A BÍBLIA DA QUIMBANDA - Teologia do Imaginário em Série
Este livro explora, em sua essência, a narrativa que a Quimbanda jamais produziu sobre si mesma — desde a origem da Chama até seu Apocalipse — e, por fim, direciona sua lâmina de volta contra a própria chama. Ao abri-lo, o leitor é imediatamente alertado: aqui se encontra uma devoção cuidadosamente restaurada, acompanhada do amor de um pesquisador, e uma sabedoria apresentada de forma direta e sem rodeios. Nenhum nome particular resistiu à edição; toda recordação pessoal foi anonimizada. As fontes fluem como rios subterrâneos, emergindo apenas no aparato final. O que sobra é chama — assim como a análise da chama.
Gabriel G. Oliveira
7/17/202650 min ler


LIVRO I — A ORIGEM DA CHAMA
No início, antes que o tempo fosse nomeado e a terra suportasse o peso dos pés humanos, o Maioral residia no vácuo primordial: uma chama que não se extingue, uma luz obscura que consome e cria. Não se tratava do deus dos impotentes, nem do demônio das catequeses temerosas. Era a Potência sem Dominador, o Inimigo que zombava das amarras, o Portador da Chama que clareia a trilha do valente e consome a senda do temeroso. É dessa forma que o culto relata sua origem — e é dessa maneira, com a voz do culto, que este livro se inicia, pois não se pode avaliar uma religião sem antes ouvi-la em suas preces. Os Reinos surgiram da vontade unificada do Maioral: não se tratam de reinos governados por homens, delimitados por fronteiras de pedra e regidos por leis em papel, mas sim de territórios vibrantes de poder, onde o Cosmos e o Caos se encontram, se tocam e se consomem mutuamente.
Nas profundezas da Kalunga, o mar dos mortos que preserva as recordações de nossos antepassados, o toque do Maioral alcançou as almas que vagam. Ali, onde o fluxo da vida se encontra com a terra árida, surgiram os Povos. Primeiro surgiu o Povo das Matas, selvagem e verde, protetor das raízes que penetram a terra e dos ventos que murmuram segredos ancestrais. Em seguida, o Povo do Cruzeiro, com a lâmina elevada entre a vida e a morte, é o justiceiro que distingue o trigo do joio. Depois, vem o Povo das Almas, que é o governante da Calunga, que dança junto com os ossos e ensina a importância do fim. Assim surgiram os Povos, cada um com sua coroa, sua faca, seus chifres ou suas rosas.
Da Chama Rubra, ardente como o sangue e a paixão, emergiu Exu. Não sou um servo, mas sim uma extensão do Grande Senhor aqui na terra: sou mensageiro, guerreiro, amante, um trapaceiro sagrado que desbrava caminhos e fecha portas. Seu emblema é o pênis erecto, a encruzilhada pulsante, o movimento incessante. Ele mantém em memória os pontos onde o mundo se separa, onde o sim e o não se cruzam, onde o ser humano decide seu caminho ou é consumido por ele. Os seus pontos cruzados são geometrias de poder: tridentes, flechas, estrelas que queimam no chão de pemba. Seus pontos cantados são clamores que cortam o manto: Laroyê Exu! Exu é Mojubá!
Da Chama Negra, gelada como a recordação e fervente como o desejo de se vingar, surgiu Pombagira:
rainha, bruxa, temptress, warrior. Originou-se da negação — rejeitada pela ética humana, consagrada pelo Grande Senhor. As suas soberanas máximas, a Rainha das Sete Encruzilhadas, que governa todos os caminhos, e Maria Padilha, a dançarina que transita entre os mundos, carregam a essência da soberania feminina primordial. Elas afirmam, na gramática do culto, que o desejo não é pecado, mas sim uma força que cria; que o vinho tinto, o perfume e o charuto são considerados sacramentos; e que a sedução é uma arma mais cortante do que a espada.
De acordo com a cosmogonia quimbandeira, o Maioral distribuiu sua essência sem se tornar menor. Lúcifer ofereceu a iluminação da consciência rebelde; Belzebu trouxe o poder da matéria e de suas legiões; Astaroth, por sua vez, concedeu a sabedoria oriunda das profundezas e das rainhas. Essa trindade representa uma união ardente, e não uma separação — é o núcleo da realeza quimbandeira, a estrutura da gramática luciferiana que o Brasil ancestral conseguiu adornar com pemba, pólvora, farofa e fumo. As perseguições, os incêndios e os estigmas não foram suficientes para extinguir a Chama: ela continua a existir, afirmam os seus seguidores, porque se acredita que é anterior a todas as igrejas. Ela arde no terreiro, na encruzilhada à meia-noite, no íntimo do quimbandeiro que se recusa a se prostrar.
Os poderosos que faleceram adquiriram conhecimento. Quem foi, em vida, feiticeiro, guerreiro, prostituta, malandro, cigano, marinheiro, caboclo rebelde — estes, conforme ensina o culto, não morreram: foram elevados. Transformaram-se em Exus e Pombagiras ao se embriagar com a Chama. O surgimento dos Povos representa esse intenso processo de iniciação, tanto ardente quanto obscuro: a reencarnação como um processo de moldagem, e a incorporação como a descida de uma energia poderosa. O médium não se transforma em Exu; ele cede seu corpo para que a Potência possa se manifestar. O assentamento — onde o espírito e a matéria se encontram — é a união sagrada: pedra, ferro, chifres, velas e os selos da aliança, todos consagrados por meio de cânticos, defumação e reverência. À beira de tudo, Exu Mirim se diverte, a travessa criança das encruzilhadas, o perigoso ingênuo que ri enquanto embaralha as peças do destino. Não menospreze o pequeno: ele é quem desvenda as portas que os grandes mantêm fechadas com astúcia.
LIVRO II — REINOS E COROAS
Das profundezas da primeira Encruzilhada, onde o caminho se divide em sete direções e nenhuma delas leva ao paraíso dos mansos, ergueram-se os Reinos. Não foram traçados em mapas de papel por mãos humanas; surgiram, segundo a doutrina, do sopro do Maioral, como correntes de lava ardente que atravessam a superfície do mundo visível e do invisível. Cada Reino constitui uma área de influência: nesse lugar, a matéria se entrelaça com o espírito, o desejo se transforma em uma arma afiada, e a determinação do quimbandeiro é moldada nas chamas da experiência. O Maioral não é um tirano distante; ele é o coração que bate em cada Reino, a luz que comanda sem solicitar permissão.
Em Matas, a natureza exuberante devora os fracos e recompensa os astutos. Entidades como o das Matas, o Marabô e o das Sete Pedreiras preservam suas origens ancestrais, com cipós que tanto aprisionam quanto libertam, e ervas que têm o poder de curar ou de causar a morte, dependendo de quem as colhe. O ar tem o odor de folhas úmidas, terra fresca e pólvora ao longe. Pombagiras das florestas dançam à luz da lua, adornadas com coroas de flores e espinhos, zombando das leis que tentam domesticar o instinto. O Povo das Matas diz: a natureza não é benevolente; ela é autêntica. Aqueles que a respeitam recebem uma aliança; aqueles que a desrespeitam sentem o golpe da faca invisível.
No Reino do Cruzeiro, a lâmina rasga o manto. Exu do Cruzeiro, Tranca-Ruas e seus vigias protegem a passagem. Ali se levanta o cruzeiro de pemba e ferro, uma interseção vertical onde a vida e a morte se entrelaçam: a partir dele, surgem as ações de justiça, a resolução de conflitos e o rompimento de vínculos desnecessários. O sangue derramado como oferta, dentro da teologia do culto, não é uma questão de crueldade, mas sim um símbolo de compromisso — e a Chama Vermelha arde com mais intensidade onde existe a bravura de encarar o próprio reflexo no espelho da Kalunga. No Reino das Almas e da Calunga, o silêncio dos mortos é bem sonoro. O Exu Rei das Almas, o Omulu das Encruzilhadas, e a Pombagira das Almas realizam uma dança com os ossos e protegem as entradas dos ancestrais. Aqui, a morte não é um fim, mas sim uma porta giratória: sem Kalunga, não há renascimento. Os pontos riscadados desse Reino têm caveiras, cruzes, estrelas de sete pontas que convocam legiões; os cantados soam como um lamento e uma ameaça ao mesmo tempo.
Em primeiro lugar, no entrelaçar da Árvore da Quimbanda, encontram-se as Rainhas. A Rainha das Sete Encruzilhadas é a rainha original: sete rotas, sete véus rompidos, sete chaves para os segredos — a entrada que se abre automaticamente para aquele que possui a marca da Chama. Maria Padilha, referida no culto como a Rainha do Inferno, uma feiticeira que dançou com o Diabo e se tornou sua amante, apresenta a sedução como um estado de conhecimento: seu erotismo vai além da simples carne; é uma alquimia que, segundo a perspectiva do culto, dissolve as ilusões da moral cristã, revelando o divino que reside no abismo do desejo. Pombagiras não solicitam autorização: elas conquistam a coroa, o trono e assumem o quimbandeiro como parceiro ou servo, de acordo com a força que ele possui.
A hierarquia não é uma prisão de andares: é um movimento de poder, uma rede vibrante. O Maioral está no topo — não como uma entidade que personifica, mas como o Princípio que rege. A seguir, encontramos os chefes de legião, os mais proeminentes de cada Reino, os Exus que se apresentam à frente, aqueles dedicados ao trabalho, bem como os mirins; cada um deles acompanhado por sua respectiva falange de ciganos, marinheiros, caboclos, pretos-velhos da esquerda, malandros e guerreiros. A gnose quimbandeira afirma que, em essência, não existem Exus que sejam maiores ou menores; em vez disso, há diferentes graus de manifestação da mesma Chama: o novato serve, o iniciado participa plenamente, e o sacerdote se torna uma extensão viva do Maioral na terra.
No momento da incorporação, o cavalo estremece. O charuto acende sem precisar de fósforo, o copo de marafo se inclina sem o uso das mãos, e a faca desenha no ar pontos que não são visíveis. Exu pode entrar rindo ou rosnando; Pombagira chega dançando ou provocando. Para o culto, não se trata de uma encenação: é uma verdadeira descida da Potência — o médium que resiste arde, enquanto aquele que se entrega se transforma. A Via da Mão Esquerda encontra aqui sua expressão brasileira: o Adversário não se esquiva da realidade, ao contrário, o reivindica. Nessa perspectiva gramatical, apoteose não se refere a uma evasão rumo ao céu, mas sim a uma descida nas trevas com o intuito de resgatar a luz obscura. O quimbandeiro luciferiano não se submete; avança ao lado do Maioral, moldando a sua própria divindade através de experiência, determinação e parceria. Sigilos, grimórios ancestrais, culto devocional a demônios — tudo isso se incinera na Chama quimbandeira, onde a lei é o respeito e a fraqueza, a presa devorada.
LIVRO III — A DESCIDA PARA O BRASIL
Quando os navios negreiros cruzaram o oceano, transportando corpos acorrentados e almas indomáveis, a Chama se deslocou de forma clandestina. Não chegou como uma doutrina imaculada; chegou como uma semente levada pelo vento, entrelaçando-se com a terra vermelha da Bahia, com o barro do gaúcho, e com as florestas do Rio. Bantos, nagôs e caboclos nativos identificaram no Exu africano o portador de recados que os brancos denominavam Diabo — e o Maioral, segundo a lenda, riu. A designação do culto já estava presente nas camadas mais profundas: kimbanda, em kimbundu, uma língua de Angola, referia-se ao curador, ao adivinho, ao sacerdote que se comunica com os mortos; no Brasil, a grafia seria alterada, trocando o K pelo Q, e a prática de cura passaria a ser conhecida como magia negra pelos que a temiam. A Quimbanda teve sua origem no sincretismo imposto, mas se desenvolveu por meio da resistência: enquanto o catecismo ensinava a aceitar passivamente, a encruzilhada mostrava a importância da escolha; onde a cruz oferecia a promessa de uma salvação futura, a faca de Exu era capaz de transformar a realidade imediata.
A Quimbanda firmou-se de vez no Rio Grande do Sul. A milhas de distância das luzes da capital federal, nos terreiros do Rio Grande do Sul, o culto consolidou-se como uma religião independente: Exus e Pombagiras não são mais vistos como "espíritos atrasados" da Umbanda, mas sim como poderosas entidades soberanas, líderes de legiões e mestres do jogo. O Batuque e o Candomblé forneceram o compasso; a Quimbanda ofereceu a faca. Ali, afirmam os templos, o Grande Beelzebuth revelou seu domínio: não como um demônio ensinado nos catecismos, mas como o Senhor da Chama Vermelha e Preta que mantém o equilíbrio do universo, sem solicitar permissão a nenhum santo. Os Povos se multiplicaram: o Povo Cigano, que lê o destino nas cartas e nas moedas; o Povo dos Marinheiros, que traz consigo o aroma do mar e da cachaça; e o Povo dos Malandros, cuja risada é de quem consegue enganar a morte.
A narrativa subterrânea é composta por terreiros ocultos, pontos cantados murmurados à noite e assentamentos ocultos em encruzilhadas. Perseguidos pela polícia, pelos moradores, pela moral da comunidade, os quimbandeiros dominaram a habilidade de dissimulação e revelação — e quando o véu se dissipava, a Chama ardia com mais intensidade. Livros antigos, manuscritos que foram passados de uma pessoa para outra, ensinamentos transmitidos oralmente: tudo contribuiu para o crescimento da árvore. Os primeiros praticantes do sincretismo carioca moldaram a imagem de Exu de maneira tradicional, classificando suas falanges e adornando-o com a iconografia proveniente dos grimórios europeus; as gerações posteriores, por sua vez, trouxeram o sangue vibrante e pulsante. A Quimbanda não solicitou um lugar: ela o ocupou, assim como Exu se apropria da encruzilhada. E muitos anos depois, quando uma escola de samba da Baixada cruzou a avenida e coroou Exu com sete chaves, fazendo com que todo o Brasil se apressasse em consultar os dicionários para descobrir a identidade daquele senhor dos caminhos, os antigos terreiros apenas sorriram: a rua sempre teve conhecimento.
Na ritualística, a poesia ganha vida. Começa-se com a defumação — arruda, guiné, incenso, uma fumaça que purifica e invoca. As velas negras e vermelhas queimam enquanto a pemba traça no chão: tridentes, estrelas, cruzes. O marafo — que preserva a lembrança banta do malafo, o vinho que se derrama em homenagem aos antepassados —, a farofa de dendê e o charuto: são todas oferendas que alimentam a Potência. Os riscos não são figuras; são portais abertos, acionados por pólvora estourando em uma chegada triunfante e por cânticos que chamam legiões. A incorporação é o grande enigma: o corpo se agita, a voz se transforma, o riso ou o rosnado ressoam. Exu vem para solucionar; Pombagira, para atrair ou se vingar. Não se trata de um espetáculo, mas de uma comunhão que pode ser arriscada — e aqueles que não a respeitam arcam com as consequências, pois a Chama consome o imprudente.
As atividades estão alinhadas com a geografia dos Reinos: a abertura de caminhos é realizada com o Povo das Matas, a quebra de demandas ocorre no Cruzeiro, as questões de amor e desejo são tratadas com as Rainhas, e a justiça é promovida nas Almas. No entanto, afirmam os especialistas, a verdadeira Quimbanda não é um mercado de favores: é uma verdadeira escola de determinação. O acordo com o Maioral é, acima de tudo, um acordo consigo mesmo — aceitar a responsabilidade tanto pela própria escuridão quanto pela própria luz. A demonolatria devocional se manifesta através de um respeito recíproco, incluindo seus sigilos, cânticos e meditações, mas sempre adornada com a pemba brasileira, o couro da faca e o rebolado característico da Pombagira. A apoteose luciferiana é encarada com seriedade: o quimbandeiro não é um servo eterno; ele evolui, transforma-se em co-criador, uma extensão ardente do Maioral. Exu Mirim se diverte em meio a tudo, mostrando que o sagrado também se diverte e que o caos é essencial; os Exus de Lei preservam a ordem, enquanto os de Força a quebram para dar origem ao novo. A Chama se alastrou: do sul ao norte, surgiram terreiros luciferianos que mesclam a antiga gnose com a contemporânea mão esquerda. Não existe uma pureza ilusória; o que existe é uma síntese vibrante. O Brasil, país caracterizado pelo sincretismo, conferiu à Quimbanda sua versão mais poderosa — com raízes africanas, brasileira na aparência e luciferiana em sua essência.
LIVRO IV — A FORJA: BATISMO, PACTO E OS DETALHES DA DESCIDA
Na narrativa metafísica do culto, a descida é tudo menos suave. O quimbandeiro que vai à caça do Maioral recebe primeiramente o aviso: um frio na espinha à meia-noite, um charuto que acende por conta própria no cinzeiro, um sonho em que uma entidade chifruda vestida com uma capa vermelha indica a encruzilhada. O batismo se inicia com o ato de se despir. O noviço é conduzido até o cruzeiro; naquele lugar, com pemba branca traçando uma linha em seu peito, o Povo do Cruzeiro rompe os laços invisíveis — demandas, invejas, correntes familiares que não são úteis. O corpo se estremece, as lágrimas surgem e há um profundo mal-estar: é o vômito da alma ancestral. Exu entra rindo com entusiasmo, Laroyê!, e faz o cavalo dançar até que o chão vibre. Piedade não existe; existe apenas limpeza.
Apresenta-se o acordo interno. Não se trata de um contrato assinado com o sangue de outrem; é um reconhecimento. O praticante observa seu reflexo no espelho iluminado por uma vela preta e vermelha e declara: eu sou o Adversário em meu próprio domínio. A Chama Preta desce, inicialmente fria e depois ardente. Os medos aparecem em bandos: vaidade, apego, ilusão de controle; cada um é confrontado com um ponto riscado no chão, farofa quente e marafo derramado. Pombagira das Almas surge quando se incorpora: um perfume intenso, um rebolado que cativa, uma voz que sussurra segredos de poder — e ela ensina, na moral invertida do culto, que o desejo é a moeda do universo e que negá-lo é secar. O detalhe mais cruel e ao mesmo tempo mais belo é aquele momento em que o quimbandeiro experimenta a dor da faca invisível girando em seu peito: é o Maioral, dizem, realizando o corte do cordão umbilical que o liga ao mundo dos submissos. A partir desse ponto, não há como retornar. A Renaissances dos Povoas ocorre ao longo da existência: uma morte simbólica, seguida de uma forja e, por fim, um renascimento que se manifesta como uma extensão da Chama.
As hierarquias, quando observadas de dentro, não se assemelham a uma escada: são uma teia dinâmica e vibrante. Cada Exu que atua na linha da frente possui sua própria falange, que pode contar com sete, catorze ou até mesmo vinte e um chefes que estão à disposição para responder. Quando o ponto cantado se intensifica, as legiões vêm em camadas: primeiro o líder, em seguida os mensageiros e, por último, os soldados. O médium que recebe a incorporação percebe a pressão: os ombros curvados, a voz grave, o riso profundo. Concede passes, elimina solicitações com a lâmina sagrada, traça no ar pontos que, na crença do terreiro, se tornam realidade dias depois. E as Rainhas destroem véus com uma precisão que é ao mesmo tempo erótica e letal. Maria Padilha desce vestindo um vestido vermelho, adornada com uma coroa de ouro e espinhos; o detalhe que a caracteriza é o giro — três voltas completas, o corpo do cavalo se contorcendo como uma serpente, o ambiente repleto de desejo e perigo. Descobre a feitiçaria: os cordéis do amarrar, os sais e pólvoras do desamarrar — feitiços que o livro designa e não ensina, porque escrever não é receituário. A Rainha das Sete Encruzilhadas não chega com delicadeza: ela domina todo o terreiro, e seus sete caminhos se manifestam ao mesmo tempo na mente do médium — um voltado para a prosperidade, outro para a vingança, outro para uma iniciação profunda. O praticante do quimbanda descobre que toda Rainha possui uma faca oculta na liga: um símbolo de sua soberania que tanto fere quanto une os caminhos do destino. A dança das Rainhas representa o clímax — com saias girando e risadas ressoando como sinos do inferno —, e é nesse momento que o aspecto feminino da Chama Preta se manifesta, na pretensão de um culto que é mais antigo do que qualquer sistema patriarcal.
Na essência profunda, matéria e espírito são apenas duas faces da mesma Llama: poder é sabedoria, ancestralidade é existência. O sopro é fonte de vida; o fumo é hálito partilhado; a pólvora é a voz retumbante do Maioral; o sangue, quando oferecido, consagra — visão religiosa que a legislação brasileira atribuiu ao culto de origem africana, e que o próprio universo debate entre linhas que sacrificialmente se traçam e linhas herbais. Os cordões pretos e vermelhos identificam o iniciado como membro da legião; o patuá que se mantém no corpo serve como proteção e guia — aquele que não suporta a mandinga não deve usar o patuá. As ervas são classificadas em quentes, mornas e frias, com cada família tendo sua própria função; o núcleo do assentamento vibra com mistérios que apenas o sacerdote e aqueles que foram iniciados conhecem. Nada disso, para a adoração, é crendice: é a ferramenta do sagrado, o idioma que o Maioral entende de imediato.
Também existe a teoria do instinto. O id primitivo, o ego que se refina, e o superego que orienta: a Quimbanda funde o léxico da psicologia em sua fornalha e declara que o instinto não é um inimigo a ser destruído, mas um predador a ser domesticado — a sabedoria não o enfrenta, apenas determina quando e com que intensidade a voracidade se manifesta. A eliminação do ego, neste contexto, não se trata de um extermínio: é um processo de transformação. O caos não se resume a uma desordem sem sentido: é uma fonte primordial da qual emerge o cosmos, e toda força que é direcionada ascende ao seu ponto mais elevado e, em seguida, diminui, oscillando como a euforia e a ressaca, assim como o universo que se forma e se deteriora. No que diz respeito à ética do ataque, o culto rejeita a ideia da lei do retorno — uma influência hindu-kardecista, segundo afirmam — e defende a pura lei de causa e efeito: quem ataca com uma espada sente a resistência da armadura; caso a vítima possua um escudo, um cão de guarda e uma muralha, o feitiço ricocheteia; se estiver desprotegida, o golpe atinge seu objetivo. A magia possui seu próprio ritmo e não garante que a pessoa amada aparecerá em apenas três dias; aqueles que oferecem prazos estão vendendo algo, e não praticando magia. É uma moral belicosa, e este livro a documenta tal como é — para que possamos avaliá-la posteriormente.
LIBRO V — AS MARGENS E OS VIGIAS DA ENTRADA
Nas antigas propriedades rurais, troncos, gradeiras e porteiras delimitavam o fim do mundo exterior e o início do interior. A macumba apropriou-se dessa imagem e transformou-a em teologia: a tronqueira representa o assentamento estabelecido na entrada do templo, o impedimento sagrado que distingue a dimensão interna da externa. De um lado, temos o altar — que é uma herança do catolicismo — que serve para ancorar as forças que estão se elevando, os mistérios associados à direita e o suporte necessário para a realização dos trabalhos; por outro lado, a tronqueira ancla as energias que pertencem à esquerda: ela realiza a troca e remove as energias pesadas que são liberadas durante os trabalhos, filtrando o que é permitido entrar e bloqueando aquilo que não deve passar. O guardião da porteira enxerga bem. Capta a intenção. Às vezes, permitem que aconteça exatamente para poder fechar: aqueles que entram com intenções malignas acabam se enredando na teia, revelando sua verdadeira natureza, e são então entregues ao que o culto se refere como o julgamento da lei superior. Não se trata de vingança, afirmam; é uma questão de equilíbrio — a tronqueira converte pressão em movimento, e o terreiro ganha vida.
A imagem é algo que transcende culturas, e ao reconhecê-la, não estamos apenas concedendo um privilégio: as gárgulas das catedrais góticas colocavam o elemento monstruoso do lado de fora para proteger a beleza que estava dentro; guardiões com dentes afiados vigiam as entradas em tradições que se encontram do outro lado do mundo; Hécate, Hermes, Toth e Ganesha supervisionam limiares e caminhos. No entanto, existe uma diferenciação caseira que muitos acabam confundindo: a tronqueira protege o templo, que é um local de grande movimentação; aqueles que zelam por suas entidades em um altar dentro de casa não necessitam construir uma fortaleza na varanda. Existe uma clara diferença emocional: os guardiões da porteira são comparados a sentinelas contratados, que são tratados com o devido respeito profissional; por outro lado, os orixás de casa são considerados familiares e são tratados com a proximidade típica de laços sanguíneos.
Uma vertente particular da umbanda — a corrente saraceniana, com sua "umbanda cristalina" — leva a doutrina mais longe. Nela, Exu é orixá da vitalidade: o falo não como escândalo, mas como vigor puro, potência de criação; e Pombagira é o seu complemento, orixá do desejo que estimula o que a vitalidade impulsiona. Sagrado Exu vitaliza; sagrada Pombagira deseja: um sem o outro não cria. Exu Mirim e Pombagira Mirim, nessa leitura, jamais encarnaram: são as intenções e as ideias em estado puro, mistérios da criação que se disfarçam de espíritos para caber na gira. A mesma linha enumera as qualidades divinas repartidas entre os orixás — Oxalá a fé, Oxum o amor, Oxóssi o conhecimento, Xangô a justiça, Ogum a ordem, Iansã o movimento, Iemanjá a geratividade, Nanã a decantação, Iku a morte, Exu a vitalidade, Pombagira o desejo — e sustenta que essas entidades não fazem o mal: são executoras da lei nas trevas, policiais dos campos densos, que recolhem os desequilibrados e armam ciladas para os maldosos que pedem maldade. Nessa casa não corre sangue de animal: frutas, velas, ervas e elementos naturais bastam.
E aqui anoto a primeira picada do autor, porque prometi que não me calaria: quando o pagão contemporâneo imputa ao cristianismo o crime de haver despojado o mundo de presenças, ele mente por ignorância. É só consultar a angelologia de Tomás de Aquino: existe uma inteligência angélica que governa cada ação da natureza, com um anjo presente em cada lugar, e cada um deles é distinto dos outros. O universo cristão não é um deserto sem vida; é uma corte real. A distinção não reside em quem habita o universo, mas sim em quem exerce o controle sobre ele — e de acordo com qual norma.
A doutrina da tronqueira nos ensina, de maneira muito sincera, uma coisa fundamental: a ativação. Na macumba, a força não se liga à fé passiva; ela responde à ação. O devoto católico faz seu pedido inicialmente e só depois cumpre sua promessa, geralmente de joelhos, diante do santo que interveio por meio da graça; por outro lado, o praticante de macumba chega já com o padê em mãos e a solicitação pronta para ser feita, uma vez que a oferenda e a intenção constituem um único ato — a força é ativada da mesma forma que se acionaria uma engrenagem. Existem duas gramáticas que se referem ao sagrado, e aqueles que entram em uma delas, esperando encontrar a outra, saem chamando de fraude aquilo que, na verdade, era apenas um idioma diferente. Por essa razão, o conselho que se repete em todas as casas respeitáveis: informe-se sobre as correntes, as doutrinas, os fundamentos, antes de entrar no primeiro terreiro que mostrar uma placa. Espiritualidade sem aprendizado é como jogar na loteria com a própria alma.
LIVRO VI — O LIVRO DAS RAINHAS
Antes de se tornar uma figura amplamente reconhecida, Maria Padilha foi uma mulher de carne e osso. Maria de Padilla, que viveu na Castela do século XIV, faleceu jovem em 1361. Ela foi amante e, posteriormente, esposa secreta de Pedro I, um rei conhecido na história como Cruel, que a proclamou rainha após sua morte. O rancor da corte a transformou em uma feiticeira; os contos a tornaram uma lenda; a Inquisição encontrou seu nome em feitiços de amor, ao lado de Lúcifer e Satanás — Maria Padilha e toda a sua quadrilha, convocada por mulheres que desejavam submeter a vontade de homens. Da rainha difamada à rainha da magia: os ciganos a proclamaram sua rainha, e os porões do Atlântico a transportaram, passando por Angola e pelos portos brasileiros, até os terreiros onde uma voz rouca, acompanhada do som de um charuto, respondia pelo nome dela. A mulher que foi recusada pela moral masculina retornou triunfante.
A Rainha das Sete Encruzilhadas possui uma linhagem ancestral mais profunda e oculta:
Estudiosos buscaram as origens tanto na feitiçaria da Ibérica — como nas bruxas de Évora e nas rainhas da magia da península — quanto nos cultos africanos, e demonstraram que a Árvore da Quimbanda, com seus sete reinos que se concentram em determinados locais, não fazia parte dos catálogos antigos do sincretismo carioca: ela se desenvolveu posteriormente, ramo por ramo, através de enxertos que variam do romanceiro espanhol à boemia do Reino da Lira, talvez nomeado pela melodia de um Orfeu oriundo dos morros. Nenhum disso diminui as Rainhas; ao contrário, esclarece-as. Toda coroa legítima carrega uma narrativa, e a narrativa dessas figuras é a de um feminino expulso pela porta da moral e reentronizado pela janela do mistério: a prostituta, a adúltera, a feiticeira, a cigana — todas as que a praça condenou — sentadas em tronos de encruzilhada, com uma faca escondida na liga e o riso de quem sobreviveu a todos os seus juízes. Chegaram a fazer comparações entre as Pombagiras e as dakinis do tantra: entidades poderosas e dançantes que nos introduzem pelo intenso calor do desejo. O comparativo é sugestivo e deve permanecer no lugar de comparativo. É fundamental destacar o processo: a Quimbanda absorveu o resíduo moral da cristandade ibérica e o converteu em algo majestoso. Se isso se trata de restaurar uma soberania que foi usurpada ou de coroar uma ferida — essa é a questão que este livro reserva para o seu capítulo final.
LIVRO VII — A GRAMÁTICA DA MÃO SINISTRA
Conhecido como Caminho da Mão Esquerda, esse nome tem origens distantes: no tantra hindu, vamachara referia-se à abordagem heterodoxa que empregava o proibido como ferramenta, em oposição à dakshinachara, que seguia as normas. O ocultismo ocidental adotou o par e transformou-o em símbolo: a mão direita representa a dissolução do eu na divindade e a submissão à lei; a mão esquerda, por sua vez, simboliza a divinização do eu e o antinomianismo, ou seja, o "seja feita a minha vontade". A palavra antinomianismo surgiu, por assim dizer, de uma disputa entre teólogos protestantes — a graça é suficiente, ou a lei moral é obrigatória? — e foi reinterpretada pelos ocultistas como uma rejeição ativa de qualquer lei imposta. O esquerdista espiritual não desvia o olhar da imagem do corpo sem vida na notícia: força-se a encarar. Recordo-me de meu pai, diante das mortes que ocorreram no bairro, insistindo para que eu encarasse a situação: se você não prestar atenção à rua, isso não significa que ela deixará de existir. A mão esquerda converte essa pedagogia da dureza em fé — a existência vista como realmente é, a responsabilidade plena pelas próprias ações, e a interação com os seres superiores como uma aliança bélica, e não como uma súplica de joelhos.
Sua teologia beligerante é gnóstica. A divindade responsável pela criação deste mundo, conforme afirmam, é o demiurgo, o falso deus que aprisiona as almas; o verdadeiro Deus é alheio ao mundo, e somente a gnose proporciona a libertação. Sobre essa estrutura, o satanismo contemporâneo construiu suas diversas vertentes: o satanismo de LaVey, que é ateu e utiliza Satã como um arquétipo, além de inverter os rituais da religião predominante — caso uma nova religião venha a dominar, ele inverterá os rituais dessa nova fé; o satanismo teísta, que reconhece o Adversário como uma entidade pessoal; o luciferianismo, que busca não apenas opor-se, mas também criar um caminho próprio sob a orientação do Portador da Luz, enfatizando sua tríade de libertação, iluminação e apoteose, além de sua chama negra da consciência; e a demonolatria, que é devocional e trata as potências demonizadas com um respeito litúrgico, incluindo seus cânticos, sigilos e hierarquias. Além disso, a antiga teonologia: os gregos possuíam seus daimons, tanto benéficos quanto maléficos, que eram intermediários entre os deuses e os humanos; os hebreus, ao estarem rodeados por povos cujos deuses estavam firmemente ancorados na terra, acabaram por demonizar as divindades de seus vizinhos — e os herdeiros evangélicos desses hebreus reproduzem esse ato no Brasil, demonizando Exu e Pombagira. A ironia é passível de documentação: o diabo é apenas Exu em território brasileiro. Em Toronto, nenhum membro da congregação incorpora a pombagira; parece que o diabo respeita as fronteiras aduaneiras.
Aqui devo iniciar o testemunho e a réplica, pois este capítulo toca a minha família. Um parente meu, de origem judaica — cujo nome eu mantenho em segredo, assim como todos os outros nomes pessoais deste livro —, certa vez me explicou por que muitos judeus se irritam com um determinado tipo de protestantismo: em primeiro lugar, porque eles consideram o Deus do Antigo Testamento como um deus maligno, quase como um demiurgo, chegando a ler passagens inteiras como se fossem a voz do diabo; em segundo lugar, porque eles moralizam as guerras de Israel, sem levar em conta o que eram os cultos que estavam sendo combatidos — sacrifícios de crianças queimadas em honra a Baal e Moloque, ritos de estupro e incesto considerados sagrados, religiões que consumiriam Israel se não fossem eliminadas. Aqueles que viam o assassino ritual de seus e clamavam por uma paz eterna não compreendiam o século em que viviam. E ele sintetizou, de forma brusca como alguém que se sente em casa: não estamos dispostos a tolerar tolices em nossa própria terra. Considero essa declaração como um testemunho familiar, e não como um decreto — mas ela desmantela a artimanha gnóstica de criar um deus maligno ao recortar a Escritura com uma tesoura de rancor.
A mão esquerda tem ainda seus capítulos técnicos, que enumero sem ensinar: a magia sexual, onde os fluidos e as polaridades são reagentes e o gênero é tratado como energia e proporção, não como anatomia; a vertente anti-vida, que cultua Lilith e as potências da recusa da geração — doutrina que existe e que nomeio para que ninguém finja que não existe; o daimon guardião, o "sábio", com a advertência sóbria de que a manifestação verdadeira não deixa dúvida e de que o mercado está cheio de exus bilionários de fantasia — se todo mundo tem um demônio milionário no bolso, por que a fatura do cartão continua vencendo?; a hipótese psicologista, que lê os espíritos da evocação como conteúdos do inconsciente, id, ego e superego travestidos — hipótese moderna, registro, que os textos antigos não conhecem: para toda a tradição, anjo, demônio e divindade são inteligências reais, e quem já viu a porta abrir sozinha, a garrafa saltar da estante e a fumaça subir em espiral contra o vento sabe por que a hipótese psicologista convence pouco quem esteve lá. Quanto à eliminação do ego, o Egito já tinha conhecimento do custo: o coração que é considerado pesado é devorado em frente ao tribunal, e aquele que perde aquilo que o define deixa de existir — por essa razão a mão esquerda opta por lapidar o eu em vez de destruí-lo completamente, e é por isso que se narra a história do homem que solicitou iluminação todos os dias e, em consequência, foi perdendo seu emprego, sua saúde e sua residência: quem pede para ser consumido pelo fogo não tem a prerrogativa de escolher o que o fogo irá consumir. A iniciação, nesses processos, é uma espiral em vez de uma linha de montagem: cada indivíduo é desenvolvido de acordo com seu próprio orixá, na medida que lhe é específica — ao contrário do batismo coletivo, afirmam eles, onde todos mergulham na mesma piscina e emergem com a mesma alma. Por fim, existe a regra da afinidade: não gostar de um lugar não significa que ele seja ruim, assim como não sentir a presença do santo não desqualifica o altar; eu mesmo, que não me identifico com certas igrejas, reconheço nelas um trabalho árduo — a energia que não ressoa é um diagnóstico sobre mim, e não uma condenação do mundo. O que a mão esquerda quase nunca admite é o quanto depende da mão direita: boa parte dos seus filhos sobrevive a partir da inversão do cristianismo, realizando uma missa negra em oposição à missa branca, símbolo em contraste com símbolo — uma cristolatria de cabeça para baixo que, sem a cruz que profana, não teria liturgia nenhuma.
LIVRO VIII — A TESTEMUNHA
Falo agora em minha própria voz, e por isso todos os outros nomes se extinguem: neste livro, familiares, amigos e conhecidos aparecem sem nome, porque o testemunho é meu e a privacidade é deles.
Fui criado com a macumba ao meu redor. Quando eu era criança, minha mãe me levava a terreiros, e o que ouvi dos mais velhos ficou gravado em minha memória: Exu era uma força poderosa, que poderia ser perigosa, mas também benevolente quando desejasse. Ele tinha a capacidade de transformar a vida de um homem ou até mesmo de arruiná-la — sempre amado e sempre temido, na mesma frase. Ao longo dos anos, observei essa narrativa se transformar: surgiu a amarra moral, o branqueamento, a tentativa de cristianizar a força e afirmar que Exu só é Exu se se encaixar no catecismo dos outros. Os anciãos da minha época não reconheceriam este Exu domesticado. Na minha própria família, nunca foi necessário um terreiro: um tio meu incorporava entidades de maneira espontânea em sua própria casa — correntes tradicionais, pessoas da Jurema — sem nunca ter participado de uma gira; e outros familiares possuíam o mesmo dom como se fosse um sobrenome. Em relação ao meu legado familiar, possuo ascendência judaica e tive a oportunidade de conviver com parentes judeus o suficiente para entender de forma íntima duas residências que o Brasil costuma reconhecer apenas superficialmente. Entre essas duas heranças — o transe da senzala e a Lei do Sinai — cresceu a pergunta que este livro inteiro tenta responder.
Entrei na Quimbanda. Falo de forma direta, pois um testemunho parcial é uma mentira completa: eu pratiquei quimbanda, conheci a gira de maneira íntima, e o que testemunhei merece ser chamado pelo nome que utilizo desde então — tecnologia espiritual. Não empreguei a palavra como um elogio impreciso: refiro-me à manipulação meticulosamente detalhada dos mecanismos espirituais, onde se sabe que determinados rituais correspondem a certas curiosidades, fazendo com que as engrenagens se ativem e respondam. É uma engenharia impressionante, e afirmar que não existe seria tão desonesto quanto venerá-la. Descobri que na Quimbanda tudo gira em torno de pactos: se Exu curou alguém de um câncer por meio de uma palavra proferida, e essa palavra não foi honrada, ele devolve a doença — dessa forma, sem questionamentos, quem tiver que morrer, morrerá. Descobri que se trata de uma religião tribal, no sentido mais autêntico da palavra: tribos contemporâneas, com líderes, legislação interna, rituais de iniciação e segredos — muito diferente dos círculos estéreis da bruxaria comercial. Descobri que a principal forma do seu sacramento é a feitiçaria, e que a antiga mesa negra dos fundos é, por outro nome, Quimbanda. E aprendi a entender as pessoas utilizando os recursos disponíveis em casa: trabalhei com uma pessoa que, durante uma conversa trivial, revelou uma grande tatuagem em sua perna e comentou que era devido ao seu signo; armazenei essa informação e a relacionei com o que a astrologia convencional afirma sobre aquele signo — a preferência pelo oculto que permanece oculto, as práticas que são mantidas longe dos olhos —, e, meses depois, já com um laço de amizade estabelecido, a pessoa confirmou de forma espontânea tudo o que a leitura fria havia previsto. Não utilizei aquilo contra ninguém; empreguei para me proteger. Agora compreendo por que o feiticeiro analisa mapas e números antes de se concentrar no alvo.
Fui embora. As motivações estão presentes no último livro desta obra, e não as revelarei aqui, exceto por uma breve menção: não saí porque a Chama fosse fraca, saí porque descobri para onde ela conduz. Desde já, faço um aviso que devo a quem me lê, assim como o faço pessoalmente: se você não deseja seguir por esse caminho, é melhor não ir. Não se aproxime por pura curiosidade, não vá apenas para observar a situação, e não experimente colocar o pé na porta para ver o que acontece. A Quimbanda não é diversão; é uma aliança. Em contrapartida, nesse contexto, a palavra "pacto" é uma expressão que implica o pagamento de juros.
LIVRO IX — O CÂNON INFERNAL
Toda escrita reconstituída deve declarar de onde veio, e eu as li do princípio ao fim — adquiri os livros como qualquer um, sem pertencimento a nenhuma instituição, sem favorecimentos de editoras, com a paixão de um estudioso que investiga até mesmo aquilo que refuta. Esta obra chega às fundações e analisa, uma por uma, as obras que sustentam as anteriores.
A obra-prima do culto moderno é a seguinte: Quimbanda — O Culto da Chama Vermelha e Preta, de Danilo Coppini. A primeira edição, publicada em 2014 pela Capelobo, conta com 563 páginas divididas em oito partes e é originária do Templo de Quimbanda Maioral Beelzebuth e Exu Pantera Negra. Posteriormente, foi revisada e ampliada pela Via Sestra. A introdução pode deixar o leitor menos atento um tanto alarmado — afinal, trata-se de um manifesto que lança conceitos sem se preocupar em explicá-los —, mas tudo se torna claro posteriormente, com uma didática que é pouco comum nessa área: o objetivo do livro é, nas palavras do autor, provocar e romper grilhões, retirando o poder mítico das mãos de manipuladores sem credenciais. Ali se estabelece a distinção tripla que ordena todo o campo: a quimbanda escrita com K, que se refere ao culto banto africano; a Quimbanda com Q, que é uma religião brasileira com seu próprio panteão; e, por último, a simples gira de Exu que ocorre na Umbanda, a qual muitos confundem com as duas anteriores. Coppini é claro: a Quimbanda não é a irmã perversa da Umbanda, mas sim um culto religioso que não possui uma dupla via — sem separação entre o bem e o mal, a direita e a esquerda, o céu e o inferno —, uma prática de necromancia aberta que convoca e evoca espíritos dos mortos em oposição ao que ele chama de falso deus. Sua cosmogonia é de tirar o fôlego: os governantes supremos dos quatro elementos rasgaram suas próprias essências para dar origem ao Maioral, uma superforma de imperador que, em um desdobramento semelhante à meiose, gerou os sete primeiros tronos — os grandes reis e rainhas das Encruzilhadas, do Cruzeiro, das Almas, da Calunga, das Matas e das Praias —, que por sua vez recrutaram, entre os espíritos portadores da chama negra, a luz luciférica, que são os pilares do culto: os Poderosos Mortos. O Maioral não é o diabo que aprendemos no catecismo: ele é um imenso portal, um dragão negro, um buraco negro que absorve as lágrimas do medo e as retorna como uma forma de vitalidade, um reino que pertence aos antigos deuses que foram demonizados. Sua representação venerada nos santuários é o Baphomet traçado por Éliphas Lévi em Dogma e Ritual da Alta Magia — que Coppini, em um detalhe revelador, refere-se como deusa, o vasto útero negro. O livro revela que o nome de um Exu não é escolhido por acaso: ele indica o reino, a patente e a função, agindo como uma espécie de farda espiritual; descreve o plano astral utilizando um vocabulário teosófico, destacando sua densidade e a noção de tempo não linear; defende as oferendas diante da acusação kardecista de baixa vibração, lembrando que até mesmo o Deus do Antigo Testamento aceitava holocaustos e apreciava seu aroma — um argumento que, vale ressaltar, é historicamente preciso, mas teologicamente enganoso, pois confunde o sacrifício que prefigura com aquele que substitui; esclarece que marafo preserva a memória do malafo banto, o vinho derramado em homenagem aos antepassados; e sustenta o sacrifício ritual como um ofício sagrado, considerado mais digno do que o ato de abate profano — uma posição que o Supremo Tribunal Federal reconheceu, em 2019, como um exercício constitucional da liberdade religiosa das matrizes africanas. A primeira edição contém alguns erros de revisão que não atrapalham a leitura, enquanto a segunda edição os amplifica. A avaliação que fiz de Coppini é a mesma que aplico a qualquer autor religioso: coerência — e ele é coerente, tanto no discurso histórico quanto na prática, o que faz com que o livro seja essencial para aqueles que desejam compreender o culto, mas arriscado para quem o lê sem um conhecimento prévio.
O segundo livro de sua obra, Quimbanda — Fundamentos e Práticas Ocultas, que é o primeiro de uma coleção de três volumes, compila estudos internos do templo que foram tornados acessíveis ao público. Inicia com a lenda de Exu da Mata, que informa ao indígena sobre a chegada do homem branco — e o texto, de maneira sutil, reconhece o que a versão idealizada oculta: ocorreram tratados, havia tribos que se aliavam ao invasor em combate a outras tribos rivais, o vermelho não era apenas uma vítima inocente, assim como décadas depois os sertanistas do Xingu redescobririam ao persuadir antigos inimigos a conviverem pacificamente para não serem extintos. Há uma doutrina que fala sobre o cosmos e o caos: o caos não é sinônimo de desordem, mas sim uma fonte primitiva e sem forma, de onde a força é impulsionada para ascender ao seu ápice e, em seguida, declinar em uma oscilação perpétua — experimentando a euforia e a ressaca, como a estrela que nasce e se corrói. Exu transita entre esses polos, e a física do culto se afirma como acausal, capaz de operar fora da linearidade do tempo. As comunidades de Exus, segundo Coppini, não refletem as nossas: existem para provocar a desordem no sistema estabelecido, e a natureza do espírito ali dispensa qualquer noção de ética e moral — uma afirmação que guardei como se fosse uma evidência para um tribunal no último capítulo. O livro faz uma distinção entre satisfação e libertação, ensina como controlar os instintos que agem como predadores internos, aborda a ancestralidade em três níveis — genética, histórica e espiritual — e recorda que deuses se transformaram em santos quando uma religião absorveu a outra. Ensina como consultar o oráculo dos búzios de Exu para que o praticante possa esclarecer suas próprias dúvidas; desmantela a ideia da lei do retorno, considerada uma importação do hinduísmo e do kardecismo, e expõe a verdadeira relação de causa e efeito de maneira crua: a espada contra a armadura, a força contra a resistência; classifica a fauna do plano astral — incluindo larvas, kiumbas, cascões astrais que foram abandonados e reaproveitados, obsessores que causam o mal por profissão e aqueles que o fazem por revolta, maldições hereditárias e pragas de impulso; organiza de forma sistemática as limpezas que envolvem a cabeça, o tronco e os membros, junto com seus banhos, pós e o chamado sabão-da-costa; e expõe, com uma honestidade rara, os pós vendidos em lojas que são feitos de gesso pintado e giz escolar — e se eles funcionam, é apenas porque a fé do praticante foi capaz de carregar sozinha a metade que o material fraudulento não conseguiu fornecer. Existe um pó da destruição, composto por materiais de morte, que foi enterrado em um cemitério durante ciclos ímpares — eu o nomeio, mas não o reproduzo aqui, pois a escrita não é um arsenal. Estão aqui os feitiços do amor, os mais buscados junto aos de dinheiro, com a advertência de que o cliente amoroso é o cliente mais descontrolado e que magia não tem prazo de entrega; a numerologia e a astrologia servindo de leitura fria do alvo; o sopro, os três tridentes, a capa que cega os olhos do médium — janelas por onde o Exu carrega e descarrega —, os punhais e adagas, o patuá, o tambor astral. E existe a página que nenhum defensor consegue amenizar: a sexta-feira santa, considerada uma data de grandes obrigações, celebrada na doutrina do templo como o dia em que o diabo triunfou sobre Deus. É importante destacar que isso é uma crença firmemente mantida por eles, expressa de maneira clara e explícita. O volume se encerra demandando do praticante um estudo cada vez mais profundo — Freud para compreender o id, o ego e o superego que o culto ressignifica; e a diferença entre a ciência popular, que requer evidências nos seus próprios termos, e as ciências sagradas, cujo método incorpora a fé como um elemento: quem realiza o ritual para verificar se tem efeito já removeu da equação o reagente fundamental.
Embaixo de Coppini, flui a camada antiga. Aluízio Fontenelle, nas décadas de quarenta e cinquenta, elaborou o Exu que educou inúmeras gerações: sua Lei de Umbanda e Lei de Quimbanda, seus organogramas de falanges, sua associação direta dos Exus com os demônios dos grimórios europeus, e a introdução do Baphomet — a demonização de Exu realizada dentro da própria umbanda ocultista, através de pontos cantados e riscados que hoje são considerados antigos, mas que tiveram sua origem na obra dele. No Reino dos Exus, José Maria Bittencourt definiu a tríade que Coppini herdaria: Lúcifer, Béelzebuth e Aschtaroth no governo do Reino, assim como a Santíssima Trindade, sob Sua Alteza o Maioral — Chefe de chefe, é maiorá!, diz o ponto —, usando a terminologia da quiumbanda e toda a hierarquia sincrética. Humberto Maggi e Verónica Rivas, no livro Rainhas da Quimbanda, que foi inicialmente publicado na Inglaterra e posteriormente pela editora Via Sestra, proporcionaram às Rainhas uma investigação histórica que o Livro VI dessa obra destilou — das bruxas de Évora à Árvore da Quimbanda —, defendendo abertamente a tese de que a Quimbanda está se direcionando para uma restauração das cosmogonias que, segundo eles, foram mal representadas pelas igrejas. E o Livro Negro da Quimbanda, da Ordo Volucer Serpentis, expõe sem véus a vertente gnóstico-anticósmica: a origem oral e incerta do culto; o rei do Congo que se fez João I e perseguiu os cultos da própria terra; a escravização primeiro negociada entre africanos, depois tomada à força e racializada; os mocambos multiétnicos onde degredados europeus, bruxaria ibérica, feitiço banto e pajelança indígena fundiram a Quimbanda — razão pela qual, notam os próprios autores, não há lugar para racismo de nenhum sinal dentro de um culto fundado por três sangues; a distinção entre Exus primordiais, que jamais encarnaram — Maioral Lúcifer, Beelzebuth, Pombagira Alteza, a Dama do Sangue —, e Exus catiços, ancestrais divinizados; os sete reinos com seus nove povos e chefes; a iniciação com confinamento, prova de caráter e pacto que não se quebra; os colares consagrados, as oferendas em números ímpares, os vampiros do culto; e a teologia declarada: o mundo como criação desprezível de um falso deus, a gnose que desperta o desapego e beira a misantropia, as leis como obstáculos à divindade interior, as entidades amorais e antinômicas — rebeldes, irreverentes, luxuriosas — sem que isso, juram, seja convite à insanidade; Lúcifer, portador da luz, assumido como Satanás, o opositor; a morte, glorificada. É importante também destacar a cautela que até mesmo os praticantes de Quimbanda recomendam: não há uma fórmula única para o assentamento — cada Tiriri representa uma alma singular e cada casa é única —, e os verdadeiros especialistas em Exu são os quimbandeiros, e não os sacerdotes de outras tradições que se intrometem; um templo é um templo, uma quimbanda é uma quimbanda, e se alguém ouvir a afirmação de que a sua é a única verdadeira, é sensato se afastar.
No campo acadêmico, a obra de Vagner Gonçalves da Silva sobre Exu — uma pesquisa universitária que se transformou em um livro de divulgação — completa o cânone pela via da cultura. Ele retrata o orixá iorubá em sua essência africana: Elegbara, Legba, Bará, o mensageiro fálico que os primeiros missionários confundiram com o pecado original em movimento; seu equivalente a Hermes, Mercúrio, Anúbis, Toth e Ganesha, senhores dos limiares; o deus que se contenta com uma oferenda em vez de ser enfrentado com um exorcismo, pois nas religiões antigas não existe nada absoluto que precise ser eliminado — tudo possui uma função e solicita reconhecimento, assim como o Deus bíblico exigia seu holocausto de aroma agradável. Registra os assentamentos africanos feitos de barro, em posições de acocorados, com um falo desproporcional, e os brasileiros que são de ferro, tridente e corrente — sem esquecer da documentação de um antigo assentamento que usava uma pistola, já que o Exu responsável por proteger um homem de confronto exige, do plano astral, as armas necessárias para o ofício do homem. Segue o rastro da demonização: o candomblé, afastando Exu do panteão público, com as raríssimas iniciações — há relatos de iniciadas vestindo diabo pela própria mãe de santo, dada a colonização do imaginário —, os disfarces de Exu do quê e a maquiagem por meio de Ogum; o tridente no lugar do falo, os chifres invadindo as imagens; e a apropriação da condenação, quando o condenado adota o insulto como uma coroa. Revela Exu disfarçado na cultura: o Zé Carioca que a Disney destilou do Zé Pilintra, Carmen Miranda, Macunaíma, o marido morto e nu de Dona Flor; e expõe a guerra ao avesso — o pastor gringo convertendo mãe de santo, as igrejas do descarrego apropriando rosas e sal grosso, capoeiras cristãos recusando toques, acarajé rebatizado de Jesus, e cultos em que fiéis giram e desmaiam em transe combatendo o transe alheio: o círculo se toca. A ironia que o livro documenta é a que já registrei: o demônio só é Exu no Brasil — e a lógica profunda é teológica: quem se apresenta como intermediário entre o céu e a terra vira, na cabeça do concorrente, rival de Cristo, e rival de Cristo só pode ser Satanás. Quando a Grande Rio apresentou Exu no desfile e todo o país correu para consultar o dicionário, até mesmo ouvindo a voz de uma catadora que se comunicava com o orixá por meio de um telefone imaginário — câmbio, Exu; fala, Majeté —, o que veio à tona foi um século de conflitos subterrâneos. Entretanto, neste contexto, retorno as críticas que o próprio livro me suscita e as destaco como pertencentes à minha leitura: em primeiro lugar, o purismo — os autênticos puristas da religião brasileira são, sem dúvida, os protestantes judaizantes, e não a Igreja Católica, que se originou da fusão entre o judaísmo e a filosofia grega, nunca se envergonhando de batizar aquilo que os povos traziam de verdadeiro; o indivíduo pagão que passa a vida lutando contra Roma está, na verdade, se confrontando com alguém que não é seu verdadeiro inimigo. Em segundo lugar, o racialismo — atribuir todos os problemas da história a uma determinada cor é, na verdade, o mesmo racismo que se afirma estar combatendo, e um culto fundado por três linhagens de sangue deveria ser o primeiro a se livrar desse conceito. Em terceiro lugar, a fogueira — ao que pude ler na documentação, a grande caça às bruxas foi, em sua maior parte, realizada por tribunais civis e em terras protestantes, enquanto a Inquisição ibérica, apesar de todos os seus pecados, concentrava sua atenção principalmente em gnoses e em ameaças que considerava letais; deixo a cada leitor a tarefa de consultar os arquivos e me corrigir, caso seja possível. Por último, os dois pequenos guias que permeiam este trabalho — o tratado sobre tronqueiras da linhagem saraceniana e a introdução brasileira ao Caminho da Mão Esquerda — são mencionados por corrente e não por ficha, para evitar qualquer imprudência bibliográfica: são obras didáticas, sinceras em suas promessas, e são valiosos pelo roteiro que oferecem ao neófito: familiarize-se com as casas antes de adentrar em qualquer uma delas.
LIVRO X — O FIM DO MUNDO EM CHAMAS
Assim é como o culto idealiza o seu próprio término — e é fundamental escutá-lo sonhar antes de formarmos qualquer julgamento sobre isso. O Apocalipse quimbandeiro se inicia primeiramente no interior. O praticante mais avançado percebe o Maioral não como uma entidade distante, mas como uma versão de si mesmo em um estado elevado: a Chama queima os últimos véus — o ego, o temor da morte e a ilusão da separação. Em um profundo transe, com o símbolo secreto do Maioral desenhado sobre o peito, ele atravessa a Kalunga, dialoga com Exu Mirim, que ri de suas antigas fraquezas, e recebe das mãos de Pombagira a coroa de consorte. O corpo arde com uma febre sagrada; a alma se amplia. O Apocalipse coletivo representa o momento em que a Quimbanda não precisa mais se ocultar: as encruzilhadas na cidade transformam-se em templos acessíveis, as giras se intensificam e as legiões descem sem a necessidade de convite. O Maioral exibe sua trindade à luz do dia — Lúcifer trazendo à tona o saber interdito, Belzebu comandando as legiões da matéria, Astaroth coroando as Rainhas do novo mundo. Aqueles que negaram a Chama serão consumidos por suas próprias exigências; aqueles que a serviram com sinceridade herdarão os Reinos — não no céu, mas aqui, na terra que se tornará uma encruzilhada eterna. Existem passagens que afirmam de maneira explícita que, com a chegada do Maioral, o próprio plano material será desfeito para permitir que as almas ascendam ao pleroma, e que o deus carcereiro será ou eliminado ou reintegrado ao todo. Não haverá mais cortina: apenas chamas, apenas ação, apenas domínio.
Após o último ponto musical ser entoado, o que permanece é o detalhe final: o silêncio. A gira termina, e as velas se apagam automaticamente, deixando no ar o aroma de pólvora, óleo de dendê e perfume. O quimbandeiro sorri, pois tem ciência de que, para ele, a história jamais chega ao fim — a Chama persiste em arder, gerando, aniquilando e recriando. É assim que se pratica o culto. Agora concluo a escritura reconstituída e dou início ao tribunal.
LIVRO XI — A LÂMINA INVERTIDA: O JUÍZO DE UM EXQUIMBANDEIRO
Após reescrever a obra por completo, devo ao leitor expor minha posição, que é clara e fácil de expressar, mas difícil de justificar: aprecio a engenharia, mas sou contra a construção em si. A Quimbanda possui uma tecnologia espiritual que considero das mais impressionantes que já encontrei — é precisa, coerente e eficaz dentro de seus próprios parâmetros —, e é justamente por essa razão que me opõem às concepções luciferianas que ela apoia, especialmente na sua vertente malê, que é a Quimbanda luciferiana e teísta que este livro procurou reconstruir. Não se luta efetivamente contra aquilo que se desconhece; eu conheci. O que descobri no fundo da fornalha possui um nome.
O erro principal da Quimbanda é o relativismo que amadurece em subjetivismo moral. A doutrina o confessa sem constrangimento: culto desprovido de dupla via, sem bem nem mal, sem direita nem esquerda; espíritos cuja essência prescinde de ética e de moral; um Maioral que não é deus perfeito nem lei, mas fluxo — faz o que quer, quando quer, e a única bússola do adepto é a vontade dele e a própria. Chamam a isso libertação; chamo dissolução. Porque uma ética que ordena as coisas não é prisão: é a gramática do ser. Quando se declara que toda lei é obstáculo à divindade interior, o que se dissolve primeiro não é a tirania — é a distinção. E religião sem distinção é ácido: corrói primeiro os dogmas alheios, depois os próprios contornos, por fim o rosto de quem a professa. A Quimbanda é, por natureza, anticristã — não por acidente de perseguição, mas por estrutura: seu sacramento central é a feitiçaria, sua sexta-feira magna celebra a vitória do diabo, seu horizonte é a queda do Deus que ela chama carcereiro. E é uma religião justiceira que, de tanto combater a injustiça sem lei acima de si, acaba tratando como cárcere qualquer ordem que não emane da própria vontade.
No Círculo de Estudos, atribuí um nome ao mecanismo: in-gnose — o yin devorando o yang. Toda mitologia pagã preserva a lembrança do princípio uno, o período anterior à distinção, quando tudo era uma única entidade homogênea: presente no hinduísmo, encontrado no Ginnungagap da tradição nórdica, e presente em cada cosmogonia que emerge do caos. A gnose que dissolve tudo promete um retorno: engolir o mal dentro do bem, e o bem dentro do mal, até que o mal não exista mais, pois nada é mais diferente — e proclama esse triunfo da indistinção como o reino da perfeição. O motor contemporâneo dessa promessa é a engenharia: biológica, mecânica, social — a meticulosa criação de um mundo sem dois sexos, sem uma divisão clara entre humano e animal, sem distinção que perdure. A Quimbanda não ensina isso de forma explícita; ela o apresenta como uma consequência lógica, e algumas de suas vertentes o afirmam claramente: tudo precisa retornar à uniformidade para que o Maioral apareça. Em contraste com essa tendência, conheço três instituições que permanecem firmes, pois possuem uma moral objetiva no sentido lógico: a Igreja Católica — junto com as ortodoxias que orbitam o mesmo centro —, que é a herdeira da fusão entre a Lei de Israel e a razão grega dos pensadores Sócrates, Platão e Aristóteles; a minoria do judaísmo que se manteve messiânica em seu sentido clássico, aguardando um Messias que virá, em vez de uma era messiânica criada pelos homens, na qual escolhem seu ungido; e as correntes filosóficas que sustentam, juntamente com os gregos, a ideia de que o bem é real e conhecível. Todo o restante negocia com o singular — e aqueles que não se integram à maioria diluída acabam se tornando alvos de pregações de destruição contra si.
Ainda tenho duas verdades incômodas a dever, uma para cada lado. Aos reformadores internos: a Quimbanda sempre teve sangue em seus rituais — a prática herbal sem sacrifício é uma invenção recente, um protestantismo de terreiro que reinterpreta a tradição para torná-la mais aceitável; chamem as coisas pelo nome que merecem, ou então criem algo completamente novo. E, em relação ao registro, gostaria de fazer uma observação pessoal, sem a intenção de apresentar isso como uma estatística: nos casos de magia negra envolvendo restos humanos que acompanhei na mídia ao longo dos anos, era comum que as investigações apontassem para práticas desviadas, quilifóticas, com uma base quimbandeira — mas isso não me dá o direito, nem a ninguém, de atribuir a culpa a todo o culto: conheci praticantes de quimbanda que são pessoas boas, sérias e confiáveis. No entanto, a árvore que afirma não ter nenhuma lei acima dela não deve se surpreender se algum galho decidir que tudo é permitido. Para o leitor externo, reitero o alerta do meu relato: se você não deseja trilhar esse caminho, é melhor não prosseguir.
Há também o diagnóstico mais profundo, que eu denomino, usando o vocabulário do Círculo, de satanização: a esperança corrompida. Ninguém percebeu isso com mais clareza do que Tolkien — e é impressionante que ele tenha conseguido visualizar isso em um rascunho que se negou a finalizar. Após o sucesso de O Senhor dos Anéis, ele deu início à continuação: A Nova Sombra, que se passa em Gondor cerca de cem anos após a derrota de Sauron, durante o governo de Eldarion, filho de Aragorn, e tem apenas treze páginas. A Guerra do Anel era, já então, conto de antigos. No jardim visível de Minas Tirith, o velho Borlas, que é o filho mais novo de Beregond, o leal guarda, vem conversando com o jovem Saelon a respeito da essência do mal: a Árvore Sombria, afirma Borlas, possui raízes profundas no coração dos Homens, e nenhum machado é capaz de derrubá-la para sempre. Garotos se divertem fazendo de conta que são orcs enquanto percorrem os campos; circula o nome de Herumor e o boato de um culto obscuro que adora aquilo que foi derrotado; embarcações desaparecem no Anduin. Saelon pede ao velho que venha, à noite, de preto — e o trecho acaba com Borlas entrando em sua sombria e silenciosa casa e sentindo o velho Mal, identificando-o pelo que realmente é. Ninguém saberá o que ele descobriu lá dentro. Tolkien deixou de lado essa narrativa e, em suas cartas, esclareceu o motivo: o projeto se mostrou sombrio e desalentador, pois, ao se ocupar dos Humanos, seria inevitável abordar a característica mais lamentável da sua natureza — a rápida saturação em relação ao bem. A paz, a justiça e a riqueza do reino recuperado causariam monotonia; dessa monotonia surgiriam sociedades clandestinas realizando cultos sombrios e cultos de orc entre os jovens; e narrar isso, afirmou ele, resultaria apenas em um thriller — não seria algo que valesse a pena. Escolheu passar os últimos anos dedicando-se ao Silmarillion, à sua origem, e permitiu que a Terra-média se transformasse, era após era, até se tornar o nosso mundo — pois sempre foi isso: a mitologia que ele desejava oferecer à sua terra converge para nós.
Nesta renúncia, percebo a mais acurada previsão de nossa era. Quando Sauron foi derrotado, ele não morreu no sentido tradicional: em vez disso, ele se dissipou em uma sombra, tornando-se um espírito sem forma física, que só consegue influenciar os outros através de sussurros direcionados a almas que não estão ativamente engajadas. Morgoth, que o precedeu, havia impregnado sua malevolência na própria matéria de Arda, de tal forma que todo o mundo carrega essa fenda. Quando a tranquilidade se estabelece e a admiração chega ao fim — quando tudo parece ter sido revelado, narrado e repetido —, o desejo por Deus não diminui: abandona a fé. O jovem saturado de conforto, sem uma tradição na qual acreditar e sem uma necessidade que o molde, busca a emoção onde ela ainda reside: no que é proibido. Surge a paixão pelo mal — a apreciação de experimentar a energia sombria, de se divertir como um orc até que a diversão se torne uma oração. Tolkien não conseguiu descrever e é exatamente isso que a modernidade experimenta: cultos luciferianos surgindo exatamente nos locais onde a satisfação eliminou a esperança, uma esperança corrompida que busca no abismo o êxtase que esqueceu como implorar ao céu. A Quimbanda luciferiana é, entre nós, a mais equipada para essa busca — e, ao contrário dos amadores, com uma tecnologia que realmente opera.
Não é suficiente apenas se sentir indignado contra ela; é necessário um aprofundamento metafísico. Tomás de Aquino, seguindo os ensinamentos de Agostinho e Dionísio, explica que o mal não é uma substância: é uma privação do bem que deveria existir, um parasita que só existe quando se agarra ao ser que corrói — e por essa razão, o mal não pode ser considerado como uma parte integrante de um todo, nem engolido da mesma forma que o yin consome o yang: o que existe ali não é uma parte, mas sim um vazio. A lei natural não é uma corrente que prende escravos: é o princípio fundamental da razão prática — é imperativo fazer o bem e buscá-lo, enquanto o mal deve ser evitado — essa orientação está gravada nas inclinações de todos os seres humanos. Negar essa lei não oferece liberdade a ninguém; na verdade, apenas submete o mais fraco à vontade do mais forte, que representa a verdadeira condição de dominação em qualquer ambiente familiar ou doméstico que careça de uma lei estabelecida. Já no segundo século, Irineu de Lyon desmantelou a ideia do deus carcereiro: em sua defesa contra os gnósticos que menosprezavam a criação, ele sustentou que o mundo é intrinsecamente bom, que o Deus responsável por sua criação é o mesmo que o redime, e que a carne que os espiritualistas rejeitam foi assumida pelo próprio Verbo. Em nosso século, Voegelin nomeou o artifício repetido: imanentizar o escaton — retirar o fim dos tempos das mãos de Deus e garanti-lo dentro da história, um paraíso criado por meio da gnose e da engenharia; sempre que alguém promete o reino da perfeição através da eliminação das distinções, estamos diante do antigo estratagema apresentado com uma nova liturgia. E Guénon — que eu utilizo como instrumental teórico, e não como profeta, ciente das objeções ao seu método — mapeou a sequência: cristalização, desintegração, contra-iniciação, a grande paródia: a espiritualidade invertida que simula todos os atos do sagrado com o sinal invertido. Uma Quimbanda luciferiana segue rigorosamente o mesmo script: possui uma liturgia, uma hierarquia, um sacramento e uma escatologia — tudo invertido, tudo dedicado ao objetivo único.
No final, assim como no início, permanece a encruzilhada — nisso o culto está correto, e é a única questão em que lhe concedo total concordância. Contudo, a verdadeira encruzilhada não apresenta sete opções: ela consiste em apenas duas, e foi colocada diante da humanidade muito antes de qualquer pemba traçar linhas no solo sagrado do terreiro: vitam et mortem, benedictionem et maledictionem — a vida e a morte, a bênção e a maldição. Por lo tanto, elige la vida. A Chama Rubra e Negra promete transformar cada homem em um rei sem lei em seu próprio domínio de cinzas; a outra Chama, aquela que desceu em línguas de fogo sem causar queimaduras, promete fazer do homem um filho — e um filho herda muito mais do que um rei usurpador consegue subtrair. Portanto, opta pela vida. Eu optei: atravessei toda a encruzilhada para afirmar, com plena convicção e sem ressentimento de quem ficou, que do outro lado não existe coroa alguma — há apenas um espelho sombrio que reflete ao homem a mais antiga das adulações. A resposta que aprendi a oferecer-lhe é idêntica àquela que pôs fim a todas as tentações no deserto: adorarás o Senhor teu Deus, e somente a Ele prestarás serviço.
NOTAS
Nota de anonimização. A pedido do autor, nenhum nome de pessoa privada — familiares, amigos, colegas, acquaintances — figura nesta obra; todas as citações foram transformadas em referências gerais (um tio meu, um parente judeu, um colega de trabalho), sem comprometer a veracidade do relato. Os autores citados e as personalidades públicas continuam nomeados por serem referências bibliográficas.
Nota metodológica. O trabalho identifica três tipos de gramáticas: a doutrina interna do culto (apresentada com a perspectiva do culto nos Livros I a VII e X, indicada por expressões como "diz o culto", "reza a doutrina", "dizem os templos"); a gramática histórica e etnográfica (que inclui etimologias, datas, julgados, obras); e a interpretação do autor (que é claramente assinalada, especialmente nos Livros VIII, IX e XI). Aonde há divergências entre as linhas — conceito de Maioral, Exus primordiais versus catiços, sacrifício versus culto herbal, linhas e reinos —, foi registrada a diferença em vez de ser harmonizada. As descrições rituais continuam a habitar o espaço religioso, simbólico e estrutural; nenhuma passagem serve como um manual de operação, e as fórmulas de ataque mencionadas nas fontes foram apenas nomeadas, sem citação textual, por escolha da editora.
Fontes a partir de um livro. Os livros I, II, IV e X: a criação do Maioral, os sete tronos, a chama negra, os diferentes reinos, povos, falanges, os rituais de incorporação, assentamento e apoteose são baseados em Coppini (O Culto da Chama Vermelha e Preta; Fundamentos e Práticas Ocultas do Ocultismo), na antiga camada trinitária de Bittencourt (No Reino dos Exus) e na organização das falanges de Fontenelle (Exu); a gramática luciferiana e demonolátrica é extraída de Ford (Apoteose; A Bíblia do Adversário; Goetia Luciferiana) e Connolly (O Livro Completo da Demonolatria; Demonolatria Goetia); a abordagem gnóstico-anticósmica e os Exus primordiais são provenientes da Ordo Volucer Serpentis (The Ophidic Essence; O Livro Negro da Quimbanda). Terceiro Livro: a origem da palavra kimbanda em kimbundu, Chatelain e Ramos; a quimbanda como prática independente no Rio Grande do Sul, Giumbelli e Almeida; o terreno histórico de Exu, Prandi, Verger e Nogueira; a questão do sacrifício ritual, a decisão RE 494.601 do STF (2019); a nova visibilidade, o desfile vencedor da Grande Rio em 2022 e o tema de Estamira. Livro V: ensinamentos sobre tronqueiras e guardiões segundo a linhagem saraceniana, mencionados por corrente; angelologia da natureza, Tomás de Aquino. Livro VI: Maggi e Rivas (Rainhas da Quimbanda), Meyer (Maria Padilha e toda sua quadrilha) e Frisvold (Pomba Gira e a Quimbanda de Mbùmba Nzila); Maggi faz uma observação sobre a Árvore da Quimbanda e o Reino da Lira. Livro VII: guia inicial brasileiro sobre o Caminho da Mão Esquerda, mencionado por diversas correntes; LaVey, Ford e Connolly para as diferenças internas; a polêmica antinomiana, história teológica corrente. Livro IX: fichas e avaliações das obras citadas; a narrativa fundacional da Umbanda (Zélio de Moraes, 1908) é uma tradição que se firmou apenas algumas décadas depois e que foi contestada academicamente, e foi assim que foi abordada; as datas que Fontenelle utiliza variam conforme as edições. Livro XI: Tolkien (A Sombra Nova, in Os Povos da Terra-média, cap. XVI; Cartas 256 e 338, edição. Carpenter); Tomás de Aquino (Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2, e a teoria do mal como falta); Irineu (Adversus Haereses); Voegelin (A Nova Ciência da Política); Guénon (O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos), tendo em mente a ressalva metodológica mencionada; os conceitos de in-gnose, dissolução aplicada e satanização como esperança corrompida pertencem ao autor e ao Círculo de Estudos Nous. As alegações pessoais do autor (como casos policiais, leitura da caça às bruxas, testemunhos familiares) estão assinaladas como observação e leitura, não como estatística ou consenso.
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