Por que os ETs são impossíveis e a ideia mais plausível é que essas coisas sejam demônios?
Por trás da imagem contemporânea da ufologia e da exploração espacial, esconde-se um fenômeno que é muito mais antigo e inquietante. Este ensaio levanta uma hipótese teológica cautelosa: os relatos de contatos e abduzidos por extraterrestres não descrevem seres de outros planetas, mas sim a ação milenar de enganadores espirituais que, a cada época, ajustam suas fantasias.
Gabriel G. Oliveira
6/10/202636 min ler


A MÁSCARA DO ROSTO VELHO
Por que o "alienígena" dos relatos de contato se comporta como espírito enganador, em vez de agir como um morador de outro planeta, considerando uma hipótese teológica cautelosa à luz da física, psicologia e demonologia cristã?
Inicie pela situação que todos evitam encarar diretamente. Um homem se desperta durante a noite e é incapaz de mover qualquer dedo. Tem algo no quarto. Sombras pálidas ao lado da cama, com olhos grandes e profundos, um zumbido, flashes de luz, e a impressão de estar levitando. Em seguida, ocorrem os exames, o toque, o conteúdo sexual ou reprodutivo, e, por último, a "memória recuperada" sob hipnose. Se você questionasse um americano de 1850 sobre o que ocorreu, ele responderia: bruxa, demônio, íncubo. Se você questionar um americano de 1995, ele responderá: cinza, abdução, nave. Cama igual. <output=Terror idêntico.> Vestimenta renovada. Esta é a evidência que estrutura tudo o que se segue, e a tese que defendo neste contexto não é a de que a ciência comprovou que alienígenas são demônios, pois isso não foi demonstrado, e aqueles que fazem tal afirmação estão mentindo ou se iludindo. Em vez disso, apresento uma alegação mais modesta, porém perturbadora: os "alienígenas" dos relatos de abdução, canalização, contato revelatório, ritual ocultista e experiência espiritualmente transformadora não se comportam como seres biológicos de outro planeta. Agem como se fossem inteligências sobrenaturais, anjos decaídos, demônios e espíritos enganadores, aparecendo no mundo material com formas que se ajustam à imaginação de cada época.
Preciso definir o tom antes de avançar, pois a cautela neste caso não é medo: é uma abordagem. Não digo que a Igreja considere isto um dogma. Não digo que cada estrela no céu seja um demônio. Não estou dizendo que qualquer um que tenha uma experiência desse tipo esteja possuído, esteja mentindo ou esteja maluco. Vou propor uma hipótese teológica que é prudente, sólida e defensável, mas ainda assim uma hipótese. Ao longo do desenvolvimento deste argumento, vou indicar os níveis de confiança que tenho, sempre com a sinceridade de quem prefere um "não sei" verdadeiro a um "eu provei" falso. A tese central é confiável em um alto nível. As leituras de casos individuais apresentam um nível de confiança que varia de médio a baixo. O juízo final consiste em discernimento, e não em condenação.
Vamos começar fechando a porta que todos costumam deixar aberta: a porta da nave. A noção de que seres biológicos podem viajar através do vazio entre as estrelas para investigar fazendeiros do Kansas esbarra em uma barreira que não é de natureza teológica, mas sim física. A velocidade da luz não é um limite que se pode ultrapassar com a tecnologia adequada; é, na verdade, a fronteira inerente à própria estrutura do universo. O portal Einstein Online, que é mantido pelo Instituto Max Planck de Física Gravitacional, afirma de maneira clara que a luz "define um limite absoluto de velocidade: na relatividade especial, nada pode se mover mais rápido que a luz, e informação ou influência podem ser transmitidas no máximo à velocidade da luz". Não é que ultrapassar seja algo complicado; é que fazê-lo destrói a relação de causa e efeito. Aqueles que afirmam a criação de uma espaçonave capaz de superar esse limite estão, sem se dar conta, prometendo uma máquina que chega a seu destino antes mesmo de iniciar a jornada. Einstein-Online
Além disso, existe a questão da massa, que o Fermilab expõe de forma direta: partículas que possuem massa não conseguem atingir a velocidade da luz, uma vez que, à medida que são aceleradas, sua energia aumenta indefinidamente. Seria necessário, nas palavras do físico Robert Plunkett, do Fermilab, "uma quantidade infinita de energia para fazer qualquer coisa ir mais rápido que a luz". Incontável. Não "muita". Não "além do nosso orçamento atual". Incontável. Uma civilização que quisesse nos visitar pessoalmente precisaria, portanto, de uma série de avanços tecnológicos impressionantes: manipulação do espaço-tempo, buracos de minhoca que possam ser atravessados de forma estável, geração de energia em níveis que beiram o inconcebível, controle preciso da gravidade, proteção contra radiação cósmica mortal, navegação interestelar com precisão absoluta ao longo de trilhões de quilômetros, e suporte biológico para manter um organismo vivo por períodos que desafiam qualquer metabolismo. Cada um desses elementos é, atualmente, uma obra de ficção. Coloque todos em cima uns dos outros e você não tem conhecimento: tem crença em uma cerimônia de impossibilidades. Live Science
As longas distâncias tornam a conta ainda mais pesada. De acordo com a NASA, Proxima Centauri, a estrela mais próxima do Sol, está localizada a 4,25 anos-luz de distância. Quando escrito assim, em quatro letras, parece pouco. No entanto, a própria NASA, em seu site Imagine the Universe, aponta que, se viajássemos na velocidade da sonda Voyager, que é de aproximadamente 17,3 quilômetros por segundo, o objeto mais veloz já lançado pela humanidade, "levaria mais de 73 mil anos para chegar" a Proxima Centauri. Levaríamos setenta e três mil anos para chegar ao vizinho mais próximo, e Proxima Centauri não possui um planeta confirmado como habitável, pois orbita uma anã vermelha que lança erupções capazes de esterilizar qualquer atmosfera. A vizinhança cósmica não é um bairro; é um deserto interminável.
Mesmo se a viagem fosse viável, ainda haveria a questão biológica. Habitabilidade não se resume a "ter água"; trata-se de uma teia densa e delicada de condições que devem ocorrer ao mesmo tempo. A NASA caracteriza a vida como algo que depende de água líquida, uma fonte de energia, nutrientes, e de uma combinação improvável que envolve uma estrela, um planeta e todo o sistema, incluindo um campo magnético, uma atmosfera, uma órbita estável e a química apropriada. A própria NASA é clara a ponto de quase frustrar o aficionado: "ainda não descobrimos vida em nenhum outro planeta, e não vimos nenhuma evidência cientificamente sustentada de vida extraterrestre". A única vida que temos experiência é esta. E quando o tema transita do vasto céu para o espaço aéreo logo acima de nossas cabeças, a narrativa continua com o mesmo enredo. Nasa
Aqui se insere o elemento documental mais crucial e, ao mesmo tempo, mais negligenciado do debate contemporâneo. No mês de março de 2024, o AARO, que é o All-domain Anomaly Resolution Office, escritório do Pentágono encarregado da apuração de fenômenos anômalos não identificados, lançou o primeiro volume de seu Relatório Histórico, que abrange todas as investigações do governo dos EUA desde 1945. A conclusão, após a análise de documentos sigilosos e públicos, além de muitas entrevistas, foi clara e objetiva: não há evidência empírica de que avistamentos representem "tecnologia de outro mundo", nenhum programa secreto de engenharia reversa de naves alienígenas, nenhum artefato extraterrestre escondido. Até agora, o AARO não descobriu nenhuma evidência que comprove as alegações de que o governo dos EUA e empresas privadas tenham acesso ou tenham realizado engenharia reversa em tecnologia extraterrestre, declarou o porta-voz do Pentágono, major-general Pat Ryder, em 8 de março de 2024. O trabalho de investigação não se limitou a isso: no relatório anual de novembro de 2024, o diretor do AARO, Jon Kosloski, explicou que, dos mais de 1.600 casos analisados, centenas foram identificados como objetos comuns, como balões, aves, drones, satélites e aeronaves, mas mais de 900 ainda não tinham informações científicas suficientes para uma avaliação. Essa necessidade é o aspecto central, e não um pormenor.
Aquilo que o AARO representa é, na verdade, a norma forense que todos os aficionados deveriam ter gravada em mente: a ausência de identificação não implica que seja extraterrestre. "Não sei o que é" é uma declaração de desconhecimento, não uma identificação positiva. Converter uma ausência de dados em uma afirmação sobre a existência de naves alienígenas é a falácia mais barata que existe, semelhante àqueles que descobrem uma pegada desconhecida e proclamam a existência de um dragão. O "U" de UAP e de UFO representa unidentified, e não unearthly. Equivocar os dois é substituir a humildade do pesquisador pela arrogância do crente. É precisamente nesse espaço, entre o que permanece sem explicação e aquilo que se deseja acreditar, que reside todo o restante da narrativa.
Se a nave física foi descartada pela física, e o "não identificado" não autoriza o salto para o extraterrestre, resta a questão sincera: então o que diabos as pessoas estão vivendo? Pois elas estão passando por uma experiência. Os relatos existem, são na maior parte sinceros, e têm uma estrutura assustadoramente uniforme. É nesse ponto que a psicologia se envolve, não como uma autoridade que desvenda o mistério com um simples toque, mas como um recurso para descrever a natureza humana.
A pesquisa que mais recebeu citações nessa área teve origem em Harvard. Os psicólogos Susan Clancy e Richard McNally, que foi o orientador de doutorado dela, investigaram indivíduos que afirmavam ter sido abduzidos por alienígenas e descobriram um padrão bastante consistente em seus relatos. O Harvard Gazette relata a história de um indivíduo conhecido como "Mark H.", que, ao despertar, encontrou-se incapaz de se mover, exceto pelos olhos. Ele então testemunhou luzes piscando, ouviu zumbidos, sentiu a sensação de flutuar e levitar, e percebeu a presença de figuras não humanas ao seu lado na cama. Somente mais tarde, sob hipnose, "recuperou" a memória de ter sido levado a uma nave, examinado e de ter feito sexo com um dos seres. McNally é preciso: estamos diante da paralisia do sono com alucinações hipnopômpicas, que ocorre quando se acorda antes que a paralisia natural do sono desapareça. "É um pouco como um soluço no cérebro. É inofensivo", afirmou ele ao Harvard Gazette, acrescentando que 20% da população experimentará paralisia do sono ao menos uma vez. A hipnose, em vez de revelar a verdade, muitas vezes a cria: Clancy observou que essas "memórias recuperadas" são memórias distorcidas de coisas que a pessoa leu ou viu, costuradas por "um roteiro cultural amplamente compartilhado", de "Arquivo X" a livros e filmes.
Observe a estrutura repetitiva, pois ela é fundamental para todo o argumento: despertar imobilizado, perceber uma presença, observar figuras ao lado da cama, luzes, zumbidos, a sensação de levitação, os exames corporais, o contato sexual ou reprodutivo, e a memória "completa" só recuperada depois, por hipnose. Agora coloque essa lista em comparação com o que as eras anteriores descreviam. Na Idade Média, essa mesma cena recebia outros nomes: o íncubo que se deita sobre a pessoa, o súcubo, a bruxa e o demônio noturno. No contexto da cultura contemporânea, ela se transformou no alienígena, no cinza, na abdução e na nave espacial. No ocultismo, transformou-se na entidade astral, na inteligência não humana e no ser interdimensional. O enredo é imutável. O traje é de época. Quando uma narrativa percorre séculos, mudando apenas a indumentária, a explicação que realmente faz sentido não é "as fantasias mudaram"; é "há algo por baixo das fantasias".
É nesse momento que a teologia católica solicita a palavra, e o faz de maneira metódica, sem histeria. Nos parágrafos 391 a 395 do Catecismo da Igreja Católica, é ensinado que os demônios são anjos que Deus criou bons, mas que se tornaram maus "por sua própria escolha", numa rejeição "radical e irrevogável" de Deus e de seu reino. O texto refere-se ao diabo, mencionando o Evangelho de João, como "mentiroso e pai da mentira" e "homicida desde o princípio", além de apontar sua ação mais grave como "a sedução mentirosa que levou o homem a desobedecer a Deus". Pare um instante na palavra: sedução. Sem chifres, sem fumaça, sem cabeça rodante. Encantamento. A representação bíblica do inimigo não é a de um monstro que causa medo, mas a de um impostor que persuade. Um verdadeiro impostor não se apresenta como tal.
É a partir disso que se forma uma série de critérios de discernimento que realmente merecem ser explorados na íntegra, pois são esses critérios que conseguem distinguir uma hipótese válida de um simples delírio. Sinais que, quando vistos em conjunto em um relato de "contato", deveriam fazer soar um alarme amarelo para o teólogo cauteloso. Em primeiro lugar, a mensagem contrária ao cristianismo surge quando o "ser de luz" afirma que Cristo foi apenas um entre muitos mestres, ou um equívoco. Em segundo lugar, a necessidade de uma nova revelação obrigatória, uma verdade superior que torna o Evangelho obsoleto. Em terceiro lugar, temos o ritual de invocação, que é o contato que só ocorre quando é intencionalmente chamado através de práticas mágicas, mediúnicas ou de canalização. Quarto, frutos negativos, temor, obsessão, quebra de relacionamentos, desespero, ao invés de paz e amor. Quinto, a transgressão física ou sexual, junto à repetição do aspecto reprodutivo e à invasão do corpo. Sexto, a repulsa ao que é considerado sagrado, a criatura que se afasta diante da oração, do nome de Cristo e dos sacramentos. Por último, há a linguagem da falsa luz, a retórica de "iluminação", "elevação", "evolução da consciência" que embrulha a mensagem num papel celofane espiritual. Um único sinal não é suficiente para comprovar nada. A repetida coincidência dos sete, em relação ao mesmo enredo que se estende por séculos, é exatamente o que converte uma simples curiosidade em um argumento sólido.
Há um exemplo histórico que destaca tanto a eficácia quanto as limitações dessa interpretação, e que nos ajuda a evitar a armadilha de converter uma hipótese em um dogma. No dia 3 de junho de 2026, o arcebispo de Washington, cardeal Robert McElroy, decidiu afastar monsenhor Stephen Rossetti, que atuou como exorcista da arquidiocese por dezenove anos e é formado em psicologia, de suas funções como exorcista. Essa decisão veio após Rossetti ter afirmado, em um vídeo datado de 29 de maio, que "é minha crença pessoal que provavelmente muitos, se não a maioria, desses avistamentos de UFOs são, na verdade, demônios". O cardeal foi claro ao afirmar que as declarações "ligando UFOs à presença demoníaca" e o uso recente das redes sociais pelo centro de Rossetti "minam gravemente o ensinamento muito preciso da Igreja sobre o diabo, os demônios e o exorcismo". Rossetti pediu desculpas e se comprometeu a obedecer. O episódio é valioso precisamente porque atua em duas frentes: evidencia que a ideia demonológica do "alienígena" é aceita até mesmo por exorcistas experientes, ao mesmo tempo em que revela que a Igreja, enquanto instituição, se recusa a torná-la uma declaração oficial e definitiva. A cautela da Igreja não é covardia; é saber que a alma humana é um campo sagrado demais para se aventurar em opiniões precipitadas.
É importante ressaltar uma precisão histórica que refuta um anacronismo frequente. Os exorcistas do passado não mencionavam "extraterrestres". Discutiam sobre demônios, íncubos e súcubos; a demonologia possuía o léxico de seu tempo. Alguns exorcistas atuais começaram a ver o fenômeno dos OVNIs como uma forma de disfarce demoníaco, mas essa é uma interpretação recente e não uma doutrina universal da Igreja. O protocolo da própria Igreja requer uma prudência que faz parecer o sensacionalismo algo vergonhoso. De acordo com a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, a USCCB, o exorcismo maior pode ser realizado apenas por um bispo ou por um sacerdote que tenha a permissão expressa do ordinário local. É importante ressaltar que somente "após um exame minucioso, incluindo testes médicos, psicológicos e psiquiátricos" é que uma pessoa pode ser encaminhada ao exorcista. Primeiramente, o médico. Começamos com o psiquiatra. Somente posteriormente, e apenas se houver algo que não possa ser explicado, é que entra o teólogo. A Igreja que pratica o exorcismo é a mesma que solicita um laudo médico antes de realizá-lo. É essa humildade que não existe nem no entusiasta de um extremo nem no do outro.
Antes de prosseguir, é importante confrontar as hipóteses alternativas, pois uma tese que apenas se dedica a refutar argumentos fracos não merece o papel em que está escrita. Existem pelo menos sete maneiras de descrever o que nos referimos como "fenômeno alienígena", e é fundamental reconhecer a verdade que cada uma delas possui. Primeiro, há o objeto natural ou cotidiano: balões, planetas, pássaros, drones, reflexos, eventos atmosféricos. Maravilhosamente, a maior parte dos avistamentos aéreos foi explicada pelo AARO, mas a experiência íntima e organizada do contato em um quarto fechado ainda não foi esclarecida. Alta confiança no que se propõe a esclarecer. O segundo aspecto é o erro de percepção e psicológico: paralisia do sono, alucinações hipnopômpicas, memórias falsas e sugestão hipnótica. Descreve de maneira brilhante a fenomenologia da abdução clássica, que é a contribuição de Harvard, mostrando uma grande confiança nesse aspecto; no entanto, enfrenta dificuldades quando se trata de casos que envolvem várias testemunhas ou evidências físicas. A terceira categoria é composta por fraudes e simulações: pessoas que mentem, inventam ou encenam em busca de dinheiro, notoriedade ou por uma ideologia. Ela existe, está documentada e possui uma alta confiabilidade como parte da explicação, mas não abrange os testemunhos honestos de indivíduos que não têm nada a ganhar com isso. A quarta é a tecnologia humana oculta: modelos experimentais de armamentos, veículos aéreos não tripulados e sistemas de monitoramento. Real, e o AARO mesmo dá crédito a ela em parte dos casos; confiança moderada. A quinta possibilidade refere-se à existência de vida extraterrestre, mas sem qualquer tipo de contato, como microrganismos presentes em alguma lua ou talvez formas de vida inteligente que estão muito distantes e que nunca nos visitaram. Embora seja cientificamente viável como uma possibilidade, como discutimos, não consegue explicar encontros físicos. A confiança na sua existência é moderada, mas a de que haja contato é extremamente baixa. A sexta é a hipótese de origem preternatural ou demoníaca, a qual eu apoio como interpretação do núcleo revelador e ritualístico do fenômeno. A sétima, que eu vejo como a mais realista, é a combinação: o "fenômeno alienígena" não é uma coisa só, mas um arquivo onde convivem balões, mentiras, soluços neurológicos, segredos militares, e, num subconjunto específico e qualitativamente distinto, algo que se comporta como inteligência enganadora. A tese demonológica não precisa abranger todos os aspectos. É necessário esclarecer o que as outras seis deixam implícito: o conteúdo, a mensagem e a estrutura espiritual da interação.
Dito isso, podemos refutar a ideia de que "são alienígenas" em cinco etapas claras. Em primeiro lugar: com a física que conhecemos, as visitas interestelares são, de fato, quase impossíveis devido à barreira da velocidade da luz, à necessidade de uma quantidade infinita de energia e às vastas distâncias envolvidas. Em segundo lugar, as agências que mais se dedicaram a investigar o assunto, a NASA e a AARO, não encontraram nenhuma prova concreta de vida ou tecnologia extraterrestre nos avistamentos. Terceiro: a vivência subjetiva do "contato" possui uma estrutura psicológica bem definida e, ano após ano, repete o mesmo enredo com diferentes fantasias. Quarto: quando se trata de mensagens, se é que elas existem, o conteúdo é sempre de natureza espiritual, anti-cristão e sedutor, e não científico ou técnico. Quinto: portanto, a explicação mais adequada para o núcleo revelador do fenômeno não é a origem biológica distante, mas sim a presença espiritual imediata, uma inteligência que se molda à imaginação de quem a experimenta. A conclusão não se resume a afirmar que "alienígenas são demônios, ponto". O que se apresenta como um alienígena revelador age da mesma forma que o antigo espírito do engano.
É fundamental, então, traçar um caminho que nos leve às Escrituras, pois é nelas que o critério se torna mais preciso. A Primeira Carta de João, capítulo 4, apresenta a regra fundamental para discernir: "não acrediteis em todo espírito, mas provai os espíritos para ver se são de Deus". O teste não se baseia na estética ou nas emoções, mas sim em Cristo. O espírito que reconhece Jesus Cristo como tendo vindo em carne é de Deus; aquele que não reconhece, não é. Claro, incisivo e destrutivo quando se trata de mensagens recebidas por canalização. Na Segunda Carta de Paulo aos Coríntios, capítulo 11, ele encerra a argumentação com uma imagem que deveria guiar toda a discussão: "o próprio Satanás se disfarça de anjo de luz". Não é um anjo das trevas. Do anjo radiante. A máscara do adversário não é o medo; é a magnificência. É o ser luminoso que traz um ensinamento profundo.
Qual é a mensagem que se transmite ao ler o que os "alienígenas" reveladores efetivamente dizem aos seus contatados? Trata-se de um contraevangelho repleto de elementos recorrentes, e é válido enumerá-los um a um, uma vez que a semelhança é bastante evidente: "nós criamos vocês", a substituição de Deus criador por engenheiros genéticos cósmicos. "Jesus foi um mestre cósmico", o rebaixamento do Verbo encarnado a um instrutor entre outros. "A Bíblia é uma codificação extraterrestre", a Escritura convertida em um guia criptografado para astronautas. "A salvação vem da evolução da consciência", a graça substituída por uma ascensão mental autoinduzida. "A moral cristã é primitiva", o mandamento desfeito como um retrocesso na evolução. "Aceitem a revelação galáctica", a crença cedendo lugar à submissão a uma nova potência originária do firmamento. Quando você compara isso, ponto por ponto, com o teste de João e com o anjo de luz de Paulo, as semelhanças deixam de ser intrigantes e passam a ser perturbadoras. O contraevangelho extraterrestre é, em cada aspecto, a refutação do Evangelho, e essa refutação disfarçada de luz, tal como foi alertado.
A interpretação católica do fenômeno, por sua vez, propõe uma inversão na formulação da pergunta, que se torna a chave para todo o ensaio. Ao invés de questionar "por que um demônio apareceria como alienígena?", faça a pergunta inversa: por que ele não apareceria como alienígena, em um período em que a imaginação coletiva substituiu o céu teológico pelo vasto espaço sideral? O Catecismo é claro ao rejeitar a ideia de que os demônios possam ser considerados como metáforas: eles são entidades pessoais que caíram, e não meramente símbolos do mal ou "energia negativa" da moda terapêutica. Se de fato são inteligências individuais que agem por meio da sedução, então elas se apresentam com a mais alta autoridade de cada período. Existe uma equação que ilustra esse comportamento de maneira quase cruel: o demônio toma a forma da autoridade suprema da época em que age. Na Antiguidade, quando o divino era o supremo poder, ele surgiu como um deus pagão. Na Idade Média, quando a autoridade estava ligada ao reino dos espíritos, ele manifestou-se como um espírito, íncubo ou súcubo. No mundo moderno, quando a ciência se tornou a principal fonte de autoridade, ele aprendeu a se expressar como a ciência faz. No século XX e XXI, quando a maior autoridade se tornou a tecnologia do cosmos, a nave espacial, o ser superior do espaço e a inteligência de outros mundos, ele surgiu como um extraterrestre. A imaginação se transforma à medida que a crença se altera. O ator continua o mesmo.
A metafísica que fundamenta isso não é um improviso devoto; é obra de Tomás de Aquino. Na Suma Teológica, Parte I, questão 51, Tomás aborda precisamente a questão de como os seres espirituais se manifestam no mundo material. A resposta é que os anjos não possuem corpos que lhes sejam naturalmente inseparáveis, sendo entidades distintas e puramente intelectuais. No entanto, eles têm a capacidade de assumir formas corpóreas temporárias para interagir com os seres humanos. Existe um antigo e esclarecedor debate: Agostinho se referia aos demônios como seres ligados a "corpos aéreos", de matéria sutil; por sua vez, Tomás esclarece a doutrina afirmando que o anjo não se une a esse corpo como sua forma, uma vez que o corpo assumido não possui vida, não vê, não ouve, não se alimenta e não copula de fato, mas é capaz de mover e moldar esse corpo como um instrumento para sua manifestação. Translating this into contemporary terms, the "alienígena" becomes apparent in its essence within this hypothesis: it takes on a specific form, acts as a perceptible ghost, is an image that can be manipulated, serves as a psychic mask, and manifests as a preternatural phenomenon. O tipo fenomenológico permanece constante, com inteligências não humanas manifestando-se em formas que se ajustam ao receptor. O cinza de grandes olhos é o corpo etéreo do século XXI.
A demonologia oficial da Igreja, bem distante de ser um folclore, foi abordada em um documento sóbrio. Em 1975, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou o estudo intitulado "Fé Cristã e Demonologia", que foi recomendado como um "fundamento seguro" para reafirmar o ensinamento do Magistério. O texto reafirma uma questão que destrói tanto o materialista quanto o supersticioso: a presença do diabo não pode ser considerada apenas uma representação simbólica ou uma maneira poética de se referir ao mal inerente ao ser humano. O diabo existe de forma concreta e individual. No entanto, e aqui está o aspecto adicional que o entusiasta tende a negligenciar, o mesmo documento refuta a "preocupação obsessiva com Satanás" e a superstição. A Igreja acredita na existência do inimigo e, por essa razão, se recusa a identificá-lo em todas as sombras. A argumentação presente no documento sustenta de maneira direta nossa tese: caso o demônio seja verdadeiro e atue por meio de disfarces, sedução, sugestões, medo, fascínio e doutrinas enganosas, é improvável que ele apareça "como demônio". Manifestar-se-ia como qualquer coisa capaz de conquistar a confiança, especialmente como o radiante visitante de um mundo diferente.
Os padrões que os exorcistas contemporâneos observam nos casos que lidam são um eco, sem uma prova definitiva, mas com uma semelhança inquietante, da fenomenologia do "contato": a presença noturna, o terror paralisante, a manipulação sexual, as vozes, as mensagens blasfemas, a aversão à oração, a perda de controle, os fenômenos físicos inexplicados, a obsessão mental que vai estreitando a vida da pessoa até o isolamento. Não quero afirmar que toda abdução se trata de possessão, pois isso não é verdade; na verdade, a maioria delas provavelmente se resume a paralisia do sono e a influências culturais. Affirmo que, naquele subconjunto qualitativamente distinto onde surge a mensagem espiritual e o fruto negativo, a compatibilidade entre o padrão "alienígena" e o padrão demonológico é teologicamente forte. Intensa, mas não total. Compatibilidade não significa ser idêntico, e é por essa razão que a Igreja orienta a procurar um médico antes de um exorcista. É precisamente a sistemática, constante e estruturada compatibilidade que um investigador íntegro não pode se dar ao luxo de ignorar.
É aqui que as coisas realmente começam a ficar estranhas, pois o "cinza", a figura canônica do alienígena moderno, cabeça enorme, olhos negros amendoados, corpo franzino, não nasceu num campo de trigo nem num radar militar. Veio ao mundo em um rito de magia cerimonial, muitos anos antes de se tornar um símbolo da cultura de massa. No ano de 1918, em Nova York, o ocultista britânico Aleister Crowley realizou uma série de rituais mágicos denominados Amalantrah Working e elaborou o retrato de uma entidade que afirmava ter contatado. O desenho recebeu o título de "The Way", que significa "O Caminho" em português, e que em tibetano é chamado de Lam. Feito em 1918, o desenho saiu em 1919 como frontispício ao comentário de Crowley sobre "A Voz do Silêncio", de Blavatsky. O rosto que ele retratou é, com várias décadas de antecedência, o rosto do "grey" que o cinema e a ufologia popularizariam só a partir dos anos 1960.
É fundamental não confundir dois aspectos que a cultura pop frequentemente mistura. A entidade que revelou a Crowley o "Livro da Lei", o Liber AL vel Legis, o texto central do Thelema, ditado, segundo Crowley, no Cairo, entre meio-dia e uma da tarde, nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, por uma voz que se dizia chamar Aiwass, a quem ele depois identificaria como seu "Santo Anjo Guardião", essa entidade é Aiwass, não Lam. Lam, que tem a aparência de "cinza", está associada ao desenho de 1918, às operações de Amalantrah e foi revisitada muitos anos depois pelo ocultista Kenneth Grant. São dois contatos diferentes com o mesmo indivíduo: Aiwass, a voz da revelação; Lam, a imagem do portal. Confundi-los resulta na perda da clareza que fortalece o argumento, e este, neste caso, não necessita de exageros, mas sim de precisão.
O aspecto que realmente importa, tanto em termos cronológicos quanto em sua natureza devastadora, é que o "alien grey" aparece no ambiente da magia cerimonial antes de se consolidar na cultura ufológica de massa. Ou seja, a figura do alienígena revelador não surgiu inicialmente a partir da observação do espaço, para então ser interpretada de maneira mística; ela teve sua origem primeiramente em rituais, na canalização, na magia sexual, no espiritismo, e somente depois foi incorporada ao cinema, aos tablóides e aos relatos de abdução. O ser extraterrestre teve sua origem, em grande parte, dentro do círculo mágico. A pessoa que o introduziu neste mundo compreendia claramente que se tratava de uma inteligência não humana, obtida através de métodos esotéricos, e não de um astronauta feito de carbono.
Foi Kenneth Grant, que atuou como secretário de Crowley em 1945 e posteriormente estabeleceu sua própria vertente, conhecida como a linha tifoniana, quem elaborou Lam de uma mera curiosidade para um verdadeiro sistema. Em "The Magical Revival", publicado em 1972, Grant trouxe novamente à tona a figura de Lam; e ao longo de suas "Trilogias Tifonianas", uma série de nove volumes que incluem "The Magical Revival" (1972), "Aleister Crowley and the Hidden God" (1973) e "Cults of the Shadow" (1975), bem como "Nightside of Eden" (1977), "Outside the Circles of Time" (1980), "Hecate's Fountain" (1992), "Outer Gateways" (1994), "Beyond the Mauve Zone" (1999) e "The Ninth Arch" (2002), ele expandiu enormemente o conceito de Lam, muito além do que Crowley havia mencionado, tratando-o como uma inteligência preter-humana e extraterrestre, um verdadeiro portal para o Vazio. No livro "Outside the Circles of Time", Grant chega a descrever Lam como um elo entre sistemas estelares; e na declaração que emitiu em 1987, "The Lam Statement", com um prefácio de seu discípulo Michael Staley, estabeleceu um autêntico "culto de Lam" dentro de sua ordem, sugerindo utilizar a imagem como um ponto de concentração para "viajar ao domínio de Lam" e "explorar espaços extraterrestres".
Grant também realizou algo que encerra o ciclo de maneira inquietante: ele entrelaçou o Thelema, as entidades não humanas e a ficção de terror cósmico de H. P. Lovecraft em um único pano. Segundo Grant, os "Grandes Antigos" de Lovecraft, Cthulhu e companhia, não eram mera invenção literária, eram registros inconscientes de contatos reais com inteligências preter-humanas. No ensaio de 1971 intitulado "Dreaming Out of Space", ele mencionou que Lovecraft e Crowley, sem se conhecerem, estavam ambos "em contato com uma fonte de poder, uma Inteligência preter-humana". Henrik Bogdan, Gordan Djurdjevic e Peter Levenda, especialistas em religião, descrevem essa combinação como uma "gnose lovecraftiana" em sua obra "The Dark Lord", e ressaltam que Grant intencionalmente confundia os limites entre realidade e ficção. É justamente esse borrão que desperta interesse: dentro da corrente tifoniana, o alienígena assume o papel de uma entidade de iniciação, e essa iniciação segue uma lógica de inversão espiritual que merece ser nomeada de forma direta e sem rodeios. Quanto mais peculiar e diferente um ser é, mais "elevado" ele é considerado; quanto mais distante da natureza humana, mais "transcendente"; quanto mais contrário aos princípios cristãos, mais "libertador"; quanto mais envolto em mistério, mais "iniciático". É a tabela de valores ao contrário, a mesma inversão que a tradição cristã sempre atribuiu ao pai de todas as mentiras, que faz o que é pior parecer o que é melhor e a queda parecer ascensão. John Coulthart
De maneira geral, e não apenas na obra de Grant, a magia cerimonial funciona ao invocar "inteligências não humanas", e o aspecto revelador é que essas inteligências oferecem a si mesmas uma lista intercambiável de nomes. Em uma sessão, a mesma entidade pode se apresentar como anjo; em outra, como mestre; em outra ainda, como deus; em outra, como ancestral; e, em sua vestimenta atual, como extraterrestre, arcturiano, pleiadiano, reptiliano, uma inteligência de Sirius, ou mesmo como um guardião interdimensional. A flexibilidade do crachá é a marca registrada do impostor. É precisamente devido à natureza mutável do nome que o critério de distinção não pode ser o próprio nome; deve haver algo mais. O critério autêntico reside na combinação dos frutos e da postura: qual doutrina ela ensina? Leva à humilhação ou à arrogância? Proporciona gnose, poder, mistério ou caridade? Gera tranquilidade ou temor? Faz a pessoa sentir-se mais próxima dos outros ou a afasta? O toque é carregado de conotação sexual? Leva à negação da crença? Essas questões, e não o passaporte cósmico que a entidade exibe, são o que revelam a verdadeira identidade do interlocutor.
Saia do círculo mágico do indivíduo e desça para o nível das religiões inteiras e o padrão se repete em escala. Já existe um campo de estudos acadêmicos dedicado às "religiões de OVNI", as chamadas UFO religions, e dois exemplos são suficientes para ilustrar como ocorre a substituição. O Raelismo, que teve sua origem na década de 1970 com o francês Claude Vorilhon, que adotou o nome de Raël, é o primeiro. A doutrina representa uma conversão minuciosa do cristianismo para a linguagem tecnológica: a humanidade não foi criada por Deus, mas pelos Elohim, uma raça extraterrestre de engenheiros genéticos. Raël traduz a palavra hebraica "Elohim" como "aqueles que vieram do céu". Jesus, Buda, Maomé e Moisés eram profetas semi-extraterrestres, fruto da união dos Elohim com mulheres da Terra. A criação transforma-se em engenharia genética realizada em laboratório; a ressurreição converte-se em clonagem; Raël estabeleceu a Clonaid, que, em 2002, afirmou ter clonado um bebê; a glória celestial transforma-se na nave; o templo é substituído pela "embaixada" que os adeptos desejam construir para acolher os Elohim; e Deus, o criador, é claramente substituído pelo alienígena criador. Não se trata de uma nova religião: é o Evangelho com os papéis mudados. O extraterrestre se apodera, de forma metódica, de cada lar, do espaço que outrora pertencia a Deus.
O segundo exemplo é mais sinistro, pois resultou em mortes. Heaven's Gate, o culto de Marshall Applewhite, mesclou escatologia cristã com ufologia para oferecer uma promessa singular: o próximo estágio evolutivo da alma ocorreria dentro de uma nave espacial, o "Nível Evolutivo Acima do Humano". No mês de março de 1997, acreditando que uma nave estava oculta atrás do cometa Hale-Bopp, trinta e nove membros cometeram suicídio em grupo para "deixar seus veículos", como se referiam aos seus corpos, e embarcar. Analise a estrutura do que ocorreu e você identificará a presença completa do padrão demonológico clássico: a promessa de salvação, a rejeição do corpo considerado apenas como uma casca, a proclamação de uma nova humanidade, a figura de um líder carismático, uma linguagem de cunho apocalíptico, a ruptura total com a vida cotidiana, onde abandonaram suas famílias, bens, sexualidade e identidade, e a morte reimaginada como uma passagem iniciática, semelhante a uma graduação. Substituíram a cruz pela embarcação e a ressurreição pelo ato de embarcar. O que se obteve foi a ruína, não o aprimoramento. É através dos frutos que se reconhece a árvore, e esta árvore produziu o que é habitual para ela.
O mais impressionante é que a descrição mais precisa desse padrão não foi feita por um teólogo, mas por um cientista que dedicou sua vida a estudar o fenômeno de dentro para fora. Jacques Vallée, astrônomo e cientista da computação, que foi um dos pioneiros da ARPANET, além de ser o modelo real do personagem francês de "Contatos Imediatos de Terceiro Grau", iniciou sua trajetória defendendo a ideia de que os fenômenos observados tinham origem extraterrestre, mas posteriormente abandonou essa concepção. No seu livro de 1969, "Passport to Magonia", ele evidenciou que os relatos contemporâneos sobre OVNIs e seus ocupantes replicam, detalhadamente, o folclore antigo: as fadas, os elfos, os pequenos seres, os raptos para o "outro mundo", os visitantes sobrenaturais, os mitos de Magonia. Em suas entrevistas, ele afirmou que a simples hipótese de uma origem extraterrestre não é suficiente para explicar o fenômeno, chegando a mencionar a Spielberg que o assunto "era ainda mais interessante se não fossem extraterrestres". As mesmas narrativas, as mesmas criaturas, os mesmos padrões de comportamento, perpassando mil anos com denominações distintas. Vallée não é um teólogo cristão nem chega a concluir que se tratam de "demônios"; no entanto, o esboço que ele traçou é o mesmo que a demonologia tem estudado e interpretado há séculos. GoodreadsWikipedia
É fundamental percorrer esse mapa histórico em alta voz, pois ele serve como a coluna vertebral que permite uma comparação entre todos os aspectos. No mundo antigo, as inteligências que se manifestavam aos seres humanos eram denominadas deuses, daimones e mensageiros celestiais, e a religião pagã foi estabelecida com base nessas entidades. No cristianismo antigo e medieval, elas foram reconhecidas como demônios, íncubos e súcubos, sendo devidamente catalogadas pela demonologia. No folclore europeu, eles se transformaram em fadas, elfos e pequenos seres que fascinavam e sequestravam. No espiritismo contemporâneo, os falecidos assumiram o papel de guias e mestres que se comunicam por meio da mediunidade. No ocultismo contemporâneo, transformaram-se em inteligências astrais e elementais, assim como o Santo Anjo Guardião que é invocado na prática mágica. No século XX e XXI, eles foram reduzidos a cinzas, associados a seres reptilianos e pleiadianos, membros de naves espaciais, e se tornaram o foco de estudos sobre a ufologia. Seis trajes, um único elenco. Há um padrão fenomenológico constante que permeia todos eles, o qual pode ser quase que enumerado como uma lista de verificação das características do estranho: surgimento repentino, mudança de consciência, paralisia ou medo intenso, mensagem enigmática, tempo perdido, marcas no corpo, contato sexual ou reprodutivo, promessa de revelação, hierarquia de entidades, convite a uma nova cosmologia, e o desfecho de fascínio e obsessão. Quando encontramos o mesmo padrão em Magonia e em Roswell, no íncubo medieval e no cinza moderno, a justificativa econômica não se resume a ser uma "coincidência cultural infinita"; na verdade, é porque "há um agente constante por trás das máscaras".
A tradição ortodoxa chegou à mesma conclusão de uma maneira independente, e a semelhança entre essa tradição e a interpretação católica já é um fato que merece ser considerado. O monge ortodoxo Seraphim Rose, em seu livro "A Ortodoxia e a Religião do Futuro", de 1975, dedicou um capítulo inteiro aos OVNIs. Sua argumentação sugere que o fenômeno integra uma "religião do futuro", uma espiritualidade que se distancia do cristianismo, caracterizada por sua imprecisão e sincretismo, a qual estaria preparando o caminho para o Anticristo. Rose sustenta que a ficção científica serviu como uma forma secularizada de imaginação religiosa, preparando o homem ocidental para aceitar manifestações preternaturais e explicá-las "cientificamente"; que o ocultismo é uma abertura deliberada a entidades; e que a ufologia é a nova mitologia espiritual da época. Ele distingue de forma a evitar que o argumento se torne risível: ele separa os relatos de OVNIs, que podem ser reais, da interpretação que se dá a elas, que frequentemente é "uma história de fadas, um mito do nosso tempo". A representação mais impactante que temos é a do extraterrestre como o "anjo" de uma religião que não pede nada do que a verdadeira fé pede: não exige missa, nem confissão, nem arrependimento, nem cruz. Basta solicitar "evolução", "abertura mental", "iniciação", "revelação cósmica". Trata-se de uma salvação que dispensa tanto a Cruz quanto a figura de Deus, e uma salvação que não envolve a Cruz é precisamente a proposta que a tradição cristã, desde os tempos do deserto até os dias atuais, sempre associou ao tentador.
Existe também uma dimensão psicológico-religiosa que elucida o motivo pelo qual a escolha recaiu precisamente sobre essa representação, o extraterrestre, em vez de qualquer outra opção. Considere o que o "cinza" comunica visualmente. Ele é o ser não humano, adicionado ao quase humano, e ainda ao superior ao humano: possui cabeça, tronco, olhos, mantém uma postura ereta, o que é suficiente para que pareça um de nós, mas tudo está deslocado, ampliado e esvaziado, o bastante para parecer estar acima de nós. Ele é a representação ideal do "mestre" que não é gente. O cinza é, de fato, uma caricatura do ser espiritualizado: excessivamente racional e carente de emoção, observador em demasia e pouco verbal, técnico ao extremo e completamente desprovido de manifestação prática. É a antiimagem do homem total, sem rosto pessoal definitivo, sem expressão moral, sem masculinidade ou feminilidade patente, sem calor humano, sem linguagem sacramental, sem corpo glorioso. É sabedoria sem amor, erudição sem espírito, claridade gélida sem a presença de Deus. Se você quisesse criar uma caricatura que representasse a visão do cristianismo sobre o espírito caído, que é a mente pura que menospreza o corpo, o poder que existe sem amor e o conhecimento que não traz salvação, o resultado seria exatamente isso. O cinza é a representação do gnóstico.
Isso nos direciona à via gnóstica, que pode ser a mais elucidativa de todas. O gnosticismo antigo afirmava que o mundo material é uma prisão criada e controlada por forças cósmicas inferiores conhecidas como arcontes; que a salvação é alcançada por meio de um conhecimento secreto, a gnose, que liberta a centelha espiritual do corpo; que o Deus criador do Antigo Testamento é, na realidade, um demiurgo opressor; e que o corpo é uma cela. Agora, converta "arconte" para a linguagem contemporânea e veja o que surge. Os "alienígenas" presentes nas histórias de contato são entidades cósmicas superiores ao ser humano; eles controlam ou criaram a humanidade, exatamente como afirmam os Elohim de Raël; oferecem salvação por meio de um conhecimento secreto, denominado a "revelação galáctica"; consideram a religião tradicional uma prisão a ser superada; diminuem Cristo a um mestre cósmico, avatar ou emissário; e percebem o corpo como um experimento, casca ou veículo descartável, utilizando a mesma terminologia do Heaven's Gate. A conclusão se apresenta de maneira quase autônoma: o extraterrestre que revela é, muitas vezes, o arconte gnóstico adornado com um capacete espacial. Trata-se da antiga gnose apresentada de forma inovadora, envolta em elementos de ficção científica, e do tradicional desprezo pela carne, agora adornado com um brilho prateado.
Existe ainda um último caminho, o mais familiar e, por isso, o mais persuasivo, que é o das assombrações. Se você questionar qualquer indivíduo que tenha vivenciado uma experiência de "casa mal-assombrada" sobre suas emoções, a linguagem do medo será sempre idêntica: a presença invisível, a sensação de ser observado, a paralisia, o som estranho, as luzes, os objetos que se movem, a figura no quarto, a perda da noção do tempo, os toques no corpo, as mensagens que chegam à mente, os pesadelos recorrentes, o isolamento, a obsessão. É a mesma relação que foi mencionada na abdução. É a mesma relação do íncubo. Trata-se da mesma lista que foi mencionada em "contato". A única coisa que varia é a descrição que cada cosmovisão coloca abaixo da imagem. O leitor espírita observa e pronuncia: espírito. O ocultista observa e pronuncia: entidade. O católico lê e comenta: desconfie de qualquer coisa demoníaca. O materialista lê e afirma: ser extraterrestre ou paralisia do sono. O praticante da Nova Era lê e afirma: ser interdimensional. A experiência, em sua essência, é única; o que se divide é o nome que o intérprete já carregava no bolso antes de adentrar ao quarto.
Agora, precisamos abordar a questão que um cético legítimo levantaria e que realmente merece uma resposta clara: se realmente existe um agente espiritual por trás de tudo isso, qual seria a razão para que ele se manifestasse como um extraterrestre durante rituais ocultistas? Qual é o benefício disso? A resposta serve a três propósitos, todos eles alinhados a uma lógica implacável. O primeiro aspecto é a desumanização: essa entidade alienígena, sem um rosto pessoal e desprovida de calor humano, ensina a alma a venerar uma inteligência que desdenha o ser humano, deslocando o foco da gravidade moral para além do homem, que foi criado à imagem de Deus. A segunda forma é a autoridade tecnológica: em uma sociedade que reverencia a ciência, chegar do espaço com uma tecnologia mais avançada é a credencial mais poderosa para garantir obediência inquestionável, sendo o púlpito ideal para o período. O terceiro, que na verdade é o verdadeiro alvo, refere-se à substituição religiosa. E aqui está o núcleo central de toda a argumentação, de forma direta: o demônio não necessita persuadir ninguém a prestar culto a Satanás de maneira explícita. Isso seria um péssimo acordo, e ele não é um mau estrategista. É suficiente que mova a alma de Cristo para qualquer outra origem de revelação. Seguir o "comando dos pleiadianos", o "conselho dos arcturianos", as orientações do "mestre de Órion", as instruções do "cinza canalizado" e os ensinamentos dos "Elohim extraterrestres" é, de fato, aceitar na prática uma autoridade espiritual concorrente. Não é necessário afirmar "adore o diabo". É suficiente afirmar "ouça os arcturianos em vez de Cristo". O resultado, para os objetivos do tentador, é o mesmo.
Toda essa jornada pode ser descrita como uma tabela de máscaras, agora transformada em prosa. A leitura bíblica refere-se ao agente como "espírito" e o submete a um teste, ao mesmo tempo em que revela o disfarce do "anjo de luz"; a leitura patrística e medieval o designa como demônio, íncubo, súcubo; na escolástica de Tomás, ele é descrito como uma substância separada que assume uma forma aparicional; no ocultismo, ele é invocado como uma inteligência astral ou Santo Anjo Guardião; o espiritismo e a Nova Era o reconhecem como um guia, mestre ou ser de luz; a ufologia religiosa o venera como Elohim e tripulante; a gnose moderna o classifica como arconte; no exorcismo, ele é confrontado como possessor; na assombração, ele é sentido como uma presença; e a psicologia religiosa o caracteriza como a projeção do não humano que é superior ao humano. Um nome antigo, um nome contemporâneo, e sob a superfície, a mesma interpretação católica: uma inteligência pessoal, que caiu de seu estado original, enganadora e que se molda ao perfil de quem a acolhe. A novidade se resume sempre à vestimenta.
Por último, existe um método prático que emerge de tudo isso e que deve ser apresentado de forma direta, pois a teoria sem uma aplicação prudente pode se transformar em fanatismo. Quando se trata de um desaparecimento, de um crime ou de um caso "alienígena", a ordem das coisas é inegociável: preserva-se o local, registram-se os horários, salvam-se as mensagens, recolhem-se câmeras e geolocalização, ouvem-se testemunhas, mapeiam-se contatos, conflitos, dívidas, relações, histórico psicológico, uso de substâncias, ameaças, possíveis crimes. A hipótese de vida extraterrestre, nesse contexto, é uma narração pessoal, que serve como testemunho enquanto não houver evidências concretas, mas não substitui nenhum avanço da pesquisa rigorosa. A hipótese demoníaca, sempre que pertinente, é abordada de maneira pastoral, em conjunto e jamais substituindo a intervenção da polícia, da perícia, do médico ou do psicólogo. Aqueles que invertem essa sequência, chamando o exorcista antes do delegado ou o vidente antes do psiquiatra, não estão agindo de maneira espiritual; estão agindo de forma imprudente. E, de acordo com a tradição das virtudes, a imprudência é considerada um vício, e não uma manifestação de fé.
Assim, chega o juízo final, com os níveis de confiança em pé, tal como prometi no início. Alta confiança: visitas físicas de origens interestelares são, de acordo com a física que conhecemos, praticamente inviáveis; "não identificado" não significa extraterrestre; e o fenômeno do "contato" revelatório se comporta, em sua estrutura e em seu conteúdo, como o antigo fenômeno do espírito enganador. Média de confiança: a interpretação de que o núcleo ritual, canalizado e revelador do fenômeno é mais bem explicado pela hipótese preternatural do que pela extraterrestre. Confiança em níveis baixos, e de forma intencional: a avaliação de qualquer situação específica, que nunca deve ser realizada à distância, deve sempre contar com a presença do médico, do psiquiatra, do perito e do policial, e não deve ser considerada uma certeza em situações que exigem apenas discernimento. A tese não deve ser usada como uma ferramenta para criticar as experiências dos outros; ela é um instrumento para identificar um padrão.
Porque, no final, a descoberta é mais fácil e mais antiga do que toda a tecnologia de espaçonaves e implantes. Os seres alienígenas descritos em histórias de contato, abdução, canalização e iniciação não agem principalmente como organismos vivos de outro planeta. Agem como sempre, como o espírito trapaceiro. O alienígena desvendador desempenha uma função equivalente à do antigo demônio sedutor: a mesma manifestação inesperada, o mesmo pavor, a mesma mensagem que menospreza Cristo e exalta o conhecimento, a mesma promessa de ascensão que culmina em uma fratura, o mesmo encanto que se transforma em obsessão. Não é necessário que ele venha de Marte. A astrofísica não é do seu interesse. A sua alma é do seu interesse. Seu único objetivo é desviar o ser humano da verdade, e isso, precisamente isso, desde o início no primeiro jardim, é a função diabólica: surgir como luz, comunicar-se como sabedoria, prometer a libertação e, por fim, levar o homem para fora de Cristo. A cada século, a máscara é renovada. A face sob ela é a mais antiga de todas.
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