THELEMA: O DESPERTAR LUCIFERIANO
Eu dediquei muitos anos ao estudo da Thelema e escrevo sobre essa filosofia com o devido respeito que se deve a qualquer religião vivente. Este livro é dividido em duas partes, as quais são bem distintas entre si. Na primeira parte, apresento a religião de Thelema como ela se vê — sua metafísica, seu mito, seu rito, sua promessa — de maneira justa, sem distorções ou críticas, assim como se expõe qualquer crença em uma aula sincera. Na segunda-feira, altero o tom e trago um dossiê sobre o que pode ocorrer quando a sexualidade, o segredo, a hierarquia e a promessa de iluminação ficam nas mãos de uma única pessoa. Apresentar uma religião de forma séria não significa isentá-la de qualquer crítica; indicar um risco real não equivale a condená-la por completo. Escrevo a partir da minha posição, que é a fé católica, e afirmo isso de forma clara, sem me ocultar atrás de nenhuma falsa neutralidade.
Gabriel G. Oliveira e (Anônimo) Sr. Quinta-Feira
9/20/202662 min ler


THELEMA, O.T.O., MAGIA SEXUAL E RISCO DE ABUSO
Parte I — A fé de Thelema: metafísica, mito e ritual
Antes de tecer qualquer crítica ou emitir qualquer aviso, sinto a necessidade de realizar algo que raramente é feito: apresentar Thelema tal como ela se entende, de maneira séria, sem o escárnio do cristão apressado e sem o temor do fundamentalista. Isso é relevante, pois Aleister Crowley é frequentemente simplificado em duas caricaturas que, apesar de suas diferenças, resultam no mesmo espantalho. Para uma porção do cristianismo popular, ele é meramente o satanista, o adversário da fé, o defensor da imoralidade, uma entidade quase demoníaca. Em outro aspecto, especialmente aquele que lhe foi apresentado através da contracultura, ele se torna o mensageiro da liberdade absoluta, o indivíduo que defende a ideia do "faça tudo o que quiser". Tanto a primeira quanto a segunda interpretações são fracas, sendo que a segunda é particularmente decepcionante, uma vez que Thelema não inicia afirmando que todo desejo deve ser atendido. Ela inicia afirmando o oposto: que o que o indivíduo comum denomina como "minha vontade" é, na maioria das vezes, uma multidão desordenada de impulsos que disputam entre si o governo da existência.
Desejo dinheiro e também anseio por descanso. Desejo ser reconhecido, mas também anônimo. Desejo segurança e também anseio por aventura. Desejo ficar e desejo ir. Desejo amar, mas também anseio por estar só. Desejo prazer e anseio por disciplina. Em lugar de uma vontade, o que se encontra dentro da pessoa é uma câmara de conflitos, uma pequena guerra civil. Thelema visa emancipar o ser humano precisamente dessa diversidade. A questão que ela levanta não é "como realizo tudo o que desejo?", mas sim uma indagação bem mais profunda: o que sobra quando todos os meus desejos particulares deixam de brigar pelo trono? Há, por trás dessa massa, uma Vontade que possa organizar todas as demais? É a partir deste solo que emerge a ideia fundamental de Thelema, a Verdadeira Vontade — e somente ao compreendê-la é que se consegue entender o restante.
A religião surge a partir de um evento que as thelemitas consideram como sua revelação inaugural. Aleister Crowley, que nasceu Edward Alexander Crowley em 1875, na Inglaterra, foi educado em uma seita protestante extremamente austera chamada Irmãos de Plymouth. Essa vertente do cristianismo é caracterizada pela ausência de imagens, altares, liturgias visíveis, da figura materna e dos santos. Lembre-se desse detalhe, pois ele volta no fim. No mês de abril de 1904, enquanto desfrutava de sua lua de mel no Cairo com sua esposa, Rose Edith Kelly, ocorreu um evento marcante. De acordo com o relato, foi Rose, em um estado alterado, que iniciou a transmissão da mensagem, transferindo o deus Hórus e guiando Crowley até uma estala funerária que está exposta no Museu do Cairo, conhecida como a estela do sacerdote Ankh-ef-en-Khonsu, que é chamada pelas thelemitas de Estela da Revelação. Nos dias 8, 9 e 10 de abril de 1904, entre o meio-dia e uma da tarde, Crowley alega ter recebido, ditada por uma inteligência que se apresentou como Aiwass, uma escritura de três capítulos: o Liber AL vel Legis, o Livro da Lei. Para o thelemita, este livro não se trata de literatura ou filosofia; é a voz de uma nova era, com a mesma importância que a Torá tem para o judeu ou o Evangelho para o cristão. Assim como toda escrita, este texto também está envolto em mistério e restrições: o próprio documento alerta sobre os perigos de discutir seu conteúdo e instrui a não modificar nem mesmo a forma de uma única letra.
O princípio fundamental de Thelema pode ser encontrado em duas frases do Livro da Lei. A primeira é a Lei: "Faça o que você quer há de ser o todo da Lei." A segunda é a sua chave, assim como o seu limite: "Amor é a lei, amor sob vontade." Eis o mal-entendido quase que universal, o divisor de águas de quem sabe e de quem não sabe nada. Há uma distinção crucial entre "o todo da Lei" e "tudo da Lei". Se fosse "tudo da Lei", qualquer capricho seria santificado só por existir: quero, logo é lícito; desejo, logo é correto. Contudo, isso comprometia a fundação de Thelema, pois, se todos os desejos tivessem primazia, não haveria uma Verdadeira Vontade, mas apenas uma diversidade de vontades. "O todo da Lei" significa algo diferente: o verdadeiro desejo deve alinhar-se com a totalidade, e deve descobrir um querer que não esteja mais em conflito com a ordem fundamental da realidade. A Lei não é suspensa para que uma pessoa possa agir de qualquer forma; ao contrário, revela-se uma vontade tão intensa que não há mais luta contra a realidade. É por essa razão que a palavra grega thelema, θέλημα, "vontade", adquire um significado técnico neste contexto: não se trata do desejo psicológico passageiro, mas da direção mais profunda do ser, aquilo que persiste quando os fragmentos encontram sua ordem.
A segunda fórmula complementa a primeira. Amar, nesse contexto, não se refere a amizade ou amor romântico; é o que reconcilia o que estava dividido. É por isso que o amor deve continuar a existir "sob vontade", uma vez que a paixão que se apodera da pessoa e começa a dominá-la ainda não é ágape no sentido thelêmico — é um fragmento tentando virar o todo. Aquele que afirma "não consigo pensar em outra coisa, não consigo viver sem essa pessoa, não consigo me controlar" não está demonstrando a totalidade do amor, mas sim a exageração de uma parte que se autoproclama a única governante.". Nessa mesma perspectiva simbólica, o fragmento torna-se um "demônio" — não por ser um espírito maligno, mas porque uma potência relativa se arvora em senhora do trono interior. Os thelemitas têm uma grande admiração por uma determinada entidade que reside aqui: na aritmética simbólica da tradição grega, tanto thelema quanto ágape resultam em 93. É por essa razão que eles se saudam com a expressão "93". Ao afirmar "93", está se referindo a "faze o que tu queres"; e ao concluir com "93 93/93", está expressando a ideia de que "amor é a lei, amor sob vontade". Desejo e Amor têm o mesmo peso. É uma beleza que, mesmo eu não concordando com ela, consigo reconhecer, e admitir isso é o mínimo que se espera de uma pessoa honesta.
Em uma perspectiva antropológica, os termos religiosos — Deus, demônio, anjo, diabo — nem sempre são utilizados da mesma forma que em um processo de catequese. Ele serve como um nome iniciático, representando diferentes estados e estruturas da consciência. Para a filosofia de Thelema, a questão primordial do ser humano é a fragmentação: há uma totalidade potencial, mas, na realidade, observamos uma multitude de impulsos, cada um afirmando "eu sou o verdadeiro você". A fome pede, a sexualidade pede, a ambição pede, o medo pede segurança, o ressentimento pede vingança, a necessidade de pertencimento pede conformidade. Nenhum deles é a totalidade. A sexualidade, o dinheiro, a carreira, a família e até mesmo qualquer virtude isolada não representam a totalidade. Quando uma parte afirma "subirei e me tornarei semelhante ao Altíssimo" e tenta ocupar o centro, esse ato, segundo a interpretação deles, representa o gesto "demoníaco" — a usurpação de um poder subordinado que se torna tirano.
Daí surge uma sutil diferença entre liberdade e livre-arbítrio. O indivíduo vivencia uma liberdade prática: tem a opção de continuar lendo ou interromper, pode aceitar a proposta de emprego ou declinar, pode escolher se aproximar de alguém ou manter distância. Todo ato de escolher é sempre um desdobramento de uma teia de condicionamentos — fatores biológicos, traços de personalidade, formação educacional, influências culturais, lembranças, experiências traumáticas, pressão social, condições econômicas, anseios de aceitação e medo. A pessoa opta por um alimento específico devido ao seu apreço pelo sabor, mas não teve a escolha inicial de desenvolver esse gosto. Você escolhe uma carreira porque um determinado futuro lhe parece atraente, mas esse futuro foi moldado ao longo de toda a sua vida. Ela faz escolhas, mas essas escolhas são baseadas em algo pré-existente. Portanto, a liberdade comum ainda não é considerada, para Thelema, a liberdade plena; a iniciação se torna, então, o processo pelo qual a pessoa descobre até que ponto aquilo que chama de "eu quero" é realmente seu, e quanto é apenas reação.
É neste ponto que uma das representações mais significativas desse processo de reconstrução surge: o deserto. Na narrativa evangélica, Jesus é levado ao deserto, onde enfrenta as tentações, e Thelema utiliza essa cena de maneira simbólica para ilustrar o seu método. O homem deve se aventurar no deserto — não é preciso deixar a cidade para trás, mas é essencial interromper, por um tempo, a obediência instintiva aos seus próprios desejos. Não as expulsar, nem as agradar imediatamente: observá-las. A fome se manifesta, preste atenção nela. A sexualidade se manifesta, preste atenção a ela. A busca por reconhecimento está presente, preste atenção. Perceba a vontade de poder quando ela surgir. A tentação deixa de ser apenas um adversário externo e passa a atuar como uma revelação: ela revela aquilo que exerce domínio sobre você. A leitura thelêmica enfatiza um aspecto meticuloso nas três tentações. Cristo sente fome, mas recusa a tentação de transformar pedras em pão — e, nessa perspectiva, o verdadeiro problema não está no pão, pois Cristo certamente comerá novamente; a questão reside em não permitir que uma necessidade passageira se torne o princípio dominante de sua ação. Em seguida, surge o espetáculo, o "lança-te do pináculo, mostra quem és, sê reconhecido" — e novamente, a fama não é criticada de forma abstrata, uma vez que Cristo se dirigirá às multidões; a questão reside na conexão entre o evento, o momento e o todo. Por último, os reinos, o poder, a autoridade — e o poder também ressurge na linguagem cristã atribuída ao Cristo glorificado; a questão reside em aceitar o reino fora da devida ordem. Daí vem a fórmula que permeia tudo: não é suficiente apenas perguntar o que se quer; é essencial entender quando, como, por quê e de acordo com qual princípio esse desejo se manifesta.
É nesse sentido que Thelema conecta sua ética a uma frase de Paulo, reinterpretada à sua maneira: "tudo me é lícito, mas nem tudo convém" e "não me deixarei dominar por coisa alguma". Em sua trajetória histórica, Paulo não estava, de fato, ensinando Thelema, mas essa nova interpretação possibilita enxergar a tese. A questão deixa de ser uma lista de permissões e proibições e passa a ser: isso me auxilia ou me controla? O indivíduo pode se considerar livre por não haver ninguém que o impeça de realizar um desejo, mas se ele não consegue deixar de ceder a esse desejo, essa liberdade é apenas uma ilusão. Um alcoólatra não é livre apenas por ter o direito legal de consumir álcool. Um homem que é controlado pela sua sexualidade não pode ser considerado livre apenas porque uma proibição religiosa foi abolida. A falta de proibição não garante liberdade de imediato; pode resultar apenas em um escravo sem um carcereiro aparente. Por essa razão, Thelema se propõe, de forma interna, a ser um contraponto tanto à repressão quanto à dissolução.
O mesmo se aplica ao prazer, e é neste ponto que uma das expressões mais belas do conjunto se revela: "não sejas animal, refina teu êxtase". A caricatura afirma: "se dá prazer, faça". A formulação real é mais complexa: aprimora o prazer. O que não se deve permitir é que o êxtase se torne algo primitivo. Pleasure in its raw form seeks release; refined pleasure gives rise to awareness. Comer pode se transformar em gula ou em um ato de contemplação. O ato de beber pode se transformar em uma embriaguez degradante ou pode adquirir um caráter ritualístico. A sexualidade pode se transformar em uma compulsão ou, em algumas tradições esotéricas, ser usada como um meio para uma experiência de iniciação. Portanto, é crucial fazer uma distinção fundamental para compreender Thelema antes de formarmos um juízo: o sagrado não é sinônimo de falta de intensidade. O sagrado pode ser extremamente poderoso. O problema consiste em ter uma intensidade que carece de forma, um êxtase que não é acompanhado de consciência, e uma força que não possui um centro. A representação é alquímica: em vez de eliminar a matéria, busque transformá-la; ao invés de destruir o desejo, procure purificá-lo; não apague o fogo, mas molde-o.
O Livro da Lei relaciona a multiplicidade restrita ao desgosto, o que esclarece por que a busca universal da felicidade é vista como insuficiente. A pessoa acredita que "quando eu conseguir isto, estarei completo". Consegue, e em seguida surge um novo desejo. Adquire o carro, em seguida almeja a casa; consegue a casa e depois busca reconhecimento; obtém o reconhecimento e, em seguida, anseia por descanso; alcança o descanso e logo se depara com o tédio, buscando por aventura; descobre a aventura e passa a sentir falta da segurança. Cada prazer acende uma zona, apaga outra, e há sempre outra boca pedindo comida. É por isso que Thelema transfere a discussão sobre a felicidade para a discussão sobre a unidade. Não é uma questão de atender a cada desejo, mas sim de entender de que totalidade esses desejos são partes. Portanto, chegamos à afirmação metafísica em sua máxima potência: a Verdadeira Vontade não seria apenas mais um desejo entre muitos, mas sim o fundamento que torna compreensível toda a diversidade de desejos. É a disparidade entre ter mil fragmentos de um quebra-cabeça e conseguir visualizar a imagem completa. Uma peça avulsa parece ridícula; em conjunto, sua forma se torna indispensável. Ao encontrar sua morada, o desejo não é mais o que foi solto.
Nesse momento, a exposição thelêmica se apropria da cena mais decisiva: Cristo no Getsêmani, "não se faça a minha vontade, mas a tua". O grego do Novo Testamento emprega a palavra thelema para se referir à vontade, enquanto Thelema reinterpretar a cena como uma transição da multiplicidade de impulsos imediatos para uma vontade mais elevada. O corpo se afasta da morte, existe um instinto de autopreservação, mas a vontade mais intensa ainda prevalece. Não se trata apenas de um desejo de conseguir algo, por isso pode ser considerada uma vontade pura. O Livro da Lei menciona a vontade pura como isenta da "sede de resultado", sendo essa expressão fundamental. A vontade geral opera dessa maneira: realizo a ação A com o objetivo de alcançar o resultado B, me esforço no trabalho para poder comprar, dedico-me aos estudos para ser aprovado, e rezo na esperança de receber. A ação se transforma em ferramenta. Um desejo que é essencial não pode ser apenas um meio para alcançar algo que é ainda mais importante, pois isso implicaria que a meta subsequente seria, na verdade, a verdadeira finalidade. A Verdadeira Vontade, então, possuiria um caráter autotélico: manifesta-se por ser fiel à essência do ser. Isso se aproxima de outra citação de Paulo que eles reinterpretam, "transformai-vos pela renovação da vossa mente": a vontade não surge sem uma transformação, o homem que existe atualmente não é capaz de observar qualquer desejo imediato e afirmar "esta é a minha Verdadeira Vontade", uma vez que, se fosse capaz, a iniciação se tornaria desnecessária. Encontrar a Verdadeira Vontade não significa receber uma tarefa externa, como um funcionário que segue uma ordem; é identificar o que a própria essência do ser já estava tentando alcançar de forma incompleta.
Chegamos, portanto, à representação mais bela e mais impactante do Livro da Lei: "todo homem e toda mulher é uma estrela". Embora possa ser interpretado como um elogio poético à singularidade, dentro da tradição seu significado é muito mais profundo. Uma estrela se origina da tensão entre diferentes forças: uma nuvem molecular entra em colapso, a matéria se agrupa, a temperatura aumenta, e, quando a fusão começa, uma pressão é gerada que contrabalança o colapso. A estrela se mantém em um estado de equilíbrio dinâmico — pressão interna e externa, contração e expansão. Quando a relação se desfeita, a trajetória da estrela se transforma. E essa interação se transforma na representação antropológica: o ser humano também é impulsionado por influências externas — como a família, a cultura, o trabalho, a religião, a sociedade, a economia e a história — e por forças internas — como o desejo, a imaginação, o corpo, a memória, o planejamento, a sexualidade, o medo e a esperança. O homem-estrela não é aquele que exterminou todas essas forças, mas sim aquele que estabeleceu sua própria conexão entre elas.
A metáfora possui seus dois abismos, e Thelema está ciente de ambos. A completa interiorização converte a estrela em um buraco negro: tudo é consumido pelo ego, cada relação se torna um meio, todo aprendizado serve apenas para o aumento da própria grandeza, toda liberdade se resume à simples falta de restrições externas, e a procura pela Verdadeira Vontade se deteriora em um narcisismo de natureza metafísica. Este é um dos possíveis fracassos da iniciação — equiparar a interiorização ao egoísmo, a singularidade ao isolamento e a liberdade à indiferença. O outro extremo também é destrutivo: a estrela que se espalha sem controle não consegue se manter, assim como o indivíduo que vive exclusivamente para agradar os outros perde seu próprio eixo, tornando-se incapaz de recusar, de se proteger e de diferenciar entre a generosidade e a autoaniquilação. Entre os dois, encontra-se a estrela, que possui uma rica interioridade enquanto também emana luz, acolhe e compartilha, preserva e gera. A individualidade thelêmica não implica em estar isolado: há estrelas que vivem sozinhas, mas também existem sistemas binários, sistemas múltiplos e aglomerados estelares. Ter uma órbita própria não significa viver sem conexão; é descobrir a maneira mais adequada de se conectar. Um indivíduo tem uma inclinação natural para a solidão, enquanto outro encontra sua realização em uma família, outro em uma comunidade e outro em uma vida de contemplação. A Verdadeira Vontade não cria clones — cada estrela possui sua própria massa, brilho e caminho, e a harmonia do cosmos não requer semelhança, mas sim interações apropriadas.
No Livro da Lei, essa metafísica se estrutura em torno de três divindades, que correspondem também aos três capítulos. Nuit representa o vasto céu noturno, a imensidão sem fim, a deusa que se inclina adornada por estrelas; dela é a frase "todo homem e toda mulher é uma estrela". Hadit é o minúsculo ponto, a chama que queima no centro de cada estrela, o núcleo oculto. Nuit representa a vasta imensidão, enquanto Hadit simboliza a intensa concentração; se Nuit é o espaço, Hadit é o ponto que vivencia o espaço. A combinação do infinito com o ponto dá origem à terceira divindade, Ra-Hoor-Khuit, Hórus coroado e conquistador, o deus criança que governa a nova era. Nuit sem Hadit é como um espaço infinito, sem um ponto focal; Hadit sem Nuit é um ponto central, mas sem qualquer área de expressão; a combinação dos dois resulta em vivências e experiências. Cada ser, nesta visão de mundo, é ao mesmo tempo um núcleo e um colaborador do infinito.
Aí repousa a grande história de Thelema, a doutrina dos éons. Crowley organiza a história espiritual em grandes períodos, cada um regido por uma fórmula divina. Existiu o Éon de Ísis, a época da mãe, o velho matriarcado, quando a humanidade prestava homenagem à terra. Chegou o Éon de Osíris, a era do pai, a era do deus que morre e renasce — e é nesse contexto que a interpretação deles localiza o cristianismo e as religiões baseadas no sacrifício, cuja fórmula consiste na morte, ressurreição e submissão a um pai celeste. Em 1904, com a publicação do Livro da Lei, teria se iniciado o Éon de Hórus, a era da criança coroada, durante a qual a humanidade não necessita mais de um pai externo ou de um deus sacrificado, pois passa a reconhecer a divindade que existe dentro de si. Os thelemitas se referem a essa passagem como "equinócio dos deuses". É proveitoso recorrer ao conceito grego de Aion para compreender a noção em questão, pois Aion não se refere apenas a uma imensidão de anos, mas sim a uma qualidade do tempo que se diferencia de Cronos, que representa a simples sucessão temporal. Aion está associado ao círculo, ao zodíaco, à eternidade que se reinicia, e a serpente que devora sua própria cauda, o Ouroboros, torna-se sua representação: o tempo se devora, envelhece, muda de pele e se renova. Assim, o novo éon não precisa ser uma aniquilação total do anterior; pode ser uma metamorfose, a pele que se rompe devido à incapacidade de conter o que está surgindo.
É neste ponto que o título deste livro revela seu verdadeiro significado, e é aqui que eu preciso ser mais cauteloso, pois a palavra "luciferiano" dispara reações que impedem a compreensão. No contexto da autocompreensão thelêmica e de uma parte significativa do esoterismo contemporâneo, Lúcifer não é, antes de tudo, o demônio descrito nas aulas de catecismo; ele é o Portador da Luz, a Estrela da Manhã, a representação da consciência que se torna alerta, que se recusa a continuar na submissão e que traz o fogo. O despertar luciferiano, dentro dessa terminologia, refere-se à conscientização do indivíduo em relação à sua própria essência estelar e divina — a transição da imaturidade espiritual para a recusa do que Thelema chama de "deuses escravos" e "moral do Velho Éon", e a aceitação da sua Verdadeira Vontade como a sua própria lei. A citação que resume todas essas ideias pode ser encontrada no Liber Oz, também conhecido como o Liber LXXVII, que é o pequeno catecismo dos direitos do homem-estrela, e ecoa ao longo de todo o Livro da Lei: "não há Deus senão o homem." O Liber Oz sintetiza em uma única página, cortante como uma lâmina, os direitos de cada homem: viver segundo sua própria legislação, alimentar-se, beber, pensar e amar como desejar, e opor-se àqueles que buscam impedir-lhe esses direitos. Essa antropologia não se ocupa da banalização da divinização do indivíduo repleto de contradições; seu foco está na afirmação de que o homem plenamente realizado é a manifestação da totalidade divina. Apresento isso da mesma forma que eles o acreditam, e restituo à palavra "luciferiano" o significado que possui dentro da tradição, sem o qual nada disso se entende: é o mito de um despertar.
A prática que embasa esse despertar é o que Crowley se referiu como Magick, escrito com "k" para diferenciá-la do ilusionismo de palco. Ele descreveu como a ciência e a arte de provocar alterações de acordo com a Vontade. Todo ato que é guiado pela Verdadeira Vontade, conforme essa definição abrangente, pode ser considerado mágico; porém, no sentido mais específico, a Magick refere-se ao conjunto de técnicas — como rituais, invocação, evocação, meditação e a disciplina tanto do corpo quanto da mente — que permitem ao thelemita harmonizar sua vontade com a ordem essencial do universo. É, em primeiro lugar, uma tecnologia do desejo: um procedimento para descobrir e realizar o que se é.
Para traçar esse percurso, Thelema utiliza de maneira intensa a Cabala — não a cabala judaica contemporânea, que está conectada à Torá e à comunidade israelense, mas a cabala hermética, que, desde o Renascimento e posteriormente através da Golden Dawn, sobrepôs a estrutura da Árvore da Vida ao tarô, à astrologia, à mitologia egípcia e à magia cerimonial. A Árvore possui dez esferas, conhecidas como sefirot: Keter, a Coroa, situada na parte superior; Chokmah, a Sabedoria; Binah, o Entendimento; Chesed, a Misericórdia; Geburah, o Rigor; Tiferet, a Beleza, que se encontra no centro solar; Netzach, a Vitória; Hod, o Esplendor; Yesod, o Fundamento; e Malkuth, o Reino, que representa o mundo material. Existe também a esfera oculta, Daath, que representa o Conhecimento e o abismo. A Árvore pode ser interpretada de duas maneiras: de cima para baixo, seguindo o caminho da criação até a manifestação, de Keter a Malkuth; e de baixo para cima, indo da iniciação até a sua fonte, de Malkuth a Keter. Ela se estrutura em três fundamentos: o da Misericórdia, o do Rigor e, entre os dois, o do Equilíbrio. O iniciado ascende por essa árvore como se estivesse subindo uma escada interna, ciente de que não pode optar apenas pela qualidade que mais lhe agrada. Ao escolher apenas a Misericórdia e rejeitar o Rigor, cria-se um desequilíbrio, pois a Árvore é um sistema integrado, e não um supermercado metafísico.
No coração reside Tiferet, a Beleza, o sol que brilha dentro de nós, e é exatamente nesse ponto que ocorre a vivência que Crowley julgava ser a mais significativa de toda a jornada: o Conhecimento e a Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. Nesta filosofia, o Anjo representa o eu superior, o daimon, ou o gênio individual de cada pessoa. A prática necessária para alcançá-lo — que foi transmitida de um antigo grimório conhecido como o Livro de Abramelin — tornou-se uma das maiores obsessões da vida de Crowley. Ele chegou a adquirir, em 1899, a mansão de Boleskine, localizada às margens do Lago Ness, com o intuito de realizar essa operação. Chegar a Anjo é descobrir-se no mais alto sentido, ouvir a própria Verdadeira Vontade diretamente do próprio gênio. Tiferet é o Sol que, ao mesmo tempo, é o centro e ilumina: não é apenas interiorização, nem somente dispersão, mas sim uma concentração que emana luz, sendo a representação ideal da estrela perfeita. No topo, Keter, a Coroa, pode ser relacionada ao primeiro princípio da manifestação e à Vontade primordial, portanto, a Verdadeira Vontade de uma pessoa deve de algum modo se alinhar com essa Vontade superior. É por essa razão que o "faze o que tu queres" não tem a intenção de representar uma batalha do indivíduo contra o cosmos, mas sim o oposto: a circunstância em que o impulso mais profundo do sujeito se alinha perfeitamente com sua posição dentro da totalidade. A estrela não precisa de um código externo para determinar sua órbita; sua própria essência gera seu caminho. Portanto, podemos falar de uma ética orbital — onde cada elemento descobre seu próprio caminho, e a liberdade de um não implica na ruína do outro. É por essa razão que a palavra "Lei" no Livro da Lei não deve ser lida como legislação, mas como princípio, no sentido em que as leis físicas descrevem regularidades da natureza: a matéria não "obedece" à gravidade como quem recebe uma ordem jurídica, ela é assim. A Lei de Thelema visa atuar nesse âmbito, e é por essa razão que "fazer a vontade" e "cumprir a Lei" deixam de ser opostos: a Verdadeira Vontade seria a maneira singular pela qual a Lei se manifesta naquele indivíduo.
No entanto, acima de Tiferet, revela-se o ponto mais profundo e mais obscuro de toda a mística thelêmica: o Abismo. Há um vazio entre as esferas inferiores e a tríade suprema da Árvore, e atravessá-lo representa a grande prova para o iniciado avançado. Choronzon, o demônio da dispersão, do caos e da mente fragmentada, é o guardião do Abismo. Crowley descreve o encontro aterrador que teve com ele durante um trabalho enoquiano no deserto da Argélia, em 1909, ao lado de seu discípulo Victor Neuburg, que estava dentro do círculo enquanto ele operava no triângulo. Choronzon transforma sua forma, sua mente, blasfema, imita vozes e é a própria representação da alma sem um centro definido. A passagem pelo Abismo, de acordo com a doutrina, requer apenas uma coisa: a total aniquilação do ego. O neófito deve derramar cada gota do seu sangue, cada vestígio da sua identidade individual, no Cálice de Babalon, a Mulher Escarlate que consome o sangue dos santos. Aqueles que conseguem cruzar e sobreviver tornam-se Mestres do Templo e residem, conforme a terminologia deles, na Cidade das Pirâmides, sob a Noite de Pã, que é a noite do esquecimento de tudo. A perda da identidade é considerada por Thelema como a máxima realização, sendo também o aspecto mais significativo do sistema, e a felicidade que ela oferece é genuína na vivência daqueles que acreditam. O Livro da Lei contrasta a dor da separação com a "alegria da dissolução": Nuit se dirige aos seus "vinde a mim" e retrata a morte de cada ser como uma experiência de prazer, como o ato de perder-se na Noite repleta de estrelas. Dizem eles que o que se dissolve não é a identidade verdadeira, mas a coleção de identidades parciais que se apresentavam como absolutas; o fragmento deixa de fingir ser o todo e, por essa razão, pode finalmente participar dele.
Caminho este que é estruturado em graus. A A∴A∴, a Estrela de Prata, a ordem de treinamento que Crowley estabeleceu em 1907, organiza os iniciados começando pelo grau de Probacionista e avançando através das esferas da Árvore, até alcançar os graus mais elevados: o Mestre do Templo, o Mago e, finalmente, o Ipsissimus, aquele que é totalmente fiel a si mesmo. Juntamente com a A∴A∴, existe a Ordo Templi Orientis, ou O.T.O., uma organização iniciática que precedeu a completa reformulação thelêmica de Crowley e que, em seguida, passou por uma reorganização significativa realizada por ele. Assim como a A∴A∴, a O.T.O. também é estruturada em graus e é responsável pela transmissão de grande parte dos ensinamentos práticos. É crucial fazer uma distinção que perpassa todo este livro: Thelema e a O.T.O. não são sinônimos. Thelema é a filosofia religiosa e mágica; a O.T.O. é uma das sociedades que o ensinam. Não é verdade que todos os thelemitas sejam membros da O.T.O., assim como não é correto afirmar que todo grupo que se inspira em Crowley esteja ligado à O.T.O. atual. A história do ocultismo relacionado a Crowley é repleta de divisões, ramos autônomos e correntes opostas. Manter essa distinção é, portanto, uma questão de justiça e, como será demonstrado na segunda parte, de rigor legal. Há também o conceito de "corrente": uma corrente mágica não é apenas uma organização, é um fluxo de símbolos, práticas, doutrinas e estados de consciência. A Corrente 93 pertence a Thelema, e sua numeração deriva, mais uma vez, de Thelema e de ágape. A transmissão iniciática, sob essa perspectiva, é mais profunda do que um simples aprendizado intelectual: o aluno começa a enxergar o mundo através da gramática simbólica daquela tradição, e passa a identificar seus símbolos em diversos lugares — a árvore, a estrela, a serpente, a mulher, o dragão, o sol, o abismo, o anjo, o demônio.
A liturgia de Thelema é bastante reveladora. O rito público principal da O.T.O. é a Missa Gnóstica, Liber XV, que Crowley escreveu em 1913 após presenciar a Divina Liturgia da Igreja Ortodoxa. Trata-se de uma missa que inclui um sacerdote, uma sacerdotisa, um diácono, um altar, um cálice, uma lança e as chamadas "bolachas de luz", sendo que a sacerdotisa é entronizada sobre o altar — o feminino é o próprio lugar do sagrado. No centro, o comungante se ergue e entoa a fórmula que sintetiza toda a religião: "não há parte de mim que não seja dos deuses." Enquanto a missa católica representa a descida de Deus à matéria, o Verbo que se transforma em pão e se oferece, a Missa Gnóstica é o momento em que o ser humano afirma, por si mesmo, sua divindade. Uma segue a lógica do dom que vem de cima; a outra, a da divindade reconhecida a partir de dentro. Apresento as duas uma ao lado da outra, pois dessa forma fica evidente o que Thelema sugere.
Existe, ainda, uma dimensão que precisa ser chamada com maturidade, por ser central na doutrina e porque será o tema da segunda parte deste livro: a dimensão sexual. Nos antigos ensinamentos da O.T.O. crowleyana, certas práticas sexuais não são apresentadas como simples libertinagem ou meras metáforas literárias, mas sim como uma técnica ritual e sacramental — uma forma reconhecida de canalizar a vontade e efetuar operações mágicas. Há documentos técnicos que se dizem escritos pelo próprio Crowley que abordam essa questão, e pesquisas acadêmicas rigorosas, como as de Hugh Urban, indicam que a O.T.O. emergiu como um dos principais canais para a magia sexual contemporânea no Ocidente, incorporando essas práticas a vários graus superiores. Eu coloco isso na parte um somente como um dado doutrinário e histórico, sem provocar, com respeito: a sexualidade tem, no conjunto superior dessa tradição, um lugar sacramental. Como esse fato interage com hierarquia, segredos e poder é o tema da segunda parte.
Junto ao tronco crowleyano, desenvolveu-se também um ramo mais noturno, que não posso deixar de mencionar, pois integra a paisagem thelêmica atual: a vertente tifoniana de Kenneth Grant. Um seguidor de Crowley, Grant direcionou sua investigação para o aspecto oculto da Árvore da Vida — as Qliphoth, as cascas, os denominados Túneis de Set — e também para uma área que ele nomeou como Zona Malva, que é o exterior da consciência humana. Grant foi o responsável por transformar o desenho que Crowley fez em 1918, durante o Trabalho de Amalantrah em Nova York, que retratava uma entidade de cabeça grande, calva, ovalada e com olhos enormes, chamada Lam, num ícone cósmico, associando-o a inteligências trans-humanas, transplutonianas, a que ele chamava trans-yuggothianas, e mais tarde, na leitura de muitos, ao "Grey" da cultura ufológica. Segundo Grant, esses seres não são alienígenas no sentido de provenientes do espaço, como indivíduos que chegam de outro planeta em uma nave; eles são entidades que existem em outras dimensões, e os discos voadores seriam seus meios de transporte, disfarces que permitem que eles se camuflem enquanto se comunicam. Trata-se de uma cosmologia limítrofe e obscura, que nem todos os thelemitas reconhecem, mas que existe e exerce influência, revelando até onde se estende a ambição desse universo: alcançar o que transcende o humano. Jack Parsons, o magnífico fundador da ciência dos foguetes e um entusiasta fervoroso do thelema, também se insere nessa mesma órbita, por meio de sua Operação Babalon, realizada em 1946, que visava materializar na Terra a deusa Babalon. Além disso, sua relação com Marjorie Cameron, a quem ele confundiu com a Mulher Escarlate, acrescenta outra camada a esse contexto. Elas são elementos da história viva desta religião, e eu as apresento como parte integrante dela.
Existem textos no corpus que exploram essa lógica até seu extremo mais sutil, e um deles é o Liber 333, também conhecido como o Livro das Mentiras. Ali Crowley opera com koans e paradoxos, e um dos mais famosos é o da rosa vermelha, o "Remogi", que ele interpreta como "holy illuminated man of God", ou seja, o homem santo e iluminado de Deus, o Adão antes da queda. A rosa exibe todas as cores, com exceção do vermelho; esta cor é a única que ela não representa, sendo aquilo que ela rejeita. O que percebemos nela é precisamente aquilo que ela expeliu. Quando se refere ao ser humano, a imagem sugere que a personalidade que é evidente pode ser apenas a parte do ser que este rejeita. E, quando aplicada a Deus, indica que nossas concepções sobre Ele podem ser apenas aquilo que somos capazes de externalizar. É a partir dessa perspectiva gnóstica que Thelema interpreta a criação e a queda de uma maneira singular. Em um comentário que relaciona o Livro das Mentiras ao Evangelho de Filipe e ao Zohar, a proposta é que o ser humano, ao se encontrar exilado de Keter, tem o seu fluxo de luz obstruído pelos "nós", que são as ataduras da matéria e do corpo; que Adão, ao consumir o fruto da árvore do conhecimento, começou a gerar "animais" em vez de "homens" no sentido divino; e que a missão que se apresenta é a de desfazer o nó para que a energia criativa possa novamente fluir, permitindo assim que o homem venha a criar deuses que serão a sua própria imagem — reconhecendo neles o pai e a mãe que o trouxeram à existência, e sendo por eles reconhecido como o criador. "Não é necessário entender, basta adorar", afirma o texto: uma divindade pode ser feita de argila, e ao ser venerada, ela se transforma em deus. "Nós ignoramos o que nos criou e adoramos o que criamos. Vamos criar, então, sem receio, porque não há nada que possamos criar que não seja Deus." Como afirmaria Cristo, reinterpretado por eles, "vós sois deuses". É a promessa mais elevada e ousada de Thelema: o ser humano como um cocriador do universo, uma espécie de demiurgo ativo que modela o tempo, o espaço e a matéria, e cujos próprios descendentes seriam deuses menores. Eu apresento isso na íntegra, sem atenuar, pois é exatamente isso em que eles acreditam.
É com base nesse respeito que eu agora compartilho a minha própria interpretação — não como uma acusação contra a fé, mas como a perspectiva a partir da qual eu observo, que é o catolicismo, e eu não disfarço a origem da minha posição. A meu ver, a obra de Crowley possui uma origem bastante humana e particular. Ele foi educado em uma das vertentes mais secas do protestantismo, um cristianismo desprovido de imagens, altares, uma liturgia visível, da figura materna e dos santos, um cristianismo que eliminou o ícone. Essa é a minha crítica, e é contundente: ao remover o ícone verdadeiro, não se cria um vazio; ao contrário, deixa-se um espaço vazio que rapidamente será ocupado por um ídolo. Uma crença que elimina o sacramento e a mediação materna deixa a alma carente de um sagrado perceptível, e essa carência, que não é atendida pela verdade, acaba sendo preenchida pela falsificação. Acredito que Thelema, em grande parte, representa a reconstrução oposta do que o protestantismo de Crowley havia esvaziado: ele dedicou sua vida a reconstituir, de forma inversa, a missa que lhe foi negada durante a infância. Um ídolo sempre é filho de um altar que não tem nada. Há uma ironia tocante que corrobora essa imagem: Charles Stansfeld Jones, o Frater Achad, "filho mágico" de Crowley, o homem que descobriu a chamada "chave 31" e por causa de quem o livro passou a se chamar Liber AL vel Legis, converteu-se ao catolicismo em 1928 e terminou tomando a comunhão eucarística. Vejo isso como um tikkun, uma forma de reparação: o homem que inverteu a Árvore da Vida, tentando, ao final, restaurá-la à sua posição original.
Refiro-me àquilo que observo funcionando dentro de Thelema, e em outros contextos também, como sendo um demiurgo sintético. É crucial que eu seja claro, pois não se trata simplesmente de afirmar que o ato de criar é errado. O ato de criar é uma prerrogativa do ser humano. O conflito surge quando a criatura tenta conquistar, por seus próprios esforços, algo que só poderia ser concedido por Deus. O movimento é dividido em três tempos. Primeiro, a queda — a ferida primordial, a sensação de estar em exílio, de perceber que algo está errado no mundo que nos foi dado. Em seguida, surge o impulso gnóstico - a crença de que a salvação é alcançada através de um conhecimento oculto e de que o Deus responsável por criar este mundo é, na verdade, um carcereiro que deve ser superado; é importante destacar que Crowley, como um verdadeiro gnóstico, chega a rejeitar a lógica, considerando-a uma criação do demiurgo, e afirma que a verdade deve ser reconhecida apenas por meio da revelação que se experimenta. Finalmente, a criação da transcendência ocorre — o ser humano, incapaz de receber a transcendência como um presente, passa a produzi-la, elaborando seu próprio deus, sua própria liturgia e seu próprio absoluto. O demiurgo artificial representa exatamente isso: não o Deus que nos gera, mas sim o deus que nós, por nossa própria conta, criamos. Seus sinais possuem nomes. O ícone serve como uma janela para o Outro; já o ídolo funciona como um espelho que reflete a nós mesmos. Aqueles que veneram o ídolo acreditam que estão contemplando Deus, mas, na verdade, encontram apenas o seu próprio reflexo ampliado. Babel representa a torre que a humanidade ascende na tentativa de alcançar o céu, mas que desmorona em meio a uma confusão de idiomas; por outro lado, Pentecostes é o céu que desce por amor absoluto, promovendo a comunhão sem eliminar as diferenças. A androginia do Baphomet, analisada de maneira alquímica, representa a junção dos opostos levada ao extremo em que as diferenças começam a se apagar em uma terceira forma que é autossuficiente — e, de fato, dentro dessas correntes, existe o ideal utópico de unir os dois sexos em um andrógino perfeito, que seria um esboço de uma humanidade que busca transcender a sua própria estrutura existente. Uma utopia pode ser descrita como uma escatologia construída, um Reino que existe sem a presença do Rei, e os frutos da redenção alcançados sem a figura do Redentor. A lógica final desse projeto, segundo a interpretação escatológica cristã que guia a minha perspectiva, é uma falsa vinda, uma messianidade sem a presença do Messias, o Anticristo como uma paródia da segunda vinda de Cristo — o ser humano tentando edificar de baixo para cima a Jerusalém que, na visão cristã, desce de cima para baixo.
É aqui que reside, sem qualquer ressentimento, o cerne da minha discordância, pois a crença que eu pratico possui a doutrina mais audaciosa sobre a divinização do ser humano, e é justamente por possuí-la que ela revela a falsidade. "Deus se fez homem para que o homem se fizesse deus", afirmou Santo Atanásio; a Segunda Epístola de Pedro menciona que podemos nos tornar "participantes da natureza divina". O homem é convocado a se tornar divino. Ser Deus através da participação e da graça, recebendo a vida divina enquanto ainda se é uma criatura, mantendo sua essência, ao invés de se tornar Deus por meio de um processo de criação ou por vontade própria, edificando a divindade a partir de si mesmo. O homem que foi redimido atua como um cocriador, e não como um criador absoluto de si mesmo: ele recebe poder em vez de usurpar; ele participa em vez de substituir; ele cria dentro de uma criação que já existia antes dele. Um se transforma em deus ao afirmar "faça-se em mim a Tua vontade"; o outro tenta se fazer deus dizendo "faça-se a minha". A diferença entre essas duas afirmações representa toda a separação entre a graça e a gnose. É por essa razão que, no seu auge, Thelema oferece a dissolução do eu na Noite de Nuit, ao passo que a minha crença promete a transfiguração do eu diante da Face de Deus: não o aniquilamento na escuridão, mas a plenitude na Luz; não a estrela que implode em sua voracidade de engolir o céu, mas a estrela que abraça sua órbita e, por isso, brilha eternamente. Essa é a minha interpretação, e a compartilho como uma contribuição à discussão, respeitando aqueles que têm uma visão diferente.
Uma vez que a religião — incluindo sua revelação, sua Lei, sua Vontade, seus deuses, seus éons, seu despertar, sua Magick, sua Árvore, seu Abismo, sua liturgia, seus graus, seu ramo noturno, e sua gnose da criação — foi exposta, e tendo declarado, de maneira clara, a minha própria posição em relação a ela, prossigo para a segunda parte. Mudo o estilo. É importante distinguir entre a religião, com sua doutrina e seu respeito, e a maneira como se pode exercer o poder dentro de qualquer organização humana. A parte dois não trata da metafísica de Thelema. Trata-se do que ocorre quando a sexualidade, o sigilo, a hierarquia e a promessa de iluminação se cruzam nas mãos de uma única pessoa — e da maneira de salvaguardar a liberdade precisamente nesse ponto. Não escrevo para criticar uma crença. Escrevo para que ninguém, nem dentro dela nem fora, seja feito de vítima.
Parte II — Dossiê: sexualidade, hierarquia, consentimento e poder iniciático.
Toda tradição iniciática guarda seus mistérios, mas nenhum mistério tem o direito de reivindicar o corpo de outra pessoa. Quando se coloca grau, autoridade espiritual, sexualidade e promessa de iluminação na mesma equação, a pesquisa deve deixar de lado tanto a ingenuidade quanto o sensacionalismo. A questão não reside no fato de que adultos livres pratiquem sexualidade ritual, mas sim em como algumas pessoas transformam a iniciação em uma ferramenta de coerção. Foi para entender onde se encontra o limite da liberdade religiosa e onde pode ter início a exploração que realizei esta investigação. O resultado não desqualifica de maneira geral a Thelema ou a O.T.O., mas indica uma área de risco que é documentadamente concreta e que pais, candidatos, estudiosos e autoridades não devem ignorar.
Eu comecei com uma questão que requer muito mais atenção do que geralmente recebe. Por um lado, há alegações amplas que afirmam que Thelema, a Ordo Templi Orientis e qualquer grupo influenciado por Aleister Crowley seriam, por essência, locais propensos a abusos sexuais. Por outro lado, há uma resposta oposta, também simplista, que sugere que vincular a tradição crowleyana, a magia sexual e o risco de abuso seria apenas uma difamação por parte de opositores religiosos. Minha investigação documental não corroborou nenhuma dessas duas posturas extremas. Descobri uma realidade mais complexa e, portanto, mais significativa: a sexualidade desempenha um papel técnico e iniciático específico em uma parte relevante do conjunto mágico de Crowley e na história dos graus superiores da O.T.O.; a própria organização atual reconheceu oficialmente episódios de assédio e pressão sexual que ocorreram em seu ambiente; grupos dissidentes ou originários podem reutilizar esse material fora dos controles institucionais divulgados; e a combinação entre segredo, hierarquia, autoridade espiritual, promessa de progresso e atividade sexual corresponde a uma matriz de risco já conhecida nos estudos sobre abuso religioso e controle coercitivo. Da mesma forma, não há dados estatísticos que permitam afirmar de maneira honesta que Thelema detenha a maior incidência de abusadores em comparação com religiões, ordens iniciáticas ou movimentos esotéricos, muito menos que todos os thelemitas, iniciados ou membros da O.T.O. sejam abusivos.
Essa diferenciação deve ser mantida desde o início. Thelema não equivale a O.T.O. Thelema é um sistema que abrange religião, filosofia e magia, criado em torno da figura de Aleister Crowley, especialmente a partir do Liber AL vel Legis. Por sua vez, a Ordo Templi Orientis é uma organização iniciática que existia antes da completa reformulação thelêmica promovida por Crowley e que, posteriormente, foi amplamente reorganizada por ele. Nem todo thelemita é parte da O.T.O.; também não é verdade que todos os grupos inspirados por Crowley tenham ligação administrativa com a O.T.O. atual; além disso, nem toda organização que se utiliza de siglas, graus, rituais ou textos oriundos da O.T.O. é reconhecida pela atual estrutura internacional da Ordem. A trajetória do ocultismo associado a Crowley é repleta de conflitos pela sucessão, divisões, núcleos independentes, correntes concorrentes, interpretações individuais e grupos que afirmaram sua própria legitimidade. Uma investigação que seja juridicamente responsável não pode, assim, atribuir automaticamente à O.T.O. atual as ações de um grupo dissidente, uma antiga ramificação ou um indivíduo isolado.
A primeira questão que eu precisei esclarecer era objetiva: se a ligação entre O.T.O., Crowley e a magia sexual é verdadeira ou se foi criada posteriormente por críticos. A documentação possibilita afirmar com grande confiança que ela é autêntica. A sexualidade desempenha um papel que vai além de uma simples narrativa biográfica na vida de Crowley, além de se manifestar não apenas como uma metáfora literária em seus escritos. Em sua produção mágica mais desenvolvida, certas práticas sexuais são apresentadas como uma tecnologia ritual, sacramental e iniciática. Textos que são creditados ao próprio Crowley, juntamente com estudos acadêmicos sobre a história da O.T.O., evidenciam que fórmulas sexuais foram integradas aos ensinamentos mais profundos da Ordem crowleyana.
Um dos documentos essenciais é o Liber CDXIV, De Arte Mágica, também conhecido como Livro 414. Neste texto, Crowley aborda de forma clara os materiais referentes ao que é conhecido como o segredo do IX° da O.T.O. O texto aborda a presença de uma segunda pessoa envolvida na atividade sexual e confere ao ato uma dimensão mágica e sacramental. Há uma questão especialmente sensível para qualquer análise contemporânea do consentimento: Crowley considera situações em que a outra parte pode não entender completamente o caráter mágico que o operador confere ao ato, enquanto em outros momentos a colaboração física e o entusiasmo do parceiro são vistos como desejáveis ou indispensáveis. A diferenciação é essencial. Uma pessoa pode aceitar ter uma relação sexual e, mesmo assim, não ter concordado em participar de um rito específico, ser utilizada como parte de uma operação mágica ou ter seu corpo envolvido em uma intenção ritual que seja mantida em segredo por outro participante. Sob a perspectiva jurídica atual, não se pode afirmar de forma categórica que toda falta de intenção simbólica configure um crime, pois isso é condicionado às particularidades do caso. Do ponto de vista ético, no entanto, surge um problema claro relacionado ao consentimento informado.
Outro documento particularmente revelador é o Liber CDLI, Eroto-comatosidade da Lucidez. O texto apresenta uma técnica que visa induzir um estado alterado de consciência através da alternância entre a estimulação sexual, a excitação, o esgotamento e a aproximação do sono. O candidato é conduzido várias vezes a estados de forte excitação e relaxamento até que a consciência atinja uma condição liminar, na qual o objetivo mágico deveria se manifestar. Esse texto é bastante relevante, pois dissipa a concepção de que toda linguagem sexual relacionada a Crowley seja unicamente simbólica. Existem procedimentos corporais específicos. Existem intervenções intencionais nos estados fisiológicos. Há envolvimento de outras pessoas. A atividade sexual possui uma finalidade iniciática ou mágica. Isso ainda não indica que a atual O.T.O. realize o Eroto-comatose Lucidity como um rito de iniciação, tampouco que todos os praticantes thelemistas tenham qualquer vínculo com esse processo. Isso indica algo distinto: grupos que buscam restaurar, reproduzir ou intensificar a tecnologia sexual de Crowley encontram no próprio acervo histórico elementos que podem ser entendidos como uma permissão ritual para práticas sexuais intensas. A análise de risco se inicia precisamente neste ponto.
As pesquisas de Hugh B. Estudos sobre magia sexual no esoterismo ocidental confirmam essa conclusão. Urban evidencia que a O.T.O. se transformou em um dos principais instrumentos da magia sexual contemporânea e que Crowley reformulou de maneira significativa seus ensinamentos. Em análises acadêmicas dos níveis superiores, as práticas autoeróticas estão ligadas a certos graus, enquanto as práticas heterossexuais se conectam a outros e as técnicas associadas ao sexo anal são relacionadas a graus ou operações mais avançadas. A terminologia e a estrutura mudam ao longo do tempo, entre documentos e em suas interpretações, por isso seria imprudente transformar uma reconstrução histórica em uma norma universal aplicável a toda organização atual. Não se pode contestar o aspecto estrutural da magia sexual nos ensinamentos históricos de sabedoria superior.
É preciso fazer uma distinção que resguarde a análise de possíveis exageros. Há, no mínimo, três afirmações distintas: um determinado grau pode ensinar uma fórmula sexual; a aplicação prática dessa fórmula pode integrar a vida mágica de alguns membros; e a realização do ato sexual pode ser uma condição imprescindível para que a iniciação ou o grau sejam concedidos. A primeira afirmação conta com um embasamento documental robusto dentro do contexto histórico. A segunda também é corroborada pela literatura crowleyana e por relatos de experiências práticas. A terceira, ao ser apresentada como uma regra universal da O.T.O. atual, não foi comprovada por meio de pesquisa. As políticas públicas atuais das jurisdições que analisei estão, na verdade, indo em uma direção contrária, enfatizando que não se deve exigir relações sexuais como condição para a progressão.
Contudo, é exatamente nesse aspecto que aparece a questão dos grupos independentes ou dissidentes. Uma fórmula pode não ser exigida na instituição principal e, mesmo assim, pode ser tornada obrigatória por um líder local, um ramo autônomo, uma comunidade derivada ou uma pessoa que afirme ter uma iniciação mais "verdadeira", "secreta" ou "original". Quanto mais a matéria doutrinária estiver resguardada por sigilo, maior poderá ser a dificuldade para o candidato em diferenciar um requisito genuíno de uma invenção do superior. O agressor se vê munido de uma ferramenta peculiar: ele não necessita criar a sexualidade ritual do zero. É possível referir-se a Crowley, aos segredos mais profundos, à tradição da magia sexual ou a variantes de rituais e usar esse legado histórico como uma fachada de legitimidade para uma demanda pessoal.
Essa suposição deixaria de ser apenas teórica ao ser confrontada com a documentação gerada pela própria O.T.O. dos Estados Unidos. Em 2004, a revista oficial Agapé divulgou o artigo "Assédio Sexual: Abordagens para um Problema Reportado", de autoria de Paul R. Hume e Sabazius. O documento é um dos elementos de prova mais relevantes desta investigação, pois não foi elaborado por um adversário externo à Ordem. Trata-se de uma resposta oficial a questões que surgiram no âmbito interno da instituição. Nesse documento, a organização admite que as denúncias de assédio ainda estão acontecendo e identifica comportamentos inadequados comuns, além de uma forma particularmente grave: a exploração da posição iniciática ou ritual para coagir alguém sexualmente. A publicação admite que houve momentos em que algumas pessoas sinalizaram a candidatos que sua posição dentro da Ordem poderia ser afetada caso não mantivessem relações sexuais com uma determinada pessoa. A própria O.T.O. categorizou esse tipo de conduta como uma espécie de assédio sexual quid pro quo. A ideia é extremamente relevante. Quid pro quo, de forma simples, refere-se à relação entre um favor sexual e a obtenção, manutenção ou perda de uma vantagem. No contexto laboral, um exemplo típico seria um chefe propondo uma promoção em troca de relações sexuais. No contexto iniciático, a moeda não necessariamente precisa ser um salário. Pode ser um nível, a introdução, o acesso ao mistério, a aceitação pelo grupo, o apoio, o reconhecimento, a proteção institucional ou apenas a continuidade em uma comunidade que se tornou psicologicamente fundamental para a pessoa.
O mesmo documento ressalta o perigo de empregar elementos do ritual, incluindo a proximidade física, o contato corporal, a intimidade cerimonial ou situações de vulnerabilidade, para tocar, constranger ou explorar sexualmente uma pessoa. Essa observação possui grande importância. Ela revela que a chance de exploração sexual no contexto ritual não foi apenas concebida por críticos. A própria administração da instituição avaliou que o risco era suficientemente concreto para abordá-lo de forma pública. Em 2018, Agapé retornou ao assunto. Uma publicação oficial reafirmou sua política de não tolerância a estupro, condutas sexuais não consensuais e assédio, além de mencionar os relatos recebidos ao longo dos anos de mulheres que afirmaram ter sofrido violência em situações relacionadas à Ordem. Foi debatido ainda a questão da subnotificação, a demora para realizar denúncias e as tentativas de minimizar ou justificar comportamentos inadequados. Mais uma vez, a presença desses relatos não converte cada acusação em um fato criminal comprovado. Uma entidade pode receber uma reclamação que, posteriormente, não se comprove. O que se pode comprovar é que o problema realmente existia. Existiam relatos bastante graves e frequentes que levaram a instituição a criar diretrizes, mecanismos disciplinares e uma linguagem própria para prevenção.
Este é provavelmente o aspecto mais crucial de toda a pesquisa. Não é necessário dizer que a O.T.O. é uma organização criada para praticar abusos. A própria documentação interna revela algo diferente: há um sistema que abrange a sexualidade ritual e que, em algumas circunstâncias, foi utilizado por pessoas para impor pressão sexual, levando a instituição atual a buscar estabelecer obstáculos contra esse tipo de comportamento. A mesma evidência que indica o risco também mostra que a organização atual, pelo menos de maneira formal, reprova esse uso excessivo.
Cabe entender por que um ambiente iniciático desse tipo pode proporcionar condições especiais para a manipulação. É fundamental deixar de lado a ideia distorcida de que o abuso necessariamente começa com uma violência física clara. Uma boa parte dos abusos cometidos em ambientes religiosos acontece através de poder, confiança, sigilo, respeito e dependência. Um líder espiritual não necessita fazer ameaças à vida de ninguém. Em certos contextos, ele exerce controle sobre algo que o seguidor vê como mais precioso do que dinheiro: o acesso ao sagrado. A literatura atual acerca de abuso religioso, autoridade carismática e controle coercitivo revela que a autonomia de um adulto pode ser gradualmente diminuída mesmo sem que haja cárcere físico. O sentimento de pertencimento à comunidade, o temor da expulsão, a crença de que o líder possui um conhecimento que não está ao alcance de todos, a promessa de iluminação, a interpretação espiritual dos eventos, além da culpa, da vergonha e da dependência emocional, podem influenciar de maneira significativa a habilidade de uma pessoa em definir seus limites.
Em um ambiente thelêmico ou relacionado à O.T.O., isso pode se manifestar de maneira especialmente sofisticada. Visualize-se como alguém que dedica anos à aprendizagem, conquistando diplomas, formando vínculos de amizade, transformando sua perspectiva sobre a vida e reconhecendo uma determinada pessoa como um sábio mentor. Ela tem a convicção de que esse superior entende aspectos que ainda lhe são impenetráveis. Certa vez, o superior anunciou que a próxima fase irá abordar a sexualidade. A pessoa fica em dúvida. Ao invés de apenas afirmar que a recusa terá sua consideração, o líder menciona que a indecisão é uma expressão do ego, da repressão, do condicionamento moral do "Velho Éon" ou da dificuldade em entender a própria Verdadeira Vontade. O vocabulário espiritual passa a ser, então, uma forma de pressão. É exatamente nesse ponto que a linguagem da liberdade pode ser utilizada contra a própria liberdade. Uma tradição que defende a soberania da vontade individual pode, de forma paradoxal, proporcionar ao manipulador uma linguagem ideal para acusar a vítima de estar "aprisionada" quando ela impõe um limite. A rejeição ao ato sexual é reavaliada como uma forma de repressão. O desconforto se transforma em uma evidência de que o candidato deve "superar obstáculos". O medo se torna um indicativo de que a operação está mexendo em uma estrutura psicológica que precisa ser eliminada. A objeção moral é caracterizada como um legado social deficiente. O superior não precisa rejeitar a ideia de que a pessoa é livre; ele declara que está proporcionando a liberdade a ela.
Não estou afirmando que Thelema seja responsável por essa manipulação. A atual O.T.O. declara de maneira clara o oposto, e isso deve ser registrado. Estou reconhecendo uma fragilidade na interpretação. Uma linguagem espiritual profundamente focada na superação de limitações pode ser adotada por uma pessoa que busca reinterpretar a resistência sexual da vítima como um desafio iniciático. O risco aumenta de forma exponencial quando uma única pessoa acumula várias funções. Visualize-se como alguém em uma posição de poder, que analisa a doutrina, determina se o candidato está preparado, regula o acesso ao próximo nível, possui informações confidenciais, lidera o ritual, avalia os resultados e, simultaneamente, nutre um desejo sexual por esse candidato. Portanto, existe um enorme conflito de interesses. A pessoa responsável por determinar se a ação é espiritualmente necessária é, na verdade, aquela que irá desfrutar ou se beneficiar dela. Nenhuma quantidade de jargão esotérico resolve esse conflito. Por essa razão, um dos princípios mais relevantes que defendo é bem claro: quando a chave do grau e a chave do quarto estão na mesma mão, o candidato deve aumentar, e não reduzir, sua atenção.
O segredo iniciático também requer uma abordagem cuidadosa. Ordens iniciáticas têm razões históricas e simbólicas que visam preservar certos ensinamentos, e não afirmo que todo segredo seja um sinal de abuso. Uma cerimônia pode contar com uma surpresa ritual sem que haja qualquer tipo de exploração. A questão surge quando a menção ao segredo impede que se tenha conhecimento prévio sobre tudo que impacta a integridade física, sexualidade, saúde ou a capacidade de dar consentimento. Nenhum adulto precisa ter conhecimento prévio de cada palavra, símbolo ou gesto dramático de uma iniciação. Entretanto, é fundamental que você esteja ciente se haverá nudez, contato íntimo, atividade sexual, consumo de substâncias, dor física intensa, limitação de mobilidade, privação de sono ou qualquer outra intervenção importante em relação ao seu corpo. Uma surpresa simbólica é algo. Uma abordagem sexual inesperada é outra. A afirmação "não consigo explicar por que é um segredo" não pode servir como uma autorização sem limites em relação ao corpo humano.
O consentimento genuíno não se resume apenas ao fato de a pessoa não ter resistido fisicamente. Um consentimento ético sólido deve ser dado livremente, de maneira específica, ter a possibilidade de ser revertido e ser baseado em informações adequadas. A pessoa deve ter a capacidade de recusar. Deve ser capaz de mudar de opinião. É importante ter consciência do que está aceitando. A recusa não pode ser convertida em uma ameaça de prejuízo injusto. Em um contexto espiritual, surge uma dimensão extra: a convicção de que algo transcendental será perdido se houver recusa. Se uma pessoa pensa que negar uma certa relação a fará perder sua iniciação, desobedecer ao mestre, falhar em cumprir sua Verdadeira Vontade, perder a proteção espiritual ou ser deixada de lado pela única comunidade que acredita ser capaz de entender sua experiência, a liberdade que parece existir deve ser examinada com muito mais atenção. A criminologia e as pesquisas sobre abuso religioso têm investigado precisamente essas zonas nebulosas. Hava Dayan, ao analisar o abuso sexual e os grupos carismáticos, aborda como a autoridade espiritual e a dependência podem tornar mais complexas as avaliações que, à primeira vista, parecem simples em relação ao consentimento. Natasha Mulvihill e sua equipe investigam experiências de controle coercitivo religioso, evidenciando como as crenças podem ser utilizadas para dominar comportamentos, relacionamentos e identidades. Desculpe, mas preciso de mais informações ou de um texto mais longo para que eu possa ajudá-lo a transformá-lo de acordo com o modo que você deseja. Por favor, forneça um texto específico que você gostaria que eu paráfraseasse. Spraitz e Kendra N. Bowen examina o temor respeitoso e a imposição religiosa em situações de abuso perpetrado por figuras de autoridade eclesiástica. Esses estudos não abordam a temática de Thelema de maneira abrangente e, por isso, não são adequados para sugerir uma incidência de abuso entre os thelemitas. Elas auxiliam na compreensão do funcionamento.
Outro fator que demanda atenção é a prática ritual dos estados alterados de consciência. Crowley explorou de maneira sistemática diversas técnicas com o objetivo de alterar a consciência, abrangendo meditação, privação, práticas sexuais, uso de substâncias e exercícios intensivos. O Eroto-comatoso Lucidez mostra de forma extremamente clara como a excitação e o esgotamento podem ser usadas como ferramentas mágicas. Estados alterados não são, por si só, considerados patológicos. Uma pessoa pode vivenciar êxtase, transe, fadiga ou percepções diferenciadas sem necessariamente adquirir qualquer enfermidade. O desafio aparece quando uma comunidade vê qualquer reação negativa apenas sob a ótica espiritual. A literatura médica é evidente ao mostrar que a falta severa de sono pode causar mudanças na percepção, alucinações, desorganização do pensamento e sintomas que, quando se tornam prolongados, podem se assemelhar a quadros psicóticos. Pesquisas realizadas por Sarah Reeve, Bryony Sheaves e Daniel Freeman, seguidas pelos estudos de Flavie Waters e sua equipe, registram associações entre a falta de sono e experiências psicóticas ou perceptivas. Isso não possibilita afirmar que um rito thelêmico específico provocou psicose em uma pessoa sem uma avaliação clínica adequada. É possível dizer que métodos que incluam exaustão extrema, falta de sono, uso de substâncias ou sobrecarga física não devem ser idealizados como se não gerassem efeitos médicos ou psicológicos. Se alguém sai de um rito apresentando sintomas como paranoia intensa, alucinações persistentes, comportamento desorganizado, agressividade incomum, episódios de mania, depressão severa ou risco de automutilação, a reação adequada não é afirmar automaticamente que o iniciado "abriu o terceiro olho", "está em contato com uma entidade" ou "está passando por uma iniciação desafiadora". A avaliação médica e psicológica não é uma adversária da espiritualidade. Trata-se de uma proteção. O oposto também é verdadeiro: um profissional ético não deve desdenhar prontamente do valor religioso que a pessoa confere à sua vivência. O método que eu proponho divide as questões em etapas: inicialmente, é fundamental zelar pela segurança e saúde; somente depois, deve-se abordar a interpretação teológica ou espiritual. Uma possível justificativa demonológica nunca deveria ser usada para postergar um atendimento urgente.
Analisei também a questão das ramificações dissidentes, pois é exatamente nesse ponto que uma estrutura já complicada pode se tornar muito mais perigosa. Organizações centrais, ao menos em termos teóricos, costumam ter estatutos, procedimentos, instâncias de recurso e um certo nível de supervisão. Um pequeno grupo independente pode centralizar tudo na figura de um único líder. Um marco histórico importante é a Solar Lodge, um grupo americano ligado ao universo de Crowley, que alegou ter conexão com a O.T.O., embora não deva ser confundido diretamente com a organização atual. No final da década de 1960, o grupo ganhou notoriedade por um caso que ficou conhecido como "Menino na Caixa", que envolvia uma criança de seis anos mantida em condições abusivas, incluindo o confinamento em uma caixa. O episódio resultou na intervenção das autoridades e em condenações. O caso registrado não deve ser caracterizado como abuso sexual se as evidências disponíveis indicarem que se trata de abuso infantil de outra forma. A sua importância para esta pesquisa se encontra no mecanismo institucional: um ambiente esotérico, restrito, hierárquico e convencido de deter uma legitimidade iniciática própria conseguiu normalizar uma violência severa contra uma criança. Isso não implica que a O.T.O. atual seja responsável pelos ações da Solar Lodge. Seria como responsabilizar toda uma instituição religiosa pelos crimes de uma seita dissidente que utiliza alguns elementos de sua linguagem. O que o caso revela é a importância de nunca confundir um pedigree iniciático alegado com a verdadeira segurança.
Uma pessoa pode ter diplomas acadêmicos e, ainda assim, ser criminosa. É possível entender a Cabala e ser manipuladora. É possível recitar Crowley de cabeça e não ter um caráter. É possível afirmar que se teve contato com inteligências além da compreensão humana e falsear informações sobre questões puramente humanas. É possível adotar uma tradição completa para disfarçar um desejo pessoal. Esse é o momento em que o problema do abuso se conecta ao problema gnoseológico abordado na primeira parte: uma revelação não se valida por si mesma e um grau não valida moralmente quem o detém.
A atual O.T.O. deve ser analisada tanto pelo que realmente afirma, quanto pelo contexto histórico relacionado a Crowley. Você quis dizer "A U.S."? Poderia fornecer mais contexto ou detalhe sobre o que você gostaria que eu transformasse ou traduzisse? A Grande Loja divulga diretrizes que rejeitam a prática de estupro, relações sexuais não consensuais, assédio e exploração. Seus próprios escritos afirmam que ninguém deve se sentir compelido a manter relações sexuais para garantir sua posição na organização. Existem instrumentos de disciplina e meios para a realização de denúncias. A implementação dessas políticas deve ser valorizada como uma importante proteção. A seção brasileira também divulga critérios relevantes. A iniciação é voltada para adultos, considerando a maioridade como pré-requisito. Os padrinhos não devem impor exigências pessoais extras nem usar sua posição para solicitar favores de caráter sexual. Há canais oficiais para relatar irregularidades. A seção também afirma que o grau iniciático não deve ser compreendido como uma superioridade moral automática. Esses componentes possibilitam a criação de um teste prático. Se uma pessoa se apresenta como representante de uma O.T.O. reconhecida e afirma a um candidato que ele precisa manter relações sexuais com ela para ser iniciado, manter sua posição, ser patrocinado ou alcançar um determinado grau, a própria documentação atual da organização fornece motivos para duvidar dessa exigência e denunciá-la. A pessoa pode tentar se esquivar afirmando que é parte de uma linhagem mais oculta, mais antiga ou mais autêntica do que a organização oficial. Nesse sentido, a precaução deve ser ampliada. Quanto menos verificável é a autoridade, mais relevante se torna investigar quem é essa pessoa, qual organização ela representa, quem pode validar sua posição e se existem mecanismos independentes para denúncias. Uma organização comprometida não deveria exigir que um candidato confiasse de forma absoluta em uma única pessoa para validar que essa pessoa realmente tem autoridade sobre ele.
A análise jurídica no Brasil acrescenta uma nova dimensão. No Código Penal brasileiro, não há uma definição de crime que possa ser classificada de forma genérica como "abuso espiritual". A maneira como as situações são apresentadas depende dos fatos. A liberdade religiosa não torna as atividades sexuais ilegais, mas também não caracteriza toda interação entre adultos e líderes religiosos como um crime. O artigo 213 do Código Penal aborda o crime de estupro cometido por meio de violência ou ameaça grave. Caso uma pessoa seja fisicamente coagida ou ameaçada de uma maneira que tenha relevância jurídica para realizar um ato sexual, a denominação de ritual, sacramento ou iniciação não altera a natureza da ação. A conversa se complica ainda mais quando a ameaça é apenas de natureza espiritual ou social. A declaração "você será expulso da ordem" não pode ser, sem uma análise mais aprofundada, considerada como a grave ameaça exigida por um específico tipo penal. A situação específica deve ser analisada por uma autoridade habilitada. O artigo 215 aborda a questão da violação sexual através de fraude ou de outros métodos que impeçam ou dificultem a expressão livre da vontade. Essa figura pode se tornar importante quando há um erro quanto à natureza do ato, manipulação intencional das circunstâncias ou uso de meios que visam prejudicar a capacidade de decisão. Contudo, não é viável afirmar de antemão que todo ocultamento de intenção ritual caracteriza uma violação sexual por meio de fraude; a aplicação desse conceito depende das circunstâncias, das evidências e da análise feita pelo juiz. O artigo 215-A aborda a questão da importunação sexual. Um toque libidinoso sem consentimento não se torna aceitável apenas por ocorrer dentro de um templo, loja, círculo ou ritual. Concordar em participar de uma cerimônia não quer dizer que se está de acordo com todo e qualquer tipo de contato físico que alguém queira fazer. O artigo 216-A, que aborda o assédio sexual, apresenta uma particularidade jurídica significativa: sua redação menciona o agente que se aproveita da superioridade hierárquica ou da ascendência natural decorrente do exercício de emprego, cargo ou função. Nem toda conexão exclusivamente espiritual entre mestre e discípulo se encaixará automaticamente nesse delito. Conforme a situação, podem haver outras infrações penais, obrigações civis ou repercussões administrativas. É exatamente por essa razão que um texto de divulgação não deve criar classificações artificiais.
Quando crianças estão envolvidas, a situação altera-se completamente. O artigo 217-A garante a proteção de indivíduos com menos de quatorze anos em relação a ações sexuais. A lei brasileira reconhece a vulnerabilidade absoluta nessa faixa etária, por isso, argumentos como consentimento, experiências sexuais anteriores ou suposta maturidade espiritual não justificam o ato. A Lei nº 15.353, datada de 8 de março de 2026, confirmou de maneira clara esse entendimento. Todo sistema mágico não possui exceções. Nenhuma iniciação gera exceção. Todos os mestres são iguais. Nenhuma interpretação da Verdadeira Vontade faz exceções. Nenhum pai, líder, iniciado ou dirigente pode transformar o abuso de uma pessoa vulnerável em "magia sexual" simplesmente alterando o seu nome. A Lei nº 13.431/2017, juntamente com o Estatuto da Criança e do Adolescente, oferece uma proteção mais abrangente contra a violência sexual, a exploração e a exposição de crianças e adolescentes a práticas libidinosas. A produção, solicitação ou disseminação de imagens sexuais que envolvem menores pode resultar em consequências penais severas. O meio digital fez com que esse aspecto se tornasse particularmente relevante. Atualmente, um alegado "mestre" nem mesmo precisa se encontrar pessoalmente com o adolescente para dar início a uma dinâmica de aliciamento. É possível solicitar fotografias, vídeos, conversas de natureza sexual, evidências de "liberdade", chamadas privadas ou atividades eróticas apresentadas como práticas mágicas.
Neste momento, quero direcionar uma mensagem especial aos pais e responsáveis. Um filho que se interessa por Crowley não se torna, automaticamente, uma vítima. Um jovem que lê o Liber AL vel Legis não está, por isso, sendo necessariamente influenciado. Um jovem que se interessa por ocultismo não deve ser visto como um criminoso, possuído ou doente. Reações familiares exageradas podem ter o efeito inverso, minando a confiança e levando o jovem a buscar um grupo que se apresenta como o único espaço onde ele se sentirá compreendido. A atenção deve ser voltada para as ações reais. Os pais precisam ficar atentos a quem está conversando com seus filhos adolescentes e se essa pessoa é adulta; se ela pede para guardar segredos dos pais; se solicita a exclusão de mensagens; se considera o jovem "maduro demais para a sua idade"; se insinua que as normas sexuais habituais não se aplicam aos já iniciados; se pede fotos íntimas; se inicia conversas sobre sexo sob o pretexto de educação sobre iniciação; se propõe encontros em privado; se oferece drogas ou outras substâncias; se afirma que a nudez ou o contato sexual são necessários para despertar habilidades especiais; e se diz que recusar um pedido demonstra medo, repressão ou falta de capacidade para a iniciação. Esses são sinais autênticos. Se um adulto afirmar a uma criança ou adolescente que sexo, nudez, imagens íntimas, masturbação guiada, contato erótico ou qualquer outra atividade sexual são essenciais para obter um grau, despertar energia, demonstrar liberdade ou realizar a verdadeira essência do ser, a conversa deixa de girar em torno do esoterismo. Há uma questão relacionada à proteção. A alegação de que "é um segredo iniciático" não deve impedir que se façam perguntas acerca da integridade física de uma criança. A seção brasileira da O.T.O. determina que a idade mínima para a iniciação é de maioridade; assim, qualquer pessoa que se apresente como representante oficial da estrutura brasileira e tente envolver um menor em rituais de iniciação sexualizada já está infringindo as normas estabelecidas pela própria organização.
Os pais também devem ser atentos à preservação de evidências. Quando há suspeitas concretas, dados como mensagens, nomes de usuário, datas, arquivos e informações de contato podem ser relevantes. Material sexual que envolva menores, no entanto, não deve ser compartilhado entre familiares ou amigos sob a justificativa de "mostrar a prova", uma vez que a disseminação desse material pode causar novos problemas e agravar o dano. As autoridades, o Conselho Tutelar, o Ministério Público, a Polícia Civil, a rede de saúde e o Disque 100 são opções adequadas de acordo com a gravidade da situação. Caso exista um risco imediato, a prioridade deve ser a proteção da criança. No caso de adultos, os familiares devem se precaver contra outra armadilha. Zombar de alguém que pensa ter sido influenciado por um grupo pode reforçar sua dependência. Alguém que investiu muitos anos de sua vida em uma ordem pode não estar emocionalmente preparado para receber a crítica de que "entrou em uma seita tola". O primeiro passo é reconstituir os acontecimentos, e para isso é essencial compreender o que realmente ocorreu, quem fez a proposta, qual era a posição dessa pessoa, o que foi prometido, quais seriam as consequências em caso de recusa, se houve alguma informação prévia, se era possível para a pessoa se retirar do rito, se havia testemunhas, se houve uso de substâncias ou privação de sono, se existem mensagens, se foi pedido sigilo, se o parceiro sexual também era o superior iniciático e se a pessoa se sentiu à vontade para recusar. Essas reconstruções são bem mais proveitosas do que iniciar pela controvérsia metafísica.
A pesquisa também deve evitar a tentação de apresentar estatísticas que não existem. Não encontrei um estudo epidemiológico confiável que compare as taxas de abuso sexual em Thelema, catolicismo, protestantismo, budismo, espiritismo, maçonaria, neopaganismo ou outras tradições, utilizando uma metodologia e denominadores apropriados. Sem informações sobre o número de pessoas nos grupos, a quantidade de casos reportados, o período em questão, a definição de abuso utilizada e o nível de subnotificação, não se pode afirmar cientificamente que "Thelema é a religião com mais abusadores" ou que "a maioria dos thelemitas é abusiva". Esse aspecto é crucial para a confiabilidade deste trabalho, e minha conclusão não é baseada nessa afirmação. A descoberta mais impactante é de natureza qualitativa e documental: existe uma tecnologia sexual nos documentos históricos relevantes; há hierarquias e segredos; a própria instituição admitiu que ocorreram situações em que indivíduos utilizaram a posição de iniciados para coagir sexualmente candidatos; existem casos históricos de grupos dissidentes associados a Crowley que criaram ambientes abusivos; e a literatura sobre abuso espiritual elucida como essa combinação pode agravar a vulnerabilidade na ausência de fiscalização e de mecanismos independentes de proteção.
Ainda existe uma justificativa legal para evitar as generalizações. Casos na Austrália que envolvem acusações públicas contra a O.T.O. evidenciaram o perigo de associar de forma indiscriminada pedofilia, abuso ritual ou crimes sexuais à organização sem fundamentos concretos. Uma investigação séria deve proceder de maneira oposta: identificar cada fato de acordo com a extensão da evidência. Caso haja um documento oficial que comprove a ocorrência de assédio, afirmo que houve reconhecimento desse assédio. Caso haja uma condenação em um grupo dissidente específico, mencionarei qual é esse grupo e qual foi a conduta que gerou a condenação. Caso haja apenas o testemunho de um ex-membro, afirmo que se trata de um testemunho. Se há uma hipótese criminológica, eu afirmo que se trata de uma hipótese. Caso eu não saiba, prefiro dizer que não sei. Essa disciplina não diminui a gravidade do problema. Torne-o mais desafiador para ser atacado. Além disso, não provei que práticas thelêmicas, por si mesmas, gerem psicose ou agressividade. Há relatos pessoais de indivíduos que relacionam suas crises a experiências rituais, mas a causalidade clínica requer muito mais. Um indivíduo pode se integrar a um grupo religioso em situação de vulnerabilidade; pode fazer uso de substâncias; pode estar com privação de sono; pode desenvolver transtornos, independentemente do ritual; pode entender uma condição clínica através da cosmologia que assimilou; e também pode ter vivenciado traumas gerados por coerção real. Sem registros, entrevistas clínicas e a construção de uma linha do tempo, transformar uma correlação em diagnóstico seria uma atitude irresponsável. Posso afirmar que determinados elementos empregados em algumas práticas mágicas têm efeitos reconhecidos sobre o corpo. A falta de sono, o uso de substâncias, a fadiga intensa e a estimulação contínua podem modificar a percepção e o discernimento. Por essa razão, qualquer grupo que considere a deterioração mental apenas como um "avanço iniciático" levanta um sério sinal de alerta. Da mesma forma, qualquer líder que desestimule a busca por atendimento psicológico ou psiquiátrico, afirmando que os profissionais "não compreenderão o processo mágico", acaba por aumentar a vulnerabilidade do indivíduo. Nenhum mestre deveria reclamar exclusividade na interpretação da realidade de um discípulo. O mesmo se aplica às denúncias internas: uma instituição não deve permitir que a única pessoa encarregada de receber queixas seja alguém que esteja diretamente subordinado ao acusado. Quanto mais elevado o nível de concentração de poder, menor será a capacidade de correção. Canais independentes, documentação, oportunidades de apelação e o reconhecimento das autoridades civis são aspectos fundamentais para a proteção.
Uma das melhores maneiras de se proteger que um candidato pode adotar é solicitar, antes de entrar, respostas objetivas a questões simples. É importante que ele tenha clareza sobre como recusar uma prática sexual pode impactar sua nota, sua entrada, sua permanência ou sua imagem; se a resposta não for um não definitivo, os riscos aumentam. É importante saber se é possível antecipadamente ter conhecimento sobre a presença de nudez, interações íntimas ou atividades sexuais; se a resposta for que ele "só saberá quando estiver preparado e não terá como recusar depois", o risco se torna maior. É importante verificar se há alguém fora do grupo local que possa receber uma denúncia sobre o chefe; caso contrário, o risco se torna maior. É importante verificar se é possível sair sem enfrentar ameaças espirituais, chantagem ou exposição; caso contrário, os riscos se elevam. E é importante saber se o superior tem a intenção de ser também seu parceiro sexual; o mero fato de a resposta ser afirmativa não caracteriza um crime entre adultos, mas cria um conflito de interesses que demanda um cuidado especial.
O que esta pesquisa evidencia, portanto, não é uma conspiração oculta na qual todo thelemita almeja prejudicar alguém. Claro! Por favor, forneça o texto que você gostaria que eu transformasse. Sistemas espirituais não desconsideram as estruturas de poder humano; na verdade, podem até mesmo intensificá-las. Quanto mais um indivíduo crê que seu superior possui chaves invisíveis da realidade, maior é o potencial de influência. Quanto mais confidencial é a informação, maior se torna o custo para contestar aqueles que afirmam tê-la. Quanto mais a sexualidade é vista como um meio de iniciação, maior se torna a necessidade de manter fronteiras. Quanto mais a transgressão é considerada um meio de libertação, maior deve ser a habilidade de diferenciar a transgressão que é escolhida da que é imposta. E quanto mais o grupo clama por liberdade, mais rigorosamente precisa resguardar o direito de dizer não. Essa última contradição é particularmente relevante no contexto de Thelema. Uma filosofia que coloca a vontade no centro não pode aceitar que a vontade de um mestre tome o lugar da vontade do discípulo. Se "Faça o que você quer" contém alguma consideração ética ligada à Verdadeira Vontade, então empregar medo, hierarquia ou sigilo para conseguir atividade sexual configura exatamente a violação da vontade do outro. Nesse contexto, a própria lógica thelêmica apresenta uma crítica interna ao abuso. Aquela pessoa que converte grau em moeda sexual não está promovendo a liberdade; está aproveitando a estrutura iniciática para obter controle sobre outra pessoa. A pessoa que diz que a vítima deve ultrapassar seus limites enquanto cuida atentamente de seus próprios interesses não está eliminando condicionamentos; está criando um novo condicionamento. A pessoa que afirma ter o segredo e, convenientemente, revela que esse segredo requer acesso ao corpo de seus subordinados deve ser analisada com a maior desconfiança. A questão não reside no erotismo. A questão reside na autoridade que, de maneira eroticamente atraente, se coloca como a intérprete única das necessidades espirituais do outro.
Sob a perspectiva teológica cristã, há uma crítica ainda mais abrangente. A verdadeira direção espiritual não transforma quem é dirigido em um mero objeto do diretor. A autoridade espiritual deve ser um serviço dedicado ao bem do próximo. Quando a relação se inverte e o superior usa a procura transcendental do discípulo para atender a necessidades pessoais, o sagrado passa a ser um instrumento de dominação. É nesse momento que o abuso espiritual e o abuso sexual podem se entrelaçar. A pessoa não é oprimida por sua fé; é aproveitada por causa dela. O que ela guarda de mais profundo, a sua procura por Deus, saber, transcendência ou iluminação, transforma-se na ferramenta utilizada contra a sua liberdade. É por essa razão que o abuso religioso pode ser extremamente prejudicial. Uma agressão frequente abala a confiança em alguém. Uma agressão disfarçada de autoridade espiritual pode minar a habilidade da vítima de confiar em sua própria percepção, nas comunidades, na sua fé e até mesmo na noção de transcendência. Essa circunstância também esclarece o motivo pelo qual algumas vítimas levam anos para identificar o que ocorreu. No instante do ato, é possível que tenham pensado que estavam envolvidos em uma cerimônia sagrada; apenas depois, ao se distanciar da estrutura simbólica do grupo, reavaliam a experiência. Isso não implica que toda pessoa que, posteriormente, se arrependa de uma relação sexual tenha sido vítima de abuso. Arrependimento e abuso não têm o mesmo significado. Isso quer dizer que, em sistemas com uma grande autoridade espiritual, a reconstrução do consentimento posterior demanda uma escuta atenta e respeitosa. É necessário lutar contra duas injustiças ao mesmo tempo: rotular todo ato sexual não convencional como abuso e desconsiderar o abuso apenas porque a vítima, em um primeiro momento, viu a experiência como algo espiritual. A abordagem adequada consiste em reconstituir o contexto.
A minha conclusão final é, assim, proporcional às evidências que estão à disposição. Há grande certeza de que a magia sexual faz parte do acervo histórico da O.T.O. de Crowley. Há uma forte convicção de que a O.T.O. norte-americana admitiu casos de coerção sexual ligados à posição de iniciação e à exploração imprópria de situações rituais. Há uma forte convicção de que a organização atual afirma de maneira oficial que não aceita a coerção sexual e, nas áreas que examinei, não considera o sexo como um critério público e universal para promoção. Há uma sustentação razoável para a alegação de que grupos dissidentes, autônomos ou com pouca supervisão podem converter materiais sexuais baseados em Crowley em instrumentos de controle, uma hipótese apoiada tanto pela organização do material quanto por casos documentados de abuso em contextos relacionados. Não há evidências suficientes para sustentar que o Thelema tenha, de forma estatística, um número maior de abusadores em comparação com outras religiões. Não há evidências que possam responsabilizar todos os thelemitas por atos criminosos cometidos por indivíduos ou grupos específicos. Não há fundamento para considerar o interesse em Crowley como um indicativo automático de enfermidade, crime ou comportamento abusivo. Contudo, há fundamentos suficientes para se emitir um alerta.
Ninguém deve permitir que o sexo seja encarado como uma obrigação espiritual. Nenhum candidato deve ser levado a pensar que precisa abrir mão de seu próprio corpo para demonstrar coragem, liberdade, pureza, desapego, evolução ou habilidades extraordinárias. Nenhum grau é mais importante do que o consentimento. Nenhum compromisso elimina o direito de interromper uma relação sexual. Nenhum segredo pode anular a legislação. Nenhuma autoridade detém soberania sobre o corpo de uma criança. Nenhum mestre tem a prerrogativa de reclassificar a exploração como sacramento apenas por conhecer termos que a vítima ainda não domina. E nenhum pai deve desconsiderar um adulto que solicita segredo sexual ao seu filho só porque esse adulto se apresenta como sacerdote, mago, iniciado, adepto, mestre, superior, chefe de loja ou portador de uma linhagem. Se existe uma frase que consegue resumir todo este dossiê, é a seguinte: quando a sexualidade, o segredo e a hierarquia iniciática se cruzam, é necessário que a liberdade seja protegida com maior rigor, e não com menos.
A Thelema não deve ser julgada com base em boatos. A O.T.O. não deve ser responsabilizada de forma coletiva por crimes que não foram comprovados. Contudo, nenhuma tradição deve escapar ao exame apenas porque se refere aos seus mecanismos como mistério. Onde há poder, há a possibilidade de abuso. Onde há poder sagrado, a chance de abuso pode assumir uma forma muito mais persuasiva. E quando o superior que regula o grau também exige acesso ao corpo do discípulo, o mistério se encerra e surge uma questão humana, jurídica e moral bastante clara. Tudo se resume a um único aspecto: se aquela pessoa não tinha a opção de negar, pouco importa a quantidade de símbolos, nomes sagrados, graus, livros ou juramentos que foram colocados em torno do evento. A liberdade já foi desrespeitada.
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