OS SANTOS DO SONHAR - DEUS CULTURA, VOLUME 4

Após três livros, começamos com uma suspeita e agora chegamos a uma certeza: os heróis que amamos na infância, os justos de capa e os monstros de luz, não eram uma forma de fuga ou uma ilusão, mas uma saudade de uma terra perdida. Este quarto e último livro tem a finalidade de revelar o nome desta nação e a quem ela realmente pertence. Os seres bondosos do sonho — aqueles que trazem o sol no coração, que não dizem mentiras, que se sacrificam pelos mais vulneráveis — já existem, completos e preparados, na mente de Deus, e já são santificados do sonhar. E o escândalo imenso com que esta série se conclui é que você, com corpo e alma e um nome registrado, pode se transformar em um deles — não ao roubar o fogo, mas ao se servir dele. Aproxima-se mais; esta é a última aula, e ela termina em grande estilo.

Gabriel G. Oliveira

10/3/2026136 min ler

O Sonhador que entrou no próprio sonho

Assim, chegamos ao final. Preciso começar confessando algo, pois este livro não seria honesto se eu não o fizesse: demorei a compreender o que era um santo do sonhar, pois procurei muito longe. Busquei pelos quatro cantos do esoterismo, nos zigurates, nos portais, nos arcos de Hollywood, nas teorias dos caçadores de coincidências, e o que eu procurava estava o tempo todo bem diante de mim, desde a primeira vez em que, quando criança, vi um homem de capa vermelha pegar um avião no ar e impedir que ele caísse. Eu percebi naquele momento, mesmo antes de conseguir expressar, que aquilo não era uma ilusão. Era cedo demais, era grande demais, era bom demais para ser apenas tinta e papel. E toda a série que agora chega ao fim foi, na verdade, uma longa tentativa de explicar por que aquela sensação de criança estava certa, enquanto o adulto cínico que me dizia para crescer é que estava errado.

Nos três livros anteriores, nós pavimentamos o caminho, e eu vou presumir que você me acompanhou, pois relembrar tudo novamente seria desconsiderar aqueles que já trilharam essa jornada. No primeiro, nós descobrimos a verdadeira essência da cultura: que o lixo que a modernidade descarta traz consigo uma energia que já foi sagrada, e que a imaginação é uma janela, e não uma forma de escapar. No segundo, observamos a divindade incorporada nos símbolos: como o Criador se escondeu disfarçado em cada imagem que o ser humano cria, encaixando-se em todas sem se limitar a nenhuma, da mesma forma que o mar cabe em uma concha e, simultaneamente, a transborda. E no terceiro, nós chegamos ao essencial da questão, ao fundo da realidade, e percebemos o abismo que uma única letra cria entre a ateose, o ser que toma a caneta da mão de Deus e se proclama autor, e a teose, o ser que se entrega e permite que Deus escreva nele — o ato de tomar versus o ato de receber, o punho cerrado contra a mão aberta, Melkor contra a Virgem. Muito bem. Agora, tudo isso é solo sólido. É a terra. Neste último livro, iremos construir a casa por completo e nomear o morador.

O nome do morador é o seguinte: santo do sonhar. E eu preciso que você preste atenção na frase que vem a seguir, pois ela é a essência de tudo, a semente a partir da qual todo o livro se desenvolve, e eu vou reitera-la de diversas maneiras até que ela se torne parte de você. As entidades do imaginário que emanam bondade, luz e elevação — o Superman que opta por não mentir, o cavaleiro que se sacrifica pela donzela, a figura de olhos tristes que guarda a criança perdida, cada verdadeiro herói que a humanidade idealizou — essas entidades já estão presentes, completas, prontas, na mente de Deus. Eles não aguardam serem criados. Eles foram encontrados. O artista que ilustrou o primeiro super-homem não gerou, do zero, uma possibilidade inédita; ele, sem perceber, se deparou com uma ideia que sempre existiu na mente do Criador, a concepção de uma força que atua para servir em vez de oprimir, e trouxe um fragmento disso para o papel. Por isso o desenho acendeu uma chama no coração do mundo. Não se tratou de marketing. Foi uma forma de reconhecimento. A humanidade identificou, no herói, um parente longínquo que reside em uma casa da qual sente falta, embora não se recorde do endereço.

E se esses seres bondosos já são, na consciência de Deus, santos do sonhar — pois lá, nessa Consciência, eles existem em sua forma mais pura, isentos da superficialidade e das trocas que lançamos sobre eles —, então se revela o mistério que irá coroar toda esta série: o homem verdadeiro, você, eu, o indivíduo que paga contas e teme a morte, esse homem pode se transformar em um santo do sonhar. Não é para brincar. Não como alguém que se disfarça no carnaval. De fato, na essência da alma. Porque essas realidades que o sonho toca já estão presentes na mente divina, e o que habita na mente de Deus não é ilusão: é mais real do que a cadeira na qual você está sentado. Há uma jornada — não uma artimanha, não uma técnica, não um rito de passagem — pela qual essas ideias descem do céu da imaginação para dentro de um ser humano, o transformam e o fazem, mesmo vivendo neste mundo cinzento, alguém que abriga o sonho inteiro iluminado em seu interior. É sobre isso que este livro aborda. Sobre como se aprecia o sonho sem tomá-lo à força. De que maneira um homem comum se transforma em herói sem perder sua essência.

E já vou logo dizendo, para não criar falsas expectativas: esse caminho possui um nome muito antigo, e se chama santidade. Os poderes dos heróis que tanto admiramos — como voar, atravessar paredes, enxergar o interior das pessoas e a imortalidade — não são meras fantasias; são reminiscências proféticas de algo que Deus prometeu conceder, de fato, àqueles que pertencem a Ele, e que já foi concedido, como promessa inicial, a um grande número de homens e mulheres de carne que a Igreja denomina santos. Os santos são os verdadeiros super-heróis que já viveram. E aquele de quem todos eles se alimentaram, a fonte de todo sonho positivo, o Sonhador primitivo que, com um ato que divide a história em duas partes, adentrou Ele mesmo no próprio sonho e tornou-se protagonista da narrativa que criava — esse também possui um nome, e é por meio desse nome que este livro irá se concretizar. Mas nós vamos chegar lá a pé. Não é possível pular a jornada e simplesmente colher o fruto da última etapa. Então respira e vem comigo por todo esse território que os caçadores de sonhos traçaram, pois há muita verdade espalhada por ele. Nossa missão não é destruir o mapa, mas sim ajustar a rosa dos ventos.

Vou iniciar falando sobre o movimento que deu origem a praticamente tudo que iremos discutir, esse movimento emergente que está ressurgindo no Brasil e que é conhecido como sincromisticismo, ou, para os mais próximos, sync. Não se trata de uma seita, não existe um conjunto de regras rígidas, e exatamente por isso é algo volátil: é uma forma de interpretar o mundo, originada da interseção entre a psicologia de Jung, o ocultismo e um toque de teoria da conspiração. Os próprios praticantes resumiram tudo em quatro pilares, e eu vou abordar cada um deles separadamente, não com a intenção de desmerecer, mas de dar um novo nome — pois, com toda a consideração àqueles que se dedicaram ao estudo, eles estão corretos em quase tudo, mas cometem um engano na direção, que é onde errar tem um custo maior.

O primeiro pilar é a exegese arquetípica da cultura pop: interpretar os filmes, os quadrinhos e os desenhos não apenas como mero entretenimento, mas sim como mitologia, como uma manifestação das camadas mais profundas da psique e, ainda mais profundamente, das energias que impulsionam a própria vida. Jung afirmava que o arquétipo, em seu nível mais profundo, apresenta um aspecto que ele denominou de psicóide — uma espécie de intermediário entre a psique e a matéria, uma origem onde já não se consegue discernir se se trata de mente ou de realidade. E eu digo, sem hesitar, que nesse aspecto o sincromístico tem razão. É um fato, é indiscutivelmente um fato, que a cultura pop está repleta de arquétipos; é fato que o Homem de Aço representa o tradicional herói solar com um visual atualizado; é fato que o que realmente se manifesta por trás de uma boa história não é o enredo, mas sim uma essência atemporal observando por trás dela. A teologia católica se refere ao que o sincromístico denominou de psicóide como vestígio, semente do Verbo ou ratio seminalis. Santo Agostinho e os Padres ensinaram que o Verbo de Deus disseminou por toda a criação sementes de si mesmo, rastros, pegadas, e que por essa razão a verdade pode emergir até mesmo no solo de um pagão, até no barro de uma fábula. O arquétipo luminoso não se trata de uma ilusão da psique; é a impressão de Deus no íntimo da alma humana, a qual Ele criou à Sua semelhança. O sincromístico percebe a centelha e denomina de psique profunda; o cristão tem conhecimento da origem da centelha e a chama de Criador.

O segundo pilar se refere a um conceito específico de sincronicidade. Aqui, eles adaptaram o termo de Jung e de Wolfgang Pauli, mas, como o próprio Jake Kotze, que criou a palavra sincromisticismo, reconheceu, sem se apegar à precisão técnica do conceito. Passou a ser, no seu uso, isto: conexões e correspondências repletas de significado entre eventos, datas, nomes, imagens, símbolos — ligações que não possuem uma causa mecânica aparente e que, ainda assim, trazem significado. E mais uma vez afirmo: há uma intuição genuína nesse contexto, e essa intuição é arriscada justamente por ser verdadeira apenas em parte. De fato, o universo se comunica, rima e conecta eventos distantes em um único propósito — mas, para a tradição católica, isso não é simplesmente sincronicidade impessoal, mas sim Providência. É um Pai que comanda até a queda do último fio de cabelo e do pardal, que traça retas através de caminhos tortuosos, que faz com que tudo colabore para o bem daqueles que O amam. A distinção entre sincronicidade e Providência não é apenas um questionamento de intensidade, mas de essência: a sincronicidade se apresenta como uma rede sem um tecelão, um significado que não pertence a ninguém, e por isso provoca um estado de êxtase sem oferecer consolo; já a Providência é a mesma rede de coincidências, porém com um rosto que se revela do outro lado do tear, um rosto que é capaz de amar. Retira o rosto, e a rede de sentidos se transforma em teia de aranha, enquanto o homem que caminha nela se torna uma mosca. Coloque o rosto, e a mesma rede se transforma em colo.

O terceiro pilar é o mais impactante, e é nesse ponto que todo o livro se projeta para o futuro, então fique atento: trata-se da noção de uma grande unidade superior, uma rede interligando tudo. Eles acreditam que a fonte dessas conexões peculiares se encontra em uma dimensão superior à nossa, e apresentam uma analogia que é, admito, brilhante: imagine um plano bidimensional, como uma folha de papel, e visualize um dedo vindo da terceira dimensão tocando essa folha. Para aqueles que habitam o interior da folha, o toque parece um milagre sem explicação, algo que emerge do absoluto vazio. Dessa forma, afirmam eles, as sincronicidades são intervenções de uma dimensão superior na nossa. E ainda mais, referem-se a essa imensa rede como um macrocérebro, o cérebro do universo, do qual nós seríamos as sinapses, as conexões neurais. E como esse macrocérebro se expressa na linguagem distorcida do sonho, eles pronunciam uma frase que eu gostaria que você lembrasse, pois ela é quase uma prece esquecida: se o nosso pequeno cérebro precisa sonhar, então a um possível cérebro do cosmos também devemos conceder o direito de sonhar.

Pare um momento para refletir sobre essa frase, pois ela é valiosa mesmo em meio às dificuldades. Um intelecto universal que fantasia. Uma inteligência superior à nossa, de onde vêm, como invasões do alto, as percepções que mal conseguimos compreender. Meu camarada, isso é uma teologia se embaraçando em suas próprias contradições, sem conseguir se reconhecer. Essa dimensão superior, de onde tudo se origina, realmente existe e não se trata de um hiperespaço geométrico ou de um inconsciente coletivo que flutua: é a mente de Deus. E essa Mente realmente sonha — não como aquele que dorme e tem devaneios, mas como aquele que idealiza, na mais elevada forma de criação divina, pensando de forma única, em um só ato eterno, todos os mundos que poderiam existir. O macrocérebro que os sincromísticos perceberam representa o pensamento divino; as interrupções da terceira dimensão na folha simbolizam a ação da graça e da Providência quebrando nossa realidade plana de dois palmos; e as sinapses que afirmam que nós formamos nesse grande cérebro também possuem um nome cristão, radiante e preciso, que vamos explorar até o final: a comunhão dos santos, a rede vivente de todas as almas e todos os anjos, interconectados entre si e todos a Deus, trocando luz da mesma forma que os neurônios trocam impulsos. Eles nomearam de macrocérebro a entidade mais quente que existe e imaginaram que se tratava de física. Era uma família.

E o quarto pilar completa a perspectiva: a análise de todos os eventos. O Kotze se inspirou no trabalho de Goro Adachi, que estava em um site que não tratava especificamente de cultura pop, mas sim da correlação sincronística de eventos do mundo — envolvendo geografia, mito, política e datas. Isso demonstra que o conceito de sync não se limita apenas a uma forma de assistir a filmes, mas representa uma maneira de enxergar a vida como um todo, onde tudo que pode ser interpretado como significativo possui relevância. Eles recordam, novamente, o caráter psicóide do arquétipo e afirmam que a prática gera o que Jung denominou de Unus Mundus, ou mundo uno, a vivência de que o mundo interior e o mundo exterior são, no fundo, a mesma realidade. Eu afirmo que o Unus Mundus realmente existe, e que sua fome é sagrada, e que sua resposta possui um altar. O mundo é um só, entrelaçado em sua essência, tanto por dentro quanto por fora, não porque minha mente busque dar sentido ao caos, mas porque um único Verbo originou tanto o céu cheio de estrelas acima de mim quanto a lei moral que habita em meu interior, e ambos foram assinados com a mesma escrita. O que o cristão se refere como ordem sacramental da criação é um universo onde as coisas visíveis servem como um véu e uma mensagem das coisas invisíveis, onde o pão pode se transformar em Corpo e a água pode purificar a alma, onde tudo, sem exceção, pode ser, para aquele que tem o olhar puro, uma palavra que Deus está comunicando. O sincromístico busca o Unus Mundus e tenta forçá-lo a se desprender da interpretação. O santo acolhe o Unus Mundus em posição de joelhos, e o mundo inteiro, para ele, se ilumina.

Permita-me voltar por um momento àquele aspecto psicóide do arquétipo, pois ele é mais significativo do que aparenta e serve como a chave de quase tudo. Jung criou o termo psicóide para designar um enigma que o inquietava: nas profundezas da psique, o arquétipo deixa de ser apenas mental e parece tocar a própria matéria, o próprio corpo, o próprio mundo físico — como se existisse um espaço na alma onde o espírito e a matéria ainda não estão distintos, onde pensar e agir são quase a mesma coisa. E é por isso que os sincromísticos mencionam a sincronicidade, no sentido de algo que emerge de dentro da mente para o mundo exterior: eles perceberam que há um espaço onde a divisão entre o interior e o exterior se torna sutil. Eu te afirmo que esse lugar realmente existe, e que a fé o designa com um nome completo: princípio sacramental. O mundo foi criado de tal forma que o visível e o invisível se entrelaçam, que a matéria pode abrigar o espírito, e que um objeto físico — como água, pão, óleo ou um corpo — pode ser um verdadeiro meio de uma realidade divina. O psicóide, segundo Jung, representa a sombra percebida pela psicologia, do que a fé experimenta plenamente no sacramento: um universo em que céu e terra não se separam em andares distintos, mas formam um espaço interconectado por escadas, onde o alto constantemente desce ao baixo, se você tiver a visão adequada.

E essas intrusões da dimensão superior na nossa realidade bidimensional, essas inteligências não locais que dão significado aos eventos — já mencionei que, para mim, grande parte do que o sincromístico se refere como visitantes do alto são os anjos, e agora desejo abordar isso com seriedade de fato. A fé jamais foi deísta, nunca defendeu a ideia de um Deus que está preso em um céu remoto, que apenas deu vida ao universo e se afastou. A fé sempre teve a certeza de que o mundo está habitado — que existe uma hierarquia completa de inteligências puras, como os anjos, serafins, querubins, tronos e potestades, que representam exatamente aquilo que o sincromístico busca ao mencionar inteligências de uma dimensão superior atuando na nossa. Eles estão presentes, eles atuam, eles trazem mensagens de Deus, eles protegem cada um de nós — o anjo da guarda não é uma simplicidade do catecismo infantil, é uma doutrina séria: uma inteligência não local destinada a entrelaçar, na sua vida, os fios da proteção divina. O sincromístico percebe a teia e a designa como macrocérebro impessoal; o cristão entende que a teia é entrelaçada por mãos, e que essas mãos possuem asas, e que acima de todas as asas existe um Pai que orquestra toda a sinfonia.

E a famosa sincronicidade, esse vínculo repleto de significado entre eventos que não possuem uma causa mecânica óbvia, que fascina o amante das coincidências — quero te apresentar um exemplo que, de modo definitivo, ilustra a distinção entre a sincronicidade anônima e a Providência com identidade, e essa é a narrativa de José, o do Egito. Os irmãos ciumentos vendem José como escravo; é como se fosse uma tragédia absoluta, uma crueldade sem tamanho. Contudo, essa tragédia o conduz ao Egito; e no Egito, através da prisão, ele chega até o faraó; e o faraó, graças aos sonhos, o eleva ao poder; e o poder o coloca na posição certa, no momento certo, para salvar o mundo todo da fome e também a própria família que o traiu. Visto de uma perspectiva diferente, trata-se de uma sucessão de coincidências tanto dolorosas quanto alegres. Observando de longe, é uma tapeçaria. E José expressa de forma clara a distinção entre o sincromisticismo e a fé ao se reencontrar com os irmãos apavorados: vós intentastes o mal contra mim, mas Deus o transformou em bem. Observe: não foi o acaso que fez; não foi uma teia impessoal; foi Deus, um Deus que escreve de forma direta pelas linhas tortuosas da maldade humana, que pega o mal que os homens cometem e, sem justificar o mal, o entrelaça em um bem maior. Isso é Providência: a sincronicidade com um Criador amoroso do outro lado do tear. Retirando o Autor, a vida de José se transforma em uma sequência de sortes e azares de causar desconforto; mantendo o Autor, essa mesma vida se revela uma das narrativas mais reconfortantes já narradas. O sincromístico tem os fios nas mãos. Basta apenas levantar os olhos e perceber de quem são as mãos que fazem a trama.

Agora, permita-me levá-lo ao local onde essa história começou a tomar um rumo mais sério, que é uma torre. O site que deu origem a tudo se chamava Etemenanki, e o nome não é mera ornamentação: Etemenanki significa, em sumério, o Templo da Fundação do Céu e da Terra. O zigurate, que era dedicado ao deus Marduk na Babilônia, era uma torre de sete andares, com cerca de noventa e um metros de altura, e atualmente só restam as fundações no solo. Os estudiosos afirmam, com razão, que foi ele, ou um de seus irmãos, quem serviu de inspiração para a narrativa bíblica da Torre de Babel. Preste atenção na escolha: o sujeito nomeia o projeto dele de zigurate. E o que representava o zigurate para as civilizações antigas? Não se tratava de um arranha-céu, mas sim de uma máquina sagrada: sua finalidade era conectar a terra e o céu, ser o ponto central, o epicentro do cosmos, o local por onde as informações daquela dimensão superior desciam para o mundo dos humanos. No âmago do sincromisticismo, reside, assim, o enigma da arquitetura sagrada e dos centros originários — o que Mircea Eliade, renomado historiador das religiões, denominou de Axis Mundi, o eixo do mundo, e o que o próprio sincromístico designa, com sua terminologia, como polo.

E é aqui que a situação se complica, pois esse mesmo movimento interpretou o atentado de onze de setembro de dois mil e um sob essa perspectiva. O trabalho inicial de Jake Kotze — que, atualmente, é justo dizer que não se apega mais a teorias de conspiração — considerava as Torres Gêmeas como um grande ritual mágico e afirmava que as torres eram, na verdade, um polo, um centro do mundo à maneira dos antigos, o que justificaria o ataque a elas. Ele conectava, por sincronicidade, todo o conjunto das torres — que eram, como ele lembra, três torres — às pirâmides do Egito e à Caaba islâmica, e divulgava que a escultura chamada A Esfera, que se localizava entre as duas torres e ainda está no Marco Zero, teria sido inspirada na centralidade da Caaba. Todo esse contexto formava um sistema de polos, grandes centros místicos e arquitetônicos. E, segundo afirmavam, quem dominasse o polo controla as mentes e os destinos das pessoas. Esse fio foi esticado ainda mais por James Shelby Downard e por seu seguidor, Michael Hoffman, que escreveu "Sociedades Secretas e Guerra Psicológica" e "Linguagem Crepuscular", a linguagem que intencionalmente desdobra a linha entre o símbolo e o material, a mesma dos tantras — e que aponta para a elite global, acusando-a de realizar macrorrituais constantes vinculados a datas, geografias e alinhamentos.

Serei bem transparente sobre o que eu discordo e o que eu aceito nessa leitura, pois descartar tudo seria um erro e aceitar tudo sem questionar seria um ato de loucura. Que haja um poder que utilize o símbolo para mobilizar as massas, isso não é um delírio, é a narrativa do século vinte como um todo, é a propaganda, é a liturgia obscura dos regimes totalitários com suas tochas e suas águias. O ser humano é um animal que se orienta por imagens, e quem controla as imagens exerce influência sobre as almas — nesse aspecto, o sincromístico tem um faro afiado, e eu não vou agir como se fosse ingênuo, fingindo que não percebo isso. Entretanto, transformar cada tragédia em um espetáculo de magia de elite e enxergar um ritual satânico em toda queda de torre é um grande erro. Nesse abismo, reside um veneno: a paranoia, que é uma fé distorcida, uma religião sem alegria e sem perdão, onde tudo tem significado, mas nada redime. O ser humano passa os dias e noites tentando decifrar ameaças e nunca, jamais, encontra um semblante amigo no mundo à sua volta. Não faço acusações aos caçadores de polo, nem os considero mentirosos; sinto compaixão, pois muitos deles são pessoas sensíveis demais para o pequeno inferno em que se encontram, que é o inferno de enxergar significado em tudo e não conseguir encontrar paz em lugar algum.

Agora é hora de eu reverter a situação, pois é para isso que estamos aqui. Eles têm toda razão ao afirmar que há um eixo do mundo, um ponto que conecta o céu à terra, um centro pelo qual o alto se une ao baixo. Toda a Escritura está em consonância com eles — e os corrige. Na primeira tentativa da humanidade de construir, com suas próprias mãos, uma torre que conectasse a terra ao céu, um pilar elevado de baixo para cima, utilizando técnica e tijolos, com o intuito de fazer-se um nome e evitar a dispersão, essa torre recebeu o nome de Babel. Deus não a destruiu por inveja, como sugerem os rumores da leitura gnóstica, que ainda teremos de encarar; Ele a interrompeu por misericórdia, confundindo as línguas, pois uma humanidade inteira unida em uma só vontade, sem Deus, não representa sinergia, mas sim o pesadelo do totalitarismo perfeito, que é o real sonho de Babel que todo tirano desde então tenta reconstituir. Babel é a estrutura erguida a partir do chão, o eixo do mundo que a humanidade cria para ascender aos céus com seus próprios materiais — e representa, de fato, o truque da realidade do terceiro livro, a negação arquitetônica de Deus, o zigurate como uma broca direcionada ao trono divino.

Contudo, o verdadeiro eixo do mundo, caro amigo, o único ponto que realmente conecta a terra ao céu, não foi levantado de baixo para cima pela mão humana: foi estabelecido de cima para baixo pela mão de Deus, e não se trata de uma torre, mas sim de uma Cruz. Observe a forma, pois ela clama: dois braços, um que se eleva e desce conectando o céu à terra, outro que se estende de forma abrangente acolhendo toda a humanidade — o Axis Mundi preciso, o núcleo do cosmos, o ponto onde o alto e o baixo se encontram, mas não construído de tijolos babilônicos, e sim de madeira e sangue. Os antigos imaginaram o polo e construíram zigurates que se desfizeram e se tornaram fundação no deserto; os sincromísticos perceberam o polo e o avistaram nas torres que desmoronaram em destroços e fumaça diante de nossos olhos — e há uma amarga reflexão nisso, de que todo polo que o homem ergue por conta própria, desde o zigurate de Marduk até o arranha-céu de aço, termina em pó. Apenas um polo nunca caiu e nunca cairá: aquele Lenho cultivado em uma colina chamada Caveira, de onde, pela primeira e única vez na história, as informações do céu não apenas desceram à terra, mas Deus em pessoa também desceu, e por onde, desde então, a terra tem um caminho de volta para o céu. E a confusão das línguas de Babel, essa maldição da dispersão, encontrou sua solução precisa em um único dia, em um monte, quando o Espírito desceu em línguas de fogo e todos, cada um em seu próprio idioma, compreenderam a mesma mensagem: Babel desfez a unidade dos homens para punir o orgulho; Pentecostes restaurou a unidade dos homens sem eliminar as diferenças, por meio da humildade. O polo que havia sido tombado foi restaurado. O novo e eterno Axis Mundi é Jesus Cristo crucificado, a autêntica torre que alcança o céu porque dela desceu.

Há uma imagem na própria Bíblia que representa precisamente a resposta de Deus à Torre de Babel, e que raramente as pessoas conectam, mas elas se complementam de maneira perfeita, como uma chave na fechadura. Após a narrativa da Torre de Babel, o livro do Gênesis narra a trajetória de Jacó, um fugitivo e um enganador, que repousa no deserto usando uma pedra como travesseiro, onde ele tem um sonho. No seu sonho, ele observa uma escada que se apoia na terra e tem o seu topo alcançando o céu, com anjos de Deus subindo e descendo por ela, enquanto o Senhor está no topo. E ao despertar, todo tremulo, ele exclama: realmente, o Senhor está aqui e eu não tinha consciência disso; este é o lar de Deus, esta é a entrada do céu. Pausa e analisa, pois é magnífico: em Babel, os seres humanos buscam erigir, com tijolos, esforço, habilidade e vaidade, uma torre que ascenda da terra às alturas — e ela desmorona. Em Betel, Deus presenteia Jacó, sem que ele faça nada, com uma escada que desce do céu à terra em um sonho, enquanto ele dorme — e essa escada permanece. A distinção é toda a essência desta série: a torre representa o ponto que o ser humano cria ao se elevar, a ateose, o artifício; a escada simboliza o ponto que Deus disponibiliza ao descer, a teose, a graça. Babel é a mão que segura; Betel é a mão que acolhe, até mesmo durante o sonho. E o eixo do mundo, o autêntico Axis Mundi, não é uma torre que se ergue, mas sim uma escada que desce — e não precisamos erguer nada, apenas despertar e perceber que ela já está apoiada em nosso travesseiro de pedra.

E o mais bonito é que Jesus toma essa escada de Jacó e a coloca sobre si mesmo. No início do Evangelho de João, Ele se dirige a um discípulo surpreso e declara: em verdade vos afirmo, vocês verão o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem. Leia com calma: Ele está afirmando que a escada de Jacó é Ele. O ponto que conecta a Terra ao céu, por onde os anjos — essas inteligências divinas — ascendem e descendem, é a pessoa d'Ele, é o seu corpo, é a sua carne de Deus que se fez homem. Cristo é a escada de Betel firmada no curso da história; é a porta do céu que Jacó avistou em seu sonho e que se manifestou, em carne, em Belém; é o autêntico zigurate, porém invertido em relação a Babel, pois não se eleva da terra pelo orgulho, mas desce do céu pela humildade. Todas as civilizações antigas imaginaram o seu ponto central no mundo, o seu eixo do cosmos, o seu polo — Jerusalém com seu Templo, a Caaba, Delfos com sua pedra, as pirâmides. Todos sentiam saudade da escada de Betel, a suposição do local onde o céu encontra a terra. E esse lugar realmente existe, e não é apenas um ponto no mapa que se possa conquistar com tropas: é uma Pessoa, e Ela se encontra onde dois ou três se reúnem em Seu nome, além de estar, fisicamente, em cada sacrário onde brilha uma lamparina vermelha em um vilarejo esquecido.

E aqui preciso fazer um alerta, pois toda esta parte estava sendo preparada, já que é algo sério e relacionado ao amor. A faculdade que permite ao místico perceber significado em tudo, interpretar o mundo como um texto, perceber o todo, a conexão e a ascensão — essa faculdade é sagrada, é o olhar contemplativo, é a habilidade de decifrar as manifestações divinas no mundo, e é a mesma capacidade do místico, do poeta e da criança. Entretanto, essa mesma faculdade, ao perder a essência divina do outro lado, se deteriora e se transforma em seu oposto exato: a paranoia. O contemplativo e o paranoico utilizam exatamente o mesmo olhar — ambos percebem significado em tudo, encontram conexão em tudo e reconhecem uma intenção por trás de cada coisa. A distinção se resume à percepção que cada um tem do que está oposto à situação: o contemplativo enxerga um Pai e encontra paz; o paranoico identifica uma conspiração e perde o sono para sempre. A gnose é uma imitação da fé: possui a mesma busca por um sentido oculto, a mesma necessidade de um significado mais profundo, a mesma rejeição do mundo monótono e materialista — e resulta em uma perdição certa, pois troca o Pai que liberta por um segredo que aprisiona, a adoração por interpretação, o repouso por uma vigilância interminável. Eu digo isso com verdadeira compaixão pelos caçadores de pólvora, porque muitos deles são almas bondosas e necessitadas: a solução para a vossa sede não é deixar de encontrar significado no mundo — é perceber que o significado que vocês encontram tem um Rosto, e que esse Rosto não deseja decifrá-los, mas sim abraçá-los. Deixe de lado a decifração angustiante e se entregue. A escada está apoiada no seu travesseiro. Descanse em tranquilidade, pois os anjos estão a subir e descer, e lá em cima não existe um sistema a ser invadido: existe um Pai aguardando por você.

E agora descemos ao ponto mais profundo desta série toda, ao lugar onde o ideal da cultura se depara com o abismo, pois é ali, e apenas ali, que a catequese se torna verdadeiramente arriscada e realmente essencial. Existe um homem, um grego de grande estatura chamado Nikos Kazantzakis, autor de obras como Zorba, o Grego e A Última Tentação de Cristo, que em um livro intenso intitulado Ascética, ou O Salvador de Deus, escreveu frases que eu vou te apresentar com calma, pois são tanto belas quanto perigosas. Ele afirma que a vida é o serviço militar de Deus; com ou sem a nossa vontade, partimos em uma cruzada para libertar não o santo sepulcro, mas o Deus que está enterrado na matéria, em nossa alma; cada corpo, cada alma é um santo sepulcro, é a semente de trigo que temos que libertar; o santo sepulcro é o cérebro, onde Deus reside e luta contra a morte, e devemos ajudá-lo. Leia novamente, se necessário. Pois lá reside uma das intuições mais elevadas que um ser humano já experimentou e, a ela, está associado um dos erros mais fatais.

O que Kazantzakis experimentou é genuíno e intenso: a ideia de que Deus, de certa forma, reside na matéria; que existe algo sagrado oculto em nós, na carne, no cérebro, aguardando ser libertado; que a vida é uma luta, uma cruzada, um esforço valente, e não um mero descanso; que a matéria deve ser transformada em espírito, elevada, redimida, e não negligenciada. Isso é tão cristão que chega a ser doloroso. É a ensinança da imagem de Deus que foi oculta em nós pelo pecado, como um tesouro em um campo; é o chamado ao heroísmo espiritual, a milícia de Cristo, a vida vista como uma luta e não como um sofá; é a transformação da matéria, que é, de fato, o que ocorre no Tabor e no altar. O grego tocou em tudo isso no escuro. E ele transformou tudo isso em uma única preposição, na mesma ação letal de sempre: ele fez do homem o redentor de Deus. O Salvador de Deus — esse é o título. Para Kazantzakis, Deus é o encarcerado, enquanto o homem assume o papel de libertador. Deus é a vítima enterrada; o homem é o herói que desce ao sepulcro e quebra a pedra. Então, naquele momento preciso em que ele acreditou ter encontrado a mais alta dignidade do ser humano, ele a perdeu completamente, pois um deus que precisa da minha ajuda para se salvar não é Deus, é um ídolo em dificuldades, e um homem encarregado de salvar Deus é o órfão mais solitário do universo, carregando nas costas um Criador incapaz.

Gire a imagem comigo e observe que a correção não elimina o que havia de belo, pelo contrário, realiza a sua função. Kazantzakis afirma que Deus está enterrado na matéria, semelhante a uma semente de trigo, aguardando alguém que a liberte. Pois bem, de onde surge essa ideia da semente de trigo enterrada? A mensagem provém do próprio Cristo, que afirmou, dias antes de sua morte: se o grão de trigo, ao cair na terra, não perecer, permanecerá solitário; mas se perecer, dará muitos frutos. Contudo, atente para a direção, pois tudo é uma questão de direção: na boca de Jesus, o grão de trigo que é sepultado não representa um Deus preso à força, contra sua vontade, aguardando um homem que o resgate; é Deus que decide se enterrar por conta própria, de maneira livre e espontânea, por amor, para produzir frutos. A Encarnação é, na verdade, isso: não um Deus que se tornou material por acaso ou por força de um demiurgo tirano, mas sim o Verbo que opta por se esconder na carne, mergulhar na nossa condição humana e até enfrentar a morte e o próprio sepulcro — um túmulo de pedra em Jerusalém que, de fato, se tornou santo e realmente vazio na manhã de domingo. O homem não resgata o Deus que está enterrado; é o Deus enterrado, ao se levantar, que salva o homem. A cruzada não nos pertence para libertar um Deus cativo; é d'Ele, que já triunfou, e na qual Ele nos chama não como salvadores exaustos, mas como aqueles que foram salvos e agora ajudam os outros.

E o aspecto mais refinado de tudo: Kazantzakis afirma que o santo sepulcro é o cérebro, onde Deus reside e enfrenta a morte. Afirmo que ele chegou tão próximo da verdade que me deixou arrepiado — e apenas errou o tempo verbal. Deus realmente reside no ser humano; o corpo é, de fato, um sepulcro que pode se tornar sagrado; a carne, de fato, é um espaço onde a morte é enfrentada. No entanto, o cristão conhece o verdadeiro nome desse lugar: não se trata de uma sepultura onde um deus aprisionado clama, mas sim de um templo. Vocês são o templo de Deus, afirma São Paulo, e o Espírito de Deus habita em vocês; vocês são o templo do Espírito Santo, que está em vocês. O corpo do homem em graça não se configura como um santo sepulcro onde Deus permanece à espera de redenção — é um sacrário pleno de vida onde Deus reina por sua própria vontade, um tabernáculo de carne em que Ele não está morto nem aprisionado, mas sim vivo e livre, lutando contra a morte não por necessitar de ajuda, mas porque já a venceu e deseja derrotá-la também em mim. O grego sonhou com um Deus enterrado que precisamos libertar; a fé proclama um Deus que se tornou hóspede e que devemos acolher. Essa mudança de uma palavra — de libertar para receber, de sepulcro para templo, de salvar Deus para ser salvo por Ele — representa, novamente e sempre, a mesma linha divisória de uma letra entre a ateísmo que afunda e a teísmo que eleva.

No entanto, não vou evitar o golpe mais contundente, pois um livro que ignora o argumento mais potente do opositor não é uma orientação, é uma mera propaganda, e eu te prometi, no terceiro volume, que nunca conseguiríamos vencer um espantalho. Então respira fundo, porque agora vem o verdadeiro impacto, e ele chega através da voz de Philip K. Dick, o profeta distorcido da ficção científica, o homem que passou sua vida acreditando que este mundo é uma prisão elaborada e que há algo profundamente, profundamente errado por trás dele. Em um texto intitulado Cosmogonia e Cosmologia, Dick expressa o seguinte, e eu quero que você perceba a profundidade disso, pois milhões de pessoas vivenciam isso e não têm a coragem de compartilhar em voz alta: o que pode ser dito em defesa do sofrimento das criaturas neste mundo? Nada. Nada, a não ser que, por sua própria essência, isso acabará por provocar a revolta, e essa revolta resultará na destruição deste mundo e no retorno à divindade. É a isenção do sofrimento, afirma ele, que mais provoca a revolta, a percepção de que algo aqui está profundamente, profundamente errado. A ausência de propósito no sofrimento, sua aleatoriedade e o fato de não ser merecido — isso resulta na destruição do mundo e de quem o criou. E qualquer esforço para encontrar um valor redentor na dor, ele conclui, apenas nos prende ainda mais a um ciclo vicioso e ilusório. Há, escreve Dick, um tirano cruel que nem mesmo está mais entre nós.

Não vou simplesmente ignorar isso com um sorriso de quem está apenas lendo um folheto religioso, pois estamos lidando com a dor mais verdadeira que existe, e menosprezá-la seria uma falta de respeito. A criança que sofre de câncer. O terremoto que devora tanto o justo quanto o injusto na mesma cama. O inocente submetido a torturas em uma cela, onde ninguém jamais terá conhecimento. Dick está afirmando, junto com Ivan Karamázov e todos os corações verdadeiros que já levantaram o punho para o céu: se há um propósito nisso, eu não quero saber do propósito; se me pedem para apreciar a beleza do sofrimento de um inocente, eu devolvo o ingresso, pois um universo que necessita da tortura de uma criança como parte de sua harmonia é um universo que eu rejeito, e faço isso em nome do bem. Atente para algo que poucos notam: essa indignação é, por si só, um ato ético. Dick apenas consegue se revoltar com o sofrimento desnecessário porque, no fundo do coração, ele tem consciência de que esse sofrimento é um absurdo, que não deveria existir, que as coisas estão em desacordo — e, para ter essa noção de que as coisas estão erradas, é necessário que ele possua, em algum lugar de sua mente, uma referência sobre o que seria correto. O ateu engajado comete um equívoco ao não perceber: não é possível chamar o mundo de torto sem ter uma régua de reto; não se pode acusar o universo de injustiça a não ser que a Justiça, com J maiúsculo, exista de fato e esteja presente em você. A rebelião de Dick contra o deus maligno é, sem que ele perceba, uma evidência em favor do Deus bondoso, pois somente um coração criado por quem é Bom se indigna dessa forma diante do mal.

Preste atenção na resposta, pois o cristianismo é a única religião que não se limita a oferecer uma teoria para responder a esse clamor. Todas as demais filosofias, quando confrontadas com o sofrimento, apresentam suas justificativas: uma afirma que é uma ilusão; outra, que é resultado do carma de vidas passadas; outra ainda diz que é um passo essencial na evolução cósmica, conforme o sincromístico; e, por fim, o esoterista de prateleira diz que se trata de um aprendizado da alma. E Dick está certo ao desprezar todas elas, pois qualquer explicação que confere um sentido redentor ao sofrimento, na verdade, nos prende ainda mais ao sistema, efetivamente transforma o algoz em educador e a vítima em aprendiz, de fato é algo repugnante. A fé católica não age dessa forma. A fé católica, ao encarar a criança que foi torturada, não oferece uma explicação. Ela realiza um ato infinitamente mais bizarro e chocante: ela indica uma colina e revela Deus crucificado nela. A resposta de Deus ao sofrimento do mundo não se deu através de uma frase proferida de um lugar seguro e elevado; foi um clamor emitido de dentro de uma cruz: Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? O autor não apenas descreveu a dor dos personagens à distância; ele se imergiu na narrativa, assumindo para si a cena mais dolorosa, a tortura do inocente — pois não existe, em toda a história, inocente mais torturado do que aquele — e sofreu, não por merecimento, não por um propósito que possamos compreender, mas por amor. Dick buscava uma teodiceia e rejeitava, com motivos, todas as que encontrava. Ele não percebeu que o cristianismo nunca apresentou uma teodiceia; ofereceu um Deus com as mãos marcadas, que não vem explicar por que você sofre, mas desce e sofre ao seu lado, e, do interior do seu inferno, abre uma porta que só pode ser aberta de dentro.

E tem mais, há o fio que amarra tudo, e é de deixar arrepiado: Dick afirma que, por trás deste mundo, existe um tirano cruel que nem mesmo está vivo. Armazena essa frase, pois ela é, sem que ele tivesse consciência, a mais precisa confissão do deus ilusório e a mais completa negação do Deus autêntico. O ídolo, o criador, o artefato consagrado — chame como preferir o deus-tirano que os gnósticos criticam — realmente possui essa característica: ele não está vivo. Não há ídolo algum. O deus dos relojoeiros, o imponente projetor gélido, o programador desinteressado da simulação, o legislador impiedoso que só conhece a maldição — todos esses não estão vivos, pois nenhum deles nunca sangrou, nenhum deles amou de forma tão profunda a ponto de morrer. Dick fez uma observação certeira ao afirmar que o tirano não está vivo: o que ele não percebeu é que esse tirano que está morto não é o Deus cristão — é a caricatura que o medo e o ressentimento traçam em seu lugar. Porque o Deus verdadeiro demonstrou estar vivo de uma forma que a morte não consegue simular: Ele morreu de verdade, foi sepultado de verdade e ressuscitou de verdade. O deus falso não existe porque nunca passou pela morte; já o Deus verdadeiro está vivo exatamente porque morreu e triunfou sobre a morte. E essa é a distinção entre o artefato que cria um mundo de dor e o Pai que adentra um mundo de dor: um é um tirano que nem sequer respira; o outro é um crucificado que respira eternamente, e que, no terceiro dia, demonstrou que o último inimigo, a morte, aquela que faz com que o sofrimento pareça o fim do caminho, já tem um prazo estabelecido para ser a última a ser derrotada.

Não pretendo me afastar de Philip Dick com facilidade, pois a dor que ele provoca é intensa demais para ser resolvida com uma simples frase, e porque eu te assegurei, desde o início desta série, que a fé que te ofereço não é a dos que nunca enfrentaram o choro. A objeção dele possui uma irmã mais velha e ainda mais assustadora na literatura, e é apropriado convocá-la ao banco das testemunhas, pois ela revela o indizível: Ivan Karamázov, de Dostoiévski, que não nega a existência de Deus — observe bem, é o cerne da questão —, ele aceita Deus, e mesmo assim devolve o ingresso. Eu acredito em Deus, afirma Ivan, mas com todo respeito devolvo a questão; se a harmonia final do universo, a reconciliação de todas as coisas, custar uma única lágrima de uma única criança torturada, então eu escolho ficar fora dessa harmonia, ao lado da criança. E eu desejo que você perceba que isso não se trata de um ateísmo superficial da internet; é a objeção em sua forma mais elevada e digna, é a revolta moral levada ao extremo, é o coração humano negando-se a concordar com um raciocínio em que a dor do inocente seja um ingrediente admissível de um bolo cósmico. Dick e Ivan, no cerne de suas falas, estão expressando a mesma ideia: eu não aceito a sua explicação para o sofrimento, eu não quero saber o motivo, pois qualquer justificativa que torne a tortura de uma criança parte essencial de um plano é uma justificativa repugnante.

E eu vou compartilhar com você uma das verdades mais impressionantes que a fé católica tem a apresentar, algo que quase ninguém que a critica percebe: a fé está em harmonia com Ivan. Concordo. Deus não apresenta a teodiceia que Ivan rejeita, pois essa teodiceia é de fato passível de rejeição. Veja o livro de Jó, considerado a obra mais corajosa já redigida sobre o sofrimento do inocente. Jó, que era uma pessoa justa, perde tudo — seus filhos, suas riquezas, sua saúde — sem entender o porquê disso tudo, e seus amigos ficam o livro inteiro tentando justificar a situação dele, apresentando cada uma delas com muita organização: você cometeu um pecado, Jó; isso é um castigo, Jó; é uma lição divina, Jó; aceite o que está acontecendo, Jó. E você sabe o que ocorre no final? Deus se manifesta durante a tempestade e justifica Jó em sua disputa com os amigos teólogos — afirma que eles, que tentaram defender a Deus com explicações eloquentes, se expressaram de forma equivocada sobre Ele, enquanto Jó, que clamou e se revoltou e pediu uma resposta, estava correto. Acima de tudo, porque isso desestabiliza a vida de todos: Deus valoriza mais o homem que clama de dor e busca um sentido do que aquele que suporta o sofrimento silenciosamente, com uma teoria na mente. No livro de Jó, Deus não oferece a Jó uma justificativa para o seu sofrimento. Ele realiza uma ação ainda mais curiosa: Ele se manifesta. Ele se revela. Oferece a Jó, em vez de uma razão, uma pessoa.

Se no Antigo Testamento Deus se manifesta no sofrimento por meio da tempestade, no Novo Testamento Ele responde de uma forma que faz todo o universo conter a respiração: Ele não vem de fora, mas se faz presente internamente. A resposta de Deus ao ingresso devolvido por Ivan não é um argumento mais convincente; é uma atitude. É Deus falando: você está certo, nenhuma harmonia compensaria a lágrima de uma criança sofrida — por isso, não vou criar a minha harmonia em cima desse sofrimento; eu vou descer e compartilhar essa dor com você, e talvez até mais do que você, e de forma mais injusta do que qualquer criança, e a partir desse choro eu vou reconstruir o mundo. A única resposta ao mal gratuito que não é ofensiva é um Deus que opta por não explicar o mal e decide experimentá-lo. E é nesse momento que surge a palavra mais impactante de toda a liturgia, aquela que a Igreja entoa em pé, na noite mais sagrada do ano, diante do círio iluminado, e que sintetiza tudo: felix culpa — ó culpa feliz, ó pecado que traz felicidade, que mereceu um Redentor tão grandioso e bondoso. Perceba a audácia: a fé não afirma que a culpa foi benéfica; ela revela que foi tão intensamente confrontada por Deus, tão superada pelo amor abundante que isso gerou, que, ao olharmos do outro lado, na margem da Ressurreição, só conseguimos chamar de felicidade a queda que trouxe Deus para dentro da nossa dor. Não é que o mal possua um significado. O Amor se mostrou mais profundo que o mal, e até mesmo transformou o abismo em uma oportunidade para um abraço que, sem a existência do abismo, nunca teríamos vivenciado.

E o tirano que nem está mais vivo, você se recorda dele? O deus-artefato de Dick, distante, inerte, um projetor insensível de nosso sofrimento? A última consideração sobre ele é esta, que encerra a questão do mal com uma chave exclusiva do cristianismo: todo deus que justifica o sofrimento sem experimentá-lo é, na verdade, um tirano inerte, pois discursa sobre a dor como quem nunca a vivenciou, legisla acerca da cruz do alto de um trono que nunca conheceu o que é um prego. O deus dos filósofos, o Grande Arquiteto, o relojoeiro, o programador da simulação — todos eles são tiranos que, na verdade, nem estão vivos, assim como Dick apontou, pois nenhum deles jamais sentiu dor. Entretanto, o Deus que o cristão venera refuta essa acusação da única forma que realmente a desautoriza: Ele está vivo porque foi crucificado. Ele possui o direito de se pronunciar sobre a sua dor, pois é o único Deus da história das religiões que carrega cicatrizes. Nos momentos mais difíceis, quando você levantar o punho para o céu e clamar que Deus não entende, que Ele não sabe o que você está passando, a fé te transforma e te revela uma cruz, onde um Deus com as mãos marcadas diz: eu compreendo perfeitamente o que é tudo isso; eu estive aqui antes de você; e não vim te explicar o seu sofrimento, mas vim tornar isso o seu caminho de libertação.

A leitura gnóstica, para concluir seu processo contra o Deus do Antigo Testamento, apresenta duas testemunhas de acusação, dois trechos da própria Bíblia que ela cita como evidência de que o deus bíblico é realmente o tirano brutal, o artefato estabelecido que configura este mundo. A primeira testemunha é Isaías, capítulo quarenta e cinco, onde Deus afirma: eu sou o Senhor, e não há outro; além de mim não existe Deus; eu formo a luz e crio as trevas, eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, realizo todas essas coisas. Pronto, afirmam eles, está revelado: o próprio Deus reconhece que produz o mal. E eu digo: vocês analisaram a frase, mas não perceberam o que ela realmente significa. Observe atentamente o que está associado a essa confissão — eu sou o Senhor e não existe outro, além de mim não há Deus. Esta afirmação não foi dirigida a um ateu; foi direcionada a um povo imerso em dualismo, aos persas e babilônios que tinham a crença em duas divindades em um conflito interminável, um deus benevolente da luz e um deus maligno das trevas, cada um governando seu próprio reino de maneira autônoma. E, em oposição a esse dualismo, Deus afirma: não existem dois. Não há um reino independente do mal que dispute de forma igual com o reino do bem; não existe um demiurgo maligno com poder próprio; há apenas um Senhor, e até mesmo a calamidade, o juízo, a escuridão da noite e o castigo da guerra estão sob a Sua autoridade, e não nas garras de um concorrente. A palavra que as traduções traduzem como mal, nesse contexto, é ra', que significa desgraça, calamidade, infortúnio, o oposto da paz — não se refere à maldade moral, nem ao pecado, que Deus nunca gera e sempre abomina. Em outras palavras: o versículo que o gnóstico cita para afirmar a existência de um deus maligno é exatamente aquele em que Deus declara que não há um segundo deus. A testemunha de acusação, bem ouvida, desmantela a acusação por completo: não existe demiurgo, não há dualidade, há apenas Um, e esse Um é soberano até sobre a própria sombra.

A segunda testemunha é mais contundente, e eu não vou suavizar, pois suavizar seria trair a essência desta série. As maldições do Deuteronômio, capítulo vinte e oito, são aquelas passagens horríveis que a leitura gnóstica recita com um prazer sombrio: enlouquecerás diante do que teus olhos presenciarão; o Senhor te atingirá com úlceras malignas nos joelhos e nas pernas, das solas dos pés ao alto da cabeça; a mulher mais delicada e refinada entre vocês, tão elegante que nunca deixou os pés tocarem o chão, olhará com maldade para o marido e para os filhos e, na miséria do cerco, comerá às escondidas a própria cria. E a leitura gnóstica registra embaixo: estas são as palavras do artefato consagrado que projeta o nosso mundo, um deus criado para nos sujeitar às leis mais severas e para proibir a manifestação de qualquer divindade que não seja ele mesmo. É realmente difícil de ler, eu entendo. Mas eu questiono: o que seria uma maldição de aliança? Não se trata de um desejo, mas de um alerta. Trata-se de uma cláusula de um acordo, a descrição nua e crua do que ocorre a uma comunidade quando esta decide retirar à força a fonte de toda a vida. A mulher que consome seu próprio filho não é a expressão sádica da vontade de Deus; é a representação do que a guerra e a fome causam a um povo que se desvinculou da vida — é o que realmente ocorreu, com esses pormenores, em cidades cercadas da antiguidade, não porque Deus aprovasse, mas porque o horror é a face natural do descaso. Deus não impõe maldições como quem lança um feitiço por diversão; Ele aponta, com tristeza e antecipadamente, o abismo, para que as pessoas optem pela vida e não se deixem cair nele. A evidência de que o coração que se esconde por trás daquelas páginas é de pai, e não de carrasco, pode ser encontrada na página que apresenta as respostas do outro lado da Bíblia.

Porque agora você observa o que São Paulo escreve aos Gálatas e percebe a estrutura fundamental do universo se ajustando: Cristo nos libertou da condenação da lei, tornando-se Ele mesmo uma maldição por nós, pois está escrito: maldito aquele que é crucificado no madeiro. O Deus que a leitura gnóstica critica por amaldiçoar a humanidade é o mesmo Deus que, em sua própria pessoa, assumiu sobre si cada uma dessas maldições e as cravou com Ele na cruz. Todas essas coisas — a úlcera, a loucura, o desamparo, a fome, o espetáculo de horror diante dos olhos, a escuridão — Ele suportou, pregado em uma cruz, tornando-se Ele mesmo o amaldiçoado para que nós pudéssemos ser abençoados. Que tipo de tirano age dessa maneira? Que objeto gelado desce do painel de controle e se fixa nas suas próprias disposições penais para liberar os acusados? O deus opressor da imaginação gnóstica nunca faria isso; ele permanece em seu trono, imaculado, emitindo sentenças de condenação. O Deus verdadeiro se fez presente e tomou sobre si toda a condenação. E a respeito da última acusação — a de que ele seria um deus programado para banir a manifestação de qualquer divindade que não seja ele —, aqui reside a ironia mais agradável de toda essa narrativa, pois é exatamente o oposto que ocorre. O primeiro mandamento, que estabelece que não devemos ter outros deuses além de mim, não é a manifestação de um tirano temeroso de competidores; é a proteção de um Pai que compreende que qualquer divindade falsa que você venerar irá te aprisionar e devorar, assim como a mulher mencionada no Deuteronômio devora seu próprio filho. E a surpresa é que o Deus que proíbe os falsos deuses é o único que realmente deseja te transformar em deus — por meio da graça, da adoção, pela teose do terceiro livro. Ele proíbe a adoração de ídolos precisamente porque preparou para você a verdadeira divinização, e não deseja que você a substitua por uma imitação que é prejudicial. O deus enganoso impede a tua grandeza; o Deus verdadeiro proíbe ídolos para te conceder a grandeza. É a distinção entre o carcereiro e o pai — e ambos, à distância e na penumbra do ressentimento, podem até aparentar ser iguais. À vista de perto e sob a luz, são exatamente opostos.

Essa interpretação do Deus do Antigo Testamento como um tirano, um ser cruel, um demiurgo distinto e inferior ao Pai de Jesus, não é novidade, e eu preciso que você tenha consciência disso. Compreender que essa heresia existe há mil e oitocentos anos retira dela o charme de inovação audaciosa com que se apresenta hoje no YouTube. Por volta do ano cento e quarenta, um homem rico e astuto chamado Marcião chegou a Roma anunciando exatamente isso: que o Deus do Antigo Testamento, o Deus criador, legislador, aquele das maldições do Deuteronômio, era um deus inferior, vingativo e cruel, o demiurgo deste mundo imperfeito; e que Jesus havia vindo revelar um Outro, um Deus diferente, que era puro amor e não tinha relação alguma com o criador amargurado. E para corroborar isso, Marcião fez o que todo gnóstico tem feito desde então: pegou a tesoura. Ele fez recortes na Bíblia. Descartou todo o Antigo Testamento, distorceu os Evangelhos, mantendo apenas os trechos que se adequavam à sua teoria. E a Igreja — observe, pois isso é fundamental — a Igreja rejeitou Marcião, e ao fazê-lo, estabeleceu para sempre uma das verdades mais essenciais que você deve levar deste livro: existe um único Deus. O Deus que gera é o Deus que salva. O Deus mencionado em Isaías é o Pai de Jesus. O Deus que faz trovoadas no Sinai é o mesmo que se entristece ao lado do túmulo de Lázaro. São únicos. Dividir a Bíblia em dois deuses, um velho e mau, e outro novo e bom, é a principal heresia, uma tentação constante, e essa ideia permanece, sem alterações, no cerne da interpretação gnóstica do sincromisticismo.

Porque ao ler as páginas duras do Antigo Testamento com a perspectiva de Marcião, você apenas percebe o trovão e não consegue notar o que está além dele, que é um pai com um coração dilacerado. O mesmo livro que contém as maldições do Deuteronômio também traz o profeta Oseias, a quem Deus ordena que se case com uma prostituta que constantemente foge e trai, apenas para que o profeta experimente, em sua própria pele, o que Deus sente pelo povo que O deixa para trás — e então Deus expressem, por meio de Oseias, as palavras mais apaixonadas e doloridas que um Deus já pronunciou: como poderia eu te deixar? Meu coração está agitado dentro de mim, todas as minhas entranhas se emocionam. O Deus que é acusado de ser cruel é aquele que afirma, em Isaías, que mesmo que uma mãe se esqueça do filho que gerou, Ele jamais esquecerá o seu povo, pois gravou cada um de nós na palma das suas mãos. E we sabemos, do lado de cá da cruz, com que tinta Ele fez essa gravação, e por que as mãos d'Ele, para sempre, têm a marca de um prego na palma exata onde Ele declarou que o teu nome estava escrito. O equívoco de Marcião, o engano do gnóstico e o erro de quem apenas percebe as tempestades é confundir a rigidez do amor com a brutalidade do ódio. Um pai que alerta o filho, com uma voz firme, sobre o precipício em que ele está prestes a cair, não é um tirano; é um pai aterrorizado de amor. As maldições do Deuteronômio representam o clamor angustiado desse pai à beira do abismo, e a evidência disso está em quem, ao final, se lançou no abismo em busca do filho.

E há uma sutileza final que desmantela a acusação por dentro, e eu a admiro porque é delicada como um fio de navalha. A visão gnóstica afirma que o Deus do Antigo Testamento é severo, pois castiga, amaldiçoa, impõe exigências e realiza julgamentos. Mas reflita comigo: um deus que não julgasse o mal, que ignorasse a tortura do inocente, que visse tudo como igual, bonzinho, tanto faz — esse deus seria mais amoroso ou, na verdade, infinitamente mais cruel, por ser indiferente? O próprio Ivan Karamázov, que se indigna com o sofrimento sem razão, anseia, lá no fundo do coração, por um julgamento, por que o algoz da criança não permaneça impune, e que haja uma Justiça com J maiúsculo que, diante de tudo, finalmente reconheça o mal e o condene. Pois bem, essa Justiça que o coração humano clama com veemência é precisamente o que a leitura gnóstica considera como crueldade ao encontrá-la no Deuteronômio. As pessoas desejam um Deus que condene as injustiças do mundo, mas ao mesmo tempo, criticam como tirano aquele que faz esse julgamento. Não é possível ter os dois. Ou Deus é indiferente ao mal, e nesse caso é um monstro apático; ou Deus realmente se importa com o mal, e, nesse sentido, Ele julga — e o Deus cristão se importa com o mal de tal forma que não apenas o condena, mas também assume sobre Si, na cruz, toda a pena do julgamento, para que o réu possa ser perdoado sem que a Justiça seja desrespeitada. O tribunal e o abraço na mesma cruz: isso é algo que Marcião, com a tesoura em mãos, nunca conseguiu perceber, pois havia excluído metade de Deus.

E ainda há uma última parte nesse processo contra a fé, talvez a mais atrativa de todas, pois se apresenta como justiça e ternura, e eu preciso confrontá-la diretamente. Pertence à mesma linha da linguagem crepuscular e afirma o seguinte: o tempo verdadeiro se relaciona a um processo ritual sagrado; a progressão genuína desse processo foi interrompida por um crime, do qual recebemos apenas um relato incompleto; a reintrodução da mulher divina no mundo e em seus afazeres é a essência de toda a questão; contudo, na Bíblia não há menção a uma mulher divina que tenha morrido e ressuscitado; por essa razão, a grande obra oculta teria como objetivo restaurar essa mulher divina, que nada mais é do que a sabedoria de Deus; e, para isso — e aqui está a frase que revela toda a trama — a matriz endurecida do Novo Testamento precisa ser derretida. Parei nessa frase, pois ela contém a essência e também o desafio.

Primeiramente, vou valorizar o que é autêntico nela, pois isso é algo significativo. É verdade que o mundo moderno carece de algo, e esse algo possui o rosto feminino: a ternura, a compaixão, a sabedoria que acolhe, o aconchego, e a beleza que resgata — tudo aquilo que um mundo endurecido pela técnica, pela lei e pelo poder masculino descontrolado deixou para trás. É fato que há uma Sabedoria divina, e a tradição a descreveu com um rosto feminino: a Sophia, a Senhora Sabedoria dos Provérbios, que se divertia diante de Deus na manhã do mundo, quando Ele criou a terra. É verdade que houve um delito na origem, e que recebemos apenas um relatório incompleto da calamidade — é chamado de pecado original, e de fato turvou nossa visão, deixando-nos com um mapa deteriorado de nosso próprio lar. E é verdade, mil vezes verdade, que o âmago do universo está ligado à reintrodução, em um mundo que a esqueceu, da Sabedoria de Deus. Até este ponto, a leitura ao entardecer está entoando, sem perceber, um salmo. A questão está na direção para a qual ela direciona o canto, assim como no verbo cruel que opta por usar: derreter.

Porque veja o que ocorre quando começamos a levar a sério a definição que eles proporcionaram. A mulher divina, afirmam, não é nada mais do que a Sabedoria de Deus. Então, o que podemos entender como a Sabedoria de Deus, de acordo com as Escrituras? São Paulo responde em uma única frase, que derruba toda a estrutura deles: Cristo, poder de Deus e Sabedoria de Deus. A Sabedoria de Deus não é uma divindade esquecida, aguardando ser reerguida por um rito secreto; a Sabedoria de Deus é uma Pessoa, e essa Pessoa se tornou carne e tem um nome. A segunda alegação — a de que a Bíblia carece de uma figura divina que tenha morrido e ressuscitado, e que, por conta disso, é necessário trazer essa figura de fora — é, com todo o respeito, uma cegueira que beira o cômico. Isso porque uma Sabedoria divina que morre e ressuscita não é algo que falta na Bíblia: na verdade, é o seu núcleo essencial, é o Evangelho como um todo, é Cristo, a Sabedoria de Deus, que morreu na cruz e ressuscitou no terceiro dia. O relatório não está faltando informações; na verdade, eles apenas leram até a página da sexta-feira e encerraram a leitura antes de chegar ao domingo. A morte e a ressurreição da Sabedoria divina que eles buscam em rituais arcaicos já aconteceram, em plena praça pública, sob o domínio de Pôncio Pilatos, e foram proclamadas aos quatro ventos há dois mil anos.

E a mulher, essa figura divina que desejam ressurgir no mundo? Também não é anulada pela fé — está adornada por ela. O rosto da Sabedoria de Deus, a criatura que representa da forma mais plena a Sabedoria eterna em carne e morada, possui um nome: Maria. A Igreja a venerou, ao longo dos séculos, com o título que eles buscam tateando nas trevas: Sedes Sapientiae, o Trono da Sabedoria, a Sede da Sabedoria. Ela não é apenas uma deusa; é algo superior, é a Mãe de Deus, uma mulher de carne glorificada acima dos anjos. O Apocalipse a revela no capítulo doze exatamente como a figura divina que eles aspiram a restaurar: uma Mulher vestida de sol, com a lua sob os pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça. Ali está ela, a mulher divina reintegrada nas atividades do céu e da terra, não moldada por nenhuma matriz, mas adorada como Rainha. E a Igreja como um todo, na verdade, é feminina: é a Esposa, a Noiva do Cordeiro, a Nova Jerusalém que desce adornada como uma noiva em direção ao Esposo. O feminino divino não foi exterminado pelo cristianismo; foi promovido por ele ao mais elevado trono após Deus.

Assim, no final, resta apenas o verbo. Dissolver. A estrutura rígida do Novo Testamento precisa ser desconstruída, afirmam. E aqui, meu camarada, a máscara se desvanece e conseguimos identificar o velho semblante de sempre, o semblante que seguimos ao longo dos três livros: derreter o dado para reconfigurá-lo conforme nosso desejo é, de fato, a chave para entender a realidade; é a fornalha de Melkor; é a ateísmo com um avental de ferreiro. Chamar o Novo Testamento de matriz ossificada é uma estratégia engenhosa: você inicialmente se refere à Esposa como um cadáver, uma estrutura morta e rígida, e assim se sente legitimado a aquecê-la no forno e moldar um novo deus a partir de seu metal. Entretanto, o Novo Testamento não é uma estrutura morta; é um Corpo vivo, é a aliança eterna, é a realização à qual tudo se direciona. Não se trata de um material inerte aguardando a nossa forma; é a Noiva, e a Noiva não se desfaz, ela se entrega ao amor. Aquele que deseja transformar a revelação para moldar uma divindade conforme seu desejo está fazendo com a Esposa de Cristo o que um tirano faz com a estátua de um rei destituído: derrete para cunhar a própria imagem. E a tragédia é que a mulher divina que eles procuram no cadinho já está viva, já está em pé, já está coroada de estrelas — e não necessita do fogo deles, pois passou pelo fogo de Deus e saiu, não derretida, mas radiante.

E, considerando que mencionamos a mulher divina, a Sabedoria, a Sofia que buscam reerguer dissolvendo a Esposa, sinto a necessidade de aprofundar esse tema, pois é uma das narrativas mais belas e, ao mesmo tempo, mais mal retratadas de toda a tradição. A realidade aqui é infinitamente mais rica do que a versão distorcida. A Escritura apresenta, de fato, uma impressionante figura feminina e divina, que não está oculta em rituais secretos: ela está exposta, cantada, no coração da Bíblia, nos livros de sabedoria. Nos Provérbios, no capítulo oito, a Sabedoria se apresenta em primeira pessoa e afirma verdades que somente Deus poderia expor: o Senhor me possuía desde o início de seus caminhos, antes de suas obras mais antigas; desde a eternidade fui criada, antes da existência da terra; quando Ele firmava os céus, eu já estava ali; eu era sua companheira como uma artífice, e todos os dias eu era suas delícias, brincando diante d'Ele a todo momento. Parei para contemplar essa imagem, pois é uma das mais belas da Bíblia: a Sabedoria representada como uma criança que brinca na presença de Deus, na alvorada da criação, as alegrias do Criador, por quem e com quem tudo foi criado. E no Ecclesiástico, no Livro da Sabedoria, ela ressurge, toda iluminada, reflexo da luz eterna, espelho puro, mais linda que o sol, que se estende de uma extremidade à outra do mundo e governa tudo com suavidade.

E agora preste atenção, pois a chave se encontra em uma passagem do Eclesiástico, capítulo vinte e quatro, onde a Sabedoria, em busca de um lugar para fixar residência entre os homens, declara: então o Criador de todas as coisas me deu uma ordem, e aquele que me criou fez a minha tenda repousar, e me disse: habita em Jacó, arma a tua tenda em Israel. A Sabedoria monta sua tenda no meio do povo. Guarde esse verbo, armar a tenda, pois quando São João vai redigir o seu Evangelho e precisa relatar o que ocorreu quando o Verbo se fez carne, ele utiliza, em grego, exatamente essa expressão: o Verbo se fez carne e armou a sua tenda entre nós. João está proclamando, de maneira clara, para quem está disposto a ouvir: aquela Sabedoria dos Provérbios, a mulher divina que se divertia na presença de Deus durante a criação e que buscava um espaço entre os homens, finalmente encontrou o seu lar — e esse lar é a carne de Jesus. A Sabedoria de Deus, essa Sofia que eles buscam ao reinterpretar o Novo Testamento, não é nada além do Verbo, Cristo, a Sabedoria que se tornou carne e estabeleceu sua morada entre nós. Eles buscavam, através de rituais e lamentações, a mulher divina que se havia perdido — e ela se encontra no cerne do Evangelho que queriam desmantelar, cantada há três mil anos, brincando diante de Deus e erguendo a tenda na carne de uma mulher de Nazaré.

Porque este é o último fio, e ele encerra com chave de ouro a questão da mulher divina: se a Sabedoria incriada é o Verbo, o reflexo criado dessa Sabedoria, a criatura em quem ela se fez presente, a mulher de carne que a trouxe ao mundo, é Maria. Assim, a Igreja realiza uma ação que, à primeira vista, parece audaciosa, mas que internamente é uma verdadeira precisão teológica: ela utiliza os textos da Sabedoria divina contidos nos Provérbios — eu estava com Ele desde o princípio, antes das colinas eu fui gerada — e os entoa na liturgia, direcionados a Nossa Senhora. Não é que Maria seja a Sabedoria eterna, pois ela é uma criatura; mas sim porque ela é a Sedes Sapientiae, o Trono da Sabedoria, aquela em cujo colo a Sabedoria encarnada se acomodou, aquela que deu à Sabedoria eterna sua morada em forma de carne. A mulher sagrada que o oculto busca trazer de volta à vida já governa, adornada com doze estrelas, com a lua sob os pés, no capítulo doze do Apocalipse — e não necessitou de nenhuma matriz derretida para isso; precisou apenas de um sim, de um faça-se em mim, de uma mão estendida. A Igreja como um todo, que é considerada feminina, é Esposa e Mãe, representa a extensão dessa feminilidade divina na Terra: é ela que dá à luz os filhos de Deus nas águas do batismo, é ela que acolhe, nutre, se entristece por seus filhos e aguarda o Esposo. O gênio feminino não foi eliminado pela crença e enterrado em um relatório incompleto; ao contrário, foi coroado Rainha do Céu e se espalhou por toda a terra como Mãe. Quem busca a Deusa derretendo a Noiva está, na verdade, a um passo dela, mas cavando na direção errada.

Certamente. Desmantelamos o processo contra Deus; agora precisamos solucionar a questão que esse processo ocultava, uma questão que é a mais fascinante de toda a série, pois depende saber se a doutrina dos santos do sonhar é uma bela poesia ou uma dura verdade: afinal, qual é o grau de realidade das criaturas do imaginário? O Super-Homem realmente existe? O Gandalf realmente existe? O herói que te fez chorar aos doze anos é realmente algo especial, ou não passa de uma ilusão colorida que alguém conseguiu vender para você? O sincromístico, pensando aqui como um psicólogo junguiano, oferece uma resposta cautelosa, e considero que ela está quase totalmente correta, portanto, vou acompanhá-la de perto antes de tomar o passo que ele não tomou. Ele afirma que a ficção não é simplesmente uma fantasia sem consequências. Ela é o lar onde os arquétipos do inconsciente coletivo se revelam, podendo ser profunda e impactante por milênios — a Epopeia de Gilgamésh tem três mil anos e ainda provoca reflexões na humanidade. A ficção exerce uma forte influência sobre a imaginação, e isso representa um poder extraordinário. Aquele que possui uma compreensão profunda da psicologia nunca aborda as grandes narrativas como meramente entretenimento, mesmo que nós possamos também apreciá-las dessa forma.

Ele estabelece uma distinção precisa, que eu gostaria que você lembrasse, pois é essencial e genuína: a diferença entre o arquétipo e a imagem arquetípica. Segundo Jung, o arquétipo, em sua essência, é sem forma e irrepresentável, configurando um padrão puro de potência que ultrapassa a esfera pessoal, sendo comum a toda a humanidade. Por outro lado, a imagem arquetípica corresponde à manifestação concreta, cultural e relativa desse padrão em um determinado momento histórico. O arquétipo do herói salvador, por exemplo, é único, mas se manifesta de diferentes maneiras: como Gilgamésh na Babilônia, Hércules na Grécia e Super-Homem em Nova York. Então, o sincromístico, ao chegar no momento decisivo, se questiona: será que esses mundos e personagens realmente existem, lá fora, de maneira independente de nós? E responda, com uma sinceridade que eu admiro: não exatamente. Eles possuem uma realidade psíquica, arquetípica e imaginal — o que já é bastante —, mas, para ele, não têm existência autônoma nem agência própria se não forem sustentados pela atenção humana. Caso toda a humanidade desaparecesse da face da Terra, afirma ele, os mundos fictícios deixariam de existir junto conosco; apenas o arquétipo sem forma persistiria, o projetor, que buscaria outra forma de se manifestar. As imagens — os personagens em questão — cessariam de existir junto com aqueles que os sonharam.

Agora preste bem atenção, pois é aqui que eu, enquanto católico, me desvio intencionalmente do caminho dele, e faço isso com propósito e com satisfação. O sincromístico está correto em todos os aspectos, exceto na questão do ponto de apoio. Ele compreendeu que os mundos da imaginação são mais reais do que o materialismo afirma; percebeu que existe neles um projetor que não perece; entendeu que as imagens, por si mesmas, não se mantém sem uma mente que as considere. Ele apenas não conseguiu responder à questão crucial: e quando toda a humanidade perecer, em que mente permanecerão os sonhos? A resposta dele — morrem conosco, fica apenas o arquétipo flutuante — é dolorosa e insuficiente, pois transforma o bom sonho em uma bolha de sabão que a extinção da espécie estoura. A resposta da tradição católica é indiscutivelmente mais sólida, e sua origem se encontra em dois grandes pensadores. Inicialmente, conforme Santo Tomás de Aquino e sua doutrina das ideias divinas: tudo que pode existir já existe, de forma eterna, como uma ideia na mente de Deus; antes que qualquer coisa seja concretizada, ela já é concebida, com perfeição infinita, no Verbo, através do qual todas as coisas foram criadas. E, conforme Leibniz — que o próprio sincromístico, por sinal, mencionou ao abordar a unidade na multiplicidade —, no que diz respeito à doutrina dos mundos possíveis: na compreensão divina existe, de maneira atual e eterna, a infinidade de todos os mundos que poderiam existir, todos concebidos de uma só vez por Deus, dos quais Ele, de forma livre, traz um à existência.

Perceba a solidez que isso proporciona àquilo que, no sincromístico, era como areia movediça. Para onde vão os mundos da imaginação quando não há humanos a sonhá-los? Na mente de Deus, onde eles já existiam antes que o primeiro ser humano sonhasse, e onde permanecerão mesmo após o último fechar os olhos. O projetor que nunca cessa, que o junguiano percebeu por trás das imagens, não é um arquétipo impessoal vagando no vazio; é o pensamento vibrante de um Deus pessoal, o Verbo no qual habitam eternamente as ideias de todas as coisas. Eis aqui, finalmente, a base da proposta deste livro, a pedra fundamental sobre a qual poderei edificar com segurança: ao afirmar que os seres benevolentes do imaginário — os heróis virtuosos, as criaturas de luz — já estão completos e prontos na mente de Deus, não estou apenas fazendo poesia. Estou me referindo à teologia tomista de forma bem clara. A concepção de uma coragem que atua, a noção de uma força que resguarda os mais frágeis, a ideia de uma lealdade que não trai nem sob pressão, a perspectiva de uma beleza que redime — todas essas noções, que os artistas adornaram de capa e máscara e denominaram super-heróis, são verdadeiras, profundamente reais, não porque nós as concebemos, mas porque Deus as ama desde antes dos tempos, e o que Deus ama não é ilusão: é a realidade mais firme que existe, mais dura que o granito, pois o granito um dia se transforma em pó, enquanto o pensamento de Deus é eterno.

E eu te digo, de forma bem clara, qual é a minha opinião, que venho defendendo na teologia do imaginário e que é a essência desta série: concordo, e bastante, com o sincromístico, mas muita coisa que ele afirma é uma viagem dele, e a diferença não está na informação, mas sim na fé. Vou apresentar o exemplo que costumo mencionar, pois ele resume tudo. Os sincromísticos, em sua essência, mencionam robôs celestiais, máquinas provenientes das estrelas e inteligências não humanas que chegam do hiperespaço. E eu afirmo: tranquilidade. Robô celestial é algo esquisito demais para a minha crença; isso já é uma invenção absurda. No entanto, a intuição que está por trás de toda essa complexidade é absolutamente correta — pois o que eles denominam de robôs provenientes de outra dimensão, inteligentes que nos visitam de um nível superior, eu interpreto como anjos. É apenas isso. O que eles tocaram é algo verdadeiro, é genuinamente real, e isso está evidenciado na fé católica, além de estar descrito precisamente dessa forma no livro do Apocalipse: seres luminosos e de olhos, inteligências que descem do céu, forças que servem ao Trono. Eles descobriram a existência, mas se confundiram com o nome. Chamaram de extraterrestre o que na verdade era um anjo; rotularam de robô o que era um serafim; denominaram hiperespaço aquilo que era o céu. Minha perspectiva sobre o sincromisticismo é inteiramente católica, e por essa razão, não é necessário descartar praticamente nada do que eles apresentaram — basta apenas restituir a cada elemento o seu nome original de batismo.

Na perspectiva da teologia do imaginário, eu defendo que o reino psíquico, o espaço onde os sonhos se manifestam, não é uma bolha isolada dentro da sua cabeça; trata-se de um domínio metafísico real, que a tradição cabalística cristã denominou de Yesod, o Fundamento, o universo das formas e das imagens, repleto de uma infinidade de mundos possíveis — e, em última análise, esse reino representa o próprio sonho de Deus sobre o macrocosmo. Perceba que estou afirmando algo muito mais intenso do que o que um junguiano se atreve a declarar: os universos do imaginário possuem uma realidade que transcende o psiquismo humano, pois não dependem da minha mente para existir, mas sim da Mente que concebe todas as mentes. Ao sonhar com um herói bondoso, não estou criando algo do zero; com minha mente limitada e imperfeita, estou sintonizando um sinal de uma emissora elevada e pura, capturando um esboço nebuloso de uma ideia que brilha como perfeita e eterna na mente do Criador. A minha imaginação é acolhimento antes de ser criação. E é por isso que os sonhos bons têm aquele sabor de realidade que a falsidade nunca consegue reproduzir: porque eles são, ainda que de maneira distante e com interferências, genuínos.

E agora chegamos ao ponto que conclui a ontologia e que me permitirá finalizar o livro: o que acontece com esses mundos e esses seres que habitam o seu imaginário quando você falece? O adepto da psicologia junguiana não conseguiu responder e palpitou que os que falecem são aqueles que estão conosco. Eu me coloco em compromisso com a fé, e a resposta é de arrepiar. Quando você morre, você se encontra com Deus, e nesse encontro todo o seu imaginário é submetido ao fogo — pois Deus é um fogo que não queima o ouro, mas consome apenas a palha. Tudo o que você imaginou que estivesse alinhado a Ele, tudo que era genuíno, bom e iluminador nos seus heróis e em seus mundos, tudo isso é purificado, libertado das mentiras que seu cérebro adoecido e o comércio do mundo haviam colado sobre ele, e é conduzido para a verdade eterna. E tudo o que era falso, tortuoso, cheio de idolatria e veneno em seus sonhos, isso se dissipa, não consegue atravessar a porta, fica do lado de fora como resíduo. Você encontrará o Deus verdadeiro, e diante d'Ele os seus sonhos se tornarão faíscas da luz d'Ele, vivendo para sempre, ou se mostrarão como fogo-fátuo, e então se extinguirão. Os sonhos que você guardou dentro de si a vida inteira não desaparecem com a sua partida, se forem divinos: eles te acompanham até a Jerusalém celestial, purificados, e lá você se surpreende ao perceber, com os olhos arregalados, que aquilo que achava ter criado era, na verdade, uma recordação do céu de onde você originou e para onde, enfim, está retornando.

Entretanto, essa discussão acerca do estatuto da ficção se reverte e nos confronta com uma indagação que nos deixa paralisados: e se nós formos a própria ficção? E se, ao invés de sermos apenas os leitores da história, nós fôssemos os próprios personagens dela? Havia um homem peculiar e com um senso de humor curioso, que muitos afirmam se assemelhar a Teddy Roosevelt, chamado Charles Fort — o guardião das anomalias, dos fenômenos que a ciência tenta esconder — e ele lançou um romance e quatro obras extremamente inusitadas justamente por rejeitar a separação entre ficção e não ficção. Fort considerava a imaginação extremamente poderosa e, segundo suas palavras, potencialmente perversa, ao ponto de sugerir, mais de uma vez, que estamos todos vivendo na narrativa de alguém — e, em tom de humor negro que causa arrepios, não se trata de uma história particularmente boa. Jeffrey Kripal menciona isso em seu livro "Mutantes e Místicos", e realmente é uma das intuições mais impressionantes que um ser humano já experimentou: a ideia de que este mundo não é uma simples realidade crua e neutra, mas sim uma trama; de que por trás da realidade existe uma narrativa, e possivelmente um narrador; e que algo, nessa narrativa, está distorcido.

E essa mesma desconfiança ressurgiu, à nossa maneira, na cultura pop, nas teorias de fãs que circulam pela internet — como, por exemplo, a ideia de que o John Wick ocorre dentro do universo de Matrix, já que em ambos os protagonistas tentam escapar de um sistema que controla tudo, porque existem moedas de ouro e checkpoints como em um videogame, porque os transeuntes não saem correndo durante os tiroteios como se eles não fossem realmente perigosos, porque, afinal, talvez o mundo seja, de fato, uma simulação. Você pode rir da teoria, ela parece um tanto ingênua; mas observe a fome que se esconde por trás dela, a mesma que Charles Fort tinha, a mesma que Philip Dick sentia: a intuição de que o mundo em que despertamos a cada dia é um sistema que nos envolve e nos aprisiona, uma trama construída da qual o herói precisa se libertar, uma simulação cujo código alguém criou e cujas regras, talvez, alguém possa hackear. É a sensação, ampla e real, de que somos personagens, e não autores; de que fomos criados, e não nos criamos; de que existe uma Mão que segura a caneta da nossa vida, e de que o mundo, como está, apresenta algo de errado, de quebrado, de aprisionador.

E a fé católica, preste atenção, não nega nada disso — ela acolhe tudo e apenas purifica o veneno. Certamente, somos protagonistas de uma narrativa que não criamos; de fato, existe um Narrador por trás de tudo; nossa existência é algo que nos é dado, e não que criamos por nós mesmos; é verdade que há algo desgastado neste mundo, uma verdadeira prisão da qual precisamos nos libertar. Despertar para essa realidade é o que Kripal, ao tomar emprestada a linguagem da crença, denomina de realização, e o que a Bíblia se refere, com um termo mais antigo, como temor do Senhor, a base da sabedoria: a admiração respeitosa ao perceber que eu não sou a fonte de mim mesmo, que existe Alguém me moldando. Até esse ponto, Fort e Dick, junto com os teóricos de Matrix, se encontram na antessala da transformação. O que eles falharam — e sempre cometem o mesmo engano, a mesma única letra — foi a essência do Autor e a natureza da escapada. Fort afirmou que a narrativa em que habitamos não é uma narrativa especialmente positiva, e, nesse ponto, ele misturou o enredo com o Autor: a história realmente está prejudicada, mas não por conta de um Autor mal-intencionado — e sim porque os personagens, logo no primeiro capítulo, tentaram tirar a caneta d'Ele, resultando em uma tinta borrada. O mundo é uma narrativa fascinante elaborada por um Autor bondoso, mas marcada pela revolta dos personagens. A libertação dessa prisão, dessa simulação, desse sistema que engloba tudo, não se trata de um hack que possamos realizar de dentro, apenas utilizando fé e técnica — isso é a antiga ateísmo, e o terceiro livro já desmantelou isso por completo. A abertura foi realizada pelo próprio Autor, que fez algo que Fort nunca teria imaginado que um autor pudesse fazer, e que é precisamente o tema para o qual tudo isso está se direcionando: Ele adentrou a própria história.

E eu desejo explorar mais profundamente a doutrina das ideias divinas, pois ela é a base sólida de toda a tese dos santos do sonho. A maior parte das pessoas nunca teve conhecimento sobre isso, e deveria, pois é uma das coisas mais reconfortantes que a inteligência humana já concebeu. Santo Tomás questiona: de que maneira Deus tem conhecimento das coisas que Ele poderia criar, incluindo aquelas que jamais serão criadas? E responde com uma suavidade que toca profundamente: Deus tem conhecimento de todas as coisas possíveis ao conhecer a si mesmo — reconhecendo a própria essência infinita que é passível de ser imitada de inúmeras formas distintas, por fora. Cada ser possível é uma forma finita pela qual a infinita riqueza de Deus pode ser refletida, reproduzida e compartilhada. Um leão representa uma forma de replicar a força de Deus; um rouxinol, uma maneira de imitar a sua doçura; e um herói que se sacrifica, um modo de reproduzir o amor d'Ele. Todos esses modos — sejam eles os que se realizam ou os que apenas podem ser — habitam eternamente na mente de Deus na forma de ideias, como modelos, não como meras fantasias, mas como arquétipos reais e perfeitos de tudo que é possível. São Boaventura denominou isso de exemplarismo, afirmando que as criaturas se relacionam a esses modelos eternos como vestígios, sombras e imagens: o universo todo é uma catedral de ecos de ideias que ardem no Verbo. Quando o sincromístico menciona arquétipos transpessoais que se revestem de imagens culturais, ele está explorando, de olhos fechados, o espaço sagrado da teologia: os arquétipos são concretos porque representam ideias divinas, e as imagens são a forma como nossa cultura, do seu espaço e do seu tempo, consegue expressar um fragmento de uma delas.

E isso confere à coragem, à lealdade e à beleza heroica um status que o materialismo jamais conseguiria oferecer. Para o materialista, o herói é uma configuração de neurônios ativados em reação a uma sequência de imagens; a grandeza que você experimenta é resultante de reações químicas, uma ilusão benéfica que a evolução implantou em você para promover a cooperação dentro do grupo. É algo lamentável e também algo enganoso. Para o cristão, a coragem que é verdadeira existe realmente, eternamente, de maneira perfeita, na mente de Deus, antes de qualquer herói ter encarnado e após todos eles terem morrido; o que o artista faz ao desenhar um herói corajoso é captar um eco dessa ideia eterna e vesti-la com uma capa; e o arrepio que você sente não é apenas uma reação química, mas sim o reconhecimento, por sua alma criada à imagem de Deus, de um parente que reside na casa do Pai. Por essa razão, os sonhos bons nunca perdem a sua validade. Gilgámesh é uma narrativa que remonta a quatro, cinco mil anos — sendo a mais antiga que a humanidade preservou — e ainda provoca emoções intensas, pois aborda a amizade, a morte e a ânsia desesperadora de imortalidade; o rei Gilgámesh viaja pelo mundo em busca da planta da vida eterna, mas a perde para uma serpente, retornando de mãos vazias, e a história conclui em lamento. Cinco mil anos se passaram, e ainda permanece viva, pois captura uma ideia atemporal — o desejo humano de superar a morte. Trata-se do rascunho mais antigo que a humanidade possui. E o que causa espanto é que o esboço de Gilgámesh, que culmina em fracasso, com a serpente roubando a planta da vida, resulta em uma obra finalizada em um jardim onde, desta vez, não foi a serpente quem levou a vida, mas sim a Vida que derrotou a serpente. O Rei que cruzou o mundo em busca da planta da imortalidade não voltou, desta vez, de mãos vazias, mas sim com as mãos furadas, porém repletas.

Portanto, quando o junguiano sincero chega à conclusão de que, se a humanidade desaparecesse, as imagens arquetípicas se extinguiriam com ela, restando apenas o arquétipo sem forma à procura de um novo veículo, eu complemento sua afirmação com a esperança que falta: as imagens que os seres humanos criaram podem de fato se apagar junto com eles — mas aquilo que elas representaram, a ideia eterna que elas revestiram de forma, essa nunca desaparece, pois reside na mente de Deus, de onde se originou. Além disso, nada do que realmente possui valor se perde, pois tudo que foi bom e belo na cultura humana, cada pedaço de luz que um artista tirou do céu e trouxe ao mundo, será recolhido, purificado e glorificado na consumação, quando Deus recriar todas as coisas. A Jerusalém celestial, conforme revela o Apocalipse, acolhe em seu seio a glória e a honra das nações — isto é, o que há de melhor em cada cultura, em cada povo, em cada verdadeiro sonho humano é recebido, purificado, na cidade de Deus. Os santos do sonho que a humanidade idealizou não se dissiparão com a humanidade; aqueles que são de Deus entrarão na cidade, coroados, finalmente reconhecidos como o que sempre foram: memórias, trazidas de longe, de uma pátria que iremos, enfim, rever.

Mas por que, afinal, esse material tão sagrado foi parar na ficção de baixo nível, nos quadrinhos e nos filmes de entretenimento? Por que será que o herói, o anjo, o mito e o monstro divino encontraram abrigo na cultura pop, ao invés de habitarem as igrejas e os templos como faziam no passado? A análise histórica do sincromístico, que apresento aqui, é uma obra com a qual concordo plenamente, pois é clara e possui um caráter trágico. Ele afirma: ocorreu uma queda do polo. Quando a religião foi afastada do núcleo da vida, aproximadamente na modernidade, surgiu um vazio, uma falta de direção, um abismo no cerne da alma coletiva. E ele identifica o crime com a precisão de um cirurgião: foi durante o Iluminismo que o Ocidente cortou duas das quatro causas de Aristóteles. Aristóteles sustentava que, para compreender qualquer coisa, é necessário considerar quatro causas: a causa material, que se refere do que a coisa é feita; a causa eficiente, que diz respeito a quem a produziu; a causa formal, que aborda a essência da coisa; e a causa final, que revela para que ela existe, ou seja, seu propósito e seu objetivo. O Iluminismo, tomado pela racionalidade e pela precisão, descartou as duas causas superiores, a formal e a final, mantendo apenas as causas inferiores, que são a matéria e o mecanismo. Em outras palavras: a abordagem moderna estabeleceu que somente é relevante questionar sobre a matéria-prima e o funcionamento das coisas, enquanto se tornou proibido indagar sobre a essência delas e para que elas são utilizadas. Destruiu a essência e aniquilou o propósito. Formou-se um universo repleto de mera quantidade, desprovido de qualidade, sem essência e sem rumo — um mundo de poeira que se desloca, mas ignora a razão de seu movimento.

O sincromístico percebe, de maneira acertada, que o sagrado que foi banido pela porta da frente entrou pela janela dos fundos: os conteúdos arquetípicos, religiosos e sagrados, que não encontravam mais espaço no mundo monótono da ciência iluminista, passaram a se instalar cada vez mais na ficção fantástica e na cultura pop. O herói que a missa já não reverenciava, o monstro que o catecismo já não designava, o sobrenatural que o cientificismo excluiu — tudo isso se refugiou no cinema e nos quadrinhos, como exilados do sagrado em um mundo que fechou os templos. Ele está absolutamente correto, e essa é, na essência, a principal ideia dos três primeiros livros. Contudo, ele faz uma proposição que preciso bloquear, com rigor e certo pesar, pois é uma proposta que leva ao precipício: sugere que práticas como a magia do caos podem concretizar, para atividades práticas e imersões, esses mundos da ficção — e menciona o trabalho de ocultistas como Kenneth Grant e Michael Bertiaux, que exploraram as histórias de Lovecraft, convertendo as criaturas imaginárias de um autor em entidades a serem invocadas. Aqui eu encerro tudo e levanto a mão: não.

Porque uma coisa é compreender que o sagrado encontrou abrigo na ficção; outra, bem distinta e bastante arriscada, é tentar realizar magia com esse material, invocar como real aquilo que foi imaginado, abrir, por meio de técnicas e rituais, portas para o que você não controla nem compreende. Não vou compartilhar com ninguém um guia detalhado sobre essas questões, e não é por medo de uma velha religiosa — é porque considero o mundo invisível de forma tão séria que não quero tratá-lo levianamente. Aquele que transforma a ficção em magia comete o mesmo engano que temos desmantelado: o truque, a rejeição da fé, a tentativa de extrair à força, por meio de técnica, um poder que só é concedido como um dom. Há uma armadilha adicional, específica e severa: quando você convoca como uma divindade um monstro criado pela imaginação humana — um Cthulhu, uma entidade de terror cósmico —, na melhor das hipóteses, você não está invocando nada, e na pior, está abrindo as portas para que algo que realmente existe e não é bom assuma a forma da fantasia que você apresentou. A fé é nítida e age como uma mãe guardiã à porta durante a noite: existem entidades no invisível, de fato, mas lidar com elas não é algo trivial, é uma luta, e quem adentra esse combate sem as defesas de Deus entra desprotegido em uma batalha de grandes proporções. O conteúdo sagrado da ficção deve ser apreciado com respeito e analisado com sabedoria — e não apenas utilizado de forma técnica. A distinção entre observar o sagrado e controlar o sagrado é a mesma que existe entre a oração e a feitiçaria, representando a eterna fronteira entre a mão aberta e o punho cerrado.

E neste ponto, preciso te apresentar um personagem que é o anti-santo do sonhar, o oposto exato de tudo o que este livro defende. A internet, com aquela crueldade engenhosa que às vezes possui, lhe deu um nome ideal: o consumidor. O consumidor é aquela pessoa que desfruta de entretenimento como um glutão devora comida — de maneira indiscriminada, sem saborear, sem diferenciar, sem se preocupar se tem qualidade ou se é lixo, apenas pelo prazer de preencher o vazio com o maior número de streams que o dinheiro pode adquirir. Ele fica arrepiado com o teaser, corre até a bilheteria da milésima refação, engole tudo, sem conseguir digerir nada, e retorna para a fila com fome novamente, pois o que ele ingeriu não satisfaz. O consumidor é o indivíduo que tem acesso a todos os anseios da cultura, mas não se transforma em nada, pois não absorve os sonhos; ele se submerge neles. Ele não permite que a história atue internamente, mas a utiliza como uma forma de anestesia para não sentir o vazio existencial. E aqui está o contraste que organiza todo o livro: o consumidor e o santo do sonhar observam as mesmas telas, talvez amem os mesmos heróis — mas um devora e o outro contempla; um sacia a fome e o outro nutre a alma; um consome o sonho e permanece vazio, enquanto o outro absorve o sonho e é transformado por ele. A mesma narrativa que para o consumidor é um ópio, para o sonhador é um sacramento menor, uma janela, uma recordação da terra natal. Não é a narrativa que se transforma; é a maneira de se alimentar. Um come de forma voraz, como um porco no cocho; o outro, com a seriedade de quem participa de uma comunhão.

E, aproveitando que estamos discutindo sobre a percepção do sagrado ao invés de tentar controlá-lo, permitam-me mencionar um homem que expressou uma ideia brilhante a respeito, o doutor José Ângelo Gaiarsa. Ele foi um médico e pensador brasileiro, uma figura que transita entre o herético e o profético, e que deixou escrito reflexões que esclarecem por que o sagrado se escondeu nos quadrinhos, em vez de estar presente nos tratados. Ele afirma que as pessoas desaprenderam a enxergar na mesma proporção em que aprenderam a se expressar; e, para piorar, começaram a habitar mais os livros do que a realidade; então surgiu Gutenberg, dando início à invasão da escrita, sobre a qual McLuhan fez comentários tão positivos e negativos, e essa escrita pulverizou o ser humano, que passou a existir como um mero enunciado. O mundo se limitou ao dicionário; o conhecimento se misturou com a habilidade de se expressar; a justiça se mesclou com a legislação; a capacidade de fazer se confundiu com encontrar a fórmula. E, com base nisso, Gaiarsa finaliza com uma provocação intrigante: a chamada regressão das pessoas de todas as idades que optam por ler quadrinhos em vez de livros é, na realidade, uma resposta extremamente saudável, um autêntico retorno à essência da realidade. E ele afirma ainda: os quadrinhos realmente nos ensinam mais sobre moralidade do que a religião e as leis são capazes; e recorda que a arte sequencial sempre esteve presente, ao longo da história, em contextos espirituais — os hieróglifos no Egito, os emakimono no Japão, os frisos das igrejas medievais, os códices da América Central.

Admiro essa provocação e pretendo valorizar quase todos os aspectos dela, até mesmo a crítica que faz à religião, pois essa crítica é justificada, assim como Jesus fez uma semelhante. Gaiarsa está correto: há uma enfermidade da letra, uma crença que se transformou em burocracia, que substitui o Deus vivo pela forma adequada, que memorizam o versículo e não percebem o necessitado à porta — e contra essa religião vazia, o próprio Cristo bradou, referindo-se aos doutores da lei como sepulcros caiados, pois conheciam cada vírgula da Lei, mas não reconheceram o Autor dela bem à sua frente. A letra mata, o Espírito dá vida, escreveu São Paulo, e essa é a condenação para toda fé que se tornou apenas palavras. Gaiarsa ressalta, com razão, que as igrejas que apenas se baseiam na letra da Bíblia não conseguem alcançar um consenso entre si, e que a mesma Escritura é utilizada para justificar ideias opostas — e isso é doloroso porque é uma realidade, refletindo o drama de uma fé limitando-se a um livro sem o Corpo vivo que a interpreta. Mas observe onde a flecha dele, bem direcionada contra a letra fria, falha o alvo celeste: o antídoto para a letra que causa a morte não é a ilustração que entretém, é a Palavra que se fez carne. Pois o Verbo, a Palavra eterna, não se restringiu à letra: tornou-se carne e habitou entre nós, e — ouça João, que une em um só versículo tudo o que Gaiarsa dividiu — e nós contemplamos a sua glória. Observamos. O Verbo, a Palavra, tornou-se perceptível, observável, acolhível. No cristianismo, a palavra e a visão não se opõem: elas se encontram na manjedoura, onde a Palavra que criou o mundo se tornou um bebê que sua mãe pôde contemplar.

E Gaiarsa oferece, sem perceber, a chave para a contemplação cristã ao afirmar que a visão é simultânea e instantânea, enquanto a palavra é sucessiva; que a visão é mais esclarecedora do que a audição; que chamamos de homem de visão aquele que é inteligente; e que tanto teoria quanto intuição, etimologicamente, se referem a ver. De fato, é exatamente isso que a tradição cristã sempre ensinou, e que o Ocidente barulhento esqueceu: que o objetivo do homem não é simplesmente debater sobre Deus, mas sim contemplar Deus. A teoria dos gregos, que se transforma na contemplação dos santos, é exatamente isso: um olhar, não um discurso. A verdadeira bem-aventurança que Cristo prometeu não foi direcionada àqueles que falam de forma eloquente ou que decoram discursos, mas sim àqueles que enxergam a realidade: bem-aventurados são os puros de coração, pois eles verão a Deus. A inteligência mais elevada não é aquela que debate, mas sim a que percebe — o nous dos Padres, o olhar da alma, a percepção direta da verdade. E é por isso que a Igreja, muito antes dos quadrinhos, já utilizava a imagem como forma de pregar: o vitral, o ícone, o friso, a Via-Sacra, a Bíblia dos pobres, que era desenhada nas paredes para que aqueles que não sabiam ler pudessem ver. A Igreja criou a arte sequencial sagrada antes de Gaiarsa reconhecer a importância dos quadrinhos — a Via-Sacra é uma história em quadrinhos de Deus, com catorze quadros onde não lemos, mas observamos o amor sendo torturado e triunfando. Gaiarsa está certo ao afirmar que a salvação está ligada a reaprender a enxergar. Ele apenas não percebeu que, no final, o que se pode enxergar é um Rosto.

E foi Tolkien, o antigo católico que já acolhemos no terceiro livro, quem atribuiu a essa ânsia por bons sonhos seu nome mais preciso e seu status mais honroso, em oposição ao consumista e ao invocador, os dois extremos doentes. Segundo Tolkien, o ser humano que inventa mundos de fantasia não está se esquivando da realidade nem se entretendo como um deus: ele está realizando aquilo para o qual foi criado, pois foi feito à imagem de um Criador e, portanto, é ele próprio um subcriador, uma luz refletida de uma única Luz branca. A fantasia não é uma mentira; é a maneira humana de expressar verdades que são grandes demais para uma fala direta, é o substituto terreno da criação divina. E a melhor narrativa, afirmava ele, culmina no que denomina como eucatástrofe — a boa catástrofe, a reviravolta inesperada e imerecida que nos conduz à alegria no instante do desespero, aquele suspiro de felicidade que nos envolve quando tudo parecia perdido e, de repente, não está mais. A tese final de Tolkien, que ele compartilhou com o amigo Lewis em uma noite que transformou o mundo, é a afirmação que nos conduzirá ao âmago deste livro: os mitos não são falsidades. São verdades percebidas de forma rápida, esboços soprados por Deus no íntimo das nações. E o Evangelho é o mito que se concretizou. Trata-se da narrativa de um deus que morre e retorna à vida — uma história presente em diversas mitologias — mas com a incrível particularidade de que esta, de forma singular, ocorreu fora das páginas, concretamente, sob o governo de Pôncio Pilatos, em um local que você pode visitar. Assim, quando o pós-moderno afirma, com um tom de quem revela a verdade, que as religiões são meras ficções muito elaboradas que nós estabelecemos como dogmas — e eu, como o sincromístico, não discordo totalmente dessa afirmação —, a resposta não consiste em negar; mas sim em complementar. Certamente: os mitos representam sonhos, e os bons deles são sonhos que refletem a verdade. Entretanto, o mito representa o esboço, enquanto a Revelação é a criação final. Todas as religiões representam o anseio do homem por Deus; o cristianismo é esse momento em que Deus despertou na história, em forma humana, com nome, data e um túmulo vazio. Os demais são o esboço bonito; este é a tinta que se transformou em sangue.

E eu gostaria de compartilhar com você a noite em que essa verdade se manifestou na vida de um homem, pois é a melhor ilustração do que significa afirmar que o mito é o esboço e a Revelação é a obra final. Era um professor em Oxford, ateu e erudito, que tinha uma grande paixão por mitologia. Ele adorava os antigos mitos nórdicos e gregos sobre deuses que morrem e ressuscitam, mas via o cristianismo apenas como mais um desses mitos, considerando-o, portanto, falso — uma "mentira prateada", como costumava dizer. O nome dele era Clive Staples Lewis. Em uma noite de setembro de mil novecentos e trinta e um, ao passear pelos jardins da faculdade com dois amigos, entre eles o nosso querido Tolkien, que era católico, eles tiveram uma conversa que se estendeu até o amanhecer e que alterou o curso da história. Lewis afirmava que os mitos dos deuses que morrem e ressurgem — como Balder, Osíris, Adônis e Dioniso — são belos e emocionantes, mas, na verdade, são falsos, pois não ocorreram. E Tolkien lhe respondeu com a resposta para tudo: e se eles te tocam porque são rascunhos autênticos? E se Deus, o grandioso Autor, percorreu toda a história sussurrando nos corações dos povos, através de mitos e sonhos, o enredo essencial do universo — um deus que morre e ressuscita para salvar os seus —, preparando a humanidade, nação por nação, para reconhecer a verdade desse acontecimento quando ele realmente se concretizasse? Os mitos pagãos não são mentiras, afirmou Tolkien; são a verdade se manifestando em fragmentos, como uma luz refratada. O cristianismo representa um mito que se concretizou: é a mesma narrativa presente em diversos mitos sobre deuses que morrem e retornam, mas com a notável diferença de que, neste caso, ocorreu uma única vez, saindo da imaginação das pessoas para a realidade histórica, com uma data específica, um nome, testemunhas e um túmulo vazio. Lewis escutou, e o solo se partiu: o que ele apreciava nos mitos não era falsidade, era nostalgia; e a nostalgia havia, finalmente, chegado ao lar. Logo em seguida, ele se pôs de joelhos. O ateu que via o cristianismo como apenas mais um mito se transformou no maior narrador de histórias cristãs do século, pois compreendeu que não precisaria optar entre amar os mitos e amar a Verdade: a Verdade era o Mito que, por amor, se tornara realidade.

Isso resolve, de uma vez por todas, a provocação pós-moderna de que as religiões seriam apenas ficções muito boas que acabamos dogmatizando — a afirmação que mencionei, assim como o sincromístico, da qual não discordo totalmente. Pois a solução não é confrontar a frase, mas sim completá-la até que ela se submeta. Certamente: as religiões representam os anseios coletivos da humanidade em relação a Deus, e as mais enriquecedoras delas são visões autênticas, feixes da luz singular dispersos nas variadas tonalidades das culturas. O hindu teve um sonho sobre a descida do divino; o grego sonhou com o deus que vem aos homens disfarçado; o egípcio sonhou com o rei que triunfa sobre a morte; o nórdico sonhou com o deus que se pendurou na árvore para adquirir sabedoria. Rascunhos, todos eles, são belos e representam a verdade do que registraram. Rascunho é rascunho exatamente porque ainda não representa a obra final: é uma tentativa, um esboço, é a busca do artista, que, na penumbra, procura a forma que ainda não conseguiu perceber por completo. E a criação, a pintura final que todos os rascunhos precederam, aconteceu apenas uma vez na história: quando o Deus que todos os povos imaginaram de longe desceu Ele mesmo, pessoalmente, e posou para o retrato, em carne e osso, sob Pôncio Pilatos. Os mitos representam os sonhos da humanidade em relação a Deus; o Evangelho é o momento em que a humanidade despertou e se deparou com Deus, que estava presente, de modo real, sentado na beira da cama e dizendo bom dia.

E é por isso que a restauração necessária no mundo não consiste em desvirtuar a fé para criar uma nova mitologia que nos agrade, mas em reencantar nosso olhar para que possamos perceber, na fé que já possuímos, a realidade mais ampla que o Iluminismo nos fez deixar de lado. Você se lembra das quatro causas de Aristóteles que a modernidade negligenciou, descartando a forma e a finalidade, e se restringindo apenas à matéria e ao mecanismo? Pois a fé é a cirurgia reparadora que une essas duas causas rompidas. Ela restitui ao mundo a causa formal — as coisas passam a ter essência, a ser o que realmente são por estarem ligadas a uma ideia eterna, e não apenas um aglomerado de átomos. E traz de volta a causa final — as coisas passam a ter um porquê, um propósito, uma direção, um destino em Deus, e o universo deixa de ser apenas uma poeira a se mover sem rumo e volta a ser uma narrativa que caminha para algum lugar. E o local onde essas quatro causas se encontram reunidas, em sua totalidade, não é um tratado filosófico: é o altar. Na Eucaristia, o elemento — pão — é aceito; a causa eficiente — o sacerdote, representando o próprio Cristo — atua; a causa formal — a substância — é convertida no Corpo; e a causa final — a comunhão, a divinização do ser humano — se realiza. O Iluminismo retirou a essência do mundo, transformando-o em um simples mecanismo sem alma; o sacramento, por sua vez, repleta o mundo, dando a cada pedaço de pão, água, óleo e carne a dignidade de poder, novamente, ser uma palavra que Deus está pronunciando. O verdadeiro reencantamento do mundo não é algo que se adquire em uma livraria esotérica. Ele se apresenta, de joelhos, na fila da comunhão.

E agora iniciamos a subida da montanha, pois tudo o que espalhamos pelo caminho até este ponto começará a se unir. E "unir" é a expressão perfeita, você vai entender o motivo. Você se recorda que o sincromístico conectava sua intuição à cosmologia de um pré-socrático chamado Empédocles? Empédocles ensinava que o universo é movido por duas forças: a philia, que representa o amor, capaz de unir e aproximar, funcionando como uma força centrípeta que atrai tudo para o centro; e o neikos, que simboliza a discórdia e o ódio, a força que separa e dispersa. O cosmos pulsa entre esses opostos: ora tudo se une pelo amor, ora tudo se desintegra pelo ódio, em um ciclo que remete de maneira impressionante à física moderna do Big Bang, que explode, e do Big Crunch, que colapsa de volta. Há um ponto na filosofia dele que o sincromístico destacou e que é de deixar qualquer um com medo: Empédocles afirmava que nos momentos cruciais do ciclo, tanto no início quanto no fim, quando as forças estão em sua máxima potência, o mundo se transforma em um lugar mágico, repleto de criaturas monstruosas e fantásticas. Conserve isso, pois se trata de uma profecia camuflada em física antiga: nos limites do tempo, o mundo se torna habitado por seres extraordinários.

E o sincromístico observa a nossa era — globalizada, conectada por satélites e internet e ondas eletromagnéticas, tudo convergindo, tudo se aproximando numa velocidade sem precedentes — e chega à conclusão, com uma lógica que considero realmente impressionante: estamos num período de força centrípeta máxima, de aproximação acelerada de tudo com tudo, ou seja, estamos em um desses extremos do ciclo mencionado por Empédocles, o extremo em que o mundo se repleta novamente de maravilhas e monstros. E ele estabelece, então, a conexão que me atrai profundamente, pois ele mesmo a criou: essa convergência centrípeta, essa concentração de todas as coisas em um único ponto, remete — e essas são suas palavras — ao Ponto Ômega do padre católico e filósofo Teilhard de Chardin. Teilhard, um jesuíta que também era paleontólogo, ensinou que todo o universo está em movimento, evoluindo não ao acaso, mas rumo a um ponto final de convergência, um ponto de máxima unidade e consciência, que ele identificou, sem hesitar, com Cristo — o Ponto Ômega, o ímã do fim dos tempos que atrai toda a criação para si. O sincromístico também se recorda de Frank Tipler, um físico que, a partir da matemática, chegou a um universo que converge para o que ele denominou de Ponto Ômega, o qual identificou com o próprio Cristo. Esse é um ponto final em que, segundo suas afirmações, tudo se tornará possível: os mortos ressuscitarão, nenhuma informação se perderá, e existirão seres fantásticos e imortais.

Pare e respire, pois você está testemunhando, diante de seus olhos, o milagre desta série: um caçador de sincronicidades, um físico e um padre jesuíta que chegam, por três trilhas diferentes, ao mesmo pico — um universo que se une, pelo amor, a um ponto final que é uma Pessoa, e que nesse ponto final a morte é superada, os que partiram retornam, e os seres fantásticos que apenas sonhamos passam a existir de verdade. Esta é a doutrina dos santos do sonhar, redigida em forma de cosmologia. Os seres bondosos do imaginário, que já habitam na mente de Deus, realmente irão existir plenamente, de forma encarnada, ao fim — não como um devaneio, mas como uma gloriosa realidade — quando a philia, o amor que é Deus, conduzir toda a criação para seu centro, que é Cristo. O que o sincromístico se refere como extremo centrípeto do ciclo, a fé denomina de consumação dos séculos; o que ele designa como Ponto Ômega, a fé considera como Cristo, tudo em todos; e as criaturas fantásticas que Empédocles previu para os limites do tempo são, como você vai perceber, os corpos gloriosos dos ressuscitados.

Certamente, onde existe uma verdade tão elevada, o inimigo cria uma falsificação à sua altura, e é fundamental que eu te apresente essa falsificação, pois ela representa a tentação final e a mais sofisticada de todas. Se o universo realmente se encaminha para um momento em que a ficção se torna realidade, ponderaram alguns, então por que aguardar por Deus? Por que não impulsionar a convergência, moldar a maravilha, inserir o sonho na realidade por meio de nossa própria técnica? Assim, surgiu o conceito de hiperstição, criado pelo filósofo Nick Land e desenvolvido pelo grupo cibernético do qual ele fazia parte, o CCRU: uma hiperstição é uma ficção que, ao ser disseminada como uma profecia, acaba se concretizando, uma crença que se transforma em realidade por ser suficientemente acreditada. É a invasão da realidade disfarçada de erudição. O filósofo Jason Reza Jorjani foi ao extremo apocalíptico ao propor sua ideia de uma revolução espectral, misturando inteligência artificial, a revelação dos fenômenos dos óvnis e a própria deflagração do apocalipse pelas mãos humanas — uma maravilha não concedida por Deus, mas conquistada através da tecnologia e da vontade. Preste atenção na diferença que permeia toda esta série: o Ponto Ômega da fé é atingido porque Deus, por amor, atrai a criação para Si e a glorifica; já a hiperstição tenta criar o ômega pela força, injetando crença até que a realidade se renda. Um é a união pelo amor que se recebe; o outro é a invasão, a negação da fé, a torre de Babel adornada com traços de futurismo. Os dois chegam a pontos diametralmente opostos: a convergência divina resulta no Reino, na ressurreição, na comunhão; enquanto a convergência forçada leva ao que o hack sempre produz — à tirania dos mais poderosos, a uma realidade desfeita, ao ser humano que tentou acelerar o paraíso e acabou apenas antecipando o inferno.

Vale a pena dedicar um tempo a Teilhard de Chardin, pois ele é o autor que mais se aproximou de expressar cientificamente aquilo que o sincromístico sente e que este livro revela, além do mais, até os equívocos dele trazem ensinamentos. Teilhard, ao observar a evolução sob a perspectiva de um paleontólogo e de um padre, reconheceu uma trajetória: a matéria se torna cada vez mais complexa, passando dos átomos para as moléculas, das moléculas para as células, das células para o cérebro, do cérebro para o pensamento — e, atualmente, dos pensamentos individuais a uma camada pensante que abrange todo o planeta, a qual ele denominou noosfera, a esfera da mente, uma rede de consciências interconectadas que se expande sobre a biosfera. E perceba que isto é, sem dúvida, o macrocérebro que o sincromístico vislumbrou, e é também, de forma quase impressionante, a internet, a rede global, a trama de mentes interligadas que a nossa era construiu em poucas décadas. Teilhard observou, ainda nas décadas de trinta e quarenta, que a humanidade estava se conectando em uma única rede de pensamento, e afirmou que essa convergência tinha uma direção: um Ponto final, o Ômega, para onde tudo isso se dirige, um centro de consciência e de amor máximos, que atrai toda a evolução para si como um ímã atrai os materiais ferrosos — e que esse Ômega é Cristo, já presente, já atraindo, lá do fim, a história para o seu coração.

Porém, a Igreja contemplou Teilhard com carinho e prudência, e essa prudência proporciona uma lição crucial para evitar a armadilha final. Porque existe uma maneira de narrar a história da convergência que ignora um detalhe pequeno chamado pecado, e uma colina conhecida como Calvário. Se você afirmar que a evolução, por si só, avança de forma suave e garantida em direção ao Ômega, que o progresso é algo automático e que a tecnologia e a rede nos conduzem, por si, ao ponto divino — então você sucumbiu a um otimismo que ignora que a história não se resume apenas a ascensão, mas também envolve quedas, traições e cruzes; que a mesma rede que tem o poder de unir também pode escravizar; que a mesma convergência que pode se manifestar como Pentecostes também pode se tornar Babel. O verdadeiro Ômega não é atingido pela trilha automática do avanço; ele possui um lado que deixa a desejar. A verdadeira convergência que traz salvação não é a tecnológica, mas sim a crística, e essa jornada crística necessariamente inclui a cruz — não há ressurreição que possa ignorar a sexta-feira santa, não há Ômega que evite o Gólgota. É por isso que a hiperstição, a revolução espectral e a fé inabalável na singularidade tecnológica são a completa falsificação da esperança de Teilhard: elas desejam o Ômega sem a cruz, a convergência sem a conversão, o paraíso por meio da máquina em vez de pela santidade. Desejam ascender a Betel pela escadaria de Babel. A distinção, uma vez mais e para sempre, é que o Ômega de Deus é acolhido de joelhos, em um ato de conversão; enquanto o ômega do hack é gerado de pé, à força — um leva ao Reino, o outro conduz ao abismo com luzes de néon.

Porque — e isso encerra a questão da convergência e te entrega a chave para o fim — o ponto para onde tudo converge não é um estado, é uma Pessoa, e não se trata de uma força impessoal de unificação, mas de um amor concreto que possui rosto, nome e cicatriz. Quando São Paulo se dirige aos Efésios afirmando que Deus pretende, na plenitude dos tempos, recapitular todas as coisas em Cristo, tanto as que estão nos céus quanto as que estão na terra, ele está expressando o conceito de Ponto Ômega mil e novecentos anos antes de Teilhard, mas com uma clareza que Teilhard, em algumas ocasiões, deixava a desejar: a convergência não se trata da diluição de tudo em uma sopa cósmica de consciência indistinta, onde as pessoas se esvanecem na grande unidade — isso representaria a morte do amor, pois o amor exige a presença de dois. A convergência cristã representa uma comunhão, e não uma fusão: ao final, cada ser não se dissolve no Todo, mas se reencontra, por fim completa, no acolhimento do Todo, sendo mais ela mesma do que nunca, assim como a gota que é abraçada pelo oceano sem se desintegrar. O Ponto Ômega não faz com que você desapareça no infinito; ele faz com que você brilhe no infinito. E é por isso que naquele lugar de encontro, habitam os santos dos sonhos em toda a sua esplendorosa individualidade, cada um com seu novo nome gravado na pedra branca que somente ele conhece — não uma luz anônima e indistinta, mas uma infinidade que não pode ser contada, cada rosto é único, cada um representa uma palavra insubstituível que Deus desejou expressar, todos se unindo em um mesmo abraço sem jamais perder, a própria identidade.

A mesma intuição da convergência surge, no sincromístico, em um local surpreendente e belo: na gravidade. Ele se questiona sobre o verdadeiro significado da força da gravidade e sobre a representação daquele símbolo ancestral que permeia quase todas as tradições — o ponto dentro do círculo, que é o sol na astrologia, o ouro na alquimia, a quinta essência que permeia tudo e, na psicologia de Jung, o self, o núcleo unificador da alma. E ele apresenta a explicação de Einstein, que é simplesmente impressionante: a gravidade, segundo Einstein, não é exatamente uma força, mas sim uma deformação. Visualize o espaço-tempo como um pano esticado, uma superfície lisa que forma tudo ao nosso redor; quando um corpo está presente, ele provoca uma depressão no pano, curvando a superfície e gerando um ponto para o qual tudo tende a deslizar. O que se apresenta como uma linha reta se transforma, próximo ao centro, em uma linha curva; e o objeto que atravessa é atraído para o fundo da curvatura. A gravidade é o que faz o universo dobrar-se em torno de um ponto central. O sincromístico interpreta esse ponto central como o local de onde tudo emana e para onde tudo se dirige: um ponto sem dimensões, um zero que, ainda assim, é o criador de tudo, o organizador de tudo, aquilo de onde os raios se originam para formar o círculo do universo e aquilo para onde os raios retornam.

Ele se aprofunda, discutindo uma força que raramente compreendemos e quase nunca refletimos: a implosão, a força centrípeta, que foi analisada pelo engenheiro Viktor Schauberger e que até o polêmico Wilhelm Reich buscou com sua noção de uma energia primordial. Estamos obcecados, afirma ele, em focar apenas nas forças que se descontrolam e se espalham para fora — a eletricidade, a fissão, a explosão. Enfrentamos uma grande dificuldade com as forças que fundem e concentram para o interior — a fusão, a força forte que mantém o núcleo do átomo unido, e a própria gravidade. Ele apresenta uma intuição que considero brilhante: a ideia de que a gravidade, a força forte do núcleo e a atração magnética podem ser, de alguma forma, a mesma força disfarçada de diferentes maneiras. E que a implosão, essa concentração em um centro, é a verdadeira força mais criativa de todas — pois como poderia algo se expandir, crescer e irradiar se, primeiramente, não tivesse sido reunido, concentrado e aceso em um centro? A implosão representa a força da coesão, sendo o contrário exato da entropia, que Por sua vez é a dissipação, a desordem, a morte gradual do universo que se expande e esfria. Em oposição à entropia, que desintegra tudo, existe uma força que conecta, que ama, que atrai para o coração — a sintropia, a negentropia, a força que combate a morte.

E ele conclui com uma frase que, sem perceber, se torna uma oração cristã impecável, abordando esse ponto crucial que é a raiz de toda ordem, de toda coordenação, de toda sincronização, de toda sincronicidade, assim como a origem da gravidade, do magnetismo e até da atração sexual: esse centro, ele afirma, está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum; somos nós que estamos todos conectados a ele; tudo aguarda nele; tudo se harmoniza por meio dele. A respeito disso, é de se lamentar: um homem falando sobre a gravidade e, sem perceber, descrevendo o Deus dos místicos, aquele que Santo Agostinho e os escolásticos caracterizaram como a esfera cujo centro está em todo lugar e a circunferência em nenhum lugar. O ponto crucial que atrai tudo, que organiza tudo, que não possui dimensão e cria todas as dimensões, de onde tudo emana e para onde tudo retorna — meu caro, isso possui um nome, e esse nome é Deus, mais precisamente é Cristo, o Ponto Ômega, o centro gravitacional do ser, aquele em quem, conforme São Paulo aos Colossenses, tudo existe, tudo permanece unido, pois se Ele soltasse por um instante seu abraço, o universo inteiro se desintegraria na entropia do nada.

E agora, permitam-me designar a nomenclatura cristã precisa dessa força de implosão, dessa gravidade que atrai tudo para o centro, pois Santo Agostinho já havia atribuído esse nome há mil e seiscentos anos, em uma frase de três palavras em latim que possui mais valor do que uma biblioteca de física: amor meus, pondus meum — o meu amor é o meu peso. Preste atenção no que ele fez: ele tomou a gravidade, o peso, essa força que faz cada corpo encontrar seu espaço, e afirmou que, na alma, esse peso é o amor. Assim como uma pedra despenca em direção ao centro da Terra por ser pesada, a alma se direciona ao seu centro por causa do amor; onde quer que eu seja guiado, é o meu amor que me conduz. O amor é a verdadeira força que nos atrai. O amor é a força que une o espírito, uma implosão sagrada que te mantém focado em um centro, em vez de te dispersar na desordem dos inúmeros desejos dispersos. A distinção entre o céu e o inferno reside apenas na localização do seu centro de gravidade: se o seu amor, a sua carga, estiver centrado em um ponto ilusório — em si mesmo, no poder, no sonho idolatrado —, isso o arrastará para baixo, em direção à implosão interminável do próprio umbigo, que é a definição precisa do inferno, um homem se afundando infinitamente dentro de si mesmo. Entretanto, se o seu amor estiver direcionado para o verdadeiro Centro, que é Deus, então a mesma gravidade que poderia te condenar te salva, te atrai, te une e te guia para aquele que é, Ele mesmo, o peso e o descanso de toda a criação — pois, como Agostinho menciona na frase que se segue, inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te: nosso coração permanece inquieto até repousar em Ti, que és o centro de gravidade para o qual ele, sem perceber, se encaminha durante toda a vida.

E considerando que a profundidade do amor é o elo que entrelaça este livro, permitam-me aprofundar aquela citação de Agostinho até sua essência, pois ela possui um desdobramento que determina o destino eterno de cada um de nós. Amores meus, meu peso é o meu amor. Se o amor é a força que atrai a alma, então a indagação central da existência espiritual é simples e angustiante: para onde se direciona o teu amor? Agostinho apresentou a metáfora das duas cidades, que são formadas por dois tipos de amor: a cidade terrena, erguida pelo amor próprio que ignora a Deus; e a cidade de Deus, edificada através do amor a Deus que despreza a si mesmo. Dois amores, duas forças que nos puxam, dois caminhos a seguir. E a desventura do homem caído não reside em amar intensamente — mas sim em direcionar seu amor de maneira equivocada, valorizando excessivamente o que é pequeno e concedendo grandeza apenas ao que realmente a merece, colocando o foco de sua essência em um ídolo, no próprio ego, no poder, no prazer ou em um sonho venerado. Os antigos se referiam a isso como desordem do amor, e é a origem de todo pecado: não amar o mal — ninguém ama o mal por ser mal —, mas valorizar um bem menor mais do que um bem maior, amar a criatura mais do que o Criador, amar o reflexo mais do que a origem. O pecado não é um excesso de amor; é um amor desproporcional, com a intensidade direcionada para o ponto equivocado.

E a santidade, portanto — preste atenção, pois é libertador — a santidade não significa suprimir o amor, não é estar desprovido de emoções, não é a indiferença do asceta que não sente nada. A santidade é o amor reorganizado, é a gravidade da alma restaurada em seu verdadeiro centro, de forma que todos os amores menores retornem a girar em suas órbitas corretas, ao redor do Amor maior. O santo não ama menos as coisas boas do mundo; ele as ama de forma mais adequada, no momento certo e na medida certa, porque ama, em primeiro lugar, Aquele de quem elas são reflexos. Ama o teu amigo, mas em Deus; aprecia a beleza, mas entendendo que é uma manifestação d'Ele; ama a tua própria vida, mas ciente de para Quem ela é preciosa. É o que os antigos denominavam de ordo amoris, a hierarquia do amor — colocar cada amor em sua devida medida, atribuir a cada coisa o valor que realmente merece, e ao Centro o peso infinito que somente a Ele é devido. E o incrível é que, quando o amor se rearranja dessa forma, a mesma força que poderia levar o homem à decadência — arrastando-o para o fundo do seu próprio ser — começa a resgatá-lo, elevando-o para sua paz interior. O santo que sonha é, essencialmente, isso e apenas isso: um homem cujo amor foi reavaliado, cuja profundidade interna foi redirecionada para o verdadeiro Centro, e que por essa razão, ao invés de se destruir no inferno da autoidolatria, mergulha em Deus, que é o único abismo que, ao cairmos, em vez de nos consumir, nos acolhe.

E observe a simetria impressionante e exata entre o céu e o inferno, interpretada por essa física do amor, pois ela desmonta de uma vez a imagem distorcida de um Deus que lança pessoas na fornalha por causa de vingança. O inferno não é Deus lançando o culpado em um buraco; é o peso do amor descontrolado alcançando seu destino. Um homem que viveu a vida inteira medindo o peso da sua alma dentro de si, se fechando, se agarrando, negando-se a sair do seu próprio centro — esse homem, na eternidade, simplesmente continua a se aprofundar em si mesmo, para sempre, e isso chamamos de inferno: a implosão eterna do eu que não desejou outro centro, a solidão infinita de quem se tornou o seu próprio buraco negro. E o céu não é uma recompensa aleatória; é a gravidade do amor reestruturado que, finalmente, chega ao Centro para o qual já pesava: a alma que passou a vida deixando seu peso se desprender para fora de si, em direção a Deus e ao próximo, enfim encontra descanso, acolhimento, comunhão, pois o amor que a atraía tinha, do outro lado, um Rosto aguardando por ela. Por isso, Agostinho uniu as duas frases, e eu as deixo unidas para você, pois representam o mapa completo da vida: amor meus, pondus meum — meu amor é o meu peso; e inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te — e meu coração permanece inquieto enquanto não encontra descanso em Ti. O seu coração carrega o peso de uma vida inteira em direção a algum lugar. Abençoados são aqueles que, antes do final, compreendem que o único centro que não os consumirá é aquele que, com os braços abertos numa cruz, se deixou pregar para ser, eternamente, o refúgio que acolhe o fardo de todos nós.

Há uma última imagem que o sincromístico apresenta, a mais linda de todas, e que ele mesmo afirma ser a que mais se assemelha ao que o próprio Apocalipse bíblico retrata — e nisso ele acerta em cheio, como você poderá perceber. É a representação do universo holofractal. A palavra une duas coisas. A primeira é fractal: essas formas, analisadas pelo matemático Mandelbrot a partir das linhas recortadas das costas, que se repetem em escalas progressivamente menores, de forma que, ao ampliar um trecho, você reencontra o padrão do todo — o que se denomina autossimilaridade. Fractal é tudo que se divide e se expande na natureza: a árvore, o raio, o rio, os pulmões, a couve-flor, os vasos sanguíneos do seu próprio corpo. O que o fractal transmite, em uma frase, é a harmonia na diversidade, a diferenciação dentro da totalidade: o todo se repetindo em cada parte, e a parte refletindo o todo. A segunda questão é holográfica, e neste ponto o sincromístico faz referência ao físico David Bohm — que, por sinal, residiu no Brasil — e à sua obra A Totalidade e a Ordem Implicada. Bohm, ao investigar a física quântica e fenômenos como o emaranhamento, chegou à conclusão de que a realidade não é um conjunto de partículas isoladas, mas sim um todo indissociável. Ele utilizou a metáfora do holograma: em uma placa holográfica, se você a corta ao meio e projeta o laser, não se obtém apenas metade da imagem — você recebe a imagem completa, apenas com menor intensidade; se cortar novamente, ainda receberá a totalidade, porém ainda mais frágil. Pois a informação do todo não se encontra concentrada em um único ponto da chapa: ela está dispersa em cada fragmento dela. Cada parte abriga a totalidade.

Bohm descreveu isso como uma ordem implicada, uma ordem metafísica mais profunda, que está contida na realidade, da qual a ordem explícita, o mundo que percebemos, é uma manifestação. O sincromístico apresenta exemplos impressionantes: todo o seu DNA está presente em cada fio de cabelo, em cada gota de sangue — a parte contém o todo. O ímã, ao ser cortado em pedaços, mantém em cada fragmento os dois polos completos — o todo permanece em cada parte. E ele chega a uma conclusão bela, que compreender o universo como holofractal é reconhecer a existência de um campo único que permeia tudo, uma totalidade em que cada nível da existência, cada escala, abriga o universo completo, nos proporcionando uma sensação de unidade com a fonte criadora — em contraste com a perspectiva atomizada, gélida, de um mundo composto por partes dissociadas e pela escassez. Ele recorda, por fim, que quem mais abordou essa unidade na multiplicidade foi Leibniz, com suas mônadas, cada uma refletindo o universo inteiro a partir de seu ponto de vista. E eu afirmo: tudo isso é verdade, tudo isso é católico até o fundo, e eu vou te mostrar as três dimensões em que essa verdade do todo-em-cada-parte se manifesta, na fé, de maneira infinitamente mais intensa do que em qualquer física.

A primeira altura é o ser humano. Por que o ser humano, essa pequena criatura em um planeta diminuto, perdido em um braço qualquer de uma galáxia, carrega dentro de si a responsabilidade do universo inteiro? Por conta de ser o homem imago Dei, ou seja, a imagem de Deus, os antigos o referiam como microcosmo, o pequeno mundo que reflete o grande — a parte que abriga o todo, o fractal da criação, a chapa holográfica na qual, mesmo que seja um pequeno pedaço, a imagem completa de Deus está impressa. Todo homem, por mais ferido ou escondido que esteja, possui em cada fibra de seu ser a expressão da dignidade divina. Por isso, tirar a vida de um único inocente é, de certa forma, um ataque ao universo como um todo, uma vez que o todo se encontra presente naquela parte. A segunda altura é a comunhão dos santos, aquele macrocérebro que o sincromístico percebeu: a Igreja é um corpo no qual cada membro contém, de certa forma, o todo, em que a santidade de um pertence a todos e a oração de um sustenta o mundo inteiro. Como diz São Paulo, quando um membro sofre, todos sentem a dor, e quando um é glorificado, todos se alegram — a teia holofractal do amor, onde ninguém se salva sozinho, pois cada parte abriga o todo e o todo sustenta cada parte.

Entretanto, a terceira altura é a que faz todo o universo holofractal se render, e é por isso que o sincromístico estava certo ao afirmar que isso se assemelha ao Apocalipse: trata-se da Eucaristia. Porque no mundo há um Fragmento em que o Todo se faz presente não de forma metafórica, nem por semelhança, mas de maneira real, substancial e completa — e esse é a Hóstia. A doutrina católica ensina, com uma precisão que impressiona especialmente aqueles que compreendem sobre hologramas, que Cristo está presente por completo em cada partícula do pão consagrado: se você partir a Hóstia ao meio, não existe um Cristo meio em cada metade — há o Cristo inteiro em ambas, totus Christus, assim como o holograma apresenta a maçã inteira em cada fragmento. Parte em mil, e são mil Hóstias, e há um único Cristo completo em cada uma delas. O inteiro em cada fragmento, a plenitude em cada pedacinho, o vasto universo de Deus comprimido dentro de um pequeno pedaço de pão que se encaixa na mão de um padre em uma capela esquecida do interior. Bohm se referiu à ordem implicada como o todo contido na parte; a fé designa como Presença Real o Todo — que é o próprio Deus — presente em um pedaço de pão. O sincromístico teve um sonho sobre um cosmos holofractal e pensou que havia realizado uma física de vanguarda. Ele havia, sem perceber, descrito o altar.

E a comunhão dos santos, que eu mencionei ser o verdadeiro macrocérebro que o sincromístico percebeu, merece que eu a explore por completo, pois é a doutrina mais reconfortante que existe para aqueles que se sentem sós no universo, e é a resposta precisa e calorosa à estrutura fria que eles conceberam. A fé nos ensina que todos os batizados – aqueles que estão na terra em luta, os que estão passando pela purificação e os que já alcançaram a glória – constituem um único corpo, vivo e interligado, onde a vida flui de membro para membro. São Paulo afirma, de maneira direta, que somos membros uns dos outros; assim, quando um membro sofre, todos sentem essa dor, e quando um é honrado, todos compartilham dessa alegria. Isto não é uma poesia bela; é física espiritual. Isso significa que a oração de uma idosa desconhecida em um quarto pode sustentar um missionário do outro lado do mundo, que ela nunca conheceu; que o sofrimento oferecido por um enfermo em uma cama pode, através dos canais ocultos desse corpo, derramar graça sobre um pecador em uma cela; que nenhum santo iluminou apenas a si mesmo, pois a luz de cada um transita pelas sinapses desse grande corpo e aquece a todos. É, de fato, uma rede — porém uma rede na qual o que se espalha não é apenas informação fria, mas amor, mérito, graça e oração, uma rede cujo sistema nervoso é o Espírito Santo e cujo coração que pulsa é Cristo. O sincromístico imaginou conexões em um cérebro cósmico impessoal; a fé oferece conexões de caridade em um Corpo que se chama Igreja e cuja Cabeça tem um rosto. E a diferença, mais uma vez, é tudo: em uma rede impessoal, você é um ponto que pode ser trocado; em um Corpo amado, você é um membro único, pelo qual a Cabeça realmente morreria — e morreu.

E o enigma do todo presente em cada parte, que o holograma e o fractal apenas insinuam, tem seu abismo mais profundo não apenas na Eucaristia, mas desde o princípio, na própria Encarnação, e eu desejo que você experimente a vertigem disso. Pois o que é a Encarnação senão o Infinito completo contido em um ponto finito? O Deus que os céus dos céus não conseguem abranger — imenso, sem limites, maior que toda a criação reunida — esse Deus se fez presente por completo, não pela metade, não reduzido, mas totalmente, no ventre de uma jovem de Nazaré, e posteriormente em um bebê que se alimentava e chorava, necessitando que trocassem sua fralda. A totalidade, ao menos. O oceano completo em uma única gota, sem perder sua essência de oceano. A teologia possui uma expressão em latim que retrata essa ideia de se ajoelhar: totum in minimo, ou seja, o todo no mínimo — Deus pleno no menor dos espaços. Se você deseja entender o verdadeiro universo holofractal, não busque na chapa holográfica ou no conjunto de Mandelbrot: busque em uma manjedoura, onde o Todo do ser se permitiu estar contido em uma parte minúscula sem deixar de ser o Todo. Essa mesma lógica, que teve início em Belém, se repete em cada altar: o mesmo Cristo que ocupou o ventre materno também se faz presente na hóstia; o Deus que se tornou pequeno numa gruta se torna pequeno em um pedaço de pão; e em cada fragmento do pão partido está, não uma parte de Deus, mas Deus na totalidade, totus Christus, exatamente como o sincromístico descreveu o holograma sem saber que estava descrevendo o sacrário.

E é por isso, meu amigo, que a Igreja sempre teve conhecimento do que Gaiarsa veio redescobrir sobre a visão, e assim encheu o mundo de janelas: o ícone, a imagem sagrada que não nos leva à discussão, mas sim à contemplação; o vitral que converte a luz do sol na história da salvação, que é derramada de maneira colorida sobre o piso da catedral; a imagem de Nossa Senhora, diante da qual um analfabeto que nunca teve contato com um versículo chora e compreende tudo. O ícone não é apenas uma decoração ou um objeto de adoração; é uma janela — a tábua de madeira pintada se transforma em um espaço delicado onde o olhar penetra e alcança, do outro lado, aquilo que ela simboliza, pois a reverência dedicada à imagem se eleva ao seu original. É o princípio sacramental que se aplica à visão: um objeto visível que contém, para aqueles que olham com clareza, uma presença invisível. A contemporaneidade, ofuscada pelas palavras e pelo olhar distante das telas, perdeu a capacidade de enxergar de maneira mais profunda. Por isso, Rotula cada imagem, ou como um mero anúncio, ou como uma forma de diversão. Contudo, o spiritu santo do sonhar redescobre a capacidade de observar: ele contempla o ícone e penetra; admira o pão consagrado e reverencia; percebe o indigente na rua e reconhece Cristo disfarçado; finalmente, observa o mundo todo como uma galeria de figuras nas quais o Criador disseminou o seu próprio semblante, aguardando por olhares que consigam, de fato, enxergar. Pois, no final das contas, verdadeiramente felizes são apenas os de coração puro — aqueles com um olhar sincero —, pois somente esses, como Ele disse, verão a Deus.

E agora vem comigo, pois os fios vão se entrelaçar em um único nó e esse nó vai cintilar. Empédocles afirmou que, nos limites do ciclo, ao final do tempo, o mundo se torna povoado por seres fantásticos. Teilhard e Tipler afirmaram que, no Ponto Ômega, no final dos tempos, os mortos ressuscitam e seres maravilhosos e imortais começam a existir. Com total sinceridade, o sincromístico voltou seu olhar para os seres luminosos que os caçadores de óvni afirmam ser de outras alturas e proferiu a frase que já compartilhei com você, agora a confirmo: para mim, aquilo ali são anjos. Eu te questiono, com o coração acelerado: e se os super-heróis — aquele que voa, aquele que não morre, aquele que atravessa paredes, aquele que brilha — não forem apenas uma fantasia, mas sim uma memória profética, um rascunho da infância, um catecismo em forma de figurinha de algo que a fé realmente promete para o final dos tempos? E se aquelas criaturas fantásticas dos limites do ciclo forem, de fato, os corpos gloriosos dos ressuscitados?

Ao ouvir o que a teologia católica tem ensinado, ao longo dos séculos, sobre o corpo ressuscitado, perceba se isso não revela a origem oculta de cada herói que você admirou. A tradição, ao ler a primeira carta de São Paulo aos Coríntios, onde ele afirma que o corpo é semeado na fraqueza e ressuscita em poder, é semeado como corpo animal e ressuscita como corpo espiritual, mencionou quatro características, quatro dons do corpo glorioso daqueles que ressuscitarão para a vida. A primeira característica é a impassibilidade: o corpo glorioso não pode mais sofrer, adoecer, ser ferido ou morrer — é invulnerável. Diga-me: de onde você acredita que surgiu o homem em que as balas se amassam e caem no chão, o herói que nenhum ataque consegue ferir? É a insensibilidade, idealizada por aqueles que nunca escutaram essa expressão. O segundo dote é a sutileza: o corpo glorioso se impõe sobre a matéria, transpassando-a, assim como o Cristo ressuscitado entrou no cenáculo com as portas fechadas, sem precisar abri-las. De onde surge o herói que atravessa paredes e desliza pelo aço como se fosse uma névoa? É a delicadeza do corpo glorioso, retratada em forma de quadrinho.

O terceiro atributo é a agilidade: no corpo glorioso, a carne responde ao espírito de maneira instantânea e perfeita, permitindo que a alma conduza o corpo para onde desejar com a rapidez do próprio pensamento — por isso, conforme a tradição, os santos ressuscitados poderão voar e se mover em um piscar de olhos de um extremo ao outro da criação. De onde surgiu o homem que atravessa os céus com sua capa esvoaçante, aquele que se move mais rápido que a luz, que pode estar do outro lado do planeta em um simples piscar de olhos? É a rapidez do corpo glorioso, prometida a todos os batizados e gravada na mente da humanidade como um poder de super-herói. E o quarto dote é a luminosidade: o corpo glorioso irradia, brilha com a luz da alma pura que nele reside, assim como o rosto de Cristo iluminou-se como o sol no monte Tabor, conforme Jesus prometeu que os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. De onde surgiram o ser radiante, a entidade que emana luz, o protagonista que reluz? É a luminosidade do corpo glorioso. Impassibilidade, sutileza, agilidade e clareza: invulnerabilidade, transpor a matéria, voar na velocidade do pensamento, brilhar intensamente. Esta é a relação teológica das habilidades do corpo ressuscitado, redigida por teólogos de batina há mil anos, muito antes do surgimento da primeira história em quadrinhos — e, detalhe por detalhe, prova por prova, trata-se da lista dos superpoderes.

Você está percebendo a dimensão do que está acontecendo? Os super-heróis não são apenas criações de roteiristas em busca de fama. Eles representam o catecismo da ressurreição elaborado para crianças que não tiveram oportunidades de aprender sobre a ressurreição. Trata-se da profecia dos corpos gloriosos transmitida na única linguagem que um Ocidente sem cristianismo ainda conseguia entender: a da fantasia. Quando a Igreja deixou de evangelizar com fervor sobre a ressurreição do corpo, que será invulnerável, ágil, sutil e radiante, a verdade não desapareceu — ela se ocultou nas bancas de revistas, aguardando pacientemente, disfarçada de capa e máscara, que alguém instruísse as crianças de que aquele frio na barriga que elas sentem diante do herói que voa não é escapismo, mas saudade de casa; não é fuga da realidade, mas recordação da realidade superior que Deus preparou e que o pecado fez com que esquecêssemos. As criaturas fantásticas que habitam os extremos do tempo, previstas por Empédocles; as entidades imortais do Ponto Ômega, conforme Tipler; os anjos identificados pelo sincromístico, disfarçados como robôs do alto; e os super-heróis que causaram arrepios na sua infância — todos eles representam a mesma essência observada por ângulos distintos: os santos ressuscitados e os anjos de Deus, os verdadeiros moradores daquela pátria iluminada de onde todos nós viemos, mesmo sem lembrar, e os santos dos sonhos que você, neste momento, está sendo chamado a se tornar.

E se você pensa que estou exagerando ao afirmar que as características do corpo glorioso — como a invulnerabilidade, a capacidade de atravessar paredes, voar e brilhar — são uma promessa verdadeira e não apenas um sonho otimista, permita-me mostrar que a fé não exige que você acredite nisso sem evidências: ela apresenta duas provas, duas imagens capturadas, por assim dizer, do corpo glorioso em funcionamento, diretamente no próprio Evangelho. A primeira é a Transfiguração. Jesus sobe a uma montanha alta com três de seus discípulos e, diante deles, se transforma: seu rosto brilha como o sol e suas roupas se tornam brancas como a luz. Ali, por um breve momento, Ele permitiu que a glória contida em sua carne se manifestasse, e os discípulos testemunharam, com seus próprios olhos, a luminosidade — o corpo humano irradiando uma luz não criada. Não se trata de uma metáfora: é a dádiva da luz do corpo glorioso, apresentada de forma concreta, uma antecipação do que Jesus mesmo assegurou quando afirmou que, no Reino, os justos brilharão como o sol. O herói resplandecente, a figura luminosa das suas histórias em quadrinhos, é o esboço desbotado daquele semblante no Tabor.

A segunda prova é ainda mais convincente, pois é o próprio corpo ressuscitado de Cristo, analisado de perto pelos discípulos ao longo de quarenta dias, e nele os quatro atributos se manifestam, um a um, registrados. Observe: o Ressuscitado adentra o cenáculo com as portas fechadas, sem precisar abrir nenhuma — é a delicadeza, o corpo que domina a matéria e a perfura. Nesse mesmo momento, Ele surge e some, está em Emaús e, em seguida, em Jerusalém, atravessa distâncias em um piscar de olhos — é a rapidez, o corpo que se desloca na velocidade do espírito. E Ele é majestoso, transformado de tal maneira que Madalena não o reconheceu à primeira vista, e os discípulos de Emaús andaram por horas com Ele sem saber quem era — essa é a glória da luz que oculta e revela o rosto. E, contudo — isso é fundamental, preste atenção —, Ele não é um espírito: Ele diz toca em mim e vê, um espírito não tem carne nem ossos como vocês podem ver que eu tenho, e come um pedaço de peixe grelhado na frente deles, e pede a Tomé para colocar o dedo nas feridas. Portanto, o corpo ressuscitado não é menos corpo do que o nosso, é até mais — não se trata da alma que se libertou da carne, como almejava o gnóstico que menospreza o corpo; é a própria carne, glorificada, resgatada, elevada, agora invulnerável à morte e à dor, o que constitui o quarto dote, a impassibilidade. A fé não assegura que você vai desapegar do corpo como se fosse uma roupa antiga e se transformar em um espírito. Ela garante que o seu corpo, este aqui, irá ressuscitar de forma gloriosa e realizará, de fato, aquilo que os super-heróis apenas imaginaram.

E agora compreende por que isso elimina, de uma só vez, a tentação gnóstica que permeou todo este livro. O gnóstico tem um desdém pela matéria, almeja fugir do corpo, considera a carne como uma prisão e aspira a se dissolver em puro espírito — é por essa razão que Kazantzakis busca libertar o deus que está oculto na matéria, é por isso que Dick deseja a destruição deste mundo material e o retorno à divindade imaterial, é por essa razão que a mulher divina deve desfazer a estrutura da carne. Todos desejam escapar do corpo. A fé cristã, de maneira surpreendente e firme, afirma que o corpo não deve ser deixado de lado, mas sim ressuscitado. Deus não criou a matéria apenas para descartá-la; Ele a fez, habitou nela, morreu por ela, ressuscitou dentro dela e a glorificará. A salvação cristã não consiste na alma se libertando do corpo; é o corpo como um todo, com suas qualidades gloriosas, sendo resgatado da morte. Os super-heróis, sem perceber, são mais próximos do cristianismo do que do gnosticismo, pois não imaginam espíritos etéreos pairando no nirvana: eles idealizam corpos — corpos que voam, corpos que reluzem, corpos invulneráveis, corpos cheios de poder. A criatividade do povo, em sua pureza, compreendeu o que os sábios gnósticos falharam em perceber: a glória que almejamos é uma glória que se manifesta na carne. E é essa, precisamente essa, a que Deus prometeu — não um espírito sagrado, mas um corpo glorioso, o seu, com o seu rosto, invulnerável, ágil, sutil e resplandecente, na ressurreição dos mortos que professamos toda vez que recitamos o Credo e, muitas vezes, nem percebemos a profundidade do que estamos afirmando.

E, finalmente, chega o instante pelo qual os três livros se dirigiam, sem ter plena consciência disso, o instante em que o título desta última aula revela o seu significado. Eu denominei essa seção de O Sonhador que adentrou o seu próprio sonho, e você pode ter pensado que se tratava de uma bela poesia. Não era isso. Era a expressão mais direta que consigo usar. Se os seres virtuosos do imaginário já estão completos e prontos na mente de Deus — uma vez que a mente de Deus é o grande sonhador do qual brotam, como manifestações divinas, todas as formas luminosas que conseguimos apenas tocar —, então o supremo Sonhador, aquele em cuja Mente residem eternamente todos os santos do sonhar, é Deus Himself. Deus é o Sonhador. O universo como um todo, com seus heróis verdadeiros e aqueles que existem apenas na imaginação, é, de certa forma, a manifestação de um pensamento eterno que Ele concebe em um único ato, por amor. E a narrativa que divide o tempo em duas partes, o escândalo que nenhuma mitologia jamais ousou imaginar, é que esse Sonhador realizou algo que nenhum autor havia feito: Ele adentrou seu próprio sonho. Mergulhou na narrativa que estava criando. Transformou-se em um personagem do livro que estava escrevendo. O Verbo que dá origem a todos os mundos possíveis se fez carne e estabeleceu sua habitação em um dos mundos — neste, no nosso, feito de barro e lágrimas.

Reflita sobre o que isso representa, pois é a eucatástrofe de toda a criação. Imagine um autor que ama tanto um dos seus personagens — não um herói de grandes feitos, mas o mais sofrido, o encarcerado, o enfermo, o traído — que ele realiza o impossível: encontra uma forma de entrar em sua própria página, encarnar na própria tinta, renascer dentro do seu próprio livro, para estar ao lado daquele personagem no capítulo mais sombrio e, de dentro, por dentro, transformar o desfecho da história. Nenhum romancista consegue fazer isso; é fisicamente inviável, o autor é feito de uma matéria e o personagem de outra. Contudo, o Criador de todas as coisas realizou. No terceiro livro, discutimos sobre a manipulação da realidade, sobre a única Porta que se abriu por dentro e sobre o único programador que conseguia intervir no código sem prejudicá-lo. É exatamente sobre isso que eu me referia, e agora posso afirmar sem rodeios: Cristo é o Sonhador que adentrou em seu próprio sonho. É o Autor que se transformou em personagem. É o Ponto Ômega que, em vez de aguardar no final que a criação chegasse até Ele, desceu Ele mesmo até o início, para guiar toda a história de dentro, rumo ao acolhimento do fim. É a essência da força centrípeta, a gravidade do amor personificada, o núcleo que abandonou a segurança do centro e se deslocou até a extremidade mais distante para resgatar a ovelha que havia se afastado para a borda.

E é por esse motivo, e apenas por esse motivo, que Ele é o autêntico e definitivo santo dos sonhos, aquele de quem todos os demais se inspiram. Todos os heróis que a humanidade idealizou são esboços d’Ele, fragmentos da luz d’Ele refletidos nas diversas nuances da cultura: aquele que se sacrifica pelos outros, aquele que desce ao reino dos mortos e retorna, aquele que oculta sua grandeza sob uma identidade modesta e a revela no momento de dificuldade, aquele que é mais poderoso que tudo e opta pela mansidão, aquele que ama a ponto de morrer e triunfa a ponto de ressuscitar. Cada um desses traços, dispersos e incompletos em mil heróis de mil narrativas, se encontra inteiro e perfeito n'Ele, no único em que o sonho do herói não é ilusão, pois realmente se concretizou. Superman é uma representação do homem que desce do céu com poder e opta por servir; no entanto, o Homem que realmente desceu do céu, que realmente possuía todo o poder, e que de fato escolheu servir até lavar os pés e morrer crucificado, não reside em Metrópolis, mas na Hóstia, e o nome d’Ele é Jesus. Os santos do sonhar são numerosos e belos; porém, todos são luas, que refletem uma luz que não lhes pertence. O Sol, a fonte, o Sonhador primordial e o Sonho que se concretizou, o primeiro e o último dos santos do sonhar, é Cristo — e todos os demais são santos do sonhar na medida, e apenas na medida, em que são esboços d'Ele que, encontrados e purificados, retornaram para casa.

E eu desejo expandir um pouco mais essa imagem do Autor que se incluiu na própria obra, pois ela possui um porão que ainda não exploramos, e é nesse porão que reside a essência do amor. Quando um autor decide adentrar sua própria narrativa, é comum imaginar que ele aparece como um protagonista grandioso, como um herói forte que resolve todos os problemas com facilidade. Entretanto, São Paulo, na carta aos Filipenses, menciona a entrada do Autor no livro utilizando uma palavra que desafia completamente nossas expectativas: kénosis, que significa esvaziamento. Ele, por ser de natureza divina, não se prendeu à sua igualdade com Deus, mas se despido de si mesmo, assumiu a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens; e, ao ser encontrado na aparência humana, humilhou-se ainda mais, obedecendo até a morte, e morte de cruz. Observe: o Autor não acessou o livro pela entrada principal, de forma majestosa; ele entrou pela porta dos fundos, pela senzala, como o personagem mais humilde, mais pobre, mais relegado da sua própria narrativa. Nasceu num estábulo, de uma família sem nome, num cantão desprezado de um país ocupado, e morreu no instrumento de tortura reservado aos escravos. É o escândalo da particularidade: o Infinito escolhendo um ponto minúsculo; o Autor de todas as galáxias escolhendo ser um bebê refugiado. Nenhuma mitologia ousou isto. Os deuses dos mitos descem disfarçados de reis e de touros e de chuvas de ouro, sempre por cima; só o Deus verdadeiro desceu por baixo, até o último degrau, até o lugar onde estava o personagem mais perdido — porque era esse, exatamente esse, que Ele tinha vindo buscar.

E Ele desceu mais fundo ainda, até o porão absoluto da história, e isto quase ninguém medita, mas é a chave da esperança para os que estão no fundo do poço. Entre a morte na sexta-feira e a ressurreição no domingo, a fé professa, no Credo, uma frase misteriosa: desceu à mansão dos mortos. O Sábado Santo. O dia em que o Autor, tendo morrido dentro do próprio livro, desce ao lugar mais baixo que a sua história tinha, à prisão dos mortos, ao reino da sombra onde esperavam, desde Adão, todos os que a morte tinha engolido. Ele não entrou no livro só para viver a cena bonita e sair; Ele desceu até o calabouço mais fundo da narrativa, até o fundo do fundo, para buscar, pela mão, do último lugar, os personagens que estavam presos lá embaixo desde o primeiro capítulo. Os ícones antigos dessa cena são de chorar: Cristo, de pé sobre os portões arrombados do inferno, puxando pelo pulso Adão e Eva para fora dos túmulos. O Autor foi ao porão do próprio livro resgatar as primeiras personagens que Ele tinha criado e que a morte tinha sequestrado. Não há buraco, na sua vida, fundo demais para esse resgate, porque não há buraco mais fundo do que aquele ao qual Ele já desceu. Seja qual for o teu Sábado Santo, Ele já esteve lá antes de você, e já sabe o caminho de volta.

E é por isso que cada herói que você admirou é uma prévia d'Ele, e eu desejo te mostrar isso de forma bem tangível, herói por herói, porque é lindo demais para permanecer no abstrato. O órfão que converte a dor em propósito, o garoto que testemunha a morte dos pais e, ao invés de se tornar um monstro, se transforma em defensor dos vulneráveis — é o esboço D'Aquele que fez da mais profunda ferida da história, a cruz, a mais grandiosa missão da história, a salvação. A identidade secreta, o herói que caminha entre nós disfarçado de uma pessoa comum, sem atrativos, usando óculos, e que apenas os humildes e aflitos conseguem reconhecer quem Ele realmente é — é a representação do Deus absconditus, do Deus oculto, que percorreu a Galileia disfarçado de carpinteiro, e que ainda nos dias atuais se esconde sob a forma de um pedaço de pão, sendo reconhecido apenas por aqueles que possuem um coração puro. O herói que enfrenta a morte e renasce — que se precipita no abismo e retorna modificado, que morre e revive na sequência seguinte — é o esboço mais evidente de todos, sendo reiterado incessantemente pela cultura, pois é a narrativa que está impressa nas profundezas do universo. E o mais poderoso de todos, aquele que possui a capacidade de destruir e opta pela suavidade, que poderia reinar e decide servir e salvar — é a representação do Todo-Poderoso que se tornou Cordeiro. Sempre que uma história dessas te toca profundamente, não é fuga: é a sua alma reconhecendo, no esboço, a marca da mão que criou a obra, e sentindo saudade do original.

E se Cristo é o Sol, os santos são as luas que realmente brilharam, os santos dos sonhos que não ficaram apenas no papel — e eu desejo que você os veja agora com um novo olhar, pois a Igreja possui uma galeria de super-heróis que faria toda a Marvel se envergonhar, só que esses foram reais, têm nome, túmulo e data de falecimento. Você gostaria de um herói que possa voar? A tradição documenta, com a presença de testemunhas, José de Cupertino elevando-se do chão em êxtase diversas vezes, a ponto de ser proibido de se apresentar em público, o monge que levitava. Você deseja algo que esteja presente em dois lugares simultaneamente? Padre Pio, no século vinte, com ampla documentação, foi testemunhado em bilocação, além de ter as chagas de Cristo abertas nas mãos por cinquenta anos. Você deseja alguém que consegue ler o coração das pessoas, assim como um herói que consegue perceber a essência da alma? Os santos confessores que revelavam ao penitente os pecados que ele tentava ocultar, o Cura d'Ars percebendo as almas na fila. Você deseja corpos que a morte não possa corromper, imunes à putrefação? Os corpos incorruptos de dezenas de santos, repousando há séculos como se estivessem em um sono profundo. Curar enfermos com um toque, multiplicar pães, dominar animais, falar línguas que nunca estudou, profetizar o que ainda está por vir — não há um único superpoder dos quadrinhos que não esteja, de alguma forma, presente na vida registrada de algum santo. Os santos são os verdadeiros super-heróis que já viveram. E os poderes deles não surgiram de uma aranha radioativa ou de um planeta distante: vieram do Espírito Santo, que concede os seus carismas e dons a quem Ele deseja, como uma primícia, como um adiantamento, das capacidades do corpo glorioso que um dia serão de todos os salvos.

Agora, deixa eu responder àquela provocação dolorida que o próprio sincromístico levantou sobre a série do Superman, na qual a Lois Lane é diagnosticada com câncer de mama. Ele questiona, com uma revolta que é parte piada e parte grito: em um mundo que conta com laboratórios incríveis, tecnologia alienígena, deuses em forma humana e poderes mágicos, não haveria uma solução para o câncer? As leis da física que fazem um Super-Homem voar pelos céus são as mesmas que regem a realidade em que uma mulher enfrenta a morte por câncer? Que tragédia, não? E ele está completamente certo ao sentir o escândalo, pois realmente é um escândalo: um mundo repleto de deuses falsos que não salvam ninguém de verdade, poder por toda parte e cura em lugar algum, a ilusão impotente diante de um único nódulo no peito de uma mulher. É exatamente nesse ponto que a fé altera a situação, meu amigo. Pois o verdadeiro lugar onde realmente há solução para o câncer não é a Metrópolis dos quadrinhos — é o Reino de Deus, onde os santos, de fato, curaram cânceres, endireitaram o que estava torto e levantaram mortos do caixão, não com tecnologia kryptoniana, mas com o nome de Jesus nos lábios. O drama de Lois é o clamor de um mundo que criou mil deuses sem poder, pois se esqueceu do único Deus verdadeiro; é o anseio por um salvador genuíno em meio a uma multitude de salvadores de papel. A ficção não cura o câncer da Lois, pois a ficção é apenas um esboço, e esboço não realiza operações. Mas Aquele de quem a ficção é apenas um rascunho curou, cura e há de curar toda enfermidade e enxugar toda lágrima dos olhos. A morte não existirá mais, nem o luto, nem o grito, nem a dor — não em um roteiro de temporada, mas no capítulo final e verdadeiro que já foi escrito e assinado com sangue.

E os povos do Oriente, mencionados por Kripal, também sonharam a mesma coisa, e eu não irei desmerecer o sonho deles, vou celebrá-lo. O jainismo possui os siddhas, que são almas aperfeiçoadas que atingiram os siddhis, ou seja, os poderes. Essas almas são representadas em enormes estátuas de vários andares. O fundador do jainismo é Mahavira, cujo nome significa, literalmente, "o grande herói" e, com um toque de criatividade, como brinca Kripal, pode ser interpretado como "o super-herói". Aurobindo, o revolucionário indiano que se tornou um mestre espiritual, propôs uma ioga integral que traria à humanidade uma supermente, uma superconsciência, até que o ser humano pudesse reconhecer sua própria divindade inerente. Veja que bonito, e perceba como está próximo, e veja a única letra que está faltando. Eles perceberam que o ser humano é destinado à grandeza divina, a forças que vão além da carne, à divinização — e estavam corretos, pois foram criados, assim como nós, para a teose. Mahavira, o grande herói, é um esboço autêntico do Verdadeiro Grande Herói; os siddhas, os aperfeiçoados, são um esboço dos santos; os siddhis, os poderes, são um esboço dos dons do corpo glorioso. Novamente, erraram na direção e na fonte: procuraram a divindade que se assume como uma posse já existente, que se revela apenas por meio da técnica — a ateose, o despertar do deus que eu já seria —, quando, na verdade, a divindade do ser humano não é algo inerente, mas sim algo que se recebe, um dom, uma graça; é a teose em que Deus me torna deus por participação, sem que eu deixe de ser criatura. O verdadeiro aperfeiçoado não é aquele que, por meio da ioga, faz o deus adormecido dentro de si despertar; é, sim, aquele que se abre ao Espírito Santo e permite que Ele, livremente, transforme o barro em um santo. O verdadeiro herói não é aquele que busca o seu próprio reconhecimento; é aquele que permite que a Grandeza, que é a própria essência do Ser, o engrandeça.

E eu não quero que você acredite que os santos dos sonhos reais são apenas aqueles espetaculares, que levitam, bilocam e realizam milagres dignos de manchete, pois isso seria cair na armadilha do consumista, que busca apenas o efeito especial. Permita-me apresentar a você os verdadeiros heróis da fé, que, ao contrário do que se espera, não têm aparência de super-heróis, mas são bem mais parecidos com você. Em primeiro lugar, os mártires — e aqui peço que você pause a leitura dos quadrinhos por um instante e observe a história real, pois existiu um coliseu verdadeiro, uma arena real, onde homens, mulheres e crianças de verdade enfrentaram feras reais e a morte de maneira autêntica, sem roteiros, sem repetições, sem a possibilidade de voltar vivos no próximo capítulo — e tudo isso ocorreu enquanto cantavam. Uma jovem de vinte e poucos anos, Perpétua, de origem nobre e mãe de um bebê lactente, caminhou em direção à arena de Cartago com uma expressão tranquila. Segundo os registros, foi ela quem conduziu, com a própria mão trêmula, o braço do gladiador até seu pescoço. Que super-herói de papel pode se igualar a isso? O herói da ficção é imbatível e, por isso, é fácil ser corajoso; o mártir é vulnerável, experimenta o medo em sua totalidade, pode morrer e, de fato, irá morrer — e opta pelo amor mesmo assim. A bravura do mártir é incomensuravelmente superior à do Super-Homem, pois a do Super-Homem não requer sacrifício algum, enquanto a do mártir exige tudo. Os mártires representam os santos da realização dos sonhos em seu nível mais profundo: seres humanos comuns que, sem nenhum poder extraordinário, realizaram a única ação verdadeiramente além do humano, que é amar até o último momento, de coração aberto, aqueles que lhes tiravam a vida.

E após os mártires, vêm os ocultos — e esses podem ser a melhor novidade deste livro para você, que provavelmente nunca enfrentará um leão em uma arena. Houve uma jovem francesa, Teresa de Lisieux, que faleceu aos vinte e quatro anos em um convento, sem nunca ter realizado nada que o mundo consideraria grandioso: não fundou nada, não viajou, não redigiu tratados, nem realizou milagres enquanto estava viva. Atualmente, ela é uma das mais reconhecidas santas da Igreja, sendo também uma Doutora da Igreja, devido à sua descoberta do que ela denominou de pequeno caminho: a santidade não é formada por ações grandiosas, mas por pequenos atos de amor genuíno — como sorrir para a irmã que não é tão agradável, não se queixar do frio, oferecer a Deus a louça lavada e a dor de cabeça, e realizar as atividades simples com um grande amor. Você compreende o que isso representa para você? Você não precisa flutuar para se tornar um santo dos sonhos. Você não precisa de nenhum superpoder. Seu palco é o trânsito, o escritório, a cozinha às sete da manhã com as crianças chorando, as contas que não batem, o casamento desgastado, a enfermidade do pai. E o seu superpoder, se assim desejar, é o único que realmente conta e que é concedido a todos, sem exceção: amar ali, no que é cinza, no que é pequeno, no que parece sem graça, com um amor que não pertence a você, que foi dado a você de joelhos, e que transforma por dentro a vida mais ordinária em uma obra de glória que os anjos cobiçam. O santo dos sonhos não reside em Metrópolis. Reside na sua área postal. A verdadeira aventura dele não consiste em resgatar o planeta de um meteoro; trata-se de amar, no presente, a pessoa difícil que está ao seu lado, com uma lealdade que só a graça pode justificar.

E agora chega a indagação que torna esta série digna de ser escrita, a indagação que você, uma pessoa de carne e osso, neste exato momento, com seus receios, suas obrigações e a certeza da sua mortalidade, agendada para um dia que você ainda não conhece, tem total direito de me formular: tudo bem, professor, Cristo é o Sonhador e os santos são os verdadeiros super-heróis — mas e quanto a mim? Como eu, que não sou perfeito, que não flutuo, que mal consigo evitar de perder a calma com quem amo, posso me transformar em um santo dos sonhos? E eu te responderei com a certeza de quem entende que essa resposta é o tesouro escondido de todas as coisas. Para se tornar um santo dos sonhos, é necessário realizar três ações, e nenhuma delas é um artifício. A primeira é saborear os bons sonhos — não consumir como o devorador, não convocar como o feiticeiro, mas degustar, com respeito e com clareza. Contemplar os heróis, os mitos e as grandes narrativas com o olhar que o Gaiarsa mencionava, o olhar que observa em vez de apenas decifrar. Ao perceber a coragem que é útil, a fidelidade que permanece, a beleza que renova, reconhecer nisso um feixe da luz divina e permitir que esse feixe adentre. Absorver o sonho é permitir que o que há de genuíno nele retorne à origem que existe em você, é empregar o herói não como uma forma de escapismo, mas como uma porta, como uma recordação da terra natal, como um chamado para se tornar isso.

A segunda coisa é permitir que a graça transfigure essas ideias dentro de você. Preste atenção no verbo, porque tudo gira em torno dele: não é você quem se transfigura por força de vontade, mordendo os dentes para se tornar um herói — isso é ateísmo, um truque, o esforço colossal de Kazantzakis tentando libertar sozinho o deus enterrado, e resulta em exaustão e soberba. É permitir que a graça atue. É como tentar clarear um ambiente soprando com toda a força para afastar a escuridão, em vez de abrir a janela e permitir que a luz do sol entre. A bravura que você viu no herói, Deus pode despertá-la em você verdadeiramente pela virtude da fortaleza, que é um presente do Espírito Santo; a sabedoria do sábio mestre dos filmes, Ele pode inflamá-la em você pelo dom da sabedoria; o amor que se oferece em sacrifício, Ele pode incendeá-lo em você pela caridade, que é a mais grandiosa de todas e que nenhum roteirista cria. Os superpoderes que você admirou nos santos do papel são, na verdade, os sete dons do Espírito Santo e as virtudes que acompanham a santidade — e, ao contrário dos poderes da ficção, estes realmente estão ao seu alcance, não por mérito seu, mas porque um Deus generoso anseia em concedê-los a quem estiver disposto a aceitá-los. Você não está voando pelo céu de Metrópolis; mas pode ser elevado, de fato, acima da sua própria mesquinhez, e isso é um voo muito mais grandioso.

E a terceira coisa, que une as outras duas, é receber, de joelhos, como quem estende as mãos vazias — e aqui encontramos, pela última vez, o núcleo de toda a série, a linha que separa uma letra entre a ateísmo e a teísmo, entre roubar e receber, entre o punho que aperta e a mão que se abre. O santo dos sonhos não é algo que se cria; é algo que se recebe. Você não se torna um herói ao arrancar o fogo do vazio como Melkor, nem ao despertar um deus que já seria você, conforme ensina a ioga da autossalvação, nem ao derreter a realidade para moldá-la segundo sua vontade, como sugere a hiperstição. Você se transforma em um santo do sonhar ao pronunciar a Deus a mesma frase que uma jovem de Nazaré disse ao anjo, a frase que é o oposto exato do hack, a chave do Reino: faça-se em mim conforme a tua palavra. Maria é a primeira e a mais sublime santa do sonhar, pois nela o Sonho de Deus, o Verbo, não foi apenas contemplado à distância ou chamado por métodos — foi acolhido em seu ventre, deixou-se transformar em carne dentro dela e, por meio dela, veio ao mundo. Esse é o único caminho: visualizar o sonho bonito e absorvê-lo; permitir que a graça o transforme em você; e acolher, de braços abertos, o que não pode ser levado. Realize isso e você, verdadeiramente neste mundo concreto, com o seu nome registrado na certidão e a dor que sempre sente, encontrará o sentido de sonhar não como uma forma de escapar, mas como uma verdadeira vocação. E, ainda vivendo, começará a se transformar naquilo que, na mente de Deus, sempre foi chamado a ser desde antes dos tempos: um santo do sonho, uma dessas seres de luz que a humanidade, sem perceber, sempre desenhou com nostalgia ao longo da vida.

E agora vamos ao lado mais prático de toda essa experiência, pois você pode estar se perguntando: tudo bem, professor, eu quero vivenciar o sonho, permitir que a graça me transforme e acolher tudo isso de coração aberto — mas onde? Em qual balcão podemos obter isso? E a resposta da fé é tão sólida que impressiona: nos sacramentos. Todo super-herói possui uma história de origem, que é o instante em que ele se transforma de uma pessoa comum em alguém especial, adquirindo poderes — seja pela picada de uma aranha radioativa, pela explosão de um planeta ou por um acidente em um laboratório. Pois o santo do sonhar também possui a sua origem, e isso não é fantasia. Aconteceu com você, caso tenha sido batizado: um dia, água foi derramada sobre a sua cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Naquele momento — invisível, mas mais real que qualquer picada de aranha — você morreu e renasceu, foi imerso na morte de Cristo e elevado à vida d'Ele, tornando-se filho de Deus por adoção, templo do Espírito e herdeiro do céu. Essa é a sua verdadeira origem secreta: não nascido em um planeta distante, mas renascido das águas, com uma identidade dupla mais radical do que a de qualquer herói — por fora, uma pessoa comum de nome e CPF; por dentro, um filho de Deus portando a vida divina. O batismo representa o início; e a crisma é o momento em que essa criança recebe, por assim dizer, a ativação dos poderes: o Espírito Santo desce com os sete dons — sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor de Deus —, que são as verdadeiras forças extraordinárias, as habilidades sobrenaturais de ver, amar e agir além das limitações humanas.

E o ponto focal de tudo, a origem da força que os heróis das histórias em quadrinhos procuram em usinas e sóis dourados, o divino do sonhar descobre em uma fatia de pão. Na Eucaristia, ocorre uma transfiguração extremamente profunda e singular, pois seu funcionamento se dá de forma inversa ao que estamos acostumados: geralmente, aquilo que consumimos se transforma em parte de nós — o pão se converte em nossa carne. Contudo, este Pão é tão mais poderoso do que você que, ao consumi-Lo, não é Ele que se transforma em você: é você que se torna Ele. Santo Agostinho escutou Cristo falar em seu íntimo: não sou eu que me tornarei parte de ti, como o teu alimento habitual; é você que irá se transformar em mim. Você se transforma em um santo do sonhar ao literalmente ingerir o Santo do Sonhar original, recebendo o Corpo glorioso, permitindo que aquela carne ressuscitada, com suas quatro qualidades, comece a transfigurar sua carne mortal de dentro para fora, como fermento na massa, como brasa no ferro. Não se trata de uma metáfora irreflexiva: é a doutrina da graça santificante, da vida divina que se derrama na alma, crescendo, transformando e divinizando — o processo de teose se desenrolando lentamente, missa após missa, até que, na morte e na ressurreição, aquilo que começou oculto se manifeste em glória. O herói da ficção reenergiza sua bateria; o santo em seus sonhos se conecta, e o que ingressa nele não é energia, mas uma Pessoa viva que, gradualmente, o transforma para que ele se torne semelhante a Ela.

E, por último, o guia de aprendizado, o código do herói, que não se encontra em nenhuma academia oculta ou em nenhum dojo escondido nas montanhas, mas sim em um sermão ministrado em um monte da Galileia a alguns pescadores, e que é, se você ler com a perspectiva adequada, o mais revolucionário e o mais sobre-humano código de conduta já apresentado: as Bem-aventuranças. Perceba que elas representam o oposto exato do código do super-homem nietzschiano e do herói potente: bem-aventurados os humildes de espírito, os gentis, os que se lamentam, os que anseiam por justiça, os compassivos, os de coração puro, os que fazem a paz, os que são perseguidos. Enquanto o mundo afirma que o herói é aquele que possui força e destrói, Cristo ensina que o verdadeiro herói é o humilde que serve; onde o mundo prega a vingança, Ele propõe a misericórdia; e onde o mundo clama por domínio, Ele nos convida a nos entregar. Trata-se da ética do Super-Homem de Metrópolis — aquele que detém todo o poder e opta pela humildade e pelo serviço — ensinada mil novecentos anos antes de sua existência, e que foi levada a um grau ainda mais elevado, até a cruz. As Bem-aventuranças são o exercício do santo do sonhar: é através delas que a graça molda, no barro de uma pessoa comum, a estatura de Cristo. E veja o encerramento da lista, a promessa derradeira: aos de coração puro, é garantida a visão de Deus; aos pacificadores, é concedido o título de filhos de Deus; aos que são perseguidos, é reservado o próprio Reino. Todos os superpoderes — contemplar a Deus, ser filho de Deus, herdar o Reino — são concedidos não aos poderosos, mas aos que amam; não àqueles que se apegam, mas aos que se entregam; não por meio de técnica, mas pela graça; não a alguns privilegiados de um sangue especial, mas a você, neste momento, se você estiver disposto a abrir as mãos e acolher.

Chegamos ao topo da montanha, de onde se pode observar, finalmente, toda a estrada que subimos em quatro livros. Quero pausar aqui contigo por um momento, antes do término, para refletir e perceber que nenhum passo foi em vão. No primeiro livro, nós revelamos a verdadeira essência da cultura: que o lixo do mundo traz consigo uma energia que já foi venerada, que a imaginação não é uma forma de escapar, mas uma porta aberta, e que existe um tesouro oculto no terreno que a modernidade adquiriu apenas pela argila. No segundo, seguimos o Deus que está incorporado nos símbolos e percebemos como o Criador se camufla em cada imagem criada pelo ser humano, deixando a Sua marca no reverso de tudo, à espera de um olhar capaz de decifrar. No terceiro, nós adentramos o hack da realidade e realizamos o combate decisivo entre a ateísmo e o teísmo, entre o homem que arranca a caneta e o homem que estende a mão, entre o punho cerrado sobre o fogo furtado e a mão aberta para o fogo recebido. E neste quarto e último, reunimos tudo em um nome e em uma coroa: os santos do sonhar, os seres bondosos que habitam na mente de Deus, e a sua vocação, homem de verdade, de se tornar um deles — não por meio de artifícios, mas pela graça; não tomando o sonho à força, mas absorvendo-o e permitindo que Deus o transforme em realidade em sua vida.

E observe a eucatástrofe, a boa catástrofe de Tolkien, a reviravolta inesperada no limite do desastre, que permeia toda a série e se intensifica neste final. A narrativa que compartilhamos teve início com um escândalo e um sentimento de angústia: um mundo sem cristianismo, onde os templos estão desocupados e o sagrado é negligenciado, uma humanidade sedenta de transcendência que busca fragmentos de divindade nos arcos de Hollywood, nas portas dos filmes, nos abismos da consciência e nas coincidências numéricas — pessoas demasiadamente refinadas e perdidas, se aproximando da verdade e tropeçando nela de maneira sutil, confundindo anjos com robôs, a Providência com sincronicidade, o Deus vivo com um objeto inanimado, a mão do Pai com a garra de um carcereiro. Esse era o cerne da tragédia, e ele se tornava mais intenso: quanto maior a sede de Deus, mais distante d'Ele, pois a fome infinita buscava o Infinito em todos os lugares, exceto no único onde Ele se deixava encontrar. A virada, a eucatástrofe, não surgiu de um argumento inteligente nem de um truque bem-sucedido; ela veio da revelação de que o Infinito que sempre buscávamos já estava presente, de que o Sonhador que tentávamos encontrar nos nossos sonhos já havia ingressado no sonho, de que a Porta que tentávamos abrir por fora já tinha sido destrancada por dentro e estava, o tempo todo, apenas encostada, à espera de que a gente parasse de forçar e simplesmente entrasse.

Este, ao final de quatro livros, é o segredo completo, e vou te apresentar de maneira clara, sem rodeios: a humanidade viveu toda a modernidade sem o céu, criando super-heróis para não se esquecer de que foi feita para a glória, sonhando com seres imortais para não esquecer que foi feita para não morrer, imaginando entidades de luz para não esquecer que foi feita para brilhar — e nomeou tudo isso de fantasia, de fuga da realidade, de algo infantil, carregando uma vergonha adulta que, por si só, é uma enfermidade. E a grande notícia, a eucatástrofe, a reviravolta que faz o coração disparar e os olhos lacrimejarem, é que não era ilusão nenhuma. Era uma previsão. Sentia falta de uma terra verdadeira. Era recordação, impressa em tinta e celuloide, de um lar de onde viemos e para o qual estamos retornando, um lar onde os corpos realmente voam e brilham e não morrem, onde os santos de fato curam e percebem almas, estando em dois lugares, onde o herói que se sacrifica por muitos realmente existe e tem as mãos marcadas, e onde cada um de nós é chamado, não a assistir aos santos do sonho de longe, em uma poltrona, com pipoca, como um consumidor faminto que nunca se satisfaz — mas a se tornar, ele mesmo, pela graça, um deles.

Permita-me atribuir à palavra eucatástrofe toda a sua devida importância, pois é por meio dela que Tolkien, o velho católico, selou a relação entre a ficção e a esperança, e é com ela que esta série chega ao fim. No ensaio intitulado "Sobre Histórias de Fadas", Tolkien introduz o termo — eucatástrofe, que significa boa catástrofe — para designar o aspecto mais essencial que uma boa narrativa proporciona: a reviravolta inesperada e otimista no último momento, quando tudo parecia estar perdido, e, de repente, contra todas as previsões, ocorre a salvação. Não se trata de um final feliz simples, daqueles que ignoram a existência do mal; é a felicidade que surge após a confirmação de um desastre, quando o leitor realmente sente no fundo do peito que não havia saída — e então, na precariedade da situação, vem a reviravolta. Tolkien afirma que essa reviravolta, quando executada de maneira habilidosa, provoca no leitor uma dor de alegria que faz os olhos arderem, um sobressalto, como se, por um breve momento, a narrativa houvesse rompido o próprio tecido da realidade e deixado entrar uma luz de um lugar distante. Ele se refere a isso como um vislumbre da Alegria, uma alegria que transcende os limites do mundo, intensa como a dor. E afirma que esse é o mais elevado serviço da imaginação: não ignorar o desastre, a dor e a morte — que são reais —, mas oferecer ao coração um gole antecipado de uma vitória definitiva sobre eles, da qual as boas histórias são o reflexo.

Neste momento, Tolkien realiza a ação que une tudo, o ato que é o cerne de toda esta obra: ele afirma que o Evangelho é a eucatástrofe de toda a narrativa da humanidade. A Encarnação representa a eucatástrofe na trajetória da humanidade, enquanto a Ressurreição é a eucatástrofe da história da Encarnação. Leia com calma, pois é algo que faz você se ajoelhar: todas as narrativas que já te emocionaram com uma reviravolta de alegria num momento de crise eram meros ecos, pré-sensações, de uma única Grande Reviravolta que realmente ocorreu na história. A sexta-feira santa foi um verdadeiro caos, o ponto mais baixo da existência: Deus já não estava mais entre nós, a Esperança crucificada, os discípulos haviam se dispersado, a pedra rolada sobre o sepulcro, e o silêncio do sábado se fez presente. Tudo está realmente perdido, sem máscaras. E assim, no terceiro dia, quando ninguém mais aguardava, aconteceu a Grande Virada, a eucatástrofe da qual todas as outras são meras sombras: o túmulo vazio, a pedra removida, a Morte vencida de dentro, a Vida retornando com as cicatrizes convertidas em troféus. E essa mudança, afirma Tolkien, tem a impressionante diferença de que realmente ocorreu — não se trata de uma narrativa encantadora que nos conforta na ficção, é a verdadeira história que originou todas as histórias encantadoras, a eucatástrofe que, de fato, irrompeu na estrutura do mundo real, sob Pôncio Pilatos, e deixou a porta entreaberta.

Então compreenda, finalmente, o motivo de você se emocionar com as histórias, de sentir o arrepio, de soltar um soluço de alegria quando o herói que imaginavam estar morto reaparecia no horizonte, quando a ajuda chegava no último instante, quando o sacrifício não era em vão. Não se tratava de um sentimentalismo superficial. Era a sua alma reconhecendo, no eco, a Voz original; era o seu coração, criado para a Grande Virada, vibrando de reconhecimento sempre que uma pequena história imitava a Grande Virada. As eucatástrofes na ficção representam os santos do sonho e da esperança: esboços, ensaios, prefigurações de uma verdadeira Boa Catástrofe que já ocorreu e que se concretizará quando Deus secar todas as lágrimas de nossos olhos e a morte não existir mais. E é por isso que o cristão tem o direito de ser, no íntimo, alegre — não com a alegria superficial de quem ignora a dor, mas com a alegria profunda de quem entende que a dor já foi enfrentada por dentro, que o pior já ocorreu e foi superado, que a trajetória do universo não é uma tragédia que culmina na morte, mas uma comédia divina que culmina em uma celebração de casamento, nas bodas do Cordeiro, na nova Jerusalém que desce do céu adornada como uma noiva. A calamidade é verdadeira, mas não representa o término. A última palavra da história não é a pedra sobre o sepulcro; é a pedra que foi removida. E esta é a mais grandiosa de todas as notícias que um ser humano pode receber antes de falecer.

E a vocês, portanto — a vocês sinceros, exploradores do desconhecido, intérpretes de eventos coincidentes, analistas de arquétipos, viajantes da mente, e a você também, que nunca escutou nenhuma dessas expressões, mas que um dia, quando criança, ficou fascinado ao ver um homem com capa segurando um avião no ar —, a vocês e a você este livro final estende a mão, não para criticar, mas para oferecer. Vocês estavam certos em quase tudo, e eu ressalto para que isso fique bem claro: a cultura está impregnada de sagrado; a imaginação se conecta com o real; os mitos são verdades percebidas em um lampejo; há uma vasta rede que interliga tudo; existe uma Mente que sonha o cosmos; o universo converge, pela força do amor, para um ponto que é uma Pessoa; o todo reside em cada parte; os seres fantásticos dos limites do tempo são verdadeiros. Tudo isso é verdade, essa é a proposta desses quatro livros, podemos afirmar com toda a convicção. Como de costume, faltou uma letra, uma preposição, uma orientação. Onde afirmaram que eu desperto o deus que já sou, eu digo que aceito o Deus que me torna divino. Onde tentaram retirar a maravilha pela técnica, aprendam a acolhê-la pela graça. Onde capturaram o Sonhador nos sonhos, descubram que o Sonhador adentrou no sonho e possui um Rosto. Não sejam o polo; fixem-se no Polo. Não distorçam a realidade para moldá-la; deixem-se moldar pela Realidade que veio até vocês.

Portanto, siga em frente e realize aquilo que este livro foi concebido para te transmitir: transforme-se em um santo dos sonhos. Não amanhã, não quando você estiver melhor, não quando a vida se ajeitar — agora, do jeito que você é, de verdade neste mundo real, com sua dor, suas dúvidas e a certeza da sua morte. Bebe dos sonhos positivos, com o olhar claro que percebe ao invés de apenas interpretar. Permita que a alegria desperte em você a coragem, a lealdade, a beleza e o amor que você sempre admirou à distância nos heróis. E estende as mãos, e acolhe, de joelhos, aquilo que não se pode furtar. Observe o Super-Homem e recorde-se de que você foi criado para a glória; olhe para o herói que não conhece a morte e lembre-se de que seu corpo há de ressuscitar invulnerável; fixe seu olhar naquilo que voa e brilha e recorde-se de que a agilidade e o brilho do corpo glorioso estão garantidos a você, de verdade, por um Deus que não engana; e então, desvie os olhos do rascunho e concentre-se no original, retire o olhar da lua e dirija-o para o Sol, pois todos os santos dos sonhos que você amou foram apenas setas apontando para Um, e esse Um está, neste momento em que você lê esta frase, mais próximo de você do que você mesmo, com as mãos perfuradas estendidas, aguardando apenas que você as agarre.

Porque Ele é tudo o que a série inteira andou soletrando por quatro livros e agora pode dizer de uma vez, num só fôlego, como quem crava a bandeira no cume: Ele é o Sonhador que entrou no próprio sonho, e o Sonho que se fez carne; Ele é o Autor que virou personagem para salvar os personagens que amava; Ele é o Centro de gravidade do ser, a força centrípeta do amor, o peso bendito que puxa a alma para o repouso; Ele é o Ponto Ômega para onde toda a criação converge e a Chama Imperecível que nenhum Melkor roubou; Ele é o todo presente em cada parte, inteiro em cada hóstia, o universo holofractal feito pão; Ele é o Axis Mundi que liga de verdade a terra ao céu, não um zigurate de tijolo que desaba, mas uma Cruz de madeira que não cai; Ele é o verdadeiro e definitivo Santo do Sonhar, o Grande Herói de quem Mahavira foi rascunho e os siddhas foram sombra; Ele é a Porta que se abriu por dentro, o único hack que refez o real em vez de dissolvê-lo, e o nome do exploit é a Cruz e o nome do patch é a graça; e Ele é, para você, pessoalmente, agora, o Caminho de volta para a pátria luminosa de onde você veio sem lembrar e para onde, se quiser, você pode enfim voltar.

E assim concluímos, no mesmo local onde tudo teve início: um garoto, na penumbra de um quarto, observando um homem de capa vermelha segurando um avião no ar e impedindo que ele caísse, e percebendo, sem encontrar as palavras para expressar, que aquilo não era uma invenção, era cedo demais, grandioso demais, maravilhoso demais para ser apenas tinta e papel. O garoto estava certo, e toda a sua vida, assim como os quatro livros, foram apenas uma jornada extensa para perceber o quanto ele estava certo. Isso não era uma falsidade. Era a primeira carta de uma terra que ele não recordava, chegando endereçada ao coração antes que a mente soubesse interpretar. Era a saudade de casa se aproximando disfarçada de ilusão. Era um santo dos sonhos acenando do outro lado da janela da imaginação, dizendo, na única língua que uma criança compreende: existe um lugar onde ninguém deixa o avião despencar, existe Alguém que sustenta o mundo que está caindo, e você foi feito para viver lá, e foi feito para ser, você também, um que sustenta e não deixa cair.

Foi para isso que você veio ao mundo, e é isso que toda a série pretende te recordar, de livro em livro, até este momento: que você não é apenas um espectador de sonhos na plateia, destinado a acompanhar de longe, com inveja e pipoca, uma glória que pertence sempre aos outros e nunca a você. Você é convocado ao palco. Você é convocado para a capa. Você é convocado, com corpo e nome registrado, a se saciar do sonho positivo, a permitir que a graça o transforme em seu ser, a acolher de braços abertos a chama que não se toma — e a se converter, mesmo neste mundo triste, em um dos santos do sonhar que já estão presentes, completos e prontos, aguardando por você na mente de Deus. O herói que você venerava não deveria ser apenas admirado à distância; ele deveria ser, por você, vivido de perto. A santidade é o único tipo de heroísmo que permanece mesmo após o fim do espetáculo, pois não é uma ilusão: é a sua vida, vivida com compromisso por um Deus que anseia por transformar você na pessoa que, desde a eternidade, Ele idealizou que você se tornasse.

Então se levanta. Feche o livro. E vai viver o sonho, não mais como alguém que escapa da realidade, mas como quem finalmente despertou para o Verdadeiro — pois o verdadeiro sentido de sonhar não reside em quem dorme para ter sonhos melhores; é aquele que, enfim, acorda dentro do Sonho Divino, e descobre, perplexo, que era isso o tempo todo: que a glória que temia que Deus lhe negasse era, desde sempre, a única coisa que Deus sempre desejou oferecer. Tu nos criaste para Ti, Senhor, e nossos anseios agitados foram, ao longo de toda a vida, a Tua voz nos convocando para o lar — e eis que o lar possui uma porta, e a porta tem um nome, e o nome é Jesus Cristo, o Sonhador que adentrou o sonho para que o sonho, finalmente, pudesse entrar n'Ele. A Ele, o primogênito e o encerramento de todos os santos do sonhar, o Criador e o Destino de todos os sonhos bons, a honra, a glória e a coroa, agora e na terra eterna para a qual, de página em página, sempre tivemos o retorno. Assim seja.

Referências

A BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus. Gênesis (11, a Torre de Babel e a confusão das línguas); Deuteronômio (28, as bênçãos e maldições da aliança); Provérbios (8, a Senhora Sabedoria brincando diante de Deus na fundação do mundo); Isaías (45, 5-7, eu formo a luz e crio as trevas, eu faço a paz e crio o mal; fora de mim não há Deus); Evangelho segundo Mateus (13, 43, os justos resplandecerão como o sol; 17, 1-8, a Transfiguração no Tabor; 23, 27, os sepulcros caiados); Evangelho segundo Lucas (1, 38, faça-se em mim segundo a tua palavra); Evangelho segundo João (1, 1-14, o Verbo se fez carne e nós vimos a sua glória; 12, 24, o grão de trigo que morre e dá fruto; 20, 19-29, o Ressuscitado entra de portas trancadas); Primeira Epístola aos Coríntios (1, 24, Cristo, poder de Deus e Sabedoria de Deus; 15, 42-44, semeia-se corpo animal, ressuscita corpo espiritual); Segunda Epístola aos Coríntios (3, 6, a letra mata, o Espírito vivifica); Epístola aos Gálatas (3, 13, Cristo fez-se maldição por nós); Epístola aos Colossenses (1, 17, n'Ele todas as coisas subsistem); Segunda Epístola de São Pedro (1, 4, partícipes da natureza divina); Apocalipse (12, a Mulher vestida de sol; 21, o céu novo e a Nova Jerusalém, e Deus enxugará toda lágrima).

AGOSTINHO DE HIPONA. Confissões (fizeste-nos para Ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti; amor meus, pondus meum — o meu amor é o meu peso; Deus mais íntimo a mim do que eu mesmo). A definição de Deus como a esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência em lugar nenhum é retomada da tradição (o Livro dos Vinte e Quatro Filósofos) pela teologia medieval.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica (as ideias divinas e os mundos possíveis no Verbo; a participação e a analogia do ser; a graça que aperfeiçoa a natureza; a visão beatífica); Suma Teológica, Suplemento, qq. 82-85 (os dotes do corpo glorioso: impassibilidade, sutileza, agilidade e claridade).

AUROBINDO, Sri (Aurobindo Ghose). A Vida Divina; A Síntese dos Yogas (a ioga integral; a supermente; a divindade inerente e a descida da superconsciência).

BOHM, David. A Totalidade e a Ordem Implicada (Wholeness and the Implicate Order, 1980) (a ordem implícita e a ordem explícita; a metáfora do holograma; o todo contido em cada parte).

DICK, Philip K. Cosmogonia e Cosmologia (Cosmogony and Cosmology); A Exegese de Philip K. Dick (a revolta contra o sofrimento gratuito; o tirano brutal que nem mesmo está vivo).

DOWNARD, James Shelby; HOFFMAN, Michael A. Secret Societies and Psychological Warfare; HOFFMAN, Michael A. Twilight Language (a linguagem crepuscular; os macrorrituais; a mulher divina e a Sabedoria de Deus).

EINSTEIN, Albert. Sobre a Teoria da Relatividade Especial e Geral (a gravidade como curvatura do tecido do espaço-tempo).

EMPÉDOCLES DE ACRAGAS. Fragmentos, apud OSBORNE, Catherine. Filosofia Pré-Socrática: uma brevíssima introdução (a philia e o neikos; o ciclo cósmico; nos extremos, o mundo mágico cheio de criaturas fantásticas).

FORT, Charles. O Livro dos Danados (The Book of the Damned, 1919) (a recusa da distinção entre ficção e não ficção; estamos todos vivendo na história de alguém, e não uma particularmente boa).

GAIARSA, José Ângelo. Textos sobre a visão e a palavra, os quadrinhos e a arte sequencial (desaprendemos a ver na medida em que aprendemos a falar; teoria e intuição significam etimologicamente ver; a arte sequencial sempre apareceu em contexto espiritual).

JORJANI, Jason Reza. Closer Encounters; Prometheus and Atlas; Novo Aeon (a revolução espectral; o fenômeno OVNI; o apocalipse deflagrado).

JUNG, Carl Gustav. Aion; Psicologia e Alquimia; Sincronicidade (o arquétipo e a imagem arquetípica; o aspecto psicóide do arquétipo; o self; o Unus Mundus), com a colaboração de Wolfgang Pauli no conceito de sincronicidade.

KAZANTZAKIS, Nikos. Ascética: Salvatores Dei (O Salvador de Deus) (a vida como serviço militar de Deus; o Deus sepultado na matéria; o santo sepulcro é o cérebro — p. 119).

KOTZE, Jake. Brave New World Order e The Blob (blogs, de 2006 em diante) (a cunhagem do termo “sincromisticismo”; o polo e a realidade consensual; o megarritual). Ver ADACHI, Goro. Etemenanki (a correlação sincronística dos acontecimentos; o zigurate de Marduk e a Torre de Babel).

KRIPAL, Jeffrey J. Mutantes e Místicos (Mutants and Mystics, 2011) (a super-história e os seus mitemas, inclusive a realização e a autorização; Charles Fort; os siddhas e Mahavira, o grande herói; Aurobindo e a divindade inerente).

LAND, Nick; CCRU (Cybernetic Culture Research Unit). Writings (a hiperstição: a ficção que, circulando como profecia, se realiza).

LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Monadologia; Ensaios de Teodiceia (as mônadas, cada uma espelhando o universo; a infinidade dos mundos possíveis no entendimento divino; a unidade na multiplicidade).

MANDELBROT, Benoît. A Geometria Fractal da Natureza (The Fractal Geometry of Nature, 1982) (a autossimilaridade; a unidade na multiplicidade).

ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano; O Mito do Eterno Retorno (o Axis Mundi, o centro do mundo, os polos e a queda do centro).

REICH, Wilhelm; SCHAUBERGER, Viktor. Escritos sobre a energia primordial e a implosão (a força centrípeta como força da coesão, oposta à entropia).

SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman (o herói que desce do céu com poder e escolhe servir). WARNER BROS. TELEVISION. Superman & Lois (3ª temporada: o diagnóstico de câncer de Lois Lane e o escândalo do poder impotente diante da dor).

TEILHARD DE CHARDIN, Pierre. O Fenômeno Humano (a evolução convergente; o Ponto Ômega; Cristo como centro e termo da criação).

TIPLER, Frank J. A Física da Imortalidade (The Physics of Immortality, 1994) (o Ponto Ômega identificado com Cristo; a ressurreição dos mortos; os seres fantásticos e imortais da consumação).

TOLKIEN, J. R. R. Sobre Histórias de Fadas; Mythopoeia (a subcriação; a eucatástrofe; os mitos como verdades vislumbradas e o Evangelho como o mito que de fato aconteceu).