O Efeito Leno Brega
A estética é uma forma de comunicação, e ninguém que se veste se comunica de forma silenciosa. Há revoltas que nascem da fé, há outras que nascem de uma ferida aberta. Cada cidade é como um tribunal que já deu seu veredicto antes mesmo de você abrir a boca. Igualar o medo que se tem do outro com ódio é o primeiro engano de quem quer ser amado à força. Ao fim, só se pode escolher uma alternativa: abrir mão da própria vaidade ou exigir que o mundo inteiro se submeta a ela.
Gabriel G. Oliveira
7/30/202698 min ler

Aparência, cultura local e o custo de lutar contra o próprio universo
Hoje eu vou compartilhar com vocês algo realmente impressionante e interessante, que faz parte das minhas reflexões psicológicas. Para iniciar com total sinceridade, eu não suporto a pessoa que se apresenta como o criador da roda: na verdade, essa ideia já foi concebida. Ou, para ser preciso, ela já está fragmentada, dispersa por diversas teorias distintas, com cada parte residindo em um autor, em uma disciplina, em um aspecto da alma humana que raramente é explorado em sua totalidade. O que eu fiz foi reunir todos esses fragmentos em um só mosaico. É por isso que eu não me refiro a isso como teoria, mas sim como efeito. Exatamente, é o chamado efeito Leno Brega, capisce? É verdade, não estou fazendo uma piada com o nome — e eu garanto que, no final, quando você já tiver tudo isso bem organizado em sua mente, eu vou explicar com detalhes a origem dessa absurda escolha de nome, pois o nome também serve como um argumento. Entretanto, a base do que estou dizendo é esta: existem diversos pequenos conflitos mentais, várias engrenagens da alma, que, ao se interconectarem, geram, com uma regularidade impressionante, sempre o mesmo resultado. Um resultado que ocorre de maneira consistente é denominado fenômeno pela ciência, enquanto, na prática do Círculo de Estudos, referimo-nos a ele como efeito. Um efeito é um padrão que não pede autorização: ele ocorre, independentemente de você estar de acordo ou não, quer você tenha lido Freud ou nunca tenha pegado um livro na vida.
O efeito decorre de uma ideia que poucos se dispõem a considerar com seriedade, pois a consideram superficial, superficial, associada a pessoas fúteis. A ideia é a seguinte: as pessoas precisam encarar a questão da estética com seriedade. Eu não estou de brincadeira, meu amigo, e vou lutar por isso com todas as minhas forças. A estética não é um adorno externo ao ser; a estética é uma forma de expressão. Qualquer linguagem, por sua própria natureza, sempre transmite uma mensagem, independentemente de sua vontade ou da presença de uma intenção clara. Ao se vestir, você está se comunicando. Você está enviando uma mensagem ao mundo inteiro antes mesmo de falar, e o mundo a interpreta em um instante, muito antes de conhecer seu nome, sua história ou sua personalidade. O problema, portanto, é que há indivíduos que possuem, por assim dizer, uma estética deficiente. E é aí que você tem que prestar atenção, porque é exatamente aqui que os apressadinhos me entendem errado e saem correndo pra me crucificar: ruim segundo a cultura local da cidade em que a pessoa se encontra. Tenha isso bem presente, fixe essa cláusula em sua mente, mantenha essa frase guardada no bolso da camisa, para que você não ande por aí acreditando que isso é discriminação ou qualquer outra coisa do tipo. Não é discriminação de forma negativa. A cultura urbana. É isso e somente isso: cidade. Isto é, uma cidade pode possuir uma cultura, enquanto a cidade adjacente, situada bem próxima, pode ter uma cultura totalmente distinta, por vezes até diametralmente oposta, e ambas estarem absolutamente corretas dentro de seus próprios limites.
Vamos ver exemplos práticos, pois teoria sem aplicação é inútil, e eu não estou aqui para enganar ninguém. Aqui em Primavera do Leste, onde resido, temos uma cidade voltada para a agricultura, com uma população mais envelhecida; a maioria dos habitantes daqui é composta por pessoas mais maduras, que possuem um espírito mais tradicional, e costumam avaliar os outros com base na firmeza, seriedade e no respeito às normas estabelecidas. É assim que a primavera é, com seu modo característico, e não há como reclamar ou resistir a isso. Agora vamos falar de Cuiabá: Cuiabá é quase o oposto perfeito, é uma cultura jovem, uma cultura urbana, calorosa, movimentada, com um ritmo diferente, uma pressa distinta e uma tolerância diversa. Portanto, meu caro, não tente argumentar que há um padrão de beleza que se aplica a todos, pois isso simplesmente não existe. Não se aplica a todos. É local, está situado, está ligado a um lugar específico com uma história particular. O indivíduo que desconsidera isso vai se frustrar incessantemente, sem compreender o motivo de não ser aceito, culpando o mundo ao seu redor, quando na verdade o problema é que ele estava interpretando o mapa de forma equivocada o tempo todo.
Aí sempre surge aquele indivíduo inteligente, cheio de argumentos, com o dedo apontado, convencido de que irá me refutar com um contraexemplo. Vou dramatizar para vocês essa conversa, pois ela acontece toda semana, ponto por ponto, como se fosse um ensaio:
Comentários em câmara. Surge o Interlocutor Arrogante, com o queixo levantado e um sorriso que revela que ele acredita ter vencido a discussão antes mesmo de ela começar.
INTERLOCUTOR — Oh, Gabriel, eu conheço alguém que é totalmente tatuado, com piercings por toda parte, cabelo de várias cores, um visual totalmente excêntrico, vestindo roupas pretas com desenhos de cadáveres — e essa pessoa é simplesmente incrível, boa demais, com um coração de ouro! E agora, o que fazer? Onde está a sua pequena teoria?
GABRIEL — É verdade. Sim, meu camarada. Certamente. Não tenho a menor dúvida de que ela é excelente. Mas de onde ela é?
(Silêncio. O Interlocutor abre a boca, mas não emite som algum. O sorriso vai se apagando lentamente. Foi exatamente isso que eu esperava que acontecesse, pois a questão não é apenas retórica: ela é a chave completa.
Você compreendeu o que eu fiz naquele contexto? É exatamente isso que as pessoas precisam entender de uma vez por todas: existem culturas regionais. Culturas locais, meu chapa, daquela determinada área, com limites invisíveis, mas que são bem reais. Cada área tem suas aversões ou, pelo menos, suas peculiaridades, e não se pode simplesmente eliminar essas características do mapa com um estalo de dedos ideológico, como se bastasse declarar que algo não existe para que isso deixe de ser verdade. Existe uma vasta cultura brasileira que se estende por todo o país, como um teto compartilhado. Abaixo deste teto, existe a cultura regional, que é bem específica, ligada a uma cidade em particular, àquela cidade em questão, com seus códigos não verbais, suas peculiaridades e os tabus que existem em cada bairro. Não podemos desconsiderar essa camada apenas porque ela não se encaixa em alguma teoria idealizada. A cultura de Primavera do Leste é bem antiga, profundamente enraizada na região. A cultura de Cuiabá é outra, é outra mesmo. Se você cruzar para Minas Gerais, encontrará um universo completamente diferente: a cultura de uma pequena cidade no interior de Minas é totalmente distinta da cultura de uma grande metrópole mineira. Nothing. Estão universos distintos, porém pertencentes ao mesmo estado, e, em certos momentos, esses mundos são apenas uma estrada de duas horas de distância, que mais parece um portal entre diferentes planetas.
Então dá pra desenhar uma escala, uma hierarquia de camadas culturais que eu quero que você grave a ferro. Há uma cultura que se estende a todo um continente — essa atmosfera ampla e quase climática que define um europeu como europeu e um latino-americano como latino-americano. Há uma cultura que se manifesta em nível nacional, com sua própria língua, símbolos e mitos originários. Há uma cultura que se manifesta em nível regional, a qual é, de fato, a mais próxima, a mais persistente e, ironicamente, a mais influente no cotidiano, uma vez que é essa mesma cultura que o avalia na padaria, no ponto de ônibus e durante uma entrevista de emprego. Estas são as culturas que realmente existem, representadas por pessoas de carne e osso. Contudo, algo que de fato não existe é uma cultura global, uma cultura que abranja todo o planeta, uma cultura da humanidade unificada. A explicação é simples, quase engraçada de tão evidente: até o momento, ninguém veio e colonizou outro planeta. Não existe um "fora" da Terra do qual a gente possa olhar pra si mesmo como uma coisa só. Enquanto os seres humanos estiverem limitados a esta esfera azul, que se divide em continentes, nações e pequenas aldeias, cada um preparando seu próprio caldo cultural, não haverá uma cultura que se possa considerar única. Atualmente, existem apenas esses três tipos de cultura, e isso é tudo. Aqueles que anseiam por uma cultura universal, na verdade, já estão inclinados a adotar uma doutrina perigosa, a qual iremos explorar mais adiante — a doutrina daquele indivíduo que deseja eliminar todas as diferenças existentes em uma unidade criada apenas em sua mente.
Agora, venha comigo de volta à Primavera e observe com atenção aquela pessoa que possui uma estética verdadeiramente metal. Aquela pessoa que se roupa de uma maneira extremamente estranha, repleta de tatuagens com desenhos de demônios. Insisto de maneira precisa em saber que tipo de tatuagem estou me referindo, para evitar qualquer ambiguidade e para que ninguém me acuse de generalizar inadequadamente: é aquela tatuagem de cor mais escura, sem nenhuma coloração, com um traço denso, sombrio e carregado, que representa a imagem de um demônio na pele, com chifres, garras e toda a iconografia da inversão. Não me refiro àquelas tatuagens sem propósito, aquelas pequenas e estranhas marcas espalhadas pelo braço que não têm significado algum, ou a um desenho tribal adquirido por impulso. Não, isso é algo diferente, isso é barulho. Refiro-me à tatuagem que possui um significado, especificamente o de representar uma inversão intencional de um símbolo sagrado. Então está claro: essa pessoa, com essa marca na pele, é imediatamente julgada de maneira negativa aqui, à primeira vista. Se ela usa piercing, isso agrava a situação. Se ela tiver cabelo colorido, aí realmente desanda. Além disso, se ela usa brinco — ixe, aí a situação se complicou de vez, meu amigo, aí é o fim, ninguém quer nem se aproximar. E eu não estou exagerando para provocar reações dramáticas de vocês: é exatamente assim no meu canto, é a verdade crua que testemunho todos os dias, na feira, nas ruas, na entrada da igreja.
O aspecto mais crucial, que distingue isso de meras conversas de esquina, é que toda e qualquer cultura regional, sem nenhuma exceção, possui esse personagem sempre presente: o rejeitado. A imagem que o grupo, por um instinto de manada, apressa-se a colocar no canto sombrio do palco. Frequentemente, esse rejeitado é tratado como um criminoso de fato, e não estou exagerando na minha afirmação. Marginal, em sua totalidade, com cada letra, acompanhado de todo o temor e toda a animosidade que essa palavra implica. Tenha mais cautela, pois isso não é exclusivo dos fãs de metal; não se trata de uma perseguição unilateral contra os alternativos. Inverta o exemplo para observar como a máquina operaria de forma inversa: considere São Paulo. Há ambientes, há grupos, onde o homem que se veste de maneira a refletir o agronegócio, com botas, chapéu e cintos largos, aquele que representa de forma autêntica o campo, é visto como alguém teimoso, grosseiro e uma pessoa que não permite que outros se aproximem muito. É lamentável que, em certas áreas de São Paulo, a realidade seja essa. Pois, na mente daquele paulistano em particular, dentro daquela bolha específica, ele é visto como o representante do interior ultrapassado, o jeca, o ignorante. Aí a máquina de julgar começa a funcionar automaticamente: eles passam a atribuir várias coisas ao indivíduo apenas pela sua vestimenta, fazendo inúmeras suposições sobre sua inteligência, suas opiniões políticas e seu caráter. Esses problemas estão presentes em São Paulo da mesma forma que o preconceito contra os metaleiros existe em Primavera. É exatamente o mesmo mecanismo funcionando com os sinais invertidos. A cidade se transforma; no entanto, o processo de rejeição do que é diferente permanece o mesmo.
É crucial que eu faça uma distinção aqui, que é o cerne de tudo que estamos discutindo, pois se você cometer um erro nessa questão, não conseguirá compreender nada do que vou dizer a seguir: não confunda a cultura local com preconceito. Por favor, eu imploro, não podemos combinar essas duas coisas, pois pertencem a espécies diferentes. Cultura regional é uma coisa; preconceito, no sentido mais forte da palavra, é algo totalmente diferente. O preconceito ao qual me refiro, de maneira vil e criminosa, é o racismo, é a vontade de agredir fisicamente alguém, é a agressão sem motivo, é o anseio por humilhar. Perceba agora uma nuance que a maioria das pessoas ignora sem nem se dar conta: preconceito, no que se refere ao ódio, não significa ter medo. São duas coisas diferentes. Preconceito-ódio significa que alguém nutre um ódio por você, que as pessoas te desconsideram ou te menosprezam devido à sua identidade ou ao que você representa. Isso não quer dizer que elas tenham medo de você. De fato, aqui reside um elegante paradoxo: elas podem até apreciar sua aparência, observar e pensar "nossa, que cara massa, que figura interessante", e, ainda assim, carregar uma ideia pré-fabricada, uma etiqueta colada, um julgamento pronto a seu respeito. Porque, afinal, o que realmente significa preconceito se explorarmos a etimologia da palavra? É precisamente o que a palavra indica com clareza: uma noção pré-concebida. Ideia pré-concebida. Sentença proferida antes da realização da prova. Assim de maneira simples, assim de forma clara. Não se trata de uma ideia louca que algum esquerdista tirou do nada para usar como um instrumento de opressão moral e silenciar as pessoas. É uma expressão antiga, sincera, que possui um significado claro e passível de confirmação: formar uma opinião sem antes ter conhecimento. O que sobra é distorção.
Com certeza, essas questões são evidentes e se destacam para aqueles que têm o olhar atento, especialmente entre pessoas cuja vida se desvia do convencional e cuja estética é oposta ao que se espera. E eu quero que você preste muita atenção ao que vou dizer agora, quase encostando o ouvido na parede, porque a partir deste ponto eu vou desvendar o funcionamento do mecanismo com uma chave de fenda e revelar as engrenagens em movimento. Em geral, uma pessoa que demonstra má-criação, que abriga ressentimentos em relação a várias pessoas sem uma razão clara, ou que vive repleta de frustrações internas — e aqui faço uma menção intencional ao antigo Freud, referindo-me à sua teoria de que o conteúdo reprimido não desaparece, mas sim se afunda e apodrece nas profundezas da alma, eventualmente se manifestando pela primeira fissura que encontrar, disfarçado como outra coisa —, tende a ser contracultural. Você compreendeu? Mas por que, raios, isso ocorre? Frequentemente, isso ocorre porque ela nutre um profundo desprezo por seus próprios pais, ou pelo que estes representam. Pelo fato de ter levado uma vida difícil, dura e repleta de injustiças. Pois, ao longo de anos de infância e adolescência, acumulou um denso reservatório de emoções negativas que urgentemente precisa ser liberado, transbordando por algum meio. O que ela realmente abomina, em seu íntimo mais profundo, é a cultura convencional daquela região onde se criou — especialmente no que diz respeito à maneira de se vestir, que representa o aspecto mais visível, instantâneo e chamativo dessa cultura, a camada superficial onde tudo se manifesta.
Aí vem a sutil mudança, aquela microalteração que distingue a análise aprofundada da interpretação superficial e apressada de boteco, então preste atenção: no cerne da questão, na sua essência mais profunda, o que está em jogo não é nem mesmo uma questão estética. Trata-se, sobretudo, de uma questão de ética. Ele não aprecia a ética do local, nem a moral daquelas pessoas, tampouco as regras implícitas daquelas gentes, assim como o jeito como se avalia o que é certo e o que é errado por lá. Não é exatamente a aparência que o perturba inicialmente, pois a estética é um resultado, não uma origem. O pobre cérebro, esse órgão velho e um tanto rudimentar, não consegue expressar suas queixas de maneira abstrata. Ele é incapaz de afirmar "eu discordo do arcabouço moral vigente nesta comunidade". Ele responde ao que detesta da única maneira que conhece, sendo a sua reação mais rápida, instintiva, e primitiva, a repulsa estética, o nojo visual, e a sensação de enjoo que surge ao olhar para um rosto, uma vestimenta, ou um símbolo. Assim, a pessoa inicia sua jornada sentindo aversão à maneira de viver daquela cultura, mas essa aversão se disfarça, se oculta e se revela como uma repulsa visual. Ao acumular essa repulsa dentro de uma cultura inteira, dia após dia, ela se transforma em estética de forma autônoma, solidificando-se como um estilo. Ele utiliza, tanto como símbolo quanto como proteção, uma estética que é completamente oposta àquela que detesta. Ele toma o emblema do adversário, cospe sobre ele e, em seguida, coloca o emblema contrário como se estivesse se vestindo com um uniforme de combate. É uma estética que desafia o convencional, erigida tijolo por tijolo como uma resposta, uma retaliação, um gesto de desdém silencioso.
Vou criar um exemplo fictício para que fique bem claro, e observe que eu o invento exatamente porque ele não ocorre na realidade, apenas para analisar o funcionamento em um ambiente controlado. Imagine, apenas para se divertir, que há uma cidade inteira habitada exclusivamente por metaleiros. Uma cidade onde o metal permeia cada cidadão, do prefeito ao padeiro, do início ao fim. Agora, imagine que eu nutro um profundo ressentimento por aquele lugar, que sinto aversão por aquelas pessoas e que, de fato, detesto toda aquela gente e os valores que elas defendem. O que eu faço, impulsionado por essa fúria? Eu serei, dentro daquele ambiente, a pessoa mais cristã que você pode imaginar, a mais formal, a mais tradicional e a mais conservadora que você já conheceu. Por que razão? Não por uma crença verdadeira, mas porque isso contrasta diretamente com a cultura da região. É a minha forma de oferecer uma banana para toda a cidade sem precisar emitir um som sequer. A minha camisa bem passada transforma-se em forma de protesto. Meu cabelo curto se transforma em um manifesto.
E é aqui que preciso interromper tudo, acionar o freio de mão e estabelecer um alerta em letras maiúsculas, pois conheço minha clientela melhor do que conheço a palma da minha mão. Não estou afirmando que, se você é um homem muito bem vestido, seguindo o estilo clássico cristão, que é discreto e digno, alinhado com o espírito da Bíblia, você necessariamente detesta os metaleiros. De jeito nenhum, isso está muito longe da verdade. É fundamental que eu enfatize isso de maneira clara e evidente, como se estivesse sublinhado três vezes e destacado em um negrito imaginário, uma vez que sempre aparece aquele indivíduo desatento que lerá meus textos pela metade, se ofenderá com a própria sombra de sua ignorância e irá se apressar em reclamar no Instagram, incomodando-me com capturas de tela fora de contexto. Portanto, fica aqui oficialmente documentado em cartório, para que não haja qualquer dúvida: ser cristão não implica em odiar metaleiros. Fixe isso firmemente na cabeça, com prego e martelo. O que eu estou abordando, meu foco de pesquisa, são aqueles indivíduos que desafiam a cultura na qual estão imersos naquele momento específico, independentemente de qual seja essa cultura — cristã, metaleira, agrária, urbana, etc. Mas por que elas se contradizem? Porque desprezam aquela cultura devido à má criação que receberam, às injustiças que vivenciaram, às experiências negativas da vida e ao turbilhão de emoções negativas que carregam dentro de si. A estética é apenas a conta a pagar, o boleto atrasado desse ódio ancestral.
O modelo que elucida esse mecanismo de forma superior a qualquer outro é o do racista; portanto, mantenha esse exemplo bem firme até o final, pois eu irei referenciá-lo novamente mais adiante. Por que o racista tem preconceito? Não devido a um erro de produção, mas sim por causa de uma narrativa. Porque em algum momento de sua vida ele foi magoado por alguém de uma certa cor. Experienciou um prejuízo, uma aflição genuína, uma perda tangível causada por uma pessoa em particular, de carne e osso. Então, ao invés de direcionar o ódio de maneira apropriada — para aquele indivíduo, para aquele agressor —, ele realiza uma ação que a alma ferida tende a fazer, de forma trágica e com uma facilidade impressionante: despeja todo esse ódio de forma geral sobre aquela pessoa específica e, em seguida, num movimento maligno e quase automático, sobre todos que possuam uma aparência similar a ela. Em outras palavras, ele amplia a partir de uma lesão. Ele experimentou um ferimento tão profundo e desproporcional que começa a reconhecer o rosto do agressor em cada semblante semelhante, percebendo padrões de ameaça onde existem apenas semelhanças superficiais. Antecipadamente, gostaria de apresentar um nome que utilizamos no Círculo de Estudos Nous para denominar esse processo: eu o chamo de remoerção — que se refere à ação de revisitar, de mastigar repetidamente a mesma ferida, de ruminar sobre o mesmo dano até que ele deixe de ser um evento isolado e se transforme em uma lente permanente fixada sobre os dois olhos. A mente humana, quando se perde em pensamentos, se torna uma máquina incansável de buscar semelhanças onde não existem relações.
Agora, com atenção, aplique isso ao nosso rejeitado estético, e você perceberá a mesma máquina em movimento. A pessoa tem uma criação péssima em certa cidade. Experimentou uma repressão severa durante a infância, daquelas em que o pai e a mãe apenas sabiam dizer "não pode fazer isso" e "para com isso" e "porque não". Mas qual é a razão? Por que? Eles nunca explicavam o porquê. Nunca esclareciam o motivo, nunca revelavam a razão por trás da proibição. Isso, meu amigo, é algo extremamente injusto, e vou argumentar que é injusto com base em uma intuição antiga e bem fundamentada. Quando você não explica o motivo de algo para uma criança, ela não interpreta isso como um ato de cuidado ou uma instrução válida; ela vê como pura arbitrariedade, como uma demonstração de poder sem restrições, como a vontade de um tirano. É a razão da proibição que a torna justa para quem a segue; sem essa justificativa, o que resta é apenas a imposição. Assim, a criança percebe isso como extremamente injusto, e o juízo que se forma em sua mente em desenvolvimento é severo e conclusivo: "meus pais são uns preconceituosos de merda, uns injustos, uns tiranos". É isso que ela verá ao olhar para eles. Ela irá olhar para o pai e para a mãe e lerá exatamente esta frase inscrita na testa de ambos. Qual é o desdobramento a partir desse veredito? Ela adota uma estética que é completamente oposta à dos pais. Ela reverte o simbolismo, ponto a ponto, em um espelho perfeito e cheio de rancor. Se os pais forem a personificação do clássico e do cristão, ela será o seu contrário absoluto, o negativo fotográfico: adotará o visual do roqueiro excêntrico, do punk, do gótico. Uma estética que se inverte, que é especular e meticulosamente planejada para atingir os pais precisamente onde eles mais se orgulham. Uma estética que, de maneira estrita, pode ser considerada quase satanista — e eu faço essa afirmação com um enfoque técnico, sem a intenção de ofender —, uma vez que o satanismo, em sua forma mais primitiva, consiste exatamente nisso: a inversão intencional dos símbolos sagrados. E aqui introduzimos outra de nossas ideias, proveniente do Círculo, que conclui o diagnóstico de maneira perfeita: eu denomino esse ato de satanização como uma esperança corrompida. Porque observa com atenção o que se passa sob a roupa preta: aquele jovem não inverteu o símbolo por uma mera devoção ao mal em si, ou por uma maldade metafísica absoluta. Ele mudou porque sua confiança foi quebrada. Ele aguardava que os pais agissem de forma justa, mas foi surpreendido pela arbitrariedade. Ele aguardava uma explicação, mas foi recebido com um grito. A ira que ele sente é como uma esperança que se deteriorou, que azedou dentro da garrafa e se transformou em vinagre. É uma esperança que foi corrompida, distorcida e ferida, mas que ainda carrega esperança em sua essência. É precisamente por essa razão que ela exige tanto esforço, e é também por isso que ela merece mais compreensão do que desdém, mesmo que nunca possamos celebrar o resultado.
É aqui que se revela uma verdade que muitos preferem ignorar, mas que sustenta toda a estrutura: cada estética possui uma cultura subjacente. Ou uma cultura secundária, se quisermos ser precisos. A estética nunca aparece de forma isolada, desprovida de conceitos; ela é sempre a camada visível, o exterior de um corpo completo de convicções que pulsa por baixo. Por exemplo, a ideologia punk é totalmente de esquerda, em todos os aspectos que você puder imaginar, desde o estético até o econômico. Os punk anarquistas são esquerdistas até o último fio de cabelo, isso é inerente ao movimento. E qual é a consequência lógica disso? Uma vez que esses indivíduos têm uma formação e uma estética que os inclinariam, de maneira natural, para a esquerda, suas ideias tendem a deslizar, quase como se fossem puxadas por uma força gravitacional, em direção àquela profunda vala do materialismo e da desesperança. Tudo se transforma em matéria, tudo se converte em uma batalha entre forças imparciais, tudo se torna a falta de transcendência, tudo se resume a "não há futuro". O indivíduo adota essa estética precisamente para personificar essa recusa: ele é um verdadeiro arquétipo contracultural, um símbolo ambulante de negação, uma teologia negativa adornada com couro e tachas.
Agora, é aqui que a situação se torna realmente dramática: aquelas pessoas que se opõem a toda uma cultura e ao lugar em que estão inseridas, geralmente são rejeitadas pela própria cultura. Certamente. Ação provoca uma reação, é o princípio básico da física social. Essa rejeição resulta, na prática, em dois caminhos observáveis, apenas dois, assim como uma divisão em uma estrada. O primeiro percurso consiste em a pessoa gerar uma frustração imensa, colossal, e nutrir um ódio profundo por todos ao seu redor, imergindo completamente nesse sentimento de aversão até atingir as profundezas, transformando-o na sua própria identidade. A segunda opção é que ela se mude para outro lugar ou faça uma viagem a uma cidade diferente, visitando um local novo. Durante essa jornada — nesse simples ato de atravessar uma fronteira — ela poderá experimentar um choque de realidade. Às vezes, é um choque ao reencontrar a própria família sob uma nova perspectiva; outras vezes, é um impacto causado por algo com o qual, gradualmente e de forma silenciosa, ela já vinha aprendendo a questionar. Nesse conflito, ela passa a rejeitar toda aquela estética, filosofia e o conjunto completo que um dia foi a sua religião, retornando à normalização. Em outras palavras, ela se transforma naquilo que o próprio movimento punk despreza e utiliza como o mais pejorativo dos insultos: uma "conformista". Ela se torna, com várias expressões de desprezo, uma pessoa conformista. O que ontem era uma revolta sagrada, agora, nas palavras dos antigos aliados, se transforma em uma traição inaceitável. Observe a crueldade da situação: a cura é rotulada como traição por aqueles que ainda sofrem com a doença.
Você consegue perceber aonde quero chegar com tudo isso? A estética, de fato, revela a sua identidade. Ela não é um acidente sem culpa, mas sim um sinal claro, é o pus que indica a infecção que está oculta. Porque praticamente toda a sua estética conta, sem a sua permissão, uma parte significativa da sua história. Considere a situação de alguém que se veste de maneira muito suja e desleixada, apesar de nunca ter realizado nenhum tipo de trabalho físico em sua vida. É o tipo de pessoa que fica o dia todo sentado em frente ao computador, à sombra, sem se mover nem um pouco, mas, de alguma forma, consegue estar completamente sujo, com um odor desagradável, e com uma aparência estranha. Ele não era incapaz de se manter limpo; na verdade, poderia ser uma pessoa muito cuidadosa com sua higiene, tomando um banho e lavando suas roupas em apenas dez minutos. No entanto, ele opta por estar imundo, como um homem que acaba de passar doze horas trabalhando em uma construção sob o sol, embora nunca tenha pisado em uma obra, jamais tenha carregado um saco de cimento e nunca tenha experimentado o suor decorrente de um trabalho físico árduo em toda a sua vida. A imundície que ele possui é ornamental, artificial e ilusória. Portanto, qual é a mensagem que a sua aparência transmite ao mundo, antes mesmo de ele dizer bom dia? Um arquétipo completo. O arquétipo do indolente, do desleixado, do desastrado, e, em algumas ocasiões, até mesmo o de uma pessoa com questões mentais não resolvidas à espreita. É isso que a roupa suja clama para todos, e não vale a pena reclamar depois que ninguém se dispôs a ouvir a sua alma bela: a alma bela não teve a oportunidade de se expressar, pois a roupa se manifestou primeiro e com mais intensidade.
E ainda mais profundamente, atingindo a essência do processo: a própria sociedade irá gradualmente pressionar essa pessoa em direção à beira do abismo. Precisamente devido ao seu contraste excessivo, por destoar de maneira estridente da cultura local, como uma nota dissonante em um acorde, as pessoas não a apreciam, afastam-se dela e a evitam. O fato de não gostar leva ao distanciamento, e esse distanciamento, por sua vez, provoca ainda mais ressentimento em quem se sente excluído, o que gera um maior contraste, mais provocações e uma maior resistência. É uma espiral autoalimentada, semelhante a um redemoinho, que atrai o indivíduo cada vez mais para o seu núcleo obscuro. No final, tudo se resume a duas opções que já mencionei: ou você se adapta, ou você detesta tanto o lugar que ele acaba te expulsando como se fosse lixo. "Ninguém te quer aqui." É essa a comunicação brutal, sem som e anônima que a comunidade envia sem precisar escrever uma carta.
É por meio desse exemplo e de toda essa mecânica que você começa a compreender, por exemplo, as razões pelas quais os punks se comportam da maneira que se comportam. E aqui deixo de fazer teorias distantes, com luvas de laboratório, e coloco minha própria pele sobre a mesa de dissecação, pois não abordo esse assunto como um mero espectador. Em minha cidade, cheguei a ser punk de verdade. Eu fui um desses demônios, sim, usando exatamente essas palavras, sem rodeios. Eu me deixei levar por aquela intensa paixão pelo rock que queimava entre 2013 e 2016, um verdadeiro incêndio, uma paixão juvenil pela guitarra distorcida e pela rebeldia, e, durante esse período, mergulhei de corpo e alma no movimento punk. Entrei por uma razão muito clara e identificável: eu detestava a cultura da minha cidade. Eu era o indivíduo que venho analisando para vocês, meu próprio objeto de pesquisa, mesmo antes de aprender a estudar. Porque em Primavera sempre se cultivou a tradição do sertanejo universitário e do funk, incessantemente, sem pausa, ecoando dos veículos e dos bares. Na minha leitura furiosa da época, era uma cultura bem medíocre, superficial, sem profundidade, sem elevação, sem nada que indicasse um direcionamento ascendente. Eu condenava aquilo com uma ira ardente, e a minha crítica tinha um foco preferido, um adversário de estimação: a pessoa que se proclamava um cristão modelo, exibindo-se diante de todos, com o terço na mão e uma expressão de santidade, mas que, em seguida, escorregava para o baile funk para enganar a esposa às escondidas. Era essa hipocrisia evidente que me deixava enjoado, subindo pela minha garganta. Eu era aquele que detestava esse tipo de teatro superficial, essa contabilidade moral dupla.
É por isso que, de maneira geral, me é muito difícil agir de forma hipócrita — e, a propósito, neste momento, serei sincero até mesmo em relação a mim mesmo neste parágrafo, pois, caso contrário, estaria caindo na mesma armadilha que venho alertando ao longo de todo o texto, e, nesse caso, eu seria apenas mais um. Portanto, não posso afirmar com arrogância e uma atitude de superioridade que "eu não sou hipócrita". Ao contrário. Às vezes, sou hipócrita, assim como qualquer ser humano, pois a hipocrisia possui diferentes níveis, graus e variações, e ninguém consegue escapar completamente dela ao longo da vida. Todos nós, em algum momento, falamos sobre algo que não colocamos em prática. Há um momento, amigo, um momento crucial, em que não é mais possível disfarçar. Um momento em que será necessário se sentar sozinho, em silêncio, encarar a si mesmo e ter uma conversa honesta e sem espectadores, refletindo sobre essa questão diante do espelho. Refletir sinceramente sobre a questão, sem qualquer tipo de suavização, sem justificativas e sem recorrer ao argumento de que "todo mundo faz". É nesse diálogo rigoroso consigo que a questão se resolve.
E é a partir desse ponto que surge a questão fundamental de toda essa narrativa, a questão que determina todo o seu futuro, assim como uma trilha define a direção de um trem: você deseja se reintegrar ou não? Eu observei aquele período da minha vida punk com um certo distanciamento e consegui identificar claramente o que realmente era: um grupo de garotos malucos que só se metiam em encrenca. Por que só cometia erros? Este é o aspecto que quase ninguém se atreve a reconhecer: porque todos, incessantemente, pressionaram aqueles jovens a se meter em confusões. A rejeição não é passiva; ela forma. A lógica que se estabelece e se solidifica na mente da pessoa rejeitada é a seguinte, e eu a compreendo profundamente: "se todo mundo que se veste assim já é visto de saída como esse tipo de gente, como marginal, como lixo, então, se eu fizer qualquer coisa, todo mundo vai pensar exatamente a mesma coisa de mim." 'Aí vem o garoto aprontar mais uma vez, eu já suspeitava.' É dessa forma que tudo se processa, é essa a dinâmica impiedosa e cíclica. Quando a pessoa se torna alvo do mesmo preconceito que permeia toda a sociedade ao seu redor, ela chega à conclusão, com uma frieza resignada de alguém que já se rendeu à ideia de não conseguir mudar opiniões: "tá, então se eu fizer, todo mundo vai só dizer 'já era previsível'". Tudo o que diziam sobre ele antes da prova se torna uma profecia autorrealizável depois. Como todos sempre o julgaram dessa forma, quando ele finalmente se comporta conforme a expectativa, ninguém fica surpreso, ninguém reavalia o julgamento — todos simplesmente se mostram indiferentes e dizem um "foda-se, eu sabia desde o começo". Isso é exatamente o que ocorre na realidade; não faz sentido tentar negar por questões de cortesia. É exatamente isso que acontece. O preconceito, quando se torna generalizado e persistente, não apenas retrata o rejeitado: ele o cria.
Agora vou compartilhar com vocês uma história fascinante, daquelas que fazem o sangue gelar, envolvendo um grupo de pessoas que se dedicavam ao ocultismo. E eu rogo, com toda a força que há em mim, que vocês silenciarem a risada interior agora, que contenham o riso, pois essa parte não é de forma alguma para ser levada na brincadeira. Era um grupo de garotinhos que se dedicava a um ocultismo bem tranquilo, em seu cantinho, no quintal, algo típico de adolescentes entediados brincando com o que é proibido. No entanto, o que ocorreu foi que a turma que alimentava o pânico dos anos 80 em relação ao satanismo, aquela histeria coletiva que se espalhou por comunidades inteiras, aquele medo generalizado, decidiu que alguns jovens de dezessete anos haviam cometido o ato mais abominável: concluíram, afirmaram, que esses garotos haviam sequestrado três crianças, três meninos, e as haviam estuprado, assassinado e jogado os corpos em um rio. É exatamente isso, meu amigo, essa terrível acusação. Uns garotos que cometiam erros, é verdade, mas erros típicos da juventude, próprios de adolescentes sem direção — nunca tinham feito nada, absolutamente nada, que se aproximasse de algo verdadeiramente horrível em suas vidas. O que a verdade veio a mostrar posteriormente, quando a tempestade de emoções se acalmou, é algo que arrepia até os últimos fios de cabelo: esses jovens foram alvo de uma acusação infundada. Os próprios investigadores responsáveis pelo caso eram todos evangélicos fervorosos, do tipo mais devoto e convicto, e atribuiram toda a culpa aos jovens devido à sua aparência, ao seu estilo, à roupa preta que usavam, e ao que representavam na mente aterrorizada da cidade. E os pobres estavam indo direto, com a passagem confirmada, para a cadeira elétrica. Em outras palavras: estavam prestes a morrer de forma injusta, sendo executados pelo Estado. Você consegue compreender a gravidade e a profundidade disso? Estão sendo assassinados por um crime que não cometeram, enquanto toda a comunidade se deita em paz, acreditando que havia feito justiça. E, enquanto isso, o verdadeiro culpado estava à solta, desfrutando do ar livre e dormindo em uma cama quente. Mais tarde, foi revelado que o assassino era o pai de um dos meninos. Permita que isso se deteriorar: o pai. Em outras palavras, os guriões estiveram à beira da morte sem uma razão válida, vítimas de uma estética, de uma tatuagem, de uma vestimenta preta, por causa de um símbolo mal interpretado por pessoas paralisadas pelo medo. É aqui que recorro a René Girard, pois ele elucidou esse mecanismo de maneira incomparável: quando uma comunidade está tomada pelo medo e pela tensão acumulada, ela necessita de um bode expiatório para aliviar seu próprio pavor. Ela seleciona uma vítima — de preferência uma pessoa que já seja alvo, que se destaque por sua estranheza ou diferença, que já esteja vestida de "culpada" —, descarrega sobre ela toda a culpa coletiva e experimenta um alívio quase religioso ao sacrificá-la. O bode expiatório não é selecionado devido à sua culpa; ele é escolhido por estar estigmatizado, por ser diferente, pois sua aparência o denunciou antes mesmo de qualquer evidência. Guarde essa história bem dentro do coração, pois ela é a evidência viva, personificada e trágica de tudo o que estou afirmando: a cultura avalia a aparência, e, em algumas ocasiões, esse julgamento da aparência não é apenas severo — ele chega a ceifar vidas inocentes e chama isso de justiça.
Portanto, isso é o que ocorre, essa é a dinâmica: essa cultura, de modo geral, tende a desaprovar o que é oposto, e — preciso ser sincero e objetivo neste momento — isso é algo comum, isso é natural, isso está profundamente enraizado na essência da alma humana, e retornaremos a esse ponto fundamental com tranquilidade mais adiante. O verdadeiro problema surge em outro ponto: ele se inicia quando, especialmente aqueles que se alinham a movimentos de esquerda, indivíduos na sociedade contemporânea determinam que a resposta para seus sentimentos de rejeição é transformar o mundo inteiro para que se adeque às suas preferências. Que o universo precisa se dobrar, se transformar e se reconstruir por completo para se acomodar de maneira confortável na vontade delas. Isso, meu amigo, tem um nome, e esse nome é antigo: é a gnose da esquerda. É algo gnóstico, utilizando o sentido estrito e técnico da palavra, bem como a interpretação no estilo de Voegelin — e vocês, que me seguem há algum tempo, já estão cientes de que sou um adepto de Voegelin nesse aspecto, pois analiso esses fenômenos através da perspicaz lente de Eric Voegelin e de sua ideia central sobre o imanentizar o eschaton, que busca trazer o paraíso, o fim dos tempos, a perfeição final, para o interior da história e realizá-lo aqui e agora, utilizando a força da vontade humana, sem a necessidade de Deus, da transcendência ou da espera. É precisamente isso que está em jogo sob a superfície da ilusão. Voegelin também se referia à metaxis, à condição humana como um ser do "entre", suspenso na tensão entre o tempo e o eterno, entre a imperfeição de agora e a plenitude que só se dá lá adiante e lá em cima. O gnóstico é aquele que não suporta a tensão do "entre", que considera a espera intolerável, e por isso cria uma segunda realidade em sua própria mente — um mundo construído, isolado, onde a tensão foi eliminada por decreto e a perfeição já se manifestou. É uma forma de gnose, uma vez que essas pessoas buscam que todos aceitem, que todos se envolvam e que todos se submetam às suas vontades. Elas desejam moldar a realidade segundo a sua própria vontade, como se o mundo fosse uma massa de modelar maleável em suas mãos, em vez de ser algo sólido, existente, resistente, que possui suas próprias leis e não solicita a nossa opinião.
Qual é o resultado concreto, o efeito colateral trágico e quase risível dessa missão gnóstica de reconstruir o mundo? Aquelas pessoas, que desde o início eram vistas com desdém, ganham ainda mais desapreço após a cruzada. Isso é o que há de mais lamentável, meu amigo, pois é nesse ponto que a dor se torna mais intensa e a ironia se manifesta de forma dolorosa: elas acabam gerando ao seu redor uma raiva colossal, um desprezo ainda maior e mais denso do que aquele que estavam tentando enfrentar. Quanto mais insistem em impor a aceitação, mais recebem rejeição. No entanto, e aqui eu preciso ser rigoroso em relação à realidade, pois a realidade não se importa com os nossos anseios — isso é algo que ocorre naturalmente. Não há nada que possamos fazer para eliminar isso, pois está profundamente enraizado na essência da alma humana. A alma observa as pessoas e percebe esse preconceito interno, essa reação instintiva de repulsa em relação ao desconhecido, esse alerta que se ativa automaticamente. Não é possível, por assim dizer, eliminar isso do ser humano com uma simples decisão ideológica. É uma pena, mas não é possível, e aqueles que afirmam que é estão oferecendo uma segunda realidade. Não há como ser aceito à força, de maneira impositiva ou por meio de um decreto. É preciso aceitar de uma vez por todas esta verdade: você pode ter uma estética serena e um visual que não causa impacto, e tudo isso é seu direito, mas as pessoas vão olhar e formar opiniões negativas a respeito, e você não pode responsabilizar os outros por seus instintos. A aceitação universal, sem condições e automática, definitivamente não é uma opção nesta vida.
Agora é hora de eu retornar de uma vez por todas à minha própria narrativa, pois há uma cena que ficou gravada em minha memória como se fosse uma marca de fogo, e foi a partir dela que tudo mudou. Eu era um jovem com um estilo meio roqueiro, e possuía uma jaqueta incrível, uma peça que hoje em dia é uma verdadeira raridade para os colecionadores, do Guns N' Roses. Se minha memória estiver correta, ela exibia Sócrates e Platão estampados nas costas — imagine a incrível beleza filosófica dessa situação, os dois fundamentos da filosofia grega carregados nas costas de um jovem punk em uma cidade agrícola do Mato Grosso —, e suas cores eram azul e vermelha, com detalhes em laranja, amarelo, azul, roxo e azul-claro, uma verdadeira explosão de cores. Era uma blusa bela, bela, bela, daquelas que não encontramos mais em nenhum lugar, uma peça de outra época. A questão é que ela já estava bem velha, desgastada, começando a abrir nas bordas e nas costuras, e eu estava sempre grudado nela, como se fosse uma segunda pele, andando para todos os lugares com aquela jaqueta. Para completar a imagem, eu possuía uma calça antiga, toda cheia de rasgos — mas observe a importante diferença: os rasgos não eram por uma questão estética, não eram uma pose, não faziam parte de uma tendência de moda; eram, na verdade, fruto do desgaste, resultado de muito uso, verdadeiramente consumida. Eu não rasguei a calça pra ficar estiloso; a calça rasgou de pobreza e de tempo. E o cabelo era grandão, comprido, meio desgovernado. Fora o Guns N' Roses estampado nas costas, você olhava pra mim e nem batia o olho pensando "ah, cara roqueiro pesadão". Era só o roqueiro comum daquela época — e a época importa muito pra entender a cena —, porque não tinha aquela quinquilharia toda que tem hoje, aquele piercing em todo canto do rosto, aquele alargador, aquele exagero. Inclusive os próprios roqueiros eram meio contra essas coisas na época, lá por volta de 2015; havia até um certo purismo. Muitos não usavam nada disso, achavam frescura. Então eu era esse cara simples: vivia com a camisa da jaqueta do Guns N' Roses, pra lá e pra cá, pra lá e pra cá, dia após dia após dia, sem me dar conta do comunicado que eu estava emitindo ao mundo.
E aí, num belo dia comum, aconteceu a cena que virou a chave inteira da minha vida. Eu me encontrava sentado no chão, encostado na parede da farmácia, aguardando enquanto minha mãe tratava de suas questões no balcão. Uma mulher mais velha se aproxima de mim com cautela e me faz uma pergunta com aquele tom característico de quem se dirige a uma criança desamparada, uma criança de rua, órfã. Deixe-me relembrar a cena, pois cada momento foi:
Terra da farmácia, em uma tarde qualquer. Eu tinha uns treze ou catorze anos, com cabelos longos e bagunçados, vestindo uma jaqueta rasgada do Guns N' Roses e uma calça desgastada, sentado no chão frio, aguardando. Entra a Dama, com o olhar suave de apreensão, quase de compaixão, a bolsa pressionada contra o peito.
SENHORA — Meu filho... você está aqui sem companhia? Está tudo bem com você, meu anjo? Onde está sua família, onde está sua mãe?
(Ela pensou que eu era uma criança sem lar. Desamparada. Um menino de rua jogado no chão de uma drogaria. Essa foi precisamente a interpretação que a vestimenta e o cabelo realizaram em meu nome, de forma independente, antes que eu pronunciasse qualquer palavra. A casca se pronunciou, e suas palavras foram "órfão".)
GABRIEL — (internamente, seu estômago afundando como se estivesse caindo em um abismo) Caramba... foi exatamente isso que meu pai disse. Isso mesmo.
Porque, veja como esta peça do quebra-cabeça se encaixa perfeitamente aqui, com um estalo: meu pai já havia mencionado algo semelhante, de maneira incisiva, em uma ocasião em que surgiu uma determinada garota, e ele proferiu aquela frase que ficou ecoando em minha mente por anos a fio — "olha, veio o passado dela". É como se a roupa dela, a sua aparência e toda a sua estética estivessem narrando de forma exuberante toda a sua história, e o seu passado tivesse chegado antes, adiantando-se e entrando na sala antes dela. Com relação a essa frase em particular e à jovem mencionada, pretendo abordar isso com mais tranquilidade em um momento futuro, pois ela realmente merece um capítulo dedicado e sua história completa um ciclo significativo. A questão é que, naquele momento, sentado no chão da farmácia e sendo confundido com um órfão de rua, eu refleti, de uma forma que me causava dor, que provavelmente aquilo era verdade, que o velho estava certo. E foi naquele mesmo lugar no chão que eu iniciei minha transformação. Assim que comecei a me transformar, adotando um estilo de vestir mais distinto, mais cuidadoso e alinhado com as normas, as pessoas passaram a me enxergar de uma forma totalmente nova. De um dia para o outro, quase como se fosse mágica. A mesma individualidade, a mesma essência, o mesmo cérebro, os mesmos pensamentos — e uma percepção do mundo completamente diferente. Apenas porque a camada externa, o envoltório, a comunicação visível, alterou sua mensagem.
Mas por que isso ocorre com tanta intensidade e de forma tão automática? Pois o ser humano percebe, nas profundezas primitivas do seu sistema nervoso, em uma camada que antecede a razão, que tonalidades muito escuras ou excessivamente vibrantes — seja no extremo do escuro opaco ou no máximo do brilho estridente — são interpretadas de maneira peculiar e alarmante pelo cérebro. Então, como exatamente as interpretamos, no final? Como ameaça. Este é o alarme primitivo, o sentinela que nunca descansa, legado de milhões de anos de seres humanos que tiveram que ser cautelosos para sobreviver. Isso não é uma mera opinião de bar: pesquisas sobre a atenção e as emoções demonstram que informações que representam uma ameaça evolutiva recebem prioridade em nosso processamento. O cérebro se concentra primeiro no que pode ser fatal, e há um viés de negatividade significativo, onde o que é negativo e ameaçador tem um peso maior e se destaca mais do que o positivo. Portanto, considere o exemplo específico de um indivíduo que está completamente vestido com um casaco preto, com o capuz levantado, essa peça que já é associada, na imaginação popular, ao estereótipo do malandro. Agora ele se une a outro indivíduo semelhante, também encapuzado, e os dois passam a seguir você, bem perto, durante a noite, em uma rua mal iluminada. Então, eu te pergunto, com toda a atenção que merece, pois serei direto e sem rodeios: você, como ser humano de carne e osso — e não me refiro agora às suas convicções ideológicas, que considero irrelevantes neste momento, mas sim ao seu instinto primordial de sobrevivência, àquela voz interna que alerta em você —, se você for o tipo de esquerdista que teima, mesmo diante de todas as evidências contrárias, em afirmar que esses indivíduos não são criminosos, que eles não têm a intenção de te assaltar, e que tudo isso não passa de um preconceito da sua parte, uma projeção de suas próprias inseguranças, e ainda assim decidir seguir em frente com confiança rumo ao banco por aquela rua sombria, de peito aberto, então, meu amigo, você estará pedindo para receber uma facada na barriga, e isso será mais do que merecido. Eu afirmo isso de maneira clara, sem me desculpar. Então, observe a lógica aqui: você está percebendo que esses indivíduos podem ser criminosos. A prova está diante de você, clamando. Então, por que raios você não troca de rua? Por que você não se dirige a uma rua bem iluminada e movimentada para evitar que isso ocorra com você? Por que você continua a se meter em situações perigosas, como um beco escuro, apenas para que os outros lhe façam mal, só para demonstrar a si mesmo e alimentar sua vaidade moral que não é preconceituoso? Isso não é moral, meu amigo. Trata-se de um suicídio ideológico, uma morte em martírio por uma causa que é tola.
O verdadeiro problema, a origem de tudo, é que você foi ensinado a não confiar em seus próprios pensamentos, a duvidar do seu próprio guardião e a desativar o alarme que está dentro de você, feito precisamente para garantir sua sobrevivência até o dia seguinte. Fizeram você se envergonhar do instinto que te mantém seguro. É similar àquele meme que compartilhei no Círculo de Estudos, e permitam-me demonstrar por que ele é, ao mesmo tempo, hilário a ponto de provocar risadas altas e aterrorizante pela sua precisão no acerto:
Um mago meditando no chão, com as pernas cruzadas e rodeado por grimórios empoeirados, fumando um cachimbo enquanto reflete intensamente sobre seus feitiços. De repente, ele se detém, franze a testa, fixa o olhar em um ponto indefinido e começa a dialogar consigo mesmo com um tom de desconfiança.
MAGO — Hummm... Acredito... creio que estou conceberando algo negativo... algo que nem eu mesmo desejo ter conhecimento.
É precisamente esse o pensamento, de forma meticulosa, que caracteriza o esquerdista, meu amigo. É verdadeiramente hilariante, a ponto de provocar lágrimas, mas é a mais genuína e límpida realidade. O indivíduo já percebe que está tendo um pensamento "ruim" em relação às pessoas que estão na rua escura — possivelmente devido ao fato de serem negros, mas ele não se dá conta, apressado pela culpa, de que o verdadeiro gatilho não é a cor de ninguém, e sim a roupa, o capuz, a postura, a hora, o lugar, a soma de sinais de perigo. Ele equipara o alerta verdadeiro a uma transgressão moral e confunde o observador com um preconceituoso interior. É neste ponto que se insere outra de nossas propostas, oriunda do Círculo, para designar a enfermidade com exatidão: eu denomino isso de gnose psíquica — uma suposta sabedoria interna, um conhecimento particular gerado na própria mente, que se coloca acima da dura realidade dos fatos e ordena o silenciamento do testemunho dos sentidos. A gnose psíquica afirma: "não confie no que você vê, confie no que a doutrina te ensinou a ver". É nesse momento que se inicia o teatro mental, a dissonância moral, o conflito interno de uma pessoa debatendo consigo mesma, enquanto os passos se aproximam por trás. Permita-me dramatizar essa disputa que ocorre dentro do crânio:
Calçada sombria, três horas da manhã. O Cidadão ouve o velho vigia acionar o alarme. Há um conflito entre duas vozes em sua mente: uma representa o Instinto, que é antigo, rouco e exausto de sustentar a vida de pessoas ao longo de milênios; a outra é a Ideologia, que é nova, arrogante, usa óculos e está repleta de convicções e citações memorizadas.
INSTINTO — Oi. Presta atenção aqui. Aqueles dois indivíduos atrás de nós, com capuzes, estão muito próximos há três quarteirões, andando no mesmo ritmo que nós. Troca de rua. At this moment. Siga em direção à luz. Tenha fé em mim, pois estou aqui exatamente para isso.
IDEOLOGIA — Tranquilo. Inhale deeply. Veja só o que está passando pela sua cabeça, que absurdo. Você está demonstrando preconceito. Você está avaliando dois indivíduos apenas com base na sua aparência, nas suas vestimentas e na cor da pele. Que ridículo, que constrangedor. Você é superior a isso.
INSTINTO — Mas... mas a minha função é exatamente essa, caramba, te manter vivo até a manhã chegar. Não sou juiz, sou defensor...
IDEOLOGIA — De jeito nenhum. Silêncio, ser primitivo. Tenha fé neles. Se você optar por desviar ou mudar de rota, será considerado um monstro, um reacionário, um fascista. Esforce-se para ser melhor. Demonstrar que você é uma boa pessoa. Está localizada na rua.
CIDADÃO — (deixando os ombros caírem, andando com mais calma, com um sorriso interno, aliviado) É... verdade. Como pude esquecer disso, que cabeça a minha. Vou deixá-los em paz, pobrezinhos. Que constrangimento em relação aos meus pensamentos.
(E o homem vai se virando, calmo, calmo, com a consciência tranquila — enquanto os indivíduos roubam e matam a vítima no meio da rua. Pano ligeiro. Encerramento do ato. A arrogância moral tirou vidas.
Isso é bem parecido com o que ocorreu recentemente em São Paulo, no ano que estou escrevendo, 2023. Puxa vida, cara. O sujeito simplesmente rejeitou a sua própria realidade, ignorou o preconceito legítimo que poderia garantir sua sobrevivência, para se acomodar em um pequeno universo dos ursinhos carinhosos, no extraordinário mundo do Bob que ele edificou, tijolo por tijolo, dentro de sua própria mente. E veja que curioso: esse pequeno universo dos ursinhos carinhosos é, detalhadamente, a segunda realidade mencionada por Voegelin — um mundo fechado, criado internamente, onde o mal não é reconhecido se você não optar por acreditar nele, e onde a fera se transforma em um bichinho de pelúcia ao ser abraçada com fé suficiente. Porque ele tem uma fé ingênua, como a de uma criança que nunca cresceu, que as pessoas são perigosas apenas por causa do seu preconceito, como se o medo que sente gerasse o crime, em vez de reconhecer que a verdadeira ameaça vem da ação do criminoso. Ele acredita, em seu íntimo, que é suficiente pronunciar as palavras encantadas:
O CIDADÃO disse: "Ô, meu amigo, olha, eu confio em você, tá?" Por favor, não me roube. Você é uma pessoa realmente boa, eu tenho certeza disso. Não me trate assim, pois somos irmãos.
(Então, de acordo com o script que se passa em sua mente, o criminoso deixaria a faca cair no chão, desabaria em lágrimas, implorando por perdão enquanto se ajoelhava, e em seguida abriria os braços para um abraço fraterno sob a luz da lua. Vamos direto ao ponto: esse não é o final.
Caramba, meu irmão! Você está completamente fora da realidade ao sugerir que um indivíduo preguiçoso abandonaria tudo para se aproximar de você e chorar em seu ombro, como se isso fosse um desfecho de novela? Você está totalmente fora de si? Você deseja morrer, é isso que você está planejando? É exatamente isso que eu digo, e é isso que me faz ficar extremamente frustrado: as pessoas simplesmente não têm a menor ideia, nem a mais remota noção disso, meu amigo. Especialmente o pessoal de esquerda. Tem a impressão, honestamente, de que há uma falta de solidez, como se alguma ligação crucial não tivesse se completado internamente. Eles não conseguem entender essa questão, essa evidência que uma criança de cinco anos consegue compreender, porque estão excessivamente cegos e obstruídos pela ideologia, com a gnose psíquica sussurrando em seus ouvidos. Portanto, para eles, tudo se transforma em preconceito, quase na acepção racista do termo — no sentido de que a pessoa nutre um ódio por você, considera você a pior das criaturas e deseja o seu mal. De fato, o que realmente está em questão é precisamente o oposto: é você quem inspira medo na outra pessoa. Ela não nutre ódio por você, mas sim medo. E você tem medo porque, na cultura dela, no meio em que vive, nas experiências que teve, aprenderam e mostraram que aquela aparência, aquele conjunto de sinais, indica perigo. Medo não é o mesmo que ódio. O equívoco de misturar os dois é o que resulta em consequências fatais.
É aqui que encontramos a bela saída, a luz radiante, a porta estreita que poucos têm a coragem de cruzar. Quem sabe, apenas quem sabe, se você possuir a verdadeira hombridade — que vai além de um simples orgulho demonstrativo —, e se você for capaz de ser honesto consigo mesmo, mantendo uma honestidade genuína com os outros, além de possuir uma verdadeira humildade, e, mais do que isso, essa rara disposição de se entregar em prol do bem-estar alheio, então, nesse caso, a situação poderá se transformar significativamente. Perceba agora a grandeza oculta, quase clandestina, desse ato tão diminuto: a pessoa que renuncia ao seu estilo favorito está, de fato, se entregando, realizando um sacrifício. Está renunciando a prazeres efêmeros, a preferências pessoais, a uma vaidade legítima, para que o outro não sinta medo dele, não experimente raiva, não o odeie sem motivo. É como se ele estivesse afirmando: "eu estou me sacrificando por você ao não me vestir da forma que eu adoraria de me vestir; eu abro mão do meu gosto pra você poder passar por mim sem susto". Você compreendeu a beleza cristã que está nisso, a caridade que se oculta nessa mensagem? É a renúncia da vontade pessoal em prol do bem-estar do outro, e toda a tradição, desde Agostinho até Tomás de Aquino, reconhece que amar é precisamente isso: desejar o bem do outro a tal ponto que se é capaz de disciplinar e restringir os próprios desejos. O apetite descontrolado — aquele que busca apenas a sua própria satisfação, sem se importar com mais nada — Agostinho se referia como amor distorcido, amor curvado em direção a si mesmo. Podar esse apetite, por consideração ao outro, é um pequeno martírio caseiro, diário, mudo, sem público, sem medalha. No entanto, e aqui reside a tragédia de nossa era, a modernidade se recusa a sacrificar qualquer vontade, nem mesmo a mais insignificante. A modernidade deseja apenas agir conforme suas vontades momentâneas, saciando seus impulsos instantâneos, sem se importar com o que acontece ao redor ou com os receios que o resto do mundo possa ter. É a libido dominandi desenfreada, o insaciável desejo de controlar: eu me imponho, eu não me submeto, o mundo que se molde a mim. Este é, sem dúvida, o mais grave dos problemas, a fonte mais corrupta de toda a situação: a recusa total e orgulhosa de renunciar a qualquer capricho em favor do outro.
Portanto, eu te questiono novamente, de forma direta e sem rodeios, olhando em seus olhos: se você se apresenta com uma vestimenta associada a bandidos, você realmente acredita, de maneira sincera, que as pessoas não irão te perceber como um bandido? Você realmente acredita que, se estiver vestido como um bandido, ao passar em frente a uma viatura da PM, o policial irá pensar "que rapaz cordial e confiável"? Ou ele vai suspeitar imediatamente, tanto por sua função quanto por instinto, de que você é um criminoso, que está transportando drogas no bolso e que representa um problema? Cara, você precisa compreender de uma vez por todas que o mundo opera com base na estética e na interpretação rápida de sinais. Opera com base na estética, assim como todo o reino animal se orienta por essa mesma estética, por meio de sinais e reações. E você, por mais que isso possa ferir profundamente o seu orgulho de se considerar especial, é, afinal, um animal. O ser humano é um ser racional, sim, graças a isso, é a coroa da criação; mas atente para a palavra que resta após o adjetivo: ser. Você ainda é um verdadeiro fenômeno nas categorias de base. Dentro de você, há instintos naturais que habitam seu corpo, e sua única razão de ser, seu único propósito, é preservar sua vida. E caso você não possuísse esses instintos, se os eliminasse, você morreria rapidamente. É de uma simplicidade brutal. É por essa razão, e apenas por ela, que o instinto do medo está profundamente enraizado em você. Se você não sentir medo, a morte é certa. Não existe uma nuance poética ou uma exceção iluminada. É importante recordar o pensamento de Tomás de Aquino, que ensinava que a lei natural se fundamenta, acima de tudo, naquela inclinação primordial e sagrada que temos em comum com todos os seres vivos: a tendência de conservar a própria existência e de proteger a própria vida. O receio que te leva a alterar o caminho que percorres não é uma falha a ser ajustada pela ideologia; ele representa a lei natural agindo da maneira que se espera, o próprio ser empenhando-se na sua luta para permanecer como é. Desligar isso não significa progredir eticamente — é transgredir a ordem natural das coisas, é desprezar o presente da vida.
O que a esquerda está realmente tentando fazer é, em essência, combater a própria realidade da condição humana. Brigar com a própria alma, tirar dela à força os instrumentos que a Providência — ou a natureza, conforme você preferir chamar segundo a sua crença — colocou ali com tanto critério para nos resguardar. É por isso que eu afirmo, e mantenho, que todo esquerdista, em sua essência mais profunda, anseia por uma espécie de emanação: um novo mundo, perfeito, que ele mesmo irá criar, gerar, fazer surgir a partir das próprias forças, das forças puramente humanas que derivam de seu movimento, sem a necessidade de Deus, sem fronteiras, sem uma realidade estabelecida que se atreva a contradizê-lo. E também aqui surge mais um conceito nosso, oriundo do Círculo de Estudos Nous, que serve para completar essa imagem: eu denomino esse impulso de demiurgo sintético — o ser humano que se autoatribui a função de um pequeno deus criador, que rejeita a realidade tal como ela se apresenta e decide sintetizar, criar em um laboratório mental, uma realidade alternativa e submissa, moldada de acordo com os próprios desejos. O gêmeo idêntico dessa figura é o determinismo sintético: a ideia de que, ao criar o ambiente ideal, o novo homem surgirá de forma automática, assim como uma planta cultivada em estufa. Todos os pontos que destaquei ao longo do texto servem como evidência, assinatura e marca registrada disso. Não é uma opinião pessoal, eu não estou apenas supontando: eu acabei de mostrar a vocês, de forma detalhada e metódica, toda a lógica envolvida. Eles desejam mudar a sua própria realidade para criar um mundo ideal. É a marca gnóstica brilhante que se revela em tudo que eles manipulam. Eu experimentei isso aqui para vocês.
Não adianta tentar encurtar o caminho, pular etapas ou buscar uma rota mais rápida. Apenas nesse aspecto — na reintegração sincera, na renúncia madura da vaidade, na aceitação da metaxia, na tensão de existir no mundo real e imperfeito — é onde você encontrará uma verdadeira paz. Antes disso, você não conseguirá, não importa o que faça ou quanto grite. E se você insistir em eliminar de sua essência o medo humano, esse antigo guarda-costas, você estará se colocando em risco de morte, pois acabará cometendo um erro fatal que resultará em sua morte. Assim de maneira simples, assim de forma crua. É semelhante a — e posso afirmar que meus exemplos são totalmente aleatórios, eu admito, surgem do nada, mas acabam sendo extremamente eficazes para ilustrar — é semelhante àquele indivíduo que se encontra no meio da savana africana. Visualize um jornalista situado em uma pequena gaiola, uma jaula de proteção feita de aço, capturando imagens dos leões de perto, com a lente da câmera quase tocando a juba. Acontece que esse jornalista, em um momento de surto de coerência ideológica, concluiu que o medo que sente em relação aos leões é, na verdade, preconceito, é "leãofobia", é uma opressão da espécie humana sobre a felina, sei lá que baboseira. Portanto, para ser fiel à sua própria doutrina, ele abre a porta da jaula e caminha para fora, com o peito aberto e um sorriso no rosto, em nome da igualdade fraterna entre todas as espécies do reino animal. E eu te questiono, com a consciência pesada: você realmente acredita que esse leão não irá matá-lo? Um leão esfomeado, com o estômago roncando, vendo a presa à sua frente de forma tão conveniente — você realmente acredita, em seu juízo sensato, que ele não vai atacar e devorar o infeliz? É só você se questionar isso com um pouco de sinceridade para perceber, de uma vez por todas, que o instinto de medo não é o seu adversário a ser superado. Ele é o seu último e mais leal protetor, e a ideologia que está ordenando sua demissão está, de fato, permitindo que você parta deste mundo com a consciência tranquila.
Agora, permitam-me concluir de maneira adequada o tema do racismo, pois eu o iniciei intencionalmente no início e não gosto de deixar questões pendentes em meus escritos. Quando alguém nutre um ódio imenso e desmedido em relação a outra pessoa, começando a identificar padrões em toda parte — algo que uma pessoa saudável e completa não faz em relação a estranhos ou mesmo a pessoas do seu convívio cotidiano —, essa pessoa passa a associar características desses padrões a indivíduos correspondentes, muitas vezes pessoas muito próximas, e esse ódio, exacerbado pela ruminação, se intensifica de tal forma que se transforma em uma estética, uma lente permanente fixada em ambos os olhos. É precisamente desse caldeirão que emerge o verdadeiro racista. Por exemplo, ele foi vítima de um assalto brutal; teve, por assim dizer, familiares mortos por pessoas negras; enfrentou situações terríveis envolvendo pessoas negras — ocasionalmente, e isso é fundamental mencionar, como resultado direto de viver em uma área problemática, em um ambiente de pobreza e violência onde a criminalidade possui uma identidade definida. Ou talvez ele tenha passado toda a sua vida rodeado apenas por pessoas más, indivíduos com uma moralidade podre, tudo ao seu redor completamente corrompido, incluindo, em alguns casos, membros de sua própria família biológica — porém, devido ao acaso da geografia e da sua história pessoal, essas pessoas eram negras. Este é o cerne da questão, a distinção que separa a crítica da difamação: afirmar que todos os negros são maus, ou mesmo insinuar isso, seria uma tolice colossal, muito longe da verdade. É apenas que, dentro daquele microcosmos particular da existência daquele indivíduo, naquele pequeno pedaço de mundo que lhe foi destinado, as pessoas passaram por uma criação terrível e se tornaram más — e, por coincidência, possuíam aquela cor. No entanto, ele amplia suas conclusões, passando do microcosmo para o universo como um todo, uma vez que a mente humana opera por meio de associações. Essa associação age como uma faca cega, cortando de ambos os lados sem fazer perguntas. É precisamente dessa associação tóxica, dessa mágoa convertida em perspectiva, que surge a aversão a uma cultura, a um grupo, a uma cor — mesmo que se trate da mesma convivência, da mesma vizinhança que ele frequenta. Isso é tudo. Lamentavelmente, de maneira triste, é essa a realidade.
Vamos agora considerar um exemplo da vida real, algo tangível e palpável, pois a teoria sempre precisa de uma representação concreta. Eu tinha um amigo assim, faz uns seis anos, em 2019. Ele fazia parte do nosso círculo de amigos e estava na mesma turma. Esse indivíduo tinha uma obsessão, quase como um projeto de vida, em se vestir e em ser tudo aquilo que a cidade mais desprezava. Ele rejeitava tudo de uma vez: a cidade como um centro cultural, e a cultura em sua totalidade, assim como a moral e os costumes, tudo isso. Ele era o verdadeiro representante do rock, com um estilo punk ao extremo, a personificação ambulante do contraste absoluto. E ele era, na realidade cotidiana, o tipo de pessoa que só enfrentava dificuldades na vida, acumulando fracassos. Porque todo mundo o via de uma forma ruim, com desconfiança, e essa forma ruim ia moldando, dia após dia, o destino real dele, fechando portas antes que ele batesse. E aí chegou uma hora, um ponto de não-retorno, em que ele tomou uma decisão trágica, daquelas que definem uma biografia: já que me veem como mau de qualquer jeito, já que estou condenado de saída, então vou ser mau de verdade, vou abraçar a sentença. E aí, o que ele fez? Deixa eu abrir a cabeça dele em forma de monólogo diante do espelho, porque é assim, no escuro e sozinho, que a ruína se decide por dentro:
Quarto bagunçado, luz baixa e amarelada, o Amigo de pé diante do espelho rachado, olhos fundos e vermelhos. Ele acabou de decidir a própria destruição e está chamando isso de liberdade, de coragem, de autenticidade.
AMIGO — Todo mundo já me detesta, não é? Todos já me consideram o pior, o inútil, o desorientado. Então que se dane, que se dane todo mundo. Se é para assumir o papel de vilão, serei o vilão por completo, com todas as letras, sem poupar nada. Por que eu deveria agir de maneira moral e me conter, se o mundo ao meu redor já se opõe a mim dia e noite? Para que serve isso? Para quem?
Ele começou a sair com muitas mulheres, de todos os tipos, sem qualquer restrição. E é nesse ponto que a psicologia revela, sem qualquer restrição ou timidez, que as mulheres, de fato, possuem um certo fascínio pelo homem que desafia as normas, pelo transgressor, pelo fora-da-lei. Ela sente uma atração por ele que, em certos momentos, sua razão não consegue aprovar, uma vez que o contraventor demonstra possuir poder — o poder de desafiar, o poder de não ter medo, o poder de realizar ações que os outros não se atrevem a fazer. Poder, em essência, é dinheiro. No nível mais instintivo, primitivo e visceral, a mulher se sente muito mais atraída sexualmente pelo poder e pela ousadia do que por qualquer outra característica mais suave. Essa é uma questão profunda relacionada à evolução, e a psicologia evolutiva aborda isso de maneira excelente em diversas linhas de pesquisa que convergem: mostrar ousadia, demonstrar controle e estar disposto a correr riscos serve como um sinal valioso de competência, uma manifestação de vitalidade. Então, esse meu amigo começou a conquistar mulheres de forma incessante, inclusive aquelas que eram casadas, o que gerou muitas confusões. Ele passou a sair e a se envolver em diversas situações problemáticas em grande escala e, se não me engano, chegou a se envolver com tráfico de drogas. O homem havia perdido completamente a razão, chegando ao fundo do poço. Ele era nosso amigo, gente boa na origem, mas, pela própria condição de rejeitado crônico, ele bateu o martelo do "foda-se" e mergulhou de cabeça no poço. E a vida dele já vinha ruim de fábrica, por questão de família, por aquele mesmo roteiro da criação que eu descrevi lá no comecinho do texto — a repressão sem porquê, a injustiça, o caldo de sentimento ruim entalado. E aí ele pegou toda essa vida já ruim e coroou, deu o golpe final, com um "quer saber, que EU me foda então" jogado com raiva em cima da própria existência. E se fudeu mesmo, cumpriu a própria maldição. Não teve nenhum momento realmente bom na vida depois disso, nenhum. Até hoje a vida dele é horrível, e é horrível exatamente por causa dessa escolha feita no escuro. Ele foi por uma linha inteiramente ruim, guiado por aquela lógica venenosa e circular: se eu já sou visto como vilão, se todo mundo me enxerga de um jeito horrível porque eu sou vilão, então vai chegar a hora, inevitável, em que eu vou me tornar exatamente aquilo que dizem que eu sou. Ódio de todo mundo, e a profecia se cumprindo ponto por ponto, feito uma sentença que se executa a si mesma. É realmente isso, é assim que funciona. E esse amigo meu, depois de se fuder tanto, de queimar tudo, sumiu do nosso radar de vez — a gente perdeu completamente o contato com ele. Ficou pra trás, na estrada, engolido pela própria estética que ele escolheu vestir como destino.
E agora deixa eu voltar de vez pra figura do meu pai, porque a sabedoria antiga dele costura esse ensaio inteiro por baixo, feito linha de bainha. Meu pai sempre me alertou sobre uma coisa muito específica, e ele tinha até um nome próprio, cunhado por ele, pra ela. Permita-me dramatizar o conselho, pois ele não se expressava de qualquer forma; suas palavras eram carregadas, ditas com a seriedade de alguém que testemunhou muitas pessoas boas afundarem em águas rasas:
Varanda da residência, final de tarde com tons alaranjados, o café esfria sobre a mesa. Meu pai, com os braços cruzados e um olhar experiente, como se conhecesse as pessoas há muitas décadas, sem se apressar. Eu, jovem, escutando com uma combinação teimosa de teimosia e admiração.
Pai — Filho, preste atenção no que tenho a lhe dizer e cuide-se bem. Se você começar a sair com uma garota que é bastante rebelde, ela vai acender os faróis altos. Afirmei que ela é uma contraventora porque, de fato, representa uma ameaça à cultura da cidade. Pela cultura local, para esse povo, ela é semelhante à Argentina para nós, capta a comparação? É o adversário, é o visitante, é a equipe que compete contra o time da casa por definição.
PAI — Agora, observe as diferenças, pois nem toda contraventora é igual, e eu não quero que você cometa nenhuma injustiça. Se a pessoa vem de outro lugar, é normal que ela traga sua própria cultura. Se ela preferir ficar mais reservada em casa, sem confrontar, tudo bem também. Se alguém passou mais de sete anos insistindo em um determinado comportamento, é hora de ficar em alerta máximo. Então, você tem uma verdadeira contraventora cultural, solidificada.
PAI — E gente contraventora, meu filho, guarda isso, tende a crescer pra cima de todo mundo. "Crescer", no nosso jeito de falar, é se colocar como o bonzão na frente dos outros, é peitar por esporte, é dizer que nada nunca vai acontecer, que ela pode tudo. É a pessoa inconsequente, pra resumir numa palavra só e certeira: inconsequente. Ela adora bater de frente com tudo, com todos, inclusive com a cultura inteira, só pelo prazer de bater. E gente assim, escuta bem, costuma ser péssima na questão de cônjuge, um veneno dentro de casa. Guarda o que eu tô te dizendo, que um dia você lembra.
GABRIEL — Tá bom, pai. Olha, eu não vou testar isso na minha própria pele, não vou virar cobaia. Mas eu vou começar a observar a sociedade, a olhar as pessoas, e ver se o que o senhor diz bate com a realidade.
PAI — Pode observar, filho. Pode observar bem, com calma. Você verá que o que estou lhe dizendo realmente funciona. É só olhar.
E o pulo do gato do raciocínio do meu pai está numa observação muito fina, quase cirúrgica, então repara: ele distinguia, com clareza, a mulher que apenas é de outra cultura — inofensiva, acomodável — da mulher que guerreia ativamente contra a cultura local, que faz da guerra um estilo de vida. A primeira você acomoda, você integra, você ama em paz. A segunda te destrói por dentro, corrói a casa, porque a guerra dela contra tudo vai sobrar pra você também, mais dia menos dia. E ele estabelecia um marco temporal preciso, quase um critério clínico — mais de sete, oito, nove anos naquela postura de guerra sem que ninguém jamais tivesse metido o bico, sem que ninguém tivesse imposto um limite, um freio, um "para". Porque quando ninguém contém um traço por tempo demais, o traço deixa de ser fase e vira caráter cristalizado, endurecido, permanente. E eu comecei a analisar, exatamente como eu prometi a ele naquela varanda. E, cara, batia. Batia de um jeito assustador, quase constrangedor de tão certeiro. Toda menina que tinha se mudado e fazia oito, nove anos que se vestia daquele jeito, que queria ser daquele jeito com unhas e dentes, e que nunca tinha tido ninguém pra colocar um freio na vida — era geralmente aquela menina muito turrona, casca-grossa, péssima em relacionamento, que traía todo mundo sem remorso, que tratava o marido ou o namorado de uma forma horrível, humilhante. E por quê? Porque era, na essência, uma contraventora cultural: odiava a cultura do local com todas as forças, odiava tudo em volta, e queria de todo jeito, com desespero, pertencer à cultura completamente alternativa, à tribo do contra. E eu repito o aviso, com todas as letras, porque ele é absolutamente vital e eu não quero ser mal interpretado: eu não estou dizendo que todo o pessoal alternativo é assim, que todo mundo de cabelo colorido é um monstro conjugal. Bem distante disso. Estou me referindo a um tipo muito específico, o contraventor cultural crônico, que é meticulosamente definido e que se distingue claramente do alternativo comum, daquele indivíduo que apenas aprecia rock, que tem uma predileção pelo preto e que, por sua vez, é uma pessoa amável. Não confunda os dois, por favor, não misture as cartas.
E o que resta, ao final da trajetória, para essa imagem da contraventora habitual? Todas as pessoas começam a sentir aversão por ela, a nutrir raiva acumulada, a evitá-la e ninguém está interessado em estabelecer um relacionamento sério com ela — no máximo, uma aventura devido àquela obsessão pelo poder que eu já mencionei. Ao perceber essas pessoas e notar como esse padrão se repetia como um refrão, eu decidi, de forma consciente, não entrar em um relacionamento com aquela menina em particular. E, então, ao examinar minuciosamente a vida dela como um todo, eu pude constatar tudo: a existência dela era péssima, terrível, um verdadeiro deserto. E é aqui que as peças do enigma finalmente se conectam com um estalo, pois não se tratavam de duas garotas distintas, mas sim da mesma, exatamente a mesma. Meu pai mencionou ela para mim há muito tempo, quando eu tinha dezesseis anos — naquela primeira narrativa, o corte do "veio o passado dela". Mais tarde, anos depois, já adulto, a reencontrrei na universidade. Naquela época, ela tinha vinte e dois anos e há nove anos completos se vestia e se comportava dessa maneira, sem nunca ter alterado nada. Foi na universidade que ela me fez o convite para namorar novamente — a segunda vez, observe. Eu a observei, analisei toda a trajetória daquela vida que se desenrolava diante de mim, e refleti, com uma combinação de compaixão e convicção: realmente, essa menina leva uma vida miserável, é terrível a sua existência, e isso não se deve apenas ao azar. Havia uma única razão, clara como água: transgressão cultural. Opôr-se a todos incessantemente, e, simultaneamente, de maneira paradoxal, demandar que todos a aceitem, a recebam e a amem. Sinto muito, mas o mundo não opera dessa maneira, e essa conta não se soma.
E aqui está a mensagem que atinge com precisão o coração de toda a juventude, então segure com firmeza, pois é fundamental: ninguém é obrigado a te aceitar. Ninguém é obrigado a fazer o que você deseja. Ninguém, simplesmente isso. Ninguém tem obrigação de te dar nada. É precisamente isso que a juventude atual não consegue tolerar, algo que os impede de seguir em frente. Ninguém tem a obrigação de te ajudar. Apenas os seus pais têm a obrigação de lhe dever algo, e isso se refere unicamente à sua educação e desenvolvimento. Após terem te criado, moldado e colocado em pé, especialmente depois dos seus vinte anos, você se encontra por conta própria, sozinho em um mundo que não oferece nenhuma rede de segurança sob o trapézio. Você pode até precisar do suporte financeiro deles por um período, mas isso é um assunto totalmente distinto, não se confunda; no que se refere à educação, ao caráter, à gestão da própria vida e às próprias decisões — criou, criou, encerrou o contrato, pagou a dívida. A partir daí, será você quem fará suas próprias besteiras no mundo, e será também você quem terá que aprender, na prática e na dificuldade, como lidar com elas e assumir as consequências. Portanto, ninguém é obrigado a te dar nada. Apenas os seus pais, e somente até mais ou menos os seus vinte anos. Isso é tudo, nada mais. No máximo... — e permitam-me corrigir-me publicamente diante de vocês agora, pois estou ciente de que haverá algum apressado de plantão que tentará me pegar nesta falha: não estou me referindo a questões financeiras, seu imbecil. Não é grana, não é dinheiro que eu estou discutindo aqui. Eu estou falando de uma questão de vida, de existência, de responsabilidade moral pela própria caminhada. Ninguém te deve nada nesse sentido mais fundo, mais grave.
E o maior problema de todos, veja bem, é da pessoa de quarta camada — e aqui eu uso, com o devido crédito, aquela ideia das camadas da personalidade, das camadas que o Olavo de Carvalho trabalhava e desdobrava lá no Curso Online de Filosofia. Da quarta até a sexta camada, digamos, embora na sexta isso já apareça bem menos, mais diluído; e quando aparece na sexta, geralmente é resíduo, é entulho que ainda vazou lá da quarta e não foi limpo. Mas a pessoa de quarta e de quinta camada são as campeãs absolutas nessa doença específica da alma: achar, no fundo, que os outros lhe devem alguma coisa, que o mundo tem uma dívida pendente com ela. Pô, ninguém te deve nada, cara, essa é a verdade nua. Ninguém te deve nem respeito, presta muita atenção nisso porque é forte. Nem respeito. Se a pessoa não te conhece de nada, se ela não gosta de você por qualquer razão, por que cargas d'água ela te deveria respeito espontâneo, afetivo? Ela te deve respeito diante da lei, no plano jurídico, nas garantias formais que a lei estabelece igualmente pra todo cidadão — isso sim, isso é sagrado e é devido. Mas saindo disso, meu irmão, saindo do terreno da lei, se ela simplesmente não gosta de você, não há dívida nenhuma pendente. O respeito natural, a afeição e a disposição amigável — isso se ganha com o convívio, não se exige de forma impositiva como se fosse o pagamento de uma fatura.
Portanto, essa é a lição mais importante de todo o ensaio, o elemento fundamental que sustenta tudo: ninguém é obrigado a te aceitar. Ao contrário, a responsabilidade se inverte: é você quem deve fazer um pequeno esforço, um gesto mínimo de boa vontade, para ser aceito na sociedade em que decidiu viver. Se você não se dedicar minimamente e optar por ficar de braços cruzados, esperando uma aceitação total e sem condições, isso certamente irá te prejudicar de maneira significativa quando se tratar de encontrar alguém para amar, estabelecer conversas com outras pessoas, formar amizades e em diversas outras situações — e, acima de tudo, especialmente na crucial questão de conseguir um emprego. Aí se torna um grande empecilho, complicando sua vida por completo e fechando uma porta após a outra. "Ah, mas eu quero continuar com o meu visual alternativo maluco trabalhando num banco." Ah, meu amigo, você nunca vai conseguir isso, lamento. Esqueça a ideia de trabalhar em um banco, portanto, pode tirar esse sonho da sua mente. Não se trata de uma simples aversão da minha parte: os próprios bancos afirmam isso de maneira clara e evidente, eles estão plenamente cientes dessa informação, que é facilmente acessível em seus manuais. A pessoa que está em contato com o público precisa ter uma aparência que seja aceitável, agradável e atraente, um visual que foi cuidadosamente planejado para atrair o maior número de pessoas possível, sem afastar ninguém. Essa aparência não pode fazer com que o cliente olhe para o funcionário e sinta aquele impulso instintivo de recuar, aquele preconceito — preconceito entendido exatamente como eu expliquei anteriormente, referindo-me à percepção rápida, ao alarme, e não ao ódio. Por que, diabos, tudo precisa ser tão metódico? Porque todos os animais se comportam dessa maneira, e já concordamos que você é um deles.
Se você ainda acredita, neste ponto, que estou exagerando ao falar sobre instinto e cor, permita-me apresentar a evidência mais simples, mais familiar e, admito, a mais divertida que eu possuo. Possuo uma camiseta amarela. Em minha residência, tenho uma pomba doméstica, na verdade, uma pombinha que é um verdadeiro animal de estimação, que cuido desde que era muito jovem, ainda filhote. Essa pomba já vive comigo há cerca de seis anos, conhece-me intimamente, reconhece minha voz, meu odor e meu jeito de ser. Então, o teste: se eu me aproximo dela usando aquela camiseta amarela chamativa, ela imediatamente fica irritada comigo. Ela começa a me morder, bicando-me com intensidade, ficando inquieta, desconfiada, irritada, como se eu fosse um intruso ameaçador. No entanto, se me aproximo dela sem camiseta, com o tronco exposto, ou usando cores mais escuras e sóbrias, ela se mostra bem à vontade, calma e tranquila, e vem repousar no meu ombro. Somente as cores extremamente claras e chamativas, aquelas que são excessivamente vibrantes e não naturais, são capazes de despertar nela uma sensação de raiva e a reação de bicada defensiva. Mas por qual motivo? Por que essa resposta tão particular a uma cor? Uma cor artificial, intensa e saturada, é uma tonalidade que raramente aparece na natureza de maneira inofensiva e sem custo. Naquela paleta de cores berrantes e ostentosas, o que se encontra na natureza são predadores que exibem sinais de advertência sobre o perigo, ou criaturas venenosas que proclamam, de forma bem evidente, a presença de seu veneno para afastar os curiosos — o aposematismo, o sinal de "não me toque, eu mato". O cérebro primitivo da pomba, que herdou milhões de anos de evolução, interpreta aquela cor como uma ameaça absoluta e reage instintivamente, sem refletir. Além da pomba, é importante destacar que o próprio estudo sobre a percepção das cores revela que elas estão carregadas de associações emocionais profundas, que estão ligadas ao contexto, ao ambiente e à sobrevivência. É exatamente isso, meu amigo: as pessoas não se dedicam nem mesmo ao estudo mais básico da psicologia evolutiva; elas não percebem que carregam em seus próprios corpos um antigo sistema de alarme, herdado de milhões de anos de antepassados que conseguiram sobreviver precisamente por serem cautelosos a tempo — e é por essa falta de conhecimento sobre o próprio corpo que enfrentam dificuldades na vida, constantemente caindo em armadilhas instintivas que nem sabem que possuem.
E agora, para completar o círculo de uma vez por todas, eu vou explicar finalmente a razão pela qual eu denominei esse fenômeno com esse nome peculiar, a história do Leno Brega — pois esse nome não foi escolhido à toa, ele resume toda a questão em uma piada acertada. Leno Brega é o tipo de pessoa que só se mete em confusões no mundo da música, para resumir, é a imagem do total descompromisso. É fundamental que eu seja claro e honesto para evitar injustamente difamar alguém: não é o próprio Leno Brega, a pessoa real, que faz isso; é alguém que pegou o nome "Leno Brega" e fez uma música baseada no personagem, provavelmente pra zoar, pra tirar sarro do sujeito. Qual é a temática da música e o que ela representa? Em essência, ela retrata um indivíduo que é extremamente criminoso. Enormemente, no caule, no limite. Ele não se importa nem um pouco com nada, com todas as regras, com toda a moral e com o julgamento dos outros — e você sente isso em toda a letra, em cada verso: é o "foda-se" existencial transformado em hino, em bandeira cantada. E isso se tornou uma sensação entre os jovens da cidade. Mas por que se tornou tão popular, por que chamou tanto a atenção? Porque é extremamente absurdo. Ele é um indivíduo que encarna a transgressão moral de maneira absoluta, levada ao extremo do caricato, e essa transgressão em sua totalidade, quando exagerada ao máximo, deixa de causar medo e se torna risível, cômica, uma verdadeira palhaçada prazerosa. Permita-me apresentar o teste final, absoluto, do senso de humor desta situação: a experiência mais hilária que se pode vivenciar neste mundo é colocar uma dessas músicas para tocar em volume máximo durante uma reunião de família tradicional. Caramba, meu amigo, você vai dar muitas risadas apenas com a reação das outras pessoas, com as expressões de surpresa, com o vô se engasgando e com a tia se benzer. Você vai rir tanto que vai sentir dor na barriga. Porque é algo tão absurdamente patético, tão fora de contexto, que o evidente contraste provoca risadas em todos — e, quando não provoca risadas, gera raiva e indignação, o que torna a situação ainda mais engraçada de se observar. É esse contraste entre o riso e a raiva, esse movimento de vai e vem, que realmente captura a essência do que estamos discutindo. E é por causa disso, devido a essa imagem impecável do contraventor absoluto que se tornou uma piada nacional, que eu nomeei todo esse fenômeno, essa máquina completa da alma, de efeito Leno Brega. O nome provoca risos; no entanto, o que ele retrata, em essência, é motivo para lágrimas.
Para concluir, deixo aqui o aviso que serve como um selo, que fecha o cofre, pois sem ele, posso garantir que alguém interpretará minhas palavras de maneira errada e irá apressadamente para o Instagram. Então, para ficar bem claro e ser ouvido de longe: não é qualquer lugar, compreendeu? Não se aplica a todas as cidades, nem a todas as culturas, e definitivamente não é uma regra geral. Não é verdade que toda estética contracultural tenha pessoas consideradas "doidas" em seu interior; na verdade, é geralmente o oposto. Como eu tenho insistido ao longo de todo o ensaio, desde o início até o final, isso é extremamente regional, tratando-se de uma questão cultural que varia de lugar para lugar, onde cada praça possui seu próprio tribunal particular e seu júri específico. Portanto, não, não confunda as situações, não atrapalhe os planos. A estética comunica, com certeza; a cultura emite juízos, certamente; o instinto oferece proteção, sim, e age corretamente ao fazê-lo. No entanto, o mapa jamais é o mesmo que o território, e este último se transforma a cada esquina, de uma cidade para outra, de uma cultura a outra. Quem leva o meu ponto de vista e o expande para além da sua própria cidade, para fora do seu contexto específico, já comprometeu a validade do seu próprio argumento no momento em que o faz — e se transforma, sem sequer perceber a ironia da situação, em mais um transgressor da verdade, em mais uma pessoa que se engaja em uma batalha contra a realidade. O real, tal como um leão faminto na savana, não demonstra clemência àqueles que abrem a porta de sua jaula, acreditando que uma boa intenção é suficiente para evitar sua fúria.
Eu poderia concluir com a imagem do leão e da jaula, e isso seria algo bonito. Seria, no entanto, uma covardia intelectual, pois há uma camada ainda mais profunda do que essa relacionada à cultura local — uma camada que não se altera de esquina em esquina, que não se resume a uma comparação entre Primavera e Cuiabá, e que não depende de nenhum tribunal de uma cidadezinha. Uma camada que se encontra abaixo de todas as demais, profundamente enraizada na essência de cada indivíduo, em qualquer parte do mundo, e que, devido a isso, torna-se ainda menos passível de negociação e ainda mais rigorosa. Esta camada é a da estética. É aqui que eu quero integrar tudo isso ao mesmo pensamento, pois se trata da progressão lógica e da base subjacente de tudo o que venho articulando. Se a estética é uma linguagem, então a beleza é a gramática arcaica dessa linguagem, aquela que ninguém teve a oportunidade de aprender formalmente, mas que, ainda assim, todos falam com fluência desde o nascimento.
O primeiro aspecto que desejo enfatizar é a valorização excessiva, quase reverente, que a nossa sociedade atribui à beleza. Eu também reconheço que ela é exagerada, mas vou demonstrar que esse exagero não é sem fundamento, pois possui uma causa profunda. Vamos começar com o exemplo mais evidente e comum, que está bem diante dos olhos de todos: a maquiagem. Olha, se você realmente prestar atenção, vai perceber o quanto as mulheres se maquiam atualmente e, assim, você começa a notar algo que pode te deixar inquieto — o rosto delas não é aquele, meu irmão, não é aquele quando elas acordam. Não chega a ser 50% do que é. Quando elas despertam, é um pouco, bem menos. Elas realmente alteram tanto a aparência que, ao vê-las de manhã logo após acordarem, parecem ser outra pessoa, já que a maquiagem ficou toda no travesseiro. Você observa aquele rosto e percebe que é uma pessoa totalmente distinta da que repousou ao seu lado na noite anterior. Você vai olhar e vai concluir: impressionante. É realmente nesse patamar, sem exagerar.
A ciência, de maneira curiosa, confirma a intuição popular, e faz isso de uma forma que complementa tudo o que venho discutindo sobre a estética como um sinal. Há uma pesquisa respeitável, conduzida por profissionais competentes, realizada por Nancy Etcoff e sua equipe, que considera a maquiagem como aquilo que eles chamam de "fenótipo estendido" — ou seja, a maquiagem é uma extensão artificial do próprio corpo, uma casca a mais colada por cima da casca natural. E o que esse estudo mostra? A maquiagem age como um "estímulo supranormal", ou seja, funciona como um sinal potencializado, exagerando além do que a natureza faria, intensificando os traços que diferenciam os sexos, com a intenção de provocar uma resposta de atração no cérebro de quem observa. Preste atenção na beleza da relação com tudo que mencionei anteriormente sobre a pomba, o aposematismo e as cores de sinal: este mesmo estudo observa que os animais frequentemente modificam seus próprios traços visuais e alteram as cores para atrair, intimidar ou se proteger. A maquiagem é, essencialmente, isso, mas aplicada com pincéis e pós em tempo real, ao invés de levar milhões de anos de evolução para alterar a plumagem. A mulher que se produz está, com seu rosto, realizando o mesmo ato que o pavão executa com sua cauda e que o animal venenoso faz ao exibir suas cores vibrantes: enviando um sinal valioso, ostensivo e cuidadosamente elaborado para provocar uma reação no cérebro dos outros.
Contudo, é aqui que reside o cerne da questão, o dilema ético e trágico em questão, e é neste ponto que a beleza se entrelaça com a falsidade. Os indicadores de verdade, os genuínos, aqueles que a biologia reconhece — como a simetria facial, a saúde da pele, a juventude e a proporção — são, por sua vez, caros precisamente por serem difíceis de falsificar. Saúde verdadeira não é algo que se cria da noite para o dia. A maquiagem engana o sinal. Ela estabelece a ilusão de um sinal verdadeiro, mas sem os custos associados a esse sinal legítimo. É como uma nota de dinheiro falsificada com impressão impecável: o cérebro aceita a cédula, mas o cofre não possui ouro. Portanto, o que a maquiagem transmite ao cérebro masculino é uma falsidade bem elaborada, e o cérebro, infelizmente, é facilmente enganado por essa ilusão, pois foi projetado para confiar nesse sinal. É por isso que afirmo: você pode pensar que está se relacionando com uma pessoa, mas, na realidade, muitas vezes, você está se envolvendo com um sinal. O sinal vem no travesseiro.
Vou compartilhar meu próprio exemplo, pois não aprecio teorizar sem arriscar algo pessoal. Uma vez, tive uma namorada — e esta é a segunda pessoa com quem tive um relacionamento em minha vida — que era realmente muito bonita, mesmo sem usar maquiagem, com o rosto limpo. Isso é relevante, mantenha isso em mente, pois altera o significado da narrativa. Ela já era bela ao natural. Mas ela se maquilava tanto e aplicava tantos artifícios, que acabava ficando irreconhecível. É claro que ela se tornava ainda mais bela — pois já era extremamente bonita —, mas, de fato, ficava completamente diferente, você compreende? Parecia que você tinha avistado alguém pela manhã, uma pessoa de verdade, e essa pessoa havia se transformado em outra totalmente diferente após se maquiar. Eu realmente apreciava? Certamente que eu apreciava, pois ela se tornava deslumbrante. Entretanto, você começa a perceber, com uma sensação de apreensão, que no cotidiano a pessoa nem sempre se comportará daquela forma. Ela pode sair com você e você pensar "porra, que garota bonita, que coisa mais linda" — mas, como eu falo, ali ela está cobrindo uns 80% da cara com aquilo. É uma mudança drástica. É só assistir a vídeos de japonesas se maquiando para entender o nível: elas aplicam uma espécie de camada grossa no rosto, uma cobertura que define todas as expressões, a ponto de não ser possível perceber a verdadeira expressão facial que está por baixo. Quando ela remove isso, ela se transforma em uma pessoa totalmente diferente, e, em alguns casos, pode parecer até noventa por cento mais bonita com a maquiagem do que sem — algo que parecia impossível, um artifício tão elaborado que se camufla como algo genuíno. O sujeito acredita que está namorando uma pessoa, mas, ao despertar no dia seguinte, se dá conta de que está com outra, frequentemente sem sentir qualquer tipo de atração.
Então você começa a imaginar as consequências sombrias disso, no pior dos cenários, e é nesse ponto que a comédia da vaidade se transforma em uma tragédia real. Imagine — e eu solicito que você faça isso, pois se trata de uma suposição, um exemplo extremo, e não uma acusação a ninguém — visualize um indivíduo mais excêntrico, ou extremamente emotivo, que age por impulso e acaba tendo um envolvimento momentâneo com uma jovem como essa, resultando em uma gravidez. E então, ao perceber que a garota, sem toda aquela maquiagem, é uma pessoa totalmente distinta, ele não sente mais nenhum tipo de atração ao acordar no dia seguinte ao seu lado. Agora ele terá que viver, pelo resto de seus dias, ao lado daquela mulher cuja aparência não o atrai. Permita-me representar o momento do despertar, pois essa cena silenciosa é mais valiosa do que mil teorias:
Quarto na manhã seguinte, uma luz cinza filtrando pela fenda da cortina. O homem desperta, ainda sonolento, e inclina o rosto em direção ao travesseiro ao seu lado. Em vez de encontrar novamente a mulher deslumbrante da noite anterior, ele se depara com um rosto limpo, autêntico e sem adornos. Ele permanece em silêncio. Seu rosto expressa tudo.
MASCULINO — (interiormente, com o estômago contraído) Quem... quem é você? De maneira alguma. Tranquilo. É ela mesma. É igual. No entanto, não é. Oh meu Deus, o que eu fiz.
Nesta cena, não há antagonista. A mulher não agiu de forma maliciosa ao mentir; ela apenas se expressou da maneira que o mundo a ensinou a fazer. No entanto, a indicação apareceu no travesseiro, e o que restou foi uma vida inteira erguida com base em uma noite de interpretação equivocada.
Como já mencionei, existem situações em que as próprias mulheres se prejudicam — e eu vou detalhar essa questão da autossabotagem em breve, pois é fundamental. Mas observe que essa lógica não se aplica apenas à maquiagem. Ela é fundamental para toda a estética contracultural, e é neste ponto que eu conecto novamente com tudo que mencionei na primeira parte deste ensaio. Aquela pessoa que se arrisca com estéticas ousadas e extremas, eu aconselho: tenha cautela. Não se trata mais do contraventor cultural da cidade, é algo diferente. Quando você encontrar alguém com quem deseja compartilhar sua vida, e essa pessoa perceber que sua aparência não corresponde à imagem que ela tinha de você — seja porque você removeu a maquiagem, deixou de usar uma fantasia ou passou por uma mudança de fase —, é possível que ela perca o interesse e a atração por você. Particularmente se, sob a superfície, você continuar sendo uma pessoa entediante. A casca pode chamar a atenção, mas é o conteúdo que realmente faz com que alguém permaneça.
Aqui está a promessa: por que as mulheres tendem a se autossabotar? Vou ser honesto desde o início — eu, especialmente, aprecio a beleza, tenho um gosto especial por mulheres bonitas, e não sou nenhum santo de gesso agindo com indiferença. Mas quem realmente entende isso sobre maquiagem e se preocupa de fato, quando está só? É do sexo feminino. É a própria mulher que percebe e se perturba com a outra. É importante fazer uma pausa aqui para discutir a reciprocidade, pois ela é fundamental para entender por que tantas pessoas — tanto mulheres quanto homens jovens — acabam se sabotando. Não estou afirmando que os homens sejam anjos inocentes que não conhecem a loucura das mulheres; de forma alguma. Há muitos homens peculiares por aí, não é mesmo? É como aquele meme que mostra um homem elaborando uma longa lista de requisitos, com quinze itens ou mais, para a mulher dos seus sonhos. Esse indivíduo, e aqui ressalto que isso é apenas uma suspeita minha, uma hipótese, e não uma afirmação definitiva — geralmente, ele tende a ser um pouco peculiar. Permita-me interpretar essa caricatura, o mestre da listinha:
Um jovem à mesa, caneta em punho, uma longa folha diante de si, riscando itens com a gravidade de quem está elaborando a constituição de uma nação. Um amigo ao lado observa com a sobrancelha levantada.
O GAROTO DA LISTA — Muito bem. Ela precisa medir pelo menos um metro e setenta e cinco, ter cabelo liso, olhos claros, ter um corpo tonificado, ser formada, ter um bom salário, ser discreta, mas com um toque de ousadia, cozinhar tão bem quanto a minha avó, e nunca, de forma alguma, ter tido outro namorado antes de mim. O item onze...
PARCEIRO — Irmão. Posso te fazer uma pergunta rápida? Dessa lista completa... quanto você mesmo pode contribuir?
GAROTO DA LISTINHA — (silêncio prolongado, a caneta suspensa no ar) ...Isso tem importância?
AMIGO — É o que há de mais importante, meu nobre.
Porque é o seguinte: para que faça sentido um homem exigir uma mulher quase perfeita, sem que ele pareça um sujeito excessivamente exigente, ele precisa ter uma de duas coisas. Ou ele é o quase perfeito — extremamente rico, em excelente forma, possui uma moral elevada e é um indivíduo que alcançou um nível de excelência estética, comportamental e financeira simultaneamente. Esse indivíduo, tudo bem, está totalmente dentro do seu direito de fazer cobranças, pois ele possui os recursos necessários e pode arcar com a conta que está solicitando. No entanto, a pessoa que não possui nem mesmo um por cento dessas características, mas ainda assim cobra tudo isso, está apenas tentando estabelecer um enorme obstáculo para si, uma barreira que a impedirá de encontrar alguém. Outra possibilidade, que é apenas uma suspeita da minha parte: essa busca extrema pela estética feminina, essa fixação por uma infinidade de detalhes que, na maioria das vezes, só outras mulheres costumam perceber, pode sugerir que o homem em questão tem uma inclinação que ainda não reconheceu — talvez ele se sinta mais atraído por características masculinas do que está disposto a admitir. Eu menciono isso porque, em minha própria experiência, observei que esses homens que têm padrões estéticos extremamente altos frequentemente acabam se envolvendo com mulheres que possuem características mais masculinas, com traços mais marcantes e, por vezes, andróginos. Essa é uma observação pessoal, ok? É hipótese, não é sentença. Mas é algo que observei ocorrer com frequência demais para simplesmente ignorar.
O princípio inabalável que se mantém após toda essa reflexão é a lei da reciprocidade, que não se trata de uma suposição, mas sim de uma quase equação matemática nas relações interpessoais: aquele que exige muito deve estar disposto a oferecer tudo o que exige; caso contrário, a exigência se torna mera hipocrisia. Se você espera que o rapaz possua um corpo impressionante, é fundamental que você não seja nem excessivamente magra nem excessivamente acima do peso; é preciso ter uma forma física que esteja à altura das suas exigências. Se uma mulher com um corpo que não atende aos padrões de beleza exige um parceiro com um físico perfeito, isso é uma hipocrisia evidente, e ponto final. É algo muito simples, mas frequentemente não percebido pelas pessoas: você precisa oferecer o que deseja receber. Ou então é desonesto desde o princípio. Eu realmente não gosto de mencionar isso, mas é algo que ocorre com mais frequência entre as mulheres — e também entre os homens mais jovens, pois eles têm dificuldade em entender essa questão de forma alguma. Eu me descrevo de maneira direta e sem reservas: sou um homem que está em uma situação financeira confortável? Eu sou. Um físico razoável? Possuo, e já tive um corpo que se destaca, estando acima da média. Bem-educado, por vezes excessivamente cortês, com pessoas que nem sequer o mereciam? Estou. Religioso, talvez até excessivamente para conversas superficiais — e aqueles que me seguem nos textos e vídeos estão cientes de que não sou um moralista disfarçado. Portanto, possuo, por assim dizer, muitas das características que circulam como sendo as do "homem perfeito". No entanto, há algo que me falta: não possuo o suporte financeiro necessário para exigir o máximo. Não sou rico, nem mesmo da classe média alta; sou da classe média um pouco mais confortável, e olhe lá. Portanto, não posso sair cobrando excessivamente, pois não tenho como arcar com toda a despesa. Se eu, que possuo quase tudo, consigo ser humilde ao admitir minhas carências, o que se pode dizer daquela pessoa que nada possui e ainda assim exige tudo?
A seguir, temos a parte que é dolorosamente verdadeira, aplicando-se tanto a meninos quanto a meninas. Você pega o jovem que tem dezoito ou dezenove anos. Ao seu lado, há garotas respeitáveis, bondosas e realmente muito bonitas. Mas não, ele deseja a mais bela do ambiente. Somente a mais bela. As outras, que são garotas excelentes, ele simplesmente ignora sem hesitar. Em sua maioria, ou melhor, quase sempre, essas questões têm suas raízes na infância. Você segue o personagem até que ele tenha seu primeiro relacionamento, ou até que consiga conquistar a garota mais bonita, e o que ele irá descobrir? É comum que a maioria dessas garotas extraordinariamente lindas possua um ego bastante elevado. É incomum encontrar aquelas que não possuem; a maioria realmente possui. Elas não agem por pura maldade, observe bem, pois a origem desse comportamento é quase automática, quase impossível de evitar, e isso me faz recordar tudo o que mencionei sobre o rejeitado, mas de forma invertida. Essas garotas, que são realmente muito atraentes, recebem mimos e cuidados desde o nascimento, desde que estão no berço, devido à sua beleza. Assim que entram na escola, inicialmente, são pessoas que se comportam de maneira bastante positiva. O ego ainda não apareceu. É aí que a máquina entra em ação: as outras garotas não a simpatizam. Mas por que não gostam? Uma vez que todos os homens presentes irão se interessar por ela e irão apreciá-la intensamente, isso provoca nas outras mulheres um sentimento de inveja ardente. Assim, a jovem atraente se depara com uma escolha difícil: ou ela se afirma em relação às outras meninas e se transforma em uma espécie de valentona dentro do universo feminino — aquela garota extraordinariamente bela, mas que eu descreveria, com base nos arquétipos que estudamos no Círculo, como a representação de Lilith —, ou ela se torna o alvo de brincadeiras na escola exatamente por sua beleza.
É importante que eu seja claro em relação a esse arquétipo, pois ele não deve ser interpretado como um insulto, mas sim como uma ferramenta de compreensão. No simbolismo que utilizamos, Lilith representa a mulher que se impõe sobre os outros, que aprecia exercer controle e que possui um ego imenso, rodeado por uma espécie de fervor demoníaco — é como se houvesse um fogo obscuro queimando ao seu redor, e ela deseja dominar a todos ao seu redor. Ela possui todos os atributos dessa figura, essa jovem bela e corrupta. A tragédia reside no fato de que, ao se submeter a esse caminho de subjugação, ela deixa de ser a boa menina que ingressou na escola e se transforma em uma das pessoas mais repugnantes do grupo — embora seja adorada como se fosse a encarnação da virtude suprema, quando, na realidade, é o vício absoluto disfarçado de virtude. Além disso, eu relaciono isso novamente com René Girard, a quem já me referi anteriormente na narrativa dos rapazes acusados: o que leva o jovem a desejar, precisamente, a mais bela dentre elas, aquela que já atrai a atenção de cem outros, não é apenas a sua beleza intrínseca — é, acima de tudo, o desejo manifestado pelos outros. Ele a quer porque ela é cobiçada. Isso exemplifica o desejo mimético de Girard em sua forma mais pura: não almejamos posses por seu valor intrínseco, mas sim porque as desejamos quando vemos que o outro também as deseja. A garota mais desejada da escola é, em grande parte, objeto de desejo precisamente porque já é tão desejada — ela se torna uma bola de neve de anseios imitados, e é essa torrente mimética que alimenta seu ego a tal ponto que a transforma na representação arquetípica de Lilith.
No entanto, e aqui reside a clareza em meio à confusão, e é uma das narrativas mais belas que tenho para compartilhar, nem toda garota considerada bonita opta por seguir esse caminho. Eu conheci garotas, até mesmo algumas que foram minhas namoradas, que eram de uma beleza estonteante e que não se sentiram obrigadas a dominar os outros. Elas optaram por ser a garota alvo de zombarias por parte das meninas invejosas, a fim de evitar se tornar a famosa "Maria vai com as outras", com um ego frágil que sente a necessidade de rebaixar os outros para se sentir importante. Uma das minhas ex-namoradas expressou isso de maneira clara, e essa foi uma das razões pelas quais eu me apaixonei por ela. Permita-me dramatizar, pois foi uma conversa que realmente marcou:
Dois jovens dialogando em um canto qualquer, com o som do mundo exterior. Ela é extremamente bela e se expressa com uma tranquilidade que não condiz com sua idade. Ele ouve e, sem perceber, começa a se apaixonar naquele momento.
ELA — Quando você oprime seus colegas na escola, isso faz com que você desenvolva um ego enorme. Você se torna uma pessoa terrível sem nem perceber. Por isso, optei por ser a garota que era alvo de zombarias por parte das menos atraentes, em vez de me tornar a popularzinha que se enche de ego e pisa nos outros. Não foi minha intenção.
GABRIEL — (para si mesmo) Poxa vida. Isso é tudo. É isso aí.
Em outras palavras, ela se negou a seguir a manada. Rejeitou a trilha simples da submissão. É extremamente raro, é verdadeiramente belo, e é a evidência de que, apesar da força do mecanismo, este não é um destino imutável — é possível recusá-lo. Infelizmente, a maioria das vezes, o estereótipo da Stacy má prevalece. É através dessa dinâmica que conseguimos compreender o fenômeno mais recente e trivial entre os jovens de hoje, essa competição que eles criaram e cujo nome eu sempre esqueço, tamanho é o seu ridículo. Ah, sim: o famoso "aura farming". É todo esse sistema de opressão que venho detalhando, mas apresentado de uma forma que envolve anime e memes.
Permita-me esclarecer a origem disso, pois entender a origem revela tudo. O termo "farmar aura" originou-se, em grande parte, do meme relacionado ao Goku, de Dragon Ball, e, posteriormente, ganhou ainda mais popularidade com Satoru Gojo, de Jujutsu Kaisen, entre outros personagens dessa obra. Mas o que é essa aura? É a autoridade. Ele "farmou" poder — da mesma forma que se coleta itens ou experiência em um videogame, repetindo até acumular —, ele cultivou poder sobre os outros. Em outras palavras, trata-se de um mecanismo de dominação, assim como o que afeta a jovem Stacy. Isso se originou do anime, pois, em praticamente todos os animes, a cena se repete: o personagem leva uma surra, mas então se levanta, agora com uma transformação adicional ou um novo poder, e desfere uma sequência implacável de golpes em um inimigo colossal, permanecendo naquela pose estética que causa arrepios, emanando energia. Ele demonstrou ser melhor. Ele tomou o lugar de outro. Os jovens anseiam por isso: desejam conquistar aura, querem acumular pontos de "coolness", de presença intimidadora, pra subjugar os colegas na disputa social. É a mesma disputa entre mulheres pela estética, mas agora envolta em superpoderes de animes japoneses, e isso também se aplica aos meninos.
Aqui, a questão se torna filosoficamente intrigante, pois existe um simbolismo subjacente que conecta tudo ao cerne deste ensaio. Ao assistir a esses animes, há sempre aquele personagem que representa o arquétipo messiânico do universo em que se passa a história, o herói solar. Tomemos, por exemplo, Fullmetal Alchemist. Os irmãos Edward e Alphonse Elric são, de certa forma, filhos de uma Pedra Filosofal viva e eterna, que é o próprio pai, pois eles carregam o poder da Pedra Filosofal dentro de si. Eles possuem o arquétipo messiânico impresso até mesmo em sua aparência: na alquimia, as figuras muito claras e brancas estão carregadas desse simbolismo solar, desse simbolismo do herói iluminado. O que ocorre no clímax? Eles se deparam com o supremo homúnculo, o "Pai", aquele ser dentro da garrafa que desejava fundir tudo em sua própria essência, devorar tudo, engolir o mundo por completo e, inclusive, absorver Deus durante esse processo, com o intuito de tornar-se Ele próprio Deus, a vontade suprema do universo. E observe a ironia cósmica — ele falha, pois não é possível que haja outro Deus; o verdadeiro Deus é infinito, e aquela criatura lamentável dentro da garrafa nunca será capaz de entender a verdadeira natureza de Deus.
Se essa imagem te parece conhecida, é porque ela é a mesma que eu criei anteriormente, na primeira parte deste ensaio. O homúnculo que deseja devorar tudo para se tornar Deus é, sem dúvida, o demiurgo sintético por excelência. É a manifestação do eschaton personificada em um vilão de anime: a entidade que não tolera sua própria natureza de criatura, que não suporta a tensão de existir no "entre", e que, por essa razão, deseja criar sua própria divindade à força, consumindo toda a realidade em seu interior. É o mesmo desejo gnóstico do progressista que busca recriar o mundo conforme sua própria vontade. O anime, de forma inconsciente, ilustrou de maneira dramática a minha argumentação principal. Inclusive, a respeito desse Deus que é infinito — uma questão interessante foi levantada por um novo membro do canal do Círculo de Estudos no YouTube, e eu considerei essa pergunta excelente. Eu mesmo fui lá para responder, pois havia muito a se explorar no assunto. É um Deus que se fundamenta no Bem Supremo, no Deus que deu origem ao hermetismo e à alquimia, o qual, por sua vez, é fortemente influenciado pelo Deus retratado na Bíblia: um Deus que é, em sua essência, muito mais transcendente do que imanente, embora possua também sua imanência — um Deus que se pode caracterizar como panenteísta, para ser mais preciso. É precisamente contra esse Deus ilimitado que o homúnculo se destrói, assim como qualquer demiurgo sintético inevitavelmente o faz.
Agora conecte os pontos. Quando Edward Elric derrota o demônio físico daquele universo, ele "farmou aura pra caralho" — é a partir dessa ideia que surge a diversão do termo. Mas aqui reside a diferença que determina tudo, e essa diferença é de natureza moral: você pode cultivar o arquétipo solar por meio da virtude, ou pode fazê-lo através do vício. O verdadeiro herói se torna um símbolo de luz devido à sua bravura, ao sacrifício que faz e ao amor que sente pelo seu irmão. No entanto, o garoto que passa o tempo "farmando aura" na escola, assim como a menina Stacy, que impõe seu domínio pelo medo, cultivam o arquétipo solar por meio do vício inerente a esse arquétipo, que se manifesta como um ego colossal. Eles atingem a luminosidade através da trilha das sombras. Isso, no léxico do Círculo, representa mais um exemplo do que eu denominei anteriormente como satanização enquanto esperança corrompida: o indivíduo anseia pelo bem que o arquétipo solar oferece — deseja ser admirado, respeitado, radiante, almeja ocupar uma posição elevada —, mas busca esse bem através de um meio que o corrompe desde sua origem, que é o método da subjugação e da vaidade. Ela chega a ser uma paródia do sol: ilumina por fora e apodrece por dentro. Um ego desse tipo é prejudicial, pois arruina tanto a pessoa quanto todas as suas relações, uma vez que foi edificada sobre a opressão dos outros, e não sobre méritos próprios.
É essa troca de bondade por maldade, essa reversão, que os jovens realizam sem notar. O jovem se esforça ao máximo para conquistar aquela Stacyzinha; a garota se dedica de todas as maneiras para impressionar aquele rapaz elegante. No entanto, o jovem elegante muitas vezes nunca atinge esse objetivo, pois ele é, por exemplo, filho de um empresário local, um indivíduo que já veio ao mundo com um futuro praticamente traçado para se tornar exatamente isso. É crucial que eu tenha cautela para evitar caindo na armadilha de um fatalismo barato, já que não acredito no destino nem em nenhuma dessas noções absurdas. Não se trata de destino; é que todas as situações que ele enfrentou na vida o levaram a esse ponto. Tudo e todos contribuíram para que ele chegasse até aquele ponto. O garotinho que vem de uma família pobre e nem consegue arcar com cem reais para se matricular na academia mais simples da cidade, sendo ainda muito jovem, não conseguirá atingir esse padrão tão rapidamente. Ele só conseguirá isso quando começar a trabalhar — e a maioria inicia suas atividades aos quinze ou dezesseis anos aqui no Brasil, já que antes disso nem mesmo como jovem aprendiz conseguem ser contratados. Portanto, não se trata de preguiça ou de desmotivação; é uma situação difícil. Reconhecer isso não implica acreditar no determinismo; na verdade, é exatamente o contrário da outra enfermidade que eu denominei determinismo sintético, que é a crença de que um ambiente ideal é suficiente para gerar o homem perfeito. A situação é difícil, mas não é um aprisionamento. O garoto de origem humilde pode, com esforço e paciência, chegar lá. Não será aos quinze anos e não será sem custo.
Agora, vou elevar meu argumento a um novo patamar e revelar a verdadeira raiz biológica de todas essas questões, pois, sem essa compreensão, você pode concluir que se trata apenas de maldade humana. No entanto, não se trata disso — é, de fato, uma expressão da natureza, a mesma lei natural que tenho invocado desde a origem do instinto do medo. Vamos discutir padrões de forma objetiva, sem idealizações. De maneira séria, o homem raramente demonstra preferência por uma mulher extremamente magra, cujas formas são esculpidas até os ossos. O que o homem realmente aprecia é aquela mulher — como se diz — "gordinha" que não é gorda, mas tem o corpo mais cheinho, com formas. Todo homem se atrai por esse perfil de mulher, ainda mais se ela for gentil e muito agradável. Uma mulher desse tipo, com um corpo curvilíneo e um bom caráter, que possui aquela aparência típica de quem tem curvas acentuadas, consegue conquistar qualquer homem que desejar. Posso afirmar isso com propriedade, arriscando novamente a minha reputação: minha última namorada possuía, de fato, aquele corpo e aquela silhueta que deixa os homens fascinados. Mesmo assim, ela chegava até mim antes de namorarmos para se queixar dizendo "ninguém chega em mim, ninguém me quer". A crua realidade, que eu não hesitei em afirmar de maneira direta, é que ninguém se aproximava dela não por ser considerada feia — muito pelo contrário, ela era tudo menos feia —, mas sim porque ela tinha atitudes desagradáveis. De fato, o nosso relacionamento teve início de uma maneira quase conflituosa. No início, ela demonstrava um certo desdém em relação a mim, mas depois percebi que, na verdade, ela sempre teve uma simpatia por mim, e eu é que não prestava atenção. Por que eu não prestava atenção em uma mulher com esse corpo e essa beleza? Devido à falta de autoestima. Isso nos conduz à questão mais sensível, mais oculta e menos discutida ao longo de todo este ensaio: o toco e seu impacto na alma do ser humano.
Mas antes de entrarmos nesse ponto, permita-me concluir a lógica da evolução, pois ela esclarece por que o homem obeso, o homem que é excessivamente magro e aquele que a sociedade considera fraco enfrentam dificuldades em estabelecer relacionamentos. É direto e impactante: um homem deve ter um corpo que, pelo menos, aparente ser forte, que transmita a capacidade de proteger e sustentar. Quando aquele garotinho mais cheinho do passado se dedica, treina e cuida do corpo com disciplina ao longo de vários anos, e finalmente alcança um físico admirável, ocorre algo que parece mágico, mas é simplesmente uma questão biológica: de repente, ele se vê rodeado por mulheres na praia. De manera literal. Não tenho dúvidas de que, se você era obeso e agora possui uma boa forma, você pode utilizar qualquer um desses aplicativos de encontros para comparar suas fotos do antes e depois. A diferença é chocante: quando você era gordo, recebia apenas uma curtida por mês em sua foto, enquanto agora, com um corpo bem definido, recebe três ou quatro curtidas por semana. É desse jeito. E isso não se trata de uma vaidade prejudicial da minha parte; é a manifestação do sinal de aptidão operando da maneira que a psicologia evolutiva descreve, exatamente como Buss documentou em diversas culturas ao redor do mundo: um corpo robusto é um sinal valioso, difícil de ser falsificado, de saúde e competência, e o cérebro humano se desenvolveu ao longo de milhões de anos para reagir a esse sinal. As próprias crianças conseguem perceber isso por conta própria, sem precisar de ninguém para ensiná-las: o garoto mais gordo da escola, ou o mais magro, ou a menininha mais delicada, sempre há alguém que, por sua fragilidade, é visto pelos outros como o elo mais fraco do grupo. Porque o gordo, pobrezinho, mal consegue correr, imagine brigar; e o magro demais não tem peso nenhum, o fortão pega ele com uma mão e arremessa na parede. São indivíduos que, devido à sua aparência, são percebidos como frágeis, e não porque as crianças apresentem qualquer maldade — mas sim porque é intrínseco à natureza humana possuir esses preconceitos, essas noções pré-estabelecidas, essa atenção que reconhece, pela aparência, quem está enfermo, quem é débil, quem representa uma ameaça e quem é uma presa. Não há como extrair isso da essência do ser humano, pois é exatamente isso que nos sustenta, é o mesmo guardião ancestral do medo que já compartilhei com vocês.
É por essa razão que, lamentavelmente, a beleza proporciona oportunidades que o mérito, por si só, não consegue oferecer. As pessoas tendem a contratar muito mais indivíduos atraentes. As pessoas atraentes alcançam muito mais sucesso em comparação com as menos favorecidas — e isso não é uma opinião minha, mas uma questão que economistas analisaram e chamaram de "prêmio da beleza"; Hamermesh e Biddle demonstraram, com dados do mercado de trabalho, que a aparência realmente influencia salários e contratações. Às vezes, um candidato menos atraente pode ter um currículo impressionante e ser o melhor em sua área, mas ainda assim, a empresa opta por contratar alguém com menos qualificação. Por que razão? Imagem corporativa. É algo simples, e eu realmente não entendo como algumas pessoas não conseguem perceber algo que é tão evidente. Ninguém colocará uma pessoa considerada muito feia para atender ao público, pois, de maneira inconsciente, o cliente pode sentir uma aversão ao olhar para um rosto que seu cérebro interpreta como um sinal negativo. Vou fazer uma reclamação sobre isso? Quero controlar o cérebro humano? Não sou de esquerda. Não irei controlar a mente dos outros. Não importa quão extraordinária uma pessoa possa ser internamente, a sua aparência, seja ela bela ou não, tem um peso significativo, e não faz sentido tentar ignorar esse fato.
Mas — e aqui é crucial que eu seja extremamente cauteloso, pois esta seção tem o potencial de ajudar ou machucar alguém que a esteja lendo — portanto, não me diga que tudo está perdido, que aqueles que nasceram considerados feios estão fadados a se detestar. Não está. Eu tenho um carinho especial por alegrar aquelas pessoas que se consideram feias e que, devido a essa percepção, chegam a cogitar fazer algo drástico com suas vidas, como se ferir ou desistir completamente. Para essas pessoas, eu afirmo, com total convicção e afeto: você tem a capacidade de mudar, e, na maioria das vezes, o que impede essa mudança não é a impossibilidade, mas sim a preguiça e a falta de determinação. Não é necessário realizar uma cirurgia, nem esperar por um milagre — é preciso empenho e paciência. Dedique-se ao cuidado do seu corpo, desenvolva disciplina e permita que o tempo siga seu curso, e você testemunhará a transformação ocorrer. Eu sou um exemplo disso, portanto, não é uma opinião de alguém que observa de longe. Quando eu era menino, por volta dos dez anos, tinha a reputação de ser o garoto mais Invisível da classe. Por que razão? Pelo fato de eu ser um garoto mais introspecto, com um comportamento bastante passivo e excessivamente educado — a escola interpretava isso como uma fraqueza. Mas eu adotei uma atitude que estava mais de acordo com a cultura agressiva daquele lugar: quando alguém tentava me intimidar, eu comecei a me afirmar, a enfrentar, a não me deixar abater. E de um dia para o outro, praticamente, deixaram de me enxergar como fraco e passaram a me perceber como forte. Eu não fiz muitas alterações na minha aparência, sem mudanças drásticas; quando deixei o ensino fundamental para o ensino médio, era visto como o aluno mais atraente da classe. As garotas chegaram a realizar uma votação e me nomearam como o mais bonito da sala. A transformação não foi apenas superficial — foi uma mudança de atitude, de postura, de parar de enviar o sinal de vulnerabilidade e começar a enviar o sinal de quem se valoriza.
E, antes de prosseguir, é fundamental que eu mencione algo que fundamenta tudo isso e evita que se transforme em desespero: o valor de um indivíduo aos olhos de Deus não se limita à sua aparência ou ao seu corpo. De fato, é uma verdade cristã que defendo com firmeza. A alma possui uma dignidade que nenhum espelho consegue avaliar. No entanto, é precisamente aqui que a maioria dos discursos superficiais engana você — essa dignidade da alma não anula as regras do mundo social. Ambas as afirmações são verdadeiras simultaneamente, e a verdadeira maturidade consiste em conseguir lidar com as duas sem abrir mão de nenhuma: você tem um valor imensamente superior à sua aparência, e, mesmo assim, o mundo fará uma avaliação com base na sua aparência antes de qualquer coisa. Negar a primeira verdade é ser cruel; negar a segunda é ter uma ingenuidade que leva ao suicídio. A solução não é optar por uma opção e desprezar a outra, mas sim zelar pela aparência externa sem se comprometer completamente com ela.
Agora, o tronco. Esta é a ferida mais silenciosa do ser humano, aquela que não é mencionada nas conversas. Nós, homens, enfrentamos inúmeras rejeições ao longo da vida, muitas vezes acompanhadas de humilhações públicas que nos ferem profundamente. Com isso, vamos desenvolvendo uma baixa autoestima intensa, que nos corrói por dentro, sem que isso seja visível externamente. Beijamos tantas garotas na boca que começamos a olhar para uma menina muito bonita e pensamos, com uma frieza fatalista: "pô, eu já cheguei em menina menos bonita que essa aí e tomei um fora tão forte, tão humilhante, que se eu chegar nessa daqui vai ser pior ainda. Então eu não irei. Por que eu deveria me dar ao trabalho de levar outro toco?". A grande maioria dos homens, cerca de noventa por cento, compartilha desse pensamento, e é exatamente por isso que os homens estão deixando de chegar. Pois quando você chega, ou a garota só está interessada em sexo, ou ela tem um comportamento um tanto peculiar em termos morais — não em relação à aparência, já que se ela for atraente, os homens irão se aproximar de qualquer forma. Vou representar esse conflito interno, pois ele é irmão gêmeo daquela luta entre o instinto e a ideologia que mencionei anteriormente, mas agora a escuridão não se origina da ideologia, e sim da cicatriz:
Uma festa qualquer, com luz suave e música alta. No oposto do salão, havia uma mulher de beleza impressionante. O jovem a observa. Em seu interior, coexistem duas vozes: o Desejo, que anseia por cruzar o salão; e a Cicatriz, uma voz antiga e fatigada, resultado de todas as rejeições que ele já enfrentou.
DESEJO — Pode ir. É só dizer. Ela é bela. Cruza e converse com ela.
CICATRIZ — Lembra da última. E da outra antes dela. E de todas as risadas em volta quando você levou o fora na frente de todo mundo. "Olha o trouxa feio que achou que tinha chance." Quer isso de novo? Em público?
DESEJO — Mas... e se dessa vez...
CICATRIZ — A vergonha não compensa. Não é válido. Fique em silêncio. Bébe umas latinha ai dai sei lá. Vá para casa. Isso é mais seguro.
JOVEM — (desviando o olhar, se voltando de costas para o salão) ...É verdade. Deixa pra lá. De jeito nenhum.
(E, em algumas ocasiões, a jovem do outro lado do salão tinha uma certa simpatia por ele. Em algumas ocasiões, ela passou a noite inteira aguardando a chegada dele. Ninguém compartilhou essa informação com a cicatriz que ele possui, e, como resultado, a cicatriz impediu que ele atravessasse.
O mais surpreendente é que isso ocorre até mesmo com aqueles que têm todas as condições para se saírem bem. Quando eu tinha apenas vinte e um, vinte e dois anos, possuía um corpo impressionante e levantava na academia pesos que nenhum outro homem da minha altura e idade conseguia levantar, tinha um físico extraordinário. Apesar disso, eu ainda me considerava um fracasso. Eu me via como um inútil porque as garotas que eu considerava boas não se aproximavam de mim, não demonstravam interesse, nem faziam qualquer sinal. Foi apenas na minha terceira experiência de namoro que diversas garotas começaram a surgir dizendo "ai, como eu gostava de você, eu queria tanto ter tido um namoro com você". E eu refletia, com uma mistura de raiva e tristeza: "porra, velho, você vem me falar isso só agora?". E eu estava correto em minha indignação, lamentavelmente. Esse é exatamente o problema: nunca conseguimos identificar quem realmente gostava de nós, uma vez que as meninas não se aproximavam, devido a uma teimosia cultural. Então, éramos obrigados a explorar no escuro, indo de uma pessoa para outra, enfrentando muitas rejeições, sem nunca ter certeza de quem realmente estava interessado em nós. Era como caminhar no escuro, recebendo um golpe no rosto a cada porta.
Por isso, insisto em um ponto que pode ser considerado polêmico, mas que defendo com convicção: é positivo e benéfico que as mulheres estejam começando a chegar também. Não é antiquado afirmar que apenas o homem deve chegar? É precisamente essa ideia — que a responsabilidade de agir recai exclusivamente sobre o homem — que prejudica ambos os lados. Isso ocorreu com uma amiga minha, que já mencionei em outro texto: se ela não tivesse se aproximado daquele rapaz por quem sempre se sentiu atraída, jamais teria iniciado um namoro com ele. Jamais. Pois o rapaz, devido à sua baixa autoestima e aos constantes revezes, nunca conseguiria chegar lá. Permita-me dramatizar, pois é a exceção que realmente funciona por desafiar a norma:
Ela, determinada, com o coração acelerado, atravessa o espaço que ele nunca teve coragem de cruzar. Ele, atônito, sem perceber que a boa sorte de sua vida está se aproximando de sandália.
MINHA AMIGA — Vou falar sem rodeios, pois se eu ficar esperando você se decidir, provavelmente teremos que esperar uma eternidade. Eu tenho uma afeição por você. Eu sempre gostei. Oi, tudo bem?
MEU AMIGO — (imóvel, em seguida um sorriso de incredulidade surgindo em seu rosto) ...É mesmo? Um momento. Você está falando sério?
(Começaram a namorar. Sozinho, ele jamais teria tomado a iniciativa — a cicatriz o impediria. Ela finalmente chegou. E foi a bravura dela que possibilitou a existência dessa história.)
Além disso, existe uma camada adicional, bastante tangível, que leva o homem a esse silêncio: a questão legal — e é crucial que eu seja preciso aqui, pois o medo tende a confundir muitas coisas. Atualmente, quando um homem se aproxima de uma mulher, ele carrega um temor genuíno em sua mente, um medo de que algo possa dar muito errado. Então, qual é a real disposição da legislação brasileira? A Lei nº 13.718, de 2018, estabeleceu o crime de importunação sexual, que consiste em realizar um ato libidinoso contra alguém sem o seu consentimento — como por exemplo, agarrar a pessoa à força, beijá-la sem permissão, apalpar, esfregar-se ou fazer uma cantada acompanhada de um toque invasivo. É um crime, e é justo que seja assim. Há também o assédio sexual, que é outra figura, prevista no artigo 216-A, que se refere a quem se aproveita de uma posição de superioridade hierárquica ou de chefia para constranger alguém — é o crime que ocorre no ambiente de trabalho, na relação de poder. Portanto, uma abordagem que seja apenas verbal, com respeito e sem ningún toque físico ou vínculo de superioridade, não constitui, por si só, nenhum desses crimes, Mas eu não vou arrancar a possibilidade do descuido, porque basicamente essas questões no Brasil são tudo muito subjetivo, entendeu? Porque é muito ideológico pro lado da esquerda. Então, por exemplo, isso aí pode ser moldado num tal nível que até o, se a pessoa for mais, é, gentil, tranquila, possível, educada, sem ter feito nada disso, se ele der um deslize às vezes, simplesmente encostar na pessoa, ele pode, é, através de moldando a situação através de um advogado, meio que de porta de cadeia ali, ou por exemplo, a uma criação de situação ali pelas próprias, entre muitas aspas, "vítimas", então é, pode dar ruim, entendeu? Então não tira esse mérito, dos rapazes, de pensar isso. No entanto — e este é o aspecto que caracteriza o homem comum — o medo não interpreta o Código Penal com a exatidão de um jurista. O que se difundiu entre os homens foi um medo generalizado, muitas vezes exagerado, de que qualquer tentativa de aproximação possa resultar em um processo legal, e esse medo, junto com todas as frustrações da vida, impede o cara de agir antes mesmo que ele tenha a chance de dizer algo. Além de ser totalmente honesto nas entrelinhas: uma mulher de caráter duvidoso pode, sim, armar um verdadeiro espetáculo na hora da investida, fazer uma cena para constranger o rapaz, e, em algumas situações, até incitar os presentes a partirem para cima dele. Não é comum, mas ocorre, e o homem está ciente disso. É devido a esse misto de rejeição, humilhação e um medo jurídico mal interpretado que os homens estão se afastando. É por essa razão que a iniciativa feminina, ao invés de ser vista como uma ameaça, representa um alívio para todos: quando a mulher também se posiciona, o homem não precisa mais agir às cegas, correndo o risco de levar um soco, e não fica sob a sombra de uma possível acusação.
Há uma verdade, que raramente é mencionada, acerca da origem de todos esses preconceitos relacionados à aparência: não foi o homem quem os criou. Em grande parte, foram as mulheres elas mesmas. Quem está mais envolvido com o mundo da beleza, das aparências e das normas? A mulher. É verdade que "ah, mas a indústria da beleza é paga por homens" — é verdade, é paga por homens, mas quem está na criação, quem dita as tendências ali dentro, quem tem a liberdade criativa de definir o que é belo e o que não é, em grande medida são elas. O ser humano nunca carregou em si mesmo essa ideia de "eu quero ser mais bonito que o outro homem". Homem, para ser franco, dane-se; ele não fica obcecado em se destacar esteticamente em relação a outros homens. O homem, é claro, vai se sentir atraído pela mulher que é mais bonita, aquela que parece mais saudável, mais jovem e mais cheia de vida — e qual é a razão para isso? Não por maldade em relação às pessoas consideradas feias, mas sim porque uma aparência saudável e jovem indica, em um nível mais profundo e ancestral, a aptidão para ter filhos que sejam superiores e mais saudáveis. Trata-se de uma psicologia evolutiva em sua essência, seguindo a mesma linha de raciocínio do sinal de custo elevado que Buss identificou. A mulher está constantemente envolvida em uma competição intensa, quase obsessiva, com outras mulheres — e eu não afirmo isso como uma crítica moral, mas sim como uma observação. A mulher não se embeleza para outra mulher; ela se embeleza para se sobressair em relação à outra mulher. Há uma intensa competição interna para saber quem é a mais bela, pois a mais bela atrai mais parceiros. É semelhante à plumagem dos pássaros — a diferença é que, entre as aves, geralmente é o macho que se destaca, enquanto, entre os humanos, a exibição ocorre de ambos os lados, mas é particularmente mais forte no lado feminino. É essa competição feminina incessante que originou e mantém a maior parte dos estigmas relacionados à beleza. Não se trata apenas de um homem demonstrando preconceito em relação às pessoas consideradas feias.
E aqui alcanço a profundidade metafísica de tudo, no momento em que a psicologia evolutiva se encontra com a teologia, pois, caso contrário, eu estaria abordando apenas uma parte do assunto. Por que a alma humana busca a perfeição? Por que essa busca por beleza é tão interminável? Não se trata apenas de biologia, de maneira alguma. A alma possui uma intensa busca por transcendência, um anseio pelo Perfeito que nenhuma criatura é capaz de satisfazer completamente. No âmbito da tradição que pesquiso, a beleza não é um mero enfeite — ela é, ao lado da verdade e da bondade, um dos transcendentais do ser. Quando nos fascinamos com um rosto bonito ou um corpo bem proporcionado, o que realmente está ocorrendo internamente, sem que percebamos, é a alma identificando um vislumbre, um reflexo, daquela Beleza infinita da qual ela sente falta, mesmo sem compreender o motivo dessa saudade. Santo Agostinho expressou isso de uma maneira que nunca mais saiu da minha mente: criaste-nos para ti, e o nosso coração permanece inquieto até que encontre descanso em ti. A busca incessante por beleza representa essa inquietação. É o ser buscando, em cada rosto atraente, o Rosto que perdeu. É por isso que a beleza exerce um poder de atração tão forte — ela representa uma marca do divino em nossa corporeidade.
A beleza se torna uma armadilha extremamente perigosa precisamente por ser um sinal do divino, pois esse sinal pode facilmente ser confundido com o objetivo final. Quando alguém converte essa busca por transcendência em vaidade pura, competição desenfreada e na aniquilação do outro — a Stacy malévola, o cultivador de aura, a obsessão tóxica com a maquiagem — essa pessoa está realizando precisamente o que tenho chamado ao longo deste ensaio de esperança corrompida: ela anseia pelo Absoluto que a beleza promete, mas busca esse Absoluto através de um caminho que o corrompe. Ela para na trilha, acreditando que é o seu destino. Ela ama a criatura em vez de amar Aquele de quem a criatura é apenas um reflexo. No outro extremo, encontramos o erro gêmeo: aquele que diz respeito ao indivíduo — frequentemente alinhado à esquerda, como já mencionei — que, ao se sentir incomodado com a rigidez dessa lei, conclui que a solução passa pela sua abolição. Que pretende compelir os homens a se sentirem atraídos por aqueles que não atraem, a forçar todos a considerar belo aquilo que suas mentes não reconhecem como tal, a impor uma inclusão absoluta, mesmo para aqueles que desejam que a natureza se curve diante da vontade humana — englobando, nessa mesma categoria, a exigência de que o desejo masculino se reconfigure quando solicitado. E o que isso representa, senão a antiga gnose? É desejar contornar a própria lei da realidade, é tentar reescrever a essência humana com traços de caneta. É novamente o demiurgo sintético, agora tentando ditar regras sobre a atração como se fosse algo maleável. Você irá falhar, assim como todo criador artificial falha, pois não tem a capacidade de determinar os desejos dos outros, da mesma forma que não consegue impor o medo de alguém nem a interpretação que o cérebro faz de um estímulo.
Assim, une as duas partes deste ensaio em uma única verdade, uma vez que elas sempre foram uma só. No primeiro ponto, eu demonstrei que a cultura da região atua como um tribunal que avalia sua estética e emite um veredito antes mesmo de você se expressar. Nesta segunda-feira, eu evidenciei que, sob esse tribunal que se desloca de cidade em cidade, há um tribunal mais antigo e universal que permanece em um único lugar: o tribunal da beleza, inscrito na carne pela evolução e na alma pela busca do Perfeito. Ambos os tribunais existem de fato. Os dois avaliam primeiro a casca. Assim como os dois mencionados, a esquerda gnóstica erra de maneira semelhante: ao invés de se desenvolver em relação à lei, busca eliminá-la; em vez de renunciar à sua própria vaidade, demanda que todo o mundo se curve perante ela. A maturidade, que para mim é o único caminho em direção à paz, é justamente o oposto disso: é reconhecer a existência dos sinais e entender que não podemos ignorá-los — é importante zelar pela aparência, sim, e valorizar a interpretação dos outros, sim — e, ao mesmo tempo, optar, por uma questão de virtude e não por imposição, por perceber no outro aquilo que os sinais não revelam. Pois a lei determina que devemos analisar a casca inicialmente; no entanto, a caridade, que é algo realmente raro e desafiador, representa a escolha de não se limitar à casca. É observar o próximo com compreensão — e é exatamente essa compreensão, essa recusa em reduzir o indivíduo ao estigma que ele representa, que está ausente no mundo, tanto na maldade de aqueles que menosprezam o que é considerado feio, quanto na opressão de quem deseja proibir o que é belo. A natureza não pode ser reprogramada. Mas é possível ensinar o coração. Talvez essa seja a única revolução que ainda se mantém: em vez de transformar o mundo para satisfazer nossa vaidade, devemos conter nossa vaidade para que, com um pouco mais de justiça, possamos nos encaixar no mundo que já existe.
Porque, no final, a decisão é sempre a mesma, aquela que mencionei na primeira linha e que agora completa todo o ciclo: ou você renuncia à sua vaidade e aprende a ler, assim como a ser lido, de maneira honesta e generosa, ou você espera que o universo se submeta ao seu capricho — à sua estética, ao seu corpo, ao seu rosto, ao seu desejo — e enfrenta a vida travando batalhas contra a realidade. E o verdadeiro, quer seja o tribunal da cultura localizado na esquina obscura, quer seja o tribunal da beleza que se encontra nas profundezas da carne, ou ainda seja o Deus infinito contra o qual todo homúnculo se esborracha, não absolve aqueles que abrem a porta da jaula na crença de que a boa intenção, a maquiagem adequada ou um discurso convincente são suficientes para conter a mordida. Ele não nutre ódio por você. Frequentemente, ele nem mesmo sente medo de você. Ele é simplesmente aquilo que é — e com a firme paciência das realidades imutáveis, espera que você tenha maturidade suficiente para, finalmente, ser também o que realmente é.
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Fonte oral de formação
CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia (COF). Aulas do Seminário de Filosofia. Fonte oral; teoria das camadas da personalidade transmitida em curso.

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