O Hexagrama da Perdição: Tratado jocoso-escrachado
Olha só, pessoal, vamos falar um pouco sobre essa nossa mania nacional de encontrar Deus até na fila do pão. É engraçado como a gente se acha tão elevado, mas, ao mesmo tempo, é nesse mesmo lugar que a gente pode plantar uma sementinha do mal bem ali no fundo da alma, quando o ego começa a crescer, digamos, de forma torta. Esse texto que estou trazendo aqui nasceu de uma certa indignação. É a nossa relação com a espiritualidade e com o próprio ego que muitas vezes se mistura, e o resultado não é nada bonito. Vamos refletir sobre isso juntos! E não se trata de uma raivinha de trânsito, daquelas que você acaba xingando o retrovisor e esquecendo no semáforo. É uma indignação teológica, com raízes profundas, que se assemelha ao inferno — a indignação de quem passou a vida toda observando o mesmo idiota mudar de máscara a cada dez anos e afirmar, com arrogância, que descobriu a pólvora. Eu certamente vou me divertir bastante nas próximas páginas. Vou tirar sarro, vou exagerar, vou xingar, e já aviso de cara, sem me desculpar: vai ter palavrão, vai ter deboche escandaloso, vai ter pancada. Meu desejo é que você ria alto como um tolo no ônibus e, no próximo parágrafo, fique bastante irritado — de preferência porque se viu retratado. Isso é intencional. Sátira que apenas alivia é anestesia, e eu não estou aqui para aplicar pomada em ninguém; eu estou aqui para realizar uma operação, e fazer isso sem anestesia, pois a anestesia, neste contexto, é na verdade o veneno. Estou me referindo a tipos, nunca a indivíduos. Se o retrato atingir bem o centro da sua testa, o problema é entre você e o espelho — queixe-se a ele, não a mim.
Gabriel G. Oliveira
10/14/2026159 min ler


O motor de todo mal
Era uma vez um homem que, ao acordar em um dia ensolarado, se espreguiçou, bocejou e, sem comunicar a ninguém, decidiu que era Deus. Não é o Deus com D maiúsculo, aquele que sustenta a existência das coisas para que o universo não ruína como um castelo de cartas — não, é um deuzinho de bolso, portátil, recarregável, alimentado por pilhas de ego, deus da fila do pão, imperador supremo de um reino que conta exatamente com um habitante, que é ele mesmo. Esse é o personagem central de todo este livro, e eu vou atrás desse cretino em todas as situações que ele aparecer, seja nas festas, na universidade, nos flertes ou até no púlpito. A falha dele possui um nome, e esse nome é arrogância. Eu costumo chamar essa calamidade de o motor de todo o mal, o maior dos pecados luciferianos — e não é apenas uma figura de linguagem, não: todo pecado possui um leve traço de Lúcifer, mas apenas a prepotência é Lúcifer por completo, de corpo e alma, pois é o "non serviam", o "eu não sirvo", a criatura minúscula cruzando os bracinhos e dizendo ao Criador que não vai obedecer. Memorize esse cara. Ele vai se apresentar disfarçado o tempo todo, e a minha missão é tirar a máscara e revelar o mesmo canalha que está por trás de todas elas.
Eu sou uma pessoa que conquista muitas pessoas. Estou solteiro, então chego, converso, me aproximo — e acabei me tornando, sem querer, um naturalista. Um naturalista da superioridade, semelhante àquele narrador da BBC que descreve um leão em busca de uma gazela, só que a minha savana se encontra no aplicativo de encontros e na mesa do bar. Há um aspecto nessa fauna que me provoca uma revolta intensa: a forma grotesca com que o ser humano se considera superior ao próximo apenas por ter sido selecionado. Preste atenção na mecânica, pois é complicada e desafiadora. Você se aproxima de alguém, de forma extremamente educada, apresentável, sem causar confusão, e diz: "acho você interessante". Claro! Como posso ajudar você hoje? Nesse ínfimo instante, na mente do indivíduo da quarta camada, não surge um "que gentil", não surge um "obrigado", não aparece nada de simpatia — surge um letreiro de neon, piscando em vermelho sangue: TENHO PODER SOBRE ESTE INFELIZ. E nessa cabecinha, o poder não deseja ser gerido. O poder busca sacrifícios.
Eu denomino isso de a inversão dos polos no flerte, e rio porque é tão verdadeiro que não pode ser apenas uma piada. Na gramática do desejo, quem se aproxima e se declara está na posição passiva — ele se coloca à disposição, se revela, abaixa a proteção como um boxeador ingênuo. A pessoa que recebe e tem a capacidade de decidir, dizendo sim ou não, está no polo ativo e tem o poder de tomar a decisão. Até aí, tudo certo, é o mesmo de sempre, é a vida. O que acontece é que o arrogante utiliza esse martelinho que lhe caiu nas mãos de maneira inadequada. Ao invés de usar o martelo com a seriedade de um juiz — "aceito" ou "não, obrigado, próximo" —, ele o emprega para machucar o dedo do outro por brincadeira. É o garotinho que, por acaso, conseguiu a chave do castelo, e a primeira coisa que ele faz é ordenar a decapitação do mordomo para checar se a guilhotina está funcionando. Há uma diferença colossal entre "não, obrigado" e "veja que patético, deixa eu pisar nesse verme", e os tempos atuais produzem a segunda resposta em larga escala, com selo de qualidade e tudo.
E agora chega a parte mais engraçada: essas mesmas pessoas me questionam, com a maior cara de pau, com os olhos bem abertos, por que a nossa geração está tão sem namorado. Caramba, que enigma, não é mesmo? Que mistério profundo da esfinge! Apenas refletindo, será que isso acontece porque cada um fez de seu próprio umbigo um altar e espera que o outro se curve e acenda uma vela antes mesmo de cumprimentá-lo com um bom dia? A epidemia de solidão da minha geração não surgiu do nada, não é um fenômeno climático, não foi causada pelo aquecimento global — é a consequência, com juros exorbitantes, de uma cultura em que todos buscam se destacar em relação aos outros e ninguém consegue mais dizer um "não" de maneira elegante. Olha, não estou pedindo para que alguém aceite outra pessoa por compaixão — isso seria uma nova forma de tirania, a tirania do coitadismo emocional, e eu realmente não suporto tirania, com a imparcialidade de um juiz suíço. Estou apenas destacando a diferença entre recusar e se aventurar. Rejeitar é atitude de pessoa madura. Pisotear é coisa de criança que percebeu que o novo brinquedo é a autoestima dos outros e está se divertindo ao ouvir o som que faz quando se quebra.
E o mais ridículo de tudo — o pormenor que, pela sua absurdidade, chega a ser engraçado — é que essa arrogância toda não demonstra força alguma. É uma necessidade afetiva. Apenas uma carência invertida, de forma oposta. A carência não está em quem chegou e falou "gostei de você"; está em quem precisou despedaçar um desconhecido para se sentir humano por cinco minutos. E aí reside a comédia perfeita da nossa época: a pessoa te classifica como carente justamente no momento em que ela pratica o ato mais carente que existe, que é humilhar um desconhecido para abastecer seu próprio tanque furado de autoestima. Afirmar "gostei" e continuar a vida é exatamente o oposto de carência — é um desejo saudável, é uma das coisas mais saudáveis e mais humanas que existem. A quarta camada realiza o truque de transformar a saúde em doença, pegar uma pessoa mentalmente saudável e classificá-la como desesperada. É o sanatório indicando com o dedo quem passa pela calçada do lado de fora e gritando "vejam o doido!".
Com muito orgulho, eu aprendi a identificar esse tipo a distâncias longínquas, e minha conclusão é bem clara: se ele te tratar como um capacho? Desabilita. Não se trata de rancor, mas de higiene — assim como você descarta um pano de prato que ficou com mau cheiro. Tem pessoas que, após levar um fora repleto de desdém, com direito a risadinha, ainda desejam voltar e insistir. A isso eu afirmo a verdade que nenhum podcast de motivação com trilha sonora épica revelará: se você retorna para quem te humilhou, meu amigo, você não está solicitando uma segunda chance no amor, você está se inscrevendo, com currículo em mãos e gravata, para a posição de plano C. O step. O nível. A reserva do time que só é acionada caso os onze jogadores titulares, o goleiro e o massagista falecam. A aritmética afetiva é implacável e direta: se essa pessoa tivesse qualquer outra alternativa, mesmo a do ex que não era bom, ela optaria por essa alternativa antes de escolhê-lo. Você não foi a escolha preferida; você foi o que ficou na prateleira após o término da promoção, quando levaram tudo que era realmente bom. E, para evitar lamentações quanto a gênero depois, isso se aplica aos dois lados, sem exceções: há a mulher que é o plano C de um homem e o homem que é o plano C de uma mulher, pois a posição de degrau é como um concurso público, com candidatos dos dois sexos. A maior tolice que você comete na sala de espera é misturar a espera com o casamento.
Já conversei com um amigo meu que estava se deixando levar por uma ilusão, e fui direto ao ponto, com a delicadeza de quem toca em uma ferida para drenar o pus: "amigo, pelo jeito que essa pessoa é, ela só está com você porque não tem opções melhores; se ela estivesse livre e desimpedida, ficaria com qualquer um antes de você, até mesmo com um poste". O rapaz ficou extremamente irritado, é claro, pois a verdade atinge como estilhaços de granada. Mas respirou fundo, desacelerou e revelou: "o pior é que estou sentindo a mesma coisa". Pronto. Naquele momento, a fúria se transformou em sabedoria. Por que um amigo que observa o outro caminhando de olhos fechados em direção a um buraco não grita "CUIDADO COM O BURACO, SEU IDIOTA!"? não é um amigo — é um cúmplice bem-educado, é aquele que registra a tragédia em vez de tentar evitar.
Do flerte, avançamos imediatamente para a cena mais impactante de todas, que é o que ocorre quando alguém solicita ajuda. Você está passando por um momento turbulento, com tudo à sua volta desmoronando, e busca por alguém que já enfrentou essa mesma tempestade. A pessoa, repleta de cicatrizes de ter se queimado por completo, te observa com carinho e fala: "não faça isso, eu já passei por isso, tive grandes problemas, não quero que você viva o que eu vivi". E o que o arrogante faz com esse dom divino? Atira de volta com uma acusação estampada na testa: "você é um hipócrita". Por que você é hipócrita, criatura?! Por que passou por dificuldades e agora aconselha os outros a não passarem pelo mesmo? É como se a experiência fosse vista como uma contradição, como se a pessoa que já levou um soco e te avisa "cuidado com o soco" fosse desconsiderada como mentirosa. Hipócrita de verdade é aquele que proclama virtude no palco, mas age de maneira lasciva nos bastidores. De forma alguma, essa não é a testemunha que escapou, retornou das profundezas e ainda demonstra a generosidade de te oferecer ajuda na saída.
E aqui eu te presenteio com uma regra que se aplica ao livro todo, e digo apenas uma vez para você guardar: a acusação, na fala do arrogante, é uma confissão com o sentido invertido. Aquele que se considera superior te rotula como arrogante. O hipócrita te rotula como hipócrita. O manipulador afirma com toda certeza que quem está manipulando é você. Por qual motivo? Encarar os próprios defeitos é realmente doloroso e trabalhoso, enquanto atribuir esses defeitos a outra pessoa é mais fácil e proporciona uma certa sensação de superioridade. Ele enxerga, em você, a sujeira que traz calçada no seu sapato e aponta para o seu pé. Quando o arrogante lanças ofensas em alto e bom som, ele está, sem se dar conta, declamando a própria certidão de nascimento. Decore esta frase: sempre que alguém arrogante te apontar um defeito, parabéns, você acaba de receber um raio-x gratuito da alma dessa pessoa. Com raio-X, não há discussão; apenas observamos, diagnosticamos o tumor e seguimos em frente.
Mas por que, afinal, o arrogante sente a necessidade de desmerecer os conselhos de quem já percorreu essa trajetória? Aceitar o conselho implicaria reconhecer que existe alguém no mundo que possui mais conhecimento sobre sua própria vida do que ele — e essa constatação, para um ego exagerado, é mais dolorosa do que receber um chute na parte íntima. O conselho não se apresenta como uma forma de auxílio; aparece, na verdade, como uma invasão de território, como um exército estrangeiro atravessando a fronteira. "Como pode esse súdito insignificante me dizer o que fazer dentro do MEU reino?" E o reino, como você se lembra, possui apenas um habitante, todo marronzinho, com um fosso e um crocodilo, onde ele exerce as funções de rei, povo, exército e até mesmo bobo da corte. Qualquer notícia que venha de fora dos muros é considerada um espião a ser enforcado na praça. É por isso que o arrogante se isola — e não é por poder, mas por uma fragilidade extrema. Um castelo autêntico, construído em pedra, abre o portão para que o mensageiro possa entrar, pois não teme nenhuma notícia. Apenas o castelo de papelão, típico de uma maquete de feira de ciências, guarda tudo com muito cuidado, receoso de que o sopro de uma simples fofoca faça desmoronar toda a estrutura.
E agora se prepare, pois chegou o momento de eu elaborar a base que sustenta todo o livro, e eu faço isso de uma só vez, de forma completa, para que nunca mais precise refazer. Eu me refiro a isso como o hexagrama da desgraça. Esse formato de construção eu devo ao professor Olavo de Carvalho, de quem fui aluno por dez anos, combinado com a minha leitura cristã e minha forma de pensar simbólica — ou seja, é uma obra em cocriação, é liberdade de crença, e não um dogma da Santa Igreja, que nunca na vida expressou essa loucura da maneira que vou expressar. Dito isso, vamos ao desenho. O hexagrama possui três falhas nas extremidades e um buraco negro aberto no centro, semelhante àquele ralo de pia que absorve tudo. Nas extremidades: a soberania, a obstinação e a falta de conhecimento. E eu conecto cada uma, de uma forma divertida e ao mesmo tempo séria, a uma imagem. Eu relaciono a prepotência com Lúcifer, o chefe do inferno, pois é o pecado do "eu não sirvo", o anjo mais bonito da criação que escolheu ser gerente na cracolândia a ser empregado no céu. A teimosia eu relaciono àquela insistência de uma mula que se recusa a andar, que a tradição associa a Astaroth e a Lilith — a entidade que nunca se rende, que prefere se destruir junto com tudo a ceder um milímetro. E a preguiça eu relaciono a Belzebu, mas não se trata da preguiça prazerosa de um domingo relaxando no sofá, e sim da acídia, essa preguiça que afeta a alma, o verdadeiro peso de ter que fazer o esforço de buscar a verdade, de ler aquele livro complicado, de enfrentar a subida íngreme. E no centro, rodando no ralo, o buraco negro, que eu associei ao demônio que a galera do esoterismo chama de Choronzon, o dissolvedor — o sujeito que enche sua cabeça de um monte de dúvidas e de ruídos para te desorientar, e que eu vejo, nessa minha interpretação mística, talvez como o pior logo após o chefe, porque o Lúcifer te joga ladeira abaixo pela soberba, mas o Choronzon te derrete, te dissolve, te transforma em sopa.
A dinâmica da desgraça é a seguinte, e preste atenção porque é o que impulsiona tudo. A arrogância acende o fósforo. A persistência não permite que se apague. A preguiça impede você de se mover e procurar uma solução. O buraco central vai se desmanchando — primeiro relativiza, depois traz para a subjetividade — as três coisas que a tradição identifica como os adversários da alma: o diabo, o mundo e a carne. Inicialmente, a pessoa faz uma relativização, e isso soa até como algo agradavelmente leve, como uma tolerância que se vê em propagandas de margarina: "ah, cada um possui a sua verdade". Após esse processo de subjetivação, já era, pois já se ultrapassou o horizonte de eventos do buraco negro: "a verdade é aquilo que EU decidir que seja". E nesse momento, a pessoa passa pelo que eu denomino, numa alusão à física, de espaguetificação da alma — é esticada como um chiclete, desfeita, desmantelada, até se transformar em uma energia desorganizada no fundo do ralo, um local onde tudo é opinião, incluindo a lei da gravidade, o que é certo e o que é errado, até o traseiro do Batman, do qual falaremos em breve. É um movimento de descida aos infernos, de catábase, e o mais traiçoeiro é que, internamente, isso se assemelha a uma subida. O sujeito acredita que está se desenvolvendo, que despertou, que engoliu a pílula vermelha — exatamente enquanto cai de cabeça para baixo. O relativismo se apresenta como "mente aberta", o subjetivismo é comercializado como "liberdade" e a autodivinização é promovida como "autoconhecimento". A descida total veste a roupa da ascensão, e é por isso que engana tanta gente honesta, que acredita estar no auge do Everest enquanto, na verdade, está afundando no fundo do poço. Armazena esse mapa no capacete, pois a partir de agora tudo que eu descrever será apenas sobre a geografia local: cada figura que eu descrever está parada em algum lugar dessa órbita de decadência, vestindo roupas distintas, mas com o mesmo buraco no meio.
Antes de abordar os outros disfarces, gostaria de criticar uma corrente espiritual que fomenta justamente o tipo inadequado de reação a tudo isso. Todo mundo anda dizendo que é preciso eliminar o ego, exterminá-lo, desfazê-lo, como se o ego fosse uma verruga incômoda. Essa conversa tem uma essência budista, e eu tenho respeito pelo budismo, mas vou ser direto sobre o que ele representa, com todas as implicações: é uma religião de desapego. A ideia é você se dissolver, desaparecer, se misturar como o Sonrisal na água, para atingir o nirvana, a eliminação do desejo e, no fundo, a extinção do próprio eu. Os santos budistas eram verdadeiros mestres nesse aspecto, demonstrando coerência, pois aqueles que desejam se desprender para alcançar a transcendência encontram no esvaziamento a via mais lógica. Beleza para eles. A questão está no ocidental cabeça-dura que toma esse conselho sem considerar o contexto integral da religião que o originou e, de forma simplista, expurga o próprio ego. Esse não se torna iluminado, meu amigo — esse se transforma em capacho. Transforma-se em tapete. Transforme-se na pessoa que todos pisam, e ainda assim se mostra grato. Porque o ego, mesmo que a palavra possa soar negativa, é a parte da sua mente que te motiva a viver, a se levantar, a lutar, a discernir o certo do errado e a entender sua posição no mundo. Arranque isso, e eles pisam em você, cospem em você, e até a habilidade de distinguir o certo do errado se transforma em uma névoa. O cristianismo, nesse aspecto, ignora o budismo: enquanto o budismo propõe a morte do ego, o cristianismo sugere que se faça uma calibração do ego, permitindo ter o suficiente para não sucumbir, evitando assim uma depressão de dissolução. Não é por acaso que o catolicismo possui santos guerreiros, santos que cortam cabeças no campo das ideias, santos protestantes e debatedores ardorosos, enquanto o outro modelo apresenta o santo que se silencia. Eu não hesito nem por um instante e fico com o segundo time. Eu prefiro o santo que age e enfrenta as dificuldades ao santo que apenas desaparece.
Pois a prepotência, fique atento, não é um ego saudável em excesso. É um ego problemático, e de uma forma peculiar e engraçada: desproporcional, como gordura acumulada em lugares inadequados. Veja o arrogante deprimido, que é o tipo mais frequente nos dias de hoje. O sujeito possui um ego extremamente elevado e, ao mesmo tempo, um ego muito rebaixado, porém, essas características estão invertidas, como uma tomada mal conectada. Para aquilo que ele DEVERIA ter autoestima — a habilidade de criar, de amar, de evoluir, de fazer algo significativo na vida — o combustível está no fim, quase na reserva, e ele acredita que não vale nada, que é um lixo, que o mundo é péssimo, e se afunda em uma depressão que às vezes nem tem justificativa, pois a vida do infeliz até que é razoável. Mas para aquilo que ele NÃO deveria ter nenhuma superioridade — a alegada vantagem sobre o infeliz que o desejou — nessa questão a reserva é infinita, é um poço de petróleo árabe. O homem chega em casa e derrama lágrimas no travesseiro, pois se vê como alguém insignificante, um zero à esquerda. Então alguém bate à porta e afirma: "eu gosto de você", e num piscar de olhos, o vazio se transforma em Sua Majestade Imperial: "agora posso me elevar sobre esse insignificante". O ego que não se mexe nem para escovar os dentes, se levanta imediatamente para menosprezar. Falta humildade onde deveria haver orgulho; falta amor-próprio onde deveria haver coragem. É uma brincadeira de tão simétrico no inverso.
Ao solucionar o ego, desvenda-se o mistério da atração, algo que quase todos acabam errando gravemente. O que realmente atrai, no íntimo, não é o corpo, não é o rosto bonito, não é a aparência — é o poder. Trata-se da potência que é percebida. E o exemplo ideal disso é o indivíduo extremamente popular. Esse indivíduo pode conquistar praticamente tudo o que desejar no amor, e isso não se deve a uma súbita melhoria na sua genética. Realize o experimento mental: pegue o mesmo rosto, o mesmo corpo, e coloque essa pessoa em um trabalho de office-boy em uma cidade pequena, sem seguidores, sem destaque, anônima — e, de repente, o mesmo indivíduo "não consegue nada", murcha como planta sem água. O que houve de diferente? Não se tratou de um fio de cabelo. Foi a quantidade de energia que gira ao redor dele. A busca pelo poder foi incessante, semelhante a um cachorro correndo atrás de um osso, desconsiderando a carne que permanecia inalterada. E o poder não precisa necessariamente ser dinheiro ou notoriedade: pode ser habilidade, firmeza de crença, carisma, ou a capacidade de realmente fazer as coisas acontecerem no mundo.
Agora coloque as redes sociais nessa mistura, e a maneira de avaliar as pessoas estoura como panela de pressão sem válvula. A garota que foi vista a vida inteira como uma princesa, que o papai, a mamãe e o Instagram inteiro diziam que ela era maravilhosa, começa a pensar que um rapaz nota sete não é bom o bastante para ela — mesmo que, segundo os próprios padrões dela, ela se considere uma nota quatro e meia em um dia de boa iluminação. Por qual motivo? Porque a régua foi ajustada de acordo com a vitrine interminável da internet, onde se exibem os 0,1% mais bonitos e mais ricos do mundo, ainda com filtros. É uma inflação afetiva genuína: foram impressas princesas demais, e cada princesa vale cada vez menos, assim como o dinheiro em casos de hiperinflação, onde você precisa de um carrinho de mão cheio de notas para comprar um pão. E o rapaz que recebeu a nota sete, que na verdade é muito mais do que ela realmente merecia de acordo com seus próprios critérios, acaba sendo tratado como um lixo, porque a mentalidade dela está fixada em um ideal de beleza grego que só existe nas redes sociais. E, para ser justo, porque eu não deixo de lado ninguém: o homem comete erros pelo lado oposto, é mais prático e toma decisões mais rápidas com base na aparência, no corpo e na feminilidade. Porém, curiosamente, o homem respeita muito mais a mulher que recusa com elegância do que a que responde com grosseria. A recusa cheia de dignidade eleva o valor dela aos olhos dele; o tumulto acaba com tudo. Ou seja, até mesmo na economia pura do desejo masculino, agir com arrogância é um péssimo negócio.
Como posso identificar um prepotente antes de desperdiçar meu valioso tempo com essa pessoa? Eu possuo uma abordagem que surge a partir de uma dificuldade minha que aprendi a transformar em algo positivo: sou disléxico, reconhecido e em tratamento desde a infância. No celular, com aqueles botõezinhos pequenos, eu realmente não consigo me adaptar — pressiono três teclas ao mesmo tempo, como se fosse uma letra, aparece um "tamém" sem o "b", surge uma palavra estranha, e na metade das vezes eu nem percebo, envio assim mesmo. Pois eu aproveitei o acidente e transformei em uma arma. Eu deixo o erro surgir propositalmente no flerte, escrevo de forma torta intencionalmente, e fico observando como um cientista lunático. Porque o pequeno erro de português é a isca ideal para atrair o ego do outro. O indivíduo da quarta camada não consegue se segurar: percebe um pequeno erro e imediatamente se permite te menosprezar, "veja, um analfabeto, que nojo". A pessoa mais egocêntrica pode até fazer cara de desdém se você usar uma gíria, chamá-lo de "mano" ou "véi" — e a primeira coisa que surge na cabeça dele ao ouvir isso não é nem a raiva, mas sim a tentação irresistível de menosprezar. É um reagente químico, semelhante àquele teste de gravidez: eu coloco a gota do erro e fico de olho na cor que a solução adquire. Comportamento ético? Nem se dá conta, ou corrige, rindo. Quarta camada? Aumenta rapidamente, se torna volumoso como um sapo. Há também a outra face do teste, igualmente reveladora: quando alguém flerta e a pessoa não está interessada, a pessoa de boa índole diz "não estou em um momento, obrigada" e segue a vida tranquilamente; já a pessoa de quarta camada não consegue recusar sem transformar o "não" em um espetáculo pirotécnico de superioridade, com direito a desprezo e capa de revista. Entre a recusa e o ato de avançar, revela-se o retrato fiel do caráter, e essa análise, meu amigo, raramente apresenta resultados enganosos.
Essa análise do caráter se choca com um princípio que todos já ouviram, mas que muitos nunca leram com cautela: amar o próximo como a si mesmo. Atualmente, as pessoas se observam com inúmeros preconceitos prontos para serem usados, condenando o desconhecido antes mesmo de ele falar, e ainda se referem a esse julgamento instantâneo como "leitura de pessoas", "faro" ou "percepção aguçada". Que percepção afiada que nada, meu caro — é preguiça disfarçada de inteligência, é indolência mental com selo de sabedoria. Porque compreender um ser humano de verdade é um processo demorado e pode ser humilhante para o ego: é preciso, no mínimo, três semanas para captar dois por cento de como a mente de uma pessoa opera. Dois por cento. Fazendo uma conta básica: se 2% representam três semanas, então 100% levariam quase trinta anos de convivência sem descanso. Trinta anos! E o arrogante acredita que conseguiu isso em dois dias de conversa no aplicativo, ou ainda pior, em apenas três segundos de um olhar desdenhoso no espelho do elevador. Qualquer coisa que te proporciona cem por cento de certeza em três segundos não é conhecimento, mas sim uma invenção, é uma fanfic, é o Batman do Adam West que eu já vou te apresentar. O universo interno de um indivíduo é incomensuravelmente mais vasto do que imagina a superficial filosofia de quem folheou apenas seis livros de autoajuda em uma banca de jornal. A quarta camada projeta no outro seu próprio pesadelo, enxerga em todos uma réplica da réplica da réplica que ela mesma é, e chega à conclusão de que todos são igualmente cópias — pois admitir que o outro seja original exigiria o esforço que a preguiça se nega a investir, que é o de realmente conhecer o indivíduo. Já vi tesouros serem enterrados nessa correria: aparecia uma moça deslumbrante, devota, astuta e de boa índole, e o rapaz, em questão de dois dias e com um "pai rico, pai pobre" sob o braço, já possuía um laudo psiquiátrico completo de toda a sua existência. Dois dias! Quantos amores possíveis deixaram de existir afogados no tribunal da preguiça onde se encontra Sherlock Holmes?
Então eu começo no coaching, e entro com um certo desgosto, o desgosto que a situação merece, pois é essa maldição que produz a preguiça em grande escala, com uma linha de montagem e tudo mais. Estamos vivendo o auge do neocoaching, um híbrido entre uma psicologia superficial e uma filosofia simplista, que se uniram em uma situação improvável e deram origem a essa peculiaridade. É uma mistura de psicologia superficial, escrita de baixa qualidade, rápida e pronta para causar dependência, assim como um petisco, sem qualquer comprovação científica ou validação. O indivíduo, sem rodeios, extrai de sua própria retaguarda aquelas "psicologias". Ele não busca informações, não se dedica aos estudos, nem coloca suas ideias à prova — simplesmente cria uma teoria e a apresenta como se fosse uma verdade absoluta, como se tivesse sido revelada do alto. E o veneno é esse: exatamente porque retirou o negócio de dentro de si mesmo, ele crê, com uma fé inabalável, que isso é o ápice da realidade, a solução para todas as questões do universo. E quem costuma disseminar essa ideia geralmente é um jovem de classe média alta com a mente repleta de preconceitos — e eu uso o termo classe média alta intencionalmente, sem nenhuma intenção de elitismo: o verdadeiro rico, o alto padrão, tende a ser firme, moral e até católico até a raiz dos cabelos, não busca caminhos fáceis; o coach que opta por atalhos vem desse grupo ansioso que possui dinheiro suficiente para se sentir superior, mas não tem tranquilidade para se acomodar. O dano é em dobro: a pessoa infeliz confia na própria visão distorcida e ainda propaga essa crença para um grupo de inocentes que fará do livrinho o guia para toda a sua vida. O coachzinho pode até afirmar "não leve isso tão a sério, viu?" — mas se o leitor não for muito esperto, e a maioria não é, ele vai fixar essa ideia de forma bem intensa e até pode "tatuar" isso na mente.
A modalidade que mais me causa desconforto é o pseudo-estoicismo. O estoicismo é algo de grande importância, meu amigo, uma ética clara e objetiva, uma filosofia completa construída sobre uma visão de mundo consistente. O pseudo-estoico moderno pega isso, relativiza e subjetiviza, mistura tudo e cria uma ética maquiavélica — totalmente subjetiva, mas disfarçada com uma pitada de estoicismo para parecer antiga e sábia, como um móvel de MDF com adesivo de madeira nobre. Quase todos os coaches modernos caem nessa armadilha atualmente, e o mais preocupante é que muitos acreditam realmente que o estoicismo se resume à imagem distorcida de "ignore suas emoções, seja indiferente como uma geladeira e transforme-se em um psicopata funcional". Não é, caramba. Assisti a um vídeo excelente do Guilherme Freire desmontando essa farsa — e, vamos combinar, aplausos em pé para o Guilherme Freire, que, por sinal, já foi meu professor há algum tempo, em 2017, quando decidi aprender um pouco sobre gnosticismo. A autoajuda brasileira é uma completa decepção, com um M maiúsculo e um acento circunflexo. Eu, que aceito esses livrinhos com toda a educação, pois nunca julgo a pessoa que os oferece — sobretudo no Círculo de Estudos, onde não fazemos julgamentos de ninguém por nada, estamos ali para evoluir —, por dentro, recordo do meu tio, que aprecia essas bobagens, e a quem já pedi, de joelhos: "deixe disso, homem de Deus, e vá ler algo que tenha substância, que tenha conteúdo". É por causa do excessivo consumo de plástico colorido do espírito que, de vez em quando, o coitado acaba tomando decisões superficiais, decisões um tanto quanto bobas na vida. A alimentação intelectual determina a saúde das decisões, e quem se alimenta apenas de superficialidades não deve se surpreender quando a alma enfrenta um colapso no meio da rua.
E o ponto que eu sugiro possui um significado, e envolve a economia, que, na minha visão, não se resume a uma planilha de Excel, mas é uma antropologia em prática, é a essência de um povo expressa na maneira como ele enfrenta a escassez de recursos financeiros. A autoajuda financeira é a mais popular entre as pragas: pega um "pai rico, pai pobre" com toda aquela conversa de "mente de escassez", mistura com um "como fazer amigos e influenciar pessoas", adiciona uns toques de Max Weber, Maquiavel e Adam Smith para dar um ar de erudição, e apresenta essa confusão como se fosse um conhecimento que vem de milênios. Eu aprecio bastante o trabalho de Weber, e por isso mesmo posso afirmar que alguns aspectos de sua obra são bem problemáticos: quando ele se dedica à sociologia da religião, aos tipos de dominação e à dinâmica do poder, seu trabalho é incrível e essencial, merece todo o reconhecimento; porém, ao abordar a moral católica, parece que ele teve uma crise e despejou suas ideias confusas em um livro em branco, vendendo a página desorganizada como se fosse uma grande revelação. É o mesmo autor atuando em duas facetas: o gênio e o covarde. E o leitor superficial acaba se contentando apenas com o medíocre, pois o medíocre é mais fácil de apreciar do que o gênio. Adam Smith extraiu muitas ideias de sua própria mente para elaborar a "Riqueza das Nações", obra que li diversas vezes na minha juventude. A partir do seu capitalismo, que é uma mistura de calvinismo e protestantismo, surgiu, devido a diversas interpretações equivocadas, o marxismo — que se origina, em grande parte, de uma interpretação distorcida de um capitalismo que Smith descreveu de forma incompleta, permitindo que Marx fertilizasse a semente errada.
Aqui deixo uma afirmação que é de minha autoria e que está aberta a debates: existem, pelo menos, dois tipos distintos de capitalismo que afetam a alma, e confundir esses dois provoca boa parte das besteiras que se comenta sobre economia, tanto em bares quanto nas universidades. De um lado, temos o capitalismo calvinista-protestante apresentado por Smith, que surge de uma teologia particular, a da predestinação, onde a prosperidade é vista como um sinal do amor divino, o trabalho é considerado uma vocação sagrada e a acumulação de bens é entendida como uma virtude. Por outro lado, o capitalismo da escola austríaca apresenta uma matriz cultural totalmente distinta, e seu equívoco se revela quando Mises o interpreta e universaliza, como se fosse O capitalismo, aplicável a todos os seres humanos que já viveram no planeta. Eu tenho algumas reservas em relação a certas ideias de Mises, mesmo tendo grande respeito por ele. Quando ele afirma que o cristianismo se assemelha a um tipo de socialismo, isso não faz sentido. O ser humano não consegue diferenciar socialismo de distributismo ou da autoassociação promovida pela Igreja. Ele realizou uma análise superficial das culturas e formulou um modelo de capitalismo que considera como se fosse a única possibilidade existente. O Rothbard, que eu admiro profundamente, fez um trabalho infinitamente superior: a análise que ele apresenta sobre o capital, o homem econômico e o Estado em "Homem, Economia e Estado" abrange o fenômeno de maneira completa, em todas as suas dimensões, sem a generalização apressada que limita o pensamento do Mises. E sob toda essa estrutura existe uma terceira matriz, que é a economia da Igreja — o distributismo, a propriedade com função social, a autoassociação —, que não se enquadra nem no acúmulo protestante nem na dissolução socialista, e da qual eu me vejo apenas como um aplicador do método, não como o proprietário da doutrina, que pertence a ela. A economia é a essência expressa em dinheiro; quem estuda economia sem compreender a essência que ela representa está analisando números sem considerar as pessoas — e é justamente isso que o coach financeiro superficial faz ao vender uma visão simplista de "mentalidade milionária", disfarçada de conselho sobre como enriquecer sem esforço.
Da economia, o fio se eleva para a genealogia filosófica da própria queda, que é a mesma catástrofe, o mesmo tombo, só que agora de uma civilização inteira escorregando na casca de banana por séculos. A discussão se inicia no momento em que Maquiavel desafia a noção de Deus de uma maneira filosófica: ele arranca Deus do céu pela gola e proclama que não há uma ética divina, afirmando que cabe ao homem criar sua própria ética, sem se importar com o restante. É o primeiro grande arroto na catedral, a primeira profanação. E o mais trágico e ao mesmo tempo cômico é que o próprio Maquiavel, ao final de sua vida, sente um arrependimento profundo, se refugia no mosteiro e busca se redimir — e eu torço, de coração, para que essa alma esteja no céu hoje, assim como torço por tantos filósofos que realmente se arrependeram, que Deus os proteja. No entanto, o dano já estava consumado, "O Príncipe" já havia escapado da garrafa, e a filosofia de boteco, na essência, é um verdadeiro maquiavelismo. Senta aí com o tiozão do boteco, compra uma cerveja pra ele, e ele começa a te contar "O Príncipe" todo sem nunca ter aberto o livro, acreditando de verdade em cada letra — o maior maquiavélico do hemisfério sul sem nem saber como se escreve Maquiavel. A influência de Maquiavel se estende até Descartes, que estabelece o eu como o juiz supremo da verdade. Para ser justo, ele apresentou um leve movimento de ascensão, um vestígio de Deus presente na sua estrutura; foi algo sutil, mas existiu, o homem não foi totalmente desonesto. A questão está nos herdeiros que apenas se apropriaram da parte que desce e descartaram o restante. De Descartes a Kant, que traz uma perspectiva subjetiva: na minha representação dele, não há ética divina, mas sim a ética social do Estado e a ética pessoal, que precisam se harmonizar com a do Estado para que você não cometa erros e acabe sendo punido. Em suma, a grande confusão presente na "Crítica da Razão Pura", na qual perdi horas que não poderei recuperar — e fiz isso intencionalmente, para poder comentar com propriedade e não apenas por ouvir dizer —, é uma mensagem clara de desprezo por Deus, com a razão se enclausurando em seu próprio espaço e descartando a possibilidade do transcendente. E de Kant chegamos ao pior de todos, Hegel, que pega as ideias de Kant e as transforma em um delírio completo: toda aquela conversa sobre forças, o poder que persiste se impondo ao outro, até nas pedras, de onde Marx depois extrai a noção da luta de classes. E eu anoto o que poucos têm coragem de afirmar: a filosofia de Hegel é, na verdade, uma abordagem hermética e extremamente esotérica. Há um hermetismo oculto em cada parágrafo daquele texto, e você não compreende Hegel se não entender o simbolismo — pode ler mil vezes a dialética que, sem a chave simbólica, ela permanece fechada como um cofre. É necessário analisar cuidadosamente, com a perspectiva do símbolo, o que a pessoa realmente está transmitindo por trás daquele jargão complicado. E o que ele está dizendo nutre o marxismo e as gnoses políticas contemporâneas, aquilo que Eric Voegelin definiu com precisão cirúrgica: a imanentização do êschaton, que em uma linguagem mais simples significa "trazer o paraíso de cima para baixo à força, por meio de decretos e revoluções". Isso nunca dá certo, de jeito nenhum, porque o comunismo falha até na sua própria essência — sua economia é inviável, sem preços livres e sem propriedade não se consegue nem distribuir pão velho, quanto mais o paraíso; nunca foi viável em nenhum universo que siga as mesmas leis da física que o nosso, apenas gerou miséria e filas e valas comuns. Entretanto, o gnóstico político não questiona suas crenças quando os resultados vêm manchados de sangue, pois para ele, o fracasso não demonstra que a teoria esteja errada — apenas indica que faltou pureza, que foi necessária mais revolução, que foi preciso eliminar mais pessoas. A gnose, essencialmente, é o conhecimento oculto que transforma em divindade aquele que acredita possuí-lo: é o auge da soberania intelectual, não mais o pequeno deus que despreza quem o busca na festa, mas o deus-sábio que determina como a realidade deveria se apresentar e encara a realidade obstinada, que não se submete, como uma ilusão a ser corrigida à força.
Desça dessa estratosfera e volte para a calçada, e você encontrará a versão de boteco desse mesmo sábio: o idoso que confunde ruga com diploma. E tranquilize-se, não se trata de idadismo: a idade não é uma falha. Idade sem conteúdo é apenas contagem de anos; é como um burro que carrega ignorância há mais tempo e, por isso, se considera um camelo sábio. Eu enfrento essa situação na minha cidade, pois sou bem mais jovem do que muitos que se consideram superiores, mas não possuem nem de longe a profundidade que construí com muito esforço. Assim que começo a falar, a pessoa já me observa com aquele olhar de quem se acha esperto e logo solta uma verdade batida — algo que é claro que eu já refleti, já processei, já deixei pra trás há muito tempo — como se fosse algo revolucionário, e ainda tenta me corrigir em algo que ele não conseguiu compreender na primeira frase, só porque tem mais idade e mais problemas de saúde. E aqui está a diferença que separa a humildade da subserviência, pois ambas são semelhantes, mas opostas como o céu e a terra: muitas pessoas me dizem "ah, Gabriel, não é necessário ter faculdade para ser inteligente", e isso é verdade, realmente não é necessário. É necessário ter um pouco de humildade em relação àqueles que estudaram, pois há muitas coisas que a pessoa letrada conhece e que você simplesmente não sabe. Reconhecer isso não é se diminuir, é agir de forma madura, é entender a sua posição na fila da vida. Eu sou extremamente humilde em relação a pessoas que realmente são superiores a mim: se eu encontrasse em uma padaria um São Tomás de Aquino ou uma Santa Teresa de Ávila, eu me ajoelharia no chão de ladrilho sujo e diria "me ensina, mestre, me ensina, pois vocês estão anos-luz à frente de mim". Eu sei me humilhar, viu? O problema da pessoa prepotente é que ela realiza a troca equivocada — se curva diante do poder ilusório, do sujeito que possui um carro de luxo, e exalta o nariz diante da verdadeira sabedoria. A bússola adequada indica o mesmo norte em dois lugares: diante do que é grandioso, eu me inclino; diante do que é pequeno e se faz passar por grande, eu me posiciono e ordeno que se modere. Não se trata de contradição, mas da mesma virtude expressa através de óculos diferentes.
Houve uma noite que resume todo esse personagem em um único episódio, e eu vou te explicar por que isso é tão incrível. Eu estava com dois amigos muito mais velhos após uma palestra, e havia um outro cara na turma. Eu estava comentando sobre Kant e como a ética kantiana tende a subjetivizar tudo, quando o sujeito, querendo se mostrar, começou a mencionar Heidegger. Eu reconheço a importância de Heidegger, mas é necessário ter cautela com suas ideias, pois ele tende a promover uma visão que dissolve as religiões, algo que eu realmente não concordo. Fiz uma crítica a ele sobre o Heidegger, e o sujeito ficou furioso, depois tentou me responder com um Kant, mas não conseguiu me convencer — a única coisa que o cara conseguiu dizer foi balbuciar "não, mas o Kant é maravilhoso". Fantástico. Como se "incrível" fosse um forte argumento, como se um adjetivo pudesse vencer um debate. Foi nesse momento que o personagem se mostrou completamente: após a palestra, na calçada, diante dos meus amigos, ele começou a me menosprezar, dizendo: "você é prepotente, hein, guri", tentando me humilhar em público — que é o truque típico de quem está sem argumentos, recorre ao público. E eu retruquei de forma rápida, sorrindo: "meu irmão, você está conhecendo o Trivium pela primeira vez hoje; esses meus amigos aqui te veem como um intelectual, e eu te asseguro, sem custo algum, que você não é um, pois no mínimo deveria conhecer o Trivium, e eu estudo Trivium desde os cinco anos de idade." E você, há quanto tempo está estudando? O sujeito abriu bem os olhos: "ah, mas assim fica evidente a sua arrogância!". Não, meu amigo: diminua a sua empolgação, palhaço, porque eu não tenho nenhuma obrigação de ficar de pé ouvindo quem não entendeu nem a primeira parte. E ele permaneceu em silêncio, cabisbaixo, diante da turma — pois eu não me rebaixei ao nível dele, não me tornei rude para superar o grosso. Deixei que ele cozinhasse no seu próprio molho.
Esse personagem vive em um ambiente natural que Olavo chamava de uma forma repulsiva e adequada: a orgia intelectual. É a pessoa que permanece confinada em seu próprio espaço, não se aventura para além disso, apenas interage com os iguais, se dedica a ler apenas sobre si e seus amigos, se educando em um ambiente isolado de elogios recíprocos, e denomina essa troca vazia de "pensamento crítico". O esquerdista é o campeão olímpico, pentacampeão mundial dessa prática — eles leem suas próprias obras, citam uns aos outros, concedem prêmios entre si e referem-se à masturbação em grupo como "ciência". E dessa confusão endogâmica surge um medo intenso, exagerado, quase psicótico do outro: a pessoa externa à bolha deixa de ser humana e se transforma no mensageiro do diabo, o próprio capeta com chifres e rabo. É a mesma dinâmica do medo que uma criança sente do escuro: quanto menos você tem contato com o que é diferente, mais aterrorizante o diferente se torna em sua mente, pois a distância faz o monstro crescer, e a imaginação, na escuridão, sempre retrata o que há de pior. Eu passei por isso em um grupo de amigos: eu soltava, de vez em quando, umas alfinetadas, cerca de uma por mês mais ou menos — note que eu não era o chato que incomodava todo dia — e iniciava a discussão, e os caras ficavam nervosinhos, todos sensíveis, ofendidinhos. Era um grupo de jovens que nem havia terminado o ensino médio, enquanto eu já estava na segunda faculdade, ouvindo toda aquela lamentação. E se eu contestasse a situação e saísse vitorioso, você consegue imaginar o que eu me tornaria? O arrogante. Um indagou, com tom de personagem de novela: "Ai, por que você fica deixando essas coisas de lado?". E eu disse: "porque eu tenho formação em todas essas áreas, meu amigo, e vocês não têm formação em nada; eu prefiro ouvir quem, vocês que acabaram de levar uma surra, ou um renomado pesquisador do tema?". E quando o prepotente se vê sem argumentos, ele sempre recorre à mesma tática, é uma regra: critica o trabalho que nunca teve a decência de ler. Começaram a desmerecer o meu trabalho sem sequer terem lido uma única linha. Observei aquilo, percebi o que era — um grupo de garotos arrogantes, uma garotada insuportável — e tomei a única atitude sensata que se pode imaginar: me afastei do grupo. Adeus. "Porém, eram amigos de longa data!". Ter amizade com um jumento não é verdadeiramente amizade, é como estar em um estábulo, e eu não vim ao mundo para viver no feno. É por isso que eu tenho muito poucos amigos mais novos do que eu; consigo contar nos dedos de uma mão e ainda sobra dedo. Parece que a galera mais jovem gosta de ser ignorante, tem orgulho disso e adota um comportamento como se tivesse escolhido a falta de conhecimento como um estilo de vida, como se fosse um corte de cabelo. A falta de entendimento involuntária desperta em mim compaixão e o desejo de ensinar; já a falta de entendimento voluntária, que se acredita inteligente, me faz querer pegar meu chapéu e me afastar do grupo. E eu vou embora. Costumo sair com frequência.
Agora eu preciso suavizar a mensagem, retirar o tom sarcástico da frase, porque há assuntos que o riso não deve atingir sem se tornar insensível, e eu seria uma pessoa cruel se zombasse do que eu vivi de forma tão intensa. Eu comentei bastante sobre prepotência, e é importante que eu esclareça de onde vem a minha posição, pois a minha rejeição a isso não é uma ideia teórica retirada de livros — ela foi moldada no único lugar onde essas questões se concretizam de fato, que é no sofrimento. Houve uma fase, entre os doze e dezoito anos, em que me senti totalmente isolado. E não se trata apenas do isolamento nas redes sociais, dessas pessoas que publicam "ninguém me entende" e ganham trinta comentários cheios de afeto. É a solidão genuína, aquela de não ter, de fato, ninguém para quem ligar. Tudo começou dentro de casa: meu pai não me permitia sair nem mesmo duas quadras. Ele sempre vinha atrás de mim, discutia, às vezes me agredia, e eu acabei sendo aquele garoto preso até os dezesseis anos, saindo somente para compromissos, e o único lugar que eu podia ir era a casa de parentes. Quando meus amigos começaram a se despedir de Primavera, por volta de 2016, eu já me sentia, por dentro, preso em uma cela que não dependia deles. Me vi completamente sozinho, sem nenhuma companhia: minha mãe sempre esteve indiferente a mim, como sempre foi ao longo de sua vida; meus parentes me julgavam; meus primos levavam uma vida própria, unidos entre eles, e eu era a criança que cresceu à parte, o desajustado da família. Preciso ser sincero e não vou me desculpar, pois é a realidade: ao falecer meu pai, além da dor da perda, senti também um leve suspiro de alívio. Foi naquele lugar que, pela primeira vez, consegui andar pela cidade e ter uma verdadeira vida — alguém que passou a infância inteira aprisionado até os dezesseis anos, de repente, sentindo a liberdade, e o contraste foi tão intenso que se tornou até mesmo incomum.
Foi nesse período que eu testemunhei algo que me impactou de uma forma que nunca mais será apagada. Eu tinha um primo que faleceu em um acidente. Após sua morte, apenas os pais e os irmãos mais próximos ainda choram por ele; o restante da família se esqueceu que ele um dia existiu. Ninguém mais coloca uma vela no túmulo, exceto no Dia de Finados, por uma questão de calendário, como se a família tivesse pressionado um botão para apagar a memória daquele menino. E eu, que nem tinha muita intimidade com ele, quando vi aquilo, duas semanas depois, fiquei sentindo uma dor profunda, porque me enxerguei naquela situação: se é assim para ele, também será para mim, dois dias de lágrimas e o esquecimento. Essa percepção, por mais dolorosa que seja, me proporcionou a liberdade de não ter que agradar — não por rancor, mas por clareza. Porque, ao perceber que a maioria das pessoas seguiria sua rotina normalmente em apenas uma semana caso você desaparecesse, você deixa de conceder a elas a autoridade sobre o seu ser. É a partir desse ponto que surge o desapego que meus amigos estranham em mim, e que acreditam ser frieza ou a atitude de um monge budista — mas não é nada disso, é uma cicatriz. E é o contrário do desapego que o budismo prega: enquanto o budista libera suas prisões para se dissolver e evaporar, eu solto as amarras enganosas para me consolidar, para não depender da aprovação de quem pouco se importa comigo. É o desapego do soldado que solta o peso morto da mochila para poder correr e lutar, e não o do monge que abandona tudo para evaporar no ar. E existe um custo, que eu não vou esconder para parecer mais atraente: uma solidão que nunca se despede completamente, uma dificuldade em criar raízes, em sentir que pertenço. Você não sente saudade do que nunca experimentou; você apenas percebe a ausência no espaço onde algo deveria ter florescido.
No coração deste deserto, surgiu a única coisa que me sustentou: a busca espiritual. Começou cedo, por volta dos doze ou treze anos, perto do Natal, quando tive a grande visão da minha vida — o vislumbre de uma criatura sobrenatural, ali, na minha frente, diante do meu pai. A partir daquele momento, comecei a buscar religiões, a procurar por Deus, a me interessar por qualquer coisa que me trouxesse significado, sem contar com a companhia de amigos e com uma mãe que parecia indiferente. Realizei as atividades que meu pai me ensinou: ia para a mata, realizava rituais, testemunhava fenômenos que eu denomino de inomináveis, coisas que uma pessoa comum jamais desejaria presenciar. E eu preciso ser preciso em relação à estranheza disso, pois é relevante para tudo que eu sou: para mim, o inominável era algo comum. Era tão comum para mim que, enquanto os outros achavam aquilo algo extraordinário, eu era quem estranhava a surpresa deles — eu questionava: "vocês nunca buscaram por Deus, se interessaram nessas questões?", e a resposta era "não, não sou maluco, não quero me deparar com coisas ruins". Eu era o único corajoso o suficiente para enfrentar aquela situação, pois fui educado dessa forma desde a infância, tendo contato com religiões afro, pagãs e abraâmicas, uma por vez, mas sempre diversas, sob a orientação dos meus mentores espirituais da época, que me instruíam sobre o que era permitido e o que não era. Eu estava estudando. Estudava bastante, bastante, bastante. Somente de livros religiosos, daquela época, eu li mais de dois mil cento e cinquenta, sem contar os de filosofia, que foram muito mais. Não compartilho isso para me vangloriar de quantidade — números não são sinônimo de virtude, qualquer pessoa desatenta consegue ler rapidamente e não compreende nada. Relato que foi essa imersão que me sustentou quando tudo ao meu redor desmoronou. Chegou uma hora, ainda jovem, em que eu disse: não vale mais a pena ficar sentado e chorando, como eu fazia até os onze anos; agora eu me levanto e tomo uma atitude, pois ninguém vai fazer isso por mim. E me levantei. A dimensão espiritual foi, de fato, o que me trouxe a salvação — não foram livros de autoajuda, nem aquele coach de camiseta justa, mas sim a busca genuína, árdua e solitária, de alguém que se afastou da sociedade para encontrar Deus, pois não havia mais ninguém na Terra para buscar.
E é dessa mesma infância que surge a forma peculiar como minha mente opera, o que justifica tanto a maneira como percebo o mundo quanto a minha dificuldade quase corporal de ser arrogante da forma que as pessoas costumam ser atualmente. Eu tenho savantismo, um autismo leve que me deu, em troca da dislexia, uma forma peculiar e poderosa de raciocinar: o meu savant é simbólico. Não sou o gênio dos números e das datas, que conta palitos de fósforo que caem no chão; eu olho para um objeto e, instantaneamente, surge o significado — o conceito metafísico, a camada filosófica, a sociológica, a correspondência simbólica, tudo passa rapidamente pela minha mente, de uma só vez, do início ao fim. Eu percebo o mundo como um conjunto de símbolos, onde cada elemento possui uma ressonância que o conecta a todo o universo, e cada objeto é apenas um pequeno ponto em uma teia sem fim. E nem sempre foi assim tão organizado; graças a Deus, meu pai interveio, caso contrário, eu teria enlouquecido. Quando eu era criança, fazia conexões entre as coisas de um jeito totalmente aleatório e esquisito: comia uma manga, associava a manga ao sabor, o sabor ao doce, o doce ao bombom, o bombom ao prazer, e o prazer — veja a mente infantil — à masturbação. Prometo. Era exatamente esse tipo de ligação absurda em cadeia que minha mente fazia sozinha, sem parar, uma após a outra, até eu chegar a conclusões estranhas partindo de uma simples fruta. Meu pai percebeu que eu poderia surtar e disse: "não, não, vou tirar isso daí, senão você vai enlouquecer". Foi então que ele me deu para ler sobre alquimia muito cedo — não por ser algo esotérico, mas porque a alquimia é um sistema de símbolos organizado. Ele percebeu que, ao fornecer uma gramática simbólica estruturada para a minha mente, eu deixaria de associar uma coisa a outra de forma aleatória e começaria a ligar símbolo a símbolo de maneira ordenada. E deu certo. A alquimia organizou o caos; em seguida, surgiu a teologia. Eu fui conectando todos esses elementos, e o savant, ao invés de me aniquilar, evoluiu. Por isso, devo essa estrutura ao meu pai, independentemente do que aconteceu de confuso entre nós: ele me proporcionou a chave que evitou que minha mente se tornasse um caos.
É dessa mente que surge a minha perspectiva, que denomino de psicologia simbólica da percepção, e que entrelaça em um único sistema a psicologia evolutiva, a PNL, a psicologia das sombras e a psicologia das cores. Porém, eu utilizo como uma lente, para visualizar, e jamais como uma coleira, para controlar os demais — e essa distinção é o que distingue a ciência da charlatanice e da magia. Vou ser técnico por um momento, pois a honestidade é importante: a Programação Neurolinguística (PNL) possui evidências científicas discretas quando o assunto é resultados mensuráveis; não é a ciência sólida que os vendedores de cursos costumam apresentar. Portanto, eu utilizo apenas como um vocabulário de observação, nunca como "hipnose textual" ou "programação mental", como esses charlatães costumam comercializar em doze parcelas no cartão. A psicologia das cores revela associações que são reais, mas que variam conforme o contexto e a cultura, longe de qualquer lei universal como a ideia de que "vermelho provoca fome, por isso o McDonald's coloca essa cor"; por outro lado, a psicologia evolutiva aponta tendências, como a atenção ao perigo, à perda, à reputação e ao pertencimento, mas não se trata de um destino biológico que justifique a moral. A limitação é total: a psicologia apenas descreve, a ética é que avalia, e nenhum artifício de atenção pode substituir a verdade, o consentimento ou a liberdade do próximo. A mesma faca pode cortar e ferir; o que caracteriza o cirurgião não é a faca, mas sim a intenção. Opto por entender as pessoas para me proteger de indivíduos arrogantes, e não para manipular ninguém como uma marionete. E é justamente por ter essa conexão simbólica tão intensa que eu não consigo ser tão arrogante como muitos hoje em dia: eu tenho consciência da minha posição na fila do pão, mas não consigo ser desdenhoso com quem não conheço. Quando apresento um conceito mais complexo, faço isso apenas para explorar o desconhecido e entender a personalidade da pessoa, o que pode levar até um ano, pois conhecer alguém de verdade é um processo bem demorado. O que eu ganho por ter uma visão distinta da realidade não é mera curiosidade, mas sim o rótulo de "orgulhoso" colado na minha testa — pois há quem pense que todos são iguais, réplicas uns dos outros, e não consiga entender que há quem pense de maneira diversa; assim, o que é diferente sofre por ser diferente em uma sociedade que se perpetua abafando exatamente aqueles que poderiam livrá-la do tédio.
Essa mesma rejeição ao diferente, quando aplicada à política, se assemelha a uma síndrome que eu nomeei no Círculo de Estudos: a Síndrome do Bolsonaro Hipotético. E ela começa, como quase tudo de ruim, com um picareta e um rebanho de encantado. Houve um pastor, desses bem enganadores, que manipulou um grupo de pessoas que conheço com uma frase que revela toda a falsidade de uma vez: "você precisa encontrar um deus que se pareça com você". Está tudo ali, veja. Não é um Deus diante do qual você precisa se moldar, se corrigir, se submeter — mas um Deus que se adapta a VOCÊ, confeccionado sob medida, que endossa tudo aquilo que você já desejava endossar e reprova tudo o que você já queria reprovar. E os meninos ficaram fascinados, babando, pois o sujeito era um grande idiota, um vendedor ambulante de espelhos. "Um deus com a sua aparência" é a definição encontrada no dicionário para a idolatria, que representa a forma religiosa da prepotência: o Deus verdadeiro cria o homem à Sua imagem, enquanto o ídolo é o homem moldando um deus conforme a sua própria imagem — é um espelho com um altar diante dele. O homem se coloca de joelhos, aparentando ser um devoto, acende incenso, mas o que realmente está adorando é seu próprio reflexo, com uma coroa de papel metálico. Porque para esse tipo de pessoa não importa a Criação, não importa a lógica, não importa a verdade bem organizada — interessa apenas uma coisa: a legitimidade para a crença que já estava presente. A pessoa que pertence a uma quarta camada não busca a religião para compreender a realidade; ela a procura para validar suas crenças já estabelecidas, anseia por um carinho no ego, uma satisfação que acaricie sua vaidade. E se encontra um sistema completo, com um livro sagrado e tudo mais, que parece existir apenas para provar que ele estava certo o tempo todo. Aí o sujeito fica imensamente feliz — eu dou risada, mas é sério, o infeliz fica radiante, porque obteve a validação oficial na sua própria vida.
E assim surge a síndrome política. Veja o que acontece durante uma eleição. Uma pessoa com uma mentalidade de quarta camada — e afirmar que um esquerdista é de quarta camada é quase redundante, é como dizer que um quadrado tem quatro lados ou que para cima é em cima, pois o esquerdista já possui uma certa falta de inteligência por natureza, perdendo cerca de quarenta pontos de QI só por se declarar esquerdista — essa pessoa criou na própria mente um monstro, uma espécie de bicho-papão com um nome hipotético, de quem se dizia que seria o terror, o apocalipse, o fim dos tempos, que iriam fechar o Congresso, caçar homossexuais na rua, e que ia chover sangue. Pois o monstro esteve no poder por quatro anos e não cumpriu nem UM por cento do terror que havia prometido. Menos de um por cento. E o que faz quem confiou na existência do bicho-papão quando ele não aparece debaixo da cama? Não questiona a crença, não admite "poxa, cometi um grande erro na previsão". Permanece acreditando na criatura que nunca esteve lá, com mais intensidade do que antes, pois reconhecer o engano seria como estourar a bolha, e estourar a bolha é a única coisa que o núcleo central não aceita. A pessoa acredita tanto no seu próprio mundo interior que vê qualquer um que discorde como o próprio demônio, um mensageiro de Satanás com direito a voto. É exatamente por isso que a direita, ou qualquer pessoa que esteja fora dessa bolha, enfrenta tantas dificuldades com esse grupo: primeiramente porque o esquerdista radical é, de fato, bastante ignorante, deseja criar um paraíso na Terra que não funcionaria em nenhum universo que obedecesse às mesmas leis que o nosso; em segundo lugar, e isso é ainda mais preocupante, ele possui uma certeza interior absurda, uma convicção que faria qualquer mártir sentir inveja, e não consegue pensar fora de sua bolha — se você expressa uma opinião de fora, ele já se irrita, imediatamente te rotula e parte para a difamação, pois, para ele, quem está fora é o lobo mau do proletariado.
E aqui eu enfrento a objeção mais contundente diretamente, pois evitar isso seria desonesto da minha parte: eu não estou agindo exatamente da mesma forma que critico, me isolando do outro da mesma maneira que o arrogante se isola de mim? A diferença é de categoria, não de grau, e é simples. Um cristão não daria ouvidos ao diabo por diversas razões. Primeiro, ele acredita que a verdade e a luz vêm de Deus, e que o diabo representa a mentira e a escuridão. Além disso, o cristão confia nas promessas e ensinamentos bíblicos, que orientam a seguir o caminho do bem e evitar as tentações. Por fim, a relação de fé e reverência a Deus o leva a rejeitar qualquer sussurro maligno que possa afastá-lo do amor e da salvação que Cristo oferece. Porque isso seria uma tolice, e ele está ciente disso. Mas outra pessoa não é o diabo, caramba — outra pessoa pode te trazer uma boa notícia, uma correção, uma verdade. O equívoco de estar preso em uma bolha é, exatamente, considerar TODA pessoa que discorda como se fosse um inimigo. Não costumo agir assim: vejo o esquerdista aberto como uma pessoa e, com ele, mantenho uma conversa tranquila; já o esquerdista fechado, eu o trato da maneira que ele se apresenta, não por considerá-lo uma figura malévola, mas porque ele optou por ignorar a razão. Com quem se fecha para o diálogo, o debate se torna improdutivo por uma questão lógica, e não por uma birra da minha parte. Meu critério para encerrar a conversa é a evidência — fecho para aqueles que já demonstraram, inúmeras vezes, serem insensíveis a argumentos; o critério do autoritário é a identidade, ele fecha para quem não pertence à sua tribo. Como posso saber se o rapaz está trancado? Simples: você dialoga, ele leva uma pancada argumentativa e, mesmo assim, não consegue nem pensar em reconsiderar suas próprias crenças — "que se dane, a opinião é minha, faço o que eu quiser", e segue acreditando como se nada tivesse ocorrido, seja sobre o PT, o comunismo, ou qualquer outro assunto. Esse já ocupou o trono de Deus e não ouve mais nada ao seu redor. Porém, existem aqueles que ainda não ultrapassaram o horizonte de eventos, que estão dispostos ao diálogo e têm a capacidade de se transformar — e esses realmente podem mudar, com certeza podem, eu não considero ninguém como um caso perdido desde o início. O que eu rejeito é a ideia ingênua de que o trancado vai se abrir apenas porque eu usei um argumento eloquente: para o trancado, um argumento é como uma pérola jogada para um porco, que não a come, mas a pisoteia e ainda grunhe.
Eu tenho uma questão particular em relação ao neopentecostalismo, e faço questão de diferenciá-lo para não ser injusto com os fiéis que têm boas intenções. Desconfio dos esquerdistas porque considero que suas ideias são pouco fundamentadas e que a ideologia não se sustenta racionalmente. No contexto neopentecostal, muitas vezes, não se trata apenas de ignorância — é uma forma de doutrinação religiosa, que é ainda mais grave, pois a ignorância pode ser superada com aprendizado, enquanto a doutrinação é defendida como fé, tornando difícil qualquer contestação. É provavelmente a seita da qual eu mais desejo me afastar, mesmo tendo vivido um longo e duradouro relacionamento com uma garota que era parte dela — e é exatamente por ter presenciado de perto, por dentro, que eu me mostro cético, especialmente quando se trata de governo e poder. O funcionamento é similar ao da bolha, porém com uma camada de verniz sagrado por cima, o que agrava a situação: se você se opõe ao pastorzinho que está no poder, você não é apenas um adversário político; você se torna o próprio diabo, pois quem se opõe a Deus é considerado diabo, e o pastor foi confundido com Deus, ou como o representante exclusivo d’Ele, com procuração devidamente registrada em cartório. O Ítalo Marsili mencionou isso de maneira precisa em um podcast, e a visão que ele apresenta é a mesma que eu percebo: qualquer pessoa que tenha uma opinião contrária não será bem recebida, será marginalizada e, se possível, eliminada. E isso não é um fato inédito na história, mas sim uma recriação: foi mais ou menos dessa forma que aconteceram as grandes ditaduras protestantes, tanto durante quanto após a Idade Média, com uma perseguição imensa em que, se você fosse católico e não se convertesse, as pessoas te matavam. Eu afirmo, e reconheço que isso pode gerar muita polêmica, que um protestante radical no poder foi historicamente muito mais prejudicial do que um católico; e ressalto, como uma interpretação minha que está aberta ao debate, uma nova visão sobre a caça às bruxas, na qual os católicos estavam tentando controlar o incêndio, enquanto grande parte do ímpeto de queimar as velhinhas vinha de uma seita um tanto excêntrica, protoneopentecostal, que ainda não era o neopentecostalismo, mas que eventualmente se tornaria. A interpretação é objeto de debate, há historiadores que atribuem a responsabilidade aos tribunais de ambas as partes. Eu coloco isso como uma perspectiva, não como uma verdade absoluta — mas o que defendo, no cerne do meu argumento, é que o fanatismo que une Deus a um líder humano é o combustível da chama, independentemente da denominação religiosa que acende o fósforo.
E nessa síndrome reside o trabalhador da desinformação, o operário da ignorância coletiva, que eu me refiro, com a devida desculpa pela expressão regional, mas com a exatidão de um bisturi, como jacu. O jacu é aquela pessoa que não tem conhecimento algum sobre o tema, não refletiu, não investigou e nem possui referências, mas se atreve a opinar com a maior convicção, cheio de si. O que ele diz é uma fanfic — essa é a expressão correta, fanfic — uma pequena ficção criada por fã que se transforma em uma teoria da conspiração na qual ele começa a acreditar como se fosse um fato consumado, elaborada do nada, sem qualquer evidência, defendida com o fervor de um cruzado. O paralelo pode ser incômodo, mas é preciso reconhecer sua precisão: essa pessoa é, em termos estruturais, um satanista, no sentido filosófico de quem prioriza a própria vontade em detrimento da verdade, de quem constrói seu próprio mundo como o critério supremo do universo. E de onde ele tira todas essas certezas? Ah, aqui a comédia encerra o ciclo de forma brilhante, e eu nomeio a segunda síndrome, gêmea da primeira: a Síndrome do Adam West. Houve uma série de remontagem do Batman, interpretado por Adam West, que teve uma dublagem realizada por fãs, repleta de duplo sentido e brincadeiras maliciosas — uma verdadeira genialidade divertida. A principal piada era essa: sempre que o Batman fazia uma dedução imensa e absurda, sem nenhuma base aparente, o Robin, surpreso, perguntava: "de onde você tirou isso, Batman?". E o Batman, com toda a seriedade do mundo, olhava para ele e respondia: "mas Robin, é óbvio que da minha fonte". É exatamente isso. Essa é a situação do indivíduo que se encontra desorientado, elogiando apenas o seu próprio pequeno mundo e suas próprias ideias, afirmando que tudo é subjetivo e relativo. Ele chega a conclusões vazias com uma certeza inabalável, pois se tornou o deus do seu próprio mundinho; e, como tal, ele cria — porém, o que ele cria não é um universo, mas sim uma grande bobagem, uma paródia irreverente da criação, uma versão distorcida do Gênesis. E qualquer pessoa que afirmar "olha, a realidade não é bem assim", que indique que o rei está nu e que a conclusão veio de onde veio, se transforma em inimigo imediatamente, pois questionar a conclusão é duvidar da grandeza dele, e a grandeza, como é sabido, não tolera fiscalização do Tribunal de Contas.
E essa condição não é restrita a um nicho específico, é característica de uma geração inteira, e possui um forte combustível cultural: a gnose, que está subindo como uma maré sobre o Brasil e o mundo. A minha geração deixou para trás aquele costume antigo de se inclinar diante de quem está em posição superior, de reconhecer "poxa, essa pessoa sabe mais que eu, vou aprender com ela", porque a gnose tornou a autodivinização acessível a todos. No passado, para se encontrar um deus, era necessário ter algum justificativa — poder, talento, dinheiro, algo do tipo. Atualmente, uma simples pílula vermelha no YouTube, um vídeo de coach de três minutos, e pronto: a pessoa adquire o conhecimento secreto, está "desperta", percebe a Matrix, enquanto o restante da humanidade é apenas gado dormindo em pé. Há um paradoxo intrigante nessa gnose, uma reviravolta que converte o niilismo em uma medalha de ouro: o praticante acredita, ao mesmo tempo, que é um simples pedaço de lixo e que o universo inteiro é uma calamidade — mas, como ELE possui esse conhecimento e os demais não, ele se considera superior a todos os outros pedaços de lixo. É como descobrir algo excepcional em meio a um mar de coisas comuns. E o irmão intelectual do jacu, da mesma ninhada, é o ateu que se diverte às custas do cristão acreditando que entende de filosofia, sem nunca ter lido um Sócrates, um Platão ou um Aristóteles de verdade na vida, pensando que os gregos não passam de um grupo de tolos de toga e que a história do pensamento começou com ele e com os quatro youtubers que assiste — quando, na verdade, a própria teologia cristã foi edificada sobre o mais sofisticado aparato conceitual que a humanidade já criou. O ateu militante e o neopentecostal fanático se detestam e se consideram antagônicos, passando o tempo em conflitos — e, na verdade, são como gêmeos siameses moldados da mesma forma: ambos idolatraram uma certeza, ambos demonizam aqueles que divergem, e ambos extraem sua convicção da mesma fonte que o Batman do Adam West indicou ao Robin.
Retorno à economia do desejo, pois ela possui aspectos que ainda não explorei completamente e que representam o laboratório mais implacável da arrogância contemporânea. A minha geração criou uma nova dança para o antigo receio de recusar: o ghosting. A pessoa não se manifesta com um não ou um sim, apenas desaparece, some do cenário como um espírito, exclui você da sua vida com um simples toque no bloqueio — e ainda tem a audácia de rotular essa atitude covarde de "maturidade", "não se importar" e "preservar a minha paz". Não é verdade, meu amor. O ghosting é a manifestação mais inferior da prepotência, pois consiste em uma recusa que não possui a coragem de se afirmar, é uma decisão que carece da dignidade de ser finalizada de forma clara. Recusar, mesmo de uma forma bem direta, ainda é reconhecer que a outra pessoa merece uma palavra; desaparecer é agir como se ela fosse apenas uma mensagem incômoda que se ignora. E veja como a falta de coragem se revela de maneira sutil: quem se afasta acredita que foi até educado, "ah, para não ferir com um não direto", quando na verdade comete a maior maldade, que é privar o outro até do direito a uma resposta. É o Deus de bolso exercendo o poder divino supremo: eliminar uma vida inteira do próprio universo com o polegar.
Ao lado do ghosting, prospera a era do "quase", dessas interações que não se configuram como uma relação propriamente dita e que não são nada, o "talking", o "rolo", o "estamos nos conhecendo" interminável, onde ninguém se compromete e ninguém se afasta. Eu vejo nisso a marca digital do relativismo aplicado ao amor: da mesma forma que o relativista não declara nenhuma verdade para não se comprometer, a pessoa do "quase" não estabelece nenhum vínculo para não ter que arcar com responsabilidades. Trata-se da subjetivação do afeto — "nós somos o que desejamos ser, sem rótulos, meu bem" — e o resultado é idêntico à subjetivação de tudo: o vazio. Pois o rótulo, que a geração detesta como o diabo detesta a cruz, é apenas o nome de um compromisso, e fugir desse nome é escapar da essência da coisa. O receio do rótulo é o receio do que é verdadeiro. Aqueles que escapam da realidade no amor acabam por coletar, no amor, o que o relativista obtém na filosofia: a desintegração, a transformação em algo que poderia ter sido firme. A incerteza não é liberdade, é medo disfarçado de novidade. A performance da indiferença se transformou em um verdadeiro esporte com técnicas específicas: ensinam o jovem a simular que não se importa, a responder com lentidão, a mostrar menos do que realmente sente, a atuar como aqueles que exibem menos vulnerabilidade. Transformaram o amor em um conflito silencioso de necessidades contidas, e o cínico chama isso de "estratégia". Observe o que a estratégia revela: ela reconhece que a vulnerabilidade será interpretada como fraqueza e que a honestidade será penalizada — ou seja, já parte do pressuposto de que o outro é um arrogante disposto a menosprezar quem se expõe, e, ao agir dessa forma, acaba gerando ainda mais arrogância. É uma profecia que se realiza por si só: todos fazem de conta que são indiferentes, temendo que a sinceridade do outro resulte em punição, e assim, ninguém mais é honesto. O temor que originou essa estratégia transforma-se na realidade que ela criou. Uma geração que aprendeu a disfarçar suas emoções é uma geração destinada a não ser amada pelo que realmente é, mas apenas pelo papel que desempenha — e esse personagem, ao final da trama, acaba só.
De onde vem essa princesa, que eu mencionei como alguém que fundamenta seu próprio valor em uma avaliação digna de um deus grego? Ela é produzida, e a indústria possui uma peça que pode ser identificada. A primeira peça é o elogio que não está atrelado ao mérito: a criança, reconhecida como especial apenas por existir, e não por suas ações, se desenvolve sem conseguir diferenciar seu valor genuíno do valor exagerado que lhe foi atribuído desde o berço, enfeitado com fita e balão. A segunda questão é a ausência, frequentemente, de alguém que a confrontasse com a realidade na medida apropriada — e eu não culpo nenhum pai em específico, mas sim o padrão, essa cultura que confundiu amar com nunca contrariar, com nunca dizer um não, com entregar o celular para a criança parar de chorar. A terceira, a mais potente, é o reflexo sem fim das redes sociais, que retorna à moça, a cada imagem, uma avalanche de validação anônima e gratuita, curtidas que não exigem nada, elogios de desconhecidos fascinados que ela confunde com admiração. Resultado: alguém que se considera o centro de um universo que, na verdade, apenas tocou o coração distraído enquanto estava sentado no vaso, rolando o feed. E o príncipe, a versão masculina, é produzido da mesma maneira, mas sua validação geralmente vem de fontes diferentes — das conquistas, do carro, da quantidade de seguidores, dos músculos —, mas a patologia é a mesma: um valor exagerado que não tem base, um ego frágil que, por saber de sua fragilidade, vibra a cada leve toque como uma vara verde.
E para o homem existe uma indústria inteira que se aproveita dessa insegurança e a vende de volta como se fosse uma solução, que é a versão com testosterona do coaching tirada de maneira vulgar: a indústria da sedução, do "macho alfa", da pílula vermelha emocional. Aconselham o jovem inseguro a dominar, manipular, usar técnicas, enxergar a mulher como um alvo de uma estratégia militar, decorar falas para abordar, e avaliar seu próprio valor com base no número de conquistas, como se estivesse colecionando figurinhas de um campeonato. E isso é a mesma fraude do pseudo-estoicismo, só que na cama: pega uma intuição verdadeira — que o poder atrai, que a dignidade se impõe — e distorce em uma técnica de manipulação, a lente novamente virada em forma de coleira. O resultado é um grupo de jovens que atuam de acordo com um padrão de masculinidade rígido, exteriormente frios e interiormente aflitos, que confundem a habilidade de dominar com a capacidade de amar. Ao final, eles acabam enfrentando a mesma solidão que a princesa, mas fazendo isso de uma maneira menos evidente. A manipulação pode até moldar o corpo de outra pessoa, mas nunca sua alma. Aqueles que apenas aprenderam a aprisionar corpos acabam, mais cedo ou mais tarde, percebendo que acumularam apenas uma gaiola vazia. O alfa do manual e a princesa do feed são a mesma figura em dois disfarces de gênero, e a solidão que aguarda ambos é a mesma, pois os dois trocaram o encontro autêntico pela performance, e a performance não cria laços, apenas uma plateia que se dispersa ao final da apresentação.
Vou te mostrar, em vez de apenas descrever, como a minha mente interpreta o mundo, pois isso traz clareza a tudo. Tire uma selfie — esse ato simples de direcionar a câmera para o próprio rosto. Para mim, isso não é um gesto neutro, é um símbolo profundo, e um símbolo se comunica. Uma selfie é a imagem que a pessoa tira de si mesma, o espelho que se transformou em um altar, o olhar que abandonou o mundo exterior para se concentrar em seu próprio reflexo. O Narciso da lenda se afogou ao admirar seu próprio reflexo na água; a selfie é como se fosse o Narciso utilizando uma ferramenta para congelar sua imagem e compartilhá-la com o mundo, pedindo aos estranhos que validem o que ele vê. Simbolicamente, trata-se da autodivinização em uma escala reduzida, uma adoração do eu que se resume a um gesto despercebido por outros como um ato de culto. Quando observo uma geração inteira se dedicando a isso o dia todo, não percebo vaidade individual, mas sim um rito coletivo, uma espécie de missa invertida em que cada um é, ao mesmo tempo, o deus venerado e o devoto em oração. E faz o mesmo com o shopping, que se revela como uma catedral de cabeça para baixo: a catedral antiga era feita para elevar o seu olhar — a abóbada se erguiam, a luz penetrava pelo vitral, tudo clamava "olhe para cima, há algo acima de você". O shopping se apresenta como um oposto exato: não possui janelas, não tem relógios, não permite que você enxergue o céu nem saiba que horas estão passando, uma vez que deseja que você se desconecte do tempo e da altura, permanecendo ali dentro, no eterno agora do cartão de crédito, com o olhar sempre na altura das vitrines, jamais além delas. É um santuário da imediação, concebido para eliminar o transcendente, para substituir o "olhe para cima" pelo "olhe para a prateleira, parcele em 10 vezes". O celular que você segura na mão é como uma catedral invertida em formato portátil: uma janela que, em vez de conectar você ao mundo exterior, reflete um espelho infinito que revela mais sobre você, mais do que você já aprecia, mais que valida o que você já é, fazendo com que você fique cada vez mais preso no seu pequeno universo. Interpretar o mundo através de símbolos é compreender que a selfie, o shopping e o celular representam um único símbolo — o olhar que desceu do céu para o próprio umbigo — manifestado em três objetos, e que esse símbolo é a catábase feita de vidro, concreto e silício.
Eu investiguei a genealogia da dessacralização de Maquiavel até Hegel, mas essa árvore possui muitos galhos podres e é importante explorar mais algumas ramificações. Rousseau, por sua vez, é uma figura fundamental e pouco explorada: foi ele quem realizou a mais significativa inversão antropológica da história ao afirmar que o ser humano nasce bom e que a sociedade é que corrompe o ser inocente. À primeira vista, pode parecer inocente e até encantador, nos fazendo querer dar um abraço. Porém, na verdade, é uma bomba-relógio, pois essa perspectiva faz com que o mal seja projetado de dentro para fora. Se eu nasço como uma pessoa boa, então o mal nunca me pertence; ele é sempre culpa do sistema, da estrutura, do capitalismo, da minha mãe, do meu signo, ou de qualquer outra coisa, exceto de mim mesmo. É a transferência completa da responsabilidade, a eliminação do próprio erro, e dela surge toda a mentalidade vitimista contemporânea, que nunca assume suas obrigações, pois a culpa está sempre atribuída a uma abstração distante. É o parente próximo da arrogância: se eu sou bom por natureza, quem me oppose só pode ser um agente da corrupção, o adversário, o sistema personificado com CPF. Rousseau conferiu à autodivinização a teologia da inocência, e sem essa base, o marxismo e toda a cultura do ressentimento não teriam suportes para se sustentar.
O Nietzsche é uma figura distinta, e com ele eu mantenho uma relação de respeito e de temor simultaneamente, pois esse sujeito foi o mais sincero de todos. Enquanto os demais eliminaram Deus de forma clandestina, pela porta dos fundos, usando luvas cirúrgicas para não se sujar, Nietzsche proclamou o assassinato em plena praça, com um megafone, e assumiu todas as consequências sem qualquer hesitação: com a morte de Deus, resta o além-do-homem, o übermensch, aquele que constrói seus próprios valores porque já não há ninguém no alto para fazê-lo. E aqui está o que me cativa: o übermensch é a arrogância elevada à condição de projeto filosófico, a autodivinização assumida como um ideal, o "deusinho" de bolso que Nietzsche teve a coragem de nomear e colocar em um pedestal, em vez de escondê-lo debaixo do tapete. Embora eu não concorde com ele na maior parte das questões, eu valorizo muito mais a sua sinceridade crua do que a cowardice daqueles que agem da mesma forma, mas tentam disfarçar. O Nietzsche, ao menos, tinha consciência do altar que estava erguendo; já o coachzinho pseudo-estoico edifica o mesmo altar em homenagem ao próprio ego, sem sequer perceber que está copiando Nietzsche de forma distorcida, através de posts motivacionais. E o seu fim, a loucura, o colapso montado em um cavalo, interpreto simbolicamente como o custo da sinceridade diante do abismo: ele encarou o vazio de frente, sem as anestesias que os outros utilizam, e o vazio, enfrentado com clareza e sem anestesia, derrete quem o encarar — foi o Choronzon exigindo o pagamento da lucidez sem crença. E Sartre finaliza a sequência com a afirmação perfeita: a existência vem antes da essência, que, em uma linguagem mais simples, quer dizer "você não possui uma natureza definida, você se forma do nada através das suas decisões, sendo o autor completo de si mesmo". É a criação do nada que é transferida de Deus para o indivíduo, onde o homem se torna deus de si mesmo através de suas escolhas. Dessa perspectiva surge toda a retórica contemporânea do "eu me defino como eu quiser", onde o eu se apresenta como um projeto de maleabilidade infinita, sem nenhuma verdade pré-estabelecida para servir de âncora. Entretanto, quem emerge do nada se edifica sobre o vazio, e sobre o nada não se ergue nada que perdure — por isso a angústia é o sentimento predominante do existencialismo, a angústia de quem foi elevado à condição de criador e percebeu que não possuía nenhuma matéria-prima a não ser o próprio vazio.
E em oposição a toda essa linhagem que desce, existe outra, a da subida, que eu preciso identificar para que não permaneça apenas nebuloso. Aristóteles, séculos antes da confusão, já possuía o conceito preciso que desmonta a arrogância: a megalopsíquia, a magnanimidade, a virtude daquele que tem uma alma grandiosa e acredita merecer coisas grandiosas, e realmente merece. Observe a precisão do grego: a virtude não reside em se considerar inferior, isso é uma falsa modéstia; a verdadeira virtude é avaliar-se com exatidão, reconhecendo seu tamanho real, nem mais um centímetro, nem menos. O defeito de um lado é a vaidade, que faz a pessoa se ver maior do que realmente é; o defeito do outro lado é a pusilanimidade, que leva a pessoa a se enxergar menor do que realmente é. A virtude é como um fio de navalha que se encontra no meio do caminho, representando a verdade sobre a própria dimensão — isso é exatamente o que costumo chamar de entender seu lugar na fila do pão. Porém, Aristóteles já havia expresso essa ideia, em outras palavras, há vinte e três séculos, o que me leva a ser humilde até nesse aspecto. Santo Agostinho conferiu a isso uma profundidade cristã ao delinear as duas cidades: a cidade do homem, erguida sobre o amor-próprio a ponto de menosprezar a Deus, e a cidade de Deus, edificada com base no amor a Deus, mesmo que isso signifique desprezar a si mesmo. Para Agostinho, toda a trajetória da humanidade representa uma disputa entre esses dois amores — e meu hexagrama é apenas o retrato psicológico de quem optou pela primeira cidade, o amor próprio elevado à divinização do próprio reflexo no espelho do banheiro. Não fui eu quem inventou nada, viu? Apenas reformulei, com os conceitos da física dos buracos negros e a simbologia que eu utilizo, aquilo que a tradição já conhece desde sempre.
E essa orgia intelectual, que eu caracterizei como o ambiente do prepotente, não permaneceu restrita a um pequeno grupo de amigos — ela se institucionalizou, transformou-se em edifício, recursos financeiros e diploma emoldurado na parede. A universidade contemporânea, em grande medida, é um espaço intelectual climatizado e formalizado: um ambiente restrito onde os colegas leem os colegas, citam os colegas, avaliam os colegas e concedem prêmios aos colegas, enquanto qualquer ideia que fuja do consenso é encarada não como uma crítica a ser contestada, mas como uma praga a ser exterminada. O que deveria ser o espaço para a troca de ideias transformou-se em um local de reafirmação de crenças, uma catedral de pensamentos fechados, onde a originalidade é vista como uma ameaça e seguir o dogma estabelecido é o atalho para conseguir uma bolsa de estudos. E a mídia de diversas partes do mundo continua no mesmo padrão: não reflete a realidade, mas sim a sua própria bolha, que oferece ao leitor a validação do que ele já acredita, uma vez que constatou que confirmar opiniões gera mais cliques do que informar de fato. E dessa panela surgiu a inquisição ideal para uma época que não acredita na verdade, mas acredita intensamente em si mesma: o cancelamento. Veja a ironia cósmica, que é de rir para não chorar: a mesma cultura que grita que tudo é relativo, que não há certo nem errado, que cada um tem sua própria verdade, é a que mais rapidamente faz uma fogueira para queimar os hereges. Como pode um relativista ser tão rigoroso em suas indagações? Porque o relativismo nunca se tratou de uma verdadeira tolerância; na verdade, foi uma tentativa de eliminar qualquer verdade que estivesse acima do eu, para que o eu pudesse governar de forma absoluta. E quando o eu domina, qualquer ofensa ao eu é considerada um crime grave, sem possibilidade de defesa, pois não existe tribunal superior ao eu ofendido para fazer o julgamento. O cancelamento é a Síndrome do Bolsonaro Hipotético transformada em um rito social: o dissidente é visto como o diabo, e o diabo não se debate, o diabo se autodestrói — e se autodestrói com a plena convicção de quem, de joelhos, prometeu que não existem certezas absolutas. É a chama que arde proveniente de quem assegura não ter fé no fogo, e essa contradição não é um mero acaso, mas sim a essência do fenômeno.
E tudo isso, em nosso século, adquiriu uma poderosa ferramenta que o Olavo não presenciou em seu apogeu e que eu vejo como o fator decisivo para a catábase coletiva: o algoritmo. O algoritmo das redes é uma confusão intelectual automatizada, uma bolha criada por tecnologia avançada, o reforçador de viés mais eficaz já desenvolvido pela humanidade. Ele capta o que você já acredita e te oferece ainda mais do que isso; apreende o que te irrita e te proporciona ainda mais do que aquilo, pois a sua irritação é o combustível que movimenta a máquina. Ele não busca a sua verdade, mas sim a sua atenção, e percebeu que nada capta o interesse como a validação do próprio preconceito acompanhada de indignação em relação ao adversário. Então ele te aprisiona, com uma suavidade matemática, em um quarto de espelhos onde tudo que você observa é você mesmo em multiplicação, e tudo que você detesta é o inimigo em forma caricatural, e nomina esse confinamento de "sua linha do tempo". É como se o buraco negro tivesse sido transferido para uma máquina: você nem precisa se esforçar mais para relativizar e subjetivar o mundo, o algoritmo faz isso por você, te apresenta um mundinho já prontinho, feito sob medida, um deus com a sua imagem entregue na sua casa, atualizado a cada movimento do seu dedo. Uma geração que foi criada nesse quarto de espelhos acredita que está vendo o mundo, mas na verdade só enxerga seu próprio reflexo, curado por robôs — a busca pela auto-divindade se transformou em um serviço de assinatura mensal, e quase ninguém se deu conta de que aderiu a isso e que o pagamento é a própria alma.
Dentro dessa máquina se desenvolve uma nova fauna de prepotentes que merece ser catalogada como animais em museu, pois são os sacerdotes da catálise digital. Há uma versão mística no Instagram que comercializa espiritualidade da mesma forma que se vende um suplemento alimentar. É uma espécie de gnose self-service onde você pode criar o seu próprio deus, combinando elementos isolados do budismo, cristianismo, astrologia e uma física quântica mal compreendida. A única exigência é que esse deus montado te aceite exatamente como você é — é o "deus com a sua cara" do pastor desonesto, porém apresentado com uma estética de pôr do sol e fontes cursivas. Há o chamado mentor, que na verdade não é especialista em nada, que nunca produziu algo significativo além da sua própria imagem de alguém que cria, e que oferece um caminho mais fácil para o sucesso que ele mesmo só conquistou lucrando com a venda desse caminho para os outros — uma verdadeira pirâmide espiritual. Existe um tipo de linguagem de internet que pegou quatro palavras da psicologia clínica — narcisista, gaslighting, red flag e tóxico — e as transformou em ferramentas para diagnosticar e descartar qualquer pessoa que discordasse, patologizando seu próprio desconforto e chamando de "autocuidado" a velha arrogância de não aceitar a existência do outro. Há também o militante, independentemente da sua ideologia, que encontrou na sua causa o carinho definitivo para o ego, pois a causa proporciona, gratuitamente, a sensação de estar alinhado ao lado correto da História, sem necessidade de ser, de fato, uma pessoa digna — basta nutrir ódio pelos inimigos certos para se sentir uma espécie de santo. Quatro figuras, quatro fantasias, e sob elas, o mesmo esqueleto: o eu que se nega a ser apenas uma criatura e encontrou, na internet, um palco iluminado com um público disposto a pagar para sua própria divinização.
Comentei sobre os meus dez anos como estudante do professor Olavo e preciso destacar o que esses anos me ensinaram além do conhecimento acadêmico, pois foram lições sobre a própria humildade combativa que sempre defendi. Olavo era uma pessoa que se envolvia em brigas como poucas, usava palavras ofensivas, fazia chacotas, agredia com força, chamava os outros de imbecis, citando nomes e sobrenomes. Contudo, quando estava diante dos verdadeiros mestres da tradição, como Santo Tomás, Aristóteles e outros grandes pensadores, demonstrava uma humildade completa, ajoelhando-se no chão. Essa é a lição que aprendi: ser feroz com o charlatão e mostrar reverência ao sábio não são opostos, mas sim expressões da mesma virtude, apenas vestidas de maneiras diferentes. Aqueles que apenas enxergaram a agressividade dele e a imitavam como um estilo não compreenderam nada; acabaram se tornando apenas um ranzinza na internet, discutindo com estranhos. Por outro lado, quem conseguiu entender a estrutura percebeu que a ferocidade era verdadeira porque andava junto com a reverência. Afinal, quem sabe se curvar diante dos grandes tem o direito de se manter em pé diante de pequenos que se fazem passar por grandes. Eu dou continuidade à obra dele dentro das minhas possibilidades, no Círculo, e começo a escrever de forma mais dedicada em uma idade em que ainda estou longe de alcançar o que ele foi — e eu reconheço meu lugar na fila, viu, nem na frente nem atrás. Foi com ele que eu compreendi que não há incongruência entre a espada e o joelho, entre desferir um golpe no palhaço e solicitar ensinamento ao mestre.
E foi ao lecionar e estudar psicologia simultaneamente que consegui compreender boa parte do que relato aqui, pois a sala de aula é o microscópio mais sincero da alma humana que existe. Ao ensinar, você testemunha, de forma real e vibrante, o instante exato em que uma mente se abre e o momento em que uma mente se fecha, e aprende a diferenciar os dois com uma precisão que nenhum livro pode proporcionar. Observe o aluno que possui a vontade de aprender, que traz alegria ao ensinar, e perceba aquele que não busca o saber e ainda se ofende por você ter conhecimento — a semente da quarta camada brotando em um ambiente controlado. Observe o jovem que aparenta ter prazer em agir de forma ignorante, que demonstra uma escolha pela falta de inteligência. E, de vez em quando, muito raramente, você vê aquele que realmente tem sede de conhecimento; por esse, vale a pena suportar todos os outros. Foi nesse momento que eu percebi, na vivência e não apenas na teoria, que a ignorância do hexagrama não é uma simples falta de conhecimento, mas sim uma recusa deliberada de entender, um não querer saber, pois o conhecimento exigiria mudanças, e mudar causa desconforto, e o pequeno deus que se carrega no bolso não quer sentir dor, nem que seja um pouquinho. E foi naquele lugar que recebi um dos golpes mais duros da minha vida — não no ambiente escolar, mas no âmbito profissional, de colegas que se mostraram pessoas terríveis e me deram uma rasteira significativa — e aprendi na prática algo que o livro apenas toca superficialmente: que a prepotência não é uma simples falha intelectual charmosa em discussões, mas uma atitude que causa danos reais, que machuca pessoas de verdade, e que rir dela, como faço ao longo deste livro, é também uma maneira de não permitir que ela tenha a palavra final sobre mim. Tudo que eu sou — o gnosiólogo, como me defino, aquele que busca integrar filosofia, economia, sociologia, administração e ciências naturais em uma única compreensão da realidade — surgiu daquela mente simbólica que conecta cada ponto na teia infinita. Para mim, as disciplinas não são compartimentos isolados; são diferentes faces do mesmo poliedro. A visão simbólica é o que me permite girar esse poliedro e perceber que a lei da economia, a lei da alma, a lei da física e a lei da teologia ressoam, no fundo, a mesma estrutura. É a minha missão e o meu fardo: o fardo de ser incompreendido por aqueles que só pensam de forma limitada e chamam de "prepotente" alguém que pensa de maneira diferente; e a missão de poder proporcionar, para quem desejar, essa perspectiva que transforma uma série de fenômenos dispersos em um universo compreensível.
Eu maltratei tanto o amor doente que seria injusto não retratar o amor saudável, senão a sátira se torna apenas amargura, e a amargura é a arrogância de quem já desistiu. O amor verdadeiro se inicia precisamente onde a arrogância encontra uma barreira: no entendimento de que o outro é um universo que eu não controlo e que não pretendo controlar. Você se lembra dos dois por cento em três semanas? A verdadeira intimidade é a escolha de dedicar quase trinta anos que os cem por cento exigiriam, é a paciência de conhecer o outro lentamente, camada por camada, como uma cebola, ciente de que nunca se atinge o âmago e que é exatamente esse âmago inesgotável que mantém a paixão viva após a fase inicial de novidade. O arrogante busca o caminho mais curto, deseja entender o outro rapidamente para poder dominar ou descartar; já o amante acolhe o mistério e se permite repousar nele. Amar é abrir mão da expectativa de ter o outro completamente compreendido, como um GPS. É substituir a certeza acomodada pela incessante descoberta — e por isso o amor é uma ascensão que cria laços: é sair do próprio mundinho, reconhecer que existe um universo que não gira em torno do seu umbigo, e orbitar esse universo ao invés de exigir que ele gire ao seu redor. E o cortejo, essa expressão artística que a atuação da indiferença eliminou de maneira brutal, é a cerimônia desse reconhecimento. Cortejar é demonstrar, por meio de atitudes, "eu te enxergo como alguém que merece o meu empenho", e por isso requer uma disposição para se expor, demandando que a parte passiva tenha coragem de se oferecer sem uma garantia formal. O que a nova geração considera fraqueza — chegar, se manifestar e insistir com dignidade, sempre respeitando o outro — é, na verdade, o ato mais corajoso que pode existir no campo dos afetos, pois significa arriscar tudo sem ter a certeza do resultado. E o amor verdadeiro, com sua identificação e definição, distante de ser a jaula que a cultura do "quase" retrata, é a única liberdade autêntica no amor, pois é somente dentro do compromisso que o outro pode se desarmar completamente e deixar de atuar. A incerteza que se disfarça de liberdade é, na verdade, uma prisão; o compromisso que aparenta ser uma prisão é, de fato, a liberdade. Preste atenção — ou melhor, compreenda, pois é simples: somente quem possui um lar fixo dorme descalço.
É necessário esclarecer uma confusão que o nosso tempo elevou a um dogma: a ideia de que toda hierarquia é opressiva e que toda autoridade é sinônimo de autoritarismo. São elementos antagônicos, e a fusão deles representou uma das conquistas mais significativas do ralo. Uma hierarquia saudável é a estrutura sagrada da realidade: o mestre está acima do aprendiz por possuir mais conhecimento, o pai está acima do filho por ter vindo antes e ser responsável por ele, o cirurgião se posiciona acima do paciente no momento da cirurgia — e essa hierarquia não diminui ninguém, ela organiza, atribui a cada um seu espaço, e é nesse contexto que o aprendiz se torna mestre e o filho amadurece. O autoritarismo é a distorção dessa ideia: é o poder exercido sem legitimidade, é impor ordens sem o direito de fazê-lo, é a imposição violenta ocupando o lugar que deveria ser ocupado pela competência. A confusão contemporânea, ao derrubar todas as hierarquias em nome da igualdade, não eliminou nenhuma forma de opressão — apenas substituiu a autoridade legítima do mestre pela tirania ilegítima daquele que mais grita, do mais popular, do mais favorecido pelo algoritmo. Porque a hierarquia não desaparece, apenas se transforma: derruba-se a do sábio e eleva-se a do demagogo; derruba-se a do pai e eleva-se a do mercado; derruba-se a de Deus e eleva-se o próprio ego de cada um. A questão nunca foi se devemos ter ou não hierarquia — mas sim se ela vai representar a verdadeira ordem das coisas ou a confusão resultante da soberania arrogante. E eu prefiro, sem hesitar, me submeter ao que realmente é superior a ser comandado por quem apenas falou mais alto no microfone.
Há uma dimensão que permeia tudo isso e que quase ninguém associa à prepotência, mas que a minha mente simbólica conecta imediatamente: a beleza. Pois a catábase não resulta apenas em erro moral e ignorância — gera também feiura, e a feiura de nossa época é um sintoma, não uma coincidência. Perceba: à medida que a cultura tornou tudo relativo e subjetivo, ela também deixou de lado a habilidade de criar o belo, passando a gerar o feio com intenção, o disforme com orgulho, a arte que se esforça para não ser bonita, o edifício que se assemelha a uma caixa de sapato de concreto, a música que se resume a barulho de construção. Não se trata de uma mera coincidência, mas sim de uma consequência: a beleza é objetiva, possui leis, proporções e harmonia, indicando algo que está além de quem observa — e uma época que não aceita nada acima do eu não aceita a beleza, pois a beleza a rebaixa, a beleza afirma "há uma ordem que você não criou e à qual deve se submeter, sua insignificância". Assim, a época eliminou a beleza da mesma forma que fez com a verdade e o bem, pelos mesmos fundamentos, e o resultado são as cidades sem charme, a arte sem atrativos e a música ambiente. E a conclusão é a mesma de sempre: a verdadeira arte, a apreciação do que é belo, é uma elevação; é o olhar erguido de volta para o céu após uma vida inteira em que o consumo nos faz focar nas prateleiras. Criar o belo, nos dias de hoje, é um gesto de rebeldia; apreciar o belo é um ato de cura.
A economia, que eu já mencionei como a essência convertida em moeda, apresenta a mesma base quando se aplica ao cotidiano. O consumismo representa a desintegração do desejo por bens materiais: da mesma forma que o relativista desfaz a verdade, o consumista desfaz sua própria satisfação em um fluxo interminável de anseios sem nunca alcançar, pois o sistema percebeu que um cliente satisfeito não realiza compras e começou a comercializar uma insatisfação constante disfarçada de "estilo de vida". É a espaguetificação do desejo: estendido até o infinito, jamais satisfeito, sempre direcionado para a próxima coisa, em um dreno que consome todo o salário e devolve o vazio com frete grátis. A inflação, que é um tema amplamente discutido sem que haja um real entendimento sobre ele, pode ser comparada à ideia de relativismo aplicada ao valor. Da mesma forma que relativizar a verdade resulta na criação de "verdades" sem fundamento, fazendo com que nenhuma tenha valor algum, inflacionar a moeda é como criar dinheiro sem respaldo, levando a que nenhum tenha valor. Trata-se da subjetivação do valor, com o Estado assumindo uma posição de autoridade, determinando por meio de decretos o preço das coisas, ignorando a dura realidade da escassez, e colhendo, assim como qualquer pequeno "deus" que tenta desafiar as leis do real, a miséria de quem desafia a estrutura do que é fato. O dinheiro, na essência, representa um símbolo — é a promessa sólida de valor — e quando esse símbolo se corrompe, perdendo seu lastro, a confiança se extingue. Sem confiança, não existe sociedade; o que se tem é cada um lutando contra o outro. Até no bolso o hexagrama cobra pedágio: quem desconsidera o valor acaba enfrentando a inflação, quem minimiza a verdade se depara com a mentira, e quem relativiza o amor acaba colhendo a solidão de dormir abraçado ao travesseiro.
E a humildade, que é a solução para tudo isso, não vou deixar apenas como uma expressão agradável de um quadrinho motivacional, porque palavras bonitas não curam ninguém. Humildade, na prática, consiste em uma série de gestos concretos e cotidianos, sendo o primeiro deles a frase mais transformadora que existe em uma época de ídolos de papel: "não sei, vou investigar". Afirmar isso elimina, de uma só vez, as duas doenças gêmeas — a certeza inabalável, que reconhece a própria ignorância, e a dúvida improdutiva, que se abre à investigação, ou seja, acredita que ainda tem algo a descobrir. Humildade é, diariamente, abaixar a cabeça perante aqueles que possuem mais conhecimento, mesmo que isso machuque o orgulho, e manter a cabeça erguida diante de quem deseja te rebaixar sem ter o direito para isso, mesmo que isso comprometa a serenidade. É aceitar a correção sem interpretá-la como uma invasão, é solicitar conselhos sem achar que isso diminui você, é conviver com aqueles que pensam de maneira diferente, ao invés de fechar-se para o mundo e viver em uma bolha. E, no cerne de tudo, é um ato que se repete diariamente: eliminar o deuzinho de bolso, esse sujeito que retorna todo dia desejando um mundo com a sua própria imagem, e a recusa, dia após dia, de acender uma vela para ele. Ninguém elimina seu próprio ídolo de uma vez só, pois ele é feito da substância mais valiosa que há, que é o próprio reflexo; vai-se matando um pouco a cada dia, nas pequenas escolhas de admitir um erro, de aceitar uma limitação, de servir ao invés de governar. A ascensão não é um salto grandioso como nos filmes; é uma escada cansativa, onde se sobe passo a passo, na pequena moeda dos gestos simples do cotidiano. A diferença entre quem avança e quem cai não está no tamanho do passo, mas sim na direção que ele toma.
Se a prepotência é algo que se constrói, é pertinente questionar onde se localiza essa construção, e essa construção se inicia desde o berço, na educação e formação. Eu já citei o exemplo do meu pai, que observou a minha mente ligando manga a punheta e me ofereceu a alquimia para organizar o caos, ao invés de me permitir me tornar um maluco de rua — e isso representa uma maneira de educar que FORMATURA em vez de apenas inflar. O pai ideal é aquele que apresenta ao filho a realidade de maneira equilibrada: reconhece os acertos, orienta em relação aos erros e não ilude ao afirmar que cada desenho do garoto é uma obra-prima, pois compreende que enganar dessa forma apenas está preparando uma criança arrogante para a vida. O pai que supervaloriza é o oposto: vê o filho como um gênio apenas por existir, nunca se opõe, nunca frustra, dá o celular para a criança parar de gritar no restaurante e, mesmo com as melhores intenções, cria um pequeno "deus" que vai desmoronar como um castelo de areia no primeiro contato com um mundo que não o considera genial. A frustração na medida certa não é uma forma de crueldade com a criança; é um meio de proteção. É o que ensina, desde cedo e de forma suave, que o mundo não gira em torno dela, que ela está na fila e não no pedestal — e essa lição, transmitida com carinho na infância, evita uma vida inteira de arrogância depois. Uma geração que foi criada sem passar por frustrações, blindada de qualquer negativa e elogiada até por simplesmente existir, se transforma em pequenos deuses de bolso que estão prestes a se deparar com a realidade. Essa colisão, que foi postergada por uma criação permissiva, chega mais tarde, de forma mais severa, quando já não há um pai para suavizar o impacto.
E, já que menciono formação, é essencial trazer à tona a amizade, pois deixei um grupo que não valia a pena e alguém pode interpretar isso como desdém pela amizade — mas a realidade é a oposta; eu valorizo tanto a amizade que não considero amizade aquilo que se assemelha a estábulo. Um verdadeiro amigo é aquele que grita "BURACO!" Quando te observa caminhando com os olhos fechados em direção ao buraco, é aquilo que te confronta com a verdade para te ajudar a se curar, é o que coloca sua própria raiva em risco para evitar a sua queda — como eu fiz com o amigo que vivia iludido, dizendo diretamente a ele que era o plano C e suportando a ira dele até que ele começasse a entender. O que a cultura costuma denominar amizade, muitas vezes, é apenas uma cumplicidade educada: o "amigo" que apenas concorda, que sempre valida, que nunca discorda, que vê você cometer erros e ainda assim aplaude para não perder a companhia durante a cerveja. Esse não é um amigo, é um grupo de apoiadores e é exatamente isso que o pequeno deus deseja. Uma verdadeira amizade envolve desentendimentos, brigas e a coragem de gerar desconforto; já a amizade falsa é feita apenas do aconchego superficial da aprovação. E é por essa razão que o arrogante apenas mantém amizades superficiais: a amizade genuína exigiria que ele suportasse ser contrariado, e suportar essa contrariedade é exatamente o que ele não consegue lidar. Ele se rodeia de bajuladores e os considera amigos, mas quando um deles tem a audácia de discordá-lo, ele expulsa o infeliz como se fosse um corpo estranho — e acaba, no final, rodeado de pessoas e completamente solitário, que é a solidão mais repleta e mais vazia que há, a solidão de uma festa cheia.
Há um remédio antigo contra a arrogância, que nossos tempos deixaram de lado exatamente porque era muito eficaz: a consciência da morte. Os antigos cultivavam o memento mori, a prática de recordar diariamente que a morte é inevitável. Essa reflexão não era considerada sombria, mas sim terapêutica, pois a consciência de que somos mortais e que nossos bens se degradarão assim como qualquer um, pode desinflar rapidamente o ego e a avareza. Aprendi isso desde cedo e de forma intensa, ao ver meu primo ser esquecido apenas duas semanas após sua morte. Essa percepção — a de que a vida continua em uma semana mesmo se você desaparecer — é o antídoto mais poderoso que existe contra a tendência de se colocar em um pedestal. Pois o deusinho de bolso existe na ilusão de sua própria importância ilimitada, e a morte é o fato contundente que estoura essa bolha de uma vez por todas: você vai morrer, será esquecido pela maioria, e o universo não fará nem uma pausa. A nossa época relegou a morte aos hospitais, ao tabu, longe do olhar, e ao fazer isso, removeu o freio mais eficiente da soberania — uma cultura que oculta a morte é uma cultura que alimenta a ilusão da eternidade, e essa ilusão de eternidade é o fertilizante da arrogância. Recordar que a morte é inevitável não traz desânimo para quem está em pleno vigor; ao contrário, liberta. Isso acontece porque aquele que aceita sua própria finitude deixa de esperar do mundo uma reverência que somente um deus mereceria e começa a valorizar cada dia como um grande presente, desproporcional, para quem tem consciência de que a conta, um dia, irá chegar.
Há uma virtude que é o oposto exato da prepotência, tão precisa que, onde uma se encontra, a outra não pode existir: a gratidão. A pessoa prepotente é incapaz de expressar gratidão, e isso não ocorre por maldade, mas por uma lógica interna — a gratidão implica em reconhecer uma dependência, em aceitar que recebeu algo que não gerou, que deve a outro o que possui, e essa figura que se acha superior não pode se permitir dever nada a ninguém, pois isso comprometeria a ilusão de autossuficiência que mantém. Dessa forma, o soberbo é, na verdade, um ingrato por natureza: ele se apropria de tudo que deu certo e culpa o mundo por tudo que deu errado, numa espécie de cálculo em que ele é sempre o ganhador e nunca o perdedor, o caloteiro do universo. A gratidão é justamente o inverso: é perceber que quase tudo que sou veio de fora — a vida que eu não construí, a língua que eu não criei, o pão que outros cultivaram, a fé que outros me ensinaram, os mestres que me educaram. Ser grato é reconhecer essa rede de obrigações e descansar nela sem se envergonhar, e isso é uma verdadeira elevação. Sinto uma profunda gratidão pelo meu pai, que moldou minha mente com sua alquimia; sou grato aos meus mestres e até mesmo à solidão que contribuiu para minha formação. Essa gratidão não me torna menor, mas me posiciona, me coloca no meu espaço na fila, que é o único lugar de onde se pode, de fato, expressar um sincero agradecimento.
No cerne de tudo, a prepotência se revela uma forma de covardia, e afirmo isso claramente, pois é algo contraintuitivo e de grande relevância. Parece que é o oposto — o arrogante aparenta ser corajoso, determinado, no controle da situação —, mas isso não passa de uma fachada de papelão, pois a verdadeira coragem reside em se expor, em reconhecer que não sabe, em se arriscar ao não, em pedir "me ensina", em amar sem certezas, e nada disso o arrogante faz. Ele se fecha em sua bolha por temer o que há fora dela; critica para não ser criticado; superestima a si mesmo para não notar suas fragilidades; finge indiferência porque sente medo de se expor; manipula os outros porque não tem coragem de enfrentar um encontro sincero onde possa ser rejeitado. Cada ato de prepotência é, na verdade, uma manifestação de medo disfarçada de poder. A humildade, que à primeira vista pode ser vista como a virtude dos fracos, na verdade se revela como a virtude dos valentes, pois requer coragem para baixar a guarda, admitir os próprios erros, se expor ao não e reconhecer a grandeza de algo que nos faz sentir pequenos. Afirmar "não sei" é mais corajoso do que simular que tem conhecimento; solicitar uma orientação é mais ousado do que rejeitar; chegar e se manifestar é mais valente do que agir com desinteresse, braços cruzados. A fila do pão é o espaço dos destemidos, pois exige que se aceite, sem disfarces, a própria dimensão verdadeira — e reconhecer a própria dimensão verdadeira é a tarefa que demanda mais coragem no mundo, muito mais do que se enlarguecer até uma medida falsa na qual nem mesmo o próprio arrogante, lá no fundo, acredita.
A prepotência apresenta um sinal na fala que a revela antes de qualquer coisa, e eu, que raciocino através de símbolos e palavras, desenvolvi a habilidade de ouvir mesmo à distância. O prepotente prejudica a língua de uma forma particular: substitui o argumento pelo adjetivo. Lembra daquela pessoa que, incapaz de argumentar sobre Kant, só conseguiu murmurar "não, Kant é incrível"? Pois "incrível" ali não é uma palavra, mas sim uma bandeira branca tingida de entusiasmo. Quando a argumentação é escassa, os adjetivos proliferam, e esses adjetivos vazios — "incrível", "fantástico", "surreal", "icônico", "um absurdo" — funcionam como o curativo que o arrogante coloca sobre a ferida da falta de conteúdo. A forma como ele se expressa é exagerada, assim como seu ego: tem muitos superlativos, mas pouca substância, muita ênfase e nenhum conteúdo. E o jargão representa o outro lado da mesma moeda: o arrogante se oculta por trás de palavras complicadas que ele mesmo não compreende, utiliza o termo técnico como se fosse um crachá de segurança, para intimidar em vez de explicar, pois a função do jargão em sua boca não é comunicar, mas sim criar um afastamento, é como se ele estivesse gritando "eu sei coisas que você não sabe" sem jamais ter que comprovar. A linguagem sincera age de maneira contrária: busca ser compreendida, adapta-se ao nível do ouvinte, utiliza termos complexos apenas quando realmente necessário e fornece explicações. Clareza é sinônimo de humildade; a falta de clareza nos objetivos é um sinal de arrogância. Por isso, os maiores mestres costumam ser os mais claros — pois não têm nada a esconder, não precisam intimidar ninguém, desejam que você compreenda. Aqueles que querem que você entenda já se colocam, através de seus gestos, a seu serviço, e não acima de você.
Uma das três substâncias que o ralo é capaz de dissolver é a carne, e aqui o nosso tempo pode ter penetrado mais fundo do que em qualquer outra coisa. A carne, neste contexto, representa o corpo e os desejos, e há duas falhas opostas em relação a ela, duas maneiras de errar que se consideram rivais, mas que na verdade são irmãos de sangue. Um dos conceitos é o hedonismo, que eleva a carne a uma divindade, transformando o prazer em um deus e o apetite em uma lei, dissolvendo a essência do indivíduo na incessante busca por uma satisfação que nunca é alcançada — trata-se de um consumismo voltado para o próprio corpo, uma espaguetificação pelo prazer, o sujeito que se envolve sexualmente com muitas pessoas e permanece na mesma solidão, que se entrega à comida, mas ainda assim se sente faminto. A perspectiva budista que critico é a que tende a desvalorizar a carne, buscando eliminá-la, tratando o corpo como uma prisão da qual devemos nos libertar. E o cristianismo, mais uma vez, acerta precisamente onde ambos erram: a carne não é um deus nem um demônio, é uma criatura, é boa como tudo que foi criado, mas deve ser ordenada, estruturada e guiada, não adorada nem maltratada. A disciplina do corpo — o jejum, o controle do apetite, o treinamento, o zelo — não é aversão à carne, mas sim um amor bem direcionado a ela. É enxergar o corpo como um cavalo que se monta e se orienta, e não como um ídolo a ser adorado ou como um inimigo a ser derrotado à força. E observe: a dificuldade atual de dizer não aos próprios desejos é a mesma dificuldade de dizer não em diversas outras situações. Aqueles que não conseguem dizer não a um docinho são aqueles que não conseguem resistir a um impulso de desejo; é o mesmo diablinho que se instala no bolso e que não aceita nenhum tipo de limitação, seja externa ou interna. A gula, a luxúria desenfreada, o vício — são manifestações de poder no domínio do corpo, onde o eu se recusa a reconhecer que até mesmo o próprio corpo deve seguir uma certa ordem à qual deve se submeter.
Eu critiquei bastante a ideia de atalhos no coaching, e o oposto de um atalho é o trabalho árduo, o ofício, a habilidade adquirida ao longo do tempo, e isso merece reconhecimento, pois é uma trajetória que se torna uma profissão. O artesão, a pessoa que realmente domina um ofício, que dedicou anos para aprender a realizar algo com excelência, é o oposto completo do coach: enquanto o coach oferece um atalho que não possui, o artesão construiu o trajeto que percorreu com muita dedicação e esforço. E há uma humildade intrínseca em qualquer ofício autêntico, pois o trabalho te coloca em contato com a verdade constantemente — a madeira não se submete à sua vontade, o cálculo não se ajusta às suas opiniões, o motor não funciona simplesmente porque você decidiu que funcionaria, e o texto não se torna bom apenas porque você acredita que está bom. Toda habilidade verdadeira é um extenso aprendizado de humildade, pois é uma série de lições duras que a realidade te impõe até que você aprenda a respeitá-la. Assim, aquele que realmente domina uma habilidade costuma ser mais humilde do que o comentarista da internet: encarou a realidade o bastante para formar um bom discernimento. A pessoa arrogante, que evita o trabalho duro e prefere soluções fáceis, nunca aprende com a realidade que ensina, e por isso nunca desenvolve a humildade que o trabalho proporciona — permanece na posição de quem dá opiniões, daquele que acredita saber de tudo, mas não tem habilidades em nada, o torcedor que critica o treinador que, ao menos, esteve no campo.
E todo esse contexto possui um toque brasileiro, e eu seria injusto se não mencionasse o Brasil, pois a soberania global adquire, aqui, um sotaque único e afetuoso. O maquiavélico de boteco que mencionei possui, no Brasil, um apelido carinhoso: o malandro, o soberano do jeitinho, aquele que sempre tira proveito da situação e considera isso uma demonstração de esperteza. A nossa cultura idealizou o malandro, colocando-o nas músicas, no samba, nas novelas, convertendo a desonestidade em arte e a esperteza em sabedoria de bar. O jeitinho é a versão popular e acessível do maquiavelismo: a crença de que seguir regras é coisa de otário, que quem é esperto é aquele que pula a fila, e que o que importa é o que traz benefício pra mim, sem se importar com os outros que estão na fila. A cordialidade brasileira, apreciada pelos estrangeiros como um charme, possui um lado obscuro que já foi destacado por nossos próprios pensadores: ela dissocia o que é público do que é privado, encarando a lei como algo que pode ser negociado entre amigos durante um churrasco. Por essa razão, ela se relaciona de forma tão complicada com a impessoalidade que a justiça demanda. Não se pode dizer que o brasileiro seja inferior a outros povos — cada nação possui sua própria forma de fazer frente ao mesmo problema —, o que acontece é que a nossa versão oculta a arrogância sob uma máscara de simpatia, e essa dissimulação amigável é bem mais complicada de enfrentar do que a antipatia, pois ninguém quer ser a pessoa desagradável que interrompe a alegria ao revelar que aquele sujeito carismático é, na verdade, apenas um arrogante de chinelo e samba ao fundo. Eu aponto dessa forma, pois a simpatia pela trapaça não torna a trapaça menos trapaça, e uma cultura que valoriza o malandro acaba, sem perceber, ensinando seus filhos a se tornarem "deuzinhos" com dinheiro na mão e usando Havaianas.
E eu retorno, para concluir esta parte, ao que me moldou, pois existe um princípio geral por trás da minha trajetória que se aplica a todos. O sofrimento é como uma forja, mas de dupla direção: não há automaticamente uma melhoria nas pessoas, ele apenas potencializa o que cada um decide fazer com essa experiência. O mesmo fundo de poço que me deu força pode arruinar outro, e a diferença não está na profundidade do poço, mas sim no caminho que a pessoa escolhe seguir lá dentro. É por isso que o excesso de conforto é arriscado: uma vida sem desafios é uma vida sem a experiência que gera humildade. Não é por acaso que a arrogância prospera mais em ambientes tranquilos, onde nunca se enfrentou dificuldades suficientes para entender as próprias limitações. A adversidade enfrentada de forma adequada ensina a lição da fila do pão de uma maneira que nenhum livro é capaz, pois demonstra na prática que você não tem controle sobre o mundo, que sua condição é modesta, que você depende dos outros e que está suscetível a quedas. Entretanto, a mesma adversidade, quando mal enfrentada, gera o desespero, que é a prepotência invertida. Portanto, o sofrimento não oferece garantias — é apenas a chance mais profunda de optar entre a descida e a subida. Eu tive a felicidade de optar pela subida e escrevo exatamente para mostrar a quem está no fundo que essa escolha ainda está disponível, por mais profundo que seja o poço.
Há um vício do nosso tempo que está intimamente ligado à prepotência e que eu ainda não consegui enfrentar de maneira decisiva: a pressa. A cultura do imediato, dos stories que desaparecem em 24 horas, dos vídeos de quinze segundos, da entrega em uma hora sob pena de ser gratuita, gerou uma impaciência metafísica, uma dificuldade de esperar que contamina tudo aquilo que de bom só se desenvolve lentamente. Quase tudo que tem valor se desenvolve lentamente: a sabedoria, a intimidade, a competência, a fé, a cicatrização de uma ferida. O prepotente é alguém que vive na pressa constante — deseja entender o outro em apenas dois dias, dominar um tema em seis livros, alcançar o sucesso por meio de um caminho rápido de coaching, e ter sempre a razão antes de ouvir o argumento completo. A impaciência é a arrogância diante do tempo: é o eu que não se conforma com o ritmo da realidade, que demanda que as coisas se desenvolvam na velocidade de sua vontade e não na cadência natural delas. E a realidade, insistente como uma mula, nos ensina: aquilo que se tenta amadurecer antes do tempo acaba se estragando, o amor que é apressado se torna ilusão, o conhecimento que vem de forma apressada se transforma em mero achismo, e a manga verde que é colhida para amadurecer mais rápido acaba ficando azeda. A paciência, que a nossa sociedade descarta como lentidão de quem ficou para trás, é na verdade uma manifestação de humildade — é reconhecer que não tenho controle sobre o tempo das situações. Aquele que aprende a esperar adquiriu a habilidade de identificar um limite além de sua própria vontade, e reconhecer esse limite é, afinal, tudo o que este livro solicita.
Das três coisas que o ralo dissolve, já abordei o diabo ao longo do livro e a carne há pouco; resta o mundo, e por "mundo" a tradição não se refere ao planeta, mas à mundanidade, ao espírito do mundo, à postura de quem transforma as coisas terrenas em seu lar. O mundano não é, necessariamente, o devasso de boate; muitas vezes, é a pessoa respeitável, bem-sucedida, educada, com um bom carro e um bom relógio, que estruturou toda a sua vida em torno de bens que são passageiros — o status, a aprovação, o dinheiro, a carreira, a imagem no LinkedIn — e que, ao priorizar essas coisas, perdeu de vista o que realmente importa. A mundanidade é a queda dos que seguem as regras: não é o escandaloso desvio do vício, mas a queda sutil de quem transformou o penúltimo em último, o meio em fim, e a prateleira em céu. E é a mais desafiadora de identificar exatamente porque não aparenta ser uma queda — parece um sucesso, parece uma vida confortável, parece a capa de uma revista de negócios. O cotidiano revela um pequeno deus disfarçado com sutileza: não é o ego ostentoso, mas sim o ego discreto da respeitabilidade, o eu que se ama por meio das posses que conquistou e dos elogios que recebe. O remédio é o mesmo que o memento mori: nada do que se acúmulo neste mundo passa pela porta da morte — tudo permanece, tudo se divide na inventariança, tudo é esquecido, e o que ele referia como "vida inteira" não passava de um arranjo valioso de bens que não valiam a alma que ele gastou para obter.
Como sou tomista de formação, permitam-me compartilhar algumas reflexões sobre fé e razão. Acredito que nossa época cometeu enganos em ambas as áreas, e esses equívocos têm uma raiz comum: a prepotência. De um lado, está o racionalista que idolatra sua própria razão, acreditando que o que sua mente não consegue compreender não existe. Ele transforma sua inteligência restrita na medida de toda a realidade — um verdadeiro "deus de bolso" em forma intelectual, elevando a razão humana como o critério supremo do universo. Por outro lado, o fideísta que desconsidera a razão, que acredita que pensar é uma ofensa, que contrapõe a fé à inteligência como se crer requeresse a ignorância — e este também é um orgulhoso, só que de maneira distinta, pois transforma a própria preguiça intelectual em uma qualidade e considera o esforço para compreender como uma falta de fé. O tomismo está correto ao optar por não escolher entre os dois: a fé e a razão não são opostas, são as duas asas com que a alma alça voo, e privar-se de uma delas condena o ser a arrastar-se com muletas pelo chão. A razão sem a fé se limita ao que é imediato e se torna a descida do Kant; a fé sem a razão se restringe à emoção e se transforma no fanatismo do líder espiritual desonesto. As duas, unidas de forma humilde, representam uma elevação — a razão modesta reconhece suas limitações e se abre ao que está além delas, enquanto a fé esclarecida se recusa a aceitar qualquer coisa apenas porque está envolta em um pacote de crença religiosa.
É necessário analisar a palavra mais sequestrada da atualidade, a bandeira que a soberania avança disfarçada de bondade: a liberdade. Foi vendida para a geração a ideia de que liberdade é não ter limites, é agir conforme a própria vontade, é não ter que dar satisfação a nada nem a ninguém, é o eu soberano sem restrições. Mas isso não é liberdade, é o "deuzinho" da moda fazendo o seu próprio manifesto político. A liberdade de verdade se apresenta como um conceito quase antagônico: trata-se da habilidade de praticar o bem, de se transformar naquilo que se deve ser, de concretizar a própria essência. O dependente não é livre, por mais que atue conforme sua vontade — ele é prisioneiro de seus desejos, guiado por um apetite que não consegue recusar; a sua liberdade é a mesma de um rio que desce ladeira abaixo, que na verdade não é liberdade alguma. A verdadeira liberdade é aquela que controla os próprios impulsos, que opta pelo bem mesmo contra os próprios desejos, que se organiza — e organizar-se exige reconhecer uma ordem, um dever, algo superior, exatamente o que o falso libertário rejeita de forma vehemente. Assim, a cultura da liberdade sem limites resulta, no final das contas, na mais profunda das escravidões: pessoas presas aos seus próprios desejos, a seus próprios impulsos, à sua própria imagem, incapazes de se negar, e chamando essa amarra de liberdade. A verdadeira liberdade é a aceitação de um limite; é livre aquele que não é mais escravo de si mesmo, e quem não é mais escravo de si é quem eliminou o seu "deus" interior que exigia obediência a todos os caprichos.
E existe, por trás de tudo, uma questão de honra, essa palavra que parece antiga e que descartamos junto com a vergonha. A honra é a lealdade a princípios que transcendem os interesses pessoais — à verdade, ao compromisso assumido, ao que é justo, mesmo quando mentir, trair ou agir de maneira injusta seria uma opção mais vantajosa. O homem de honra é o contrário do malandro: enquanto o malandro busca se beneficiar e se considera astuto, o homem de honra rejeita qualquer vantagem que comprometa sua integridade e se vê, apenas, como um ser humano. A vergonha, em seu sentido mais puro e verdadeiro, não se trata do constrangimento neurótico que as terapias modernas tentam tratar; é, na verdade, uma bússola moral que nos incomoda quando agimos de forma inferior ao que deveríamos, sendo um alerta interno de que estamos traindo nossa melhor essência. Uma sociedade que deixou de lado a vergonha saudável perdeu seu senso de direção, e por isso aceita tão facilmente o desrespeito, a fraude que é mostrada nas redes sociais, e a arrogância que se exibe com orgulho. O sem-vergonha, em seu sentido mais literal, é aquele que já não se incomoda ao cometer erros, que relativizou e subjetivizou até mesmo a sua consciência, que silenciou seu juiz interno e agora se sente livre para qualquer ação — e essa "liberdade", novamente, é a mais severa das escravidões, a de quem não possui mais nada dentro de si que o impeça de se tornar a pior versão de si mesmo.
Há uma ilustração medieval que aprecio muito e que resume perfeitamente a atitude adequada em relação ao passado: somos anões sobre os ombros de gigantes. O anão vê mais longe que o gigante, não por ser maior, mas porque está apoiado nos ombros de quem o precedeu. Essa é uma relação saudável com a tradição, e representa o contrário da arrogância geracional que acredita que a história do pensamento teve início ontem no TikTok. Aquele que se acha superior deseja deixar de lado a sabedoria acumulada ao longo dos séculos para tentar ver as coisas por conta própria e denomina isso de "pensamento independente" — mas, ao fazê-lo, ele na verdade tem uma visão menor, e não maior, pois renunciou à altura que vinte e cinco séculos de conhecimento e experiência tinham lhe proporcionado gratuitamente. A tradição não é a prisão que a modernidade alega; ela é a herança, o patrimônio acumulado da humanidade, a biblioteca deixada pelos que já partiram para que não precisemos redescobrir o fogo a cada geração. Ignorá-la não é uma forma de libertação, mas sim um empobrecimento deliberado — é como um herdeiro de uma grande fortuna que decide rasgar o testamento apenas para ter a satisfação vazia de recomeçar do zero, e realmente começa do zero, na miséria, tentando reinventar algo que já estava prontamente elaborado e guardado na gaveta. Essa herança se transmite apenas de uma maneira: do mestre para o discípulo, em uma relação que os tempos atuais também prejudicaram. Transmitir verdade não é o mesmo que transferir informação — a informação está disponível no Google, mas o Google nunca tornou ninguém sábio; apenas fez com que as pessoas acreditassem que sabem. Trata-se de uma relação pessoal, hierárquica de maneira positiva, onde o discípulo se posiciona abaixo do mestre não por servilismo, mas por entender que há algo a ser aprendido que só pode ser obtido com humildade e disposição. O estudante arrogante se aproxima do professor acreditando que já possui todo o conhecimento, pronto para apontar erros e demonstrar sua superioridade — e por isso não absorve nada, pois aquele que está pleno não tem espaço para adicionar o que lhe é ensinado. O verdadeiro discípulo chega com a mente aberta, não porque seja ignorante, mas pela sabedoria de entender que está ali para aprender.
Em oposição ao ruído do dissolvedor — esse conjunto de incertezas e incentivos que associei ao Choronzon — há uma arma que a nossa época quase esqueceu, e que pode ser a ascensão mais profunda de todas: o silêncio. A reflexão, o isolamento, a habilidade de permanecer em silêncio consigo mesmo sem precisar de um estímulo nas mãos. Observe que a cultura dos algoritmos é marcada por um ruído constante, uma verdadeira batalha contra o silêncio, já que este último representa uma ameaça ao sistema — no silêncio, a pessoa reflete, e ao refletir, pode perceber a prisão em que foi colocada. Assim, o bombardeio incessante faz com que ninguém consiga ficar parado por cinco minutos sem pegar o celular. O tédio se transformou em pânico, algo a ser evitado a todo custo: o barulho é a maneira de manter a distração. E o silêncio representa a resistência a isso. Aquele que consegue retomar a habilidade de permanecer em silêncio, de observar, de orar, de simplesmente existir sem a necessidade de consumir, resgata o espaço onde a alma se retrai e se organiza. Em um tempo em que há temor do silêncio, permanecer em tranquilidade é um ato de resistência e, talvez, a forma mais curativa que existe.
Eu me identifico como gnosiólogo, e por essa razão é necessário abordar a ciência com a cautela de alguém que a ama e observa o que fizeram dela. A ciência natural é uma das grandes conquistas do espírito humano, uma das maneiras mais belas de interpretar o livro da criação, e eu a venero. No entanto, há uma distorção nela que se revela, mais uma vez, como prepotência camuflada: o cientificismo, a ideia de que só existe aquilo que a ciência natural consegue medir, de que fora do laboratório não há saber, e que a metafísica, a teologia e a filosofia são meras divagações, pois não podem ser pesadas. Isso não se trata de ciência, mas sim de uma crença que ignora ser uma crença — uma fé rígida em suas próprias limitações, que confunde o alcance do método com a vastidão da realidade. A ciência quantifica aquilo que pode ser medido e o faz de maneira excepcional; o equívoco está em afirmar que o que não pode ser medido não existe, assim como a pessoa que, ao pescar com uma rede de buracos grandes, declara que não há peixes menores do que os buracos da rede. O cientificista eleva um método a um status quase sagrado, transforma uma ferramenta eficaz em uma espécie de divindade em miniatura, e, com a autoridade que lhe é concedida pela verdadeira ciência, decreta a não existência de tudo o que seu método não consegue abarcar. A ciência modesta reconhece suas limitações e se harmoniza com a filosofia e a fé, cada uma interpretando uma faceta da mesma realidade; a ciência arrogante deseja ser a única referência, e ao almejar esse papel exclusivo, abandona sua essência científica e se transforma em uma ideologia de jaleco.
E eu critiquei tanto a política doente que seria injusto não mencionar o que seria uma política saudável. A política do hexagrama é aquela que vê o oponente como um demônio, alimenta-se da indignação, promete um paraíso na Terra e, na verdade, entrega um inferno. Ela transforma o Estado em um deus que determina o valor das coisas em desacordo com a realidade. A política saudável é exatamente o contrário em todos os aspectos: trata-se de gerenciar de forma humilde o bem-estar coletivo dentro do que é viável, reconhecendo que nenhum governo pode criar um paraíso e que sua função é mais simples e genuína — assegurar a justiça, defender os vulneráveis, e preservar a ordem para que cada um possa buscar seu próprio benefício. A política saudável não promete mudar a essência humana, pois reconhece que isso é impossível; já a política doente faz essa promessa, e é justamente por prometer algo inalcançável que necessita da violência, uma vez que, quando o paraíso prometido não se concretiza, o que resta é culpar e punir aqueles que, supostamente, impedem essa realização. O político modesto se coloca à disposição; já o político do hexagrama exerce seu poder, tratando os governados como se fossem meros recursos para seu próprio projeto divino. E o cidadão não aguarda do Estado a salvação, não transfere para a política o peso que apenas o sentido e a fé podem sustentar, não transforma a bandeira em um substituto da alma — pois aqueles que fazem da política uma religião, na História, sempre colheram as piores religiões, que erguem fogueiras com a certeza de quem jurou não acreditar no fogo.
A prepotência, em essência, é uma enfermidade que se vive na solidão, pois o indivíduo arrogante não encontra par, apenas subservientes ou adversários. Dessa forma, a cura social para essa condição é a comunidade — não a massa, não o grupo de bajuladores, mas uma verdadeira coletividade de pessoas que se reconhecem como iguais em dignidade e diferentes em habilidades, e que se apoiam mutuamente. A fila do pão exemplifica bem isso: ninguém está sozinho na fila, todos aguardam a sua vez, todos recebem o pão, e aceitar o próprio lugar nela significa aceitar fazer parte de uma comunidade em vez de se sentir superior a ela, como uma divindade isolada. O individualismo presente em nossos dias, que aparenta ser antagônico ao coletivismo que enfrenta, na verdade é seu irmão gêmeo: ambos destroem a verdadeira comunidade, um aniquilando o indivíduo na coletividade, enquanto o outro aprisiona o indivíduo em seu próprio ego, e ambos geram a mesma solidão essencial. É para isso que serve o Círculo de Estudos do qual eu faço parte: não um grupo de pessoas se achando superiores, o que seria apenas arrogância em grupo, mas sim uma ajuda sincera de quem já enfrentou dificuldades para aqueles que ainda estão passando por elas. É um espaço onde não se julga ninguém e se busca auxiliar a todos a progredir, porque quem já conhece as adversidades tem a responsabilidade de indicar o caminho para quem está em busca de apoio. A dimensão social da humildade possui um nome antigo: compaixão, que significa, de forma literal, sofrer junto. O prepotente não consegue sentir compaixão genuína, pois a verdadeira compaixão exige que se desça ao nível do sofrimento alheio, e o seu egoísmo não permite isso. Ele observa de sua posição privilegiada e emite seu veredito: "Ele se ferrou porque quis", "Esse é um problema dele", "Eu jamais cairia nessa". A mesma arrogância que o impede de solicitar ajuda também o impede de oferecer, pois oferecer verdadeira assistência requer reconhecer-se, por um momento, igual àquele que caiu, feito da mesma matéria vulnerável. Eu aprendi sobre empatia no fundo do meu próprio poço, e por isso não lanço pedras em quem cai, seja o suicida, o viciado ou aquele que cometeu erros e se deu mal — porque quem esteve à beira do abismo reconhece o abismo no outro e entende que a diferença entre os dois muitas vezes foi apenas um golpe de sorte, uma mão que surgiu na hora certa.
E eu preciso voltar o olhar para mim mesmo por um momento, pois seria a maior hipocrisia escrever um livro inteiro contra a prepotência sem reconhecer a tentação particular de quem escreve um livro contra a prepotência. O intelectual possui um pequeno Deus de bolso bastante sofisticado: a vaidade do saber, o orgulho de conhecer, a satisfação de estar certo, a sedução de utilizar a inteligência não para servir à verdade, mas para se destacar, para rebaixar os outros e para se sentir superior àqueles que têm menos conhecimento. E essa pode ser a forma de arrogância mais arriscada, pois é a mais difícil de perceber — o arrogante comum se entrega facilmente, mas o arrogante intelectual consegue citar Santo Tomás enquanto comete o mesmo pecado de Lúcifer, prega a humildade com erudição e, ao mesmo tempo, se exibe ostentando seu conhecimento. Eu tenho consciência disso porque EU PERCEBO a tentação, e a sinto agora, enquanto escrevo isto: o desejo de impressionar, de parecer o mais inteligente do ambiente, de utilizar a minha inteligência como um troféu em vez de um instrumento de auxílio. A distinção entre a combatividade saudável que eu apoio e a vaidade que eu rejeito é bem sutil, como um fio de cabelo, e envolve uma questionamento que eu preciso me fazer constantemente: estou afirmando isso para servir à verdade e auxiliar quem lê, ou é apenas para me sentir superior a quem lê? A verdade nem sempre me favorece, e por essa razão eu preciso eliminar meu próprio "deusinho" de bolso todas as manhãs, assim como todos, e talvez até mais do que os outros, pois a fantasia que ele mais gosta é a do "sábio humilde", que é a mais enganadora de todas.
Há uma frase sobre retornar à infância que muitas pessoas interpretam de maneira equivocada, acreditando que se trata de um louvor à infantilidade, quando na verdade é uma verdadeira demonstração de humildade. A criança pequena, antes que a cultura a transforme em uma princesa, possui uma atitude que o adulto já não tem — ela reconhece que não sabe, faz perguntas sem constrangimento, admira sem sarcasmo, depende sem sentir-se humilhada, e acolhe o mundo com surpresa, ao contrário do tédio de quem já viu tudo nas redes sociais. Reverter à infância não significa ser ingênuo; é reaver a capacidade de se maravilhar, de cultivar a curiosidade genuína — é justamente o contrário daquela postura arrogante que se considera a última bolacha do pacote, que não se surpreende com nada porque acredita ser a máxima expressão do que existe, que não faz perguntas porque se julga totalmente preparado, que não se espanta por não querer admitir a existência de algo que o transcenda. O cínico, que se considera o adulto definitivo, é, na verdade, o mais imaturo, pois se trancou na atitude de quem já tem todas as respostas e parou de evoluir. A criança, que aparenta ser imatura, é na realidade a que continua a crescer exatamente por ainda se surpreender. Reaver o assombro diante do mundo — contemplar uma estrela, uma manga, um rosto, e se surpreender novamente com o milagre cotidiano de haver algo em vez de nada — é uma das maneiras mais genuínas de elevação, pois o assombro é o início da filosofia, afirmava o grego, e é também o início da adoração, que é o oposto da autodivinização. E considerando que eu enfatizo tanto a dieta da alma, vou explicar COMO se lê, pois não é suficiente apenas substituir o livrinho superficial por um livro mais espesso; é necessário saber assimilar o conteúdo. Ler de forma adequada não é apenas correr os olhos sobre as palavras para ter algo interessante para mencionar durante o jantar e aparentar erudição — isso é um tipo de leitura arrogante, que acumula frases como um troféu, mas nunca realmente compreendeu nenhuma delas. Ler bem é um combate próximo com o texto: é voltar, reler, fazer anotações, discordar e permitir que o autor tenha a oportunidade de responder; é permitir-se ser transformado pelo que se lê, em vez de usar a leitura para validar crenças já existentes. Aquele que é prepotente lê apenas para ter razão; já o humilde lê para entender onde erra, e é por isso que somente o humilde realmente aprende ao ler.
A dessacralização, que se encontra no centro do hexagrama, possui um nome que ainda não utilizei diretamente e que é fundamental para a minha interpretação simbólica: a perda do sagrado, o desencantamento. Existiu uma época em que o ser humano percebia o cosmos como um texto, onde cada elemento era um símbolo que apontava para além de si mesmo — o sol comunicava algo sobre Deus, o pão representava a providência, e todo o mundo era uma catedral que podia ser lida, na qual cada detalhe tinha um significado. O desencantamento foi o processo de eliminar essa interpretação, de reduzir tudo à sua função mais básica: o sol tornou-se uma esfera de gás, o pão transformou-se em calorias, o rei passou a ser um funcionário, e o mundo, que antes era uma catedral compreensível, converteu-se em um armazém de recursos a serem explorados. É a mesma catábase de sempre, apenas em uma perspectiva cósmica: assim como o relativista desfaz a verdade, o desencantado desintegra o sentido, permanecendo em um universo silencioso, composto por coisas que já não comunicam nada. O deuzinho de bolso adora o mundo desencantado, pois em um mundo sem um significado intrínseco, ele se sente livre para dar a cada coisa o sentido que desejar — se nada possui valor por si só, então sou eu quem determina o significado, e me torno, mais uma vez, o deus do meu pequeno mundo. O re-encantamento, que representa minha vocação de interpretar o mundo por meio de símbolos, é a ascensão cósmica: é redescobrir que cada elemento remete a algo além de si mesmo, que o cosmos é um texto que não redigi e que preciso aprender a decifrar com respeito, e não reescrever com presunção. E é por isso que a liturgia, a música sacra e o rito possuem a força que possuem, uma força que o nosso tempo não compreende: a liturgia estabelece uma ordem no tempo e no espaço, fazendo com que o corpo inteiro participe de algo que é maior do que ele mesmo, e nesse ato de se submeter há tanto humildade quanto elevação simultaneamente. Não é surpreendente que a cultura desencantada gera, em vez da música, o ruído, e em lugar da liturgia, o espetáculo: o ruído não cria nenhuma ordem, apenas provoca, e o espetáculo não eleva ninguém, apenas diverte o eu, reafirmando-o como o centro.
Eu comentei bastante sobre a misericórdia, mas preciso dizer algo sobre a justiça, pois os nossos dias misturam as duas e, ao fazer isso, comprometem ambas. A misericórdia sem justiça se transforma em um perdão automático que já critiquei, uma submissão da bondade; a justiça sem misericórdia se torna vingança, rigidez, e uma chama destrutiva. Ambas se complementam, e a sabedoria reside em conciliar, e não em optar por uma em detrimento da outra. A prepotência corrompe de duas maneiras distintas: pode se transformar no juiz implacável que sentencia todos a partir da própria superioridade, pois se deleita em julgar; ou pode se converter no relativista que não condena nada, não por bondade, mas porque eliminou seu próprio critério, e confunde tolerância com a falta de habilidade para diferenciar o certo do errado. A verdadeira justiça é humilde, pois se coloca sob um critério superior ao do juiz — existe um certo e um errado que eu não criei e aos quais também sou responsável —, e a verdadeira misericórdia é humilde porque admite que o réu poderia ser eu. Deixe-me trazer isso para a prática, pois um conceito sem ação se torna uma abstração, e eu procuro pensar em imagens. Pense no motorista que apita, ofende, ultrapassa, achando que seu destino é mais relevante que o de todos os outros veículos — é como se fosse um pequeno deus no volante. Pense no cliente que menospreza o garçom, que se dirige ao atendente de forma arrogante, transferindo sua frustração para quem é mais vulnerável — é a covardia da arrogância, que somente pisa em quem não tem como se defender. Pense naquele sujeito na reunião que não escuta ninguém, que já vem com a resposta pronta, que aproveita as perguntas dos outros apenas como uma pausa para recarregar seu próprio discurso — é a orgia intelectual de terno. Pense naquele comentarista anônimo que despeja ódio por trás de um perfil falso, valentão à distância, que nunca teria coragem de dizer pessoalmente o que escreve diante da tela — é o algoritmo gerando ousadia onde só existe temor. São situações cotidianas, que encontramos diariamente e nem percebemos, e é justamente por não percebê-las que se tornam perigosas: a arrogância se manifesta menos nos grandes vilões de novela e mais nessas pequenas atitudes de cada um de nós.
É importante levar tempo para apreciar as quatro figuras do hexagrama, pois cada uma delas representa uma imagem viva. Reconhecer cada figura em ação tem um valor muito maior do que mil definições. A prepotência, que associei a Lúcifer, representa o "eu não sirvo" — o anjo mais bonito da criação que optou por ser chefe no inferno em vez de ser empregado no céu, e que habita em cada um que prefere estar certo a ter tranquilidade. Percebe-se nela a necessidade de ter a última palavra, a dificuldade em pedir desculpas e a satisfação íntima de se sentir certa quando o outro comete um erro. A teimosia, que eu associei àquela obstinação de Astaroth, é a soberania já superada pela realidade que se recusa a reconhecer, o animal que se nega a avançar diante da evidência, o "que se dane, a opinião é minha" proferido após ter sofrido uma derrota. Reconheça essa situação em você mesmo na ocasião em que se deu conta, durante a discussão, de que estava equivocado, mas persistiu em defendê-lo apenas para não admitir a derrota — todos nós já passamos por isso, é Astaroth agindo. A preguiça, que eu associei a Belzebu, é a acédia, a falta de vontade de se esforçar para buscar a verdade — ela se manifesta no desejo de que alguém já apresente a conclusão pronta, para que você não precise ter o trabalho de refletir. E o ralo central, Choronzon, o dissolvedor, representa o ruído, a dúvida paralisante, o relativismo que desfoca os contornos de tudo — ele reconhece isso na exaustão de quem contemplou mil opiniões contraditórias e, por cansaço, chegou à conclusão de que nenhuma delas tem valor, que tudo resulta na mesma coisa, para que se esforçar? As quatro colaboram de maneira conjunta, em cada um de nós, diariamente, e denominá-las é o primeiro passo para não agir de forma automática. Há uma forma de prepotência que é a mais arriscada, pois se disfarça de virtude. O Evangelho retrata isso perfeitamente na figura do fariseu: o homem religioso, correto e cumpridor, que ora na esquina para ser notado e agradece a Deus por não ser como os demais. Esse é o pequeno deus do bolso na sua forma mais refinada, pois ele ergueu seu próprio orgulho com os tijolos da sua própria virtude: ele jejua, faz doações, cumpre a lei e utiliza tudo isso não para se aproximar de Deus, mas para se elevar acima dos demais. Não existe orgulho mais enganoso do que o orgulho de ser humilde, nem vaidade mais sutil do que a vaidade por ser virtuoso — essa é uma tentação para aqueles que trilham o caminho espiritual, inclusive para mim, por isso, faço esse alerta de dentro, e não de fora.
A irmã da prepotência é a inveja, e ela merece ser mencionada, pois é o veneno mais silencioso que existe. A inveja é a angústia provocada pelo sucesso alheio, o desconforto que a pessoa sente não por carecer de algo, mas porque o outro possui — e representa a prepotência em sua forma inversa: o arrogante não tolera ver ninguém em posição superior, e quando não consegue se elevar, tenta arrastar o outro para baixo, em uma atitude mesquinha. Por essa razão, a inveja é extremamente criativa na difamação, muito habilidosa em encontrar defeitos e ágil em menosprezar o mérito do próximo; ela não busca elevar a própria estatura, mas sim derrubar a do outro, pois, para o deuzinho de bolso, a presença de alguém superior é uma ofensa insuportável. A inveja é, na verdade, o impulso oculto por trás de grande parte da maldade social, muito mais do que costumamos reconhecer: é ela que alimenta a fofoca, o cancelamento, a torcida disfarçada pelo fracasso dos outros e a satisfação mesquinha diante da queda de quem conseguiu se destacar; frequentemente, isso tudo é apenas inveja disfarçada de "senso de justiça". O contrário dela não se resume apenas a não sentir inveja; é ser capaz de se alegrar genuinamente com as conquistas do outro, torcer pelo sucesso alheio como se fosse próprio — e essa alegria é uma das expressões mais raras e elevadas de humildade, pois demanda um eu tão em harmonia com sua própria essência que a grandeza do outro não representa uma ameaça, mas sim uma fonte de felicidade. E eu desejo encerrar essa etapa pela porta da esperança, pois seria covardia descrever toda essa trajetória de descida sem afirmar que a ascensão é verdadeira. Há uma palavra inventada pelo Tolkien que me agrada: eucatástrofe, a catástrofe boa, aquela reviravolta inesperada em que, quando tudo parecia desmoronar, a luz surge. É o contrário da catábase, e eu acredito nela não por um otimismo ingênuo — eu já testemunhei muitas coisas para ser ingênuo —, mas porque presenciei acontecer, tanto em mim quanto em outras pessoas. A parábola do filho pródigo é uma representação atemporal dessa mudança: o jovem que pediu a herança, desperdiçou tudo em festas, chegou ao ponto de comer com os porcos, atingiu seu limite — e então "caiu em si", que é a expressão mais apropriada para essa ascensão, pois retornar a si mesmo é reencontrar a verdade sobre a própria essência. E ele se levantou, voltou determinado a ser o último dos empregados, e foi recebido como um filho, com celebração, pois o pai o aguardava o tempo todo na janela. Esta é a essência da esperança que eu apresento: não a de que nunca tropeçamos, pois todos nós tropeçamos, mas a de que, por mais profundo que seja o abismo, sempre existe a possibilidade de cair, se erguer e recomeçar — e que, do lado de fora da prisão cuja chave sempre esteve em nosso poder, há alguém que aguarda.
No frontão do templo de Delfos estava gravado o mandamento mais desafiador de todos, ainda mais desafiador que amar o próximo, pois é a base para isso: conhece-te a ti mesmo. A pessoa que você menos conhece neste mundo é você mesmo, pois é de você que tem mais medo de descobrir a verdade. São sobre você que mantém as ilusões mais valiosas e é a sua própria imagem que mais modifica no Photoshop antes de observar. O prepotente é uma pessoa que não se conhece: possui uma imagem exageradamente positiva de si mesmo, que confunde com a própria essência, e passa a vida inteira tentando proteger essa imagem de qualquer prova que a desminta. Por isso não tolera críticas — a crítica coloca em risco sua imagem —, por isso projeta no outro os seus próprios defeitos, por isso se rodeia de aduladores que confirmam essa imagem. Conhecer-se de verdade requer a coragem de desfazer o autorretrato enganador e encarar a realidade sem disfarces, com todos os defeitos expostos, e isso dói tanto que a maioria opta por uma vida inteira de ilusões a encarar a dura verdade refletida no espelho. Entretanto, esse é o único início viável da humildade, pois não é possível aceitar a própria dimensão verdadeira sem antes ter a coragem de avaliá-la, e essa avaliação não pode acontecer enquanto se protege uma dimensão ilusória. E eu sou a favor da luta de ideias, por isso é importante fazer a distinção entre a ira justa e a ira do arrogante, pois ambas são intensas e, à distância, podem parecer semelhantes. Há uma raiva justa, uma indignação que é uma virtude — aquela que arde diante da injustiça, da crueldade com os mais fracos e da mentira que destrói. Essa indignação é positiva, é o amor ardente, e quem não experimenta isso frente ao verdadeiro mal não é pacato, é alguém que está morto por dentro. Entretanto, existe outra forma de raiva, a do indivíduo arrogante, que não é acesa pela injustiça, mas sim pela ofensa ao seu próprio orgulho. Essa raiva não se volta contra o mal, mas sim contra aqueles que o desafiaram. A distinção está no objeto: a ira santa se indigna com o mal praticado contra o outro; já a ira soberba se indigna com a falta de respeito direcionada a si mesmo. O teste é direto e rigoroso: sua raiva queimaria da mesma forma se a mesma injustiça ocorresse com um estranho, ou apenas se acende quando você é o afetado? Se só arde por você, não é revolta, é orgulho em combustão.
Eu dediquei o livro todo a confrontar o isolamento da bolha, e é possível que algumas pessoas estranhem isso vindo de alguém que passou anos em solidão e que opta por ter poucos amigos. Permita-me esclarecer, pois existem duas solidões opostas que a mesma palavra oculta. Há o isolamento, a solidão doente do arrogante enclausurado em sua bolha, rodeado de espelhos, fugindo do outro porque este representa uma ameaça ao seu pequeno mundo — a solidão da orgia intelectual, repleta de confirmação e desprovida de verdade. Há também a solidão produtiva, aquele momento de introspecção, estar sozinho que não significa se afastar dos outros, mas sim fazer as pazes consigo mesmo e com o divino, a solidão do deserto onde os profetas escutaram a voz de Deus, a solidão do aprendizado onde a alma se aprofunda. A primeira evita o combate; a segunda anseia pela tranquilidade. A solidão que me moldou foi da segunda espécie, ou pelo menos assim eu a transformei, quando poderia ter me tornado a primeira. Em vez de me enclausurar em um pequeno mundo de confirmações, utilizei o deserto para aprender, para investigar, e por isso ela me fortaleceu em vez de me desintegrar. A distinção entre o isolamento que provoca doenças e a solidão que fortalece não está em estar sozinho; está na maneira como você lida com essa solidão. Estamos vivendo a era das máscaras, o que agrava a situação, pois a prepotência sempre foi uma máscara e agora ganhou um acabamento sem fim. O perfil nas redes sociais é a fachada ideal: a vida ajustada, o ângulo mais favorável, o instante alegre escolhido com cuidado, a persona montada minuciosamente para provocar inveja e obter aprovação. A tragédia é dupla: quem utiliza a máscara se transforma em prisioneiro dela, forçado a manter uma versão de si que não é verdadeira, cada vez mais distante do seu rosto autêntico; e quem observa as máscaras alheias e as confunde com o verdadeiro rosto acaba mergulhando na inveja, pois compara sua própria realidade, com todos os bastidores expostos, com a versão editada que os outros apresentam. É a régua rompida do anseio aplicada a toda a existência. E sob toda máscara existe um rosto que teme ser apreciado, um rosto que se apresentou de tantas maneiras que já não consegue reconhecer a própria essência — e a verdadeira cura exige uma coragem rara: remover a máscara e aceitar ser observado na sua totalidade, pois somente o rosto autêntico pode ser amado; a máscara apenas provoca inveja, e quem troca o amor pela inveja comete o maior erro da vida sem se dar conta.
Afirmei, agredindo o idoso que confunde ruga com diploma, que não é necessário ter um diploma para ser inteligente, e desejo evidenciar o lado positivo dessa situação, pois ele corrige qualquer ideia de que eu venero o diploma. Há o sábio modesto, o humilde sem instrução que possui mais sabedoria do que o doutor arrogante, e eu já me deparei com muitos deles, e me inclino perante eles como faria diante de um grande mestre. É o homem de pouca instrução e vasta experiência, que aprendeu na dor o que os livros apenas narram, que possui um bom senso, uma sabedoria, uma tranquilidade que nenhum diploma pode proporcionar. É a pessoa humilde cuja fé é tão pura, tão desprovida de presunção, que faz o teólogo vaidoso sentir-se envergonhado. E eu diferencio isso da ignorância deliberada que eu reprovo: o sábio simples não é o arrogante que tira certezas do nada, mas sim o contrário — é o humilde que conhece o que sabe e tem consciência do que ainda não sabe. A distinção entre o sábio modesto e o arrogante sem instrução não está no conhecimento, mas sim na humildade: ambos possuem pouca educação formal; um converte essa escassa formação em motivo de orgulho (“não preciso de livros, eu tenho é vivência, rapaz”), enquanto o outro utiliza isso como uma oportunidade para aprender e reconhecer suas limitações (“eu sei pouco, me ensina”). A fronteira que separa a humanidade em duas partes não está na escolaridade, mas sim na humildade — o doutor que é humilde e o analfabeto que é humilde são irmãos; o doutor que é arrogante e o analfabeto que é arrogante também o são.
Aristóteles afirmou algo que deveria estar gravado na essência de todos que desejam evoluir: nós nos tornamos aquilo que fazemos repetidamente, e, por isso, a excelência não é um feito isolado, mas sim um hábito. A virtude não surge do nada em um momento de iluminação, não é algo que se pode comprar em um livrinho, nem é conquistada em uma única decisão heroica de ano-novo; ela é construída, passo a passo, na repetição diária de ações virtuosas até que o bom se torne uma segunda natureza. A humildade se manifesta dessa forma: não é apenas um sentimento que se possui, mas sim um hábito que se desenvolve. Está presente nas pequenas ações, como a oração silenciosa ao "deuzinho" de bolso todas as manhãs, no simples "sim" dado ao trabalho, e nos gestos cotidianos de ceder a vez, pedir desculpas e ouvir antes de responder. Não faz sentido querer ser humilde instantaneamente, de uma única vez — ninguém consegue; a humildade se desenvolve com a prática e a repetição. A excelente notícia nesse contexto é grandiosa: se a prepotência é um hábito, ela pode ser desfeita, hábito por hábito, sendo substituída ato por ato, e ninguém está fadado ao seu próprio caráter, pois o caráter é moldado pelas escolhas repetidas, e a escolha pode sempre tomar um novo rumo. A má notícia é que não existem caminhos mais curtos — a virtude é algo que se constrói com esforço, não é fruto de ensinamentos rápidos, e aqueles que buscam humildade de forma fácil e instantânea estão, na verdade, procurando o atalho que caracteriza o vício que afirmam querer superar. Essa construção requer rotina, disciplina e rituais, pois a vontade por si só não sustenta nada — a vontade é como um músculo que se fatiga, e o que mantém o esforço quando a vontade se esgota é o hábito que se transformou em estrutura. Por isso, todas as tradições espirituais possuem uma rotina, horários determinados, reflexões diárias e um ritmo constante: não por formalismo, mas porque perceberam que a alma, assim como o corpo, só adquire força com a prática regular. Uma geração que existe na completa dispersão, sem hábitos, sem rituais, dependente do impulso e dos algoritmos, é uma geração sem a base que impulsiona qualquer formação de caráter — e por isso balança, sem firmeza, entre a euforia e o desespero.
Permita-me compartilhar o que desejo edificar, pois um livro que apenas critica pode ser um tanto arrogante, na essência, e eu não quero cometer o mesmo erro que estou apontando. Fui aluno do Olavo por dez anos e, quando ele se foi, restou uma obra a ser continuada, não na tentativa de imitá-lo, que foi um ser único, mas na missão de avançar — a de levantar, em um mundo desiludido, a chance de entender a realidade de maneira profunda, de resgatar a filosofia eterna, de oferecer a quem busca a verdade uma base sólida para pisar. É exatamente isso que faço no Círculo, dentro dos limites das minhas capacidades, e é essa a intenção por trás dos textos que escrevo: não mostrar a minha cabeça de forma ostentosa como um troféu, mas sim oferecer como um serviço, como uma lente que, quem sabe, ajude alguém a perceber a teia que eu vejo e a encontrar uma saída do buraco em que eu também estive. Eu inicio a escrever de maneira séria em uma idade na qual ainda estou longe de alcançar o que os mestres conseguiram, e tenho total consciência disso — reconheço meu lugar na fila, nem na frente nem atrás. Não é por acaso que o grupo do qual faço parte recebe o nome grego do intelecto, o nous, pois nele está uma tese sobre a alma que se opõe à prepotência. Na antropologia tradicional, há uma hierarquia da alma: o intelecto, ou nous, deve estar no comando; em seguida, vem a vontade; e, abaixo dela, localizam-se as paixões e os desejos. A alma saudável é aquela que está em ordem, onde a parte superior exerce controle sobre as partes inferiores. A prepotência representa a desorganização dessa hierarquia interna: é o desejo ou a vaidade tomando o lugar que pertence ao intelecto, é a emoção dominando a razão, é o "deuzinho de bolso" — que sempre é uma parte inferior exagerada — comandando em vez da parte superior. Organizar a alma e organizar a cidade são tarefas equivalentes, e ambas têm início no mesmo gesto: reconhecer a existência de uma ordem, uma hierarquia natural que coloca o que é mais elevado sobre o que é mais baixo, e se deixar levar por essa estrutura, ao invés de reverter tudo colocando o eu exagerado em um trono que não lhe pertence. E eu retorno, para encerrar pela origem, à criança decepcionada que eu fui: eu me senti frustrado com meus pais pela primeira vez aos oito anos, e a partir daí fui me tornando cada vez mais independente, cada vez mais por conta própria — e essa independência prematura, que se tornou uma dor, foi também o início da minha recusa em depender da aprovação dos outros. A razão pela qual quem aprende desde jovem que não pode contar com os outros também percebe, na mesma lição, que não necessita da aprovação de ninguém. E quem não depende de validação externa não entrega a outrem o controle sobre sua própria essência, seja para ser elogiado ou para ser menosprezado. Foi uma bênção tirada de um sofrimento, uma ascensão originada de uma queda.
Existem dois tipos de pecado que a teologia clássica analisava em conjunto, representando as duas formas opostas de falhar em relação à esperança: a presunção e o desespero. Já expressei o desespero, a prepotência transformada em um reflexo de quem acredita que seu próprio sofrimento é mais profundo do que a compaixão. A presunção é como o gêmeo invertido: é aquele que acredita que está salvo sem nenhum esforço, que o céu é seu por direito, que pode agir como quiser porque, no final, tudo acaba bem para ele — é a ideia de um deus que tem sua própria imagem, um deus que aceita tudo e não exige nada. Tanto a presunção quanto o desespero representam uma forma de prepotência que se opõe: o desesperado acredita ser grande demais para receber perdão, enquanto o presunçoso se considera bom demais para necessitar de perdão. Em ambos os casos, o eu está no centro. A humildade é o caminho certo: nem o desânimo de quem jogou a toalha, nem a arrogância de quem se acomodou, mas a esperança ativa de quem entende que é necessário avançar e acredita que esse avanço é viável. E eu preciso afirmar o princípio que sustenta todo o livro, caso contrário, a luta que eu defendo se transforma apenas em brutalidade: a verdade e o amor não podem ser separados sem que ambos se deterioram. A verdade sem amor se torna uma brutalidade — é o indivíduo que revela a verdade com a intenção de machucar, que possui razão e usa essa razão para oprimir. E, mesmo que ele esteja certo, está errado, pois converte a verdade em um instrumento de arrogância. O amor que não tem verdade é um sentimentalismo medroso — é aquele que silencia o que é preciso dizer para evitar descontentamentos, que considera bondade a falta de ação, que permite que o amigo se afunde sem alertá-lo do perigo para não ser visto como inconveniente. A sabedoria está em expressar a verdade com amor e amar na verdade — ferir para curar, como um cirurgião, e nunca para destruir, como um carrasco. Foi isso que busquei ao falar com o amigo do plano C: expor a verdade, que era difícil, com amor, que era sincero, e assim ela penetrou como um estilhaço, mas acabou se transformando em sabedoria em vez de se converter em dor.
Nossa era é perita em promover uma virtude enganosa, uma virtude que se apresenta com o nome da genuína, mas possui a essência do vício. Revelar essa verdade é uma parte fundamental do nosso trabalho. A tolerância se tornou a forma elegante da covardia: não é a nobreza de respeitar a liberdade do outro, mas sim a incapacidade de ter convicções a serem defendidas, uma crença de que tudo é a mesma coisa. A autenticidade tornou-se o pretexto para a autoindulgência: "eu sou assim, aceite", afirma o robusto, convertendo sua falha em uma identidade sagrada. A empatia, que está tão em alta atualmente, frequentemente se tornou uma ferramenta de manipulação: compreender os sentimentos do outro não para ajudar, mas para manipular. Até a humildade pode ser falsificada, como na falsa modéstia, onde alguém se diminui de forma teatral ao afirmar "ah, eu não sou nada", esperando ser contrariado — a vaidade disfarçada de humildade que busca aplausos. Santo Agostinho expressou de maneira mais acertada que qualquer psicólogo a inquietação que vivemos em nossa época: criaste-nos para ti, e nosso coração permanece inquieto enquanto não encontra descanso em ti. O coração humano foi criado para descansar em algo que é infinitamente maior do que ele. Enquanto não encontra esse descanso, ele se agita, busca, consome, acumula e se esforça, numa sede que nenhum objeto finito consegue satisfazer. O consumismo é uma fome mal direcionada às mercadorias; a busca por validação é uma fome mal direcionada às curtidas; a autodivinização é uma fome na sua forma mais trágica, a do coração que, ao não encontrar um lugar acima de si para descansar, tenta descansar em si mesmo — e não consegue, pois o finito não comporta o infinito que anseia. Por isso o pequeno deus de bolso nunca descansa: prometeu ao coração o descanso que só o alto verdadeiro proporciona, mas não cumpre; e, por isso, o soberbo é sempre, no fundo, um inquieto, um faminto que busca cada vez mais validação, numa fome que a vitória nunca sacia.
E persiste um sintoma coletivo que me assusta mais do que todos: o desprezo pela excelência. Uma sociedade marcada pela arrogância e pela inveja cria, como forma de se proteger, uma aversão ao que é superior, mascarando esse sentimento de "igualdade". Tudo que se sobressai é visto com desconfiança; quem possui mais conhecimento é considerado "arrogante"; quem apresenta um desempenho superior é rotulado como "metido"; quem busca a excelência é tachado de se achar. É o nivelamento por baixo que se eleva devido à mediocridade convertida em padrão moral, a luta contra o que é elevado realizada em nome da igualdade. Eu percebo isso de forma intensa, pois é exatamente o que acontece comigo quando me rotulam de prepotente apenas por ter uma visão diferente e mais aprofundada: não é a minha soberania que perturba, mas sim a minha singularidade, é o fato de me destacar, que a cultura da homogeneização não aceita. Observe a distorção: a verdadeira igualdade, que é a dignidade de todos os seres humanos, é bela e autêntica; o nivelamento por baixo é uma falsificação dessa ideia, que em vez de elevar todos à dignidade, rebaixa a todos à mediocridade e persegue aqueles que se recusam a se tornar mediocres. A excelência não prejudica a igualdade de dignidade — o santo não tem mais valor que o pecador em termos de dignidade humana, mas possui um valor maior em santidade, e negar isso é eliminar a chance de evolução. O humilde deseja que todos progridam; o nivelador quer que ninguém avance além dele — e rotular o segundo como igualitário é mais uma das distorções que corrompem o nosso tempo.
É necessário que eu deixe claro uma diferença fundamental para evitar qualquer mal-entendido perigoso: confiar não é o mesmo que ser arrogante. É possível que uma pessoa ao ler este livro chegue à conclusão de que a cura consiste em se tornar um rato assustado, inseguro, que se desculpa até por respirar — e isso seria um verdadeiro desastre, implicaria em sucumbir ao esvaziamento budista que já critiquei, além de confundir humildade com falta de autoestima. A confiança saudável é benéfica e essencial, funcionando como o motor de todas as construções: o cirurgião deve ter confiança em sua própria habilidade, caso contrário, pode deixar o paciente apavorado. A distinção entre confiança e prepotência não reside na magnitude da autoestima, mas sim na forma como essa autoestima se relaciona com a verdade. A confiança saudável é a convicção sólida do próprio valor verdadeiro — estou ciente de que sei isso porque estudei, estou certo de que posso realizar aquilo porque já fiz —, alicerçada na realidade, passível de verificação e disposta a correções. A prepotência é a convicção infundada do próprio valor exagerado, sustentada no vazio, resguardada contra qualquer correção. Uma se baseia na verdadeira competência e, por isso, não precisa menosprezar ninguém; a outra tenta compensar sua própria falta de habilidade ao humilhar os outros para ocultar sua insatisfação interna. A verdadeira confiança traz tranquilidade, pois não há nada a ser provado; já a prepotência gera agitação, pois a pessoa sente a necessidade constante de provar seu valor, ciente de que suas bases são frágeis como papelão. Eu tenho plena confiança no que construí e afirmo, sem hesitação, que possuo uma mentalidade diferenciada e uma disposição para o aprendizado que poucos têm — isso é uma confiança fundamentada, não arrogância, pois é uma verdade que pode ser comprovada e que, ao mesmo tempo, reconhece de forma serena tudo o que ainda ignoro.
Há uma forma de prepotência que o nosso tempo não apenas aceita, mas também recompensa, sendo a mais difícil de enfrentar, pois se revela como o oposto da prepotência: a veneração da vitimização. Constatou-se que a condição de vítima, atualmente, confere um status, uma autoridade moral e uma proteção contra críticas; por esse motivo, gerou-se um incentivo prejudicial para que as pessoas competem entre si para ver quem sofreu mais, quem foi mais oprimido e quem tem mais justificativa para a indignação. Isso é a prepotência disfarçada de fragilidade: o vitimista não se coloca em uma posição inferior, mas sim superior por meio da dor, utilizando seu sofrimento, seja ele verdadeiro ou fictício, como um cetro, uma fonte de poder, uma arma que transforma qualquer um que ouse contrariá-lo em um opressor. É o deuzinho de bolso que percebeu que, neste período, a coroa mais poderosa não é a da força, mas sim a da dor. É uma tragédia em dose dupla, pois ao transformar a vitimização em uma forma de status, a cultura gera um incentivo para que ninguém deseje superar suas próprias feridas — vencer essa batalha significaria abrir mão do status. Eu, que realmente sofri, que experimentei a solidão de forma genuína, que recebi feridas profundas, rejeito com toda intensidade essa conversão do sofrimento em poder, pois isso é um desrespeito ao sofrimento em si: a dor verdadeira deve ser enfrentada e ultrapassada, e não alimentada e ostentada como uma fonte de força. Aquele que utiliza sua própria dor como uma arma contra os outros não está respeitando a sua ferida, mas sim desonrando-a. E dessa economia da ferida surge um vício que é, de fato, químico: o vício da indignação. A indignação constante é uma armadilha, e o algoritmo é o fornecedor na esquina. Foi constatado que nada chama mais atenção do que a raiva, e por isso a máquina oferece, continuamente, razões para a indignação, uma nova afronta a cada deslizamento de tela, um inimigo diferente a cada dia. As pessoas se tornaram viciadas nessa raiva, como se viciam em qualquer substância — pela descarga, pela sensação de estar vivo, de se sentir do lado certo. A indignação constante age como um vício: precisa de uma dose sempre maior, torna-se cansativa, isola o viciado em um mundo de inimigos e destrói a vida sem criar nada. O profissional indignado acredita que está lutando por uma causa, mas na verdade está apenas se intoxicando de raiva, já que sua indignação nunca se transforma em ação construtiva, nunca se torna um serviço — apenas gira em círculos, se alimentando de si mesmo, ansiando pela próxima dose de afronta.
Falei bastante sobre a misericórdia em relação aos outros, e agora devo abordar a misericórdia consigo mesmo, pois isso é parte da humildade, e os arrogantes cometem erros em ambos os extremos. O orgulhoso não se perdoa de fato, porque, no fundo, acredita que não precisa — e quando comete um grande erro, ou se desespera, se afundando na situação sem saída, ou tenta justificar, fingindo que não errou. A saúde da misericórdia consigo mesmo é essencial: reconhecer seus erros sem desespero ou justificativas, pedir perdão, aceitar o perdão e seguir em frente sem carregar o fardo desnecessário da culpa que já foi superada. Carregar eternamente o fardo de um erro já perdoado é uma maneira discreta de orgulho, a recusa em reconhecer que a misericórdia é mais ampla do que a sua falta; e esconder o erro sob o tapete é a maneira rude desse mesmo orgulho. A humildade consigo mesmo é reconhecer a sujeira, limpá-la e seguir em frente de forma mais leve. Eu desejo concluir a jornada da vida com uma homenagem ao que é simples, pois a arrogância ignora o que é comum, enquanto a humildade exalta. O deuzinho de bolso busca o extraordinário, o grandioso, aquilo que se transforma em história — e ignora a vida cotidiana, o trabalho pequeno, as obrigações diárias, as pessoas simples e os gestos sem público. É exatamente no dia a dia que a vida se desenrola e a santidade se desenvolve: no trabalho realizado com dedicação que passa despercebido, no cuidado com os outros, na lealdade às pequenas responsabilidades, na paciência diante da rotina, no amor expressado em ações que não geram reconhecimento. O santo não é aquele que realizou feitos extraordinários; é aquele que executou as coisas comuns com um amor extraordinário. E essa é uma jornada acessível a todos, em qualquer lugar, a qualquer momento.
A verdadeira comunidade, que eu reconheci como um remédio para a solidão do orgulhoso, esconde uma reprodução perigosa que precisa ser revelada: a tribo, a massa, o grupo. À primeira vista, podem parecer iguais, mas, na essência, são opostas. A comunidade congrega pessoas em torno de um objetivo comum, de uma verdade, de um amor que a transcende, e por isso eleva cada indivíduo; a tribo une pessoas em torno de um inimigo comum, de um ódio, de um medo, e por isso diminui a cada integrante, dissolvendo cada um na coletividade. Na comunidade, você permanece sendo quem é, individual e responsável; já na tribo, você se dissolve na coletividade, delega sua consciência ao grupo e age, amparado pelo anonimato da multidão, de maneiras que jamais teria coragem de fazer sozinho. É por isso que a multidão é capaz de perpetrar crueldades que nenhum dos indivíduos faria sozinho: a massa dilui a responsabilidade, e o pequeno deus pessoal de cada um se une a um deus coletivo muito mais voraz. O linchamento, o cancelamento em massa e a matilha digital que arruína a vida de alguém como se fosse um jogo — tudo isso é a tribo em movimento, a arrogância ampliada e resguardada pela quantidade. E eu fiz muitos julgamentos sobre várias pessoas neste livro, portanto, devo enfatizar a distinção fundamental que impede que todo julgamento se torne arrogância: deve-se julgar a ação, e não a pessoa. Posso afirmar, e já afirmei, que esse comportamento é arrogante, que essa ideia é ridícula, que essa atitude é covarde — isso significa avaliar a ação, e é fundamental, pois uma sociedade que não faz mais julgamentos sobre as ações perdeu a habilidade de diferenciar o certo do errado. Ninguém tem o direito de julgar a alma de outra pessoa, determinar seu valor final ou condená-la de forma irrevogável — isso é prerrogativa de Deus, que conhece o coração, as circunstâncias, as graças que foram aceitas ou rejeitadas. O arrogante age de forma oposta ao que é correto: é leniente com os atos — relativiza tudo — e severo com as pessoas — julga a essência de quem o desafia. A ordem correta é a oposta: rigor nas ações, compaixão com as pessoas.
Há um pecado antigo que nosso tempo esqueceu o nome, mas que pratica em grande escala: o escândalo, no sentido mais exato de fazer com que o outro caia, de ser um obstáculo no caminho do próximo. O Evangelho traz uma mensagem severa sobre isso — é preferível amarrar uma pedra no pescoço e se atirar ao mar do que causar escândalo a um dos pequeninos —, e essa mensagem impacta intensamente toda a indústria que eu critiquei. O treinador que oferece o falso atalho, o influenciador que apresenta a máscara como se fosse a vida, o místico que propõe um deus sob encomenda, o militante que transforma o ódio em virtude — todos eles são escandalizadores em um sentido profundo, pois induzem os outros ao erro, corrompem os inocentes e se tornam obstáculos na jornada daqueles que buscavam a verdade e acabaram recebendo veneno. Há uma responsabilidade que intensifica a arrogância deles: uma coisa é a pessoa se perder sozinha, outra bem distinta é levar uma multidão junto. Por essa razão, não adoto uma postura neutra em relação a essa indústria; ataco com aversão em vez de descrever de forma impessoal, como um acadêmico: pois não se trata de um erro inofensivo, mas sim de uma máquina que provoca quedas. E o nosso tempo criou uma nova e extremamente eficiente forma de prepotência: a transformação do ser humano em imagem, em objeto, em dado. Quando você observa o outro e enxerga apenas um corpo a ser consumido, somente um perfil a ser avaliado, apenas um número a ser acrescentado, apenas um instrumento para atingir o seu objetivo, você cometeu a prepotência essencial — tratou um ser humano como um objeto, um alguém como um algo. A nossa cultura transformou isso em uma indústria: a pornografia reduz o ser humano a uma mera imagem corporal a serviço do desejo, e degrada principalmente quem a consome, pois ensina o olhar a não enxergar mais a pessoa, apenas o objeto — e um olhar acostumado a enxergar objetos onde há pessoas é um olhar incapaz de amar, já que amar é o completo oposto; é perceber a totalidade da pessoa, o universo complexo que ela representa, os dois por cento que você levará semanas para começar a desbravar. A cura se configura como um ato quase revolucionário na atualidade: retomar o olhar sobre o outro como ser humano, com a reverência de quem reconhece ali um mistério que o transcende, um quem que jamais se limita a um quê.
É necessário diferenciar duas questões que o arrogante confunde e o modesto reconhece: a certeza e a verdade. Não são equivalentes, e a evidência está no fato de que o arrogante possui muita convicção e pouca veracidade, enquanto o sábio geralmente detém muita veracidade e pouca convicção — isto é, quanto mais uma pessoa realmente sabe, mais plena é sua consciência a respeito da vastidão do que ainda ignora. Sócrates, o mais sábio entre os gregos conforme o oráculo, afirmava saber apenas que nada sabia, e isso não era uma falsa modéstia, mas a essência da sabedoria: a erudita ignorância, um conhecimento tão profundo que abrange a exata noção da própria ignorância. O prepotente é o oposto: possui uma confiança absoluta justamente por saber pouco, já que a ignorância não reconhece os próprios limites, não tem consciência do que lhe falta e, por isso, se sente completo. É um fenômeno familiar a todos os educadores — o estudante que menos compreende é frequentemente o que demonstra maior convicção, e conforme adquire conhecimento de fato, essa convicção diminui enquanto a compreensão se aprofunda. Por isso, desconfie de quem parece ter certeza de tudo: tal pessoa não é sábia, mas sim um novato que ainda não se deu conta da imensidão do próprio desconhecimento. Neste livro, expus diversas tristezas, porém, devo compartilhar a melhor das notícias: o humilde é muito mais feliz do que o soberbo, e essa diferença não é insignificante. Pode parecer contraditório, pois a cultura apresenta a felicidade como resultado da autoafirmação, do "ame-se em primeiro lugar", de se considerar o rei do seu próprio pequeno mundo. Mas observe com atenção: o arrogante é um infeliz habitual, um inquieto, um insaciável que nunca se satisfaz, porque colocou em sua alma um deus que não descansa, que demanda validação contínua, que se aflige a cada ofensa, que sente inveja de cada um que está acima dele. A existência do orgulhoso é uma batalha constante para preservar uma ilusão, e uma batalha constante é o contrário da felicidade. O humilde, por sua vez, encontra descanso — e esse é o mistério que poucos revelam. Aqueles que aceitaram seu verdadeiro tamanho não precisam mais se justificar, não se incomodam com a grandeza dos outros, pois não competem, não têm medo das críticas, já que não precisam proteger uma imagem falsa. Não sentem inveja, pois se alegram com as conquistas alheias. Aquele que é arrogante, rodeado de prêmios e de bajuladores, vive uma solidão intensa e uma infelicidade profunda; já o humilde, mesmo tendo pouco, encontra paz em seu espaço e experimenta uma felicidade que não se baseia em superar os outros. Se não houvesse nenhum outro motivo para abandonar a prepotência, apenas esse, totalmente egoísta, seria suficiente: a prepotência causa sofrimento, enquanto a humildade traz paz.
E retorno àquela cena que me acompanhou do início ao fim: a fila do pão. Ela é, essencialmente, o sacramento democrático da humildade, o espaço onde a verdade sobre nós todos se manifesta sem artifícios. Na fila do pão não há divindade alguma — há apenas pessoas, só pessoas, cada uma aguardando sua vez, cada uma com sua fome, cada uma recebendo seu pão. O rico e o pobre, o médico e o analfabeto, o jovem e o idoso, todos reduzidos à mesma igualdade da fome e da expectativa. Compreender a sua posição na fila do pão é entender, de forma definitiva, as duas mensagens que este livro tentou transmitir: que você não é superior aos outros, já que está na mesma fila e compartilha a mesma necessidade; e que você também não é inferior, pois afinal, também receberá o seu pão. É a solução para a arrogância e a solução para o desespero, tudo em um único ato. É importante diferenciar duas questões que os arrogantes costumam confundir: inteligência e sabedoria não são a mesma coisa. O mundo está repleto de pessoas extremamente inteligentes, mas que carecem de sabedoria. Há indivíduos com um raciocínio extremamente perspicaz que utilizam essa capacidade para fins egoístas, para alimentar sua vaidade e para manipular os outros. A inteligência é uma ferramenta; a sabedoria é a inteligência organizada pela virtude, colocada a serviço da verdade e do bem, sendo humilde diante do que a supera. O perspicaz sem discernimento é extremamente perigoso, pois carrega a força sem orientá-la, a arma sem a justiça — torna-se o defensor de seu próprio ego, brilhante e distorcido. Apenas a sabedoria é capaz de curar, e a sabedoria se inicia no momento em que a inteligência se submete. Eu tenho consciência do perigo, pois possuo a habilidade — uma mente que conecta os pontos rapidamente — e sei que essa habilidade, isoladamente, me tornaria apenas um arrogante mais eficaz. O que se torna serviço, ao se transformar, não é a afiação; é a humildade que a coloca a serviço de algo maior do que ela mesma.
Como sou um defensor da luta de ideias, gostaria de explicar como se pode debater com honra. Existe uma maneira arrogante e uma maneira humilde de se engajar em um debate, e essa diferença é fundamental. A maneira arrogante é construir a versão mais fraca e mais simplista do argumento do oponente, um espantalho frágil fácil de derrubar, e então se exibir pela vitória contra o boneco que ele mesmo criou — isso é falta de coragem disfarçada de debate, e é exatamente o que o arrogante faz constantemente, pois ele busca a sensação de vencer, não a verdade. A forma mais humilde e, ao mesmo tempo, a única que traz honra, é justamente o oposto: desenvolver a versão mais robusta do ponto de vista do outro, a mais inteligente, reconhecer todos os acertos dessa perspectiva e, somente depois, se for necessário, apontar onde ela apresenta falhas. Superar a melhor versão do oponente é a única conquista que realmente importa; vencer a versão inferior é apenas derrotar a si mesmo disfarçado de outro. Isso demanda uma enorme humildade, pois implica enfrentar o verdadeiro risco de perceber, ao reforçar o ponto de vista do outro, que ele estava certo — é necessário entrar na discussão preparado para perder e sair grato pela derrota que te trouxe mais perto da verdade. O arrogante nunca enfrenta esse risco, pois para ele, perder significa morrer; o modesto se arrisca a cada discussão, porque para ele, perder é uma forma de aprender. A prepotência se manifesta de maneira jovem e de maneira mais madura, e é importante retratar ambas as facetas. A pressa e a certeza são as tentações do jovem — ele possui pouco conhecimento, mas se considera seguro de muito, confunde vitalidade com sabedoria, acredita que encontrou o que ninguém jamais havia encontrado antes, desvaloriza a experiência dos mais velhos como se fosse algo obsoleto, e deseja reconstruir o mundo desde o princípio antes de compreender as razões que fazem o mundo ser como é. A tentação do idoso é contrária e equivalente: confundir o tempo vivido com conhecimento adquirido, acreditar que a idade por si só traz verdade, recusar-se a aceitar novas ideias e tratar os jovens com a desconsideração de quem já experimentou tudo. É curioso perceber que ambos se acusam um ao outro pela própria condição: o jovem diz que o velho é ultrapassado e arrogante, enquanto o velho considera o jovem atrevido e arrogante. De fato, cada um tem razão ao criticar o outro, mas ambos estão cegos em relação a si mesmos. A solução é a mesma: o jovem precisa ter a humildade de admitir que não possui todo o conhecimento, enquanto o mais velho deve ter a humildade de perceber que o tempo por si só não ensina e que sempre há tempo para seguir aprendendo.
Vou encerrar o retrato com mais algumas cenas pequenas, aquelas que observamos diariamente e que representam a prepotência em sua forma mais pura, antes de qualquer teoria. A pessoa que corta a fala dos outros, que não permite que a frase do outro chegue ao fim, já que a sua própria opinião é, evidentemente, mais relevante. A pergunta "Você sabe com quem está falando?" é, por si só, um verdadeiro hino ao ego do maioral que se acha. O que humilha o garçom na frente dos outros para se sentir importante. O que nunca se desculpa, pois pedir desculpas seria reconhecer que cometeu um erro. Aquele que oferece conselhos que não foram solicitados, não com a intenção de ajudar, mas sim para mostrar que possui conhecimento. O que torna qualquer diálogo um monólogo sobre a própria pessoa é a maneira como se ouve, apenas aguardando a oportunidade para retomar o foco em si mesmo. O que você faz é corrigir um detalhe sem importância na sua fala para desviar do argumento que não consegue refutar. São gestos pequenos, tão comuns que se tornam invisíveis, e é nesse ponto que reside a lição mais importante do livro: a prepotência não é um monstro distante que habita apenas nos tiranos; ela se encontra nos pequenos atos de cada um de nós, nas pequenas divinizações diárias em que esquecemos a fila e nos consideramos no trono. Se é no pequeno que ela habita, é no pequeno que ela se restabelece — não em um grande ato heroico, mas na pequena escolha, repetida mil vezes, de permitir que o outro complete a frase, de pedir desculpas quando comete um erro, de ouvir de verdade, de ceder a vez, de tratar o garçom, o faxineiro e o desconhecido com a mesma dignidade com que se trataria uma pessoa poderosa.
Eu conectei o núcleo à incerteza que dissolve, assim, é necessário que eu faça uma distinção, para não agir de maneira injusta, entre a dúvida que prejudica e a dúvida que auxilia, pois nem toda incerteza é fruto do Choronzon. A dúvida é saudável e produtiva, funcionando como o motor da busca: é aquela que questiona o porquê, que deseja realmente entender, que não se satisfaz com respostas simples, que analisa, pesquisa e rejeita certezas sem fundamento, pois almeja a verdadeira realidade. Essa incerteza é irmã da humildade, pois surge do reconhecimento de que ainda não se possui todo o conhecimento — Santo Tomás desenvolveu toda a Suma a partir de objeções, dando espaço para a dúvida mais profunda antes de apresentar suas respostas. Entretanto, há outra questão, a do dissolvente, a do Choronzon, que não questiona para obter respostas, mas sim para evitar ter que saber, que duvida de tudo a fim de não se comprometer com nada, utilizando o ceticismo como uma forma de anestesia contra a responsabilidade de afirmar. A primeira incerteza é a ponte — uma dúvida que nos impede de alcançar a verdade; a segunda é o buraco — uma dúvida que nos faz nunca chegar a lugar algum. Questione, portanto, mas questione para encontrar, não para escapar; questione como quem busca a saída do labirinto, não como alguém que decidiu viver dentro dele e chamar o labirinto de clareza. E desejo concluir o corpo do livro ao designar a postura que é fundamental para tudo, a origem de onde surgem todas as virtudes que combatem a prepotência: a reverência. Reverência é a habilidade de se curvar diante do que é superior, de reconhecer o sagrado e de tratar com respeito aquilo que merece ser respeitado — e isso é precisamente o que a prepotência eliminou, pois o pequeno deus de bolso não reverencia nada, uma vez que reverenciar implicaria em reconhecer algo maior do que ele mesmo. A era da prepotência é marcada por uma irreverência ampla, onde "nada é sagrado", e "tudo pode ser zombado e desmerecido". Eu, que me dedico à sátira, faço essa distinção com atenção, pois a minha sátira não é um ato de irreverência; na verdade, é o oposto disso: eu escarneço do arrogante justamente em defesa do sagrado que ele desrespeita, dou risadas do deus pequeno em nome do Deus verdadeiro, zombando da falsa grandeza em nome da verdadeira grandeza. A verdadeira irreverência é aquela do arrogante, que não demonstra respeito por nada, pois se considera o auge; já a reverência é característica do humilde, que valoriza o que merece respeito, pois reconhece que não é o auge. Toda virtude é uma maneira de prestar homenagem: aquele que honra a verdade é honesto, aquele que valoriza o outro é justo e amoroso, aquele que admira o belo contempla, e aquele que respeita os mestres aprende. O deuzinho de bolso eliminou o joelho, e ao eliminar o joelho, exterminou o homem, substituindo-o por uma caricatura solitária e infeliz que confunde não se curvar com ser livre. Retomar a capacidade de se ajoelhar — reconhecer diante de quem e do que realmente vale a pena se curvar — não é uma forma de humilhação; é a restauração da dignidade humana em sua essência mais elevada, pois somente quem tem a humildade de se ajoelhar diante do que é verdadeiramente grandioso é capaz de se manter em pé frente a tudo que é ilusoriamente elevado.
No final das contas, tudo isso não é resolvido em uma grande batalha isolada, mas sim em uma escolha que se repete a cada dia, a cada hora, a cada interação. Agostinho mencionou as duas cidades, e muitas vezes pensamos que pertencemos permanentemente a uma delas, como alguém que escolhe um time de futebol. Não é dessa forma: a divisão entre as duas cidades perpassa o coração de cada um de nós a todo momento, e fazemos escolhas, inúmeras vezes ao dia, sobre qual cidade iremos avançar a seguir. Quando o outro me contradiz e eu tenho a opção de ouvir ou me fechar, é nesse momento que surge a bifurcação. Quando cometo um erro e consigo reconhecer ou justificar, é aí que está. Sempre que observo alguém se elevar, sinto a possibilidade de me alegrar ou de ceder à inveja. Quando tenho a opção de ceder a vez ou de seguir em frente, ou ainda quando posso expressar a verdade com amor ou optar pelo silêncio por medo — em cada uma dessas pequenas encruzilhadas, sem audiência, estou dando um passo rumo a uma das duas cidades. E é a soma desses pequenos passos, ao longo da vida, que determina em qual cidade realmente resido, pois ninguém vive em uma cidade por imposição, mas sim pelos passos que dá a cada dia em direção a ela. Por isso, não há o humilde de forma permanente nem o soberbo de maneira final: existe o que está, hoje, avançando mais em direção a uma cidade do que a outra, e que amanhã pode mudar de rumo. A descida e a subida não são apenas dois lugares onde chegamos e permanecemos; são duas direções que escolhemos repetidamente em cada pequena encruzilhada do nosso dia. E esta é a notícia mais encorajadora de todas: para sair dessa situação, não é necessário um feito extraordinário, mas apenas o próximo passo na direção correta, que está sempre ao nosso alcance, agora, neste ponto de decisão, por menor que possa parecer.
A esperança que tanto mencionei não é um estado de espírito que varia de acordo com o sol ou a chuva; é um compromisso, uma escolha, uma qualidade que se pratica exatamente nos momentos em que a emoção escasseia. O desespero é algo simples, é como descer uma ladeira, é o que a gravidade da alma faz quando a gente se permite relaxar — é só observar a profundidade do buraco, a dimensão da arrogância que reina no mundo, e se entregar à ideia de que não há solução. A esperança representa o oposto: é a ascensão contra a gravidade, o empenho de afirmar que há uma solução mesmo quando os olhos não conseguem enxergar, e por isso ela não é ingenuidade, mas sim coragem. E ela é uma obrigação, pois o desespero, além de trazer infelicidade, é também uma forma de covardia e se espalha facilmente: quem se entrega ao desespero não apenas se afunda, mas também leva consigo aqueles que estão ao redor. Opto pela esperança não por ser uma pessoa otimista — já testemunhei coisas demais para ser otimista —, mas porque vejo o desespero como uma traição àqueles que ainda não se renderam. A cicatriz que eu carrego é a evidência que apresento: eu estive no fundo do poço e consegui me reerguer. Se eu consegui me levantar, isso significa que é possível, e se é possível, o desespero não é verdadeiro. Eu me vejo como uma pessoa extremamente educada, sendo cortês até mesmo com aqueles que não merecem, e já mencionei que isso teve um alto custo para mim, pois pessoas arrogantes interpretam a cortesia como sinal de fraqueza. Entretanto, eu preservo a cortesia intencionalmente, pois a boa educação, que o nosso tempo ignora como uma formalidade sem significado, é a humildade manifestada em ações do dia a dia. A expressão "por favor" é um reconhecimento de que a outra pessoa não me deve nada; já a palavra "obrigado" representa a gratidão verbalizada. Esperar a nossa vez, segurar a porta e chamar o garçom pelo nome — tudo isso é a fila do pão manifestada em pequenas ações, uma afirmação concreta de que o outro é um ser humano e não um mero obstáculo. O soberbo é mal-ensinado por natureza, não por acaso, pois a má-educação é a prepotência em ação. Manter a cortesia em um mundo rude e tratar bem quem te trata mal é uma das formas mais silenciosas e desafiadoras de elevação, pois implica recusar-se a descer ao nível do arrogante, mesmo quando este provoca — exatamente como fiz com a pessoa no Trivium: sem me rebaixar ao nível dele, sem me tornar pior do que ele para vencer, respondendo à grosseria com a firmeza serena de quem compreende que a verdadeira grandeza nunca precisa se sobrepor para se afirmar.
Antes de me despedir de forma divertida, preciso dizer algumas palavras sobre o riso, pois este livro esteve rindo o tempo todo, e já mencionei no início que desejava que você estivesse rindo e irritado ao mesmo tempo. O riso satírico não é apenas um deboche sem propósito; ele é a ferramenta mais poderosa que existe, pois consegue desarmar. Em meio a um sermão, o arrogante ergue sua barreira; diante de uma piada que o expõe, essa barreira hesita, pois rir requer um breve momento de desarmar-se, e é nesse momento que a verdade se revela — o riso é o cavalo de Troia da sátira, a cidade fortificada abre suas portas para a celebração e, dentro dessa celebração, vem a verdade equipada até os dentes. Não é por acaso que os grandes santos tinham um senso de humor: Santa Teresa de Ávila, por exemplo, possuía um humor perspicaz e singular, e isso tem uma dimensão teológica, pois a habilidade de rir de si mesmo é um indicativo de humildade — quem não se leva excessivamente a sério consegue rir até de suas próprias falhas, enquanto a pessoa arrogante não consegue rir de si, pois isso significaria reconhecer que possui algo ridículo, e o egoísmo dessa pessoa não permite que ela veja suas próprias falhas. A autoironia é uma característica dos modestos; a pessoa superficial que se ofende é um sinal de condenação dos arrogantes. Eu me diverti com o livro todo, com a minha dislexia, com os meus erros, com as minhas bobagens do passado que não escondo — e se algum dia expuserem as minhas falhas, eu direi: realmente fiz, me arrependi, alcancei a minha redenção. Assim, a sátira é, por mais contraditório que possa parecer, uma expressão de amor: não me rio das pessoas para destruir, mas para desarmá-las o bastante para que a verdade possa entrar e o processo de cura se inicie. Sátira sem esperança é desumanidade; com esperança, é intervenção. Caso o riso tenha te causado dor em algum momento, que essa dor seja leve e traga muitas curas, pois a irritação que você experimentou não é raiva de mim: é o seu próprio deuzinho de bolso se agitando, incomodado por ter sido pego. Quem se aborrece ainda está vivo; quem sorriu e não sentiu nada é que já ultrapassou o horizonte de eventos.
Há um esporte nacional que envolve a prepotência e a inveja, unidos e fazendo hora extra: a fofoca. O brasileiro elevou a fofoca a uma forma de expressão artística, a uma prática religiosa informal, a uma verdadeira acrobacia verbal. A fofoca é intrigante porque representa a inveja mascarada de informação: perceba que ninguém fofoqueira para fazer elogios. "Fiquei sabendo que fulano está indo muito bem na vida" não é fofoca, é uma informação pouco interessante; fofoca é "fiquei sabendo que fulano está se achando", "fiquei sabendo que fulano está se achando o importante", "fiquei sabendo que fulano não é tudo isso que demonstra". A fofoca é como um grupo se reunindo para atacar aquele que está ausente, para desmerecer quem se destacou, para balancear a situação derrubando o outro, já que alcançar o sucesso dá trabalho. O fofoqueiro, ao espalhar rumores, revela duas verdades: que tem inveja da pessoa sobre a qual fala e que é covarde, pois age às escondidas com coisas que não teria coragem de fazer na frente da pessoa. É o comentarista anônimo de perfil falso, mas que aparece pessoalmente, sussurrando ao ouvido. E o aspecto mais irritante é a hipocrisia presente: o maior fofoqueiro do grupo é sempre aquele que mais se queixa de ser alvo de fofoca, o que mais se escandaliza dizendo “nossa, como as pessoas comentam sobre a vida dos outros!” — enquanto enxuga a boca depois de falar sobre a vida de quase todo o bairro. Acusar é o mesmo que confessar, você se lembra? O comentarista barulhento fazendo críticas à fofoca é apenas a justiça agindo mais uma vez.
E como eu abordo o humor ao longo de todo o livro, permitam-me diferenciar dois tipos de humor que, embora pareçam semelhantes, são na verdade opostos: o humor que edifica e o humor que rebaixa. Há a piada que brilha, que capta uma verdade oculta e a expõe de forma leve, fazendo você rir e compreender simultaneamente — é a sátira que busco criar, o riso que atua como um bisturi. E existe um humor que apenas degrada, o deboche desnecessário, a brincadeira que não traz revelações, que apenas menospreza por menosprezar, que ri do outro para se sentir superior sem precisar ser realmente melhor. A cultura dos memes, levada ao extremo, se tornou em grande parte isso: uma ferramenta para desmerecer tudo, para transformar toda grandeza em humor, para não permitir que nada permaneça em pé, não por uma sabedoria crítica, mas pela irreverência do pequeno deus que não aceita nada acima dele. É o riso que coloca tudo em um mesmo nível, tratando a catedral e o esgoto com o mesmo sarcasmo, acreditando que debruçar-se sobre o sagrado é uma demonstração de inteligência, quando, na verdade, é apenas um indicativo de que a pessoa já não consegue se submeter a nada. A distinção entre os dois tipos de humor é a mesma de sempre: um respeita algo e ri em nome disso; o outro não respeita nada e ri de tudo, pois tudo lhe parece igualmente insignificante a partir de seu próprio ponto de vista. Rir é algo sublime; rir de tudo de maneira igual, sem nada que você considere sagrado, é o Choronzon te provocando cócegas enquanto te desfaz.
Estamos na era do "empreendedorismo" como uma religião, e eu preciso tocar nesse ponto delicado porque é materialismo intensificado com uma dose de adrenalina. Transformaram o trabalho, que é algo digno e positivo, em uma seita de esforço constante, de "acorde às cinco da manhã", de "enquanto você dorme, seu concorrente trabalha", de "transforme sua paixão em negócio", de labuta sem fim apresentada como uma virtude. E sob a camada de motivação, a situação é a mesma: a vida se resume a números, o indivíduo é visto apenas como produtividade, o ser humano é tratado como uma máquina de produzir resultados, e o descanso, a reflexão e a gratuidade são considerados como preguiça a ser eliminada. O coach de empreendedorismo é a figura central dessa prática, oferecendo um caminho rápido para o sucesso que, na verdade, ele só conseguiu ao vender esse mesmo atalho — uma nova versão da pirâmide espiritual, agora com uma planilha. E a vítima acredita que está se superando quando na verdade está só se machucando, pensa que está progredindo quando, na verdade, está apenas correndo mais rápido em uma esteira parada, numa agitação que reflete a inquietude de um coração que não encontra descanso. Porque o hustle é a fome mal direcionada novamente: a pessoa ocupa o vazio interior com produtividade, acumula coisas para não sentir, corre para não pensar e chama esse pânico disfarçado de ambição de "mentalidade vencedora". É o cotidiano utilizando tênis de corrida, molhando a camiseta para subir uma escada que leva ao subsolo.
E existe a nova religião do politicamente correto, da linguagem controlada, com a qual eu preciso lidar com cautela, mas sem medo, pois é um fenômeno de arrogância fascinante. Transformaram a gentileza, que é algo positivo — não ofender sem motivo, respeitar o próximo —, em uma perseguição da linguagem, em um tribunal constante onde o erro está em usar a palavra inadequada e a redenção é dominar o vocabulário da moda da semana. E observe a mecânica do "deuzinho de bolso": o policial da linguagem, na maioria das vezes, não está realmente defendendo os mais vulneráveis — ele está mostrando sua própria superioridade moral, conquistando o status de quem está do lado certo, cancelando aqueles que cometem erros nas palavras para saborear o prazer de condenar. É o fariseu que se utiliza de um dicionário, orando na esquina: "obrigado, Deus, por não ser como esse grosseirão que ainda recorre à expressão ultrapassada". E o mais engraçado é que, enquanto procura a palavra incorreta com uma lupa, ele tende a ser insensível como uma pedra em relação à pessoa de carne e osso que precisa de ajuda verdadeira — pois, para ele, a causa é apenas um carinho para o próprio ego, e não um amor pelo vulnerável. Trocar o termo é econômico e gera status; amar o próximo de verdade é dispendioso e não gera curtidas. Ele opta pelo que é barato e o chama de virtude.
Há uma reverência peculiar no Brasil ao título de "doutor", que se manifesta como uma forma de arrogância institucionalizada, expressa através de um pronome de tratamento. No Brasil, a definição de "doutor" não se refere apenas àqueles que possuem doutorado — é mais sobre quem detém poder, riqueza, veste um terno ou tem uma aparência de autoridade. O garçom se refere como doutor, o frentista também chama de doutor, e a pessoa fica cheia de si ao ser chamada assim, pois o título alimenta o ego. Essa é a nossa interpretação brasileira da hierarquia invertida que mencionei: a admiração não vai para quem é sábio ou competente, mas sim para quem detém poder e dinheiro, dobrando os joelhos diante do carro luxuoso e se exibindo frente ao sábio de sandália. O "doutor" brasileiro, muitas vezes, é o esperto de boteco que conseguiu se destacar na vida, o malandro que possui um diploma como trunfo, e o famoso "sabe com quem está falando?" É o hino nacional desse culto, o instante preciso em que o deuzinho de bolso retira a carteira funcional da própria divindade e aguarda que o mundo se torne submisso. E o país todo acaba se subjugando, pois fomos ensinados a respeitar o poder em vez do mérito, a autoridade da posição em vez da autoridade do conhecimento — e é por isso que o nosso arrogante se dá tão bem, já que a cultura o recebe de braços abertos, bastando que ele clame com força o seu próprio título.
E permitam-me retornar para encerrar esse assunto, voltando a uma situação que resume tudo e que presencio toda semana: a pessoa que, em uma roda de conversa, interrompe sua fala para olhar o celular. Parece algo simples, não é? Entretanto, é a representação exata da arrogância diária. Ao pegar o celular enquanto você fala, ele transmite, sem dizer uma palavra, a mensagem mais arrogante do mundo: "o que está na minha tela é mais importante do que você, que está aqui, ao vivo, na minha frente, me oferecendo a sua companhia". É como se o pequeno deus em nosso bolso estivesse priorizando as notificações em detrimento do ser humano, colocando o algoritmo acima da pessoa, a máquina me validando em relação ao outro que poderia me desafiar e me proporcionar crescimento. E nós acabamos normalizando isso, fazemos sem perceber, todo mundo faz — e é exatamente nessa normalização que reside o perigo, pois a prepotência mais letal não é a que se escandaliza, mas sim a que se tornou um hábito invisível, aquela que cometemos durante todo o dia sem nem sequer notar, a cada notificação atendida no meio de uma conversa alheia, acendendo uma luzinha no altar do próprio ego. A cura, mais uma vez, é pequena e ao mesmo tempo grandiosa na quietude: deixar o celular de lado, olhar nos olhos e oferecer ao outro o que há de mais raro e generoso na era da distração, que é a presença plena, sem telas disputando atenção. É insuficiente. É praticamente insignificante. E essa é uma das maiores subidas que você enfrentará hoje.
A nossa era criou uma maneira de idolatria que nem o mais inventivo pagão da Antiguidade poderia ter imaginado: a adoração às celebridades. O pagão, ao menos, venerava divindades, seres que supostamente eram superiores; nós, por outro lado, idolatramos pessoas que se tornaram famosas apenas por serem famosas, ícones de reality show e figuras de tabloides. A mecânica é semelhante à idolatria do "deus com a sua cara", mas de forma terceirizada: ao invés de criar seu próprio ídolo, a pessoa opta por um já existente, projetando na celebridade tudo aquilo que almeja ser, e vive indiretamente a vida que não tem coragem de viver. Segue cada movimento do ídolo, defende-o como se estivesse defendendo sua própria mãe, discute na internet por ele com desconhecidos, chora quando o ídolo chora — e tudo isso é o vazio de um coração inquieto mal direcionado mais uma vez, a busca por transcendência batendo na porta errada, procurando em pessoas famosas o descanso que apenas o divino verdadeiro pode oferecer. A celebridade, coitada, muitas vezes é a que está mais perdida de todas. É como aquele pequeno deus que conseguiu o impossível: um mundo inteiro acendendo velas de verdade para o seu altar. E, ao chegar ao topo, percebe que a validação de milhões não preenche o vazio mais do que a validação de uma única pessoa, pois um buraco infinito não se tapa com algo finito, por mais que você tente empilhar. Por essa razão, o cemitério de celebridades que tiveram tudo e se autodestruíram é tão repleto: eles atingiram a divindade que o arrogante almeja, e essa divindade conquistada se mostrou o inferno que sempre foi.
Há um culto ao corpo, onde o fitness se transforma em uma religião, revelando a carne elevada à divindade sob a aparência de roupas de academia. Veja, zelar pelo corpo é algo muito bom, a disciplina física é fundamental, eu já mencionei — o problema surge quando o espelho da academia se transforma em um altar e o corpo passa a ser adorado como um deus. A pessoa que estruturou sua vida completamente em função do próprio bíceps, que avalia o valor da existência com base na porcentagem de gordura, que compartilha fotos do próprio corpo nu em busca de aceitação, que vê o corpo não como um veículo a ser dirigido, mas como uma divindade a ser moldada e exibida — essa pessoa não está preocupada com a saúde, está venerando sua própria carne, e a carne, assim como qualquer ídolo, é um deus impiedoso que envelhece, que se desgasta, que trai, e que um dia irá se decompor, não importa quantos agachamentos você faça. É a mais antiga vaidade do mundo, agora com um aplicativo para contar calorias; o novo Narciso, vestido de regata, afogado, não no lago, mas no próprio reflexo do espelho da academia. O treinador de fitness é como um sacerdote dessa seita, comercializando o corpo ideal da mesma forma que a princesa comercializa a beleza perfeita. Ele incentiva em cada seguidor uma insatisfação constante que impulsiona a aquisição do próximo suplemento, do próximo programa e da próxima meta, que, uma vez atingida, traz à tona uma nova meta. Esse ciclo interminável drena a autoestima e gera ainda mais exigências.
E existe o pseudo-intelectual da internet, que é o irmão de gravata do jacu, e eu deixei esse por último porque é com ele que mais me deparo e mais me divirto. É a pessoa que gravou dez nomes complicados e os solta em toda conversa, não para elucidar, mas para intimidar — "ah, mas isso é um evidente exemplo de viés de confirmação dentro de uma epistême foucaultiana", e você fica sem saber se discorda ou se corre para o dicionário. Ele utiliza a citação como se manuseasse um facão na escuridão: não para solucionar a questão, mas para amedrontar aqueles ao seu redor. Nunca leu o Foucault por completo, apenas leu os resumos, mas menciona o nome com a autoconfiança de quem janta com o cadáver todo domingo. E o teste para desmascarar esse tipo é infalível e prazeroso: peça para ele explicar, em palavras simples, o que acabou de dizer em palavras difíceis. O verdadeiro intelectual sorri e se explica, se aproxima de você, pois compreende de forma autêntica e quem realmente entende é capaz de simplificar as coisas. O pseudo intelectual se irrita, acusa você de "tentar simplificar demais o assunto" — porque ele não consegue simplificar algo que não compreende, e a palavra complicada era, na verdade, a cortina de fumaça que encobria o vazio que estava por trás. A clareza é um verdadeiro teste de habilidade: quem realmente entende, simplifica; já quem não entende, complica para causar intimidação. A complicação intencional é uma forma clara de arrogância, é o uso de jargão como um distintivo de exclusividade, é alguém erguendo um muro de palavras ao redor do seu próprio vazio e exigindo pagamento de admiração das pessoas que passam.
E concluo o desfile da mesma forma que comecei, pois a prepotência é cíclica como o inferno de Dante: com o deuszinho de bolso admirando-se no espelho. Agora você já sabe como lê-lo. Você já percebeu o letreiro de neon que se acende no momento em que é desejado, a acusação que se torna confissão, o castelo de papelão que fecha a porta por receio do vento, a certeza que revela ignorância, a fofoca que disfarça inveja, o jargão que não tem conteúdo, o trabalho desenfreado que é um desvio da fome, a vitimização que se transforma em poder, e o adjetivo que representa rendição. Você já possui o raio-x em mãos. E o desconforto prazeroso é que, quando aprendemos a reconhecer o deuzinho de bolso nas outras pessoas, inevitavelmente começamos a notar que essa figura também reside dentro de nós — e esse reconhecimento, esse instante em que nos pegamos fazendo exatamente o que rimos das outras durante todo o livro, é o início de tudo. Não há razão para desespero, mas sim para celebração, pois só se elimina aquilo que se consegue ver, e você acaba de ver. Aquele que se considera superior e nunca percebe suas próprias falhas está destinado a ser arrogante eternamente, contente como um porco na lama, sem ter consciência de que está na sujeira. Você, que se deu conta, já possui a chave em suas mãos. Basta utilizá-la — e ela destranca a cela pelo lado interno, dia após dia, um clique simples de cada vez.
Há uma entidade venerada no Brasil que representa o laboratório ideal da Síndrome do Bolsonaro Hipotético em sua forma mais genuína: o grupo de família no WhatsApp. É nesse lugar que o jacu da fanfic encontra o seu espaço, o seu Coliseu. O tio do zap — que é uma figura comum na vida de muitos, e se você não tem um, atenção, pois você pode ser o tio do zap — é aquele que recebe um áudio de doze minutos de um "especialista" desconhecido, dissemina essa informação como se fosse uma verdade absoluta e elabora, a partir desse áudio, uma teoria da conspiração que conecta a vacina ao comunismo, ao Papa, ao 5G e à terra plana, tudo isso de uma vez, com uma coerência interna que lembra enredos de romances de fantasia. O que impressiona é a imunidade dessa pessoa: você apresenta a verificação, a fonte, a refutação, a evidência concreta, e ele responde com um "mídia comprada" e um emoji de risada, pois já ultrapassou o limite da razão, já se encontra em um lugar onde a lógica não chega, e lá dentro, a evidência é vista como uma estratégia do adversário. O tio do zap é o esquerdista isolado com o sinal político invertido — a mesma doença, a mesma bolha, a mesma narrativa fantasiosa, apenas a bandeira na camiseta é que muda. Os dois, o tio conservador e o sobrinho militante da esquerda, se detestam no grupo da família, acabam com o clima do almoço de Natal, e são gêmeos idênticos na essência: ambos extraem a certeza de um mesmo lugar que o Batman do Adam West, ambos consideram quem pensa diferente como um demônio, e ambos preferem explodir a reconsiderar. A distinção entre eles é superficial; a enfermidade é a mesma, e ela possui um local certo no esgoto do hexagrama.
Da mesma linhagem está o que sempre dá palpite, o experto em todas as áreas, a pessoa que possui uma opinião rígida e certeira sobre absolutamente qualquer tema, desde a geopolítica do Oriente Médio até a formação do time, passando pela vacina e pela reforma tributária, além de assuntos sobre a criação dos filhos e o matrimônio. Faça qualquer pergunta a ele e ele possui a resposta. Ele tem plena certeza e consegue esclarecer a questão em apenas três frases, algo que levou especialistas a uma vida inteira para não conseguir resolver. E a ironia está no fato de que a confiança dele diminui conforme aumenta o conhecimento: quanto menos ele entende de um tema, mais assertivo ele se torna, pois a ignorância, como já mencionei, não reconhece suas próprias limitações e, por isso, se sente inteira, plena, pronta. O verdadeiro especialista naquele tema hesita, reflete e responde com expressões como "depende", "é complexo", "não sei ao certo" — enquanto o palpiteiro observa essa humildade e chega à conclusão de que o especialista é que está inseguro, é o fraco, e que ele, o palpiteiro, é quem possui uma "opinião bem definida". Estamos vivendo tempos confusos: aqueles que têm conhecimento desconfiam, enquanto os que não sabem afirmam com convicção. E a plateia, igualmente desinformada, aplaude essas certezas, pois é mais prazeroso ouvir um "sim" do que um "depende". O palpiteiro representa a democratização da arrogância intelectual: agora, qualquer pessoa se considera especialista em qualquer assunto simplesmente porque leu um post, assistiu a um vídeo, e o deuzinho de bolso deu a cada um o diploma honorário de autoridade universal em tudo que surge na timeline.
E há o guru espiritual de retiro caro, que encerra a minha galeria de hoje, pois representa a idolatria comercializada em um pacote all inclusive. É o indivíduo que percebeu que a busca por transcendência da classe média alta ansiosa é um negócio bilionário, oferecendo espiritualidade da mesma forma que se vende um spa: retiros de fim de semana por um preço acessível, técnicas de respiração mágicas, energias, vibrações, curas ancestrais, tudo com a condição sagrada de que nada ali vai te confrontar, te corrigir ou exigir uma verdadeira mudança — uma vez que o cliente não deseja crescimento pessoal, mas sim um carinho na alma, um mimo para o ego com o aroma do incenso. É o "deus com a sua própria essência" novamente, agora com toalha de linho e chá de ervas, um deus que não exige, não faz julgamentos, não muda, apenas valida, acolhe e afirma que você já é perfeito do jeito que é, que só precisa "se permitir" e "se amar mais". E o tolo sai do retiro leve, renovado, iluminado — por uma semana, até que a vida real retorne e a clareza do fim de semana desapareça, pois não construiu nada, não transformou nada, apenas adquiriu a sensação passageira de ter se modificado, o equivalente espiritual de uma ressaca de alegria. Porque a verdadeira transformação é difícil, é demorada, é dolorosa, é um trabalho artesanal de eliminar aquele "deusinho" que carregamos no bolso um pouco a cada dia — e isso não se encaixa em um pacote de fim de semana e nem gera fotos bonitas para as redes sociais. O que o guru oferece é uma forma rápida, mas não há caminho rápido para a transcendência, meu amigo; existe apenas a escada, que deve ser subida um degrau de cada vez, e ninguém vende escadas, pois elas exigem esforço para serem superadas, enquanto o cliente busca um elevador.
E há o chefe arrogante, que merece estar na galeria, pois é lá que o "deusinho" de bolso conquista seu crachá, uma sala com ar-condicionado e um verdadeiro poder sobre a vida alheia. É a pessoa que confunde a posição que ocupa com seu valor pessoal, que acredita que dar ordens é o mesmo que liderar, que envergonha o funcionário na frente dos colegas para demonstrar poder, como um cachorro marcando território. Esse tipo exala a mensagem "aqui quem manda sou eu" justamente porque, no fundo, tem plena consciência de que não possui nenhuma autoridade além da que vem do seu crachá — o verdadeiro líder não precisa reforçar para ninguém que é o chefe, sua autoridade é reconhecida de maneira natural; já o chefe prepotente grita precisamente porque sua autoridade não se sustenta por si só, depende do apoio do medo. Ele realmente aprecia quem faz-lhe elogios, rodeia-se de bajuladores, privilegia aqueles que concordam com ele e persegue os que divergem de suas opiniões. Dessa forma, cria ao seu redor uma corte de subordinados temerosos que validam tudo o que ele afirma, fazendo-o acreditar que é um gênio, já que ninguém jamais o desafia, pois ele já demitiu ou afastou todos que tinham a coragem de contrariá-lo. É uma troca de ideias sofisticada com planejamento, a rede de contatos com salário garantido. E o resultado é sempre o mesmo: a empresa se deteriora por dentro, os bons saem porque não suportam a situação, os bajuladores ficam porque é o seu ambiente natural, e o chefe, rodeado de incompetentes que ele mesmo escolheu pela obediência, se questiona por que nada dá certo — sem jamais perceber que o problema está no reflexo que ele se recusa a encarar. O chefe arrogante é a evidência clara de que conceder poder a um ego inflado é semelhante a fornecer fósforo a uma criança em um galpão de explosivos: não se trata de se vai haver uma explosão, mas sim de quando isso acontecerá.
E há também a outra faceta, igualmente elucidativa: o subordinado que, ao conquistar um pequeno poder, se transforma em um tirano ainda pior do que o seu superior. O porteiro que percebeu que tem o poder de te impedir a entrada e faz isso por diversão; o atendente do balcão que possui um carimbo e te manda voltar três vezes só pela satisfação de usar o carimbo; o segurança que ganhou um colete e uma lanterna e agora se sente o rei do estacionamento. Trata-se do fenômeno do pequeno poder, que revela um caráter superior ao grande poder, pois o grande poder possui limitações, consequências e pessoas que o supervisionam; já o pequeno poder é solto, anônimo, sem fiscalização, e, por isso, demonstra o que a pessoa realmente faria se tivesse total liberdade. Conceda a alguém o menor dos poderes sobre o outro e você observará, em miniatura, o deus que ela se tornaria se tivesse a oportunidade — e na maioria das vezes, o espetáculo é triste, pois o que se revela é o pequeno deus de bolso finalmente com um súdito de verdade para comandar, e a euforia que isso provoca em seu semblante evidencia a grande sede de poder que estava reprimida ali. Por isso, a forma mais sincera de entender o caráter de uma pessoa não é observar o modo como ela se comporta diante dos poderosos — com eles, todos costumam ser educados por motivo de interesse —, mas sim prestar atenção em como ela trata aqueles que nada podem oferecer em troca: o garçom, o faxineiro, o atendente, o porteiro e até mesmo o desconhecido sem importância. A maneira como alguém se comporta em relação àqueles que pode pisotear sem enfrentar consequências revela o verdadeiro caráter da pessoa. É uma espécie de radiografia final, uma imagem sem edições, onde a verdade se mostra de forma nua e crua. O humilde se dirige ao inútil com a mesma dignidade com que se dirige ao útil, pois para ele ninguém é simplesmente útil ou inútil, todos são pessoas; já o prepotente ajusta seu tratamento conforme o poder que o outro exerce sobre sua vida, por isso é gentil com o chefe e cruel com o garçom — e nesse ajuste, nessa medida que avalia as pessoas pela sua utilidade, ele revela, sem perceber, que não enxerga pessoas em lugar algum, apenas degraus a serem subidos e vermes a serem pisados.
E há o reclamador crônico, que parece ser o contrário do prepotente, mas é a mesma cerimônia vestida de outra forma. É a pessoa que nada a satisfaz, nada a agrada, nada parece bom o suficiente — o restaurante é péssimo, a cidade é desastrosa, o país não tem solução, o clima está inadequado, a comida está gelada, o governo é responsável por tudo, e ele, coitado, é a única mente clara em meio a tantos ineptos. Pode parecer humildade, até mesmo uma postura de vítima, mas observe o que está por trás: o reclamante habitual se coloca, a cada queixa, numa posição superior a tudo aquilo que critica. Ele é o crítico absoluto, o avaliador máximo, o julgador de tudo e de todos — e o mundo todo é um réu eterno no tribunal de suas preferências. É o pequeno deus em miniatura atuando como crítico gastronômico da vida: nada satisfaz Sua Majestade, pois agradar exigiria que a realidade estivesse à sua altura, e a realidade, insistente, nunca consegue estar. A reclamação crônica também se configura como uma fuga, uma forma de covardia: é mais simples criticar o mundo do que promover mudanças em si mesmo, é mais fácil señalar as falhas de tudo do que realmente construir algo, é mais cômodo ser o crítico da arquibancada do que o jogador no campo que falha, apanha e persiste em sua tentativa. O reclamão nunca se atreve a atuar, pois ao atuar ele poderia falhar, e uma falha feriria seu preciosismo. Assim, ele permanece na arquibancada, resguardado, avaliando quem está em ação, e denomina sua própria falta de coragem de "senso crítico afiado". A gratidão, sobre a qual comentei, é o remédio preciso para isso: enquanto o que reclama observa apenas o que está em falta, o grato percebe o que já possui. A diferença entre os dois não está na realidade, que é a mesma para ambos, mas sim na maneira como enxergam — um optou por uma visão que só identifica falhas e a chama de clareza, enquanto o outro escolheu uma perspectiva que identifica virtudes e a denomina de felicidade. Ambos estão corretos em suas percepções, pois cada um vê apenas o que sua visão permite.
Eu poderia continuar desfilando a noite toda, pois o deusinho de bolso é prolífico, reproduzindo-se como barata em todos os cantos da vida humana, e a cada época inventa novas fantasias para ele — amanhã surgirá um arrogante de inteligência artificial, aquele que terceiriza até o pensamento para a máquina e ainda se considera um gênio por saber digitar o comando. Mas, neste ponto, você já aprendeu a essência, já tem o olhar treinado, consegue fazer sozinho o que eu fiz ao longo do livro inteiro: tirar a fantasia e reconhecer o mesmo corpo por trás de todas elas. E é exatamente isso que eu queria te oferecer, por trás de toda a gíria e das risadas: não um catálogo para você listar os outros e se sentir superior por tê-lo — isso seria apenas te dar um pequeno item mais elaborado —, mas um espelho, para que você possa reconhecer o que tem de ruim em você mesmo, onde isso se esconde e causa mais danos, que é dentro de casa, dentro do coração, do lado de cá do espelho.
E não posso encerrar sem mencionar o esnobe cultural, a pessoa que elevou seu próprio gosto a uma espécie de fé e condena aqueles que apreciam o que ele não aprova. É aquele que faz cara feia para quem aprecia sertanejo, para quem acompanha novelas, para quem lê best-sellers, para quem curte funk — não porque tenha uma base estética sólida, mas porque menosprezar o gosto popular traz a satisfação gostosa de se sentir parte de uma elite de bom gosto, um grupinho de privilegiados que conseguem apreciar o que a massa não consegue compreender. E observe a mecânica do pretensioso: ele não realmente aprecia a arte complexa que finge valorizar — o que ele realmente ama é a sensação de superioridade que essa farsa lhe proporciona. A evidência está no fato de que ele menciona o filme que nunca viu até o final, faz elogios ao livro pesado que deixou na vigésima página, simula entusiasmo em relação à obra que o aborreceu, tudo isso para preservar o título de membro da elite do bom gosto. É a vaidade vestida de sofisticação, o fariseu renascente, agora nas dependências do museu: "obrigado, Deus, por não possuir o gosto vulgar dessa plebe que aprecia música popular". O curioso é que o verdadeiro homem de cultura, aquele que realmente leu, viu e ouviu bastante, geralmente é o antônimo do esnobe — ele é capaz de valorizar a grandeza onde quer que ela se encontre, seja em um sertanejo bem feito, em um funk inteligente ou em uma novela bem escrita, pois possui um vasto repertório que o dispensa do desprezo como um artifício de status. Aquele que sabe pouco desdenha para aparentar conhecimento; já quem sabe muito valoriza, pois não tem nada a provar. O esnobe cultural é aquele que confunde desprezo com discernimento, soberania com bom gosto, e utiliza a arte não para se elevar até o belo, mas para se colocar acima dos outros — distorcendo até a beleza, que deveria ser uma ascensão, em mais um pedestal para seu próprio ego.
E agora, ao final, eu reúno tudo — não refazendo o percurso, mas compactando-o em uma única mão. Se você conseguiu ler o livro por completo, percebeu que um único personagem muda de identidade várias vezes: o garoto que pisa naqueles que o desejam, o acusador que chama o conselheiro de hipócrita, o idoso que confunde ruga com diploma, o coach que tira psicologia de onde não deveria, o esquerdista enclausurado na sua bolha, o pastor que apresenta um deus à sua imagem e semelhança, o jacu que busca certeza de forma duvidosa, o místico das redes sociais, o alfa do manual, a princesa dos feeds, o relativista que queima o herege, o racionalista que idolatra a própria razão, e o mundano que transformou a prateleira na sua representação do céu. São inúmeras fantasias, e sob todas elas, um único corpo, um único gesto: a entidade que se recusa a ser reduzida a mero ser, o eu que não aceita nada além de si mesmo, a arrogância — o maior dos pecados luciferianos, o impulso de todo o mal, a chispa que acende o hexagrama e a desintegração da alma no ralo onde tudo se transforma em opinião, até mesmo o traseiro do Batman, até a noção de bem e mal. Toda a comédia humana que apresentei aqui, do flerte à filosofia, do algoritmo à inflação, da sala de aula à fogueira, é a mesma descida disfarçada de subida, a mesma queda que se aplaude acreditando que está escalando o Everest.
E o antídoto é único, mesmo que eu o tenha chamado de mil maneiras ao longo do caminho. Eu me refiro a isso como estar ciente da própria posição na fila do pão, como ter um ego equilibrado, ser generoso, cultivar uma humildade resoluta, praticar a gratidão, demonstrar coragem, exercer paciência, manter a honra, buscar uma verdadeira liberdade, amar o próximo, ter uma fé que se fundamenta na razão, respeitar e reconhecer algo superior. É a mesma ação observada sob uma perspectiva distinta: o ser aceitando sua condição de ser, o eu reconhecendo uma grandeza à qual se adapta em vez de tentar moldar essa grandeza a si. Isso representa a ascensão, a cidade de Deus erguida sob a base do amor que se estende até o sacrifício de si mesmo, em contraste com a cidade do homem, que se apoia no amor-próprio e que culmina no desdém por tudo que é demais. E essa ascensão não é um salto de herói que acontece apenas uma vez; é uma escada de ações pequenas e cotidianas, o que não se diz ao deuzinho de bolso que revive todas as manhãs desejando retomar o trono. Derrubar essa pequena vaidade aos poucos, recusar-se a acender uma vela para o próprio reflexo, baixar a cabeça diante do mestre e firmar-se diante do palhaço, dizer "não sei, deixe que eu investigue", ouvir aqueles que já passaram por esse caminho, amar o próximo como um universo que não orbita em torno de mim — é disso que se trata, e sempre foi assim, desde a primeira linha.
Então sorria, se sorriu, e fique irritado, se se irritou, pois ambas as reações são sinais de vida. E a frustração que você sentiu em algum momento não era raiva de mim: era seu próprio deuzinho de bolso se remexendo na cadeira, incomodado por ter sido visto nu. Porém, ao fechar estas páginas, faça uma única coisa que vale mais do que todo o riso e toda a raiva juntas: olhe no espelho e pergunte, com a sinceridade que machuca de ambos os lados, quanta daquelas figuras de mil fantasia habita em você. Você vai encontrar algo, pois todo mundo encontra — e não se desespere com o que descobrir, pois o desespero é apenas a prepotência em sua forma invertida, mais uma ilusão desse mesmo deus. Vamos iniciar a ascensão. A chave sempre esteve em seu bolso, do lado de dentro da cela, e ela possui um nome que o nosso tempo converteu em uma palavra fraca, mas que é, na verdade, a coisa mais forte e mais difícil do mundo. Humildade, meu caro. Após toda a alegria e toda a indignação, é apenas isso que realmente importa, e sempre foi assim. Humildade — e, por favor, coloque um pouco de modéstia.
Referências
AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. Tradução de Oscar Paes Leme. Petrópolis: Vozes, 2012.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de António de Castro Caeiro. São Paulo: Forense, 2017.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2013.
DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Meneses. Petrópolis: Vozes, 2014.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Fernando Costa Mattos. Petrópolis: Vozes, 2015.
MAQUIAVEL, Nicolau. O príncipe. Tradução de Maria Júlia Goldwasser. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
MISES, Ludwig von. Ação humana: um tratado de economia. Tradução de Donald Stewart Jr. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2010.
NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. Tradução de Mário da Silva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
ROTHBARD, Murray N. Homem, economia e Estado. Tradução de Pedro Sette-Câmara. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises Brasil, 2012.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens. Tradução de Maria Ermantina Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução de João Batista Kreuch. Petrópolis: Vozes, 2012.
SMITH, Adam. A riqueza das nações. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
TERESA DE ÁVILA, Santa. Castelo interior ou moradas. Tradução das Carmelitas Descalças. São Paulo: Paulus, 2010.
TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma teológica. Tradução de Alexandre Corrêa. São Paulo: Loyola, 2001-2006.
VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. Tradução de José Viegas Filho. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.
WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. Tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

Círculo de Estudos Nous
Explore o site e converse conosco no Instagram, YouTube e facebook:
Contato
Boletim informativo
@ nous_pva
© 2026. Círculo de Estudos Nous. Todos os direitos reservados.
