A Compreensão Religiosa Particular Esse Escândalo Íntimo da Fé

Neste texto, critico a mentira reconfortante do relativismo religioso e demonstro como a fé, ao se desvincular da razão, se deteriora em superstição, vaidade e confusão disfarçada de virtude. Também revelo a miséria intelectual do ateísmo mimado, que não rejeita Deus por excesso de lucidez, mas por não aceitar a noção de que o universo não foi concebido para alimentar seu ego.

Gabriel G. Oliveira

4/1/202615 min read

Relativismo o Maior Inimigo da Santidade

No centro da fé contemporânea há um escândalo oculto, e o curioso é que ele se tornou tão comum que quase ninguém o nota mais: para muitas pessoas, a religião se transformou em uma opinião pessoal blindada, um quarto trancado por dentro onde a razão só é admitida mediante solicitação e, mesmo assim, corre o risco de ser rejeitada como intrusa. Em grande parte, essa distorção foi impulsionada pelo protestantismo moderno, que converteu a vivência religiosa em um direito subjetivo incondicional. O indivíduo não estudou teologia nem filosofia, não consegue diferenciar lógica formal de arrepio devocional, não tem noção do que está afirmando nem do que está reagindo, mas declara, com a segurança histérica de quem confunde convicção com volume: “é a minha fé, e você não pode questionar”. E então inicia-se a habitual chantagem emocional. Se você questiona, se tornou preconceituoso. Se discute, tornou-se intolerante. Se evidencia a contradição, já é rotulado como perseguidor religioso. Trata-se do relativismo disfarçado de versículo, adornado com uma fachada de piedade e vício de imunidade.

Isso, além de ser irritante, é uma falta de honestidade intelectual. A teologia, segundo a definição clássica, é o estudo de Deus. E estudo não é pegar uma sensação solta e chamar de profundidade. Logos não é uma emoção fervorosa, intuição pessoal ou opinião sentimental revestida de sacralidade; logos é raciocínio organizado, é clareza, é forma, é ordem. Santo Tomás de Aquino deixa isso evidente no começo da Suma Teológica: a fé não anula a razão; ela a pressupõe. Isso é fundamental. Quando um discurso sobre Deus ignora as leis básicas da lógica, ele já ultrapassou os limites da teologia e caiu na categoria mais comum do delírio devocional. Quem afirma "não discuta minha fé" está revelando mais do que gostaria. Está afirmando, sem perceber, que sua fé não suporta ser questionada. E fé que desmorona diante de uma questão não é virtude. É superstição elevada à autoestima.

É simples identificar o tipo. É comum encontrar um jovem protestante cheio de slogans, frases prontas e uma coleção superficial de recortes da internet, proclamando que “todas as religiões cristãs devem se amar”, enquanto desdenha do catolicismo pelas costas, utilizando memes de WhatsApp, versículos fora de contexto e uma confiança desmedida de quem nunca leu o que critica. Nesse caso, a hipocrisia não é acidental, mas sim estrutural. O católico sério, quando realmente sério, não simula aceitar o protestantismo teologicamente apenas para parecer educado em um encontro ecumênico. O católico frouxo, que teme parecer firme, e o protestante relativista, que recorre a uma cordialidade superficial por não conseguir enfrentar um confronto genuíno, são os que encenam essa harmonia artificial. A verdade, por mais simples e difícil de aceitar que seja, é a seguinte: as religiões divergem porque fazem afirmações incompatíveis. E quando se tenta encobrir isso com palavras suaves, o que resta não é paz, mas enfeite emocional.

Portanto, as religiões devem se confrontar não com violência ou brutalidade física, mas com raciocínio, estudo e coragem intelectual. O debate entre religiões não é um incidente infeliz da história; é um dever da razão. Se todas as interpretações de Cristo fossem igualmente verdadeiras, então nenhuma delas o seria. Se toda leitura é válida, a verdade já morreu, e só esqueceram de informar o coro. Com a perspicácia de quem compreendia a loucura moderna mais profundamente do que os próprios modernos se compreendiam, Chesterton ironizava: “o problema do mundo moderno não é que as pessoas não acreditem em nada, mas que acreditem em qualquer coisa”. E acreditar em qualquer coisa não é ter uma mente aberta. É desordem mental disfarçada de tolerância.

A farsa se agrava quando a pessoa, pressionada pela crítica, tenta se esquivar e declara, com uma pose de profundidade improvisada: "não tenho religião, tenho filosofia". É quase comovente. Ele não entende o que é religião nem o que é filosofia, mas emprega esses termos como um escudo retórico, como se pegasse dois tijolos e os chamasse de fortaleza. O protestantismo é uma religião completa, quer gostem ou não do termo. Teve origem histórica com Lutero e possui doutrinas, formulações dogmáticas, ritos, calendários, autoridades difusas, mecanismos de exclusão, condenações simbólicas e, apesar de toda a resistência ao termo, tradição. E tradição não foi criada por Roma apenas para provocar evangélicos na internet. O conceito de tradição precede o cristianismo. Desde a Antiguidade, o termo tem sido usado para descrever a transmissão constante de um conteúdo ao longo do tempo, de geração em geração, de mestre para discípulo, de rito para rito, de forma para forma. Negar isso não é coragem. Trata-se de analfabetismo histórico disfarçado de autenticidade espiritual.

É nesse momento que a situação deixa de ser apenas absurda e se torna perigosa. Quando a autoridade doutrinal objetiva é desmantelada, surge a ideia de que todas as interpretações religiosas são igualmente aceitáveis. E se todas as interpretações de Cristo são válidas, então o paganismo também é; se tudo é válido, nada é; se todas as formas são legítimas, nenhuma tem autoridade real. Esse caldo mental, gradualmente dissolvido ao longo de séculos de subjetivismo religioso, serviu como um terreno fértil para a teosofia contemporânea, o esoterismo de salão, o perenialismo mal compreendido e essa mística superficial em que Jesus, Buda e um cristal energético compartilham o mesmo altar, como se a contradição fosse uma virtude superior. Isso não é uma provocação polêmica, destinada a chocar um adolescente impressionável. Historicamente, é suficiente examinar os estudos sobre a Sociedade Teosófica no século XIX e seu efeito em certos círculos intelectuais da Alemanha para entender que a dissolução doutrinal tem implicações simbólicas bastante concretas.

Dessas combinações surgem conexões perigosas. Certas correntes da historiografia e da imaginação alemã mesclaram teosofia, mitologia ariana e filosofia distorcida, resultando em seitas esotéricas influentes, como as ligadas a Guido von List. Reduzir o nazismo a isso seria intelectualmente desonesto, pois a verdadeira história é mais complexa e menos dramática do que os simplificadores costumam fazer parecer. Embora essas correntes não tenham sido as únicas responsáveis pelo surgimento do nazismo, elas contribuíram fornecendo repertório simbólico, linguagem imaginária e uma atmosfera mística para o regime. Também não seria justo atribuir à escola perenialista uma cumplicidade automática com o nazismo. Por exemplo, René Guénon rejeitava o racialismo de forma explícita. No entanto, há um ponto comum que deve ser enfrentado sem medo: a dissolução da verdade religiosa objetiva em prol de uma “revelação universal difusa”, imprecisa o bastante para aceitar tudo e, por isso mesmo, incapaz de julgar qualquer coisa.

O mesmo acontece com o apofatismo moderno, frequentemente mal interpretado por aqueles que gostam de brincar com palavras que não estudaram. De Pseudo-Dionísio a São João da Cruz, a teologia negativa clássica não negou a possibilidade de verdade, mas admitiu que a linguagem humana tem limites quando se trata do mistério divino. Isso contrasta bastante com a afirmação de que nada pode ser dito com clareza sobre Deus e que toda formulação é igualmente imperfeita, igualmente válida e igualmente dispensável. Em algumas de suas vertentes contemporâneas, o protestantismo levou essa lógica ao extremo, resultando em uma fé sem conteúdo, flexível o suficiente para ser preenchida por qualquer paixão ideológica do momento. Uma religião sem conteúdo não permanece vazia por muito tempo. Ela costuma ser dominada por messianismos políticos. Um exemplo típico disso é o comunismo: uma escatologia secular e apofática que promete salvação no futuro, menciona redenção coletiva, cria figuras de santos, demônios, hereges e fiéis, mas nunca estabelece de forma completa e aceitável aquilo que promete. Eric Voegelin denominou esse fenômeno de "religiões políticas", utilizando uma precisão cirúrgica.

Portanto, a lição prática não requer uma diplomacia açucarada, mas sim bravura. Nunca se torne um relativista religioso. Se você pratica uma religião, tenha a sinceridade de declarar que ela é verdadeira e que as outras estão equivocadas em algum aspecto fundamental. Isso não é aversão. Isso é uma sinceridade intelectual básica. Estude, discuta e leia as críticas à sua própria fé com a mesma atenção que dedica às defesas. Se você é protestante, leia Tomás de Aquino antes de criticá-lo. Se você é católico, compreenda Lutero antes de julgá-lo. O restante é apenas fanfarronice confessional. Quem não aceita debate não possui fé, mas sim apego emocional. E o apego emocional, quando disfarçado de doutrina, tende a causar mais danos do que qualquer heresia declarada.

É prudente desconfiar de quem afirma que o Espírito Santo revela coisas contraditórias a cada pessoa, como se o céu fosse uma reunião de opiniões pessoais. Nesse cenário, existem duas alternativas, e ambas são ruins: ou o Espírito Santo se transformou no diabo e está nos enganando intencionalmente, ou estamos diante de uma gnose recondicionada, que troca a realidade por um teatro interno e o chama de profundidade. Como afirmava C.S. Lewis, "uma verdade contraditória deixa de ser verdade". E isso é suficiente. Fé sem coerência não é mistério elevado. É um caos. E a desordem espiritual, assim como qualquer desordem grave, exige primeiro da mente e, em seguida, da vida. Antes de arruinar o caminho, ela emburrece o juízo.

A situação não termina aí, pois a mesma mentalidade ressurge quando o tema muda para o ateísmo contemporâneo, esse ateísmo que se apresenta como maturidade racional, mas que, na realidade, frequentemente não passa de birra metafísica com uma dicção moderna. Uma questão o persegue incessantemente: se Deus existe, por que não realiza milagres sob demanda para curar suas frustrações pessoais e sua vaidade ferida diante do espelho? Trata-se da teologia do mimadinho cósmico. Nesta caricatura, Deus é retratado como um gerente de atendimento ao cliente do universo, sempre disponível para ouvir queixas como “minha vida não saiu como eu queria, portanto o Ser Absoluto não existe”. Eu compreendo esse pensamento porque já passei por ele. Já sentei nessa cadeira torta. Já fui ateu nesse nível superficial, depois explorei religiões alternativas, brinquei com misticismos de prateleira, experimentei esse mercado de transcendências de plástico e só retomei a questão metafísica séria quando a honestidade intelectual se tornou mais insuportável do que o conforto do autoengano.

Em muitos casos, o ateu contemporâneo não nega a existência de Deus por ser excessivamente racional, mas por ser excessivamente egocêntrico. Ele não afirma, de forma rigorosa: não encontrei razões suficientes. O que ele expressa, mesmo que não o formule dessa forma, é que Deus não agiu conforme eu esperava. A atitude é mais ressentida do que cética. Há nela um aspecto de luciferianismo psicológico, em seu sentido mais básico: não se busca necessariamente negar Deus, mas submetê-lo. Anseia-se por um Absoluto domesticado, submisso, disposto a se apresentar quando chamado, executar truques quando instigado e demonstrar sua presença em público como um mágico cercado pela plateia. Como se o Criador do espaço-tempo tivesse que participar de uma discussão virtual, ir à Avenida Paulista com um megafone ou moldar toda a realidade para atender ao drama de uma consciência ferida. A questão adequada nunca foi "por que Deus não realiza o que eu desejo?". A pergunta certa é muito mais humilhante e, por isso, muito mais útil: quem eu penso que sou para acreditar que o Todo deva obediência ao nada que sou?

O antigo "conhece-te a ti mesmo", inscrito no templo de Delfos muito antes dos fóruns ateístas e seus gurus de comentários curtos, retorna com vigor. A falta de proporção, e não apenas de informação, é o que aflige o ateu. Ele frequentemente ignora, talvez intencionalmente, que na teologia clássica, de Platão a Aristóteles, de Agostinho a Tomás de Aquino, Deus não é simplesmente um ente qualquer no universo, nem um personagem poderoso perambulando entre galáxias; Ele é o próprio fundamento do ser. Um Deus que ultrapassa as limitações de tempo e espaço não atende aos caprichos temporais como um velho resmungão sentado em uma nuvem, respondendo aos pedidos humanos por ordem de chegada. Quando Boécio descreve a eternidade como “a posse total, simultânea e perfeita da vida sem fim”, é exatamente isso que ele quer dizer: Deus não experimenta a realidade fragmentada, como nós. Ele a conhece por completo. Demandar que esse Deus intervenha de maneira específica para atender às minhas inseguranças pessoais é semelhante a se revoltar contra o oceano por ele não se moldar à forma do seu copo.

Ao discutir o mal, as mortes, as tragédias e as injustiças, o ateu geralmente se comporta como um espectador irritado diante de um roteiro que considera mal escrito, ignorando um aspecto fundamental: ele está inserido na história; não está acima nem fora dela. No terceiro capítulo, uma morte pode ser vista como absurda, sem propósito, cruel e inaceitável. No capítulo cinquenta, ela pode ser vista como uma condição essencial para uma série completa de bens que ninguém no capítulo três conseguia imaginar. Ao abordar a providência divina, Tomás de Aquino sustenta que Deus permite algumas adversidades porque delas podem surgir benefícios maiores, mesmo que esses benefícios não sejam visíveis para aqueles que veem apenas o presente fragmentado. A metáfora da borboleta é imperfeita, mas ilustra bem nossa limitação: um evento pequeno pode mudar completamente o que está por vir. O ateu apressado reduz a complexidade da realidade, distorce tudo que não se encaixa em sua indignação instantânea e, com a calma grotesca de um chimpanzé furioso, sentencia: se Deus fosse bom, isso não teria ocorrido. É uma frase que parece ter uma moral forte até que a inteligência a desperte.

A concepção de Deus que reside na mente do ateu contemporâneo é, na maioria das vezes, lamentável. Uma combinação de Papai Noel, árbitro de futebol e office boy cósmico. Se atende ao chamado, há. Se não cumpre, foi demitido pela consciência contemporânea. E o mais interessante é que esse mesmo ateu, tão firme em sua recusa, raramente demonstra coragem intelectual para explorar outras tradições religiosas de forma séria. Não aprofunda seus estudos sobre o hinduísmo, não se engaja genuinamente em rituais pagãos, não se dedica a práticas espirituais profundas, não trilha, em suma, os caminhos que despreza. É ateu de sofá, cético de meme e crítico de rodapé. O ateu honesto existe, porém é incomum. Esse, ao menos, passa pelo percurso: pesquisa, entra, experimenta, erra, volta, reflete, compara, sofre e amadurece. Se, após tudo, ele ainda se considera ateu, pelo menos não é intelectualmente desonesto. Porém, a maioria opta pela covardia confortável de negar sem se informar, rotulando essa preguiça como lucidez.

Dessa preguiça surgem tolices grandiosas, como a ideia de que o Deus bíblico é apenas uma mistura malfeita de deuses pagãos. Uma afirmação desse tipo pode impressionar os incautos, mas se desfaz quando confrontada com séculos de filosofia, teologia, filologia e história comparada. Ao abordar o logos spermatikos, uma ideia derivada do estoicismo, Tomás de Aquino destaca que Deus se manifestou de maneira parcial em várias culturas. O que ocorre, segundo ele, não é um problema na revelação em si, mas sim na forma como os seres humanos a distorcem. Isso não diminui o monoteísmo cristão; pelo contrário, fortalece-o. Revelações parciais não excluem a possibilidade de uma revelação completa; ao contrário, elas preparam a compreensão, aprimoram os símbolos e organizam as expectativas. A objeção infantil questiona por que Deus não se revelou de maneira perfeita desde o início, se Ele é perfeito. implica uma narrativa instantânea, sem processo, sem pedagogia, sem desenvolvimento humano, como se a alma coletiva da espécie fosse capaz de absorver a totalidade de uma só vez, sem comprometer seus próprios recipientes. Além disso, as religiões ajudam a educar a convivência com a diversidade, preparando o terreno simbólico, intelectual e filosófico para compreensões futuras. Quem demanda completude imediata não demonstra profundidade, mas falta de habilidade para pensar de forma histórica.

Por exemplo, o judaísmo primitivo não tinha uma ideia completamente estabelecida de messianismo desde o começo, como ela se desenvolveu posteriormente. Houve aprimoramento, tensão, desenvolvimento e depuração histórica. E essa trajetória se relacionou com conceitos gregos, como Platão, Aristóteles, o logos socrático e, por trás deles, com tradições ainda mais remotas. Isso não se trata de contaminação. Trata-se de uma manifestação histórica da razão. O cristianismo não surge em um vácuo, como se tivesse aparecido pronto do céu em um deserto intelectual. Ele surge em um mundo que, de certa forma, já estava pronto para acolhê-lo, debater sobre ele, defini-lo e compartilhá-lo. Desconsiderar isso é negligenciar simultaneamente a história, a sociologia, a filologia e a filosofia. Sem dúvida, é uma façanha, mas uma façanha de tolice.

Quando um ateu, sem qualquer método, demanda que a Bíblia seja interpretada de forma estritamente literal, como se fosse um livro infantil feito para atender às expectativas hermenêuticas de um leitor moderno preguiçoso, o que ele revela não é compromisso com a verdade, mas falta de habilidade para leitura. Ler textos antigos sem considerar o método histórico, o gênero literário, o contexto cultural e a mediação simbólica é uma forma sofisticada de analfabetismo. É como querer ler Heródoto como se fosse um boletim meteorológico e depois rir porque não “bateu com os dados”. Chesterton fazia uma observação importante: “o problema não é que o cristão leve a Bíblia muito a sério, mas que o crítico a leve pouco demais”. E é sempre mais fácil não levar a sério. O debochado não precisa estudar; é só fazer pose.

Na verdade, o ateu contemporâneo geralmente não nega Deus em um sentido forte; ele rejeita a noção de transcendência porque essa ideia o remove do centro do universo. É isso que machuca. De acordo com a visão tomista, o livre-arbítrio humano não entra em conflito com a soberania divina, mas a pressupõe. Deus proporciona oportunidades, sustenta a existência, amplia horizontes e permite trajetórias; e as escolhas humanas, tanto individuais quanto coletivas, contribuem de fato para a construção do mundo. A providência não é um caminho rígido, uma trajetória sem desvios, mas uma sinfonia maleável na qual cada instrumento tem sua importância. Dostoiévski expressou isso em uma frase intensa, quase insuportável de tão verdadeira: “cada um é culpado por tudo e por todos”. E é exatamente esse tipo de compromisso que o homem contemporâneo recusa. Ele tende a atribuir culpa ao acaso, ao sistema, à matéria, à infância, à genética e até à meteorologia moral do século. Qualquer coisa, contanto que não tenha que confrontar sua própria envolvimento no desastre.

Assim, o Deus da Bíblia não é uma criação mitológica improvisada para amedrontar tribos antigas. Trata-se do Deus que a razão filosófica aprende a identificar como fundamento: o Motor Imóvel de Aristóteles, o Bem em si de Platão, o Uno que não compete com o mundo, pois o sustenta. Antes da consolidação da linguagem filosófica grega, Abraão já operava nessa lógica de transcendência. E os nomes — Elohim, Adonai — não se referem a deuses múltiplos, como pensa o pseudoerudito que leu duas notas na internet e saiu se achando superior; são diferentes formas linguísticas de se referir ao mesmo fundamento do ser. Isso é evidente para qualquer pessoa que tenha um mínimo de seriedade em história antiga. O problema é que a seriedade requer esforço, e o homem contemporâneo prefere aparentar liberdade exatamente onde mais se rende à preguiça.

Em última análise, a crítica ao relativismo religioso e ao ateísmo contemporâneo não é um desabafo de mau humor sem propósito. Trata-se de uma tentativa de trazer de volta a realidade em um contexto em que apenas se valoriza a sensibilidade, a pose e a desordem conceitual. Não confunda rebeldia emocional com clareza intelectual. Não converta sua falta de reflexão em uma distinção moral. Não empregue a palavra fé para proteger a superstição, nem a palavra razão para ocultar o ressentimento. Se você vai professar uma religião, tenha coragem de defendê-la quando questionada. Se você vai negar Deus, faça-o de forma séria, estudada, arriscada e custosa. O restante é apenas narcisismo disfarçado de filosofia. E o mundo já está cheio demais de pessoas que consideram seu próprio umbigo como cosmos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus: parte I (livros I a X). Petrópolis: Vozes, 2017.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Petrópolis: Vozes, 2020.

AQUINO, Santo Tomás de. Suma contra os gentios. São Paulo: Loyola, 2015. 4 v.

AQUINO, Santo Tomás de. Suma teológica. São Paulo: Loyola, 2003. 9 v.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2018.

ARISTÓTELES. Metafísica. Petrópolis: Vozes, 2024.

BEZERRA, Cícero Cunha. Dionísio Pseudo-Areopagita: mística e neoplatonismo. São Paulo: Paulus, 2009.

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2003.

BLAVATSKY, H. P. A doutrina secreta: Pensamento, 1980. v. 2.

BLAVATSKY, H. P. Ísis sem véu: Pensamento, 1991. v. 1.

BOÉCIO. A consolação da filosofia. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2023.

CHESTERTON, G. K. Hereges. Campinas: Ecclesiae, 2011.

CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Campinas: Ecclesiae, 2013.

CRUZ, São João da. Noite escura. Petrópolis: Vozes, 2025.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Os irmãos Karamázov. São Paulo: Martin Claret, 2019.

GOODRICK-CLARKE, Nicholas. The Occult Roots of Nazism: Secret Aryan Cults and Their Influence on Nazi Ideology: NYU Press, 1992.

GUÉNON, René. A crise do mundo moderno. Lisboa: Vega, 2013.

JUSTINO DE ROMA. I e II Apologias; Diálogo com Trifão. São Paulo: Paulus, 2014.

LEWIS, C. S. A abolição do homem: Thomas Nelson Brasil, 2017.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples: Thomas Nelson Brasil, 2017.

LIST, Guido von. The Secret of the Runes: Inner Traditions, 1988.

LUTERO, Martinho. Da liberdade cristã. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1989.

PLATÃO. A República. São Paulo: Edipro, 2020.

PSEUDO-DIONÍSIO AREOPAGITA. Obras completas del Pseudo Dionisio Areopagita: BAC, 1990.

VOEGELIN, Eric. As religiões políticas. Lisboa: Vega, 2002.