RH é Meu ZOVO, RH e a Picaretagem Administrativa Moderna.
Existe um veneno que é comercializado como se fosse um remédio, e um remédio que é maldito e chamado de veneno. A bússola não se preocupa em saber se o marinheiro prefere o norte; ela simplesmente indica a direção, e aqueles que ignoram isso acabam se perdendo. O homem contemporâneo aprendeu a devorar suas próprias concepções quando estas caem ao chão, desde que alguém garanta, solenemente, que aquilo se trata de um verdadeiro banquete. Todo charlatão promete um deus a preço de banana — e leva a alma como volta. Este texto não tem a intenção de te agradar; seu objetivo é te tirar do mestre que você escolheu para si mesmo. Se você se sentiu incomodado por causa desse texto, ótimo: o incômodo é o primeiro sinal de que a concha começou a rachar. Mantenha essa fúria, mas canalize-a para quem realmente merece — não para mim, que apenas apontei o veneno, mas sim para aquele que te apresentou o veneno com um sorriso no rosto e ainda teve a audácia de te cobrar por isso. Depois, tranquilamente, se ajeita e lê o Estagirita. O que ainda não chegou virá.
Gabriel G. Oliveria
8/1/202658 min ler

Ou de como o administrador moderno trocou Aristóteles e São Tomás pela cartilha do picareta satanista
O tema de hoje será a administração — e já inicio confessando, sem qualquer constrangimento: eu realmente adoro criticar os administradores contemporâneos. Eu amo, pois eles solicitam. Eles são, sem dúvida, um grupo de jumentos. Note que eu não estou exagerando para chocar, nem tentando ser engraçadinho: eles são de fato um grupo de jumentos, e ainda por cima covardes, que é o detalhe que completa o retrato de maneira perfeita. A covardia mencionada aqui não é apenas uma expressão figurativa sem propósito — é uma avaliação precisa. O covarde é aquele que tem consciência, ou pelo menos intui, qual a atitude correta a tomar, mas ainda assim se retrai diante do menor desconforto, do menor risco ou do mínimo esforço necessário para refletir até o final. É precisamente isso que o administrador contemporâneo faz: ele se afasta da única área de estudo que poderia ajudá-lo, e o faz não por ignorância ingênua, mas por falta de esforço e receio. Você pode me questionar, já com a testa enrugada, demonstrando que ficou ofendido:
VOCÊ (já ofendido) — Ora, Gabriel, por que diabos eles seriam um bando de jumentos medrosos?
Eu respondo de forma direta e sem enrolação, pois é exatamente isso que eles representam — e a razão fundamental é única: todos, sem exceção, foram atraídos por uma ética que é subjetiva. Aqui é o momento ideal para firmar a estaca no solo, pois é a partir dela que tudo o mais se apoiará. A ética subjetiva é a perspectiva de que o que é certo ou errado varia conforme quem está observando, quando isso ocorre e quais benefícios a pessoa pode obter ao fazer essa avaliação. É a crença de que a moral é uma vestimenta que adaptamos ao formato do corpo da conveniência. E eu digo, desde o princípio, que isso não pode ser — não pode ser apenas uma impossibilidade moral, mas uma impossibilidade quase física, estrutural, da mesma ordem que um triângulo de quatro lados.
Um empresário que adota a ética subjetiva, na minha opinião, é como um cuquito desejando ter uma bola quadrada só para si. É impossível. Não rola. A bola quadrada não gira, não quica, não serve pra porra nenhuma — e o bichinho fica ali, rodando em volta de um troço que contraria a própria natureza da brincadeira, achando que um dia aquilo vai deslizar pelo chão. Repara na precisão da imagem, porque ela não é só piada: uma bola é bola porque é redonda; tira a redondeza e você não tem uma bola diferente, você não tem bola nenhuma. Do mesmo jeito, uma ética é ética porque é objetiva; tira a objetividade e você não tem uma ética mais moderna, mais flexível, mais gente-boa — você não tem ética alguma, você tem só um capricho com nome bonito. É esse o retrato do sujeito. Você vai falir a sua empresa se fizer isso. Simples assim. Não seja um jumento desse tipo. Não tem muito o que floreá aqui: eu estou só explicitando o que já é óbvio, porque a coisa é essa mesmo. Se você é um empresário que se preze, você não é um animal. Você não é um jumento do caralho, não é essa figura. Você é uma pessoa que tem, no mínimo, o par de neurônios necessário pra manter as orelhas no lugar.
Agora, permita-me explicar essa figura, que é intencionalmente tola e feita para provocar risadas: o nível mais básico, o mínimo necessário, é possuir dois pequenos neurônios — aquele fino fio de massa cinzenta localizado bem no centro da cabeça — que servem apenas para sustentar as orelhas. Se nem isso estiver presente, quando alguém realizar um corte, elas vão cair no chão. É essa a parte que fica no centro para segurar as orelhas e evitar que caiam. Portanto, se você possui pelo menos esse par de neurônios que desempenha a importante função de manter suas orelhas levantadas, você já possui a capacidade necessária para compreender o que vou expor aqui. Estou sendo bastante indulgente nas exigências, sabia? Não estou exigindo que você tenha um doutorado em filosofia. Estou solicitando o mínimo necessário para a sobrevivência. Não custa nada. É só desejar.
E quem te diz isso é uma pessoa que cursou administração por quatro anos e obteve a nota máxima no MBA em gestão executiva de negócios. Digo isso não para me vangloriar, mas para que você compreenda que não estou criticando de longe, nem despejando descontentamento sobre um prato em que jamais estive à mesa. Eu me acomodei. Eu experimentei aquela comida, li aqueles guias, ouvi aquelas aulas, e é precisamente porque tive acesso a tudo isso que posso afirmar com certeza o quão ruim e desagradável é aquilo. Portanto, é com grande satisfação — e não estou exagerando ao dizer isso — que afirmo isso diretamente a você: no seio desse ambiente administrativo, você encontrará uma grande quantidade de empresários tolos e incapazes. São exatamente esses indivíduos que, posteriormente, surgem em lágrimas lamentando que foram vítimas de roubo, pisoteados ou enganados — e, para piorar, ainda não conseguem entender o motivo. "Ah, mas por que será?" Por que será, não é mesmo, seu jumento? Por que será que meteram a mão no seu bolso e você só percebeu quando estava vazio? Por qual motivo será que te enganaram, seu porco em pé?
Quando me refiro a alguém como porco, não é sem motivo, e definitivamente não é um insulto lançado ao acaso. Porco, neste Círculo de Estudos, refere-se a uma figura bastante particular, quase uma categoria antropológica, e é interessante dedicar um tempo a ela. O porco é o animal que se alimenta de tudo que encontra no chão, até mesmo de suas próprias fezes. Se um pedacinho de alimento cair junto com as fezes, ele não faz distinção entre os dois: ele consome a comida e as fezes juntos, tudo misturado, e ainda parece estar contente. Note que o problema com o porco não é a fome; trata-se, antes, da incapacidade de discernir. Ele não consegue mais, ou nunca conseguiu, identificar a diferença entre o que alimenta e o que é tóxico. É precisamente por essa razão — e apenas por essa razão — que "porco" se transformou em um insulto. Quando você se refere a alguém como um porco, não está simplesmente afirmando que essa pessoa come em excesso; está insinuando que ela perdeu a capacidade de distinguir entre o que a eleva e o que a rebaixa. É precisamente isso que o empresário contemporâneo realiza. Ele descarta suas próprias opiniões — o que ele sabe, de forma superficial, sobre o mundo —, expõe tudo de maneira desorganizada, e então surge um coach qualquer e faz o seguinte:
(O empresário acaba de expelir suas próprias ideias no chão. Surge o COACH, todo sorridente, com um brilho nos olhos, dentes brancos como pérolas, vestindo uma camisa social justinha, que evidencia seu físico bem cuidado, e carregando um saco de ração debaixo do braço.
COACH — Veja só, mais comida para você, meu pequeno amigo!
(E joga a ração em cima das fezes. O EMPRESÁRIO, ávido por reconhecimento, se lança de quatro e consome tudo — tanto a comida quanto a sujeira, sem fazer qualquer distinção, passando a língua no chão e expressando sua gratidão entre uma lambida e outra.
Em outras palavras: ele ingere a ração juntamente com suas próprias fezes, acompanhadas das péssimas ideias que ele mesmo gerou e excretou naquele local. O coaching simplesmente incentiva essa pessoa a aprofundar ainda mais suas crenças equivocadas. Esse é o serviço. É por essa razão que ele paga. Ele paga para que suas próprias fezes sejam reestilizadas e apresentadas novamente em um prato elegante, acompanhadas de um delicado molho de autoajuda por cima, para que possa consumi-las acreditando que está progredindo. É tão simples quanto isso. Se você acredita que estou agindo com crueldade, prepare-se, pois a verdadeira crueldade é aquela que essas pessoas impõem a si mesmas a cada dia, com um sorriso no rosto. Permita-me esclarecer de uma maneira que seja realmente evidente — e, para isso, é essencial que eu primeiramente explique o que, de fato, é essa chamada ética objetiva, sobre a qual não cessarei de discorrer.
Porque a ética objetiva não é uma criação minha, nem uma birra de católico, como os indivíduos astutos rapidamente irão afirmar. Ela representa a mais antiga e a mais sólida descoberta da filosofia ocidental, originando-se de uma questão simples que Sócrates costumava fazer no meio da rua, pressionando os sofistas: existe um bem que seja verdadeiramente bom, ou tudo se resume a opinião? Os sofistas — que, por sinal, eram os coaches da Antiguidade, os mercadores da retórica que instruíam os filhos de famílias abastadas a vencer qualquer debate, sem se preocuparem com a veracidade dos fatos — afirmavam que tudo se resumía a opiniões, que o homem é a referência para todas as coisas e, portanto, que o que se considera justo é apenas o rótulo que o mais poderoso atribui àquilo que lhe é favorável. Até Sócrates, e Platão que veio em seguida, e Aristóteles que se seguiu a Platão, todos eles dedicaram suas vidas a destruir essa tolice. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles demonstra que cada ser humano possui um bem específico, assim como cada objeto tem o seu próprio bem — o bem de uma faca é cortar, o bem de um olho é ver, e o bem de um cavalo está relacionado à realização plena da sua natureza — e afirma que a virtude não é um mero adorno, mas sim o costume que leva o homem a cumprir sua verdadeira essência. Roubar, mentir, trair, agir com covardia: essas ações não são consideradas erradas apenas porque um deus mal-humorado assim ordenou; elas são erradas porque vão contra a essência do ser humano, porque o deformam, porque o distanciam do propósito para o qual foi criado. É isso que significa ser objetivo: que a realidade se apresenta dessa forma, independentemente das suas preferências, da mesma maneira que uma bússola indica o norte, sem se importar com o estado de ânimo do capitão.
São Tomás de Aquino, séculos depois, irá reunir toda essa herança grega e elevá-la ao seu ponto máximo, com a clareza precisa que só ele possui. Ele se referirá a isso como lei natural: há uma ordem escrita na própria realidade, e a razão humana é capaz de interpretá-la. O primeiro princípio prático — o que Aristóteles presume e Tomás elabora — é que o bem deve ser feito e buscado, e o mal deve ser evitado. Assim surgem princípios que, na realidade, nenhum homem ignora, mesmo que finja o contrário: não tirar a vida de um inocente, não furtar, não trair a confiança, e dar a cada um o que lhe pertence. Note que isso não é um princípio rígido de quem está fechado em sua crença; é a aplicação da lógica à maneira de agir. Tanto é que Sócrates, Platão e Aristóteles chegaram lá sem nunca terem ouvido falar de Cristo. Ou seja — e presta muita atenção nisto, porque é a chave — a coisa nem é cristã, na origem. O cristianismo não inventou a ética objetiva; ele a confirmou, a aprofundou e a coroou, mas o esqueleto já estava de pé na Grécia pagã. Então, quando o administradorzinho de araque me vem com aquela cara de esperto dizer que exigir ética objetiva é "moralismo cristão retrógrado", ele está apenas confessando, com todas as letras, que nunca leu uma linha de Aristóteles e não sabe do que está falando. Mas eu vou conseguir isso. Primeiro, permita-me compartilhar uma história sobre meu amigo e o infame Maquiavel.
Um amigo meu é empresário. Então, eu me acomodei ao lado dele e disse o seguinte:
GABRIEL — Ouça bem, Cara: a única forma de evitar que seus funcionários te enganem é deixar de dar ouvidos ao desgraçado do Maquiavel.
AMIGO — Mas, Gabriel, como assim? O Maquiavel foi de uma grande ajuda para mim, sabe...
GABRIEL — Não. O Maquiavel não te ajudou em nada.
De fato, não prestou ajuda alguma. É apenas necessário investigar a história — a trajetória dos reis, dos funcionários e dos empresários que obedeceram rigorosamente aos ensinamentos de Maquiavel. Todas as pessoas que o procuraram acabaram se prejudicando na vida. Quando você analisa a situação de perto, inevitavelmente chega a duas conclusões, sem qualquer outra alternativa: ou essas pessoas são um grupo de indivíduos desprezíveis da mais baixa categoria, e, nesse caso, sua desgraça se torna uma espécie de karma, resultando da colheita natural do que semearam; ou são simplesmente um bando de ingênuos que foram enganados por outros indivíduos mais astutos e igualmente desprezíveis, que compreenderam o mesmo manual e jogaram de forma mais eficaz no jogo sujo. Não existe uma solução intermediária. Essa tragédia não ocorre por sorte; é o resultado de uma estrutura. O que Maquiavel realiza, em essência, é a ação mais séria que um pensador pode executar: ele quebra o vínculo que, desde a era grega, tem conectado a política à ética. Antes dele, passando por Aristóteles até chegar a São Tomás, a questão "como governar bem?" estava indissociavelmente ligada à questão "como ser bom?". O governante ideal era aquele que possuía virtudes, e isso é tudo. Maquiavel desfaz essa amarra com uma lâmina gélida e afirma: deixe de lado a virtude, meu amigo; o que realmente importa é a virtù, que é algo diferente — é a sagacidade, a força, a habilidade de preservar o poder por qualquer meio necessário. A ética atribuída a Maquiavel — e eu enfatizo isso entre muitas aspas, pois Maquiavel não possui ética alguma, sendo uma antiética vivente e a negação estruturada da ética — é algo que esses indivíduos do setor administrativo valorizam imensamente. Eles adoram lamber a parte de trás desse rapaz. O que é realmente irônico e trágico é que, em sua essência, ele cometeu apenas erros. Não existe nada que Maquiavel tenha realizado que seja considerado positivo, no sentido de ter criado algo duradouro. As péssimas decisões administrativas ao longo da história têm a influência de Maquiavel bem presente, pois ele ensina precisamente aquilo que mina a confiança — e, sem confiança, nenhuma empresa, reino ou lar consegue permanecer de pé por muito tempo. Além disso, essas pessoas o aplaudem de pé, como se estivessem aplaudindo o próprio algoz.
Assim como Karl Marx é considerado um veneno para a filosofia, Maquiavel é para a administração. Um grupo de coisas insignificantes que não merecem ser analisadas da mesma forma que se estuda um mestre — apenas se justifica o estudo delas da maneira que se estuda um veneno. Permita-me ser claro ao fazer essa comparação, pois ela possui um propósito: investigar o veneno é uma tarefa digna e essencial, desde que você tenha consciência de que está lidando com veneno. O toxicologista abre o recipiente, analisa a substância, compreende o mecanismo pelo qual ela interrompe o funcionamento do coração — e realiza todo esse processo exatamente para saber identificar o veneno, criar o antídoto e nunca, em hipótese alguma, oferecê-lo durante o jantar. Dessa forma se interpreta Maquiavel, assim também se analisa Marx: como alguém que abre uma cobra para entender seu veneno. O empresário brasileiro, atrasado como costuma ser, faz exatamente o oposto: ele lê Maquiavel como se fosse um conjunto de instruções a ser seguido, como um manual indispensável, como se a receita do veneno fosse um menu. E essa é a maior idiotice que existe, meu amigo. Não é necessário seguir os preceitos de Maquiavel. Se o seu objetivo é levar a sua empresa à falência, ou ser vítima de um roubo elaborado e sofisticado, então pode se aprofundar nesse caminho, seguindo Maquiavel à risca — mas não se queixe depois das consequências desagradáveis.
Há algo ainda mais grave. Há pessoas que, na sua presunção, fazem com que seus próprios funcionários leiam Maquiavel.
(O CHEFE, na sua percepção de ser generoso e atual, oferece o livro ao funcionário que, diariamente, trabalha oito horas em oposição a ele.)
CHEFE — Aqui, lê o Maquiavel, é útil para a sua carreira.
Puxa, cara. Você consegue ver a magnitude da lombeira? Você está, de fato, fornecendo, com suas próprias mãos, o guia de combate para o indivíduo que, se tiver a chance, não hesitará em causar-lhe danos. É semelhante a um general que detalha sua estratégia de combate e a envia cuidadosamente ao quartel do inimigo, acompanhada de um bilhete desejando boa sorte. Você está permitindo que seu funcionário o supere e ainda o prejudique, agora de maneira metódica e embasada, com referências teóricas e notas de rodapé. Você está ficando maluco? É desse grau de ignorância que estamos falando aqui. O que é ainda mais lamentável é que ele se considera um estrategista brilhante enquanto age dessa forma.
Agora vamos direto ao assunto, com tranquilidade, pois é aqui que se encontra a solução. A ética objetiva refere-se à ética que se baseia na lógica. É só isso. É fácil. E, quando eu digo lógica, eu não digo palavra de efeito: eu digo que, do mesmo modo que numa demonstração matemática a conclusão está contida nas premissas e não depende de você achar bonito, na ética objetiva o vício é vício por dedução, não por decreto. Sócrates, Platão e Aristóteles já vão falar disso lá atrás, e São Tomás vai amarrar tudo depois. Ou seja, repito, porque a repetição aqui é martelo em prego que precisa entrar: a coisa nem é cristã, na origem. Então não me vem com aquela ladainha: "ai, mas isso aí é uma ética cristã retrógrada, blá-blá-blá". Não. Vai à merda. Primeira coisa: vai se danar. Você está dizendo algo que não faz sentido. Você não tem a menor ideia do que seja uma ética objetiva, confundindo-a com o discurso de um padre irritado, e ainda assim se arvora a opinar com a boca cheia. Fique em silêncio e leia o Estagirita antes de falar.
Então, eu serei completamente transparente: este texto é, de fato, uma ofensa ao empresário. É intencional, planejado e preciso. Meu objetivo é provocar a maior irritação que eu puder. Meu objetivo é provocar reações de indignação e frustração em todas essas pessoas, fazendo com que fiquem com expressões de raiva, balançando os pés de ódio devido a este texto, revirando os olhos e chamando suas esposas para que também leiam o absurdo que este indivíduo chamado Gabriel escreveu. Eu desejo isso por uma razão muito clara, meu irmão, e não por um mero prazer sádico: porque a raiva, em certos momentos, é a única emoção intensa o suficiente para romper a camada de verniz que essas pessoas construíram ao redor de sua própria ignorância. Você deve adotar uma ética objetiva na sua empresa. Se a sua ética está comprometida, o seu empregado também agirá de maneira inadequada — e a responsabilidade, meu caro, é sua. Do empregador. Desde o topo. A cabeça estraga e o corpo todo cheira mal.
A lógica maquiavélica atrai o empresário ao fazer uma promessa tentadora, sussurrada em seu ouvido: "olha, você pode ser bom na maior parte do tempo, mas, quando convier, você pode dar uma escorregadinha, ser mau também; um pouquinho de crueldade calculada aqui, uma mentirinha estratégica ali, não faz mal a ninguém, é o jogo". No final, ao desmembrar essa promessa, o que resta é apenas o empresário buscando impor uma forma de escravidão ao funcionário, pois assim ele consegue exigir mais, pressionar mais, extrair mais, pagar menos, demandar o que parece impossível e ainda se considerar um líder motivador. É exatamente por essa razão que ele evita a ética objetiva: pois a ética objetiva impediria precisamente esse tipo de abuso, estabelecendo um limite claro onde ele deseja ter liberdade de ação. Mas o feitiço se volta contra o feiticeiro instantaneamente, e com juros. Quando você retira a base da ética objetiva e ensina que "às vezes o certo é ser um pouco cuzão", você cria uma situação ainda mais problemática — e essa situação não permanece sob seu controle, ela explode na mente do funcionário. O funcionário pensa da mesma maneira que você ensinou: "ah, se é assim, se o próprio chefe diz que às vezes vale a pena ser mau, então eu também posso agir assim, eu também posso dar a minha escorregadinha estratégica". Ali não se encontra uma virtude completa, nem há uma demarcação clara que distinga a virtude do vício, uma vez que foi você quem esfregou o dedo sobre essa linha até apagá-la. Então, quando alguém ultrapassa a fronteira que você mesmo desfez, você não tem moral para se queixar. Você abriu a porteira e agora se surpreende com o gado dentro de casa.
É por isso que toda essa conversa sobre "ética empresarial" me parece algo associado a pessoas preguiçosas e desonestas. Eu não me refiro à ética "nos negócios" de uma forma que seja considerada decente — como honestidade, cumprimento de promessas e respeito aos contratos; isso é apenas a ética objetiva aplicada ao comércio, e é excelente. Refiro-me a essa "ética empresarial" de manual moderno, essa coisa maleável, situacional, "depende do contexto", que, na prática, acaba servindo como uma espécie de autorização disfarçada para comportamentos duvidosos que se apresentam de forma elegante. Porque você não está se comportando de maneira decente nesse lugar, mesmo que tente se convencer do contrário ao se olhar no espelho todas as manhãs.
CHEFE (todo orgulhoso de si) — Eu sou um puta chefe, viu? Eu faço o máximo possível pelo meu funcionário, eu ofereço uma ética diversificada, flexível, moderninha, adaptada aos novos tempos pra eles.
GABRIEL — De jeito nenhum. Você é apenas um idiota.
Pois, quando o colaborador utilizar precisamente a ética que você ensinou — e isso certamente ocorrerá com o tempo —, você não terá motivos para reclamar de nada. E ele te enganará com a mesma calma de quem está seguindo uma norma que aprendeu com o mestre. É tão simples quanto isso. Nessa dinâmica, quem age como um idiota é você, não ele. Ele está apenas empregando a ética maquiavélica — com muitas aspas — que você cuidadosamente colocou sobre a mesa e serviu acompanhada de uma bebida. Percebe como o encantamento se regressa ao seu autor? Ele encanta o seu próprio galinheiro e, em seguida, fica surpreso por ser picado. Portanto, memorize isso de uma vez por todas: não há ética nos negócios, nem que você escreva com sangue. Isso não existe, amigo. É uma ilusão, uma criatura de duas cabeças que a contemporaneidade criou para comercializar cursos. Há uma ética objetiva que realmente existe. A ética objetiva, que foi criada — melhor dizendo, descoberta, porque ela não se inventa, ela se descobre, como se descobre uma lei da física — por Sócrates, Platão e Aristóteles. No caso, Sócrates e Platão primeiro, lançando a pedra fundamental; depois veio o Aristóteles, que aprimorou pra caramba a coisa toda, que sistematizou, que deu carne e osso ao esqueleto. Mas a essência originou-se de Sócrates e Platão — e, para sermos completamente francos, no final das contas, tudo se resume a Platão.
Porque, segundo afirmam — e aqui eu estou relembrando o que algumas investigações históricas indicam, sem pretender afirmar isso como uma verdade absoluta, ressalvando bem isso —, Platão, em grande parte, colocou muito de sua própria essência nas palavras de Sócrates. Há quem defenda que cerca de quatro livros, ou diálogos, presentes ali foram elaborados por Platão utilizando Sócrates como uma espécie de pseudônimo, como um personagem que serve de máscara, ou ainda como um boneco de ventríloquo, através do qual ele expressava suas próprias ideias já bem desenvolvidas. Em outras palavras, cerca de quatro diálogos que costumamos atribuir a Sócrates foram, na verdade, escritos pelo próprio Platão, que estava aprimorando e expandindo as ideias de seu mestre para além do que o Sócrates histórico possivelmente tenha afirmado. Isso é uma análise de historiador, uma suposição de especialista, e não um fato estabelecido com uma certidão — mas é útil para você compreender o quanto Platão está no cerne de tudo, o quanto ele é o coração que impulsiona toda essa tradição.
Atualmente, temos uma compreensão clara e prática do que constitui a ética objetiva. Quando falamos de ética objetiva, estamos nos referindo a isto: "isto aqui é vício, e não tem como não ser vício, aconteça o que acontecer". Ou seja, afirmar de maneira clara e sem hesitações: roubar é prejudicial; portanto, não se pode roubar. Ponto. De maneira alguma se pode roubar, sob nenhuma circunstância, por mais engenhosa que seja a justificativa. Isto é uma ética objetiva. Agora, fique atento ao truque, pois ele é sempre o mesmo: se você olhar para essa frase clara e direta e imediatamente continuar com um "ah, mas existem certas situações em que dá pra roubar", observe quem costuma aparecer sussurrando logo em seguida, com uma voz suave de amigo:
AMIGUINHO (o conselheiro de meia-tigela) — Ah, mas você pode se permitir uma pequena transgressão, vai, só uma, já que você tem enfrentado tantas dificuldades na vida, coitado, você realmente merece um momento de descanso, ninguém vai nem notar que falta...
GABRIEL — Já vai. É neste preciso momento que o indivíduo deu significado subjetivo à sua ética. Ele transformou uma verdade imutável em um líquido fervente, aquecido pela intensidade do seu próprio sofrimento.
E o Aristóteles deixa isso bem claro, sem espaço para interpretações duvidosas. Quando, dentro de um raciocínio bastante rigoroso, seria aceitável roubar ou causar dano a outra pessoa? No caso mais extremo, e apenas nesse caso, e mesmo assim com muitas reservas: diante de um ditador que arruína a vida das pessoas, que oprime, que tortura e que, além disso, mata pessoas inocentes em grande número. Aí, sim, quando a tragédia bate à porta, você pode combatê-lo utilizando recursos que, em circunstâncias normais, seriam proibidos. Somente quando for absolutamente indispensável, em situações que envolvem a vida ou a morte, ou quando se trata de proteger outras vidas — incluindo aquelas de terceiros que não têm como se defender. Ali é que se revelaria, com extremo cuidado, o coração angustiado e a consciência carregando cada grama, uma exceção. Note que até essa exceção não é o vício transformando-se em virtude; é a virtude, em um mundo desfeito, optando pelo menor dos dois males para evitar um mal muito mais significativo. Não é, meu caro, aquele momento em que você se depara com um pequeno contratempo com um cliente e decide mentir para ele a fim de vender um produto ou evitar uma responsabilidade. Você está conseguindo perceber a discrepância de tamanhos, a diferença nas ordens de magnitude? De um lado, a coragem de um homem íntegro enfrentando um tirano assassino, com a vida por um fio; do outro, um charlatão de terno enganando um cliente para ganhar um pouco mais. Não se trata da mesma classe de coisa. Não se compara de forma alguma. Igualar as duas situações — utilizar a exceção trágica como justificativa para a imoralidade do dia a dia — é característico tanto do canalha quanto do tolo, que, frequentemente, são a mesma pessoa.
É neste ponto, ao tratar da canalhice institucionalizada, que se insere um tema que me desagrada profundamente, com uma aversão quase palpável: Recursos Humanos. Gestão de Pessoas. A minha própria mãe, no passado, quando eu estava decidindo meu caminho, me ofereceu essa escolha de forma direta:
MÃE — Você pretende seguir carreira em Recursos Humanos ou na administração?
GABRIEL — Gestão. RH eu não farei, pois não é do meu agrado.
Eu não tenho apreço nem pela disciplina em si, nem, de maneira bastante honesta, por grande parte das pessoas que trabalham na área de Recursos Humanos — e explicarei o motivo, citando nomes, sobrenomes e exemplos, para que ninguém pense que se trata de uma simples birra da minha parte. O pessoal do RH, desde o início de sua formação e ao longo de sua carreira, é ensinado e preparado para tratar tanto os clientes quanto os funcionários como se fossem um grupo ignorante, uma manada que não possui conhecimento e que precisa ser guiada e controlada. É um treinamento claro para inflar o próprio ego em detrimento do funcionário, definindo desde o início quem está no comando e quem deve obedecer. Isso que eu estou dizendo, eu não aprendi apenas lendo livros, entende? Eu adquiri esse conhecimento através da experiência pessoal, convivendo com familiares que atuam na área de recursos humanos e observando de perto como as coisas funcionam internamente.
Tenho, de fato, primas de meu pai que atuam na área de Recursos Humanos — e elas, com todo o afeto familiar que consigo ter, são as pessoas mais irritantes que já conheci. São indivíduos que nada entendem, mas afirmam com fervor, como verdadeiros mártires, que possuem todo o conhecimento. É o RH tradicional, o tipo industrial: arrogante e extremamente teimoso, com a convicção inabalável daqueles que nunca se questionaram ou duvidaram de si mesmos nem por um instante. Como eu sempre digo, e não me importo em reiterar, pois é a mais pura verdade: o pequeno advogado do chefe é, sem dúvida, o RH. O RH atua como o advogado particular do empregador, o defensor de ofício da organização, um escritório de advocacia interno que serve exclusivamente a um único cliente. Ele nunca, sob condições normais, se posiciona ao lado do funcionário — a não ser que haja uma situação tão absurda e escandalosa que o funcionário tenha a real possibilidade de processar a empresa e sair vitorioso. Mesmo em uma situação tão extrema, é bastante provável que o departamento de recursos humanos permaneça ao lado da empresa até o fim, avaliando se é mais vantajoso optar por um acordo ou deixar o funcionário em uma situação difícil, contando com a lentidão do processo.
Qual é, afinal, a razão de ser do RH? Qual é o seu propósito, o motivo pelo qual você existe? Surge para tranquilizar o empregado, para suavizar a situação, para impedir que ele vá e ataque o patrão. Para evitar, no extremo mais preocupante da situação, que ele chegue à empresa com uma arma e comece a disparar para todos os lados. Sim, estou utilizando de forma intencional a imagem mais chocante e absurda que se pode imaginar, em um contexto extremo, não para promover ou defender qualquer coisa, é claro, mas precisamente para que você possa perceber, através desse exagero, qual é a verdadeira e original função do departamento: o RH atua como a mão invisível do superior, serve como um para-choque humano e é o instrumento que manipula, acalma, distrai e organiza o funcionário, exatamente para evitar que ele perca o controle, se revolte e, principalmente, para que não decida processar a empresa. É engenharia de contenção de revolta, é gestão preventiva de motim, só que com sorriso corporativo e cafezinho. No final da conta, é isso. O RH nasceu pra proteger o chefe, essa é a certidão de nascimento dele. Então não me venha com essa conversa mole de que "RH é pra cuidar do bem-estar do funcionário" — isso não existe, é folclore de palestra motivacional.
E agora a gente precisa detalhar o significado dessa sigla, porque a sigla mente. RH, para quem se deixa levar pelo discurso oficial, é "Recursos Humanos", como se fosse um departamento zeloso e maternal do bem-estar geral da tribo. Não é mesmo. O departamento de Recursos Humanos opera exclusivamente em favor do empregador, e o próprio termo "recursos" deveria ser um indicativo: recursos são insumos, matérias-primas, elementos que são geridos, alocados e descartados conforme as necessidades e conveniências. É preciso que você compreenda isso de uma vez por todas: o RH não foi criado para auxiliar os funcionários. Ele representa os interesses da empresa, não do funcionário. Se você é da área de Recursos Humanos e realmente defende os interesses do funcionário — e aqui eu preciso ser claro: não funcionário contra funcionário, o que é apenas conversa de corredor, mas funcionário contra a empresa, o funcionário que está certo em uma disputa legítima com o patrão —, você será visto como um RH ruim, um RH fraco, um RH que "não veste a camisa", e as pessoas simplesmente não vão querer te contratar. Não estou falando de forma leviana; isso é um fato: assim se desenrola a vida nos negócios. Trata-se de uma norma não oficial, amplamente reconhecida, mas que ninguém formaliza com uma assinatura. Até mesmo minhas próprias primas, que são bastante irritantes, afirmam isso de forma clara e sem vergonha: um departamento de recursos humanos que apoia o funcionário é considerado um mau RH e não consegue emprego. Elas revelam a essência da situação pensando que estão oferecendo um conselho profissional.
Querendo ou não, o RH desempenha um papel semelhante ao do cobrador de impostos em Israel. Essa analogia merece ser explorada com calma, pois é precisa. O coletor de impostos, conhecido como publicano, era um judeu que, na Judeia daquela época, era profundamente detestado por todos, sendo considerado um pária entre seu próprio povo. Por que ele era tão detestado? Não se tratava de uma inveja sem fundamento. Era porque ele apoiava o governo — o regime ocupante, a autoridade opressora — que assassinava outros judeus, que asfixiava outros judeus, que empobrecía outros judeus devido a impostos exorbitantes e insanos que teimava em extorquir do povo. O publicano era o representante local dessa máquina opressora; era o morador que pressionava seu conterrâneo em nome do César. É por isso que a população nutria um ódio particular e intenso pelos cobradores de impostos; e, se um judeu cobrasse de outro judeu, a situação se tornava ainda mais explosiva, uma vez que à opressão se somava a traição de sangue. Dentro de Jerusalém, esses indivíduos eram profundamente odiados — alguns cobradores foram até mortos por outros judeus, tamanha era a raiva que despertavam, sendo vistos como colaboradores do inimigo. Esse é, fundamentalmente, o papel que o RH desempenha atualmente: o colaborador que age contra os demais em favor de quem está no comando, o vizinho que pressionam o outro vizinho em função da folha de pagamento. É curioso — é bem provável que você esteja lendo isso e sorrindo, identificando-se, lembrando-se de alguém —, mas é a pura verdade. É uma verdade crua e dolorosa, tão precisa que machuca.
Se um profissional de Recursos Humanos te trata de maneira desrespeitosa, mesmo que você não mereça esse tratamento, isso indica que ele não está realmente interessado em promover a inclusão, apesar de todo o discurso eloquente sobre o tema que repete durante os treinamentos. Ele deseja defender os interesses da empresa e, para isso, precisa te posicionar, desde o início e antes mesmo de a conversa se iniciar, como uma pessoa inferior na hierarquia da interação. Trata-se de uma técnica, bem como de uma forma de se posicionar. É uma maneira de comunicar, de forma implícita, sem a necessidade de levantar a voz: "você não é nada aqui; por que você está batendo de frente com a empresa? você é apenas um carrapato aderido a este corpo, e carrapato a gente arranca". É isso, basicamente. Isso é feito de maneira intencional e calculada, pois o objetivo é único e fundamental: evitar que o funcionário processe a empresa, independentemente do custo para sua dignidade.
Permita-me apresentar um exemplo prático, para que você não pense que se trata de uma teoria elaborada em escritórios, fruto da obsessão de alguém que nutre aversão ao RH por pura sportividade. Uma amiga minha viveu essa situação, e eu testemunhei tudo acontecer. Estava havendo um pequeno problema no ponto dela — você sabe, aquele sistema eletrônico de registro de ponto que se usa a digital? Afinal, o cadastro biométrico dela não estava configurado corretamente, e por conta de uma falha do sistema, que não era culpa dela, o registro sempre ficava um pouco atrasado em relação ao horário real de sua chegada. De boa-fé, ela procurou o departamento de recursos humanos da empresa para relatar o problema, acreditando que era apenas uma questão de corrigir um erro. O departamento de RH, ao invés de analisar o sistema, respondeu dessa maneira:
RH — Porém, esse erro só ocorre com você.
AMIGA — Apenas eu? O que você está pensando? Que há um deus do ponto, instalado em sua nuvem, com uma prancheta em mãos, que decidiu que todos devem cometer erros, e, em sua sabedoria divina, optou por me castigar exclusivamente?
A resposta que você apresentou é exatamente a que eu forneceria, sem alterações, pois ela desmantela a lógica absurda ao utilizar uma imagem que revela o quão irracional é a situação. Observe o que ocorreu imediatamente após isso, pois é o mais revelador: a partir daquele instante, quando ela teve a audácia de responder com sagacidade, o RH começou a criar dificuldades para ela, a identificá-la, a tratá-la como um problema. Porque é o que eu vivo dizendo, e a experiência só confirma: com RH você tem que ser bruto, tem que impor presença, tem que mostrar que não vai abaixar a cabeça, senão o pessoal do RH pisa em você e ainda limpa o sapato na sua camisa. Infelizmente é assim que a engrenagem gira.
E teve uma outra menina, que estava na conversa tentando "ajudar", mas ajudando do jeito errado, que resolveu escarafunchar qual tinha sido, afinal, o "erro" da minha amiga. O que ela fez de errado, o crime hediondo, foi ser honesta e afirmar que, às vezes, levava um pouco mais de tempo para chegar à empresa, pois dependia do mototáxi para se locomover, e que, dependendo do dia, esse serviço podia demorar — às vezes cinco minutos, outras vezes até meia hora. Isso é, de maneira natural, como qualquer ser humano, ocasionalmente, devido a uma situação real e alheia ao seu controle, ela chegaria um pouquinho mais tarde. E o RH, diante dessa explicação honesta e razoável, cravou, com a autoridade de quem lê a sentença:
RH — Não interessa a sua lógica. Interessa a lógica da empresa. Você tem que fazer o que a empresa quer e chegar no horário correto.
Olha que resposta de jumento. Olha o tamanho, a densidade, a majestade da burrice contida nessa única frase. É, sinceramente, sem exagero, a resposta mais estúpida que se poderia imaginar dentro de um ambiente que se pretende profissional. "Lógica da empresa" — o quê? Me explica essa entidade metafísica nova. Me diz: se o dono da empresa apontar o dedo autoritário pra um objeto qualquer em cima da mesa e mandar, com voz firme de patrão, "flutue", o troço vai flutuar? Vai flutuar da mesa só porque a empresa quis muito? Vai cancelar a gravidade só porque tem um organograma? É evidente que não, uma vez que a lógica é uma característica intrínseca à própria estrutura do universo, e não uma regra interna da empresa. É a lógica que se ensina nas universidades, a lógica verdadeira, a mesma que Aristóteles sistematizou e que ainda influencia o raciocínio até mesmo daqueles que a rejeitam — uma lógica que não se submete a títulos, a distintivos, nem a ambientes climatizados de trabalho. Não há uma "lógica da empresa" que possa anular a realidade ou ignorar o fato de que mototáxi atrasa e biometria falha. Em outras palavras, aquilo é simplesmente uma manifestação de desrespeito disfarçada de disciplina, e um abuso de autoridade que se apresenta como um padrão. Então, qual foi a atitude da minha amiga em relação a isso? Ela manteve a firmeza. Contou até mil e segurou com todas as forças que tinha pra não mandar a pirralha metida e o RH inteiro pra todos os infernos, pra não xingar a família de cada um deles até a sétima geração, passada e futura. Inspirou profundamente, contou até dez, relaxou e engoliu em seco. Por que razão? Não por falta de coragem, mas por uma estratégia de sobrevivência: pois, se ela perdesse a paciência e enviasse o RH para aquele lugar que realmente merece, o próximo passo, inevitavelmente, seria a sua própria demissão. O departamento de recursos humanos está ciente disso, tira proveito da situação e se sente poderoso por causa disso. Ele é o pequeno advogado da empresa e sempre tem essa ameaça em mente — a demissão pairando sobre a cabeça de todos como uma espada de Dâmocles.
Tem um outro amigo meu que resume essa figura de um jeito que me faz rir até hoje, mas que é, ao mesmo tempo, a definição mais sincera e mais precisa que qualquer funcionário do mundo assinaria embaixo sem pestanejar. Ele fala assim, sem rodeio:
AMIGO — Sabe o que é o RH? O RH é a putinha do empresário.
E é. Cruamente, é. Porque o RH tem que fazer tudo, mas tudo mesmo, o que o chefe manda, sem questionar, sem torcer o nariz. Ele monta o relatóriozinho dele com os gráficos bonitos, entrega pro chefe, o chefe bate o olho e diz "vai fazer isso, corta aquilo, aperta aquele outro" — e ele vai lá e faz, obediente, e coordena o pessoal exatamente naquela direção que mandaram. Ele não delibera; ele executa. Entendeu agora, com todas as peças no lugar, por que eu não quis fazer faculdade de RH? Cara, você é odiado num nível difícil de descrever, um ódio que gruda na profissão inteira — e, em muitíssimos casos, o funcionário tem toda a razão do mundo de te odiar, porque você está mesmo, objetivamente, contra ele.
Quando o RH não consegue justificar a posição da empresa em uma conversa aberta e a lógica não está a seu favor, qual é a primeira estratégia que ele utiliza? Ele coloca toda a empresa contra o funcionário. Ele foge do assunto e começa a atacar a pessoa: "ah, mas você faz isso, você fez aquilo, lembra daquela vez". É uma evasão de argumento evidente, a mais básica das falácias, mudando de assunto para evitar a perda do debate no ponto em que está se saindo mal. Todos os departamentos de recursos humanos com os quais conversei ao longo da minha vida, sem nenhuma exceção, adotam essa mesma abordagem quando se encontram em uma situação difícil. Vão acumular os argumentos mais ruins e irrelevantes que conseguirem, apenas para invalidar você como indivíduo e te desqualificar antes mesmo de te darem uma resposta. "Ah, mas você fez tal coisa lá atrás, uns três anos atrás." Nesses momentos, a melhor abordagem, a única resposta que realmente vale a pena, é encarar a situação de frente, sem receios: "e que cu que eu levei com as calças? Qual a relevância de um assunto que ocorreu há três anos para a questão específica que estamos tratando neste momento, aqui, nesta mesa?". Se o departamento de Recursos Humanos tem a tendência de se sobressair em relação aos outros — e, em sua maioria, 99% deles realmente gosta, pois isso está intrinsecamente ligado à sua natureza, já que até mesmo a própria formação acadêmica enfatiza que é necessário se destacar em relação ao funcionário para manter o controle —, então você também precisará se destacar em relação ao RH, retribuindo da mesma forma. Do contrário, o RH não presta atenção em você, não te respeita e age sem considerar suas opiniões. Essa é a medida rigorosa do jogo, e eu não a criei; apenas estou explicando as regras a você antes que entre em campo.
E agora, retornando ao contexto administrativo de maneira mais direta, deixando o RH de lado com o desprezo que lhe é devido, vamos abordar o ponto mais alto da hierarquia: o chefe. Estes grandes empreendedores que você observa à distância com admiração. Como é que pessoas com recursos financeiros, tempo e acesso a diversas oportunidades se deixam levar tão facilmente pela armadilha da ética subjetiva, como se estivessem pisando em uma casca de banana? Devido a um setor particular, a uma área de atuação específica: o coaching. É aqui que a situação se complica, pois não se trata apenas de incompetência na gestão; há uma dimensão espiritual envolvida, e eu vou te explicar o motivo.
O movimento coaching, atualmente, é um movimento desorganizado. E afirmo com ênfase que "hoje" é diferente, pois nem sempre foi assim, e é crucial para mim fazer essa distinção para evitar ser injusto. No início do conceito de coaching empresarial, havia o verdadeiro coaching, realizado por um profissional com uma formação extensa e diversificada, e posso afirmar que era realmente abrangente, sem exageros: um indivíduo bem preparado, com um vasto repertório, que estudava áreas como economia, administração e psicologia, sempre com uma abordagem séria. Esse profissional oferecia conteúdos densos e relevantes, sendo uma figura respeitável e digna. Mas tudo isso se deteriorou completamente, tornou-se corrupto e apodreceu de dentro para fora. O coaching contemporâneo se transformou em uma mescla pouco apetitosa, uma mistura densa e desagradável de elementos que não se compatibilizam: práticas relacionadas ao satanismo, a psicologia moderna com ênfase em Freud, Programação Neurolinguística (PNL), uma leve influência de Jung inserida de maneira pontual — quase irrelevante, uma mera pitada —, psicologia de tendências sombrias e uma forma de psicologia que se foca na elevação do ego de maneira superficial. Inclusive, há um campo específico da psicologia do desenvolvimento que se dedica a estudar precisamente isso: o aumento artificial do ego, essa autoestima exagerada utilizada como uma tática, especialmente direcionada a indivíduos que sofrem de depressão, que se encontram em uma situação de fragilidade e, por conseguinte, são carentes e suscetíveis àqueles que prometem elevá-las.
Então, o que realmente é a psicologia sombria quando você remove a camada de mistério? É essa estratégia, esse conjunto de truques, que envolve a utilização de gestos específicos, variações de tom de voz e argumentos cuidadosamente elaborados, tudo isso para persuadir a pessoa a se alinhar com você e para influenciar sua vontade sem que ela perceba. A partir desse ponto, o coach cria um falso "equilíbrio", uma suposta sabedoria integral. Você conhece esse equilíbrio quando abre a caixa? É simplesmente acumular uma quantidade imensa de informações de diversas fontes e, no final, não conseguir esclarecer absolutamente nada. Isso, precisamente isso, é o que o coaching contemporâneo realiza: ele combina uma variedade de conteúdos distintos, extrai um fragmento de um lugar, um retalho de outro, une tudo com uma linha de baixa qualidade e, ao final, não aprofunda nenhum tema, não sustenta nada, nem demonstra nada. É uma coberta feita de retalhos, comercializada como se fosse um manto real. Além de tudo isso — quase me esquecia de mencionar, pois é o elemento essencial, a base do caldo —, autoajuda. É bem mais voltado para autoajuda do que para qualquer outra coisa. É autoajuda com um toque corporativo. Pois, em qualquer palestra de coaching que você assistir, poderá notar: o palestrante não se aprofunda em nenhum assunto, não vai além da superfície em nada, apenas arranha a camada externa com frases impactantes, enquanto o público aplaude sua própria superficialidade.
Quando você se aproxima dele, mesmo com um conhecimento básico, e destaca o que é evidente — "ô, meu amigo, com todo respeito, você está fazendo exatamente a mesma coisa do livro Pai Rico, Pai Pobre, que é literalmente o esqueleto de tudo que vocês vendem" —, você sabe qual é a resposta dele, com aquele semblante de quem possui uma sabedoria secreta?
COACH — Ah, isso ocorre porque ninguém o faz.
GABRIEL — Veja que incrível. Veja o tamanho da resposta do animal.
Pense comigo por um instante: se o empresário que está presente na plateia, investindo uma quantia significativa, já possui uma empresa de médio a grande porte, isso significa que ele passou por essa experiência em sua vida de forma natural, sem seguir um manual. Ele colocou tudo isso em prática por instinto e por necessidade, há décadas, errando e adquirindo conhecimento. Ele não precisa, neste momento, de alguém subindo a um palco para afirmar, palavra por palavra, com um PowerPoint colorido, aquilo que ele já experienciou em sua própria infância e adolescência. É repetição que custa uma fortuna. É como contratar um guia turístico extremamente caro para te apresentar a sua própria casa, room by room, como se fosse algo novo.
E assim, a fraude se replica em uma escala maior. Na realidade, o que se observa em todo esse setor é uma incessante reinterpretação de Pai Rico, Pai Pobre. Se você colocar o Pai Rico, Pai Pobre ao lado de todos os livros contemporâneos sobre administração que se encontram em bancas de aeroporto — especialmente na seção de introdução, onde se fala sobre "vender a si mesmo" e "construir sua marca pessoal" —, perceberá que é praticamente o mesmo conteúdo, apenas apresentado de forma diferente, com uma nova capa e uma estrutura de frases distinta para disfarçar o plágio conceitual. É sempre a mesma coisa, sem exceções. Tudo é imitação. Cópia repetida várias vezes, a ponto de o original desaparecer. O cerne da questão é que esses gestores contemporâneos não conseguem, de forma alguma, assimilar isso. Não conseguem, é à prova d'água. É como se fosse psicologicamente inaceitável para eles reconhecer que o coaching é um charlatão — esse indivíduo que combina satanismo, literatura de autoajuda, psicologia de baixa qualidade e uma pitada insignificante de economia, quase nada. Reconhecer isso significaria admitir que foram iludidos, que pagaram um preço alto para serem enganados, e o orgulho não permite.
O coaching contemporâneo é uma farsa. É uma farsa, e isso é tudo, sem espaço para dúvidas. Ele definitivamente não é o tipo de pessoa que se senta ao seu lado e, com uma paciência exemplar, detalha minuciosamente, ponto por ponto, teorias econômicas complexas e teorias administrativas sólidas, aos poucos, erguendo o conhecimento como um edifício, tijolo por tijolo. Atualmente, esse sujeito do passado — aquele que se sentava e realmente ensinava, com disciplina — teria um nome diferente e seria classificado em outra categoria: ele seria chamado de professor de administração. É isso, precisamente isso: docente na área de administração. Não o nomeariam coach, pois ele não venderia ingressos. O coach, de acordo com a imagem que se tem hoje e as expectativas do público, é aquele indivíduo animado, sorridente, repleto de energia, que sobe ao palco saltando e consegue entusiasmar a todos com gritos e música. É um animador de plateia com um diploma fictício.
Eu já presenciei, com estes olhos que um dia se tornarão parte da terra, palestras de coaching onde o palestrante incorpora elementos de macumba durante a apresentação. De forma literal. Uma psicurgia. A psicurgia, para aqueles que não estão familiarizados, é uma forma de macumba, uma prática de controle espiritual: nesse contexto, você utiliza palavras rituais e gestos intencionais para provocar um efeito não apenas em si mesmo, mas também na pessoa ao seu lado e em toda a audiência. Isso é, de fato, uma manifestação clara de psicologia sombria, uma operação espiritual camuflada como técnica de motivação. Isso cria uma imensa satisfação interna entre o público, uma euforia compartilhada que se assemelha a uma experiência quase química. Enorme. É por essa razão, e não por sorte, que quase todos se tornam dependentes dessas palestras de coaching — investindo milhares de reais nesse tipo de evento, retornando repetidamente em busca da mesma sensação de euforia. É uma substância ilícita, mas é permitida e cara.
Para que você compreenda a gravidade do golpe, aqui está um exemplo concreto: eu conheço uma tia que já desembolsou mais de vinte mil reais em uma única palestra, durante um dia inteiro de evento. Um único dia. A sala estava tão lotada, tão apinhada, que havia pessoas em pé, encostadas na parede, pois não havia mais cadeiras para tantas cabeças. Faça as contas comigo, no papel: pelo menos umas duzentas pessoas ali dentro, cada uma desembolsando cerca de vinte mil reais pelo ingresso. Duzentos multiplicado por vinte resulta em quatrocentos mil reais. Agora, permita-me corrigir-me na sua presença e diante de todos, para que eu não transmita informações erradas e ninguém me acuse de exagerar nos números: eu havia mencionado duzentos mil de cabeça, mas cometi um erro na contagem naquele momento; fazendo os cálculos corretamente, o total é realmente quatrocentos mil. Quatrocentos mil reais foram arrecadados por ele em apenas um dia, em uma única tarde, comercializando futilidades e euforia para um público de tolos deslumbrados. Para que você tenha uma noção da magnitude disso: com quinhentos mil reais, é possível adquirir um enorme terreno e ainda financiar a construção de uma casa em cima — e não qualquer casa, mas uma residência muito boa, espaçosa, variando conforme a localização, a cidade e o valor do metro quadrado. Quatrocentos mil é o valor de uma excelente casa, meu amigo, de uma casa pertencente àqueles que triunfaram na vida. Ou, em uma pequena cidade do interior, é totalmente viável construir um prédio ou um sobrado do zero sem problemas. O indivíduo alcançou tudo isso em uma única palestra superficial, apenas promovendo produtos e vendendo ilusões aromatizadas. Enquanto sua tia sai de lá convencida de que teve uma grande revelação, o rapaz sai de lá com uma casa no bolso.
O que é verdadeiramente escandaloso, a gota d'água que coroa o bolo estragado, é o conteúdo dessas palestras: elas abordam questões tão evidentes que, chega a ser absurdamente ridículo e insultante para a inteligência de qualquer um. É "se limpe", é "se vista bem", é "acredite em si mesmo", é "acorde cedo". Esse é o segredo que vale milhões, essa é a sabedoria que custa quatrocentos mil reais à tarde. Algo que sua avó costumava te dizer gratuitamente enquanto preparava o almoço. É por isso que eu necessito, de maneira urgente, que você compreenda, de uma vez por todas, especialmente você que está presente ao meu lado no Círculo de Estudos e que realmente merece algo melhor: esses indivíduos são uma verdadeira gangue de charlatães. Não são especialistas, não são brilhantes, não são inovadores. São charlatães com microfone de lapela.
É precisamente nesse momento que, de vez em quando, ocorre algo que me irrita profundamente, fazendo meu sangue ferver. Há pessoas, inclusive algumas bem-intencionadas, que me observam e dizem, acreditando que estão elogiando:
ALGUÉM — Gabriel, você é como um treinador.
GABRIEL — Vá se danar.
Esta é, de fato, a minha resposta, de maneira direta, sem rodeios ou suavizações. Não me ocorre, com toda a franqueza do mundo, algo que possa ser considerado mais ultrajante do que essa comparação. Quando alguém me coloca na mesma categoria de um coach, minha única resposta é um sonoro, retumbante e sentido "vai tomar no cu". Tratar-me como um coach é equivalente a confundir um arranha-céu de vinte andares, que possui uma fundação sólida, uma estrutura bem planejada e uma engenharia meticulosa, com uma barraca de pastel de esquina montada de forma improvisada com quatro ripas e uma lona. É essa a profundidade da distância, é essa a falta de proporção. O coach contemporâneo, em seu dia mais produtivo e atingindo seu limite máximo, oferece uma aula superficial sobre o que se aprende nos primeiros semestres de um curso de administração — os conceitos mais simples e introdutórios — e finaliza com um acabamento inspirador, semelhante ao que é encontrado em "Pai Rico, Pai Pobre", para dar um toque de brilho. É sempre assim, sempre, sem exceção. É realmente doloroso constatar que as pessoas não conseguem enxergar que estão sendo exploradas, que se tornam vítimas de charlatães que se aproveitam da sua necessidade e esperança. É tão simples e, ao mesmo tempo, tão triste.
É necessário que eu mergulhe em um nível mais profundo e sério, diminuindo o tom da zombaria e utilizando o bisturi, pois há algo que precisa ser claramente expressado, quase com uma certa compaixão, a fim de compreender plenamente esse tipo de pessoa: a grande maioria dos empresários, em algum momento de suas vidas, foi uma criança que se sentiu rejeitada. Isso não se trata de um aspecto psicológico secundário; é a essência de toda a árvore. As pessoas que alcançam sucesso na vida, especialmente em termos materiais, frequentemente foram, em algum momento de sua infância, rejeitadas, preteridas ou deixadas de lado. Considera os irmãos de uma mesma família, por exemplo. Geralmente, existe aquele filho que é o favorito, o mais querido, aquele que recebe mais atenção e mimos. Não adianta os pais negarem com palavras e afirmarem que amam a todos da mesma forma, pois, na verdade, eles realmente têm uma preferência. Esse filho é aquele que recebe o carinho de forma mais abundante, que encontra um colo sempre disponível e cuja educação é frequentemente perdoada. Geralmente, também existe aquele que é rejeitado, o que fica de fora. Em algumas ocasiões, pode ser o mais velho, que desde cedo é alvo de inúmeras cobranças; em outros casos — embora seja menos comum — pode ser o mais novo; isso varia conforme a dinâmica de cada lar e as feridas específicas de cada família. Quase sempre existe aquele que, por parte dos pais, enfrenta a negação de praticamente tudo, e que precisará lidar sozinho, na escuridão, com suas próprias dores, seus próprios sofrimentos e sua própria formação. Em certas famílias, os pais nem chegam a cuidar adequadamente desse filho que é mais rejeitado; ele acaba tendo que se tornar independente e assumir o papel de pai e mãe para si mesmo precocemente.
É exatamente nesse ponto que reside a reviravolta, uma reviravolta digna de uma tragédia grega, capaz de apertar a garganta: quando esse indivíduo passa a se desenvolver de forma independente, impulsionado pela ausência, ele começa a perceber o mundo com uma perspectiva que os outros não possuem. Ele se torna mais forte, se desenvolve e atinge a maturidade de forma mais rápida e intensa em comparação com o irmão que apenas foi elevado, envolto e protegido das intempéries. A dor, quando não aniquila, molda. O irmão mimado, ao final da trama, muitas vezes se torna uma pessoa insignificante, um homem vazio. Ele passa toda a sua vida contando com o apoio dos pais, prolongando a infância a ponto de se tornar uma caricatura, sem nunca ter enfrentado a necessidade de se levantar por conta própria em meio ao frio. O irmão rejeitado é aquele que realmente se desenvolve, que constrói e que triunfa. Vejo isso, com meus próprios olhos, em quase todos que prosperaram em minha família: sem exceção que eu recorde, foram aquele irmão que foi rejeitado, o que sofreu golpes da vida precocemente. E aquele que recebeu todo o carinho e atenção dos pais, sendo o príncipe do lar, transformou-se em alguém sem importância, um dependente crônico — jamais conseguiu se tornar uma pessoa independente e nunca deixou a sombra do berço. É lamentável, mas é a realidade, e ignorar isso é se recusar a reconhecer uma verdade fundamental da natureza humana.
No entanto — e é neste ponto que a lâmina se aprofunda ainda mais — essa necessidade interna, essa lacuna emocional originada na infância, exige um preço extremamente alto no futuro, e o faz de uma maneira cruel. Porque esse homem, ao carregar um vazio no coração e uma antiga sede de reconhecimento que jamais foi satisfeita, percorre a vida em busca de um mentor, um pai substituto, alguém que finalmente o aceite. É um movimento que tem uma origem nobre, quase divina — o indivíduo que procura um mestre está, na verdade, em busca de organização e de um direcionamento. Já era do conhecimento de Santo Agostinho que o coração humano é, por natureza, inquieto, e essa inquietação, em sua essência, reflete uma busca por algo que traga ordem, por um amor devidamente direcionado. A questão, a verdadeira tragédia, reside no fato de que existe o amor que é bem organizado e aquele que é desorganizado — a ordo amoris, a ordem do amor mencionada por Agostinho: é essencial amar as coisas certas, na medida adequada e na hierarquia apropriada. E o homem machucado, que se orgulha de sua própria lesão, frequentemente causa uma desordem nesse amor. Ele se considera, mesmo diante do vazio que o rodeia, ou talvez justamente por causa dele, ligeiramente superior às pessoas comuns; por isso, não escolherá como seu mestre alguém que seja normal e bondoso, uma pessoa decente e virtuosa que ele pudesse admirar por sua santidade sutil. De jeito nenhum. Ele buscará inspiração e se prostará diante da pessoa que alcançou mais sucesso financeiro do que ele — mesmo que esse êxito tenha surgido de uma completa charlatanice, de puro blá-blá-blá, de uma venda de ilusões a preços exorbitantes, desde que o indivíduo tenha obtido uma quantia substancial. O que ele valoriza não é a verdade nem a bondade; é o dinheiro, é o resultado que se pode ver. Então, quem ele seleciona para ser o mestre de sua alma? O golpista empresário. Não se trata do santo. Não o sacerdote da igreja, o sacerdote superior, o homem de Deus que realmente poderia elevá-lo de forma genuína e curá-lo interiormente. Veja que horrenda inversão de valores, que troca desastrosa: o homem que realmente tem a ética objetiva — aquele cuja função, cujo ofício de vida, é fazer você crescer, crescer profissionalmente, crescer moralmente, crescer na vida toda, e no fim chegar até a santidade, que é o padre — esse homem é jogado fora, trocado, abandonado em favor do empresário trapaceiro, satanista, vendedor de ilusões. É exatamente isso que os administradores estão fazendo, sem ter noção da gravidade do equívoco. Eles abandonam exatamente aquilo que poderia lhes trazer a salvação — a bússola, a verdade, a ordem, a própria redenção da alma — e tudo aquilo que, de fato, possuem de mais valioso, para se manterem apegaados, como náufragos segurando uma âncora, a um indivíduo insano, a um charlatão satanista que comercializa Deus em prestações.
Não se trata de uma simples figura de linguagem, nem de um adjetivo lançado apenas para ofender, quando me refiro a alguém como satanista. Se você questionar esses coaches sobre espiritualidade e conseguir ultrapassar a superficialidade motivacional, indagando sobre suas verdadeiras crenças, é quase sempre, de uma maneira alarmante, uma conversa que se revela profundamente satanista, no sentido mais literal e tradicional da palavra. Ele acredita e defende a ideia de que você deve "se empoderar" completamente, de que você deve "se tornar o seu próprio deus", de que você é a fonte final do seu próprio significado e da sua própria salvação. É aqui, meu amigo, que a situação transcende uma mera má administração e se transforma em uma teologia invertida — e é exatamente por isso que eu senti a necessidade de convidar Voegelin para se juntar a nós nesta mesa, pois foi ele quem identificou essa patologia de forma precisa, com nome e sobrenome. Eric Voegelin evidenciou, de maneira inquietante, que o cerne da modernidade consiste em uma antiga concepção disfarçada de novidade: trata-se da gnose, aquela mesma gnose que os padres da Igreja se opuseram no século II. Segundo a própria definição de Voegelin, o gnóstico supera a dúvida da fé ao se afastar da transcendência e conferindo ao ser humano, assim como ao seu campo de atuação no mundo, o significado da concretização escatológica. Em termos mais simples e diretos: o gnóstico toma o Céu, que é transcendente, ou seja, que está além do nosso mundo e é um presente divino, e o traz para dentro do mundo e para dentro de cada indivíduo. Ele promete que você, por meio de técnicas, conhecimento oculto ou pura força de vontade, será capaz de alcançar, aqui e agora, a plenitude que só Deus poderia oferecer. É a transformação do fim último em algo presente. É oferecer o paraíso por meio da psicologia, da economia, da biologia, do "mindset" — e não pela graça. É precisamente isso que o coach oferece: uma redenção sem a presença de Deus, um paraíso repleto de conquistas, e um deus que nada mais é do que o ego exageradamente inflado do cliente. Portanto, a maioria deles, ao se remover a tinta, ou é um esotérico de carteirinha — um indivíduo que é uma mistura de maçom e rosa-cruz, repleto de símbolos e graus —, ou é um satanista declarado. Um grande número deles é, na verdade, satanista sem ter consciência disso, exercendo a autodivinização gnóstica sem nunca ter se deparado com uma única linha sobre as práticas que estão realizando. Alguns têm uma mentalidade ocultista que permeia cada recomendação que fazem. Além disso, há o indivíduo budista — que, no fundo, na versão que é comercializada por aí, é basicamente a mesma coisa, apenas com um toque oriental, incluindo incenso e almofada. Porque o budismo contemporâneo se desvirtuou bastante, perdeu sua essência: o budismo moderno voltado para o mercado se infiltrou na teosofia e se desmoronou por completo. O budismo de revista que se vê hoje é extremamente distinto, mas de uma forma realmente marcante, em comparação com o budismo clássico e rigoroso de tempos passados. Está cheio de besteiras de autoajuda, está preso até o pescoço na teosofia da Madame Blavatsky, aquela mistura de ocultismo do século XIX. Por essa razão, eu sempre afirmo, e reitero neste momento: se você realmente deseja se aprofundar no estudo do budismo, sem se deixar levar por essas superficialidades típicas de aeroporto, dirija-se aos textos clássicos e às fontes antigas, e desconsidere as obras mais recentes e a literatura de reformulação. Não se preocupe com isso. Permanece no clássico, que, pelo menos, é levado a sério dentro de suas próprias definições.
Mas por que, afinal, o empresário contemporâneo se apega a toda essa gama de conceitos gnósticos, satanistas e de auto-divinização, mesmo quando ficam evidentes suas falhas? Pelo fato de ela ser benéfica para ele, pois atende às suas necessidades e objetivos. Ela possibilita que os colaboradores se tornem mais submissos e adaptados a uma ética subjetiva que não possui uma base sólida, o que, na prática, significa que ele conseguirá manipular o funcionário de forma mais eficaz para que ele realize exatamente o que ele deseja, sem qualquer resistência moral. Repetidamente, de forma incessante, essa é a estratégia clássica e maquiavélica que sempre aparece. Essa estratégia, essa forma de pensar, é quase natural, quase inata à maneira de pensar dessas pessoas aqui no Brasil. Aqui, sim; fora, talvez não. Lá fora, em diversas regiões, a mentalidade é totalmente distinta. O empresário estrangeiro, oriundo de alguns países respeitáveis, frequentemente possui uma mentalidade muito mais pragmática, especialmente em relação a uma economia de influência austríaca — como a de Mises e Hayek — que valoriza o indivíduo, a ação humana, a ordem espontânea e a dura realidade dos fatos econômicos, em comparação com a desordem que observamos aqui. Ao contrário do que acontece no Brasil, onde se reverencia Adam Smith como uma figura divina — ele já foi refutado, e essa refutação foi realizada por mim mesmo, de forma pública, aqui. Adam Smith é péssimo. Já desmontei o Adam Smith em todas as suas principais questões, evidenciando de forma clara e detalhada que aquele sistema, quando levado ao extremo, culmina no socialismo; ele se desmorona em direção ao socialismo internamente, pela sua própria lógica. E foi precisamente isso que ocorreu no Brasil. Da maneira que mencionei, aconteceu. O que experimentamos por aqui, em essência, foi um capitalismo smithiano mal assimilado, desprovido da base ética que o sustentasse.
No lugar de adotar uma mentalidade mais objetiva — talvez até mais cristã, de certa forma, com uma ética bem definida e inegociável sobre o que é certo e o que é errado —, acabamos assimilando exatamente o que há de pior. Observe com cuidado locais como os Estados Unidos, o Japão e grande parte da Europa: nessas regiões, existe uma mentalidade que reflete, mesmo que de forma residual em alguns casos, uma ética objetiva de origem cristã, onde a palavra dada é respeitada, os contratos são honrados e o trabalho é encarado como um dever. Não é surpresa, nem meramente acidental, que haja empresas centenárias na Europa e pequenos países europeus, comparáveis em tamanho a um de nossos estados, que se destacam como potências na economia global, enormes em comparação com seu território. Essa grandeza se deve, precisamente, à mentalidade subjacente e à herança de ordem e confiança que ainda os sustenta, mesmo enquanto essa característica vai se dissipando.
E ao chegar a este ponto, é necessário que eu mencione um palhaço que já citei várias vezes ao longo deste caminho, e continuarei a fazê-lo, pois a honestidade intelectual nos obriga a aproveitar o que é valioso, mesmo quando vem de alguém que comete erros graves. Aprecio uma parte da obra desse palhaço, realmente aprecio, mas ele continua sendo, em aspectos cruciais, um palhaço: o Max Weber. Weber tinha uma certa aversão ao catolicismo — isso era evidente, estava claro. Apesar de sua teimosia, é necessário admitir que ele era um homem honesto em sua abordagem, um trabalhador diligente e um erudito de imenso fôlego. Várias das reflexões que ele compartilhou são extremamente valiosas — tanto que eu o menciono com frequência aqui no Círculo de Estudos, de forma despretensiosa. Max Weber oferece uma perspectiva bastante interessante, e em alguns casos até genial, sobre uma variedade de temas, como burocracia, formas de dominação e o desencantamento do mundo. No entanto, no que diz respeito ao capitalismo e sua conexão com a religião, o que ele realizou é de fato lamentável. Um belo estrume bem apresentado.
Por que merda? Vou desmontar com calma. Porque ele utiliza os conceitos que emergiram do protestantismo — como a noção de vocação, a ideia de que a acumulação é um sinal de eleição, e o trabalho ascético — e tenta aplicá-los ao catolicismo, como se fossem uma lente universal, acreditando que isso é adequado. Essa concepção é, em sua essência metodológica, uma ideia tola. De que forma você irá examinar uma economia supostamente "católica" — e eu coloco entre aspas —, que na verdade possui apenas uma camada superficial de catolicismo, uma vez que, em sua essência e estrutura, é uma economia protestante, já que é capitalista? A verdadeira economia católica não incentiva a acumulação; ela direciona para um caminho completamente diferente. Ela se refere à Doutrina Social da Igreja e à encíclica Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII, assim como a uma visão distributista — uma perspectiva defendida por autores como Hilaire Belloc e Chesterton, que advogam a ampla distribuição da propriedade entre muitos, em oposição à concentração de riqueza, seja capitalista ou estatal. Como você consegue equiparar o cu às calças e ainda esperar que as pessoas aplaudam essa comparação? Isso não é possível, a categoria está incorreta. Portanto, nesse aspecto em particular, Max Weber está totalmente equivocado. Certamente. O erro fundamental, a falha estrutural, é exatamente esse, e é aqui que Voegelin toca na ferida com a precisão de um cirurgião: Weber acreditava, e fundamentou toda a sua obra científica nessa crença, que religião, política e economia eram áreas distintas, separáveis, compartimentos independentes que a ciência poderia analisar de forma isolada, de maneira "neutra", "livre de juízos de valor". Não são, cara. Não podem ser separados. Todas elas — a religião, a política, a economia — emergiram de uma mesma origem, resultando de uma única forma de concepção acerca da natureza humana e da organização do mundo; elas representam, de fato, a aplicação prática e a manifestação tangível desses pensamentos fundamentais sobre o significado da existência.
Um exemplo claro para ilustrar: o capitalismo é, em grande parte, a implementação econômica do calvinismo — a expressão, através de comportamentos e instituições, de uma determinada teologia relacionada à predestinação e ao trabalho. Adam Smith sugere isso claramente. Max Weber aborda de forma superficial alguns desses aspectos, chegando perto da conclusão, mas na hora crucial de extrair a plena implicação, ele recua e ignora, pois chegar a essa conclusão comprometeria sua pretensão de uma ciência neutra. E é neste ponto que Voegelin surpreende e refuta Weber de forma contundente. Isso porque Voegelin identificou uma lacuna significativa: na vasta obra de sociologia da religião de Weber, que realiza um enorme estudo comparativo envolvendo chineses, hindus e judeus antigos, estava ausente, de forma escandalosa, o cristianismo primitivo e a filosofia clássica grega. Certainly. Não se encontra lá. Ele não está lá por engano ou descuido. Segundo Voegelin, Weber teria descoberto a verdadeira razão por trás disso: se ele tivesse se dedicado a estudar o cristianismo medieval de forma séria, teria encontrado, entre os "valores" daquela civilização, a crença em uma ciência racional que explicasse a ordem humana e social, e, principalmente, na lei natural. Vale ressaltar que essa ciência não se tratava apenas de uma crença devota, mas sim de uma construção efetivamente elaborada pela razão, com o rigor característico de São Tomás de Aquino. Em outras palavras, caso Weber tivesse se confrontado diretamente com Tomás de Aquino, ele teria se deparado com uma ciência objetiva da ordem competindo diretamente com a sua ciência supostamente "livre de valores" — e, para sustentar a própria pretensão de neutralidade, ele seria obrigado a mostrar que a pretensão de ciência de gente como Aquino era infundada. Entretanto, para que isso fosse possível, Weber precisaria demonstrar uma preferência entre um conjunto de valores e outro — e, ao fazer isso, ele destruiria com as próprias mãos a sua tese central de que a sua ciência era neutra, "livre de valores". Segundo a análise de Voegelin, Weber é o último dos grandes positivistas. O positivismo, por sua vez, comete um erro metodológico gravíssimo: inverte o princípio aristotélico segundo o qual é o objeto que determina o método, e não o oposto. O positivista seleciona o método previamente e, em seguida, remove da realidade tudo aquilo que não se encaixa no método. Arranca a alma, arranca a transcendência, arranca a ordem. É por isso que Weber precisou excluir Aquino: porque Aquino não se encaixava na gaveta, e aceitar Aquino significaria reconhecer que a gaveta estava incorreta.
Portanto, diga-me agora, com todo esse armamento em mãos: de que maneira você irá avaliar o catolicismo dentro da lógica do capitalismo e, além disso, falar de forma tranquila sobre "economia católica"? Uma coisa não se relaciona com a outra, são direções diferentes. Entretanto, ao analisar sinceramente os aspectos distributistas — todo aquele universo católico relacionado à distribuição da propriedade, às guildas e ao princípio da subsidiariedade — e compará-los com o mundo protestante-capitalista, torna-se evidente uma diferença clara, evidente e estrutural. Nessa comparação feita de maneira adequada, os católicos, ao longo da história e em diversos contextos, superam os protestantes, inclusive no que diz respeito à distribuição equitativa da riqueza e à estabilidade social; eles se destacam muito mais do que a caricatura weberiana sugere. Portanto, não venha me apresentar essa ideia como se fosse a última palavra: "espírito protestante do capitalismo". Porque, nesse aspecto, Weber comete um equívoco, um ponto cego em sua análise.
Eu aprecio o trabalho de Max Weber e menciono isso para que ninguém pense que estou agindo de forma semelhante a ele por birra, mas o que ele fez nesse caso, nesse assunto, foi uma palhaçada, e uma palhaçada não se transforma em genialidade apenas porque a pessoa que a cometeu é um gênio em outros aspectos. Ele não conseguiu avaliar o negócio corretamente e acabou tropeçando em uma armadilha que ele mesmo criou. O que me intriga, quase me diverte, é que, em outras análises sobre diferentes assuntos, o sujeito é realmente genial, brilhante e iluminado. Fico aqui refletindo, coçando a cabeça, me perguntando: como pode um indivíduo tão genial cometer um erro dessa magnitude exatamente aqui? Vou te contar o motivo, e a razão é de natureza humana, quase psicológica: trata-se de uma teimosia do catolicismo. No que diz respeito à sua biografia, à sua formação e às suas relações familiares e intelectuais, Weber carregava uma raiva, um ressentimento antigo do catolicismo — e ele acabou transpondo um pouco dessa raiva, sem querer ou querendo, pra dentro da própria pesquisa, contaminando a lente. Se você prestar atenção, encontrará declarações inequívocas e evidências desse viés ao longo do trabalho dele. Esse indivíduo é um tanto peculiar e um pouco fora do lugar para querer abordar precisamente esse tema — a conexão entre catolicismo e economia — e ainda assim cometer um erro tão grave na pesquisa. É como solicitar que uma pessoa daltônica sirva como árbitro em uma debate sobre cores. É por isso que eu continuo a enfatizar: Max Weber acerta em muitos aspectos, mas, em certos temas, quando sua teimosia se sobrepõe ao método, o que ele produz é uma verdadeira palhaçada — e é exatamente isso que ocorre aqui. Ele tentou estudar uma economia que se diz católica, mas que na realidade não tem nada a ver com isso; é uma economia puramente protestante, que não se originou de uma base católica, e que não possui a mais mínima conexão genealógica com essa raiz católica. É uma tolice, e isso é tudo, encerrando a discussão sobre Weber.
O brasileiro, com essa mentalidade secretista profundamente enraizada na administração — e não há outro termo para descrever isso, é realmente uma mentalidade ocultista, sem dúvida alguma —, como reage diante da realidade? Ele observa um homem que alcançou o sucesso financeiro, um indivíduo que se tornou rico, e, em um ato de fé impulsivo e irracional, tudo o que esse homem diz, ele aceita sem questionar e registra para sempre na parede como uma escritura sagrada. Ele vai ter uma crença inabalável nisso para sempre, como um recém-convertido, não importa o quanto você apresente evidências, fatos ou argumentos lógicos para convencê-lo do contrário. Por qual razão? Simplesmente, apenas, pois "tal empresário deu certo". Como se o sucesso financeiro fosse, por si só, um marcador de verdade, uma evidência de sabedoria, um atestado de que a pessoa está correta em tudo o mais. É um erro comum achar que o que tem sucesso é verdade, e que o dinheiro está sempre certo.
Para ilustrar de maneira clara como essa mentalidade opera, em uma ocasião, fui dialogar com um tio meu e declarei, de forma bem explícita, que a abordagem educacional proposta por Freire é péssima. Não estou dizendo isso sem fundamento: já refutei praticamente toda a educação freiriana aqui no Círculo de Estudos, detalhadamente; deixei claro por que essa abordagem não é eficaz como método e por que, na prática, você não consegue ensinar de forma adequada uma criança pequena com esse tipo de abordagem, que acaba por confundir o processo de aprendizado. Você sabe o que ele me disse, com uma expressão que transmitia a certeza de que tinha um argumento definitivo para encerrar a conversa?
TIO — Mas você conhece as melhores escolas do Brasil? Freirianas.
GABRIEL — É verdade, tio: todas as instituições de ensino do Brasil seguem a filosofia freiriana.
Isto é, observe a falha na lógica: é evidente que as "melhores" são freirianas — porque todas são freirianas! Não há nenhum parâmetro de comparação disponível, nem mesmo um grupo de controle, e não existe uma escola que não siga a abordagem freiriana para que você possa fazer uma comparação. É comparável a afirmar que o melhor peixe é aquele que habita a água, em um mundo onde todos os peixes vivem nesse meio. Além dessa evidente falha lógica, existe uma outra camada: você vai escolher uma escola que, embora tenha uma abordagem quase oposta de ensino — mantendo a mesma etiqueta freiriana na fachada e na etiqueta, mas com uma execução prática extremamente rigorosa, disciplinada, seletiva e voltada para alunos de alta capacidade, além de contar com uma infraestrutura de primeiro mundo — e a compará-la com uma Halé qualquer, ou seja, uma escola pública completamente negligenciada, em estado de deterioração, sem professores, sem financiamento e sem recursos de qualquer tipo? Como você consegue me dizer uma coisa dessas com essa expressão séria? Foi mais ou menos isso que eu disse a ele. Essa comparação não faz o menor sentido. É fazer uma comparação entre elementos que são incomparáveis, que pertencem a categorias distintas por uma multitude de razões, que vão além do simples método de ensino.
No fundo, isso é o que eu denomino a regra do burro, e é importante entender bem esse conceito, pois ele esclarece muitas das tolices que encontramos no mundo. Vamos deixar isso bem claro: a regra do burro consiste em considerar a exceção como se fosse a norma, em vez de reconhecer a norma como norma e a exceção como exceção. É assim que pensa o burro: a regra geral é algo firme, e ao seu redor há algumas pequenas exceções, casos raros e atípicos, que, por serem exceções, não devem ser considerados ao se definir o todo ou ao se estabelecer a lei geral. O que o burro faz é tudo ao contrário? O jumento apanha a raríssima exceção, o caso atípico, e ela passa a ser a regra geral, e ele passa a ditar a vida por causa dela. Isto não é aplicável em nenhuma parte do mundo, em nenhuma disciplina do conhecimento, pois se trata de uma falha lógica em sua base. É a mesma lógica equivocada que ocorre quando alguém lê Maquiavel e tenta aplicar suas ideias rigidamente como regras na empresa — uma atitude que só uma pessoa sem discernimento faria ao interpretar o texto de forma literal. Pois não possui base, não é viável. Você acabará se prejudicando, mais cedo ou mais tarde, com acréscimos e ajustes.
No final das contas, é isso que desejo ressaltar de forma contundente e evidente, como se estivesse escrito na parede em letras bem grandes, para qualquer pessoa que atue na administração, que esteja cursando administração ou economia neste exato momento: não dê importância a essas bobagens, meu amigo. Se você levar, vai se dar mal. Olha para isto tudo, para isto tudo escrito, como um aviso — aviso de propósito, aviso de propósito chocante, aviso de propósito chocante por amor, porque às vezes é o estalo que faz despertar. É hora de você deixar de lado as bobagens que o seu professor de administração, que não é lá essas coisas, insiste em repetir em sala de aula, esse professor medíocre, que apenas imita o que lê em manuais, e começar a ler obras mais relevantes, apropriadas para pessoas que realmente têm maturidade.
Estude a economia austríaca — Mises, Hayek, autores que consideram a realidade de forma séria. Leia São Tomás de Aquino se já tiver a habilidade e o conhecimento necessários; caso contrário, não tente apressar o processo: vá traçando seu caminho de forma gradual, com a paciência de um pedreiro. Dedica-se ao estudo de Aristóteles, Sócrates e Platão, aprofundando-se na Ética a Nicômaco, até que, um dia, chegue, bem preparado, a São Tomás. Leia sobre a Igreja, incluindo a tradição e a Doutrina Social. É nesse ambiente, e não em palestras tradicionais, que você se transforma de verdade em um grande empresário, um homem que edifica aquilo que perdura. Não se trata de começar a leitura por Maquiavel, Adam Smith ou Max Weber. Você irá ler Max Weber mais tarde, bastante tempo depois, quando já tiver uma base sólida para não ser induzido aos enganos que ele cometeu. Antes de se confrontar com Weber, familiarize-se um pouco com a economia austríaca para ter uma base de comparação. Além disso, é aconselhável que você leia Eric Voegelin antes de se aprofundar em Weber, pois Voegelin irá criticar de forma contundente Max Weber. É um golpe, desse tipo, que amarra: Voegelin pega Weber, fragmenta suas ideias com precisão cirúrgica, expõe a essência positivista de sua obra, revela a parte que falta e ainda assim consome o restante em sua análise — tamanha é a força e a fundamentação do impacto que Voegelin inflige a Weber, pois refuta a base filosófica de quase todo o trabalho weberiano sobre a ordem, a ciência e a religião. Weber, neste aspecto, é o veneno que o antídoto de Voegelin neutraliza.
É exatamente isso que estou te comunicando, com a sinceridade de alguém que já esteve imerso nessa lama e conseguiu se libertar. Faça isso — siga essa sequência, respeite esse percurso, comece do básico e avance com sinceridade — e você, no mínimo, alcançará um verdadeiro sucesso, um sucesso sólido, ao invés da ilusão efêmera que é vendida por quatrocentos mil reais em palestras de charlatães à tarde. Mais tarde, meu amigo, quando as coisas se acalmarem e você refletir sobre o que aconteceu, você poderá me agradecer. Como vai?
Conclusão
Após toda essa algazarra — que foi intencional, pois há verdades que só se fazem perceber quando conseguem romper barreiras —, o que permanece é uma opção que é fácil de expressar, mas extremamente difícil de concretizar: ou você segue a bússola, ou você bebe o veneno. Não há uma terceira opção confortável que o administrador contemporâneo tanto deseja, essa ética morna, contextual, moderna, que promete torná-lo suficientemente bom para ter uma boa noite de sono e o bastante ruim para lucrar sem restrições. Essa estrada não existe, pois a ética, assim como a bola, é ou perfeitamente esférica ou não é nada: uma ética que se adapta à conveniência já não é ética e se transformou apenas no disfarce sofisticado de um capricho. O grego fez essa descoberta, o Aquinate a consagrou, e nenhuma conferência, por mais cara e entusiasmada que seja, pode anular aquilo que está gravado na própria essência das coisas. O administrador que substitui essa herança pela metodologia do coaching não está realizando uma escolha estratégica inteligente; está reproduzindo, sem ter consciência disso, o ato mais arcaico da queda — o ato de desejar ser deus por si mesmo, de tentar trazer o céu para dentro do bolso, e perceber tardiamente que o que ele realmente agarrou não era um deus, mas sim um vendedor, e que o preço cobrado foi a própria alma. A ética objetiva não é a corrente que limita; é a espinha que dá suporte. Um homem que não demonstra firmeza, por mais que acumule riqueza, não passa de um porco bem-vestido se alimentando do chão e agradecendo ao seu treinador a cada golada. Entre o pensador e o charlatão, entre o sacerdote e o satanista bem-vestido, entre a orientação e o tóxico, cada pessoa faz sua escolha de mestre — e, quer tenha consciência disso ou não, no final, cada um obtém exatamente o mestre que optou.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
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Referências de psicologia, cultura e obras criticadas
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BLAVATSKY, Helena Petrovna. A Doutrina Secreta. São Paulo: Editora Pensamento. Título original: The Secret Doctrine (1888).


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