O SOL QUE OS COVARDES NÃO SUPORTAM - Psicologia Simbólica da Nous

O temor é, sem dúvida, uma das características mais intrínsecas à natureza humana, enquanto a covardia representa a sua metamorfose quando não é devidamente corrigido. Entre esses dois extremos, frequentemente se revela um riso — e, na maioria das vezes, esse riso se assemelha a uma lâmina afiada. Existem homens que exercem o poder com a majestade do Sol e aqueles que, por outro lado, apenas sabem dominar como macacos. Este ensaio tem como objetivo avaliar a distância precisa que separa a coroa da matilha.

Gabriel G. Oliveira

8/8/202634 min ler

A Coroa, a Matilha e a Bigorna

Comece com o que é mais fácil, pois o mais fácil é exatamente aquilo que a maioria das pessoas evita encarar: sentir medo é uma das emoções mais naturais que existem. Não há homem de verdade que não tenha sentido a boca ficar seca antes de uma prova, o estômago afundar antes de uma briga, a respiração faltar antes de dizer uma verdade dura na cara de quem poderia matá-lo. O medo é algo comum, pois desempenha uma função importante; é o sinalizador que a natureza instalou em nosso interior para nos alertar sobre situações que merecem nossa atenção. Aqueles que menosprezam o medo, tratando-o como um erro intrínseco à natureza humana, provavelmente não compreenderam a verdadeira essência do ser humano. É bem possível que sejam exatamente o tipo de pessoa que nunca se viu em uma situação de risco real na vida, a ponto de experimentar o medo de maneira genuína. Assim, o medo nunca foi, de fato, o problema. A questão é que o medo, com o passar do tempo, se transforma em covardia quando não é devidamente controlado ou orientado. Entre as duas coisas, há uma diferença colossal. O medo é uma emoção, enquanto a covardia é uma característica de personalidade. O medo te atravessa; a cowardice se estabelece, acomoda-se na alma e passa a decidir por você.

É por isso que a covardia quase nunca se proclama com fanfarras. Ela não aparece no dia da luta decisiva; ela aparece nas inúmeras pequenas capitulações diárias que ninguém registra. É aquela brincadeira que você engole silenciosamente porque responder exige esforço. É a ideia que você tem, mas não consegue expressar porque todos à sua volta pensam de forma diferente. Trata-se de um elogio insincero que você oferece para garantir que não seja excluído do próximo convite. Cada uma dessas capitulações parece insignificante, uma astuta economia de esforço — e é exatamente assim que ela te persuadiu. No entanto, após anos de acumulação, você percebe que formou um homem completo a partir de retrocessos, uma pessoa que já não consegue mais recusar algo porque esqueceu como realizar esse gesto. A covardia é como uma callosidade que se desenvolve na coragem quando você a deixa de lado. O mais cruel é que ela se apresenta como prudência, maturidade e a capacidade de "saber escolher as batalhas" — quando, na verdade, é apenas medo que envelheceu e adquiriu um vocabulário mais elaborado.

Essa transição do medo para a covardia é o tema oculto da maior parte do que abordarei aqui, pois não se dá apenas em situações de combate ou em momentos de decisões importantes. Ela ocorre na sala de aula, entre amigos, no ambiente de trabalho, durante uma conversa informal, ou mesmo em um comentário que parece uma brincadeira, mas que na verdade é um golpe profundo. Ela se manifesta, principalmente, através do riso. É neste ponto que muitas pessoas poderão mostrar uma expressão de ceticismo e pensar que eu estou ficando louco, uma vez que irei sustentar uma argumentação que pode parecer contraintuitiva, mas que, após ser compreendida, se revela quase evidente: a comédia tem suas raízes no medo. O riso e o medo são parceiros de parede. Vou demonstrar isso de forma tranquila, utilizando exemplos concretos, mas desde já, guarde essa ideia, pois ela irá se desenvolver e trazer resultados significativos.

Antes disso, preciso criar o grande mapa, caso contrário, a peça não terá um palco para se apresentar. No Círculo de Estudos Nous, realizo uma organização da personalidade que herdei do professor Olavo de Carvalho, especialmente durante sua fase mais esotérica, a qual muitos hoje tentam ocultar por vergonha, mas que foi a época em que ele se mostrou mais perspicaz. As doze camadas que compõem a personalidade. Vou afirmar algo que certamente irá perturbar os racionalistas de plantão: não é possível dividir essas doze camadas ignorando o fato de que o tema é, sem dúvida, esotérico. O setor é realmente esotérico, sem dúvida. Você pode extrair o máximo que puder, pode tentar adaptar tudo para uma psicologia acadêmica e convencional, mas quando você observa de perto as camadas, o símbolo se destaca de forma tão evidente que não desaparece mais. É impossível desassociar. Aqueles que tentam dividir estão desfigurando a essência para que se encaixe no espaço reduzido da modernidade, e o que resta é apenas um esqueleto sem a medula que dava vida àquilo.

Há um aspecto que se revela apenas quando você abandona a resistência e observa o símbolo: algumas camadas compartilham o mesmo símbolo. A décima primeira e a décima segunda, por exemplo, agem quase como se fossem uma única entidade. Tudo lá é movido pelo sol. Tudo o que está presente possui uma interpretação simbólica relacionada ao Sol, à liderança, ao princípio que regula e esclarece de cima. Elas se movem como se fossem irmãs gêmeas. Mas por que o professor Olavo fez essa divisão? Por um motivo prático, quase clínico. Há indivíduos que, para usar uma expressão repleta de aspas, pertencem à décima segunda camada, mas que não seguem nenhuma orientação religiosa. Aí a situação se transforma. A mesma constituição da alma pode ser destinada tanto ao céu quanto ao inferno, dependendo da direção para a qual ela se orienta. Com uma orientação religiosa, essa camada proporciona um imenso benefício, oferecendo proteção, promovendo a ordem e sustentando muitas pessoas. Sem direção, ou ainda pior, com uma direção oposta — a versão diabólica da situação —, ela realiza precisamente o oposto: ela demoniza tudo, aniquila tudo, converte o talento para governar em um talento para devastar. O mesmo poder que coroa, transforma-se no poder que decapita. É por essa razão que a divisão ocorre: para nomear a divergência moral dentro de um mesmo grupo de pessoas.

Permita-me ilustrar isso com um exemplo que provavelmente fará com que muitas pessoas queiram me criticar severamente nos comentários. Tem um rei incrível, um cara que basicamente manteve o Ocidente em suas próprias mãos: Ricardo Coração de Leão. Uau, já consigo ouvir a gritaria: "ai, Ricardo Coração de Leão, assassino, cruzadas, não sei o quê". Calma, meu irmão. Respire. Se não existissem figuras como Ricardo Coração de Leão e alguns outros, como Vlad Tepes — esses indivíduos que, atualmente, são amplamente rotulados como demônios sem uma segunda consideração — é bastante provável que hoje você se chamasse Muhammad, que sua esposa usasse uma burca e que ela fosse agredida na rua se tivesse a audácia de retirá-la. Você aceitaria a sharia sem ter a opção de escolher. Estou utilizando a tinta espessa de forma intencional, como uma forma de provocação, desafiando o crítico imaginário; porém, por trás dessa provocação, existe um fato histórico inegável: foram homens de personalidade radiante, com uma vocação voltada para a liderança e para a guerra, que impediram uma expansão capaz de reconfigurar o mapa do mundo. Ricardo I da Inglaterra durante a Terceira Cruzada e Vlad III, o Empalador, mantendo os otomanos sob controle em pleno território da Valáquia. O que distingue esses homens, fazendo com que alguns os chamem de heróis e outros de monstros, não é a essência de suas almas — é a direção que eles tomam. Era a direção para a qual o Sol deles indicava. Remove a conotação religiosa, altera a polaridade, e o mesmo Ricardo se transforma em um tirano qualquer. Mantém a direção, e o tirano em potencial se torna o protetor de uma civilização. A camada é idêntica; o destino é diferente.

Agora que consegui minimizar algumas das brincadeiras da esquerda que ameaçavam inundar a seção de comentários, permitam-me retomar o fio condutor principal, pois ele conecta tudo. Cada faceta da personalidade possui um medo que a acompanha. E é aqui que você vai começar a pensar que eu pirou de vez e decidi misturar alquimia nas doze camadas do professor Olavo — esse medo não é apenas um medo qualquer. O receio associado a cada camada representa a antítese simbólica do ícone correspondente a essa camada. É o antípoda alquímico do que aquela alma mais aprecia. Você compreenderá isso mais adiante, quando eu concluir a conexão entre o Sol e Saturno, assim como entre Mercúrio e Marte. Por enquanto, é suficiente cravar a estaca: o que uma alma teme profundamente é a aniquilação precisa daquilo que ela mais representa. É precisamente dessa ferida — daquele lugar onde o medo se encontra com o símbolo invertido — que nasce tanto a gnose quanto o riso. Pois, em essência, ambos têm a mesma origem: algo que fugiu do nosso domínio e que pôs em risco a nossa integridade.

Eu me refiro ao motor que impulsiona toda essa engrenagem como o hexagrama da perdição. Foi uma concepção que eu elaborei, mas admito que ela surgiu de maneira quase reveladora, pois para mim, esses assuntos são tão evidentemente claros que chega a ser constrangedor — eu simplesmente observo e compreendo, assim como alguém que olha para a água e percebe que ela é molhada. O hexagrama da perdição representa a organização daquilo que gera a gnose: assim como o medo, quando não tratado, se estrutura em uma forma, em uma construção interna de autodestruição que a alma cria contra si própria. Não irei analisar toda a figura detalhadamente neste momento, aresta por aresta, pois isso consumiria todo o ensaio e eu perderia o fio da meada que preciso seguir até o final. A gnose psíquica não é um evento raro e estranho que ocorre com algumas pessoas que praticam o tarô; lembre-se bem deste princípio, pois é fundamental. Ela representa a conclusão inevitável de um medo que se transformou em covardia, que, em vez de direcionar seu olhar para o exterior e para o alto, voltou-se para dentro e começou a criar uma realidade alternativa na qual o indivíduo se torna o deus de si mesmo. Mantenha isso em mente. Precisaremos dele ao alcançarmos o riso que oprime.

É importante detalhar como essa dobra funciona, pois é aí que está o segredo. O medo que é considerado saudável observa o exterior — em busca de perigos reais — e também olha para cima — em direção àquele que pode oferecer ajuda. A covardia age de maneira oposta: ela tranca ambas as portas. Não olhe para fora, pois encarar o mundo é amedrontador; não olhe para cima, pois se submeter a uma força superior machuca o ego. O que resta quando essas duas direções se encerram? Só resta o que está dentro. A alma, sem qualquer possibilidade de escapar vertical ou horizontalmente, inicia um processo de escavação em seu interior e passa a edificar, nesse espaço, uma segunda realidade — um universo íntimo no qual o indivíduo não precisa se submeter a nada, pois ele mesmo é o parâmetro para tudo. Esse é o nascimento da gnose psíquica: não um conhecimento oculto que vem de cima, mas uma criação que emerge do medo. O gnóstico não percebeu que é um deus; ele se escondeu nessa falsa crença porque a outra opção — aceitar sua pequenez diante de algo superior — era intolerável para um orgulho machucado pela própria cowardice. O hexagrama da perdição representa a ilustração dessa fuga: a configuração que a alma constrói contra si própria quando opta por governar em cima de uma mentira em vez de servir dentro de uma verdade.

Agora, vamos falar sobre o riso. Em primeiro lugar, é fundamental definir claramente o que se entende por comédia, pois muitas pessoas, especialmente as mais modernas, já não têm mais essa noção. Perderam o órgão responsável por identificar o que é engraçado. Você observa o jovem contemporâneo misturar humor com crueldade constantemente, e nem se dá conta de que cometeu esse erro. Para ele, o que é engraçado se resume a uma travessura maliciosa: aquela que chega, fere o outro, arruina a vida dele, e vai corroendo a moral da pessoa diante do grupo, tijolo por tijolo, até fazer desabar toda a estrutura. Quando o alvo responde, a reação é sempre a mesma, uma resposta preguiçosa que se repete incessantemente, como um relógio parado que, mesmo assim, acerta a hora duas vezes por dia: "ah, é brincadeira, não aguentou, sai do grupo". Observe a astúcia da maldade implícita nessa frase. Ela permite que o agressor tenha total liberdade para proferir as piores ofensas sobre a vida dos outros, e ao mesmo tempo transfere toda a responsabilidade para a vítima, que passa a ser vista como a chata, a sem-noção, a que "não tem senso de humor". É uma armadilha impecável. O vilão leva o prêmio, enquanto o ofendido arca com a despesa.

Essa maldade inerente — pois é realmente maldade, não há outra expressão adequada — é o que arruína a mente do jovem contemporâneo. Vamos deixar isso bem claro para que ninguém desvie do assunto. Imagine que eu compartilhe um segredo com um amigo. Um verdadeiro segredo, algo que você compartilha porque confia. Ele compartilha esse segredo de maneira leve, como se fosse uma brincadeira, cercado por um mar de aspas. Qual é a função desse sujeito? Não existe um ponto intermediário ou qualquer sutileza que possa suavizar: ele é um verdadeiro filho da puta. Um indivíduo odioso, naquele momento. Este é, de fato, o principal dilema enfrentado pelos jovens de hoje: eles não conseguem mais reconhecer a diferença entre uma piada e uma facada, e vivem cercados de facadas, acreditando que estão em uma celebração.

Alguns só despertam quando recebem um forte golpe. Eu me refiro a isso como a grande pancada, que é um evento particular: é o instante em que a pessoa, por falar bobagens em excesso, enfrenta todas as consequências de uma só vez. Ele perde seus amigos devido a um comentário sério e inadequado; a confiança de todo o grupo é abalada; ele se torna excluído; e passa a ser menosprezado por todos. Ele passou por uma experiência negativa — não no sentido físico, mas no moral. Isso é o que poucos conseguem captar: com o corpo, não há proveito algum. Você pode agredir um homem e ele continuará sendo a mesma pessoa; a dor física é temporária, mas a essência do caráter permanece inalterada em sua maldade. Mas é quando a dor atinge a moral, quando a pessoa perde o respeito de todos ao seu redor e sente intensamente o peso dessa perda, é nesse momento que ela realmente desperta. Então ele se acomoda no chão, em termos morais, e passa a duvidar se, talvez, tenha sido um verdadeiro idiota durante toda a sua vida. Aí ele se transforma. Sim ou não. Há pessoas que, mesmo após sofrerem um golpe, permanecem inalteradas, teimosas em sua própria maldade, e só irão se transformar quando experimentarem um impacto tão colossal que as faça cair sentadas de uma vez por todas. Antes, meu filho, deixa pra lá. Não gaste energia tentando ajudar aqueles que ainda não passaram por dificuldades suficientes para desejar uma mudança.

Mas o que, afinal, caracteriza uma boa comédia? É isso mesmo que a Igreja Católica sempre definiu: o humor do bom gosto. E não me venha com a desculpa de que "ah, Gabriel, aquelas piadinhas chatas de padre". Isso não é correto, não tem relação alguma. Um humor bem estruturado é aquele que não precisa ofender ou menosprezar ninguém para ser engraçado, que encontra a graça no absurdo em vez de baseá-la na humilhação de outros. Permita-me ilustrar isso com um exemplo real. Recentemente, fiz uma brincadeira com um amigo meu. Ele não é um novato, mas também não é um expert no assunto — está entre os dois, ele ensina e eu até assisto às aulas dele. Era o dia do seu aniversário. E eu disse o seguinte:

GABRIEL

(com uma expressão extremamente séria, o que apenas aumentava a situação cômica)

Ah, meu caro amigo, o meu presente para você é este: eu me dedico a você para que possa estudar a obra de São Tomás de Aquino com calma, do início ao fim. Além disso, tenho ainda mais paciência para que você possa ler todas as notas de rodapé e compreendê-las completamente. Parabéns pelo seu aniversário.

O COMPANHEIRO

(entre o sorriso e a revolta, como se tivesse recebido um abraço e um beliscão ao mesmo tempo)

Menino... valeu, acho.

Observe a anatomia do objeto. Eu queria o bem dele — o bem sincero, porque ler a Suma toda com as notas é graça pouca. Mas, ao mesmo tempo, eu estava zombando da quase cósmica impossibilidade de realizar isso a tempo. Todos no grupo caíram na risada. Não se tratou de um riso dirigido a ele; foi um riso compartilhado entre ele e os demais, sobre uma dificuldade que todos presentes estavam cientes. Se, por um milagre, ele realmente conseguir, será incrível e uma verdadeira fonte de alegria. É algo trivial do cotidiano, mas observe a diferença de temperatura: é o contrário de entrar de maneira abrupta e ofender a pessoa intencionalmente. O humor estruturado ri da circunstância; o humor caótico ri da pessoa. Um levanta, o outro destrói.

E aqui é necessário estabelecer um limite que a modernidade extinguuiu: há coisas que não se deve brincar. É proibido. Para um homem, lidar com essas questões é considerado inadequado; para uma mulher, é ainda mais grave. Ridicularizar a sua família, o seu emprego, as suas realizações, a sua aparência e a sua dignidade. Essas cinco questões — família, emprego, bens, imagem e reputação — eu denomino pentagrama do respeito. O nome realmente tem seu significado e importância. Na Antiguidade, e também na própria Igreja, o pentagrama, ou pentágono estrelado, simbolizava a virtude de maneira significativa, muito antes de se tornar um simples rabisco associado a filmes de terror de baixo orçamento. As interpretações simbólicas que Tolkien realizava estavam cientes disso, e o exemplo mais claro pode ser encontrado na lenda de Sir Gawain — Sir Gawain and the Green Knight, o poema medieval que Tolkien traduziu e comentou. Gawain, sobrinho do Rei Artur e um dos cavaleiros mais renomados da Távola Redonda, representa o ideal da virtude cavalheiresca. No poema, incluíram no seu escudo o pentângulo — o "nó sem fim" — para simbolizar, entre outros feixes de cinco, as cinco alegrias de Nossa Senhora e as cinco principais chagas de Cristo. As feridas da crucificação: a coroa de espinhos dilacerando toda a cabeça, o das mãos ou dos braços — ainda se debate a localização exata da entrada dos pregos —, e o dos pés. Dizem até que a conta chega a mais, pois a parte interna da imagem lembra a lança de Longinus, quando o soldado perfura o peito de Cristo com a lança, e desse ato jorra sangue e água. Naquela estrela, reside um vasto universo de simbolismo relacionado à Paixão. Não vou detalhar tudo, pois é um assunto que qualquer pessoa pode pesquisar e eu acabaria me perdendo no raciocínio; é suficiente saber que a estrela de cinco pontas surgiu, no imaginário cristão, como um símbolo de virtude.

E quais são as cinco qualidades que se associam à humanidade, espalhadas pelo corpo do homem assim como as pontas da estrela? A sabedoria, na parte superior, que se encarrega da cabeça. A justiça, representada no braço esquerdo — uma vez que, em quase todas as tradições místicas, a mão esquerda simboliza a justiça, a severidade e o rigor que corta. O amor, situado na perna esquerda, associado a Eros, à união matrimonial, e ao amor que se manifesta no vínculo conjugal. A bondade reside na perna direita — e não é à toa que se afirma "comece com o pé direito", pois a bondade representa o início de forma virtuosa. É a verdade que se encontra na mão direita — a mão com a qual você oferece algo a outra pessoa, a mão que simboliza o ato de dar. Há um aspecto cultural, inclusive, que meus próprios familiares reiteram, oriundo do judaísmo: a mão direita é aquela que você não utiliza para se limpar; a esquerda é a que é usada para essa finalidade. É por isso que a direita representa a mão que saúda, a mão da dignidade. Portanto, há uma regra sutil de cortesia que pouquíssimas pessoas conhecem: se alguém se aproximar para te cumprimentar, você deve retribuir com a mão direita. Não se compara a você, em pé, estender a mão, com o ato de retribuir a alguém que se aproximou de você. A quem chega, você oferece a mão direita. Estender a mão esquerda a quem se apresentou para cumprimentá-lo é, em algumas situações, uma grave falta de respeito. A direita representa a entrega com respeito; a esquerda, a disciplina. Por essa razão, até mesmo na comédia, é essencial considerar essas cinco virtudes.

Se você comprometer essas virtudes fundamentais, estará agindo de maneira errada, e não há como minimizar isso. Vou explicar de maneira detalhada para que não haja dúvidas. Se você ridiculariza alguém com uma alfinetada sobre algo pessoal, você já quebrou a justiça — pois agiu de maneira injusta. O amor se quebrou — pois o ato foi destituído de qualquer caridade. Ele destruiu a bondade, pois humilhar não é um ato de bondade. Três qualidades ao mesmo tempo, em um só comentário "engraçado". Essas três características constituem o cerne do que se denomina hombridade: evitar ser um idiota, não usar as questões pessoais da vida de outra pessoa como arma, disfarçando a ofensa com um envoltório humorístico. Isto é uma ofensa disfarçada, não há outra classificação possível. É a piada utilizada como um porrete. E quando você critica algo que afetou apenas essa pessoa, algo que não prejudicou ninguém do grupo, e ainda assim usa isso para atacá-la — aí a verdade vem à tona de forma definitiva. Atualmente, muitas pessoas fazem isso constantemente, mas poucas têm a coragem de admitir. "Ah, eu tô só brincando." Na minha opinião, isso é uma justificativa de alguém que não tem coragem: divertir-se enquanto arruina completamente a reputação do amigo. "Aquele que se dane, aquele que se considerou superior, aquele que deve perder o seu grupo." Esse tipo de coisa repugnante eu faço questão de corrigir até em sala de aula, com meus alunos, porque não consigo tolerar. Só existe uma maneira justa de classificar isso: como devassidão e criminalidade. Pois quem age dessa forma está tentando destruir até mesmo a consideração que o grupo tinha pela pessoa. No meu entendimento, isso se relaciona à quarta camada — é como se todo o grafo dessa camada se revelasse neste ponto, na alma que sente a necessidade de menosprezar o outro para se reconhecer como alguém.

"Mas Gabriel, você não se importa com críticas, então por que se importar?" É verdade que você não se importa? Se alguém expuser um segredo seu, assim como você fez com o dele, tenho sérias dúvidas de que você não se sinta inclinado a reagir com agressividade. Aí você me questiona: "então você está dizendo que todo mundo tem que ser recíproco até nisso?". Sim e não. Certamente, no sentido de que é imperativo que você, de fato, reaja de maneira contundente contra aqueles que proferiram tolices a seu respeito. É claro que se trata de retribuir na mesma medida, e não há nada de errado nisso. O que está incorreto é considerar essa interação como algo digno de elogio, como se a mútua crueldade fosse a expressão máxima da amizade, o que é precisamente o que a sociedade faz atualmente. Daí os grupos masculinos se tornaram insuportavelmente ridículos. Porque essa crueldade disfarçada de piada se tornou a norma, e, na verdade, é característica de pessoas que não amadureceram. De quem não cresceu pessoalmente. É o sujeito que, aos trinta anos, ainda se comporta como um garoto de quatorze ou quinze anos — zombando dos outros e considerando isso uma forma de entretenimento. Qualquer pessoa que tenha o mínimo de conhecimento em psicologia evita se envolver com essas pessoas. Há uma razão bastante clara para isso: elas realizam esse tipo de brincadeira com o objetivo de minar o que você já conquistou e de destruir a moral que você estabeleceu dentro do grupo. Quanto mais corroem sua moral, mais elevam a deles. Trata-se de uma transferência. Ele está, de fato, usurpando o respeito que seus amigos tinham por você e se apropriando dele como se fosse seu. Não estou falando em retórica exagerada; é isso mesmo, literalmente. A psicologia evolutiva revela claramente esse mecanismo: quando alguém age de forma maldosa com você, ele está fazendo um teste. Está avaliando se você tomará alguma ação. Se você não tomar uma atitude, ele vai perceber que pode repetir isso com você sempre. Se ele passar a fazer isso regularmente, meu amigo, sua reputação não se sustentará por muito tempo. Em pouco tempo, todo o grupo passa a te ver como aquele que aceita tudo sem reagir. O passivão permite que todos possam bater sem se preocupar, pois não há consequências.

Os grupos humanos se assemelham, de maneira notável, a grupos de macacos, e afirmo isso de forma bem direta, sem qualquer romantismo. Ao se aprofundar nos estudos de psicologia evolutiva, essa vizinhança deixa de ser uma metáfora e passa a ser uma descrição real. O bully que invade o grupo alheio e começa a "brincar" com você nesse registro não está brincando: está tentando te subjugar. Se você continuar a ceder, eventualmente chegará um ponto em que ele começará a fazer brincadeiras de cunho sexual com você. Observe bem esse limiar, pois ele é crucial. No contexto em questão, a piada de teor sexual não é simplesmente uma ofensa gratuita: ela serve como um símbolo de controle e domínio. É a pessoa que está informando a todo o grupo, sem usar palavras explícitas: "olha, esse aqui é dominado, esse aqui é meu". Não é por acaso que tenha essa conotação sexual. Observe o que o macaco mais velho faz com o mais jovem quando este não demonstra resistência: ele o monta, ele o submete sexualmente como uma forma de afirmar sua posição na hierarquia — o ato de montar como um gesto de domínio é observado em várias espécies de primatas, não é uma invenção da minha parte. É exatamente isso que o agressor está realizando com você, apenas no âmbito moral e não no físico. Ele já riu tanto de você que agora te monta simbolicamente. Os outros percebem a situação: "ah, entendi, esse não é nada; então pode zoar à vontade". A comédia, entre amigos, quando degenerada, é quase um mecanismo de controle disfarçado de piada.

Se você se permitir ser dominado em excesso, acaba se tornando o membro mais passivo do grupo — aquele que é alvo de brincadeiras por todos, aquele de quem todos podem tirar sarro, até mesmo roubar, e fazer todo tipo de besteira sem enfrentar nenhuma consequência. Aplica-se tanto ao grupo masculino quanto ao feminino, ambos. Portanto, o crescimento em relação ao outro, dentro de um grupo desse tipo, precisa ocorrer — caso contrário, você será levado como uma figura passiva até o fim. Se você se encontra em um grupo de pessoas que carecem completamente de caráter e que não conseguem diferenciar o que é certo do que é errado, é importante que você compreenda uma coisa: a ética subjetiva nada mais é do que a falta de caráter disfarçada com um nome elegante. No final, é sobre isso que ela fala. Quando não existem distinções claras entre o que é bom e o que é mau, o único princípio que prevalece é o da força, e essa força se manifesta através da humilhação.

O momento em que isso atinge seu nível mais profundo é quando os homens dominam outros a tal ponto que os tratam como se fossem mulheres. Como ele já foi extremamente passivo e submisso, o grupo começa a tratá-lo dessa maneira: "cala a boca aí, você não tem que falar nada não". Como se estivesse lidando com a namorada irritante do grupo. Assim que você começa a se destacar ou se impor de uma maneira que não agrada um determinado grupo, rapidamente todo o grupo passa a te rebaixar, tratando-o como se fosse uma mulher, mesmo sabendo que você é homem, e isso não parece incomodá-los nem um pouco. Portanto, esse sujeito possui exatamente duas opções, sem uma terceira alternativa que seja agradável. Ou ele se impõe em relação a todos no grupo, ou ele se afasta definitivamente e passa a buscar novas amizades. Pois a outra opção é inclinar a cabeça para que os outros persistam em agredir. Não há um termo médio que seja digno.

A síntese contemporânea, que representa o retrato completo de toda essa animalidade, é, de fato, o famoso campeonato de aura. Um grupo de garotos fazendo expressões estranhas, gestos peculiares e poses incomuns, apenas para se apresentar como os melhores. É fácil: o indivíduo desempenha o papel de "o cara". Mas, afinal, o que realmente é isso? Trata-se do mesmo sistema de opressão, mas intensificado pela competição. "Aura" teve origem nas concepções dos animes: o personagem dá uma surra num grandão e sai naquela pose imbatível, e aquilo é a tal aura. "Farmar aura" é encenar essa superioridade repetidas vezes. Agora, se você prestar atenção ao comportamento dessas crianças, elas se comportam como macacos — de fato. Entre as verdadeiras tribos de macacos, no coração da floresta, esses animais possuem gestos particulares que realizam uns para os outros a fim de indicar que pertencem ao mesmo grupo: agitam as mãos, tocam as pernas, executam algum sinal que significa "somos da mesma matilha". Há certos grupos de crianças que, para mostrar que pertencem à turma de formação de aura, fazem exatamente isso — gestos específicos que simbolizam a pertença ao grupo. Não se trata de uma diferença em relação ao macaco; na verdade, são equivalentes em todos os aspectos. Portanto, a conduta da criança nesse jogo de aura é, se me permite dizer, mais semelhante à do macaco do que à do adulto. O adulto, em geral, não se importa com isso — ele consegue ser mais humano e menos ligado ao instinto de rebanho.

Pois há, de fato, uma comédia genuína, e esta é algo completamente diferente. O verdadeiro humor transforma o absurdo em algo cômico. Ela não rebaixa ninguém; ela sorri diante da discrepância entre as expectativas e a realidade. Quando um homem faz uma piada de teor sexual com você nesse tom, ele não está apenas sendo engraçado: ele está tentando te menosprezar, e essa forma de humilhação é sutil para que você não possa reagir de maneira a parecer exagerada. Se você concorda, passa a ser a vagabundinha do grupo. E, como todos costumam zombar, todos "brincam", o que torna simples camuflar o fato de que tudo isso se trata de uma série de ofensas disfarçadas. É fundamental que as pessoas compreendam de uma vez por todas: se alguém te ataca disfarçado de piada, essa pessoa não é sua amiga. De forma alguma. Ela deseja te dominar dentro do grupo, assim como o macaco mais forte tenta submeter o líder da alcateia — ele se aproxima, dá um tapa e foge, tapa e fuga, provocação e retirada, provocação e retirada, até que ambos se envolvem em uma briga e ele derrota o maior. Aí o grandão enfrenta duas opções: ou permanece e enfrenta a morte, ou sai para explorar o mato sozinho. Além disso, ele precisa encontrar um macho de outro grupo para matar ou expulsar, e só então poderá novamente ter um grupo de fêmeas. É desse jeito, e é realmente uma questão primal, sem disfarces. Quando digo que é como um animal, me refiro a uma comparação direta, sem qualquer exagero poético.

Agora, vamos ser justos, pois nem toda brincadeira é uma forma de opressão. Há também o caso da pessoa que leva uma vida desleixada e desarrumada, e zombar dele ocasionalmente pode ser uma maneira de fazê-lo refletir sobre si mesmo e buscar uma melhoria. Isso é uma correção, o que é diferente e até benéfico. Entretanto, existe uma enorme diferença entre a correção fraterna e a ofensa que machuca. Quando realmente se trata de uma ofensa, se a pessoa não se pronunciar, ela acabará recebendo uma "prisão do grupo inteiro" em seguida — pois há uma hierarquia, e ela é severa. Primeiro surgem os comentários maldosos sobre certas peculiaridades. Mais tarde, vamos falar sobre o trabalho. Mais tarde, falaremos sobre a família. Em seguida, ele falou sobre a namorada. Ao se abrirem essas portas, também se abriu a última e mais terrível: a brincadeira sexual. No momento em que entrou aí, meu irmão, o sujeito já foi dominado. Você já é o bobo da corte do grupo. Existe uma ordem específica, começando pelo menos ofensivo até o mais ofensivo: primeiro ridicularizam sua aparência; em seguida, seu trabalho; depois, sua família; depois, toda a sua vida pessoal; e, por último, a zombaria de caráter sexual. Quando entrou na esfera sexual, se tornou submisso. Quando se atinge esse ponto, a decisão mais sensata é se afastar desse grupo. De verdade. Deixar todas as pessoas para trás e não manter mais contato com ninguém, exceto por algumas raras ocasiões.

E não imagine que essa escadinha avança de forma rápida ou brusca; ela é paciente, quase suave no início, e é exatamente por isso que tem eficácia. No primeiro nível, é apenas o apelido — aquele que se refere à sua maneira de andar, ao seu cabelo, a algum trejeito qualquer, e todos riem, e você ri também para não parecer inconveniente. No segundo caso, não se trata mais do corpo, mas sim das suas ações: "lá vem o gênio do trabalho", dito com aquele sorriso de canto que transforma o seu ganha-pão em piada. No terceiro, a pontaria se eleva em direção ao sangue: sua mãe, seu pai, o irmão que não deu certo, a tia que todos conhecem — e agora não é mais você que está em risco, mas toda a sua origem se transformando em uma piada. Dentro do quarto, entra a figura feminina: a namorada, a esposa, mencionada de uma maneira que sugere sem confirmar, para que você não possa fazer acusações sem parecer excessivamente desconfiado. Ao engolir os quatro, o quinto degrau se revela de forma espontânea, tão natural quanto virar a última página de um livro: a piada sexual sobre si mesmo. E aí, tudo terminado. Deixou de ser uma escadinha, agora é um alçapão, e você já se deixou levar. Note que em nenhum momento houve um soco desferido. Tudo foi risos. Foi justamente esse riso que o transformou em um capacho.

Se não for assim, aquelas mesmas pessoas que te viam como fraco sempre te considerarão fraco. Para sempre. Você pode até se juntar a outro grupo, mas se uma daquelas pessoas estiver presente, ela vai tentar desacreditar você diante do novo grupo novamente — é uma proliferação de intimidações. É só um bullie entrar no grupo e te apontar como alvo: "ah, aquele frouxinho ali, vou brincar com a cara dele". É importante observar que, em algumas ocasiões, o valentão não se concentra apenas no mais fraco do grupo. Às vezes, ele escolhe como alvo o membro mais forte, visando desafiá-lo e, assim, conseguir usurpar sua posição de destaque. Ele consegue aniquilar a reputação ética da pessoa e assumir o lugar que lhe pertencia. Ao mudar de grupo, se um dos membros anteriores estiver presente no novo, essa pessoa não hesitará em te criticar incessantemente, sem pausas ou variações. Por que razão? Pelo fato de você não ter se afirmado. Ou porque escolheu o momento inadequado — deveria ter agido antes, mas não o fez. Portanto, a solução é distanciar-se daquele grupo e de todos que estão associados a ele; caso contrário, a desmoralização se propaga como uma mancha de óleo.

Portanto, uma verdade difícil que eu costumo dizer a alguns dos meus alunos: um parente não é um amigo. Ponto final. Em especial, os parentes mais velhos — estes raramente se consideram amigos; na maioria das vezes, são aqueles que mais desejam exercer domínio sobre você, seja por causa da hierarquia, do costume ou da vaidade relacionada ao sangue. E eu te alerto: se houver um primo seu entre seus amigos, fique atento. Embora esse primo tenha grande admiração por você, é importante ter cautela. Quando ele começar a revelar detalhes negativos da sua vida para os outros — "ah, fulano fez isso, fulano é assim" —, haverá alguém no grupo disposto a aproveitar a oportunidade para te dominar. É fundamental que você esteja preparado para essa situação, pois ela inevitavelmente ocorrerá. Isso ocorre mesmo em ambientes administrativos, entre adultos de terno e gravata. Você observa um empresário dialogando com outro, e, de repente, um deles faz uma daquelas provocações calculadas, apenas para avaliar se você está pronto ou não. Se você agir de forma passiva, ele rapidamente te rotula como tal e começa a tirar vantagem disso. É um teste de poder disfarçado de reunião empresarial.

E aqui voltamos ao cerne de tudo, ao lugar de onde começamos: o medo que sentimos como seres humanos surge, principalmente, da falta de controle sobre as situações. Esta é a raiz. É por essa razão — note como tudo se conecta — que a comédia está intrinsicamente ligada ao medo. Capture o Papa-Léguas. O Papa-Léguas deixa cair uma bigorna na cabeça do Coiote. O Coiote conseguiu controlar a situação de alguma forma? Nenhum. Cero. A batida ocorre de repente, de forma avassaladora, e é exatamente por sua natureza incontrolável e desproporcional que se torna engraçada. O que ficou é simplesmente absurdo, e é a partir do absurdo que surge o riso. A comédia nasce da dor, assim como ela surge do medo: é a dor e o medo que sentimos em relação ao outro, não em relação a nós mesmos. Essa distinção é o que realmente transforma tudo. As pessoas atualmente perderam a organização de seus próprios sentimentos, e por isso não conseguem perceber isso, resultando em amizades que chegaram a um nível ridículo. Não conseguem distinguir entre vício e virtude, e acabam corroendo a honra dos outros membros do grupo até que expulsam essas pessoas, sem sequer perceberem que estão fazendo isso. Pois encaram tudo como se fosse uma brincadeira. "Ah, tá num grupo de amigos, vamos fazer uma brincadeira tremendamente maldosa. É apenas uma brincadeira." Mas não é. Nunca foi assim.

As definições de comédia, vício e virtude não surgiram do nada; elas podem ser encontradas nas obras de Aristóteles. É por isso que eu afirmo que todas as pessoas deveriam ler Aristóteles ao menos uma vez durante a vida. O tratado sobre o vício e a virtude, bem como o conceito de meio-termo entre o excesso e a carência, é encontrado, principalmente, na Ética a Nicômaco; por outro lado, a análise do cômico, que se preservou, está na Poética — a seção que se perdeu, pela qual o mundo inteiro daria um braço para recuperar. A Metafísica, que sustenta todo o resto embaixo, é a maior moldura de todas, o ato e a potência, o ser da coisa. Leia Aristóteles e você não fica mais parado. Quando você possui uma compreensão sólida sobre vícios e virtudes, você é capaz de agir em prol da saúde do grupo, promovendo uma exposição adequada. Alguém te alfinetou? Exponha-se. Revele o que estava envolto em humor, pois se você não o expuser, isso irá te corroer por dentro. A exposição representa a justiça restituindo a cobrança.

Retornando ao tema do medo: a comédia e o medo possuem uma relação delicada, por mais incomum que isso possa parecer, e agora podemos compreender o motivo. É algo fora do seu controle, capaz de causar algum mal a você, e que se torna cômico justamente pelo fato de que o dano é, de certa forma, incompreensível — não houve uma estrutura definida, nem um aviso prévio, simplesmente ocorreu, e por isso gerou risos. A maior parte dos estragos, para quem observa de fora, é cômica. Pense nas videocassetadas do programa do Faustão: eram, na maioria, exatamente isso — o impacto inesperado e exagerado atingindo alguém, a tábua na canela, a queda na piscina, o balão que estoura na cara. Você pode perguntar à pessoa que passou por isso se, no momento em que a situação a atingiu, ela não sentiu um susto ou medo. Experimentou. Quem ri, na verdade, é aquele que está observando de fora. Permita-me apresentar um exemplo que está ainda mais relacionado à psicologia do desenvolvimento, um que eu testemunhei pessoalmente. No tatame, nós ríamos intensamente quando o sensei utilizava aquelas luvas de boxe pesadas — dezesseis onças, as luvas mais densas, que amortecem o impacto de um soco vindo de fora, mas que, para quem as recebe, causam uma dor imensa — e desferia um soco intencionalmente no rosto dos garotos, para que eles aprendessem a não desmaiar com uma única pancada, fazendo com que seus corpos se tornassem mais resistentes. É impossível não rir às lágrimas quando se está de fora. Quando você está prestes a ser atendido, o riso não vem. É isso mesmo. A comédia emerge da dor e do medo — do outro, e não do seu. Quando a bigorna se torna sua, a graça desaparece.

O temor humano surge dessas questões, até mesmo em tempos de guerra. Repare: qual país sai contente de uma guerra? Aquela que aniquilou a outra. Frequentemente, ao longo de anos e até mesmo décadas, ela se dedicará a zombar da nação que foi derrotada, convertendo a falha dos outros em uma piada nacional. A comédia terá sempre origem na dor e no medo, e é por isso que ela contamina, deturpa e sataniza tantas relações humanas de amizade — porque, mal-ordenada, ela vira o instrumento fino da subjugação. Aquilo que devia unir pelo riso compartilhado passa a separar pelo riso que fere.

E é aqui que eu fecho o mapa com a chave que prometi lá atrás: a inversão simbólica num sentido alquímico. Porque tudo o que eu descrevi até agora — o medo, a covardia, o riso que subjuga, a moral roubada dentro do grupo — tem uma tradução simbólica precisa, e é essa tradução que permite ler a alma que está do seu lado. Pega o Sol. O Sol, na leitura alquímica, é o astro que responde pela virtude principal da governança — o princípio que ordena, ilumina e sustenta de cima. Por isso Cristo é o Sol; é o Sol da Justiça de que fala a Escritura. Agora observe o que acontece dentro de um grupo: quando alguém quer destruir a moral solar de outro, quando quer minar a governança natural de alguém sobre si mesmo e sobre os demais, essa pessoa precisa se tornar o Sol invertido. E o que é o Sol invertido, na prática? É bater de frente. É fazer valer a sua presença. E, atenção, aqui está a sutileza que impede o equívoco: isso não implica, necessariamente, em ter um ego desmedido. Às vezes, é necessário afirmar-se, ser severo quando necessário, demonstrar até mesmo uma certa rigidez, dureza e brusquidão, para conseguir permanecer firme diante da matilha. Para proteger sua moral, pode ser necessário, em algumas situações, adotar uma postura oposta e confrontar diretamente. O homem solar que vive de maneira organizada, rodeado por indivíduos covardes, deve aprender a exibir seus dentes — não por ostentação, mas como uma questão de sobrevivência moral.

Faça a tradução nas camadas. Obtém a principal, a décima segunda, aquela mencionada pelo professor Olavo, cuja correspondência principal é o Sol. Qual é o receio desse grupo? Perder tudo. E quem se opõe ao Sol nesse contexto alquímico? Saturno. O que representa Saturno? À perda e à morte total — o peso, o fim, o tempo que consome, o frio que extingue. Em outras palavras, o receio que cada camada possui é, na verdade, o símbolo alquímico invertido do que essa camada representa em sua essência: a alma solar teme Saturno porque tem medo da completa aniquilação de sua luz. Esses símbolos não são enfeites; eles representam algo sublime, uma verdadeira oposição entre a virtude que você deseja e a sombra que a rejeita. Se o seu propósito é cuidar dos outros — curar, confortar, tudo isso muito relacionado a Mercúrio, o mensageiro, o médico, o reconciliador —, então o seu oposto é o que provoca a destruição, a guerra, a devastação: Marte. Os assuntos relacionados à guerra são o oposto das mercuriais. O que Agrippa escreve nos Três Livros de Filosofia Oculta sobre essas contraposições simbólicas é verdadeiro — no sentido de que reflete com exatidão uma correspondência observada na experiência, embora se trate de um simbolismo e não de uma relação de causa e efeito física. Heinrich Cornelius Agrippa traçou essas conexões entre planetas, metais, humores e temperamentos, e aqueles que lidam com almas identificam facilmente o retrato.

Como resultado, surge uma consequência prática, quase administrativa, que poucos conseguem utilizar: aquele que possui um ideal mercurial geralmente se torna, de fato, o inimigo natural daquele que possui um ideal marcial. Para dar um exemplo, eu sou uma pessoa que quase totalmente vive o aspecto marcial. Eu aprecio a luta. A pessoa mais inconstante, aquela cuja mente anseia por cura, conforto e harmonia, geralmente tende a me detestar — pois ela evita o conflito a todo custo, enquanto eu sou, na verdade, a personificação do conflito. Meu pai tinha esse jeito. Quando era mais jovem, ele tinha uma atitude um pouco mais guerreira, mas abandonou isso totalmente quando começou a ser chamado de demônio, e desde então se tornou uma pessoa extremamente imprevisível: era disciplinado, passou a ser instável. Ou seja, ao longo da vida, as variações acontecem, e elas estão relacionadas ao que te dá prazer. Porque as pessoas que têm uma inclinação mais marcial tendem a ser, para falar com franqueza, mais sádicas. Sou realmente mais sádico — não há por que disfarçar. Eu tenho um grande prazer em participar de debates e derrotar meu oponente a ponto de fazê-lo chorar diante de mim; quase experimento uma satisfação extrema quando isso ocorre. Desde a infância, sempre fui um ávido debatedor, portanto, para mim, isso é a coisa mais natural do mundo; é o meu ambiente. Contraste isso com o típico líder de escritório — e, a propósito, estou a apenas dois minutos de iniciar meu turno aqui no trabalho enquanto escrevo estas palavras —, aquele que procura unir a equipe, fazer com que todos se tornem amigos e promover a harmonia entre eles. Comigo, isso não acontece. Eu e meu tio, por outro lado, somos completamente incompatíveis nesse aspecto — somos como polos opostos que não se ajustam.

Gostaria de concluir com essa questão alquímica e simbólica, pois é fascinante e, infelizmente, poucas pessoas conseguem utilizá-la: é viável traçar um mapa da psique de quem está ao seu lado. É extremamente útil para a gestão, a liderança e a convivência — mas, por acaso, algum administrador faz isso? Não faz nada. A principal preocupação é essa. Existem psiques que se comunicam através de um símbolo alquímico, enquanto outras são completamente o contrário — tão contrárias que se tornam o oposto literal. Esses contrários não se atraem; não se deixe levar por essa ilusão romântica de que os opostos se atraem. Você só conseguirá ter sucesso de forma genuína com alguém que esteja no mesmo polo que você. Não tem como. É como se você, representando o sol, fosse se encontrar em harmonia com uma pessoa que é intensamente ligada a Saturno — uma pessoa que se dedica aos rituais, que está profundamente imersa na religião, que busca a eliminação do ego e valoriza a interioridade silenciosa, alguém que é mais profunda e que prefere não conversar muito, uma alma saturnina que se retrai. O solar é precisamente o oposto disso. Um brilha para o exterior; o outro mergulha para o interior. No lugar onde o solar percebe governança, o saturnino enxerga renúncia.

É nesse ponto que essa interpretação simbólica deixa de ser uma mera curiosidade acadêmica e se transforma em uma ferramenta de controle, caso você tenha a percepção necessária para aproveitá-la. Porque liderar pessoas — seja em uma equipe, em uma família, em um grupo de estudos ou em uma empresa — é, antes de tudo, compreender com que tipo de matéria-prima humana você está trabalhando. Você não coloca uma alma guerreira para apaziguar os ânimos; ela vai provocar ainda mais. Você não deve confrontar uma alma mercurial em uma disputa intensa; ela irá escapar ou se tornar infeliz. O solar você posiciona em situações que exigem organização e tomada de decisões; o saturnino, onde se faz necessário um entendimento mais profundo, disciplina e paciência para lidar com detalhes que os outros não têm paciência para suportar. Um dos erros mais comuns entre líderes é tratar cada membro da equipe como se fosse uma massa homogênea, impondo a todos as mesmas exigências e esperando que cada um reaja da mesma forma. Em seguida, ficam surpresos quando aqueles com um perfil mais enérgico e assertivo se manifestam de forma explosiva durante uma reunião, enquanto os mais temperamentais desaparecem diante do primeiro desafio. Entender a mente de quem está ao seu lado não é uma prática mística de salão; é o que separa um líder que destrói sua equipe de um que a coloca em posições onde elas prosperam. Além disso, insisto, procure para ver se algum administrador faz isso. Preferem confiar na planilha em vez de nas pessoas, e depois se perguntam por que os números não se encaixam.

Assim, ao combinar tudo, a imagem se revela por completo. O medo é uma emoção legítima e inerente à condição humana; por outro lado, a covardia é um medo que se deteriorou devido à ausência de correção. Essa covardia, ao não se direcionar para fora e para cima, volta-se para si mesma e cria a gnose — o hexagrama que simboliza a perdição em movimento. Do lado de fora, ela adota uma fachada de risos: aquele humor descontrolado que diminui a dignidade dos outros em seu grupo, a piada utilizada como um instrumento de agressão, a dominação em matilha que a psicologia evolutiva descreve sem cerimônias, e que o pentagrama do respeito reprova de forma clara e direta. Em face de tudo isso, existe apenas um remédio: a virtude devidamente organizada, guiada por um princípio radiante — que, rodeada de pessoas medrosas, deve aprender a exibir seu lado mais afiado sem se transformar no demônio que revela suas falhas. A força nunca foi o que diferenciou o rei do macaco. Ambos possuem força. A diversidade é o caminho do norte. O macaco apenas sabe dominar; por outro lado, o rei, possuindo o mesmo poder, opta por governar. O Sol que os medrosos não conseguem tolerar é precisamente este: o indivíduo que experimentou o medo, rejeitou a cowardice e, apesar de todas as adversidades, optou por iluminar em vez de oprimir.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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