo que nunca é realmente novo. No entanto, o cristianismo não sugere uma escapada do tempo, uma jornada para um período diferente, ou um botão de escape para fora da história; em vez disso, oferece a redenção do tempo de forma interna. O Verbo adentrou o tempo, nasceu sob a autoridade de um governador específico, em um ano que pode ser registrado em um calendário, e ao fazê-lo, santificou o momento, transformando cada presente em uma oportunidade para a eternidade. A liturgia é a verdadeira máquina do tempo, a única que realmente funciona: ela não te transporta para outra época, mas traz a única época que realmente importa — o momento da cruz e da ressurreição — para dentro do seu presente. E ali, no altar, o eterno se encontra com o tempo e o acende. O herói que retorna ao passado em busca de um amor que se foi está, sem perceber, despertando para uma verdade que a fé revela: o tempo pode ser superado, não ao fugir dele, mas permitindo que a eternidade o atravesse; e o amor que parecia estar perdido para sempre não se perdeu realmente — está resguardado no único presente imutável, o de Deus, onde nada do que se amou de verdade se extingue, e onde aqueles que amamos e que partiram não estão atrás de nós, no tempo que já se foi, mas à nossa frente, no tempo que nunca acaba.
Entretanto, existe um véu que impede a grande parte das pessoas de perceber algo a respeito disso, e é necessário rompê-lo, pois se trata do véu mais denso de nosso tempo: a polarização. Não me refiro apenas ao conflito político entre esquerda e direita, embora essa seja a face mais visível e barulhenta da questão; estou falando sobre uma polarização ontológica, sobre uma fragmentação da própria realidade em duas metades que se detestam e, ao se odiarem, tornam-se cegas. Observe o funcionamento, pois ele é perverso na medida exata em que é eficaz. Um acontecimento curioso ocorre — uma luz brilhante no céu em uma pequena cidade do interior, um raio que cai sobre uma multidão reunida, um político que morre subitamente, um escândalo chocante em um culto à beira da estrada — e a polarização, acima de tudo, impede que o fato seja analisado pelo que realmente é. Um lado ri e transforma tudo em piada; o outro ignora o que aconteceu ou converte em bandeira; e entre as duas torcidas, o fato real desaparece, sem análise, sem reflexão, sem sentimento, consumido pela máquina que reduz tudo a arma para o time. Nos encontramos imersos em um universo de energia, de representações, de símbolos, de eventos repletos de significado, e muitas vezes não os percebemos — somos como peixes no oceano, que não reconhecem a água em que habitam porque nunca vivenciaram a sua ausência. O sagrado e o mitológico estão presentes ao nosso redor o tempo todo, tocam em nós, e a polarização é exatamente a estratégia de ignorá-los, pois exige que tudo seja rapidamente categorizado em uma das duas opções antes que possamos observá-lo com tranquilidade.
A própria indústria do entretenimento, que deveria ao menos nos proporcionar um espaço para reflexão, se tornou combustível para a chama, e há um exemplo recente tão claro que funciona como uma radiografia. Em uma popular série de super-heróis, os personagens atravessam para um universo paralelo onde os nazistas triunfaram na guerra — uma Terra alternativa repleta de suásticas e fardas pretas — e o próprio criador da série revelou, de forma direta, que se inspirou não nos quadrinhos, mas sim em O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, o primeiro romance que ele havia lido. Ou seja, a percepção de Dick sobre os mundos em confronto se transformou em uma história de entretenimento e, ao mesmo tempo, se tornou uma ferramenta na batalha cultural. A razão pela qual a Terra nazista da série é apresentada apenas com o que o antifascismo superficial compreende sobre o nazismo, que se limita à suástica, é que seus habitantes falam inglês, dirigem os mesmos carros, residem na mesma América, mas com a bandeira alterada e a imagem do ditador no lugar do presidente — é um nazismo fictício, desprovido de doutrina, de história, de substância, reduzido a um símbolo que tem como único propósito apontar para o opositor atual e dizer: vejam, é isso que vocês representam. Um veículo militante efetivamente cumprimentou a série como uma valente denúncia do fascismo em ascensão; e o criador, em meio ao intenso movimento publicitário, permitia que o fotografassem como se estivesse segurando uma tocha moral. Certamente, o cristão que se habituou a interpretar os sinais observa isso e não se posiciona em lados: percebe a totalidade da máquina, enxerga como uma intuição metafísica profunda — a de Dick sobre os mundos em colisão — foi reduzida a um objeto de conflito entre dois grupos, e como a arte, que poderia restaurar a visão, foi utilizada para aprofundar ainda mais a cegueira.
E observe como isso opera diante dos eventos que mais deveriam nos levar a refletir e a rezar em silêncio. Um raio despenca do céu sobre uma multidão concentrada em uma praça, ferindo dezenas de pessoas de uma vez; ou uma luz misteriosa risca o céu de uma pequena cidade do interior e desaparece; ou um político é assassinado de forma abrupta, e a notícia mal esfria antes de já ser fragmentada entre as duas torcidas. Diante de um raio que atinge uma multidão, o que deveria ocorrer é algo semelhante ao que acontecia na antiguidade: o temor reverente, a dúvida inquieta sobre o que o céu está comunicando, e uma profunda reflexão coletiva onde um povo se questiona se isso não seria um aviso. O que realmente ocorre, em nosso tempo, é diferente: de um lado, há quem ria e diga que tudo se resume a meteorologia, a um infortúnio, a uma estática atmosférica, a uma coincidência; do outro lado, há quem transforme isso em uma bandeira, uma prova inquestionável de que Deus está ao seu favor na disputa e contra o time rival. E entre as duas urgências, o próprio evento — que talvez fosse realmente um sinal, ou talvez apenas um raio, mas que, de qualquer forma, deveria ser contemplado com serenidade e reverência diante de Deus — se dissipa sem ter sido refletido ou sentido por ninguém, esmagado pela máquina antes de esfriar. E há algo ainda mais lamentável: existem pessoas que, impulsionadas por seu ódio de grupo, chegam a desejar o pior, a orar por calamidades sobre os adversários, confundindo sua raiva de torcedor com a sagrada indignação divina. Aqui, a análise deve ser precisa, pois a situação é mais complicada do que parece: é uma verdade, e este livro não hesitará em afirmar, que a ira humana pode, em certas ocasiões, servir como um instrumento da justiça divina, que a fúria de um profeta pode ser o veículo pelo qual se manifesta o juízo do Altíssimo sobre uma injustiça que clama; mas também é verdade, e essa é a barreira que protege a alma, que na maioria das vezes o que se apresenta como zelo sagrado é apenas um rancor de grupo disfarçado de religião, e que misturar meu ódio político com a espada de Deus é a maior das blasfêmias, pois coloca o Nome santíssimo a serviço da minha raiva e transforma Deus em um símbolo do meu partido. O sinal divino, quando realmente se manifesta, nunca convoca a alma para o meu lado na luta; convoca-a para a mudança, e a primeira mudança que exige é sempre a minha, e não a do oponente.
E é neste ponto que devemos pronunciar a frase que atinge o cerne de tudo, e que a nossa época necessita escutar mais do que qualquer pregação: o problema não é ideológico, o problema é ontológico. Quando dois brasileiros sentados à mesma mesa de Natal não conseguem chegar a um consenso sobre um único fato do mundo — se algo realmente aconteceu ou não, se uma determinada pessoa é um santo ou um demônio, se um determinado número é verdadeiro ou fictício —, o que se quebrou entre eles não é apenas a opinião, mas a base em que se sustentam. Eles não compartilham mais o mesmo cosmo. E o gnóstico festeja isso como uma forma de libertação: finalmente, cada um é soberano em seu próprio universo, finalmente, ninguém é obrigado a compartilhar uma realidade comum. O cristão percebe a realidade trágica que se apresenta — a fragmentação do mundo que conhecemos, do único cosmos que foi criado e mantido pelo Verbo, em bilhões de pequenos universos que já não conseguem nem se escutar. Não se trata do pós-modernismo acadêmico dos professores, essa repetição de que toda verdade é uma construção; é algo ainda mais grave e palpável, são objetividades em choque, cada uma acreditando ser a única verdadeira, cada uma armada com seus próprios dados, se enfrentando sem nenhum ponto de interseção. As máquinas que carregamos em nossos bolsos, que um documentário renomado afirmou nos separar, não geraram essa divisão do nada — elas apenas encontraram a fissura ontológica já aberta pelo pecado e a ampliaram, entregando a cada olhar, de forma cirúrgica, o universo que ele já havia escolhido habitar, até tornar quase inviável o simples milagre de dois irmãos observarem o mesmo fato e o nomearem da mesma maneira.
E Dick, mais uma vez ele, apresentou a essa fragmentação a definição mais precisa e mais generosa que conheço, em uma palestra onde afirmou que cada um de nós habita, a cada momento, diversos universos sobrepostos, em intensidades variadas. Trate isso com seriedade e a solidariedade ressurgirá das cinzas da polarização. Aquele seu parente que você considera que perdeu a razão, que repete as palavras de ordem de um lado e de outro, que já não é mais o mesmo com quem você se divertia na infância — talvez ele não seja, como a torcida oposta afirma, um ignorante, um de má índole ou um monstro. Quem sabe ele simplesmente viva, mais do que você, em um universo onde as coisas são desse jeito, em que aquele homem público é realmente um salvador ou realmente um demônio, em que aquele acontecimento realmente aconteceu ou realmente nunca existiu. A tentação, por conta disso, é ignorar — colocar o outro na prateleira dos tolos e seguir contente na minha própria bolha, que considero, evidentemente, não ser uma bolha, mas sim o mundo real. Entretanto, o cristão reconhece que sua bolha também é uma bolha, que ele também vive em universos que precisam ser rompidos pela verdade que vem de fora, que ele também observa o mundo através de um vidro embaçado pelo seu próprio pecado; e por isso, ao invés de menosprezar aqueles que habitam outros mundos, ora para que ambos sejam trazidos de volta ao único mundo que não pertence a ninguém. A polarização se resolve de maneira humilde, não através da tentativa de convencer o outro de que meu universo é o correto e o dele é o errado, mas ao nos rebaixarmos juntos, de joelhos, ao solo compartilhado onde o pão é pão, a cruz é cruz, a morte é morte e Deus é Deus, queiramos nós ou não, queiram eles ou não.
Existe uma palavra que é a cura precisa para essa enfermidade, e não se trata de um acaso etimológico; é uma providência oculta na própria língua da Igreja: católico significa segundo o todo, de acordo com a totalidade. Deus, na visão católica, é a Totalidade que incorpora em si todas as virtudes representadas pelos símbolos; e a Igreja católica é a que, refletindo a natureza do seu Deus, se nega a fragmentar a realidade em partes e a optar por uma delas. A polarização é, portanto, o anticatolicismo por excelência, a heresia das heresias, pois a essência de toda heresia sempre permaneceu a mesma: pegar duas verdades que a Igreja sustenta unidas e optar por uma em detrimento da outra. O herege geralmente não afirma uma mentira absoluta; costuma apresentar uma meia-verdade em contraste barulhento com a outra metade. Deus é justo, exclama um, e rejeita a misericórdia; Deus é misericordioso, responde o outro, e descarta a justiça — e a Igreja, persistente, em oposição a ambos, afirma seu sempre et-et, seu sim-e-também: justo e misericordioso, um e trino, Deus e homem, pão e carne, já e ainda não. A catolicidade é a habilidade, quase esquecida, de manter as duas extremidades da corda unidas sem soltar nenhuma delas; e quem deseja enxergar o Deus que se revela nos símbolos precisa, primeiramente, se libertar da polarização — descer do lugar de espectador, abandonar a camisa do time, parar de questionar de que lado cada coisa se encontra e retornar à única pergunta que realmente ilumina: o que é isso, na essência, diante de Deus?
E sob a polarização, ao movê-la, existe uma engenharia da alma que a ficção definiu de maneira mais precisa do que a sociologia, e chegou o momento de confrontá-la diretamente. Em Os Invisíveis, essa obra-prima que já foi explorada no primeiro volume, Grant Morrison retrata o mundo como uma prisão de ferro negro dominada pelos arcontes, a Igreja Externa, cuja única finalidade é aprisionar sua alma. E em um trecho que hoje parece menos uma história fictícia e mais uma matéria jornalística, um grupo de heróis invade uma base secreta e descobre discos voadores dessa Igreja enviando comandos diretos para o cérebro humano, comandos que se apresentam na página como um catecismo do inferno: o produto A é superior ao produto B; o produto A é a recompensa pela sua fidelidade ao produto A; escolha ser fiel ao produto antes de ser fiel às pessoas. A intenção, como está claramente expresso na obra, é introduzir o consumo em sua essência, de modo que você se torne o produto deles, aprisionando a sua alma. E o mais preocupante é que, constantemente, você acreditará que foi você quem fez a escolha, que aquilo reflete seu gosto genuíno, a sua personalidade e a sua opinião formada. Não é relevante, para a discussão, se os discos voadores realmente fazem isso; o que importa é que alguém o faz, que a técnica está disponível, que existe uma máquina que planta desejos operando continuamente acima de nossas cabeças.
Esse indivíduo possui um nome técnico e um nome espiritual, e é importante conhecer ambos. O termo técnico utilizado é engenharia do consentimento, marketing subliminar, a prática dos conhecidos doutores do giro, os spin doctors — especialistas capacitados para atingir aquela parte da mente que a lógica ignora, o inconsciente, e ali semear o desejo que posteriormente consideraremos como nosso. O documentário O Século do Ego investigou essa arte obscura até chegar a um sobrinho de Freud, que pegou as descobertas do tio sobre os impulsos ocultos da alma e as transformou, de maneira fria, em uma ferramenta de hipnose em massa, disponível para quem pudesse pagar — vendendo cigarros a mulheres, chamando o produto de tocha da liberdade, vendendo guerra, vendendo presidentes, vendendo qualquer coisa, contornando a inteligência e se dirigindo diretamente ao medo e à vaidade. E que ninguém imagine que isso é apenas uma metáfora de quadrinhos ou teoria de documentário. Certa vez, realizou-se um experimento simples e intrigante: colocaram pessoas para optar entre dois ambientes iguais, e em um deles, por trás do limite da percepção consciente, foi difundido um estímulo que a mente não captava, mas que o corpo sentia. A grande maioria optou pelo ambiente preparado, sem entender o motivo, criando na hora justificativas elevadas para uma escolha que não tinha origem genuína; e o que mais impressiona é que até aqueles que afirmavam odiar o que estava oculto ali acabavam preferindo o ambiente que provocava estímulos. A conclusão é alarmante: sua mente está sendo manipulada, e você a considera como gosto pessoal, opinião própria ou livre escolha, quando, na verdade, é algo que foi inserido em você de forma sutil, sem que você perceba.
Morrison se referiu a esses engenheiros, com uma exatidão que beira o exorcismo, como verdadeiros feiticeiros. Esses feiticeiros foram os responsáveis por ensinar uma geração inteirinha a desvalorizar um Superman divino, o criador de mundos, um cristão sem perceber, e a considerar, em troca, um Superman ridículo, frágil, que se encurva e chora simplesmente porque um aparelho deixou de funcionar — não porque essa piada fosse realmente mais profunda que a divindade, mas sim porque a máquina que produz preferências assim escolheu, apresentando essa escolha como se fosse o gosto autêntico e maduro do público. E o mesmo aconteceu com um cineasta que teve a audácia de tratar o herói com seriedade, retratando-o como uma figura crística, repleta de sofrimento e de grandeza: a indústria cultivou o desdém de maneira autoritária, implantou o efeito manada, ensinou milhões a rir, como reflexo, de uma cena que era magnífica, rotulando de pretensioso aquilo que era simplesmente elevado. Não é por acaso que os principais profetas da desconstrução do herói na cultura contemporânea — os roteiristas que se destacaram ao demonstrar que todo super-homem é um fascista disfarçado, que toda pureza é pura hipocrisia e que todo ideal é uma ingenuidade a ser desprezada — são, quase sem exceção, homens que manifestam abertamente seu desprezo pelo que criticam. Existiu quem erguesse uma obra completa apenas para demonstrar que o herói, em seu íntimo, é corrupto; houve quem se orgulhasse de ser melhor que Tolkien por ter criado uma fantasia macabra, imunda, desprovida de esperança, pós-moderna, onde a virtude é sempre castigada e o cinismo prevalece. E não se trata de maldade sem motivo, ou não é apenas isso: é a mesma luta de sempre, a luta contra a escada de rostos que ascende até Cristo, agora conduzida com a sofisticação de quem lixa o degrau com um sorriso e chama a poeira de realismo.
É importante destacar as fases dessa extensa batalha contra o herói, pois ela possui uma trajetória e não surgiu do nada em um único dia. Primeiro, existiu um período em que um médico influente percorreu um país inteiro, persuadindo pais e legisladores de que os quadrinhos de heróis corrompiam a juventude, promoviam a delinquência e quase exterminaram o gênero logo no início, por meio de censura, comissões e fogueiras de gibis nos quintais — essa foi a primeira tentativa explícita, vinda de fora, de tirar da criança o seu herói. Em seguida, quando a proibição direta não teve sucesso, surgiu uma estratégia mais sutil e extremamente mais eficaz: ao invés de proibir o herói, a abordagem passou a ser corrompê-lo por dentro, esvaziá-lo e envergonhá-lo. Chegaram as obras — e algumas eram realmente brilhantes, é justo reconhecer com sinceridade, o que as tornava ainda mais impactantes — que ensinaram uma geração a ver todo homem de capa com desconfiança, a buscar o fascista por trás do salvador, o obsessivo por trás do escoteiro, o interesse egoísta por trás de cada sacrifício; a denominar de realismo o puro cinismo, e de maturidade a simples falta de capacidade de admirar. O anti-herói substituiu o herói; a ambiguidade superou a virtude; e ficou demonstrado, obra após obra, com um talento em ascensão e uma amargura crescente, que ninguém é realmente bom, que a bondade é sempre uma forma de ingenuidade ou hipocrisia, e que aqueles que se sacrificam são either ingênuos ou possuem intenções ocultas. O que mais impressiona é que muitos dos artesãos dessa destruição afirmavam, de forma franca, o quanto menosprezavam a pureza que comprometiam — um deles, inclusive, se vangloriava de ser superior ao antigo professor de Oxford por ter criado uma fantasia desoladora, repleta de sangue e traição, na qual a virtude é constantemente castigada e o cinismo sempre recompensado, ressaltando que aquilo era a verdadeira visão madura sobre o mundo. Contudo, felizmente, surgiu um contra-movimento, a insistente ressurreição do herói: obras que, exaustas da mediocridade, fizeram com que os antigos deuses retornassem gloriosamente para envergonhar aqueles que os zombavam e relembrar ao mundo por que, um dia, precisávamos deles. Pois a batalha pela habilidade de admirar nunca está completamente perdida, e por uma razão que os magos não conseguem eliminar: o coração humano, por mais que tentem ensiná-lo a desdenhar, permanece silenciosamente ávido por alguém diante do qual valha a pena se render.
E existe, sob todo esse conflito, o antigo leviatã da máquina, e é fundamental enfrentá-lo de forma direta, pois ele é a manifestação mais palpável da nossa época. Desde já testemunhamos o Superman levantando um carro na sua página de abertura, precisamente quando a revolução industrial transformava a máquina no novo monstro que consumia o homem comum; e o maior dos sonhadores, Tolkien, dedicou sua vida a alertar sobre esse leviatã com uma clareza profética. Ele observava, afirmando com tristeza e sem surpresa, que se transita inevitavelmente dos sonhos ingênuos de Dédalo e Ícaro, que apenas desejavam voar, ao bombardeiro colossal que lança fogo sobre as cidades — que a máquina, inicialmente concebida como asa, acaba se revelando como garra. E inseriu no coração de sua obra-prima um objeto que representa a máquina em sua essência mais pura: o Anel Único, o artefato de poder que oferece ao seu portador a capacidade de exercer sua vontade sobre o mundo sem esforço algum, dominar, compelir, fazer com que as coisas aconteçam conforme seu desejo — e que, por conta disso, corrói e escraviza quem o utiliza, por mais nobres que sejam suas intenções, visto que a própria natureza do Anel é a dominação, e a dominação corrompe. Sauron, o senhor do Anel, é o demiurgo ideal, o arconte supremo: um espírito que já foi belo e que se deixou levar pela adoração à ordem e ao controle, desejando refazer o mundo à força conforme sua própria imagem. Ele busca transformar tudo em algo eficiente, vigiado e submisso, criando uma Terra-média envolta em fumaça e engrenagens, onde nada é livre, pois tudo é controlado. A verdadeira oposição presente em toda a saga não se dá entre a magia benéfica e a magia maligna; trata-se da luta entre a máquina que controla e o ser vivo que se desenvolve, entre o Anel que impõe e a semente que é semeada e aguarda, entre Isengard, que destrói árvores para abastecer as fornalhas, e a floresta, que avança lentamente, mas avança. E a resolução da narrativa não consiste em utilizar o Anel para o bem — essa é a sedução de todo tirano bem-intencionado, e Tolkien a rejeita com aversão —, mas sim em destruí-lo, lançar o poder ao fogo, rejeitar a máquina e aceitar a fragilidade. É a lição mais desafiadora e mais cristã que uma fantasia jamais apresentou: existe um poder que não pode ser utilizado para o bem por ser intrinsecamente maligno, e a única forma de superá-lo é abandoná-lo, de mãos abertas e vazias, confiando não na força, mas na graça que se revela na fraqueza.
O nome espiritual dessa engenharia é conhecido pela fé desde os tempos de São Paulo, e é necessário pronunciá-lo com coragem e sem exageros: são os principados e as potestades, os dominadores deste mundo de trevas, os espíritos malignos que estão espalhados pelos ares, contra os quais o apóstolo afirmou claramente que é a nossa verdadeira batalha — não contra a carne e o sangue, não contra este ou aquele influenciador, este ou aquele roteirista, esta ou aquela empresa, mas contra as forças que os utilizam como o marionetista utiliza os bonecos. Os arcontes de Morrison representam a versão ilustrada dessa doutrina ancestral, e é necessário que o discernimento católico, mais uma vez, caminhe em uma linha tênue, sem se precipitar para nenhum dos lados do abismo. De um lado, o medo irracional, que vê um demônio em cada logotipo e transforma a disputa em algo tão extremo que chega à paranoia, aquela busca por mensagens satânicas em cada clipe que faz o cristão parecer ridículo e descredita a verdade concreta que ele distorce — e sobre isso o primeiro volume já nos deu pistas. Por outro lado, a cegueira confortável, que zombam de tudo isso como se fosse superstição de pessoas atrasadas e, assim, entrega a alma completamente desprotegida exatamente à luta que afirma não existir. A verdade é ao mesmo tempo sóbria e assustadora: existe, de fato, uma luta real e cotidiana pela sua alma, e a indústria cultural é um dos principais palcos dessa batalha. Por trás da manipulação do consentimento humano atuam forças que não são humanas e que almejam o que sempre desejaram desde os primórdios — que você adore o produto em vez do Criador, que você se torne um produto, que você chame essa escravidão de liberdade e essa falta de visão de esclarecimento. Em oposição à Igreja Externa dos arcontes, a fé se apresenta como a verdadeira Igreja, a comunhão dos santos e dos anjos, os grupos iluminados da verdade; em contrapartida à falsa comunhão do consumo, existe a verdadeira comunhão do altar; contra a hipnose que gera desejos, há a liturgia que direciona o desejo para o seu único Propósito. A principal arma dessa guerra não é o boicote ou a indignação virtual, mas sim o discernimento — essa atenção atenta do coração que identifica a manipulação, a nomeia e, assim, a desarma, pois o encantamento do mage só opera enquanto você acredita que a decisão foi sua.
É necessário afirmar, em oposição à Igreja Externa dos arcontes, o que realmente representa a Igreja verdadeira, pois a luta ocorre entre duas comunhões e não entre a comunhão e a solidão. Os arcontes promovem uma comunhão ilusória, a do consumo, na qual milhões se conectam ao usar a mesma marca, apoiar o mesmo produto e repetir o mesmo slogan — uma multidão solitária de indivíduos iguais e desconectados, unidos pela aparência e sós em seu âmago, a paródia perfeita do corpo de Cristo. A fé proporciona uma comunhão autêntica, e seu nome é comunhão dos santos: não se trata apenas da soma de indivíduos que compartilham experiências, mas sim do corpo vivo de todos aqueles que amam o mesmo Deus, transcendendo o tempo e a própria morte, incluindo os que estão vivos e os que já se foram, a Igreja que luta na terra e aquela que triunfa no céu, unidas em uma só oração e em um só amor que a morte não consegue separar. Esses são os batalhões verdadeiramente radiantes que Morrison vislumbrou à distância e de forma inversa: a multidão de santos e anjos, a imensa nuvem de testemunhas que nos rodeia de maneira invisível, aqueles que já triunfaram e agora intercedem por nós, os irmãos que transformam cada cristão solitário em um cristão que, na verdade, nunca está realmente sozinho. E o desfecho dessa união é o que há de mais sublime a ser dito sobre uma criatura, e a fé enuncia isso sem hesitar, embora causando perplexidade: Deus se fez homem, ensinavam os Padres em uma formulação que parece audaciosa demais, mas é, na verdade, precisa, para que o homem se transformasse em Deus — não Deus por essência, uma prerrogativa exclusiva d'Ele, mas Deus por participação, por adoção, por graça, tornando-se co-partícipe da natureza divina, como escreve São Pedro de maneira direta. Este é o destino que os arcontes combatem com todas as suas energias, semeando desejos, negociando escravidões disfarçadas de liberdade, diminuindo heróis e envergonhando aqueles que os admiram: evitar que o ser humano perceba que foi criado para a divinização, para a verdadeira comunhão com o Todo, e mantê-lo ocupado com mil comunhões ilusórias para que nunca chegue à verdadeira. A luta pela cultura é, em sua essência mais profunda, a luta por esse destino: eles desejam que você se torne um admirador do produto e, ao mesmo tempo, se torne o próprio produto; Deus deseja que você O admire e se torne, por pura graça, filho no Filho, deus no próprio Deus.
É importante analisarmos o caso específico do Superman, pois nele podemos observar, como em um experimento, toda a batalha pela essência dos símbolos que este livro apresenta. Há um poema em quadrinhos, criado pelo mesmo Morrison, no qual o Homem de Aço é explorado em sua essência divina: um Superman que, ciente de que está prestes a morrer envenenado pelo próprio sol, aproveita seus últimos dias realizando feitos sobre-humanos por amor, curando e salvando. No final, ele se eleva até o sol moribundo para repará-lo com seu próprio corpo, transformando-se no coração de uma nova estrela — e, em um detalhe que reflete pura teologia, consegue até criar um universo, plantando a semente de uma Terra paralela, realizando um ato que só pertence a Deus. É o santo que sonha em plena glória, o herói que é claramente uma representação de Cristo: o filho enviado do céu por um pai, que abdica de sua própria vida para salvar aqueles que ama e conquistar a morte através de sua entrega total. Bom, preserve-se este aspecto, pois ele é fundamental para toda a discussão: quando essa história em quadrinhos foi levada para o cinema, alguns copiaram sua estética, suas cores e seu traje, sendo aplaudidos como se tivessem realizado a adaptação perfeita da obra; enquanto outros se dedicaram a captar sua essência, seu peso simbólico e sua profundidade sagrada, e por isso foram alvo de zombarias. A casca recebeu um prêmio; o coração foi motivo de zombarias. E não é por acaso.
E não se trata de uma interpretação forçada por aqueles que desejam encontrar Cristo em tudo; são os próprios filmes que se revelam, repletos de sinais que a indústria colocou ali intencionalmente ou que surgiram espontaneamente do arquétipo, sem o conhecimento de ninguém. O pai do além que envia à Terra seu filho único, imerso numa arca de luz, para resgatar uma humanidade que ama à distância e que o rejeitará de perto; o filho que cresce oculto em uma família simples do campo, aparentando ser filho de um lavrador, e que somente aos trinta anos, a exata idade de Cristo ao iniciar sua vida pública, finalmente assume sua missão diante dos homens; o herói que flutua sozinho no espaço, sobre a Terra adormecida, com os braços abertos em forma de cruz, antes de se lançar para salvar; o pai celeste cuja voz o orienta e o alerta — em uma das versões, avisa-o especificamente sobre o risco de amar demais uma única mulher e por ela abandonar a missão de salvar o mundo, o que se configura palavra por palavra como a tentação do deserto e do Getsêmani, a tentação de descer da cruz para ter uma vida. E quando um cineasta teve a audácia de levar tudo isso ao limite e retratar o herói como um homem-deus atormentado pela própria humanidade, desconfiado, caluniado, entregue, morto e ressuscitado, houve quem clamara blasfêmia e pretensão — os mesmos, curiosamente, que nunca gritam blasfêmia diante das obras que arrastam a figura de Cristo pela lama para provar que Ele era um impostor, um louco ou um miserável. Pois o escândalo, para o espírito do mundo, não está em comparar o herói a Cristo com a intenção de rebaixar Cristo ao nível de um herói; o verdadeiro escândalo é fazer essa comparação para exaltar o herói ao nível de Deus. Permitem que zombem de Deus à vontade e consideram isso uma arte corajosa; o que não se perdoa, o que é punido com escárnio orchestrado, é tratá-Lo com seriedade.
A luta entre um Superman divino e um Superman reduzido representa, essencialmente, a disputa entre duas teologias, e os manipuladores da aceitação estão plenamente cientes de qual delas desejam que você adote. O diretor que trouxe às telas o Homem de Aço como um Cristo angustiado — o pai que alerta o filho para não amar intensamente uma única mulher a ponto de deixar o mundo para trás, o herói que hesita, que sofre, que estende os braços em cruz no céu antes de descer para salvar, que é odiado e incompreendido pela própria humanidade que veio salvar — acabou sendo visto como pretensioso, sombrio e exagerado, e uma multidão inteira aprendeu a ecoar essas descrições sem jamais ter investigado se realmente eram verdadeiras. A versão que se seguiu veio com um tom leve, compacto, repleta de robôs adoráveis, animais de estimação inusitados e piadas a cada trinta segundos. Foi engenhosamente elaborada para que o público se sentisse afeições por tudo que estava em cena — pelo robô de voz amigável, pelo cachorro desastrado, por cada personagem secundário — exceto pelo próprio Superman. Essa abordagem foi apresentada como uma representação madura, humana e acessível do herói. Observe o artifício, pois é sutil: não confrontaram o Superman de maneira direta, expressando seu desprezo pela sua grandeza; ao invés disso, o desmereceram internamente, esvaziando-o de sua divindade sob o pretexto de simpatia, e depois denominaram esse esvaziamento de humanização. Entender Cristo como humano não diminui Sua importância; ao contrário, é perceber que a mais profunda grandeza está presente na mais sincera humildade. O que aconteceu naquele contexto não foi tornar o herói divino mais humano: foi decapitá-lo e nomear essa decapitação como acessibilidade. A alma que se habitua a escolher o deus menos glorioso em vez do Deus sublime está, sem perceber, sendo moldada a optar, na religião, por um Cristo amigável e inofensivo em vez do Cristo que ressuscita os mortos e retorna sobre as nuvens.
E os quadrinhos, mais sagazes do que aqueles que os desprezam, souberam ilustrar o que ocorreria se esse mesmo filho da luz sucumbisse à tentação que rejeita. Ao fazer isso, desenharam os possíveis mundos do tirano com uma precisão teológica que provoca calafrios. Há um momento em que, ao perder para sempre a mulher que amava devido a um truque horrendo do inimigo, o herói decide que a dor nunca mais será permitida a ninguém, custe o que custar; e para isso, ele mata o inimigo com suas próprias mãos. Desse primeiro assassinato, realizado por amor, ele vai descendo degrau por degrau até se tornar o senhor absoluto de um mundo pacificado pela violência, um deus da polícia que extingue a liberdade para eliminar o sofrimento — o mesmo pesadelo do criador da Matrix, o paraíso sem cruz que se transforma em prisão, o éden de plástico imposto à força. Existe o momento em que ele se perde, ainda jovem, não em uma propriedade de pessoas devotas, mas sob a influência de um regime, e se torna o braço forte de uma utopia imposta, o redentor que se transforma em carcereiro por amor a uma concepção abstrata de bem. Essas narrativas sombrias não demonstram, de forma alguma, que o herói possua um caráter corrompido por dentro, como sugere a desconstrução; na realidade, elas provam o oposto, e essa é uma verdade poderosa: a diferença entre o salvador e o tirano reside em uma única decisão, que é tomada e repensada a cada instante. A mesma força que, quando guiada pelo amor e pela humildade, tem o poder de salvar o mundo, se transformando em medo e soberania, se torna opressora. Os dois ramos do mundo possível nascem do mesmo tronco, assim como a graça e o pecado surgem da mesma liberdade, e o santo e o demônio provêm do mesmo dom. É exatamente por isso que observar o herói que opta pelo bem, dia após dia, mesmo diante de todo o poder que poderia usar para o mal, é uma profunda lição sobre a vontade: revela, por trás do entretenimento, que a santidade não é a ausência de força, mas sim uma força total dedicada ao amor; e que o inferno não é a escassez de talentos, mas o precioso dom utilizado contra aquele que o concede.
E existe um sacrifício oculto no âmago dessa máquina, uma forma de martírio ao contrário que a cultura encena sem compreender, e ele possui dois nomes que são duas parábolas: Elvis e Bowie. David Bowie criou uma persona, Ziggy Stardust, e a transformou literalmente em um salvador do rock, um homem das estrelas cuja canção mais famosa, Starman, é a profecia da chegada de um redentor que aguarda no céu, relutando em descer para não chocar os homens; mais tarde, ele representou, no cinema, Newton, o homem que caiu na Terra — um ser de outro mundo que vem à nossa procura de salvação para seu povo sedento, experimenta o gim e a água deste planeta, aos poucos se esquece do motivo de sua vinda, é abordado e seduzido pelos empresários e pela indústria, e acaba consumido, arruinado, viciado, transformado em produto e em bêbado, deixando por fim, segundo dizem, mensagens cifradas nos álbuns que grava, um deus alienígena naufragado em uma poltrona diante de várias televisões ligadas ao mesmo tempo. É a parábola ideal, e Dick a interpretou exatamente dessa maneira: um sinal de como Deus se comunica com a humanidade por meio da própria indústria cultural que a consumiu — o salvador que desce, é engolido pela máquina e, ainda assim, do fundo de sua queda, continua a piscar mensagens para quem conseguir vê-las.
E Elvis representa a mesma parábola, porém em carne e osso e com sangue verdadeiro, o que a torna mais impactante. O rei do rock e seu empresário, o Coronel Tom Parker, protagonizaram diante de todos, sem perceber, uma luta entre o filho da luz e o demiurgo que o retém. Parker teve um papel fundamental para que Elvis se tornasse a figura icônica que conhecemos — sem sua intervenção, talvez o jovem do Sul tivesse permanecido na obscuridade — e, ao mesmo tempo, foi o responsável direto por sua queda: passou toda a carreira tentando controlá-lo, domesticá-lo, depurá-lo, remover aquele fogo perigoso que o fez brilhar, transformá-lo em algo aceitável, previsível, lucrativo, até o exilar na não-cidade de Las Vegas, o deserto arquetípico da América, uma cidade sem raízes e sem alma, construída apenas de luz artificial e apostas, onde a espiral de decadência tornou-se inevitável — o corpo se expandindo, a saúde deteriorando, a solidão aumentando — até a morte prematura; e, ainda assim, mesmo no seu ocaso, mesmo obeso, dependente de drogas e aprisionado, sua voz permanecia divina, angelical, vibrante, um resquício do céu que a máquina não conseguiu apagar por completo. Esses são os profetas consumidos: as vozes que vieram das estrelas com um fogo genuíno, com um presente que de fato veio do alto, e que a máquina devorou, precificou, esvaziou e expeliu. E não percebemos essas experiências como o drama sagrado que realmente são, não porque estejamos em um mundo menos espiritual do que aquele dos nossos antecessores, mas precisamente porque habitamos um mundo tão repleto de espírito, de imagens e de arquétipos, que o sagrado nos atravessa o tempo todo e não conseguimos notar — como peixes no meio da água, cegos pela abundância dela. A leitura católica acolhe esses profetas caídos com uma ternura que a indústria nunca teve por eles: reconhece neles o vestígio verdadeiro, o calor que era real, o dom que veio do alto; lamenta a sua devoração pela serpente que tudo avalia; e aponta, além da sua ruína, o único Filho da Luz que a máquina não conseguiu devorar, porque desceu por livre vontade à própria boca da morte, e de lá, no terceiro dia, voltou cantando.
E não é à toa que a decadência desses profetas ocorre tantas vezes no deserto — no deserto de luz artificial e de ilusão que é uma cidade desprovida de essência, o cenário arquetípico onde uma civilização manda seus reis depostos para morrerem obesos e solitários, afastados dos olhares. O deserto é, nas Escrituras, o local de provação por excelência: foi para lá que o Espírito levou Cristo logo após seu batismo, e nesse lugar o inimigo apresentou, uma a uma, as três tentações que representam o guia oculto de toda queda humana — o pão fácil que satisfaz a carne sem que haja obediência, o espetáculo do alto do templo que busca aplausos sem passar pela cruz, e todos os reinos do mundo oferecidos aos pés em troca de uma única reverência diante do poder. São precisamente, palavra por palavra, as três tentações que consomem o profeta da cultura: o prazer que anestesia, a fama que embriaga e o poder que escraviza. Cristo, ao enfrentar as tentações no deserto, rejeitou as três propostas, respondendo a cada uma delas com trechos da Escritura, e, por isso, saiu do deserto de pé, indo em direção à vida pública e à cruz. Já os profetas, consumidos e lançados no mesmo deserto pela máquina que os criou e comercializou, cederam às três tentações, uma a uma, e, por isso, o deserto que para Cristo foi uma etapa se transformou para eles em um túmulo adornado. A diferença entre os dois desfechos traz toda a lição deste livro em um único quadro: o deserto não pune ninguém por si só; ele apenas revela o que já existe no coração, expõe sob uma luz intensa e sem sombras a eterna escolha entre servir e possuir. Aqueles que adentram o deserto se apegando ao pão, ao reconhecimento e ao poder são consumidos por esses males; enquanto aqueles que entram de mãos vazias, afirmando apenas que o homem não vive só de pão, conseguem atravessá-lo e emergem vivos do outro lado. A cidade desprovida de essência, onde os ídolos falecem em solidão, representa o deserto da nossa era, e a máquina leva para esse lugar todos aqueles que cria; no entanto, o mesmo deserto que provoca a morte deles poderia ser, para uma alma que se entrega a Deus, apenas o caminho estreito e indispensável em direção à ressurreição.
E agora que chegamos a este momento, é hora de alcançar o ponto mais alto de todo este livro, aquela intuição que faz com que todas as outras se prostrem. E essa intuição nos é apresentada, não por acaso, pelo maior dos mestres dos sonhos: Tolkien, e pela narrativa que ele nos traz logo no início do Silmarillion, a Ainulindalë, a Música dos Ainur. E afirmo ser o maior dos santos aquele que sonha sem receio da palavra, embora necessite fazer um alerta: não digo que Tolkien seja um filósofo superior a São Tomás, ou um teólogo melhor que Santo Agostinho — seria uma imbecilidade. Afirmo que ele recebeu, por outros caminhos, através do mito e da imaginação consagrada, uma iluminação que soube expressar em imagens aquilo que a teologia, de modo isolado, não conseguiu transmitir ao coração das pessoas comuns. Ele realizou, por meio de uma narrativa envolvendo elfos, o que bibliotecas de doutrina não conseguiram: acendeu a metafísica cristã no coração de milhões que jamais leriam uma Suma. E o início dessa narrativa é o ponto de partida de tudo. No começo, relata Tolkien, existia Eru, o Único, que na terra é conhecido como Ilúvatar; e Ele primeiramente criou os Ainur, os sagrados, que foram gerados de seu pensamento, e apresentou-lhes temas de música, e eles cantaram diante d'Ele, alegrando-O. E então lhes solicitou que, juntos e em harmonia, criassem uma grande música, e disse-lhes que os havia inspirado com a Chama Imperecível para que decorassem o tema com seus próprios talentos.
Permita-se contemplar esta Chama Imperecível, neste Fogo Secreto, pois nele se encontra a chave metafísica de toda a subcriação e de toda a queda: é o atributo divino de conferir substância às coisas, de fazê-las realmente existir, de transformar o possível em real. Os Ainur têm a capacidade de imaginar, de adornar, de sugerir e de entoar temas de beleza infinita; no entanto, o poder de trazer algo à existência, de tirar algo do nada e estabelecer isso na realidade, pertence exclusivamente a Eru, que o protege com zelo, pois se trata do próprio ato de criar, um dom que nenhuma criatura, por mais elevada que seja, pode possuir. E é exatamente por não possuí-la que Melkor, o mais poderoso e talentoso dos Ainur, cai: ele se aventurava sozinho nos vácuos, nos espaços desabitados fora da música, em busca da Chama Imperecível, pois ardia nele o desejo de dar existência às coisas por conta própria, de ser a fonte e não apenas um canal, de criar sem depender de ninguém para ter o poder de criar — mas não a encontrou, pois ela não se encontra nos vácuos, está com Ilúvatar, no coração do Único. Eis aqui, expresso com uma clareza que nenhum tratado conseguiu atingir, o pecado primordial de todo demiurgo, de todo gnóstico, de toda serpente, de todo tirano: desejar possuir o Fogo Secreto, querer fazer existir por conta própria, querer criar sem ter recebido o dom da criação. Trata-se da mesma queda de Lúcifer, o portador da luz que desejou ser a origem da luz; é, como Tolkien estava plenamente ciente, a mesma queda de Sofia no mito gnóstico, que tentou gerar sozinha, sem o complemento, e resultou em um mundo deformado; é — e isso é sutil — o mesmo drama dos dois gêmeos primordiais mencionados por Dick em sua Exegese, um que amadurece no momento certo e outro que, de forma apressada e antecipada, querendo ser antes do tempo, adoece. Quatro interpretações de uma única e mesma tragédia: a criatura esplêndida que não consegue aceitar, e por isso se fragmenta ao tentar ser seu próprio começo.
É fundamental aprofundar-se na cena, pois cada detalhe dela é pura teologia, e Tolkien apresenta personagens que poderiam ocupar tratados inteiros. Antes da revolta, alguns dos Ainur recebem presentes que os aproximam de forma arriscada do próprio Melkor, sem sucumbir — e a distinção entre eles e Melkor é a essência de toda a lição. Manwë, o mais distinto dos seres sagrados, senhor dos céus e dos ventos, é aquele que Ilúvatar elege como principal instrumento do segundo tema, aquele que irá equilibrar a dissonância; no entendimento do Único, ele é o irmão de Melkor e o seu exato oposto em vontade — compartilham o mesmo laço sublime, mas seguem direções opostas em seus corações. E Aulë, o ferreiro que molda a matéria da terra, o artífice, possui um talento que fica apenas um pouco abaixo do de Melkor, quase conseguindo igualar-se em poder criativo. Mas — e aqui reside o verdadeiro segredo — enquanto Melkor deseja ardentemente possuir e criar sozinho para dominar sua própria criação, Aulë não sente alegria em ter algo para si, mas sim em compartilhar seus dons, em criar pelo puro prazer de criar, e não pela avareza de reter. São a mesma força e o oposto exato do coração: um deseja ser origem e é amaldiçoado; o outro se satisfaz em ser conduit e é abençoado. A distinção entre o demônio e o santo, mais uma vez e agora com um nome específico, não reside no talento, que pode ser o mesmo, e sim na direção para a qual esse talento se direciona — para dentro, em um punho cerrado que apreende, ou para fora, em uma mão aberta que oferece.
E, mais adiante no mesmo livro, encontramos uma narrativa que serve como a contraprova exata da queda de Melkor e que restabelece a subcriação em seu verdadeiro caminho — a história de Aulë e dos anões, e é fundamental contá-la, pois é o antídoto ideal. Aulë, o ferreiro que mencionamos anteriormente, desejava profundamente ter criaturas para as quais pudesse ensinar sua arte. Ele aguardava com tanta ansiedade a chegada dos Filhos de Ilúvatar, que ainda não havia acontecido, que não suportou o silêncio da espera. Assim, em um local secreto sob as montanhas, moldou com suas próprias mãos os sete ancestrais dos anões, concedendo-lhes uma forma forte e obstinada, assim como a pedra que tanto apreciava. Assim como Melkor, ele realizou uma criação própria, avançada e sem autorização. Entretanto — e essa é a essência de toda a diferença, o ponto de virada entre o céu e o inferno — ele não os criou para dominar sobre eles, nem para subtrair a Chama e ser a fonte; ele os fez unicamente por amor à criação e pelo desejo de ter quem amar e educar. E quando Ilúvatar o censurou, revelando-lhe que uma criatura não pode conceder verdadeira vida, vida própria e livre aos seus feitos, pois isso é algo que somente a Fonte pode oferecer, Aulë não se revoltou como Melkor, não endureceu seu coração, nem disse mas eu quero. Lamentou, sentiu remorso e levantou o próprio martelo para despedaçar com as próprias mãos aquilo que havia feito sem autorização, oferecendo sua obra querida em sacrifício de obediência, afirmando que destruíria com prazer o resultado de sua arrogância. E foi precisamente esse gesto — a mão levantada para destruir o que havia criado por amor a Deus, a obediência que renuncia até mesmo ao que mais ama — que tocou o coração de Ilúvatar, que então parou o martelo no ar e deu vida de verdade aos anões, adotando como filhos os bonecos do humilde ferreiro e ordenando apenas que dormissem até que os Primogênitos despertassem primeiro. Ali estava, lado a lado com Melkor, a perfeita antítese e toda a moral da imaginação: ambos almejaram criar, ambos se adiantaram ao tempo, mas um desejou ser a fonte e se apossou, e foi condenado; o outro apenas quis servir e, ao ser repreendido, devolveu o que havia feito, e foi agraciado, e viu sua obra ganhar a vida que ele nunca poderia conceder. Aquele que cria, acolhe, segue e compartilha é agraciado até em suas extravagâncias; quem toma, se apega e domina é amaldiçoado até em seus acertos.
Na própria música, existem duas composições que Tolkien relata e que, com uma precisão impressionante, também retratam o nosso tempo. Uma é profunda, imensa e bela, porém lenta, e impregnada de uma tristeza imensurável de onde provém, principalmente, sua beleza — é o tema que Ilúvatar entrelaça a partir da própria dor do mundo, a beleza que surge a partir do sofrimento aceito. A outra é elevada, superficial, tediosa, eternamente repetitiva, como várias trombetas a soar somente algumas poucas notas sem alcançar qualquer harmonia, um barulho que se repete cada vez mais intensamente por não ter para onde evoluir — é o tema de Melkor. Guarde com você essas duas músicas, pois a segunda retrata perfeitamente aquele inferno moderno que já presenciamos na Matrix saturada: o som alto e vazio da repetição interminável, a novidade que é sempre a mesma nota tocada em volume mais alto, o ruído ensurdecedor que se confunde com música, pois nunca experimentou o silêncio do qual a verdadeira música surge. A dissonância de Melkor, é bom ressaltar, não se trata de uma nota inédita, de uma criação, de algo original — é a antiguidade de todas as notas, o tédio disfarçado de raiva, a repetição que se apresenta como revolução. O mal, na verdade, é sempre menos inventivo do que parece: apenas consegue distorcer o que já está presente, clamar com mais intensidade o mesmo, e sua aparência de poder é a disfarce de sua falta de criatividade. E em resposta a esse estrondo, Ilúvatar não toma a atitude que a razão humana aguardaria; ele não eleva sua voz acima da de Melkor, nem se junta à luta de intensidade. Ele simplesmente se levanta, levanta a mão e, com tranquilidade, inicia um novo tema, e essa tranquilidade é a sua força.
E quando a música finalmente se espalha pelo mundo, e os Ainur descem ao tempo para preparar a morada dos Filhos que estão por vir, a guerra da partitura se transforma em guerra da matéria, e Melkor desce com os demais, mas com a cobiça já arraigada em seu coração. Tolkien descreve, de maneira que fica marcada na lembrança, Melkor se aproximando do mundo recém-criado como uma montanha que surge do oceano e caminha, coberta de gelo eterno e ao mesmo tempo coroada por fumaça e fogo. A luz dos seus olhos assemelha-se a uma chama que resseca pelo calor e atravessa com um frio letal. E a sua primeira expressão ao se deparar com a nova terra é a mesma de todo tirano e de todo criador desde a origem: este será o meu domínio; isso eu reservo para mim. Manwë, o irmão com uma vontade oposta, responde com uma frase que desmantela a usurpação desde o início: este reino não será tomado por você, pois muitos se esforçaram aqui tanto quanto você. É a mesma luta do princípio, agora manifestada na pedra e na água: um deseja controlar a criação como se fosse propriedade privada, isolá-la, colocar seu próprio nome na cerca e exigir pedágio na entrada; os outros a aceitam como um presente comum, um lar de todos, um espaço onde se colabora em harmonia e ninguém é o proprietário. E não se trata de um acidente, mas da mesma nota falsa, que é a queda dos anjos, a queda de Adão que desejou ser como Deus ao colher o fruto, e a queda de cada ser humano que converte um bem comum em um feudo particular tocam exatamente o mesmo acorde: o meu contra o nosso, o cercado versus o partilhado, o reino conquistado à força contra o reino recebido de joelhos. O inferno, na essência, é um espaço confinado; o céu é um espaço livre.
O que Eru faz, então, ao enfrentar a dissonância de Melkor, é uma das expressões mais belas já feitas sobre a questão do mal, e, com um simples gesto musical, resolve questões que preencheriam bibliotecas inteiras de teodiceia. Melkor entrelaça em sua música seus temas pessoais, que vão contra a harmonia, e a dissonância se espalha. Muitos Ainur, desanimados, começam a afinar seu canto de acordo com o dele, permitindo-se contaminar. Mas Ilúvatar, sentado, ouvindo, sorrindo, levanta a mão, e um novo tema emerge do tumulto, semelhante e ao mesmo tempo distinto, e recolhe as próprias notas da rebelião e as entrelaça novamente em sua própria composição solene, de maneira que a própria dissonância se torna matéria da harmonia maior; e novamente, e mais uma vez, a cada ataque de Melkor ressoa um tema ainda mais profundo, até que, em um acorde mais profundo que o abismo e mais elevado que o firmamento, toda a música se silencia. E então Ilúvatar diz a Melkor a frase que deveria estar escrita em letras de fogo na entrada de toda teologia e de toda alma que sofre: nenhum tema pode ser abordado que não tenha em mim a sua origem mais profunda, e ninguém pode mudar a música contra a minha vontade; pois aquele que tentar fará apenas o papel de meu instrumento na criação de coisas ainda mais incríveis do que ele mesmo jamais sonhou. Tudo está presente, todo o enigma da providência em relação ao mal. Como um Deus bondoso e onipotente pode permitir a existência do mal? Pois tudo o que Ele realiza é bom, e até mesmo aquilo que procura desestabilizar a harmonia é acolhido e utilizado na concretização de um bem ainda mais grandioso – o mal de Melkor não atrapalha a música, mas sim é absorvido por ela, transformado, refeito, tornando-a mais profunda, mais rica, capaz de uma beleza que a harmonia sem conflitos nunca teria alcançado. É a doutrina de Agostinho sobre o mal permitido para que um bem maior possa surgir; é a "feliz culpa" que a Igreja celebra na noite de Páscoa, a culpa que gerou um Redentor tão grandioso; é o que está escrito em São Paulo, que todas as coisas colaboram para o bem daqueles que amam a Deus — apresentado não como uma tese seca, mas como uma melodia que absorve a própria dissonância e a restituí transformada em contraponto. O demiurgo acredita que destrói a criação; porém, descobre que era apenas o meio para uma obra ainda maior. A serpente acredita que está destruindo o jardim; no entanto, percebe que está promovendo a chegada de um Segundo Adão, cuja presença torna o primeiro jardim insignificante.
E não existe, em toda a literatura mundial, representação mais profunda dessa alquimia divina que transforma o mal em bem do que a cena que Tolkien apresenta com Ulmo, o senhor das águas. É necessário narrá-la por completo, pois ela tem o poder de silenciar mil ateus. Pois quando a música se transforma em mundo, Ilúvatar revela a Ulmo como Melkor, o adversário, lançou um frio feroz e um calor extremo sobre suas águas queridas, com a intenção clara de destruí-las, de arruinar aquilo que Ulmo mais prezava — e, no entanto, diz o Único, veja, meu amigo, o que a malícia dele gerou involuntariamente: do frio excessivo que ele desejou usar para matar a água surgiu a beleza ímpar dos flocos de neve, cada um uma minúscula e única catedral; e do calor que ele utilizou para ressecá-la e fazê-la evaporar brotaram as nuvens e a melancólica, carinhosa beleza da chuva que desce sobre a terra. E Ulmo responde, encantado e quase sem ar, uma frase que deveria silenciar para sempre aqueles que culpam Deus pela presença do mal no mundo: meu pensamento íntimo não havia imaginado o floco de neve, nem em toda a minha melodia estava presente a chuva que despenca. Compreenda o que isso significa, pois é de impressionar. Não se trata apenas de Deus tolerar o mal ou de consertá-lo com paciência; é que da própria malícia do inimigo Ele extrai belezas que nem mesmo os seus servos mais fiéis, nem a criação inocente, jamais conseguiriam imaginar. A neve e a chuva — essas duas manifestações suaves e silenciosas, que tornam o mundo infinitamente mais rico, úmido e menos áspero — surgiram, ambas, da intenção de Melkor de destruir a água. O demônio intentou criar o gelo mortal e, sem querer, acabou produzindo a delicada renda das estrelas de gelo que caem silenciosas sobre os telhados; quis fabricar o calor devastador e, sem querer, gerou a melancólica doçura da chuva que bate na janela numa tarde cinzenta. É a "felix culpa" entoada na meteorologia.
E disso se extrai a correção da caricatura mais fria de todas sobre Deus, aquela que filósofos de livros e deístas de peruca criaram: a do relojoeiro ausente, o motor apenas imóvel que deu corda ao universo e se afastou para um céu distante, indiferente ao tique-taque que colocou em movimento. O Deus da Ainulindalë não é esse. Ele é potência e ato simultaneamente — não se limita a ser o princípio imóvel do qual tudo depende, mas é o músico vivo, em constante movimento, sempre em transformação, que neste exato momento, enquanto você lê, está com a mão levantada, criando a dissonância de nossos dias, nossos problemas, nossas dores, nossos Melkores particulares, em um acorde que só será ouvido plenamente ao final. Ele não abandonou a obra; está imerso nela, nota por nota, fio por fio do nosso cabelo, pardal por pardal que despenca. E é, ao mesmo tempo, um só e um com os muitos — um único Eru, e, no entanto, unido à multidão dos Ainur, os sagrados, os espíritos que as antigas mitologias humanas mais tarde passaram a chamar de deuses e a venerar como se fossem divindades, quando na verdade eram apenas cantores. Aqui, Tolkien soluciona, em um único gesto, o antigo enigma que nem as mitologias pagãs nem, ouso afirmar, grande parte da teologia tradicional conseguiram resolver com tamanha plenitude: como o Deus único pode ser também o Todo que abrange e ordena a diversidade das potências — o solar, o marcial, o mercurial, o das águas e o dos ares — sem se reduzir a nenhuma delas e sem invalidar a realidade de nenhuma. É a essência na diversidade, o um que harmoniza com os muitos sem deixar de ser o um. O Deus que se reflete nos símbolos é exatamente este Eru: único, mas ao mesmo tempo uno em meio aos muitos; superior a todos os temas, e, ainda assim, a origem oculta de cada tema que ressoa.
E não se deve pensar que Tolkien criou uma mitologia estranha e indiferente à Bíblia; ele leu a Bíblia com mais profundidade do que aqueles que apenas a folheiam, e sua Ainulindalë é quase um comentário poético do primeiro capítulo do Gênesis. Pois a Escritura, em seu original hebraico, não afirma que no início um único senhor, solitário e isolado, criou os céus e a terra; menciona Elohim, uma palavra que possui forma plural, que evoca a ideia de poderes, como um conjunto daqueles que atuam – e a tradição sempre interpretou isso, sem recorrer ao politeísmo, como a corte celeste, os anjos, os seres sagrados que assistem e servem ao ato criador do Único, a mesma pluralidade unificada que Tolkien descreveu como Valar. Os Valar são precisamente isso: as forças do mundo, a coletividade que entoa em harmonia sob o Um, os Elohim devidamente colocados em suas funções de servos e cantores, e não como senhores ou fontes. E há mais, e é sutil: a Escritura narra, de certa forma, duas criações — a primeira, pura, que Deus observa ao final de cada dia e a chama de boa, boa, muito boa; e depois um segundo estado do mundo, marcado pela queda, pela serpente, pela maldição da terra que começa a produzir espinhos e cardos, um mundo que já não é apenas o Éden intacto, mas sim o Éden ferido, cultivado com esforço e gerado com dor. É o reflexo fiel das duas canções, sendo a primeira cheia de harmonia e a segunda já marcada pela dissonância de Melkor, onde a beleza agora se entrelaça de forma indissociável com a tristeza. Ler Tolkien é, sem exagero, reencontrar o Gênesis: perceber que a queda dos anjos, a queda do homem, a dor do parto e o suor do trabalho não são meros acidentes de um enredo que deu errado e fugiu do controle do autor, mas sim a dissonância que o Maestro está, neste momento, com a mão levantada, entrelaçando novamente em uma temática mais elevada e profunda do que a do jardim que nunca conheceu a queda.
E existe, na Ainulindalë, um último aspecto, e é por meio dele que a esperança de toda esta obra se acende como uma chama no final de um túnel. É mencionado, conforme canta Tolkien, que haverá uma outra melodia, ainda mais grandiosa e imponente que a primeira, que será apresentada diante de Ilúvatar pelos coros dos Ainur e pelos Filhos de Ilúvatar — ou seja, pelos homens e elfos, e todas as criaturas — após o fim dos tempos; e nesse momento, os temas serão elaborados com perfeição, tornando-se realidade no exato instante em que forem expressos em sons, pois todos finalmente entenderão plenamente o propósito de Ilúvatar para cada um, e cada um será capaz de compreender o outro. Pese cada palavra disso, pois é grandioso: ao final, os subcriadores, aqueles que aqui só podiam conceber e embelezar, compartilharão da Chama Imperecível; receberão o Fogo Secreto que lhes era negado até então; e suas histórias, seus bons sonhos, ganharão existência, transcenderão o possível e se tornarão reais no momento em que forem cantadas. É o conceito grego da teose, que se refere à divinização do ser humano, expresso em forma de música: a promessa, que a fé cristã endossa, de que o homem redimido, ao final, criará junto de Deus e em Deus, concretizando seus sonhos ao invés de usurpar o Fogo, como tentou Melkor, mas recebendo-o como um presente, das mãos abertas do Pai, assim como um filho recebe a sua herança. É o que Tolkien destacou ao concluir seu ensaio sobre contos de fadas, com uma frase que mais parece uma bênção: todas as histórias podem se tornar verdadeiras. E foi isso que ele disse a Lewis, naquela noite crucial em que o ajudou a acreditar, quando lhe explicou que o próprio Cristo é um mito — mas com a diferença de todas as diferenças, a diferença que transforma tudo: o mito que se concretizou, o único que saiu do reino do possível para o reino do fato histórico, o sonho que se tornou carne sob um determinado governador, e que, por isso, sendo verdadeiro, pode levar consigo todos os outros mitos, todos os bons sonhos da humanidade, para dentro da verdade.
Na introdução do ensaio de Tolkien acerca das histórias de fadas, ele menciona um antigo poema escocês que resume, em três caminhos, toda a jornada da alma. Uma canção antiga apresenta ao viajante três trilhas. O primeiro é um caminho estreito, repleto de espinhos e urtigas, tão áspero que quase ninguém o aceita de bom grado: é, conforme a canção, o caminho da retidão, a difícil senda da lei e da justiça, que abre uma passagem na densa floresta do pecado. A segunda é uma estrada ampla, suave, agradável, que corta um campo florido e convida os pés cansados a descer sem esforço: é a trilha da perversidade, a rota simples dos que se extraviam — embora muitos, iludidos, a chamem de o caminho do paraíso. E o terceiro é uma bela estrada curvilínea que se enrosca entre samambaias e colinas verdes, nem tão acidentada quanto a primeira nem tão ampla quanto a segunda: é o caminho da encantadora terra dos elfos, e por ele, canta a balada ao ouvido do viajante, você e eu iremos perambular esta noite. Certamente, Tolkien colocava ali, sem revelar tudo, uma chave que abria as portas de três eras da alma e da história. A senda estreita e repleta de espinhos é aquela do Antigo Testamento, o caminho da lei, do temor e da severidade que desbrava a urtiga deste mundo caído. A trilha ampla e acessível é a do declínio, a estrada do mundo que se dissolve em comodidade em direção à destruição, tão suave e repleta de flores que aqueles que a percorrem afirmam estar no paraíso enquanto se encaminham para o caos. O terceiro caminho, esse encantador caminho sinuoso da terra mágica, é a nova trilha, a trilha do Evangelho e do Espírito, que não elimina os espinhos do primeiro, mas os acolhe e os transforma, unindo a rigidez da lei com a suavidade da graça, a cruz com a eucatástrofe, o perigo com a beleza — pois, como todo bom contador de histórias e todo verdadeiro santo sabe, a aventura sem perigo não tem encanto, e um paraíso sem um caminho sinuoso e sem floresta a atravessar seria um tédio de plástico que a própria alma humana, criada para o custo do amor, acaba rejeitando. É justamente por isso que a leitura das obras de Tolkien nos provoca uma saudade peculiar e indefinida de um lugar onde nunca estivemos: trata-se da saudade da terceira estrada, uma saudade de lar, a nostalgia do Éden que deixamos para trás e do Céu que nos aguarda, despertada intencionalmente por um autor que tinha plena consciência de suas intenções.
E o próprio Tolkien expressou essa doutrina de maneira mais pura e tocante em um poema que escreveu para um amigo que ainda duvidava — um certo Clive, que a história conheceria como C.Lewis —, um poema intitulado Mythopoeia, que significa fazer-mito, escrito para rebater a alegação de que os mitos seriam apenas mentiras, mesmo que sejam mentiras revestidas de encantamento. Segundo Tolkien, o ser humano não se encontra totalmente perdido nem completamente transformado pela sua queda; ele pode estar em desgraça, verdadeiramente afastado de sua dignidade original, mas não destituído — ainda mantém, como um rei em exílio, os resquícios do domínio que um dia possuía plenamente. E é exatamente por manter esses fragmentos de realeza que ele continua a criar: ainda criamos segundo a lei com a qual fomos feitos, e ao criar mitos, ao subcriar mundos, o homem não toma nada de Deus, não rouba o Fogo como Melkor, apenas exercita, com obediência, o restante verdadeiro da imagem daquele que primeiro o fez à sua semelhança. Este é o fundamento de toda esta obra e a sua alegria mais profunda: a subcriação não é uma rebeldia em relação ao Criador, mas sim uma obediência filial da imagem que cria à semelhança de quem a originou, como um filho que se diverte em construir imitando o pai carpinteiro, e ao imitá-lo, o honra. O autor que imagina um mundo melhor reflete a luz do único Criador; o artista que cria um herói virtuoso reflete, sem perceber, o Fogo Secreto que é exclusivo de Eru e que, no final, Eru o fará compartilhar. Criar um mito não é o mesmo que mentir: é expressar, na única linguagem que o ser possui, uma verdade que não se encaixa em proposições.
E é neste ponto que se acende um alerta para o nosso momento preciso, pois existe uma falsa subcriação que, na verdade, é o ato de Melkor disfarçado de progresso. Já discutimos sobre a máquina como o novo leviatã; agora é necessário mencionar que existe uma tentação, cada vez mais próxima e mais atraente, de o ser humano renunciar à sua própria capacidade de criar e entregá-la a máquinas que simulam a criação sem possuírem a Chama — dispositivos que reconstituem o que já existe, que juntam fragmentos do antigo em um semblante convincente de novo, que geram a aparência da subcriação sem a essência do Fogo Secreto, assim como o digital imita o analógico sem ser matéria, e a cópia imita o original sem ser a origem. Não é porque a ferramenta seja, por si só, o demônio — a ferramenta é apenas uma ferramenta, e o martelo que edifica a igreja é o mesmo que poderia destruí-la. O risco é outro, e diz respeito ao coração: o homem que se abstém de criar, que troca o labor intenso e sagrado de refletir Deus pelo comodismo de permitir que a máquina reflita por ele, reproduz, em escala reduzida e cotidiana, o pecado de Melkor — rejeita o presente de ser um canal, de sofrer o processo da criação, de arcar com o custo do fazer, para brincar de ter sem esforço uma fonte que não lhe pertence. A subcriação redimida avança em direção à segunda melodia, ao momento em que os filhos receberão o Fogo da dádiva e testemunharão seus sonhos ganharem forma; a subcriação deixada de lado e posteriormente delegada a um oráculo destituído de alma avança para o barulho ensurdecedor e repetitivo da primeira dissonância, para a Matrix exaurida, para a incessante remontagem do mesmo. E entre as duas, mais uma vez, persiste a mesma antiga fronteira de sempre, aquela que permeia este livro do início ao fim: recebo o presente e o exerço com temor, gratidão e esforço, ou então, o desvalorizo, e denomino a desvalorização de facilidade? Toda a cultura, e agora também suas máquinas, representam apenas o novo cenário dessa antiga escolha entre o punho cerrado e a mão estendida.
E ao lado do pequeno que carrega o Anel, Tolkien apresentou a outra face da realeza cristã, o rei oculto que retorna, e nele esboçou o próprio Cristo Rei de uma maneira que poucos teólogos conseguiram. Na sua narrativa, há um herdeiro legítimo do trono que, por muitos anos, vive disfarçado como um vagabundo, um andarilho com capa suja e identidade trocada, desprezado nas estalagens e visto como um foragido. Este verdadeiro rei caminha incógnito entre aqueles que não o reconhecem — assim como o Rei dos reis percorreu a Galileia, sendo considerado filho de um carpinteiro, sem beleza ou realeza visíveis que despertassem o desejo dos homens, desprezado e tratado como o último dos homens. Esse rei oculto não busca o trono com violência, não toma o poder como Melkor, nem o arranca utilizando o Anel; aguarda seu momento, serve, cura — pois as mãos do rei, segundo a antiga sabedoria daquele mundo, são mãos que curam, e é através da cura, e não da conquista, que se reconhece o legítimo rei —, e só aceita a coroa ao final de tudo, após descer aos caminhos obscuros dos mortos e retornar deles vivo, tendo vencido não pela dominação, mas pela entrega. É a realeza conforme o Evangelho, a coroa que necessariamente passa pela cruz, o trono que se conquista de joelhos, servindo: o oposto exato do sol tirano e do Anel de poder. A cultura, ao almejar grandes sonhos, não se limita apenas ao herói forte e musculoso; ela imagina o verdadeiro rei que está oculto sob trapos, aquele que foi legitimamente desprezado e que, um dia, será finalmente reconhecido, a volta do rei — e faz isso, sem perceber, porque o mundo inteiro realmente anseia pela volta de um Rei que já veio uma vez disfarçado de pobre e há de retornar em sua glória; um Rei cujas mãos, também elas, são reconhecidas por curarem, e que ainda exibem, abertas e erguidas, as marcas dos cravos que o feriram ao servir.
E não deixe a Terra-média sem observar quem Tolkien colocou no coração de tudo para suportar o peso do mundo, pois a decisão é, por si só, uma reflexão completa. Não foram os magos, nem os reis, nem os guerreiros de grande valentia que receberam a missão de destruir o Anel, o objeto supremo de poder. Foi um pequeno pé-peludo, comilão, caseiro, sem nenhum talento extraordinário, um hobbit que apenas desejava a tranquilidade do seu jardim e a fumaça do seu cachimbo. E ao seu lado, ainda mais central, estava o seu fiel jardineiro, o mais simples de todos, cujo heroísmo reside em não soltar a mão do amigo até o fim e carregá-lo nas costas montanha acima quando ele já não consegue mais andar. Tolkien tinha plena consciência do que estava fazendo e sabia de onde se inspirava: da mesma sabedoria que São Paulo expressou em suas palavras ao afirmar que Deus escolheu o que o mundo considera louco para confundir os sábios, e o que o mundo vê como fraco para confundir os fortes, e as coisas que não são para anular as que são, para que ninguém possa se gloriar diante d'Ele. O poder que controla, o Anel, pode ser superado apenas por quem possui quase nenhum poder, pois somente a mão pequena não é seduzida a usá-lo em benefício próprio; aquele que é forte e carregar o Anel fatalmente se tornará um novo senhor das trevas, e o herói musculoso acabará se transformando em tirano na primeira oportunidade, mas o pequeno o transporta até o fogo exatamente porque é pequeno demais para imaginar-se governando com ele. É a lógica oposta de todo o Evangelho, uma lógica que choca o mundo e salva a alma: os últimos serão os primeiros, os humildes herdarão a terra, o grão que morre é o único que gera frutos, e o Reino pertence àqueles que se tornam pequenos como crianças. O verdadeiro espírito do sonhar, em seu ponto culminante, não é o herói dotado de força extraordinária; é o hobbit leal que continua avançando, colocando um pé diante do outro em direção ao monte da perdição, mesmo sem a mínima garantia de retorno, apenas porque é necessário, e porque um amigo o acompanha e não o abandona.
E no auge de toda essa teologia do presente e da subcriação modesta, existe uma figura em que tudo o que este livro buscou se realiza plenamente, e seria uma injustiça silenciá-la apenas porque nossa época a deixou de lado: a Virgem. Se o pecado de Melkor, de Adão, do gnóstico e do mago é sempre o mesmo — desejar ter o Fogo, ser a fonte, tomar, agarrar, fazer-se como Deus por conta própria —, então a verdadeira santidade, que é o oposto disso, deve ser a criatura que não arranca nada e aceita tudo, que não diz "eu quero", mas sim "faça-se em mim segundo a tua palavra". Aulë levantou o martelo para destruir sua própria criação em obediência, e recebeu bênçãos por isso; a Virgem foi ainda mais longe do que Aulë, e ofereceu seu próprio corpo para que a Obra de Deus se realizasse dentro dela, sem guardar nada, sem exigir nada, demonstrando uma pureza e uma total disposição para acolher. Ela é a antítese perfeita de Melkor, o oposto exato do demiurgo: enquanto o demônio tentou dar vida às coisas por sua própria vontade e falhou, pois a Chama não se encontrava nos vazios, ela permitiu que a própria Existência, o Verbo pelo qual tudo se manifesta, tomasse forma humana em seu ventre — e assim, a criatura que menos desejou ser a fonte tornou-se, por uma acolhida pura, a Mãe da Fonte, aquela por meio da qual o Fogo Secreto veio ao mundo em carne e osso. É a representação final e sublime do santo que, ao sonhar, se transforma em um verdadeiro santo: não é a força que prevalece, mas a humildade que abraça; não é o punho que agarra o Fogo do vazio, mas o ventre que o acolhe como um presente do alto. Toda a disparidade entre o inferno e o céu, que esta obra buscou do início ao fim através de mil imagens em papel e na tela, reside, afinal, na distância entre duas frases ditas por duas criaturas perante Deus: o sereis como deuses, que a serpente sussurrou, e o faça-se em mim, que a Virgem respondeu. Uma mão selou o Paraíso, arrancando-o; a outra abriu os Portões do Céu, abrigando com um ventre generoso.
E é neste ponto que se completa o ciclo iniciado lá no começo, na teoria dos mundos possíveis, finalizando no ponto mais elevado: no fim dos tempos, na realização de todas as coisas. Caso todos os mundos possíveis existam eternamente na mente de Deus, e se neles habitam, conforme discutimos, os santos do sonhar, então a realização de tudo não será a eliminação desses mundos, mas sim a sua coleta, a sua reunião em uma única e gloriosa ceifa. Quando a Jerusalém celestial descer, a cidade que São João contemplou descendo do céu como uma noiva adornada para o seu noivo, o que virá é a reunião de tudo aquilo que Deus concebeu de maneira harmoniosa, todos os possíveis bons finalmente estabilizados em ação, transpostos do reino do sonho para o reino do ser — enquanto o mal arranjado, os mundos que Melkor afinou na desarmonia, os pequenos mundos que o vício de cada um distorceu e enclausurou, permanecerão de fora, no inferno de sua própria fragmentação, condenados a jamais se unirem a qualquer coisa. E nesse momento, é importante lembrar: quando um homem de bem falece, ele não se desfaz, mas se junta àqueles que já estão em união, ingressa na fortaleza celestial onde os mundos que na terra pareciam distintos, apenas por estarem em frequências diferentes, finalmente começam a se reconhecer como um só. E, ao final, na segunda melodia dos Ainur, todos os mundos possíveis e benéficos se unirãona mesma harmonia sem emendas, e os santos do sonho e os santos de carne entoarão juntos, com uma só voz, o tema que Ilúvatar escondeu em segredo desde antes do começo do começo.
E há um último sinal dessa transformação do mal em bem, que está gravado no próprio corpo do Ressuscitado, para que ninguém nunca esqueça: quando Cristo retorna do túmulo, glorioso, imortal e transfigurado, atravessando portas fechadas, Ele mantém, ainda assim, as chagas — os buracos dos cravos em suas mãos e pés, e a ferida aberta da lança em seu lado. Poderia tê-las eliminado; um corpo magnífico não precisa carregar marcas. E, no entanto, as marcas estão lá, e Ele as apresenta, convidando o discípulo cético a tocar nelas. Por qual motivo? Porque no céu as feridas do amor não são apagadas, são exaltadas; a dor vivida por amor não é esquecida como um mal a ser superado e ocultado, mas sim celebrada como o verdadeiro troféu da conquista. As chagas de Cristo, na eternidade, já não causam dor — elas resplandecem; representam o caminho por onde a luz ingressa, a evidência eterna de que Ele amou até o fim e além dele. Isso altera completamente o que se pode afirmar a respeito do sofrimento humano. A promessa cristã não consiste em Deus simplesmente eliminar nossas dores como se apaga uma anotação errada, ignorando o que aconteceu, ou nos devolver a um Éden que nunca conheceu a dor; ao contrário, a promessa é que Ele glorificará nossas cicatrizes, transformará nossas feridas de amor em fontes de luz, de forma que aquilo que aqui foi nossa cruz se torne, lá, para sempre, nossa glória mais autêntica e mais bonita, o que nos faz reconhecíveis e insubstituíveis. É a culpa feliz levada ao corpo ressuscitado: nem o mal ignorado como se não tivesse ocorrido, nem o mal triunfante como se fosse a última palavra, mas o mal atravessado e transformado, a cicatriz que se tornou estrela. O mundo redimido não será aquele que não tiver histórias de sofrimento; será um mundo onde cada dor vivida por amor se transformará, assim como as chagas abertas e brilhantes do Senhor, em uma porta pela qual a luz eterna entra e sai.
Os antigos Padres possuíam uma palavra grandiosa para essa colheita definitiva de todos os mundos, uma palavra que sintetiza toda a esperança do cristianismo: recapitulação. São Paulo afirmou que o plano de Deus, aquele mistério oculto desde a eternidade e revelado em Cristo, consiste em reunir em Cristo todas as coisas, tanto as celestiais quanto as terrenas — unificar tudo sob uma única liderança, trazer de volta toda a criação que está dispersa e machucada ao seu centro, restaurar em Cristo aquilo que se perdeu em Adão. Um dos primeiros grandes doutores da Igreja expandiu essa ideia de uma maneira que ainda impressiona: Cristo, o novo Adão, retornou todo o percurso que o primeiro Adão nos fez perder, refazendo cada passo em obediência, enquanto o outro agiu com desobediência. A árvore da queda é desfeita pela árvore da cruz, a virgem desobediente é superada pela Virgem obediente, o não de Adão é substituído pelo sim de Cristo. Assim, nada que foi perdido se perde de forma definitiva; tudo é recuperado, recolhido, renovado e elevado. É a mesma representação da segunda canção que absorve a dissonância, agora expressa em termos teológicos: nada de positivo se extingue, nem os mundos almejados, nem os afetos desfeitos, nem as existências que pareceram um insucesso; tudo que teve um pingo de verdade e de bondade será relembrado, reintegrado na grande repetição final que não é uma repetição árdua, mas um processo glorioso de recolhimento, o Maestro interpretando novamente, em um acorde perfeito, todos os temas que os séculos tocaram de maneira equivocada. A história não é uma linha reta que se desvanece no vazio, nem um círculo que se move sem realmente ir a algum lugar; é uma espiral que se eleva, um rio que se contorce, mas que acaba por desaguar, e o seu oceano é Cristo, em quem tudo se reúne e nada se perde.
É fundamental deixar claro, em alto e bom som, que isso não se trata da fuga gnóstica que esta obra refutou do início ao fim — não é a alma se libertando do corpo em direção a um vazio iluminado, não é o desprezo pelo material, nem é o anseio de se dissolver em um oceano impessoal. É exatamente o contrário, e a distinção é a que existe entre o céu cristão e todos os seus impostores. O propósito cristão é a plenitude, e não o vazio; é a ressurreição da carne, ao invés da fuga dela; é o mundo que não é abolido, mas sim transfigurado, não apagado, mas plenamente realizado, não negado, mas elevado à sua mais profunda verdade. Toda a criatividade da humanidade, tudo o que ela idealizou de positivo em mil universos de papel e de tela, todos os Camelots, todas as Terras-médias e todos os Kryptons dignos, tudo que a humanidade sonhou em termos de coragem, lealdade, amor altruísta e beleza — nada disso se perderá; será armazenado como o trigo é recolhido no celeiro após a colheita, separado da erva daninha, preservado para sempre. E naquele dia, a humanidade perceberá, com um assombro que marcará o início de sua alegria eterna, que em todos os mundos que idealizou, estava, sem saber, sempre sonhando a mesma cidade, buscando, de forma hesitante, a mesma pátria, esboçando sempre, com mãos trêmulas e olhos vendados, a única cidade cujo arquiteto e construtor é Deus, a Jerusalém para a qual, desde o primeiro conto de fadas narrado à luz do primeiro fogo, todo coração humano esteve, sem saber, com saudade de casa.
É necessário confrontar o lado mais sombrio e arriscado de toda essa questão, pois uma teologia que apenas abordasse a luz estaria sendo desonesta em relação à batalha que realmente ocorre: a existência das maldições e da luta espiritual. É tendência, entre alguns padres influenciados pelo espírito contemporâneo, um pacifismo superficial que considera os Salmos imprecatórios — aqueles em que o salmista clama a Deus pela destruição dos ímpios — como se fossem sempre e unicamente destinados ao diabo, nunca a adversários de carne e osso, criando uma alegoria limpa na qual ninguém é atingido. É uma interpretação bastante superficial, que a mensagem da Bíblia refuta de maneira clara e que a Igreja, ao longo de toda a sua trajetória, nunca apoiou. Davi solicitou, nos salmos, maldições específicas sobre inimigos determinados; a palavra que abrange o Nome de Deus impacta o cosmo, possui peso e gera efeito; e a antiga tradição hebraica sempre reconheceu a existência de anjos da ira de Deus, que são executores do Seu juízo, uma compreensão que uma teologia posterior colocaria na esfera da severidade e da justiça. Não afirmo isso para ensinar alguém a proferir maldições — muito pelo contrário, faço isso de forma intencional, sem fornecer qualquer método, sem etapas, sem uma receita, pois não é algo que se deva fazer, e aqueles que buscam uma técnica aqui não encontrarão. Afirmo isso por um motivo exatamente contrário: para retirar o cristão contemporâneo de sua ilusão mais ingênua e mais desarmante, a crença de que a palavra não tem efeito, de que o espírito não influencia o mundo, de que a guerra espiritual é apenas uma metáfora usada por pregadores exaltados. Não é verdade. Existe uma economia que pode ser tanto uma bênção quanto uma maldição, correntes de alta tensão permeiam o mundo invisível, e aqueles que lidam com elas sem medo e sem proteção divina estão manipulando fios expostos, acreditando que são apenas adornos festivos.
Entretanto — e aqui reside a essência católica, que sempre corrige por meio da elevação e nunca por uma negação temerosa — o Novo Testamento não eliminou essa realidade da guerra; ao contrário, ele a superou, o que é algo bem distinto, proporcionando ao cristão uma arma mais elevada e mais potente. A Cristo, que no Getsêmani afirmou que poderia, se quisesse, convocar doze legiões de anjos — os anjos da ira, os executores do juízo —, o que se determina, e o que Ele mesmo realiza na cruz, é o oposto: abençoai os que vos amaldiçoam, orai pelos que vos perseguem, pai, perdoa-lhes. Não é que a maldição não tenha efeito, é bom destacar — o cristianismo maduro não é ingênuo, não se ilude achando que o mal é ineficaz —, mas sim porque o cristão recebeu de Cristo uma ferramenta que é mais poderosa e triunfa de maneira superior: a bênção, a Cruz, o perdão que neutraliza o inferno de um jeito que nenhuma maldição jamais conseguiu. O antigo guerreiro de Deus amaldiçoava o adversário e o feriria, e, em algumas ocasiões, isso poderia ser considerado justo; já o novo guerreiro abençoa o inimigo e o transforma, tornando o oponente em irmão, o que representa uma vitória muito mais significativa do que simplesmente destruí-lo. Caso o inimigo insista em não se converter até o fim, o novo guerreiro entrega o julgamento àquele que realmente detém a verdadeira justiça, assim mantendo-se impune de sangue em uma guerra que, por sua vez, permanece absolutamente real. A não-violência cristã não representa a recusa da guerra; é a batalha utilizada com melhores armamentos, as únicas que não corrompem aqueles que as utilizam.
Há uma verdade acerca de Deus que nossa época sentimental não consegue ouvir, e que precisa ser dita exatamente aqui, no cerne da guerra, custe o que custar para os ouvidos sensíveis: Deus possui duas faces, e a segunda não é menos divina do que a primeira. Isaías avistou o Senhor retornando de Edom, de Bosra, com as vestes tingidas de vermelho, e questionou, impressionado, por que a roupa estava rubra como a de quem pisa uvas no lagar. A resposta foi horrenda e majestosa: pisei sozinho o lagar das nações na minha cólera, esmagando-as na minha fúria, e o seu sangue respingou nas minhas vestes e manchou toda a minha roupa. E é o mesmo Deus cujas infinitas bondades e carinhos o mesmo profeta entoa pouco depois, o Deus que leva seu povo nos braços como uma mãe leva seu filho — toda a ternura para com aqueles que se entregam aos seus cuidados, toda a severidade contra quem oprime o inocente, e sem qualquer contradição entre essas duas coisas, pois a mesma justiça que acolhe o justo esmaga aquele que maltrata o justo, e o acolhimento e a punição são a mesma manifestação de amor sob diferentes perspectivas. Os antigos, de forma hesitante e limitada, perceberam isso: nas antigas mitologias da Índia, o mistério divino se dividia em três faces: a que cria, a que preserva e a que destrói e limita, uma vez que a mente pagã não conseguia concentrar em um único rosto a criação e o juízo. E é um sinal claro da enfermidade do nosso clero acomodado que ele adore com prazer apenas o Deus que cria e perdoa, e negue com escândalo, quase com aversão, o Deus que julga e limita — que deseje um céu sem inferno, uma misericórdia sem justiça, uma graça sem cobranças, um Cristo que apenas acaricia e nunca vira as mesas do templo nem expulsa os cambistas com um chicote feito de cordas trançadas por suas próprias mãos.
É fundamental afirmar claramente que a negação dessa segunda faceta de Deus, ao invés de ser a bondade almejada que se imagina, é, na verdade, uma crueldade disfarçada e uma mentira arriscada. O sacerdote que se eleva ao púlpito para assegurar que o inferno está desocupado, que de fato ninguém se condena, que Deus é apenas carinho e jamais julgamento, imagina-se como alguém cheio de misericórdia, contemporâneo, humano; mas, na realidade, é o mais desumano dos oradores, pois retira do ser humano a única coisa que confere um peso eterno às suas decisões. Se nada que eu faça pode realmente me fazer perder, então nada que eu faça tem importância de verdade; se o carrasco e a sua vítima chegam exatamente ao mesmo destino, então a justiça se torna uma farsa cósmica e o clamor do sangue inocente que se eleva da terra nunca será ouvido, e Abel gritou em vão. A negação do inferno não eleva a misericórdia de Deus; desmerece a dignidade da liberdade humana, transforma a vida numa representação sem consequências reais e — o que é mais grave — ofende as vítimas, insinuando que o mal que elas sofreram no fundo não era tão sério assim, que no final das contas tudo se iguala, que o opressor e o mártir se abraçarão da mesma forma. As antigas religiões, apesar de suas falhas e sombras, eram, nesse aspecto, mais saudáveis do que o nosso clero debilitado: entendiam que o Deus que cria e preserva é também, sem qualquer contradição, aquele que destrói e limita. Elas mantinham um rosto completo e aterrador para essa força de severidade, sem a qual a criação se tornaria um mero brinquedo nas mãos dos poderosos, sem nenhuma regra. O cristianismo não eliminou essa face; mostrou que ela é, em sua essência mais profunda, a mesma face do amor — pois apenas aquele que ama genuinamente o bem pode realmente detestar o mal que o aniquila, e um Deus que não sente ira diante do sofrimento de uma criança não seria mais amoroso, mas sim menos, seria um deus apático e insensível, e aos morno a própria boca de Cristo promete o vômito. A ternura sem justiça é como um açúcar que causa desconforto; a justiça sem ternura é um gelo que é letal; e apenas no Deus verdadeiro, na Totalidade que este livro busca por inteiro, ambas são, sem mistura e sem separação, uma só e mesma chama que aquece o coração do amigo e queima aquele que insulta o amigo.
Existe um psicólogo contemporâneo que, mesmo não sendo cristão, explorou com uma sinceridade que envergonha muitos fiéis o abismo das duas faces de Deus — estou falando de Jung e de algumas de suas reflexões sobre o lado obscuro da divindade. Ao ler o Livro de Jó, ele percebeu que o Deus da Bíblia não é aquele vovô bonzinho da catequese superficial. Nele, há um mistério de severidade, uma face assustadora que leva Jó, em determinado momento, a calar-se, colocando a mão sobre a boca. Assim, chegou à própria conclusão de que o ser humano só se torna pleno quando deixa de buscar ser apenas bom e passa a desejar ser completo, integrando em si também a sombra que costuma reprimir. Aqui temos uma intuição genuína e um veneno associado a ela, e é preciso que o discernimento os separe com firmeza. A verdadeira intuição é que a santidade artificial, o bonzinho reprimido que empurra para o fundo tudo o que nele é força, raiva, desejo e sombra, não é santo coisa nenhuma — é um túmulo pintado, e a sua bondade simulada geralmente explode, mais cedo ou mais tarde, nas piores crueldades, pois o que não é aceito e entregue a Deus é projetado no outro e se transforma em violência disfarçada de virtude. Nesse aspecto, Jung estava certo, e a tradição católica sempre compreendeu: não se torna santo quem reprime suas próprias paixões, mas sim aquele que as disciplina e as coloca a serviço do bem, o colérico que transforma a cólera em zelo, o soberbo que converte a ambição de grandeza em anseio por Deus. Entretanto, o veneno é a palavra plena substituída pelo termo santo, como se integrar à sombra significasse fazer um acordo com ela, conceder-lhe um espaço, e equacionar o mal à divindade. Não. O Deus cristão não possui nenhuma sombra maligna, nem uma parcela demoníaca a ser identificada — sua face severa é a mais pura justiça, não malícia; a escuridão que os místicos encontram n'Ele é, na verdade, um excesso de luz, e não a ausência dela. A integração da nossa sombra, para o cristão, não significa se unir a ela, mas sim superá-la ao crucificá-la com Cristo e ressuscitá-la transfigurada — é tornar-se pleno, sim, mas pleno em Deus, que é o verdadeiro e definitivo nome da santidade.
E existe um testemunho que confere a tudo isso a gravidade do sangue, e é importante expressá-lo com seriedade, sem alarde e sem arrogância: quem redige estas palavras possui um profundo conhecimento desse âmbito, tendo dedicado anos de sua vida ao estudo e à prática da cabala antes de trazer tudo isso de volta, com empenho e com elegância, ao solo sólido da Igreja. Não me refiro, portanto, a ouvir boatos, a ler informações de segunda mão, ou à curiosidade de quem observa por cima do muro; estou falando de quem esteve dentro da sala e saiu por sua própria porta. E é exatamente por ter estado nesse lugar que posso afirmar, com a amarga autoridade de quem pagou um alto preço para aprender, duas coisas que o cristão de final de semana, que nunca teve essa experiência, não pode compreender. A primeira questão é que isso é autêntico — que existe uma força genuína nas estruturas do simbólico, nos nomes, nas correspondências, nas letras e nos números, e que zombar disso como se fosse mera tolice de pessoas ingênuas é a arrogância comodista daqueles que nunca se aproximaram o suficiente para se ferir de verdade. A segunda coisa, e essa é a mais importante das duas, é que aquilo se apresenta como uma prisão — uma técnica magnífica e opressora de lidar com o cosmo, que mantém a alma na exata condição do gnóstico que este livro todo descreveu: mestra de poderes e escrava de si mesma, talentosa em transformar a realidade e profundamente incapaz de descansar nela, repleta de chaves e sem um único lar onde habitar. Deixar aquele lugar não significou perder um conhecimento valioso; foi uma troca da habilidade pela conexão, da prática pela devoção, da palavra que se usa para impor as coisas pelo Nome singular diante do qual todo joelho se curva nos céus, na terra e nos infernos. É essa travessia concreta, e não apenas uma teoria abstrata, que permite a este livro abordar o simbólico com carinho e coragem simultaneamente: com carinho, pois reconhece nele o verdadeiro vestígio de Deus; e com coragem, porque entende, pela própria experiência dolorosa, que esse vestígio não representa o Fim, e que aqueles que confundem os dois se perdem em uma caverna de espelhos infinitos, de onde somente a graça, e nunca a técnica, é capaz de resgatar alguém.
É fundamental ser preciso quanto ao que é, de fato, a prisão à qual me refiro, pois não se trata da prisão que um cristão apressado possa imaginar. Não afirmo que aquele conhecimento seja apenas um conjunto de bobagens sem relevância — já declarei o oposto e mantenho minha posição: há uma força verdadeira contida ali, e é exatamente por isso que é arriscado, pois o que não causa efeitos não envolve ninguém. A prisão é mais sutil e mais assustadora do que a superstição sem fundamento. Trata-se de que a alma, ao aprender a manusear os símbolos, a operar correspondências e a mover alavancas invisíveis, passa a ter o gosto e o hábito de lidar com a própria realidade e, por fim, com o próprio Deus, como se fossem algo a ser manipulados, forçados ou negociados — faz-se uma troca, pronuncia-se um certo nome para se obter um determinado efeito e cumpre-se uma condição para se obter um resultado específico. É a fé transformada em técnica, a prece convertida em ordem, o paraíso reduzido a um dispositivo que se acredita saber os controles. E o terrível disso é que isso funciona o suficiente para criar vícios, mas nunca o bastante para satisfazer, pois, no fundo, o que a alma realmente deseja não é mover o cosmos, mas encontrar descanso em Deus. E o manejo, por sua própria natureza, nunca proporciona descanso: quem atua está sempre atuando, sempre alerta, sempre no controle, sempre isolado no comando de um universo que precisa ser sustentado com suas próprias mãos, já que não confia que Alguém o sustente por ele. Deixar aquele lugar foi, acima de tudo, ter a liberdade de soltar as mãos. Descobri que o real não precisa da minha intervenção, pois já é sustentado por Outro; que eu não preciso carregar o mundo nas minhas costas, pois existe Quem o sustenta e me sustenta junto; que a atitude correta em relação ao sagrado não é a do técnico diante do equipamento, mas sim a da criança diante do pai, ou a do amante diante do amado — não manipular, mas confiar; não impor, mas acolher; não controlar, mas venerar. A técnica prometia força, mas resultava apenas em insônia; a fé retirou minha força e trouxe de volta meu sono, meu descanso e a entrega confiante nos braços d'Aquele que não exige nada de mim para me amar.
E é dessa passagem que surge também a chave metafísica com a qual este livro interpretou toda a cultura, pois a arte de onde provenho possuía, em seu auge e plenitude, uma intuição genuína que encontrou seu espaço e sua redenção apenas na Igreja. Aquela tradição descrever a Luz única e sem nome de Deus descendo por esferas, por degraus, por moradas sucessivas, onde cada esfera representava um mundo inteiro, um arquétipo, uma faceta do Único — a esfera da misericórdia, a esfera do rigor e da justiça, a esfera da beleza que harmoniza as duas, a esfera do fundamento, a esfera do reino em que tudo converge —, permitindo, assim, que o Deus sem nome se revelasse, de certa forma, em nomes e em rostos, para que pudesse ser compreendido e pensado por mentes limitadas. Pois bem, isso é, na sua essência, exatamente o que este livro se referiu como o Todo que se incorpora nos símbolos: a mesma Luz branca que se refrata em diversas cores sem nunca deixar de ser branca, o mesmo Deus extremamente simples que pode ser descrito por mil atributos sem se fragmentar em mil. A falha daquela tradição nunca esteve em observar as cores, em identificar as esferas, em compreender que a Luz se divide para nós; a falha estava em se fixar nas cores, em servir a esfera em vez de atravessá-la em direção à Fonte, em utilizar os nomes como quem manuseia uma máquina para obter resultados, ao invés de venerar a Pessoa que os nomes, à distância, esboçam. Até a alquimia, que muitos acreditam ter surgido de um Egito misterioso e cheio de fumaça, originou-se daí, dessa ciência das correspondências, dessa lei de troca e equivalência entre os diferentes planos do ser — a mesma lei que uma geração recente reconheceu, fascinada e sem entender de onde provinha, ao se encantar com certas histórias de metal e alma, nas quais nada se cria e nada se perde; tudo se transforma de acordo com um preço preciso. Tudo isso é verdadeiro, e tudo isso é insuficiente; é o alfabeto divino, mas não é a Palavra. A diferença fundamental entre o mago e o santo, ao final, é uma só e permanece a mesma durante todo este livro: o mago busca a chave para desvendar o cosmos e dominá-lo; enquanto o santo anseia pelo Rosto, e se surpreende ao perceber que, ao alcançar o Rosto, todo o cosmos lhe é concedido como um presente, de forma gratuita, assim como um pai não nega nada a um filho, e não como uma posse usurpada, como um ladrão que invade a casa dos outros.
E aqui é necessário um aviso severo, pois a indignação, quando é legítima e emana do amor, também representa uma forma de caridade, talvez a mais desafiadora. Não serve de nada ser um católico formal, com batismo, crisma e frequentando missas aos domingos, se, por dentro, a alma permanecer protestante. Aquele que vai à missa e não compreende nada, ou quase nada, do que ocorre ali, que interpreta a Sagrada Escritura segundo sua própria visão, de acordo com o que lhe parece, em vez de acolhê-la humildemente pelo Magistério vivo da Igreja, que trata a fé como uma opinião pessoal a ser adaptada como desejar, escolhendo o que aceita e rejeitando o que incomoda — esse, apesar do rótulo católico costurado em sua roupa, age na prática exatamente da mesma forma que o pastor mais ignorante e improvisado de beira de estrada: cada um com a sua Bíblia debaixo do braço, cada um com o seu deus feito à sua medida, cada um trancado em seu mundinho de interpretação particular, e assim, por uma porta lateral que ninguém vigilava, retornamos à mesma fragmentação gnóstica de uma realidade moldada por cada cabeça, a mesma doença que combatemos em Dick e na polarização, agora vestida de sotaina. A verdadeira diferença da fé católica nunca esteve em ter mais versículos decorados na ponta da língua para ganhar discussões; é acolher a essência da fé com a mesma humildade com que se deve receber a realidade do mundo — como um presente que vem de fora, de uma autoridade que me transcende e me precede, e não como algo criado pela minha própria mente.
É necessário esclarecer, neste ponto, a confusão em que nossa época se encontra entre reformar e romper, pois isso é prejudicial e encobre a arrogância da virtude. Em todas as épocas, a Igreja enfrenta escândalos, há padres inadequados, abusos, fraquezas e covardias — e sempre que isso ocorre, o coração genuíno é impulsionado a promover reformas, a purificar e a corrigir, o que é válido, pois a alternativa seria uma conivência apática. Entretanto, existem duas formas contrárias de reagir a esse impulso, e é nelas que se define tudo. Existe o caminho do cisma: observar a Igreja manchada e afirmar eu me separo, eu crio a minha, eu que sou puro não me misturo com esses pecadores, eu interpreto por conta própria, construo o meu altar, sou papa de mim mesmo — e esse caminho, por mais que se disfarce de zelo e de justa indignação, é a antiga soberania de Lúcifer, o não sirvo disfarçado de reforma, e sempre termina onde acaba toda gnose: em mais um mundinho privado, mais uma seita de um único homem, mais um fragmento arrancado do corpo de Cristo em nome da própria pureza. E existe o caminho da santidade: observar a própria Igreja manchada e, ao invés de se afastar dela com aversão, se aprofundar ainda mais, reformando-se a si mesmo até a essência, e por meio dessa santidade obediente transformar todo o corpo interno, sem nunca desfigurá-lo. Os verdadeiros grandes reformadores da Igreja nunca foram aqueles que se separaram para criar seu próprio caminho e estabelecer suas próprias doutrinas; foram os santos que permaneceram, que obedeceram, que se tornaram humildes, e que assim transformaram o mundo — a freira que refez uma ordem inteira ao começar por se transformar em seu interior, o pobre de Assis que revitalizou a Igreja em ruínas não atacando-a externamente, mas amando-a em seu íntimo até se tornar ele mesmo um novo Cristo encarnado. Porque a única reforma que não é um cisma é aquela que começa em oração e de forma interna; e quem sai batendo a porta em nome da própria pureza descobre, tarde demais e sozinho, que levou consigo, na bagagem, o único pecador que realmente precisava ser reformado.
O exemplo mais extremo disso, que revela a doença em toda a sua intensidade, é o pregador que distorce a própria Escritura para justificar seus próprios pecados — aquele que pega a passagem em que um profeta, por ordem direta de Deus e como um sinal visível para todo um povo, se case com uma mulher infiel para ilustrar a fidelidade de Deus a um Israel traidor, e utiliza essa passagem tão elevada e dolorosa para justificar suas próprias traições amorosas, como se o texto sagrado fosse um álibi à sua disposição para satisfazer seus desejos. Ali se revela, despida, a essência da leitura protestante - seja católica ou evangélica, isso não faz diferença: o homem não se submete ao texto, mas sim submete o texto a si mesmo; ele não permite que a Palavra o julgue, mas utiliza a Palavra para se absolver. É a Escritura refletida como um espelho da própria desejo desordenado, sendo o exato oposto do que realmente representa. E diante disso não existe solução isolada, não há engenhosidade pessoal que resolva, pois a questão é precisamente o indivíduo que se coloca como a única autoridade; a única alternativa é a entrega a algo superior à minha própria mente, a Igreja como um todo, como uma tradição viva, como um Magistério que atravessa os séculos e me orienta quando eu, por conta própria, poderia me perder em ilusões. Por essa razão, a comunhão é tão significativa, não sendo um amuleto mágico que atua sem considerar quem a recebe: o pão eucarístico, aceito com fé, realmente produz efeitos, ilumina de fato, transforma de verdade — mas não isenta a razão de se submeter, nem transforma automaticamente em sábio aquele que se recusa, teimosamente, a aprender. É possível participar da comunhão mil vezes e continuar sendo tolo, se o fazemos apenas como se fosse o consumo de mais um produto, e não como aqueles que realmente se permitem ser transformados e renovados. A verdadeira reformadora da Igreja, na verdade, não foi nenhuma das pessoas que se separaram dela para criar sua própria seita de acordo com suas preferências; foi uma freira que se transformou por dentro, até a essência, seguindo a obediência, e só assim conseguiu alterar o mundo ao seu redor — pois a única reforma que não resulta em cisão é aquela que se inicia de joelhos.
Toda essa teologia da imaginação, esse extenso resgate do Deus internalizado nos símbolos, seria não apenas fútil, mas até perigosamente convidativa ao sincretismo e à magia, se não culminasse exatamente aqui, firmada com âncora de ferro no solo sólido e real da Igreja concreta — com seu Magistério que me ultrapassa, seus sacramentos que me nutrem com algo que não é de minha autoria, sua ética objetiva que me julga em vez de me adular, e seu corpo visível do qual sou membro e não proprietário. Este é o único solo em que o simbólico deixa de ser encantamento e se transforma, finalmente, em janela; o único espaço no mundo onde é possível amar as imagens sem se perder nelas, observar os símbolos sem venerá-los, mergulhar na cultura sem se afogar, brincar com o fogo sagrado sem se queimar — porque ali, e apenas ali, se reconhece, com nome e rosto, carne e sangue, Aquele que todas as imagens da terra, à distância e sem saber, sempre estiveram tremulamente tentando esboçar. Fora deste solo, a teologia da imaginação se transforma em um ocultismo adornado; sobre este solo, ela se torna o que realmente deve ser: uma catequese, uma escada, uma peregrinação de retorno ao lar.
E existe, em meio a tudo o que falamos, uma única evidência que se sobrepõe a todas, e que não é uma evidência de academia, mas sim uma evidência do coração: a saudade. Essa jornada pela cultura esbarrou, repetidamente, na mesma questão — aquela saudade indefinida que uma boa narrativa evoca, o anseio intenso por um lugar onde nunca estivemos, a busca por um mundo mais autêntico que nunca experimentamos. E a partir disso é possível formar um argumento claro e contundente: a fome evidencia a presença do pão. Um ser não experimenta a sensação de fome em um mundo onde a comida não está presente; o bebê vêm ao mundo com sede por causa da água, com fome devido ao leite, e com o instinto de nadar porque, em algum lugar, existe o mar. E se existe, no íntimo do ser humano, um anseio que nenhuma iguaria é capaz de satisfazer, que nenhum amor terreno consegue preencher por completo, que nenhuma paisagem, nenhuma melodia, e nenhuma realização nunca conseguiu acalmar de verdade — se todo prazer que se tem aqui deixa, no fundo, uma sensação de que não era bem isso —, então esse anseio indica, assim como a fome indica o pão, um alimento que não pertence a este mundo, uma pátria que não se encontra em nenhum mapa. A saudade que a cultura desperta e jamais satisfaz não é uma falha a ser resolvida com mais consumo, mais uma temporada ou mais um herói; é uma bússola que nos direciona de volta para casa. Todo herói que admiramos e perdemos, cada personagem de papel que sentimos falta ao fechar o livro, toda beleza que nos causa uma dor nostálgica sem explicação, está realizando uma missão secreta semelhante: alimentando a sede de Deus em um mundo que faz de tudo para nos persuadir de que não temos essa necessidade, de que é suficiente consumir um pouco mais e a alma se silenciará. E quando enfim essa saudade for saciada, no dia em que pisarmos na terra que todas as terras amadas não passavam de um vislumbre, saberemos, com lágrimas de uma alegria intensa como uma lâmina, que sempre foi isso: que cada saudade ao longo da vida era um fio da mesma corda que nos guiava, devagar e com amor, para o único lugar onde a fome se dissipa e o coração, finalmente, encontra descanso.
E antes de darmos o último passo, vamos reunir em um só feixe tudo o que percorremos, pois o caminho foi extenso e é hora de sentí-lo por completo em nossas mãos. Cristo fez uma comparação entre o Reino dos céus e um tesouro oculto em um campo, que um homem descobre e, tomado de alegria, vende tudo o que possui para adquirir aquele campo. Ele também o comparou a uma pérola de extremo valor, que o mercador, ao encontrá-la, troca sem pensar duas vezes por tudo o que tem. Certamente, o campo representa o nosso mundo, enquanto a cultura é o espaço dos seres humanos; e o tesouro está oculto nesse contexto, sepultado entre o cotidiano, encoberto pela superficialidade, aguardando aqueles que sejam capazes de percepcioná-lo além da aparência e que possuam a determinação para desenterrá-lo. Este foi, do início ao fim, o objetivo deste livro: explorar o vasto campo da cultura em busca do tesouro escondido e demonstrar que ele realmente existe, que não é uma mera ilusão do minerador — que sob a luz de um herói forjado, sob o sacrifício de um homem de ferro, sob a ficção frágil que um profeta delirante chamou de sustentadora do mundo, sob a melodia dos elfos e o rugido do leviatã, e o gelo de Melkor, que se tornou, sem querer, a renda da neve, está escondido, aguardando, sempre o mesmo e único tesouro, a mesma pérola de grande valor: o Deus que se fez enterrar em toda imagem para que, ao cavar o mundo inteiro à sua procura, aprendêssemos, sem escapatória, que Ele está em todos os lugares e que seu custo é tudo. E quem realmente acredita nesse tesouro age como o lavrador e o mercador da parábola — e observe que ambos agem com alegria, não por obrigação, mas pela fome do céu e não pelo temor do inferno: vendem com alegria tudo o que possuem, suas idolatrias, seus pequenos universos privados, suas comunhões falsas, seus ídolos de plástico, para adquirir o campo inteiro onde o tesouro está, que é a vida oculta em Deus.
Porque este é, ao final de tudo, o Deus que se encontra nos símbolos, e é necessário afirmá-lo agora sem nenhuma reserva, como quem finalmente levanta o véu: não um deus solar entre tantos outros deuses, não o grande arquétipo do Pai-Céu, não a soma das potências, mas o Todo extremamente simples que se deixou fragmentar em mil vislumbres exatamente para que pudéssemos suportá-Lo gradualmente, um raio de cada vez, sem sermos atingidos pela luz completa; e que em cada vislumbre está inteiro, e a nenhum vislumbre se reduz. Ele se encontra no solar de Tony Stark e é maior do que todos os sóis; está no sacrifício do Homem de Aço que ascende para reparar a estrela moribunda, sendo superior a qualquer sacrifício que se possa imaginar; está no mantenedor que Dick, tateando em sua noite, chamou de Ubik e viu se expressando pelo lixo da cultura que O consumiu, e não foi realmente consumido, pois foi ao lixo de livre e amorosa escolha, assim como antes havia descido ao lixo maior e mais sombrio que é a morte; está na harmonia entrelaçada da Música dos Ainur, e é, ao mesmo tempo, o próprio silêncio sagrado do qual toda música emerges e para onde toda música retorna. A cultura como um todo, com seus quadrinhos, canções, filmes e seus mitos feitos de plástico e ouro, representa a imensa catedral dos símbolos onde Ele aceitou se deixar absorver; e a nossa existência na terra é uma jornada para aprender a reconhecê-Lo em cada um desses símbolos, sem aprisioná-Lo em nenhum deles — é encontrar o mar em cada concha que a vida nos traz ao ouvido, e de nunca, em hipótese alguma, confundir o mar com a concha.
Observe, agora que chegamos ao final, quantos fios uma única mão segurava sem que percebêssemos isso ao longo da jornada. O garoto de Krypton que não aceita o trono e o pequeno hobbit que transporta o Anel, mas não o utiliza, são a mesma essência do sonhar, a mesma força poderosa submetida ao amor e à humildade. O leviatã que Spielberg fez ecoar e a morte que Cristo absorveu no tombos são a mesma criatura ancestral, derrotada e posteriormente apresentada à mesa dos virtuosos. A Matriz esgotada e a segunda canção que ainda não chegou, o incessante retorno cansado dos pagãos e a nova melodia da liturgia, representam a mesma prisão temporal e a mesma porta que só se pode abrir do lado de fora. O demiurgo cego de Dick, o Sauron do Anel, os arcontes de Morrison, os feiticeiros do consentimento e o Melkor que desejou roubar a Chama dos vazios representam uma única e mesma face, a face eterna daquilo que busca ser origem, cercar e aprisionar; assim como Aulë que levanta o martelo em obediência, a Virgem que acolhe o Verbo, o hobbit que não solta a mão do amigo e o Rei oculto que cura com as mãos feridas são também um só e mesmo rosto, o rosto constante do que recebe, obedece e serve. A polarização que fragmenta o mundo em bilhões de pequenos universos e o hábito que aprisiona cada pessoa em seu próprio espaço são a mesma compreensão cotidiana de moldar a realidade conforme a própria vontade; e a comunhão do altar e a comunhão dos santos representam a mesma e exclusiva cura. Tudo, sem exceção, o que este livro abordou sob mil disfarces, eram raios de um único Sol, notas de uma única melodia, fragmentos de um único espelho quebrado — e o nome desse Sol, dessa melodia, desse espelho que um dia será recomposto, é o mesmo que a fé que se confessa em oração e que a cultura, ignorando que reza, passa a vida esboçando de olhos fechados.
Os mundos possíveis estão presentes porque Ele os imaginou e os amou antes de todos os tempos; os santos do sonho resplandecem porque refletem, espelho após espelho, a parte d'Ele que habita na alma de quem os concebeu; e a segunda melodia, a mais grandiosa, aguarda pacientemente, ao término do tempo, para reunir em um único cântico sem emenda tudo o que foi sonhado de bom em todos os mundos de todos os corações. E no núcleo essencial de tudo, não como um símbolo a mais entre os símbolos, nem como o maior dos arquétipos, mas sim como a única Imagem que não representa um símbolo de Deus, pois é Deus, está Cristo — o eikon do Deus invisível, o Verbo por intermédio do qual e para o qual tudo foi criado, aquele em quem todos os arquétipos dispersos encontram finalmente sua medida, seu centro e seu Senhor. Perante Ele, e apenas perante Ele, os deuses solares se inclinam e reconhecem o Sol que apenas eram sombra; os leviatãs do caos são derrotados e se tornam sustento na mesa dos justos; os mundos ilusórios dos demiurgos se dissipam como neblina; e os mundos possíveis, todos os belos sonhos da humanidade, se realizam finalmente em uma realidade eterna. Ele é o Fogo Secreto que nenhum Melkor conseguiu furtar dos vazios, e que, ao final de tudo, será presenteado, como um dom de pura graça, aos filhos que souberam aguardar de mãos abertas. Veja, então, leitor, em toda imagem que a vida colocar diante de seus olhos, o Deus que nela se ocultou intencionalmente para te esperar à espreita, como um pai que se esconde para que o filho tenha a alegria de encontrar; e, ao reconhecê-Lo sob a máscara agradável do símbolo, não se detenha na máscara, não adore a concha: arranque a máscara com um beijo e adore o Rosto — porque a verdadeira profundidade da cultura, em seu segundo e mais profundo nível, é precisamente esta: um Deus imenso que se fezEncontrável em cada pequena coisa, para que, ao buscá-Lo em tudo, você O encontrasse finalmente a Ele, e somente a Ele, que estava, desde antes de todos os mundos possíveis, escondido em cada esquina do mundo, aguardando por você.
Referências
A BÍBLIA. Gênesis (1; 3, a queda); Livro de Jó (38—42, o Leviatã e a voz do turbilhão); Isaías (27, 1; 63, 1-7, o pisador do lagar; as benignidades do Senhor); Oseias (1—3, o profeta e a esposa infiel); Primeiro Livro dos Reis (19, 11-12, a voz mansa e delicada); Salmos (imprecatórios; 109; 137); Evangelho segundo Mateus (5, 44; 26, 53, as legiões de anjos); Evangelho segundo João (1, 1-14, o Verbo); Epístola aos Romanos (8, 28); Primeira Epístola aos Coríntios (15, 26, o último inimigo); Epístola aos Efésios (6, 12, os principados e potestades); Epístola aos Colossenses (1, 15-17, o eikon); Apocalipse (21, a Jerusalém celestial; 21, 5, faço novas todas as coisas).
AGOSTINHO DE HIPONA. Cidade de Deus; Confissões (o mal como privação do bem; o bem maior tirado do mal permitido).
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (as ideias divinas e os mundos possíveis; a simplicidade divina; Deus como Ipsum Esse acima de todo gênero; a participação; a graça que aperfeiçoa a natureza).
CURTIS, Adam. O Século do Ego (The Century of the Self) (Freud, Edward Bernays e a engenharia do consentimento).
DICK, Philip K. Ubik; Os Três Estigmas de Palmer Eldritch; Fluam Minhas Lágrimas, Disse o Policial; O Homem do Castelo Alto; VALIS; A Exegese de Philip K. Dick (o diagrama de Palmer Eldritch e Ubik; poder versus sabedoria; a voz do lixo).
DIONÍSIO, o Areopagita (Pseudo-Dionísio). Os Nomes Divinos; Teologia Mística (a via afirmativa e a via negativa).
JUNG, Carl Gustav. Resposta a Jó; os arquétipos do inconsciente coletivo; as sincronicidades (as coincidências significativas).
MACHEN, Arthur. O Povo Branco (The White People) (a santidade e a feitiçaria como os dois êxtases; o pecado como repetição da queda).
MATHESON, Richard. Encurralado (Duel); Em Algum Lugar do Passado (Bid Time Return / Somewhere in Time).
MORRISON, Grant. Os Invisíveis (os arcontes, a Igreja Externa, a prisão de ferro negro, os batalhões radiantes; os “feiticeiros”); All-Star Superman (com Frank Quitely).
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra (“Da castidade”; os demônios que entram nos porcos).
SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman (a primeira aparição, 1938).
SPIELBERG, Steven. Duel (Encurralado, 1971); Tubarão (Jaws, 1975).
TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion (Ainulindalë, a Música dos Ainur; Manwë, Aulë, Ulmo; a Chama Imperecível e o Fogo Secreto); Sobre Histórias de Fadas; Mythopoeia (em Árvore e Folha); Cartas.
WACHOWSKI, Lana; WACHOWSKI, Lilly. Matrix (a Matrix esgotada; o discurso do Arquiteto; a primeira Matrix perfeita recu

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