Psicologia Simbólica da Percepção: O Deus de Si Mesmo
Muitas pessoas apreciaram os textos de psicologia que produzimos aqui na Nous e solicitaram que eu revelasse os detalhes por trás do processo. Pois é, trata-se de uma linha que eu, os anônimos da Nous e toda a equipe denominamos, em conjunto, de psicologia simbólica da percepção. Ela possui uma ligação com a via junguiana, mas não se resume a isso — é algo que se desenvolveu para se tornar algo único. E ela se inicia onde tudo no ser humano tem seu começo: na raiz. Toda a forma de pensar de uma pessoa é guiada pela sua visão de mundo, pois é nesse contexto que ela se sente mais conectada e pertencente. A origem é de caráter teológico. Aqueles que não percebem isso tratarão a alma superficialmente por toda a vida, e vão confundir o que é apenas uma camuflagem com verdadeira cura.
Gabriel G. Oliveira
9/24/2026112 min ler


A raiz é uma questão teológica
Tudo na mente de uma pessoa é orientado pela sua cosmovisão. Não se trata de uma frase de impacto, é a base sobre a qual esta psicologia se fundamenta, então permita-me enfatizar isso antes de qualquer outra consideração. Cosmovisão não se resume a um conjunto de crenças que a pessoa repete quando alguém indaga sobre suas convicções. É mais profundo do que a crença explicitada: é a estrutura invisível na qual ele percebe o mundo antes mesmo de refletir sobre ele. É o local de onde ele observa, e ninguém consegue perceber seu próprio ponto de vista — você não enxerga seus olhos, você enxerga através deles. A cosmovisão é exatamente isso: a percepção que reside além da percepção comum. Ela determina, antes de qualquer reflexão, o que é considerado real, o que é visto como importante, o que é classificado como bom e o que é interpretado como uma ameaça. Assim, afirmo que a essência de todo pensamento reside na cosmovisão, a qual, em última análise, é uma questão de natureza teológica — pois o que está acima dela, o teto que encerra a moldura, é sempre a resposta que o indivíduo oferece, mesmo que de forma inconsciente, à indagação sobre o que existe além de tudo.
É neste ponto que a situação se torna mais intensa para aqueles que lidam com a alma. A pessoa experimenta o maior senso de pertencimento justamente nesse instante, dentro dessa moldura. É nesse lugar que ela se sente em casa, é nesse lugar que ela descansa. Lidar com isso é interferir no chão onde ela anda, e é por isso que a psicologia medrosa da modernidade evita se aproximar — criaram a ideia de que "não se deve tocar em religião com o paciente", que "não se deve abordar cosmovisão", e com essa fraqueza condenam o indivíduo a passar a vida inteira girando em falso, tratando o superficial e permitindo que a raiz apodreça. Amigo, esquece isso. Se você não vai à origem, não conseguirá curar ninguém; apenas ensina o enfermo a conviver de maneira um pouco melhor com a enfermidade, e, em algumas ocasiões, nem isso. A denominação desta linha é psicologia simbólica da percepção, exatamente porque o foco é a percepção — a forma como o indivíduo elabora a realidade antes de avaliá-la — e a percepção é um reflexo direto da cosmovisão. A cosmovisão distorcida é corrigida e a percepção se reorganiza; deixar a cosmovisão confusa e nenhuma técnica superficial conseguirá endireitar o que a pessoa enxerga.
Ao observar dois homens diante da mesma situação, fica claro do que estou me referindo. Falece uma pessoa querida para ambos. A primeira perspectiva apresenta uma visão de mundo em que a morte é vista como uma transição, na qual existe um Deus pai e um destino para a alma; ele se emociona e sofre, mas o seu sofrimento possui um sentido, direcionamento, e se insere em uma narrativa que prossegue. O segundo possui uma visão de mundo na qual a morte representa um desligamento definitivo, um vazio; para ele, o mesmo evento não é uma transição, mas sim um abismo, evidenciando que tudo é absurdo. Os dois observaram exatamente a mesma imagem, mas perceberam coisas totalmente distintas, pois a perspectiva era outra. Não foi a emoção que se alterou — foi a percepção, e essa percepção teve suas origens na raiz. Por isso, é fundamental abordar a emoção de alguém levando em consideração a cosmovisão que a originou. É possível oferecer todo o conforto a um segundo homem, mas se a sua moldura revela "abismo", esse conforto se esvai, pois a questão não reside no sentimento, mas sim no teto que limita o seu mundo.
Por isso, quando alguém me encara com aquele fervor ateísta e afirma "Gabriel, todas as religiões são iguais, todas conduzem a Deus", eu replico que não, não conduzem, e não é falta de educação da minha parte, é lógica. As religiões se diferenciam porque representam modelos de transcendência que são totalmente diversos — e transcendência é o termo específico que eu estava utilizando para explicar isso: o teto, o andar de cima, a direção que a alma escolhe quando deseja superar a si mesma. Cada religião traça um caminho único para esse superamento, e esse caminho não é um mero detalhe, é o essencial. Afirmar que "não importa o caminho, todos chegam ao mesmo destino" é o mesmo que dizer que não importa o mapa, uma vez que toda estrada leva ao mesmo lugar. Não é possível. Um mapa que te direciona para o norte e um mapa que te direciona para o sul não são "o mesmo mapa com ilustrações diferentes"; são mapas opostos. Quando a pessoa afirma que tudo leva ao mesmo Deus, da mesma maneira, não está sendo tolerante nem sublime — ela está admitindo que nunca examinou um mapa com cuidado, que nunca comparou os destinos, que confundiu a preguiça de aprender com sabedoria. É um tipo de ignorância, e não uma ignorância sem malícia: trata-se de uma tese que possui um destino, um nome e uma data de nascimento.
Esse local é a degradação filosófica em que o mundo se encontra, essa absurdidade esotérica que a modernidade recebeu da Sociedade Teosófica. É importante reconstituir o parto, pois quem não conhece a origem pode pensar que aquilo surgiu do bom senso, quando na verdade teve seu início em um projeto. Foi a partir da teosofia da Madame Blavatsky e seus colegas que surgiu a ideia de que tudo vai dar certo, que nada dá errado, e que tudo sempre resultará em algo positivo, com todas as tradições sendo raios de um mesmo sol. Parece generoso, mas é aí que reside o veneno: parece generoso porque foi elaborado para transmitir essa impressão. Trata-se de um sincretismo que promete paz e entrega dissolução, uma vez que, ao afirmar que todas as rotas são iguais, você acaba por destruir a essência da própria ideia de rota. Se tudo é verdadeiro, então nada é verdadeiro; se todos os caminhos conduzem a Deus, nenhum caminho leva a lugar algum, pois "caminho" só possui significado se houver um destino e algo que esteja além do destino. Aqueles que se dedicaram ao estudo de nossos textos entendem que a completa dissolução de todas as coisas surge exatamente desse entrelaçamento que elimina as fronteiras em nome do amor e, ao final, não deixa nada de pé para ser amado.
Isso é o que chamamos de in-gnose, e eu quero que você preste bastante atenção a esse conceito, pois ele influencia metade do que vem a seguir. A in-gnose é a ideia de que tudo é uma maravilha — tudo é belo, tudo é positivo, tudo é agradável, e nada é ruim. Aparentemente, é a coisa mais doce do mundo, e é exatamente por parecer doce que ela pode ser fatal. Uma mente que afirma que nada é ruim acaba por perder seu mecanismo de defesa; ela se torna incapaz de reconhecer o veneno como veneno, o abuso como abuso, a mentira como mentira. Aqui surge o aspecto cruel, a mudança que poucos conseguem notar a tempo: quem afirma que nada é ruim, no instante seguinte, necessita de um único mal para estruturar seu mundo — e esse mal pode ser você, caso discorde. Preste atenção na mecânica, pois ela permanece sempre a mesma. Se tudo é considerado bom, então discordar dessa afirmação se torna a única ação ruim que existe; portanto, aquele que discorda passa a ser visto como o supremo mal. Se você não concorda com essa ideia de um "deus bonzinho" criado pela mente das pessoas e imposto por uma sociedade progressista, você passa a ser visto como a personificação do mal — não apenas alguém que está errado ou equivocado, mas sim o mal em si, o opositor, o obstáculo no caminho do paraíso que todos desejam. Por isso, a doutrina mais "amorosa" da contemporaneidade é, na essência, a mais severa com aqueles que não seguem suas regras: ela necessita de um herege para se sustentar, e esse herege é sempre quem ainda se atreve a afirmar que há um certo e um errado. Essa é a mecânica, e não se trata de um acidente; é uma consequência lógica da eliminação das fronteiras.
Para compreender a origem dessa doença, é essencial entender o que eu denomino de ímpeto gnóstico. Para isso, precisaremos explorar a Ética a Nicômaco, pois Aristóteles já havia traçado esse mapa há mais de dois mil anos. Há um impulso positivo, o impulso esperançoso, que surge da esperança. Esse é direto, linear — trata-se de uma linha, e não é por acaso que a palavra virtude traz consigo a noção de retidão. A virtude, conforme ensinou Aristóteles, é a medida adequada que se encontra entre dois extremos: entre o excesso e a escassez, entre o vício por excesso e o vício por falta. A coragem se situa entre a covardia e a imprudência; a generosidade, entre a avareza e o desperdício. A esperança, nos níveis adequados, é o que há de mais benéfico em uma alma: é a energia que impulsiona o homem a se levantar pela manhã, a semear sem visualizar os frutos, a criar um filho em um mundo desafiador e a continuar suportando o que deve ser suportado. A esperança reta é uma linha que segue em linha reta do ponto em que você se encontra até o ponto que deve alcançar, sem se curvar, sem se expandir e sem se desfazer. É uma virtude porque se trata de moderação.
A questão surge quando essa expectativa se desvia do caminho. Quando ela se posiciona em excesso ou em falta, deixa de ser esperança e se transforma em algo diferente: o impulso gnóstico. Perceba que não se trata de um sentimento novo que surge — é o mesmo sentimento positivo, apenas desregulado, fora de controle, como um motor que ultrapassa seu limite de rotação e começa a se deteriorar por dentro. A expectativa de que as coisas melhorem se transforma em desespero, gerando o niilismo daquele que já decidiu que nada tem valor. A expectativa de algo a mais — e esta é a que realmente importa, pois é a mais arriscada e a que poucos percebem a tempo — se transforma na crença alucinatória de que o paraíso pode e deve ser construído neste momento, com as próprias mãos, a qualquer preço. Os dois extremos, por trajetórias distintas, conduzem ao mesmo destino: a desintegração. E é por essa razão que eu enfatizo tanto a necessidade da medida, pois a distinção entre o santo e o fanático, entre o homem de fé e o profeta da gnose, muitas vezes não reside na intensidade da esperança, mas sim na sua direção. Um espera de forma direta; o outro aguarda de modo inclinado, e a torção é o que realmente importa.
É importante destacar o motivo pelo qual a esperança, especificamente, ocupa o centro dessa narrativa, e não alguma outra virtude qualquer, pois essa não é uma escolha aleatória da minha parte. A tradição menciona três virtudes teologais — a fé, a esperança e a caridade — e essas três se apoiam mutuamente, mas é a esperança que age como o motor que impulsiona a alma ao longo do tempo, sendo ela a responsável por fazer com que a pessoa avance em direção ao bem que ainda está por vir. A fé percebe, a caridade acolhe, mas é a esperança que avança. Por essa razão, ela se torna o local ideal para a doença se desenvolver com mais facilidade: ao interferir no motor, você desregula toda a máquina. Observe a distinção entre a esperança verdadeira e seu imitador: a esperança genuína aguarda o bem que vem de Deus, de uma ordem superior ao indivíduo, e por isso ela aceita o tempo, acolhe a espera e compreende que o paraíso não pode ser criado com as próprias mãos dentro do prazo que desejamos. O impulso gnóstico, que é a esperança exagerada até a ruptura, não aceita o tempo nem a hierarquia superior: ele deseja o paraíso neste momento, criado por ele, conforme seu próprio desenho, e essa urgência arrogante o converte de virtude em veneno. A esperança afirma "eu confio e aguardo"; já a gnose declara "eu atuo, eu imponho, eu crio o paraíso à força". Uma se submete a uma ordem que a transcende; a outra se declara soberana do final dos tempos. É a mesma força, o mesmo desejo de ascender — apenas uma sobe pela escada enquanto a outra busca romper o teto. E é por isso que eu ressalto com tanta frequência que o problema raramente é a falta de esperança entre meus pacientes mais complicados; na verdade, é o excesso dela, uma esperança demasiada colocada no lugar inadequado, que é a própria vontade do indivíduo elevada à posição de divindade.
A inclinação gnóstica bagunça completamente a mente da pessoa, e isso sempre acontece pela mesma via. A mente influenciada pela gnose começa a funcionar com duas ideias que se conectam e se firmam: primeiro, que tudo que é matéria, mundo, corpo e limite, é uma prisão ou um mal; segundo, que quem possui intelecto e consciência é precisamente quem foi aprisionado nessa condição e, por isso, precisa lutar para se libertar. Daí a conclusão de que a única transcendência possível é arrancar o paraíso do plano das perfeições e enfiá-lo no mundo terreno na marra. Foi Eric Voegelin quem descreveu isso com a precisão de um cirurgião, e eu não canso de mandar as pessoas lerem, porque ele mostra que a modernidade inteira é, em boa parte, uma recaída gnóstica travestida de progresso. Voegelin falava de imanentizar o fim dos tempos — trazer para dentro da história aquilo que só pertence ao que está além da história. Falava do impulso de alcançar um tempo messiânico aqui embaixo, de emanar o messias terrestre, de construir com decreto e com força o mundo da época messiânica. É o velho sonho de sequestrar o céu e instalá-lo no chão. Entretanto, o céu não se deixa prender, e o que cai quando você tenta tirá-lo à força nunca é o paraíso — é o inferno disfarçado de paraíso.
E é neste ponto que a filosofia deixa de ser apenas uma ideia distante e se torna uma verdadeira montanha de corpos, pois foi dessa fome que surgiu tudo o que há de podre na modernidade. Governo autoritário, governo totalitário, qualquer regime que você considere mais cruel do último século — basta escolher um e, em sua essência, você encontrará um impulso gnóstico. Stalin prometia o paraíso dos trabalhadores enquanto enchia a Sibéria de corpos; Hitler prometia o paraíso da raça e abria valas; Mao prometia o paraíso camponês e causava mais mortes por fome do que muitas guerras causaram com balas; Mussolini com sua ordem redentora. Em cada um deles, a estrutura permanece idêntica: uma expectativa exagerada até o extremo, confiada em algo que não é digno, e a convicção de que o paraíso está a um massacre de distância. Pois quem pensa que pode criar o paraíso na terra, em algum momento, tomará a decisão de eliminar aqueles que obstruem essa construção — e sempre haverá alguém que atrapalha, sempre haverá o dissidente, o adversário do povo, o inimigo da sociedade, o oponente da mudança. O gnóstico político é o in-gnose munido de armamento: ele proclamou que sua utopia é o bem supremo e, por consequência lógica, quem diverge se torna o mal supremo, e do mal supremo não se tem compaixão. A lógica é a mesma de "tudo é ótimo, e quem opina de forma diferente é o verdadeiro mal", mas agora envolve o Estado, as forças armadas e o transporte para áreas rurais.
Sob toda essa camada, reside uma ética indefinida, e eu quero que você se atente a essa palavra, indefinida, pois ela é a chave. A ética do gnóstico é uma massa disforme que se molda ao bel-prazer de quem a inventou; não tem osso, não tem forma fixa, se adapta ao autor como cera quente se adapta à mão. Tudo o que vai de acordo com o que o sujeito quer é chamado de bem; tudo o que contraria o que ele quer é chamado de mal — e como o que ele quer muda, a fronteira do bem e do mal muda junto, dia após dia, conforme a conveniência. É o oposto exato da ética objetiva, aquela que Aristóteles e Tomás de Aquino chamariam de virtude: a ética objetiva tem osso, tem forma que não se dobra ao desejo, ela é o que é quer você goste, quer não. Tudo o que não vai de acordo com esse bem objetivo, e se pretende no lugar dele, é ímpeto gnóstico. E a história é invariável, você provavelmente já assistiu isso mil vezes: surge um indivíduo com a "redpill" em mãos afirmando "agora eu compreendi, agora eu sou o cara, tive uma revelação em um sonho enquanto estava jogado no chão, sou o escolhido que finalmente descobriu a verdade que todos encobriram". E inicia-se o antigo ciclo — recriar o que é bom e o que é ruim de acordo com o desejo do cliente, transformar a própria vontade na norma do universo, e denominar de libertação aquilo que é apenas a alma se desprendendo das correntes que a mantinham completa.
Mas é neste ponto que tudo se define, e eu vou enfatizar isso, pois é o cerne do método: bem e mal não podem ser desvinculados da lógica. E eu vou afirmar algo que muitas pessoas simulam não compreender, ou que compreendem, mas fazem questão de ignorar, pois aceitar isso desmorona toda a estrutura que construíram — lógica e razão são sinônimos. No aristotelismo, não existe distinção entre uma e outra. Esse é o mesmo caso no estudo aristotélico de moral e ética: a moral é a análise da ética, uma é a fundamentação da outra, na prática, são equivalentes. Por isso é um equívoco, e utilizo a palavra de forma precisa, pensar que razão e ética são aspectos distintos, como se razão e moral fossem setores que não se comunicam. A modernidade efetivamente realizou essa divisão — colocou a razão de um lado, como se fosse apenas um cálculo frio, e a moral do outro, como se fosse meramente uma questão de gosto pessoal, sentimento ou preferência individual — e essa separação é a origem do relativismo. Pois quando você afirma que "a razão não tem qualquer relação com o bem", você acaba de conceder ao capricho o controle sobre o bem, e o capricho não é algo que se discute, ele se impõe.
A consequência disso é rigorosa e eu insisto nela: a pessoa que realmente age com lógica, necessariamente, chegará a uma ética objetiva. Não é que ela deva; é que ela irá, se for coerente até o final e não interromper o percurso por conveniência. A evidência está nos acontecimentos do passado. Isso ocorreu com praticamente todas as grandes mentes da antiguidade, e o "praticamente" é fundamental; não estou afirmando que todas, sem exceção, chegaram a isso, mas sim que a grande maioria, cada uma à sua maneira, alcançou uma ética objetiva. Na Grécia, isso se destaca claramente — Sócrates, Platão, Aristóteles, cada um à sua maneira, insistindo na mesma ideia sólida de que existe um bem que não está sujeito à opinião. O mais surpreendente é que, ao analisar Lao Tsé, que viveu em um extremo do mundo, em um contexto cultural que não teve nenhum vínculo com a Grécia, ele igualmente aborda uma ética objetiva. Ele também descreve uma ordem, um Tao, um caminho reto que não se ajusta aos anseios do ser humano. Como é possível que mentes tão afastadas, sem se comunicarem, cheguem ao mesmo destino? Porque foi como se algo tivesse sido revelado — e realmente era. Essa convergência não é mera coincidência; é a prova de que a mesma realidade estava se revelando a todos que tinham a capacidade de enxergar.
Deus buscou se manifestar em diversas ocasiões, e é importante que eu descreva como ocorre esse processo de revelação e, principalmente, como ele pode ser distorcido. Isso é fundamental para entender por que existem tantas religiões em conflito entre si, mesmo que a essência da verdade seja única. A divindade se manifestou por meio dos mitos, das lendas e das experiências que se revelaram aos seres humanos em cada recanto do planeta. No início, cada comunidade recebeu uma faísca, uma essência de verdade, uma intuição precisa sobre como as coisas se organizam. Entretanto, surge a falta de sabedoria humana, que age sempre da mesma forma: uma interpretação acumulando-se sobre outra, com cada nova geração acrescentando suas próprias nuances, distorcendo o significado original e esquecendo o motivo pelo qual as coisas eram daquele jeito, até que a essência primordial se perca sob o peso das modificações. O que mais contribui para essa distorção é a falta de valorização da tradição — pois a tradição é, na verdade, o elo que conecta a interpretação atual ao brilho original, é o laço que impede que cada geração tenha que recriar tudo do nada, com base apenas em suas próprias perspectivas. Ao cortar esse fio, ao desconsiderar a tradição em prol da novidade, a revelação se torna mero desperdício em poucas gerações. Esse resquício possui um nome: é o que ocorre quando uma religião desliza para o neopaganismo, ao trocar a corrente viva da tradição pela criação aleatória de cada indivíduo.
Veja o budismo, que é o exemplo mais claro que conheço dessa decadência. Ao mesclar teosofia com budismo, desfiguraram completamente a religião — de fato, eliminaram sua essência, atingindo suas raízes. Atualmente, é comum resgatar alguns aspectos do budismo, mas é bastante incomum encontrar um budista clássico, aquele que pratica o budismo genuíno, com toda a sua estrutura metafísica que sempre o caracterizou. E eu não me refiro a essas escolas modernas de "não-metafísica", que na minha opinião são pura enganação, e vou explicar por que considero isso uma enganação, pois a acusação precisa ter um respaldo. São enganações, pois o próprio Buda provinha de um universo em que todos afirmavam "isto aqui é absolutamente verdadeiro" — o mundo das divindades, dos planos, dos ciclos, de toda uma metafísica transmitida — e Buda jamais rejeitou isso. Ele fez reformas, reorientou, deu um novo enfoque, mas não saiu por aí afirmando que nada daquilo existia; muitos estudiosos sérios defendem, com fundamento, que ele realmente acreditava. Então, não me venham com essa história de que "no budismo não há metafísica", como se o budismo fosse simplesmente um ateísmo oriental despretensioso. Certamente existe metafísica, e ela é das mais sofisticadas. Essa questão do budismo sem metafísica já se revela, por si só, uma vertente inferior — e quando não é apenas inferior, é um budismo que incorpora a teosofia da Madame Blavatsky, transformando-se num verdadeiro caos, como costumamos dizer aqui em Primavera. Transforma-se em um agrupamento onde Buda, Jesus, os mestres ascendidos e os discos voadores estão todos na mesma prateleira, e nenhum deles permanece completo.
É fundamental destacar um aspecto do budismo clássico que muitos confundem, pois trata-se de um ponto delicado: mesmo o budismo genuíno, com sua própria metafísica, contém uma semente de dissolução. Por esse motivo, René Guénon o classificava como uma das trilhas de dissolução, em vez de incluí-lo entre as tradições completas como o hinduísmo. O budismo clássico aceita a existência de uma realidade metafísica, mas costuma afirmar que os deuses, os céus e os planos são, em última análise, ilusões, etapas que devem ser superadas e dissolvidas. Ele inicia de forma contundente e conclui se suavizando. Perceba a distinção: uma religião tradicional plena afirma "isso é real, isso é verdadeiro, siga por este caminho"; já a religião de dissolução diz "isso parece real, mas na essência é ilusão, e o objetivo é eliminar até mesmo isso". Existem duas engenharias de essências opostas, e essa distinção não é apenas acadêmica; ela influencia na formação de nações inteiras — mas isso iremos explorar mais adiante, quando eu apresentar o panorama das religiões uma a uma. Por enquanto, mantenha apenas o essencial: o aspecto mais crucial de qualquer religião, que influencia tudo, é a sua ética — se é objetiva ou subjetiva — e a direção que ela toma — se busca consolidar ou desmanchar.
Foi essa mesma ignorância, essa dificuldade de diferenciar o clássico do que é degradado, que fizeram recair sobre o coitado do Jung, que não tinha relação alguma com a questão — e eu sinto a necessidade de defender Jung de forma tranquila, pois grande parte da confusão da psicologia contemporânea se deve a uma interpretação equivocada de suas ideias. Jung realmente tinha um viés esotérico, não há dúvida quanto a isso — o Livro Vermelho evidencia isso em cada página, e toda a sua obra carrega essa característica. Aqueles que tentam ignorar esse fato estão apenas se enganando. Mas preste atenção na diferença que altera tudo: Jung nunca, e eu enfatizo, nunca, utilizou o esoterismo para refutar o esoterismo. Ele nunca substituiu as coisas pelos símbolos, como se os símbolos fossem a única realidade. Ele sempre reconheceu o aspecto espiritual, nunca deixou de afirmar que existe uma dimensão metafísica real, em todos os seus trabalhos, até mesmo nos mais técnicos. Ao contrário: existia uma entidade oriunda do plano metafísico que dialogava com ele durante os rituais que ele realizava, e ele documentou isso, não ocultou, e considerou aquilo como real. Então, não venham me dizer que Jung era um ateuzinho que acreditava que tudo era símbolo, e que Deus não passa de uma projeção da mente humana, como os satanistas modernos que encontramos por aí, vestindo camisetas pretas e afirmando que não creem em nada, enquanto realizam rituais todo domingo. Isso é uma enganação. Isso é uma desonestidade que cometem com a obra dele, é um roubo da memória dele, é colocar na boca do falecido o oposto do que ele passou a vida inteira escrevendo.
O que geralmente ocorre, e já testemunhei isso tantas vezes que consigo prever o tipo de pessoa antes mesmo de ela falar, é o seguinte: um jovem de vinte e poucos anos que começa a faculdade de psicologia, lê Nietzsche inicialmente e se revolta, se torna um ateu cheio de raiva, e só depois passa a ler Jung com essa visão já distorcida. Ele observa a obra de Jung e interpreta exatamente de forma oposta ao que está escrito. Ele observa Jung revelando que o ser humano estrutura a psique por meio de símbolos religiosos, que os arquétipos sagrados permeiam todas as culturas, e que o indivíduo sem religião adoece — com isso, o garoto chega à conclusão: "veja como o ser humano é ingênuo, pega tudo e converte em símbolo religioso e ainda acredita que Deus existe". Sim, consigo perceber a inversão. A prevalência é do leitor, não do autor. Jung afirmava que o ser humano necessita do sagrado tanto quanto necessita do ar; o leitor interpretou que o sagrado seria uma enfermidade que Jung teria identificado. É como se um médico que fala sobre a fome para tratá-la saísse dizendo que prescreveu o jejum. Jung estava, na verdade, buscando reconectar o ser humano à religião — religar, essa é a palavra, essa é a origem da palavra religião, re-ligar, restabelecer os laços do que foi rompido — e o indivíduo interpreta o projeto de religação como se fosse um plano de destruição. Não se trata apenas de uma incompetência individual; é uma característica da formação contemporânea em psicologia, que apresenta Nietzsche antes de oferecer uma base sólida, e depois se surpreende ao ver que a estrutura se ergue de maneira irregular.
E como Nietzsche surgiu na conversa, e ele retornará com mais profundidade mais adiante, permitam-me abordar diretamente o meio ateísta, pois isso não se trata de uma disputa vazia, é uma análise clínica, e você compreenderá a importância disso para aqueles que se dedicam à alma. É preciso dizer com todas as letras: o ateísmo militante de internet é, hoje, o maior preconceito organizado que a gente tem. O ateu moderno não pode reclamar que a Igreja é preconceituosa, porque ele é o campeão invicto da categoria, é o preconceituoso-mor. E não é impressão minha, é coisa que qualquer um pode verificar. É ao mesmo tempo cômico e lamentável presenciar isso: você observa os debatedores católicos, pessoas que se dedicaram ao estudo, argumentando de maneira extraordinária, com séculos de doutrinas na ponta da língua, e logo abaixo, na seção de comentários, o ateu comum despejando besteiras em um nível alarmante, uma ignorância amplificada, sem ter lido sequer uma linha do que está criticando. São muito raros os ateus da internet que têm um mínimo de inteligência, com a sensatez necessária para se conter antes de dizer bobagens. A maior parte disso é pura bobagem, e bobagem convicta, que é a pior de todas.
E o que é ainda mais sério, o que realmente me faz perder o respeito, é o descaramento epistemológico da situação. A pessoa em questão não leu nenhuma linha sobre religião, não consultou um tratado, não se aprofundou em nenhuma tradição, e afirma com total tranquilidade que ali não existe lógica alguma. E ainda encaram quem se esforçou, quem procurou cada uma delas, quem participou dos rituais e leu os textos, comparando os sistemas, para apenas repetir a cantilena de que "religião não faz sentido". Mano, como é que é isso? As religiões realmente surgiram a partir de cosmovisões, e essas cosmovisões foram frequentemente apresentadas como uma revelação, sendo posteriormente elaboradas por algumas das mentes mais brilhantes que a humanidade já conheceu, ao longo de milênios. Tudo que fundamenta a sociedade — as leis, a concepção de indivíduo, o conceito de dignidade, até mesmo o calendário — teve sua origem em divisões religiosas e em visões de mundo que estruturaram as comunidades. Afirmar que isso "não faz sentido" não é uma expressão de ateísmo, mas sim uma demonstração de ignorância histórica disfarçada de inteligência. E aqui eu preciso usar contra o ateu a mesma arma que ele aprecia utilizar: ele ama afirmar que o crente reside em um sistema fechado, que só consegue perceber o que a sua religião permite. De fato, isso é exatamente a imagem que ele retrata. O ateu militante comum habita um sistema altamente restritivo, um sistema que se nega a investigar aquilo que critica e denomina essa negação de racionalidade. É a trave no próprio olho buscando a imperfeição no olho do outro.
Portanto, se você que está lendo não tem conhecimento sobre isso, se essas conexões são novidade para você, faça um favor a si mesmo antes de continuar discordando: leia Eric Voegelin. Ele irá demonstrar, com toda a precisão, como a religião molda tudo — incluindo, e especialmente, aquilo que guia a psique do indivíduo, que é o que importa aqui. E quero ressaltar algo fundamental antes de entrar no método de fato: a questão mais relevante de uma religião, o aspecto que determina o destino da alma que a professa, é a sua ética — se é subjetiva ou objetiva. Conserve isso como se estivesse guardando uma chave, pois é, de fato, a chave que desbloqueia todas as portas que estão por vir. De maneira objetiva, a religião fixa a alma em um solo que permanece estável; de forma subjetiva, ela a entrega aos caprichos, que, como você perceberá, invariavelmente conduzem ao mesmo abismo: o ser humano se autoentronizando como deus de sua própria existência.
Com essa chave em mãos, chegamos à parte relevante para o trabalho clínico de fato, e eu afirmo com segurança: qualquer pessoa que tenha uma formação sólida em psicologia, especialmente em análise simbólica, é capaz de realizar o que vou descrever, e consegue fazer isso com facilidade, assim que se acostuma. A questão é: como é possível interpretar a essência de uma pessoa sem precisar escrever extensos textos sobre isso? Esse é o verdadeiro desafio da psicologia séria — a psique humana é tão ampla, tão repleta de nuances, que uma descrição fiel dela parece necessitar de um tratado por cada paciente. E é neste ponto que se destaca a genialidade da linguagem simbólica, que não é apenas um adornamento, mas sim uma ferramenta de condensação. Você combina a essência de cada religião — o caminho de transcendência que ela sugere, a direção que impõe na alma — a um conjunto de símbolos, e assim você encapsula um pensamento completo em uma forma que se pode segurar na mão. Na minha opinião, é a melhor abordagem na análise, pois com isso você consegue perceber, rapidamente, para qual direção aquela pessoa está se encaminhando, e essa direção é fundamental.
Permita-me explicar a razão pela qual utilizo símbolos e por que optei especificamente pelos símbolos que uso. Essa não é uma escolha aleatória. A mente humana é extremamente complexa para ser descrita de maneira que não abarque sua totalidade; se você tentar explicar a psique de uma pessoa usando uma linguagem literal e fria, definindo termo por termo, você acaba ou escrevendo um trabalho acadêmico interminável, ou simplificando de tal maneira que acaba ignorando o ser humano nesse processo. É necessário empregar uma linguagem que seja intensa e extensa, capaz de transmitir significados profundos de forma concisa, acolhendo a complexidade sem se perder nela. E foi precisamente para esse propósito que a linguagem alquímica foi elaborada ao longo dos séculos: para reunir as questões aleatórias da natureza, para dar uma forma que pode ser nomeada ao que não possui uma forma definida. A alquimia, essencialmente, é uma gramática do que se transforma — e a psique é justamente isso, uma entidade em constante transformação. Por isso, afirmo, sem qualquer constrangimento em utilizar essas expressões, que a mente de um homem muitas vezes opera como um forno alquímico: elementos entram crus, são submetidos ao calor da vida, se fragmentam, se purificam ou se deterioram, e emergem transformados em algo distinto. Descrever esse forno utilizando a linguagem específica desenvolvida para tal finalidade é a coisa mais comum do mundo.
Na realidade, não é necessário ter uma grande quantidade de símbolos para compreender uma alma. Cerca de sete já são suficientes para proporcionar uma ótima compreensão de como as ideias se estruturam na mente do indivíduo — e sete é o número dos planetas clássicos, que formam o eixo do sistema. O símbolo planetário principal representa aquilo que guia o propósito da vida da pessoa, o corpo celeste que atrai a sua essência; e, ao redor dele, os outros seis planetas completam o restante do padrão. Caso você precise se aprofundar, adicione pelo menos duas constelações, que irão refinar a interpretação; e, um pouco mais adiante, somente se for imprescindível, inclua as estrelas fixas, que representam símbolos mais complexos e, na maioria dos casos, nem são exigidas. O zodíaco é bastante útil, pois torna as informações mais claras e visíveis, especialmente quando é necessário mostrar ao paciente sua situação atual. A psicologia das cores se revela um recurso descritivo bastante eficaz: ao observar as seis cores principais que uma pessoa seleciona à primeira vista, aquelas que ela marca e aprecia antes de refletir, você obtém quase um raio-X de sua personalidade, de suas ações e de sua visão de mundo — isso porque a escolha da cor, sem qualquer filtro, se torna uma confissão involuntária. Entretanto, é importante observar o limite da cor: ela é excelente para retratar a personalidade, para criar uma imagem, mas não é tão eficaz para resumir o que realmente direciona os pensamentos de uma pessoa ao longo de toda a vida. A cor expressa; o símbolo alquímico e planetário indica o caminho. Por isso, valorizo a importância do método no âmbito simbólico e utilizo a cor como um elemento de apoio, e não como fundamentação.
No final das contas, tudo isso tem o propósito de reunir duas informações do paciente, apenas duas, mas que são capazes de determinar tudo: a ética e a visão de mundo. O que ele julga como certo, o que ele vê como errado, onde existem inconsistências entre suas palavras e suas ações, e — a questão crucial — se tudo isso irá resultar ou não em uma gnose psíquica. Você analisa a cosmovisão para entender de que forma ele percebe o mundo; examina a ética para determinar se suas bases são sólidas ou instáveis; e relaciona essas duas análises com o mapa simbólico para ter uma visão completa da essência. Esse é o método, de forma direta: uma cosmovisão mais ética, expressa em símbolos, indicando a direção. O que vem a seguir é um aprofundamento.
Deixe-me esclarecer por que o nome da linha é psicologia simbólica da percepção, e não da crença, do comportamento ou de qualquer outra categoria: isso porque o nome encapsula toda a tese. A percepção é o que ocorre antes que o pensamento se manifeste. Quando um evento se apresenta a você, ele não chega puro; já chega editado, colorido e classificado pela perspectiva de mundo antes mesmo de você começar a refletir sobre ele. Você não observa os fatos e, em seguida, decide o que sentir; você percebe os fatos já impregnados de significado, e o raciocínio surge depois, quase sempre apenas para justificar aquilo que a percepção já trouxe de imediato. Por essa razão, debater com alguém no campo dos argumentos raramente resulta em mudanças: os argumentos pertencem ao andar superior, enquanto a percepção está no porão. Você pode vencer todas as discussões e ainda assim não mudar em nada a pessoa, pois a forma como ela percebe o mundo continua distorcida. E é exatamente por isso que essa psicologia atua com o símbolo: o símbolo não se comunica com a parte racional, com a lógica argumentativa; ele se conecta diretamente com as profundezas, com a camada que cria a percepção. Alterar o símbolo é alterar a percepção na origem, e mudar a percepção na origem é a única coisa que realmente transforma um homem. Corrigir o argumento sem alterar a percepção é apenas aparar as folhas; ao mexer no símbolo, você se aprofunda na raiz de onde a folha se origina. Por isso é simbólica, e por isso está ligada à percepção: pois é naquele lugar, e somente ali, que a cura realmente acontece.
Permita-me explorar o mapa das religiões uma a uma, pois é isso que o psicólogo deve aprender a decifrar. Cada uma delas molda uma mentalidade tão singular que, ao compreender as diferenças, você nunca mais verá um paciente da mesma forma. Começarei pela que conheço em profundidade, pois a autoridade se conquista ao ter passado por lá: a kimbanda. A kimbanda é uma religião de natureza marcial, e eu afirmo isso não como alguém de fora, mas como alguém que viveu a kimbanda na infância. A galera ali é bem séria — e séria em um sentido particular, no de se sentir ofendida com facilidade e de revidar na mesma intensidade, pois a ideia principal é a busca por justiça. A lógica por trás disso é a seguinte: se alguém te causou sofrimento, você pode revidar com uma maldição equivalente, e isso não é considerado uma ação maligna, mas sim como uma forma de restabelecer a justiça no mundo. Além disso — e aqui reside a estrutura moral característica dessa crença — amaldiçoar o outro na exata medida do mal que ele praticou é visto até como algo positivo, pois a pessoa amaldiçoada "aprende a lição", enfrenta uma resposta proporcional e se torna melhor. Observe que existe uma contenção interna, e é essa contenção que demonstra que a kimbanda possui uma ética, mesmo sendo marcial: se você lançar uma maldição muito além do mal que o outro cometeu, aquilo deixa de ser justiça e se transforma em injustiça — e, nesse caso, o feitiço se volta contra você, seja porque outro feiticeiro reverte, seja porque a própria vítima sabe se defender e responde. É uma religião de ataque direto, fundamentada na feitiçaria; não se trata apenas de prática ou filosofia, mas de um modo inteiro de pensar, uma construção da alma que estabelece uma maneira específica de existir no mundo.
Há um aspecto da kimbanda que exige cuidado, pois muitas pessoas confundem suas origens: a kimbanda clássica no Brasil — e estou me referindo ao Brasil, não à África, que é uma realidade totalmente distinta — provém de um centro luciferiano, com uma abordagem gnóstica voltada para o anticosmismo. Na África, há cultos de diferentes naturezas, alguns até bastante respeitáveis, que às vezes chegam até aqui, mas isso é bem raro; o cerne da kimbanda brasileira é anticósmico. É simples compreender por que ela é tão rigorosa quando observamos a força que a impulsiona: é a energia de Marte levada ao extremo, a ponto de a pessoa afirmar que nada neste mundo realmente tem valor, que o mundo material é tão negativo que chega a ser considerado mau, e que apenas o plano espiritual é digno de atenção. É uma fé tão conflituosa — e eu uso essa palavra ciente de que pode parecer curiosa, mas é precisa — que acaba se confrontando com o próprio mundo em que se encontra. Ela encara até a substância, até a formação, até o solo sob os próprios pés. Ao ler uma alma moldada por essa visão de mundo, você logo entende a direção: conflito, vingança, desdém pela realidade, tudo impulsionado por um Marte anticósmico.
O islã pertence à mesma família religiosa, e a interpretação é semelhante, embora a estrutura seja diferente. É suficiente ler o Alcorão com sinceridade: o que é permitido e o que é proibido em tempos de guerra, o que pode desencadear um conflito, o que a sharia determina em cada circunstância da vida. Lá, você percebe a rigidez extrema, um moralismo severo, uma crença que estrutura toda a vida sob uma legislação detalhada e com poucas oportunidades para a interpretação pessoal. É uma religião solar em certos aspectos, mas possui um temperamento marcial: a alma que ela molda tende a buscar a ordem imposta, a uma submissão absoluta a uma lei que não é questionada, e à disposição de lutar por essa legislação. Ao analisar um paciente que é moldado por essa cosmovisão, é possível perceber que ele apresenta uma estrutura moral bastante sólida, um forte senso de comunidade e uma relação com a autoridade divina que difere significativamente da relação cristã. Isso ocorre porque, no islamismo, não existe a figura da filiação; não há um Deus que se apresenta como pai e amigo, mas sim um Senhor ao qual se deve total submissão.
O cristianismo, em sua essência, é uma religião solar, e essa pode ser considerada a diferença mais significativa para aqueles que habitam o Ocidente, pois representa a cosmovisão fundamental de toda a nossa civilização. O cristão reconhece Deus como pai — o pai que criou todo o universo, aquele a quem os santos chamam de pai, de amigo, em uma intimidade que seria impensável em outras religiões. Essa é a essência do cristianismo: a conexão com o que está além do comum. O que move ele é a esperança, essa esperança clara de que mencionei antes, a virtude na medida certa — e é por isso que o cristianismo, quando praticado de forma equilibrada, gera almas aptas a sofrer sem desmoronar, a esperar sem enlouquecer, a amar o mundo sem venerá-lo nem desprezá-lo. A forma como vemos a filiação transforma nossa compreensão de tudo: quem vê Deus como pai interpreta seu próprio sofrimento como parte de uma narrativa de amor, e não como algo sem sentido. Trata-se de uma engenharia da alma solar: atrai para a luz, para o alto, para o centro, para a harmonia que aquece ao invés de comprimir.
O budismo adota uma abordagem diferente, e o contraste com o cristianismo oferece uma excelente lição sobre como as crenças religiosas moldam toda uma população. Enquanto no cristianismo a esperança é o que move as pessoas, no budismo o que impulsiona é o desapego. "Liberte-se de todos os apegos, pois o apego é prejudicial e impede o crescimento espiritual" — essa é uma mensagem compartilhada por muitos mestres budistas, que consideram o apego ao mundo material como uma toxina, algo que envenena a alma e a aprisiona. Veja como tudo se transforma. Uma fé que é impulsionada pela esperança te leva a valorizar o que é bom e a esperar por momentos melhores; por outro lado, uma fé que se baseia no desapego te incentiva a liberar tudo, até mesmo o que é positivo, pois o apego em si é o verdadeiro obstáculo. E isso não é apenas uma questão teórica: ao observar uma civilização budista e compará-la com uma civilização cristã, é possível perceber duas mentalidades totalmente distintas convivendo no dia a dia. A cultura japonesa e a chinesa são marcadas por um moralismo extremo, onde uma pequena vergonha ou um constrangimento que para nós poderia parecer insignificante pode levar a pessoa à exclusão social, a ponto de os outros evitarem até mesmo a sua companhia. Em uma civilização cristã, essa mesma vergonha frequentemente não significa quase nada; as pessoas continuam suas vidas, a vida avança, "aconteceu, e aí?". Qual é a explicação para essa diferença tão acentuada? A raiz é uma religião que orienta a cortar laços, concentrar-se nos princípios morais e eliminar o excesso de apego — e isso, ao longo dos séculos, se enraizou na sociedade, a ponto de influenciar a maneira como as pessoas vivenciam a honra, a vergonha e as falhas, mesmo após muitos terem deixado de ser budistas praticantes.
Essa herança é tão intrusiva que justifica questões que parecem incomuns à primeira vista. É devido a ela, por exemplo, que o cristianismo protestante, mais rigoroso e moralista, se espalhou mais no Japão do que o catolicismo, embora este último tenha experimentado um crescimento recente na região. Uma alma habituada ao longo de gerações a uma moral rigorosa de vergonha e disciplina se identifica mais com uma vertente mais rígida do cristianismo do que com a relação mais afetuosa e filial presente no catolicismo. Há uma dinâmica geracional que o profissional de saúde mental deve compreender: quando uma religião se extingue em uma família — por exemplo, há quatro gerações era budista e se tornou católica — a partir da terceira geração, o pensamento budista desaparece do núcleo familiar, permanecendo apenas vestígios culturais, costumes de criação, imagens familiares e gestos herdados. Preste atenção nessa distinção, pois ela é sutil e crucial na clínica: esses resíduos são sociais, fazem parte da cultura, são a aparência exterior. O que realmente importa, o que tem poder de verdade, é o norte metafísico — e esse norte metafísico não é transmitido por tradição, mas é adotado por crença, e é ele que orienta a percepção. Uma pessoa pode manter mil costumes culturais de uma religião que sua família abandonou há gerações, e nada disso realmente ressoa com seu interior; o que realmente toca seu âmago é a visão de mundo que ela adota como sua. O médico que mistura a camada cultural com a essência metafísica compromete todo o diagnóstico.
Para completar o panorama, o espiritismo se inclina para um aspecto saturnino, mais focado na temática dos falecidos, uma trajetória de temperamento necromante — não no sentido pejorativo, mas no sentido técnico de uma crença cuja profundidade reside na conexão com aqueles que já partiram, com o além-túmulo, e na comunicação entre os diferentes planos. Trata-se de uma visão de mundo que centraliza a alma em torno de Saturno, do peso, do tempo, da morte e da eternidade que se estende além do corpo. Cada uma dessas religiões, ao se aprender a interpretá-las através do símbolo predominante, oferece uma orientação completa da mente daqueles que a seguem: a kimbanda e o islã se conectando a Marte, o cristianismo ao Sol, o budismo à dissolução e o espiritismo a Saturno. E é exatamente por cada uma ter um direcionamento tão diferente que afirmar "todas levam ao mesmo lugar" é a bobagem que eu critiquei no início. Não trazem. Cada uma conduz a alma a um lugar distinto no céu — ou além dele.
Agora, fiquem atentos à armadilha mais frequente na clínica, que pode enganar o psicólogo que não está atento. É possível ter uma pessoa que se considera católica "no papel", que frequenta a missa e se identifica com a Igreja, mas que, internamente, desenvolveu uma ética pessoal e transformou o catolicismo em uma religião de combate distorcida, pervertendo os princípios éticos da Igreja para adaptar uma moralidade própria, relativizada, que se ajusta ao seu ódio. Na aparência, cristão; no fundo, gnóstico. É fundamental distinguir com clareza as competências, pois essa confusão pode prejudicar bastante o tratamento. A questão doutrinária, a correção da fé propriamente dita, é responsabilidade do sacerdote, não sua; já a função do psicólogo é ajudar o indivíduo a ampliar sua compreensão para que a lógica possa ser incorporada. O psicólogo não se transforma em catequista, não insere suas crenças na conversa, não fica pregando; ele realiza seu trabalho, que é apresentar, de maneira mais lógica possível, que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra, que não é possível ser ambas ao mesmo tempo, e que a contradição que a pessoa mantém traz um custo. O religioso zela pela crença; o psicólogo se ocupa da razão por trás da percepção. Os dois atuam em conjunto, cada um em sua função, sem sobrepor-se ao trabalho do outro. Esse é o desenho adequado, e quem confunde os dois papéis, ou se torna um pregador de jaleco, ou um relativista de batina, acaba falhando com o paciente em ambas as situações.
Esse católico com uma ética distorcida frequentemente se envolve em uma bobagem herética específica, e isso me leva a um tema que requer extrema precisão, pois é sensível e a falta de clareza nesse ponto já causou muitos danos. O indivíduo acredita que o cristianismo se resume a uma guerra — não a guerra espiritual, que envolve lutar contra o próprio pecado e as forças invisíveis, mas sim a uma guerra física, que ocorre entre corpos reais, contra um determinado grupo de pessoas. E o grupo que esse tipo de herege frequentemente escolhe como "o verdadeiro mal do mundo" é o judeu. Acontece que isso não corresponde aos ensinamentos dos santos, e é fundamental esclarecer essa confusão com atenção. Quando os santos e os Pais da Igreja afirmavam que os judeus cometeram muitos erros ou que eram hereges, estavam se referindo a um aspecto teológico e a uma questão de obstinação — e não com uma conotação racial, nem na perspectiva de "vamos eliminar uma nação". A principal acusação da Igreja em relação aos judeus, enquanto povo, sempre foi a teimosia: a resistência obstinada em reconhecer aquilo que a própria lógica os conduziria a aceitar.
Aqui eu preciso explicar por que a Igreja considerava isso como teimosia, uma vez que o argumento é contundente e revela a essência do meu raciocínio. A teologia judaica, ao ser analisada de maneira aprofundada, revela uma quantidade surpreendente de elementos que se encontram, palavra por palavra, dentro do catolicismo. O judaísmo possui infernos temporários, que correspondem ao mesmo conceito do purgatório católico — a ideia de uma purificação que é passageira. Existem sete céus, assim como nos ensinamentos católicos. No Talmud, existem três manifestações de Deus que o católico descreve da mesma maneira: Pai, Filho e Espírito Santo. Portanto, a Trindade não é uma invenção alheia imposta ao judaísmo, mas sim algo que já está presente em sua essência. Muitas questões estão presentes de forma literal tanto na Cabala quanto na Igreja Católica, e isso não acontece por acaso: a própria Igreja emprega os métodos cabalísticos — o notarikon, a temurá, a guematria — para interpretar a parte apocalíptica da Bíblia, pois sem essas chaves de leitura não se consegue entender o Apocalipse da maneira correta. Não se trata de folclore; é por isso que alguns padres necessitam de um vasto conhecimento e de uma autorização especial apenas para ter acesso a esse aprendizado, pois ler o Apocalipse exige ferramentas que originaram-se da mesma fonte. Quando os Padres, diante de todas essas circunstâncias, se referiam aos judeus como teimosos, a acusação que faziam era a seguinte: vocês possuem em seus lares os elementos que conduzem ao cristianismo, descrevem o purgatório, os céus, as três manifestações de Deus e, mesmo assim, se negam a dar o último passo, por puro obstinação, para não abrir mão da diferença que assegura a continuidade do judaísmo.
E aqui está o ponto que eu não deixo passar de forma alguma, pois é a distinção entre a verdade e a calúnia, e por isso calúnia contra ninguém faz parte dos meus textos. Essas narrativas medievais terríveis — crianças cristãs assassinadas, sangue empregado em rituais, canibalismo — não foram perpetradas pelos judeus ortodoxos clássicos, nem pelo povo judeu em sua fé tradicional. Houve seitas judaicas paralelas e extremistas que eram vistas como heréticas pelo próprio meio judaico, repudiadas pelos próprios rabinos por serem considerados desvios monstruosos. Isso não constitui, de maneira alguma, uma acusação ao povo judeu. Nenhuma. Reitero isso com todas as letras, pois é precisamente aqui que os hereges de ética distorcida manipulam tudo: eles pegam o crime de uma seita extremista e colocam a culpa em um povo inteiro, exatamente como fizeram os piores da história. Essa é a falsidade que eu enfrento, não a que eu defendo. O que a Igreja, de fato, atribuía aos judeus como povo era uma teimosia teológica — incluindo a teimosia histórica de reconfigurar a Torá e o Tanakh no concílio judaico após Cristo, quando muitos estavam se convertendo ao cristianismo e era necessário assegurar, por meio dessa reconfiguração, a continuidade e a distinção do judaísmo. Ao analisar as conversas dos rabinos daquela época, é possível perceber um movimento de fechamento em curso. Sob a perspectiva psicológica, essa obstinação pode ser compreendida de uma forma que é relevante diretamente para o nosso método, e é por essa razão que eu abordei o tema.
Observe como a essência permanece constante, sempre teológica e sempre relacionada ao sentimento de pertencimento. O vínculo com a comunidade familiar judaica é tão intenso e fundamental que, ao se converter ao catolicismo, a pessoa frequentemente é deserdada — excluída da família, sendo tratada como se estivesse morta. Recentemente, em Israel, ocorreu a situação de um jovem que foi internado à força em um manicômio pela própria família, com o intuito de fazê-lo desistir da fé cristã, o que provocou um grande alvoroço. Portanto, a insistência que a Igreja classificava como teológica possui, por trás, um forte alicerce psicológico — o sentimento de pertencimento à comunidade, que é precisamente a visão de mundo percebida como lar, aquilo que mencionei no início. Deixar a fé é também deixar a família, é perder a base do pertencimento, e por isso a resistência é intensa, mesmo quando as doutrinas indicam direções diferentes. É o mesmo princípio, na essência, do católico que não consegue nem mesmo considerar uma objeção, pois ouvi-la seria como trair os seus. A essência é teológica, mas é sustentada pelo sentimento de pertencimento, e é por isso que alterá-la é tão desafiador e, ao mesmo tempo, tão necessário. Sob a perspectiva da consequência lógica, que é o critério que utilizo em todas as situações, a conclusão última do judaísmo, quando se considera suas premissas até o final, é o catolicismo. Da mesma forma, você perceberá que cada religião tem uma consequência lógica final para a qual tende, desde que não se interrompa o raciocínio por obstinação.
É importante dedicar um momento a essa noção de consequência lógica, pois ela representa uma das ferramentas mais eficazes que essa psicologia utiliza para interpretar uma alma, e eu desejo que você a compreenda com clareza. Toda crença, toda visão de mundo, gera dois tipos de resultados. Existem consequências históricas, culturais e sociais — as doutrinas secundárias que ela produz, os costumes, os hábitos, tudo o que ela gera no mundo ao longo do tempo. No entanto, existe também, sob essas questões, a consequência lógica ou metafísica: aquele destino final para o qual os fundamentos da fé conduzem quando você os considera até o término, sem se deter no meio do trajeto por conveniência ou teimosia. É semelhante a uma flecha que já foi lançada — enquanto ela está no ar, você consegue enxergar sua posição, mas quem compreende de trajetória já pode prever onde ela irá aterrissar. Compreender a consequência lógica de uma crença é como ler para onde a flecha vai cair, e isso transforma completamente a prática clínica, pois possibilita antever o caminho de uma alma antes mesmo que ela se dê conta de para onde está se dirigindo. O judaísmo, quando levado ao seu limite, direciona-se ao catolicismo; o protestantismo, ao alcançar seu extremo, aponta para o islã ou para uma gnose anticósmica; a ética subjetiva, ao ser levada ao máximo, resulta na autodivindade e na dissolução. O sujeito raramente se encontra no ponto final; ele está posicionando em algum ponto da trajetória, frequentemente acreditando que parou em um lugar seguro. Mas as premissas dele já contêm o destino, do mesmo jeito que a semente já contém a árvore, e o clínico que sabe ler premissas sabe, com antecedência, que árvore aquela semente vai dar — e pode intervir antes que ela cresça torta demais para ser endireitada.
Isso me leva ao coração do diagnóstico, ao ponto para onde tudo o que eu disse até agora estava convergindo: quando alguém relativiza a ética, seja qual for a religião de origem, o resultado é sempre, invariavelmente, o mesmo. Ele se posiciona como uma divindade. E não se trata de uma figura de linguagem, mas sim de uma consequência lógica direta. Portanto, siga o raciocínio com atenção, pois é aqui que a enfermidade se estabelece. Quem determina o que é bom e o que é mau ocupa, por definição, o lugar de quem define o bem e o mal — e esse lugar tem um único ocupante legítimo, que é Deus. No instante em que você toma para si a caneta que escreve a lei moral, você se sentou na cadeira d'Ele. A partir daí, você vira o iluminado da situação; e, sendo o iluminado, tudo o que você fala passa a ser verdade, nada do que você diz pode ser mentira, tudo o que você faz é "bonzinho" — e a gente volta, por outro caminho, ao conceito de dissolução do começo, porque um homem que é a própria medida do bem não tem como estar errado, e um homem que não tem como estar errado é um homem à deriva total, sem nenhum ponto fixo fora de si para se corrigir.
René Guénon deu nome a essa figura: o rei do mundo. Aquele que nega o bem e o mal objetivos e diz que "Deus aceita tudo" vira o rei do mundo, porque quem produz a ética governa o mundo moral inteiro — e produzir a ética é a prerrogativa do rei absoluto do sentido. É a ética do feiticeiro, e eu uso essa palavra com todo o peso: o feiticeiro é exatamente aquele que dobra a realidade à própria vontade, que diz "faça-se a minha vontade" e manda o resto se danar. A doutrina da feitiçaria é gnóstica na medula, porque você não está indo de acordo com a ordem do mundo, com o que os antigos chamavam de o rumo do Tao, o rumo da criação; você está impondo a sua vontade em revelia de tudo, inclusive de você mesmo. E aqui está o grande problema, o problema que transforma um erro filosófico numa doença mental de verdade: quando eu passo a achar que tenho poder sobre todas as coisas — sendo que não tenho, porque nenhum homem tem — três venenos entram juntos e se travam um no outro. A prepotência surge quando eu me vejo como superior a tudo e a todos. A obstinação, pois, sendo esclarecido, eu não consigo retroceder, não consigo aceitar falhas, não consigo abrir mão. A ignorância surge quando eu me vejo como o detentor da verdade e, assim, abandono o aprendizado, bloqueio os ouvidos e deixo de investigar aquilo que desafia minha ilusão.
E observe como esses três se alimentam mutuamente em um ciclo que se fecha e aprisiona, pois é esse fechamento que representa a loucura. Eu me considero prepotente, pois me vejo como alguém iluminado; sou teimoso, porque, na minha condição de iluminado, não posso errar; e sou ignorante, uma vez que, por ser iluminado, não tenho necessidade de aprender mais nada. Cada veneno nutre o outro, e o ciclo se estreita até que não reste nenhuma abertura pela qual a realidade possa adentrar e me corrigir. Nesse momento, todos que se opõem a mim estão se opondo ao "verdadeiro Deus" — que sou eu. Você nota que isso caracteriza a definição de esquizofrenia? Não estou usando a palavra de forma leve. A pessoa, de forma literal, passa a criar a sua própria realidade, formando um universo interno onde ela é o foco, o parâmetro e o julgador, afastando da consciência tudo aquilo que não corrobora esse universo. Por isso eu afirmo que a ética subjetiva não se trata apenas de um equívoco moral; é o ponto de partida de uma queda que culmina na loucura clínica, na pessoa que realmente acredita que é Deus. E o mais aterrorizante é que a estrutura lógica que sustenta esse delírio já estava toda elaborada na mente dele antes de ele perder completamente o juízo — ele entra em um estado de loucura exatamente porque construiu, peça por peça, um sistema perfeitamente coerente internamente e totalmente desvinculado da realidade externamente. A insanidade dele faz sentido; contudo, é uma lógica que se baseia em uma premissa errada, a de que ele é a referência para tudo. E a partir de uma premissa errada, você pode deduzir, com todo o rigor possível, um inferno por completo.
É por essa razão lógica que toda seita gnóstica original, ao ser acompanhada até o desfecho dos próprios escritos, leva ao mesmo destino sombrio: a extinção da vida ao redor e da vida em si. Não se trata de uma hipérbole. Os cátaros se suicidavam; a última consequência lógica de todos esses sistemas anticósmicos é que, se o mundo material representa o mal e a matéria é uma prisão, então a atitude mais coerente é eliminar a matéria — começando por sua própria. Veja só que crença estranha, observe até onde a lógica distorcida pode levar quando se parte de uma premissa equivocada. Por isso, eu reafirmo que a gnose é, acima de tudo, uma distorção da mente — e essa distorção não aparece magicamente, possui uma origem que o profissional da saúde precisa identificar. Geralmente, a amargura surge de uma frustração intensa, de um espírito desgastado, e essa amargura muitas vezes remete à infância: pode ser o filho que nunca recebeu carinho, o que cresceu negligenciado, aquele que observava a dedicação dos pais se dirigindo a um irmão ou a qualquer outra pessoa, menos a ele, ou aquele que se sentiu invisível durante os anos em que se aprende a se reconhecer como alguém. É esse tipo de ferida que, mais adiante, gera o sacerdote da gnose, o profeta que busca se elevar ao status de deus exatamente porque, em um determinado momento, foi ignorado como se não fosse nada. A autodivindade é, com frequência, a resposta tardia daqueles que foram desconsiderados.
Um exemplo icônico, um verdadeiro caso de estudo dessa doença, é Aleister Crowley. Vale a pena explorar sua biografia, pois ela valida cada aspecto do que eu expus. Indivíduo com diversas questões familiares, descendente de um pregador de uma seita inflexível — o pai liderava uma congregação rigorosa — cresceu em uma ética radicalmente iconoclasta, na qual nada poderia remeter a um ser vivo, sem imagens, sem representações, um ambiente visualmente estéril e moralmente sufocante. E, quando ele abandonou a religião e decidiu seguir outro caminho, toda a família o afastou. Una as partes: a rigidez opressora, a ruptura, o abandono, e por baixo de tudo, uma mente com sérios e diversos problemas psicológicos — não apenas um, mas vários. Esse é o caldo preciso do qual emerge o gnóstico, e Crowley surgiu inteiramente dele. Ele se tornou um gnóstico em sua forma mais autêntica: sugeriu sua própria divindade, se colocou como a besta do Apocalipse, e quase o conseguiu, não porque estivesse certo, mas porque todos ao seu redor aplaudiam o louco tentando se destacar. Foi um doido que, na época, se tornou um ícone. Ele trazia à tona ideias que estavam muito além do aceitável — eu me refiro a Crowley como o viajante do abismo, pois ele se aventurou em lugares onde pessoas comuns não deveriam estar, passou por portas que deveriam permanecer trancadas e acabou se dando mal, assim como qualquer um que se arriscasse da mesma forma. Formulou um sincretismo intrigante, a Thelema, composta por elementos variados, e se tornou o ícone de uma boa parte das alegações esotéricas contemporâneas. No final, o que se observa é um homem enfermo venerando uma crença que ele mesmo criou para se tornar o deus dessa fé — a representação ideal da ética subjetiva levada à sua máxima expressão.
Alguém pode me questionar como uma religião inteira pode levar as pessoas a esse caminho, e para responder, precisarei falar abertamente sobre o protestantismo, pois ele é, em nosso contexto, a principal responsável por essa mentalidade. Portanto, vou desenvolver essa crítica de maneira gradual, usando argumentos, e não em tom de reprovação. Início com uma definição que, embora severa, é precisa: o protestantismo, em sua essência, configura-se como uma anti-religião. Ele representa a antítese de uma crença, uma desintegração do que a fé realmente é. Por qual motivo? Devido ao sola scriptura, que estabelece que cada pessoa pode interpretar a Escritura de forma independente, sem a influência da tradição e do magistério. Acha-se que é liberdade, e é apresentado como tal, mas observe o que isso provoca na estrutura: confere a cada indivíduo o poder de criar a religião como bem entender. Produzir a religião da maneira que você deseja é, na verdade, a ética do feiticeiro aplicada à crença — é o "que a minha interpretação se torne realidade". René Guénon fazia uma distinção clara entre a religião tradicional e clássica, que afirma de forma inequívoca "o que é certo é certo, o que é errado é errado, isto é isto, ponto final", e a anti-religião moderna, que dissolve tudo em infinitas camadas de interpretação pessoal. A religião tradicional oferece uma base sólida para que você possa se elevar; por outro lado, a anti-religião proporciona um terreno que você reconfigura diariamente, e um terreno que se transforma constantemente não é um fundamento, mas sim areia movediça chamada liberdade.
Permita-me ilustrar o ponto com o exemplo que o protestantismo frequentemente considera como sua maior conquista, mas que, na realidade, é uma grande falha: a questão das imagens. O protestante critica a Igreja por praticar idolatria, uma vez que possui imagens, sustentando essa afirmação no mandamento que diz: "não farás imagens esculpidas, nem semelhança alguma do que há nos céus acima, nem na terra embaixo". Ele interpreta isso de maneira literal e chega à conclusão de que qualquer imagem é um pecado. Entretanto, essa interpretação é superficial, e eu explico o motivo. O mandamento não se trata de uma proibição abrangente para todas as formas de representação; ele se aplica a um contexto particular, o dos pagãos, especialmente dos egípcios. E aqui surge uma nuance metafísica que o protestante não percebe: os pagãos, especialmente os egípcios, não possuíam exatamente um plano metafísico distinto; para eles, o céu, a terra e o mundo dos mortos eram físicos, constituíam lugares dentro deste mundo. A mitologia egípcia é predominantemente ligada ao mundo físico — os deuses estão presentes no céu físico, na terra física, no submundo físico, abaixo da superfície. Quando o mandamento diz "não farás imagem do que há no céu, na terra e debaixo da terra", ele se refere especificamente a pessoas que acreditavam que esses três níveis eram físicos e que a imagem capturava e aprisionava a própria divindade física dentro dela. O mandamento se opunha a essa idolatria material. Entretanto, a Bíblia nunca apresentou o inferno como um lugar físico, assim como o céu; segundo a tradição, esses são diferentes níveis de realidade, planos metafísicos, e não localizações geográficas. O protestante, ao não compreender a distinção entre o físico e o metafísico, toma uma proibição específica contra a idolatria pagã e a converte em uma proibição geral contra a arte sacra. Erra a mão por completo.
E a evidência histórica está disponível para quem tiver a disposição de observar, não é apenas uma opinião minha: em Dura-Europos, há uma antiga sinagoga judaica adornada com imagens — os profetas, as cenas, tudo retratado nas paredes de um espaço de adoração judaica da época em que Cristo viveu. Ou seja: sempre existiu imagem, meu filho, sempre. Na própria casa de adoração do povo do Antigo Testamento havia figuras por toda parte, o que demonstra que a interpretação protestante do mandamento é insustentável até mesmo dentro do judaísmo, quanto mais no cristianismo. Toda a tese iconoclasta do protestantismo se desmorona diante de uma parede que foi pintada há dois mil anos. Isso é apenas um exemplo do padrão: o protestante cria um espantalho — "a Igreja é idólatra", "a Igreja adora imagens" — e ataca o espantalho que ele mesmo fez, considerando isso uma vitória, quando, na verdade, é apenas a falta de estudo unida à preguiça e à prepotência de não querer reconhecer que fingiu não enxergar os dados que estavam bem diante dele.
E quando um protestante chega afirmando que a Igreja está equivocada, que você deve abandonar tudo isso, eu digo: tenha cuidado, não saia acreditando nesse indivíduo, pois é bem provável que ele seja o verdadeiro arrogante. Pois, em uma comparação de capacidade intelectual, não existe competição. Um nome que pode ser mencionado é John Calvin, que possui profunda contribuição filosófica e teológica dentro da doutrina protestante. Não existe. Não é questão de chauvinismo, mas sim um fato que pode ser verificado: em áreas de pesquisa, na elaboração de doutrinas e na profundidade filosófica, a Igreja Católica se encontra em um nível diferente. Quando se lê com atenção as filosofias dos próprios pais fundadores do protestantismo, percebe-se que muitas de suas conclusões lógicas são frágeis, e, em alguns casos, claramente insuficientes, a ponto de qualquer leitor atento notar facilmente. Existem até algumas pequenas mentiras de sacristia que eles divulgam para se diferenciar, como a ideia de que "rezar e orar são coisas diferentes", o que é uma pura mentira etimológica — rezar e orar significam a mesma coisa, sempre significaram, e essa distinção é uma invenção protestante que não tem fundamento. Junte as partes: uma leitura excessivamente literal que ignora o contexto, a presença de espantalhos em vez de argumentos consistentes, uma escassez de profundidade filosófica em relação à tradição, e invenções diminutas para defender a separação. O resultado é uma crença que se forma, essencialmente, a partir do próprio interior de cada pessoa.
E por essa razão o protestantismo continua se expandindo em milhares de denominações, e isso acaba levando, de forma lógica, a situações muito mais graves do que ele mesmo consegue perceber. A multiplicação é algo que não pode ser evitado, pois, se cada indivíduo cria sua própria interpretação, cada nova interpretação resulta em uma nova igreja, continuamente — é a dissolução em ação, se espalhando para sempre. E a consequência final é ainda mais grave. Se levado ao extremo de suas próprias premissas, o protestantismo se transforma em uma gnose luciferiana anticósmica ou se desvenda no islamismo — e essas duas direções possuem uma lógica interna. Entrei no islamismo porque, ao insistir de forma obstinada em negar a santidade e, por fim, o livre-arbítrio — se não há possibilidade de elevação espiritual, se ninguém é santo, se tudo é predestinado sem mérito — Cristo é reduzido a um homem qualquer, uma manifestação entre tantas, e não o Messias. Negar a condição messiânica de Cristo, mantendo a reverência por ele, é precisamente a perspectiva islâmica. Ou então você se perde na gnose anticósmica autêntica, que afirma que o Deus do mundo material é o demiurgo, um deus ilusório, e que o verdadeiro se encontra do outro lado — e assim você já se encontra na kimbanda luciferiana, no mesmo espaço anticósmico que mencionei, apenas acessando por outro caminho. Duas consequências lógicas, o mesmo fim de desintegração. Por isso, afirmo: quando um protestante afirma que a Igreja está equivocada, é fundamental analisar com atenção quem, entre os dois, é o arrogante na história.
É importante, neste momento, encarar a gnose em sua essência mais pura, pois tudo o que venho apresentando — a ética subjetiva, a autodivindade, a dissolução — tem sua origem histórica nesse ponto. Compreender essa origem facilita a identificação do rio onde quer que ele surja. O primeiro mito que devemos desmantelar é o da alegada antiguidade sagrada dos textos gnósticos. Os manuscritos de Nag Hammadi, que a contemporaneidade considera como um evangelho perdido, um cristianismo oculto mais autêntico do que o da Igreja, são, na verdade, textos posteriores que não se conectam de forma alguma com os apóstolos, não possuindo relação real com eles. Trata-se, em grande parte, de esforços para reintegrar uma teosofia do período, recriando aquele sincretismo habitual. Como eles realizavam isso? Considerando uma doutrina antiga — um segmento do orfismo, que era reconhecido como herético até mesmo dentro do próprio orfismo — que afirmava que este mundo é maligno, que existe um demiurgo, um criador falso e maligno, e que a matéria é uma prisão. Pegavam essa raiz anticósmica e incorporavam nela fragmentos de cristianismo, trechos da filosofia grega, partes do que estivesse disponível. Costumo brincar que a gnose é como um megazord de crenças — uma construção feita de fragmentos de diversas origens, com cada braço vindo de um lugar diferente e cada perna de outra fonte. Eles consumiram de várias fontes e teceram esse enorme emaranhado que foi chamado de gnose. E o nome tem um significado profundo: gnose é a primeira das gnoses, que nos revela a pretensão de um conhecimento salvador oculto, capaz de tornar o iniciado um ser distinto.
Guénon já havia feito uma separação clara e precisa entre duas coisas que a modernidade frequentemente confunde, e é importante ressaltar essa distinção, pois ela estrutura todo o entendimento. De um lado, encontramos as religiões autênticas, as tradições genuínas — aquelas que possuem um corpo integral, uma tradição vibrante, todos os aspectos de uma fé plena: metafísica, ética, rituais, transmissão de conhecimento e autoridade. Do outro lado, encontramos essas novidades contemporâneas de braços new age, que não se configuram como religiões verdadeiras, mas sim como uma espécie de megazord, uma composição desorganizada, sem uma base sólida, sem uma tradição genuína, construída conforme as preferências de quem a procura. A religião tradicional — como o hinduísmo clássico e o catolicismo — define de maneira clara o que é certo e o que é errado, proporcionando, assim, uma base sólida para a alma. A anti-religião, a religião diluída, o protestantismo, a nova era, o budismo já corrompido, afirma "interprete como quiser, tudo é válido" — e por isso desfaz a essência do ser. Guénon estava correto, não há como afirmar que ele estava errado: o que distingue o que consolida do que desintegra é, na verdade, a presença ou a falta de uma fundamentação objetiva, de uma tradição que não se curva aos caprichos pessoais.
A consequência da gnose, quando você a acompanha até o fim, é clara: a completa dissolução, a extinção da vida. Agora é possível nomear a estrutura psíquica que fundamenta isso com maior precisão. O gnóstico é aquele que, ao se considerar uma divindade, conclui que o mundo material é maléfico e que ele mesmo é uma centelha aprisionada. Assim, chega à conclusão de que a verdadeira libertação consiste em destruir essa prisão — que é o mundo, o corpo e a própria vida. Por essa razão, as seitas gnósticas de origem sempre foram um mistério para aqueles que se ferem e ferem outros: os cátaros tirando suas próprias vidas, os cultos que acabam em sacrifício. E por essa razão, esse mesmo impulso reaparece disfarçado na modernidade, com uma nova aparência, mas com a mesma essência antiga, no niilista que defende que o ideal seria a humanidade interromper sua reprodução e caminhar rumo ao fim — que é a gnose de terno, a dissolução apresentada como filosofia contemporânea. É o mesmo demônio, o mesmo rumo, a mesma consequência lógica de quem parte da premissa de que existir é o mal.
Mas eu não descrevo a doença para deixar você no escuro, e é por isso que preciso apresentar a minha própria doutrina, a teologia do imaginário, porque é ela que oferece a alternativa ortodoxa exatamente onde a gnose oferece a saída suicida. E preciso apresentá-la com cuidado, porque muita gente me confunde justamente com aquilo que eu combato. Vieram me dizer, gente que veio conversar comigo sobre teologia do imaginário, que eu estaria fazendo o mesmo "Deus das lacunas" do budismo teosófico, aquele "tudo existe, tudo é bom, tudo comunga, tudo leva a Deus". Não é nada disso, e a diferença é a diferença entre o céu e o inferno, literalmente. O que eu sustento é que a nossa alma é um portal metafísico — o seio de Abraão de que fala a própria Bíblia, aquele lugar onde as almas ficam à espera do apocalipse. A alma não é uma coisa fechada; ela é uma porta para um plano, e o que reside desse lado da porta se reflete, se encarna, ressoa na nossa psique enquanto vivemos.
Deixa eu descrever a arquitetura desse plano com calma, porque é fina e é a parte mais própria do que eu construí. Cada pessoa carrega o seu mundo possível, ou os seus mundos possíveis — quase um multiverso interior, um conjunto de esferas onde reside tudo o que ela deseja, tudo o que ela anseia, todos os seus mundos de perfeição imaginada. Enquanto você está vivo, existe bem e mal dentro desse mundo interior; existe aquilo que a tradição chama de qliphoth, o mal que o próprio ser humano carrega como consequência da queda, o resíduo sombrio dentro da própria alma. E é aqui que a coisa se decide, exatamente como se decide na vida moral: quando você morre, se foi uma pessoa boa, esse mal interior é purificado, e o seu mundo possível — limpo das manchas — se reintegra aos mundos possíveis de todos os outros mortos bons, fundindo-se num só plano infinito, um céu dos mundos possíveis onde moram todos os anseios benignos e virtuosos da humanidade inteira. Algumas vias de interpretação dizem que esse plano reintegrado é a própria Jerusalém celeste. É lá que você fica, esperando o apocalipse. E note bem: esse é o primeiro dos sete céus do plano metafísico — não confunda com a contagem física, o céu que é a atmosfera, o segundo que é o espaço; eu estou falando do primeiro céu já dentro do plano metafísico, aquele para onde a alma boa vai. É por isso, aliás, que nós nos encontramos em sonho: porque, de algum modo, habitamos juntos esse plano dos mundos possíveis — e é por isso, também, que só os santos, por elevação espiritual, conseguem de fato visitar o mundo possível de outro por via divina, enquanto o resto de nós apenas o tangencia no sonho.
E é justamente a estrutura desse plano que garante que a teologia do imaginário seja o oposto exato da gnose, e não uma variante dela — presta atenção nisso, porque é a linha que separa a ortodoxia do delírio. Em primeiro lugar, este mundo deve estar alinhado com o Deus de Israel; não há espaço para idolatria nele, não existe deus pagão que seja reconhecido como tal. Se algo existe nesse plano — por exemplo, um Thor, o deus do trovão dos quadrinhos — ele existe como uma criatura desse imaginário reintegrado, uma figura do repertório humano, e não como um deus que se contrapõe ou rivaliza com o verdadeiro Deus. Quando Cristo afirma "vós sois deuses", Ele se refere a esse céu interior, a esse mundo que se conecta ao de todos no momento da sua morte — e não a uma divindade independente que rivaliza com o Criador. E o oposto é o inferno pessoal: se você foi aquele que só cometeu o mal, se a sua mente só gerou coisas ruins, o seu mundo possível não se purifica, ele se desvirtua, se corrompe, apodrece até se tornar um inferno particular, e se reintegra não à Jerusalém celestial, mas à camada que está além da criação — o reino dos pesadelos, onde não existem deuses, apenas demônios. Segundo a própria doutrina católica, os deuses pagãos são, na realidade, demônios: entidades que usurparam o lugar de Deus, aproveitando-se do fato de que Deus tentou se revelar, mas, ao longo do processo, alguém distorceu esse desenvolvimento. Deus se manifestou nas religiões tradicionais; ao longo do tempo, os seres humanos distorceram essa imagem, criando diversos deuses ao lado de um ser primordial; e essas divindades preencheram o vazio deixado. A única tradição que pode ser considerada como tal em sua totalidade, e da qual surgiu o cristianismo, é o judaísmo, pois foi nesse contexto que se entendeu Deus sem dividi-lo em ídolos. Na verdade, não estou afirmando que "todos os deuses existem e está tudo bem". Estou afirmando quase o oposto: que há um céu verdadeiro e um inferno verdadeiro, um destino de reintegração e um destino de distorção, sendo que a diferença entre os dois reside exatamente na ética objetiva que é vivida ou traída. Eu sou, se preferirem, a antítese da madame Blavatsky — enquanto ela funde tudo no bem, eu discerni o que se preserva do que se perde.
Com todo esse arcabouço em mãos — a cosmovisão como base, a ética objetiva como fundamento, a gnose como mal e a teologia do imaginário como o guia do que se preserva e do que se perde — o método clínico transcende a abstração e se torna um ofício. Reitero o essencial, pois é para isso que tudo converge: você obtém duas coisas do paciente, a ética e a visão de mundo. O que ele julga como certo, o que considera como errado, onde existem discrepâncias entre suas pregações e suas ações, e a indagação que define o resultado — se tudo isso está ou não criando uma gnose psíquica. Se estiver assim, o alarme precisa ser acionado, pois a pessoa está perdendo o controle, e não estou sendo exagerado, falo isso de maneira literal: começa devagar, com uma ética um pouco flexibilizada aqui, um pouco de arrogância ali, e acaba com o indivíduo acreditando que é Deus, exatamente como aconteceu com Crowley. A ética subjetiva, por uma consequência lógica, gera isso; não se trata de uma possibilidade distante, mas sim do destino inerente à premissa.
É nesse ponto que se estabelece a função do psicólogo dentro dessa perspectiva, e essa função é bastante distinta do que a formação convencional ensina: ele deve agir como um mentor racional. Não um espelho que apenas reflete e valida, não um ombro que somente acolhe e concorda, mas alguém que desvenda os emaranhados da percepção antes que um emaranhado puxe o outro. Pois é assim que a doença atua — uma percepção distorcida provoca um emaranhado, que cria outro e mais outro, até que a mente da pessoa se transforme em um novelo imenso, uma bola de nós tão entrelaçada que o indivíduo não consegue mais encontrar a ponta por conta própria. A função do mentor lógico consiste em pegar o novelo antes que ele se feche, localizar a ponta e ir desatando com o paciente, revelando onde a percepção se distorceu e por qual razão. E para tanto, o psicólogo deve ser, por sua vez, lógico — precisa contar com uma base objetiva sólida sob os pés. Porque, e aqui vai o aviso mais sério que posso dar a quem deseja trabalhar nessa área, se o psicólogo for relativista e não possuir uma ética objetiva, ele não conseguirá desatar o novelo do paciente; na verdade, ele acaba sendo puxado para dentro de suas próprias questões. O relativista não salva o gnóstico; é o gnóstico quem convence o relativista.
E isso não é apenas uma suposição, é uma realidade que ocorre, e por um motivo que o profissional da área deve considerar com seriedade: as religiões e seitas de dissolução são um espaço propenso a abusos, e um ambiente arriscado até mesmo para o especialista. Onde existe dissolução, há abuso, e, por consequência lógica — não por acaso —, o próprio sacerdote da seita se tornou uma divindade a partir da doutrina. Os fiéis passaram a estar subordinados a esse deus moral que decide tudo. E um deus moral sem limites age como deseja com aqueles que estão abaixo dele. A distinção entre religião e seita é essencial e deve ser claramente compreendida: a religião clássica e tradicional estabelece que "certo é certo, errado é errado, e ponto final." Por essa razão, ela oferece proteção — ninguém se torna deus nesse contexto, ninguém molda a ética conforme suas preferências, e ninguém extrai interpretações de lugares inadequados. A seita de dissolução age de forma contrária, e por essa razão, dificilmente pode ser considerada uma religião. O risco para o clínico é real, a ponto de eu já ter presenciado uma situação em que um sacerdote gnóstico foi ao psicólogo e saiu de lá com o profissional convertido à sua seita, pois o sujeito apresentava uma visão simbólica mais forte, mais bem elaborada e mais cativante do que a do terapeuta que o atendia. Se você não é racional, se você não possui base, você não é o orientador — você é a próxima presa. Dessa forma, essa psicologia demanda do próprio psicólogo aquilo que ela busca promover no paciente: uma alma reorganizada por uma ética objetiva.
E como o risco é de fato verdadeiro, permitam-me apresentar ao leitor os sinais que ajudam a reconhecer uma seita de dissolução, pois saber identificá-la é um passo importante para não ser levado por ela. O primeiro indício é a ética que se adapta: se a doutrina altera o que é certo e errado conforme a conveniência do líder, se hoje algo é considerado pecado e amanhã não é mais, pois passou a ser conveniente, você está diante de uma ética fluida, e ética fluida é o traço da dissolução. O segundo sinal é a divinização do sacerdote: se o líder, na prática, assume o papel de quem determina o que é bom e o que é mau, se suas palavras têm mais peso do que qualquer princípio superior a ele, se discordar dele significa discordar de Deus, o processo de autodeidade já começou, e onde há um deus sem limites, sempre haverá abuso, como uma consequência lógica. O terceiro sinal é o segredo em camadas: são os níveis de interpretação que apenas os iniciados conseguem compreender, o conhecimento oculto que distingue os que estão dentro daqueles que estão fora, a promessa de uma verdade secreta que torna o adepto um ser singular — é a antiga estrutura da gnose, que eleva o iniciado acima do restante da humanidade. O quarto sinal, que é o mais sério, indica o caminho para a desintegração do próprio praticante: se, ao seguir a lógica interna dessa ideia até o final, você acaba por desprezar o mundo, desprezar a vida, se isolar de todos em nome do seu próprio ego, e acreditar que existir é um mal — então isso não se sustenta, isso se dissolve, e o destino de quem permanece é a ruína. Informe a quem você ama ao perceber esses sinais em qualquer comunidade, pois a religião tradicional se resguarda justamente por não apresentar nenhum deles: ela possui uma ética estável, uma autoridade que se submete a algo superior, uma doutrina acessível em vez de um segredo iniciático, e um propósito que ancla a alma no mundo, em vez de distanciá-la dele.
Aqui, sempre tem alguém que levanta a mão e pergunta, acreditando que me surpreende: "Gabriel, e o ateu?" Todo o seu sistema parte do pressuposto da religião; ele não se aplica a quem não possui nenhuma crença religiosa. E eu digo que sim, e isso vale da mesma forma, e a resposta elimina a objeção desde o princípio. Se uma pessoa cresceu em um ambiente católico — com família católica, amigos católicos e uma sociedade católica ao seu redor — qual é a visão de mundo que ela carrega, mesmo que se declare ateia de forma oficial? Ela é católica. A abordagem ética que ele aplica para avaliar o mundo, mesmo ao criticar a Igreja, se fundamenta em uma vertente do catolicismo, embora ele passe a vida questionando essa ética que recebeu. Ninguém reflete sobre o vácuo; todos têm suas ideias formadas a partir da moldura em que foram criados, e essa moldura do nosso mundo é cristã até na essência de quem a rejeita. Portanto, o ateu não está excluído do método; ele é um exemplo desse método — uma pessoa com uma cosmovisão cristã subjacente e uma ética que está sendo relativizada, o que resulta na gnose. E muitos psicólogos podem não gostar do que vou dizer a seguir, mas é necessário: você precisará fazer com que essa pessoa perceba que ela vive em uma sociedade católica e que não é possível impor uma moralidade subjetiva sobre essa sociedade sem provocar confusão, sem causar problemas para ela e para todos ao seu redor. Pois o que acontece com quem toma essa atitude é sempre o mesmo naufrágio: ele se afasta da vida social, se distancia de todos, sacrifica tudo em prol do próprio ego, pois "detém a verdade" — e uma verdade que demanda o abandono da humanidade em nome de si próprio não é uma verdade, mas o início do isolamento do insano.
É importante corrigir um equívoco em relação ao nome que compromete o entendimento: na realidade, a maior parte das pessoas que se identificam como ateus, na verdade, não é ateia — são agnósticas. Um ateu é aquele que declara que Deus não existe; a maioria das pessoas não faz essa afirmação, elas apenas não conseguem acreditar, o que é algo distinto. E não conseguem acreditar, sabendo, lá no fundo, que existe toda uma lógica capaz de sustentar a existência de Deus — pois essa lógica existe e é robusta. A existência de Deus pode ser justificada de forma lógica; basta explorar a teologia tomista, que essencialmente é a filosofia aristotélica adaptada por Tomás de Aquino, para se observar a demonstração de maneira clara. O agnóstico sincero tem consciência disso, e é por isso que ele não se considera verdadeiramente ateu: ele não nega, ele hesita em acreditar, o que é uma escolha da vontade e não uma conclusão racional. E aqui está o ponto difícil que o profissional de saúde precisa aceitar: em uma sociedade moldada por uma cosmovisão, tudo o que se desvia muito dessa linha será percebido como algo ruim — não porque a sociedade seja impecável, mas porque a cosmovisão subjacente é o parâmetro que ela utiliza para sentir. Não há como escapar disso; o que se pode fazer é reconhecer e atuar a partir dessa realidade.
Antes de prosseguir, é necessário que eu enfrente as objeções mais contundentes que já encontrei, pois um método que ignora as objeções é, na verdade, um sistema fechado que eu critico ao mencionar o gnosticismo, e não quero cair na armadilha da minha própria crítica. A crítica mais incisiva é esta: "Gabriel, você imputa ao ateu a vivência em um sistema encerrado, que abrange tudo e que não se permite ser contestado; porém, o seu sistema igualmente abrange tudo — a religião, a ética, os sete polos, os filmes, toda a história — e um sistema que engloba tudo não é ciência, é um dogma camuflado." É uma objeção válida, a mais forte que se pode ter contra mim, e estou aqui para responder de maneira clara. A distinção entre um sistema fechado e um sistema ancorado não reside na quantidade de explicações que oferecem; mas sim naquilo a que eles se submetem. O sistema gnóstico é autossuficiente, pois seu critério supremo é ele mesmo — a vontade do sujeito se torna a referência para tudo, o que impede qualquer intervenção externa de corrigí-lo; o círculo se fecha em torno de si mesmo. O que eu defendo está voltado para o mundo externo: o critério definitivo não sou eu, mas sim a verdadeira ordem das coisas, que representa uma ética objetiva a qual Sócrates, Aristóteles, Tomás e Lao Tsé chegaram, independentemente de diálogo entre eles. É a lógica que qualquer pessoa pode verificar detalhadamente. Um sistema que se submete a algo que está além do sujeito é passível de correção; já aquele que se submete apenas ao sujeito é uma ilusão. A evidência se encontra no resultado, e esse resultado é passível de verificação: onde a ética objetiva se faz presente, a alma se organiza, a pessoa retoma sua vida em sociedade, casamento, trabalho e sentido; onde a ética subjetiva prevalece, a alma se desintegra, a pessoa se isola, adoece e, em última instância, se considera deusa e se perde. Um sistema é reconhecido por seus produtos, e a dissolução e a ordem geram resultados opostos e perceptíveis.
A segunda objeção é a de que tudo isso não passa de uma versão reformulada da astrologia, uma pseudociência com um nome atrativo — sete planetas, zodíaco, alquimia, todo o pacote típico do charlatão. E eu replico com exatidão, pois a desordem presente é de vocabulário, e não de conteúdo. De maneira alguma eu afirmo que a presença de Marte no céu provoca conflitos na alma ou que a localização de um astro define o seu destino; isso seria, na verdade, uma astrologia determinista, e essa não é a minha abordagem. Os nomes dos planetas funcionam como rótulos para sentimentos reais e perceptíveis da alma humana — o desejo de liderar, o de aprender, o de batalhar, o de amar, o de zelar, o de criar, e o de se preparar para o fim. Eu poderia atribuir a essas pulsões denominações clínicas frias e o método ainda assim funcionaria da mesma forma; opto pelos nomes simbólicos porque a linguagem simbólica comprime, sintetiza, torna abrangente e memorável aquilo que a linguagem seca fragmenta em mil partes. A alquimia, da mesma forma, não se trata de química de laboratório nem de uma promessa de transformar chumbo em ouro; é uma gramática do que se transforma, e a psique é o aspecto que mais se transforma. Referir-se à parte superior de um forno alquímico como "cabeça" é uma metáfora precisa, não uma simples crença mágica. O símbolo presente aqui atua como uma ferramenta de interpretação, não como um agente oculto — e essa distinção é o que separa minha psicologia da banca de tarô da esquina.
A terceira objeção é a mais grave de todas e eu a considero com seriedade: "Você passou o texto inteiro criticando aqueles que criam sua própria ética e a denominam de objetiva; mas não é exatamente isso que você faz, impondo sua ética católica e chamando-a de ordem universal?" Não, e essa distinção é o cerne de tudo que eu escrevi. A ética objetiva não é a minha visão ética, não se trata de uma preferência que eu estabeleci e mascarei como lei; é aquela à qual mentes que nunca se conheceram chegaram de forma independente, a partir de continentes diversos e épocas distintas, o que demonstra que elas descobriram algo que realmente existe, e não algo que criaram. É aquela que se prova pela lógica, e a verificação da demonstração é possível; a teologia tomista está acessível a qualquer pessoa que queira conferir o raciocínio. A distinção entre declarar uma ordem objetiva e criar uma ética subjetiva não se trata de tom, e sim de origem: uma se revela e é aceita, enquanto a outra é elaborada e imposta. É importante ressaltar que, na clínica, o psicólogo não tem a função de catequizar, não impõe doutrinas ao paciente, nem se comporta como um pregador de jaleco — essa é uma tarefa do sacerdote. O trabalho do psicólogo consiste em reestabelecer a lógica, evidenciar as contradições e desvendar o emaranhado da percepção. Ele não força uma crença; ele restitui à pessoa a habilidade de pensar de forma correta, permitindo que esse pensamento a conduza aonde for necessário. Impor seria criar; restaurar a lógica é o oposto de criar. Aquele que compreende essa diferença entende todo o método; quem não a compreende continuará pensando que fixar a alma em um solo e submergi-la na areia são a mesma coisa, apenas porque em ambos os casos se fala sobre solo.
O retrato completo dessa resistência a acreditar, dessa vontade que se recusa a aceitar o que a razão evidencia, é o próprio Nietzsche. Vale a pena dedicar um tempo a ele, pois ele é o santo protetor da dissolução moderna e seu caso revela todo o mecanismo. Todas as pessoas ao seu redor afirmavam que ele era inaceitável — não contava com amigos, ninguém desejava se casar com ele, era uma pessoa difícil de se conviver, um ateu irritante no sentido mais literal da expressão. Ao analisar os textos dele com cuidado, você nota algo que os fãs não costumam apreciar: ele nunca contesta a existência de Deus com base em uma teologia estrita, nem o faz por meio de uma lógica rigorosa. Ele não analisa os argumentos tradicionais sobre a existência de Deus e os refuta um a um, com a precisão que um filósofo sério faria; ele passa o tempo todo escrevendo, com um grande talento literário, o quanto, em sua mente, Deus é uma calamidade, o quanto a moral cristã o perturba e o quanto ele menospreza os mais vulneráveis. É uma expressão de sentimentos com classe, não uma contestação baseada em raciocínio. Um único livro de Tomás de Aquino — a Suma contra os Gentios, que foi escrito precisamente para dialogar com aqueles que estão fora da fé — seria capaz de dissipar metade das dúvidas que ele reflete por páginas e mais páginas. O que mais chama a atenção é que, em seus próprios textos, é possível perceber uma profunda admiração pela Igreja e pela grandiosidade da construção que critica; ele reconhece a magnitude do que se opõe. Ele simplesmente não consegue acreditar — e não é por falta de razões a favor, mas por uma questão de vontade, exatamente como o agnóstico que se apresenta como ateu.
E é por essa razão que eu o denomino profeta da dissolução, assim como a maioria dos ateus contemporâneos, e é por isso que ele e seus seguidores acabam, todos, se encontrando na mesma posição que o satanismo — o que, para quem não acompanhou a linha de pensamento, pode parecer um salto inconcebível, mas trata-se de uma consequência lógica clara. Observe: se você afirma que este mundo é desprovido de sentido, que a existência é dor, que não há Deus nem propósito, qual seria a conclusão lógica que sobra? Surge a concepção de que o ideal seria evitar o nascimento de mais pessoas para que não sofram, cessar a reprodução e direcionar tudo para um encerramento. Trata-se do niilismo levado ao extremo, e essas consequências extremas são equivalentes às do gnóstico anticósmico que deseja desintegrar a matéria: ambos, por caminhos opostos — um afirmando que o mundo é maligno, o outro alegando que o mundo é desprovido de sentido — alcançam o mesmo fim, que é o amor pela extinção. O niilista vestido de terno e o cátaro com túnica desejam, no fundo, a mesma coisa: que tudo isso chegue ao fim.
E não se deixe levar pela ideia de "satanismo ateu", pois essa é a hipocrisia mais elaborada que existe. LaVey, assim como aqueles que estavam próximos a ele, na verdade tinha uma crença no aspecto espiritual; sua aparente postura ateísta era, na verdade, apenas uma máscara. Aqueles que se debruçaram sobre a obra de Lovecraft compreendem o que essa turma exalta — os deuses alternativos, as entidades — e o próprio Crowley valida essa fé mesmo sob uma aparência de ceticismo. Após isso, um foi convertido em Templo de Set, outro tomou outra forma, todos supostamente sem crença, todos com rituais meticulosamente elaborados, corretos, repletos de adoração, e todos assegurando que fazem tudo aquilo "somente para tirar sarro". Certamente, ninguém se empenha em criar um ritual detalhado, repetitivo e respeitoso sem propósito algum; ninguém entrega sua vida a adorar algo em que não tem fé. É ingênuo ter esse tipo de pensamento. E, se você observar, esses deuses alternativos que permeiam todas as vertentes do satanismo são, na verdade, os demônios da Bíblia: a maneira como o demônio se manifesta, conforme descrito pelos próprios ocultistas que os invocavam, é a mesma que a do deus alternativo. Deus e demônio não apresentam diferença alguma; são a mesma entidade com nomes distintos. Eu realmente não entendo como ainda não foram capazes de juntar os pontos — talvez porque fazer isso exigiria reconhecer que a Igreja estava certa sobre a essência do que eles veneram, e a teimosia, mais uma vez, impede a lógica de chegar à conclusão.
Portanto, reúna tudo o que comentei a respeito da ética subjetiva e perceba o elemento comum que conecta o ateu militante, o gnóstico, o satanista e o niilista: todos são, cada um à sua maneira, devotados à dissolução. A ética subjetiva, por sua vez, resulta em um indivíduo que fragiliza sua própria psique — pois ao se opor à ordem do mundo, à lógica e à criação, na verdade está afirmando, em essência, "desejo a dissolução", uma vez que almeja ser deus e não aceita nada acima de si. E a ironia mais amarga é que quando o ser humano tenta eliminar Deus, ele não consegue — a única coisa que consegue, ao se autoproclamar deus, é concluir que ninguém mais deveria existir, que todos deveriam desaparecer para que a matéria deixe de existir. Na lógica anticósmica, o mundo material só se mantém enquanto estamos presentes; se todos se afastarem, a criação se dissolve e o domínio do demiurgo chega ao fim. É a mesma conclusão do cátaro, do niilista, e do von Trier, que irei analisar em breve: todos chegam ao amor pela morte. E é constantemente acompanhado, observe, de um elogio exagerado à natureza como algo limpo e sagrado que apenas o homem deteriora — como se a natureza, que é um conflito constante, fosse o paraíso, e o ser humano, com sua excessiva consciência, a única imperfeição a ser eliminada. É a autodepreciação da espécie elevada à condição de virtude. E é justamente contra esse amor pela morte, contra essa desintegração com mil disfarces, que esta psicologia se propõe a atuar.
Agora eu preciso aprofundar a análise da alma, pois a desordem que venho discutindo não é uma névoa abstrata que se aloja na pessoa — ela possui polos, e esses polos têm sexo, e o profissional da saúde precisa saber interpretar ambos. Em toda tradição simbólica respeitável, o emocional exagerado, o que é pouco racional e o muito dionisíaco sempre foi relacionado ao caos; e, por sua vez, o caos sempre esteve ligado ao feminino. E eu afirmo isso não com a intenção de ofender — muito pelo contrário, faço isso como um elogio, e já explico o motivo. A mulher, por sua essência, é muito mais sensível do que racional, e isso não é um ponto negativo, é a sua beleza. É exatamente por essa razão que a amamos tanto, é por isso que a consideramos encantadora, tão delicada e tão cheia de vida. É essa confusão interna, essa desorganização de um modo positivo, que produz o amor. E aqui está um ponto que considero importante registrar, pois ele demonstra por que a razão não pode dominar tudo: se você examina o sentimento apenas por meio da razão, você acaba perdendo o próprio sentimento. Se você analisa o amor de maneira fria e racional, perde a capacidade de se encantar e começa a pensar que "isso é apenas uma troca de hormônios na minha mente, é somente um conjunto de percepções na minha alma". E, no momento em que você faz essa afirmação, o fascínio se extingue. Você não se encanta mais, pois explicar o encantamento pela química é acabar com ele. O sentimento necessita de um toque de mistério, de um toque de caos, para seguir sendo sentimento. A mulher traz consigo esse vestígio, essa essência de Vênus, e é exatamente por isso que ela é o lar do amor.
No polo ideal, na coordenada exata, a mulher representa a Lua e o homem representa o Sol. A parte ideal da mulher é a lunar — é o acolhimento, o cuidado, a receptividade, a luz suave que reflete e aquece sem causar queimaduras; a parte ideal do homem é a solar — representa a ordem, a direção, a luz que centraliza e organiza. Existe um símbolo antigo que expressa essa ideia: nos tempos das tribos, quando o céu apresentava tonalidades de rosa, isso era considerado um presságio de sangue, de algo maligno, de que algo terrível estava por vir — pois o rosa carregava a representação do caos, que era ligado ao feminino, ao emocional que não se submete à lógica. A mulher que é verdadeiramente feminina, aquela que atrai o amor de qualquer homem e com a qual ele deseja se comprometer, ter filhos e ser leal com toda a intensidade que possui, é a que mantém vivo, mas de forma equilibrada, esse Vênus. Ela possui emoção, doçura e um caos criador, mas não se deixa dominar por ele: não agride a todos, não diz "agora farei o que quero", nem se coloca acima de tudo. É a harmonia entre a Lua e Vênus, entre o carinho e a sensibilidade, que transforma a mulher em alguém gentil. O homem, por sua vez, é naturalmente atraído por isso: uma mulher que se apresenta de maneira organizada, feminina, educada e gentil, e todo homem que tem essa essência vai desejar se entregar a ela por completo. É a maneira como ela se expressa, unida às suas emoções, que cativa você.
A desordem, tanto em homens quanto em mulheres, representa a queda de Apolo em direção a Dionísio, e essa transição se reflete em imagens de ambos os lados. A mulher de Vênus em total desordem representa a feminista atual — e é importante ressaltar que me refiro à atual, e não à mulher clássica, de orientação religiosa, que mantém o Vênus em equilíbrio; falo daquela que rompeu com os padrões. O Vênus dela está tão desalinhado que ela percebe tudo com uma interpretação peculiar: a de que estão lhe agredindo. Estão me julgando, estão me apertando, estão agindo de diversas maneiras contra mim — como se o mundo todo estivesse sempre tramando contra ela, como se ninguém ao redor fosse realmente bondoso, como se todos quisessem seu mal sem parar. Olá! De forma distinta do homem desorganizado, ela responde se colocando acima de tudo, adotando uma postura forte — não no sentido de combate, mas na perspectiva do Vênus intensamente explosivo, onde o emocional é levado a um patamar tão elevado que se torna totalmente dionisíaco: a libertação de todos os prazeres, a busca desenfreada por sensações e a fantasia de uma conspiração universal dos homens para oprimir as mulheres. E todas as correntes do feminismo compartilham dessa crença, sem exceção — é só escolher qualquer teórica e ela refletirá essa mesma estrutura — como se fosse uma conclusão lógica inescapável, da mesma forma que os nazistas acreditavam que todos os judeus estavam envolvidos em uma grande conspiração. Entretanto, a maioria dos homens ao redor dela são pessoas que sentem atração por ela, que a amariam e que desejariam se casar e ter filhos com ela; o problema é que ela já está tão confusa que não consegue perceber isso. E a desordem do espírito transborda para o corpo, pois é assim que acontece: quando a alma está em desarmonia, a desordem passa a se refletir na aparência. É a pessoa com cabelo colorido, repleta de tatuagens, cuja aparência já revela a confusão interna antes mesmo de falar — é assim que descrevemos o efeito Leno Brega em um dos textos da Nous, essa relação entre a desordem interior e a aparência exterior. A aparência da desordem é a desordem se tornando aparente.
O homem desregrado é o reflexo disso, com o sinal invertido, e a imagem é o Marte fora de sua trajetória. Enquanto a mulher se dirige a Vênus, o homem se desloca para Marte, e um Marte exaltado leva o sujeito a criar confusão com todos, a brigar por qualquer motivo, a ignorar a mulher e tudo o que ela diz, e a trair sem limites — é assim que eu defino o Jurandir, o homem dominado pela pulsão sexual, aquele que sai de Apolo e vai diretamente ao Dionísio do sexo e da briga. O embate dele é de natureza marcial: trata-se da luta de ideias ou da luta física, um confronto direto, ao contrário do que ocorre com a mulher, cujo embate é de ordem emocional, envolvendo acusações, vitimismo e a batalha dos sentimentos. E ambos, observe o paralelo, seguem a mesma trajetória com veículos distintos: ambos partem do polo ideal — o homem do Sol, a mulher da Lua — e caem, o homem rumo a Marte puro e a mulher a Vênus puro, até que os dois chegam ao mesmo Dionísio, o deus da desordem, do excesso, da dissolução das fronteiras. Eles substituem Apolo, o deus da ordem, da luz e da medida, por Dionísio, o deus do delírio. Há um caso ainda mais sutil que o gráfico da alma identifica: o homem com o polo venusiano invertido, que apresenta uma perspectiva muito feminina sobre o mundo e sobre sua própria sexualidade, com tendências à bissexualidade — algo que a psicologia evolutiva tradicional menciona e que se manifesta em pequenos indicativos, como o costume de fazer piadas sexuais com outros homens. Eu expresso isso de maneira simbólica para que você consiga visualizar o mecanismo, mas a essência permanece a mesma de sempre: quando um polo se inverte ou explode, a desordem daquele determinado ponto começa a se manifestar externamente, tanto no comportamento quanto no corpo, e o profissional capacitado interpreta essa manifestação como se estivesse analisando um sintoma. E aqui está a questão que proponho a cada espírito inquieto que deseja combater tudo e todos: quando você tiver arrasado com tudo, quando tiver vencido o planeta por completo, quem estará ao seu lado para te resgatar no momento em que o seu próprio demônio aparecer para te desafiar?
Para que o clínico aborde essa questão de maneira metódica, e não de forma aleatória, é necessário explorar cada um dos sete polos individualmente. Cada um dos sete planetas clássicos representa uma pulsão real da alma humana, e cada pulsão possui uma vocação, além de um polo organizado e um polo desorganizado. Não se trata de astrologia de jornal; é uma gramática dos impulsos essenciais da alma, utilizando os nomes que a tradição reconheceu precisamente para designar esses impulsos. Inicie pelo Sol, que simboliza a força da ordem, a centralidade e a liderança. O homem solar é aquele que coordena, que comanda, que agrega pessoas ao seu redor — sua vocação é liderar, ser o proprietário da empresa, aquele que define o caminho a seguir. No polo da ordem, ele se torna o líder equitativo, a autoridade que atua em prol do bem comum; já no polo da desordem, o Sol se transforma em arrogância, a pessoa que se considera superior a todos, que confunde liderar com reinar, desejando ser o centro não para servir, mas para receber adulação. O primeiro erro do tolo, você vai perceber, reside exatamente aqui.
Na sequência, temos Mercúrio, que representa a busca pelo conhecimento, a comunicação e a capacidade de reconstruir. A vocação mercurial consiste em curar, ensinar, consertar e transmitir conhecimento — é o médico, o professor, aquele que restaura o que foi danificado, seja um corpo, uma mente ou uma ideia. Mercúrio sempre traz à tona a ideia de reconstrução: é o desejo de pegar aquilo que está quebrado e remontar. No polo da ordem, é o lugar propício para aprender e compartilhar; já no polo da desordem, torna-se seu oposto exato — a ignorância que se considera sabedoria, a pessoa que se julga iluminada e, por isso, para de aprender, aquela que nutre aversão ao conhecimento, que não se senta para ler um livro, que vê a leitura como uma verdadeira tortura física. O segundo erro do tolo reside aqui: um Mercúrio tão fraco, tão caótico, que a pessoa confunde a sua própria ignorância com uma descoberta. Em seguida, a Lua, que representa a força do cuidado, dos sonhos, da criatividade e do lirismo. A essência lunar é zelar — das crianças, das pessoas, dos vulneráveis — e também cultivar no âmbito do sonho: a ficção, a poesia, o pensamento interno, o universo da imaginação. No polo da ordem, temos o acolhimento e a geração frutífera; já no polo da desordem, ocorre o afogamento na ilusão, a evasão da realidade para o interior do próprio sonho.
Vênus representa a força do amor, da emoção, da beleza e da arte — a essência venusiana abrange tudo que é ligado ao emocional, o intérprete, o artista, aquele que vive de sentir e de proporcionar sentimentos. No polo da ordem, está o amor pela sabedoria, o carinho que conecta, a emoção que colore a vida; no polo da desordem, reside o Dionísio a que já me referi, a emoção descontrolada, a busca desenfreada pelo prazer, o caos que desintegra. Marte representa a energia da luta, do embate, da força. A vocação guerreira é lutar — pela verdade, pela justiça, pela proteção do que lhe pertence. No polo organizado, encontramos a coragem e a firmeza, sendo o guerreiro aquele que defende; já no desorganizado, prevalecem a teimosia e a violência, caracterizando o indivíduo que busca conflitos, que nunca se retrai e que confunde força com ruína. O terceiro defeito do tolo reside aqui: a obstinação bélica, a falta de disposição para ceder, mesmo diante da realidade. Júpiter representa a força da criação, da inovação e da expansão — a essência jupiteriana é trazer à existência novas ideias, inventar, especialmente nas áreas da técnica, da tecnologia e da edificação do que ainda não foi criado. No polo da ordem, encontramos a genialidade construtiva, a mente que amplia e cria; já no polo da desordem, está a megalomania, a expansão desenfreada. Saturno, por sua vez, representa a força do peso, do tempo, da morte e da santificação. A vocação saturnina refere-se ao zelo pelo término — pelos túmulos, pelos falecidos, pelo cemitério, mas também, em um sentido mais elevado, ao preparo da própria alma para a morte, à santificação, e ao trabalho contínuo e árduo de se preparar para o fim. No polo da ordem, está a sabedoria do tempo, a seriedade que nos prepara; enquanto no polo do desatino, é a melancolia que nos paralisa, o peso que nos oprime.
E aqui está o aspecto que transforma isso em um método e não apenas em uma lista: cada ser humano possui as sete pulsões, todas elas, algumas mais intensas e outras menos, mas sempre há uma que se destaca, a que guia a vida da pessoa. Elas se organizam em uma espécie de escada, onde cada astro impulsiona o seguinte, até que o último da sequência é aquele que realmente movimenta a alma. Deixe-me mostrar com a minha própria alma, para que você não pense que estou falando de fora. Minha pulsão central é Marte — um Marte bem organizado, e enfatizo o "bem organizado", porque existe uma grande diferença entre o Marte do guerreiro justo e o Marte do brigão desregrado. A minha escada opera da seguinte maneira: a energia solar, que representa a ordem, movimenta o Mercúrio, que é o meu desejo de adquirir conhecimento; o Mercúrio, por sua vez, movimenta a Lua, que abrange toda a parte lírica, dos sonhos, das obras de ficção, do raciocínio interior e de tudo que provém da cultura; a Lua movimenta Saturno, que diz respeito à preparação para a morte e à santificação — e é isso que eu examino na minha própria filosofia, nos textos que venho escrevendo ao longo dos anos; Saturno movimenta Vênus, que simboliza o amor, o amor à sabedoria; Vênus movimenta Júpiter; e, finalmente, Júpiter movimenta Marte, que é o que impulsiona a minha alma, o último nível da escada. Em um outro paciente, a disposição dos planetas será diferente, e o último nível também será outro — pode ser um Vênus no centro de um ator, um Mercúrio central de um professor, ou um Saturno central de quem se ocupa dos mortos. A abordagem consiste em analisar a trajetória de cada indivíduo e identificar o nível culminante, a estrela que orienta todo o processo.
Aqui está uma verdade que muitos compreendem de forma equivocada: a pulsão central permanece inalterada — jamais — em circunstâncias normais. Ela permanece inalterada porque toda a existência do indivíduo foi edificada sobre essa base, como uma programação que se inicia desde a infância; ele sempre carregará aquela pulsão essencial, sempre contemplará o mundo a partir daquela perspectiva final. A única maneira de alterar a direção de uma alma é por meio de uma revelação espiritual ou de um impacto profundo, que eu denomino de pancada psíquica — uma pancada tão intensa que reorganiza toda a estrutura. E não se trata apenas de uma teoria: eu já testemunhei um homem totalmente voltado para a guerra, que só se importava com lutas, lutas e mais lutas, se transformar completamente, tornando-se alguém mais ágil e adaptável, após participar da Segunda Guerra. Após presenciar tantas pessoas perdendo a vida e enfrentando tragédias naquele cenário aterrador, sua única preocupação era a reconstrução — reerguer a própria vida e a dos outros. O impacto da guerra reorganizou a região norte, transitando de Marte para Mercúrio, da destruição para a restauração. Entretanto, sem um impacto desse tipo, ninguém altera seu rumo; a pessoa permanece na condição em que foi moldada, e é essa constância que possibilita ao profissional da saúde compreender a essência com confiança — pois o norte é constante, e sobre um ponto estável é possível agir.
Aqui, é importante esclarecer uma confusão que afeta muitas pessoas, pois ela combina duas questões que são distintas: a pulsão central e as doze camadas da personalidade. Uma coisa é a orientação da alma — o planeta que a guia, o último nível da escada; outra coisa bem distinta é a elevação que essa alma alcançou, e essa elevação é medida pelas doze camadas. Existem dois eixos diferentes: um indica a direção que você está seguindo, enquanto o outro aponta até que altura você conseguiu alcançar. O que muitas pessoas não percebem é que a pulsão central não interfere na ascensão pelas doze camadas — é possível subir por todas elas mantendo uma única direção como potência central, um único planeta, do início ao fim. Um ator, com uma energia venusiana, pode ascender as doze camadas inteiras sem perder sua essência venusiana; um professor, com uma energia mercurial, pode atingir o topo sem deixar de ser mercurial; um guerreiro, com uma energia marcial, da mesma forma. Não há pulsão "superior" e pulsão "inferior", nem um planeta que seja, por sua essência, mais elevado que o outro — o que existe é a pulsão bem estruturada e a pulsão desestruturada, assim como há a alma que ascendeu nas camadas e a alma que permaneceu na parte de baixo. Isso é fundamental na clínica, pois remove do psicólogo a ideia preconceituosa de que alguns temperamentos são superiores a outros: o que realmente conta não é qual é o seu planeta, mas sim se ele está equilibrado e a que nível você atingiu com ele. A direção é constante; a elevação é uma conquista. O propósito da alma é ascender pelas doze camadas que lhe pertencem, sem mudar seu caminho acreditando que a grama do outro é mais virtuosa.
Eu tenho essa certeza porque vivi exatamente isso, e a minha própria trajetória é a maior evidência que possuo da chacoalhada emocional, então permita-me compartilhar. Quando eu era criança, não sentia uma forte inclinação para as artes marciais; na verdade, tinha quase nada disso. Eu era o garoto que adorava atuar, apreciar poesia, escrever — uma essência mais ligada a Vênus e à Lua, direcionada para a arte, para os sentimentos e para a imaginação. Eu era ateu e não acreditava em nada, até aproximadamente os treze anos. Passei boa parte da minha infância em uma floresta, pois moro bem ao lado de uma. Eu passava os dias na mata, como o Gon de Hunter x Hunter, o garoto que só conhece a vida na floresta. Aquele que passa longas horas sozinho no meio da floresta aprende rapidamente uma lição que mais tarde se tornou fundamental em minha maneira de pensar: ali tudo é uma luta constante. A natureza não é o paraíso encantado que os românticos descrevem; é competição, é luta, é a vida devorando a vida incessantemente. Eu testemunhei isso com meus próprios olhos, desde pequeno, e por isso nunca considerei o culto contemporâneo à natureza como algo puro que apenas o ser humano prejudica.
E então ocorreu o impacto. Certa vez, meu pai chegou e disse: "Eu vou te apresentar a Deus". Ele me conduziu a um ritual esotérico de Tritêmio, ao seu lado. Era um período de estiagem, não havia nada no céu, nenhuma tempestade, nada que pudesse justificar o que veio em seguida — e, no meio daquele ritual, meu pai convocou um anjo diante de mim. E eu testemunhei. Eu avistei uma entidade, uma esfera de fogo com diversas pequenas esferas de fogo surgindo de sua parte superior, girando em torno, em direção ao centro, em um movimento de rotação. E não era um fogo vermelho, fique atento a isso, pois é o detalhe que me impressionou: era um fogo branco, do tipo que só poderia existir por eletricidade, quase como um raio em forma de bola suspenso no ar — só que não era produzido por eletricidade, era fogo de verdade, um fogo branco, algo fisicamente impossível de existir, e estava ali, imóvel, diante de mim. Um adolescente ateu de treze anos, em plena seca, observando algo que não deveria existir, mas que de fato existia. Foi um impacto tão intenso, tão absoluto, que eu percebi, naquele instante, que precisaria mudar completamente. E eu mudei. Se não tivesse sido por aquilo, é bem provável que eu ainda estivesse atuando hoje, criando arte e seguindo a minha essência venusiana e lunar de garoto. Contudo, a força da minha alma sofreu um impacto tão intenso que o rumo se transformou — de Vênus e Lua para Marte, da arte para a luta pela verdade. Por isso afirmo, com a experiência de quem já enfrentou isso, que todas essas impulsões são genuínas: são as impulsões da alma humana, e aquela que você possui em maior intensidade é a que te guia, até que, se ocorrer um golpe, tudo se reorganize. A minha reestruturação me conduziu até este ponto, onde estou escrevendo isso para você.
Para transformar todas essas informações em um trabalho efetivo no consultório, e não em um papo informal, eu elaboro um gráfico, e é pertinente descrever a ferramenta, pois é ela que confere objetividade ao método. Para cada um dos sete polos, você elabora duas colunas: uma correspondente ao polo ordenado e outra ao polo desordenado. Se a pessoa está bem naquele aspecto, a coluna do ordenado aumenta; se está mal, aumenta a do desordenado. E existe uma regra que organiza todo o gráfico, uma regra que não admite exceções: quando o valor desordenado aumenta, o valor ordenado diminui, na mesma proporção. Não é possível que os dois estejam em estado elevado simultaneamente; em um extremo, ou você está mais organizado, ou está mais desorganizado — um sempre prevalece sobre o outro, é inviável haver um empate. Ao observar esse gráfico, o tolo, aquele que possui três falhas, se revela claramente, sem véu: a desordem no Sol representa a arrogância de quem se considera superior a todos; a desordem em Mercúrio simboliza a ignorância de quem já se crê iluminado e, por isso, não busca aprender; e a desordem em Marte reflete a teimosia de quem nunca recua. Dificuldades no Sol, em Mercúrio e em Marte simultaneamente, e você já entende: a pessoa está se afundando na perdição, construindo, tijolo por tijolo, a base da gnose que a levará a se considerar uma divindade. O gráfico também analisa as inversões — o polo venusiano invertido do homem e assim por diante — pois uma coisa é o polo inferior, outra é o polo com sinal trocado, e cada configuração exige uma interpretação específica.
Com todo esse conjunto em mãos — a cosmovisão como base, a ética objetiva como fundamento, a gnose como enfermidade e a teologia do imaginário como guia do que se preserva e do que se desperdiça — o método clínico deixa de ser algo teórico e se torna um trabalho. Reitero o ponto central, pois é a partir dele que tudo se une: você adquire dois aspectos do paciente, a ética e a visão de mundo. O que ele vê como certo, o que enxerga como errado, onde existem incoerências entre o que defende e o que efetivamente faz, e a questão que determina o prognóstico — se tudo isso está ou não gerando uma gnose psíquica. Se está, o alarme precisa tocar, pois o sujeito está perdendo a razão, e não estou brincando, é nesse sentido literal: começa devagar, com uma ética um tanto relativizada aqui, uma arrogância ali, e finaliza com a pessoa acreditando que é Deus, exatamente como ocorreu com Crowley. A ética subjetiva, por uma consequência lógica, gera isso; não se trata de uma possibilidade distante, mas sim do destino inerente à premissa.
É neste contexto que se estabelece a função do psicólogo, que se distingue bastante do que a formação tradicional costuma ensinar: ele deve atuar como um mentor lógico. Não um espelho que apenas reflete e valida, não um ombro que só oferece acolhimento e concordância, mas sim alguém que desata os nós da percepção antes que um nó influencie o outro. Pois é assim que a doença opera — a percepção distorcida cria um emaranhado, esse emaranhado gera outro, e assim por diante, até que a mente inteira se transforme em um grande novelo, uma bola de nós tão complexa que a pessoa não consegue mais encontrar a saída sozinha. A função do mentor lógico é pegar o novelo antes que ele se feche, encontrar a ponta e ir desenrolando junto com o paciente, evidenciando onde a percepção se distorceu e o motivo disso. Para isso, o psicólogo deve ser, ele mesmo, lógico — precisa ter uma base objetiva sólida sob os pés. Porque, e aqui vem um alerta muito importante para quem deseja atuar nessa área, se o psicólogo for relativista, se ele próprio não possuir uma ética objetiva, ele não consegue ajudar o paciente a desvendar seus problemas: ele acaba sendo puxado para o próprio mundo do paciente. O relativista não consegue curar o gnóstico; na verdade, é o gnóstico quem converte o relativista.
E isso não se trata de uma hipótese, mas sim de uma realidade, que ocorre por razões que o clínico deve respeitar: as religiões e seitas de dissolução representam um campo de abuso, além de um ambiente arriscado até mesmo para o profissional. Onde existe dissolução, existe também abuso, e há uma consequência lógica, não por acaso — pois o próprio sacerdote da seita se transformou em uma divindade a partir da doutrina, e os fiéis passaram a ficar subordinados a esse deus moral que toma todas as decisões. Um deus moral sem limites faz o que bem entende com aqueles que estão abaixo dele. A distinção entre religião e seita é fundamental e precisa ser clara: a religião clássica e tradicional afirma que "o que é certo é certo, o que é errado é errado, e isso é tudo", e por essa razão proporciona proteção — ninguém se torna um deus nesse contexto, ninguém molda a ética conforme suas preferências, e ninguém retira interpretações de onde não deveria. A seita de dissolução atua de maneira contrária, e por essa razão dificilmente pode ser considerada uma religião. O risco para o profissional de saúde é real, a ponto de eu já ter observado um caso em que um sacerdote gnóstico foi ao psicólogo e saiu de lá com o psicólogo convertido à sua seita, pois sua visão simbólica era mais contundente, mais bem fundamentada e mais atraente do que a do terapeuta que o assistia. Se você não age com lógica e não tem fundamentos, você não é o orientador — você é a próxima presa. Por isso, essa psicologia demanda do psicólogo exatamente aquilo que deseja promover no paciente: uma alma reorganizada por uma ética objetiva.
Como o risco é verdadeiro, permitam-me oferecer ao leitor os indicadores que ajudam a reconhecer uma seita de dissolução, pois saber identificá-la é um passo importante para não ser arrastado por ela. O primeiro indício é a ética que se flexibiliza: se a doutrina altera o que é certo e errado de acordo com a conveniência do líder, se hoje algo é considerado pecado e amanhã não mais, simplesmente porque passou a ser vantajoso, você está diante de uma ética flexível, e ética flexível é a marca da desintegração. O segundo sinal é a adoração do sacerdote: se o líder, na prática, assume o papel de quem determina o que é certo e errado, se sua palavra tem mais valor do que qualquer princípio superior a ele, se discordar dele é o mesmo que discordar de Deus, o processo de autodeificação já começou, e onde há um deus sem controle há abuso, sempre, por uma questão lógica. O terceiro sinal é o segredo em camadas: os graus de interpretação que apenas os iniciados conseguem atingir, o saber oculto que distingue os que estão dentro dos que estão fora, a promessa de uma verdade secreta que transforma o adepto em um ser especial — é a antiga estrutura da gnose, que eleva o iniciado acima do restante da humanidade. E o quarto sinal, o mais sério, é o caminho para a desintegração do próprio praticante: se, ao seguir a lógica interna daquilo até o final, você chega ao desprezo pelo mundo, ao desprezo pela vida, ao isolamento de todos em nome do próprio ego, à concepção de que existir é um mal — então isso não se sustenta, isso se desmancha, e o destino de quem permanece é a ruína. Informe a quem você ama ao perceber esses sinais em qualquer comunidade, pois a religião tradicional se resguarda justamente por não apresentar nenhum deles: ela possui uma ética estabelecida, uma autoridade que se submete a algo superior, uma doutrina acessível em vez de um segredo iniciático, e um caminho que solidifica a alma no mundo em vez de afastá-la dele.
Aqui, sempre tem alguém que levanta a mão e faz a pergunta, pensando que me pegou: "Gabriel, e quanto ao ateu?" O seu sistema como um todo parte do pressuposto de uma religião; ele não se aplica a quem não possui nenhuma crença religiosa. E eu respondo que vale, e vale exatamente do mesmo jeito, e a resposta desmonta a objeção pela raiz. Se o sujeito nasceu numa rede católica — família católica, amigos católicos, uma sociedade católica em volta —, qual é a cosmovisão de fundo dele, por mais que ele se declare ateu de carteirinha? É católica. A ética que ele usa para julgar o mundo, mesmo quando xinga a Igreja, é uma vertente do catolicismo, ainda que ele passe a vida relativizando essa ética herdada. Ninguém pensa no vácuo; todo mundo pensa a partir da moldura em que foi formado, e a moldura do nosso mundo é cristã até nos ossos de quem a nega. Por isso o ateu não está fora do método; ele é um caso do método — um sujeito com cosmovisão cristã de fundo e uma ética em processo de relativização, o que é a receita da gnose. E muitos psicólogos vão torcer o nariz para o que eu vou dizer agora, mas precisa ser dito: você vai ter de fazer esse sujeito perceber que ele vive numa sociedade católica e que não dá para impor uma moralzinha subjetiva sobre essa sociedade sem gerar gnose, sem gerar problema para ele e para todos em volta. Porque o que acontece com quem faz isso é sempre o mesmo naufrágio: ele abandona a vida social, abandona todo mundo, sacrifica tudo no altar do próprio ego, porque "está com a verdade" — e uma verdade que exige que você abandone toda a humanidade em nome de si mesmo não é verdade, é o começo do isolamento do louco.
E vale corrigir um erro de nome que atrapalha o diagnóstico: no fundo, a maioria dos que se dizem ateus nem é ateia — são agnósticos. Ateu é quem afirma que Deus não existe; a maioria não afirma isso, apenas não consegue crer, o que é outra coisa. E não conseguem crer sabendo, lá no fundo, que há toda uma cadeia lógica capaz de sustentar a existência de Deus — porque essa cadeia existe e é sólida. Que Deus existe é aprovado logicamente; basta abrir a teologia tomista, que no fundo é a aristotélica catequizada por Tomás de Aquino, para ver a demonstração de pé. O agnóstico honesto sabe disso, e é por isso que ele não é ateu de verdade: ele não nega, ele resiste a crer, o que é uma disposição da vontade e não uma conclusão da razão. E aqui está o ponto duro, que o clínico tem de aceitar: numa sociedade construída sobre uma cosmovisão, tudo o que sai muito dessa linha será sentido como o mal — não porque a sociedade seja perfeita, mas porque a cosmovisão de fundo é o critério com que ela sente. Não tem como escapar disso; a única opção é reconhecer e trabalhar com base nessa realidade.
Antes de prosseguir, é fundamental que eu enfrente as objeções mais contundentes que já me apresentaram, pois um método que ignora as objeções é exatamente o sistema fechado que critico no gnóstico, e eu não pretendo cair na mesma armadilha que critico. A crítica mais contundente é a seguinte: "Gabriel, você aponta que o ateu vive em um sistema fechado que dá conta de tudo e não permite refutações; no entanto, o seu sistema também abrange tudo — a religião, a ética, os sete polos, os filmes, toda a história — e um sistema que abrange tudo não é ciência, é um dogma disfarçado." É uma objeção válida, a mais forte que se pode ter contra mim, e eu a enfrento de forma direta. A distinção entre um sistema fechado e um sistema ancorado não reside na quantidade de explicações que oferece, mas sim naquilo a que se submete. O sistema gnóstico é autossuficiente, pois seu critério final é ele mesmo — a vontade do sujeito serve como a referência para tudo, e, por isso, nada externo pode corrigi-lo; o ciclo se encerra em seu próprio centro. O meu indicativo é voltado para o exterior: o padrão decisivo não é minha opinião, mas sim a realidade das coisas, é a ética objetiva à qual Sócrates, Aristóteles, Tomás de Aquino e Lao Tsé chegaram sem qualquer acordo prévio, é a lógica que qualquer pessoa pode verificar detalhadamente. Um sistema que se submete a algo que não depende do sujeito é passível de correção; aquele que se submete apenas ao sujeito é uma forma de delírio. A evidência está no resultado, e o resultado é comprovável: onde se aplica a ética objetiva, a alma se organiza, a pessoa retoma sua vida em sociedade, o casamento, o trabalho e um propósito; onde se aplica a ética subjetiva, a alma se desintegra, a pessoa se isola, adoece e, no extremo, se entrega a uma divindade e se perde. Um sistema é definido pelo que ele gera, e a dissolução e a ordem resultam em coisas opostas e palpáveis.
A segunda objeção é que tudo isso é apenas uma versão modernizada da astrologia, uma pseudociência com um nome atrativo — sete planetas, zodíaco, alquimia, o pacote completo do enganador. E eu respondo com exatidão, pois a confusão presente aqui se deve à linguagem, e não ao conteúdo. Eu não afirmo, em nenhum momento, que Marte no céu provoca conflitos na alma, ou que a posição de um astro define o seu destino; isso, de fato, seria astrologia determinista, e essa não é a minha abordagem. Os nomes dos planetas representam marcadores para tendências reais e perceptíveis da alma humana — o desejo de liderar, o de aprender, o de batalhar, o de amar, o de cuidar, o de criar e o de se preparar para o fim. Eu poderia atribuir a essas pulsões nomes clínicos mais neutros e o método continuaria eficaz; escolho usar os nomes simbólicos porque a linguagem simbólica comprime, sintetiza, amplia e torna mais memorável o que a linguagem técnica fragmenta em inúmeras partes. A alquimia, assim como, não se trata de química de laboratório nem de uma promessa de transformar chumbo em ouro; é uma linguagem do que se transforma, e a psique é aquilo que mais se transforma. Referir-se à parte superior do forno alquímico como "cabeça" é uma metáfora precisa, ao invés de uma crença mágica. O símbolo aqui atua como um instrumento de interpretação, não como uma força escondida — e essa distinção é o que separa minha abordagem psicológica da banca de tarô da esquina.
A terceira objeção é a mais grave de todas, e eu a considero com seriedade: "Você dedicou todo o texto a criticar aqueles que criam sua própria ética e a rotulam como objetiva; mas não é isso que você faz ao impor sua ética católica e chamar de ordem universal?" Não, e essa distinção é o cerne de tudo que escrevi. A ética objetiva não é a minha ética, não se trata de uma escolha que eu declarei e encobri como se fosse uma lei; é aquela que mentes que nunca se comunicaram chegaram de forma independente, de diferentes continentes e épocas, o que demonstra que elas descobriram algo que realmente existia, e não algo que foi criado por elas. Trata-se daquela que é comprovada por meio da lógica, e a validação das demonstrações pode ser verificada; a teologia tomista está disposta a que qualquer pessoa examine essa sequência de raciocínio. A distinção entre declarar uma norma objetiva e criar uma ética subjetiva não se resume a um simples tom, mas sim à sua origem: uma é descoberta e aceita, enquanto a outra é elaborada e imposta. E observe a atenção que eu já fiz questão de destacar: na clínica, o psicólogo não doutrina, não impõe suas crenças ao paciente, não se torna um pregador de jaleco — essa é a função do sacerdote. O trabalho do psicólogo consiste em restabelecer a lógica, evidenciar a contradição e desatar o emaranhado da percepção. Ele não força uma crença; ele restaura à pessoa a habilidade de pensar de forma clara e permite que esse pensamento claro a conduza aonde precisar. Impor seria criar; restaurar, por sua vez, é o oposto de criar. Aquele que compreende essa distinção consegue entender todo o método; ao passo que quem não a compreende continuará acreditando que fixar a alma em um solo e afundá-la na areia são equivalentes, simplesmente porque em ambos os casos se faz referência a solo.
O retrato final dessa resistência à crença, dessa vontade que se recusa ao que a razão apresenta, é a própria figura de Nietzsche. Vale a pena dedicar um tempo a ele, pois ele é o santo protetor da dissolução moderna e sua trajetória clareia todo o mecanismo. Todos ao seu redor afirmavam que era intolerável — não tinha amigos, ninguém desejava se casar com ele, era uma pessoa difícil de conviver, um ateu enfadonho no sentido mais literal da expressão. Ao ler atentamente os textos dele, você nota algo que os admiradores normalmente não querem ouvir: ele nunca rebate a existência de Deus através da teologia estrita, nem o faz por meio da lógica estrita. Ele não analisa os argumentos tradicionais sobre a existência de Deus de forma minuciosa, como faria um filósofo de verdade; em vez disso, dedica seu tempo a escrever, com um grande talento literário, o quanto, em sua visão, Deus é uma calamidade, o quanto a moral cristã o perturba e o quanto ele tem aversão aos mais vulneráveis. Trata-se de uma expressão de sentimentos de forma estilizada, e não de uma contestação baseada na razão. Um único volume de Tomás de Aquino — a Suma contra os Gentios, que foi elaborado especificamente para dialogar com aqueles que não compartilham da fé — já resolveria grande parte das incertezas que ele reflete ao longo de seus escritos. O que mais se destaca é que, em seus próprios textos, percebe-se uma imensa admiração pela Igreja e pela grandiosidade da construção que ele critica; ele reconhece a magnitude do que enfrenta. Ele simplesmente não consegue acreditar — e não consegue não por falta de argumentos a favor, mas por uma disposição da vontade, exatamente o agnóstico que se apresenta como ateu.
E é por isso que eu o denomino profeta da dissolução, assim como a maioria dos ateus contemporâneos, e é por isso que ele e seus sucessores acabam, todos, chegando ao mesmo ponto do satanismo — o que, para quem não seguiu o raciocínio, pode parecer um salto desproporcional, mas é uma consequência lógica evidente. Observe: se você afirma que este mundo é desprovido de sentido, que a existência é sofrimento, que não há Deus nem propósito, o que resta como uma conclusão lógica? Há a concepção de que o ideal seria impedir o nascimento de mais pessoas para que não sofram, interromper a reprodução e conduzir tudo rumo ao término. Trata-se do niilismo levado ao extremo, e essas consequências finais são equivalentes às do gnóstico anticósmico que deseja dissolver a matéria: ambos, por caminhos distintos — um afirmando que o mundo é maldito, o outro garantindo que o mundo é vazio — chegam ao mesmo resultado, que é a adoração pela extinção. O niilista de terno e o cátaro de túnica, no fundo, possuem o mesmo desejo: que tudo isso chegue ao fim.
E não se deixe enganar pela ideia do "satanismo ateu", pois ela é a forma mais bem elaborada de hipocrisia que existe. O próprio LaVey, e aqueles que estavam próximos a ele confirmam, no fundo acreditava na dimensão espiritual; a aparente postura ateísta era, na verdade, apenas uma fachada. Quem estudou Lovecraft sabe o que essa gente louva — os alter gods, as entidades — e o próprio Crowley confirma essa crença por baixo do verniz cético. Depois saiu um e virou Templo de Set, saiu outro e virou outra coisa, todos supostamente ateus, todos com rituais detalhadíssimos, certinhos, cheios de louvor, e todos jurando que fazem aquilo "só para tirar sarro". Ora, ninguém monta ritual minucioso, repetido, reverente, para o nada; ninguém dedica a vida a cultuar uma coisa em que não acredita. É bobo pensar isso. E, se você reparar, esses alter gods que atravessam todas as vertentes do satanismo são os demônios da Bíblia: a forma como o demônio se manifesta, descrita pelos próprios ocultistas que os evocavam, é a forma como o alter god se manifesta. Alter god e demônio não têm diferença nenhuma; é o mesmo ser com nome trocado. Como é que eles ainda não juntaram os pontos, eu sinceramente não sei — talvez porque juntar os pontos exigiria admitir que a Igreja estava certa sobre a natureza daquilo que eles cultuam, e a teimosia, de novo, trava o raciocínio antes da conclusão.
Então junta tudo o que eu disse sobre a ética subjetiva e enxerga o fio único que costura o ateu militante, o gnóstico, o satanista e o niilista: todos são, cada um por seu caminho, fiéis da dissolução. A ética subjetiva sempre gera, por consequência, uma pessoa que dilui a própria psique — porque ir contra a ordem do mundo, contra a lógica, contra a criação, é dizer, no fundo, "eu quero a dissolução", já que eu quero ser deus e não suporto nada acima de mim. E o que há de mais irônico, na acepção mais triste do termo, é que quando o ser humano tenta eliminar Deus, ele falha — a única coisa que consegue, ao se autoproclamar deus, é deduzir que ninguém mais deveria existir, que todos deveriam se extinguir para que a matéria cesse de ser. Na lógica anticósmica, o mundo material só permanece em existência enquanto nós estamos presentes; se todos se afastarem, a criação se desintegra, e o domínio do demiurgo chega ao fim. É a mesma conclusão do cátaro, do niilista e do von Trier, que vou analisar em breve: todos convergem para um amor pela morte. E sempre vem acompanhado, perceba, de um exagero de elogios à natureza como algo puro e sagrado que apenas o homem destrói — como se a natureza, que é uma luta constante, fosse o paraíso, e o ser humano, com sua consciência excessiva, a única imperfeição a ser eliminada. É a autodepreciação da espécie elevada à condição de virtude. E é precisamente em oposição a esse amor pela morte, a essa dissolução com mil máscaras, que esta psicologia se manifesta.
Agora eu preciso me aprofundar mais na essência da alma, porque a desordem da qual venho falando não é uma neblina abstrata que envolve a pessoa — ela possui polos, e esses polos têm um gênero, e o profissional deve ser capaz de interpretar ambos. Em todas as escolas de pensamento respeitáveis, de todas as tradições, o sentimento exacerbado, a lógica limitada e o aspecto dionisíaco da vida sempre foram vinculados ao caos; e, por sua vez, o caos sempre esteve ligado ao feminino. E eu afirmo isso não como uma ofensa — muito pelo contrário, faço isso como um elogio e já explico o motivo. A mulher, por sua essência, possui uma capacidade emocional muito mais intensa do que a lógica, e isso não deve ser visto como um defeito, mas sim como uma de suas belezas. É exatamente por essa razão que as amamos tanto; é por isso que as consideramos adoráveis, tão delicadas e cheias de vida. É essa confusão interna, essa desorganização de maneira positiva, que cria o amor. E aqui está um ponto que faço questão de deixar registrado, pois ele explica por que a lógica não pode abarcar tudo: ao analisar o sentimento apenas sob uma perspectiva lógica, você acaba por perder a essência do sentimento. Se você analisar o amor de maneira fria e objetiva, perde a capacidade de se encantar e começa a pensar: "isso é apenas uma troca de hormônios na minha cabeça, é só um conjunto de percepções na minha alma" — e, nesse momento, o encantamento se extingue. Você não se sente mais encantado, pois explicar o encantamento por meio da química é desfigurá-lo. O sentimento requer um toque de mistério, um pouco de caos, para permanecer como sentimento. A mulher carrega esse resquício, esse Vênus, e é por isso que ela é o espaço onde o amor habita.
No polo ideal, na coordenação exata, a mulher representa a Lua e o homem simboliza o Sol. A essência ideal da mulher é a lunar — simboliza o acolhimento, o cuidado, a receptividade, a luz suave que ilumina e aquece sem causar dor; a essência ideal do homem é a solar — representa a ordem, a orientação, a luz que centraliza e organiza. Há um simbolismo ancestral que expressa isso: nas épocas das tribos, quando o céu se tornava rosa, esse fenômeno era interpretado como um sinal de derramamento de sangue, de algo maligno, indicando que algo horrível estava prestes a ocorrer — pois o rosa trazia consigo a representação do caos, que era ligado ao feminino, ao emocional que não se submete às amarras da lógica. A mulher que é verdadeiramente feminina, aquela que conquista o coração de qualquer homem e com quem ele deseja se casar, ter filhos e ser fiel de maneira plena, é a que mantém esse Vênus vibrante, mas em harmonia. Ela possui emoção, doçura e um caos criador, mas consegue lidar com isso de forma equilibrada: não agride as pessoas, não anuncia "agora eu faço o que quero", nem se coloca acima de tudo. É a harmonia entre a Lua e Vênus, entre o carinho e a sensibilidade, que torna a mulher carinhosa. O homem, por sua parte, é naturalmente atraído por isso: uma mulher organizada, feminina, educada, gentil, e qualquer homem que se considere como tal desejará se entregar a ela por completo. É a maneira como ela se impõe, unida à sua emoção, que o cativa.
A desordem, tanto em homens quanto em mulheres, representa a queda de Apolo em direção a Dionísio, e essa transição é simbolizada de maneiras distintas em cada um dos lados. A mulher de Vênus, totalmente fora de controle, representa a feminista contemporânea — e ressalto que me refiro à contemporânea, e não à mulher clássica, de pensamento religioso, que mantém Vênus em equilíbrio; falo daquela que rompeu barreiras. O Vênus dela está tão desnivelado que ela percebe tudo com uma interpretação peculiar: a de que estão sempre a atacá-la. Estão demonstrando preconceito contra mim, estão me oprimindo, estão fazendo isso e aquilo a meu respeito — como se o mundo inteiro estivesse sempre em conluio contra ela, como se ninguém ao seu redor fosse realmente bom, como se todos quisessem o seu mal incessantemente. O que acontece é que, ao contrário do homem desorganizado, ela se coloca acima de tudo, adotando uma postura forte — não no sentido bélico, mas no sentido de uma feminilidade intensa, onde as emoções são levadas a um nível tão elevado que se tornam completamente dionisíacas: a liberação total dos prazeres, a busca por sensações sem limites e a fantasia de uma conspiração universal dos homens para subjugar as mulheres. E todo o feminismo compartilha dessa ideia, sem exceções — basta escolher qualquer teórica e ela irá reproduzir a mesma lógica — como se fosse uma conclusão lógica e inevitável, da mesma forma que os nazistas acreditavam que todos os judeus estavam envolvidos em uma grande conspiração. Contudo, os homens ao seu redor, na grande maioria, são pessoas que se sentem atraídas por ela, que a amariam, que desejariam se casar e ter filhos com ela; ela é que já está tão confusa que não consegue perceber isso. A desordem da mente se reflete no corpo, pois é dessa forma que acontece: quando a alma está desequilibrada, a desorganização passa a se manifestar na aparência. Trata-se da pessoa com cabelo colorido, repleta de tatuagens, cuja aparência já revela a confusão interna antes mesmo de falar — é isso o que descrevemos no efeito Leno Brega, em um dos textos da Nous, essa conexão entre a desordem interna e a aparência externa. A face da desordem é a desordem se manifestando de forma clara.
O homem desorganizado reflete essa desordem, mas de maneira invertida, e a imagem é a de Marte fora de sua órbita. Enquanto a mulher se direciona por Vênus, o homem caminha por Marte, e um Marte exacerbado leva o sujeito a buscar confusão com todos, a brigar por qualquer motivo, a ignorar a mulher e tudo que ela diz, e a trair à vontade — é assim que eu descrevo o Jurandir, o cara dominado pela pulsão sexual, aquele que deixa Apolo de lado e mergulha diretamente no Dionísio do sexo e das brigas. O embate dele é de caráter marcial: trata-se da disputa de ideias ou de uma luta física, um confronto direto, ao contrário da mulher, cujo embate é emocional, envolvendo acusações, vitimismo e uma batalha de sentimentos. E ambos, perceba o paralelo, seguem a mesma jornada com diferentes veículos: partem do ponto ideal — o homem do Sol, a mulher da Lua — e descem, o homem rumo a Marte puro e a mulher a Vênus puro, até que os dois chegam ao mesmo Dionísio, o deus da desordem, do excesso, da dissolução das fronteiras. Eles substituem Apolo, o deus da ordem, da luz e da medida, por Dionísio, o deus do delírio. Há um caso ainda mais sutil que o gráfico da alma identifica: o homem com o polo venusiano invertido, que tende a ter uma perspectiva bastante feminina do mundo e da sua própria sexualidade, apresentando inclinações à bissexualidade — algo que a psicologia evolutiva clássica aborda e que se revela em pequenos indícios, como o costume de fazer brincadeiras sexuais com outros homens. De maneira simbólica, eu explico isso para que você possa compreender o funcionamento, mas o princípio permanece inalterado: quando um polo se inverte ou entra em colapso, a desordem naquele ponto específico começa a se revelar externamente, tanto no comportamento quanto no corpo, e o profissional capacitado interpreta essa manifestação como se estivesse decifrando um sintoma. E aqui eu deixo a indagação que faço a toda alma conturbada que busca combater tudo e todos: quando você tiver arrasado tudo, quando tiver triunfado sobre o mundo inteiro, quem estará ao seu lado para te socorrer no momento em que o seu próprio demônio se apresentar frente a você?
Para que o clínico aborde isso de maneira metódica, e não por mera intuição, é necessário explorar os sete polos um a um, dado que cada um dos sete planetas clássicos representa uma pulsão genuína da alma humana. Cada pulsão possui uma vocação específica, um polo ordenado e um polo desordenado. Não se trata de astrologia de jornal; é uma gramática dos impulsos essenciais da alma, utilizando os nomes que a tradição reconheceu exatamente para designar esses impulsos. Inicie pelo Sol, que representa a força da ordem, da centralidade e da liderança. O homem solar é aquele que coordena, que guia, que agrega as pessoas ao seu redor — sua essência é a de liderar, ser o responsável pela empresa, aquele que define a direção. No polo ordenado, ele assume o papel de líder justo, exercendo uma autoridade que serve; já no polo desordenado, o Sol se transforma em prepotência, se tornando alguém que se considera superior a todos, confundindo a liderança com a dominação, desejando ser o centro não para servir, mas para receber adoração. O primeiro erro do idiota, você vai perceber, está exatamente aqui.
Em seguida, temos Mercúrio, que representa a energia do aprendizado, da troca de ideias e da renovação. A vocação mercurial consiste em curar, ensinar, consertar e transmitir conhecimento — é a figura do médico, do professor, daquele que restabelece o que foi danificado, seja um corpo, uma mente ou uma ideia. Mercúrio sempre representa essa ideia de reconstrução: o desejo de pegar o que está quebrado e remontar. No polo organizado, é o lugar ideal para aprender e compartilhar; já no polo desorganizado, torna-se o oposto exato — a ignorância que se considera sabedoria, a pessoa que acredita estar iluminada e, por isso, para de aprender, aquela que tem repulsa pelo conhecimento, que não se senta para ler um livro e que vê a leitura como uma verdadeira tortura. O segundo erro do ignorante está aqui: um Mercúrio tão fraco, tão caótico, que a pessoa confunde sua própria falta de conhecimento com uma verdade revelada. Em seguida, a Lua representa a força do cuidado, dos sonhos, da imaginação e da poesia. A chamada do lunar é zelar — das crianças, das pessoas, dos vulneráveis — e também gerar no campo dos sonhos: a ficção, a poesia, a reflexão interna, o universo da imaginação. No polo da ordem, há acolhimento e uma criação abundante; enquanto no polo da desordem, ocorre a imersão na ilusão, a evasão da realidade para dentro dos próprios devaneios.
Vênus representa a força do amor, das emoções, da beleza e da arte — a essência venusiana abrange tudo que é ligado ao emocional, ao ator, ao artista, aquele que vive para sentir e provocar sentimentos. No polo ordenado, o amor pela sabedoria é o laço que une, a emoção que traz vivacidade à existência; no desordenado, temos o Dionísio a que me referi, a emoção descontrolada, a busca desenfreada por prazer, o caos que desintegra. Marte representa a essência da batalha, do embate, da energia. A vocação militar é lutar — pela verdade, pela justiça, pela proteção do que é seu. No polo organizado, é a bravura, a determinação, o lutador que defende; no desorganizado, é a obstinação e a agressividade, o indivíduo que provoca conflitos, que nunca se retrai, que confunde poder com aniquilação. O terceiro erro do ignorante está aqui: a teimosia obstinada, a dificuldade de abrir mão mesmo na presença da verdade. Júpiter representa a força da criação, da invenção e da expansão — a essência jupiteriana se manifesta na capacidade de gerar novidades, inventar, especialmente nas áreas da técnica, da tecnologia e na edificação do que ainda não foi realizado. No polo da ordem, encontramos a criatividade construtiva, uma mente que amplia e constrói; no polo do desordem, surge a megalomania, uma expansão sem limites. Saturno, portanto, representa a força do peso, do tempo, da morte e da santificação. A vocação saturnina se refere ao cuidado com o final — com os túmulos, com os falecidos, com o cemitério, mas também, em um sentido mais elevado, com a preparação da própria alma para a morte, com a santificação, além do árduo e gradual esforço de amadurecer para o fim. No polo da ordem, encontramos a sabedoria que vem com o tempo, a seriedade que nos prepara; já no polo do desordem, é a melancolia que nos imobiliza, o fardo que nos oprime.
E aqui está o aspecto que diferencia isso de uma simples lista e o classifica como um método: todo ser humano possui as sete pulsões, todas elas, algumas mais intensas e outras menos, mas sempre há uma que se destaca como a principal, aquela que orienta a vida do indivíduo. Elas se dispõem em forma de escada, com cada astro impulsionando o seguinte, até que o último da sequência é aquele que realmente toca a alma. Deixe-me compartilhar com a minha própria essência, para que você não pense que estou falando de uma perspectiva externa. A minha essência fundamental é Marte — um Marte devidamente organizado, e eu enfatizo o "devidamente organizado", pois existe uma grande diferença entre o Marte do guerreiro justo e o Marte do brigão desregrado. A minha escada funciona da seguinte maneira: a energia solar, que representa a ordem, impulsiona o Mercúrio, a minha vontade de adquirir conhecimento; o Mercúrio, por sua vez, impulsiona a Lua, englobando o lírico, os sonhos, as obras de ficção, o raciocínio interior, e tudo que provém da cultura; a Lua, então, impulsiona Saturno, que simboliza a preparação para a morte e a santificação — e é isso que eu analiso na minha própria filosofia, nos textos que venho desenvolvendo ao longo dos anos; Saturno, por sua vez, impulsiona Vênus, o amor, o amor pela sabedoria; Vênus, então, impulsiona Júpiter; e, finalmente, Júpiter impulsiona Marte, que representa o que move a minha alma, o último degrau dessa escada. Em outro paciente, a posição dos planetas será diferente, e o último nível será outro — pode ser um Vênus central de um artista, um Mercúrio central de um educador, um Saturno central de alguém que se ocupa dos falecidos. A técnica consiste em analisar a escada de cada pessoa e identificar o degrau final, a estrela que orienta todo o processo.
E aqui está uma verdade que muitas pessoas interpretam de maneira equivocada: a pulsão central permanece inalterada — jamais — em situações normais. Ela permanece inalterada, pois toda a vida do indivíduo foi moldada em torno dela, como uma programação que se inicia desde a infância; ele sempre carregará aquela ânsia primordial, sempre verá o mundo a partir daquela perspectiva final. A única coisa que pode alterar a direção de uma alma é uma revelação espiritual ou um impacto muito intenso, que eu denomino de pancada psíquica — uma pancada tão poderosa que reordena toda a escada. E não se trata apenas de teoria: eu já presenciei um homem totalmente focado nas lutas, que só se preocupava com briga, briga, briga, se transformar completamente após a Segunda Guerra, tornando-se flexível e ágil como Mercúrio. Após presenciar tantas pessoas morrendo e enfrentando aquele desespero, ele apenas conseguia pensar em reerguer — reerguer a sua própria vida e a de quem estava ao seu redor. O impacto da guerra reorganizou sua parte norte, de Marte a Mercúrio, da devastação à reestruturação. Entretanto, sem um golpe como esse, ninguém muda de direção; a pessoa permanece na maneira em que foi moldada, e é essa constância que possibilita ao clínico entender a alma com confiança — pois o norte é estável, e em cima de um ponto fixo é possível realizar um trabalho.
E aqui eu preciso esclarecer uma confusão que incomoda muitas pessoas, pois ela junta duas questões que são distintas: a pulsão central e as doze camadas da personalidade. Uma coisa é a orientação da alma — o planeta que a guia, o último degrau da escada; outra completamente distinta é a altura que essa alma atingiu, e essa altura é calculada pelas doze camadas. Existem dois eixos diferentes: um indica a direção em que você está indo, enquanto o outro mostra a altura que você atingiu. E o que muitos não conseguem perceber é que a pulsão central não interfere em nada na ascensão pelas doze camadas — é possível subir todas as doze mantendo como potência central uma única direção, um único planeta, desde o início até o final. Um ator, com uma intensidade venusiana, pode subir as doze camadas completas sem deixar de ser venusiano; um professor, com uma intensidade mercurial, pode atingir o auge sem deixar de ser mercurial; um guerreiro, com uma intensidade marcial, da mesma forma. Não há pulsão "superior" e pulsão "inferior", assim como não há um planeta que, por sua natureza, seja mais elevado que o outro — o que existe é a pulsão bem estruturada e a pulsão desorganizada, além da alma que ascendeu às camadas e da alma que permaneceu em baixo. Isso é fundamental na clínica, pois elimina do psicólogo a ideia preconceituosa de que alguns temperamentos são superiores a outros: o que realmente conta não é a sua influência planetária, mas sim se ela está alinhada e a que nível você evoluiu com isso. A direção é constante; a elevação é uma conquista. O trabalho da alma consiste em ascender pelas doze camadas que lhe pertencem, sem trocar de caminho pensando que a grama do vizinho é mais sagrada.
Eu tenho plena consciência disso, pois passei por uma situação semelhante, e a minha própria experiência é a melhor evidência da dor psíquica que vivi. Permita-me compartilhar a minha história. Na minha infância, eu não sentia uma forte inclinação para o esporte de combate; na verdade, não sentia quase nada nesse sentido. Eu era o garoto que tinha paixão por atuar, por ler poesia e por escrever — uma essência mais venusiana e lunar, direcionada para a arte, para os sentimentos e para a imaginação. Eu não acreditava em nada e me considerava ateu até aproximadamente os treze anos. Passei boa parte da minha infância em uma floresta, pois moro bem ao lado de uma; passava os dias me aventurando no mato, assim como o Gon de Hunter x Hunter, aquele garoto que só conhece a vida na floresta. E quem passa tanto tempo assim, isolado no meio da floresta, aprende algo rapidamente, um ensinamento que acabou se tornando uma parte do meu raciocínio: ali, é uma luta constante entre todos. A natureza não é o paraíso encantado que os românticos idealizam; ela é predação, disputa e a incessante luta pela sobrevivência, onde a vida consome a vida sem descanso. Eu testemunhei isso com meus próprios olhos, desde a minha infância, e por esse motivo nunca aceitei a adoração contemporânea à natureza como algo inteiramente puro que apenas o ser humano corrompe.
E então veio o golpe. Certa vez, meu pai chegou e afirmou: "Vou te apresentar Deus". Ele me conduziu a um ritual esotérico de Tritêmio, ao seu lado. Era um período de estiagem, não havia nada na atmosfera, nenhuma tempestade, nada que justificasse o que aconteceu em seguida — e, durante aquele ritual, meu pai chamou um anjo diante de mim. E eu observei. Eu avistei uma entidade, uma esfera de fogo com várias pequenas esferas de fogo emergindo da parte superior, formando um movimento giratório em torno dela e convergindo para o centro em uma rotação. E não se tratava de um fogo vermelho, preste atenção nisso, pois é o detalhe que me impressionou: era um fogo branco, daquelas que só poderia existir por eletricidade, quase como uma bola de raio flutuando no ar — mas não era feito de eletricidade, era fogo de verdade, um fogo branco, uma coisa fisicamente impossível de existir, e estava ali, imóvel, diante de mim. Um jovem ateu de treze anos, durante um período de seca, observando algo que deveria ser impossível, mas que, de fato, estava presente. Foi um impacto tão intenso, tão abrangente, que eu percebi, naquele instante, que precisaria transformar minha vida por completo. Eu me transformei. Se não fosse por isso, provavelmente eu ainda estaria atuando atualmente, criando arte e seguindo a minha essência venusiana e lunar de garoto. Entretanto, a força da minha alma sofreu um impacto tão profundo que a direção mudou — de Vênus e Lua para Marte, da criação artística para a luta pela verdade. É por isso que afirmo, com a experiência de quem vivenciou isso, que todas essas impulsões são autênticas: representam as motivações da alma humana, e a que você possui em maior intensidade é a que guia seu caminho, até que um impacto, se acontecer, reorganize toda a sua trajetória. A minha reestruturou tudo e me trouxe até este momento, escrevendo isso para você.
Para converter tudo isso em atividade de consultório, e não em um bate-papo descontraído, eu elaboro um gráfico, e é importante descrever a ferramenta, pois é ela que confere objetividade ao método. Para cada um dos sete polos, você deve fazer um desenho com duas colunas: uma representando o polo ordenado e a outra o polo desordenado. Caso a pessoa se encontre bem naquele aspecto, a coluna do ordenado aumenta; caso contrário, a do desordenado é que cresce. E existe uma norma que organiza todo o gráfico, uma norma que não permite exceções: quando a variável desordenada aumenta, a variável ordenada diminui, na mesma proporção. Não é possível que ambos estejam em um estado elevado simultaneamente; em um extremo, ou você está mais organizado, ou está mais desorganizado — um sempre prevalece sobre o outro, não há como haver um empate. Ao analisar esse gráfico, fica evidente a presença do idiota, aquele que possui três defeitos: a desordem no Sol, que representa a arrogância de quem se considera superior a todos; a desordem em Mercúrio, que simboliza a ignorância de quem acredita que já é iluminado e, por isso, não se dispensa a aprender; e a desordem em Marte, que reflete a teimosia de quem nunca recua. Dificuldade no Sol, em Mercúrio e em Marte simultaneamente, e você já sabe: a pessoa está se precipitando no abismo da ruína, está construindo, bloco por bloco, a base do conhecimento que a levará a se elevar à condição de divindade. O gráfico também interpreta as inversões — o polo invertido venusiano do homem, e assim por diante — pois uma coisa é o polo baixo, outra é o polo com sinal trocado, e cada configuração requer uma leitura específica.
REFERÊNCIAS
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TOMÁS DE AQUINO. Suma contra os Gentios.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica.
VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política.
GUÉNON, René. O Rei do Mundo.
GUÉNON, René. A Crise do Mundo Moderno.
JUNG, Carl Gustav. O Livro Vermelho (Liber Novus).
JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião.
FRANKL, Viktor. Em Busca de Sentido.
CHESTERTON, G. K. Ortodoxia.
McCARTHY, Cormac. A Estrada.
McCARTHY, Cormac. Onde os Fracos Não Têm Vez.
McCARTHY, Cormac. Meridiano de Sangue.
ZAPFFE, Peter Wessel. O Último Messias.
LIGOTTI, Thomas. A Conspiração contra a Espécie Humana.
ANTICRISTO (Antichrist). Direção: Lars von Trier. Dinamarca, 2009.
ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (No Country for Old Men). Direção: Joel e Ethan Coen. Estados Unidos, 2007.
A ESTRADA (The Road). Direção: John Hillcoat. Estados Unidos, 2009.
HÄNDEL, Georg Friedrich. Rinaldo, HWV 7 (ária "Lascia ch'io pianga"). 1711.
BÍBLIA. Evangelho de João; Apocalipse.



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