O Deus Que Você Não Sabe Que Adora - Psicologia Simbólica da Nous

Antes de desenvolver um temperamento, você estabeleceu um altar — e foi esse altar que lhe forneceu a direção. Ninguém começa a se entender a partir de si mesmo; essa jornada se inicia na transcendência de um lar que não teve a escolha de habitar. Até mesmo o ateu reza: ele reza, sem ter consciência disso, para a religião que o formou. Cada homem é um pequeno deus, e todo deus exerce sua governança a partir de um planeta. Se você derrubar a cosmovisão de um homem, testemunhará o colapso, de uma só vez, de um universo inteiro.

Gabriel G. Oliveira

8/9/202633 min ler

O homem e o seu planeta

Início com uma negação, pois toda teoria que se preze deve começar por uma negação. Rejeito os quatro temperamentos. Não por serem completamente falsos — colérico, sanguíneo, melancólico e fleumático capturam, em sua melhor definição, uma atmosfera da superfície da alma —, mas sim porque são excessivamente amplos para transmitir qualquer coisa específica e, ao mesmo tempo, insuficientemente minuciosos para elucidar o que realmente importa. Alguém já vem me falar: "Gabriel, mas essa teoria é abrangente." É, e é justamente aí que reside a questão. Abrangência sem detalhes é igual a um pano sujo: você o torce de qualquer maneira e sempre acaba escorrendo algo que é útil. Qualquer coisa pode caber lá dentro. Se uma pessoa é impaciente, ela é colérica; se é triste, é melancólica; se gosta de festejar, é sanguínea; se é indiferente, é fleumático. O que há de novo? O que foi esclarecido com isso? Não há nada. Nenhuma dessas classificações responde à única questão realmente significativa: o porquê. O que faz com que esse homem seja assim? De onde surge o norte que o impulsiona? Uma teoria que categoriza sem esclarecer a origem não pode ser considerada uma teoria da alma; é apenas um horóscopo de distribuição pública, útil apenas para rotular as pessoas superficialmente, sem jamais penetrar em sua essência.

Não é por acaso que eles são superficiais: os quatro temperamentos derivam da antiga medicina dos humores, praticada por Hipócrates e Galeno — sangue, fleuma, bile amarela e bile negra —, uma fisiologia do corpo que, em algum momento do passado, foi elevada à condição de um mapa da alma. Aí reside o erro categórico, e é um erro crasso. Aquilo surgiu para esclarecer as razões pelas quais um homem pode ter febre ou se tornar pálido, mas não para entender por que ele perdoa seu pai, por que adora o dinheiro, por que se ajoelha ou por que se recusa a fazê-lo. Ao aplicar uma teoria da bílis para elucidar a fé, o ódio, a esperança e a vergonha de uma pessoa, você está tentando medir a vastidão do oceano com uma régua de farmácia. Tem alguma utilidade? É tão simples quanto afirmar que a água é molhada. Mas não esclarece nada sobre o que queima.

O que desejo construir aqui, junto a vocês do Círculo, é algo diferente. Em vez de uma simples classificação, trata-se de uma análise muito mais detalhada da mentalidade de um homem — quase que uma substituição completa daquela antiga teoria dos quatro humores. E essa ideia surge de uma intuição que pode parecer exagerada, mas não é: no cerne de tudo, tudo se provém da religião. "Como assim, tudo?" Desta forma, a religião surge a partir de uma revelação. Qualquer tipo de revelação — e neste momento não estou fazendo um juízo sobre sua veracidade ou falsidade — é sempre algo que se origina do alto e interrompe a rotina. É essa fenda que confere ao homem a sua transcendência. Sem essa invocação que vem de fora e de cima, a alma não adquire a dimensão do transcendente; ela permanece próxima ao solo, incapaz de perceber o que está além dela. A fé é o que constrói o teto da alma, e isso se torna quase evidente quando refletimos sobre isso. Daí surgem as diferentes formas de pensar; e a aplicação dessas formas de pensamento se transforma, cedo ou tarde, em uma política.

Vou me apoiar aqui, abertamente, em Eric Voegelin, e faço questão de dizer o nome dele corretamente. O exercício de uma fé torna-se, fatalmente, uma política. Não me refiro apenas à política em sua acepção mais ampla, que inclui o parlamento e a nação. Estou me referindo a toda forma de política, incluindo aquela que é mais pessoal e íntima: como você administra a sua própria casa, o que você julga ser bom ou ruim em seu raciocínio, mesmo antes de estabelecer qualquer princípio ético, como você distribui a autoridade entre você e sua esposa no relacionamento, e qual ordem você impõe ao seu filho. Quem decide, em última análise, o que é considerado ético? A fé. É por essa razão que afirmo, sem receio do paradoxo, que a política em si já se configura como uma religião: ela se resume à expressão externa de uma crença, um culto perpetuado por outros métodos. Considere o protestantismo: em termos econômicos e na política econômica, ele culmina no capitalismo smithiano, proposto por Adam Smith. A Escola Austríaca de economia irá explorar um outro aspecto, que possui uma sensibilidade mais judaica, e que, por sinal, refuta as ideias de Smith ponto por ponto, apresentando uma perspectiva totalmente distinta da dele. Elas são teologias camufladas como teorias econômicas. Ao compreender isso, você passa a identificar a direção para a qual a essência da alma humana se encaminha: e o que confere significado é invariavelmente a religião. Portanto, se a religião é o que confere significado, ela é a fundação de tudo.

É importante dedicar tempo a isso, pois é a base de tudo que se segue. A religião constitui a essência; a política representa a manifestação dessa essência quando se revela na convivência social. A vivência do transcendente organiza a consciência humana; esta, por sua vez, organiza a alma; e, quando a alma se une a outras almas, ela organiza a cidade. É por isso que Voegelin afirmou que os símbolos que uma sociedade utiliza para se representar não são meramente adornos — eles constituem a essência da ordem. E observe até onde isso se estende: até a política mais trivial, aquela que ocorre no lar, é uma verdadeira cerimônia. Quando você estabelece que na sua mesa se reza antes da refeição, ou que essa prática não acontece; quando determina quem tem a autoridade, quem segue as ordens, o que é perdoado e o que não é perdoado dentro do seu espaço — você não está apenas "organizando a rotina". Está reproduzindo, em uma escala familiar, uma cosmologia completa. A casa é o menor templo que há, e o pai é, lá, o padre — ainda que jure não crer em coisa alguma.

"Ah, Gabriel, mas e o cara que é ateu?" Onde nasceu o ateu? Quem exercia o papel de pai para ele? Em qual residência? No que aquela casa tinha fé, quais eram os princípios que ela estabelecia como certos ou errados para aquela criança? Mesmo que tenham sido negados posteriormente, esses princípios éticos guiaram a vida do indivíduo ao longo de toda a sua existência. "Portanto, trata-se de uma ética subjetiva." Pode até existir uma dimensão subjetiva, mas a questão ainda persiste: que tipo de transcendência ele realmente anseia, lá no fundo? Uma casa que é cristã, judaica, islâmica, pagã, budista ou ocultista? É sobre esta terra que ele se refere, mesmo quando silencia o nome de Deus. Cada uma dessas transcendências é um universo distinto; a ideia transcendental, no singular, não existe. A perspectiva budista do mundo difere da cristã, que por sua vez não se assemelha à islâmica, e assim por diante, de maneira contínua, uma se revelando na outra. Não existe um arcabouço que seja tão completo a ponto de alterar, como se pressionasse um botão, o funcionamento da mente de qualquer pessoa a partir de fatores externos. A questão é a seguinte: para compreender um homem, é necessário descobrir o que guia a sua alma — e, especialmente, em quais níveis éticos, pois é nesse contexto que se determina, para ele, o que é certo e o que é errado.

É necessário afirmar de maneira clara: mesmo o "não" do ateu possui uma forma, e essa forma é originada do "sim" que ele recusa. O ateu que cresceu em um lar cristão nega a existência de Deus de uma forma que se assemelha ao cristianismo — sente culpa como um cristão, possui escrúpulos como um cristão e se indigna diante da injustiça como alguém que herdou a noção de que o fraco tem o mesmo valor que o forte. O ateu que vem de um ambiente pagão nega a existência de Deus de uma maneira completamente diferente: ele o faz sem esse fardo, mantendo uma relação distinta com a força, com o corpo e com a noção de vingança. Existem dois tipos de ateísmo que são distintos, pois cada um nega um deus diferente. Ninguém pode eliminar a matriz simplesmente ao rejeitá-la; ao recusar, ainda estamos traçando seu contorno de forma inversa.

Existe um aspecto que a psicologia convencional não percebe: em certas ocasiões, a pessoa se encontra totalmente estagnada na vida, bloqueada de maneira irreversível, e essa estagnação ocorre precisamente porque a religião lhe impõe certas crenças ou normas que o mantêm naquele estado. Em outras situações, é ele próprio quem deseja permanecer nessa inatividade, utilizando a religião como um manto protetor. É algo mais grandioso do que se pensa. Não se trata apenas do que é óbvio. Assim que eu me expresso dessa maneira, surge imediatamente o mal-entendido: "Então você quer fazer uma teoria de tudo da psicologia?" De forma alguma. A ideia de uma teoria científica que consiga englobar todo o universo em um único sistema é, por si só, uma tolice, e Chesterton elucidou o motivo. No livro Ortodoxia, assim como em O Que Há de Errado com o Mundo, ele revela que o verdadeiro louco não é aquele que perdeu sua capacidade de raciocínio, mas sim o indivíduo que, apesar de ter perdido tudo o que possui, ainda mantém sua razão. Este é o homem que deseja absorver a totalidade do cosmos em sua própria mente e, exatamente por essa razão, acaba enlouquecendo, uma vez que a imensidão do infinito não pode ser contida dentro de um crânio humano. Não desejo abordar a teologia de maneira disfarçada, nem apresentar uma teoria que explique tudo. Desejo um instrumento que permita uma leitura aprofundada da alma — nem mais, nem menos.

Chesterton tem uma ilustração que encerra a questão. O indivíduo insano pensa de maneira absolutamente coerente, mas apenas dentro de um espaço limitado: sua lógica é irrepreensível, porém o alcance de seus pensamentos é restrito, e nada do exterior consegue penetrar esse círculo. Esse é o risco de um sistema que tenta justificar tudo — ele se torna consistente internamente, mas indiferente ao mundo exterior, compacto e restrito. O que estou sugerindo não é um círculo desse tipo. Não se trata de um mapa que aspire a abranger todo o território; é uma chave. Uma chave que destranca a porta correta da alma de um homem, a porta que revela a razão de seu ser. A chave não revela os mistérios do universo. Ela apenas se relaciona sexualmente com homens. Ao abrir-se, o ser humano já alcança, de forma incomensurável, muito mais do que os quatro humores jamais foram capazes.

Além disso, esta ferramenta identifica de imediato um aspecto que raramente é considerado: a própria religião pode levar o ser humano a se tornar mais silencioso, mais introspectivo e mais reservado. Se alguns preceitos dessa religião o fazem ser silencioso e reservado, como posso, eu de fora, afirmar que ele é autista? A totalidade de sua fé o instrui a agir dessa maneira; seu silêncio é uma forma de obediência, e não uma questão patológica. "Mas o psicólogo, na clínica, entende essas nuances." Será que realmente compreende? Isso varia bastante. Isso acontece frequentemente, pois a pessoa saiu de uma crença que a confinava a um pequeno mundo, um mundo limitado, e isso a moldou internamente por muitos anos. Como é que esse homem vai crescer mentalmente? É fácil: não vai. Isso não ocorrerá, a menos que haja uma transformação total do direcionamento religioso, o que é extremamente raro — e, mesmo com essa mudança, ainda permanecerão vestígios da antiga religião, uma vez que foi um direcionamento que foi observado por um longo período.

Considere um cristão que se torna budista. É extremamente complicado para ele mudar toda a sua visão de mundo, e ainda mais difícil é eliminar da sua alma os vestígios da antiga fé. No cristianismo, Jesus Cristo me ama, assim como Deus me ama, e nós somos considerados filhos de Deus. No budismo, não há um Deus pessoal e transcendente que nutra amor por você; existem os Budas, e nenhum deles lhe ama — eles desejam que você atinja a iluminação, o que é algo totalmente distinto de ser amado. Não existe um Deus amoroso nesse lugar; há uma administração diferente do universo. Há um aspecto ainda mais sutil que serve como a essência de toda a teoria: aquilo que pode ser considerado o defeito de uma religião é, na verdade, a qualidade de outra. O budismo se opõe à esperança; ensina que é necessário eliminar completamente qualquer expectativa, pois a esperança mantém você atado à roda do desejo, a qual ele considera um vício. Agora, no cristianismo, a esperança é considerada uma das virtudes teologais, sendo uma das bases da fé. O ateu que começa a nutrir a expectativa de que Deus pode ser real, e que, a partir dessa expectativa, ascende gradualmente até a convicção de que Deus realmente existe — isso é a virtude da esperança exercendo sua influência interna sobre ele. O budista é sutil quando se trata dessas questões: "tal deus pode existir?" Quem sabe, mas nada é definitivo; poderá afirmar que são os Budas aparecendo de acordo com o desejo da pessoa de evoluir. É uma regulação completamente diferente em todo o mundo.

Há uma regra que permeia toda a teoria: aquilo que uma religião considera um vício, outra o reconhece como uma virtude — e vice-versa. A esperança é o exemplo mais claro, mas não é o único. O mundo pagão valorizava a generosidade e o orgulho do homem grandioso que não se submete; por outro lado, o cristianismo colocou a humildade como seu princípio central, qualificando aquele orgulho como a fonte de todos os pecados. O que um considerava grandeza, o outro vê como uma queda. Portanto, quando um homem faz a transição de uma matriz para outra, ele não apenas muda suas crenças; ele altera toda a referência do que significa ascender e o que significa descender. Assim como o corpo absorve essa distinção antes da mente, a pessoa convertida experimenta internamente como uma virtude aquilo que a nova fé classifica como um vício — e pode levar anos, se é que leva, para modificar esse instinto. É por essa razão que a verdadeira conversão ocorre de forma gradual: não é suficiente apenas alterar o que se pensa; é necessário também transformar aquilo que se sente como agradável.

É por essa razão, de fato, que eu detesto a teosofia, e detesto de uma forma que me impossibilita de ter qualquer apreço por ela. Ela confunde tudo isso na mente da pessoa, torna toda a ética relativa, mistura todas as perspectivas em uma única massa, e a pessoa fica sem saber em que realidade está ou para onde deve ir. É o solve et coagula transformado em total dissolução, que desfaz tudo sem jamais solidificar nada. Ao compreendermos cada religião como o que realmente representa — uma perspectiva cosmológica e cosmogônica, filosófica e ritualística, que gerou uma cultura completa —, percebemos que essa diversidade cultural é o que guia a mente das pessoas. Tentar fundir todas essas diferenças como se fossem idênticas é, na verdade, privá-las de uma visão mais clara.

"Você afirmaria que Santo Agostinho, gnóstico maniqueu na juventude, carregou resquícios daquilo?" Sim — mas de uma forma meticulosa, e preste atenção nos detalhes. Nem nas concepções, nem nos textos, nem na doutrina que ele transmitiu à Igreja; nesse aspecto, a sobra é mínima, quase inexistente, algo que não teve impacto algum na Igreja. O desperdício reside nas atitudes, em determinadas tendências emocionais, em características de comportamento que a antiga crença deixou impressas no corpo. A verdadeira diferença que sustenta tudo é esta: a velha religião molda muito mais a conduta e a moral do indivíduo do que o conteúdo das crenças que ele começa a professar. É costume ter o corpo virado. Até os dias atuais, o gaúcho do Sul solicita a bênção ao pai e à mãe — "bênção, pai; bênção, mãe" —, um ato de origem judaica que ninguém naquela região identifica como tal. É a fé transformada em hábito, em cultura, em um gesto que a mão realiza automaticamente, sem refletir.

Considere um muçulmano que se torna católico. Como esse homem verá a homossexualidade? Meu irmão, é bem provável que ele nunca venha a aceitar, nem mesmo no que diz respeito à união social ou à formalização civil, uma vez que a influência da matriz islâmica ainda se faz presente em sua vida: para ele, isso continua sendo uma abominação, mesmo que a Igreja, em sua dimensão interna, acolha a pessoa em questão. A própria família dele mantém a visão de mundo tradicional, constantemente trazendo-o de volta. É por isso que eu reafirmo: muitas vezes, é extremamente desafiador, e isso pode perdurar por toda a vida. O pagão do paganismo contemporâneo, com toda a sua libertação em termos éticos e sociais, assim como uma ética que é totalmente subjetiva, ao se converter ao cristianismo, torna-se mais desafiador de ser mantido nos trilhos do que o cristão que nasceu e foi criado dentro da Igreja — é necessário um estudo aprofundado, uma experiência de vida prolongada e uma fé que seja sustentada ao longo de muitos anos para que ele se converta quase que por completo. Quase lá. Jamais completamente. Sempre há um resquício da outra crença persistindo em seu interior, e é provável que certos aspectos você nunca consiga desfazer.

É necessário refutar um termo infundado que foi criado: apropriação cultural. Quando uma pessoa branca se apropria de um aspecto da cultura negra e o utiliza, isso não é considerado apropriação cultural; é uma espécie de Mestiçagem cultural — uma mistura, uma mestiçagem simbólica, um caldeirão cultural. As pessoas desconhecem essa distinção, e essa falta de clareza causa um grande tumulto em suas mentes. A verdadeira apropriação cultural ocorre quando um grupo toma a cultura de outro e afirma "isto aqui é meu", eliminando a origem e se apropriando dela. Aí está, isso é realmente um roubo, e eu estou de acordo. Mas a pessoa que reconhece que o candomblé pertence à cultura negra, aprecia e está fazendo uso disso — quem é o tolo da situação? É o indivíduo inconveniente que aparece para irritar o rapaz por ele ser branco e ter o cabelo trançado. Isso é Mestiçagem, é a forma como as culturas sempre se comportaram, desde o início dos tempos.

O Nordeste é possivelmente a área com a maior quantidade de Mestiçagem cultural em todo o Brasil — irei publicar um texto sobre isso no Círculo. Observe a vestimenta do cangaceiro: há elementos celtas, nórdicos, cristãos, judaicos e islâmicos, todos entrelaçados na estética de um único homem, pois aquilo representa um caldeirão de povos fervendo em conjunto. "Portanto, trata-se de uma cultura católica repleta de miscigenação." E o que isso importa? Então, e daí? Isso não é importante. A visão de mundo permanece católica. O paganismo que existiu no passado teve suas raízes removidas; não restou nenhuma raiz pagã, apenas uma nova raiz cristã que incorporou elementos daquele antigo paganismo. Restou o acento, a maneira lenta e arrastada de se expressar do nordestino, a gíria do carioca, e o paulista que consegue inserir três xingamentos em uma única frase, exatamente no momento em que está sendo gentil com você. São diferentes, mas têm a mesma origem.

E esse é o aspecto que a maioria das pessoas não consegue perceber: o que realmente importa não são os fragmentos, mas sim a visão de mundo que os juntou. Você pode encontrar um ornamento nórdico, uma tapeçaria que remete ao celta, um gesto de origem judaica — e isso não altera o fato de que tudo isso foi integrado dentro de uma alma católica. A origem pagã foi eliminada; o que restou foram aspectos pagãos atendendo a um novo proprietário. É como uma residência construída com as pedras de um antigo templo: embora as pedras sejam antigas, a residência é nova, e é o projeto da casa que determina onde você vai descansar e onde você vai orar. Portanto, não adianta tentar classificar o folclore como se fosse a solução. O folclore representa a camada exterior. A chave está na transcendência que ordena a superfície — e, no Brasil, em meio a mil combinações, essa transcendência ainda é, na essência, católica.

Existem diferentes níveis dentro dessa cultura: a cultura nacional, a cultura estadual, a cultura municipal e, ainda mais específica, a cultura de bairro. O indivíduo que vive na favela, culturalmente falando, pertence a um universo completamente distinto daquele que reside no Leblon. No entanto, ambos emergem de uma mesma raiz católica. É fundamental que isso seja compreendido antes de qualquer análise, para que nenhum palhaço venha afirmar que "no interior isso não existe, é bobagem". Há. Basta abandonar essa visão obtusa de quem não tem conhecimento sobre o assunto. Uma vez compreendido esse fundamento, podemos avançar para a próxima etapa — que consiste em descobrir de que maneira, afinal, se pode interpretar a alma de uma pessoa.

De que maneira podemos interpretar a transcendência de um homem? Utilizando uma linguagem simbólica — e farei uso da alquimia, reiterando o que costumo mencionar, pois muitas pessoas ainda são insuficientemente esclarecidas para compreender: a alquimia é uma forma de expressão, um conjunto de simbolismos análogos. É semelhante a um alfabeto — mas um alfabeto no qual cada letra representa o universo inteiro observado a partir de uma perspectiva específica. Há sete símbolos planetários tradicionais, e eu os utilizarei como chaves interpretativas, embora seja possível derivar muitos outros a partir deles. Cada perspectiva religiosa "cai", predominantemente, sob um desses símbolos, e é esse símbolo que revela como a alma daquele homem chega — ou tenta chegar — à transcendência. O que realmente conta não é apenas o objetivo final da religião, mas sim o processo: de que maneira essa fé orienta você sobre como deve se comportar para atingir a salvação, a santidade ou a evolução espiritual que ela oferece. Este "como" é o principal a ser levado em conta.

Permita-me enfatizar a natureza dessa linguagem, pois é neste ponto que a maioria das pessoas comete erros. A alquimia não se resume à imagem de um mago preparando ouro em uma panela; é, na verdade, um alfabeto onde cada símbolo reflete o universo de uma única perspectiva. Afirmar que algo é "solar" não equivale a afirmar que é amarelo; significa que está associado a tudo o que o Sol representa — o centro, o rei, a luz que se dá sem se gastar, a virtude que reina. Cada signo é um símbolo que se refere tanto ao céu quanto à alma, ao metal e à personalidade, ao dia da semana e à maneira como um homem ama ou luta. É por essa razão que é possível interpretar uma religião — assim como um homem — através dessas chaves: pois, desde o princípio, elas foram concebidas para expressar o elevado e o humilde com uma única palavra. Quem interpreta isso como uma química de segunda classe não percebeu que está frente a uma gramática do universo.

Vamos ser práticos. Uma perspectiva marcial — sob a influência de Marte — dá origem, por exemplo, à Quimbanda. Trata-se de uma transcendência que envolve um combate, de natureza ctônica: você invoca os "diabos da terra" (é assim mesmo que os próprios quimbandeiros os nomeam, os Exus), e mantém comunhão com eles porque eles próprios estão em processo de se deificar. Você é espiritualmente ativo e precisa adotar uma postura combativa para alcançar a santidade — realizando rituais, oferecendo, utilizando o sangue dos animais, tudo isso de forma proativa para que determinadas coisas ocorram em sua vida. Ou você age, ou não evolui, nem espiritualmente nem fisicamente. Ele é um deus de pura energia e força de vontade, o Maioral — uma perspectiva gnóstica do mundo, que contrasta em todos os aspectos com o cristianismo. A única verdadeira passividade presente é a aceitação da entidade, a incorporação do Exu, que constitui o rito essencial dessa tradição. Quero ressaltar uma correção importante: a ideia de "incorporação" é uma invenção recente; nas tradições afro, sempre se referiu à possessão, sem nunca utilizar esse termo novo e mais polido.

A base ética desse caminho é o que Aleister Crowley definiu com a frase: "Faz o que tu queres há de ser o todo da Lei." Todo o que vai acontecer com você está atrelado à sua atitude; nada acontece por você se você não tomar a iniciativa. Veja como a visão de mundo se transforma em política diante de você: o praticante do quimbanda, por meio dessa influência marciana, inclina-se para a esquerda — para uma ideologia que deseja destruir o mundo atual a fim de trazer o mundo das perfeições, encarando a luta de classes como uma forma de escatologia. Basta olhar para perceber. Até mesmo o quimbandeiro conservador possui uma natureza marciana à sua própria maneira: ele está em constante luta e deseja romper o mercado para garantir a liberdade de agir. Está sempre em batalha, e frequentemente é uma batalha espiritual — enquanto o católico, diante da mesma questão, reza e faz o mínimo de resistência que conseguir, e depois se retira. São condimentos antagônicos da alma.

Vou dar um outro exemplo: o cristianismo pode ser considerado uma religião do sol. Um Deus apolíneo, radiante, do qual você se nutre. Já não se exige um sacrifício de sangue; o sacrifício requerido é de natureza interior — você entrega sua vida a Cristo, dedicando o período mais significativo da sua existência, e se torna justo em termos morais, oferecendo a si mesmo em substituição ao sacrifício de um animal. É uma via, em essência, passiva: você se torna ativo apenas no momento de fazer o pedido, mas se torna passivo ao receber; você realiza o ato ativo de solicitar e, em seguida, permanece em silêncio para aceitar. Até mesmo na atividade, você adota uma postura passiva, uma vez que a comunhão se trata exclusivamente de receber, e não de conquistar. Você se torna verdadeiramente ativo apenas quando atinge a santidade — e, nesse ponto, ocorre o que se relata sobre Padre Pio, que dava ordens ao anjo dizendo "faça assim, assim e assim, em nome de Cristo", e o anjo ia e obedecia; que estava num lugar e, ao mesmo tempo, em dois ou três, naquele fenômeno que o catolicismo chama pelo nome exato de bilocação. Ali não se encontra a "noiva de Deus", a Igreja como esposa, movendo-se como se movia Israel? Sim, mas o quimbandeiro não possui noiva alguma; ele consegue se salvar utilizando suas próprias estratégias de ação. Existem duas visões de mundo completas, uma associada ao sol e a outra à guerra, e cada uma molda uma forma distinta de interagir com o mundo.

Observe como a passividade cristã afeta a formação do caráter, pois isso é fundamental. Desde a infância, o católico é ensinado que o que realmente importa não se conquista, mas sim se recebe: a graça é um presente, a salvação é um presente, e a própria comunhão é a experiência de acolher dentro de si algo que não foi produzido por suas próprias forças. Isso forma um tipo de pessoa que espera, que tem fé, que aguenta — e que, em seu pior momento, fica parado, procrastina, delega sua própria vida a uma oração e fica de braços cruzados. A jornada marcial, por sua vez, molda o contrário: um homem que não espera nada como um presente, que luta com suas próprias mãos, sempre ativo até o limite de sua exaustão — e que, em seu pior estado, não consegue relaxar, transformando tudo ao seu redor em uma batalha e, assim, se consumindo. A santidade representa a conexão entre a passividade e a potência no catolicismo: apenas aquele que é santo alcança um estado de plena atividade sem abrir mão da sua capacidade de receber, como é narrado no relato sobre Padre Pio, que ordenava ao seu anjo e conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. O que, para quem pratica a quimbanda, representa o início — agir, forçar, conquistar — é, para o católico, o destino final, e isso se aplica apenas a um número muito restrito de indivíduos. Dois mapas do espírito que conduzem a dois destinos distintos.

Existem outras, muitas mais. O islã representa uma divindade de pura potência — ainda mais do que os deuses pagãos da África, que também possuem grande força. Alá estabelece, de maneira bem clara, uma religião voltada para a guerra, criada por um líder bélico, que foi o próprio Maomé; e uma grande parte do Alcorão consiste em instruções sobre como conduzir guerras e estratégias de combate. É por isso que o muçulmano, mesmo originando-se de uma raiz abraâmica como nós, tende a agir no mundo de forma bélica. Agora considere a Wicca. Ali não é um deus criador do mundo, mas sim uma deusa; o deus que lhe é atribuído é apenas um demiurgo — existem correntes que lhe conferem livre-arbítrio e outras que não. É por isso que a Wicca geralmente se mostra receptiva, e às vezes até de forma excessiva. A verdadeira Wicca, que se fundamenta em uma revelação e não apenas nas criações de Gerald Gardner, origina-se do mito de Aradia, presente no Evangelho das Bruxas de Charles Leland. E, nesse contexto, a abordagem é claramente bélica: é necessário eliminar os ricos para que ocorra a emanação do escaton. Preste atenção: essa manifestação do escaton sugerida pela gnose — o que Voegelin chamaria de imanentização do escaton — é sempre bélica, sempre uma luta de excesso, sem exceção.

A Wicca contemporânea se afasta do mito de Aradia — o que, em minha opinião, é um equívoco, pois isso compromete a essência do culto desde suas raízes — e se transforma em um culto dedicado à Lua: a deusa lunar, as qualidades femininas exaltadas em detrimento das masculinas, e até mesmo os vícios são transformados em virtudes, sendo os vícios lunares que a alquimia classifica. É o que eu estava mencionando sobre a relação entre vício e virtude, que guia a alma de muitas pessoas: as mulheres, geralmente mais empáticas em alguns aspectos e mais rigorosas em outros, enxergam isso refletido em uma religião que eleva à canonização o simbolismo associado à lua. "Portanto, no cristianismo, os vícios solares também viram virtude?" Não. O cristianismo católico possui características muito específicas e singulares. Observe o Egito solar, a crença no Sol, em Hórus e em Rá: nesse contexto, até mesmo os aspectos negativos associados ao Sol são considerados como virtudes. Ao invés de catolicismo, substitua por protestantismo: é equivalente. A pessoa abastada, rica, até mesmo avarenta — o que mais poderia ser senão a teologia da prosperidade, uma fé radiante na qual o vício associado ao sol é elevado à categoria de bênção? É apenas assistir a uma palestra de Pablo Marçal sobre Deus; é exatamente aquilo.

Veja o que a chave revela ao ser invertida: sempre que a gnose se manifesta — seja na Wicca de Aradia, na Quimbanda do Maioral, ou em qualquer culto que ensine a emanação do escaton, isto é, a promessa de trazer o paraíso para a história por meio da força —, o planeta regente é Marte. Sempre há uma batalha, sempre a aniquilação do mundo atual como meio de salvação, e o devoto convertido em combatente de uma escatologia. A Wicca moderna relacionada à Lua se distancia disso, pois deixou para trás suas origens e trocou a ideia de guerra pela Lua, substituindo o soldado pela sacerdotisa. Por essa razão, o tipo humano que ela representa é diferente — é acolhedor, receptivo e voltado para o interior. Não se trata da minha perspectiva em relação às pessoas; é o que a matriz provoca naqueles que habitam seu interior. É possível antecipar muitas características de um homem apenas conhecendo qual dessas fontes o sustenta.

Várias seitas protestantes — não todas, é importante destacar — reduzem Deus em suas virtudes: elas podam tudo e preservam apenas a sua face radiante, especialmente aquelas que adotam a teologia da prosperidade e a teologia do retorno, essas inovações que o próprio protestantismo criou. E é aqui que se dá o ponto decisivo em termos teológicos, e aqui é onde o catolicismo, nas suas interpretações mais ortodoxas, se distingue de tudo isso: Deus é mais do que a suprema virtude solar. Ele é a máxima virtude em sua plenitude, reunindo todas as virtudes em Si, sendo o Deus de suprema virtude — assim como Aristóteles se refere ao motor que permanece em movimento e São Tomás de Aquino retoma essa ideia do motor imóvel, identificando-o como o próprio Deus, o único Deus, o grandioso Espírito originário de todas as coisas. Limitar sua essência à apenas um aspecto positivo ou à sua face mais radiante é, na verdade, empobrecê-lo, reduzindo-o a algo que nossa vaidade é capaz de manter sob controle.

Deus, quando compreendido em sua totalidade, não se resume a uma coleção de virtudes; Ele é a plenitude do ato, aquilo em que não há deficiências nem excessos, o motor imóvel que impulsiona tudo, sem ser movido por qualquer coisa. Ao retomar os ensinamentos de Aristóteles, São Tomás não se refere a Deus como estando no topo de uma prateleira repleta de qualidades; ao contrário, ele afirma que Deus é a origem de onde todas as qualidades emanam. A face solar — o reinar, o iluminar — é autêntica, mas trata-se de uma face, e confundir a parte com o todo é exatamente o que faz a teologia da prosperidade: apanha o brilho e descarta a plenitude, apega-se ao rei e acaba por perder o Ser. Reduzir Deus a apenas um planeta é perpetuar o mesmo erro, apenas com disfarces variados — limitar o infinito de acordo com as vontades de quem impõe essa limitação.

É fundamental compreender um aspecto da natureza e dos próprios deuses pagãos: eles possuem qualidades associadas a diferentes planetas, que se correspondem a diversas manifestações da natureza — uma característica saturnina em um lugar, uma jupiteriana em outro —, mas sempre há uma que se destaca, e é por essa predominância que se define a correspondência. Zeus é, em grande parte, jupiteriano, e é por isso que o chamamos de Júpiter; isso não significa que ele não possua outras características. Saturno representa não apenas a morte, mas também o ciclo, a vida e o renascimento, pois está relacionado a todos os ciclos naturais. A falta de compreensão por parte das pessoas se manifesta quando afirmam: "isto aqui é isto, pronto, acabou". Não, meu amigo: os símbolos da alquimia são universais. A letra A pode representar tanto o amor quanto o arrombado — vício e virtude na mesma chave. É impossível classificar algo como puramente negativo ou exclusivamente positivo. Aqueles que simplificam não conseguiram captar o simbolismo alquímico, e é preferível ficar em silêncio até que compreendam.

Essa amplitude não é uma falta de rigor; é a própria essência da linguagem simbólica. Todo elemento da natureza possui influências de diversos planetas, sendo que um deles se destaca — e é essa predominância que atribui o nome, e não o fato de ser exclusivo. Saturno é aquele que exemplifica como desmantelar a ignorância: referem-se a ele como o senhor da morte, e de fato ele é, mas também é o senhor do tempo, das colheitas e dos ciclos que reanimam a vida após o inverno. Mortes e nascimentos na mesma palma. É por essa razão que um mesmo signo pode expressar, dependendo do eixo em que é interpretado, tanto uma virtude quanto seu vício gêmeo — o A que representa o amor, mas que também pode ser arrombado; a força que atua como proteção e a força que se torna opressiva; a ordem que mantém tudo em equilíbrio e a ordem que se transforma em sufocante. Estudar alquimia é, de fato, aprender a manter as duas extremidades bem seguradas para que nada caia. Aquele que apenas observa a ponta negra ou apenas a parte positiva não está interpretando o símbolo; está transferindo seu próprio medo para ele.

Dessa maneira — e repito, agora que o método foi estabelecido — são criadas políticas. Não no sentido de governar um país, mas na maneira como você administra sua casa, as instruções que fornece ao seu filho e a forma como você e sua esposa se respeitam dentro da relação. Essa política doméstica orquestra tudo e nasce plenamente dessa visão de mundo. Portanto, é bastante tolo afirmar que "esse é colérico, aquele é melancólico": isso não explica o motivo pelo qual a pessoa é dessa forma, nem se refere à sua verdadeira essência. "Mas, Gabriel, é só para se ter uma ideia geral." É verdade, mas essa noção geral está incorreta, pois indica a direção errada.

"E as camadas do professor Olavo? A pessoa ascende através de estratos, e cada estrato possui, mais ou menos, um planeta." Excelente — e agora? Quem afirmou que avançar para uma camada superior elimina a essência da busca por sentido na vida do indivíduo? Na minha interpretação das diferentes camadas que compõem a personalidade de Olavo de Carvalho, uma pessoa que se encontra na quarta camada, a mais endurecida de todas, ainda poderá buscar atrair atenção por meio de reclamações, caso sua alma tenha um caráter mercurial. Assim, ela ascende — até a sétima camada, que é a mais espiritual, aquela que envolve o sacrifício pessoal em prol dos outros, bem como as atividades sociais de apoio, sendo a mais mercurial de todas — e ainda assim, ela permanece mercurial. Transforma a perspectiva da vida, eleva o nível, mas está sempre ligado a cobrir, reconstruir ou restaurar algo. O mercuriano não desperta em um dia bélico sem motivo; a potência subjacente, que se consolida por volta dos dezoito ou dezenove anos, permanece a mesma. Ele será inconstante durante toda a sua vida, mesmo que em um nível cada vez mais elevado.

É fundamental não misturar os dois, pois embora pareçam semelhantes, são diferentes. A camada representa a altitude em que os seres humanos habitam; o astro, por sua vez, refere-se à essência que permite a vida nessa altitude. Ascender de nível é tornar-se menos agressivo, mais consciente e mais competente — mas você avança sendo a pessoa que já é. O marciano da quarta camada se envolve em brigas por motivos fúteis, na rua, com pessoas que não deveria; já o marciano da sétima camada transforma a luta em um verdadeiro serviço, defendendo o que é justo e combatendo o erro de maneira sistemática e com um propósito claro. Iguais em potência, diferentes em alturas. Por isso, a camada revela o quão alto um homem está, enquanto o astro indica para onde ele direciona essa elevação. Uma sem a outra te deixa vesgo: vê o nível e não vê o rumo — ou vê o rumo e não sabe se está diante de um bruto ou de um santo daquele mesmo rumo.

O mercuriano, por sua vez, é o indivíduo da restauração — não uma restauração obtida por meio da guerra, como faz Marte, mas sim a cura e a reconstrução do que foi arruinado. É por essa razão que Rafael é considerado o arcanjo da cura na tradição católica: Mercúrio possui essa capacidade de restaurar. Este símbolo orienta até mesmo o propósito final da vida de uma pessoa, e é extremamente difícil para ela mudar para outro. Não se trata de relativismo, atenção: não significa que qualquer pessoa possa ser qualquer coisa. Todo homem possui seu próprio astro, e esse astro não pode ser trocado como se troca uma camisa.

Utilizo minha própria experiência como exemplo, para evitar generalizações. Eu sou um homem de total marcialidade. Aprecio o combate intelectual; iniciei minha trajetória intelectual com o intuito de lutar. Por meio de uma série de injustiças ocorrendo, desejava tomar a iniciativa de fazer justiça por conta própria — algo que, na Cabala, se relaciona a Gevurah, à força do rigor e da justiça. A forma mais eficaz que descobri para combater foi através do universo intelectual. Meu pai me falou algo que ficou gravado na minha memória: a maneira mais eficaz de arruinar uma pessoa é derrubar todas as suas concepções sobre o mundo — a totalidade de sua cosmovisão, a visão completa que ela tem do mundo. "E como faço isso?", indaguei. Não apenas através da filosofia, ele respondeu, mas também ao confrontar a base natural de seu pensamento, aquilo que orienta toda a sua reflexão — frequentemente uma convicção ética que, embora prejudicial, sustenta toda a estrutura. Quando você derruba essas colunas de uma só vez, não resta mais nada. O sujeito foi completamente refutado. Assim, ele se verá obrigado a reerguer, desde o início, o microcosmos mental, esse universo interior que, por vezes, levou toda uma vida para ser construído.

É neste ponto que a imagem do meu pai se torna precisa. Um homem não mantém suas crenças desordenadas, como se estivesse apenas empilhando tijolos no chão; ele as constrói em forma de abóbada, com cada uma sustentando a outra, e no ponto mais alto de toda essa estrutura, ele coloca uma pedra angular — geralmente uma convicção ética, uma noção do que é considerado bom, que ninguém se atreve a questionar, pois se tornou a própria base do seu modo de ver as coisas. Enquanto essa pedra permanecer onde está, você pode debater os pormenores o dia todo sem afetar nada. Mas se você a descobre e a retira — não os tijolos, mas sim a pedra que os segura —, toda a abóbada desmorona de uma só vez. Não se trata de refutar um argumento; é o colapso de um universo. O homem permanece ali, em meio aos destroços de seu próprio microcosmo, tendo que escolher entre a coragem de reconstruir uma nova abóbada ou passar o resto de seus dias protegendo os fragmentos e se referindo a eles como teto.

O lema do meu pai era uma citação de Walt Whitman, extraída de um dos mais grandiosos poemas já compostos pela humanidade: "eu sou vasto, eu contenho multidões". Isso quer dizer: eu carrego um universo inteiro dentro de mim. Esse é o microcosmo interno. Se você arruína o microcosmo, o indivíduo terá que reconstruir-se a partir do zero, como alguém que faleceu e precisa renascer, reaprendendo tudo do zero — e isso provoca uma vergonha tão intensa que muitas pessoas simplesmente optam por não fazê-lo. É necessário ter habilidade e modéstia para se curvar e reconstruir internamente todo o seu universo. São poucos os que possuem, e por isso são poucos os que realmente se transformam. Eu testemunhei isso pessoalmente, e observo isso sempre que participo de um debate sério e acadêmico, de fato, e não nessas discussões acaloradas que ocorrem nas redes sociais atualmente.

O professor Carlos Nougué teve um debate, no canal do professor Marcelo Andrade, com o homem que na época era considerado o brasileiro com o maior QI. Nougué prendeu o homem de tal forma que ele nem conseguiu perceber onde estava pisando. O homem construiu toda uma concepção de mundo com base em uma interpretação equivocada de Tomás de Aquino — cometeu um erro fundamental e não conseguiu graspar o que era mais básico. Houve um momento em que ele parou e ficou em silêncio por quase dez minutos, tentando identificar onde havia cometido um erro, o que acabou se tornando um meme. Era necessário recomeçar do zero, reconstruindo completamente a visão de mundo. É precisamente isso que ocorre ao desmantelar por completo a cosmovisão de uma pessoa: restam apenas ruínas, e ele deve erguer uma nova cidade sobre elas.

Compreenda, no entanto, o que é fundamental, o cerne de toda a questão: o deus deste mundo individual é o próprio ser humano. Ele é uma divindade em seu próprio microcosmo — e a questão fundamental é: que tipo de divindade ele é? Um deus da guerra? Um deus venusiano — que se concentra mais nos prazeres, mas também no amor, na empatia e, da mesma forma, nos vícios associados a essa perspectiva? Um deus relacionado a Saturno? Solar? Jupiteriano? Inconstant? Lua? Isso varia conforme o papel divino que ele desempenha em seu próprio universo interior. É a partir daí que ele edifica esse universo, estabelece quais são suas principais virtudes e determina o que é considerado vício e o que é virtude. É isso — e não uma classificação de quatro temperamentos — que devemos considerar para entender a mente de um homem.

É por isso que o que o psicólogo realiza atualmente na clínica muitas vezes se assemelha a uma palhaçada. Retorno ao exemplo da pessoa que passou muitos anos em um culto que ensinava um comportamento quase autista — que instruía os indivíduos a serem fechados, distantes e semelhantes a um autista, para que pudessem viver naquele ambiente. O psicólogo observa esse homem, cria o seu mont e carimba: "você é autista." Não, meu irmão: ele foi programado. "Mas o psicólogo nota isso." Há muitos que não percebem, e até mesmo um psicólogo renomado que ler este texto reconhecerá que é uma verdade. Há dez anos, o indivíduo deixou aquele escudo, e não restou vestígios da enfermidade — apenas o costume —, e mesmo assim, ainda persistem em classificar como autismo aquilo que é simplesmente uma sedimentação religiosa. É fundamental compreender a raiz das questões, em vez de apenas mensurar os sintomas; é necessário interpretar a essência, em vez de rotular superficialmente.

Sei que é uma teoria muito ampla. É exatamente por ser tão extensa que estou ciente de que muitos psicólogos provavelmente terão preguiça de utilizá-la — não preciso pensar muito para antecipar isso, é até engraçado de tão previsível que é. No entanto, é o que precisa ser feito. Para realizar uma análise adequada de um homem, a fim de realmente entender sua essência e até mesmo antecipar suas ações, é necessário mergulhar nos pormenores de sua alma: a religião que o moldou, a visão de mundo que ele recebeu, a ética que o guia e o planeta sob o qual o seu deus interior rege o universo que ele abriga em seu coração. Sem isso, não dá. Sem isso, você acaba espremendo um pano sujo e chamando de ciência o que sai dele.

Finalização

Os quatro temperamentos interpretam a pele; essa teoria busca compreender a raiz. A raiz de um homem não se resume a um estado de humor do corpo — não é bile, não é sangue, nem fleuma. É uma elevação: a fé que construiu o teto de sua alma, a visão de mundo que ela proporcionou, a moral que dela se origina e o símbolo universal sob o qual o seu deus interior rege o mundo que ele carrega em seu coração. Entender isso é como encontrar a direção norte para uma pessoa — é compreender por que ela se estagna, por que enfrenta batalhas, por que busca restaurar, por que oferece acolhimento, por que emite condenações, por que perdoa ou, ainda, por que nunca perdoa. Tudo o que aparenta ser "jeito de ser" é, na verdade, culto: a prática silenciosa de uma fé que talvez ele nem saiba mais que professa. Isso requer um esforço, e esse esforço é o trabalho: trata-se de uma análise ampla e detalhada, que exige uma leitura completa da alma em vez de simplesmente identificar um sintoma, e a maioria das pessoas não estará disposta a aceitá-lo. Aquele que pagar, verá o que os quatro temperamentos nunca revelaram: não a aparência do homem, mas o deus que ele, inconscientemente, venera.

Epílogo

No final, cada alma pode ser comparada a um pequeno céu, onde apenas um astro governa. Identifique o astro e você compreenderá o homem — não a imagem do que ele realiza, mas a regra oculta que o leva a fazê-lo. Marte é para aqueles que batalham, Mercúrio para os que curam, o Sol destina-se aos que governam, a Lua é para os que recebem e acolhem, enquanto Saturno serve àqueles que navegam pelos ciclos de morte e renascimento sem se fragmentar. E caso um dia todo esse céu venha a desabar sob a carga de uma refutação, recorde que reconstruir um universo interior é a mais rara forma de coragem que se pode encontrar neste mundo: a capacidade de inclinar a cabeça diante da realidade e edificar, tijolo por tijolo, sob a mesma estrela de sempre, o mundo que se acreditava eterno. Aqueles que possuem essa coragem experimentam uma nova vida. Aqueles que não a possuem acabam morrendo na tentativa de proteger um entulho, e ainda assim se referem a ele como lar.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Filosofia política e ordem simbólica

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Economia

MISES, Ludwig von. Ação Humana: um tratado de economia. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil.

SMITH, Adam. A Riqueza das Nações. São Paulo: Nova Cultural. (Coleção Os Economistas).

Religião comparada, ocultismo e simbolismo

CROWLEY, Aleister. Liber AL vel Legis: The Book of the Law. 1904.

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Literatura

WHITMAN, Walt. Leaves of Grass ("Song of Myself"). Brooklyn, Nova York, 1855.

Formação intelectual

CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia (COF) — teoria das camadas da personalidade. São Paulo, a partir de 2009.