O HACK DA REALIDADE - DEUS CULTURA, VOLUME 3
O sincromisticismo, a realidade que compartilhamos, e a única Porta que se abriu internamente, nos dois livros anteriores aprendemos que a imaginação é uma janela e não uma fuga, e que Deus se permitiu ser absorvido em todas as imagens da cultura sem se encaixar em nenhuma, assim como o mar se encontra na concha. No entanto, existem aqueles que testemunharam a mesma experiência que nós — Deus se manifestando pelo desperdício, as convenções pegando fogo nas produções cinematográficas — e chegaram à conclusão totalmente contrária: que a realidade está à nossa disposição para ser manipulada, transformada e reescrita, e que o objetivo final é ascender a deuses. É a mais sutil e a mais arriscada de todas as gnoses, pois é a que se aproxima mais da verdade. Este livro representa a resolução de pendências com ela, além de revelar que o único verdadeiro hack da realidade já ocorreu — e, em vez de desmoronar o mundo, o reestruturou internamente.
Gabriel G. Oliveira
10/2/2026168 min ler


O único que atravessou a porta por dentro
Iniciemos a partir do ponto em que o segundo livro terminou, sem reabri-lo: foi comprovado ali que toda a cultura é uma catedral de símbolos onde o Verbo se ocultou, e que nossa missão é encontrar o mar em cada concha, sem confundir o mar com a concha. Certamente — há uma subcultura completa, oculta, à sombra das sombras, que se aproximou demais dessa verdade e a encontrou de uma forma que deve ser confrontada de maneira direta, pois é exatamente assim que a nossa era se desvia. Eles são conhecidos como sincromísticos, um grupo de pessoas que dedicou sua vida a perceber as rimas ocultas da cultura pop, as coincidências que são grandes demais para serem mero acaso, os símbolos que permeiam milhares de filmes sem que ninguém os tenha agrupado intencionalmente. E, ao se depararem com isso, não se ajoelharam, como quem descobre um tesouro enterrado, mas arregaçaram as mangas, como quem encontra uma ferramenta. Para eles, a realidade não é um presente a ser aceito; é um código a ser descoberto. E o mais frustrante é que, ao longo do trajeto, mencionam afirmações que são quase completamente verdadeiras — tão verdadeiras que este livro precisaria endossá-las — até chegar à última frase, onde tudo se transforma completamente. Precisamos desmontar essa frase final.
Pois o erro que se distancia da realidade não causa temor em ninguém; o materialista convicto, que acredita que Superman é apenas uma ilustração e que a missa não passa de uma encenação, está tão distante do risco quanto está afastado do paraíso. Quem provoca medo é aquilo que se aproximou. O sincromístico é o gêmeo gnóstico de tudo o que abordamos nos volumes anteriores: ele percebeu que a imaginação se conecta com o real, observou que existem mundos possíveis, reconheceu que uma inteligência não local rege os padrões, notou que a cultura rejeitada como lixo está impregnada da mesma energia que impulsionou as antigas religiões — e tudo isso é verdade, é a tese destes livros, é o que temos afirmado ao longo de dois volumes. Entretanto, onde nós afirmamos recebe e adora, ele propõe hackeia e torne-se deus; onde nós declaramos que o Verbo Se fez carne, ele afirma que nossas ideias são a carne da realidade; onde nós dizemos que a Porta é uma Pessoa, ele sugere que sejamos nós a própria porta. Entre as duas conclusões não há espaço nem para um fio de cabelo e cabe o inferno por completo. A única forma de evidenciar a diferença é caminhar com ele, passo a passo, pelo caminho que ambos percorremos juntos, até chegar ao momento exato em que as mãos se distanciam — a sua se fechando em torno do Fogo que deseja usurpar, enquanto a nossa se abre para o Fogo que anseia por acolher.
E existe algo tocante no fato de que seja precisamente nessa subcultura marginalizada, na periferia da periferia, no que os próprios sincromísticos se referem, com Philip K. Dick, o lixo — o restante do restante, o desrespeitável entre os desrespeitáveis —, que se inicie esta luta pela verdade definitiva sobre a realidade. Porque é exatamente o lugar onde Deus prefere se manifestar. O segundo livro já o atormentou, e o terceiro não se cansa de reiterar: Deus se manifesta por meio do que é considerado lixo, opta pelo que o mundo descarta, oculta o tesouro no lugar mais ordinário, transforma a pedra rejeitada na pedra fundamental. Não é por acaso, mas sim uma lei espiritual, que a questão mais elevada da metafísica — a realidade é algo que recebemos ou que criamos, somos a imagem de Deus ou nos tornamos divinos — esteja sendo discutida, atualmente, não nas universidades renomadas, que consideram esse tema resolvido ou irrelevante, mas nas periferias do conhecimento, entre intérpretes de filmes populares e exploradores de simbolismos em videoclipes. Os doutores respeitáveis acreditam que já têm todo o conhecimento e, por isso, não percebem o que realmente importa; já os marginalizados da cultura, que não têm nada a perder, encontram as questões genuínas justamente porque estão abertos a observar aquilo que os mais sérios ignoram. É entre os marginalizados e os excluídos da cultura, entre aqueles que buscam o conhecimento, que a sede de Deus hoje ardentemente se manifesta — e é a esses, e não aos escribas satisfeitos, que este livro se dirige com mais esperança, pois aquele que erra por estar sedento está mais próximo do Reino do que aquele que acerta por não ter desejo.
É importante, portanto, descrever com clareza o que é essa situação, pois ela possui um nome, uma data e um endereço. Conhecê-la é um passo significativo rumo à sua cura. O termo foi criado em agosto de 2006 por um sul-africano chamado Jake Kotze, em um blog com um nome deliciosamente huxleyano, Admirável Nova Ordem Mundial. Ele o definiu em uma frase que poderia inaugurar um tratado de misticismo: a habilidade de perceber coincidências significativas no que parece ser mundano, imbuídas de um significado místico ou esotérico. Observe a união das duas palavras que compõem o nome: sincronicidade, aquele conceito de Jung que se refere às coincidências repletas de significado, nas quais a alma para e afirma que isso não pode ser apenas um acaso, e misticismo, o ato ancestral de conectar-se ao sagrado. O sincromístico, assim, não se contenta em apenas registrar coincidências como se fosse um colecionador de selos; ele busca ser mudado ao interpretá-las, pois sabe, e tem plena razão nisso, que o verdadeiro misticismo não é apenas informação, mas sim transformação. Antes de Kotze, um pesquisador chamado Goro Adachi, em um site de nome babilônico, Etemenanki — que é o nome do zigurate, a casa do fundamento do céu e da terra —, já realizava a mesma prática sob outra denominação, a qual ele chamava de multicontextualidade: a habilidade de interpretar um mesmo acontecimento em diversos planos simultaneamente, como quem escuta em uma única nota todas as suas oitavas.
É fundamental reconhecer os méritos de Jung, pois dele origina-se a essência do conceito e sua verdadeira contribuição. Jung se referiu à sincronicidade como aquelas coincidências repletas de significado que não possuem nenhuma relação de causa e efeito entre si — como o sonho que prevê uma notícia, o número que aparece repetidamente ou o encontro que surge no momento preciso em que é necessário — e teve a ousadia de sugerir que, além da causalidade, que conecta as coisas através de um empurrão físico, existe um outro princípio que une as coisas pelo significado, um princípio de conexão acausal. Pois bem, isso é, em sua essência, uma das afirmações mais católicas que um psicólogo suíço já proferiu acidentalmente, pois se trata do nome secular e tímido de uma realidade que a fé reconhece pelo seu verdadeiro nome: a Providência. O que Jung se referiu como princípio de conexão pelo sentido, a fé denomina governo amoroso de um Pai que entrelaça a história não apenas através das causas secundárias, mas pela rede de significados, de forma que nada é mero acaso para aqueles que creem. Portanto, as coincidências repletas de significado são, muitas vezes, as rimas que Deus cria com Ele mesmo ao longo do tempo. O sincromístico recebeu de Jung a verdadeira intuição de que o sentido conecta o mundo tanto quanto a causa; errou apenas ao excluir dessa trama o Tecelão, deixando a teia sem aranha, o sentido sem Quem o represente, a providência sem Pai — uma inteligência não local, ele afirmará mais adiante, sem atrever-se a dizer de quem.
A multicontextualidade de Goro Adachi, a habilidade de interpretar um mesmo evento em diversas camadas simultaneamente, embora pareça exótica, é, palavra por palavra, a mais antiga forma de leitura da Igreja, apenas deslocada de seu contexto e colocada a flutuar no vácuo. A Igreja sempre interpretou a Escritura, e, por consequência, toda a história, em quatro camadas de sentido que se sobrepõem simultaneamente: o sentido literal, que se refere ao que realmente ocorreu; o alegórico, que revela aspectos de Cristo; o moral, que oferece ensinamentos para minha alma; e o anagógico, que indica o céu e o desfecho de todas as coisas. A travessia do Mar Vermelho é, simultaneamente e de maneira nenhuma contraditória, um acontecimento histórico, uma representação do batismo, uma lição sobre a transição do pecado para a graça, e uma prefiguração da entrada na pátria celestial — quatro contextos reunidos em um único evento, a mesma melodia ressoando em quatro oitavas. O sincromístico, ao assistir a um filme em vários ângulos simultaneamente, está, sem perceber e sem orientação, exercitando essa habilidade milenar da leitura em múltiplos níveis; o que lhe falta é um núcleo que organize os diversos planos e evite que eles se dissipem em um caleidoscópio confuso. Na interpretação da Igreja, todos os sentidos se dirigem para Cristo, que é a chave que harmoniza os quatro; já na leitura do sincromístico, os sentidos se dispersam sem um foco, cada um puxando para uma direção, até que a multicontextualidade, que deveria aprofundar a realidade, acaba por desintegrá-la — e aqui está novamente o pântano, a boa ferramenta nas mãos que perderam o seu Mestre.
E o resultado final dessa prática, afirmam eles com uma sinceridade que impressiona, é uma espécie de labirinto de realidades surreais conectadas por uma lógica onírica — não a lógica direta e rígida que utilizamos para pagar contas e atravessar a rua, mas a lógica dos sonhos, onde uma coisa pode ser outra sem deixar de ser o que é, onde tudo se harmoniza e nada é comprovado, e onde o mundo vai se transformando gradualmente, segundo suas próprias palavras, em um filme de David Lynch. Aqui está, de imediato, a semente genuína e o veneno que a acompanha. A essência verdadeira é que o mundo realmente se comunica por meio de correspondências, que existe uma lógica mais profunda do que a da vida cotidiana, que a realidade é um poema e não uma simples planilha — isso foi enfatizado de maneira incessante nos dois livros anteriores, e corresponde à própria doutrina dos vestígios, das rimas que Deus deixou na criação, da tipologia com a qual a Igreja sempre interpretou a história. O veneno é a palavra sonhadora livre e sem restrições: pois o sonho, ao não despertar, transforma-se em delírio, e a lógica dos sonhos, desprovida da base da realidade desperta, é precisamente a definição clínica da loucura e a definição espiritual da gnose — a rejeição do mundo comum em prol do mundo pessoal que me agrada. O místico cristão também percebe o mundo de uma forma transformada; no entanto, ele direciona o olhar para o interior da missa, em vez de fechá-lo para o que está fora dela.
E é interessante considerar a imagem que o sincromístico utiliza para descrever sua experiência — a de observar o mundo se transformando lentamente em um filme —, pois ela é mais real do que ele pensa, e a fé valida isso de uma maneira que cura. A realidade é, sem dúvida, semelhante a um filme: possui um enredo, uma direção, um propósito que se desenvolve ao longo do tempo, cenas que se conectam, personagens cujos destinos se entrelaçam, e um clímax para o qual tudo converge. O materialista é aquele espectador que vê a tela apenas como pontos de luz sem narrativa, que acredita não haver um enredo, que tudo é pura coincidência — e este é o indivíduo mais cego de todos, aquele que está na sala de cinema e afirma que não existe filme. O sincromístico reconhece que existe um filme, que há um enredo, que as cenas se conectam — e nesse aspecto está muito à frente do materialista. No entanto, por não ter conhecimento sobre o Diretor, interpreta o filme como um sonho desprovido de autor, uma sequência onírica de imagens que se interligam por associações e não por intenções, um filme de arte sem um sentido conclusivo — e, por essa razão, sua lucidez não lhe proporciona tranquilidade, apenas vertigem. O cristão assiste ao mesmo filme e tem conhecimento do Diretor: compreende que o roteiro possui um Autor que o elabora com amor e sabedoria, que as ligações entre as cenas são deliberadas, e que a trama, mesmo que se torne sombria no segundo ato, dirige-se para um desfecho positivo, uma eucatástrofe, porque o Diretor é bondoso e já nos revelou o final. E essa é a grande diferença entre enxergar o mundo como um pesadelo, confuso e sem propósito, e percebê-lo como o grandioso drama que realmente é: um filme em que todos nós somos, ao mesmo tempo, protagonistas e observadores, escrito por um Autor que nos ama tanto que entrou Ele mesmo na própria cena, tornando-se personagem do seu próprio enredo, para nos assegurar, de dentro, que a história tem um final feliz.
E existe uma imaginação sagrada que é totalmente oposta a essa lógica sonhadora e libertina, e a Igreja a preserva discretamente há séculos, sendo válido contrastá-la com a do sincromístico para que se perceba a distinção. Quando um santo orienta a oração, convidando a imaginar-se no estábulo de Belém ou ao pé da cruz, compondo a cena com todos os sentidos — vendo, ouvindo, sentindo o cheiro e permitindo que o coração seja tocado — isso é uma forma elevada de imaginação criadora. Esse poder de dar forma ao que é invisível é utilizado a serviço da verdade, fundamentado na realidade dos Evangelhos, e não se perde em devaneios pessoais. Ao rezar o rosário e passar pela imaginação os mistérios da vida de Cristo, a mente realiza algo semelhante ao que o sincromístico faz com os filmes — adentra uma narrativa até que seja moldada por ela — porém, a narrativa é genuína, o foco é Cristo, e o objetivo não é a distorção da realidade, mas a adaptação da alma àquela que é a realidade suprema. A distinção entre a imaginação do místico e a do sincromístico não reside na habilidade, que é idêntica, nem na intensidade, que pode ser similar; mas sim na direção e no foco. A imaginação sagrada é como um barco preso a um porto seguro, que pode navegar longas distâncias justamente porque conhece o caminho de volta; já a imaginação onírica e desamarrada é um barco sem âncora, que aparenta ser mais livre à primeira vista, mas acaba afundando na primeira tempestade, pois não possui nada a que se segurar. O sincromístico deseja o êxtase sem o suporte; o santo possui o suporte, e por isso o seu êxtase não o afoga. E o cais possui um nome, que é o mesmo de sempre: a realidade concedida por Deus, com o Verbo que Se fez carne e se tornou nossa âncora no centro dela.
Nesta passagem, o sincromístico realiza uma distinção que é quase brilhante, e que devemos acolher de braços abertos antes de fazer qualquer correção. Kotze afirma que as coincidências místicas nos filmes não indicam verdades absolutas, mas sim realidades possíveis, que podem surgir da psique coletiva e se manifestar em uma realidade comum. Tenha em mente essas duas expressões, pois elas representam o cerne de toda esta obra. A realidade consensual é um conceito que ele adota de Philip K. Dick, o profeta inesperado dessas três obras — de que o mundo em que todos habitamos é, pelo menos em seus traçados essenciais, uma realidade com a qual estamos em consenso, um pacto construído ao longo de séculos e por tantas mentes que se tornou rígido e se transformou em base. Realidades possíveis são aqueles mundos que ainda não fazem parte desse entendimento, mas que poderiam: Superman, Ultraman, a Terra-média, Camelot, tudo aquilo que habita a imaginação e se apresenta à realidade implorando para se tornar real. Certamente, o leitor que acompanhou os volumes anteriores já se deu conta, com alguma surpresa, de que essas realidades possíveis são nada menos que os mundos possíveis dos quais tanto nos referimos — as ideias divinas, o vasto reservatório de criações que reside na mente de Deus, as ilhas que o sonhador perspicaz não cria, mas revela. O sincromístico explorou, sem conseguir identificar, a metafísica tomista das ideias divinas. Até o momento, temos caminhado juntos.
É importante mencionar de que maneira o sincromístico está correto ao considerar Superman e Ultraman como figuras reais, pois não se trata de uma ideia tão absurda quanto parece; o segundo livro já oferece a solução para essa questão. Ao afirmar que esses heróis são reais, ele não está se referindo a um homem com capa voando sobre uma cidade; ele está expressando, de maneira um tanto confusa, que Superman é uma possibilidade concreta, uma daquelas ilhas no vasto oceano de mundos que Deus poderia criar, uma realidade divina que a imaginação não fabricou do zero, mas sim descobriu por meio da exploração — e nesse ponto, ele está absolutamente certo, pois isso se liga à metafísica das ideias divinas que já abordamos. Superman é real da mesma forma que um triângulo perfeito: não pode ser encontrado em nenhum lugar do mundo físico, mas é mais sólido e verdadeiro do que qualquer triângulo desenhado com giz, pois existe como um objeto de pensamento e, em última análise, como uma possibilidade na mente de Deus. A santidade que resplandece em um herói é verdadeira, o bem que ele representa é autêntico, o que ele imagina como possível é genuíno — tudo isso é fato, e quem se ridiculariza disso é superficial. O erro do sincromístico não está em afirmar que o possível é real; está em crer que, por meio de sua vontade e concordância, pode transformar o possível em algo existente, puxar o Super-Homem do oceano das ideias para a praia da matéria apenas pela força da fé. O que é possível é real enquanto possibilidade, e isso já representa muito, sendo a essência de toda a imaginação; contudo, a transição do possível para o real é um privilégio exclusivo de um único ser, aquele que possui o Fogo Secreto, e não pode ser adquirido por meio de crenças coletivas. O sincromístico tem razão ao afirmar que Superman é real; porém, erra ao pensar que pode trazê-lo à vida. A distinção entre o real-possível e o real-existente é, mais uma vez, a diferença entre o que nos é concedido por Deus e o que tentamos forçar a sair de suas mãos.
É importante atribuir a essa intuição das realidades possíveis uma genealogia respeitável, pois não se trata de uma fantasia esotérica, mas sim do ponto culminante da metafísica cristã, respaldada por séculos de pensadores. Agostinho, ao estudar os platônicos e reconhecer o que havia de verdadeiro em seus ensinamentos, apresentou a ideia de que as ideias de todas as coisas — as rationes aeternae, ou razões eternas — não existem em um céu distante, como defendia Platão, mas habitam na mente de Deus. Elas constituem o próprio Deus conhecendo as inúmeras maneiras de ser imitado pelas criaturas. Tomás de Aquino recebeu essa herança e a aprimorou com a precisão de um ourives: Deus, ao conhecer perfeitamente sua própria essência, conhece todos os modos possíveis de compartilhá-la, e esses modos são as ideias divinas, os arquétipos de tudo o que existe e de tudo o que poderia existir. E Boaventura, o franciscano de coração fervoroso, apresentou-lhe sua forma mais sublime, o exemplarismo: toda criatura é uma sombra, um vestígio ou uma imagem de um modelo eterno que habita no Verbo, de tal maneira que o universo inteiro é um livro cujas letras remetem, uma a uma, às ideias divinas das quais são a cópia no tempo. Séculos depois, um filósofo conhecido como Leibniz levaria essa ideia ao extremo, imaginando a compreensão divina contemplando a infinidade de mundos possíveis, todas as combinações compatíveis de seres, para escolher e criar o melhor dentre eles. Pois bem, é nesta corrente intensa — Agostinho, Tomás, Boaventura, e muitos outros — que o sincromístico se instala sem perceber, ao afirmar que seus heróis são realidades possíveis surgindo de um além. Ele está, de forma atrapalhada, redescobrindo as ideias divinas. A única diferença entre ele e os doutores é uma só, mas abrange tudo: para os doutores, os mundos possíveis residem na mente de Deus e aguardam seu faça-se; já para o sincromístico, eles flutuam em uma psique coletiva anônima e esperam nosso consenso. Um prende o que é possível no Verbo; o outro o desvincula no vácuo. E essa é a distinção entre uma metafísica que fundamenta o mundo e um sonho que o desfaz.
É importante pausar por um momento para refletir sobre a noção de realidade consensual, pois ela é mais profunda do que aparenta e guarda uma verdade que a fé pode esclarecer. Dick e o sincromístico que o acompanha estão corretos ao afirmar que o mundo em que vivemos é, em grande parte, um acordo — um entendimento mútuo, mesmo sem a necessidade de assinaturas, sobre os contornos essenciais da realidade, e é esse consenso silencioso que faz com que o chão seja realmente chão sob os pés de todos. O erro consiste em pensar que, por ser consensual, o real se torna arbitrário, flexível, uma convenção que pode ser apenas renegociada. Não. O consenso acerca da realidade não é semelhante ao acordo sobre de que lado da rua se deve andar, uma norma que poderia muito bem ser diferente; trata-se do reconhecimento coletivo de uma realidade que nos precede e nos impõe, a concordância de bilhões de olhos que, apesar de todas as suas divergências, observam o mesmo sol nascer porque o sol realmente está presente. A realidade consensual não é consensual porque a criamos em conjunto, mas sim porque a recebemos em conjunto — é o eco, em mil mentes, de um único real criado por Deus. E é por isso que ela se opõe, e é por isso que nos machuca quando insistimos em ir contra ela: não por ser uma tirania a ser derrubada, mas por ser um presente que deve ser respeitado, o presente de um mundo compartilhado sem o qual não haveria nem linguagem, nem amor, e nem mesmo a chance de discordar. Quem desconstrói o consenso não liberta a mente; isola-a, aprisiona cada um em seu próprio universo e corta precisamente a ponte que possibilitava a dois indivíduos pronunciarem a mesma palavra e compreenderem a mesma ideia.
Há uma ideia que o sincromístico absorve de Jung e que merece ser analisada, pois representa a distorção precisa de uma realidade cristã: a de que as realidades possíveis surgem da psique coletiva, de um inconsciente que é comum a toda a humanidade, um fundo compartilhado de onde nascem os arquétipos e ao qual todos estamos interligados além da consciência individual. Certamente, a percepção de que os seres humanos estão interligados, de que existe uma conexão mais profunda que a simples soma dos indivíduos, de que não somos ilhas, mas partes de um único corpo — essa percepção é absolutamente verdadeira e representa uma das mais elevadas doutrinas da fé. Entretanto, a fé não é chamada de psique coletiva; é chamada de comunhão dos santos, de corpo místico de Cristo. E a distinção é tão marcante quanto a diferença entre uma piscina e um organismo vivo. A psique coletiva, segundo Jung, é um fundo impessoal, um reservatório de imagens, um porão comum no qual as almas se conectam de maneira inconsciente, sem se reconhecerem — uma comunhão de sonhos, anônima e cega. A comunhão dos santos constitui um corpo pessoal, dinâmico e interconectado, no qual cada membro possui sua singularidade e importância única. Todos estão unidos não por um laço inconsciente, mas pela fluidez de uma única vida, a graça, que provém da Cabeça, que é Cristo, e se espalha entre todos os membros, tanto os que estão na terra quanto os que estão no céu. Na psique coletiva, as almas se entrelaçam e se dissipam; no corpo místico, elas se juntam e se reencontram. Uma dissolve a pessoa na coletividade; a outra integra a pessoa na convivência. As realidades possíveis não surgem de um inconsciente desconhecido que se agita por conta própria; elas vêm da mente de Deus e são apresentadas à liberdade dos santos, que contribuem com a graça não se afundando em um porão onírico, mas amando, rezando e servindo, dentro do único Corpo que conecta o céu e a terra em uma só vida.
E o sincromístico, em sua busca pelo segredo da realidade, chega ao mesmo ponto onde todas as antigas sabedorias culminaram, e o denomina de forma oriental: o som criativo do universo, o Aum, o mantra primordial do qual tudo teria surgido, a vibração que sustenta o mundo. E é realmente impressionante, pois é completamente verdade, e só lhe falta uma palavra para se tornar um cristão. As tradições antigas perceberam em diversos lugares que a essência da realidade é sonora, que o mundo foi verbalizado antes de existir, que há uma Palavra, um Som, um Verbo que originou tudo — e nesse ponto acertaram, captaram a essência do prólogo de João sem saber. O cristianismo não afirma que o universo surgiu de uma vibração impessoal ou de um som sem voz; ao contrário, afirma que no princípio estava o Verbo, a Palavra, e que todas as coisas foram criadas por essa Palavra. Deus formou o mundo com Sua declaração, “faça-se a luz”, e a luz se fez. Assim, tudo que existe é, de fato, uma palavra proferida por Deus, um som da boca do Criador que continua ecoando enquanto as coisas perduram. O Aum que o sincromístico busca, a sonoridade criativa do universo, realmente existe — mas não é um zumbido cósmico anônimo a ser sintonizado pelo meditador; é a voz de um Pai que se manifesta, o Verbo que possui nome e rosto, e que, em um ato supremo de amor, não permaneceu apenas como o Som que gera lá do alto: tornou-se audível, fez-se carne, tornou-se um homem que se pôde ouvir conversando em uma estrada poeirenta. O mantra original do universo aprendeu a chorar em uma manjedoura; o Som que deu origem às estrelas disse, com lábios humanos: venham a mim todos os que estão cansados. Esse é o verdadeiro Aum, que não é encontrado meditando no vazio, mas sim escutando-se enquanto se ajoelha diante do Evangelho.
Mas observe a direção que ele toma com a distinção, pois é nesse momento que a mão começa a se fechar. Para nós, um mundo que pode ser real se concretiza de uma única maneira: quando Deus, o único que possui o Fogo Secreto, ordena que se faça, e o que é possível ganha vida como um presente, algo que vem de fora, por meio de um ato criador que nenhuma criatura é capaz de realizar. A conexão entre o que é possível e o que se torna real é a palavra criadora de Deus, e apenas ela. Para o sincromístico, não: a ligação entre o possível e o real somos nós. São as nossas ideias, a nossa arte, a nossa filosofia e a nossa concordância coletiva que trazem o possível para o âmbito do consensual e lhe dão vida. Ele afirma, de maneira clara, que nossas ideias e conceitos acerca da realidade constituem a própria estrutura da realidade — e ele mesmo nota, em um instante de clareza, que esse é o momento decisivo, a afirmação que quebra com tudo que o cristianismo e as filosofias antigas ensinaram, nas quais a realidade é um fato a ser aceito e aprendido, e não uma substância a ser moldada pela mente de quem a contempla. É a antiga serpente novamente, agora disfarçada de teoria cultural: não aceitareis a realidade, mas construireis a realidade; não sois a imagem do Criador, mas sim o Criador. O abismo que existe entre participar do ato criador, como uma imagem, e usurpar o ato criador, como um ladrão, é exatamente o que separou Aulë de Melkor: a mão que oferece em contraste com a mão que se apega.
E o sincromístico indaga, com um semblante que indica que está encerrando a discussão: mas isso não é o que todo artista e todo filósofo sempre desejaram, criar novas realidades? A resposta é não, e a distinção reside entre o subcriador e o demiurgo, uma diferença que já foi delineada no segundo livro com Tolkien. O verdadeiro artista não cria uma nova realidade que substitua a existente; ele desvenda a essência desta, desperta a percepção do que já estava presente e não percebíamos, acrescenta ao mundo uma nova perspectiva, e não um mundo concorrente. Quando um grande romancista cria uma cidade que nunca existiu, ele não está distorcendo a realidade; ele está, por meio da ficção, expressando uma verdade sobre a realidade que uma narrativa direta não conseguiria atingir — subcria, de forma similar à imagem que imita o Criador, um mundo que reflete este e o ilumina. O verdadeiro filósofo, da mesma forma, não cria a verdade, mas a descobre; ele se ajusta ao que é e a torna aparente. O que o sincromístico se refere como construir novas realidades, quando é legítimo, é isto: a subcriação que enriquece o real sem substituí-lo, a arte que adiciona vitrais à catedral do mundo. Entretanto, o que ele realmente sugere, o hack, o derretimento, a troca do real por um real construído por consenso, não é uma subcriação, mas sim o ato do demiurgo, a usurpação do papel do Criador — e a distinção entre ambos, mais uma vez, é a que sempre conhecemos: o subcriador acolhe o mundo como um presente e o exalta, acrescentando-lhe beleza; o demiurgo rejeita o mundo tal como é e deseja recriá-lo conforme sua própria imagem. Tolkien criou mil páginas sobre um mundo imaginário e nunca foi menos gnóstico, pois toda aquela realidade tinha como propósito nos ajudar a amar mais o nosso próprio mundo; o sincromístico deseja fragmentar esta realidade em mil, e é gnóstico até os ossos, pois, no fundo, não ama nenhum, exceto aquele que ainda irá criar.
Há um filme que toda a nossa era adotou como uma parábola de sua própria condição, e que expressa, de maneira mais eficaz do que qualquer tratado, o que o sincromístico almeja realizar — e onde ele falha: a saga Matrix. A realidade que todos experimentam, como o filme demonstra, é uma simulação, um entendimento imposto, um sonho compartilhado em que os indivíduos permanecem adormecidos, acreditando estar conscientes; e o protagonista é aquele que se desperta, que enxerga o código oculto sob as aparências, e que, ao final, aprende a contornar as regras da simulação, a voar, a deter balas, a reescrever a ilusão da realidade através do poder da mente despertada. Trata-se do evangelho gnóstico ideal, e não é por acaso que ele fascina tanto o nosso tempo: a salvação é vista como um despertar, o mundo é considerado uma prisão de ilusões, e o escolhido é aquele que consegue driblar o sistema ao perceber que ele não é verdadeiro. Pois bem, é exatamente isso que o sincromístico aspira a ser: o despertado que reconheceu que a realidade compartilhada é uma matriz e que aprende a moldá-la. Mas observe a diferença profunda entre o salvador gnóstico e o genuíno. O messias da Matrix resgata ao revelar que o mundo é ilusório, que a realidade é uma farsa, e que o corpo e a matéria são uma espécie de prisão — libertando os homens ao despertá-los para além desse mundo. O verdadeiro Messias faz exatamente o contrário: não veio afirmar que o mundo é uma ilusão, mas sim que o mundo é real, bom e criado por seu Pai. Ele nos ensina que a prisão não está na matéria, mas sim no pecado; não veio nos colocar para fora do corpo, mas veio Ele mesmo assumir um corpo e ressuscitá-lo. Não nos libertou mostrando que a realidade é uma ilusão, mas redimiu-se ao entrar na realidade e morrer nela de verdade. O gnóstico eleito se distancia da matriz; o Cristo redime o mundo internamente. Alguém diz: nada disso é verdadeiro, desperte e você será livre. O outro afirma: tudo isso é verdadeiro, e Eu o amei até o fim, e por isso você será livre. Entre o despertar que esvazia o mundo e o amor que o redime está, mais uma vez, toda a distinção entre a gnose e o Evangelho.
E então surge a palavra que dá nome a este livro, e é fundamental mencioná-la em sua essência, pois nela está concentrada a alma completa da nossa época. O sincromisticismo, conforme afirma Kotze, é uma forma de hackear a realidade. O propósito, portanto, é desconstruir a realidade que hoje é vista como única; é libertar-se da opressão da realidade absoluta. Nós comercializamos crenças entre nós, em um esforço criativo, para possibilitar que novas ideias sejam incorporadas à matriz aceita do presente; não me preocupa essencialmente o que é real, mas sim averiguar a temperatura do espírito do tempo para conceber as normas que serão aceitas no futuro. Leia isso duas vezes, pois é a declaração mais sincera que a nossa civilização já fez sobre si mesma. Não se trata mais da velha mentira hesitante de que cada um possui a sua verdade; é a mentira amadurecida, forte e funcional: a realidade é um software, repleto de falhas, e a missão do artista, do filósofo, do influenciador e do arquiteto de sentimentos é inserir nela um novo código até que o mundo inteiro, sem notar, comece a executar o programa que implantamos. Derreter o dinheiro. Desintegrar o solo comum. derrubar a tirania do que é, para que, em seu lugar, impere aquilo que desejamos que seja.
E existe uma arte cristã que representa o oposto exato dessa interpretação da temperatura do espírito da época, e é importante nomeá-la, pois é a resposta da Igreja à tentativa do sincromístico de conduzir o zeitgeist: o discernimento dos espíritos. O sincromístico avalia a temperatura cultural do momento para determinar quais crenças promover e quais oportunidades explorar, aproveitando a dinâmica do espírito da época, assim como alguém que analisa o mercado para fazer investimentos. O santo realiza uma ação que, à primeira vista, parece uma coisa, mas que por dentro é completamente diferente: ele também está atento aos sinais do tempo, também capta os ânimos que pairam sobre uma era — mas não para se deixar levar por eles, e sim para discernir, para distinguir o que vem de Deus do que é fruto da carne e do que provém do inimigo. São João nos adverte que nem todo espírito é de Deus; é necessário testar os espíritos para verificar se realmente vêm de Deus. O espírito do tempo não é único; é uma combinação de várias correntes, algumas sagradas, outras corruptas, e algumas maléficas. A habilidade de discernir é exatamente essa: reconhecer cada uma delas, em vez de se deixar levar por todas, como faz quem apenas se limita a medir a temperatura. O sincromístico, por não conseguir distinguir, torna-se servo do espírito do tempo que acredita guiar — impulsiona aquilo que a época já deseja promover, chamando de profecia o que é apenas a tendência de amanhã, confundindo o sopro do mundo com o sopro do Espírito. O santo, por sua capacidade de discernimento, é livre em relação ao seu tempo: consegue nadar contra a maré quando esta é corrupta, é capaz de identificar o Espírito mesmo quando Ele se manifesta de forma inesperada, e não se deixa influenciar pelas circunstâncias, pois possui um termômetro que não é o do mundo, mas sim o do Evangelho. Avaliar o espírito da época para se submeter é uma forma de escravidão mascarada de modernidade; perceber as influências espirituais para dedicar-se a Deus é a única verdadeira liberdade em relação ao tempo presente.
Certamente, o leitor atento das obras anteriores experimenta, ao ouvir isso, um calafrio de reconhecimento, pois já assistimos a essa história e conhecemos o seu desfecho. A tirania da realidade absoluta que o sincromístico deseja dissolver é, na verdade, o único suporte que resguarda o fraco do forte. No segundo livro, demonstramos que um mundo sem uma realidade comum, sem uma verdade absoluta dada por Deus e que seja obrigatória para todos, não se transforma em um paraíso com mil verdades felizes coexistindo. Em vez disso, torna-se um campo de batalha de mil vontades, onde, ao se eliminar a verdade que julga a todos, não prevalece a mais verdadeira, mas sim a mais forte. Destruir a realidade compartilhada não traz liberdade a ninguém; apenas entrega o mundo nas mãos de quem possui o maior megafone, o algoritmo mais poderoso, ou o maior orçamento para impor suas crenças. A opressão que ele deseja eliminar é a última barreira que bloqueia a autêntica tirania, a do poderoso que molda o mundo segundo sua própria imagem e denomina isso de criatividade. E o que há de mais aterrador é que ele está ciente disso e não hesita: avaliar a temperatura do espírito do tempo para moldar as normas do futuro é, palavra por palavra, a essência do trabalho dos manipuladores do consentimento, dos arquitetos do desejo que o segundo livro já expôs — só que agora não são os arcontes que atuam contra nós, somos instigados a fazê-lo por conta própria, a assumir o controle, a nos tornarmos pequenos demiurgos de bolso. A distorção da realidade é a indústria cultural apresentada como espiritualidade, a manipulação comercializada como iluminação.
E não se deve achar que esse projeto de comercializar crenças até que elas se tornem realidade seja uma fantasia de um blogueiro esotérico; é, com outras palavras, a engrenagem que impulsiona toda a nossa civilização, e o segundo livro já lhe conferiu o nome ao comentar sobre os magos do consentimento. Foi um sobrinho de Freud quem pegou as descobertas do tio sobre os impulsos ocultos da alma e as transformou, com a frieza de um engenheiro, em uma técnica para incutir desejos em massa — para convencer multidões de que querem exatamente o que lhes foi ordenado querer, e de que a escolha foi feita por elas mesmas. Foi uma linhagem inteira de pensadores e publicitários que transformou a cultura em um laboratório de criação de consensos, um espaço onde se avalia a temperatura do espírito do tempo com o intuito de inserir nele as crenças que, no futuro, parecerão óbvias e naturais. O sincromístico, ao sugerir o hack da realidade, não está criando algo novo: está apenas expondo, com uma sinceridade quase tocante, o que a indústria do desejo já realiza contra nós cotidianamente e nos convidando a fazer o mesmo — a trocar de posição com os arcontes, a assumir nós mesmos o controle da máquina de crenças. É o auge da esperteza do adversário: após séculos submetendo o ser humano por meio da manipulação, apresenta-lhe a própria manipulação como se fosse liberdade e encantamento, convocando-o a se transformar, ele também, em um pequeno mago do consentimento. A serpente não apenas morde; ela ensina a morder e chama isso de libertação.
A humanidade já se aventurou nisso uma vez, no princípio de tudo, e as Escrituras preservaram a lembrança do caos no relato da torre de Babel — que, analisado com uma perspectiva contemporânea, é a primeira e mais genuína tentativa de burlar a realidade através da construção conjunta. Venham, disseram os homens da planície, vamos fazer tijolos, construir uma cidade e uma torre cujo topo alcance os céus, e para nós vamos criar um nome. Atente para cada expressão, pois tudo está presente: a nova tecnologia, o tijolo cozido que substitui a pedra fornecida por Deus pelo material criado pelo homem; o projeto em conjunto, a concordância de todos em uma única obra e em uma única língua; a aspiração de romper os céus por meio da engenharia, de alcançar as alturas não recebendo, mas acumulando; e, no âmago de tudo, a verdadeira razão, façamos para nós um nome — a autofundação, o homem que deseja ser a origem de si mesmo, que almeja chegar a Deus pela escada que ele mesmo constrói. É a essência do hack da realidade, o programa de Kotze três mil anos antes de Kotze: ascender aos céus por meio do consenso e da tecnologia, reconstituir o mundo através da vontade coletiva, tornar-se um deus a partir da base. O que Deus faz em relação a Babel não é destruir a torre com um raio; é misturar as línguas, desmantelar o consenso, fazer com que os homens regressem à saudável humildade de não se compreenderem — como alguém que, ao ver o filho prestes a se machucar em uma máquina que montou, desliga a energia. Babel é a evidência de que a manipulação coletiva da realidade não é algo novo nem uma previsão do futuro; é a mais antiga das quedas, e seu desfecho já é conhecido: a torre não alcança o céu, e os construtores saem de lá incapazes de se cumprimentar com um simples bom dia. O céu não se conquista com empilhamento de tijolos; ele vem, gratuitamente, em chamas de fogo, no momento exato em que o homem interrompe suas obras e se dedica à oração — e é por isso que o Pentecostes representa o oposto exato de Babel, reunindo o que a arrogância havia dispersado, o céu que desce precisamente quando o homem desiste de tentar subir por conta própria.
E, no entanto — e aqui este livro muda a perspectiva — existe uma verdade imensa oculta nesse delírio, e é essa verdade que nomeia tudo. É verdade que é possível "hackear" a realidade. É fato que a opressão de uma realidade restrita, rígida e absoluta pode e deve ser superada. É verdade que o que é possível pode surgir no real e transformá-lo. Aconteceu uma vez de uma maneira que nenhum sincromístico conseguiria aguentar, pois é exatamente o oposto do que ele defende. Aconteceu, de fato, um único hack perfeito da realidade consensual, uma única injeção de código novo tão poderosa que dividiu a história em duas e reformulou a estrutura do real por dentro: chama-se Encarnação. O Verbo através do qual tudo foi criado, o verdadeiro código do universo, integrou-se ao sistema que ele mesmo havia criado — não de forma externa, pressionando a casca, mas de maneira interna, surgindo como um de nós, em um ventre, em uma gruta, dentro da matriz reconhecida do presente, sob um determinado governante, em um ano que pode ser identificado. E ao adentrar, o mundo não se desfez no caos das vontades pessoais; ele foi reestruturado, recebeu um novo centro, e abriu, no seio da realidade limitada, uma porta que antes não existia. Essa foi a eucatástrofe mencionada no segundo livro, a irrupção da graça, a novidade que nenhuma reordenação dos antigos elementos poderia criar, pois veio de cima, de fora do sistema, do único programador capaz de reescrever o programa sem corrompê-lo, já que foi ele quem o escreveu.
Existe uma palavra grega que distingue o que o sincromístico realiza do que a Igreja faz, ou seja, a diferença entre comercializar crenças e divulgar o Evangelho: kerygma, que significa o anúncio, a proclamação de uma boa notícia. Isso porque o sincromístico afirma, com todas as letras, que estamos comercializando crenças para vocês — e o verbo é preciso e é assustador: vender, oferecer um produto no mercado das ideias, avaliar sua aceitação, adaptar a oferta de acordo com o gosto do consumidor. É uma forma de marketing espiritual, onde a fé é abordada como um produto e a crença se transforma em um item disponível na prateleira do espírito da época. A Igreja não comercializa; proclama. O apóstolo não é um comerciante que convence o cliente a adquirir um produto que talvez ele não deseje; é um mensageiro que volta da batalha para a cidade anunciando uma nova que já é real, independentemente de alguém a aceitar ou não: a guerra foi vencida, o Rei está vivo, a morte foi superada. A boa notícia não é algo que se vende, mas sim que se oferece de graça; não se adapta às preferências do comprador, é proclamada até mesmo em descordo com o que ele deseja, pois não se trata de uma oferta a ser negociada, mas sim de um fato que precisa ser comunicado. E é por isso que o Evangelho é livre e o hack é escravo: o vendedor depende do comprador, precisa agradar, necessita da aceitação para existir, está preso ao mercado que serve; o mensageiro é livre, pois a verdade que proclama não depende de ser comprada para ser verdade, e ele a clama ao vento, quer o escutem ou não. O sincromístico oferece oportunidades e se torna cativo do espírito da época que precisa encantá-lo; já o cristão proclama um acontecimento e é livre em relação ao mundo todo, pois a Ressurreição realmente ocorreu, e nenhuma rejeição em aceitá-la torna essa verdade menos real.
É necessário esclarecer, neste ponto, uma confusão que o hack aproveita e que prejudica até os fiéis: a distinção entre a fé e a crença artificial. O sincromístico afirma que estamos comercializando crenças e que precisamos acreditar nelas antes que se tornem reais — e transforma a crença em um ato de vontade, uma decisão de crer no que é conveniente até que essa crença a torne verdadeira. Na verdade, isso não é fé, mas sim o seu oposto exato. A crença criada dentro de mim: eu opto por crer em algo e, com a intensidade da minha fé, busco trazer isso à realidade; a crença é a origem, enquanto a realidade é o resultado que eu produzo ao acreditar. A verdadeira fé se baseia na realidade: há uma Verdade que me precede, um Deus que se manifestou, eventos que ocorreram — a Encarnação, a cruz, o sepulcro vazio —, e a fé é a minha concordância com essa realidade que não depende de mim, a abertura do meu espírito a algo que é verdadeiro, independentemente de eu acreditar ou não. Eu não faço Cristo ressuscitar apenas por acreditar que Ele ressuscitou; Ele realmente ressuscitou, e a minha fé é a aceitação desse fato, e não a sua criação. A disparidade é imensa e representa toda a distinção entre a religião e a magia: a magia, assim como o hack, acredita para criar, utilizando a crença como uma ferramenta que transforma a realidade; a fé acredita porque reconhece, fazendo da crença uma janela que se abre para o real. Uma apresenta o homem como a origem da verdade; a outra, como seu servo grato. É por essa razão que a fé liberta e a crença construída aprisiona: quem acredita em um fato pode repousar sobre ele, enquanto quem se vê na necessidade de construir sua própria realidade por meio da crença está fadado a nunca conseguir parar de acreditar, a manter, com o esforço da própria vontade, um mundo que, a qualquer descuido, pode desmoronar. A fé é um descanso; o hack é uma falta de sono.
Observe a diferença, pois ela é tudo. O sincromístico deseja invadir a realidade de maneira sutil, lateralmente, inserindo crenças na psique coletiva até que o mundo se transforme — e o resultado, se isso acontecer, seria a loucura, bilhões de realidades pessoais em conflito, o desmoronamento do solo comum, o caos da fragmentação. Deus interveio na realidade de maneira direta, não apenas introduzindo uma nova crença no já vasto mercado de ideias, mas vindo pessoalmente, em carne e osso, como um fato concreto, um evento que não pode ser ignorado — e o resultado foi a salvação, uma nova base comum mais sólida que a anterior, uma realidade não diluída, mas transformada. A ação do homem desmantela a realidade, pois ele não é o criador; já a intervenção de Deus transforma a realidade, uma vez que Deus é o Criador que se fez parte da própria criação. A diferença entre os dois é, mais uma vez, a clássica distinção que encontramos nestes livros: receber em vez de usurpar, a mão aberta em contraste com o punho cerrado, o faça-se em mim da Virgem em oposição ao sereis como deuses da serpente. O sincromístico se encontra em pé diante da porta correta, segurando a chave inadequada.
E não se trata de uma invenção minha ou de algo moderno; é a doutrina mais antiga e sólida dos Padres gregos, que a expressaram com uma audácia que deixaria nossos pregadores tímidos envergonhados. Atanásio de Alexandria, o bispo que desafiou o mundo inteiro para defender a divindade do Verbo, escreveu uma frase que os séculos registraram como o verdadeiro cerne do cristianismo: Deus tornou-se homem para que o homem pudesse se tornar Deus. Ireneu de Lyon, que é ainda mais antigo, expressou a mesma ideia com outras palavras: o Verbo de Deus, movido por seu amor abundante, tornou-se o que nós somos para transformar-nos no que Ele mesmo é. É o que a liturgia latina entoa na oração do Natal, que a pressa dos fiéis atravessa sem notar: ó admirável troca, o Criador da humanidade, ao tomar um corpo vivo, dignou-se a nascer de uma Virgem e, ao tornar-se homem, nos fez participantes da sua divindade. Observe o que esses homens de dois mil anos atrás estão afirmando, pois se trata exatamente do que comentamos, expresso em grego patrístico: ocorreu uma troca, um intercâmbio, uma permuta no código mais profundo da realidade — Deus assumiu o que era nosso, a carne, a fragilidade, a morte, e nos ofereceu em troca o que lhe pertence, a filiação, a graça, a vida eterna. Não se tratou de uma simples modificação superficial, nem de mais uma crença no amplo mercado das crenças; foi uma verdadeira transformação na essência do ser, uma reescrita na fundação da natureza humana, realizada no único ponto em que o divino e o humano se encontraram sem se misturar, que é a figura de Cristo. O sincromístico anseia por substituir a realidade por um entendimento comum; os Padres proclamam a Troca que já ocorreu, no Verbo encarnado, e que nenhum acordo humano poderia realizar, pois precisava que o próprio Deus participasse da troca e pagasse, de sua parte, com seu sangue.
E há um Padre ainda mais impressionante, Máximo, o Confessor, que pagou com a língua cortada e a mão decepada pela ousadia de pensar o que vou dizer, além de ter expandido essa doutrina do intercâmbio para o tamanho do cosmos inteiro. Máximo ensinava que todas as coisas que existem foram criadas de acordo com os seus logoi — suas razões, suas palavras-semente, seus códigos-fonte, se quisermos usar a expressão da nossa época —, e que todos esses logoi, as ideias de todas as coisas, estão contidos e unificados no único Logos, no Verbo, de modo que o universo inteiro é, literalmente, uma teia de palavras proferidas pela única Palavra. Cada criatura é um verbo do Verbo, uma sílaba do discurso eterno de Deus; e o pecado, para Máximo, foi a dissonância que separou os logoi do Logos, que arrancou as palavras da Palavra, que fragmentou o discurso único do cosmo na confusão de Babel. Aguarde um instante e observe o que isso implica para o nosso tema: se o universo é um texto cujas palavras correspondem às próprias essências das coisas, e se todas essas palavras estão no Verbo, então a Encarnação é o Autor do texto que adentra a narrativa não como uma palavra entre outras, mas como a Palavra que todas as palavras expressam — o Logos reunindo em si os logoi dispersos, unindo o discurso fragmentado e restaurando a sintaxe do mundo que foi rompida. O sincromístico percebe que o mundo é constituído por informação, linguagem e código, e ele está certo, e Máximo diria isso com um sorriso; mas o que Máximo acrescenta, e que sem isso a intuição se transforma em panteísmo, é que a linguagem do mundo pertence totalmente ao Verbo e é direcionada ao Verbo, que não existe código abandonado, que cada logos solicita o Logos da mesma forma que a parte busca o todo — e que a salvação do cosmo não consiste em hackear o código, mas em reconduzi-lo, por meio de Cristo, à Palavra da qual se afastou.
É importante guardar essa imagem do único hack verdadeiro, pois ela representa o coração de todo o volume e deve ser registrada. Conceba a realidade consensual como um sistema isolado, um programa que opera há milênios com suas normas estabelecidas — o pecado, a morte, a lei do mais forte, a entrada do céu fechada desde o Éden. Nenhuma crença oriunda do interior pode modificar essas regras, pois toda crença é parte do sistema, gira dentro dele e segue seu código. É por isso que todas as gnoses, todas as magias e todas as tentativas humanas de ultrapassar a realidade sempre falharam, sempre resultaram no mesmo ponto, pois o prisioneiro não consegue reescrever a prisão com ferramentas criadas dentro dela. Era necessário que uma pessoa externa ao sistema, mas com acesso administrativo ao código-fonte, adentrasse nele e o reescrevesse desde a raiz. E foi exatamente isso que ocorreu: o Verbo, o verdadeiro código-fonte do universo, aquele por quem e para quem tudo foi criado, se encarnou dentro do sistema, viveu segundo suas regras, sujeitou-se à morte, que era o último bloqueio — e, por ser de fora e ser o Autor, ao morrer não foi eliminado pelo sistema, mas reescreveu-o de dentro, rompeu o bloqueio da morte pela ressurreição e abriu no muro do mundo fechado a porta que não existia. Esse foi o único exploit que realmente funcionou, a única injeção de código que o sistema não conseguiu barrar, pois era assinada pelo próprio Programador. E desde aquele momento, a correção se espalha: cada batismo é o novo código implantado numa alma, cada Eucaristia é a atualização que mantém o sistema operando a graça, e cada sacramento é um ponto através do qual a realidade restaurada no Calvário retorna ao mundo. O hack ocorreu uma vez, na cruz; e continua a acontecer, todos os dias, no altar.
E se alguém, acreditando que a realidade pode realmente ser alterada, perguntar qual seria o jeito legítimo de transformá-la, visto que não se trata da manipulação por meio de crenças, a fé apresenta uma resposta antiga, tangível e surpreendente: a oração. Porque Deus, em sua maneira de administrar o mundo, desejou envolver suas criaturas em sua Providência e concedeu à oração do justo um efeito verdadeiro sobre o desenvolvimento dos acontecimentos — a Escritura afirma que a súplica persistente do justo é de grande potencial. O ser humano realmente participa da administração da realidade, realmente traz novidades para o mundo, realmente transforma o que parecia estático; porém, não toma a direção das mãos de Deus, mas sim, pede, intercede e une sua pequena vontade à imensa vontade do Pai. A oração é a verdadeira transformação da realidade compartilhada e representa exatamente o contrário do hack: enquanto o hack busca impor a minha vontade ao mundo através de técnicas e acordos, a oração procura alinhar a minha vontade à de Deus por amor e confiança. Por essa razão, ela tem o poder de mover montanhas que nenhuma técnica consegue, pois quem as movimenta, respondendo ao pedido do filho, é o próprio criador das montanhas. Os grandiosos agentes de transformação que a história já presenciou não foram os engenheiros da aceitação nem os mestres das transições; foram os santos, que impactaram o mundo mais do que todos os governantes, e o fizeram através da oração — uma irmã em um quarto que reformou uma Igreja, um humilde em uma gruta que transformou uma época, uma jovem quase sem instrução cujas súplicas tiveram mais peso na história do que exércitos. O santo é o autêntico hackeador da realidade, e sua ferramenta não é a crença imposta às massas, mas sim o joelho dobrado na penumbra; e a evidência de que isso dá resultados está inscrita na própria essência do mundo, nos milagres, nas conversões, nas vidas transformadas — mudanças verdadeiras no que é real, realizadas não por aqueles que tomaram a caneta de Deus, mas por aqueles que seguraram sua mão e pediram.
É importante mencionar, uma vez que estamos falando sobre a percepção, qual é o órgão que realmente permite enxergar o invisível, uma vez que o sincromístico o tem enfraquecido e o substitui por uma lupa. Os antigos o denominavam de nous — um termo grego que se refere ao olho da alma, a capacidade intelectual não no sentido superficial de raciocínio, mas no elevado sentido de visão espiritual, a habilidade pela qual o espírito observa diretamente as realidades mais sublimes, assim como o olho do corpo percebe a luz. E toda a tradição entendia que esse olho, assim como o do corpo, deve estar saudável para enxergar: um olho doente não consegue ver, e um nous ofuscado pelo pecado, pela vaidade e pela desordem das paixões, não consegue contemplar Deus, por mais que tente. Abençoados são aqueles que têm pureza no coração, declarou Cristo, pois eles verão a Deus — não os astutos, nem os que decifram enigmas, nem os que acumulam sinais, mas sim os puros, pois a capacidade de perceber o invisível está ligada à clareza do olhar que observa, e não à quantidade de pistas reunidas. Eis aqui a última diferença entre o sincromístico e o contemplativo: o sincromístico busca ver mais ao coletar mais sinais, decifrar mais códigos e acumular mais correspondências, como alguém que tenta enxergar melhor adquirindo lentes cada vez mais potentes para um olho que permanece doente; já o contemplativo vê mais ao purificar o olhar, limpar o coração e ordenar a alma, de forma que a mesma realidade, percebida por um nous saudável, se revela e brilha intensamente. Não é com mais informação que se enxerga Deus; é com mais pureza que se percebe a Sua presença. E é por isso que a trajetória rumo à visão que o sincromístico busca não se resume a mais decifração, mas sim a uma maior conversão — porque o invisível não se submete ao que sabe mais, mas àquele que ama mais, e o instrumento que nos permite contemplar o Rosto no final de tudo não é a lente do decifrador, mas sim o coração puro do filho.
E não se trata de um mero acaso, mas sim de uma espécie de confissão, que o símbolo que mais fascina os sincromísticos seja exatamente a porta — ou, em seu jargão, o portal estelar, o stargate. Eles o percebem em todo lugar: nos arcos, nas colunas gêmeas, nas torres, nos umbrais de luz que destacam as superproduções de Hollywood, e interpretam tudo isso como um sinal de uma abertura, de uma saída deste mundo limitado, de uma fissura na parede da realidade compartilhada. E aqui é fundamental ter cautela redobrada, pois essa obsessão é associada a tragédias reais e a teorias da conspiração que não iremos adotar nem reproduzir; o que nos atrai não é a paranoia, mas a necessidade que está por trás dela. Porque a fome é real e representa a necessidade mais profunda de todas. O ser humano é o animal que consegue viver aprisionado em um espaço limitado e que nunca deixa de imaginar uma maneira de escapar — uma saída da caverna, uma abertura no teto, um feixe de luz no final do corredor sombrio. O sincromístico experimenta essa fome na carne e começa a buscar a entrada nos símbolos dos filmes, decifrando portais em cada arco de Hollywood. E ele não consegue perceber, por estar tão próximo, que a porta que busca já foi aberta, e não é apenas um símbolo: é uma Pessoa que declarou, com todas as letras, eu sou a porta; quem por mim entrar será salvo. No momento preciso em que Cristo entregou o espírito, o véu do templo, aquela cortina que impedia o acesso ao Santo dos Santos e separava o homem de Deus, se rasgou de cima a baixo, por uma força que não era deste mundo — o único portal que realmente se abriu na história, a única brecha concreta na barreira, não provocada pela interpretação de um iniciado, mas pela morte de um Deus.
E sob toda essa questão, há uma distinção que precisa ser claramente expressa, pois é a fronteira que separa a religião da magia e que o sincromístico atravessa sem perceber: a diferença entre o princípio sacramental e o princípio mágico. Ambos estão convencidos de que os símbolos exercem poder, que a matéria pode servir como um canal para o espírito, que um gesto ou um objeto visível pode conter uma força invisível — e, nesse aspecto, ambos se contrapõem ao materialista tedioso, e nesse ponto o sincromístico está correto em relação ao seu tempo. A distinção reside em quem exerce o controle sobre o poder do símbolo. No início encantado, o símbolo opera por conta própria, como uma técnica: digo a palavra adequada, realizo o gesto apropriado, posiciono os astros corretos, e o poder se manifesta de forma automática, agradecendo pela ação — o mago é quem controla, e o sagrado é a energia que ele direciona. No entendimento do sacramento, o símbolo tem eficácia porque Deus, de forma livre, assegurou que atuaria por meio dele: a água do batismo purifica a alma não devido a uma fórmula que obriga Deus, mas porque Ele se comprometeu a conceder a graça nesse momento; o sinal é efetivo não por um método, mas por meio da aliança, da promessa, do presente. Em um caso, o homem atua sobre o que é sagrado; no outro, o homem acolhe o que Deus oferece livremente por meio do sinal. E o sincromístico, ao adorar os símbolos, transita do sacramento para a magia: deseja trabalhar os portais, canalizar as sincronicidades, conduzir a energia dos arquétipos — transforma o símbolo em uma alavanca e a si mesmo em um operador. A fé se apega aos mesmos símbolos, mas os recebe de uma forma oposta: em vez de agir sobre eles, permite-se ser tocada; não controla a graça, acolhe-a com as mãos abertas; não direciona o sagrado, reverencia-o. E a distinção, pela última vez, é a mesma de sempre, aquela que permeia esses três livros do início ao fim: o punho que segura o poder do símbolo, e a mão aberta que acolhe, por meio do símbolo, a dádiva de Deus.
Existe um perigo espiritual claro ao confundir a fome da porta com a interpretação de portais, e é nesse risco que toda a subcultura dos sincromísticos se perde: o de converter a saudade do céu em uma busca por tesouros esotéricos. A verdadeira porta não se abre para aqueles que apenas decifram; ela se abre para quem se dispõe a bater, para quem sabe pedir, para quem se faz humilde e consegue entrar. Jesus não afirmou "decifrai e sereis salvos", mas sim "batei e vos será aberto"; Ele não fez a promessa de salvação ao leitor mais astuto de símbolos, mas sim ao mais humilde, à criança, ao publicano que sequer tem coragem de levantar os olhos. O sincromístico transforma a porta em um enigma, fazendo dela um reflexo de sua própria astúcia — vê aberturas por toda parte, sente-se iniciado, superior ao rebanho cego que não percebe os códigos, e nessa vaidade de decifrador acaba fechando para si mesmo a única porta que realmente importa, que só pode ser atravessada de joelhos. É o mesmo princípio que o segundo livro apresentou para a interpretação dos sinais: o verdadeiro sempre leva a Cristo e à conversão; o falso leva a mim, ao meu poder oculto de conhecimento. A porta que se abre para os humildes é a mesma que se fecha para os vaidosos, e ambas são a mesma porta; o que muda é a mão que a toca.
É necessário fazer uma afirmação contundente sobre a interpretação esotérica das catástrofes, pois é nesse ponto que o amor do sincromístico pelos portais se transforma em algo arriscado. Diante de uma tragédia coletiva, de um horror que atinge uma cidade inteira, ele costuma interpretar símbolos ocultos, geometrias de portal e rituais secretos de uma mão escondida — e assim converte a dor real de milhares em uma charada para decifradores, um quebra-cabeça esotérico que o faz sentir-se possuidor de um conhecimento que os enlutados não possuem. Na verdade, trata-se, essencialmente, de uma crueldade camuflada de profundidade, além de ser uma teologia equivocada, pois mistura apocalipse com conspiração. A palavra apocalipse, que na nossa época é utilizada para se referir a catástrofe, tem em sua origem um significado que é exatamente oposto a um segredo da elite: ela significa revelação, desvelamento, a retirada de um véu. O verdadeiro apocalipse que realmente importa, a única revelação que rompe de fato a barreira entre este mundo e o outro, não foi causado por nenhuma mão secreta em um arranha-céu; foi a morte de um homem pendurado em uma cruz, no momento em que o véu do templo se partiu de cima a baixo e o Santo dos Santos ficou, pela primeira vez na história, acessível a todos. O sincromístico busca o desvelamento nas ruínas e nos símbolos das telas, decifrando portais na desgraça; e não percebe que o véu já foi rasgado de uma vez por todas, não pela técnica de um iniciado, mas pelo amor de um Crucificado — e que a escada entre o céu e a terra, que Jacó viu em sonho e chamou de porta do céu, não é um portal estelar a ser encontrado em nenhum código, é uma cruz fincada numa colina, cujos degraus são os braços de um homem abertos entre o alto e o baixo, reunindo para sempre o que o pecado separou.
E existe, na prática do sincromístico, um aspecto que o afasta da pecha de loucura e que merece ser destacado a seu favor: ele não tem interesse pelas celebridades em si, não se importa com a vida privada de ninguém, não fofoca nem persegue. O que realmente importa é o arquétipo que a celebridade representa, o símbolo que ela carrega inconscientemente, aquilo que ela reflete e comunica além de sua própria existência. Ele nota que alguns atores agem como ímãs de sincronicidades — um mesmo intérprete, filme após filme, assume os papéis do salvador, do escolhido, do que transita entre mundos: um ator que vive o mártir místico em um filme, o desperto que escapa da matriz em outro, o iluminado que abdica do trono em mais um, como se o personagem escolhesse o homem e não o homem o personagem. Pois bem, o leitor do segundo livro identifica, novamente, algo que já compreende internamente: são os santos dos sonhos observados de fora, ao contrário. O herói que emociona é a santidade viável refletida por meio de uma alma e de um semblante; e quando um semblante humano, um ator, oferece sua carne a esse reflexo repetidamente, a luz se conecta a ele, e o público percebe, de forma correta, que aquele homem se transformou em um canal, uma janela, um vitral por onde uma determinada luz transita. O sincromístico contempla o vitral e se prostra diante do vidro; o cristão observa o vitral e acompanha a luz até o Sol de onde ela se origina. O arquétipo é concreto, o atrator é verdadeiro, e a ressonância não é uma ilusão — mas é um reflexo do reflexo, e venerar o espelho por seu brilho é esquecer o Rosto que se manifesta nele, mesmo que de forma distante.
Um exemplo bem claro desses atratores, e um que o próprio sincromístico aprecia, é o de um ator que, ao longo de sua carreira, interpretou de maneira quase habitual a imagem do salvador que transita entre diferentes mundos. Em um filme, ele é o escolhido que acorda de uma realidade ilusória, morre e retorna à vida para libertar a humanidade de uma matriz; em outro, é o detetive que se infiltra nos infernos e confronta o diabo pessoalmente para salvar uma alma; em mais um, é o príncipe que abdica do trono em busca da iluminação. O desperto, o exorcista, o iluminado: três faces de uma só figura, o redentor, grudadas num mesmo rosto filme após filme, como se o papel do salvador procurasse sempre aquele homem para se encarnar. O sincromístico observa isso e chega à conclusão de que o ator é um atrator de sincronicidades, um ímã do arquétipo de Cristo. E não está incorreto no fenômeno, apenas no destino que você lhe atribui. É uma realidade que alguns rostos e trajetórias profissionais acabam servindo como molduras para um arquétipo — a figura do salvador, quando a imaginação coletiva identifica um ator com esse papel, tende a buscá-lo novamente, transformando-o, para o público, em um ícone pulsante de uma determinada luz. Mas essa luz não é dele, e o arquétipo do salvador que tantas vezes o veste não aponta para ele, aponta através dele, para o único Salvador real de quem todos esses salvadores de celuloide são sombras tremulantes. O ator é como um vitral; e o sincromístico, mais uma vez, se detém no vidro, transformando o intérprete em um pequeno deus da sua adoração, quando na verdade o intérprete é, sem perceber, apenas mais um dedo que aponta para o Rosto.
E existe, nesse fenômeno dos atratores, um aspecto obscuro que o segundo livro já mencionou ao tratar dos profetas devorados, e que precisa ser abordado com empatia: o fato de que o arquétipo, ao se manifestar em um ser humano, pode oprimi-lo. Uma coisa é a luz atravessar um vitral; outra é o vidro ser forçado a brilhar além do que consegue, até se romper. O sincromístico observa que algumas figuras parecem ter uma certa consciência sobre o papel simbólico que desempenham — que há indivíduos que começam a perceber que se tornaram um símbolo e passam a cultivar de forma deliberada a própria aura arquetípica. E é nesse ponto que reside o perigo, para a essência do próprio portador, pois reconhecer-se como um receptáculo de uma luz é estar na borda de um abismo com duas possíveis quedas. De um lado, a humildade: sou apenas o vidro, a luz não me pertence; que ela passe e que eu desapareça — e isso é santidade, é João Batista afirmando que é preciso que Ele cresça e que eu diminua. Para o outro lado, a usurpação: a luz que me atravessa pertence a mim, eu sou a luz, venerem-me — e isso é a degradação, é o recipiente que se confunde com a origem, o vitral que acredita ser o sol e termina, assim como os ídolos consumidos de que já discutimos, esmagado pela própria engrenagem que o construiu, pois nenhum ser humano aguenta por muito tempo o fardo de ser exaltado como aquilo que apenas reflete. O arquétipo é uma bênção para aqueles que o permitem fluir e uma maldição para aqueles que o seguram; e, mais uma vez, a diferença é a mesma de sempre: a mão aberta que propaga a luz e o punho cerrado que deseja mantê-la.
Para ilustrar tudo isso com um exemplo prático, que conecta este terceiro livro ao cerne do segundo, é suficiente observar o que o sincromístico fez com um herói japonês feito de borracha e usando capacete, durante uma convenção de anime em São Paulo. O ator que interpretou o Kamen Rider Black nos anos oitenta veio ao Brasil — um desses guerreiros mascarados do tokusatsu japonês — e o sincromístico percebeu, com razão, o arquétipo que seu próprio nome traz: o título original daquela série, assim como o de sua recente reinterpretação, é Black Sun, o Sol Negro. E tem mais, e é de arrepiar para quem leu o segundo volume: na sequência daquela narrativa, o herói sofre ferimentos graves, é lançado e deixado para morrer no vácuo do espaço, e o que o traz de volta à vida é uma pedra que ele carregava consigo, a pedra do rei, que ali, no exílio e na morte aparente, absorve a energia do Sol e o faz renascer transformado, com um novo nome — o Filho do Sol. Reflita sobre isso, pois se trata de uma teologia pura imersa em um brinquedo. Um herói solar que atravessa o sol negro, a escuridão, a morte no exílio mais gélido, e que dessa morte ressurge não como alguém esquecido, mas sim glorificado, filho da própria luz que o ceifou e o trouxe de volta à vida. A Páscoa representada em plástico; é o mesmo gesto do Homem de Aço que, no segundo livro, eleva-se para remendar o sol que se apaga e, a partir disso, renasce; é o Sol de Justiça de Malaquias, que emergence trazendo a cura em suas asas, interpretado involuntariamente por um artista de fantasia em uma feira de quadrinhos.
E o sincromístico extrai disso a sua conclusão, que é ao mesmo tempo sutil e tortuosa, e merece ser corrigida ponto a ponto. Ele menciona que, naquela época, houve uma intensa iluminação sobre a cidade de São Paulo, pois ali, diversas vezes, diante das grandes multidões, aquele Filho do Sol adotou sua postura de transformação, seu gesto cerimonial de henshin, e, juntamente com o Rio de Janeiro, essas foram as arenas onde, simultaneamente, se anunciou o regresso do maior herói solar, o Super-Homem, nas telonas. Uma luminância focada nas cidades, orquestrada pelos astros e pelas telas. Certamente, a percepção de que há uma luz genuína sendo emanada sobre uma cidade, e que isso tem um significado espiritual, é extremamente verdadeira — no entanto, o sincromístico busca essa luz nos locais errados, nos palcos e nos cartazes, sem perceber que, nas próprias São Paulo e Rio, naqueles mesmos dias e em todos os outros, ocorreu uma concentração de luz infinitamente superior e completamente ignorada: a cada manhã, em milhares de altares, ergueu-se sobre essas cidades o próprio Sol que nunca se põe, a hóstia branca erguida no silêncio da missa, o verdadeiro Filho do Sol, não aquele que recebe a luz de um astro criado, mas aquele que é a Luz incriada em essência. A cidade estava iluminada, certamente; porém, a luz não se encontrava nos lugares para onde as câmeras direcionavam. Eu estava em um lugar onde não havia câmeras, no momento em que um sacerdote qualquer levanta o pão e o pão se torna Deus.
Nesse herói japonês, existem mais camadas para aqueles que sabem observar, e todas indicam o mesmo caminho. O Kamen Rider, em sua essência, não é uma divindade solar imaculada; ele é um guerreiro-inseto, um homem que é forçado a se transformar em um mutante com características de inseto, sendo prisioneiro de uma organização maligna que acaba se revoltando contra seus opressores e utiliza o próprio poder-maldição para proteger a humanidade. O gesto principal da série, aquele que é repetido pelas crianças em todo o mundo, é o henshin, a transformação: o indivíduo comum que, com um grito e uma pose, se transforma, abandona sua aparência frágil e assume a figura do herói. Pois bem, isso é a metanoia representada em plástico, a transformação transformada em dança. Porque o cristão é um ser humano comum que é chamado a passar por uma transformação profunda, a se revestir de Cristo como se fosse uma armadura de luz, a despir-se do homem velho e a vestir-se do homem novo — e a sua transformação possui até uma fórmula, pronunciada sobre a água do batismo, e um grito, que é o nome da Trindade. O gafanhoto que se torna herói representa o pecador que se transforma em santo; o prisioneiro que se transforma no poder-maldição contra seus próprios opressores é a representação exata do homem que, ao receber uma natureza ferida na queda, permite que a graça a transforme por completo e faça da própria ferida uma arma contra o inimigo. A criança que clama a sua transformação diante da televisão está, sem perceber, praticando o gesto mais sério da vida: o de permitir-se ser moldada em uma versão mais elevada do que aquela em que veio ao mundo.
E não é algo a ser subestimado, é extremamente profundo o que o Japão fez com esses mitos que recebeu do Ocidente, pois, nesse processo, podemos observar, em uma versão cultural reduzida, a própria maneira de agir de Deus. Os japoneses se apropriaram dos super-heróis americanos, dos monstros, dos deuses extraterrestres, e não se limitaram a copiá-los: eles os assimilaram, os digeriram e os devolveram transformados, muitas vezes de forma mais intensa do que os originais — o gigante de luz Ultraman, os guerreiros mascarados do tokusatsu, os robôs colossais comandados por crianças, uma mitologia inteira que surgiu da assimilação e da transfiguração de um material estrangeiro. Este é exatamente o poder que o sincromístico percebe no final de tudo, e que mais adiante chamaremos pelo seu verdadeiro nome: o poder de assimilar até mesmo aquilo que é externo, de apropriar-se do material alheio, até mesmo do lixo, até do inimigo, e transformá-lo em algo novo e mais belo. É o que a Igreja se referiu, no segundo livro, como despojar os egípcios; é o que Deus realiza com toda a história, entrelaçando até mesmo a dissonância de seus opressores em um contraponto mais elevado. É interessante, e vale a pena deixar a questão em aberto sem uma resposta imediata, que uma cultura capaz de assimilar e transformar o estrangeiro com tamanha elegância possua em seus aspectos mais profundos uma reverência, uma disciplina e uma percepção do sagrado que parecem, àqueles que observam de fora, ecos de uma luz que ela ainda não absorveu completamente — como se o próprio Verbo, que espalha suas sementes em cada povo, tivesse semeado naquele solo uma saudade de si aguardando pelo seu nome.
E o Ultraman, o colossal ser de luz que o Japão colocou no firmamento, oculta uma das mais belas representações da descida de Deus e merece ser evangelizado. O Ultraman é um ser de luz originário de um mundo luminoso, extraordinariamente forte, que vem à Terra para proteger a humanidade dos monstros que a ameaçam. No entanto, para conviver entre nós, ele deve se unir a um humano, se fundir com um mortal e ocultar sua grandiosidade em um de nós. Além disso, ele pode manter sua forma resplandecente por apenas três minutos; depois desse tempo, a luz em seu peito começa a piscar em alerta, e ele precisa retornar à sua forma humana, sob o risco de morrer. Reflita sobre isso, pois a Encarnação é apresentada de forma acessível para as crianças: é a história de um ser de luz que renuncia à sua majestade para se juntar a um ser humano, ocultando sua divindade em um corpo mortal, limitando de forma voluntária seu imenso poder aos breves momentos de uma vida humana. É isso que São Paulo expressa no hino aos Filipenses: Cristo, que tinha uma natureza divina, não se apegou à sua glória, mas se esvaziou, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos. O imenso ser de luz que se transforma em homem e aceita a restrição de três minutos é a fábula infantil da kenosis, do Deus que decidiu se limitar a um corpo, a um tempo e a uma fragilidade. Ele ocultou o brilho da sua divindade sob a lâmpada de uma carne mortal — não porque não pudesse irradiar luz, mas porque apenas dessa maneira conseguia nos tocar, descer até nós e enfrentar os nossos monstros que habitam a nossa própria condição. A grandeza oculta na fragilidade, a luminosidade presente no homem comum, a força que se restringe por amor: o Ultraman japonês sonhou, sem saber, o esvaziamento da Palavra.
E quando se indaga ao sincromístico quem coordena essas rimas, essas concentrações de luz, esses padrões que cruzam as telas sem qualquer combinação, ele oferece uma resposta quase perfeita, que revela como ele alcançou a fronteira da fé. Ele afirma que não se trata de magos conspiradores de Hollywood, nem de um grupo de homens em uma sala cheia de fumaça manipulando as situações — isso seria muito pequeno, muito humano. Trata-se de uma inteligência não localizada, afirma ele, que orienta os acontecimentos do universo; e os padrões que ela traça nas sincronicidades provêm da mesma força que organiza uma infinidade de flocos de neve em formas distintas e irrepetíveis, todos seguindo a mesma geometria de seis lados, a mesma força que vitaliza este exato momento em que você lê esta frase. O leitor do segundo livro quase se espanta, pois reconhece a imagem: é o floco de neve de Ulmo, a rica trama hexagonal das estrelas de gelo que, segundo a narrativa de Tolkien, surgiu da própria malícia do inimigo, entrelaçada novamente pela mão do Único. A inteligência não local que dá forma aos flocos de neve e aos sonhos da cultura possui um nome que a fé pronuncia há dois mil anos: é a Providência, é o Logos através de quem tudo foi criado e em quem tudo subsiste, a mesma mão que contabiliza os fios de cabelo e não permite que um pardal caia ou que um floco derreta sem o seu conhecimento. O sincromístico sentiu a Providência nas sombras e não se atreveu a mencioná-la pelo nome.
E para compreender por que essa única afirmação — a divindade que somos — determina tudo, é necessário identificar a cosmologia oculta que ela transporta, pois é a cosmologia gnóstica de sempre, a qual já foi desmontada no segundo livro e que reaparece aqui com uma nova roupagem. O gnóstico da antiguidade afirmava que, no íntimo de cada ser humano, existe uma centelha divina, um pedaço do verdadeiro Deus que caiu e ficou preso na matéria. A salvação, segundo essa crença, consiste em despertar essa centelha e recordar que é Deus, libertando-se da prisão do corpo e do mundo. E o sincromístico expressa, com outras palavras, exatamente isso: a divindade se encontra escondida em nós, e nós somos essa divindade, sendo necessário apenas que a despertemos. De fato, a fé cristã sustenta que existe uma luz divina no interior do ser humano, que ele possui algo de Deus — entretanto, refere-se a isso como imagem, e não como centelha, e a distinção entre essas duas palavras é tão significativa quanto a diferença entre o céu e o inferno. Uma centelha é uma parte do fogo, composta pela mesma essência da fogueira, uma fragmentação de Deus dispersa; se eu sou uma centelha divina, então eu sou Deus, na mais pura literalidade, um fragmento do próprio Deus aguardando para ser reunido ao conjunto. Uma imagem é algo completamente diferente: o espelho não é apenas uma parte do rosto que reflete, mas sim uma substância distinta que o reflete; a imagem de Deus em mim não é Deus, mas uma criatura que O reflete, semelhante a Ele e, ao mesmo tempo, fundamentalmente diferente d’Ele, próxima e infinitamente distante. Se sou uma centelha, sou Deus e apenas preciso me recordar; se sou uma imagem, sou uma criatura e necessito ser redimido, elevado, divinizado pela graça de Quem me criou. A gnose afirma: acorde, pois você já é Deus e se esqueceu disso. O Evangelho afirma: converta-se, pois você é a imagem de Deus e se desfigurou, e Ele veio restaurar em você a semelhança que foi perdida. Uma única palavra os distingue — centelha ou imagem — e é nela que se determina se o homem é um deus esquecido que necessita despertar, ou um filho rebelde que deve retornar. A diferença entre acordar e voltar é a distinção entre a soberania que se sustenta por si mesma e o amor que se acolhe.
Contudo, é na palavra final dessa descrição que reside a ramificação de toda a obra, o ponto em que o caminho se divide entre paraíso e tormento. Porque o sincromístico, ao afirmar que a inteligência não local dinamiza o instante presente de nossa consciência, complementa: essa inteligência é a divindade que nos é velada e que, na verdade, nós somos. Quem somos nós. Aqui está o fio de cabelo que divide tudo. Afirmar que existe uma divindade escondida nas profundezas da consciência humana, uma luz que reside em nós e que não nos pertence, é reconhecer uma verdade cristã muito antiga: trata-se do imago Dei, da centelha da imagem, do Deus que é mais próximo de mim do que eu mesmo, como mencionava Agostinho, é o Cristo que vive pela fé em nosso coração. Entretanto, afirmar que somos essa divindade — que a luz que me reside é minha, que eu sou o Deus escondido — é um salto arriscado para dentro do abismo, é a substituição de uma única preposição que pode custar a alma completa: participar da divindade, como imagem que recebe, em contraposição a ser a divindade, como fonte que se arrogante. É a distinção entre o vitral e o Sol, entre a gota e o oceano, entre o ser iluminado e a Luz não criada. E é a mesma distinção, mais uma vez, entre Melkor e Aulë, entre a serpente e a Virgem: entre o que afirma eu sou e o que diz que aconteça em mim. Toda a enfermidade do sincromisticismo se resume nesta frase final, que inicia de forma verdadeira e culmina de maneira luciferina: a divindade oculta que habita em nós.
É interessante observar como se manifestam essas rimas que a Providência cria ao longo do tempo, pois uma vez percebidas, nunca mais se esquecem, e são a evidência de que a história possui um Poeta. Deus se manifestou a Moisés em uma sarça que pegava fogo e não se consumia, uma chama que habitava a madeira sem a destruir — e séculos depois fez habitar o fogo de Sua divindade no ventre de uma virgem que O acolheu sem ser consumida, a verdadeira Sarça Ardente. Ele ordenou que se levantasse uma serpente de bronze no deserto, e aqueles que a contemplassem seriam curados das mordidas das serpentes vivas — e séculos depois, Ele mesmo foi elevado na cruz, tendo assumido o veneno da antiga Serpente, para que quem O visse fosse curado da mordida do pecado. Os israelitas foram instruídos a marcar as portas com o sangue de um cordeiro, para que o anjo da morte não entrasse — e séculos depois, Ele mesmo se tornou o Cordeiro cujo sangue marca as portas da alma e faz a morte passar de longe. São rimas, rimas impecáveis, cruzando milênios de história, cada figura ancestral exigindo seu encontro, assim como a primeira linha de um dístico anseia pela segunda. E é isso que o sincromístico percebe quando nota que a cultura está repleta de coincidências grandes demais para serem apenas fruto do acaso: a mesma mão que uniu a sarça à Virgem e a serpente de bronze à cruz não cessou de fazer rimas, continua a fazer a história ressoar dentro de si, espalhando figuras e saudações até nos filmes atuais. Entretanto, as rimas de Deus sempre possuem um significado e um propósito, todas convergem para um único ponto, que é Cristo, e culminam em um desfecho, que é a glória; enquanto as rimas que o sincromístico reúne, afastadas desse núcleo, permanecem soltas, belas e insensatas, versos de um poema cujo autor ele se recusa a identificar. Perceber as rimas e recusar o Poeta é a desgraça da sua clareza; reconhecê-las e venerar o Poeta é o início da nossa tranquilidade.
É importante mencionar um desses pesquisadores à margem, pois ele confere a este livro uma conexão que o liga novamente ao núcleo solar do segundo: Christopher Knowles, cujo trabalho abrange uma intuição que ele denominou de sol secreto. Knowles notou, ao catalogar de forma obsessiva os símbolos da cultura pop, que por trás de quase toda a mitologia moderna existe um culto solar oculto — que os heróis são em sua maioria representações do sol, filhos da luz, portadores de uma chama, e que a nossa era, supostamente laica, não deixou de venerar o sol, apenas o faz sob mil disfarces. Ele está correto em sua observação, e o segundo livro já lhe revelou a verdade: de fato, existe um culto solar oculto nas profundezas de toda a cultura, pois há realmente um Sol que fundamenta toda a realidade, e o coração humano, criado para esse propósito, busca por ele em todos os lugares. Entretanto, o sol que a cultura aprecia de forma velada não se refere ao astro, tampouco aos heróis que o representam; trata-se do Sol de Justiça mencionado por Malaquias, o Cristo, a Luz do mundo, o Sol que nunca se põe, do qual o sol celeste é apenas o mais significativo dos símbolos e a quem cada herói solar é uma diminuta representação. Knowles descobriu o sol oculto da cultura e se deteve em seus raios; a fé acompanha o raio até o disco, e o disco até a Fonte, e revela que o sol oculto que arde nas profundezas de toda a mitologia possui um nome, nasceu em uma gruta, iluminou o Tabor, e se ergue, branco e redondo como um pequeno sol, nas mãos de um padre a cada manhã. O culto solar na cultura pop não deve ser visto como um paganismo a ser combatido; é, na verdade, um cristianismo a ser revelado, uma adoração legítima direcionada, por ausência de um nome, ao objeto inadequado. A missão do cristão não é extinguir esse sol oculto, mas sim revelar-lhe o nome.
É relevante dedicar tempo ao floco de neve, pois a representação que o sincromístico optou para a inteligência não local é mais precisa do que ele pensa e proporciona uma visão do mistério da existência. Ele afirma: a mesma força que estrutura cada floco de neve em uma forma única e irreproduzível, seguindo a geometria de seis lados, é a que entrelaça as sincronicidades e dá vida a este momento da sua consciência. Pense sobre o prodígio do floco de neve: cada um dos inúmeros flocos que já desceram na trajetória do mundo é distinto de todos os demais, e, ainda assim, todos seguem a mesma regra hexagonal — uma infinita variedade em meio a uma infinita unidade, cada um sendo único e todos guiados pela mesma força. Isto não se trata de uma força impessoal; é a marca de uma inteligência que aprecia tanto a ordem quanto a singularidade, que nunca repete e nunca desafina, que torna cada coisa única e todas as suas. É a mesma inteligência que molda o floco que mantém, neste instante preciso, a sua existência e a minha — pois, como demonstrado no segundo livro, nenhuma criatura possui o ser por conta própria, todas o recebem a cada momento, emprestado, de uma Fonte que não cessa de oferecer, de tal forma que, se Deus desviasse por um único instante o olhar do floco, do átomo, de você, tudo retornaria ao nada de onde foi originado. A inteligência não local do sincromístico representa essa entrega contínua do ser, esse apoio amoroso a tudo o que existe — e é chamada de Pai, e não de força. O que ele denominou de força que organiza os flocos, a fé considera como Providência conservadora, o Deus em que vivemos, nos movemos e existimos, mais próximo de cada coisa do que ela é de si mesma.
E existe um aspecto final da subcultura sincromística que a caracteriza como uma gnose eterna, e que merece ser chamado de caridade: a sensação de ser uma vanguarda, uma equipe de iniciados, um grupo restrito que percebe o que as massas desatentas não conseguem enxergar e que, por essa razão, tem uma missão secreta de transformar o mundo. Sentam-se, na verdade, os poucos despertos em um mundo de sonolentos, os detentores de uma missão oculta, os escolhidos que receberam a tarefa de interpretar o que o rebanho sem visão não consegue perceber. Esse sentimento, por mais puro e até tocante que seja em sua origem — a felicidade de ter descoberto um significado oculto —, é precisamente o cerne da tentação gnóstica ao longo de todos os tempos: a separação da humanidade entre os poucos que conhecem e os muitos que não conhecem, entre os espirituais e os materiais, entre os iniciados e a massa. E é exatamente contra isso, precisamente contra isso, que a palavra católico se levanta como um estandarte: porque católico significa universal, abrangendo o todo, para todos — e o cristianismo é a única mística do mundo que não possui iniciados nem níveis secretos, que oferece o mesmo Evangelho completo tanto ao doutor quanto à lavadeira, que transforma o mistério mais sublime, a Eucaristia, não em uma recompensa para os que interpretam, mas em um pão para as crianças. A gnose é, sem dúvida, um caminho para poucos; enquanto a Igreja é sempre um espaço aberto para todos. A maior libertação que se pode dar a um sincromístico exausto de estar à frente não é mais um segredo; é o enorme alívio de perceber que a verdade mais profunda não é esotérica, não é apenas para quem é iniciado, e não precisa ser decifrada. Essa verdade se chama Jesus Cristo, está presente em todos os lugares, é oferecida gratuitamente ao menor de todos, e aquele que, sendo simples, a ama de coração conhece mais sobre ela, no que realmente importa, do que o mais habilidoso dos decifradores que a busca de longe.
E uma vez que mencionamos de forma superficial as conspirações, é necessário enfrentá-las diretamente por um momento, não no intuito de aceitá-las ou reproduzi-las — este livro não faz afirmações sobre nenhuma delas, nem sobre o portal do onze de setembro, nem sobre a conspiração dos illuminati, nem sobre a influência secreta da maçonaria por trás dos clipes —, mas porque a mentalidade conspiratória é, em si mesma, uma enfermidade espiritual que merece ser identificada, uma forma de conhecimento distorcido que também afeta os cristãos. O sincromístico admite que é influenciado por duas tradições periféricas: o pânico satanista que tomou conta dos Estados Unidos no final dos anos oitenta, com seus ex-ocultistas convertidos que se tornaram famosos ao narrar seus medos, e a perseguição aos iluminati e à maçonaria, que contava com os decifradores de videoclipes capazes de identificar a Operação Monarca e a atuação da inteligência americana em cada movimento de cada cantora. Não há nada de errado em acreditar que o mal existe e atua — isso é uma realidade, e o segundo livro enfatizou isso: existem principados e potestades, há uma verdadeira batalha pela alma, e tratar isso com escárnio é se render desarmado. O que está incorreto é a maneira gnóstica que a situação adquire: a arrogância de acreditar que decifrou o código secreto do mal, de conhecer os nomes das lideranças, de ter o conhecimento oculto que explica tudo e que o rebanho desatento não possui. A conspiração é a gnose do temor: troca a atenta humildade do coração, que admite o próprio erro como o verdadeiro campo de batalha, pela vaidade do iniciado que identifica o inimigo sempre fora de si, em uma sala secreta ou em um símbolo oculto. Dessa forma, realiza duas ações desastrosas simultaneamente: estimula o orgulho daquele que decifra e destrói a tranquilidade de quem confia na Providência.
Há uma frase de Dick que toda a subcultura adotou como seu lema e, quando analisada corretamente, expressa a verdade da guerra espiritual com mais clareza do que mil tratados: o Império nunca foi derrotado. Dick via, em sua visão febril, que a Roma dos perseguidores, o Império que crucificava e prisionava, nunca havia realmente acabado — que ele apenas mudara de vestuário e seguia a reinar, invisível, sob as aparências do mundo moderno, uma prisão de ferro negro que nos mantém cativos sem que percebamos as grades. É verdade, e a fé conhece isso desde sempre, embora com uma clareza maior: há, de fato, um império que perdura por séculos, um poder das trevas que não cessa, que São João se referiu como o mundo, no sentido do sistema decaído, da estrutura de pecado e de morte sobre a qual o príncipe deste mundo exerce seu governo. O Império nunca chegou ao fim, isso é um fato; contudo — e aqui está o ponto que Dick não conseguiu perceber, e que altera toda a situação — ele já foi derrotado. Foi vencido, de maneira definitiva, não quando uma capital foi tomada, mas sim quando um homem foi crucificado nos arredores de alguma província daquele mesmo Império e ressuscitou no terceiro dia. Desde aquele momento, o Império das trevas mantém seu domínio, é verdade, porém como um tirano que já foi derrotado e ainda não se rendeu, causando destruição em sua retirada, mas cujo destino já está selado. É a distinção que um antigo fez entre a batalha decisiva que já foi vencida e a guerra que ainda está em andamento: o dia que determinou tudo já se foi, a vitória já foi assegurada no Calvário, e o que sobra é o intervalo entre a vitória e sua manifestação final, onde ainda se luta, mas sem desespero, pois já se conhece o desfecho. O sincromístico observa a prisão de ferro negro e se estremece, pois a vê desprovida da cruz que já a havia arrombado; o cristão contempla a mesma prisão e entoa cânticos, porque enxerga, sobre suas grades, o Vencedor em pé, com as portas já abertas atrás de si.
O sincromístico, neste caso, se destaca mais do que os conspiracionistas que o precedem, e é importante reconhecer isso: ele afirma que existe, de fato, um elemento humano, mas não se resume apenas a ele — as intrigas mesquinhas das agências e dos publicitários não geram os fenômenos de forma direta, pois os padrões se originam de instâncias superiores, de pessoas que acham estar no controle. Nesse aspecto, ele está próximo da verdade, e mais próximo do que o cristão assustado que enxerga um demônio em cada logotipo. A verdade clara é aquela que o segundo livro já revelou: por trás da manipulação humana do consentimento atuam forças que não são humanas, e por trás dessas forças — e aqui está algo que nem o místico sincero nem o conspiracionista conseguem aceitar — age o único que é realmente soberano, o Deus que inclui até os seus adversários, que escreve de forma correta por caminhos tortuosos, que utiliza os próprios demônios a seu serviço, mesmo sem querer e contra a vontade, para cumprir seu plano. A conspiração enxerga um grupo de homens malignos dominando o mundo e se apavora; a fé, por sua vez, contempla, além de qualquer cúpula e de toda força das trevas, um Pai que dirige toda a história, até mesmo os seus opositores, e repousa em paz. O conspiracionista habita um mundo sob o controle do diabo, com algumas permissões concedidas por Deus; já o cristão vive em um universo sob a direção de Deus, com raras permissões do diabo. É a mesma batalha, observada de diferentes perspectivas: de baixo, pelo orifício da fechadura do temor, aparenta que as trevas estão no controle; de cima, do altar, percebe-se que tudo, desde sempre, foi sustentado pela mão marcada de Aquele que já triunfou.
É fundamental insistir nesse ponto, pois a mentalidade conspiratória afeta tanto o cético quanto o fiel, e representa uma das grandes pragas espirituais do nosso tempo: é uma imitação precisa da fé na Providência, seu negativo fotográfico. O fiel observa a história e percebe, acima de todos os poderes, um Pai que controla tudo, até mesmo os males. Por isso, ele repousa tranquilamente, mesmo diante da tempestade, pois tem a certeza de quem é o dono do barco. O conspiracionista observa a mesma narrativa e, acima de tudo, percebe uma elite de indivíduos mal-intencionados que controlam o mundo nas sombras. Por essa razão, ele nunca consegue descansar, uma vez que em um mundo dessa forma não existe um Pai, apenas manipuladores, e seu único alívio é ter desvendado suas artimanhas. Os dois observam a mesma sequência de eventos e percebem nela uma inteligência escondida que a organiza; porém, um a interpreta como Providência e adora, enquanto o outro a enxerga como um complô e se apavora. A distinção entre adorar e tremer é a mesma que a separação entre céu e inferno já vividos nesta vida. Ainda mais grave: a conspiração proporciona ao seu seguidor todos os prazeres traiçoeiros da gnose sem qualquer uma de suas exigências — confere-lhe a vaidade de conhecer aquilo que a maioria ignora, a sensação de pertencimento ao grupo dos esclarecidos, a isenção de encarar suas próprias falhas, visto que o mal está sempre do lado de fora, em um lugar oculto, e nunca aqui dentro, em meu coração. É a via mais ampla para vivenciar a espiritualidade sem precisar se converter; por isso é tão apreciada e, ao mesmo tempo, tão estéril. O cristão também tem consciência de que existe uma verdadeira conspiração contra a sua alma — mas conhece o nome do conspirador, que é muito antigo, e a arma que pode usar contra ele, que não é a decifração, mas sim a oração; e sabe que a principal batalha dessa guerra não ocorre nos arranha-céus do mundo, mas sim no interior do seu próprio coração.
Há um perigo final, e bastante real, em se viver dentro dessa busca por demônios no mundo. O sincromístico menciona isso em um exemplo que funciona como uma parábola, sem que precisemos culpar ninguém: o caso do homem que, ao longo da vida, construiu uma carreira baseada na narrativa do ocultista arrependido, do ex-iniciado que agora revela os segredos das trevas. Ele acaba completamente absorvido pelo personagem de seus próprios livros, consumido pela história que contava, incapaz de distinguir onde termina o testemunho e onde começa a ficção que o sustentava. É o profeta consumido novamente, de uma forma peculiar: não a estrela destruída pela indústria, mas o intérprete engolido pela própria interpretação, o caçador de demônios que dedicou tanto tempo a observar o abismo que, como alertou Nietzsche, o abismo começou a observar de volta para ele. Porque existe uma lei espiritual rigorosa que a busca por conspirações ignora: quem se concentra no mal, mesmo que seja para combatê-lo, corre o perigo de se deixar moldar por ele, de assimilar sua lógica, e de começar a enxergar o mundo todo pelos olhos do inimigo que analisa. O verdadeiro exorcista tem plena consciência disso, e por isso sempre evita conversar com o demônio mais do que o estritamente necessário, nunca se permite questioná-lo sobre curiosidades, fixa seu olhar em Cristo e não na pessoa possuída; pois a cura não se origina do conhecimento profundo das trevas, mas sim de estar repleto de luz. O verdadeiro mistério da guerra espiritual não está em dominar a demonologia, mas sim em encher-se tanto de Deus que não há espaço para mais nada. O que nos protege não é um extenso conhecimento sobre o inferno, mas sim a grande presença do céu.
É importante observar de forma direta a origem da qual o sincromisticismo se alimenta, pois trata-se de uma coleção de almas significativas e perdidas que revela muito sobre o nosso tempo e sobre o custo de procurar a porta sem a Igreja. Seus próprios seguidores enumeram seus progenitores: Blavatsky e a teosofia, Crowley e a magia cerimonial, Burroughs e a fragmentação das palavras, Joyce e o fluxo das associações, Jung e os arquétipos, Kubrick e seus enigmas em celuloide, Timothy Leary, John Lilly e Terence McKenna, os psiconautas que almejavam conquistar o céu por meio de substâncias químicas, Grant Morrison e suas magias nos quadrinhos. Trata-se de uma linhagem de exploradores autênticos de territórios reais — não eram enganadores, nem tolos; eram homens que bateram em portas que realmente existem e presenciaram coisas que são reais, e que retornaram marcados porque não tinham onde descansar o que vivenciaram. É a mesma desgraça de Philip K. Dick, que já se emocionou com o segundo livro: a luz sem uma Igreja onde descansar queima a mão que a segura. Leary tentou tornar o êxtase acessível em uma pílula e se tornou um profeta de uma geração destruída; McKenna explorou os profundezas da consciência e trouxe de lá tanto maravilhas quanto demônios que não conseguiu diferenciar; Lilly se isolou em tanques de privação sensorial e em substâncias, até se perder de sua própria essência. Todos desejavam a ampliação da consciência, a fuga da caverna, a porta — e buscaram isso através da invasão, da técnica, da substância, da mão que arranca, e não pelo caminho do dom, da graça, da contemplação, da mão que acolhe.
A diferença não reside na intensidade, mas sim na direção, e é nesse aspecto que está toda a sabedoria da Igreja em oposição a todas as místicas do ataque. A fé cristã também promete o alargamento da consciência, a libertação da caverna, a percepção do que os olhos nunca viram — promete, ao final, a visão beatífica, o ato de ver Deus face a face, que é a euforia eterna diante da qual qualquer êxtase químico se torna um simples cartão-postal borrado do verdadeiro oceano. Entretanto, ela tem plena consciência de que o céu não pode ser conquistado à força, que o Fogo não é algo que se possa extrair dos vácuos como desejou Melkor, e que a droga, a técnica e a magia são, na verdade, o punho que se aperta sobre aquilo que só se pode receber de mãos abertas. O psiconauta ascende pela escada de corda que ele mesmo entrelaçou e despenca; o santo é erguer pela mão que vem do alto. Um empurra a porta e ela se despedaça; o outro bate, aguarda, e a porta se abre por dentro. E o mistério que os psiconautas nunca discerniram é que a maior expansão da consciência que um ser humano pode experimentar nesta vida não ocorre em um tanque, nem em uma pílula, nem em um ritual; acontece de joelhos diante de um pedaço de pão, quando a fé percebe, onde os olhos enxergam apenas farinha, o próprio Deus — essa é a verdadeira transformação radical da percepção, e é a única que não deixa ressaca, porque não é uma fuga da realidade, mas sim a realidade finalmente reconhecida.
É importante dedicar um tempo a conhecer um desses psiconautas, Terence McKenna, pois ele chegou, em meio a seu estado alterado de consciência, a uma frase que pode ser considerada como o prólogo do Evangelho de João dito por alguém sob efeito de substâncias: o universo, afirmava ele, não é composto de matéria, mas de linguagem. O que fundamenta a realidade não é partícula nem energia, mas sim palavra, significado, ação; que, em sua essência, as coisas são constituídas de fala. Um materialista poderia considerar isso uma loucura de alguém que exagerou nos cogumelos; porém, um cristão enxerga ali, mesmo em meio à embriaguez, a verdade mais antiga e precisa. Pois foi exatamente isso que São João escreveu, de forma clara, há dois mil anos: no princípio era o Verbo, a Palavra, o Logos, e todas as coisas foram criadas por meio dele, e sem ele nada do que foi feito se realizou. O universo realmente é composto de linguagem, McKenna estava correto — mas essa linguagem possui um emissor, a Palavra pertence a Alguém, o Verbo é uma Pessoa. O significado que reside no cerne de todas as coisas não é um espaço impessoal a ser explorado por quem utiliza a substância apropriada; é a voz de um Pai que incessantemente diz "faça-se" e as coisas acontecem, que convoca cada estrela pelo nome e mantém cada átomo com uma palavra. McKenna explorou o Logos na escuridão de uma visão química e o chamou de linguagem; faltou-lhe apenas perceber que a linguagem se manifesta, que o Verbo possui um Rosto, e que esse Rosto, ao invés de ser atingido por uma substância, veio ao nosso encontro e permitiu-se ser chamado por um nome humano.
É importante mencionar alguns desses pais da linhagem, pois cada um deles é uma lição de vida que se expressa através de sua própria existência. Houve a Madame Blavatsky, que desejou unir todas as religiões do mundo em uma única sabedoria secreta, a teosofia, e acabou por criar mestres ocultos no Tibete e uma confusão de doutrinas onde a verdade de todas as crenças se desintegrava na visão de uma única mulher. Houve Aleister Crowley, que teve a audácia de resumir sua filosofia mágica em uma máxima breve e impactante: "faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei" — uma antecipação do ateísmo, onde o eu soberano se torna a única regra. No entanto, ele acabou seus dias viciado, falido e solitário, sendo um profeta do próprio desejo consumido por aquilo que ensinava. Existiram os psiconautas, como Leary, McKenna e Lilly, que trocaram a contemplação pela substância e a prece pela dose, e que retornaram de suas jornadas com relatos sobre entidades, elfos-máquina e inteligências do outro lado do véu — relatos que a fé não ignora, pois reconhece que realmente existe um outro lado do véu e que ele está habitado, mas alerta com toda a força: aquilo que se conquista ao forçar a porta por meio de substâncias químicas não é o paraíso, mas sim a antessala arriscada onde residem tanto os anjos quanto suas imitações, e quem adentra lá sem a proteção da graça e o discernimento da Igreja dificilmente volta íntegro. E teve Kubrick, o mais contido e o mais enigmático de todos, que não consumiu nenhuma substância e, ainda assim, filmou, com um rigor gélido, a mesma jornada — o homem que passa pelo portal estelar e renasce como uma criança das estrelas, a super-história inteira condensada em imagens que até hoje ninguém conseguiu decifrar por completo. Todos eles tocaram em portas verdadeiras; nenhum possuía a chave, pois a chave não se cria nem se retira à força, apenas se recebe de joelhos, das mãos de Aquele que é, Ele mesmo, a Porta.
É importante prestar atenção no mais sóbrio e enigmático desses mestres, Stanley Kubrick, pois em um único filme ele concentrou toda a super-história e todo o profundo abismo presente neste livro. Em seu poema de ficção científica sobre a odisseia no espaço, um macaco entra em contato com um monólito negro que desce do alto e, ao tocar esse enigmático ser, realiza o salto que o tornará homem; e, ao final, milênios mais tarde, um astronauta passa por um portal de luz ofuscante — o próprio portal estelar, a porta cósmica — e renasce, do outro lado, como uma criança das estrelas, um feto luminoso flutuando sobre a Terra, o próximo estágio da evolução, o homem transformado em algo que já não é mais humano. É a história completa em apenas duas horas: a ascensão, o encontro com seres de outros mundos, a transformação, a radiação do portal, e, por fim, a elevação do ser humano, a transfiguração que o leva além da condição humana. E é justamente a ambiguidade de todo este terceiro livro materializada em uma imagem: pois aquela criança das estrelas, aquele homem que se transformou em deus ao cruzar o portal, pode ser interpretado de duas maneiras opostas. Sob a perspectiva da ateia, essa visão se mostra como a materialização do ideal de Nietzsche e Kripal: o ser humano que, seja através da evolução, da tecnologia ou de uma conexão elevada, supera suas limitações e alcança a divindade, transformando-se num super-homem que reina soberano sobre o mundo que já não faz parte de sua existência. Sob a ótica da teose, observa-se a profecia involuntária do destino proporcionada pela graça: o ser humano que, ao cruzar a morte como se estivesse passando por um portal de luz, renasce como uma criança — e não é necessário que vos transformem em crianças para adentrar no Reino? — em uma nova e gloriosa forma, divinizado não por ter se libertado de suas limitações, mas por ter sido gerado de novo a partir do alto. A mesma imagem, a criança de luz sobre a Terra, representa o auge da soberania ou o auge da humildade, dependendo de se chegar até ela pelo portal furtado de Prometeu ou pelo acolhimento oferecido pelo Pai. Kubrick capturou o limiar; de que lado estamos, cabe a cada um decidir.
É necessário afirmar, desafiando toda a mística do assalto, quem realmente foram os autênticos exploradores dos estados mais elevados da consciência, os verdadeiros psiconautas — e não foram aqueles que consumiram substâncias, mas sim os que se ajoelharam. Uma freira espanhola relatou, com uma exatidão que nenhum relato de viagem química consegue, os sete cômodos internos da alma, o castelo de cristal que se atravessa de morada em morada até a câmara central onde reside o próprio Deus, e os níveis da união mística com a precisão de uma cartógrafa. Existiu um frade, amigo dela, que mapeou a escuridão da alma, a jornada pelo vazio, a renúncia completa que antecede o amanhecer da união, com uma profundidade que faz os relatos dos psiconautas contemporâneos parecerem meras anotações de viagem. Esses, de fato, mergulharam nas profundezas da consciência e retornaram com mapas; esses, com certeza, passaram por portas que os demais apenas tocaram. A essência do seu método revela toda a aprendizagem: não arrombaram a porta, não trouxeram nada para si, não destroçaram o êxtase — se esvaziaram, se purificaram, aguardaram e foram elevados. A profunda jornada interna da tradição cristã não é um ato de ascensão, mas sim de entrega; não se eleva ao céu com força, mas se permite que o céu venha ao encontro por meio da humildade. E o que descobriram no fundo não foi uma entidade estranha, um elfo-máquina, ou uma inteligência alienígena a ser desvendada; foi um Rosto familiar, o Rosto de Quem os amava desde sempre e os aguardava no centro de si mesmos. Os psiconautas contemporâneos retornam de suas jornadas trazendo histórias de maravilhas e de horrores que não conseguem nomear; já os místicos voltam das suas experiências com uma única palavra, que é um Nome, e com uma tranquilidade que a ciência não proporciona e o mundo não pode apagar. A autêntica expansão da consciência não expande a mente para o vazio; ao contrário, a aprofunda até o Fundo, e esse Fundo é uma Pessoa.
E logo no início dessa linhagem, encontramos uma figura intrigante e tocante que merece um capítulo inteiro do nosso coração, pois nela a verdadeira intuição e o erro gnóstico coexistem com uma pureza quase inocente: Charles Fort, o coletor dos amaldiçoados. Fort dedicou sua vida a compilar, de jornais e revistas de todo o mundo, os eventos que a ciência ignorava — as chuvas de peixes, sangue e pedras, os objetos brilhantes no céu, os sinos que tocam sem ninguém tocar, tudo aquilo que ocorre e que não se encaixa no sistema, sendo assim considerado impossível e esquecido. Reuniu vinte e cinco mil dessas notas em caixas de papelão, em seu modesto escritório no Bronx, e carinhosamente nomeou aquilo de seu sanatório das coincidências exageradas — um abrigo para os fatos banidos do domínio do conhecimento, os rejeitos da realidade, que ele tratava com carinho ao organizar, como quem cuida de órfãos. E do aglomerado surgiu uma obra de nome ideal, O Livro dos Danados, que começa com uma frase que se assemelha a um salmo invertido: ao usar a palavra danados, refiro-me aos marginalizados; aqui estamos diante de uma marcha dos dados que a ciência deixou de lado, e agora eles se apresentam. Os fatos recusados, os marginalizados da realidade, desfilando como um exército de sombras sobre o sepulcro da ciência que os excluiu.
É importante permitir que a lista dos maltratos passe por um momento diante dos nossos olhos, pois ela carrega uma poesia peculiar que revela muito sobre a essência humana e sobre aquilo que a ciência altiva se recusa a reconhecer. Fort registrava chuvas de peixes e rãs vivas que caiam do céu claro; chuvas de sangue e de carne; chuvas de uma substância escura como tinta; flocos de neve do tamanho de pratos; rodas de luz girando sobre o mar; objetos voadores muito antes de alguém os nomear como discos; e, em uma de suas descobertas mais tocantes, pequenos caixões encontrados em uma encosta, como se alguém, de algum lugar, estivesse enterrando seres minúsculos à vista de uma cidade que não os percebia. Ele era, sem dúvida, uma figura peculiar: preservava borboletas como hobby e desafiava a si mesmo em partidas de um superxadrez com mil e seiscentas casas que havia criado, como se as regras do tabuleiro convencional não fossem suficientes para ele e precisasse de algo mais amplo. E havia, na sua forma de lidar com aqueles acontecimentos marginalizados, uma sensibilidade que desmonta qualquer ironia: ele acariciava suas vinte e cinco mil fichas ao organizá-las, oferecia abrigo em seu modesto escritório às realidades dissonantes que o saber havia rejeitado, como alguém que acolhe gatos de rua numa noite gelada. Essa sensibilidade pelos marginalizados, esse afeto pelos acontecimentos que não encontram espaço, é uma virtude quase cristã, e o segundo livro já nos ensinou o motivo: porque o Deus que se manifesta através do lixo e opta pelo que o mundo despreza tem preferência justamente pelos aflitos, pelos abandonados, pela pedra que os construtores descartaram — e quem acolhe com cuidado o que o orgulho dos sábios rejeitou está, sem perceber, imitando a atitude do Pastor que deixa as noventa e nove e parte em busca da que se perdeu.
Fort apresentou uma intuição filosófica que é, simultaneamente, clara e arriscada, e que deve ser considerada com grande cautela, pois é a essência deste livro. Ele percebeu que a realidade não se apresenta como um conjunto de coisas completamente reais isoladas de coisas totalmente irreais; que entre o real e o irreal há nuances, uma continuidade, assim como entre o vermelho e o amarelo existe o laranja, e que toda demarcação que a ciência faz para afirmar que algo existe e que outro não existe é, na essência, arbitrária. Ele sugeriu que a humanidade já passou por duas grandes influências, duas formas de pensar que determinam o que pode ser considerado real: a influência da religião e, posteriormente, a influência da ciência, cada uma delas incorporando certos fatos e excluindo arbitrariamente todos os demais da realidade. E foi anunciada uma terceira, a predominante da inclusão, que aceitaria todos os fatos em diferentes graus de realidade, sem rejeitar nenhum para o vácuo. Pois bem, a intuição de Fort aborda duas verdades significativas e comete um equívoco em uma terceira, sendo necessário dissecá-las com cuidado. Apresenta-se a verdade de que a realidade possui diferentes graus — essa é a doutrina católica da participação, a qual foi abordada no segundo livro: as criaturas não são Deus nem absolutamente nada, mas participam do ser em graus variados, desde o mineral até o anjo, em uma escada que ascende à Fonte. E revela-se a verdade de que a ciência dogmática exclui de forma arbitrária aquilo que não se encaixa em suas normas — e nesse aspecto, Fort é semelhante a Tolkien, que, assim como ele, batalhou a vida inteira para, por meio do fantástico, vencer a realidade, rompendo com a tirania de uma existência sem brilho que ignora o milagre e o maravilhoso.
Há uma citação nessa jornada de Fort que o une eternamente ao maior dos santos dos sonhos do segundo livro, e que vale a pena destacar: tanto Fort quanto Tolkien lutaram, cada um à sua maneira, na mesma estranha cruzada — a de, por meio do fantástico, vencer a realidade. É, de fato, paradoxal e possui uma profundidade imensa. Pois o fato, na maneira como esses dois o enfrentavam, não representa a verdade; é a tirania da verdade superficial, do real reduzido ao que se pode pesar e medir, de um mundo achatado pela ciência dominante que considera impossível tudo aquilo que não se encaixa em suas categorias e, com isso, extermina o milagre, o maravilhoso, o sagrado, a profundidade. Fort combatia essa realidade tirânica acumulando os malditos, os acontecimentos que não se encaixam, até provocar uma explosão no sistema; Tolkien enfrentava-a criando mundos inteiros de encantamento, para reavivar no leitor a capacidade de espanto que a realidade dessensibilizou. Ambos tinham consciência de que a imaginação é uma ferramenta poderosa contra a escravidão do materialismo, e que o fantástico não é uma forma de escapar da realidade, mas sim uma forma de recuperar a realidade que foi sequestrada por uma visão estreita e dominante. A fé se mostra como a parceira essencial dos dois nessa jornada, e sua realização: pois o cristianismo representa a maior derrota do fato absolutizado que a história já presenciou, a proclamação de que a realidade é infinitamente mais vasta do que a ciência, em sua arrogância, pode reconhecer, evidenciando que existem anjos, milagres, ressurreição e um Deus que se fez humano — o fato mais extraordinário de todos e que é verdadeiro. O engano de Fort foi não perceber que a sua cruzada já contava com um comandante e uma conquista: que o fato estabelecido já havia sido vencido, de maneira definitiva, não por um colecionador de anomalias, mas por um sepulcro que apareceu vazio, o maior dos desgraçados, o fato improvável que ocorreu e dividiu a história em duas partes.
Entretanto, Fort comete um engano, e o sincromístico acaba por herdar essa falha ao chegar à conclusão de que, por existirem diferentes níveis de realidade, nada é realmente real e nada é realmente irreal — tudo se encontra em uma penumbra elétrica na qual a verdade e a mentira se entrelaçam em um tom alaranjado, tornando impossível afirmar com certeza o que é e o que não é. Neste contexto, a inserção de Fort resulta na derretimento de Kotze, a aceitação de todas as verdades se transforma na dissolução de qualquer verdade, e nos vemos novamente imersos no pântano gnóstico, onde o real não impõe mais obrigações a ninguém. A verdadeira inclusão não se trata de eliminar as fronteiras entre o que é real e o que não é; é sobre ter uma casa ampla o suficiente para acolher, a cada um em seu espaço e com seu peso específico, o átomo e o anjo, o milagre e a lei, o fato concreto e o símbolo sagrado, sem misturar os diferentes níveis. Essa influência realmente existe, não é algo recente e não precisa ser criada por nenhum profeta do Bronx: trata-se da Igreja, o lar mais inclusivo que já foi erguido, o único lugar que abriga simultaneamente a razão de Tomás e os êxtases sanguinolentos dos místicos, a física e a ressurreição, a dúvida sincera e o milagre comprovado — não porque dissolve a realidade, mas porque conhece seu Criador e reconhece que na casa do Pai há muitas moradas, e que os excluídos, os elementos afastados pela ciência arrogante, são muitas vezes as sementes do Verbo que a análise estreita não conseguiu perceber. Fort abriga os fatos problemáticos em seu escritório modesto; a Igreja lhes concede abrigo em seu amplo dogma e os batiza.
É necessário afirmar, em contraposição à influência científica que se considera a regra de tudo, que os fatos estranhos, os marginalizados, aqueles que não se encaixam no sistema, não são apenas as chuvas de peixes de Fort — são também, e principalmente, os milagres, que a ciência rejeita como inexistentes com o mesmo gesto arbitrário que usa para desconsiderar as rãs que caem do céu. Existem registros, analisados e confirmados por médicos, incluindo descrentes, sobre curas inexplicáveis pela medicina, testemunhadas por grandes multidões; há corpos de santos que se mantêm incorruptos ao longo dos séculos; há o sangue que se torna líquido em datas específicas; há o sol que, diante de dezenas de milhares de pessoas, muitas das quais céticas que foram para zombar, pareceu dançar no céu de uma pequena aldeia; há também as aparições de uma Senhora a crianças analfabetas que posteriormente relataram coisas que não poderiam saber. A autoridade da ciência afirma que tudo isso é impossível sem antes investigar, e por isso não investiga, e por isso não percebe — exatamente o mecanismo que Fort denunciou, a exclusão arbitrária do que não se encaixa. A Igreja, que realmente é a verdadeira defensora da inclusão, adota uma postura oposta: observa, analisa, questiona e investiga com um rigor que envergonha até mesmo os céticos — pois ninguém se mostra mais desconfiado de um suposto milagre do que a própria Igreja, que sujeita cada caso a longos anos de pesquisa médica e teológica antes de aceitá-lo — e, quando o acontecimento resiste a todas as avaliações, recebe-o, não como uma distorção da realidade, mas como um sinal, um momento em que a barreira entre este mundo e o outro se afina e permite a passagem de um raio. Os milagres são os extraordinários supremos, acontecimentos que o orgulho científico rejeitou e que a fé acolhe com carinho, assim como Fort arrecadava suas fichas — apenas que a fé sabe de onde eles provêm, e entende que não são anomalias de um universo desordenado, mas sim visitas ocasionais do Autor ao interior de sua própria obra, lembrando aos personagens que a história conta com Alguém escrevendo, e que esse Alguém os ama.
E existe uma frase que sintetiza toda a essência real de Fort e que merece ser lembrada, proferida por um biólogo e não por um místico: o universo não é apenas mais estranho do que imaginamos, é mais estranho do que conseguimos imaginar. Trata-se de uma humildade saudável, e profundamente enraizada no catolicismo, em oposição à arrogância de uma ciência dominante que acredita já ter medido tanto o possível quanto o impossível. É indiscutível que a realidade ultrapassa em muito as nossas categorizações, que o mundo é mais vasto do que o que conseguimos compreender, e que existem inúmeras coisas entre o céu e a terra que vão além das ideias que nossa filosofia concebe — e isso sempre foi entendido por Fort, Shakespeare e pela Igreja. O equívoco de Fort não reside no fato de afirmar que a realidade possui diferentes níveis e vai além das nossas classificações; o erro está em deduzir que, por isso, nada é realmente sólido, que tudo se dissolve em um laranja que oscila entre o vermelho e o amarelo. Pois os graus da realidade não desintegram a realidade; organizam-na. A fé se refere a isso como a analogia do ser, e é a peça que falta a Fort: as coisas são reais em diferentes graus, com certeza, mas não em um degradê indefinido onde tudo se mistura, e sim em uma escada sólida que vai da pedra ao anjo, com cada degrau participando mais ou menos do ser à medida que se aproxima da Fonte, sendo esta a essência do Ser puro, Aquele que proclamou Eu Sou. Existem níveis de realidade porque existe uma escada, e essa escada existe em função de um topo; eliminar o topo não achata a escada em uma poça, mas a faz desmoronar em um abismo. A inclusão dominante só é eficaz se for a inclusão hierárquica da casa do Pai, onde existem muitas moradas em diferentes níveis, e não a inclusão dissolvente do pântano, onde não há mais alto nem baixo, nem dentro nem fora, nem real nem sonho.
É fundamental afirmar, com clareza e sem rancor, um ponto sobre a tentação de interpretar essa sequência de dominantes — a religião, em seguida a ciência, e por fim a inclusão — como se fossem três eras do mundo, três fases de um progresso no qual a terceira supera e anula as duas anteriores, e onde uma nova Era do Espírito estaria surgindo além da antiga religião e da antiga ciência. Essa tentação é antiga, possui um nome na história da Igreja e já foi repudiada: é o anseio de um abade medieval por uma terceira era do Espírito, que faria com que a era do Filho, ou seja, a Igreja de Cristo, fosse vista como algo superado. E a Igreja o desprezou por um motivo que se aplica a todos os profetas de uma nova era que deveria superar o cristianismo: porque não existe uma terceira era que passe acima de Cristo, não há um novo paradigma que venha após o Verbo encarnado e o faça obsoleto, pela simples razão de que Cristo não é uma fase da história, é o seu núcleo e seu desfecho, o ponto para o qual tudo antes convergia e do qual tudo depois resulta. A era do Espírito não se trata de um futuro distante da Igreja; na verdade, é a era da Igreja, que teve seu início em Pentecostes e perdurará até o final, pois o Espírito prometido já desceu e veio para guiar a Igreja em toda a verdade, e não para estabelecer uma nova seita acima dela. Sempre que alguém proclama uma nova era do espírito, uma superação do antigo cristianismo em prol de uma espiritualidade supostamente mais abrangente e livre, está, sem perceber, reiterando o engano do abade e se rendendo à mais sutil das gnoses — aquela que não nega Cristo abertamente, mas o coloca como um capítulo fechado. E a resposta permanece a mesma, e essa é a alegria deste livro: não existe gênese mais recente que o Evangelho, pois o Evangelho é a novidade absoluta que nunca se desgasta, o cântico novo que nenhuma era posterior pode fazer parecer antigo; e toda verdadeira novidade do Espírito não nos afasta da Igreja, mas nos conduz ainda mais para o interior dela.
Agora é necessário chegar ao clímax mais elevado de toda esta obra, à ironia mais sublime de nosso tempo, que surge, de todas as fontes imagináveis, da escrita do mais famoso ateu do mundo. Richard Dawkins, em sua obra O Gene Egoísta, publicada em mil novecentos e setenta e seis, ao tentar simplificar toda a forma de vida a um jogo aleatório de moléculas que se reproduzem, apresentou no capítulo final um conceito que veio a se tornar central em nosso vocabulário: o meme. Um meme, segundo ele, é uma unidade cultural que se espalha de mente para mente por meio da imitação — uma melodia, uma ideia, um slogan, uma tendência, um modo de fazer coisas — da mesma forma que o gene se reproduz de corpo para corpo. E, mencionando um colega, ele adiciona uma frase que dá calafrios: os memes devem ser vistos como estruturas vivas, não apenas de forma metafórica, mas também técnica; quando você insere um meme fértil na minha mente, você, de fato, parasita o meu cérebro, convertendo-o em um meio de disseminação do meme, assim como um vírus faz com uma célula. E, buscando derrubar de vez a religião, Dawkins encerra o capítulo avaliando a noção de Deus como o meme mais bem-sucedido — uma ideia que possui um imenso valor de sobrevivência, que se reproduz há milênios por meio da palavra, da música, da grande arte, e cuja potência reside no apelo psicológico, na resposta às questões fundamentais, no consolo frente à morte. Deus realmente existe, afirma o ateu, com um sorriso que considera arrasador, mesmo que isso se dê através de um meme com excepcional capacidade de persistência.
E esta não é a primeira vez que, na história, um inimigo de Deus ou um descrente acaba profetizando a verdade sem querer, contrariando sua própria intenção; ao contrário, essa é uma das formas preferidas da Providência, e já possui exemplos ilustres nas próprias Escrituras. Existiu Balaão, o adivinho idólatra que foi contratado para amaldiçoar o povo de Deus, mas em vez disso, sua boca se abriu para pronunciar uma bênção e uma profecia sobre o Messias — uma estrela que surgirá de Jacó —, pois Deus colocou a verdade na fala de quem havia sido pago para proferir mentiras. Existiu Caifás, o sumo sacerdote que sentenciou Cristo à morte e, ao fazer isso, profetizou, sem compreender suas próprias palavras, que era necessário que um homem morresse pelo povo — uma descrição precisa da Redenção, pronunciada por quem a realizava por motivos de ódio. A tradição cristã sempre identificou, mesmo nas sibilas pagãs, nos poetas não cristãos e nos filósofos céticos, vislumbres e previsões do Verbo, verdades expressadas por aqueles que não tinham conhecimento de quem estavam falando. Dawkins, o ateu que tentou reduzir Deus a um vírus da mente e acabou descrevendo a Encarnação, faz parte dessa linhagem respeitável e involuntária: ele é o Balaão de nossos tempos, o descrente cuja boca, aberta para a negação, trouxe sem querer a mais pura confissão da verdade. Isso deveria encher o cristão não de orgulho, mas de uma profunda reverência diante da maneira como Deus governa o mundo: fazendo com que aqueles que O negam testemunhem contra a própria vontade, colocando a verdade na boca daqueles que a combatem, podendo até mesmo incorporar os seus adversários — que é, na verdade, o poder que todo este livro busca evidenciar e que agora se revela até mesmo nas palavras de quem O nega.
E o ateu não se deu conta — como poderia? — de que acabara de redigir, sem uma única vírgula para corrigir, a mais precisa descrição da Encarnação do Verbo que a nossa era produziu. Porque o que é o Verbo de Deus senão a Informação viva por excelência, o Logos, a Palavra que no princípio já existia, que não é apenas uma coisa entre as coisas, mas sim o próprio padrão de tudo, que se replica no mundo não pela força das armas nem pelo peso da matéria, mas de mente em mente, de coração em coração, de boca em boca — através da pregação, da palavra ouvida, da boa música e da grande arte, exatamente como Dawkins descreve? A crença é gerada pela audição, afirmou São Paulo dois milênios antes do meme; o Reino é comparável ao fermento que uma mulher oculta na massa e que a tudo transforma; é como o grão de mostarda, a menor das sementes, que se torna em árvore; é a semente semeada que cai em solo fértil e produz cem por um. O Evangelho pode ser considerado um meme no sentido mais profundo e sagrado do termo: uma informação vibrante que adentra o mundo, se reproduz nas mentes, modifica seus portadores — e Dawkins, ao tentar eliminar Deus, evidenciou, mesmo sem querer, que Deus é indestrutível precisamente porque não é algo que se possa exterminar, é uma Palavra que, uma vez ouvida, se espalha por si mesma e não se extingue, pois está viva.
Há um aspecto anatômico na perspectiva de Dick que merece ser explorado, pois a Escritura já o revelava há dois mil anos: ele afirmava que a informação viva, o plasmado, percorre o nervo óptico até a glândula pineal, localizada no fundo do cérebro, que as tradições antigas denominavam de terceiro olho, olho interior, a morada da visão espiritual. E não é por acaso que a salvação, para Dick, entra exatamente pelo olho. Cristo proferiu uma frase curiosa e profunda acerca do olho: a candeia do corpo é o olho; se o teu olho for puro, saudável e único, todo o teu corpo será iluminado; mas se o teu olho for maligno, todo o teu corpo estará em trevas. O olho único, o olhar simples — aquele que concentra a atenção em um único objetivo, que não está dividido entre Deus e o mundo e que se fixa em um único Senhor — ilumina toda a mente humana; por outro lado, o olho dividido, que busca servir a dois senhores, o enche de escuridão. Então, aqui está, mais uma vez, a distinção entre o sincromístico e o santo, agora expressa em termos de percepção. O olho do sincromístico é um olhar plural, disperso, que persegue mil sinais ao mesmo tempo, que enxerga portais em todos os lugares e não encontra centro em lugar algum — um olho fragmentado pela própria diversidade, e por isso, apesar de tudo o que absorve, não está cheio de luz, mas de uma penumbra onírica onde nada se diferencia de nada. O olhar do santo é singular: dirige-se a um único rosto, concentra-se em um só Cristo, e por isso ilumina todo o corpo, permitindo que, nessa luz exclusiva, todas as outras coisas se revejam em seus devidos lugares. Não se refere a enxergar mais coisas; diz respeito a ter um olhar saudável, singular, direcionado para o único Sol — e assim toda a realidade, iluminada por essa luz, brilha de uma só vez, sem necessitar ser caçada fragmento por fragmento nas sombras.
E o mais impressionante é que outro homem, anos antes, chegou à mesma imagem por um caminho diferente — não para negar Deus, mas para descrevê-lo com anseio e tremor — e esse homem era, novamente, Philip K. No brilhante delírio de sua Exegese, Dick referiu-se a essa informação viva como plasmado e também como Zebra, pois ela se camufla no mundo da mesma forma que a zebra se oculta na grama, tornando-se invisível por estar tão presente. O plasmado, conforme escreveu em seus aforismos, é imortal, uma forma de energia, é informação viva; não se replica por meio da informação nem dentro da informação, mas sim como informação; pode se cruzar com o humano, gerando o que ele denominou de homoplasmado — o ser humano ligado ao divino —; viaja pelo nervo óptico até o fundo do cérebro e utiliza a mente humana como um hospedeiro benigno, onde se replica de forma ativa. E Dick afirma de maneira direta quem é esse ser plasmado: é o Salvador, é Cristo, que, ao invadir o nosso mundo, se replica como uma informação viva e utiliza corpos humanos para realizar um intenso processo de salvação. O ateu Dawkins e o místico excêntrico Dick, partindo de posições opostas, esboçaram a mesma imagem: o Verbo que adentra o mundo como informação vital e se espalha de alma em alma. Um desejava enterrar Deus; o outro, encontrá-lo. E os dois, de forma inconsciente, elaboraram em conjunto o prólogo do Evangelho de João adaptado à língua da nossa época: no princípio era a Informação, e a Informação estava junto a Deus, e a Informação era Deus, e a Informação se fez carne e residiu entre nós, e se replicou nos corações daqueles que a acolheram, conferindo-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
E, no nome que Dick escolheu para o plasmado, existe uma verdade teológica que merece ser explorada: ele o chamou de Zebra, pois a informação viva se camufla no mundo da mesma forma que a zebra se mimetiza entre as listras do capim, sendo invisível não por estar ausente, mas por estar disfarçada, excessivamente presente, misturada ao ambiente. Trata-se de uma das imagens mais precisas já encontradas para o que os teólogos denominam de Deus escondido, o Deus absconditus. A verdadeira dificuldade de encontrar Deus não reside em Sua distância ou ausência; na realidade, Ele está tão próximo, tão envolvido em tudo, como a zebra está entre as lâminas de capim, ou como o ar se combina com o espaço que respiramos, muitas vezes sem perceber. Não encontramos Deus pela mesma razão que o peixe não encontra a água e o olho não percebe a própria luz com a qual enxerga: porque Ele é o ambiente em que vivemos, o suporte sobre o qual tudo se delineia, a presença tão completa que se torna invisível. O sincromístico percebe essa presença disfarçada e começa a buscar suas listras nos filmes, desvendando onde a zebra se oculta na savana da cultura — e não percebe que a zebra não se esconde para escapar do caçador, mas se esconde para ser encontrada com afeto, como o pai que se esconde de maneira diligente atrás da cortina para que o filho tenha o prazer de encontrá-lo. Deus se oculta no mundo não por vergonha ou por fracasso, mas por ensinamento e amor: deseja ser buscado, deseja ser encontrado, anseia pela alegria do encontro — e por isso se esconde à vista de todos, no pão, no pobre, na história cotidiana, no lixo, aguardando não aquele que O busca para entender, mas o filho que O procura para amar, e que, ao encontrá-Lo onde Ele sempre esteve, percebe que era Ele quem o buscava desde o início.
É necessário apenas, como sempre acontece nesses livros, ajustar a imagem no momento em que ela se distorce, para que o ouro se separe da impureza. Dawkins retrata o meme como um parasita inconsciente que se aproveita do cérebro sem pedir permissão, assim como um vírus se aproveita de uma célula — e nessa afirmação há uma mistura de uma irreverência e uma realidade. A realidade é que o Verbo realmente invade, de fato se apropria e, de fato, muda o hospedeiro. A blasfêmia é a palavra que consome, a palavra que cega: porque o Verbo não consome, se apresenta; não invade a porta da vontade, a ela se aproxima e aguarda; não transforma o ser humano em uma máquina de reprodução, mas o eleva a filho, a amigo, a herdeiro. O vírus de Dawkins transforma a célula em sua escrava; o Verbo de Deus torna o homem seu filho — e a distinção entre escravidão e filiação é, mais uma vez, a diferença entre o punho cerrado e a mão aberta, entre ser utilizado e ser amado. O homoplasmado de Dick, o homem integrado ao divino, não é um mero hospedeiro parasitado; é o divinizado, aquele que recebeu o Fogo de dom e se tornou, por graça e por participação, aquilo que Cristo é por essência. O meme de Deus não te deixa vazio para se espalhar em você; ao contrário, te preenche e, ao te encher, faz de você também, pela primeira vez, ser plenamente você mesmo. É o único vírus que, ao te infectar, te cura; a única posse que, ao te tomar, te libertará; a única informação que, ao se reproduzir em ti, não te apaga, mas te inscreve, finalmente, com letras de ouro no único livro que nunca se fecha.
É momento de expressar uma palavra de agradecimento e de pesar por Philip K. Dick, que percorreu os três livros como uma luz efêmera e que é, em essência, o patrono involuntário de toda essa trilogia — o profeta consumido que presenciou quase tudo e não teve um lugar seguro para repousar suas visões. Pois ninguém, em nossos dias, investigou com tanta intensidade as verdades que estes livros buscam: que a realidade pode ser uma prisão de ilusões, e isso é verdade, devido ao pecado; que existe uma informação vital, um Verbo, que permeia o mundo para nos salvar, e isso é verdade, e esse Verbo é Cristo; que o Império das trevas nunca foi extinto, e isso é verdade, e já foi derrotado; que a salvação é um processo de lembrança, e isso é verdade, e é chamado conversão. Dick testemunhou tudo isso, fragmento por fragmento, em visões que o dilaceraram. Passou seus últimos anos escrevendo mil páginas intensas na busca de compreender o que lhe acontecera — e faleceu sem encontrar descanso, pois possuía a luz, mas não a Igreja; tinha as peças, porém não o mapa; vivenciou a experiência poderosa de Deus, mas não dispunha do terreno simples da fé comum, onde essa experiência pode se assentar e se transformar em paz. É a tragédia que o segundo livro já lamentou e que o terceiro conclui: a luz sem uma Igreja onde repousar queima a mão que a sustenta. Dick é o alerta vivo contra tudo o que o sincromístico sugere: é o que ocorre a uma alma genial e ansiosa que recebe os vislumbres e rejeita, ou nunca encontra, o abrigo onde eles são armazenados. E é por essa razão que é o convite mais tocante, pois toda a sua obra é um clamor de alguém que buscava, sem conhecer o nome, precisamente aquilo que a Igreja conserva há dois mil anos, à espera pacientemente dele e de nós: não um mero vislumbre, não mais uma parte do enigma, mas o Rosto completo, a Pessoa, o Verbo que se fez carne, o término da busca e o início do descanso.
Há um segundo elemento nessa mesma discussão que aprofunda toda a temática, oriundo de outro cientista, William Clark, em uma obra com um título sombriamente instigante: Sexo e as Origens da Morte. Clark revela que existem duas formas distintas de morte: a morte acidental, que pode ocorrer por fome, frio ou violência, e que qualquer ser vivo pode enfrentar; e a morte programada, que está determinada pelo próprio código genético, caracterizando o suicídio celular que a célula carrega consigo, de forma que o organismo não apenas tem a capacidade de morrer, mas foi projetado para fazê-lo no seu momento adequado. E dessa segunda morte, a pré-planejada, surge — essa é a tese — a verdadeira relevância do sexo, pois onde o ser humano é substituível, ali a vida se concentra na renovação e não na continuidade. Pois bem, o sincromístico extrai disso um conflito: a morte planejada enaltece o sexo, o sexo exalta o gene, e assim o gene e o meme — essa informação viva que se reproduce de mente em mente — convertem-se em duas trajetórias evolutivas adversárias, dois replicadores em disputa pela essência do mundo, e o meme, afirmam, se propaga muito mais velozmente que o gene. Vamos deixar de lado a especulação biológica e resgatar a verdade que está oculta nela, pois é muito grande. A fé sempre teve a consciência de que a morte não é um simples elemento da natureza, uma questão de engenharia; sempre soube que a morte adentrou o mundo por uma entrada, a do pecado, e que, conforme as palavras de São Paulo, é o último inimigo a ser derrotado. E tomei conhecimento, principalmente, de que existe, de fato, um replicador mais veloz e poderoso do que a morte que está gravada em nossa carne: é o Verbo, o meme divino, a informação viva que se propaga não pelo sangue, mas pelo Espírito, e que produz uma vida que a morte celular não consegue alcançar mais. A batalha entre o gene e o meme, perceptível ao sincromístico, é, em essência, a luta entre a geração pela carne, que produz filhos destinados à morte, e a geração pelo Espírito, o renascimento do qual Cristo falou a Nicodemos, que gera filhos para a vida eterna. Não é o meme que supera o gene; é a origem elevada que triunfa sobre a origem baixa.
E Clark aborda, ao final, um prodígio que faz o ateu vacilar em sua própria entrada, e que o sincromístico capta com justiça. Foi constatado que a maior parte do nosso material genético não tem a função de codificar proteínas e, aparentemente, não serve para nada — razão pela qual recebeu o nome, com o habitual desprezo dos críticos, de DNA lixo. E também ficou surpreso ao descobrir que, ao aplicar métodos que analisam a estrutura das línguas humanas nesse DNA não codificante, foi exatamente nesse material considerado lixo que se encontrou a maior semelhança com a linguagem — como se, na parte do genoma que a ciência descartou como irrelevante, estivesse registrado algo que se assemelha a uma forma de expressão, uma sintaxe, uma mensagem. E Clark chega à conclusão, em um momento que não revela ateísmo, de que no profundo vazio onde a energia que atravessa o universo se encontra com a estrutura que gera a vida, nós, humanos, por vezes, vislumbramos a face de Deus. Reflita sobre isso, pois é a essência de três obras resumida em uma frase de um biólogo: Deus se comunica por meio do lixo. O refugo do genoma, o DNA considerado inútil, é o local onde se encontra a maior semelhança com a Palavra — assim como, na cultura, é no lixo desmerecido dos quadrinhos e das ficções de baixo valor que se concentra a maior força do sagrado; da mesma forma que, na história, a pedra que foi rejeitada pelos construtores se transformou na pedra fundamental; e assim como foi em um estábulo, entre os restos de uma pousada cheia, que o Verbo se fez carne. A mesma lei permeia o genoma, a cultura e a manjedoura: Deus deixa sua marca em sua criação exatamente nos lugares onde o orgulho humano não busca, no que é descartado, no que está danificado, no lixo — e o DNA considerado lixo, que se expressa como uma linguagem, é mais uma das assinaturas do Logos oculta no âmago da matéria, aguardando por aqueles que têm a visão para interpretá-la.
E Dick, nas profundezas da sua Exegese, oferece a essa intuição sua expressão mais tocante e precisa, sendo necessário capturá-la, pois ela completa o ciclo. Ele escreve que parecemos bobinas de memória que armazenam informações, mas há um problema, uma dificuldade de recuperação, uma amnésia: esquecemos quem somos e de onde viemos. E a salvação, conforme diz Dick, é alcançada por meio da anamnese — um termo grego que se traduz, literalmente, como a superação da amnésia, o processo de relembrar, o resgate do que sempre soubemos e que havíamos esquecido. É a mesma perspectiva dos gregos, que viam o aprender como um processo de recordar, e dos gnósticos, que acreditavam que a salvação consistia em despertar da amnésia e relembrar sua verdadeira origem. E, mais uma vez, a fé assume a verdade e retifica o erro na mesma colocação. A realidade é que a salvação, na verdade, se assemelha a um recordar: o filho pródigo se salva no momento em que, no chiqueiro, vem à consciência e recorda da casa do pai; a conversão é sempre um despertar, um relembrar de uma filiação esquecida, um reconhecimento da imagem de Deus que está escondida em nós sob os restos do pecado. Entretanto, o erro gnóstico que Dick herda é a crença de que apenas recordar é suficiente, que a salvação é um ato de memória, um estalo de reconhecimento em que a centelha se lembra de sua divindade e, com isso, se liberta. Não. A anamnese cristã não se trata de uma memória orgulhosa de que eu já fui deus e acabei esquecendo; é uma lembrança humilde de que sou filho e me desviei, e que preciso retornar, ser perdoado e ser renovado. E existe uma anamnese ainda mais elevada, a qual Cristo próprio nomeou na última ceia, ao dizer "fazei isto em memória de mim": a anamnese eucarística, um memorial que não apenas recorda, mas torna presente. A Igreja não se limita a relembrar um evento do passado, mas o traz de volta ao altar — de sorte que o des-esquecimento supremo do ser humano acontece não em uma iluminação solitária, mas de joelhos, consumindo o Pão que o faz recordar, em sua própria carne, de quem é e de Quem é.
E existe uma última parte que conecta toda essa teologia da informação viva, e mais uma vez, vem de Grant Morrison, o mestre dos quadrinhos, que a incluiu em uma de suas obras mais surpreendentes. Entre os inúmeros mundos paralelos que ele cria, há um que se sobressai em relação aos demais: aquele em que os super-heróis não são reais, em que existem apenas na ficção, nas histórias em quadrinhos — e esse mundo, Morrison o distingue com uma aura peculiar que nenhum outro possui, pois esse mundo é o nosso. Nós habitamos um mundo em que os deuses existem apenas na imaginação. E Morrison observa, em suas anotações, que o nosso mundo é envolto por uma película ficcional, uma camada que o distanciada dos mundos onde os heróis são reais, e que essa camada só pode ser atravessada de uma única maneira: através de memes, de informação viva, de ideias que transbordam de lá para cá. Em outras palavras: a fantasia, a realidade e até mesmo Deus conseguem entrar em nosso mundo protegido apenas como informação, como um meme, como um caldo cultural ou como uma narrativa. Pois bem, isso é, mesmo sem a intenção de Morrison, a descrição mais precisa do modo como Deus age em um mundo que rejeitou o sobrenatural. A nossa época criou uma barreira ao seu redor, um muro de materialismo que considera impossível tudo o que não pode ser pesado ou medido, e relegou ao mundo da ficção os anjos, os milagres, os deuses e até mesmo o próprio Deus. E como é que o sagrado expulso consegue, mesmo com a barreira, continuar adentrando? Conforme afirmado por Morrison: como um meme, como uma informação pulsante, presente nas narrativas que criamos, camuflada em ficção, escapando pela única brecha que o materialismo deixou entreaberta, que é a imaginação. O Verbo, expulso pela porta da frente da ciência, entra pela janela dos quadrinhos; a verdade, impedida de se mostrar como verdade, se infiltra como fábula; e Deus, considerado ficção pela nossa Terra protegida, atravessa a barreira ficcional e vem nos visitar vestido de mito — aguardando que alguém, do lado de cá, reconheça que a ficção era verdadeira e que o mito realmente aconteceu.
E assim chegamos, finalmente, ao mapa mais abrangente que nossa época elaborou da própria alma mitológica, que representará a base de tudo o que ainda falta ser dito: a obra de Jeffrey Kripal, um professor de religiões comparadas em uma universidade dos Estados Unidos, que dedicou sua vida a investigar com seriedade acadêmica aquilo que muitos outros desconsideram — as experiências místicas, os fenômenos paranormais, as abduções, os êxtases e, sobretudo, a sua curiosa migração, no último século, para os quadrinhos e para a ficção científica. Kripal se refere a isso como a super-história: um mito mais significativo que todos os outros mitos, a narrativa que se ergue acima das histórias, composta pela evolução contínua da ficção humana ao longo de um século, e que ainda está em processo de ser contada. E, para analisá-la, ele se inspira em Lévi-Strauss, utilizando o conceito de mitema — que representa a menor unidade de um mito, da mesma forma que o fonema é a menor unidade do som na fala —, e sugere que toda a mitologia contemporânea da cultura pop é composta pela combinação de um pequeno número de mitemas, assim como toda a música do mundo é criada a partir de sete notas. São sete, e atravessá-los é, sem perceber, passar pelas sete estações de uma via-sacra invertida, ou, para ser mais claro, uma via-sacra que a graça ainda tem o poder de ajustar. Vamos acompanhá-los um a um, pois cada um deles representa uma intuição verdadeira aguardando o reconhecimento, e o último é o abismo preciso no qual toda a nossa era está prestes a mergulhar.
É necessário entender um pouco sobre o homem, pois a sua seriedade confere gravidade ao que ele afirma. Jeffrey Kripal não é um ocultista qualquer; ele é um respeitado professor de religiões comparadas em uma renomada universidade americana, com formação platônica, que construiu sua carreira estudando com rigor acadêmico três áreas que seus colegas evitam como se fossem pestilentas: primeiro, a intersecção entre o corpo e o sagrado, o curioso vínculo entre o místico e o erótico presente em todas as grandes tradições; depois, a relação entre a mente e a matéria por meio dos fenômenos que a ciência oficial rejeita — como as experiências de quase-morte, as aparições, as sincronicidades, os estados alterados e as abduções; e, por fim, a super-história, a transposição de tudo isso para a ficção popular. Em uma de suas obras, Autores do Impossível, ele sugere que o paranormal possui uma estrutura, assemelhando-se à elaboração de um texto — onde, nos relatos de experiências extraordinárias ao redor do globo, há um aspecto que recebe e outro que cria, assim como os dois hemisférios de um único cérebro, e que a realidade mais profunda pode ser, na verdade, uma forma de escrita. Um cristão não deve temer essa intuição; deve acolhê-la, pois é genuína e ele a reconhece há bastante tempo. A realidade é, de fato, uma forma de escrita; o mundo se apresenta como um texto; a história se configura como uma narrativa com enredo, conflitos e desfechos. Entretanto, o Autor não somos nós, nem uma inteligência sem personalidade, nem o inconsciente coletivo: trata-se de uma Pessoa, o Verbo, o Logos, que compõe o cosmos como um poema e a história como um drama, e que, algo que nenhum autor humano jamais conseguiu, adentrou Ele mesmo a própria história que estava escrevendo, tornando-se um personagem do seu próprio livro para salvá-lo internamente.
A imagem que Kripal utiliza para explorar essa super-história é precisa e confere ao terceiro livro uma estrutura própria: da mesma forma que toda palavra falada se divide em fonemas, as menores unidades sonoras, e que toda a música do mundo se compõe de apenas sete notas, toda a mitologia da cultura pop é formada pela combinação de algumas unidades mínimas de mito, que ele denomina, juntamente com Lévi-Strauss, de mitemas. Sete mitemas, sete notas, e com elas a nossa era criou toda a sinfonia intensa de seus super-heróis, de seus extraterrestres, de seus universos. O que é incrível, e que Kripal percebe sem deixar de lado a conclusão cristã, é que essa super-história é, na essência, uma única história sendo narrada há um século por milhares de pessoas que não se uniram, um mito coletivo que se desenvolve por conta própria, como se tivesse vida e intenções próprias, seguindo em direção a um desfecho. Certamente, existe uma narrativa abrangente, uma história que se eleva acima de todas as outras, que confere significado a cada mito isolado e para a qual todos eles, de maneira inconsciente, convergem — porém, essa história não teve seu início nos quadrinhos nem terá seu fim neles, e seu criador não é a psique coletiva. A verdadeira super-história é a narrativa da salvação, o único enredo que realmente percorre todos os séculos e todas as nações, desde a criação até a queda, da promessa à Encarnação, da cruz à ressurreição e, por fim, ao fim dos tempos; e todas as mitologias do mundo, sejam as dos gregos ou as dos quadrinhos, são capítulos experimentais, rascunhos involuntários e prefigurações desajeitadas desse único grande Livro, cujo autor é o Espírito Santo e o herói é Cristo. Os sete mitemas de Kripal representam sete notas; contudo, a sinfonia que elas formam, ao ser ouvida até o final, é invariavelmente a mesma e é chamada de Evangelho.
O primeiro mitema que Kripal denomina de divinização e demonização é o mais antigo de todos: a consciência de que a realidade é habitada por forças divinas com as quais o ser humano almeja se unir e por poderes demoníacos dos quais precisa se proteger. Além disso, ele destaca que grande parte da cultura humana —templos, talismãs, orações, sacrifícios, e atualmente os quadrinhos e filmes de terror— surgiu da interação com esses dois extremos. Kripal demonstra que o cinema contemporâneo, a partir do expressionismo alemão, sempre apresentou uma reinterpretação desse mitema: o Fausto e seu Mefistófeles, o Nosferatu, o Drácula que representa um pacto com o diabo entrelaçado com a cultura católica, e o feiticeiro dos quadrinhos enfrentando forças demoníacas. E aqui o cristão não precisa fazer catequese alguma, basta afirmar: é verdade, é tudo verdade, e é a questão mais séria do mundo. Os anjos e os demônios não são apenas arquétipos, na acepção de ficções que servem à psique; são seres reais, inteligências absolutas, e a luta entre eles constitui o pano de fundo de toda a narrativa, conforme já foi afirmado no segundo livro por São Paulo. A cultura pop, ao reencenar de forma intensa a divinização e a demonização, está criando uma angelologia e uma demonologia insólitas, experimentais, frequentemente distorcidas, mas que revelam uma realidade que a modernidade racionalista ignorou, embora essa realidade continue a existir. O horror e o fantástico representam a revanche do sobrenatural que foi excluído: afastado pela porta da frente da ciência, retorna pela janela do cinema, pois a alma tem a consciência, apesar de todas as evidências apresentadas, de que não está sozinha na escuridão.
E é interessante observar como esse primeiro mito permeia nossa cultura, pois possui uma concretude que impressiona. Kripal acompanha a trajetória da divinização e da demonização desde o expressionismo alemão, que estabeleceu a gramática visual de Hollywood: o Fausto que entrega sua alma ao Mefistófeles, o vampiro Nosferatu subindo a escada como uma sombra viva, o Drácula que, em sua essência, é um pacto com o diabo incorporado na própria imagética católica da hóstia, da cruz e do sangue. E, a partir de então, nunca mais houve pausa: as histórias em quadrinhos de horror com seus demônios e bruxas, o mago dos quadrinhos que enfrenta forças infernais, o exorcista das telas, toda a saga de possessões e redenções que nossa época, supostamente cética, devora com uma sede que fala por si só. Porque este é o cerne da questão: uma civilização que oficialmente expulsou os anjos e demônios pela entrada da ciência não deixou de produzi-los em massa pela saída do entretenimento — e isso não é hipocrisia, é a essência revelando a verdade que a razão recusa. A alma tem plena consciência de que não está isolada na escuridão, reconhece a presença de forças superiores, compreende que a vida se constitui em uma batalha entre a luz e as trevas. E mesmo quando lhe negam essa crença na igreja, ela acaba acreditando nisso nas sessões de filmes de terror, onde o sobrenatural, que foi banido, retorna com ainda mais intensidade para se retribuir. O horror é a crença dos que se afastaram da fé, mas mantêm o medo; é a evidência de que o homem contemporâneo não abandonou a crença no inferno, apenas abandonou a crença no céu — o que é o mais lamentável dos dois mundos. A função do cristão frente a essa avalanche de divinização e demonização não é desdenhar, mas sim perceber nela a confissão involuntária de uma verdade que a própria época se recusa a admitir: que os anjos e os demônios são reais, que a guerra é real, e que a única informação que falta a toda essa mitologia aterrorizante é a boa notícia, a de que a guerra já foi ganha, e o vencedor tem seu nome cravado na cruz.
O segundo mitema é a orientação, e possui uma beleza impactante: é a intuição de que há um outro lugar — e Kripal observa que, com frequência, esse lugar foi localizado no Oriente, de onde advém a própria palavra orientação —, um espaço sagrado de onde surgiu a sabedoria perdida e para onde precisamos retornar. A humanidade criou esse outro lugar em todos os cantos: nos mundos superiores, o Olimpo dos deuses; nos mundos inferiores, a terra oca mencionada por visionários e romancistas, o núcleo da Terra de Júlio Verne; nas terras esquecidas, Atlântida, Hiperbórea, Lemúria, o Éden; nas civilizações distantes, o Tibete e a Índia idealizados pelos buscadores fatigados do Ocidente; e, por fim, no espaço sideral, as estrelas para onde a ficção científica enviou o sagrado quando já não havia um lugar inexplorado na Terra. Kripal faz uma observação brilhante: conforme o Ocidente colonizou e mapeou cada centímetro do planeta, o outro lugar precisou, de fato, se transformar em outro lugar — o sagrado teve que migrar para o espaço sideral, pois não havia mais espaço em nenhuma geografia terrestre. Certamente, o leitor do segundo livro identifica esse mitema imediatamente, pois já lhe atribuímos seu verdadeiro nome: é a saudade, essa vontade indefinida de uma terra onde nunca estivemos, a ideia de que a fome atesta a realidade do pão. A orientação é o instinto de retornar ao lar que está gravado na essência do exilado; e o erro de toda a cultura é tentar encontrar esse lar em um ponto no mapa ou no céu — no oriente, na terra oca, em uma estrela —, quando, na verdade, o lar não é um lugar, mas sim uma Pessoa, e o verdadeiro oriente é Aquele que a antiga liturgia chamava de Oriente do alto que veio nos visitar, o sol nascente para o qual as igrejas antigas se orientavam ao rezar, pois sabiam que a pátria perdida não está a leste no mapa, mas a leste no coração, e tem a forma de uma cruz no alto de uma colina.
E vale a pena explorar as habitações desse outro espaço, pois em cada uma a cultura guardou, sem perceber, uma parte da verdade. Primeiro, surgiram os mundos superiores, o alto: o Olimpo dos deuses, o céu dos heróis, e a figura ancestral do semideus, filho de um deus e de uma mortal, que o Ocidente nunca se cansou de reescrever desde Hércules. Os antigos levaram essa orientação a um nível que merece ser enfrentado, pois é o oposto exato do nosso mistério: eles divinizavam seus imperadores. Júlio César foi reconhecido como descendente de uma deusa e, após sua morte, foi declarado deus, retratado sendo acolhido no céu entre as estrelas, com um templo e um culto dedicado. Pois bem, há pessoas que consideram isso um argumento contra a fé — vejam, dizem, um Filho de um deus, que ascendeu ao céu, fruto de uma união entre o divino e uma mortal: não é tudo a mesma coisa, não é tudo uma fábula? A resposta da Igreja Católica a essa questão é clara e firme: sim, existe uma semelhança, e isso não diminui a fé, mas a reforça — pois o que os pagãos fizeram com César é exatamente a distorção que o Evangelho veio corrigir. A apoteose de César representa o homem que os bajuladores colocam como divindade após sua morte, por meio de um decreto do senado, com o intuito de fortalecer o poder; já a Encarnação de Cristo é o Deus que se humilha ao se tornar homem antes de seu nascimento, por amor, para servir aos oprimidos. Uma é a ateologia de sempre, o homem se colocando como deus através da vaidade e da política; a outra é a teologia verdadeira, o Deus se tornando homem por meio da humildade e da cruz. Os pagãos veneravam os poderosos para agradá-los; já o cristianismo revela um Deus que se tornou o mais frágil dentre os homens para lavar os pés dos seus. A semelhança entre César e Cristo é como a comparação entre uma moeda falsa e uma verdadeira: isso prova que existia uma verdadeira por trás da falsificação, e que o coração humano, mesmo na idolatria, percebia que a união do céu e da terra em um único ser era a mensagem que aguardava — apenas errava o local, buscando no palácio o que viria a nascer em um curral.
Após os mundos superiores, surgiram os mundos inferiores, acompanhados das terras esquecidas, e a cultura se espalhou por elas com a mesma avidez. Existem pessoas que afirmaram, e redigiram textos, que a Terra é oca e possui vida interna, com aberturas nos polos que permitiriam acessar civilizações subterrâneas; dessa ideia fantasiosa surgiram histórias de viagens ao centro da Terra, mundos escondidos sob os nossos pés, reinos iluminados abaixo de nós. E houve as terras que se perderam, aquelas que existiram e afundaram: a Atlântida mencionada por Platão, a Hiperbórea do extremo norte, o Éden do princípio, continentes de sabedoria consumidos pelas águas ou pelo tempo, de onde teria surgido um conhecimento ancestral que perdemos e lamentamos. Os quadrinhos absorveram tudo isso e deram-lhe caras: os monarcas de Atlântida que governam os oceanos, as cidades submersas e os impérios subterrâneos. E sob toda essa geografia incrível existe uma única verdade no fundo do coração: a de que realmente existiu uma terra perdida, um mundo melhor que possuímos e do qual fomos banidos, uma pátria antiga que se afundou não no oceano, mas na culpa. O Éden representa a verdadeira Atlântida, o real continente perdido, o mundo que recordamos com saudade, mesmo sem ter a lembrança clara dele. Nossa espécie, de maneira inconsciente, busca retornar a esse lugar – explorando as profundezas do mar, o interior da Terra, as eras remotas, em todos os cantos menos naquele em que ele realmente se encontra. Esse não é um ponto num mapa, mas sim um estado de alma que se reconciliou com Deus. A porta de volta, protegida por um anjo portando uma espada flamejante desde a expulsão, só foi reaberta por um segundo Adão cravado em uma segunda árvore.
E quando não havia mais um continente esquecido para ser colonizado com a saudade, a direção se voltou para as civilizações remotas e, por fim, para as estrelas. O Ocidente exausto, ao final do século dezenove, voltou seu olhar para o Oriente — em direção a um Tibete e uma Índia idealizados, repletos de mestres escondidos e conhecimentos milenares — em busca da alternativa que já não encontrava na própria tradição que havia deixado para trás; e a ficção transformou o Japão, a Arábia e o Egito nos tesouros de um saber mais antigo e mais puro. É interessante, e merece ser mencionado, que essa espiritualidade superficial que idealiza o Oriente como um lugar de plena liberdade e paz frequentemente ignora que as tradições que admira são, em sua essência, tão ou mais rigorosas do que o temido cristianismo que tenta evitar — o jejum, a disciplina, a hierarquia e o esforço ascético estão presentes também, e de forma ainda mais intensa. E quando nem mesmo o Oriente foi suficiente, a orientação deu o seu último salto, o salto que estabelece o próximo mitema: foi para o espaço exterior. Os heróis da ficção científica — os aventureiros em Marte, os salvadores do cosmos, os viajantes entre as estrelas — são os últimos descendentes de Hércules e da Atlântida, a mesma nostalgia por outros lugares, agora refletida no único espaço que ainda permanecia inexplorado: o céu estelar. É extremamente profundo, e Kripal observa isso, que o imaginário sempre veio antes da ciência: sonhamos com viagens espaciais, outros mundos e os habitantes das estrelas muito antes de termos foguetes ou telescópios para alcançá-los — pois a vontade de ir a outro lugar não surge da descoberta, mas sim do coração, e vai à frente, abrindo com a imaginação as portas que a técnica só depois consegue atravessar. O ser humano não chegou ao espaço por ter criado o foguete; ele criou o foguete porque, desde sempre, sentia saudade do céu.
E o último refúgio da orientação, em nosso tempo, são os mundos futuros e os mundos paralelos, o multiverso: não mais um outro local no espaço, mas um outro mundo em uma dimensão diferente, uma realidade alternativa ao lado da nossa, infinitas Terras possíveis empilhadas umas sobre as outras. E aqui o imaginário se manifestou novamente, tocando a metafísica dos mundos possíveis que o segundo livro apresentou — os infinitos mundos que Deus poderia ter criado e que residem em Sua mente —, mas, desta vez, desvinculou-se de Deus e permaneceu a flutuar como uma simples multiplicação de realidades sem um ponto central. É por isso que Kripal compartilha sua frase mais ousada e reveladora, e com isso encerramos o mitema: se alguém, segundo suas palavras, consegue entender que as paisagens visionárias e as realidades paranormais são, em última análise, criadas por alguém e por sua cultura, então também pode compreender que a sociedade, a religião, o eu e o outro, até mesmo a própria realidade física, são igualmente criações e, portanto, igualmente ilusórias; e a abordagem adequada do fantástico pode nos auxiliar a reconhecer a verdadeira essência do real, que é o fantástico. Observe o salto, pois ele representa o salto de toda a nossa era: de tudo ser de autoria, uma conclusão verdadeira, para tudo ser, portanto, ilusório, uma conclusão falsa e catastrófica. É fato que tudo possui autoria — a totalidade da realidade é uma escrita, o cosmos é um texto, e nós somos personagens; isso é algo que o cristão não questiona, é parte de sua própria crença, creio em um só Deus, criador, autor do céu e da terra. No entanto, a autoria não torna algo ilusório; ao contrário, a torna mais concreta, pois lhe confere um alicerce externo, uma base que a apoia. Um personagem bem desenvolvido não é menos autêntico por ter um autor; pelo contrário, ele é mais real, mais complexo e mais vibrante do que um mero rascunho sem autoria. A conclusão de Kripal só faria sentido se o autor fosse neutro, ou se fôssemos nós mesmos — nesse caso, a autoria se tornaria uma ilusão, pois se tornaria arbitrária, e eu, ao perceber que fui escrito por mim mesmo, poderia reescrever minha história conforme minha vontade, fazendo tudo se desfazer. Entretanto, se o Autor é Deus, a autoria se torna a maior garantia da realidade: eu sou intensamente real porque fui concebido, amado e escrito pelo próprio Ser, e a minha existência possui a profundidade de um texto que a própria Verdade está elaborando, não a leveza de um sonho que eu crio. O fantástico, de fato, revela a genuína essência do real — mas essa essência não é a ilusão, e sim a criaturalidade: a surpreendente descoberta de que tudo o que existe é uma história contada por Deus, e que ser contado pela Verdade é o oposto de ser ilusão, é ser real eternamente.
É importante reconhecer a profundidade dessa saudade, pois ela não se trata apenas de uma inspiração poética ou de uma tristeza momentânea, mas sim de um sentimento tão concreto e universal quanto a necessidade de alimento físico; aqueles que a experimentaram de forma mais intensa a eternizaram em suas memórias. Foi um matemático e místico francês, Blaise Pascal, que, no âmago do século que mais acreditou na razão, indicou uma ferida com uma afirmação que nenhuma ciência jamais conseguiu contestar: existe em cada ser humano um abismo sem fim, e esse vazio só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, ou seja, por Deus; e o homem tenta, sem sucesso, preenchê-lo com tudo aquilo que o rodeia, procurando nas coisas que estão ausentes a ajuda que não encontra nas que estão presentes, sem que nenhuma delas seja suficiente, pois o abismo sem fim só pode ser preenchido por Aquele que é infinito. É a diretriz de Kripal expressa por um gênio em sofrimento: um espaço que possui a forma exata de um Ser, e a inquietude de uma existência inteira dedicada a tentar preenchê-lo com o que é inútil. E houve, mais próximo de nós, um professor inglês, um antigo ateu que foi reconquistado pela própria saudade, C. S. Lewis, que atribuiu a esse desejo um nome mais preciso, a palavra alemã Sehnsucht, que significa anseio inconsolável, o perseguiu durante toda a sua vida como se fosse a pista mais confiável de Deus. Desde sua infância, ele percebeu certos momentos de uma doce nostalgia — um verso, um aroma de outono, uma melodia, a recordação de uma lembrança — que, embora não lhe proporcionassem a posse de coisa alguma, despertavam uma saudade intensa de um lugar que nunca havia visitado e cujo nome desconhecia; e, a partir disso, com a lógica simples que o tornou mestre de milhões, chegou à conclusão que desafia todo o materialismo: uma criatura não vem ao mundo com uma fome a não ser que exista, em algum lugar, o alimento que a satisfaça — o bebê sente fome e há o leite, o patinho quer nadar e há a água, e se eu carrego dentro de mim um desejo que nada neste mundo consegue preencher, a explicação mais provável não é que o universo seja uma ilusão, mas que eu fui criado para outro mundo. A orientação, a saudade de outro lugar que permeia todos os mitos e toda a cultura, não é uma falha a ser corrigida nem uma ilusão a ser dissipada: é a bússola mais confiável que o ser humano tem, a agulha cravada na carne indicando a pátria que foi perdida. E o equívoco de toda a cultura, e do sincromístico à sua frente, é observar a agulha e perseguir o dedo que aponta — buscando a pátria no oriente do mapa, na terra oca, nas estrelas, no multiverso —, quando a direção que ela indica não leva a lugar algum no espaço, mas a um Rosto; e a seta da saudade, seguida até o fim, não chega a uma estrela, chega a uma cruz, e, por meio dela, enfim, a uma Casa.
O terceiro mitema é o mais obscuro e representa a essência de nosso tempo: a alienação. Kripal demonstra que, quando a cosmologia antiga entrou em colapso e os céus se tornaram desprovidos de deuses, o sagrado não deixou de existir — simplesmente mudou de lugar e de aparência. Os deuses que habitavam o Olimpo e os astros se transformaram em alienígenas, colonizadores do espaço, visitantes de outros planetas; e assim surgiu a teoria dos antigos astronautas, a noção de que fomos semeados ou escravizados por seres cósmicos, que nada mais é do que a antiga religião disfarçada de ficção científica, com os anjos e deuses reimaginados de verde e com grandes olhos. E sob essa transformação de contexto reside uma alienação mais profunda, a autêntica enfermidade contemporânea: o significado foi subtraído das coisas, o mundo tornou-se esquisito e silencioso, o divino deixou de elucidar o que quer que seja, e o homem — como Kant observou, naquela que foi denominada sua revolução copernicana — passou a existir confinado em seus próprios pensamentos, sem mais a certeza de tocar o real que está fora. Foi nesse contexto, na transição para o novo século, que um visionário chamado Nietzsche se colocou diante do abismo e proclamou a frase que simboliza o período: Deus está morto, e nós o matamos. Observe o que Kripal acrescenta, e que possui uma profundidade impressionante: talvez não tenhamos matado Deus, mas sim o tenhamos alienado — dele mesmo e de nós —, afastado para longe, para o espaço sideral da irrelevância, tornando-o estranho no mundo que Ele mesmo criou. A morte de Deus não se tratou de um assassinato, mas sim de um exílio: enviamos Deus para as estrelas e, em seguida, lamentamos nossa solidão sob um céu desolado.
A resposta que nossa civilização apresentou a essa morte, a essa alienação de Deus, foi anunciada por Nietzsche e expressa na cultura pop. Aqui reside o cerne desse mitema: diante do vazio absoluto, diante de um céu desprovido de significado, Nietzsche não encontrou alternativa a não ser o super-homem, o Übermensch, a superação do homem por um ser superior que criaria seus próprios valores, já que Deus não os oferecia mais. E — a ironia é quase insuportável de tão perfeita — algumas décadas depois, dois jovens judeus filhos de imigrantes, Jerry Siegel e Joe Shuster, desenharam, em um subúrbio americano, a resposta popular exata à morte de Deus, e lhe deram, sem saber que estavam respondendo a Nietzsche, o nome literal de super-homem: Superman, o deus alienígena, vindo de um mundo destruído, que caiu do céu em um campo, o salvador das estrelas que veio porque o céu estava vazio e a Terra precisava de alguém que viesse do alto. Kripal designa Superman, de forma justa, como o auge do mito da alienação: é a divindade que foi exilada e retorna, é o deus que ficou alienado e desce novamente, é a tentativa da imaginação de ocupar o trono vago que a modernidade deixou. E tudo isso é mais do que verdadeiramente um diagnóstico — a nossa era realmente matou e exilou Deus, de fato se tornou órfã e, sinceramente, anseia por um salvador que venha do alto. O que a cultura errou foi a resposta: não precisávamos do super-homem de Nietzsche, do homem que se torna deus para suprir o vazio; precisávamos, e já tínhamos, do seu oposto exato, do Deus que se fez homem para preencher o vazio interno. A separação de Deus provocada pela modernidade possui apenas uma solução, que não envolve a autodivinização do homem solitário; é a Encarnação, onde Deus rejeitou permanecer afastado nas estrelas e retornou, não como um invasor do espaço, mas como um bebê em uma manjedoura — o anti-Übermensch, o Deus que desce em vez do homem que ascende.
É necessário mencionar a origem dessa alienação na filosofia, que a cultura posteriormente representou, pois sua raiz é exata e possui um nome. No final do século dezoito, um filósofo da Alemanha realizou o que ele mesmo se orgulhava em chamar de uma revolução copernicana do saber — e, na realidade, foi uma contra-revolução, um movimento de introspecção do qual nossa era ainda não se recuperou. Antes dele, acreditava-se que a mente se adaptava à realidade, que o conhecimento era a alma tomando a forma das coisas, assim como a cera aceita o selo; a realidade vinha em primeiro lugar, e a mente a recebia. Após ele, tudo se reverteu: passou-se a acreditar que é o real que se adapta à mente, que as coisas como as percebemos são, em grande parte, construções do nosso aparato mental, e que aquilo que as coisas são em sua essência, fora de nossa cabeça, nos é para sempre inacessível. O resultado foi um exílio: o homem passou a viver aprisionado em seus próprios pensamentos, sem conseguir ter a certeza de que podia alcançar o mundo exterior, isolado da realidade por um vidro que ele mesmo confeccionava. É a alienação em sua forma filosófica mais clara, e, atenção, é também a entrada para todo o plano de hackeamento da realidade: se é minha mente que cria o real, então, ao alterar minha mente, altero o real, e a transição do idealismo alemão para a desconstrução da realidade compartilhada é um movimento breve e decisivo. A gnose contemporânea surgiu nesse movimento de introspecção, nesse fechamento da mente sobre sua própria essência. A cura não se trata de um argumento mais inteligente; é a humildade redescoberta de que o real vem antes, de que a verdade consiste na mente que se curva ao que é, e não o contrário — é a humildade que a própria palavra verdade possui, e que a Encarnação eternizou, pois em Cristo a Verdade não ficou presa em nenhuma mente: tornou-se carne, caminhou entre nós, permitiu ser tocada, comeu peixe assado na frente dos discípulos para demonstrar que o real é de fato real e que Deus não é apenas uma ideia nossa, é Alguém que podemos abraçar.
A cultura conferiu a essa alienação diversas faces, e uma delas encerra o ciclo de Nietzsche ao Superman de uma forma que provoca arrepios. Em uma das mais grandiosas narrativas já ilustradas sobre o Homem de Aço, dois autores conceberam um futuro em que os antigos heróis se afastaram e o planeta foi deixado nas mãos de uma nova geração de super-humanos desprovidos de moral, uma representação de poder absoluto sem virtudes — os Übermenschen de Nietzsche interpretados de forma literal, a força desprovida de bondade — e onde o velho Superman deve retornar do exílio para confrontar o que a sua própria figura gerou ao ser despojada de essência. Uma narrativa que se inicia com Nietzsche e o conceito do super-homem e culmina, de forma inevitável, com Superman e a indagação sobre o que caracteriza um poder divino ou demoníaco; e a conclusão que ela oferece é idêntica à deste livro na totalidade: não é o poder que redime ou condena, mas sim como ele é utilizado, se para servir ou para dominar. E existe, sob toda a figura do salvador extraterrestre, um aspecto cultural que Kripal investiga e que revela tudo: foi precisamente quando os céus se desimpuseram de anjos, na década de cinquenta, que os céus se tornaram saturados de discos voadores e de visitantes do espaço, e que começaram a surgir os relatos de contatos e abduções — como se, afastados os anjos pela frente da ciência, a necessidade de seres celestiais que nos visitam, nos alertam, nos levam, tivesse ressurgido pela porta dos fundos disfarçada de alienígena. Os extraterrestres de nossos dias são os anjos que foram exilados da era anterior, reconfigurados para se adequarem a um mundo que já não aceita anjos, mas que ainda os necessita com urgência. E a fé contempla esse céu repleto de naves e de salvadores das estrelas com uma tristeza carinhosa, pois reconhece ali a oração distorcida de uma humanidade abandonada: a mesma humanidade que expulsou Deus para o espaço e agora percorre o céu com telescópios em busca, sob a denominação de vida inteligente lá fora, exatamente Aquele que foi afastado de dentro — sem perceber que o visitante que aguarda do alto já veio, não numa nave, mas por meio de um ventre, e não para nos levar para longe da Terra, mas para permanecer conosco até o fim dos tempos.
A superação dessa alienação, da morte de Deus que, na verdade, representa um afastamento d’Ele, não se resume a uma ideia ou a um argumento; é um ato que a Igreja pratica diariamente e que contrasta completamente com o exílio. Se a modernidade expulsou Deus para o distante espaço da irrelevância, tornando-O um estrangeiro no mundo, afastando-O a ponto de não ter mais contato com nada — a missa realiza o movimento oposto: reconduz Deus ao centro, ao presente, ao que é mais tangível, que é um pedaço de pão sobre um altar em qualquer cidade. Cada Eucaristia representa um retorno, uma reintegração do Deus que afastamos, a demonstração cotidiana de que Ele não ficou isolado nas estrelas, não aceitou ser expulso, não se conformou em ser um estranho no mundo que criou. A alienação afirma: Deus está distante de maneira infinita, se é que Ele existe. A missa responde: Deus está presente, mais próximo de você do que de si mesmo, sob a forma de um pão que você pode saborear. Por isso, a nossa era, que afastou Deus, sente tanta falta e encontra tão pouca tranquilidade, e procura pelo céu em busca de vida inteligente: porque está à procura distante, nas estrelas, do Visitante que já veio e está esperando, bem perto, em um sacrário de vizinhança, que alguém se lembre de que Ele nunca partiu de verdade — apenas ficou, de maneira humilde e paciente, no local onde ninguém pensa em procurar um deus, que é o ponto mais baixo e mais próximo de todos.
O quarto mitema é a radiação, e surge de uma segunda descoberta que impactou o mundo tanto quanto a do novo cosmos: a de que a matéria, em essência, não é matéria — que a substância mais sólida é, na verdade, energia, vibração, potência, luz latente —, e que existe uma força capaz, ao mesmo tempo, de transformar e de eliminar, de salvar e de extinguir completamente. É o mitema do átomo, da radiação que gera mutantes e da bomba que destrói cidades, da energia que é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição na mesma chama. A cultura pop é inteiramente moldada por isso: o herói surge a partir de um acidente radioativo, a aranha que recebeu irradiação, os raios cósmicos, a bomba que, em um filme, traz à vida o monstro e, em outro, faz surgir o deus. Assim, o cristão escuta isso e percebe, novamente, uma verdade profunda que aguarda por sua identificação. Pois a fé sempre compreendeu que a matéria não é somente matéria, que existe uma luz adormecida dentro do mundo — e encontrou uma palavra, além de uma montanha, para a radiação que transforma sem causar destruição. No cume do Tabor, perante três discípulos aterrorizados, Cristo irrompeu em esplendor: seu rosto reluzia como o sol, as roupas se tornaram brancas como a luz, e os homens desabaram ao chão diante daquela luminosidade que não era um reflexo exterior, mas emanava de seu interior, a luz inefável do próprio Deus transbordando através da carne. Essa é a radiação autêntica, a energia que a matéria conserva em sua essência mais profunda: não a do átomo fraturado, que causa destruição, mas a do Tabor, que santifica. A nossa era, assustada, descobriu a radiação mortal e a elegeu como símbolo do poder; a fé, por sua vez, sempre compreendeu a radiação que transforma e a apresenta como o destino último da própria matéria — um dia, todo o universo irá resplandecer como resplandeceu o rosto no Tabor, pois o que ocorreu naquele monte é a profecia do que acontecerá com tudo que foi criado, quando a luz ocultada no profundo das coisas for finalmente libertada, não para o cogumelo da morte, mas para o esplendor da ressurreição.
E este quarto tema, a radiação, possui a resposta cristã mais brilhante de todas, e essa resposta se denomina Tabor. Pois é fato que a física comprovou de maneira assombrosa que a matéria mais densa é, em sua essência, energia latente, luz contida, potência vibrante — e que há uma força que, com a mesma intensidade, pode transformar ou destruir. A nossa era foi a primeira a reconhecer o lado destrutivo dessa força, no cogumelo que se formou sobre duas cidades e consumiu as sombras dos mortos nas paredes; e transformou a radiação na sua representação do poder supremo, o fogo que extingue, o átomo que causa a morte. Entretanto, a fé já compreende, há muito tempo, o outro lado da mesma verdade, a energia que não aniquila, mas que santifica, e possui para isso uma montanha e um dia. No cume do monte Tabor, perante três discípulos que se prostraram, aterrados e maravilhados, Cristo se transfigurou: seu rosto resplandeceu como o sol, suas vestes tornaram-se brancas como a luz, e essa luz não era um reflexo externo, como a da lua, nem ardia como a do átomo — ela emanava de dentro, da própria divindade transbordando através da carne, a luz não criada de Deus revelada por um breve momento aos olhos humanos. Os teólogos orientais chamaram-lhe de forma exata: as energias incriadas, a essência divina de Deus que se comunica com a criatura sem a devorar, que a ilumina sem a exterminar, que a diviniza em lugar de a obliterar. Esta é a radiação genuína, a energia que repousa nas profundezas de toda matéria, aguardando para ser libertada — não para o cogumelo da morte, mas para o esplendor do Tabor. A promessa cristã é que, ao final, toda a criação passará por uma transfiguração, onde toda a matéria brilhará como o rosto no monte brilhou, e o universo será iluminado pela mesma luz que iluminou aquela carne — a ressurreição é a irradiação de Deus aplicada ao cosmos, a luz que sempre esteve oculta nas profundezas das coisas finalmente revelada, não para extinguir o mundo, mas para fazê-lo brilhar como sempre esteve predestinado a brilhar.
O quinto mitema é a mutação, originado da terceira grande descoberta moderna, a evolução: a compreensão de que o ser humano não é uma forma fixa e definitiva, mas sim um estágio transitório, algo que está em constante transformação, cuja única verdade é a mudança. É o mito dos mutantes dos quadrinhos, dos filhos do átomo, da próxima fase da humanidade emergindo em indivíduos peculiares, temidos e superiores. Kripal observa algo interessante: ao explorar este mitema e os anteriores, os autores perceberam que a liberdade humana não é tão ampla quanto o Iluminismo imaginou — que somos, em grande medida, moldados por forças que não escolhermos, como a família, a cultura, a língua e a história, que nos influenciam antes mesmo de sabermos ler. Certamente, o cristão acolhe esse mitema com uma alegria que o próprio mutante das histórias em quadrinhos desconhece, pois a fé é, acima de tudo, a proclamação de uma transformação — porém, uma transformação que é graça, e não um acaso sem propósito. O ser humano é, de fato, uma forma de transição: o homem viajante, o peregrino, aquele que ainda não alcançou aquilo que está por vir. Ainda não foi revelado o que devemos ser, escreve São João; sabemos apenas que, quando Ele se revelar, seremos semelhantes a Ele. Nosso estado atual é como o de larvas de uma criatura que ainda está por vir, crisálidas aguardando a transformação em um corpo glorioso. A autêntica mutação não se refere ao raio cósmico; trata-se da graça que transforma o homem velho em uma nova criatura, é a metanoia que inverte a alma, é a ressurreição que converte o corpo corruptível em um corpo incorruptível, o corpo mortal no corpo glorioso repleto de cicatrizes luminosas mencionadas no segundo livro. O mutante dos quadrinhos representa a figura sagrada antecipada pela cultura: aquele em quem já se manifestou, antes do tempo, a próxima fase da humanidade — e os santos são exatamente isso, os verdadeiros mutantes, os primeiros modelos do ser humano que teremos de nos tornar, andando entre nós como estranhos de um mundo diferente que, na realidade, é o nosso destino.
E esse quinto mitema, a mutação, contém uma dor que a fé reconhece plenamente e uma esperança que apenas ela pode realizar. Os mutantes dos quadrinhos, conhecidos como filhos do átomo e a próxima fase da humanidade, costumam ser temidos e odiados exatamente por suas habilidades superiores. Eles são perseguidos pelos humanos comuns, que enxergam neles uma ameaça, sendo obrigados a se esconder ou a lutar por um espaço em um mundo que os exclui. E é exatamente assim, dessa maneira, que o mundo se comporta em relação aos santos. O santo é o verdadeiro mutante, aquele em quem a graça já realizou a transformação que toda a humanidade anseia, aquele em quem a próxima etapa do ser humano — o homem divinizado, o homem ressuscitado — já apareceu antes do tempo; por isso, ele se torna estranho, incômodo, perseguido e, muitas vezes, odiado, pois sua mera existência serve como uma acusação silenciosa ao mundo que se conformou com a antiga forma. O mundo crucificou o primeiro dos santos, aquele que é Santo por essência, e desde então nunca deixou de assediar aqueles que lhe são semelhantes. E a representação que a natureza oferece dessa transformação, que a fé sempre venerou, é a da borboleta: a lagarta que se encierra no casulo, parecendo morrer ali dentro, se dissolvendo em uma massa informe, e que, de repente, surge como uma criatura alada que voa onde antes rastejava — tão distinta da lagarta que é difícil acreditar que seja o mesmo ser, e é. O ser humano representa a lagarta; a morte simboliza o casulo; e a ressurreição é a borboleta. Ainda não se revelou o que devemos nos tornar, afirma São João, porém, quando isso acontecer, seremos parecidos com Ele — seremos a borboleta da qual atualmente somos a lagarta, a forma gloriosa da qual agora somos apenas o rascunho rastejante. A transformação que a cultura teme e admira ao mesmo tempo é aquela que a fé garante com segurança e alegria: não a do relâmpago que gera monstruosidades, mas a da graça que, passando pela morte como a lagarta passa pelo casulo, nos transforma, finalmente, na criatura alada para a qual sempre estivemos destinados.
E existe um mutante que a nossa era adorou acima de todos, e nele a angústia da transformação e o anseio pela eternidade se entrelaçam de uma forma que clama por redenção: o homem de garras, aquele que cicatriza toda dor e, por isso, não perece, o imortal não intencional que atravessa conflitos e épocas presenciando a morte de tudo que ama. Seu poder é a cura — o corpo que se recupera de qualquer ferimento, a carne que não retém cicatrizes — e seu sofrimento é exatamente esse: a imortalidade, sem a glória, se torna uma maldição; viver eternamente em um mundo decaído é testemunhar a morte contínua de tudo o que se amou, é uma solidão que se acumula séculos a fio, sem fim. Aqui está uma verdade que a nossa época, obcecada por prolongar a vida a qualquer custo, precisa ouvir: a simples imortalidade não é um paraíso, mas sim um tormento, se se tratar apenas da interminável continuidade desta vida marcada por feridas. O que o coração humano anseia não é apenas a eternidade em seu estado atual; é a transformação, a cura não das chagas físicas, mas da dor de ser mortal em um mundo marcado pela morte. A fé não oferece a imortalidade angustiante do homem preso em suas limitações, nem a perpetuidade em uma Terra arruinada; ela promete a ressurreição, que é algo diferente — não a vida antiga prolongada para sempre, mas uma vida nova e gloriosa, em um novo lar, onde não haverá mais morte, nem luto, nem gritos, nem sofrimento, pois tudo isso já ficou para trás. O mutante que cura e nunca morre representa a versão trágica do que seríamos sem a ressurreição; o santo que foi ressuscitado é o que realmente seremos: não o imortal desgastado que assistiu a tudo morrer, mas o ser vivo eterno que presenciará tudo renascer.
E chegamos aos dois últimos mitemas, que são os momentos decisivos, onde toda a super-história pode se salvar ou se perder, e onde este livro atinge seu clímax e seu combate final. O sexto mitema, denominado por Kripal como realização, refere-se ao despertar: é o instante em que o autor, o artista ou o leitor começa a compreender que os eventos paranormais são autênticos, que a própria vida é semelhante a um texto, a um livro — e, além disso, que ele mesmo é um personagem de uma narrativa, fruto da imaginação de outra pessoa, aprisionado em uma trama que não criou e da qual talvez nem goste. É uma sensação avassaladora, e é uma grande verdade. Pois somos, na verdade, protagonistas de uma narrativa que não criamos; somos, de fato, concebidos por um Outro antes de nos concebemos; a nossa existência é, de fato, um texto sendo redigido por uma mão que não nos pertence. A concretização é o início da sabedoria — é, na linguagem bíblica, o temor do Senhor, a admiração respeitosa em relação ao Criador, a compreensão de que não sou a fonte de mim mesmo, de que existe Alguém escrevendo, de que a minha existência é um dom e não algo que eu próprio criei. Até este ponto, Kripal e a fé estão alinhados, e a realização é quase como uma conversão: despertar para a realidade de que existe um Autor é o primeiro passo para sair da caverna.
Entretanto, é no sétimo e derradeiro mitema que a estrada se bifurca, com um lado levando ao céu e o outro ao inferno; e a única diferença está em uma preposição, em uma única letra, assim como sempre foi desde o jardim. Kripal designa o sétimo mitema como autorização e o caracteriza como um estágio de maturidade na realização: o ser humano, ao reconhecer que é parte de uma narrativa, avança e entende que está além dessa história — não é aprisionado por seres extraterrestres ou por um deus cruel, pois somos nós mesmos esses deuses estranhos e esses demônios; somos nós que concedemos a permissão para a escrita, e por isso temos a capacidade de nos reescrever. Kripal denomina esse movimento de uma forma que revela completamente seu significado: ateose, uma palavra grega que, literalmente, quer dizer fazer-se deus. Reflita sobre esta palavra, pois nela está concentrada a sedução de toda a nossa era, e é a antiga serpente se expressando em grego acadêmico. Ateísmo. A realização afirma: eu sou criado. A autorização é clara: portanto, eu sou o autor. Percebi que uma caneta estava escrevendo a minha história, então tirei-a da mão de quem a segurava e declarei que sou eu o autor. É precisamente, em cada detalhe, a queda de Melkor que o segundo livro descreveu: a entidade que, ao vislumbrar o Fogo Secreto, a força de criar a realidade, não consegue suportar a ideia de não tê-lo em suas mãos, e adentra os espaços vazios para furtá-lo e se tornar, ela mesma, a origem. É o "sereis como deuses" expresso com um diploma. É o hack da realidade levado à sua máxima expressão: não apenas invadir o mundo, mas desafiar o próprio Deus, derrubá-lo e assumir o seu trono.
E não se deve imaginar que essa ateísmo, essa autodeificação, seja apenas uma abstração de acadêmico; existem aqueles que realmente a experienciaram e proclamaram, e o exemplo mais famoso é o próprio mago dos quadrinhos de que tanto falamos, Grant Morrison, que declarou publicamente, em várias ocasiões, ter se tornado um deus, ter dissolvido a fronteira entre ele e o divino em um ritual, e ter começado a escrever suas histórias como atos mágicos de criação da realidade. Ele é o sincromístico levado ao extremo, o homem que não apenas idealizou a manipulação da realidade, mas prometeu realizá-la em sua própria vida, transformando sua obra em um encantamento e a si mesmo em uma divindade. O que se observa na vida de quem escolhe esse caminho é sempre a mesma realidade, e é lamentável: não a glória que foi prometida, mas uma solidão profunda, uma sensação de vertigem, uma exaustão de carregar nos ombros frágeis o fardo de um universo inteiro que agora se auto intitula autor. Porque é isso que a ateísmo realmente oferece, por trás da promessa: não a liberdade de um deus, mas o peso opressivo de um órfão que precisa sustentar sozinho um mundo que já não confia a nenhum Pai. O ser que se coloca na posição de Deus carrega todas as angustias de ser divino, mas não possui suas forças; assume a responsabilidade por tudo, mas é impotente; está condenado a reescrever incessantemente uma realidade que insiste em não se submeter. É a mesma maldição de Babel e Melkor, experimentada no século vinte e um por um escritor brilhante: a de quem tomou a caneta e percebeu, tardiamente, que não sabe escrever sua própria redenção, e que a mão de onde retirou a caneta era a única que o amava o suficiente para orientá-lo.
E para avaliar a profundidade do abismo que se forma entre esses dois nomes quase semelhantes, é necessário aprofundar-se na doutrina mais elevada e sutil de toda a tradição cristã, aquela que o Oriente preservou com zelo e o Ocidente praticamente se esqueceu: a teose, a divinização do ser humano. Não se trata apenas de uma metáfora generosa ou de uma forma exagerada de afirmar que nos tornamos mais gentis; é uma doutrina rigorosa e bem definida, que foi debatida em concílios. Gregório de Nissa afirmou que, uma vez que a alma é tocada por Deus, ela inicia um crescimento interminável, uma busca constante pelo Infinito que nunca se esgota — a epéktase, o estender-se para o futuro mencionado por São Paulo, no qual a criatura, ao longo da eternidade, vive recomeços sem fim, sempre se enchendo mais de Deus e sempre capaz de alcançar mais. Máximo, o Confessor, afirmou que no final, o homem se tornará, por graça, tudo o que Deus é por natureza, à exceção da identidade da natureza — uma afirmação que merece ser lida com calma, pois contém toda a profundidade do assunto. Foi um monge do monte Atos, Gregório Palamas, quem estabeleceu a distinção que preserva essa doutrina de se transformar em panteísmo: em Deus, afirmou ele, é preciso diferenciar a essência, absolutamente inacessível e incomunicável, que nenhuma criatura jamais poderá alcançar ou tocar, e as energias, a própria vida de Deus que se manifesta externamente, a luz incriada do Tabor, a graça, por meio das quais o ser humano realmente participa de Deus sem nunca se tornar a essência de Deus. É neste ponto que a teose se distancia profundamente da ateose: na teose, o ser humano é elevado à divindade ao participar das energias divinas, enquanto continua sendo sempre uma criatura, distinta, amada e diferente — como uma gota unida ao oceano, sem se dissolver nele; na ateose, o homem busca apropriar-se da própria essência, aspirando a ser Deus por direito e não por bênção, eliminando a separação entre criatura e Criador. Uma é a glória que foi prometida; a outra é a queda de Lúcifer. E entre as duas está, precisamente, a distinção de Palamas: participar das energias em vez de usurpar a essência, receber a luz ao invés de roubar a fonte.
E, ao contrário da ateísmo, a fé não se contrapõe à servidão, como o inimigo sempre afirma de forma enganosa, mas sim à sua irmã gêmea e arqui-inimiga, que se distingue por apenas uma letra e pela eternidade: a teísmo. As duas palavras são muito parecidas, e os antigos Padres não tinham receio algum da segunda — afirmavam, com firmeza, que Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus. Teose, ou divinização, é o elevado destino do cristão, que consiste na participação na própria natureza divina mencionada por São Pedro. Isso significa tornar-se deus não por essência, já que isso pertence apenas a Deus, mas por meio da graça, da adoção e do dom. E preste atenção, pois aqui está o núcleo de todo este livro e dos três volumes: a ateísmo e a teísmo chegam ao mesmo destino — o homem divinizado, o homem transformado em deus — por trajetórias completamente opostas, sendo essas duas vias o céu e o inferno. A ateose chega lá de forma intensa: percebe que está sendo escrita e toma a caneta, descobre o Fogo e o leva consigo, afirma que se torna deus. A teose alcança seu destino ao receber: descobre que é escrita e ama o Autor, encontra o Fogo e o pede de joelhos, clama faça-se em mim, e é Deus quem a transforma em deus. O mesmo objetivo, a divinização; o processo oposto, tomar sem receber. Melkor e a Virgem almejavam, no fundo, o mesmo objetivo — fazer parte do poder divino de criar a vida —; um atravessou os vazios para tomá-lo e caiu, enquanto a outra abriu seu ventre para acolhê-lo e trouxe Deus à existência. A autorização de Kripal representa a ateísmo de Melkor; a verdadeira autorização do ser humano é a teísmo de Maria. A distinção entre tornar-se deus e permitir-se ser feito deus é a mesma que separa o único pecado da única santidade, a queda de todos os anjos da glória de todos os santos, o punho que se aperta sobre o Fogo usurpado da mão que se abre para o Fogo recebido.
E existe uma terceira resposta ao se tornar escrito, que não é nem a servidão submissa nem a apropriação da caneta, e que é a única verdadeiramente livre. Vale a pena nomeá-la antes de prosseguir. O personagem que descobre o Autor pode realizar três ações. Pode se indigar e resmungar, nutrir ódio pelo Autor por não tê-lo consultado, passar o restante da narrativa emburrado contra a mão que o escreve — e isso é o verdadeiro inferno, é a alma que, ciente de sua criação, amaldiçoa o Criador. É possível arrancar a caneta e se declarar autor de si mesmo, reescrever-se ao seu próprio bel-prazer — e isso é a ateose, a queda, o derretimento de tudo, pois um personagem que se torna autor de si mesmo não conquista liberdade, mas sim perde o enredo, desvencilha-se da história em um delírio sem contornos. Ou, então, você pode optar pela terceira alternativa, a mais elevada e desafiadora: amar o Autor, acreditar que a narrativa que Ele constrói é superior a qualquer uma que o personagem poderia criar por si só, e se unir a Ele, mergulhando na história com toda a liberdade, expressando suas falas com intensidade, tomando suas decisões de verdade — pois, mistério dos mistérios, o Autor divino é quem realmente cria personagens livres, que possibilita que nossas escolhas sejam genuinamente nossas, sem que deixem de fazer parte da sua trama. Um grande poeta expressou de maneira profunda que a verdadeira liberdade reside na vontade divina, e é nessa entrega que encontramos a nossa paz. Não em oposição à vontade de Deus, mas dentro dela; não contra o Autor, mas em união com Ele, é que o personagem finalmente alcança a verdadeira liberdade — a liberdade não de reescrever o livro, mas de ser, com todo o seu ser, o personagem esplêndido que o Autor idealizou, e que ninguém, nem mesmo o próprio personagem, conseguiria imaginar de forma mais perfeita.
E há, ligado a esses mitemas, um aspecto curioso e persistente que Kripal investiga com interesse e que merece ser esclarecido, pois nele a nossa era tocou, sem perceber, uma das representações mais profundas do Evangelho: a conexão entre o inseto e o alienígena, entre o ser rastejante e o deus das estrelas. Kripal observa que o gênero dos super-heróis tem sua origem na figura do alienígena que chega do espaço, em contraste com o inseto superdesenvolvido — e menciona que o Superman, da primeira edição, antes de voar, apenas realizava saltos, pulando como um gafanhoto. E que o símbolo mais querido, além do S do Superman, são os olhos do Homem-Aranha, um verdadeiro inseto humanoide; e que esses mesmos olhos grandes e peculiares estão presentes no Ultraman, o gigante alienígena do Japão, e nos Kamen Riders, que originalmente eram guerreiros-gafanhoto mutantes, e até nas inúmeras mãos da deusa Kali, que se assemelham às patas de um inseto. O rastejante e o celestial, o verme e o divino, unidos em uma única imagem que perpassa as culturas. Certamente, isso não é fruto do acaso, e a fé possui a chave: pois a Escritura realizou precisamente essa conexão, séculos antes dos quadrinhos, e o fez a respeito do próprio Messias. Eu sou um verme, não um ser humano, afirma o Salmo vinte e dois na voz do Crucificado, objeto de rechaço entre os homens e desprezo do povo. O Deus das estrelas, o Altíssimo, o celeste por excelência, se tornou o mais insignificante dos vermes, o oprimido, o desprezado, aquele inseto que se pisa sem compaixão — e foi desse lugar de rebaixamento, dessa humilhação de um ser esmagado na cruz, que ressurgiu glorificado como o Senhor de todas as estrelas. A conexão entre insetos e alienígenas, que a cultura pop explora de maneira intensa, é a intuição profunda do mistério central: que o que é mais elevado se transformou no que é mais baixo, que o celestial se tornou algo rastejante, que o Deus do céu se tornou um verme da terra para que o verme da terra alcançasse a condição de deus do céu. O gafanhoto que pula e o deus que vem do céu são uma única entidade, pois Cristo representa ambos: o verme do Salvador e o Sol da ressurreição, o mais humilde e o mais elevado unidos em uma só Pessoa.
E o Homem-Aranha, o mais próximo da humanidade entre todos esses insetos alienígenas, guarda em seu coração a essência que é, palavra por palavra, o verdadeiro Evangelho, expresso em forma de quadrinhos, e vale a pena apreciá-la. Com imenso poder, surge uma imensa responsabilidade: essa é a lição que o jovem assimila com a morte do tio, a frase que o caracteriza e que, por consequência, resume toda a mitologia dos super-heróis. Certamente, isso reflete com precisão uma frase de Cristo: a quem muito foi concedido, muito será cobrado; e aquele a quem foi dada grande responsabilidade, ainda mais será solicitado. O dom gera a obrigação; o poder estabelece a responsabilidade; quanto mais se recebe, mais se deve. O Homem-Aranha é querido exatamente por representar essa realidade de uma maneira que as pessoas reconhecem em suas próprias vidas: ele é o herói que enfrenta sofrimento, que passa por perdas, que carrega o peso de seus poderes como se fossem uma cruz, podendo utilizar seu dom em benefício próprio, mas optando sempre por ajudar os outros, arcando com alto custo, sem esperar recompensas, apenas porque é o que se deve fazer. É a pureza do presente concedido, a mesma dos santos que habitam os sonhos do segundo livro — a força que se entrega ao serviço, o poder que não é utilizado para ascender, mas para suportar. Não é por acaso que o símbolo dele são aqueles olhos enormes e peculiares, os olhos do inseto alienígena: pois o que ele observa com esses olhos é o que o santo percebe, a responsabilidade oculta em cada talento, o dever enraizado em cada habilidade, a cruz inserida em cada bênção. O jovem do subúrbio e o Filho do Homem compartilham uma mensagem semelhante: que receber em abundância não é um privilégio, mas uma missão; que o talento que não é compartilhado se deteriora; e que a verdadeira grandeza não reside em possuir o poder, mas em utilizá-lo por completo em benefício dos outros, até a última gota, como alguém que se entrega a um sacrifício.
Kripal reúne os exemplos dessa relação entre o inseto, o alienígena e o divino, e cada um, nomeado, intensifica o mistério. Os grandes e peculiares olhos do Homem-Aranha, ilustrados por um artista na década de sessenta, ressurgem, idênticos, nos olhares dos alienígenas que as pessoas passaram a descrever nas abduções ocorridas nas décadas posteriores — ao ponto de Kripal indagar, de maneira séria, se a ficção não terá moldado a experiência, se os visitantes de outras dimensões não aparecem trajados com as vestes que a nossa imaginação lhes confecciona. Os mesmos olhos retornam no Ultraman japonês e nas representações da deusa Kali, que possui, além dos olhos gigantes, vários braços que se assemelham a patas de um inseto, além de uma forma negra e assustadora ao lado da sua versão benevolente. O rastejante, o celeste e o divino unidos em uma única figura recorrente. A fé não apenas reconhece essa união, mas a possui no íntimo de sua Escritura, e a aplica ao próprio Deus. Já mencionamos o verme do Salmo, conforme mencionado pelo Crucificado; contudo, há mais a ser dito. Jonas, simbolizando Cristo, é tragado por um monstro marinho e retornado à vida, adentrando o ventre da criatura para então ressurgir — o profeta que permeia a besta abissal assim como Cristo superou a morte. E no Apocalipse, no crepúsculo dos tempos, emergem do fundo do abismo gafanhotos aterradores, representações do sofrimento, insetos apocalípticos — a mesma figura do inseto alienígena, agora como força do juízo. O rastejante, que é ao mesmo tempo temível e sagrado, humilde e grandioso, permeia toda a Escritura porque permeia toda a realidade: pois o mais alto se fez o mais baixo para que o mais baixo pudesse ascender ao mais alto, e nessa troca vertiginosa, o verme e o deus, o gafanhoto e o anjo, o abissal e o celeste deixaram de ser antagônicos e tornaram-se os dois extremos de um mesmo arco, que se chama Cristo, aquele que desceu abaixo de tudo para preencher tudo com a sua glória.
Agora é possível reunir tudo e escutar a frase com a qual o próprio sincromístico, em seu mais alto nível de lucidez, sintetiza o que a imaginação realiza — e perceber que, ao ser pronunciada por ele sem que tenha consciência disso, já se assemelha a uma oração cristã perfeita, aguardando apenas uma palavra para se completar. Segundo ele, a cada nova transformação do pensamento humano, esse poder criativo, que está completamente associado à fé, busca traçar uma saída, erguendo uma ponte para escapar de um estado de sofrimento, utilizando os próprios elementos que provocaram o distúrbio e adaptando-se às formas necessárias para nos alcançar. Interrompa e revise, pois é extenso. A imaginação, ao atuar como uma ponte que nos leva para longe da angústia, é construída com os mesmos elementos do nosso próprio desastre, moldando-se de maneira a nos tocar — isso não se trata de uma teoria cultural, mas sim de uma descrição da Redenção. Por que Deus fez algo diferente disso? Frente à aflição do ser humano aprisionado, confinado em um mundo limitado, Ele não enviou um comunicado do céu; em vez disso, ergueu uma ponte que nos tirasse da angústia utilizando os próprios elementos que geraram o sofrimento — a carne que pecou, Ele a assumiu; a morte que nos trouxe condenação, Ele a enfrentou; a madeira que poderia levar à execução do homem, Ele a converteu em uma conexão entre o céu e a terra; o próprio instrumento de tortura, a cruz, se transformou no verdadeiro portal, a saída da caverna. E adotou todas as formas necessárias para nos alcançar: tornou-se bebê, tornou-se pão, tornou-se palavra, tornou-se verme, desceu a qualquer profundidade, vestiu qualquer disfarce humilde, para chegar até nós onde quer que estivéssemos caídos.
É importante fazer uma ressalva que salva este livro da má interpretação, pois afirmar que Deus se comunica através do lixo não significa que todo lixo transmite uma mensagem de Deus, e essa distinção é fundamental. Nem tudo o que compõe a cultura é manifestação do Verbo; existe, dentro dela, muito veneno puro, diversas coisas que não são distorções de uma verdade, mas mentiras claras, criadas deliberadamente para corromper — há obras que exterminam a capacidade de amar, há aquelas que exaltam a crueldade, há narrativas elaboradas para fazer o mal parecer atraente e o bem parecer ridículo, há o verdadeiro lixo que é apenas lixo, e às vezes até pior do que lixo, isca. O discernimento, que já mencionamos, é a habilidade de distinguir, dentro do mesmo contexto cultural, o ouro dos egípcios do ídolo egípcio, a essência do Verbo da erva daninha do adversário. Despojar os egípcios não significa consumir todo o Egito; é adentrar nele com a mente alerta, pegar o ouro, abandonar o ídolo e eliminar o veneno. O equívoco do puritano é acreditar que tudo na cultura é nocivo e se afastar dela com aversão; já o erro do sincromístico, que possui uma certa devoção ingênua em relação à cultura pop, é exatamente o contrário, ou seja, acreditar que tudo nela é sagrado, que todo filme carrega uma essência, que cada símbolo é uma semente — e assim acaba absorvendo o ídolo junto com o ouro, o veneno junto com o sustento. A verdade requer as duas mãos: uma que acolhe com carinho o traço de Deus oculto até mesmo no rejeitado mais desprezado, e outra que exclui com determinação a falsidade que se apresenta como profundidade. Apreender a cultura sem discernimento é tão insensato quanto desconsiderá-la sem reflexão; e o objetivo que estes três livros se propuseram, do início ao fim, nunca foi glorificar tudo de forma indiscriminada, mas sim aprender a enxergar — a descobrir o Rosto onde Ele realmente se oculta, e a revelar a máscara que encobre, por trás, não um rosto, mas um vazio.
A frase do sincromístico possui uma segunda parte que deve ser considerada, pois é uma verdadeira lição sobre a condescendência divina: a imaginação, segundo ele, forma a ponte que nos retira da angústia, adaptando-se às formas que forem necessárias para nos alcançar. Adotar quaisquer formas necessárias para nos atingir — não existe descrição mais precisa da maneira como Deus Se manifestou ao longo da história, diminuindo-Se a cada época e a cada alma, usando a linguagem que aquele povo pudesse compreender. Os antigos denominavam isso de condescendência, a acomodação divina: Deus que, para se aproximar de um povo de pastores, Se apresenta como um pastor; que, para conduzir um povo no deserto, Se torna coluna de fogo e de nuvem; que, para confortar um profeta em desespero, não Se manifesta no vento, no terremoto ou no fogo, mas sim numa brisa suave; que, para saciar os famintos, Se transforma em maná e, posteriormente, em pão. Deus realmente toma qualquer forma que seja necessária para nos encontrar, desce às mais profundas dimensões, usa qualquer disfarce simples, fala qualquer idioma, pois seu amor não tem o orgulho de exigir que nós subamos até Ele em sua glória inatingível — Ele prefere se abaixar até o nível de cada um de seus filhos, não importa quão baixo eles tenham chegado. E o auge dessa condescendência, a maneira mais intensa pela qual Ele se fez presente entre nós, foi por meio da carne humana: Deus que, para nos alcançar, tornou-se um de nós, chorou como nós, sentiu fome e sede como nós, e morreu como nós. O sincromístico afirma que a imaginação assume diversas formas para nos alcançar; a fé por sua vez, responde que foi Deus quem fez isso primeiro, e que a imaginação, ao criar caminhos para sair da angústia, está apenas imitando, de longe e às cegas, o Deus que Se fez ponte, tomando a nossa forma para nos conduzir à sua.
É necessário fazer uma observação sobre essa afirmação que o sincromístico aprecia, e com razão — a de que a cultura pop representa nossa nova e mais significativa mitologia, impregnada da mesma força que animou as religiões do passado —, pois essa ideia é verdadeira de um lado e arriscada de outro, e saber distinguir esses aspectos é fundamental. É verdadeira na medida em que o segundo livro já mencionou sobre Tolkien e Lewis: a cultura está repleta de mitos, e os mitos não são falsidades, mas verdades expressas na única linguagem que certas verdades podem ter, raios do Verbo refletidos em narrativas, sementes do Logos disseminadas pela criatividade dos povos. Nesse sentido, a cultura pop é realmente uma mitologia, e uma mitologia sagrada; ignorá-la é desconsiderar as sementes do Verbo. Contudo, existe um risco fatal em parar por aí, e o sincromístico acaba se embrenhando nesse erro: o de acreditar que, por se tratar da nova mitologia, a cultura pop é suficiente, que ela representa a religião dos nossos tempos, e que nela se encontra a totalidade do sagrado. Não. A distinção entre o mito e a Revelação é semelhante à diferença entre o sonho e o despertar, entre a expectativa e a realização, entre a sombra e a substância. Todos os mitos, tanto os antigos quanto os dos quadrinhos, são verdadeiros como profecias, desejos e prefigurações — mas representam, na verdade, sonhos de algo que ocorreu apenas uma vez na história, em carne e osso datáveis: o mito do deus que morre e ressuscita, sonhado por muitas culturas, tornou-se uma realidade em um sepulcro próximo a Jerusalém. A cultura pop representa a mitologia contemporânea, sem dúvida; contudo, a mitologia é apenas um esboço, enquanto a Revelação é a realização completa; o mito é o que deseja-se criar, e Cristo é o que realmente se concretizou. Aqueles que permanecem na mitologia vivem no sonho; aqueles que transitam para a Revelação despertam e percebem que o sonho era real — e que o Deus que morria e renascia em inúmeras narrativas realmente morreu e ressuscitou, de fato, por ele, uma vez por todas.
E nisso se evidencia o maior de todos os poderes de Deus, aquele que os três livros buscaram sob mil formas e que agora pode ser nomeado sem disfarces: o poder de assimilar até os seus próprios adversários. O sincromístico percebe essa força e a nomeia, a seu modo, como a habilidade da imaginação de utilizar os elementos do transtorno para criar a solução. A fé o reconhece pelo nome e o presenciou em ação ao longo da história: é o Deus que faz com que os demônios, mesmo contra a sua vontade, sirvam ao seu propósito; que entrelaça a dissonância de Melkor em um contraponto mais harmonioso, como observamos no segundo livro com Ulmo e a neve; que converte o leviatã derrotado em sustento na mesa dos justos; que transforma o maior crime da história, o assassinato de seu próprio Filho, em redenção para o mundo — a felix culpa, a culpa feliz. Deus não triunfa sobre seus inimigos apenas ao derrotá-los; Ele os vence ao assimilá-los, ao digeri-los, fazendo com que a própria escuridão se torne serva da luz. E é exatamente por essa razão que a cultura pop, muitas vezes vista como lixo — como o cinema, o rock, os quadrinhos, a ficção científica, todo o material desconsiderado que os entusiastas apreciam e que os acadêmicos desdenham — está, como ele aponta com razão, repleta da mesma vitalidade que impulsionava as antigas crenças, sendo a nossa nova e mais significativa mitologia. Não que a cultura tenha um caráter sagrado em si mesma; mas sim porque o Deus que abraça os inimigos não descarta nenhum tipo de material, seja ele o mais humilde, o mais distorcido ou o mais arruinado: acolhe tudo, até o lixo, até o adversário, e transforma isso em uma ponte, uma porta, uma semente do Seu Verbo. O que o segundo livro se referiu como despojar os egípcios, o terceiro pode agora designar de uma maneira mais profunda: o poder de Deus de assimilar seus inimigos e até transformá-los em vasos da sua glória.
E existe uma maravilha nesta ponte construída com os materiais do próprio desastre, e a tradição a retratou em uma imagem que dá arrepios: a de que a cruz foi feita da madeira da árvore. Os antigos contavam, em uma lenda que é pura teologia, que a madeira da cruz de Cristo vinha, por um longo caminho de séculos, da própria árvore do paraíso, aquela cujo fruto Adão consumiu, que trouxe a morte. Assim, a árvore que causou a ruína da humanidade forneceu a madeira da cruz que a redimiu, e o mesmo material que, em um jardim, deu o fruto da queda, ofereceu, em outro monte, o fruto da salvação. Seja uma lenda ou não, a verdade que ela esconde é bem clara: Deus salvou a humanidade utilizando os próprios elementos que geraram sua ruína. O erro entrou pela desobediência de uma pessoa em uma árvore; a redenção chegou pela obediência de outra pessoa em outra árvore. A morte se fez presente através do fruto de uma árvore; a vida surgiu pelo fruto de outra árvore. A mão que se estendeu para alcançar o que era proibido foi desfeita pelas mãos que se deixaram fixar, abertas, na madeira. Deus não descartou os materiais da nossa queda para criar a salvação com peças novas e limpas; Ele utilizou os próprios fragmentos do nosso desastre — a madeira, a mão, o fruto, a morte — e com esses mesmos elementos, precisamente com eles, edificou a ponte de volta. É o que o sincromístico percebe ao afirmar que a imaginação cria a solução utilizando os elementos que provocaram a confusão; e isso se apresenta como o felix culpa em sua forma mais pura: a culpa feliz, o infortúnio do qual Deus trouxe um bem maior, a árvore da morte convertida na árvore da vida. Nada é descartado; nem mesmo o que parece mais insignificante; nem a cruz; nem você.
É fundamental mencionar, antes de encerrar, qual foi o hack supremo, a ação mais audaciosa já realizada sobre a realidade, pois ela conecta tudo o que este livro buscou. Quando Cristo faleceu, não ficou apenas repousando em um sepulcro à espera do domingo; Ele desceu. Ele se aventurou até o extremo mais profundo do sistema inimigo, adentrando o refúgio do adversário, na residência dos mortos, onde o diabo governava sobre aqueles que a morte havia consumido desde o início — entrou, por escolha própria, no núcleo da fortaleza das trevas, no único local onde o inimigo se considerava o soberano incontestável. E ali, nas profundezas do servidor central do inferno, por assim dizer, ele realizou o hack decisivo: rompeu as portas de bronze, desativou o código da morte em sua própria origem e reescreveu a norma mais básica do sistema decaído — a de que a morte é o fim — transformando-a para sempre. É isso que os cristãos do Oriente retratam em todos os seus ícones da Páscoa: não um Cristo saindo sozinho de uma caverna, mas um Cristo de pé sobre as portas quebradas do inferno, puxando Adão e Eva pelos pulsos para fora dos túmulos. O verdadeiro portal estelar que o sincromístico busca nos arcos de Hollywood é essa porta quebrada do inferno; o hack da realidade que ele imagina realizar de fora é este, realizado de dentro, no cerne do sistema adversário, pela única pessoa que conseguiu adentrar a morte sem ser contida por ela. E a lição é clara: não se transforma o mundo apenas hackeando-o superficialmente, inserindo crenças à base; para mudar o mundo, é preciso mergulhar em suas profundezas mais sombrias, enfrentar a essência da angústia, confrontar a própria morte, e reescrevê-la a partir do amor — e isso apenas um realizou, não para se tornar divino, pois já o era, mas para nos elevar a essa condição, nos puxando pelos pulsos para fora do sepulcro onde estávamos adormecidos.
Por último, existe uma última fonte mencionada pelo sincromístico que deve ser recuperada e ajustada, pois ela aborda a essência de toda essa teologia da imaginação presente nos três livros: a teoria da imaginação criadora que Henry Corbin extraiu do sufismo de Ibn Arabi. Corbin menciona, ao ler o místico árabe, que o contato com a Sabedoria mística, a Sofia, revela à alma o objetivo da dialética do amor; que o feminino divino é a teofania por excelência, a manifestação de Deus; e que a união entre a beleza e a compaixão é o verdadeiro segredo da criação — uma vez que se a simpatia divina é criadora, é porque o ser divino anseia por mostrar a sua beleza, e se a beleza é redentora, é por expressar essa compaixão criadora. É uma beleza deslumbrante e, na sua essência, quase totalmente correta. O segundo livro já expressou metade dessa verdade através da beleza, que é um dos nomes de Deus e a forma mais comprometida de todas. A beleza e a compaixão como o segredo da criação — sim, mil vezes sim: Deus criou por amor, para revelar e comunicar sua beleza, e redimiu por compaixão, inclinando-se sobre a miséria da criatura; a criação como um todo é um ato de beleza compassiva, um transbordamento do Belo que não suporta permanecer só. A imaginação criativa, essa capacidade de moldar o que não se vê, é, de fato, uma verdadeira participação nesse ato divino, conforme temos afirmado ao longo de três volumes — a imaginação humana é a imagem da Imaginação de Deus.
Contudo, é necessário, como de costume, capturar a essência da verdade e descartar o que é irrelevante, sendo que o que é irrelevante, neste caso, é a dissolução sufista e gnóstica da linha que separa a imaginação que se envolve e a imaginação que se considera a única criadora. Para Ibn Arabi, ao final, a imaginação acaba se tornando o espaço onde homem e Deus se fundem indistintamente, onde a criatura se dissolve no Criador como uma gota no oceano, e onde o feminino criador se transforma em um princípio quase autônomo. E a fé católica, que valoriza a beleza, a compaixão e a imaginação tanto quanto qualquer sufi, estabelece aqui a linha que salva: a gota não se dissolve no mar, ela é acolhida pelo mar e continua sendo gota, amada e distinta, por toda a eternidade — pois a união com Deus que o cristianismo oferece não é a fusão que anula a pessoa, mas o abraço que a completa, o matrimônio em que os dois se tornam uma só carne sem deixar de ser dois. E a Sofia, o princípio feminino da criação, a Sabedoria que representa uma teofania e o mistério da criação, possui para o cristão uma face concreta, um nome e uma história: é, no plano divino, o próprio Verbo, a Sabedoria eterna por meio da qual tudo foi criado; e é, no plano criado, aquela em quem a beleza e a compaixão se uniram para recriar o mundo, a mulher cuja imaginação não se considerou criadora, mas se ofereceu como um lar, e em cujo ventre a Beleza eterna se tornou compaixão encarnada. A imaginação criadora mencionada por Corbin encontra seu modelo ideal não em um conceito abstrato, mas sim em uma jovem de Nazaré que disse “faça-se” — a figura na qual a imaginação de Deus e a do homem se encontraram sem se misturar, e do seu sim nasceu a Beleza que salva.
É digno de louvar a imaginação criativa com a face que o sufismo intuiu e que apenas o cristianismo revelou completamente, pois é o símbolo de toda esta teologia. Corbin mencionou Sofia, o feminino criador, a beleza e a compaixão como os segredos da criação, e tudo isso é verídico e aguarda um rosto. A Sabedoria criadora, a Sofia através da qual tudo foi criado, possui no plano divino a imagem do Verbo, a Sabedoria eterna de Deus; no entanto, decidiu ter, no plano material, também uma face feminina, e essa face é a da Virgem, onde a beleza e a compaixão se uniram para reconstruir o mundo. A razão pela qual a imaginação criadora, a capacidade de materializar o invisível, atingiu seu ápice não em uma técnica mágica ou em um blog de portais, mas no ventre de uma jovem que, ao se pronunciar "faça-se em mim", deu forma humana ao próprio Deus — a mais grandiosa obra criativa que uma criatura já conseguiu, e que foi feita não por arrancar o poder de criar, mas por recebê-lo como um presente, numa atitude de acolhimento genuíno, com as mãos abertas. Maria é a imaginação criadora restaurada, a essência feminina criadora em plena graça, a contrapartida de Babel e de Melkor, a ser que decidiu não se tornar divina e, por isso, deu à luz Deus. E é também a representação da Igreja, a Esposa que, ao longo dos séculos, continua a dar a carne a Cristo no mundo, a torná-lo presente, a gerá-lo nas almas — a verdadeira recriação do mundo, a criação contínua realizada não pela imaginação que dissolve o real, mas pela imaginação que, como Maria, se disponibiliza como lar para o Verbo. A beleza e a compaixão realmente são o mistério da criação; e seu nome, ao final, é Jesus, a Beleza do Pai manifestada como compaixão encarnada, e seu trono na terra é o colo de uma mãe que soube dizer sim.
E, no fim das contas, Agostinho já mencionou isso há mil e seiscentos anos, ao dividir toda a história em duas cidades construídas por dois amores: a cidade terrena, erguida pelo amor próprio até o desprezo por Deus, e a cidade de Deus, construída pelo amor a Deus até o desprezo por si mesmo. São as duas cidades que perpassam estes três livros do início ao fim, sob mil designações. A cidade terrestre é Babel, é a trapaça da realidade, é a negação de Deus, é o punho que se aperta sobre o Fogo desonesto, é o homem que se torna deus e ergue a torre, derretendo o que é real e se proclamando criador de si mesmo — e seu destino é sempre a confusão, a dispersão, a solidão do órfão que carrega sozinho um mundo que já não confia em nenhum Pai. A cidade de Deus representa a Jerusalém celestial, é a teose, é a mão estendida que acolhe o Fogo do dom, é a Virgem que se dispõe a que assim seja, é o homem que se permite ser feito deus e abraça o real como um presente, trabalhando em parceria com o Autor em vez de tentar destroná-lo — e seu propósito é a comunhão, o reencontro, o lar onde todos os sonhos genuínos se realizam. As duas cidades não estão delimitadas por uma fronteira no mapa; elas transitam pelo íntimo de cada coração. Todos nós, a cada escolha, a cada instante, estamos colocando um tijolo em uma ou outra — edificando Babel ou Jerusalém, cerrando o punho ou abrindo a mão, afirmando eu me faço deus ou dizendo faça-se em mim. É a decisão que o primeiro livro sugeriu, que o segundo explorou e que o terceiro, agora, apresenta a você pela última vez, de forma clara e completa: de que cidade você deseja ser cidadão? De que lado da corda você está? Que tipo de amor você está, neste exato momento, construindo?
E, ao final de tudo, existe uma autêntica transição do possível para o consensual, uma verdadeira união de todas as realidades possíveis em uma só — porém, não é algo que nós tenhamos criado, e não ocorre por um consenso forçado. O segundo livro já lhe conferiu um nome: é a Jerusalém celestial, a cidade que desce do céu nos últimos tempos. Pois o sincromístico anseia desmanchar a realidade única em mil realidades possíveis; porém, o que Deus nos reserva é exatamente o contrário e infinitamente mais sublime — a colheita de todos os mundos bons em uma única realidade final, a união de tudo que foi sonhado de verdadeiro e belo em todos os corações, finalmente estabilizado em ato, tornando-se para sempre real. Tudo o que a criatividade humana idealizou de magnífico, todos os Camelots e todas as Terras-médias, toda a bravura e toda a beleza que brilharam nos mil universos de papel não se dissipará: será colhido, purificado e realizado na única cidade cujo arquiteto e construtor é Deus. Essa, de fato, é a realidade viável que se torna consensual em seu significado mais profundo — consensual não porque a criamos mediante um acordo, mas porque todos, enfim, estaremos diante da mesma Verdade e a acolheremos com a alegria de quem retorna para casa. O derretimento almejado pelo sincromístico resulta no caos das realidades pessoais; a colheita planejada por Deus resulta na união de uma única realidade gloriosa, infinitamente abundante, onde cada bem possível encontra seu espaço sem conflitos. Ele almeja mil mundos em discórdia; Deus planeja mil mundos em harmonia. E a última diferença, que é a eterna, é a mesma de sempre: o homem que derrete o real para moldá-lo conforme seu desejo termina no inferno da fragmentação; o homem que aceita o real das mãos de Deus encontra-se na cidade onde todos os sonhos verdadeiros se reencontram, realizados, no único Sonhador que os concebeu desde antes do começo.
Agora que chegamos ao final de três livros, vamos reunir todos os fios que uma única mão segurava sem que nos déssemos conta. O Deus que foi assimilado em todas as representações culturais, que o segundo livro buscou, é o mesmo que o terceiro revela ao ter conseguido penetrar na realidade ao se manifestar nela. A realidade compartilhada que o sincromístico busca desfazer é a base comum que o segundo livro defendeu contra a polarização, e que apenas Deus pode reconstituir sem causar sua destruição. As realidades alternativas que surgem da psique são os mundos possíveis que habitam a mente de Deus. A inteligência não local que molda os flocos de neve é a Providência que entrelaçou a desarmonia de Melkor na beleza da neve de Ulmo. O plasmado de Dick e o meme de Dawkins representam o Verbo que se propaga como informação viva, a semente dispersa, a pedra que foi rejeitada. A super-história de Kripal representa a narrativa da redenção. A orientação representa a saudade da pátria; a alienação simboliza o exílio de um Deus que não morreu, mas que foi expulso; a radiação é a luz do Tabor; a mutação é a ressurreição; a realização é o temor do Senhor; e a autorização, a ateísmo, é a queda de Melkor, o roubo do Fogo, a última e mais sutil máscara da serpente. E contra ela, do primeiro ao terceiro livro, uma única resposta, uma única mão estendida, uma única palavra proferida por uma jovem de Nazaré e capaz de reverter a queda de todos os anjos: faça-se em mim. Tudo que estas três obras buscaram sob mil disfarces — o Deus oculto nos símbolos, o Fogo que não se apodera, a Porta que é uma Pessoa, a intervenção que somente o Autor pode realizar — se resume, ao final, à distância entre duas afirmações proferidas diante de Deus: eu me torno deus da ateísmo, e faça-se em mim do teísmo. Entre elas se estende toda a linha que separa o céu do inferno; e a escolha, a cada momento, é oferecida novamente a cada um de nós.
E, ao término de tudo, de três livros e de mil imagens, a expressão mais precisa sobre essa fome total já havia sido pronunciada há mil e seiscentos anos, na primeira página de uma obra que um bispo africano redigiu não como um tratado, mas como uma oração direcionada diretamente a Deus — e é com essa palavra que é apropriado encerrar toda esta extensa catequese do desejo. Fizeste-nos para Ti, e nosso coração fica angustiado enquanto não encontra descanso em Ti. Penso em cada palavra, pois dentro delas se encontra a essência de tudo o que o sincromístico sentiu e não conseguiu identificar. Foste nos criaste para Ti: o ser humano não é um mero acidente lançado em um mundo indiferente, mas sim uma criatura feita especialmente para um propósito, e esse propósito é Deus; carregamos, inscrita na essência da alma, uma forma que somente Deus pode preencher, uma abertura para o infinito que os antigos designaram como capax Dei, a capacidade de Deus — somos, por natureza, jarros moldados para um oceano, e, por isso, nenhum riacho consegue nos satisfazer. E o nosso coração permanece inquieto: toda a agitação da nossa espécie, toda a sua busca intensa, toda a procura por novos horizontes, todas as torres de Babel, todos os jeitos de burlar a realidade, todas as jornadas ao Oriente, ao espaço e às profundezas da consciência, são reflexo da inquietação de um coração que busca, sem perceber, o único descanso para o qual foi criado, e que vivencia tudo o mais justamente porque nada mais o acalma. O sincromístico representa o coração agitado de Agostinho levado ao extremo: um homem que percebe a vastidão da própria fome e percorre todo o universo em busca de um alimento que a satisfaça, descifrado, colecionando e hackeando, sem imaginar que a fome sem fim que o impulsiona a tudo é, na verdade, tanto a prova quanto a promessa de um Alimento infinito. E que esse Alimento não se captura, mas sim se recebe, não se encontra no término de qualquer decipher, mas no ato de se ajoelhar. Enquanto não descansa em Ti: há, portanto, um descanso — não a morte do desejo, mas a sua realização; não o fim da sede, mas a fonte finalmente saciada —, e ele tem um lugar e um nome, e não se trata de um estado alterado da consciência, nem de um portal, nem de uma nova era do espírito, é uma Pessoa na qual a alma, ao chegar, finalmente descansa, assim como a criança que brincou o dia inteiro adormece tranquila nos braços de quem a trouxe ao mundo. Toda a agitação dos três livros se resume a esta frase, e toda a sua serenidade também: fomos criados para Ele, e somente n'Ele o coração encontra descanso.
E ainda há uma última consideração a fazer sobre essa saudade de um recomeço, de uma nova construção da realidade, que tanto nos angustia e encanta em nossos dias. Essa saudade é como uma previsão, e é mais autêntica do que imagina quem a experimenta — porém, seu direcionamento é para o passado e para o alto, e não para o futuro e para o interior. A nova criação que a humanidade aguarda, a recriação do mundo, o novo céu e a nova terra, não resultará da nossa imaginação transformando a realidade; será fruto do mesmo Verbo que efetuou a primeira criação, do mesmo Deus que, no início, disse "haja luz", e a luz se fez, e que, ao final, proclamará "eis que faço novas todas as coisas". Essa recriação já teve seu início, e não em um blog esotérico ou em um ritual de portal: começou em uma manjedoura, quando o Autor entrou no livro; se consumou em um túmulo vazio, quando a morte foi reescrita; e prossegue em cada alma que, ao invés de arrancar a caneta das mãos de Deus, lhe diz: escreva em mim a sua história. As páginas iniciais da Escritura afirmam que fomos criados à imagem de Deus; o Evangelho, por sua vez, nos revela que podemos ser recriados à semelhança de Cristo. E entre os dois se concentra toda a aventura da imaginação humana, toda a nostalgia de todos os mitos, todo o conteúdo repleto de luz da cultura como um todo — não para que a derretamos e a moldemos conforme nossa vontade, mas para que, ao encontrar em cada fragmento o rosto de quem o espalhou, o devolvemos completo Àquele que é, Ele mesmo, o princípio e o fim, a primeira palavra e a última, o Autor que se fez personagem, a Porta que se abriu por dentro, e que está, neste exato momento em que você acaba de ler esta frase, do lado de lá e do lado de cá do limiar, com as mãos marcadas estendidas, aguardando apenas que você as aceite.
E o auge de tudo, o ponto mais elevado onde a teose que vivenciamos e a saudade que acabamos de mencionar se encontram e se realizam, também possui um nome na tradição, que foi pronunciado por um dos mais antigos Padres, Ireneu de Lyon, naquela frase que atravessou os séculos como um raio: a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus. Leia-a com calma, pois ela desmonta de uma vez só toda a calúnia gnóstica de que Deus seria um tirano ciumento da nossa grandeza. A glória de Deus — o que mais O exalta, seu esplendor máximo diante do universo — não consiste no homem humilhado, oprimido, anulado diante d'Ele; mas sim no homem pleno, no homem em total domínio de si mesmo, no homem que alcança o auge de sua grandeza: Deus é tão grandioso que Sua glória se manifesta ao engrandecer a criatura, e tão generoso que Seu brilho reflete o brilho dos Seus filhos. E a existência do ser humano, sua vida completa, o auge do que ele pode alcançar, é a percepção de Deus — ver, finalmente, não mais em mistério, não mais através de sinais que exigem esforço para serem interpretados, não mais tateando a zebra oculta na grama, mas cara a cara, como prometeram São Paulo e São João: seremos semelhantes a Ele porque O veremos como Ele é. Eis a autêntica divinização, a teose personificada, a única maneira de se tornar deus que não implica em decadência: o homem que, ao contemplar Deus face a face, é transformado por essa visão na semelhança do que observa, assim como o ferro no fogo se torna incandescente sem deixar de ser ferro, assim como o vidro iluminado pelo sol brilha intensamente sem deixar de ser vidro. Esta é a ampliação da percepção que os psiconautas buscaram no tanque e na dose, mas não encontraram; esta é a verdadeira permissão que Kripal procurou e trocou pela descrença; este é o portal estelar que o sincromístico interpreta nos arcos de Hollywood sem perceber que ele se abre, não para o exterior do mundo, mas para o interior de um Rosto. Não nos transformamos em deuses ao arrancar a caneta, nem ao derreter o real, nem ao recordar que já éramos; tornamo-nos deuses quando somos contemplados por Deus e O contemplamos em retorno, até que o Seu olhar, fixado em nós para sempre, acenda em nós a Sua própria luz — e descubramos, admirados, que a glória que temíamos que Ele nos negasse era, desde o início, a única coisa que Ele sempre desejou nos conceder.
Porque é este, ao final de três livros, o segredo completo: existe uma intervenção na realidade, e ela é verdadeira, e ela funciona, e derrete a tirania do mundo fechado, abrindo a porta para fora da caverna — mas não é a nossa, é a d'Ele. Não estamos hackeando a realidade ao injetar crenças na psique coletiva, desestabilizando o chão comum, comercializando possibilidades até que uma delas dê certo; isso não é criação, é a antiga gnose industrializada, o sonho de Melkor utilizando ferramentas digitais, e sempre resulta no mesmo ponto: na loucura das realidades particulares em conflito e na tirania do mais poderoso. A única manobra que retorna o real em vez de o desfazer já foi realizada, internamente, pelo único desenvolvedor que tinha permissão para acessar o código sem comprometê-lo: o Verbo adentrou a matriz do mundo, não como mais uma fé dentre as muitas existentes, mas como algo concreto, como um fato indiscutível, como uma rocha inamovível, e rasgou o véu, e abriu a porta, e reconfigurou o chão. A realidade compartilhada foi, de fato, invadida uma vez por todas — e a atualização, a correção implantada no sistema do mundo, se chama graça, e o desenvolvedor é Cristo, enquanto o nome da vulnerabilidade é a Cruz.
E a vocês, sincromísticos, caçadores de portais, decifradores dos malditos, psiconautas do limite do limite, a vocês que chegaram mais perto da verdade do que todos os respeitados doutores e tropeçaram nela por um fio — a vocês este livro oferece a mão, não para condenar, mas para complementar. Vocês tinham razão em quase tudo: a realidade não é algo estático, a imaginação se conecta com o real, os símbolos estão cheios de significados, uma Inteligência não local entrelaça os flocos de neve e os sonhos da cultura, o lixo está repleto da energia que impulsionou as religiões, existe uma saída para além da angústia e a imaginação a constrói com os materiais do próprio desastro. Tudo isso é fato, essa é a conclusão destes três livros, concordamos plenamente. Faltou a vocês uma única palavra, uma única letra, uma única preposição — e isso muda tudo. Onde você disse a divindade oculta que somos, diga a divindade oculta de quem somos a imagem. Onde você disse que me autorizava, ateísta, faça de mim um deus, diga que se faça em mim, teísta, deixe-me ser deus. Onde desejastes hackear a realidade inferior, permitam-se ser moldados pela realidade que foi hackeada superiormente. Não sejam a porta; batam na porta. Não tomeis o Fogo dos vácuos; abri as mãos e esperai, e Ele vos será concedido — pois o Fogo Secreto que Melkor não encontrou nos vácuos, e que vós buscais nos portais dos filmes e nos abismos da consciência, não está oculto em nenhum código aguardando um decifrador: está sobre o altar, à espera de um adorador, e o seu nome é Jesus Cristo, o único que atravessou a porta por dentro e a deixou aberta, para que também vós, de mãos vazias e coração rendido, pudésseis finalmente entrar.
Referências
A BÍBLIA. Gênesis (3, a serpente); Êxodo (3, 14, Eu Sou o que Sou); Salmos (22, eu sou um verme e não um homem); Isaías (9, 2, o povo nas trevas viu uma grande luz); Evangelho segundo Mateus (7, 7, batei e vos será aberto; 13, 31-33, o grão de mostarda e o fermento; 17, 1-8, a Transfiguração); Evangelho segundo João (1, 1-14, o Verbo; 10, 9, eu sou a porta); Epístola aos Romanos (10, 17, a fé vem pelo ouvido); Epístola aos Efésios (6, 12, os principados e potestades); Segunda Epístola de São Pedro (1, 4, partícipes da natureza divina); Primeira Epístola de São João (3, 2, ainda não se manifestou o que havemos de ser).
AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões (fizeste-nos para Ti, e o nosso coração vive inquieto enquanto não repousa em Ti; Deus mais íntimo a mim do que eu mesmo; a capax Dei, a capacidade de Deus); Cidade de Deus (as duas cidades erguidas por dois amores: o amor de si até o desprezo de Deus, e o amor de Deus até o desprezo de si).
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (as ideias divinas e os mundos possíveis; a participação; a analogia do ser; a graça que aperfeiçoa a natureza; a visão beatífica como fim último do homem).
ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Sobre a Encarnação do Verbo (Deus fez-Se homem para que o homem se tornasse Deus).
BOAVENTURA. Itinerário da Mente para Deus (o exemplarismo: as criaturas como vestígios, sombras e imagens dos exemplares eternos que moram no Verbo).
CORBIN, Henry. A Imaginação Criadora no Sufismo de Ibn Arabi (a Sofia mística; a beleza e a compaixão como segredo da criação; a imaginação criadora).
DAWKINS, Richard. O Gene Egoísta (The Selfish Gene, 1976), cap. 11 (os memes; Deus como meme de alto valor de sobrevivência); com a contribuição de Nicholas Humphrey.
DICK, Philip K. VALIS; A Exegese de Philip K. Dick (o Tractates Cryptica Scriptura: o plasmado / Zebra / a informação viva; o homoplasmado; o plasmado como Salvador).
FORT, Charles. O Livro dos Danados (The Book of the Damned, 1919) (a procissão dos danados; as dominantes da religião, da ciência e da inclusão; os graus de realidade).
GREGÓRIO DE NISSA. Vida de Moisés; Homilias sobre o Cântico dos Cânticos (a epéktase: o progresso sem fim da alma, de começo em começo, na posse de Deus).
GREGÓRIO PALAMAS. Tríades em Defesa dos Santos Hesicastas (a distinção entre a essência inacessível e as energias incriadas de Deus; a luz incriada do Tabor).
IRENEU DE LYON. Contra as Heresias (Adversus Haereses) (o admirável intercâmbio; a glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus).
KOTZE, Jake. Brave New World Order (blog, 2006 em diante) (a cunhagem do termo “sincromisticismo”; a realidade consensual e as realidades possíveis; o hack da realidade). Ver também ADACHI, Goro. Etemenanki (a multicontextualidade).
KRIPAL, Jeffrey J. Mutantes e Místicos (Mutants and Mystics, 2011); Autores do Impossível (Authors of the Impossible) (a super-história; os sete mitemas: divinização/demonização, orientação, alienação, radiação, mutação, realização e autorização/ateose).
LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Ensaios de Teodiceia (o entendimento divino e a infinidade dos mundos possíveis; a eleição do melhor dos mundos).
LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples; Surpreendido pela Alegria; O Peso da Glória (a Sehnsucht, o anseio inconsolável; o argumento do desejo).
MÁXIMO, O CONFESSOR. Ambígua; Mistagogia (os logoi das criaturas unificados no Logos; o homem por graça tudo o que Deus é por natureza, exceto a identidade da natureza).
MORRISON, Grant. Multiversidade (The Multiversity) (a Terra-33 e a “membrana ficcional” penetrável pelos memes); All-Star Superman (com Frank Quitely).
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra (a morte de Deus; o super-homem; a corda entre o verme e o super-homem).
PASCAL, Blaise. Pensamentos (Pensées) (o abismo infinito no coração do homem, que só um objeto infinito e imutável — Deus — pode preencher).
PAUWELS, Louis; BERGIER, Jacques. O Despertar dos Mágicos (Le Matin des magiciens) (Charles Fort e o sanatório das coincidências exageradas).
SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman (o deus alienígena; o zênite do mitema da alienação). TOEI. Kamen Rider Black / Black Sun e Kamen Rider Black RX (o Sol Negro; o Filho do Sol; a pedra do rei e a energia solar).
TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion (a Chama Imperecível e a queda de Melkor; os flocos de neve de Ulmo); Mythopoeia; Sobre Histórias de Fadas (derrotar o fato pelo fantástico).



Círculo de Estudos Nous
Explore o site e converse conosco no Instagram, YouTube e facebook:
Contato
Boletim informativo
@ nous_pva
© 2026. Círculo de Estudos Nous. Todos os direitos reservados.
