O Fogo Verde, uma carta de amizade aos incels : A respeito do desdém, da angústia e da eucatástrofe daqueles que a sociedade ignora como se fossem insignificantes.
Escrevo para aqueles que são ignorados: para o garoto que ninguém seleciona, para o jovem que a cidade ignora como se não estivesse lá, para o autista que desde pequeno compreendeu a carga de um olhar. Redijo de dentro, pois fui — e, de certa forma, ainda sou — um deles. Não estou aqui para oferecer consolos através de falsas gentilezas, nem para encerrar com uma moral superficial. Vou compartilhar como, nos momentos mais difíceis, a graça costuma surgir sem aviso, mostrando onde brilha a única esperança que a indiferença não consegue atingir.
Gabriel G. Oliveira
9/11/202619 min ler


A pecha e a chama
Há uma forma de crueldade que se disfarça de cuidado, e raramente as pessoas conseguem reconhecê-la, pois ela vem acompanhada de um sorriso. O psicólogo atual se posiciona em relação à criança autista e, com boas intenções, decide resguardá-la de uma realidade: a de que o mundo a vê como se fosse um engano. Substitua a palavra "condição" por "condição de saúde", troque "diagnóstico" por "uma avaliação" e retorne para casa acreditando que ajudou alguém. Não foi arquivado. Simplesmente removeu a vulnerabilidade da criança em relação a uma sensação que ela já vivencia intensamente, muito antes de conseguir nomeá-la com palavras. Pois a criança entende. Percebe-se na tonalidade gentil com que se dirigem a ele, na paciência excessiva, na maneira como os adultos suavizam a voz, como se estivessem dialogando com um querido cão. Ela não entende as palavras da compaixão, mas percebe o gesto — e esse gesto transmite, de forma clara: você é inferior. O que causa dor não é a verdade. É uma falsidade mal elaborada, que expõe o que está por trás.
Eu compreendo isso porque eu fui essa criança, e era uma criança que ninguém esperava. Ruivo em um país dominado por cabelos escuros, um pouco acima do peso, sentindo-me deslocado, com uma mente que vagava por uma sala onde ninguém parecia ter pressa — eu era a criança que, aos sete anos, desafiava a professora e saía vitoriosa nas discussões, e que, aos dez, anotava fórmulas sobre buracos negros, não por uma maturidade aparente, mas porque isso era o único assunto que me fascinava, enquanto o restante do mundo parecia se arrastar. Eu reconheço o equívoco da vaidade da juventude: eu olhava para meus colegas e os enxergava como macaquinhos brincando, não por serem ingênuos, mas porque a disparidade entre o que se passava na minha mente e o que ocorria ao nosso redor era demasiada para que eu, ainda criança, conseguisse ter a generosidade de superar. Mais tarde, eu percebi essa generosidade. Uma lição que absorvi desde cedo e de forma marcante: uma mente que se adianta em relação às outras não é valorizada. Recebe uma desconfiança.
E recebe algo ainda mais angustiante do que a suspeita — recebe o tratamento reservado aos incapazes. Imagine a cena, pois ela é, ao mesmo tempo, engraçada e revoltante. Um adulto instruído, às vezes um doutor com sessenta anos, percebe que a criança à sua frente entende temas que ele mesmo não domina e, por isso, opta por se comunicar com ela utilizando gugu-dadá. É o homem que, ao se deparar com um relógio suíço, pega um martelo para consertá-lo e ainda se vê como alguém delicado. Eu ouvia aquela voz incômoda, aquele tom pequeno e grudento de falar, e sentia a humilhação subir pela nuca, pois todos ao meu redor estavam observando e chegando à mesma conclusão: se o velho se dirige assim ao garoto, é porque o garoto deve ser um infeliz. Um gesto singelo de afeto, quando mal empregado, era capaz de desmoronar, diante de uma sala repleta, a pouca autoridade que eu tinha. A compaixão, quando se desvia da sua verdadeira essência, fere mais profundamente do que o desprezo — pois o desprezo, ao menos, tem a decência de ser honesto.
No entanto, o golpe final veio de uma palavra, e teve origem em quem me amava. Minha mãe, impulsionada pelo amor e pela necessidade de garantir minha proteção nas interações sociais — visando cortar as ofensas que eu recebia —, compartilhou com todos que eu tinha autismo. Naquele instante, em cada ambiente por onde percorri, desmoronou de uma vez a posição que eu havia edificado com tanto empenho. Deixei de ser o rapaz complexo e radiante. Comecei a ser o maluquinho da rua. É essencial que eu seja exato, uma vez que a exatidão é a única forma de cortesia que possuo: não peço que usem expressões mais severas; apenas solicito que as situações sejam nomeadas como realmente são. Chamamos a microcefalia de doença sem qualquer dúvida; já ao autismo, que muitas vezes apresenta a mesma complexidade de compreensão, atribuirmos o eufemismo de condição, como se a gentileza do termo pudesse curar algo. Não existe cura. A criança já está informada. O que o eufemismo revela a você não é bondade — é que até mesmo os adultos que a apreciam não terão a coragem de lhe dizer a verdade. Uma criança que aprende a não acreditar na palavra das pessoas ao seu redor, na verdade, acaba aprendendo a não ter confiança em nada.
Além disso, há um equívoco ainda mais sério: o de imaginar o autista como uma pessoa que possui um déficit homogêneo. Ele não é uma falta uniforme; é uma aglomeração. É luminoso onde há amor e deserto onde não há sentimentos. Há até uma variação — o savant — em que o autismo se apresenta de forma oposta: em vez da redução da inteligência que os manuais geralmente indicam, a inteligência se foca em um único aspecto e se desenvolve a partir dele. Essa foi a minha situação, e tem um aspecto engraçado nisso. Eu, que fazia cálculos de física quântica por prazer, era — e continuo sendo — um autêntico desastre em matemática do segundo grau. Sem dúvida: a mesma pessoa que desenhava buracos de minhoca se via preso em uma equação da escola. Não é uma contradição; é a norma do autista. A habilidade dele não é imutável, mas sim relacionada à vocação. Só aprendi as equações quando a física começou a demandá-las de mim; foi nesse momento que o desejo, de repente, abriu a porta que o dever manteve trancada por anos. Não é que a pessoa autista não consiga. Ele só entra pela porta que o interesse o chama pelo nome.
Quem ensina uma criança autista percebe isso já no primeiro dia. Há um meme — e todo meme autêntico pode ser visto como uma espécie de metafísica popular — que diz que todo autista nutre uma grande admiração pelo Sonic. Assim, quando o Sonic se torna o exemplo utilizado na aula, o conhecimento que antes não se consolidava, de repente se ajusta, já que encontrou um ponto de ligação com algo que já fascinava a criança. Eu dou aulas mergulhando no universo de cada aluno, e isso trazia bons resultados. O erro dos pais e dos educadores é o inverso: buscar consertar a falha. Contudo, o problema levará anos para ser solucionado, e deve seguir assim; enquanto isso, cultiva-se o que a criança aspira a se tornar. O fogo é alimentado; não se deve discutir com a cinza. O pai atual, por sua vez, adota uma abordagem distinta, aplicando um método particular, que aqui era conhecido de maneira direta — a célebre F.P.N., a formação de porra nenhuma: um conjunto de aulas breves que não levam a nada, se acumulando sobre a criança como se fossem tijolos empilhados sobre uma muda.
E ele organiza as coisas por um motivo que raramente reconhece. O filho é sobrecarregado com aulas — uma agenda mais cheia do que a de um candidato em ano eleitoral — não para suprir as necessidades da criança, mas para preencher um vazio que ele nunca teve que enfrentar dentro de si mesmo. Transferem a responsabilidade pela educação e nomeiam isso como cuidado. O que se adquire não é competência; é ressentimento. A criança autista, percebida como um desafio a ser resolvido e não como um ser a ser acolhido, começa a sentir ressentimento por aqueles que tentam mudá-la. Já ouvi, de diversos meninos que atendi, uma frase que resume todo o estrago — dita aos próprios pais, em voz alta, sem defesa: por que eu sou isso aqui? É a dor que se dirige ao interior, a criança repetindo sobre ela mesma o julgamento que escutou a vida inteira, enquanto os pais enumeravam para os outros suas dez imperfeições, sem nunca citar uma única qualidade positiva.
E há uma lembrança que guardo comigo, dessas que nunca perdem sua intensidade. Com apenas oito anos, desenvolvi uma teoria — com um nome que pode soar infantil, mas que era inteiramente minha — sobre o que teria acontecido no princípio do universo, quando a matéria e a antimatéria se enfrentaram. As professoras arregalaram bem os olhos e comentaram que aquilo era uma criação de um físico; citaram prêmios, indicações e a continuidade do trabalho. Retornei para casa segurando aquilo como se estivesse carregando um verdadeiro tesouro nas duas mãos. Meu pai lançou um olhar, minha mãe fez o mesmo, e a resposta foi a mesma, tão árida quanto o solo em julho: não é mais do que sua responsabilidade. Naquele instante, algo dentro de mim se quebrou em silencio. Naquele instante, percebi que não existia um público para encantar dentro de casa. E, ao longo do tempo, aprendi uma lição ainda mais desafiadora: que fui concebido da mesma forma que se cria um ativo financeiro — escutei, de modo explícito, que minha missão era cuidar deles na terceira idade e que, se eu falecesse, fariam outro semelhante. Não estou escrevendo isto para resolver questões pendentes do passado. Escrevo porque é essencial que a escuridão seja de fato escuridão, sem enfeites, para que o que surgiu depois possa ser entendido pelo que realmente foi: um milagre.
A partir daquele instante, fechei uma porta. Quando completei oito anos, decidi que queria viver de maneira independente, e assim o fiz: deixei de compartilhar com meus pais o que acontecia na minha vida, a qual se tornou, para eles, uma névoa formada apenas por fragmentos. Foi uma deserção, e toda deserção é uma ferida. Mas era também, sem que ninguém desejasse, a primeira semente de uma liberdade. O menino que renuncia à validação do lar, assim como quem fecha uma janela, nota que é necessário construir seu próprio universo. Muitas pessoas se perdem nessa escuridão. Alguns dos presentes começam a mostrar sua verdadeira natureza — e eu, sem notar, começava a me transformar na pessoa que sou hoje.
Por que os adultos se comportam dessa maneira? Há uma explicação que adquiri ao observar os animais e que, com atenção, também se aplica a nós. Certa vez, um gorila adulto, que havia saído da selva e estava ferido e endurecido pelas dificuldades da vida, foi colocado na jaula de outros que foram criados em cativeiro e nunca experimentaram desafios. Os escravizados, sem jamais terem passado um único dia fora da jaula, tentavam dominar a situação — e eram derrotados um a um, pois ele possuía o conhecimento da vida, enquanto eles só conheciam a prisão. Dessa situação, podemos chegar a uma conclusão incômoda: o mais velho tende a querer controlar o mais novo que o supera, pois tem dificuldade em aceitar a possibilidade de ser superado. Seus pais dificilmente o verão como alguém superior, não importa o quão longe você chegue, pois ainda enxergarão a criança que um dia conheceram. Não é uma maldade intencional; é um instinto adquirido de um animal que já passou por muitas experiências. E é por isso que, no debate — e me refiro especificamente à batalha de ideias, à argumentação oposta —, o jovem que se empenhou nos estudos se destaca em relação ao idoso que apenas viveu o tempo.
Isso é claramente visível no campo intelectual. Hoje em dia, todos procuram a orientação do especialista; ele se tornou a figura divina da cidade moderna, assim como o professor é uma espécie de pequeno deus diante de seus alunos. Desmontá-lo em público não é ganhar um debate — é usurpar sua autoridade, é se tornar, diante dos espectadores, o novo detentor do conhecimento. Por essa razão, a reação de quem foi refutado raramente se traduz em um contra-argumento; geralmente, trata-se de uma tentativa de deslegitimação. Quando um jovem consegue vencer um debate contra um professor com mestrado, o docente não apresenta argumentos mais robustos: ele recorre a um rótulo. E o rótulo mais eficaz estava bem ali, a um toque de distância — ele apresenta autismo. Uma só palavra, e toda a autoridade que o menino havia conquistado se esvai. Foi exatamente isso que me aconteceu: assim que o diagnóstico foi anunciado, toda a imagem que o grupo tinha de mim desmoronou em um único dia, e eu precisei recomeçar do zero.
É preciso declarar que as atividades que aqueles professores realizavam não consistiam em ensinar. Era um modo de catequese por meio de outros métodos. Utilizavam o nome de Paulo Freire para guiar as crianças a uma ideologia, ao invés de oferecer a elas verdadeiro conhecimento; levavam os estudantes a apoiar o aborto, a eutanásia e a revolução, como se isso fosse, de fato, educação. Eu estive lá, como aluno, acompanhando o funcionamento da fábrica de dentro. Desmenti-los diante da turma era destruir a magia — e destruir a magia é algo que não se perdoa. Não os responsabilizo por terem pontos de vista diferentes dos meus; responsabilizo o método que troca a formação pela cooptação, que transforma a sala de aula em um púlpito e a criança em um adepto. Esse processo tem um nome, e esse nome não é educação.
Agora, o que realmente importa é o mecanismo. Uma criança que é vista durante toda a sua vida como algo inferior, como um simples déficit, acaba perdendo a esperança; e essa perda de esperança destrói sua vida. Acompanhe com atenção aquilo que se apaga. O que se perde na depressão não é a convicção de que não sou capaz. É a convicção de que não sou merecedor. A origem da depressão não está na incapacidade, mas sim na recusa em se ver como alguém que merece o que é bom. Denomino esse fogo verde como a energia vital: a potência venusiana da vitalidade, da esperança e do amor voltado para Deus e para o próximo. A depressão é similar a uma fogueira que se apaga aos poucos, chama por chama, até que sobre apenas a dolorosa sensação de não ter valor para viver. E, para reconhecer isso, o antigo modelo dos quatro temperamentos não é adequado: perguntar se uma alma é colérica ou melancólica é como indagar se a água está morna ou fria, quando, na verdade, o que há no copo nunca é água pura, mas sim água mesclada com diversas outras substâncias. Por esse motivo, eu considero sete, e não quatro. A alma é uma mescla, e não um elemento isolado.
Eu fui para esse fundo. Perdi a fé em Deus por volta dos onze anos; aos doze, já havia me tornado um pequeno cético, frio e orgulhoso — e irei compartilhar o que observei, sem transformar essa percepção em uma regra: notei, mais tarde, em cada ateu que conheci, um certo grau dessa mesma falta, não porque a ausência de crença deva gerar desespero, mas porque uma vida sem um propósito transcendente não possui nada que o desprezo do mundo não consiga afetar. Remova o transcendente, e toda ferida se aprofunda, pois já não existe mais um chão firme onde ela possa se acomodar. Eu andava à noite pelas ruas da minha cidade, por volta das oito ou nove horas, sozinho, buscando cansar o corpo para tranquilizar a mente. Acreditava que meu destino seria insignificante, sem deixar qualquer herança, como se tudo em minha vida não tivesse valor. O fogo verde estava prestes a se apagar. Era a derrota que se estendia — aquela em que a alma já não espera por uma reviravolta, pois esqueceu que reviravoltas são possíveis.
E, assim — e essa palavra "assim" é a mais significativa de tudo que escrevo — aconteceu a transformação. Perto do Natal, meu pai disse que iria me mostrar que Deus existe. Meu pai era, em toda a acepção da palavra, um autêntico mágico: um teurgo, um homem que tinha seu próprio sistema, que eu vi operar diante dos meus olhos. Naquela noite, ele conduziu um longo ritual que se prolongou por horas. Não vou detalhar o método, pois isso não é o que realmente é relevante e não é o que se transmite; apenas compartilharei o que percebi. Notei uma esfera de fogo branco pairando no ar, parecendo uma chama gerada pela eletricidade, com uma forma que era difícil de fixar os olhos devido à intensidade da luz. Notei meu pai quebrar um galhinho de romã — a planta de Vênus — em um chá, e a água se transformou completamente em leite. Em uma terra seca, durante o período de estiagem, com a boca seca de sede, o fogo não aparece do vazio e sobrevoa; a água não se converte em leite. E eu percebi. E algo dentro de mim se quebrou novamente — mas desta vez para o alto — com uma única certeza: Deus está aqui.
Tolkien deu a esse momento um nome, e nenhum outro se encaixa melhor. Ele o chamou de eucatástrofe: não é o final feliz que desconsidera a dor, mas sim a reviravolta surpreendente e repleta de alegria, a graça que aparece justamente quando a queda parecia inevitável, proporcionando-nos um momento de Alegria que transcende os limites deste mundo, tão intensa quanto a própria dor. Foi exatamente isso. O que se desmorona em meu interior eu denominaria posteriormente de destruição do microcosmo: o instante em que o mundo interno de uma pessoa — que, para ela, é tão vasto quanto o universo — enfrenta seu próprio apocalipse e requer ser refeito desde o começo. Naquela noite, meu pequeno universo desabou e se reconstruíu sobre uma nova fundação. O menino, que se sentia excluído, embora fosse lutador, estava sem ânimo. Sob aquele fogo, ouviu aquilo que a desesperança lhe dissera que era impossível: você tem esperança; o mundo tem esperança; viva. E o fogo verde, que eu havia considerado apagado, voltou a brilhar — não porque eu tivesse merecimento, mas porque a graça não pede contrapartida.
E aqui se manifesta uma ironia que apenas a sabedoria da graça conseguiria transmitir. O mesmo pai que me criou com a indiferença de quem cuida de um objeto, o mesmo homem cuja frieza me ensinou a desvalorizar, foi o canal pelo qual Deus se fez presente na minha vida. Não me solicitou que ficasse; pediu-me para explorar — girar como um pião por todas as crenças do mundo e voltar à Igreja, pois ali estava a verdadeira fé. Eu mencionei que passaria por todas. Eu consegui ser aprovado. E tudo o que ele previu naquela noite se realizou: passei pelas maiores religiões e voltei ao ponto de partida, que, na verdade, era o único destino final. Meu pai já não está mais entre nós. E eu, que tinha tanto a reclamar, preservo dele, acima de tudo, esta dívida irreparável: através de mãos imperfeitas, ele me trouxe de volta a Deus. A graça atua dessa forma — não espera por pessoas que sejam merecedoras; utiliza aquelas que estão à disposição.
A partir daquela noite, o desprezo não teve mais domínio sobre mim. Que venha qualquer macaco velho dizer que não sou capaz; se estou claramente vencendo o debate, a opinião dele não altera em nada. Um homem que tem um propósito maior não fica isento dos impactos — ele se torna imune ao significado que esses impactos têm. Podem agredi-lo; não conseguem mais convencê-lo de que ele vale menos por causa disso. Essa foi a proteção que a eucatástrofe me trouxe: não a ausência de feridas, mas a impossibilidade de que elas tenham o mesmo significado que tinham antes.
Volto meu olhar para o jovem que ainda não experimentou sua noite — ao incel, ao solitário não voluntário, tantas vezes autista —, pois conheço sua dor de maneira profunda e quero me dirigir a ele com a delicadeza que essa palavra raramente recebe. Ninguém pediu para estar naquele barco. Não é a falta de beleza que leva a pessoa a estar ali, mas sim uma dificuldade real de se comunicar, muitas vezes provocada pelo autismo: tratam-se de indivíduos a quem a vida privou de oportunidades, e não de valor. É essencial entender, primeiramente, o que mudou no mundo ao nosso redor, pois uma parte da dor vem de uma conta que ninguém explicou a você. Nunca foi apenas sobre o bairro. A tecnologia ampliou as possibilidades para as mulheres em todo o mundo; a competição se tornou global e, com isso, o padrão de exigência cresceu. Hoje em dia, para ser escolhido por alguém que você considera um sete, é preciso ser um dez — ou, em um dia de sorte, um oito. Não é uma questão de vaidade dela; é a matemática precisa de um mercado que se ampliou até o infinito. O rapaz, que em tempos antigos teria feito amizade com alguém na própria redondeza, agora se ergue diante da concorrência global, e ninguém lhe avisou que as normas do jogo se alteraram.
A segunda transformação é mais grave e não se refere a uma falha das mulheres, mas sim a toda uma geração: a redução da imaginação, tanto a erótica quanto a intelectual. Uma sociedade que valoriza a dopamina superficial ensina a todos a optar pelo que é raso. Se você é apaixonado por Harry Potter, que tal dar uma chance ao Fausto? Se você tem a habilidade de ler, por que não aproveitar para descobrir o Paraíso Perdido? Contudo, o livro permanece fechado — tanto para os homens quanto para as mulheres, uma vez que o homem imaturo procura exatamente os mesmos prazeres fúteis. A pessoa que encontra sua única felicidade no sexo possui apenas isso; ela não saboreia o prazer do conhecimento, nem do divino, nem das grandes descobertas, nem da chance de fazer mudanças no mundo — e essa é a sua limitação, que, de maneira oculta, se torna a sua prisão. Às vezes, brinco dizendo que fui um Fausto ao contrário: em vez de trocar minha alma com o diabo por todo o mundo, quase ofereci o mundo ao desespero de forma gratuita, sem esperar nada em troca — até que a graça, essa de fato, apareceu espontaneamente, sem acordos nem exigências, e eliminou a dívida que eu considerava irreversível.
Eu mesmo já parei para refletir sobre uma mulher incrível — culta, brilhante, com uma fé evidente — se curvar em direção a um tipo tolo que fazia piadas, e senti a velha sensação de desorientação voltar: esse sujeito a conquistou, e eu estou aqui, parado. Naquele instante, eu entendia o incel de uma forma profunda, não pela ótica da plateia, mas a partir da realidade no chão. Não é que ele seja mais feio — muitas vezes, na verdade, ele não é —, mas porque viu a porta se fechando na frente de alguém que refletia sua própria essência, e disso aprendeu a mais antiga das lições enganosas: a de que não é digno. Sempre é a mesma frase que retorna — a mesma que a criança autista falou na presença dos pais —, agora somente enfeitada com afeto.
E aqui está a verdade que a época procura encobrir. Acusar o solitário como culpado pelos problemas do mundo é subestimar as bases da própria civilização. Os grandes construtores — teólogos, filósofos, pessoas de alto nível, santos celibatários — foram, em muitos casos, exatamente isso: indivíduos que não conseguiram, ou não quiseram, conquistar uma mulher, e que canalizaram essa energia para o divino, edificando catedrais do pensamento. Vários santos padres viveram em solidão devido a infortúnios; muitos gênios também passaram pela mesma situação. O nerd é um indivíduo mais reservado que realiza conquistas impressionantes. Negar isso equivale a contradizer quase todas as bases da cultura em que os próprios acusadores estão inseridos — é como cortar o galho e culpar a árvore pela queda.
Assim, a doença nunca foi o celibato. Trata-se da monomania — focar todo o seu desenvolvimento na conquista de uma mulher, a ponto de um homem que poderia ter alcançado grandes feitos se ver paralisado por desejar, a qualquer preço, ser selecionado. Conheço uma pessoa que levantou todo o seu corpo em uma academia como se estivesse erguendo um outdoor iluminado — e o outdoor anunciava, com toda força, um produto que ninguém queria comprar; e o homem, exausto, chegou à conclusão de que o problema estava nele, quando na verdade o erro era ter limitado a vida a uma simples propaganda. Cure a monomania e o celibato voltará a ser como era para os santos: uma fornalha, e não um sepulcro. Tenha muitos valores espirituais, e a única falta já não o define. O erro do solitário não está em estar só; mas sim em ter se desenvolvido apenas para não estar mais.
E eu vou afirmar, desafiando meu próprio desespero do passado, que o amor entrou na minha vida exatamente no momento em que parei de me ver como algo inferior a tudo. As garotas me elogiavam, dizendo que eu era o mais bonito da turma, mas nenhuma delas se aproximava. E eu, com a lógica distorcida de quem já sofreu, tirei disso a conclusão de que era indesejável, confundindo a distância com um julgamento, quando, na verdade, ser admirado à distância e ser realmente escolhido são coisas bem diferentes. Mais tarde, uma amiga de infância que sempre achei bonita e da qual nunca tive coragem de me aproximar por me sentir inferior, me contou algo que eu não conseguia perceber. Questionou-a de maneira direta se, em algum momento, alguém teve a audácia de se chegar a mim; em seguida, repeti a mesma pergunta diretamente a ela. Ela ficou com as bochechas vermelhas, riu e confirmou que sim — faz anos. Foi um amor lindo, durante uma fase agradável. A porta nunca foi tão impossível de atravessar quanto o desespero proclamava; estava apenas do outro lado de um medo que eu via como um obstáculo.
Então, meu amigo, não se cobre tanto. Não se deixe levar pela pressão daqueles que tentam colocar sobre você toda a responsabilidade pelos problemas do mundo, pois são exatamente essas pessoas que não têm nada além de prazeres efêmeros e não perdoam quem busca algo mais significativo. E entenda, acima de tudo, quem se aproveita da sua aflição. O adversário — o porta-voz do vazio — almeja exatamente isso: a erradicação da paixão pela natureza, o desdém por Deus e pelo próximo aniquilado desde o princípio, pois um homem que abandona isso está a apenas um passo de perder tudo. Já perdi um amigo por causa desse momento, e não há um dia em que eu não o recorde. O desespero é a arma mais silenciosa do maligno: age de forma discreta, sem fazer alarde, convencendo gradualmente uma pessoa de que sua vida não possui valor — essa é a mentira mais antiga e a mais letal. Não dê ouvidos a ela. Ela se comunica por meio das palavras de alguém que ignora o final da história.
Na verdade, há um desfecho, e este já foi criado. Tolkien dizia que o Evangelho simboliza a eucatástrofe de toda a jornada da humanidade — a reviravolta surpreendente e inacreditável, em que a Sexta-Feira Santa, a mais importante das derrotas, se transforma em algo oposto no domingo, e a morte, que parecia estar dominando, é mostrada como vencida pela vida exatamente no instante de sua vitória. Cada pequena eucatástrofe — a minha noite de fogo, o seu amor que ainda não se revelou, a porta que você insiste estar trancada — é um reflexo daquela. E é por isso que ninguém deve ter a autoridade para determinar o encerramento de sua própria vida durante o período mais obscuro: a essência da eucatástrofe é exatamente surgir quando tudo parecia fadado à derrota, sem que tivéssemos merecido, sem que pudéssemos perceber sua aproximação. Você não é o que os macacos mais antigos disseram. Você é um sonho de Deus — idealizado por Ele e abençoado com a incrível e admirável habilidade de sonhar também: de criar, de refletir, de dar vida a universos. A chama que a humanidade busca apagar é a mesma chama com a qual você foi destinado a viver. Guarde-o. A mudança ocorre — aparece quando menos se espera, e é exatamente isso que a caracteriza como uma transformação. Mantenha viva a chama verde: é por meio dela que Deus o concebeu, e é nesse lugar, onde o Senhor resplandece, que não existem desprezo, escuridão ou morte que possam se aproximar.
REFERÊNCIAS
GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto: uma tragédia — primeira parte. Tradução de Jenny Klabin Segall; apresentação, comentários e notas de Marcus Vinicius Mazzari. Edição bilíngue. São Paulo: Editora 34, 2004.
MILTON, John. Paraíso perdido. Tradução, posfácio e notas de Daniel Jonas; apresentação de Harold Bloom. Edição bilíngue. São Paulo: Editora 34, 2015.
TOLKIEN, John Ronald Reuel. Sobre histórias de fadas. Tradução de Ronald Eduard Kyrmse. São Paulo: Conrad Livros, 2006.

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