A Cabeça Patética: Denúncia, Misandria e o Colapso Moral do Feminismo Moderno

Este texto não apoia nenhum tipo de abuso; ao contrário, ele critica a seletividade moral das pessoas que, com base em uma ideologia, escolhem quais abusos merecem ser reconhecidos pelo seu nome. O silêncio optado pela sociedade não é inocente: é conivência disfarçada.

Gabriel G. Oliveira

5/9/202617 min ler

A Dor Que Não Tem Manifesto

Há uma covardia intelectual particular que se enraizou na discussão pública sobre gênero, violência e abuso sexual, e que, por sua sistemática, acabou sendo tomada por consenso científico. Certamente que não. É uma triagem ideológica de informações, camuflada sob o manto da empatia. O resultado dessa seleção não é uma sociedade mais equitativa, mas sim uma sociedade que oferece proteção a crianças e adultos de maneira desigual, que pune o abuso quando isso favorece a narrativa predominante e o exalta, ou pelo menos o desconsidera, quando vai contra essa narrativa. A indignação seletiva carece de moralidade. É uma questão política. A política camuflada como moral é o engano mais perigoso.

É preciso começar com todas as letras, sem o eufemismo covarde que geralmente permeia essa discussão: a sociedade brasileira, entre outras, estabeleceu, ao longo de décadas, uma cultura de dois pesos e duas medidas no que diz respeito ao abuso sexual de menores, onde o abuso de meninas é prontamente reconhecido como crime e uma atrocidade, enquanto o abuso de meninos é frequentemente celebrado, normalizado ou simplesmente ignorado. Isso não se trata de opinião. Está à vista. Trata-se do tecido social compartilhado, que se manifesta em rodas de conversa, em postagens na internet e em piadas que todos riem, muitas vezes sem perceber a razão de seu riso. O jovem que teve relações sexuais com uma mulher mais velha é considerado "sortudo" pelos colegas. A palavra precisa é essa: sortudo. Como se a transgressão de uma faixa etária, que serve para proteger a menina, fosse considerada uma vitória apenas porque a vítima é do sexo masculino.

Isso não é um fenômeno marginal. A psicologia clínica e a pesquisa acadêmica têm registrado, ao longo de várias décadas, o que se conhece como viés de gênero na identificação de abuso sexual infantil. Segundo uma pesquisa de Fromuth e Burkhart, realizada nos anos 80, homens que relataram ter tido contatos sexuais com adultas durante a infância e adolescência costumavam avaliar essas experiências de maneira muito mais positiva do que as mulheres em situações semelhantes com adultos. O que a pesquisa mostrava, no entanto, não era que o abuso tivesse causado menos danos, mas sim que a socialização masculina preparava o garoto para ver o acontecimento como uma conquista em vez de uma violação. O prejuízo estava presente. A forma de se referir a ele, não. Sem palavras, sem protesto. Sem acusação, sem informação. Sem informações, sem políticas públicas. Sem a implementação de políticas públicas, a impunidade se torna uma norma cultural.

Por que a maioria das investigações sobre abuso sexual infantil é conduzida quase exclusivamente sob a ótica da vítima do sexo feminino? Essa é a pergunta que o movimento feminista se recusa a responder de maneira consistente. Por que as abordagens de coleta de dados sobre abuso quase nunca incorporam ferramentas que sejam sensíveis ao subregistro masculino, que se distingue de forma estrutural do subregistro feminino, uma vez que a socialização dos meninos os ensina a acreditar que reconhecer uma vitimização é o mesmo que confessar uma fraqueza? A verdadeira resposta é que os dados relacionados ao abuso vão muito além de simples números. São histórias. A narrativa prevalente requer um vilão claramente reconhecível, que é o homem adulto predador, e uma vítima que possa ser considerada universal, que é a mulher ou a menina. O garoto que foi explorado por uma mulher mais velha não se encaixa nessa história, por isso ele é removido da situação. Ele está entre as estatísticas não porque o abuso não aconteça, mas porque a questão que permitiria que ele fosse registrado nos números simplesmente não é feita.

Não se trata de uma acusação sem fundamentos. Em "The War Against Boys" e "Who Stole Feminism?", Christina Hoff Sommers documentou com rigor como organizações feministas influenciaram a elaboração de pesquisas sobre violência de gênero para favorecer resultados que corroboravam a narrativa vitimista, desqualificando metodologias que apresentavam dados contrários, como os estudos de Murray Straus sobre violência bidirecional em relacionamentos íntimos. Straus, um pesquisador da Universidade de New Hampshire, revelou, através de décadas de estudos, que a violência entre parceiros íntimos começa, quando medida com ferramentas imparciais em termos de gênero, em taxas que são surpreendentemente semelhantes para mulheres e homens em muitos contextos. Não se está aqui a desconsiderar a violência contra a mulher, que é real e séria. Isso implica em questionar a integridade de uma área de estudo que escolhe métodos de pesquisa com base nos resultados que pretende alcançar. Ciência que determina suas conclusões antes de formular as perguntas não pode ser considerada ciência. É marketing disfarçado de informação.

A cultura machista que o feminismo alega combater não é a única responsável pela normalização do abuso de meninos, que não é um fenômeno isolado. É, ironicamente, um de seus efeitos secundários. Ao criar uma história em que o homem é sempre o agressor e a mulher é sempre a vítima, o movimento torna praticamente impossível considerar a possibilidade de uma mulher adulta que abuse de um menino. Ela não se encaixa no padrão. O que não se encaixa no modelo simplesmente não está presente nos dados, nas políticas, nos centros de atendimento ou nos recursos públicos. O garoto que precisa de apoio não tem a quem recorrer, não consegue expressar com palavras o que lhe ocorreu, não possui amigos que o levem a sério e, para piorar, recebe da cultura ao seu redor a mensagem de que é privilegiado. Isso é conhecido como duplo abandono: em primeiro lugar, a sociedade o maltrata, e em seguida, essa mesma sociedade o ensina a expressar gratidão.

A problemática dos dados não pode ser dissociada da problemática do poder. O feminismo contemporâneo, principalmente em sua forma acadêmica e institucional, utiliza uma epistemologia conveniente: as evidências que confirmam a opressão das mulheres são sólidas, enquanto aquelas que complicam essa narrativa são duvidosas. Esse filtro não é científico, mas sim político, e ele cria uma representação da realidade que está constantemente distorcida. No livro "The Myth of Male Power", Warren Farrell investigou como a coleta e a interpretação seletivas de dados sobre violência, saúde e bem-estar moldaram uma visão pública que é radicalmente dissociada dos números reais, especialmente no que diz respeito ao sofrimento masculino, que é sistematicamente subcontabilizado, subnotificado e subatendido. O homem que falece mais jovem, que apresenta taxas de suicídio significativamente mais elevadas, que desempenha as profissões mais arriscadas e letais, e que, em diversos contextos, é a principal vítima de homicídios, esse homem não é reconhecido no discurso público como um sujeito vulnerável. Ele é apenas um instrumento de opressão.

É fundamental ser extremamente claro sobre o que está sendo denunciado, pois a mistura entre denúncia e apologia é a arma preferida de quem não possui argumentos. O fato de denunciar que a sociedade considera o abuso de meninos como uma forma de conquista não implica afirmar que o abuso em si é, de fato, uma conquista. É exatamente o contrário. É afirmar que a sociedade erra, que erra de forma profunda e que esse erro conta com cúmplices identificáveis, incluindo um movimento que se diz protetor da infância, mas que, na realidade, limita essa proteção a apenas metade das crianças. A questão que o feminismo institucional deve esclarecer é bastante simples e até agora não foi respondida de maneira sincera: por que a proteção à infância é associada a um gênero específico?

Esta questão dá início à crítica mais fundamental, que se concentra no projeto ideológico do feminismo em sua vertente utópica, a qual não é uma invenção controversa, mas, na verdade, aquilo que as próprias teóricas fundadoras escreveram e tornaram públicas. Em "A Dialética do Sexo", lançado em 1970 e considerado o texto fundador do feminismo radical, Shulamith Firestone argumentou de forma clara que a opressão das mulheres estava enraizada na biologia reprodutiva e que a libertação feminina exigia a superação tecnológica da reprodução natural. Firestone sugeriu, com palavras que ela mesma chamou de revolucionárias, transferir a gestação para uma tecnologia artificial, libertando as mulheres da necessidade do corpo masculino para a reprodução. O próximo passo lógico, que ela apresentou de maneira consistente e que merece ser considerado seriamente, mesmo por aqueles que têm opiniões contrárias, era a eliminação das categorias de gênero tal como as conhecemos. Não se trata de uma paranoia conservadora. Está presente no texto. Está na origem.

Simone de Beauvoir, from whom Firestone is a direct intellectual heir, articulated the thesis that underpins all subsequent feminism: "não se nasce mulher, torna-se". Essa frase, que aparece em "O Segundo Sexo", publicado em 1949, é muitas vezes considerada como um marco da emancipação feminina, e em alguns aspectos, realmente é. Entretanto, essa afirmação traz uma implicação filosófica que raramente é analisada de forma sincera: se a feminilidade é uma construção social e não algo inerente, então é possível desconstruí-la. Se é passível de desconstrução, então a pergunta que surge é: para alcançar o quê? A resposta proposta pelo feminismo utópico é aquela que Firestone articulou: busca-se a eliminação de qualquer distinção sexual como uma categoria social e biológica significativa. Aquilo que se apresenta como uma liberação é, de fato, a garantia de uma população indistinta, controlada por um Estado capaz de gerenciar a reprodução, os desejos e a identidade de gênero. É neste ponto que George Orwell deixa de ser uma simples metáfora e passa a ser um diagnóstico preciso.

No livro de Orwell, publicado em 1984, ele retrata um Estado que tinha o poder de controlar a reprodução, regular o desejo, monitorar os pensamentos mais íntimos e punir qualquer forma de afeto ou lealdade que não estivesse sob o controle do coletivo. A família estava sob suspeita. A sexualidade servia como ferramenta de poder. A privacidade era considerada um delito. O que se revela como verdadeiramente desconcertante, ao se ler o feminismo utópico com uma percepção atenta, é a notável sobreposição estrutural entre o projeto orwelliano de controle absoluto e o projeto feminista de regulamentação total da diferença sexual. Isso, claramente, não é a mesma coisa. No entanto, as semelhanças nas estruturas lógicas são suficientes para que se exija atenção. Aldous Huxley, em "Admirável Mundo Novo", foi ainda mais preciso: apresentou uma sociedade na qual a reprodução estava totalmente desvinculada do corpo, onde os filhos eram criados em laboratório e condicionados desde antes de nascer, e onde o prazer sexual era abundante e sem significado, servindo como um meio de controle social em vez de uma forma de conexão. Nesta distopia, a liberdade sexual absoluta e a vigilância completa não são opostas. Elas se complementam. E Ray Bradbury, em "Fahrenheit 451", completou o triângulo ao revelar as consequências do pensamento que se recusa a ser reduzido a estímulo e resposta: ele é queimado. O livro, que representa a recordação da diversidade, é o primeiro a ser lançado nas chamas.

Não se pretende que esses três textos sejam citados aqui como um enfeite erudito. São mencionados porque ilustram, com a exatidão que apenas a verdadeira literatura consegue, os processos pelos quais uma sociedade troca a verdadeira liberdade por uma segurança ilusória, e como esse processo invariavelmente se inicia com a eliminação das diferenças que fazem da tensão humana algo produtivo. A distinção entre os sexos é a mais essencial entre todas essas diferenças. Não por ser considerada sagrada, mas porque é o que impulsiona a continuidade da vida. Suprimi-la não cria harmonia. Gera entropia.

A crítica que se faz mais necessária e urgente não é de natureza filosófica. É utilitário. Ela se refere a algo que ocorre diariamente em apartamentos, casas e relacionamentos, onde uma mulher é aconselhada por um grupo de amigas, por uma conselheira do movimento, ou mesmo após ler um post viral no Instagram, a confrontar seu parceiro, a reivindicar seus direitos, a não ceder, a não recuar e a se afirmar em todas as situações. Essa orientação, por si só, não está errada. Quando aplicada sem uma análise cuidadosa da realidade de um relacionamento, essa abordagem se torna extremamente equivocada, especialmente se referindo a um homem que possui sérios problemas mentais, que está à beira da perda de controle, e que não é apenas machista, mas realmente ameaçador.

O movimento feminista não separa esses aspectos. Ele não consegue fazer essa distinção, pois reconhecer isso implicaria aceitar que existem situações em que a orientação padrão não apenas falha em ajudar, mas pode ser fatal. Reconhecer isso implicaria aceitar a responsabilidade. Portanto, o movimento não é realizado. Ele fornece à mulher uma orientação genérica sobre como lidar com a situação e, em seguida, desaparece quando essa abordagem resulta em violência. Depois, ele volta a aparecer para exigir que o Estado penalize o agressor, como se este tivesse surgido do nada, sem que ninguém o tivesse provocado de maneira sistemática e imprudente. A vítima faleceu. O movimento continua a participar de diferentes manifestações. Ninguém se compromete com nada.

Isso não significa que se esteja insinuando que a vítima mereceu o que aconteceu. Pelo amor de Deus, isso não poderia ser mais diferente. É a alegação de que o movimento que se diz defensor dessas mulheres as expõe a perigos reais ao oferecer estratégias de enfrentamento sem oferecer qualquer recurso para identificar sinais de perigo, sem apoio efetivo para uma saída segura, e sem uma estrutura que realmente funcione quando a situação se torna violenta. A questão é clara: quando a mulher que seguiu as orientações do movimento é assassinada pelo parceiro instável que o movimento a orientou a enfrentar, quem é que se responsabiliza por isso? A resposta que qualquer indivíduo íntegro conhece é: ninguém. O movimento comparece ao funeral, distribui panfletos, cobra a implementação de uma lei e, na semana seguinte, orienta a próxima mulher a agir da mesma forma.

Há uma solução que realmente funciona, que possui uma estrutura adequada, recursos humanos disponíveis, uma longa tradição de acolhimento e que foi, historicamente, a primeira linha de apoio para mulheres que enfrentam a violência doméstica: a igreja. Não a Igreja enquanto instituição política, não a Igreja na sua versão corrupta ou autoritária, mas a comunidade eclesial real, com suas teias de apoio, seus recursos de acolhimento, seus meios de separação segura, sua competência em auxiliar a mulher a reunir seus pertences, a se reestruturar, a refazer sua vida longe do agressor, sem que ninguém precise falecer para validar um ponto ideológico. A ironia histórica é evidente: o movimento que mais critica a Igreja como uma instituição patriarcal e opressora é também o movimento que deixou as mulheres em situações de verdadeiro perigo, enquanto muitas comunidades religiosas ainda são, em diversos contextos, a única rede de apoio que realmente se manifesta quando a situação se torna grave.

É fundamental abordar a questão do patriarcado com a devida seriedade histórica, pois a interpretação difundida pelo feminismo popular é uma caricatura. O patriarcado, que se define como um sistema social em que o pai, o irmão e o homem da família assumiam o papel de protetores das mulheres, não foi nem sempre opressor nem sempre benevolente. Era uma organização social com custos e benefícios assimétricos para os dois sexos. O preço que o patriarcado cobrava dos homens, quase nunca mencionado na narrativa feminista, era colossal: o homem oferecia proteção, fornecia recursos, morria em guerras e aceitava os riscos físicos impostos pela estrutura social. O privilégio que as mulheres obtinham do patriarcado, que raramente é mencionado na narrativa feminista, era concreto: proteção legal, proteção contra a violência, isenção do serviço militar e isenção das profissões mais perigosas e fatais.

Por exemplo, as leis medievais europeias eram, em muitos casos, extremamente rigorosas em relação aos crimes cometidos contra mulheres, com várias legislações prevendo a pena de morte para o estupro. Isso não se tratava de cortesia. Fazia parte do contrato social patriarcal, no qual a mulher abria mão de sua autonomia formal em troca da proteção assegurada. Pode-se afirmar, com fundamento, que esse pacto era prejudicial às mulheres. Para sustentar essa afirmação, é necessário ter uma visão honesta sobre o conteúdo do contrato, e não apenas sobre seu preço.

As sociedades matriarcais não eram, de fato, o ideal de igualdade e paz que o feminismo popular sugere. Estudos históricos e antropológicos indicam um caminho diferente. Sociedades que se estruturam com base na linhagem matrilinear, como é o caso de diversos grupos na Amazônia ou de certas culturas africanas, não eram, de forma alguma, mais pacíficas ou mais protetoras em relação às mulheres do que aquelas que seguem um patriarcado. O que mudava era a forma como o poder era distribuído, e não, necessariamente, a diminuição do sofrimento. Em locais onde existiam sistemas que se assemelhavam a um matriarcado político, o preço que tanto homens quanto mulheres precisavam pagar frequentemente envolvia a participação das mulheres em guerras e em todas as responsabilidades que a estrutura patriarcal reservava exclusivamente para os homens. Isto é, se não se pode distinguir entre homens e mulheres no que tange aos direitos, igualmente não se pode distinguir no que se refere aos deveres. O feminismo contemporâneo deseja a primeira parte da equação, mas rejeita a segunda.

Isso não serve como um argumento contra a igualdade. É uma objeção à desonestidade. A verdadeira igualdade nos leva a questionar: igualdade em que aspecto, precisamente? Oportunidade igualitária é uma questão distinta. Outra questão é a igualdade de resultados que é assegurada por lei. Ter os mesmos direitos não significa ter o mesmo papel. Direitos iguais sem deveres iguais é privilégio disfarçado. O feminismo atual, em sua forma institucionalizada e legalmente estruturada, age principalmente no segundo termo de cada par: busca resultados assegurados, direitos sem deveres equivalentes, proteção especial ao mesmo tempo em que clama por igualdade absoluta. A contradição não é um mero acidente. É organização. Ela revela que a igualdade, que é o objetivo declarado, não é o verdadeiro objetivo. O verdadeiro objetivo é dominar, camuflado de igualdade.

O conjunto de leis resultante de décadas de militância feminista nas legislações ocidentais, sendo o Brasil um exemplo notável, estabeleceu uma assimetria legal que se torna difícil de justificar com qualquer padrão de justiça que se considere imparcial. São legítimas as leis de proteção especial quando sanam vulnerabilidade real e comprovada. Transformam-se em questões problemáticas quando a decisão de aplicar um critério se baseia no gênero declarado da pessoa que faz a acusação, em vez de se realizar uma avaliação objetiva da situação. Quando a palavra de uma mulher é suficiente, sem a necessidade de provas forenses ou um contraditório sólido, para levar à prisão preventiva de um homem, o que está em vigor não é proteção. Trata-se da inversão do ônus da prova com enfoque de gênero. Nenhum sistema judiciário de caráter liberal pode manter tal afirmação sem colocar em risco seus próprios princípios.

O feminismo contemporâneo, especialmente em sua forma mais articulada e organizada, se encontra em uma contradição que o impede de avançar moralmente: afirma proteger os mais vulneráveis, mas classifica a vulnerabilidade com base no gênero, em vez de realizar uma análise verdadeira sobre poder e risco. Esse sistema não considera um menino de treze anos abusado por uma mulher adulta como vulnerável. Uma mulher adulta que, sem qualquer evidência forense, acusa um homem, conta com proteção imediata. Isso não se trata de proteger os vulneráveis. É a salvaguarda das histórias. Narrativas frágeis são aquelas que dependem de proteção legal para não sucumbir ao confronto com a realidade.

Para aqueles que testemunharam de perto o fenômeno, a origem psicológica do feminismo mais agressivo e cheio de rancor não é um mistério. Não é uma generalização maliciosa sobre todas as mulheres que se consideram feministas, pois esse movimento abriga pessoas com motivações variadas e válidas. Isso se refere à constatação de que o núcleo mais ativo e mais expressivo do movimento geralmente exibe traços psicológicos identificáveis: ressentimento persistente, dificuldade em manter relacionamentos, propensão a converter conflitos pessoais em denúncias estruturais, e uma raiva que requer um inimigo externo constante para não se direcionar contra si mesma. Simone de Beauvoir tinha uma relação tanto pessoal quanto filosófica com os homens que era intricada e complicada, caracterizada por dinâmicas que, nos dias atuais, seriam rotuladas de maneira bastante distinta em comparação com as classificações que ela mesma utilizava. Mary Daly, outra teórica fundamental do feminismo radical, era abertamente misândrica, declarando em entrevistas que o mundo seria uma lugar melhor com apenas uma pequena fração de homens. Valerie Solanas, a escritora do SCUM Manifesto, que abertamente incitava ao extermínio dos homens, não pode ser vista como uma exceção de loucura periférica: ela representa a manifestação mais coerente e sincera do que o feminismo utópico abriga como lógica interna, quando se considera suas consequências mais extremas.

Não se pode afirmar que toda feminista deseja a eliminação dos homens. Isso significa que o ideal utópico que fundamenta as bases teóricas do movimento, quando levado a suas conclusões mais extremas, resulta em destinos que a grande parte das mulheres que se identifica como feminista nunca experimentou de forma consciente e que, se o fizessem, provavelmente rejeitariam com repulsa. A questão é que a ideologia nunca questiona as pessoas sobre até onde estão dispostas a ir. Ela vai e as leva consigo.

O que resta, após analisar tudo isso com sinceridade, é uma avaliação que não se baseia no ódio. Está de luto. Eu anseio por um movimento que poderia ter se estabelecido como a verdadeira defesa dos vulneráveis de todos os gêneros, englobando também os meninos que a sociedade ensina a ser gratos pelo abuso que sofrem, assim como os homens que falecem em decorrência do excesso de trabalho ou do suicídio, sem que ninguém se manifeste a respeito, e também as mulheres que são orientadas a enfrentar parceiros perigosos, correndo o risco de perder a vida por seguirem esse conselho. Esse movimento poderia ter ocorrido. Não há. O que há, em sua ausência, é uma máquina de contar histórias que escolhe suas vítimas com base em uma ideologia, desconsidera o sofrimento que não contribui para a narrativa, fornece suporte jurídico a uma das partes da disputa e se desvanece quando os resultados aparecem.

A realidade, por sua vez, não se acomoda a histórias. Ela prossegue gerando garotos que desconhecem terem sido vítimas de abuso, pois ninguém lhes forneceu as palavras necessárias para isso. Continua a gerar mulheres que desafiaram homens ameaçadores porque o movimento lhes disse que isso era o que significava ser uma mulher forte. Sigue gerando informações que são obtidas de maneira a validar a conclusão antes de formular a pergunta. Ela continua a criar uma sociedade que considera progresso aquilo que, na realidade, representa a troca de uma injustiça por outra, apenas mudando o nome da vítima.

A questão levantada por essa acusação não é uma mera retórica. É autêntica e pede uma resposta: quando é que a proteção das crianças deixará de ser uma questão de gênero? Quando é que se vai investigar o abuso em rapazes e raparigas, com as mesmas questões, os mesmos instrumentos, o mesmo rigor? Quando é que o movimento que alega proteger as mulheres vai assumir a responsabilidade pelas mortes de mulheres que ocorreram após seguirem suas orientações? Quando é que a desigualdade legal vai ser analisada com a mesma crítica que qualquer outra forma de discriminação?

Não existem respostas simples para essas perguntas. Mas a recusa em realizá-las tem uma designação. Isso é conhecido como covardia intelectual. A covardia intelectual, quando se oculta sob o manto da compaixão, é, sem dúvida, o disfarce mais perigoso.

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