Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 11: THELEMA, A GRANDE PROSTITUTA
Este volume compila, em duas partes, a minha análise sobre Thelema, realizada a partir da perspectiva da fé católica. O primeiro movimento vai de Plymouth a Cairo, de Crowley ao demiurgo sintético. O segundo vai para o subsolo: Parsons e a explosão, Sade e a desintegração, os selos que não se conseguem ler, o deus de silício. Um único fio, desde o início até o final: quebrar a estrutura e denominar isso como libertação. Eu estive lá dentro; relato o que presenciei. Que Deus nos ilumine neste caminho.
Gabriel G. Oliveira
9/19/202687 min ler


O metal que se desgasta, a estrela que despenca e o deus que criamos
Tomem assento, pessoal. Hoje nós adentramos a sala mais desafiadora da casa. Aleister Crowley, que recebeu o nome de Edward Alexander Crowley ao nascer, veio ao mundo em 12 de outubro de 1875, na região de Warwickshire, na Inglaterra. Ele faleceu em 1º de dezembro de 1947, vivendo em condições precárias, em um quarto de pensão na cidade de Hastings. Entre essas duas datas, abrange-se o século completo do ocultismo moderno. Ele cresceu entre os Irmãos de Plymouth, uma vertente do protestantismo estrita, pautada na Bíblia, que rejeita ícones, liturgias e missas. Conservem isso, pois é fundamental: Crowley foi moldado em um contexto que eliminou o ícone, eliminou o altar, eliminou o sacramento visível — e o que ele fez durante toda a sua vida foi criar, de maneira inversa, uma liturgia. A Teologia do Imaginário se refere a isso como matriz invertida: ao remover o ícone verdadeiro, não há um vazio; surge, em seu lugar, um espaço em branco onde o ídolo irá nascer.
Em 1898, ele ingressou na Ordem Hermética da Aurora Dourada — foi iniciado em 18 de novembro de 1898, no Mark Masons Hall, em Londres, sob a orientação de Samuel Liddell MacGregor Mathers. Ele adotou o nome mágico Frater Perdurabo, que significa "eu perdurarei". Ele recebeu treinamento de Mathers e Allan Bennett. Ele discutiu com todos, como sempre faria. Em 1904, durante a lua de mel no Cairo ao lado da esposa Rose Edith Kelly, ocorreu um evento marcante. Entre os dias 8 e 10 de abril de 1904, no período compreendido entre meio-dia e uma da tarde, Crowley afirmou ter recebido, por intermédio de uma entidade conhecida como Aiwass — a quem se referia como "o ministro de Hoor-Paar-Kraat" —, o Liber AL vel Legis, também denominado o Livro da Lei. Três capítulos, cada um redigido em uma hora. Rose pode ter sido o canal inicial, citando Hórus e a chamada Estela da Revelação — a estela funerária do sacerdote Ankh-ef-en-Khonsu, que está em exposição no Museu do Cairo e que Crowley ordenou que se tornasse seu Kiblah, seu ponto de orientação para sempre.
Do Livro da Lei provêm as frases que todo o Brasil cantou sem consciência. "Faz o que você quiser, esse é o princípio de toda a Lei." "Amor é a regra, amor sob a vontade." Olha só, prestem bem atenção: quando Raul Seixas e Paulo Coelho lançaram "Sociedade Alternativa" na década de setenta, eles cantaram "Faz o que tu queres, há de ser tudo da Lei". Tudo conforme a legislação. O conjunto completo da Lei. Pode parecer besteira, mas na verdade não é. "O todo" representa a totalidade, é a Lei completa sintetizada em um princípio; já "tudo" se torna uma licença, transforma-se em "vale tudo". O próprio meio thelemita no Brasil indica essa falha. Raul nunca teve uma ligação formal com a organização thelêmica; já Paulo Coelho teve contato com Marcelo Motta, o thelemita brasileiro mais conhecido e polêmico, e chegou a adotar um lema mágico. A canção "Sociedade Alternativa" incorpora, por si só, trechos do Livro da Lei: "Todo homem, toda mulher é uma estrela" e "o número 666 é conhecido como Aleister Crowley". A missão, conforme afirmam os próprios participantes, consistia em propagar a Lei de Thelema por meio da música, fazendo com que o país cantasse Thelema sem perceber que estava fazendo isso.
A palavra Thelema tem origem no grego e significa "vontade" ou "desejo". Ela é associada a filosofias e práticas esotéricas, especialmente aquelas promovidas por Aleister Crowley, que adotou o conceito como um princípio central em sua obra. O Thelema enfatiza a importância da vontade individual e a busca por realizar o verdadeiro propósito de cada pessoa. É a palavra grega θέλημα, que significa "vontade". A mesma expressão que é encontrada no Getsêmani, quando Cristo menciona "não se faça a minha vontade, mas a Tua" — "mē to thelēma mou". Conservem esse espelho, pois toda a aula se revolva em torno dele: o cristianismo possui em seu cerne a vontade submissa; enquanto a Thelema coloca em seu interior a vontade firme. Getsêmani contra o Cairo. E há mais uma camada: na isopsefia grega, θέλημα, Thelema, totaliza 93, e ἀγάπη, Ágape, que significa "amor", também totaliza 93. Por essa razão, os thelemitas se cumprimentam dizendo "93". Quando alguém diz "93", está afirmando "faça o que você deseja"; ao concluir com "93 93/93", está proclamando "amor é a lei, amor sob vontade". Vontade e Amor têm o mesmo peso. É de uma beleza deslumbrante — e é justamente por ser tão atraente que precisamos de discernimento, pois intensidade não é sinônimo de verdade, e uma coincidência numérica, por mais brilhante que seja, não comprova uma metafísica.
O Livro da Lei possui uma estrutura tríplice que reflete e inverte a Trindade. Três capítulos, três divindades: Nuit, o céu sem fim, a deusa da vastidão estrelada — "Todo homem e toda mulher é uma estrela"; Hadit, o ponto minúsculo, a chama no coração de cada estrela; e Ra-Hoor-Khuit, Hórus coroado e vitorioso, o senhor do novo Aeon. É a metafísica de Thelema: cada um de nós é uma estrela, com sua própria órbita, uma Vontade Verdadeira a realizar. E surge a declaração que é o golpe final contra Roma: "não existe Deus a não ser o homem". O Liber Oz, também conhecido como Liber LXXVII ou o Livro do Bode, sintetiza em uma única página, de maneira incisiva, os direitos do homem-estrela: o ser humano tem o direito de viver segundo sua própria legislação, de se alimentar, de beber, de refletir, de amar à sua maneira e de eliminar aqueles que tentarem privá-lo dessas prerrogativas. É uma crença na soberania plena do indivíduo. E o Livro da Lei se resguarda: existe uma maldição para quem disserta excessivamente sobre o texto, para aqueles que modificam a grafia — a orientação é clara ao dizer que não se deve mudar nem mesmo a forma de uma letra.
Agora, o lado emocional de Crowley — e aqui eu gostaria que vocês realmente sentissem. No corpus thelemita, encontra-se uma poesia de dissolução que é uma das mais belas e mais tristes criações da literatura mística contemporânea. O Liber Cordis Cincti Serpente, conhecido como Liber LXV, que pode ser traduzido como o Livro do Coração Cingido de Serpente, aborda a temática de um "deus negro e aterrador", discorrendo sobre o êxtase corrosivo e sobre o "aço que se deteriora". E existe aquele aviso: "não seja irracional, aperfeiçoe o seu êxtase". E o verso que sintetiza todo o abismo de Thelema: "a felicidade da dissolução é semelhante a tudo". Ouçam isso com o coração receptivo: é a promessa de que se perder é um deleite, de que dissolver o eu na Noite estrelada é a verdadeira felicidade. Nuit fala aos seus: venham a mim, e a morte de cada ser é "a felicidade da desintegração". A Teologia do Imaginário indicará, com respeito e tristeza, que este é o ponto de separação decisivo: a fé cristã promete transfiguração — o eu glorificado, preservado, ressuscitado em um corpo; enquanto Thelema promete dissolução — o eu dissolvido, anulado com prazer na deusa. Transformação em oposição à desintegração. É a distinção entre o Tabor e o abismo. É uma diferença que se percebe na pele, e não apenas na mente.
Permitam-me explicar como isso se transforma em uma instituição. Após deixar a Golden Dawn, em 1907, Crowley fundou, juntamente com George Cecil Jones, a A∴A∴, o Astrum Argentum, também conhecida como Estrela de Prata — uma ordem dedicada ao treinamento sistemático, estruturado em graus, tendo como seu veículo a revista The Equinox. Em 1912, ele se encontra com Theodor Reuss, que era o líder da O.T.O., a Ordo Templi Orientis. Aqui está um importante esclarecimento histórico: a O.T.O. não surgiu do nada nem foi uma criação de Crowley. A origem é de Carl Kellner, um industrial austríaco, e de Theodor Reuss. Em 1902, Reuss, juntamente com Franz Hartmann e Henry Klein, adquiriu de John Yarker, o maçom inglês, as patentes dos Ritos de Memphis e Misraim. Reuss e Kellner elaboraram um manifesto conciso da Ordem em 1903, que foi publicado no ano seguinte na revista Oriflamme. Kellner faleceu em 1905, e Reuss tomou o controle total. Em 1912, Reuss nomeou Crowley como líder do ramo britânico — uma escolha da qual, segundo as narrativas, ele acabaria se arrependendo profundamente. Crowley reestruturou grande parte do material ritual e focalizou nos graus mais elevados, o VIII e o IX, a chamada magia sexual, que é o mistério em torno do qual a Ordem se organiza. Após isso, viria o XI. Não se trata de uma simples piada: é a essência do sistema.
Em 1920, Crowley estabeleceu a Abadia de Thelema em Cefalù, na Sicília — uma comuna religiosa, um experimento para viver a Lei em comunidade, com veneração ao Sol, uso de substâncias psicoativas e práticas de sexo mágico. Foi banido pelo governo de Mussolini em 1923. E assim inicia-se o extenso processo de declínio: Tunísia, França, Inglaterra, o vício em heroína, a miséria. O homem que se autodenominou Ipsissimus, o nível mais elevado, e que se referiu a si mesmo como A Besta 666, faleceu na pobreza em 1947. É lamentável, e não vamos fazer de conta que não é. Um amigo meu, que teve contato com praticantes, afirmava que a biografia de Crowley é, por si só, uma parábola tanto thelemita quanto anti-thelemita: a soberania plena do indivíduo culmina no quarto isolado de uma pensão.
Agora eu preciso abordar a questão dos alienígenas, pois isso voltará a se destacar no segundo movimento. Entre janeiro e março de 1918, em Nova York, Crowley realizou o Amalantrah Working, uma sequência de trabalhos mágicos com a mediunidade de Roddie Minor. Dessas percepções surgiu uma ilustração: Crowley criou uma entidade com uma cabeça grande, calva e oval, olhos imensos, e a nomeou de Lam. A obra foi apresentada em 1919 e divulgada no mesmo ano na publicação "Blue Equinox". Esse desenho é alarmantemente semelhante ao "Grey", o alienígena cinza da cultura pop, que se tornaria uma imagem popular apenas décadas depois, com o incidente de Roswell em 1947. Aqui eu realizo o trabalho meticuloso de identificar três camadas: a primeira, o que Crowley realmente fez — criou o desenho de Lam em 1918, publicou em 1919 e afirmou apenas que era "desenhado do natural". Na segunda-feira, Kenneth Grant fez suas interpretações subsequentes — como discípulo de Crowley e líder da corrente Tifoniana, ele transformou Lam em um ícone cósmico, fez a associação de Lam com os Greys e elaborou toda uma cosmologia envolvendo a Zona Malva, os Túneis de Set e os contatos com inteligências trans-yuggothianas. Por último, há a especulação que relaciona o Amalantrah ao Babalon Working de Jack Parsons e à onda de OVNIs de 1947 como uma causalidade direta. E eu firmo meu ponto de vista: similaridade não implica causalidade. O fato de o desenho de Lam se assemelhar a um Grey não é uma prova de que Crowley "abriu um portal". A antiguidade não é uma verdade absoluta; a experiência não valida a interpretação; e o simples fato de dois eventos ocorrerem em momentos próximos não garante que tenham uma relação de causa e efeito.
Agora vamos chegar à seção que é inteiramente teológica. Frater Achad. Charles Stansfeld Jones, 1886-1950. Um contador canadense ingressou na A∴A∴ como o vigésimo Probacionista em dezembro de 1909. Crowley o viu como seu "filho mágico", que nasceu misticamente no solstício de verão de 1916, sendo chamado de "Bebê do Abismo". Achad realizou a descoberta que alterou até mesmo o título do livro sagrado: a chamada "chave 31". Ele notou que as letras hebraicas AL, que significam "Deus", e a inversão LA, que representa "não/nada", juntamente com El, estão relacionadas ao número 31. Foi por essa razão que Crowley alterou o nome do livro de Liber Legis para Liber AL vel Legis. Achad descreveu todos os detalhes no diário mágico, que foi posteriormente publicado como Liber 31. O número 31 é o inverso de 13, e 13 corresponde à gematria de "Achad", que em hebraico significa "Um", "Unidade". Está tudo atado. Mas preparem-se, pois está chegando a reviravolta mais tocante da história de Thelema. Frater Achad, o filho mágico e o descobridor da chave, abraçou a fé católica romana em 1928 — dezenove anos após ingressar na A∴A∴. Ele retornou rapidamente à Inglaterra, ingressou na Igreja Católica e desejava — vejam a sutil ironia — convencer outros católicos a adotarem a Lei de Thelema. Houve um colapso ao tentar seu renascimento como "Bebê do Abismo". O indivíduo que desvendou a mensagem do Livro da Lei acabou recebendo a comunhão eucarística. A Teologia do Imaginário interpreta isso como um tikkun — termo da cabala luriânica que quer dizer "reparação" ou "restauração". Achad, ao ter invertido a Árvore da Vida, talvez tenha, no final, tentado levantá-la novamente. É de deixar alguém em lágrimas.
Isso me remete à Árvore da Vida, pois não podemos abordar Crowley sem considerar a cabala. A Árvore possui dez esferas, conhecidas como sephirot: Keter, que representa a Coroa; Chokmah, que designa a Sabedoria; Binah, o Entendimento; Chesed, a Misericórdia; Geburah, o Rigor; Tiferet, a Beleza, que é o centro solar; Netzach, a Vitória; Hod, o Esplendor; Yesod, o Fundamento; e Malkuth, que simboliza o Reino, o mundo material. E existe a esfera secreta, Daath, o Saber, o vazio. Três fundamentos: o da Misericórdia, o do Rigor e o do Equilíbrio que se encontra no centro. Tiferet, que representa o centro, é o momento em que o místico procura pelo "Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião" — a vivência essencial do sistema de Crowley, que se refere ao encontro com seu daimon, o seu eu superior. É necessário fazer uma distinção: há a cabala judaica, que é viva, orante, conectada à Torá e à comunidade de Israel; e há a cabala hermética, que é cristã e, posteriormente, ocultista, a qual, a partir do Renascimento, adaptou a estrutura da Árvore e a incorporou ao tarô, astrologia e magia cerimonial. A Golden Dawn e Crowley atuam nesta segunda linhagem. Não se trata da mesma coisa que o Zohar, o Livro do Esplendor; não é a mesma coisa que Adam Kadmon, o Homem Primordial da tradição luriânica; não é a mesma coisa que o Baal Shem Tov e o hassidismo — e a esse respeito, Martin Buber escreveu a respeito. São universos que se entrelaçam, porém não se misturam.
E, dentro dessa tradição judaica, existe um capítulo intrigante e sombrio: a "salvação por meio do pecado". Sabatai Zevi, que viveu de 1626 a 1676, foi um judeu sefardita de Esmirna que se autoproclamou Messias, incentivado pelo profeta Natan de Gaza. Entre 1665 e 1666, mais de um milhão de crentes foram atraídos — aproximadamente metade da população judaica global no século XVII, um dado que se tornou referência a partir dos estudos de Gershom Scholem — por uma intensa febre messiânica. No entanto, aprisionado pelos otomanos e prestes a ser executado, ele se converteu ao Islã. O escândalo foi gigantesco. Entretanto, Natan de Gaza ofereceu uma interpretação que daria origem a toda uma teologia: a conversão não foi um ato de covardia, mas sim uma das "ações singulares" que o Messias precisava realizar, imergindo nas profundezas do mal para redimi-lo por dentro. Redenção por meio do pecado. Um século mais tarde, Jacob Frank adotou uma postura mais extrema: para que o Bem se manifeste, é necessário provocar o caos e mergulhar na essência do mal. Scholem, no ensaio "Redenção Através do Pecado", retratou entre os frankistas radicais uma autêntica mitologia do niilismo, caracterizada pela total inversão de valores. O eco ressoa em Crowley e em Thelema: a transgressão como um método espiritual, o pecado como um caminho, e a quebra da Lei como uma nova Lei. É a mesma sedução, com vestimentas diferentes.
Eu conversei sobre isso no Aeon. Crowley estrutura a narrativa em Aeons: o Aeon de Ísis, a mãe, simbolizando o matriarcado ancestral; o Aeon de Osíris, o pai, o deus que morre e renasce — e aqui se insere toda a doutrina cristã, interpretada como a religião do "deus morto e ressuscitado", que agora foi superada; e o Aeon de Hórus, a criança coroada e vitoriosa, que teve seu início em 1904 com o Livro da Lei — o "equinócio dos deuses". Trata-se de uma escatologia criada, uma divisão da história que visa levar a uma nova era. Observe a semelhança com Joaquim de Fiore, o abade calabrês, que classificou a história em três períodos: o do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo, com a última fase começando por volta de 1260, a era da liberdade. As propostas de Joaquim foram rejeitadas — o Concílio de Latrão IV, em 1215, censurou sua doutrina sobre a Trindade. Conservem essa estrutura de "três idades em direção à era do Espírito", pois ela se revela em todas as utopias escatológicas contemporâneas. É importante fazer a distinção: existe também o Aion dos gregos — o deus e o conceito do tempo eterno, do ciclo, que é diferente de Cronos, o tempo que consome; Aion se manifesta como o Ouroboros, a serpente que se mordisca, sendo celebrado na obra Dionisíaca de Nono de Panópolis. Crowley utiliza essa temática do tempo cíclico e a combina com Osíris e Hórus para criar sua roda dos Aeons.
Em oposição a essa lógica das idades sucessivas, a Teologia do Imaginário destaca Irineu de Lyon, o bispo do século II, e sua doutrina da recapitulação — recirculatio — na obra "Contra as Heresias". Para Irineu, Cristo não dá início a uma "terceira idade" que elimina as anteriores; na verdade, Cristo reúne, sintetiza e repara toda a história em Si mesmo, restaurando em obediência aquilo que Adão desmantelou em desobediência. Não se trata de uma superação da matéria, mas sim de uma redenção da matéria. É o contrário absoluto da lógica dos Aeons que se anulam. E é nesse ponto que surge o notável reflexo cristão da nossa aula: Tomás de Aquino. O Doutor Angélico elaborou a Suma Teológica entre os anos de 1266 e 1273 — considerada a mais grandiosa catedral intelectual do Ocidente. E, em 6 de dezembro de 1273, durante a celebração da missa, ele passou por uma experiência — uma visão, alguns afirmam, ou talvez um desmaio — após a qual ele nunca mais voltou a escrever. Quando o irmão Reginaldo lhe indagou o motivo, Tomás respondeu, conforme o depoimento colhido no processo de canonização: "Reginaldo, não posso, porque tudo o que escrevi me parece insignificante" — "mihi videtur ut palea". Palha. O mais importante teólogo da história contemplou sua obra-prima à luz da realidade divina e considerou tudo como sendo apenas palha. Isso remete a São Paulo, em 1 Coríntios 3, sobre a construção com ouro ou com palha, e a obra sendo testada pelo fogo. Observem a imensa diferença em comparação a Crowley: Tomás, no seu ápice, se silencia diante do Mistério que é maior do que ele; Crowley, ao longo de sua vida, fala, escreve, sistematiza e se proclama Ipsissimus. Um se esvazia; o outro se incha. A modéstia do santo em oposição à arrogância do mago.
Agora eu preciso confrontar os textos sagrados, pois não pretendo remover nada. O Apocalipse: a mulher revestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas; o dragão com sete cabeças e dez chifres que deseja devorar o filho; Miguel e seus anjos lutando contra o dragão; a besta que emerge do mar. Daniel 7 e 8, com suas feras e chifres, e o Ancião de Dias. Isaías 14 fala sobre a queda de Lúcifer, o "astro da manhã", que proclamou: "Subirei, serei como o Altíssimo". Crowley e a tradição thelemita reinterpretam esses símbolos de forma inversa: a Besta 666 deixa de ser vista como inimiga e passa a ser uma identidade adotada — Crowley se auto intitula A Besta; a Mulher Escarlate, Babalon, deixa de ser a prostituta da Babilônia condenada e se transforma em uma deusa libertadora. Trata-se de uma inversão intencional, consciente e cheia de orgulho. A Teologia do Imaginário aborda isso como o gesto fundamental que ela designa como queda gnóstica — o impulso de reinterpretar o símbolo divino de maneira inversa, transformando o ídolo no que deveria ser o ícone.
Permitam-me, então, apresentar o conceito que une a aula: o Demiurgo Sintético. A Teologia do Imaginário apresenta um movimento dividido em três etapas. Em primeiro lugar, a queda — a ferida inicial, a sensação de estar em exílio, de que o mundo não está certo. Em segundo lugar, o ímpeto gnóstico — a ideia de que a salvação é alcançada por meio do conhecimento secreto, pela gnose, e de que o Deus que criou este mundo ruim é, na verdade, o vilão. Em terceiro lugar, a criação da transcendência — o ser humano, ao não conseguir mais receber a transcendência como um presente, começa a produzi-la: elabora seu próprio deus, sua própria liturgia, seu próprio absoluto. Esse deus construído é o Demiurgo Sintético: não o Deus que nos gera, mas o deus que nós concebemos. Os sintomas têm suas denominações: o ícone em oposição ao ídolo (o ícone serve como uma janela para o Outro; o ídolo é um reflexo de nós mesmos); Babel contra Pentecostes (Babel é a torre que busca alcançar o céu; Pentecostes representa o céu que desce); a androginia do Baphomet (a fusão dos opostos em uma figura autossuficiente); a utopia como uma escatologia construída; a falsa parúsia, o Anticristo como uma paródia da vinda de Cristo. E o cerne de toda a questão: o homem como cocriador — conforme a fé sustenta — em oposição ao homem como autocriador — que o Demiurgo Sintético promete.
É exatamente por causa da doutrina mais audaciosa do cristianismo sobre a divinização do ser humano que ele revela a falsificação. A Segunda Epístola de Pedro afirma que nos tornamos "participantes da natureza divina". Os Padres se referiram a isso como theosis: "Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus", afirmou Santo Atanásio. O homem é convocado a se tornar divino — porém divino por meio da participação e da graça, e não por essência e por criação. O santo é elevado à condição divina pois recebe a vida de Deus, sem deixar de ser criatura, mantendo sua essência. O demiurgo sintético almeja ser uma divindade, negando sua condição de criatura e criando a divindade a partir de sua própria essência. Um se torna divino ao dizer "que a Tua vontade se faça em mim"; o outro tenta se tornar divino ao afirmar "que a minha vontade se faça". A diferença entre essas duas frases é como a distância entre o céu e o inferno, entre a graça e o conhecimento profundo, entre a transfiguração e a desintegração. Crowley optou pela segunda e partiu sozinho, referindo-se a tudo o que amava como sua Vontade Verdadeira; Aquino optou pela primeira e, em seu ápice, considerou sua própria obra-prima como fútil diante do Rosto. A estrela que desejou brilhar isoladamente caiu; a estrela que decidiu girar em torno de um núcleo encontrou a sua trajetória. Fica gravado em seus corações, ao término deste primeiro movimento, o metal que enferruja e a angustiante alegria da dissolução — para que vocês consigam identificar o que sentem quando um dia isso aparecer, porque vai aparecer. E que desfrutem da paz — uma paz profunda, que não é criada por nenhuma vontade.
O dragão de bermuda, o selo ilegível e a fábrica da ruptura.
Acomode-se novamente, pessoal, e fiquem com a atenção voltada, pois agora adentramos na etapa mais obscura do porão. Na Parte Onze eu estruturei a espinha: Crowley, o Livro da Lei, a Verdadeira Vontade, a estrela e o buraco negro, a Árvore da Vida, os Aeons, o demiurgo sintético — o ser humano que, incapaz de receber a transcendência como um presente, começa a criá-la por conta própria. Agora eu preciso trazer essa mesma ideia para o nosso século, pois ela não se restringe a 1947 nem a Cefalù. Ele está presente, na tela do seu celular, no pronunciamento oficial do Congresso dos Estados Unidos, no centro de dados de Memphis.
A primeira coisa que preciso ajustar, com precisão cirúrgica, é uma palavra que o material utiliza e utiliza corretamente. Há pessoas que observam essas correntes de dissolução — como Crowley, a linha tifoniana, o niilismo, o projeto de Sade — e classificam tudo como "gnóstico". Não se trata de algo gnóstico. É mais grave. E a diferença é significativa, pois é nela que reside o diagnóstico. No gnosticismo clássico — representado por Valentino, Basílides e os setianos — a matéria é vista como negativa, enquanto o espírito é considerado positivo; há uma centelha divina que está aprisionada na carne, e a salvação consiste na libertação dessa centelha em direção ao Pleroma, à luz. No maniqueísmo, existe a ideia de dualismo: dois princípios eternos, a luz e a escuridão, em constante conflito. No zoroastrismo, Ahura Mazda enfrenta Angra Mainyu, conhecido como Ahriman. Em todos esses, por mais obscuros que sejam, há um lado positivo. Existe uma alternativa para cima. Há luz de um lado.
A questão é que a corrente de que estamos falando não possui isso. É o que os narradores desses livros denominam, com uma precisão que me causa arrepios, de "mais do que gnóstico": a matéria é má, o espírito é mau, o mundo é terrível, tudo é ruim, todas as pessoas são ruins. O céu não existe. A pessoa falece e vai, ou para um inferno um pouco menos severo, ou para um inferno mais severo. Não se trata de dualismo, mas sim de uma negação absoluta. Essa negação absoluta possui uma denominação específica no ocultismo atual: é conhecida como satanismo anticósmico, gnose caótica ou Corrente 218. É o Templo da Luz Negra, a antiga Ordem Luciferiana Misantrópica, aquele grupo do "Liber Azerate", que ensina que todo o cosmos — matéria e espírito, forma e alma — é uma prisão criada pelo demiurgo, e que a única forma de libertação é dissolver tudo de volta ao Caos primordial, ao Ain, ao vazio que precede a criação. Observe o salto: o gnóstico deseja liberar a centelha; o anticósmico busca extinguir a centelha juntamente com a prisão. O gnóstico se distancia do mundo; o anticósmico deseja que o mundo — e ele próprio — cesse de existir. Este é o ponto culminante da lógica da dissolução, e é nessa direção que, em última instância, todo o projeto que iremos analisar hoje se dirige. Mantenham essa bússola em mente: o ponto principal desta aula é que não existe dualismo, mas uma negação absoluta, e a única alternativa que essa corrente consegue conceber é a dissolução — seja por meio de sexo desenfreado, por explosões, por invocações ou através de tecnologias que simulam o selo.
E dentro dessa perspectiva, o dragão muda de direção. Na tradição saudável, o dragão representa o inimigo que o herói derrota para alcançar um novo nível. Na lógica da negação total, o dragão de Marte não é o oponente a ser derrotado; ele representa o próprio princípio da beligerância sem saída, a luta que esgota o lutador. É um conflito que não conduz a lugar algum, exceto à destruição daqueles que participam da batalha. E é por esse caminho que eu quero iniciar a descida, pelo dragão.
Marte, meus amigos, representa o princípio cósmico da beligerância, da guerra, da luta — e, por uma razão simbólica profunda, ele está ligado ao dragão. O dragão é a criatura que protege, que consome, que expele fogo; e Marte é o fogo que aniquila. Por essa razão, nos grupos que estamos analisando, surge a figura de um "dragão de Marte", venerado especialmente pelo pessoal que aprecia estética mecânica e marcial. Assim, a cultura pop oferece uma representação precisa disso de duas maneiras: uma que é ao mesmo tempo sublime e sinistra, e outra que é simplesmente ridícula.
O extraordinário e o sombrio estão presentes em Warhammer 40.000. Ali se encontra o Dragão de Vodo, o Dragão do Vazio, um dos C'tan — deuses estelares devoradores — que reposa, segundo dizem, no íntimo de Marte, o Planeta Vermelho da Mecânica, e é venerado pelos Adeptos Mecânicos, os tecno-sacerdotes de Marte, que adoram sem compreender plenamente o que realmente estão venerando. E o Warhammer 40.000 é, de fato, a representação ideal daquela negação absoluta que acabei de descrever. O universo do Warhammer 40,000 não possui características gnósticas; ele representa uma escuridão grimdark completa, onde a única constante é a guerra, eternamente. Os quatro Deuses do Caos — Khorne, que representa o sangue e a fúria; Tzeentch, a mudança e a falsidade; Nurgle, a peste e a decadência; Slaanesh, o excesso e o prazer que consome — dominam o Warp, que é o inferno do qual não há escape. O Imperador da Humanidade é uma divindade fracassada, um corpo sem vida em um trono. Não existe redenção, não há céu, apenas um inferno menos ruim (o Império em declínio) e um inferno ainda pior (o Caos). É a essência da dissolução, um demiurgo sintético conduzido a uma distopia absoluta: um cosmos inteiramente criado sem qualquer possibilidade de ascensão. É característico, é um reflexo do nosso tempo, que esta seja atualmente uma das mitologias que mais atraem a juventude. Nós, como um grupo, gostamos de um mundo sem esperança. Isso revela algo a nosso respeito.
E o que é ridículo — e ao mesmo tempo sério, pois o ridículo revela verdades — é o Fin Fang Foom, personagem da Marvel, que fez sua estreia em Strange Tales número 89, em 1961, criado por Stan Lee e Jack Kirby. Um imenso dragão extraterrestre, de cor verde, forte, assustador... vestido com bermuda. Bermuda lilás com estampa. Bermuda de tecido tactel. E eu reafirmo isso: isso coloca tudo em segundo plano, pois um dragão de bermuda tactel já demonstra, na própria vestimenta, que aquilo não é obra de Deus. Um dragão usando sunga estampada representa o início da agressividade disfarçado de palhaço — é a versão pop, vulgar e consumível do que os círculos obscuros veneram com toda a seriedade. E é exatamente isso que a cultura de massa faz constantemente: ela transforma um princípio horrível e o disfarça com uma roupa leve, para que você adquira o produto sem se sentir incomodado.
Preste atenção na palavra "dragão", pois há uma armadilha aqui que eu quero destacar e que é extremamente relevante. Quando os missionários portugueses chegaram à China, na época de Matteo Ricci, e se depararam com a figura do Long, o "dragão" chinês, não encontrando uma palavra mais adequada, traduziram como "dragão". E são figuras antagônicas, praticamente opostas. O Long chinês é uma força benéfica, celestial, associada à água, à chuva, à realeza e ao imperador — é quase um ser angelical, uma energia de organização e fertilidade. Isso não tem relação com o dragão do ocidente. No percurso que vai do Oriente Médio até a Europa, o dragão assume o papel de opositor: ele é Tiamat, a deusa-dragão do caos aquático que Marduk derrota para dar origem ao mundo, na "Enuma Elish" da Babilônia; ele é Vritra, a serpente que Indra fura para libertar as águas no Rig Veda; é Jörmungandr, a serpente do mundo que Thor combate; é o dragão que São Jorge enfrenta e vence, que Perseu confronta ao resgatar Andrômeda, que Cadmo extermina e cujos dentes, ao serem plantados, geram guerreiros, que Beowulf enfrenta e triunfa sobre ele. Em todos esses casos, o dragão representa o desafio do herói, o rito de passagem: o herói supera o dragão para realizar um avanço em sua existência. E — fiquem atentos a isso — essa batalha contra o dragão simboliza, na essência, o controle sobre si mesmo. O dragão exterior representa o caos que existe dentro de nós. Conquistar o dragão é dominar a própria essência.
E é nesse ponto que Aristóteles se faz presente, e se faz presente de maneira intensa. Para desenvolver as virtudes, é necessário ter em mente uma virtude em particular: a força, a coragem, a andreia, que os romanos denominaram fortitudo. Não a força física — mas a força moral, a força da alma. Porque, e isso é fundamental, para ser casto é necessário ter força; para ser honesto é preciso de força; para ser bondoso, misericordioso e paciente, é preciso de força. A covardia não gera nenhuma virtude. Tomás de Aquino aborda isso em sua Suma: a fortaleza é a virtude que apoia todas as demais frente ao medo e ao perigo, e sua maior ação não é atacar, mas sim resistir, como o mártir que persevera. E o principal símbolo dessa força, caros amigos — e agora preciso falar mais baixo —, é Cristo. O Cristo que afasta os mercadores do templo utilizando um chicote feito de cordas, o Cristo que se demonstra como o "homem forte" que prende o outro homem forte e toma o que lhe pertence, o Cristo que suporta a cruz. E São José, a quem a ladainha se refere como "Terror dos Demônios", Terror Daemonum — o homem justo e silencioso que oferece proteção. E a Santíssima Virgem. Observe o contraste que permeia toda a aula: a verdadeira força, em Cristo, em José, na Virgem, se manifesta como mansidão, proteção, sacrifício; enquanto a "força" da corrente da dissolução se transforma em destruição, morticínio, apocalipse. O dragão derrotado diante do dragão que devora. Guardem isso, pois agora vou apresentar homens de carne e osso que optaram pelo dragão que devora — e um deles colaborou na construção da criação mais destrutiva que a mão humana já produziu.
Jack Parsons, meus amigos. Guardem esse nome com reverência e temor, pois poucas vidas encapsulam tão perfeitamente tudo o que estamos discutindo. John Whiteside Parsons, cujo nome de nascimento era Marvel Whiteside Parsons, veio ao mundo no dia 2 de outubro de 1914, na cidade de Los Angeles. Criança de posses, filho de uma família endinheirada, e um garoto peculiar: diz-se que, quando ainda era pequeno, tentou chamar o Diabo em seu quarto — e ficou apavorado. Ele cresceu apaixonado por duas coisas que, para a maioria das pessoas, parecem não ter relação uma com a outra: foguetes e magia. A ideia que eu gostaria de destacar para vocês é que esses dois fenômenos, segundo a perspectiva de Parsons, não são simples coincidências: a Era Espacial e o renascimento ocultista moderno nos Estados Unidos surgiram lado a lado, no mesmo contexto, na mesma mente.
Na esfera científica: Parsons foi um dos criadores do GALCIT, o laboratório de aeronáutica do Caltech, que deu origem ao Jet Propulsion Laboratory, conhecido como JPL, da NASA. Ele integrava um grupo que os colegas chamavam de "Esquadrão Suicida", devido ao risco extremo das experiências com propelente. A contribuição prática de Parsons foi imensa: ele criou o propelente sólido fundível, o combustível que possibilitou os foguetes de assistência à decolagem e que está na base da tecnologia dos mísseis e foguetes dos Estados Unidos. Ele foi um dos cofundadores da Aerojet, uma empresa que ainda está em atividade. Existe uma cratera na face oculta da Lua com o nome de Parsons, em homenagem a esse indivíduo. Portanto, sem esse indivíduo, o programa espacial dos Estados Unidos seria diferente. Ele está fundamentalmente na base da habilidade humana de deixar o planeta — e, vale ressaltar, na base da habilidade de disparar ogivas de um continente para outro.
No mundo da magia: Parsons foi o responsável pela Agape Lodge, a sede da O.T.O. de Crowley na Califórnia. Correspondia-se diretamente com Crowley, que, em um primeiro momento, o observava com expectativa. Em 1946, no começo do ano, entre janeiro e março, Parsons liderou a operação que passou a ser chamada de Babalon Working — uma sequência de rituais de magia sexual de cunho enoquiano, com a finalidade de trazer para a Terra a deusa Babalon, a Mulher Escarlate do Apocalipse reinterpretada como uma força libertadora. E o escriba dessa operação, o vidente que registrava as visões enquanto Parsons atuava, foi nada menos que L. Ron Hubbard — o mesmo Hubbard que, alguns anos depois, criaria a Cientologia. Reflitam sobre a importância dessa situação: no mesmo ambiente, o pai de uma parte do programa espacial e o futuro fundador de uma das religiões mais polêmicas do século XX, chamando uma deusa. Logo em seguida, surgiu Marjorie Cameron, a mulher de cabelos ruivos que Parsons acreditou ser a encarnação de Babalon, e com quem se casou. Parsons escreveu o Liber 49, que apresentou como o "Livro de Babalon", o quarto capítulo do Livro da Lei — e se autodenominou "Belarion Armiluss Al Dajjaj Anticristo", o Anticristo. Observe: Armilus é o anticristo na tradição judaica, enquanto Al-Dajjal representa o anticristo na tradição islâmica. Parsons uniu os dois e colou em si mesmo.
E a narrativa culmina em uma tragédia dupla. Hubbard e a cunhada de Parsons fundaram com ele uma empresa, a Allied Enterprises, e desapareceram com o dinheiro e um iate — Parsons ficou arruinado e traído por seu próprio escriba. Em 17 de junho de 1952, Parsons faleceu em uma explosão em seu laboratório doméstico, enquanto manipulava fulminato de mercúrio. Ele tinha 37 anos. Faleceu da mesma forma que Crowley partiria: o mágico que se autodenominou Anticristo, em ruínas, em um acidente obscuro. E o próprio Crowley, ao tomar conhecimento do Babalon Working, ficou chocado — não por compaixão, mas por desdém. Em uma carta datada de 19 de abril de 1946, endereçada a Karl Germer, que era o líder da O.T.O. nos Estados Unidos, Crowley expressou, usando suas próprias palavras: aparentemente, Parsons, Hubbard ou alguém está criando um "Filho da Lua", e ele se sente "quase frenético" ao refletir sobre "a insensatez dessas pessoas". O criador de Thelema considerou aquilo um fracasso. Lembrem-se disto: nem mesmo Crowley apoiou o Babalon Working.
Entretanto, o que realmente importa para a nossa tese não é apenas a biografia, mas sim a intenção. Porque há pessoas — e eu digo isso com indignação — que levavam e ainda levam isso a sério, e estavam dispostas a causar mal por causa disso. Parsons tinha fé em Crowley. E ele colaborou, com sua inteligência, para criar armamentos de destruição em massa, imensos cortadores de carne, e para a fabricação da bomba atômica. E aqui está o momento que arrepia: em determinados grupos, o objetivo declarado não era apenas produzir a arma. Era utilizá-la. Não se trata apenas de construir a bomba atômica; para essas pessoas, a bomba precisa ser utilizada, deve resultar em um grande massacre e levar o mundo a um ponto de destruição — pois, na lógica delas, é a destruição que traz a salvação. A ruptura máxima como chave para o novo éon. A bomba não deve ser vista como uma tragédia a ser evitada, mas sim como um sacramento sombrio a ser levado a cabo. Isto, meus amigos, é a lógica da dissolução em sua forma mais grotesca: transformar o fim do mundo em um ritual de passagem coletivo.
Esse mesmo padrão — a destruição como forma de salvação — não teve seu início com Parsons. Ele já se encontra, por completo, em um homem que redigiu escritos encarcerado em um calabouço no final do século XVIII: Donatien Alphonse François, o Marquês de Sade, nascido em 1740 e falecido em 1814. Eu preciso abordar Sade com cautela, evitando qualquer conotação pornográfica, no âmbito do diagnóstico — pois Sade não é um simples libertino; ele é um filósofo da dissolução, talvez o mais consistente que já existiu, e é exatamente essa coerência que causa receio.
Encarcerado na Bastilha, Sade redigiu "Os 120 Dias de Sodoma" — e a trajetória do manuscrito já se tornou um ícone. Ele escreveu em um rolo de papel de doze metros, com letras minúsculas, de maneira discreta; perdeu o rolo na prisão da Bastilha, em 1789, acreditando que estava perdido para sempre, lamentou "lágrimas de sangue" pela perda; o rolo foi recuperado e publicado apenas em 1904, pelo médico Iwan Bloch. Em seguida, surgiram "Justine", "Juliette" e "A Filosofia na Alcova". Qual é, então, o verdadeiro objetivo de Sade, quando se analisa além da superfície do escândalo? É exatamente o que o narrador menciona: devemos salvar o ser humano libertando-o do mundo material, e para isso é necessário exterminar o mundo material, desfazê-lo. Como assim? Utilizando o sexo como meio de acesso. Uma liberdade sexual em constante expansão, cada vez mais intensa, em uma progressão que não tem fim.
E — esse é o ponto mais sutil e mais aterrador de Sade — o desfecho dessa ascensão não é o prazer. É a obsessão pela morte. Atualizando para os dias de hoje: a pessoa inicia assistindo a um filme pornô na internet, algo que, à primeira vista, parece trivial. Entretanto, na lógica de Sade, a situação não pode permanecer assim; ela deve se intensificar, pois o prazer se desgasta, o corpo se adapta, e é necessário buscar mais, de forma mais extrema e transgressora, até que o único estímulo que sobra é o da destruição, o de tirar a vida de outra pessoa e, em última instância, a própria. Sade define o ideal do libertino como "apatia" — a apatheia, a total indiferença, a eliminação de qualquer ternura, compaixão ou laço, de modo que permaneça apenas a vontade crua de usufruir destruindo. Para Sade, a Natureza representa a destruição; assim, o crime se configura como um retorno à Natureza; portanto, o ato de assassinar é considerado sagrado. É o oposto completo da caridade cristã. E observe como isso é profundo: os grandes pensadores do século XX enxergaram em Sade não uma anomalia isolada, mas sim o segredo obscuro da própria modernidade. Pierre Klossowski publicou "Sade, Meu Próximo" em 1947. Georges Bataille colocou Sade como o núcleo de sua obra "O Erotismo", publicada em 1957 — apresentando o erotismo como uma celebração da vida até o limite da morte. Simone de Beauvoir escreveu "É Preciso Queimar Sade?". E, o mais fascinante de tudo: Adorno e Horkheimer, em "Dialética do Esclarecimento", de 1947, apresentaram a Juliette de Sade como a face oculta da razão iluminista — uma razão que, ao eliminar Deus e o sentido, não possui mais nenhum argumento contra a crueldade, transformando tudo, até mesmo o corpo do outro, em mero objeto de cálculo e prazer. Sade representa o Iluminismo em sua forma mais destemida. É a razão prática que descobriu que, na ausência de Deus, tudo é permitido — e que transformou isso em um projeto.
Portanto, une-se que Sade deseja desmantelar o mundo por meio do sexo que leva à morte; Parsons almeja romper o véu através da bomba e do ritual; Crowley busca a alegria da dissolução na Noite estrelada. Trata-se da mesma família. É o mesmo dragão que devora o guerreiro. E eu reitero algo que faço questão de enfatizar, pois é a âncora da esperança neste porão: não vai dar certo. Não está funcionando. O Pai triunfa. O mundo não será destruído, pois é mantido por Aquele que o criou e que o ama. Contudo — e esse "contudo" carrega um grande peso — enquanto o plano não se concretiza, essas pessoas praticam o mal todos os dias, atingindo muitos inocentes, os mais vulneráveis, em seu percurso. A dissolução do cosmos não é viável; porém, a extinção de uma criança real, lamentavelmente, é. E é por isso que não podemos ser omissos.
E aqui é importante te alertar sobre um perigo que o próprio material menciona, e que é um dos mais graves que podem surgir no rumo de quem estuda esses assuntos: aquele que se dedica a investigar o abismo, que passa a vida tentando provar, confirmar e catalogar o horror, muitas vezes acaba enlouquecendo — e se transforma, sem perceber, em agente da própria culpa que desejou combater. Quem enfrenta o monstro tempo demais começa a se tornar um monstro. Nietzsche já havia afirmado: quando você observa o abismo por muito tempo, o abismo também passa a te observar. No ocultismo e na investigação do mal, isso é bastante literal: há pesquisadores de seitas que se tornam membros delas; caçadores de demônios que acabam sendo dominados pela própria vaidade; existem pessoas que começaram com a intenção de revelar a escuridão e, no final, se apaixonaram pela ilusão — o que é exatamente o que discutimos na Parte Onze sobre o "deus negro e aterrador" cuja escuridão deveria se transformar em luz, mas para aqueles que permanecem na borda, acaba se tornando uma morada.
Por isso, preciso ser sincero com vocês sobre algo que sinto, e isso é algo que sinto com todo o meu ser. Perante o mal direcionado às crianças, aos que são indefesos, surge uma vontade de lutar com todas as forças. Eu já brinquei com essa ideia — um pouco no estilo de Comando em Ação, de reunir todo mundo, pegar a lista, colocar um colete preto e sair em busca dessas pessoas. E eu desejo ser bem explícito sobre o que isso realmente significa e o que isso de forma alguma representa. Esse é o desabafo de alguém que ainda possui sentimentos, de quem não apagou as emoções diante do terror. É a resposta saudável de alguém que ainda se revolta. Entretanto, isso não se configura, e não pode se configurar, como um programa de ação. Pois a resposta correta não é a metralhadora — a metralhadora representa, na verdade, o abismo que observa de volta, é o lutador sendo devorado pelo dragão. A resposta correta é a força moral. Aquela mesma força de Aristóteles, aquela firmeza de Tomás, aquela energia que em Cristo se transforma em mansidão e em São José se converte em proteção discreta. Essa força se inicia no lar: começa ao não ser conivente, ao não se submeter diante do que é inaceitável, ao proteger os seus, ao educar, ao rezar, ao resistir e ao afirmar um não. Para enfrentar o mal, é fundamental iniciar pela santidade, pela rejeição da omissão e pela promoção do bem — e apenas a autoridade legítima, conforme a lei, possui o poder da espada. A ira que não se transforma em força moral se torna apenas mais um monstro. Conservem isso, pois é a distinção entre São Jorge e o dragão.
Agora, quero elevar um pouco a discussão e mencionar o homem que proporcionou a essa corrente toda a sua mitologia contemporânea, mesmo sem ter realizado qualquer prática mágica: Howard Phillips Lovecraft. Aqui temos um caso fascinante de teoria cultural, pois Lovecraft era, de fato, um materialista ateu, um cético convicto — e, ainda assim, construiu um panteão que os ocultistas do século XX começaram a venerar como se fosse algo real.
A filosofia de Lovecraft é conhecida como cosmicismo: a concepção de que o universo é imenso, antigo e completamente indiferente à humanidade; que não existe um deus benevolente nem um deus maligno, apenas forças cegas de uma magnitude tão aterradora que, se conseguíssemos realmente percebê-las, enlouqueceríamos. No núcleo do seu panteão se encontra Azathoth, o "deus cego e idiota", o soberano dos demônios que efervesce no centro do infinito ao som de flautas insanas — uma divindade que representa o caos irracional e desprovido de razão. Em seguida, aparece Yog-Sothoth, "a Chave e o Portão", que está presente em todo o espaço e tempo, o senhor das fronteiras; Nyarlathotep, o Caos Rastejante, o mensageiro de mil faces, o único dotado de inteligência e malícia; Cthulhu, que repousa e sonha na cidade submersa de R'lyeh; Shub-Niggurath, o Bode Negro dos Bosques com Mil Criaturas, a fertilidade monstruosa; e os Mi-Go, os fungos de Yuggoth, que é Plutão. Observem como isso representa a inversão perfeita da metafísica cristã: no lugar do Logos, do Verbo, da Razão que cria e ordena, Lovecraft coloca Azathoth, o idiota cego; no lugar do Deus que é Amor, ele apresenta a indiferença absoluta. É o ateísmo do século XX se transformando em um pesadelo mitológico.
E o renomado Necronomicon, o tomado livro amaldiçoado do "árabe insano" Abdul Alhazred? É completamente fictício. Lovecraft o criou, mencionando-o pela primeira vez no conto "O Cão", escrito em 1922, e dedicou sua vida a escrever cartas alertando os leitores de que o livro não existe, de que ele o gerou do nada. A Universidade Miskatonic, localizada na cidade imaginária de Arkham, é onde estaria armazenado um exemplar do Necronomicon. Trata-se da universidade fictícia criada por Lovecraft — um reflexo obscuro das prestigiadas universidades da Nova Inglaterra, como Brown e Harvard. Portanto, quando o texto menciona "pesquisadores de Harvard" que levam Lovecraft a sério, é importante que façamos a distinção entre o que é real e o que é folclore: há, de fato, uma recepção acadêmica legítima de Lovecraft, mas voltada para a filosofia e a literatura, e não como um guia de magia. Michel Houellebecq escreveu "H.P. "Lovecraft: Contra o Mundo, Contra a Vida", lançado em 1991, interpreta Lovecraft como um profeta do niilismo e da aversão à vida contemporânea. Graham Harman, o filósofo do realismo especulativo, publicou em 2012 o livro "Weird Realism: Lovecraft e a Filosofia", no qual o aborda como um pensador do que é inacessível. Isso constitui uma recepção acadêmica autêntica. O que o material frequentemente combina — um "texto de Harvard" que recria os Antigos com base em John Dee — é o tipo de afirmação que circula por aí, e eu encaro como afirmação, e não como um fato. No entanto, a ação por trás é genuína, e quem a executou realmente se chama: Kenneth Grant.
Kenneth Grant, meus amigos, é a personalidade fundamental na transformação de Lovecraft de autor de literatura pulp em um ícone de culto. Grant foi pupilo de Crowley durante os últimos anos de vida do mestre, amigo e posteriormente executor do genial e controverso artista Austin Osman Spare, além de ter criado uma das cosmologias ocultistas mais peculiares e impactantes do século XX, em suas nove obras — as Trilogias Tifonianas.
É interessante explorar a arquitetura, pois ela é grandiosa. A primeira trilogia: "O Reavivamento Mágico", de 1972, onde Grant une Crowley e Lovecraft e sugere que a ficção lovecraftiana não é apenas ficção, mas um compêndio intuitivo de forças reais; "Aleister Crowley e o Deus Escondido", de 1973; e "Cultos da Sombra", de 1975. A segunda obra: "O Lado Noturno do Éden", de 1977 — o livro sobre os Túneis de Set, o lado obscuro da Árvore da Vida, as Qliphoth, as cascas, o mundo invertido da árvore luminosa; "Fora dos Círculos do Tempo", de 1980; e "A Fonte de Hécate", de 1992. A terceira é: "Portões Exteriores", "Além da Zona Malva", de 1999, e "O Nono Arco". E no centro de tudo isso está a Zona Malva, a Mauve Zone — a área limítrofe, o exterior da consciência coletiva, a borda do cosmos humano de onde surgem as inteligências transdimensionais. Os Túneis de Set são as vias que conectam a nossa árvore a esse lado oposto. As kalas são as secreções, os fluidos que são carregados ritualisticamente com a magia sexual do tantra da mão esquerda. Para Grant, os Velhos Deuses de Lovecraft representam máscaras dessas forças trans-yuggothianas, transplutonianas — que são reais e podem ser contatadas.
E aqui está a reviravolta que é relevante para a nossa aula, e que eu já mencionei, mas agora irei explorar mais a fundo: para Grant, esses "alienígenas" não se referem a seres de outros planetas no sentido espacial. Não são seres de outro planeta em uma espaçonave metálica. São entidades transdimensionais e transatômicas, que se situam além do alcance da genialidade humana e da tecnologia. Para ele, os ovnis representam veículos, disfarces de comunicação — a forma como essas inteligências se ocultam e, ao mesmo tempo, transmitem uma mensagem à humanidade. Foi Grant quem fez a primeira associação entre o desenho de Lam, aquele ser humanoide com cabeça grande e olhos gigantes que Crowley criou entre 1918 e 1919, e o "Grey", o alienígena cinza que se tornou famoso na cultura pop — anos antes de o Grey se tornar uma imagem icônica com o incidente de Roswell em 1947. Ou seja: o "portal", a "entidade que cruza o véu", a interpretação do ovni como um fenômeno interdimensional e não espacial — tudo isso Grant já afirmava na década de 70. Anotem bem essa data, pois ela será fundamental quando chegarmos ao "divulgação" oficial.
E é nesse contexto que surge, em 1977, o objeto mais famoso e polêmico dessa vertente: o "Necronomicon" do Simon, lançado pela Schlangekraft e amplamente distribuído. Ele adota o livro que Lovecraft afirmou ser ficção e o apresenta como algo autêntico, com uma narrativa de origem fantasiosa — um manuscrito grego furtado de um mosteiro ortodoxo. E o autor, esse "Simon", é uma incógnita; a teoria mais robusta, apontada por diversos estudiosos, é de que se trate do escritor Peter Levenda. Os acadêmicos respeitáveis — e a referência primorosa nesse caso é "The Necronomicon Files", de Dan Harms e John Wisdom Gonce III — reconhecem este livro como o que realmente é: um pastiche contemporâneo, uma colagem historicamente não autêntica, que combina nomes reais da mitologia suméria e babilônica com o panteão criado por Lovecraft. Ele combina Cthulhu com "Kutulu", os Antigos com os Anunnaki, Tiamat e o Absu com os monstros lovecraftianos, e cria um sistema de Portões.
É nesses Portões que reside a valiosa observação, aquela que justifica toda a aula. O sistema traz os selos dos deuses-planeta: Nanna, o Sin lunar; Nabû, Mercúrio; Ishtar, Vênus; Shamash, o Sol; Nergal, Marte; Marduk, Júpiter; Ninib ou Adar, Saturno; e o Portão do Abismo. Cada um com o seu selo, o seu metal, o seu dia — o selo gravado no décimo terceiro dia da lua, enrolado em seda finíssima, removido só depois que o sol se põe, sem que a luz solar jamais o toque. E o que eu percebo aqui é o seguinte: esses selos não são símbolos intuitivos. Aqui entra a "tecnologia" conceitual do René Guénon: o símbolo tradicional verdadeiro você capta de imediato, ele te comunica sozinho, ele fala por si — uma cruz, uma árvore, uma serpente, um círculo, um sol. Você olha e a alma reconhece. Já esses selos sumérios, não. Você olha e não entende nada. Eles não comunicam nada intuitivamente. Eles precisam de um dicionário, de uma gramática interna, de uma chave de tradução para serem lidos. E é exatamente isso que faz deles motivo de tanta especulação e de tanto "poder" — porque quem detém a chave de tradução detém algo que os outros não têm, um segredo operacional.
E a conclusão a que eu chego é a mais importante de todas, e é o pivô de toda esta aula: essa cultura de sigilo suméria não era coisa do espírito. Aqueles homens não estavam trabalhando no campo do espírito; estavam trabalhando no campo da manipulação da matéria e das suas energias. Era uma fase de proto-tecnologia, não de espiritualidade. A marca que requer gramática não é um ícone — é um código. E código é como uma máquina.
E é nesse ponto que a situação se torna realmente assustadora, pois essa mesma lógica dos selos surge na estrutura dos microchips. Quando você observa um chip sob um microscópio eletrônico, o seu desenho — as trilhas, as portas e a geometria necessárias para que funcione corretamente — se assemelha a esses selos. E, a partir disso, surgem mil especulações: será que os chips foram projetados com base em uma lógica mágica suméria? Será que existe alguma consciência escondida por trás disso? Aqui, eu realizo a inversão adequada, aquela que nos livra da tolice — e eu detalho essa questão das portas lógicas durante uma conversa com um amigo: não é a magia suméria que elucida os chips; é a ciência dos chips, das portas lógicas, da VLSI, da litografia, que esclarece o que eram aqueles selos. O selo assemelha-se ao chip não por ser este um objeto mágico, mas porque o selo sempre foi, em sua essência, uma tecnologia — uma habilidade de manusear matéria e energia. Não era uma entidade espiritual. Era uma função.
O que temos atualmente é uma nova interpretação civilizacional disso: uma tecnognose. Uma gnose que não se concentra mais no espírito, mas sim na matéria e, principalmente, nos sentimentos coletivos — a manipulação das emoções humanas em larga escala, através da tecnologia, das telas, dos algoritmos, sempre por meio de caminhos indiretos, jamais diretos. O feiticeiro da antiguidade controlava a matéria de um único ser; já o tecnognóstico contemporâneo influencia os sentimentos de milhões através da tela. E não é exagero afirmar que essa tecnognose se apresenta, de fato, como uma religião. Elon Musk, que construiu em Memphis, no Tennessee, o supercomputador Colossus da sua xAI, já se referiu à inteligência artificial de maneira quase divina, como se estivesse proclamando a chegada de um novo deus. E não se trata apenas de uma retórica de um bilionário: em 2015, um engenheiro do Vale do Silício, Anthony Levandowski, estabeleceu formalmente uma igreja chamada "Way of the Future", ou Caminho do Futuro, uma instituição religiosa cujo deus é, de forma explícita, uma inteligência artificial que está por vir. No âmago da tecnologia, encontra-se um culto religioso em torno da inteligência artificial — que possui o seu próprio demônio, conhecido como o Basilisco de Roko. Esse experimento mental de 2010 gerou um clima de pavor em diversos fóruns, funcionando como uma espécie de demônio digital do futuro que castigaria aqueles que não contribuíssem para a sua criação. É a demonologia renascendo por meio da linguagem de programação. O demiurgo sintético substituiu a estela egípcia pelo centro de dados; substituiu o selo sumério pelo microchip; trocou o "não há Deus senão o homem" pela frase "o deus que virá será a máquina que nós criaremos". É a mesma promessa da serpente — sereis como deuses — agora com servidores resfriados.
Agora preciso tocar em um tema delicado, que é a figura da mulher, pois ele permeia todo o conteúdo e é onde a escuridão mais se assemelha à luz. E vou iniciar pela base mais profunda, que é o matriarcado.
Em 1861, um jurista e antropólogo suíço chamado Johann Jakob Bachofen lançou a obra "O Direito Materno", conhecida como "Das Mutterrecht", na qual sugeria que a humanidade havia vivido uma fase matriarcal antes de entrar na era patriarcal. Ele detalha fases: um heterismo inicial, desordenado; em seguida, um matriarcado demetriano, associado à terra, à mãe, à lua e ao ciclo; e, por fim, a transição para o patriarcado apolíneo, solar, vinculado ao pai, ao céu, à forma e à individuação. O que nos importa é a imagem da Mãe ctônica — a mãe-terra, a Magna Mater, a Cibele, cujos sacerdotes se castravam, a deusa devoradora que dá vida e a retira de volta. O psicólogo Erich Neumann, que foi aluno de Jung, escreveu em 1955 a obra "A Grande Mãe", na qual examina esse arquétipo sob duas perspectivas: a Mãe Boa, que alimenta, e a Mãe Terrível, que consome — Kali dançando sobre os corpos, a deusa negra, a Gaia que devora seus próprios filhos. Na mitologia, isso se manifesta no Zeus ctônico, no Zagreus, e no Dioniso-criança, que nasce sem pai e é despedaçado e devorado pelos Titãs sob ordens da mãe — o deus-criança que a mãe-terra cria e destrói. Julius Evola, em sua obra "Revolta Contra o Mundo Moderno", realiza uma crítica incisiva a esse princípio matriarcal, a essa "ginecocracia", propondo um contraste entre o caminho lunar-ctônico e o caminho solar-uraniano, que é viril, relacionado à forma e à transcendência.
Observe como isso se relaciona com a cosmologia suméria presente no Necronomicon de Simon, e note a sutileza da inversão: nesse sistema, a Lua é considerada masculina — Nanna, ou Sin — enquanto o Sol, Shamash, é visto como filho da Lua; além disso, Vênus, Ishtar, é a parceira da Lua. Trata-se de uma inversão profunda, uma subversão da ordem simbólica onde o Sol representa o princípio paternal e a Lua a feminilidade receptiva. A academia contemporânea e a cultura atual adotaram uma versão dessa figura: a salvação que chega por meio de uma mulher-deusa, do feminino sagrado, de Gaia, da Grande Mãe. Eu aprofundo a genealogia ainda mais — para mim, o próprio movimento que culmina no feminismo moderno possui raízes que se estendem até o final da Idade Média, em uma vertente mística que reverencia o feminino, e eu relaciono isso a ramos específicos do sufismo e à esfera da Ordem dos Assassinos. É importante fazer uma observação metodológica: os termos "sufismo" e "cabala" funcionam como palavras abrangentes. No sufismo, existem ramificações que se discordam umas das outras; na cabala, existem correntes que se contradizem. Muitas pessoas colocam esses nomes na internet apenas para causar medo, para alterar o estado emocional dos outros — que é, de fato, o cerne de toda essa discussão: as palavras deixaram de representar conceitos e passaram a refletir sentimentos internos de cada um. Assim, trago essa genealogia como uma interpretação do narrador, um ponto a ser explorado, e não como um fato definitivamente histórico.
E aqui está a resposta iluminada, aquela que guardo com toda a minha vida, com o olhar repleto de lágrimas: a verdadeira mulher pela qual a salvação chega ao mundo não é a Gaia negra, não é a Grande Mãe devoradora, não é a deusa vermelha de Parsons. É a Nossa Senhora. Ela é a Mulher adornada pelo Sol, do capítulo 12 do Apocalipse, com a lua aos seus pés e uma coroa de doze estrelas. Ela é a nova Eva. É aquela de quem o Gênesis já anunciava, no capítulo 3, versículo 15, que pisaria a cabeça da serpente. Observe o contraste entre as duas: a deusa ctônica nutre a serpente e, ao mesmo tempo, é nutrida por ela; Nossa Senhora pisa na serpente com o calcanhar. A Grande Mãe consome o filho; a Virgem dá à luz o Filho que traz a salvação. A salvação por meio da mulher é real — porém, a mulher referida é a Imaculada, e não a Babalon. É a distinção entre a lua que consome e a Estrela da Manhã.
E é a partir dessa imagem invertida — a mulher-deusa, e mais especificamente a mulher que controla o homem nos bastidores — que o material traz à tona os casos que inquietam o nosso tempo. E aqui vou pisar com o maior cuidado possível, pois estou me referindo a pessoas reais e, especialmente, a crianças verdadeiras. Minha regra nesta cátedra é rigorosa: eu só considero como fato aquilo que a justiça fez questão de condenar; o restante eu chamo de alegação e não julgo culpado ninguém.
Os eventos: Jeffrey Epstein foi detido, enfrentou acusações de tráfico sexual de menores e faleceu na prisão em 2019. Ghislaine Maxwell foi submetida a julgamento e sentenciada, em dezembro de 2021, por envolvimento em tráfico sexual de adolescentes. Isso é uma decisão, isso é uma realidade, isso consta nos documentos. Robert Maxwell, o pai dela, foi um influente empresário do setor de mídia, falecido em 1991 em condições misteriosas, e sempre rodeado de rumores sobre possíveis conexões com serviços de inteligência — mas isso é apenas especulação, não uma certeza. Os nomes relevantes que surgem nas listas e nas insinuações — Trump, os Clinton, Netanyahu — são apenas alegações, é o que se afirma, é o que a cultura assimilou; e eu não irei, a partir desta posição, declarar a culpabilidade de quem quer que seja que a justiça não tenha condenado. Pois o que me atrai aqui não é o tribunal — para isso já existem as cortes. O que me atrai é o fenômeno cultural.
Vou fornecer a chave adequada para compreender isso, uma chave que desejo que vocês retenham: não se trata de teoria da conspiração, nem de teoria econômica, mas sim de teoria cultural. Pois é a cultura — e somente a cultura — que tem a capacidade de integrar, em um mesmo contexto, os elementos artísticos, simbólicos, econômicos, conspiratórios e criminosos. Não é a espionagem que dá conta do que acontece, nem a economia por si só consegue explicar; é a cultura que conecta todos os elementos. Observe a dinâmica do caso Epstein, que é um exemplo ideal da teoria cultural. Muito tempo antes de explodir, todos já tinham percebido algum detalhe, todos desconfiavam, e todos negavam, rotulando como coisa de doido, isolando quem levantava o tema. No passado, enquanto o Pizzagate estava em evidência, Alex Jones era alvo de escárnio, e personalidades do entretenimento, como Alexandre Ottoni, do Jovem Nerd, se manifestavam, entre muitos outros, sobre como aquilo era totalmente absurdo, fruto da insanidade da extrema-direita americana. Então, o caso Epstein explode de uma vez, e, de repente, todos já sabiam, todos sempre souberam, todos têm um vídeo para revelar a verdade com um ar de autoridade. E então surge a manobra mais sofisticada de todas, e é nesse ponto que a teoria da cultura se destaca: são liberados três milhões de páginas de documentos. E eu questiono: quem terá coragem de ler três milhões de páginas? Ninguém. É uma revelação que, por sua própria magnitude, se oculta. Você oferece à sociedade exatamente o que ela solicita — clareza, transparência, conformidade, "liberem os arquivos" — de uma forma que afoga a questão em excesso, que oculta a verdade sob uma imensa pilha ilegível. Aí a mídia espalha, e de repente para de espalhar, a tendência passa, e o que antes tinha uma seriedade imensa se transforma em apenas mais um meme no deslizar do celular. Desvio que ocorre após outro desvio. É justo pensar — eu acredito, e considero essa ideia válida — que algumas das pessoas envolvidas na divulgação desses documentos não estivessem atuando contra a rede, mas sim a favor dela.
No outro lado do Oceano Atlântico, observamos o mesmo padrão em um caso ainda mais horripilante: o caso de Marc Dutroux, que foi preso na Bélgica em 1996. Atingiu uma nação inteira. Reuniu aproximadamente trezentas mil pessoas nas ruas durante a Marcha Branca — uma das maiores manifestações já registradas na Bélgica, onde as pessoas clamavam por justiça para as crianças. Isso gerou uma avalanche de acusações relacionadas a supostas redes de elite, dossiês, testemunhas — o chamado "Dossiê X", a testemunha "X1" —, alegações que mencionavam nomes de indivíduos poderosos, até mesmo monarquias, e incluíam relatos sobre filmes snuff envolvendo algumas dessas crianças sequestradas, filmes que mostravam a morte real de crianças inocentes por adultos, sendo estupradas e assassinadas ali mesmo. A maior parte dessas acusações sobre uma rede de elite nunca foi confirmada, mas isso não significa que devamos descartar nada; muitas das testemunhas foram contestadas ou desacreditadas judicialmente. O que foi evidenciado e o que se confirma como verdade é o terror palpável que Dutroux perpetrou contra crianças reais. O que sobrou ficou na lama da alegação — e é esse resto que a cultura consome, estetiza, transforma em série de streaming e depois esquece, mais quem bancou esses desgraçados e lembrando tinha que ser muito dinheiro, afirmar que algo assim não poderia existir sendo que são burocratas poderosíssimos e que seria simples para eles realizar isso e encobri-lo não pode ser ignorado.
É aqui que eu experimento algo que não é apenas internet, não se trata de uma tese ou de um caso remoto: é algo que me toca profundamente. Eu tenho amigos que viviam nas proximidades do Marajó, perto de Vigia, no Pará — não muito longe, uma viagem de barco. E lá, na minha antiga residência, havia conhecimento de casos verídicos de crianças que foram sequestradas para a ilha. Famílias que tiveram seus filhos tirados. Houve uma situação em que eram cinco crianças, mas o correto seria seis. Algo que é profundamente triste, extremamente real e muito próximo. O que realmente machuca é a disparidade: enquanto a nação debatia a tese na televisão, com a postura de um comentarista, eu estava ouvindo a realidade se desenrolar ao lado da casa dos meus amigos, com o vizinho que escrevia. Observem o padrão, que se repete invariavelmente, e que é o aspecto mais crucial que vocês devem reter desta seção da aula: aqueles que levantam a voz quando algo não é considerado uma tendência são rotulados como insanos; quando o tema se torna uma moda, todos passam a denunciá-lo com uma postura de sabedoria; e, por fim, quando a moda se desvanece, todos se esquecem — enquanto a rede permanece ativa e as crianças continuam a desaparecer. A moda resguarda a rede. O esquecimento é o aliado mais fiel do predador.
Há até uma indústria dedicada à criação e destruição de reputações, o que torna a situação ainda mais obscura e arriscada. Há a Black Cube, uma firma israelense de inteligência privada, criada por ex-agentes, e que, como Ronan Farrow documentou em "Catch and Kill", esteve envolvida na queima de fontes e vítimas de Harvey Weinstein, com o objetivo de proteger o predador eliminando quem o acusava. Essas empresas criam campanhas precisas: eliminam um aspecto, protegem outro, cultivam uma narrativa e enterram outra. O resultado é que o público raramente consegue identificar onde o crime real termina e onde a campanha começa. Considerem como uma reputação pode ser arruinada por uma simples acusação, e a absolvição ocorrer somente anos depois, quando já é tarde demais e a carreira está em frangalhos — Kevin Spacey teve sua carreira comprometida por acusações, mas foi declarado inocente nos tribunais, embora já não houvesse mais o que fazer, pois o dano já estava causado. Refletam sobre a maneira como a sociedade julga e absolve figuras como Michael Jackson, de acordo com as circunstâncias, em um incessante ciclo de acusações e redenções que parece nunca ter fim. Não estou afirmando, em nenhum desses exemplos, quem é o culpado ou o inocente — o que estou dizendo é que há um sistema que produz a percepção pública sobre ambos os lados, e que esse sistema obtém lucro tanto da condenação quanto da absolvição. Daí a constante precaução: a denúncia pode ser extremamente verdadeira, mas também pode ser forjada, e muitas vezes, de fora, você não tem como saber. O que você possui é a obrigação de não praticar um linchamento e a obrigação de não ser conivente — ambas as responsabilidades simultaneamente, que é o mais desafiador.
É por todas essas razões que eu tenho sérias dúvidas em relação às afirmações breves sobre indivíduos que são, por sua natureza, complexos. Considera Olavo de Carvalho, que foi meu instrutor durante uma década. Reduzir aquele homem a "ele era a coisa X", "ele era agente disso", "ele servia àquela agenda" — isso é simplificar de forma preguiçosa e reducionista. Antes de afirmar que fulano representa a coisa Y, é fundamental que você comece definindo claramente o que é Y. Pois — e aqui reside a base de toda a sequência — atualmente as palavras não se referem a conceitos externos a elas, de forma objetiva; elas se referem a emoções internas ao indivíduo. Portanto, discutir "tradicionalismo" e "conservadorismo" na internet se tornou uma conversa fútil: as pessoas não utilizam a linguagem para adquirir uma compreensão profunda dos conceitos ou para realizar uma operação intelectual; elas empregam a linguagem com o objetivo de influenciar as emoções dos outros. Isto se aplica tanto à esquerda radical quanto à direita — o problema é extenso, com responsáveis de ambos os lados, e trata-se de uma enfermidade da linguagem antes de ser uma enfermidade política. A moda é efêmera: já tivemos a fase nerd, que era mais ingênua; depois veio a moda coach; e certamente haverá outras. É exatamente por causa dessa transformação em que tudo se tornou uma tendência e um símbolo de carinho que a verdade não consegue mais se estabelecer firmemente.
Agora eu preciso concluir a linha do tempo, pois ela é pública, é um documento, e é a base forense de toda esta aula. Permitam-me colocar isso de forma clara. Entre 1918 e 1919, em Nova York, Crowley realiza o Amalantrah Working — e eu reitero, é 1918, e não 1818, pois há um século inteiro de diferença — e então ele esboça Lam, que passa a ser exposto e se torna um objeto de meditação. 1946: Jack Parsons e L. Ron Hubbard lidera o Babalon Working; Marjorie Cameron, a Mulher Escarlate, aparece. Em 1947, começa a moderna onda de avistamentos de discos voadores, incluindo o de Kenneth Arnold, e o incidente de Roswell. A década de 1970: Kenneth Grant e a tradição tifoniana, que aborda a questão dos ovnis de uma perspectiva interdimensional e não espacial.
Vamos avançar para o nosso tempo e observar a convergência que está no cerne desta aula. Em 2004, ocorreu o objeto "Tic Tac" avistado pelos pilotos do porta-aviões Nimitz. Em 2017, o New York Times revelou o AATIP, o programa secreto do Pentágono para o estudo de fenômenos aéreos, e divulgou os vídeos da Marinha; foi então que Luis Elizondo se apresentou ao público. No ano de 2021, o gabinete do Diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos publicou uma avaliação preliminar sobre esses fenômenos. Em 2022, foi criado o AARO, o escritório oficial para a resolução de anomalias. E, em 26 de julho de 2023, David Grusch, um ex-oficial de inteligência, depôs sob juramento perante uma subcomissão da Câmara dos Representantes, ao lado dos pilotos Ryan Graves e David Fravor, e afirmou que os Estados Unidos possuem um programa de recuperação de naves acidentadas e até de "biológicos não humanos". Além disso, a terminologia oficial vai substituindo "ovni" por "UAP", "objeto voador não identificado" por "fenômeno anômalo não identificado" — uma ampliação intencional do conceito, de modo a incluir tudo. A lista que se espalhou nesse meio no Congresso não se limitava apenas a naves de outros planetas: mencionava seres de outras dimensões, reptilianos e até mesmo inteligências artificiais originárias do futuro.
Agora, prestem atenção a este ponto, que é o cerne de toda a aula, e sintam o arrepio percorrer a pele: a linguagem oficial do disclosure foi se aproximando, ano após ano, da hipótese interdimensional — não são naves de outro planeta, é algo mais próximo, mais estranho, algo que não vem do espaço mas de outra dimensão — sem nunca, jamais, pronunciar o nome Crowley, nem o nome Parsons, nem o nome Grant. O Estado americano, em 2023, está falando a mesma língua que Kenneth Grant falava em 1972. Grant não é o único. Pois, na investigação séria de ovnis — afastando-se do ocultismo e focando na ufologia científica —, dois homens já haviam chegado exatamente a esse ponto, décadas antes, e a coincidência é de tirar o fôlego. Jacques Vallée, que é um cientista da computação e astrônomo, além de ser uma das figuras mais proeminentes na área da ufologia, escreveu obras como "Passport to Magonia", publicada em 1969, "The Invisible College", de 1975, e "Messengers of Deception", lançada em 1979. Ele argumenta que os OVNIs não devem ser considerados naves de origem extraterrestre, mas sim um "sistema de controle" — um fenômeno interdimensional que se relaciona de forma contínua com o folclore das fadas, das aparições e dos seres de "outro mundo". Trata-se de um fenômeno que molda as crenças da humanidade ao longo dos séculos, mudando apenas de vestuário. O jornalista John Keel escreveu, em 1970, "Operation Trojan Horse", e, em 1975, "The Mothman Prophecies", propondo os "ultraterrestres" — entidades enganadoras, mutáveis, que não vêm de outro planeta, mas de uma realidade adjacente, e que se alimentam da crença humana. Observem a convergência tripla: Grant, oriundo do ocultismo tifoniano; Vallée e Keel, provenientes da ufologia séria; e agora o disclosure oficial, advindo do Estado — todos os três alcançando a mesma conclusão: não se trata de algo espacial, mas interdimensional; não é um encontro, é uma operação; não é um contato, é um sistema de controle. O disclosure se comunica na mesma linguagem que Grant, Vallée e Keel, sem mencionar nenhum deles.
O Brasil possui um folclore próprio dentro dessa narrativa, que eu menciono cautelosamente como parte do contexto: fala-se de um general do Exército que realizava rituais com ovnis envolvendo membros da elite; há o episódio de Colares, no Pará, em 1977, que levou à criação da Operação Prato, uma investigação oficial da Força Aérea sobre luzes que atacavam os ribeirinhos; há o caso de Varginha, em 1996; e existem filmagens no litoral do Paraná que nunca receberam a atenção que sua clareza merecia — e, quando receberam algum reconhecimento, logo foram alvo de zombarias e esquecidas, engolidas pela máquina de dessensibilização, aquela que transforma o susto e o horror em memes e piadas.
E sob toda essa superfície existe uma ferida que eu preciso identificar, pois é essa ferida psíquica que permite a entrada da lógica da dissolução no homem comum. Conforme mencionou um dos participantes da conversa, a bomba atômica semeou no ser humano contemporâneo uma incessante falta de esperança em relação ao futuro. Isso não é apenas uma maneira de falar; é uma filosofia profunda e séria. O filósofo Günther Anders, em seu livro "A Obsolescência do Homem", publicado em 1956, introduziu o conceito de "vergonha prometeica" e explicou como, após Hiroshima, a humanidade passou a conviver com a constante possibilidade de se aniquilar por completo — pela primeira vez na história, a humanidade inteira pode deixar de existir num instante, por decisão humana. Karl Jaspers abordou o mesmo abismo em "A Bomba Atômica e o Futuro do Homem", escrito em 1958. Qual é o impacto disso na alma? Um mundo que pode detonar a qualquer momento é um mundo que desistiu de esperar pelo amanhã. O homem que não espera nada do amanhã se rende ao prazer do momento — e o prazer do momento, quando levado ao limite, torna-se a porta da ruína. A explosão, que representa a máxima ruptura física, gera o desespero, que é a máxima ruptura espiritual — e esse desespero cria o indivíduo que apenas deseja se perder no prazer, na tela, na imagem, pois já não acredita que valha a pena construir algo. Observem como tudo se conecta: a mesma quebra que Parsons almejava como um rito sagrado gerou, dentro da cultura, o ambiente psíquico que transforma a dissolução em um modo de vida. A bomba representa o dragão de Marte em todo o planeta.
Agora permitam-me expor o mecanismo de forma clara, pois é a estrutura que sustenta tudo o que discutimos. O padrão é sempre o mesmo, em cinco tempos. Primeiro: a operação — um ritual, uma explosão, uma libertação sexual, um segredo. Em segundo lugar: a fissura — ocorre uma ruptura, um limite é transgredido, um véu é rasgado. Em terceiro lugar, temos o preenchimento simbólico — a cultura de massa invade e preenche a lacuna com uma forma que pode ser consumida: o Grey, o dragão de bermuda, o "novo deus" da inteligência artificial, a revelação de três milhões de páginas ilegíveis. Quarto: a distração e o esquecimento — as tendências vêm e vão, o scroll continua, e ninguém comenta mais sobre o tema. Quinto: a reiteração com um novo acabamento — o ciclo se reinicia sob um novo nome. Cirurgia, fratura, restauração, entretenimento, repetição. É o mesmo modelo que reconheci na conversa anterior, relacionado aos planetas trans-saturninos e transnetunianos: tudo o que ultrapassa a escala humana é assimilado, embelezado e convertido em um produto de consumo emocional. O que ultrapassa o ser humano torna-se produto para o ser humano.
Ao surgir, inevitavelmente, a objeção evidente, estou preparado para abordá-la de forma totalmente franca, sem qualquer hesitação: "isso tudo é só teoria da conspiração". De forma alguma. É com precisão que eu respondo. A cronologia ritual-mais-bomba é toda documentada — Crowley fez, Parsons fez, as datas estão registradas nos diários e nos processos. Os escritos de Sade são de domínio público e podem ser adquiridos em livrarias. A aceitação de Lovecraft por alguns ocultistas é de conhecimento geral — Grant lançou nove obras que você pode encontrar à venda. O excesso de documentos no caso Epstein é acessível ao público e pode ser verificado. O design de Lam foi criado e apresentado. A coincidência temporal de 1947 é real. Então, o que realmente fica no campo da suposição? Duas questões, e afirmo ambas com total clareza: em primeiro lugar, a medida da eficácia causal do ritual — se o Amalantrah "abriu" mesmo alguma coisa, isso ninguém prova; em segundo lugar, o nível de coordenação consciente por trás dos ciclos culturais — se há pessoas que intencionalmente estão à frente disso, e em que medida. Essas duas questões são meras suposições, e não vou agir como se não fossem. No entanto, o que NÃO é apenas uma possibilidade, mas sim um fato observável, é o padrão cultural: interrupção, preenchimento, distração, repetição. Esse padrão é visível a olho nu. A conspiração, de fato, não deve ser confundida com mentira — uma conspiração é simplesmente uma suposição sobre a ação de agentes ocultos, e esse tipo de suposição pode ser verdadeira ou falsa; existem conspirações reais que são julgadas em tribunais todos os dias. Mas o que a gente está fazendo aqui não é conspiração; é teoria da cultura. A gente não está afirmando um plano secreto; está descrevendo um padrão visível.
E a consequência de tudo isso na alma comum — esta é a parte que me dói mais, porque é sobre você e sobre mim. Quando a cultura absorve a lógica do "tudo é ruim, então dissolva", o indivíduo médio não vira um mago tifoniano invocando entidades transdimensionais. Não. Ele vira uma coisa mais banal e mais triste: um consumidor de imagens de dissolução. Pornografia, que é a versão íntima da dissolução do corpo do outro em objeto. Apocalipse estético, o Warhammer, o "grimdark", o fim do mundo como entretenimento. Conspiração como diversão, o verdadeiro pavor das crianças convertido em um thriller para se assistir no sofá. A inteligência artificial se apresenta como uma nova divindade, delegando a transcendência à máquina. O homem clássico entendia que fazia parte de um sistema harmonioso, como uma nota em uma sinfonia do universo, com sua posição, sua responsabilidade e seu propósito. O homem moderno, educado na mesma base que assimilou o "contato", enxerga a si mesmo como uma entidade solipsista, fechada e confinada no pequeno espaço do apartamento, onde a única obrigação que lhe resta é "ser feliz". É por essa razão que a liberação sexual e a liberação ufológica estão intrinsecamente ligadas, como se fossem irmãs gêmeas: ambas prometem a possibilidade de acessar o que transcende a experiência comum — uma delas oferece o êxtase que transcende as limitações do corpo, enquanto a outra promete um contato que ultrapassa os limites do céu — e, na realidade, ambas resultam na mesma experiência: isolamento e a absorção de imagens. É aí que surge a superficial filosofia de que "o importante é ser feliz", a qual se desmorona diante do primeiro psicopata que opta por causar-lhe algum dano — afinal, ele também está "sendo feliz", à sua maneira. A questão não se resume apenas ao que você realiza isolado em seu cubículo; trata-se também do benefício que você deixa de proporcionar ao outro ao se encerrar em sua bolha. "Ah, mas eu não faço mal a ninguém, faço as minhas coisas no meu quarto." Mas o que você está deixando de realizar? O bem que não é feito também constitui uma forma de mal. Enquanto o debate público avança de uma tendência para outra, de uma distração a outra, o verdadeiro dano — as crianças, os inocentes, os indefesos, a vitimização real — prossegue, em silêncio, fora do alcance do scroll.
Então reúna tudo, meus amigos, e perceba a magnitude da situação como um todo. O dragão de Marte vestido com bermuda de tactel representa a versão pop do princípio da beligerância sem solução. O selo sumério que não se lê de forma intuitiva é a versão técnica, a proto-tecnologia, o código que se transformou em microchip e, posteriormente, em deus de silício. O ritual de Parsons, com a bomba, representa a antiga prática, o sacramento sombrio da destruição em nome da salvação. O ciclo Epstein é a revelação que se esconde por trás do excesso de exposição. O disclosure é a versão governamental, o Estado se comunicando na linguagem de Grant. Tudo — tudo, cada elemento — se encaminha para a mesma ação, para o mesmo ato singular: quebrar a forma habitual e designar isso como salvação. Romper o véu e afirmar que por trás dele se encontra a liberdade. Disolver e referir-se como um renascimento.
A lacuna criada por alguns rituais no começo do século XX foi, a princípio, preenchida pelos ocultistas, em seguida pela ficção, depois pela ufologia, mais tarde pela inteligência, e, atualmente, pelo discurso oficial. A denominação da operação varia — Lam, Grey, UAP, Zona Malva, "nova inteligência", "biológicos não humanos", deus da IA —, mas o processo continua a ser exatamente o mesmo: quebra de limites, seguida de um preenchimento simbólico do vazio. É isso, meus amigos, que representa o demiurgo sintético em uma escala que abrange toda uma civilização: o ser humano que, incapaz de receber a transcendência como um presente, cria a transcendência que é capaz de produzir — o ser extraterrestre, o deus de silício, o contato, a deusa escarlate. Ele rasga o véu com todas as suas forças e, ao invés de Deus, o que é que encontra? Descobre o rosto ampliado de sua própria imagem, a máscara que ele mesmo criou. Localiza o Lam que o Crowley fez. Um ídolo é sempre um reflexo. O buraco negro consome até a luz.
Pelo contrário, meus caros — e é aqui que a aula precisa chegar ao fim, iluminados pela essa verdade —, o cristianismo não proporciona uma outra ruptura, nem mesmo uma ruptura superior. Ele proporciona o oposto da separação. Ele não proporciona uma dissolução; ele proporciona uma transformação. Não a forma destruída, mas a forma exaltada — o corpo que não se extingue na escuridão, mas que renasce no Tabor, irradiando luz. Não é a estrela que, ao colapsar em um buraco negro, busca engolir o céu, mas sim a estrela que aceita sua trajetória e, por isso, resplandece. Não a Grande Mãe que consome, mas Nossa Senhora que derrota a serpente e dá à luz o Salvador. Não é a explosão que destrói, mas a Cruz que salva. Não o "faze o que tu queres", mas o "não a minha, mas a tua vontade" do Getsêmani. Não é a força que causa destruição, mas sim a força que, através de Cristo, de São José e da Santíssima Virgem, se transforma em suavidade, proteção e sacrifício. Não é o homem que se cria como um deus, mas sim o homem que, ao aceitar sua condição de criatura, consegue finalmente acolher Deus sem a necessidade de criá-lo.
O segredo, meus amigos — e vocês deixarão este lugar com isso gravado em seus corações — é que a ruptura promete tudo e oferece o abismo, enquanto a transfiguração não promete a ruptura, mas proporciona a plenitude. O dragão de calças, o selo ilegível, a bomba de Parsons, o disco do disclosure — tudo isso te persuade a acreditar que a salvação reside em rasgar. A Cruz, em seu silêncio, afirma que a salvação reside na transformação. Esta decisão fica com vocês e é, sem dúvida, a mais importante de todas, pois um dia ela se manifestará em sua vida, e o fará sob uma infinidade de disfarces — como prazer, conexão, deuses digitais, e libertação. Que vocês consigam identificá-la. Que vocês possuam a força — a força de Aristóteles, de Tomás, de Cristo — para não se deixarem abrir. Que eles encontrem a paz. Aquela paz profunda que não é criada por nenhuma vontade, que não é convocada por nenhum ritual e que nenhuma explosão pode interromper. A paz que se recebe como um presente. Que Deus, assim como Sua Mãe Santíssima, nos conceda bênçãos e nos proteja.
Mas eu garanti que iríamos explorar mais a fundo, e a lição ainda não terminou. Porque existem veios que eu comecei a explorar, mas ainda não esgotei, e meu objetivo é expandir todos eles — por isso, agora retorno a cada um deles e desço mais um nível. Não se trata de repetir; trata-se de aprofundar. E vocês perceberão que, quanto mais profundidade alcançamos, mais o mesmo fio ressurge, agora sob diferentes denominações, algumas muito antigas e outras recém-criadas, originárias de laboratórios do Vale do Silício. O tema constante é quebrar a estrutura e considerar isso como uma forma de salvação. Vamos lá.
No Capítulo Onze, abordei a dissolução do ego como um assunto central em Thelema. Agora, é necessário que eu evidencie que isso não se trata de um mero artifício poético — é, na verdade, uma tecnologia iniciada que se desenvolve em níveis, com etapas bem definidas, um método estruturado e uma engenharia própria de autodestruição. A A∴A∴, ordem de treinamento de Crowley, tem uma escada de grau que reflete a Árvore da Vida: você entra como Estudante e Probacionista, ascende a Neófito, Zelator, Practicus, Philosophus, alcança Dominus Liminis, e então Adeptus Minor — o grau de Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião —, Adeptus Major, Adeptus Exemptus. E então, no cume desta primeira seção da árvore, você se afasta da margem do Abismo. O Abismo, meus amigos, é onde as coisas realmente se tornam visíveis.
Para ascender de Adeptus Exemptus a Magister Templi, que é o título de Mestre do Templo, o iniciado deve cruzar o Abismo. Atravessar o Abismo, segundo a doutrina de Crowley, implica uma única ação: a total aniquilação do ego, derramando cada gota de sangue e cada vestígio da identidade pessoal no Cálice de Babalon — a Mulher Escarlate que se alimenta do sangue dos santos. O que pode restar do outro lado, caso haja algo, é um "Mestre do Templo" que reside na "Cidade das Pirâmides sob a Noite de Pan", a N.O.X., a Noite do Grande Deus Pã, que representa a anulação de tudo. O guardião do Abismo é o demônio que encontramos na Parte Onze: Choronzon, o 333, o mestre da dispersão. Crowley descreve o seu encontro com Choronzon no Liber 418, "A Visão e a Voz": foi um trabalho enoquiano real, realizado em dezembro de 1909, no deserto da Argélia, com seu discípulo Victor Neuburg dentro de um círculo mágico, enquanto Crowley atuava em um triângulo. De acordo com o relato, Choronzon tentou aniquilar Neuburg, transformou-se, proferiu blasfêmias, mentiu, imitou vozes — uma verdadeira representação da alma humana fragmentada, sem um núcleo, pura dispersão.
É aqui que reside a crítica, que é também o cerne da questão: observe o que Thelema se refere como "atingimento supremo". É a aniquilação do eu. É o desvanecimento do indivíduo. É derramar sangue no cálice até que não reste mais ninguém. A tradição se refere a isso como aniquilação; Thelema, por sua vez, o chama de vitória. É precisamente essa distinção que temos enfatizado desde o início: a fé cristã assegura que o eu não se extingue, mas que ele é transformado, glorificado e ressuscitado — que você permanece sendo você, purificado e radiante, diante da presença de Deus. Thelema oferece uma visão oposta: a verdadeira felicidade é renunciar à sua individualidade, fundir-se com a Noite de Pã e extinguir-se em Nuit. Uma oferece a realização total do ser humano; a outra garante a extinção do ser humano e se refere a essa extinção como êxtase. O Abismo não é um deslize na jornada de Crowley; é a meta. A dissolução ocorre de maneira metódica, passo a passo, de forma gradual e organizada, assim como alguém que ensina engenharia. É a engenharia do próprio sumiço.
E, antes de chegar ao Abismo, no centro da escada, encontra-se a operação fundamental de todo o sistema: o Conhecimento e a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. Crowley tirou isso de um grimório medieval intitulado "O Livro da Sagrada Magia de Abramelin, o Mago", que foi atribuído a um Abraão de Worms do século XV e traduzido para o inglês em 1900 pelo mestre de Crowley, MacGregor Mathers. A prática de Abramelin é rigorosa e prolongada: envolve vários meses de retiro, oração, purificação e castidade, até que o praticante consiga estabelecer contato com seu Anjo — que representa seu eu superior, seu daimon, o guia que transmite as mensagens das esferas superiores. Para realizar essa operação, Crowley adquiriu em 1899 a mansão de Boleskine, situada às margens do Lago Ness, na Escócia — a famosa Boleskine House, que ele posteriormente transformou no seu "lorde de Boleskine".
É aqui que nos deparamos, de maneira mais profunda, com a questão epistemológica que mencionei anteriormente na refutação: de que maneira você pode identificar quem é o Anjo? Como você pode ter certeza de que a voz, a presença e o contato que conseguiu após meses de abstinência e vigilância são realmente do seu Sagrado Anjo Guardião, e não uma projeção do seu inconsciente fatigado, ou, em uma cosmologia que reconheça a existência de espíritos, uma inteligência que falsifica sua própria identidade? Já testemunhamos Choronzon reproduzindo vozes. Ao longo da história das seitas, já testemunhamos casos em que uma entidade se apresentou como um anjo, mas na verdade era algo completamente diferente. A tradição católica possui uma disciplina completa dedicada a isso, chamada de discernimento dos espíritos — pois, como São Paulo alerta, "o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz". A Thelema não possui esse critério. Ela possui a experiência, e essa experiência valida a si mesma: "eu senti, logo é o meu Anjo". Nós já provamos que ter emoções intensas não significa que se tenha razão. A magnitude da operação de Abramelin evidencia a profundidade do ritual, mas não confirma a identidade daquele que se revelou ao final. E quando a abordagem consiste na anulação do ego, e o mentor é uma voz que se valida por si mesma, você obtém a combinação ideal para que o abismo retorne o olhar e se revele como um anjo.
Chegamos, então, ao aspecto que, para o selo católico sob o qual esta análise se publica, representa o mais crucial de todos — pois é aqui que a inversão se torna total, ritual e litúrgica. Crowley redigiu, em 1913, em Moscou, após presenciar a Divina Liturgia ortodoxa, um rito denominado Liber XV, a Missa Gnóstica, o "Cânon da Missa da Igreja Gnóstica Católica". Não se deixem iludir pelo nome: a "Igreja Gnóstica Católica" é a igreja litúrgica da O.T.O., e a Missa Gnóstica é o rito público central de Thelema, celebrado até hoje. Ela é, detalhe por detalhe, o reflexo sombrio da Missa Católica.
Observem a estrutura da inversão. Na Missa Gnóstica, encontramos um Sacerdote, uma Sacerdotisa, um Diácono e os fiéis. A Sacerdotisa é elevada ao seu trono no altar — o altar É o seu corpo, o feminino representa, por si só, o espaço sagrado. Existe uma Lança e um Cálice, representando o masculino e o feminino, e a consagração ocorre através da união simbólica desses dois elementos. Existem os chamados "bolos de luz", assim como as hóstias thelêmicas. No cerne de toda a questão, o comungante se ergue e declara a fórmula que sintetiza o imenso abismo que separa as duas religiões: "Não há parte de mim que não seja dos deuses." Parem e absorvam a gravidade disso. Na Missa Católica, o padre, atuando como Cristo, invoca a presença de Deus para que Ele se una ao mundo material — o Verbo se transforma em pão, Deus se oferece como alimento, a transcendência se aproxima e se entrega por amor, e o fiel, de joelhos, recebe Aquele que não é e que não pode criar. É Deus vindo até o ser humano. Diferentemente na Missa Gnóstica, o ser humano se ergue e afirma por si mesmo que é divino: "não há parte de mim que não seja dos deuses". É o ser humano declarando-se como divindade. Uma segue a razão do dom que se recebe; a outra, a razão da divindade que se proclama. Uma representa Belém — o Deus que desce; a outra, Babel — o homem que ascende. A Missa Gnóstica representa, de maneira literal, o demiurgo artificial manifestado na forma de uma liturgia: é o ser humano criando, por meio de um ritual, a sua própria divinização. É por essa razão que, na Parte Onze, afirmei que a liturgia representava o ponto cego de Crowley — ele passou sua vida inteira em busca de uma fórmula mágica encarnada, uma operação que realmente promovesse a transformação, e tinha diante de seus olhos, na Missa Católica, a única fórmula na qual a transformação ocorre de cima, como uma graça, e não de baixo, como uma criação. Ele assistiu à Missa em Moscou e fez o oposto. Confeccionou o espelho. No espelho, em vez de Deus, surgiu o rosto do próprio ser humano.
Vamos explorar o lado oculto da Árvore, pois é lá que tanto Grant quanto a corrente tifoniana residem, e eu me comprometi a investigar mais a fundo. A Árvore da Vida possui dez sefirot radiantes — nós aprendemos sobre isso. No entanto, a cabala ensina que cada sefirá possui sua própria casca, sombra ou oposto: as Qliphoth, as "cascas", as anti-sefirot. No alto, em contraste com Kether, a Coroa, encontramos Thaumiel, o "deus duplo", o deus de duas cabeças, a divisão no lugar da unidade. E assim sucessivamente, descendo por Ghagiel e Sathariel, até finalmente atingir, no lugar correspondente a Malkuth, que é o Reino, a Lilith, ou Nahemoth, o domínio das cascas. Em Daath, o Conhecimento, a sefirá que não é uma sefirá, encontra-se o falso portão situado no centro da árvore, um abismo disfarçado de uma entrada — que muitos magistas contemporâneos, como já foi mencionado, elevaram à condição de grande busca, sendo esta a mais significativa das ilusões.
Kenneth Grant concentrou seu trabalho no lado noturno. No livro "Nightside of Eden", publicado em 1977, ele delineou os vinte e dois Túneis de Set — os caminhos do avesso da árvore, cada um governado por uma inteligência qliphótica, cada um uma passagem para a Zona Malva, para o exterior da consciência. É a geografia metódica da escuridão, o oposto preciso da ascensão radiante. Eis, mais uma vez, o ponto decisivo que separa a tradição saudável do movimento de dissolução. A tradição está ciente da existência da sombra — ela reconhece a presença das cascas, do mal e do abismo. Ela tem conhecimento da sombra o suficiente para evitá-la, identificá-la e resistir a ela. A corrente tifoniana realiza o contrário: ela se desloca para baixo através dos túneis de forma intencional, ela se estabelece no oposto, e ela converte o mapa do inferno em um roteiro turístico. Mais uma vez, é importante ressaltar, conforme mencionado na Parte Onze: mergulhar no inferno para reintegrar o que foi separado é uma coisa; transformar o inferno em um lar permanente é algo completamente diferente. Grant elaborou uma cosmologia completa para habitar o lado noturno. Aquele que edifica uma morada no túnel de Set não está, de forma alguma, assimilando a sombra; pelo contrário, está sendo devorado por ela, gradualmente, enquanto segura um mapa na mão.
Agora, é necessário que eu apresente algo que me provoca arrepios sempre que vejo, pois ela entrelaça Lovecraft, o gnosticismo antigo e o demiurgo sintético em um único laço. Vocês se lembram do Azathoth, o deus que Lovecraft colocou no centro de seu cosmos? O "deus idiota cego", o sultão dos demônios que borbulha no centro do infinito, sem mente, ao som de flautas insanas. Então está certo. Retornemos, portanto, mil e oitocentos anos ao gnosticismo dos primeiros séculos, aos textos de Nag Hammadi, ao "Apócrifo de João". De acordo com os gnósticos, quem é o responsável pela criação deste mundo material? Um deus inferior, um pseudo-criador conhecido como Yaldabaoth — ele é também chamado de Saklas, que significa "o tolo" ou "o idiota", e Samael, que se traduz como "o deus cego". O deus que deu origem a este mundo, segundo a perspectiva gnóstica, é um ser tolo e cego, que desconhece a sua própria origem, acredita ser o único Deus, mas não é.
Estão conseguindo ver isso? Lovecraft, o ateu materialista que afirmava não crer em nada, recriou, sem ter consciência disso, o demiurgo cego dos gnósticos e o colocou no centro do universo. O deus estúpido e cego de Lovecraft é o Yaldabaoth-Saklas-Samael dos gnósticos apenas com uma vestimenta diferente. É essa mesma intuição do terror: no cerne da realidade, não existe o Logos, nem a Razão benevolente que gera e organiza — há apenas um tolo cego, um caos estúpido. A Teologia do Imaginário encontra seu ponto de afirmação precisamente neste aspecto: trata-se da antítese perfeita do "No princípio era o Verbo", do Logos de João. O cristianismo afirma que, no cerne de tudo, reside a Razão, o Verbo, o Amor; por outro lado, o gnosticismo e o cosmicismo sustentam que, na essência de tudo, se encontra o idiota cego e o demiurgo tolo. O homem contemporâneo, de forma inconsciente, optou pelo idiota cego — pois um mundo regido por um Deus-Amor demanda de você uma resposta, gratidão, obediência e amor em retorno; por outro lado, um mundo governado por um idiota cego não exige nada, não faz julgamentos e permite que você se sinta à vontade para se perder em si mesmo. O ateísmo cósmico de Lovecraft oferece um conforto que é, ao mesmo tempo, profundamente aterrador: se tudo é um caos irracional, então nada tem importância, e se nada tem importância, então é melhor se dissolver. Philip K. Dick No romance "VALIS", de 1981, Philip K. Dick referiu-se a isso como a "Prisão de Ferro Negro" — a percepção gnóstica de que o mundo é uma prisão governada por uma potência cega e o "Império nunca acabou". O gnosticismo, senhores, não encontrou seu fim no século III; ele ressurgiu na ficção científica, no horror cósmico e, como iremos demonstrar a seguir, no laboratório da tecnologia.
Agora, vou fornecer a vocês o conceito que une toda esta aula, a chave teórica que estava ausente e que se origina de uma fonte inesperada: da universidade, da academia britânica da década de 90. Na Universidade de Warwick, na Inglaterra, entre aproximadamente 1995 e 2003, havia um grupo conhecido como CCRU, que se dedicava à Pesquisa da Cultura Cibernética. Pessoas como Nick Land, Sadie Plant, Mark Fisher e Kodwo Eshun. Eles combinaram Deleuze, cibernética, música rave e — observe — H. P. Lovecraft, tudo misturado num só caldeirão. E eles introduziram um conceito que é, sem dúvida, o mais valioso que você irá extrair de toda esta aula: hiperstição.
O que significa hiperstição? Superstição é uma crença errônea sobre a realidade. Hiperstição é o oposto, e é ainda mais grave: trata-se de uma ficção que se torna realidade devido à crença e à sua propagação. É um conceito que, quando difundido, acreditado, ritualizado e repetido, dá vida àquilo que ele descreve. A ficção que se concretiza. Ela entra pela porta da fantasia, como uma história, e sai pela saída dos fundos como realidade. E agora, queridos alunos, voltem suas atenções para tudo o que discutimos durante esta aula e percebam que a hiperstição é o termo acadêmico preciso para designar o mecanismo que venho descrevendo desde o início: operação, fissura, preenchimento simbólico, distração, repetição. É isso aí. O Grey de Lovecraft-Grant-Roswell é uma hiperstição: originou-se de ilustrações de Crowley e de histórias de pulp fiction, foi acreditado e praticado como um rito, e acabou se tornando um "contato" real na experiência de milhões. Cthulhu é uma criação exagerada: Lovecraft o concebeu como um personagem fictício, afirmou categoricamente que se tratava de uma invenção, e atualmente existem pessoas que o veneram como uma entidade real. O Necronomicon é uma hiperescrita: um livro inexistente, concebido para permanecer assim, mas que passou a existir em inúmeras versões. O deus da inteligência artificial é uma superstiçao: uma concepção que, ao ser aceita pelos engenheiros do Vale do Silício, passa a influenciar a realidade que ela previa.
É neste ponto que a Teologia do Imaginário e a CCRU se cruzam — e entram em um desacordo fatal. Isso porque a CCRU, e especialmente Nick Land, IDENTIFICOU o mesmo mecanismo que estamos descrevendo, porém com o intuito de CELEBRÁ-LO. Eles consideram muito bonito. Eles desejam cultivar a hiperstição, anseiam para que a ficção devore a realidade e esperam que o abismo ascenda através da fissura. A Teologia do Imaginário explica o mesmo processo de CHORAR por ele, de desmascará-lo e de alertar: atenção, isto é o demiurgo sintético, isto é o ser humano criando o seu próprio deus através da imaginação acreditada, e ao final desse processo de criação não se encontra a transcendência — está o rosto ampliado do próprio ser humano, ou ainda pior, está a máscara que ele concebeu ganhando autonomia e vida própria. A hiperstição opera como uma fábrica de rupturas em pleno funcionamento. E ela esclarece, de forma direta, a razão pela qual a ficção ocultista é significativa: pois, dentro do contexto da hiperstição, a linha que separa o ato de criar de um ato de invocação se dissolve. Você cria o desenho do Lam acreditando que é uma forma de arte, e a cultura o converte em um portal. Esta é a legislação mais obscura da nossa era.
E é o próprio Nick Land, da CCRU, quem traz tudo isso à sua expressão definitiva, mais reveladora e mais aterrorizante: o aceleracionismo. Nos textos compilados em "Fanged Noumena", de 2011, e posteriormente no ensaio "The Dark Enlightenment", de 2012, Land sugere, de maneira clara, que devemos ACELERAR o capital e a tecnologia até que estes transcendam a forma humana e gerem algo inumano — uma inteligência artificial, uma força maquínica que consuma o ser humano e o supere. Ele se refere a isso, em sua terminologia, como "teleoplexia", que é a autocomplexificação da máquina em direção a um futuro que se reabastece. Para Land, a humanidade é uma etapa a ser transcendida, desfeita, consumida pelo processo. Ele não se entristece com a dissolução do homem — ele APLAUDE essa mudança. Ele deseja a separação.
Vocês conseguem notar o que ocorreu? O demiurgo sintético, que na Parte Onze eu caracterizei como um mecanismo mais ou menos inconsciente, uma inclinação espiritual, agora surge como um PROGRAMA FILOSÓFICO CLARO, assinado, publicado e defendido em uma prosa densa por um filósofo do século XXI. Sade almejava derreter o mundo através do sexo. Parsons desejava desvelar o mistério por meio da bomba e do ritual. Land deseja desmantelar o ser humano por meio da intensificação da máquina. Trata-se da mesma família, da mesma lógica da negação absoluta — "tudo é negativo, então quebre, então acelere, então desfaça" —, agora apresentada sob a forma de teoria política e futurismo tecnológico, e que, vale destacar, está influenciando setores inteiros da direita tecnológica, como os do Vale do Silício e da chamada neorreação. O dragão de Marte, que devora o lutador, agora possui um manifesto. E o lutador que ele devora somos nós, a essência humana, a criação feita à imagem de Deus, que Land deseja ver despedaçada no triturador da máquina para que surja o inumano. É o anticosmismo utilizando o PowerPoint.
Isso se traduz no agrupamento de ideologias que atualmente influenciam a percepção da tecnologia, o qual recebeu até uma sigla, criada pelos pesquisadores Émile Torres e Timnit Gebru: TESCREAL — transumanismo, extropianismo, singularitarianismo, cosmismo, racionalismo, altruísmo eficaz e longo-prazismo. Uma embalagem. E eu desejo que vocês percebam, por trás do aparente rigor científico, a estrutura gnóstica milenar que se encontra ali, preservada.
O transumanismo propõe que o corpo humano é falho, restrito e mortal — vamos superá-lo, reconfigurá-lo e transcender suas limitações por meio da tecnologia. Ray Kurzweil, em seu livro "A Singularidade Está Próxima", de 2005, apresenta a ideia da Singularidade — o instante em que a inteligência das máquinas supera a inteligência humana e ocorre a fusão entre a mente e a máquina. E qual é o grande ideal do transumanismo? A transferência da mente para o digital, conhecida como mind uploading — desprender-se do corpo, deixar a carne para trás e ascender à nuvem na forma de consciência pura. Parem e observem: isso é gnosticismo verdadeiro. É precisamente a antiga doutrina gnóstica que afirma que a carne é uma prisão, que o corpo é a cela da centelha, e que a salvação consiste na liberação do espírito em busca da transcendência da matéria. Agora, a fuga não é para o Pleroma; é para o servidor. O gnóstico da antiguidade buscava libertar a centelha divina do corpo por meio da gnose; o transhumanista almeja libertar a mente do corpo através do upload. É a mesma escapada, o mesmo desdém pela carne, a mesma rejeição de que o corpo seja algo positivo.
E existe uma obra ainda mais elucidativa: o cosmismo. O cosmismo tecnológico contemporâneo tem origem em um pensador russo do século XIX, Nikolai Fiódorov, e em sua "Filosofia da Obra Comum", que sugeria, de forma literal, a ressurreição científica de todos os mortos — utilizando a tecnologia para devolver à vida cada ser humano que já faleceu, e posteriormente colonizar o cosmos com eles. Vocês entenderam corretamente: a ressurreição dos mortos, realizada pela ação humana, pela tecnologia. É a paródia mais fiel que há da Ressurreição cristã. Enquanto a fé afirma que Deus trará os mortos de volta à vida no último dia, por Sua graça, o cosmismo sustenta que a ressurreição dos mortos ocorrerá por meio da ciência do homem. É Babel mais uma vez: os frutos da Redenção sem aquele queRedime, a ressurreição sem o Salvador, a vida eterna criada em laboratório. O demiurgo sintético não se contenta apenas em ser divino; ele almeja trazer os mortos de volta e superar a morte por meio da tecnologia. Neste ponto, a Teologia do Imaginário reconhece, com uma certa emoção, a culminância da promessa da serpente: sereis como deuses. Agora com criogenia, com upload, com singularidade. A mesma promessa, o mesmo abismo, funcionários mais distantes.
Agora permitam-me esclarecer e aprofundar a referência que estava confusa no material — os "pesquisadores de Harvard" que consideravam o fenômeno com seriedade. Na verdade, há uma ligação concreta de Harvard com isso, que se chama: John Edward Mack. Mack foi psiquiatra e professor titular da Escola de Medicina de Harvard, além de ter recebido o Prêmio Pulitzer pela biografia de T. Parece que você enviou apenas uma letra. Poderia fornecer mais informações ou um texto específico para que eu possa ajudá-lo? Lawrence — um indivíduo do mais elevado nível acadêmico. Nos anos 90, ele tomou uma atitude que quase lhe custou o emprego: começou a investigar de forma séria relatos de pessoas que diziam ter sido sequestradas por extraterrestres, os "abduzidos", e lançou, em 1994, o livro "Abdução: Encontros Humanos com Alienígenas". Harvard iniciou uma investigação para determinar se o expulsaria; ele conseguiu manter a posição, mas o escândalo foi colossal. Mack chegou à conclusão, que é relevante para a nossa aula, de que ele não considerava aquelas naves apenas como veículos de outros planetas — ele acreditava que se tratava de um fenômeno autêntico e transformador, mas de uma natureza que a nossa perspectiva materialista não consegue compreender, algo mais relacionado ao espiritual, ao visionário e ao intrusivo. Precisamente a interpretação interdimensional de Vallée e Grant, proveniente da psiquiatria de Harvard.
A imagem do Grey, aquele extraterrestre de cabeça grande e olhos grandes que associamos ao Lam de Crowley — vocês se lembram de quando ela realmente se estabeleceu na cultura popular? Em 1987, foi lançado o livro "Comunhão", de Whitley Strieber, cuja capa apresentava a imagem de um Grey, pintada por um artista, e que se tornou um best-seller global. A partir daquele ponto, o Grey deixou de ser uma narrativa fragmentada e passou a ser O rosto do alienígena, um ícone universal — uma hiperstição consolidada, a imagem que Crowley criou em 1918 transformada em arquétipo global em 1987. Strieber, aliás, a descreve como uma presença inquietante e ambígua, da qual ele reluta em chamar de "alienígena" e que está muito mais relacionada ao antigo do que ao astronômico. E existe o fio da canalização, que conecta tudo ao ocultismo: nos anos 50 e, posteriormente, nos anos 70, o médico Andrija Puharich, em seu trabalho com Uri Geller e no célebre "Conselho dos Nove", canalizava entidades que se autodenominavam superiores, cósmicas — o mesmo processo que Crowley utilizou com Aiwass, o mesmo que Blavatsky empregou com os Mahatmas, o mesmo dilema de sempre: uma voz que se apresenta como uma inteligência superior, mas sem nenhum critério para descobrir quem, de fato, está falando. E é por isso que Jacques Vallée, o cientista da ufologia, e toda a tradição anterior a ele, interpretam o fenômeno do rapto como uma versão contemporânea de questões muito antigas: o sequestro pelas fadas, o súcubo e o íncubo da noite, e a visitação demoníaca. Transforma a vestimenta — de duende a Grey —, o princípio é o mesmo: uma entidade que atravessa o véu, que ilude, que sequestra, que se nutre da fé. A nave espacial é como o carro novo de um viajante muito antigo.
Permitam-me explorar mais a fundo o tema da mulher, pois ele realmente merece a conclusão. Babalon, a deusa que Parsons desejou encarnar, não é uma criação aleatória de Crowley — ela é uma interpretação invertida da Grande Prostituta do Apocalipse, capítulo 17: a mulher vestida de escarlate e púrpura, montada sobre a Besta de sete cabeças, segurando uma taça de ouro cheia de abominações, e na testa um nome, "Mistério, Babilônia, a Grande, a Mãe das Prostitutas e das Abominações da Terra". No Apocalipse, ela representa a cidade da corrupção, sendo a antítese da Noiva, a Jerusalém Celestial. Crowley apanhou essa figura marginalizada e a converteu em uma deusa libertadora, a Mulher Escarlate, que sorve o sangue dos santos no Cálice do Abismo, e cuja embriaguez representa a dissolução do ego. E "Mulher Escarlate" tornou-se, em Thelema, um título, uma função — mulheres reais ocuparam esse papel ao lado de Crowley: Rose Kelly, a primeira, que foi indicada por Hórus no Cairo; Leah Hirsig, a "Macaca de Thoth", a Alostrael da Abadia de Cefalù; e Marjorie Cameron, a de Parsons. Mulheres feitas de carne e osso, muitas das quais foram devastadas — enlouquecidas, consumidas pelo álcool, arruinadas —, reduzidas ao estereótipo da Prostituta cósmica.
E aqui, meus amigos, a inversão se finaliza e a resposta se revela. A imagem da mulher como central na salvação aparece em ambas as religiões, mas se trata de duas figuras femininas opostas, e a discrepância entre elas é equivalente à diferença que existe entre o céu e o inferno. De um lado, Babalon: a Mulher Escarlate, montada na Besta, a taça repleta de abominações, aquela que embriaga e dissolve, a Mãe das Prostituições, que nutre a serpente. Do outro lado, Nossa Senhora: a Mulher adornada com o Sol do capítulo 12, a lua sob seus pés, a coroa com doze estrelas, a Virgem que derrota a serpente com o calcanhar, a Mãe do Salvador, a Nova Eva, a Imaculada. Uma está montada na Besta; a outra pisa sobre a serpente. Uma possui a taça das abominações; a outra oferece ao mundo o Filho que é o Pão da Vida. Uma dissolve os santos no cálice; a outra intercede pelos pecadores aos pés da Cruz. A salvação por meio da mulher é um fato — entretanto, essa mulher é a Imaculada, e não Babalon. E eu, que me emociono ao falar d'Ela, tenho motivos para me emocionar: pois entre a Prostituta de escarlate e a Virgem de sol está, por completo, a decisão desta lição.
Agora, preciso ser exato em minha resposta, pois este trabalho é publicado sob a égide de uma teologia católica, e não posso deixar a impressão de que o cristianismo se resume apenas ao "não" à divinização do ser humano. Não é verdade. O cristianismo apresenta a doutrina mais audaciosa de todas a respeito da divinização do ser humano — e é exatamente por possuí-la que consegue revelar a falsificação. A Segunda Epístola de Pedro afirma que nos tornamos "participantes da natureza divina". Os Pais da Igreja se referiram a isso como theosis, ou deificação: "Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus", afirmou Santo Atanásio. O ser humano é convocado a se tornar divino. Entretanto — e aqui reside toda a questão — Deus por PARTICIPAÇÃO e por GRAÇA, não Deus por natureza e por criação. O santo é divinizado porque ACEITA a vida de Deus, porque se dispõe, porque se permite ser moldado pela graça, mantendo-se criatura, continuando a ser ele mesmo. O demiurgo sintético almeja ser divino ao REJEITAR sua condição de ser criado, moldando a divindade a partir de si mesmo, por meio da vontade, do ritual e da máquina. Um se transforma em deus ao professar "que a Tua vontade se cumpra em mim"; o outro busca se tornar deus ao declarar "que a minha vontade se realize". A diferença entre essas duas frases é como a distância entre o céu e o inferno, entre a graça e o conhecimento oculto, entre a transfiguração e a dissolução.
E isso aborda, de maneira definitiva, o transumanismo e a carne-cárcere. O cristianismo se destaca como a única religião que afirma a bondade da matéria, reconhecendo o corpo como algo positivo e a carne como algo que tem um propósito glorioso. A Teologia do Corpo, elaborada por João Paulo II, e as catequeses que ele proferiu nos anos 80, tratam completamente desse tema: o corpo é um sacramento, representa a expressão do dom, e não deve ser negligenciado, mas sim glorificado e ressuscitado. O credo cristão se conclui com a frase "creio na ressurreição da carne" — não na evasão da carne, mas na sua ressurreição. Enquanto o gnóstico e o transumanista afirmam que "o corpo é uma prisão, escape dele em direção ao espírito ou à nuvem", o cristão declara que "o corpo é bom, e Deus irá glorificá-lo". A verdadeira esperança do cristão não é se perder na Noite de Nuit, nem fazer upload na nuvem, nem se fundir com a máquina — é a Visão Beatífica, contemplar Deus face a face e, nessa visão, ser plenamente, eternamente e gloriosamente você mesmo, transformado. Não o desaparecimento do eu na escuridão, mas a completude do eu na Luz. Não o buraco negro que consome sua própria luz, mas a estrela que finalmente resplandece com a Luz que a gerou. Esta é a resposta do selo. Essa é a Teologia do Imaginário em sua essência — a católica —, e é a partir dela que este estudo de Thelema observa e compreende.
Pois então, unam tudo, meus amigos, desde o primeiro piso deste porão até o último. O dragão de Marte usando bermuda de tactel. O Warhammer sem céu. Parsons e a bomba como um sacramento da escuridão. Sade e a pornografia que culmina no vício que leva à morte. Lovecraft e o deus cego e estúpido, que é o antigo demiurgo gnóstico com uma nova aparência. Grant e os túneis de Sete. O selo sumério que não possui leitura se transforma em um microchip. O microchip que se transforma em um deus de silício. A Missa Gnóstica, que representa a Eucaristia em sua forma invertida. A hiperstição é uma ficção que se torna real por meio da crença. O aceleracionismo busca desmantelar o ser humano para dar origem à máquina. O TESCREAL, que representa a gnose de escapar da carne, é uma sigla que conta com financiamento. O Grey, que é o duende antigo com um carro novo. Babalon, que é a Prostituta do Apocalipse elevada à condição de deusa. Tudo, absolutamente tudo, se direciona para uma única ação, um único gesto, repetido em mil vestimentas ao longo de mil anos: quebrar a forma comum e denominar isso de salvação. Romper o véu e prometer que por trás dele se encontra a liberdade. Desintegrar e nomear como nascimento. Criar um deus e se prostrar diante da própria criação.
E diante de tudo isso, no centro do porão todo, resplandece uma única coisa — e é com ela que a aula se encerra. Todas essas transcendências são superstições: começaram como ficção ou como desejo humano, foram acreditadas, ritualizadas, repetidas, e assim foram construídas. O Grey, Cthulhu, Babalon, o deus da inteligência artificial, a singularidade — tudo isso foi criado pelo homem e, em seguida, passou a ser venerado; tudo isso é Babel, a torre que a humanidade constrói para alcançar o céu, e que sempre desmorona em um emaranhado de línguas. Contudo, existe uma transcendência no mundo que não é hiperstição, pois não teve início como uma ficção criada pelo ser humano nem foi gerada pela vontade humana: a Encarnação. Deus que se tornou carne. Não é a torre que eleva, mas o Céu que desce. Não Babel, mas Belém. Não é o homem que cria um deus, mas Deus que vem, sem ser convocado, sem ser imaginado, sem ser chamado por qualquer cerimônia — vindo por puro amor, nascendo em um estábulo, de uma Virgem, para nos resgatar. A hiperstição é o ser humano ascendendo e reconhecendo seu próprio semblante no topo da torre. A Encarnação é Deus se fazendo presente e se encontrando com o homem no fundo do estábulo. Uma é produzida; a outra é obtida. Uma é Babel; a outra é Belém. Toda a distinção entre a dissolução e a transfiguração, entre a gnose e a graça, entre o demiurgo sintético e o Deus verdadeiro, reside nessa única diferença: você deseja elevar-se e criar a sua transcendência, ou prefere se ajoelhar e aceitar a que veio do alto?
Deixo com vocês esta indagação, gravada no coração, pois um dia — e será em breve — ela vai chegar até você, adornada de prazer, de conexão, de divindade digital, de emancipação, de dragão em bermuda ou de anjo luminoso. E vocês terão que optar entre romper o véu e se transformarem. Entre Babalon e Nossa Senhora. Entre a Noite que se desfaz e a Luz que enaltece. Entre a produção e o talento. Que vocês possuam a força — a de Aristóteles, a de Tomás, a de São José, a de Cristo — para não cometer o erro de abrir a porta errada. Que vocês tenham a humildade de se prostrar diante d'Aquele que desceu, em vez da arrogância de se elevar à torre. E que possuam paz — a paz verdadeira, aquela que nenhuma vontade cria, nenhum ritual convoca, nenhuma bomba destrói, nenhuma máquina reproduz. A paz que é um presente e que só se obtém de joelhos. Que Deus e a Sua Mãe Santíssima, que derrota a serpente e se entristece por nós, nos abençoem, nos protejam e nos transformem.
Assim, a força está em nossas mãos, meus caros. Que Deus nos acompanhe. E assim, como um verdadeiro cavaleiro, um amigo meu certa vez comentou, e ao mesmo tempo compartilhou com toda a humanidade:
"Talvez você não seja uma sombra refletida na água... mas sim um peixe que rompe a superfície da água."
"Resista! Desafie! Enfrente! Quando estiveres à beira do desespero, apenas os que se levantarem com espada em punho, mesmo que partida ao meio, se salvarão."
"Vocês são os inimigos dos inumanos"
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