A Casa de Vidro dos Inocentes - Miqueinha o Corno Moderno
Existe uma inocência que não pode ser considerada uma virtude: é uma cegueira voluntária, imposta por aqueles que deveriam ser capazes de enxergar em seu nome. O jovem que nunca teve contato com o mundo exterior acredita que este é tão pequeno quanto a sacristia onde ele reza. No entanto, o mundo lá fora não solicitou permissão para ser o que é. Todo amor que se recusa a explorar e compreender o ser amado está, na verdade, apenas ensaiando sua própria ruína. Este texto serve como um aviso, redigido por alguém que já presenciou um bom rapaz transformar-se em um capacho devido a uma doutrina mal assimilada.
Gabriel G. Oliveira
8/17/202671 min ler


Por que o crente bom é justamente o mais fácil de destruir
Este texto servirá, essencialmente, como um conselho para católicos e protestantes a fim de evitar problemas. É realmente incrível como esses garotos têm se metido em confusões tão bobas ultimamente, que, sinceramente, eu não consigo entender como é que alguém pode se deixar levar por algo tão estúpido assim. Não tenho certeza. Continuo observando e não consigo compreender. Como muitos dos meus alunos me perguntaram diretamente, tanto no Instagram quanto no Círculo de Estudos Nous, decidi responder a todos vocês aqui de uma vez, porque se eu deixar essa questão nas mãos do Jaquison, ele certamente fará críticas a vocês lá — e o pior é que ele terá toda a razão para isso. Ele estará certo, pois a situação é séria. Por qual motivo? Porque essa garotada acredita, com muita determinação e paixão, que as mulheres são a mais extraordinária criação já existente na face da Terra. E, para ser sincero, o brinco é simples: quem tem essa opinião provavelmente nunca viveu um verdadeiro relacionamento amoroso. Esse é o mistério escondido sob o tapete. É o rapaz que nunca teve um relacionamento. Ou então é o garoto fazendo de conta que é muito crente — e aqui eu faço uma pausa para corrigir um ponto que me irrita: os protestantes basicamente roubaram esse nome, "crente", como se fosse propriedade deles, quando na verdade a palavra sempre pertenceu, sempre permaneceu com toda pessoa religiosa que crê. Católico é fiel. Um judeu que acredita é considerado crente. Portanto, para evitar qualquer tipo ofenda, vou me referir a todos aqui como cristãos, sem fazer distinção entre as denominações, pois a questão que irei abordar transcende as divisões de todas as igrejas.
Mas qual é o problema? O equívoco reside na crença de que uma jovem que, há apenas dois anos, viveu de maneira extremamente promíscua, poderá, da noite para o dia, transformar sua vida em algo extraordinário e possuir uma alma pura como a de um anjo. É uma falta de empatia quase ingênua, que se assemelha à visão de uma criança, de olhar para a vida do outro e perceber que ela é difícil — que aquele passado pode comprometer a vida de um jovem de uma forma imensa, de uma maneira que não há uma solução barata. O que realmente me incomoda e me causa uma verdadeira irritação é observar alunos que são bons, inteligentes e que eu sei que têm potencial, enfrentando sérios problemas por causa disso. Sepultando-se com pá e picareta. Mas por qual motivo? Devido a uma doutrina religiosa mal compreendida. Devido a um sacerdote que se coloca à frente do jovem e profere bobagens com a maior expressão de santidade, prejudicando a vida do infeliz sem nem ao menos ter consciência do mal que está causando. É essa a imagem que desejo retratar aqui: a do homem virtuoso, arruinado não pelo seu próprio defeito, mas pela sua bondade indiscriminada.
Mas como isso ocorre, especialmente no que diz respeito aos relacionamentos? Vamos analisar isso com calma, pois o assunto é complexo. Os relacionamentos contemporâneos estão repletos de dificuldades — muito mais do que em qualquer outra época da história da humanidade, e afirmo isso sem receio de exagerar. Por qual motivo? Em primeiro lugar, devido a uma assimetria real e tangível, que está codificada na legislação do país. Atualmente, na minha opinião, as mulheres têm à sua disposição cerca de cento e treze leis que favorecem seu lado em relação aos homens. Elas possuem muito mais apoio e uma base legal mais sólida do que os homens. Se você acredita que estou exagerando, faça o seguinte teste rigoroso: compare a punição que uma mulher geralmente recebe por assassinar um homem com a penalização que um homem enfrenta ao matar uma mulher. A disparidade é evidente. A condenação do homem é incomensuravelmente superior — são muitos anos a mais. Quanto à mulher, não. Você encontrará elementos que, ao refletir sobre eles, não parecem ter uma razão convincente para existir, e ainda assim, estão presentes, sempre inclinados na mesma direção. Então você começa a perceber essas coisas. É interessante notar que, ao abrir os olhos para a questão, você passa a compreender de maneira mais profunda — e para essa compreensão real, é necessário estudar o próprio movimento feminista, investigar suas origens e ler os textos que eles mesmos produzem. É nesse momento que a compreensão surge.
Então, qual é a situação? Os fiéis, de maneira geral — e aqui novamente não farei distinção entre católicos e protestantes, uma vez que o problema é abrangente —, os fiéis possuem uma visão da mulher contemporânea que é quase dolorosamente ingênua. Ingenuidade excessiva. Não consigo entender como alguém pode olhar nos olhos de outra pessoa e ser tão ingênuo assim. O sujeito acredita que ela nunca o trairá, que ela estará sempre ao seu lado, que continuará sendo aquela mulher extraordinária, sempre isso, sempre aquilo, uma fonte inesgotável de qualidades que nunca deixará de jorrar. E eu digo, meu irmão: você está maluco. Você está tendo alucinações com os olhos abertos. Isso ocorre porque a mulher moderna, ao entrar nas igrejas, muitas vezes o faz com a experiência prévia de já ter estado nelas — ela fazia parte da igreja, afastou-se, voltou-se para o mundo e viveu as maiores tragédias que sua imaginação poderia conceber. Então, quando ela retorna à igreja, geralmente já é uma mãe solteira. Fez algo extremamente negativo, e o resultado de tudo isso foi uma criança. Às vezes — e não estou afirmando isso para causar espanto, mas porque realmente observei —, ocasionalmente, essas mães têm filhos cujos pais elas mesmas não têm certeza de quem sejam, devido ao número de parceiros com quem se deitaram. Está nesse patamar. Quando uma mulher segue por esse caminho, ela pode ficar um pouco fora de si, agindo de maneira inesperada e sem se preocupar.
Qual é o desdobramento que se segue? Ela observa sua própria vida e percebe que está tudo um tanto quanto bagunçado. Olha o que fez. Então, por volta dos vinte, vinte e cinco, até vinte e seis anos, já se aproximando dos vinte e nove, ela toma a decisão de retornar à igreja. Não por transformação, mas sim por cronômetro. Porque ela tem consciência de que está atingindo aquilo que o pessoal da internet se refere como The Wall, o Muro. O que é o Muro? É o momento em que, se ela envelhecer mais, poderá perder a chance de encontrar um marido, seu aspecto físico já não está tão bem preservado, e a juventude, que era seu maior trunfo, está se esgotando. Diante disso, ela se apressa em buscar refúgio na igreja, como se fosse um último santuário. Isso, meu amigo, é tão comum entre as igrejas que você nem imagina. É normal. É muito comum. É quase uma estatística local.
Agora, essa moça que era uma feminazi — e eu me refiro a ela assim, como feminazi, de propósito e sem me desculpar. Eu uso esse termo porque, ao examinarmos o que estudamos aqui no Círculo, apoiados por dados concretos e pela leitura das obras das próprias feministas radicais, fica claro que grande parte do discurso proveniente das facções mais extremas se assemelha a uma ideologia nazista, operando sob a lógica de que há um grupo que é intrinsecamente opressor e que, portanto, deve ser eliminado. Foi então que criamos o termo: feminazista. Não se trata de outra coisa. É uma fêmea nazista, como costumamos brincar por aqui — mas, ao consultar as fontes, fica claro que essa brincadeira não é tão leve quanto parece. Eu, pessoalmente, não tive a oportunidade de viver de perto o movimento para entender como cada uma delas se comporta no cotidiano, mas acompanho o que elas defendem, especialmente os grupos mais radicais. O que elas defendem? Advogam um feminismo absoluto, discorrem sobre a libertação sexual sem limites e sustentam todas as causas lamentáveis que você puder imaginar: são a favor do aborto, da eutanásia e de todas as bandeiras que promovem a morte. Aí está o paradoxo: é evidente que aquela que deixa este mundo para se dirigir à igreja não o faz por motivos mesquinhos ou por uma busca de conforto. Não. A pessoa abandona tudo repentinamente e se dirige à igreja porque percebeu que sua vida se tornou um desastre — não conseguia mais atrair nenhum homem, e todos os homens que eram razoavelmente bons já a haviam rejeitado. Isso ocorre quando ela não continua em seu estado de rigidez, acreditando que todo homem é um problema que apenas contribui para a deterioração da sociedade.
Portanto, quando essa mulher finalmente vai à igreja, é porque ela realmente chegou ao seu limite. É devido ao fato de que ela não encontrou ninguém, nem mesmo dentro do próprio movimento feminista, que a desejasse. Observe bem a magnitude da situação: para que um membro do movimento feminista não a queira, a situação precisa ser realmente complicada. O homem que apoia o movimento feminista é, se me permitem ser sincero, um covarde. Todo homem que se considera feminista é, em potencial, um frouxo, e eu faço isso de maneira leve, mas essa brincadeira revela um aspecto importante. Por qual motivo? Porque o homem feminista tem plena consciência do que as correntes mais extremas do movimento defendem. Ele está ciente de que isso é imposto a todos os rapazes. Ele percebe que, em essência, aquele discurso considera a masculinidade em si como algo nocivo. Estou falando sério. Malévolo como o quê? Assim como um vício, é como uma enfermidade que requer tratamento. Eles consideram o masculino como um vício que precisa ser eliminado. Basta observar os movimentos de esquerda feminista no Brasil: eles veem o masculino como algo negativo, uma impureza de origem. Então, o que esse indivíduo faz, ciente de todas essas informações? Ele se junta precisamente a essas mulheres — e, na maioria das vezes, por uma razão bastante terrena, que se situa bem abaixo do umbigo: porque ele deseja ter relações com alguém. Ele deseja obter acesso. No final das contas, esse sujeito é o que costumamos chamar aqui no Círculo de vendedor de suas próprias ideias. Ele se vende para suas próprias crenças. Pois, no íntimo, ele tem consciência de que aquilo é errado. Ele está ciente. Ele está presente apenas para desfrutar de algo, para garantir um acesso, e por isso troca a própria consciência por prazer. Ele se vende por suas próprias ideias.
Portanto, essa figura em particular, que pode ser considerada uma prostituta do movimento, está presente por essa razão. Normalmente, esses indivíduos têm relações sexuais com frequência, sim — mas observe um detalhe: raramente eles se envolvem seriamente com alguém. Nunca conseguem estabelecer. Pois essa mentalidade é cultivada desde o início; muitos já se juntam ao movimento com essa perspectiva de futuro em mente. Segundo a minha observação — que é fruto da minha própria visão de mundo e não um resultado de experimentos de laboratório —, esses indivíduos apresentam uma forte tendência à bissexualidade. Eu falo sério. Todos os que conheci, e foram muitos, do movimento feminista, tinham uma forte inclinação bissexual. Eram ou bissexuais ou gays de carteirinha. Por isso, ao mencionar a conexão entre o movimento feminista e algumas vertentes do movimento LGBT, falo com base na observação que tive: uma parte do movimento LGBT é uma consequência direta do movimento feminista, especialmente aquele grupo que adotou a ideologia trans. Aí acontece o que? O cara desliga do movimento na hora da largada, porque ele vê que ali dentro ele não vai fixar ninguém, e porque ele já sabe que o pessoal do movimento esquerdista, na hora que você nega qualquer pontinho da cartilha, eles começam a te tratar como herege. No momento. É suficiente divergir em um pequeno detalhe para que o tratamento se transforme em uma perseguição. Não estou exagerando: realmente é assim, funciona como uma seita fanática com um dogma inabalável.
E a garota, afinal, também vai superar isso. O único lugar onde ela encontrará apoio e o único grupo que permitirá que ela se reestruture e recupere seu valor será a igreja. Portanto, ela se dirige para lá. A questão, e é aí que reside o problema, é que frequentemente essa jovem não está, de maneira alguma, convertida. Ela afirma ter se convertido, repete as frases apropriadas, mas por dentro ainda está completamente imersa no mundo. Então, após passar cerca de dois anos na igreja, e considerando que, em geral, essas jovens são bastante atraentes, o que você acha que ela fará? Ela irá fazer com que a vida do primeiro homem que se envolver com ela se torne um verdadeiro pesadelo, e o fará depender emocionalmente dela. Normalmente, esse homem não é exatamente bonito, é um jovem de aparência mediana para abaixo da média, que de repente conquistou uma garota que representa o máximo em beleza — uma mulher que ele, profundamente, sabe que nunca mais terá a chance de conseguir na vida. É a receita tradicional, a refeição habitual da dependência emocional. Então, esse sujeito, por se considerar inferior e carregar uma autoestima tão baixa que mal consegue se erguer, acaba se tornando tão dependente dessa percepção que, no final das contas, se transforma em um verdadeiro capacho. Reverte tapete. Posso afirmar isso de maneira clara: você se torna um verdadeiro capacho ao se anular dessa forma.
Quero aproveitar este momento para convidar uma pessoa para se juntar a nós à mesa, pois ele consegue explicar essa situação terrível de uma forma que ninguém mais consegue. Chama René Girard, um intelectual francês que dedicou sua vida a investigar uma questão que, à primeira vista, pode parecer simples, mas isola-se profundamente: por que os seres humanos anseiam pelo que anseiam? Seu resposta foi imediata — o desejo é mimético, ou seja, ele é reproduzido. Raramente desejamos algo pelo seu valor intrínseco; geralmente, desejamos porque outra pessoa deseja. O brinquedo que estava esquecido em um canto se transforma no mais desejado do mundo assim que outra criança o pega. É exatamente isso que acontece dentro daquela igreja — preste atenção, porque eu já havia mencionado a cena sem saber que estava descrevendo o Girard na veia: os fiéis criam uma disputa para ver quem fica com a garota bonita. Por que motivo? Porque ela se transformou em um valor mimético. Todo mundo deseja isso simplesmente porque é algo que todos desejam. Seu encanto deixou de ser uma característica pessoal e passou a ser um símbolo de competição entre os homens da comunidade. E o miqueinha feio, ao finalmente conseguir esse prêmio tão desejado por todos, acredita que ganhou na loteria — quando, na verdade, ele conquistou um ídolo. E um ídolo, meu irmão, não se satisfaz apenas com amor: um ídolo exige devoção e sacrifício.
Há outro indivíduo que também se senta à mesa, um senhor mais idoso, o Agostinho de Hipona, que criou uma expressão que deveria estar gravada na testa de todo miqueinha: ordo amoris, a ordem do amor. A proposta é tanto simples quanto cruel. Amar não se resume a sentir; amar é organizar cada coisa adequadamente e atribuir a cada bem o valor que realmente merece — nem a mais, nem a menos. Tomás de Aquino, séculos mais tarde, acrescenta: quando você se apega a um bem limitado, algo pequeno e efêmero, e fixa seu coração nela como se fosse o bem eterno, você não está amando, você está idolatrando. Toda forma de idolatria escraviza, pois adorar um deus que não é verdadeiro representa a mais terrível das servidões — esse deus falso nunca satisfaz, o que faz com que você se dedique ainda mais, recebendo, em contrapartida, cada vez menos. Foi assim que o jovem considerado pouco atraente tratou a mulher-troféu: transformou-a em uma divindade. Financiou a cirurgia, desviou o salário e fez juras ao mundo. O deus da falsidade o devorou por dentro e expeliu o osso. O capacho não surgiu apenas da fraqueza dele; surgiu de um amor desordenado, de um coração que substituiu Deus por uma criatura que não era Deus, nem santa, e que não lhe pertencia.
Na maioria das vezes, o que ocorre é que essas garotas — e as pessoas costumam brincar com isso na internet, como demonstrado naquele meme que fala sobre "zerar a quilometragem", referindo-se à prática de comprar um carro batido e resetar o hodômetro — é exatamente isso que muitas delas desejam. Um tolo que zera a contagem de quilômetros por causa delas. O cristão tropeça porque carrega essa ideia tola na mente: a tendência de confiar excessivamente em quem menos merece. Essa jovem que recentemente se converteu ainda leva uma vida que está parcialmente ligada ao mundo, e ocasionalmente ela ainda cai na prostituição, devido à sua forte ligação com o mundo que persiste, uma vez que seus desejos ainda são em parte desejos mais terrenais, mais inferiores. Até mesmo os fiéis recorrem àquela desculpa clichê: "ai, coitada, ela estava precisando". De jeito nenhum. Em certos momentos, a pessoa não necessitava de nada — às vezes, a pessoa realmente se comporta de maneira desonesta, e isso é tudo. Na maioria das vezes, eu diria que em cerca de noventa por cento das situações, é simplesmente safadeza, e não uma questão de necessidade.
Portanto, o que vem a seguir é quase automático. Esse grupo mais fervoroso irá chegar à conclusão de que ela se converteu, pois ela está demonstrando bondade dentro da igreja, está contribuindo com o dízimo corretamente e memorizou os gestos. Aí o pastor sente compaixão e permite que ela participe do grupo de relacionamento da igreja. A partir daí, meu irmão — é aí que realmente começa a complicação. Pois, como costumo dizer, essas pessoas possuem um talento notável para se retratar como a bonitinha, ou melhor, como a purinha, a sinceramente arrependida e imaculada, apesar de sua vida anterior ter sido uma verdadeira calamidade do início ao fim. Mas por que o pastor engole? Porque ela possui beleza. A única razão, sem rodeios, é que ela é bela. A beleza é a chave que o juízo deveria trancar. Então, ele a leva para dentro, e como pessoas atraentes geralmente acumulam bastante influência devido à sua beleza, os próprios crentes começam a desenvolver uma rivalidade entre si para descobrir quem ficará com ela — mesmo que a vida dessa mulher seja repleta de perigos, e mesmo que todos os sinais de alerta estejam visivelmente acesos.
Por que é tão simples provocar uma disputa? Porque esses meninos, os mais fervorosos na fé, não possuem a mínima experiência nesse tipo de situação. Nunca estabeleceram um relacionamento verdadeiramente saudável, um namoro duradouro de dois ou três anos, que incluísse discussões e reconciliações, acompanhadas de aprendizados. Nothing. O que eles têm na vida é uma namoradinha de dois anos que terminou — e detalhe: não foi ele que terminou, foi a menina que largou, e ainda por cima largou metendo chifre. Por qual motivo? Pois ele é um tolo, um ingênuo de carteirinha. Quando esses indivíduos passam a maior parte do tempo dentro da igreja, em um ambiente extremamente moralista, eles não têm a slightest ideia de como o mundo externo opera. Eles não têm ideia. Frequentemente, a própria igreja impede que ele frequente uma balada ou eventos semelhantes, considerando isso um pecado que afeta a comunidade — claro, isso se estivermos falando de uma igreja protestante mais conservadora, mas até mesmo a Igreja Católica, em várias regiões, recomenda que não se vá. O resultado é que a pessoa não tem ideia de como o mundo funciona. No entanto, e aqui está a questão crucial, o problema não é a falta de conhecimento dele. A questão é que ela está ciente disso. Ela é muito mais impactada pelo mundo do que ele. Portanto, para que ele seja traído, é necessário que algo venha de lá em direção a cá, confrontando a experiência dela com a inocência dele. Ela tem uma bagagem emocional enorme: já se envolveu com muitas pessoas, tratou relacionamentos com indiferença e traiu todos os parceiros anteriores. Com ele, a situação será semelhante, na grande maioria das vezes. Por qual motivo? Uma vez que ele conseguiu influenciá-la apenas dois anos após sua entrada na igreja, sua compreensão sobre o que realmente é a religião ainda estava longe de estar bem desenvolvida. Ela não se importa. Não está realmente comprometida com aquilo; ela está apenas presente para não ficar sozinha, uma vez que ninguém mais demonstra interesse por ela — está ali em função de um tolo que a mantenha, ou como uma figura paterna para o seu filho. É isso que ela deseja: um pai para seu filho, e não um esposo para ela.
Então, o que ocorre? Meu irmão, veja, estou me expressando a partir da minha perspectiva de mundo, através da maneira como percebo essa questão — mas essa maneira de ver foi refinada pela observação atenta. Todos os amigos que conheci e que se encaixavam nesse perfil sofreram cornos memoráveis, cornos dignos de uma galeria. Daqueles em que a garota se deitava com dez e o rapaz nada suspeitava. Passa um dia, outro dia se vai, e mais um, e outro, e ele continua lá, sem ver, pensando que está tudo certo. Então, de repente, surge uma suspeita, e ele decide averiguar, apenas para descobrir que ela o está traindo não apenas com um, mas com vários. É fácil de explicar, mas é extremamente difícil de vivenciar. E é por isso que as mulheres não apreciam quando os homens têm conhecimento do seu passado. É por essa razão, precisamente por essa razão. Ela não aprecia que o homem saiba sobre seu passado, pois, ao ficar ciente, ele se tornará muito mais cauteloso e irá aumentar sua vigilância, tornando muito mais complicado para ela enganá-lo. Trata-se de lógica pura.
Uma amiga minha, que fazia parte de diversos grupos de garotas, desses grupos fechados, foi quem me apresentou a essa janela. Ela tinha conhecimento de que havia mulheres casadas que faziam parte de imensos grupos aqui na cidade de Primavera — grupos de mulheres que traíam seus maridos e enviavam, via WhatsApp, fotos delas se entregando a outro homem, transando e realizando as mais diversas loucuras na cama que a imaginação permitir. Enquanto o marido, um tanto ingênuo, permanece em casa, com o dedo na boca, ocupando-se do filho ou se dedicando arduamente ao trabalho. En sentido literal. E, conforme ela mencionou, há imensos grupos na cidade dedicados a isso: essas mulheres compartilham fotos, publicam tudo, e, em algumas ocasiões, até vão para clubes de swing sem que seus maridos suspeitem de nada. E elas ficam compartilhando no grupo como se estivessem zombando à vontade do coitado. O mais surpreendente é que, na maioria das vezes, essas pessoas são religiosas. Igreja católica, igreja protestante, e todas as denominações protestantes que você puder mencionar — todas estão presentes, acompanhadas de pessoas dessas tradições. Você pode pensar: "ah, mas isso é gente pagã, é macumbeira". De jeito nenhum. Tudo é cristão, batizado, praticante. A maior parte, no que diz respeito ao comportamento, é verdadeiramente demoníaca — e eu empreguei a palavra com seu significado mais intenso, referindo-me à inversão e à zombaria do que é sagrado.
Como eu mencionei, o homem precisa estar ciente do passado da mulher. É necessário. Ela precisa encontrar uma maneira de descobrir, pois é muito improvável que ela revele isso por conta própria. Então você me questiona: "Gabriel, e como é que eu vou descobrir essas coisas?". Eu digo: procure aquele membro da família dela que não a suporta e que tem um desentendimento com ela. Você me pergunta: "mas, Gabriel, virar amigo de um parente que odeia a minha própria mulher?". Você fará exatamente isso. Por qual motivo? Porque será o único indivíduo que, simultaneamente, possuirá três elementos: raiva, um vasto conhecimento sobre o assunto e a disposição de compartilhar tudo com você. Ali, meu irmão, você vai descobrir sobre essa garota coisas que nunca pensou que ela fosse capaz de fazer. Você está falando sério? Porque costumamos acreditar, de maneira ingênua, que a pessoa ao nosso lado é honesta. Mas eu sei que nem sempre é assim — e tenho essa certeza por minha própria experiência.
Eu sei o motivo pelo qual um amigo meu, em uma ocasião, veio até mim com grande preocupação: "Gabriel, o que eu faço? Eu gostaria de conhecer o passado da minha mulher". Ele estava indo em direção ao altar para se casar, e ela já era a noiva. Então eu lhe disse: você vai proceder da seguinte forma. Ela chegou a me mostrar uma imagem do primo dela, e a partir daí, você vai procurar por esse primo que está no grupo familiar e irá se tornar amigo dele. Dava pra perceber, tanto pela imagem quanto pela maneira como ele se comportava, que ele não era gay e não tinha nenhum interesse em você, o que tornava tudo propício para uma amizade masculina. Você se aproxima dele de maneira tranquila, inicia uma conversa, estabelece uma amizade genuína e, posteriormente, quando a confiança estiver estabelecida, você faz suas perguntas. Eu digo isso porque tenho um primo da minha ex-namorada que ainda é meu amigo e me ajudou a evitar uma grande enrascada.
Passado um tempo, esse amigo veio me agradecer. Ela se aproximou e disse: "Gabriel, eu não sei nem como te agradecer". Eu questionei: por que isso, meu amigo? Então ele disse: "eu descobri que essa guria, véi, ela ia pra suruba. Ela frequentava um clube de swing. E ela se envolvia sexualmente com praticamente todos lá, tanto com homens quanto com mulheres. E os outros namorados dela, ela já tinha levado pro clube de swing também". Mas os rapazes se sentiam profundamente magoados — e como poderiam não se sentir assim? O homem estava assistindo à sua namorada ter relações com vários outros diante de seus olhos. É claro que logo chegavam ao fim. E foi dessa maneira que eu vim a entender a razão pela qual uma jovem tão bela e tão bem-educada, em sua aparência, era, na verdade, uma verdadeira surubeira, uma suingueira, como costumamos dizer aqui em Primavera — uma mulher cuja moral se encontrava em um nível tão baixo. Foi então que eu a deixei. Eu sou um pouco suscetível, sabe? Quando eu realmente começo a me apaixonar por alguém, frequentemente acabo tomando atitudes que, se estivesse pensando com mais clareza, jamais tomaria — e eu temia me deixar levar, de entrar de cabeça naquele universo do swing ao lado dela. No final, o primo me afirmou: "Meu irmão, creia em Deus Pai, cara, eu não tenho nem como te agradecer". É evidente que não havia, droga.
E observe: aquelas mulheres que realmente possuem más intenções, elas realmente desejam isso. Escolhe uma figura que esteja bastante em evidência na mídia, como a Urach — Andressa Urach, se não estou enganado, é esse o nome, algo como Urach. Ela trabalhou como garota de programa, depois se tornou pastora e, em seguida, retornou a ser garota de programa. Quando ela participa de um debate, defende toda e qualquer calamidade que se possa imaginar, especialmente aquelas relacionadas à esfera sexual. Ela se afastou do protestantismo e se voltou para a Quimbanda — ou seja, segundo sua própria interpretação, ela se posicionou como alguém que pertence ao lado obscuro. A Quimbanda do Brasil, aquela escrita com Q, a vertente que se relaciona com o luciferianismo; é exatamente dessa que estamos falando. Em outras palavras, ela reverteu até mesmo sua própria fé e percorreu o caminho de retorno de tudo. É exatamente isso que eu quero dizer: esse tipo de mulher não tem muito conteúdo, por assim dizer. Não possui lastro interno. Ela anda completamente segundo os prazeres que tem. Ela não vive segundo as virtudes, nem luta minimamente contra os vícios internos — ao contrário, seu objetivo é tornar os prazeres que sente aceitos pelo mundo, elevando o desejo à condição de uma bandeira. É realmente a Andressa Urach, não a confunda com qualquer Sabrina Urach, pois não têm relação alguma, é a Andressa. Portanto, ela irá promover a prostituição como se fosse algo sagrado, entre outras coisas similares. Trata-se de uma pessoa extremamente imoral, que, de acordo com as informações que circularam sobre ela, chegou a envolver seu próprio filho em seu modo de vida, algo que ela ainda tenta justificar em público. Há algo mais imoral do que isso? Não existe. Chega até o cerne.
Portanto, é esse o tipo de mulher que estou esboçando. É por essa razão que afirmo, de maneira direta e sem rodeios: para que uma pessoa possa demonstrar, de forma convincente, que realmente está comprometida com a fé, que é uma pessoa de bem e que se arrependeu de verdade, meu irmão, o período de espera deve ser de oito a dez anos antes de considerar a construção de um relacionamento sério com ela. De oito a dez anos. Durante esse período, que é longo precisamente para testar a determinação, essa pessoa pode voltar a cometer erros que você nem imagina. Pode cair no maior absurdo. É por esta razão que o intervalo é considerável: apenas o tempo, e um tempo abundante, é capaz de distinguir o arrependimento genuíno da encenação passageira.
E muitas dessas mulheres acabam exercendo influência sobre o pobre jovem que está ao seu lado — o fiel que foi pega na armadilha, a quem aqui chamamos carinhosamente de miqueinha. Ignoro como se referem a isso em outras partes do Brasil; certamente tem outro nome por lá. Mas aqui é Miqueinha. O que, então, é o miqueinha? Ele é um homem muito religioso, e é evidente que possui um bom caráter e uma natureza bondosa. No entanto, ele não tem o menor conhecimento sobre relacionamentos. Niente, niente, niente. Ele só conhece o que o pastor dele falou. Isso é tudo o que ele sabe sobre o amor entre um homem e uma mulher: um resumo de pregação. Isto é, nada acontece sem a autorização do pastor. Tudo mesmo. Toda a sua vida amorosa é mediada por uma terceira pessoa que se comunica do púlpito. É tão simples quanto isso. E é nesse ponto que reside uma das questões mais prejudiciais de toda essa narrativa: essas pessoas não conseguem reconhecer sua própria situação e têm uma compreensão muito limitada do que se passa em suas vidas.
É aquela pessoa que acredita que todos estão sendo bondosos constantemente. Que todos são um pouco legais. Que todas as pessoas, a qualquer momento, sempre desejarão o melhor para ela. Não, meu amigo. O mundo não funciona dessa maneira. É lamentável que as pessoas excessivamente religiosas se comportem dessa maneira, e não há muito o que se possa fazer a respeito — e essa incapacidade de agir é, por si só, uma das piores situações. Pois, muitas vezes, a própria pessoa não tem clareza sobre seus desejos. Ela não tem conhecimento disso. Ela acredita que tudo o que o pastor disse está definitivo, como se suas palavras fossem a essência do universo, a manifestação divina presente ali, na fala de um homem suscetível a erros. Além disso, ela também se mostra teimosa em relação aos outros. Transforma-se em uma pessoa muito moralista, vigilante da vida dos outros e exigente com todos ao seu redor.
Como você consegue detectar esses miqueinhas na prática? Normalmente é um homem cuja beleza é pouco evidente — muitas vezes, um homem feio, sendo bem franco. Ele é aquele crente extremamente rigoroso e irritante, de quem, no final das contas, ninguém realmente gosta muito. Ele possui apenas alguns amigos, uma vez que são poucas as pessoas que conseguem lidar com o esforço que é conviver com alguém como ele — é realmente trabalhoso suportar tantos discursos inconvenientes. Portanto, a imagem que se forma é a seguinte: é feio e moralista, o que resulta em uma combinação que é difícil de suportar. Para ilustrar essa questão de ser considerado feio e moralista, há uma cena que eu considero excepcional, e ela é do seriado que aqui chamávamos carinhosamente de "Os Antigões" — aquele que todo mundo assistia no SBT. É por essa razão, inclusive, que eu sustento que aqueles foram os melhores seriados que já foram exibidos na televisão brasileira: pois não tinham uma inclinação para a esquerda, eram humorísticos e fiéis ao riso. No geral, pra mim, os melhores seriados americanos são os negros. Por qual motivo? Porque, por assim dizer, eles dão ao personagem a liberdade de realmente fazer piadas, ao contrário daqueles seriados com todo o elenco branco, onde o pessoal se comporta de maneira tão certinha que, até certo ponto, se torna irritante de tão formal.
É por essa razão que eu realmente prefiro, de longe, as comédias de televisão negras americanas — e eu não estou sendo racista, é bom frisar, pois esse é o nome que os próprios Estados Unidos dão ao gênero: black sitcoms, as comédias de televisão negras americanas. É esse tipo de espetáculo em que o elenco é quase todo negro, com apenas um ou outro branco no meio, e que é imerso na cultura negra americana, que, aliás, tem muito a ver com o Brasil. A cultura negra é fortemente associada à imagem do azarão, aquele que enfrenta inúmeras dificuldades impostas pela vida e que, mesmo assim, continua lutando. Essa representação é resultado da persistência do racismo profundo e enraizado nos Estados Unidos. Devido a essa relação histórica entre as duas cores — e me refiro a cores, e não a raça, uma vez que abomino essa palavra, pois raça é um termo que se aplica a animais, e considero essa palavra, por si só, intrinsecamente racista quando utilizada para se referir a seres humanos —, em virtude desse convívio, desenvolveu-se quase que uma cultura dentro da outra. Como se a cultura negra americana fosse completamente distinta da cultura branca americana. De fato, é verdade. E ela tem muito mais a ver com a cultura brasileira do que a outra. Trata-se de temperatura, de estado de espírito, de calo vivenciado em conjunto.
Agora vou reconstituir aqui, para que você possa visualizar comigo, uma cena de Eu, a Patroa e as Crianças — que consiste basicamente no Michael dialogando com seu genro, o Tony. O Tony representa perfeitamente o que estou tentando ilustrar: Michael aborda de forma profunda a crítica ao protestantismo contemporâneo, especialmente a imagem do crente irritante. Atualmente, essa protestantização também infiltrou-se no catolicismo. Antigamente, era muito difícil encontrar um crente católico irritante. O crente maçante era quase sempre o protestante — uns noventa por cento dos protestantes eram assim mesmo. Os católicos não eram tão bem recebidos, pois tinham uma visão mais ampla do mundo. Isso se deve ao fato de que a Igreja Católica sempre foi mais receptiva em relação a outras pessoas, ao passo que, em muitas de suas vertentes, a igreja protestante tende a ser mais teimosa e fechada em suas crenças. A Igreja Católica, ciente do funcionamento do mundo e revelando as duras verdades da realidade, apresentava uma grande distinção em relação à Igreja Protestante — que, em essência, buscava proteger seus filhos da corrupção e da maldade do mundo, o que, ao refletir sobre isso, pode ser considerado algo bastante ridículo. Pois, mais cedo ou mais tarde, o garoto irá perceber o que se passa do lado de fora. Ao não ter uma noção do que existe fora, ele também não compreende a própria maldade do mundo, ficando vulnerável precisamente em relação ao perigo que tentavam salvá-lo.
O fiel católico, por sua vez, possui o milagre de Fátima. Segundo os relatos das aparições de Fátima, ocorridas em mil novecentos e dezessete, Nossa Senhora revelou às três crianças pastoras uma visão do inferno, de maneira extremamente assustadora. As crianças observaram e ficaram chocadas — claro, ao se depararem com uma multidão de almas em sofrimento. É uma verdade crua, exposta de todas as maneiras imagináveis, sem rodeios, para os mais pequenos. Foi nesse ponto, entre outras razões, que aquelas crianças iniciaram sua jornada em direção à santidade, e a partir daí se desenvolveu toda a narrativa de Fátima. Por outro lado, o protestante não aceita essa ideia. Na verdade, ele nega a própria ideia de milagre; se você abordar a questão da existência do sobrenatural, para muitos deles isso simplesmente não pode existir. Portanto, meu caro, tudo o que resta é a palavra do pastor, que se torna a lei incontestável. E quais são as consequências disso? Dizem eles que a criança não pode ter contato com esse tipo de coisa dura. Para eles, a criança deve realmente ser criança. Essa frase é um protesto do começo ao fim. Para os católicos, é o oposto: a criança deve amadurecer o quanto antes. Não em termos de anos, nem na perda da infância — mas sim na percepção e na consciência do que realmente é o mundo. Não me refiro a deixar a infância para trás, preste atenção; estou me referindo a desenvolver uma visão mais madura e a adquirir uma melhor compreensão da realidade. Isso não existe para o protestante. Ele age de forma oposta.
É por isso que frequentemente faço uma analogia entre os filhos desses casais protestantes e Siddhartha Gautama. Siddhartha Gautama, conhecido como o Buda, cresceu em uma família que seguia as tradições hindus ou algo bastante semelhante. E o que estava acontecendo? Siddhartha crescia em um ambiente repleto de festividades e alegria, rodeado por tudo que era bom, e seus pais se esforçavam ao máximo para protegê-lo das maldades do mundo. Resultado: Siddhartha evoluiu a partir de uma inocência quase total. Então, já na casa dos vinte e poucos anos, ele decidiu deixar o palácio, aquele local que representava a perfeição em sua essência, e encarou o mundo de forma direta. Dali surgem os célebres encontros de Siddhartha — ele se depara com a velhice, a doença, a morte e a dor; vai observando, um a um, os vícios e as misérias do mundo. Um dos escritos mais significativos do budismo retrata precisamente o instante em que ele sai e se depara, pela primeira vez, com o sofrimento do mundo. Aspectos que consideramos triviais e cotidianos, mas que para ele, que foi criado apenas na perfeição, eram verdadeiros choques. Havia, por exemplo, um criado do palácio que desapareceu de repente, e ele achou curioso não ver mais aquele rosto — o homem adoeceu, foi para casa e morreu, e Siddhartha nem tinha consciência de que aquilo, a morte, existia. Essas situações ocorriam, e somente mais tarde ele conseguiu compreender o que significava a morte, a doença, a tristeza e o luto.
Atualmente, os jovens têm acesso à realidade desde cedo. É por isso que eu percebo, e acredito que seja um fato passível de verificação, que o número de jovens no protestantismo está diminuindo. Há um grande renascimento católico, que se deve em parte a esse moralismo exagerado que oprime. Quando essas crianças amadurecem, elas tendem a se converter à Igreja Católica, a se afastar completamente da fé ou a se identificar com alguma vertente distante do cristianismo. Mas por que razão? Pois surgiram em um ambiente totalmente isolado, em uma casa onde nada era permitido e onde tudo era considerado pecado. A grande maioria das pessoas que conheci que foram criadas dessa forma se tornaram praticantes de religiões de matriz africana — não é uma piada, elas se tornaram pagãs. Tudo, tudo, tudo. Devido a essa prisão no lar. As poucas que não se tornaram pagãs foram para a Igreja Católica. No final das contas, ninguém consegue suportar permanecer dentro daquela casa opressiva.
E essa casa que está fechada, meu amigo, possui um nome mais técnico que é interessante para nós aprendermos, pois ele esclarece tudo. Houve um alemão, Eric Voegelin, que dedicou sua vida a investigar como o inferno se camufla de paraíso — e ele se referia a um conceito que chamava de segunda realidade. Do que se trata isso? É quando uma pessoa ou um grupo cria, na própria mente, um universo alternativo, perfeito e organizado, onde o mal não tem lugar, e começa a habitar esse mundo como se fosse a realidade. O inconveniente é que a segunda realidade não consegue se manter em contato com a primeira. É delicado como uma casa de vidro. Então, quando a realidade realmente se impõe — e ela sempre se impõe, meu irmão, sem pedir permissão —, a casa de vidro se despedaça, e a pessoa que cresceu dentro dela se fere com todos os fragmentos, pois nunca aprendeu a caminhar sobre o chão de terra. É por essa razão que o filho da casa fechada é o mais vulnerável à destruição: ele não foi protegido do mal, apenas mantido ignorante em relação a ele. Ser cego não significa ser forte.
Porque — e este é o aspecto que distingue a preciosidade do que não tem valor — inocência não é sinônimo de pureza. Elas são quase como opostos. O antigo Aristóteles já nos ensinava que a virtude não consiste na falta de paixão, nem é o fato de nunca ter sentido a tentação do mal; virtude é um hábito, é algo que a alma vai moldando através do atrito e do enfrentamento diário com as suas próprias paixões, levantando-se e caindo, até que a mão se torne calejada. Ninguém vem ao mundo corajoso: torna-se corajoso ao enfrentar o medo repetidamente. E o santo Tomás prevalece e afirma: a prudência é o estábulo que abriga todas as virtudes, pois é ela que controla as rédeas — e a prudência é exatamente a virtude daquela pessoa que vê a realidade em sua totalidade, tal como ela é, sem nenhum disfarce. Então, como você pode exercer cautela em uma casa que eliminou o real que estava diante de você? Não vai passar. Você sai de lá com a alma limpa, sem feridas, sem amarras, sem controle. É por isso que afirmo que a pureza é uma forma de força — é o coração que, ao reconhecer o mal e encará-lo de frente, ainda assim opta pelo bem. Isso é realmente puro. Inocência cega é algo diferente: é uma fraqueza que apenas não cometeu um erro porque nunca teve a oportunidade. A razão pela qual a Igreja revelou o inferno às crianças de Fátima, em vez de ocultá-lo, é que a criança que se depara com o horror e amadurece torna-se mais forte do que aquela que é protegida e envolta em algodão, que se fragiliza e se desintegra diante do primeiro obstáculo que encontra. Uma pedagogia forma adultos; a outra cria vítimas.
Agora eu vou descrever o que acontece na cena entre os dois, o Michael e o genro. Primeiro o Tony conversa com a Claire, a filha do Michael, que é a namorada dele — e ela está brava, sem que ele tenha entendido direito o motivo. Depois ele vai ter a conversa com o próprio Michael pra tentar entender por que a namorada está tão irritada. E o diálogo, na minha reconstrução, corre mais ou menos assim:
Primeiro, o Tony se estranha com a Claire — a namorada dele, filha do Michael, que está brava com ele:
Tony — Com toda a sinceridade, o Junior e a Vanessa vão para o inferno e não no normal mais no inferno ruim.
Claire — É e em vez de tentar compreender, você fica aí julgando, cara. Ninguém está livre de passar por essas coisas, nem a gente.
Tony — Sério?
Claire — Claro que não — porque você continua sendo um chato, com C maiúsculo.
Depois, o Tony procura o Michael, o sogro:
Michael — Oi, Tony.
Tony — Olha senhor K, o senhor acha que eu julgo as pessoas?
Michael — você é um rapaz presunçoso, devoto, hipócrita e arrogante, mas, ADOREI ESSES SAPARTOS!!!
Tony — Não, não é possível. É verdade? Eu julgo demais as pessoas...
Michael — Eu estou te dizendo a verdade.
Tony — Não, deixa eu te contar uma coisa. Ontem à noite, eu SONHEI COM CLEIRE saindo do chuveiro — aquela saída do chuveiro, reluzente como uma foca molhada. E ela começou a fazer aquelas coisas, sabe... Caramba, eu adorei. EU NÃO PRESTO RÃRÃRAAAAA.
Observe as camadas que essa cena revela. Primeiramente, observamos um puritanismo levado ao seu limite — não se trata de paganismo, mas sim de algo que se assemelha mais ao islã, no que diz respeito à postura hiperpuritana em relação à fé, essa rigidez que avalia cada movimento. É realmente bastante puritano. E, simultaneamente, na mesma pessoa, observamos um ardente desejo de pecar que fervilha por baixo. A pessoa que mais critica é aquela que mais anseia. Por último, podemos observar a lógica que fundamenta a confissão protestante — que consiste em confessar perante a igreja ou expor o pecado de maneira livre, sem uma estrutura ou orientação definida. Não se trata do mesmo formato que a confissão católica, onde você revela seus pecados ao sacerdote, que então orienta sua expiação e o ajuda a se purificar, aplicando um método específico para evitar que você cometa o mesmo erro novamente. Ali, não. É mais um "ai, eu pequei, e agora, o que eu faço?", lançado ao vento, sem arrependimento, sem possibilidade de retorno. Está mais ou menos nesse patamar. Assim, podemos perceber a origem da mentalidade protestante de Tony: ele admite sua própria falha para seu sogro, Michael, revelando o erro que, segundo a lógica de uma expiação genuína, deveria ser trabalhado antes de ser simplesmente narrado como uma piada de mesa. É exatamente isso que o protestante não consegue compreender. Uma vez que entendemos a lógica por trás do comportamento do protestante, podemos agora passar para o outro lado e descobrir as razões pelas quais o católico se tornou como é.
Mas antes de cruzar, permita-me cutucar a ferida do Tony, pois ele é um personagem extremamente antigo, que já foi retratado por Cristo no capítulo vinte e três de Mateus. O Tony representa o fariseu. E que imagem impressionante o Evangelho utiliza: sepulcros caiados. Túmulos brancos do lado de fora, adornados e brilhantes, mas por dentro repletos de ossos e decomposição. É o Tony por completo em uma única frase. Exteriormente, ele é um devoto que critica e julga os outros, apontando dedos e comparando as faltas alheias com uma régua; mas, interiormente, é o mesmo homem que sai do chuveiro, brilhante como uma foca ensopada, ardente de desejos, venerando o próprio pecado que ele reprova ao falar dos outros. A pessoa que mais critica é aquela que mais anseia — e isso não é por acaso, mas sim um padrão: quem investe toda a sua energia moral vigiando a aparência não tem força alguma restante para cuidar do que está embaixo. É por esta razão que o moralismo imposto de fora para dentro, essa rigidez que eu denominei de islã puritano, não consegue converter ninguém: ele apenas silencia externamente o que ainda clama internamente. É aqui que a verdadeira confissão católica revela sua verdadeira finalidade — não se trata de um desabafo, nem do Tony despejando suas sujeiras na mesa do sogro para aliviar a consciência e manter o mesmo comportamento. É uma purificação: você acessa as profundezas de sua alma, o sacerdote oferece o guia, a penitência, a rota para a recuperação, e o propósito não é o seu alívio, mas sim evitar repetir o erro. Um limpa a aparência e oculta a decomposição; o outro vai ao fundo e confronta a putrefação. O filho que foi criado apenas na aparência torna-se exatamente como o Tony: uma figura exteriormente polida, mas superficial, com uma carteirinha de membro da igreja.
Isso se deve ao fato de que, dentro do contexto protestante, a situação se tornou bastante clara desde os primórdios da religião — a estrutura já se apresentou de forma defeituosa desde o seu início. Porém, a Igreja Católica não é assim; ela contraiu a enfermidade através da contaminação. Considera, por exemplo, um exagero que, em certas ocasiões, se revela como uma forma distorcida de marianismo. Isso não se relaciona com a verdadeira devoção a Maria, com atenção — a autêntica devoção mariana é algo diferente. É relacionado a um acabamento que foi importado. O que você quer dizer com isso, Gabriel? É fácil perceber que muitas pessoas que recentemente se converteram do protestantismo para a Igreja Católica trouxeram consigo suas antigas crenças e preconceitos, e aqueles que são protestantes ainda carregam uma visão, muitas vezes exagerada e distorcida, sobre o papel da mulher. Considere o judaísmo, por exemplo: nesse contexto, a mulher é altamente respeitada, em parte porque é ela quem pode dar à luz, e não usa quipá porque, segundo a tradição, não é necessário. Portanto, existe uma reverência particular nesse contexto. Há uma certa similaridade nessa lógica dentro da mentalidade protestante, inclusive em uma regra social que se repete: um protestante só se relaciona com outro protestante. Quando uma mulher protestante se relaciona com um católico, é comum que ela abandone sua fé em favor da dele. Se uma mulher se casou com um católico, na maioria das vezes, ela adota a religião que o seu marido professa. É por essa razão, inclusive, que em certas ocasiões os próprios pais acabam rejeitando a menina posteriormente. Por outro lado, se um homem protestante se casar com uma mulher católica, é bem provável que, com o tempo, ela acabe adotando a religião dele. Por qual razão? Isso ocorre porque, culturalmente, a menina costuma se conformar ao papel que o homem representa. O homem é o elemento que organiza a relação — e é por isso que as coisas acontecem dessa maneira.
É a partir dessa questão da ordenação que tudo o mais se segue. O que aconteceu dentro da Igreja Católica, sendo direto, foi uma supervalorização da mulher. Não tem outra forma honesta de dizer. Olha: Maria e as santas sempre foram reverenciadas, e com toda justiça. No entanto, o que começou a ocorrer foi algo diferente — começou-se a prestar homenagem também à mulher pecadora, à mulher comum, da mesma forma que os protestantes já estavam fazendo. Mas por que razão? Pois a mentalidade progressista ligada ao protestantismo foi se infiltrando na igreja, murmurando: "ah, a mulher está muito acima, a mulher isso, a mulher aquilo". Meu irmão, as raríssimas mulheres que a própria fé católica sempre reconheceu como dignas de destaque são as santas e a própria Virgem Maria — e, embora Maria seja a criatura mais elevada, ela ainda é uma criatura humana e não possui, do ponto de vista religioso, uma distinção em relação ao fato de ser "mais salva" ou ontologicamente superior a um homem no que diz respeito ao valor de sua alma. Não existe. No catolicismo, todos têm suas responsabilidades, e ninguém é fundamentalmente distinto dos demais aos olhos de Deus. Então, por que passaram a venerar as mulheres de maneira exagerada e abrangente dentro da igreja? Devido a esse feminismo progressista que foi se infiltrando gradualmente. Um feminismo que avança — e, no final das contas, não há feminismo que não avance; todos são assim. O que é que esse feminismo afirma? Que as mulheres eram vítimas, que passaram por muitas dificuldades ao longo da história, e assim por diante.
Gostaria de fazer uma interrupção para confrontar a narrativa da vítima, pois ela não se sustenta. De fato, ao longo da história, as mulheres não enfrentaram o sofrimento que o discurso propaga. A mulher, em diversos aspectos, sempre gozou de mais direitos e proteções do que o homem. Inclusive, se a mulher desejasse apenas viver sustentada pelo marido e não trabalhar nunca mais, ficando em casa relaxando pelo resto de sua vida, ela poderia — tinha todo o direito e essa possibilidade era socialmente apoiada. O que ela não teria, nesse contexto, seria acesso a outros direitos, como o voto. Mas por que isso? Pois, nessa representação, se ela não estiver empregada, não gera produção para o país e não contribui para a economia. Ela permanece em casa, e — a pergunta é sincera — por que uma mulher totalmente dedicada ao lar, sem qualquer interação com o mundo externo, teria interesse em votar, uma vez que depende completamente do marido e não possui vivência na esfera pública? É de conhecimento geral que, quando esse tipo de sistema é amplamente adotado, ele tende a resultar em autoritarismo, totalitarismo e outras formas de governo opressivas, uma vez que o voto desvinculado de qualquer responsabilidade produtiva se torna uma presa fácil para demagogos. É por essa razão que o movimento feminista nunca conseguiu compreender plenamente o que estava combatendo — ele se concentrou em fantasmas e ignorou a estrutura subjacente.
Aí as mulheres se dirigiram às urnas para votar. O problema é que não eram apenas aquelas que ajudavam a economia — essas, na minha opinião, deveriam ter o direito de voto, pois contribuem para a prosperidade do país e merecem ser consideradas. Mas, muitas vezes, nem elas tinham plena consciência da importância do seu próprio voto; desejavam votar apenas pelo fato de votar. Essas, mesmo assim, na minha opinião, poderiam. Agora, aquelas pessoas que dependem completamente dos outros para viver — e não me refiro apenas às mulheres, mas a qualquer indivíduo nessa situação —, essas, em minha opinião, de modo geral, não deveriam ter o direito de votar. Por que razão? Isto porque costumam apoiar aqueles que, essencialmente, se aproveitam do Estado e que prometem perpetuar a servidão da dependência. Esta é uma regra que eu sigo de forma igualitária, sem fazer distinção entre os gêneros: ninguém que seja dependente do Estado, que receba praticamente tudo do Estado, deveria ter o direito de votar — sejam homens ou mulheres. Na minha perspectiva, aqueles que têm a capacidade e a obrigação de votar são aqueles que contribuem para a economia do país, e enfatizo a diferença: do país, e não do Estado. Portanto, as mulheres devem ter o direito de votar, sim — mas levando em consideração esse critério, aquelas que estão empregadas no setor privado, produtivo, e não aquelas que se sustentam apenas através da máquina estatal. É uma questão de responsabilidade, não de gênero.
Para retomar o assunto central: o católico se tornou assim devido à influência da mentalidade protestante que se infiltrou. As mulheres eram amplamente veneradas, e o movimento feminista estava pressionando para sua inclusão na igreja. A mentalidade protestante, com sua abordagem suave de "deixa, deixa, vai levando", foi se infiltrando gradualmente, minando por dentro. E para ilustrar quão absurdo isso era: em Primavera, por um longo período — e não estou exagerando, isso ocorreu por vários anos —, comemorava-se o Dia da Mulher da mesma forma que se celebra o Dia de Nossa Senhora. Você já testemunhou o papado, em qualquer momento da história, declarar algo semelhante? Jamais. Era uma invenção considerada herege em nossa região: o movimento feminista de Primavera tomou posse da data e conseguiu juntar o Dia da Mulher, que é uma data emblemática da luta política feminista, ao Dia de Nossa Senhora — e, durante a encenação, Nossa Senhora surgia guiando aqueles indivíduos. Em outras palavras, é como se Nossa Senhora estivesse liderando o movimento feminista. Veja a magnitude da insanidade. Isso durou bastante tempo por aqui, realmente bastante tempo.
O que ocorreu foi que a igreja, especialmente devido à influência da teologia da libertação, adquiriu essa postura — o que, na minha opinião, foi um erro colossal, algo que nunca deveria ter aconteido. É a partir daí que surge toda essa transformação do homem. Você compreendeu o negocio? Todas as pessoas se transformaram em miqueinhas. Isso surgiu exatamente dessa excessiva valorização da mulher, dessa tendência de apresentá-la como uma pessoa superior ao homem. De forma alguma: ninguém é superior a ninguém, e a Igreja Católica, em sua doutrina, sempre foi muito clara sobre isso. Certas igrejas protestantes são as que mais promovem essas ideias, pois, na falta de uma autoridade doutrinária firme, muitas coisas absurdas e erros teológicos surgem dentro da igreja protestante. Esta, a que inverte os papéis dos sexos, é uma delas.
Quais são as consequências de tudo isso? Os meninos se sentiram um tanto perdidos, sem direção, sem uma base sólida. Além disso, observou-se uma deterioração do comportamento feminino, impulsionada pela liberalização de praticamente tudo, especialmente aquilo que não é benéfico. Foram permitindo gradualmente, em todo o mundo: eutanásia, aborto, a noção de que você pode ter relações com quem desejar, ter quantos amantes e parceiros quiser, todos ao mesmo tempo. Desapareceu até aquela velha preocupação de ser acusado de bigamia; isso já não existe mais. E assim por diante. Então, meu amigo, como eu menciono, algumas coisas mudaram de forma significativa, especialmente no que diz respeito à liberalização moral — que é exatamente o que a esquerda sempre desejou e conseguiu alcançar. Aqui no Brasil, houve uma grande liberação moral. Então, um protestante ou um católico que realmente pertencia à igreja e tinha uma fé genuína, observava aquilo e ficava assustado. E, apavorado, passou a se enclausurar naquela ilha que era a igreja, indiferente ao que ocorria fora dela. O resultado disso foi uma grande quantidade de homens se transformando em verdadeiros miqueinhas e um monte de garotas se tornando as mais vulgares e repugnantes que se pode imaginar. Então, eu não a considero apenas como uma pessoa travessa — eu a descrevo como repugnante, pois a palavra "safada" ainda carrega um certo tom de leveza, e o que presenciei definitivamente não era leve.
Aí então surge a imagem que vou te apresentar: meninas que você via na igreja, vestidas de forma adequada, cantando durante o louvor, mas que, se você desse uma olhada no site da Fatal Model, estavam se prostituindo. Frequentemente, eram meninas que aparentavam ser filhas de famílias abastadas — recebiam dinheiro de seus pais, desfrutavam de todas as comodidades sem esforço algum e não tinham necessidades — e, ainda assim, optavam por se envolver na prostituição. Por que razão? Por causa do desejo deles. Porque eram indivíduos totalmente animalizados, rendidos à voracidade do desejo. Chegamos a esse ponto. Além disso, é necessário afirmar que isso é resultado de uma educação inadequada. Porque muitos pais — e observe que há membros aqui da Nous, no Círculo de Estudos Nous, que vivenciaram essa situação —, muitos pais delegaram completamente a responsabilidade pela educação de seus filhos ao Estado. O que existe internamente no Estado? Professores de ideologia esquerdista em toda parte. Há tanta que seria possível juntar com um balaio. Essa é a pior das negligências: largaram o filho pro mundo e disseram "se vira". E o resultado foi criar, de um lado, um batalhão de mulheres das mais asquerosas, e, de outro, um batalhão de moleque inocente que aceitava tudo — até porque os próprios sacerdotes eram, muitos deles, um bando de inocente também, ou pior.
E o sacerdote chega e diz: "não, meu filho, aceita, aceita. Ah, ela te traiu? Perdoe". Olha que doideira. Às vezes a mulher traiu o cara trocentas vezes, e o sacerdote senta na frente dele e solta: "ó, meu filho, perdoe. Perdoa esta mulher". Veja quanta loucura. Por que uma mulher que já te traiu várias vezes terá, sempre, a inclinação a fazer o quê? Trair novamente. Se fosse apenas uma vez, talvez se pudesse dialogar. No entanto, essa questão da traição repetida, meu irmão, não se encaixa no perdão imediato. Você continua a perdoar repetidamente, mas o padrão se mantém. É aqui que eu me oponho fortemente ao professor Olavo. Não sou aquele católico acomodado, nem o devoto que aceita essa narrativa sem questionar. Que narrativa? Imagine a situação em que você se aproxima do padre e afirma: "padre, ela me traiu com dez caras, ao mesmo tempo", e o padre responde: "ah, mas perdoe, porque Cristo mandou perdoar". Em outras palavras, trata-se daquele sacerdote desprezível que, no fundo, nem merece ser chamado de padre — muitas vezes um homossexual disfarçado de padre, que se aproxima de você e despeja essa frouxidão. Porque, em sua concepção, alimentada por todo o desconstrucionismo que permeou sua formação, inclusive durante o seminário, a lógica que ele segue é a seguinte: "a fé pública é uma coisa, e a sua vida pessoal que se dane; o que acontece atrás de quatro paredes ninguém governa". É esse tipo de padre lixo que estamos gerando. Daí surge o famoso padre punheteiro, essa verdadeira calamidade. Esse tipo de indivíduo, muitas vezes, é um homem que apresenta uma notável inclinação homossexual — e não estou dizendo isso sem fundamento; vários papas já identificaram essa questão, não foi apenas um. Homens com fortes tendências homossexuais que, não tendo achado outro lugar pra se estabelecer na sociedade, vieram pra dentro da nossa igreja pra virar sacerdote. É um problema de vocação corrompida na origem.
Então o que acontece é que essa liberalização sexual desvairada começou a rodar, e ela sempre pendeu, da forma mais cruel possível, contra o lado dos homens. Porque, em geral, quem levava o homem pra desgraça era a mulher. E isso, aliás, é até bíblico, se você for olhar a fileira de homens arruinados por uma mulher ao longo das Escrituras — é quase sempre a mulher que conduz o homem à ruína, e raramente o contrário. Então o que fazem esses sacerdotes? Mandam você perdoar tudo, indiscriminadamente. Porque o mal do clero brasileiro, como eu venho dizendo, é essa amnésia em relação à face da justiça de Deus. Pra eles, a única justiça que existe é a de um Cristo bonzinho perdoando todo mundo indefinidamente, como se a misericórdia anulasse a justiça em vez de caminhar com ela. É daí que brota até aquela heresia gigantesca do perdão universal, a apocatástase malcompreendida — a ideia de que Deus vai perdoar até o capeta e que, no fim, todo mundo desfila pro céu. É nesse nível de doideira. É por isso que eu reforço: há sacerdotes cujas orientações sobre a vida prática não devem ser seguidas.
Por exemplo: se ele(a) te traiu? Meu filho, divida. Por qual motivo? Quando uma mulher te trai uma vez, ela começa a se sentir à vontade para trair novamente. Mesmo quando ela não se repete, permanece influenciada por uma tendência, uma predisposição que não desaparece. Como ser humano, você nunca mais será capaz de confiar plenamente nela. Nunca mais. Aquela afirmação — "ah, eu confio na minha esposa" — chega ao fim no dia em que a revelação ocorre. Embora muitos hesitem em expressar isso em alto e bom som, é a mais clara realidade. Meu irmão, responda-me: você realmente acredita que pode depositar total confiança em alguém que já teve relações íntimas de maneiras extremamente variadas, sensuais e até mesmo inusitadas, que a mente pode conceber, mas que nunca realizou nenhuma daquelas experiências com você? Isso é como a maioria das traições ocorrem. A mulher pode ser infiel com um homem que se destaca na cama, e, muitas vezes, esse homem pode não ser considerado bonito. A questão é que ele se destaca na cama, possui um corpo atraente, é mais musculoso e tem uma presença física que impõe respeito. É sempre esse tipo de homem que ela irá buscar para ser infiel ao marido. Sempre. Isso é algo que o Miqueinha não leva em consideração, pois ele nunca participou do jogo para entender as regras.
Eu testemunhei isso acontecer muitas vezes. Muito mesmo. Eu estive com amigos que passaram por tudo isso, cara. Há uma narrativa que já compartilhei aqui no Círculo, mas que irei recontar, pois ela serve como um retrato conclusivo. Eu tinha um amigo que era desses crentes chatos — deixou a Igreja Católica quando era bem mais jovem, se converteu à igreja protestante e se tornou aquele tipo de crente insuportável. E havia outro, da mesma congregação que ele, que também era nosso amigo, um rapaz gordinho. E esse já não era muito atraente, coitado — era gordo, tinha um corpo que não era nada bonito, aquele tipo de pessoa que ao olhar você pensava, com todo respeito: "amém, esse aí não consegue mais nada na vida". Mas ele conseguiu. Ele conseguiu porque, em primeiro lugar, o pastor fez uma recomendação em favor da menina, e, em segundo lugar, ele concordou em ficar com ela devido à sua beleza extraordinária — realmente, ela era extremamente bonita — e, por essa razão, ninguém mais demonstrava interesse. No momento em que ele mencionou que estava saindo com essa garota, eu olhei para ele e pensei: rapaz, esse cara vai se complicar.
Então, o meu outro amigo, que é um crente fervoroso e muito certinho, respondeu: "ai, que preconceito". Então eu disse: rapaz, esse cara vai se dar mal, porque todos ao seu redor estão cientes de que essa menina tem um passado muito conturbado — ela apenas começou a frequentar esse banco da sua igreja há dois anos. Cara, nosso amigo vai se dar muito mal. E o Caxias, seguindo rigidamente suas diretrizes: "não, você é católico, por isso não consegue perdoar. Deve haver perdão, foi Cristo quem disse". E eu: pois é, vamos ver como ele vai reagir quando ela o trair. Aí o Caxias se irritou comigo. E, com toda a sua ousadia e intromissão, no dia seguinte ele mesmo foi ao grupo perguntar como estava o relacionamento — enquanto eu apenas ficava observando as mensagens passarem. O próprio jovem que estava se relacionando com a garota respondeu, no grupo, que suspeitava que ela o estivesse traindo. Isto é. Ele disse: "eu acho que vou terminar, sei lá, acho que eu nunca deveria ter começado esse relacionamento". E o que o Caxias, o devoto, teve a ousadia de afirmar a ele? "Não, perdoe. Desculpe, meu amor. Tudo vai se resolver bem. Essa garota tem o potencial de ser o amor da sua vida." Veja este truque, seu filho da puta — "essa menina pode ser o amor da sua vida, vá em frente, pode dar certo, é questão de perdão". Eu já me inclinei com a mão na testa e disse: meu amigo, esse aí vai arruinar a vida do pobre garoto. E foi precisamente isso que ocorreu.
Quando esse nosso amigo recebeu o golpe — ao descobrir que ela o traía e que, mesmo após ele ter perdoado, a realidade era ainda mais dolorosa do que ele pensava: não era apenas com um, mas com vários. Vários. Um desses caras, como eu já esperava. Ela namorava várias pessoas simultaneamente. Veja só como essa garota era peculiar: ela inventou uma história dizendo que iria se mudar para Cuiabá, e o meu amigo, na maior boa-fé, a acompanhou até a rodoviária, com mala e tudo — para você ter uma ideia da inocência dele. Eu falo sério. Esses rapazes que passam a maior parte do tempo na igreja são um pouco excêntricos, pois estão tão alheios ao que acontece ao seu redor que não têm conhecimento de nada e são todos bastante ingênuos. Esse mesmo amigo, antes de tudo ruir, já havia prometido amor eterno, financiando uma cirurgia estética para ela, fazendo diversas outras coisas em seu favor, gestos que, sinceramente, não fazem o menor sentido para alguém que ele mal conhece. A pessoa contraindo dívidas para bancar os luxos de alguém que acabou de conhecer. Ele fez promessas de comprar um carro para ela, de encontrar uma casa, de oferecer tudo o que pudesse. E, na prática, o que ele estava fazendo era desviar mais da metade do próprio salário pra dar todo o bom e o melhor pra essa guria — enquanto ela se aproveitava dele e ficava com vários caras. Vários.
É praticamente aquele meme em que o namorado está ao telefone, conversando com a namorada de forma muito apaixonada, enquanto o outro homem está ao lado dela, tendo acabado de ter relações com ela. E o sujeito ao lado questiona: "com quem você tá falando?". Ela respondeu: "ah, com meu namorado, ele acabou de mandar uma pizza pra mim". Era nesse ponto que a situação com esse meu amigo se encontrava. Ele era o pai que sustentava a mulher — o provedor tolo, o caixa eletrônico emotivo. Para você ter uma noção do tamanho do constrangimento, ele nem conseguiu ir para a cama com ela. Nem mesmo isso. Em seguida, ela mentiu, terminou o relacionamento, criou diversas histórias e desapareceu.
Então, de repente, em um dia recente, ele estava com outro amigo nosso e os dois se depararam com a garota em um mercado aqui nas proximidades. E ela simulou não reconhecê-los de forma alguma — virou o rosto como se nunca tivesse visto ninguém antes. Mais tarde, ele descobriu como havia terminado: ela se envolveu com um rapaz de Cuiabá, acreditou que seria uma boa ideia, passou uma semana na cidade, não se agradou e retornou arrependida para a casa dos pais. Em outras palavras, ela o traía com diversos outros parceiros e, para piorar a situação, terminou o relacionamento para passar uma semana inteira se envolvendo sexualmente com outra pessoa em outra cidade. Houve uma pequena discussão entre eles, mas ela retornou — e, conforme se soube, acabou se casando. Além de toda a confusão, ela voltou a falar com esse meu amigo. E ele, pobre diabo, ainda cogitava a possibilidade de reatar o relacionamento com ela.
Foi então que eu me voltei para o amigo Caxias, aquele que havia discutido comigo no início devido a esse relacionamento, e disse: veja o erro que você cometeu, meu amigo. Ele me encarou e questionou: "por quê?". Por que motivo? Você nem se questiona o porquê? O rapaz estava pensando em terminar o relacionamento, já estava com um pé fora, quando você apareceu e insistiu para que ele ficasse — agora ele está com uma mulher que o traiu diversas vezes, que causou muito sofrimento a ele, e mesmo assim ele deseja retornar porque ainda está apaixonado. É preciso ter consciência, meu amigo — vocês pertencem ao ambiente da igreja, só andam em território eclesiástico, e não têm ideia de como as coisas funcionam no mundo exterior. Eles não têm essa informação. O mais frustrante é que acreditam que têm conhecimento sobre isso. Por qual motivo? Porque vocês prestam atenção demais a um pastorzinho insignificante que fala sobre a vida sem jamais tê-la realmente vivido. Então, o que ocorre? Vocês acreditam que tudo se resume a perdão e conversão. Não é mesmo. Há pessoas más neste mundo, meu amigo. Há uma verdadeira maldade que não desaparece com um simples versículo. Agora, em virtude disso, ele se encontra profundamente enamorado e desejando retomar o relacionamento com essa pessoa indesejada — e a responsável por isso, observe, foi você. Você é o responsável por isso.
Mais tarde, Caxias me encarou e comentou: "porra, bicho, agora eu tô vendo que a coisa foi muito ferrenha com a vida dele mesmo". E eu: ei, só agora você vai perceber? É assim: com esse puritanismo, você pode até se afastar da igreja, mas não pode integrar certos grupos dentro dela. Você pode até ser membro da igreja, mas não participa desses grupos de relacionamento. Pois, como eu digo, a pior decisão que você pode tomar é se juntar a um desses grupos de igreja. Por que motivo? Você permanece lá dentro, e sua mente não consegue se desvincular daquele lugar. Você já não consegue ver nada além daquela cerca. Você perde a visão do que ocorre fora do templo e fica com a mente enclausurada dentro dele. Em um instante, você se encontra desconectado da realidade. Isso acontece o tempo todo, meu amigo. Nossa! Especialmente aqui em Primavera, onde isso se tornou quase uma norma — um homem passar toda a sua vida profundamente envolvido com a igreja, desde o nascimento até a morte, tornou-se o padrão na região. E é nesse momento que essas garotas de fora aparecem, e todos ao redor estimulam o jovem a se envolver com a menina. E a garota vai e complica a vida dele, pois ele é um homem que nunca teve experiências significativas. Não há calos, cicatrizes ou repertório.
E é neste ponto que eu gostaria que você se concentrasse em uma inversão histórica que é fundamental para tudo. Atualmente, vemos um número significativamente maior de mulheres que se sentem liberadas, assim como muitos mais homens que estão envolvidos na igreja — uma situação que, há cerca de cinquenta a cem anos, seria quase inimaginável. Há cinquenta anos, isso já era um empreendimento inimaginável. No passado, havia significativamente mais mulheres do que homens na igreja. Atualmente, é o oposto: existem muito mais homens do que mulheres nos bancos. Assim, é evidente que o jovem homem, atualmente, costuma ser dez vezes mais cristão do que a jovem mulher — e, por sua vez, a jovem mulher é dez vezes mais repugnante, mais imoral e mais desleixada. Ao contrário de como era no passado. No passado, a dinâmica era oposta: o homem era visto como o porco imundo e repulsivo, enquanto a mulher era considerada a cabeça equilibrada da relação, servindo como o freio moral. Hoje virou tudo. E é por isso, entre outras razões, que os homens têm mostrado cada vez menos interesse em se envolver em relacionamentos. Estão apenas desistindo do relacionamento, ignorando o casamento.
Por que motivo? Porque, na era que se seguiu à revolução sexual, quase todos eram infiéis. Se a esposa cometia traição, o esposo fazia o mesmo com a mesma frequência; todos pareciam estar, de certa forma, embrutecidos e agrupados na mesma condição. Especialmente após a revolução sexual, que aniquilou a moral prévia e declarou que tudo aquilo era um conjunto de bobagens. Em suma, desvincularam a ética da própria essência do ser humano. Declararam, de forma clara: remova Deus da moral, e você se tornará a totalidade da sua própria moral. Isso significa que cada indivíduo assume o papel de Deus para si mesmo, determinando de forma independente o que é certo e o que é errado, de acordo com seus próprios desejos e vontades. Foi nesse momento que a grande fissura se formou. Porque, a partir desse momento, os homens começaram a se instruir religiosamente mais do que as mulheres e a ir à igreja com muito mais frequência do que elas. Antigamente, as mulheres eram as que ocupavam esses lugares, e, de maneira geral, elas eram bastante mais éticas do que os homens. Mesmo em casamentos onde a traição era bilateral, as mulheres demonstravam uma grande maturidade e virtude — muitas vezes, o marido traía e ela não. Hoje virou de ponta-cabeça. Atualmente, no que diz respeito ao comportamento que eu noto, as mulheres parecem ser dez vezes mais imundas, mais libertinas e mais desprezíveis do que os homens.
Aquela citação que eu mencionei, "tire Deus da moral e você é toda a sua moral" — ela não é minha, no fundo; ela é a tradução de rua de uma coisa que um russo genial já tinha cravado. Dostoiévski, em Os Irmãos Karamázov, fez com que Ivan expressasse a ideia que sintetiza todo o século: se Deus não está presente, então tudo é permissível. Note que este não é um grito por liberdade; é um grito de terror. Uma vez que você remove Deus do seu papel fundamental na definição do bem e do mal, não resta o homem como ser livre — permanece, em vez disso, o homem como o senhor absoluto, que determina por conta própria o que é certo e o que é errado, conforme suas próprias vontades e desejos. O Voegelin, um alemão que já mencionei anteriormente, se refere a isso pelo nome técnico: é a gnose. O gnóstico é aquele indivíduo que, por não estar satisfeito com o mundo em que vive, rejeita a ideia de transcendência — isto é, recusa a noção de que o significado das coisas deve ser atribuído a uma fonte superior — e decide criar o seu próprio paraíso aqui na terra, utilizando suas próprias mãos, assumindo o papel de Deus. Voegelin referia-se a isso como imanentizar o escatão: trazer o céu para a terra à força. E observe a genialidade de sua observação, que se alinha perfeitamente ao que mencionei anteriormente sobre a teologia da libertação: o feminismo progressista que conseguiu se infiltrar na igreja é precisamente isso, uma escatologia enganosa, uma promessa de um paraíso na terra que pega a antiga queixa histórica e a transforma em uma religião desprovida de Deus. É a mesma sabedoria oculta de sempre, com uma nova aparência.
E é aqui que os conceitos que a gente forjou no Círculo encaixam feito chave na fechadura. Porque o homem que se põe no lugar de Deus é o que a gente chama de homem satanizado — não porque virou um demônio de chifre, mas porque repetiu o gesto exato do capeta, o non serviam, o "não sirvo", o querer ser deus em vez de servir a Deus. E tem uma coisa que a gente chama de satanização como esperança corrompida, que explica o caso mais assustador de todos, aquele da mulher que sai da igreja e inverte a própria fé. Lembra da Urach, que eu citei? Do Protestantismo à Quimbanda Lucifereana? Aquilo não é alguém que desistiu da esperança. É ainda mais deplorável: é a esperança que, recusada de maneira explícita, apodreceu e se tornou o oposto do que era. A alma foi criada para almejar o que é elevado, e quando você impede essa busca pelo alto, essa sede não desaparece — ela se dirige para baixo, buscando aquilo que deveria estar procurando acima. A esperança corrompida não se transforma em desânimo; ela se torna um culto distorcido. É por essa razão que essas falsas conversões representam um grande perigo para o miqueinha: ele acredita que está lidando com uma ovelha perdida que retornou, quando, na verdade, muitas vezes está se relacionando com uma alma que já completou todo o percurso de volta, do céu para a terra, e, além disso, aprendeu a rezar de cabeça para baixo.
E há também uma assimetria prática que impede o homem. Naquela época, as mulheres terminavam um relacionamento para iniciar outro, e a vida continuava; era dessa forma que as coisas aconteciam. O homem, de maneira alguma. Quando um homem age dessa forma de forma recorrente, ele atualmente tem muito a perder no âmbito jurídico. Ele não pode apenas abandonar sua família e pular de um relacionamento para outro, como a mulher consegue. Não é uma questão de falta de opções — é simplesmente uma questão de dinheiro. Se ele começar a ter filhos em todos os lugares, em breve poderá acabar morando na rua, pois terá que pagar pensão para várias partes. É aí que reside a questão central. O homem passou a acumular tanto, mas tanto, que agora é capaz de perder dez vezes mais do que uma mulher que, com uma pequena falha, um deslize insignificante, consegue perder. Por ter tanto a perder, ele acaba afirmando: "ó, foda-se, eu quero ficar com o que é meu, eu não quero nenhuma vagabunda roubando o que é meu." É exatamente isso — e, aliás, essa é uma das frases que resumem o movimento Red Pill: "eu quero ficar com o que é meu e não quero nenhuma vagabunda roubando o que é meu". A frase é esta.
Por isso, não é possível desconsiderar de forma simplista o valor do que o Red Pill indica, mesmo levando em conta todos os exageros do movimento. O que ele indica? Uma legislação que, de maneira excessiva, favorece as mulheres, sendo que eu me refiro, de forma geral, a cento e treze leis que tendem a resultar em conclusões que são muito mais benéficas para as mulheres do que para os homens. Isto é, o homem, por natureza, já é visto como o vilão da história. Você observa isso aqui no Brasil, não é? Se uma mulher estiver caminhando pela rua e, de repente, começar a gritar que um determinado indivíduo a estuprou — sem que nada tenha ocorrido, sem que haja qualquer investigação ou confirmação do fato —, esse homem poderá ser linchado imediatamente, no local, na calçada. No entanto, quando um homem se aproxima, segurando um bebê nos braços, e afirma "você abusou do meu filho", na maioria das vezes a mulher não enfrenta nenhuma consequência: as pessoas olham para ele e dizem "ah, esse aí tá doido". Os tratamentos são completamente distintos. E especialmente se a mulher for um pouco atraente — aí, meu irmão, realmente complicou, ela se torna quase intocável. A beleza, mais uma vez, atuando como uma proteção.
Assim, é possível compreender que, no passado, os homens possuíam uma maior margem moral para tomar determinadas decisões. Por que motivo? Pois as mulheres já tinham, e ainda têm, essa mania de exagerar, de tirar proveito da situação e de ampliá-la muito além de suas proporções reais. E isso não é apenas uma invenção minha; são palavras de policiais veteranos, homens de sessenta e até setenta anos, que ainda hoje afirmam: "a gente não acreditava muito em mulher justamente por causa disso". As mulheres costumavam pegar uma situação pequena, que estava longe de se comparar ao que elas descreviam, e ampliavam aquilo como se fosse a coisa mais terrível e grotesca do mundo. De tanto que cresciam, muitas vezes não significavam nada. Por isso, o policial frequentemente duvidava da mulher, optando por confiar em qualquer outro homem presente que concordasse com uma narrativa mais comedida. Era um filtro de vivência, talvez severo, mas originado de uma norma percebida.
Então, concederam um superpoder legislativo às mulheres, e atualmente estamos colhendo exatamente os frutos do aviso que aquele policial de setenta anos me deu. Todos passaram a considerar automaticamente a palavra da mulher. O Brasil atingiu um nível que se aproxima do grotesco, devido à quantidade de mentiras que se propagam — mulheres que se apresentam e afirmam que seus parceiros cometeram isso, aquilo e muito mais, resultando em um grande número de prisões fundamentadas em fabrications. A mulher cria uma acusação infundada porque está prestes a se divorciar e deseja sair por cima, almejando obter vantagens na divisão de bens e na guarda dos filhos. O efeito colateral mais maligno é este: até as mulheres que realmente enfrentam a violência, são as que mais pagam o preço, pois a avalanche de falsidades compromete a credibilidade de todas. Já não é possível afirmar com certeza se a pessoa está criando evidências de um abuso ou se realmente aconteceu. Frequentemente, essas mulheres atuam em pequenos grupos organizados: uma delas afirma ter sido estuprada, e a outra imediatamente acrescenta: "eu estava junto, eu vi", criando uma sequência de evidências que parece encenada, tornando-a difícil de refutar. E, no meio disso, prende-se um cara inocente. Esse é o pior de todos os cenários — a injustiça que se disfarça de justiça.
E o problema é que esse policial está certo. Ele foi policial, se não me engano, por quase quarenta anos — uns trinta e seis anos de farda. Então, quando você analisa o que ele diz, percebe que não é implicância: é experiência acumulada. "A mulher a gente não levaria em consideração pra quase nada, porque na maioria das vezes é mentira." E atualmente se considera praticamente tudo, e o aumento de prisões por qualquer tipo de acusação de abuso — mesmo no caso de falsas acusações — triplicou, superando em muito a média. Tenho tios que foram policiais até bem pouco tempo, e até alguns que depois mudaram de profissão para advogados, e todos eles dizem a mesma coisa: "Gabriel, você não tem noção do tanto de falsa acusação que essas mulheres fazem. Não podemos mais simplesmente confiar. Pois, em algumas situações, a mulher acaba causando uma lesão em si mesma e responsabiliza o homem. Como teremos a certeza?". Chega-se a um nível onde a situação do negócio é tão duvidosa que ninguém consegue distinguir entre o que é verdade e o que é falso. A única alternativa viável, uma vez que a mulher parece estar acima da lei nesse contexto, é encaminhar o homem para a prisão. E então, o que vamos fazer? Trata-se da lei.
Além disso, como eles mesmos afirmam, As sutilezas interpretativas de tudo isso são vastas. As leis estão claramente estabelecidas, mas a maneira como a legislação brasileira é interpretada é estranhamente flexível e peculiar: é possível compreender os textos legais de diversas formas. É quase como se fosse uma bíblia composta exclusivamente de jurisprudência — você pode extrair de lá qualquer coisa e fazê-la funcionar, contanto que consiga conectá-la a outras teses e precedentes. Se a tua tese estiver relacionada com as outras noventa e cinco, você a aprova. Funciona da mesma forma na legislação brasileira. Tudo isso culmina na ideia que tenho insistido em compartilhar: há uma grande valorização da mulher, como se a vida dela tivesse um valor muito superior à de um homem. Isto é, não se pode afirmar que todos os seres humanos tenham o mesmo valor, apesar de como isso está apresentado de forma ideal na legislação. O conceito de igualdade entre os gêneros, na prática, já não se aplica no Brasil, uma vez que a opinião de uma mulher sempre tem muito mais peso do que a de um homem. Infelizmente, isso ocorre em nossa cultura — não podemos ignorar essa realidade sem nos contradizer, pois as estatísticas evidenciam o aumento das falsas acusações e das prisões resultantes, muitas das quais nem sequer são identificadas como falsas.
E veja que eu disse, sem me dar conta do tamanho, uma coisa assim bem chique: a legislação brasileira transformou-se em uma bíblia repleta de jurisprudência, da qual é possível extrair qualquer informação que se desejar. Isso possui uma designação em uma tradição que remonta a séculos, e é válido que nós convoquemos novamente Agostinho e Tomás para a discussão. Ambos afirmavam a mesma coisa, com a clareza que só os mais antigos possuíam: lex iniusta non est lex — uma lei injusta não é uma lei. O que você quer dizer com isso? Que uma lei não é considerada válida apenas porque está registrada em um papel e alguém, usando uma toga, a confirmou com um martelo. A verdadeira lei deve estar fundamentada incondicionalmente em uma verdade objetiva que transcende a própria lei, referindo-se à natureza do ser humano e ao que é considerado justo. No momento em que ela se desvincula dessa âncora — naquele instante em que a interpretação pode "arrancar qualquer coisa" e fazer funcionar —, ela deixa de ser um instrumento da verdade e passa a ser um instrumento a favor de quem detém o poder de interpretar. Já não se trata de justiça: é poder disfarçado de justiça. É precisamente por essa razão que é possível incriminar pessoas inocentes com a maior tranquilidade: porque o sistema deixou de questionar "isso é verdade?" e começou a questionar "isso tem ligação com as outras noventa e cinco teses?". Substituiu a verdade pela costura jurídica. É a mesma ignorância da casa trancada, meu irmão, mas agora está de gravata e acomodada em um tribunal — um sistema inteiro que se nega a investigar e julga pelo reflexo.
O que é mais cruel é o efeito colateral, que já havia mencionado, mas que agora se torna evidente: quando cada acusação é automaticamente considerada válida, no final, nenhuma acusação realmente tem valor. Trata-se da história do garoto que clamava por um lobo, mas em uma proporção nacional. Cada falsidade que se escapa sem punição consome uma parte da credibilidade de todas as mulheres que vierem a seguir — especialmente, e de forma mais significativa, aquelas que realmente sofreram violência. Aquela que sofreu fisicamente torna-se prisioneira daquelas que mentiram para obter benefícios. Portanto, essa alegada proteção universal, essa presunção automática, na verdade desprotege exatamente aqueles que ela afirmava proteger. Pois a justiça que renuncia à verdade não ampara a vítima: ela apenas substitui uma vítima por outra. Antigamente, era o cego na igreja que se submetia a humilhações; agora, é o ingênuo que está preso e a verdadeira vítima que não encontra ninguém que acredite em sua dor. O mesmo toxico, dois copos distintos.
Portanto, é isso que eu digo aos miqueinhas, aos jovens protestantes, e também aos católicos que estão seguindo essa mesma tendência: tenham cuidado. Vá descobrir como o mundo realmente opera. Realize testes. Preste atenção à maneira como ela se relaciona com a família e busque conhecer os amigos íntimos da sua família — pessoas que podem revelar os segredos mais inesperados e tudo o que você puder descobrir sobre o passado dela. Isso é crucial, pois será essas informações que irão esclarecer com quem, de fato, você está se envolvendo. Busque o círculo de amigos dela. É fundamental que você esteja ciente de todos os aspectos; quanto mais conhecimento você tiver, melhor será. E então, após compreender profundamente a vida dela, recorde-se de um aspecto que muitos não conseguem entender: o que, de fato, constitui um namoro. O namoro pode ser considerado um ensaio para o casamento. É o período em que você se dedica a avaliar se essa pessoa é adequada para que você se case com ela. É a fase em que você realmente conhece a fundo a pessoa de quem gosta: como é sua vida, com quem ela se relaciona, o que considera importante. É, de fato, algo que se assemelha a uma investigação. Você precisa fazer uma investigação sobre a pessoa. Ela é adequada, ela não é? Isto não é compreendido pelos jovens. Eles acreditam que namorar é apenas diversão, festas, sexo e depois se separar. Não, meu irmão. Namorar é entender se a pessoa realmente merece sua atenção. Não se trata de festa ou celebração. Trata-se de uma investigação profunda e séria da alma do próximo.
E, pelo amor de Deus, tenha sinceridade nesta investigação. Não é a primeira pequena característica que você considerou como uma definição completa da pessoa. São esses os três mandamentos que ensinamos no Círculo de Estudos, e eles não podem ser violados de forma alguma. Primeiro: nunca julgar a pessoa apenas pelo que dizem a respeito dela, por rumores ou fofocas. Isso para evitar a armadilha da remoerção — que é o hábito de uma pessoa ficar buscando informações avulsas e tecendo ligações que não existem, na tentativa de encontrar isso ou aquilo, criando um monstro imaginário a partir de fragmentos. Não. É necessário procurar informações mais concretas e tangíveis, analisando diversos aspectos, inclusive confrontando a própria pessoa de forma amistosa sobre seu passado, ou simplesmente afirmando: "eu sei sobre tal coisa, me explique". Trata-se de explorar a outra pessoa de maneira curiosa e sincera, sem sarcasmo ou obsessão. É coletar dados reais, e não imaginários.
O segundo mandamento: nunca, em nenhuma circunstância, tente antecipar como será a vida de alguém ou quem essa pessoa é como um todo, baseando-se em suposições. Pois você ignora as habilidades que ela pode demonstrar, até mesmo em relação a você. Você não tem ideia. A alma do próximo é um domínio que a presunção da antecipação não consegue atingir. E o terceiro, que se assemelha a uma lei da física moral: tudo na vida tem seu custo. Tudo, tudo, tudo, tudo. Cada decisão terá suas consequências no futuro. Portanto, esteja ciente destas três questões: não julgue com base em rumores, não faça previsões sobre os outros e reconheça que tudo tem suas consequências. Sem essa consciência, meu irmão, você estará em apuros. É exatamente isso que os jovens têm dificuldade em compreender.
Além disso, há um bônus que oferecerei como um brinde: não acredite quando um velho tolo vier até você e disser — "ah, logo você vai ter que escolher, e não vai poder só ser escolhido". Ok, e o que isso tem a ver? É preferível que você seja selecionado por alguém que será verdadeiramente respeitável, bondoso e com quem você poderá construir um futuro e uma família sólida, uma pessoa que não te decepcionará e que será um modelo de compromisso no relacionamento, do que você se aventurar escolhendo alguém que não acrescenta nada à sua vida. É tão simples quanto isso. Dizer "eu não quero ser escolhido, eu tenho que escolher" é uma afirmação bastante egocêntrica. Porque qualquer pessoa que tenha um entendimento básico sobre como se dá a aproximação, especialmente pela internet, sabe que é muito mais vantajoso manter um relacionamento com alguém que se interessa por você do que ser você a se interessar por ela. Trata-se da clássica interação entre ativo e passivo: quando você assume o papel de passivo e acolhe a pessoa — quando ela se aproxima de você em sua DM do Instagram indagando se você tem interesse nela —, fica muito mais simples compreender a verdadeira dinâmica da situação. Pelo fato de você adquirir um controle sobre a situação que é superior ao controle que ela exerce sobre você. Isso é claro: se uma pessoa, especialmente uma garota, toma a iniciativa de se aproximar de você, é porque ela está realmente interessada. Pois, culturalmente, para que uma mulher tenha a audácia de se aproximar de um homem, ela precisa realmente estar muito interessada — uma vez que persiste a noção antiquada e equivocada de que, no Brasil, essa é uma atitude reservada apenas aos homens. Isso é uma tolice cultural. Já ouvi de algumas amigas: "cara, eu não sei quantos caras eu perdi na vida, caras com quem era o meu sonho ficar, e que depois eu descobri que gostavam de mim e teriam ficado comigo — simplesmente por causa dessa bobagem de que mulher não pode chegar, de que se ela chega está se rebaixando". Não. Não está se diminuindo de forma alguma. Está sendo sincera consigo mesma em relação ao que deseja.
Há, por exemplo, esse costume: uma das atitudes mais frequentes entre as mulheres é tentar fazer com que o homem se interesse mais por elas — um jogo que consiste em tornar-se menos acessível para aumentar o seu valor. Meu irmão, homem não suporta rodeios, não. Uma das características que mais irrita o homem, em seu íntimo, é a mulher que demonstra desinteresse ou hesitação. O dilema da mulher contemporânea reside na crença de que o homem opera da mesma forma que ela. De maneira alguma, meu amigo — estamos lidando com duas mentes que são totalmente opostas, dois sistemas operacionais distintos. A mulher, por sua vez, aprecia a competição: um homem bastante cobiçado entre as mulheres, com um ar de mistério, de quem ela nunca tem certeza se está saindo apenas com ela ou se também está envolvido com outras, esse fator intrigante é o que mais intensifica seu desejo. Ela vai te adorar se você agir dessa maneira, pois ela jamais descobrirá tudo a seu respeito. À medida que você mantém esse mistério e incentiva o desejo dela de te entender, mais ela se encanta. A mulher se sente bastante atraída pelo que é enigmático, pelo que é distinto, e, ao mesmo tempo, pelo homem que parece ter algum tipo de poder. Isso é algo que as mulheres realmente apreciam.
Mas elas geralmente acreditam que sentimos a mesma atração por elas que por esse tipo de coisa. De jeito nenhum. A única pessoa que se sente atraída por isso é o homossexual. O homem não se sente atraído por uma mulher que seja misteriosa e poderosa nesse aspecto, de forma alguma. Os homens se sentem atraídos pela doçura e pela leveza — e me refiro a leveza no sentido de leveza: a mulher que é leve, bem-educada, agradável e que participa da conversa. Porque o homem não se sente atraído pela mulher que fala e age de maneira bastante masculina. O que o homem deseja é uma mulher submissa. Se uma mulher não é dócil, geralmente os relacionamentos dela não persistem. Não são duráveis. Observe que as jovens, em geral, não conseguem manter um relacionamento por muito tempo — aquelas que conseguem algo estável são raras, e isso se deve ao fato de que ainda são muito teimosas e ainda não aprenderam a ser mais descontraídas. Ela é obstinada, deseja se afirmar em relação ao namorado, quer se expressar, despejar ofensas em sua face, e constantemente compete por poder. É por isso que você percebe que a maioria dessas garotas que adotam um estilo muito masculinizados, se o relacionamento durou seis meses, já foi considerado bastante. Ao ultrapassar a marca dos vinte e cinco anos, se um relacionamento durou seis meses, isso é realmente uma exceção — na maior parte das vezes, o namoro com elas não se sustenta. Por que motivo? Isso porque é muito masculina, e o homem não se sente atraído por figuras do mesmo sexo.
Honestamente, já presenciei homens que preferem uma transexual em vez de uma mulher, pois a transexual, durante a performance, se mostra mais feminina do que a própria mulher imagina que é necessário. Atualmente, existem pessoas do movimento Red Pill, bem como alguns homens, que afirmam que seria mais vantajoso se relacionar com transexuais — veja até onde chegou essa inversão de valores. Particularmente na vertente mais extrema do Red Pill, que afirma que é preferível se relacionar com transexuais, pois elas "não vão dar problema". Em outras palavras, a situação está tão distorcida que o indivíduo considera a possibilidade de se tornar homossexual apenas para evitar ter que lidar com mulheres, uma vez que, no contexto atual, as mulheres geram uma série de problemas. Veja a extensão do dano. Mas como chegamos a esse ponto? Por que as mulheres deixaram de ser submissas. Pelo contrário: elas desejam ser teimosas e desafiar o homem — e nenhum homem aprecia isso. Além disso, é importante ressaltar que essa questão está relacionada a uma mentalidade que se apresenta como cristã, mas que, na verdade, perpetua a noção de que a mulher tem o direito de se expressar livremente, enquanto o homem deve permanecer em silêncio, com a cabeça baixa, aceitando tudo sem contestar. Isso é realmente repugnante em um homem. O que é ainda mais alarmante é que isso se tornou uma prática amplamente aceita: a mulher grita, profere uma série de ofensas, cospe no rosto do homem, o humilha publicamente e ainda se defende com um "ah, mas é mulher, a gente tem que respeitar, né". Veja que absurdo. Um homem que aceita isso não se valoriza. Apesar de ser casado, isso não importa — o homem se comporta de acordo com a maneira como ela o trata, e um homem que é tratado como um capacho o é por escolha.
Normalmente, eu não costumo me envolver com mulheres dessa forma. Se a mulher for muito teimosa e com características masculinas, meu irmão, pode dar adeus — o relacionamento não se mantém nem por duas semanas. Desde os primeiros encontros, começo a perceber como será o relacionamento em geral, e quando noto um padrão, já decido terminar com a garota de imediato. Não cheguei ao quarto encontro; tudo terminou no terceiro. Portanto, eu afirmo que, quando a menina não demonstra docilidade — e é importante ressaltar que ser dócil não significa aceitar tudo, pois, caso contrário, a visão limitada da modernidade poderá se manifestar com a ideia de que "ah, ele quer que a mulher aceite tudo", o que está longe de ser o caso —, quando ela não é dócil, as coisas não fluem. Docile, docile, but not submissive. São distintos: a dócil tem suas próprias opiniões e escreve sobre elas, mas aborda os assuntos de forma leve e com respeito; a passiva se desfaz como indivíduo. Prefiro sempre a primeira opção e nunca a segunda.
A questão é que a mulher presume que, por ela se sentir atraída por um homem que demonstra indiferença — o que é comum entre muitas mulheres, relacionado àquele mistério que já abordei —, o homem também experimentará o mesmo nível de atração por uma mulher que adota a mesma postura de indiferença. De modo algum. O homem, ao contrário, nega isso por completo. Pois o indivíduo que já possui alguma experiência começa a notar, imediatamente, duas coisas. Primeiro: que ela está tentando criar uma dependência emocional nele — esse é o objetivo do jogo. Ele já compreende isso. Além disso, ele não consegue suportar. Ter paciência com uma mulher que é difícil, meu Deus, é uma tarefa árdua para um homem. Apenas aquele indivíduo que nunca se envolveu em nenhum relacionamento ao longo de sua vida, aquele ingênuo que acredita em tudo, é quem vai suportar. O restante não suporta, de jeito nenhum. O homem tem a consciência de que a mulher que se faz de difícil, que adora colocar o homem em uma posição subserviente, acabará o dominando a tal ponto que, eventualmente, ela poderá traí-lo ou trocá-lo por outro. E essas substituições, meu amigo, não fazem efeito — a maior parte dessas garotas já estava traindo o namorado às escondidas, e depois simplesmente decidiu terminar com ele e ficar com o outro. Ou, em situações mais frequentes, o sujeito realmente sofre um grande baque: é traído ou é expulso de casa por uma mulher que não deseja mais continuar ao seu lado, sendo obrigado a buscar seu próprio caminho, enquanto ela fica com tudo o que ele possui, e ele se vê forçado a retornar para a casa dos pais, passando pela humilhação. É o custo da obediência que ele erroneamente associou ao amor.
Aí você me questiona: Gabriel, de que maneira podemos solucionar a questão dos casamentos cristãos no Brasil? Então eu trago uma sugestão minha — e insisto em ressaltar que é uma sugestão, uma teoria pessoal, e não uma representação do que a legislação brasileira permite atualmente. O que eu tenho em mente é um pacto de matrimônio. É a única maneira que consigo ver. O que você quer dizer com isso? Portanto, se alguém trair ou agredir fisicamente o parceiro de maneira grave, o relacionamento é imediatamente considerado terminado; e, caso a situação vá para a justiça, a parte que agrediu — ou a que rompeu sem justificativa — perderá tudo, conforme estipulado no contrato. A meu ver, é a única maneira. Não há outra opção. Além de perder seus bens, também teria que renunciar à guarda principal dos filhos. Para mim, essa é a única forma de manter um casamento cristão nos dias de hoje. Um acordo formal. Um contrato de casamento desse tipo é basicamente um oitenta-vinte: ou você permanece na relação, ou você perde tudo — no caso de solicitar um divórcio sem justificativa, de cometer uma traição ou de agredir a pessoa de forma grave. Essas três situações: grave agressão, rompimento da relação, ou infidelidade. Se um dos três cometer, acabou; a outra pessoa perde tudo e não fica com nada, e tudo vai para quem foi prejudicado.
A partir daí, meu irmão, o problema foi resolvido. Porque estou curioso para ver quem teria a audácia de se divorciar por uma questão de capricho ou de cometer uma traição, ciente das consequências. Em termos simples: a pessoa seria contratualmente obrigada a agir como um bom cristão. É isso, em resumo. Para mim, isso eliminaria de forma definitiva a multitude de casamentos cristãos mal estruturados que observamos atualmente. Este é o resumo que eu apresento a vocês, para que nunca mais venham me incomodar com a pergunta: "ai, professor, como é que eu tenho um bom relacionamento, um bom casamento, um bom relacionamento com a menina?". É fácil: pare de ser ingênuo. Reflita cuidadosamente sobre a pessoa com quem você está se relacionando. Explore quais são as fontes de prazer para ela — o que mais a atrai em termos de prazer, pois isso pode revelar muito sobre a sua personalidade. Avalie a ética dela. Veja o básico da compatibilidade: religião: se ela é católica, você tem que ser católico; se você é protestante, ela tem que ser protestante — ou não, tanto faz, mas que haja um terreno comum. Ela precisa ser sexualmente atraente para você, pois não faz sentido ter alguém que pareça perfeito ao seu lado se nada sobre o corpo ou a presença dessa pessoa despertar seu interesse. Além disso, é fundamental que ela possua uma compreensão da ética objetiva; caso seja protestante, que adote a ética de sua própria religião de maneira intrínseca, de forma genuinamente conectada a ela. Como mencionei, que seja alguém gentil. Com tudo isso em mente, e ao seguir cada um dos passos que compartilhei, você certamente desfrutará de um casamento muito feliz. É tão simples quanto isso.
Além disso, nesta proposta de contrato, você pode incluir uma cláusula referente ao mau tratamento persistente — ou ao tratamento degradante. Por exemplo: se a pessoa começa a te tratar de uma maneira que te menospreza de forma constante, xingando você frequentemente, referindo-se a você apenas através de ofensas, falando mal de você e mostrando desprezo sempre que tem a oportunidade. No entanto, para que isso realmente funcione, seria necessário que fosse um padrão consistente e, mais importante, que estivesse registrado em vídeo. Só seria permitido se fosse gravado em vídeo. Aí está, meu irmão, é o fim. Com essas disposições — as três iniciais, juntamente com a cláusula referente aos métodos de comprovar que alguém realmente nutre ódio por você —, o assunto foi encerrado. No final das contas, isso se transforma em uma obrigação para ambos permanecerem juntos e se tratarem de maneira amigável: se qualquer um deles decidir se separar sem uma razão válida, perde tudo. Na minha opinião, essa é a única maneira de garantir a castidade e manter um casal casto, unido e cristão nos dias de hoje no Brasil. Sem isso, meu caro irmão, não consigo visualizar como.
E por último, e peço encarecidamente: evite de qualquer forma a prática de sair procurando garotas em qualquer lugar. Não dá pra você fisgar uma mina na balada e achar que aquela mina é a ideal, a perfeita pra sua vida. Você tem que fazer vários testes antes. Principalmente mina de balada, que na maioria das vezes vai lá só pra ter sexo rápido e voltar pra casa — muitas vezes ela transa com o cara, vai embora, e nunca mais os dois se veem. O pessoal de balada, em geral, é bem nesse nível. Então, cuidado. Cuidado com o lugar onde você vai arranjar essa menina. E isso os caras não conseguem entender. Eu tinha — na verdade, tenho até hoje — um primo que é o retrato disso. Cara, meu primo é tão desligado que vai achar essas meninas nos piores cantos possíveis: em show de metal, em show de rock. Ah, meu irmão, essas meninas estão completamente fora do juízo. Elas são loucas.
Mas por qual razão? Em primeiro lugar, a questão estética — sobre a qual já discutimos bastante aqui no Círculo. Se alguém é bastante contracultural em relação aos costumes da sua cidade, eu insisto em destacar que isso é algo regional, não global, mas sim local. Existem cidades que irão te perceber como uma pessoa bacana, mesmo que você seja diferente; outras, por outro lado, não irão. Portanto, se essa jovem reside há oito anos em uma cidade e adota um estilo de vestir e um comportamento que contrariam a cultura local, além de ser uma pessoa que se opõe a tudo, ela provavelmente não é uma boa escolha para um casamento ou qualquer tipo de relacionamento — uma vez que demonstra ser bastante inconstante. São pessoas inconstantes. É isso aí, o que eu disse no texto do efeito Leno Brega. O efeito Leno Brega funciona exatamente assim: trata-se da pessoa que deseja se posicionar como contracultural e, nesse caminho, acaba aceitando diversas situações, cometendo erros por conta do julgamento negativo da sociedade a seu respeito, até se transformar naquilo que todos afirmam que ela é. E não para por aí: termina com uma mente totalmente imprevisível. Ela pode se tornar uma pessoa incrível de repente, e, da mesma forma, pode te trair sem aviso. A instabilidade se deve ao fato de que essa pessoa foi intensamente pressionada ao longo de toda a sua vida.
Referências
Filosofia, teologia e antropologia
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulinas, 1984.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2001.
GIRARD, René. A violência e o sagrado. Tradução de Martha Conceição Gambini. São Paulo: Paz e Terra, 2008.
GIRARD, René. Aquele por quem o escândalo vem. Tradução de Carlos Nougué. São Paulo: É Realizações, 2011.
TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma teológica. Tradução coordenada por Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001-2006.
VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. Tradução de José Viegas Filho. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.
Literatura
DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2008.


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