A CRIANÇA QUE NÃO ACEITARAM AS MERDAS DOS PAIS
Toda criança chega ao mundo como uma promessa, e o mundo vai lentamente aprendendo a desmenti-la, dizendo-lhe que pode ser substituída, e ela aceita essa ideia — porque aquele que deveria ter defendido a sua importância foi o primeiro a dar razão a essa ideia, não por pura crueldade: por economia, por medo, por um velho cujos pensamentos estão presos há trinta anos, mas que tem uma saída, que não é reparar o velho: é virar-lhe as costas e ir para os clássicos. Rocky não ganhou a luta — mas ele ficou de pé até o final, e isso foi suficiente para uma geração inteira; este texto aborda a esperança que foi considerada um ativo, mas que mesmo assim se negou a morrer.
Gabriel. G. Oliveira
8/3/202692 min ler

A Geração Que os Pais Não Quiseram
Este texto vai ser sobre baixa autoestima. Sobre como a geração mais jovem, as crianças, é inserida em um contexto de baixa autoestima desde muito cedo, e as razões para isso. É por isso que, ao encarar de frente, a situação se torna desconfortável: em grande medida, há uma resistência ao seu crescimento. Antes que alguém revire os olhos e diga "olha só, quanta gente rancorosa falando", eu adianto: não é isso. Rancor é algo diferente. Rancor é fruto de alguém que se machucou e deseja causar o mesmo dano. Não estou retornando nenhuma ferida. Estou descrevendo um mecanismo. Quem tem o mínimo de conhecimento em psicologia evolutiva sabe exatamente do que estou falando, pois essa área, juntamente com o que atualmente se denomina psicologia sombria — que consiste na análise objetiva dos comportamentos e das palavras que uma pessoa utiliza para menosprezar a outra —, funciona como um meio de interpretação. Não se trata de um guia de crueldade. Um carro. Estou disposto a considerar as questões por meio desse veículo, pois ele revela o que a boa educação geralmente oculta.
Vamos direto ao ponto sobre o mecanismo. O adulto costuma menosprezar o mais jovem. Você pode se questionar o motivo, e a resposta é quase irritantemente simples: porque ele não deseja ser desafiado. É isso aí. Não se trata de uma equação complexa, nem de uma conspiração que ocorre em reuniões secretas. É um homem que não aceita nem mesmo pensar que alguém inferior a ele possa um dia superá-lo — ou, ainda mais angustiante, que possa conhecê-lo completamente. É por isso que, frequentemente, os adultos tratam as crianças como se não tivessem valor algum. Como se não tivessem peso. Esse "nada" possui uma raiz histórica bem definida, que precisamos resgatar antes de nos aprofundar em qualquer conceito.
Ao longo da história, as crianças eram essencialmente consideradas mão de obra. Um funcionário que estava prestes a oferecer seu dia de trabalho gratuitamente, ou quase isso. Assim, nações inteiras conseguiram construir montanhas de mão de obra quase gratuita: era suficiente investir na alimentação e em um local para o jovem descansar. Deixe-me apresentar alguns números para que você possa compreender a magnitude da situação. Se esse trabalho fosse remunerado adequadamente, custaria mil e quinhentos por mês; oferecendo alimentação e moradia, o proprietário resolvia por cerca de setecentos. A criança ocupava o espaço vazio com seu próprio corpo. Naquele período, era assim, e você começa a perceber o padrão à medida que conecta os pontos.
Aí surge a reviravolta econômica que muitos optaram por ignorar. Após a Segunda Guerra, houve um imenso florescimento intelectual e material. Gigantesco. Embora as pessoas em outros países fossem mais pobres, o dinheiro tinha um valor muito maior. De maneira significativa. Atualmente, um homem precisa trabalhar por dez anos para, quem sabe, conseguir comprar uma casinha; naquela época, eram necessários apenas seis salários anuais para adquirir a casa. Seis. Era essa a medida da desigualdade. Não se trata apenas de uma discrepância no conforto — é uma divergência de realidades. O mesmo trabalho que hoje mal cobre o aluguel, naquela época acumulava riqueza.
Atualmente, a economia funciona com um nível de intervenção ideológica que estrangulou todos esses aspectos, sendo que a maior parte dessa intervenção — e eu não vou simular uma neutralidade que não possuo — originou-se da esquerda. Foi ela quem implantou a ideia que destruiu a base da produção e do valor da moeda, levando o país à falência. Não há muito o que dizer: foi para o fundo. O jovem recebe o buraco como herança. Não é minha intenção tirar o remédio de quem já se encontra em uma situação difícil; não vou privar ninguém do que ainda resta. É necessário apontar claramente onde a situação se deteriorou.
Prestem atenção, pois aqui reside a minha argumentação acerca a geração mais jovem: os jovens são ingênuos, são um pouco tolos, sim. Mas não os responsabilizo pela calamidade, e por uma razão que é brutalmente clara — eles não são adultos. O pai contemporâneo é o responsável. O avô, que é ainda mais detestável. Essa geração mais velha é ainda pior que a mais jovem, e não estou exagerando. É mais grave, pois o jovem ainda tem alguma consciência de que o mundo está diferente; o idoso, não. O idoso parou de acompanhar a realidade há trinta anos e acredita que as coisas ainda acontecem da mesma forma. Entretanto, o mundo atual é significativamente mais sombrio do que o de antigamente, e ele se recusa a admitir essa realidade. Você, como indivíduo, vai validando com seu silêncio a conduta da sociedade enquanto a economia diminui. Faça uma comparação entre o mercado atual e o de ontem: é um verdadeiro desastre.
Não me refiro a uma distância. Falo da minha própria perspectiva, de forma bem literal. Minha mãe vai ao mercado, observa a carne e conversamos sobre isso. "Veja a quantidade de carne que está aqui", ela afirma. Minha mãe é uma pessoa intrigante, quase paradoxal: ela é uma fervorosa apoiadora do PT, e ao mesmo tempo, constantemente experimenta na prática as consequências negativas que o seu voto contribui para gerar. Pois é isso que um político faz quando apenas consegue arruinar o país: ele gera uma imensa dívida para que outro a salde. Naquela época, considerar-se de esquerda e achar isso bonito era praticamente uma exigência social, especialmente durante os anos em que Lula governava. A proposta de Lula consistia em arruinar a reputação da direita — reverter completamente tudo aquilo que a direita verdadeiramente representa. De que maneira ele conseguiu isso? Exibindo na televisão anúncios que retratavam "a esquerda", mas de uma forma invertida e disfarçada. A esquerda se via como a defensora dos oprimidos, aqueles que se opõem aos poderosos e aos fortes — mas, na realidade, qualquer um que tivesse um pouco mais de estabilidade financeira se tornava, de repente, a pessoa mais detestada do mundo. É possível rever os comerciais do PT daquela época, que eram exibidos quase que incessantemente na televisão, e observar o truque se desenrolando diante de seus olhos.
O grande público aceita isso sem questionar. Engole porque o "pobretão" olha para a televisão e acha que tudo o que sai de lá é verdade pura. É o mesmo cara que, na internet, com toda a informação do mundo na mão, não gosta de ler, fica trancado no mundinho dele. E hoje você encontra esse tipo por toda parte, inclusive na versão que se acha esperta: "ah, mas eu tenho um pouco de esquerda e um pouco de direita, eu quero saber por mim mesmo, eu quero tomar minhas próprias decisões". Bonito no papel. Só que essas pessoas, na hora do vamos ver, não têm nada disso. Elas têm uma frase de efeito. O indivíduo escuta alguém afirmar "os especialistas falaram" e reage como se o oráculo do universo tivesse baixado na sala.
E é nesse ponto que algo realmente me irrita: o chamado "especialista" sem nome. Afirmam os especialistas, mas não se sabe quais são os especialistas que afirmam isso. Não explicam a finalidade deles. Não menciona de quem são aliados, para quem atuam, qual viés possuem. Não realiza nenhuma das perguntas fundamentais. Em que locais esses especialistas publicaram? Quem são essas pessoas? Que livro publicaram? Nada. Silêncio. Por quê? Porque é justamente isso que deveria vir primeiro, e é justamente isso que nunca vem. "Ah, mas são os maiores especialistas do mundo." E acredita, piamente. A maior parte do pessoal de esquerda que eu conheço é exatamente esse tipo: cita autoridade sem citar fonte, e trata a ausência de fonte como se fosse rigor.
Permita-me narrar uma situação, pois ela torna tudo muito claro e palpável. Eu tinha um amigo protestante — e, acredite, até hoje não ando por aí proclamando aos quatro ventos essas amizades e desavenças, mas esta, sim, merece ser mencionada. Certa vez, ele compartilhou comigo que acreditava que a Igreja Católica deveria chegar ao fim. A Igreja, que sempre se pautou pela tradição filosófica, uma vez que a teologia que a sustenta é elaborada com base em um método racional, derivado dos gregos, do próprio judaísmo, da patrística e, posteriormente, culminando com as contribuições de São Tomás de Aquino, que edificou toda essa estrutura sobre a lógica acadêmica e os fundamentos aristotélicos e platônicos. Então, esse jovem, com seu semblante arrogante, anunciou o término disso. E quando eu questionei a origem de suas ideias, recebi a resposta habitual.
O AMIGO EVANGÉLICO
(com o queixo levantado, voz de quem dá a última palavra)
Ninguém na Igreja jamais afirmou isso. Os especialistas, os grandes especialistas, asseguram.
EU
(aguardando pela fonte que nunca aparece)
Sim. Qual especialista? Que obra é essa? Onde está mencionado? Arrume um nome pra mim.
O AMIGO EVANGÉLICO
(repetindo a frase característica, pois é tudo o que possui)
É claro que são os especialistas. Todas as pessoas têm conhecimento disso.
O jovem não me forneceu nenhuma informação. Tirou do bolso dele e me mostrou como se fosse um achado. A ironia é realmente saborosa: para desestabilizar a Igreja, ele precisava recorrer ao coração da própria Igreja. A teologia, de maneira geral — incluindo a interpretação do Apocalipse, que é empregada em práticas de queima de terreno espiritual, como ocorre em algumas tradições cabalísticas — assim como a teologia de Tomás de Aquino, que se baseia completamente na lógica, constituem o âmago do catolicismo. Você está tentando aplicar o método utilizado pela Igreja para validar a sua argumentação protestante. Portanto, aceite isso. Seja um verdadeiro homem, pelo menos. No entanto, ele optou pelo "não você, entendeu?", aquele muxoxo que foge da mesa. Não se tratava de uma busca por conflitos, mas sim de um simples pedido por honestidade intelectual: indique a fonte. Atualmente, as pessoas têm dificuldades para compreender essas noções simples. Fundamentais.
Não se trata apenas do "especialista" fantasma. Há uma suposição tola que se camufla como sabedoria prática. Eu tinha um tio que era empresário — um empresário de verdade, com uma empresa estabelecida — e ele era suficientemente burro para, sempre que você contestava um pressuposto idiota que ele tinha, virar a situação com uma pergunta absurda.
O TIO DE NEGÓCIOS
(indignado por a lógica não ter obedecido)
Ah, então você se considera superior a essa pessoa? Por que você não tenta fazer da mesma maneira?
Aqui está a resposta. Veja a extensão da resposta. Ele representa o brasileiro típico em sua forma mais autêntica: se você demonstra que o argumento não se sustenta, ele te chama de arrogante e manda você "fazer igual", como se ter razão dependesse de ter dinheiro. É fundamental que compreendamos isso com urgência, e suas raízes remontam à escola.
Porque, de fato, era necessário implementar uma estratégia dentro da própria escola. Uma instituição de ensino que distinguisse o que é fundamental e que ensinasse o que forma mais rapidamente, em vez de apenas informar. Permita-me fazer uma afirmação que pode parecer surpreendente: a introdução da filosofia no ensino fundamental é um equívoco. Não é que a filosofia seja um assunto de pouca importância — muito pelo contrário —, mas sim porque o jovem, o rapaz, não se importa com essa disciplina, não demonstra interesse algum, e só passará a se interessar muitos anos depois. Você realmente acredita que uma criança escolherá uma aula de filosofia em vez de explorar a internet? Portanto, faça o seguinte: ao invés de inundar a mente de alguém que não possui a base necessária para compreendê-la com filosofia, forneça uma lógica clara ao jovem. Ele consegue entender lógica. Filosofia, deixe para ser estudada no ensino médio, quando o estudante já está mais preparado, por volta do segundo ano. A questão não reside na filosofia; é simplesmente o momento inadequado.
O que é ainda mais preocupante é que, atualmente, além de haver filosofia ministrada de maneira inadequada, o ensino religioso é oferecido nas escolas de uma forma que acaba gerando confusão. Agora, se a escola não é confessional — se não é uma escola católica, evangélica ou de qualquer outra religião —, não pode ter aquela disciplina dentro do projeto dela. Mas isso deve ser uma escolha. O pai decide se o filho vai ou não. Assim como muitas disciplinas deveriam ser eletivas. Nada dessa conversa de "você não tem escolha". Não há debate, é uma escolha imprescindível: o trivium e o quadrivium — o conjunto que molda a mente. Contudo, não é uma questão de escolha; você estuda porque é necessário. O restante tem a opção de escolher. Você escolhe o que vai explorar mais a fundo.
Insisto nesse ponto porque as chamadas ciências humanas, como estão atualmente fragmentadas, não contribuem em nada para o pensamento crítico. Geografia e história, entre outros temas, são passíveis de questionamento e interpretação. Por essa razão, poderiam ser abordados em uma única disciplina sólida, que integrasse filosofia e economia, em vez de estarem fragmentados em categorias que não se comunicam entre si. O verdadeiro desafio está em considerar como se fossem compartimentos distintos coisas que, na verdade, só fazem sentido quando unidas. Seja honesto, são pouquíssimas as pessoas que apreciam filosofia na juventude. Elas não se importam. Vão contatar o ensino médio, pois a criança ainda não possui a maturidade necessária para suportar essa responsabilidade. Eu testemunhei isso pessoalmente enquanto dava aulas particulares: recebi alunos que me olhavam e não conseguiam diferenciar Sócrates, Platão e Aristóteles. Para eles, todos eram a mesma pessoa. A mesma entidade nebulosa. Não é uma piada, é sério. Porque a criança ainda não se importa com isso. Devemos, portanto, abandonar a prática de segmentar a formação humana em diferentes áreas e ensiná-la no momento e na sequência apropriados.
Agora, vamos retomar a linha principal, pois tudo isso converge para um único ponto. O que ocorreu com a criança? Os pais dela delegaram completamente a educação ao Estado. Atualmente, há escolas onde o garoto chega às sete da manhã e só sai às cinco da tarde. Escolas de tempo integral surgindo por todos os lados, como moscas em cima de esterco. Isso é realmente péssimo. É realmente péssimo, e eu preciso justificar isso, pois a defesa dessas instituições geralmente é realizada com um discurso muito eloquente. Na minha época, as crianças passavam quatro horas estudando e mal podiam esperar para escapar daquele tormento — e eu também era parte desse tormento, sei do que estou falando. Nessa época, ninguém chegava perto da criança com uma cadeira mais do que o necessário, já que a escola era repleta de professores incompetentes, valentões e tec..., pessoas que não conseguiam controlar nenhum aluno. É precisamente nesses lugares onde o controle e a supervisão são inexistentes que ocorrem situações que ninguém se atreve a mencionar abertamente: alguns adultos faziam com aquelas crianças o que quisessem. Inclusive assédio e abuso de todos os tipos, uma vez que eram crianças sem como provar ou se defender. O jovem era considerado insignificante. A expressão "nada" aqui não é uma figura de linguagem.
Recordo-me de ter essa ideia quando era menino, com uma nitidez que causa dor. Era como se realmente não se importassem com as nossas vidas. Como se nossos pais não se importassem. Como se, se morrêssemos, a reação fosse um simples dar de ombros: "foda-se, faz outro." Uma rede de clonagem. Você morreu? Faz outro. E isso, cara, isso me deixava profundamente apático. Eu cheguei a perguntar a outras crianças se elas pensavam a mesma coisa, e pensavam. "Você também sente isso? É como se a gente fosse um sistema de clonagem. Morre, faz outro." Como se a nossa existência de criança não tivesse peso nenhum. Quando a sua vida não tem significado, a conclusão imatura é sombria: "se é só fazer outro, então eu não estou nem aí para a minha própria vida."
Eu conheci crianças que passaram por tudo isso até o final. Crianças de doze e treze anos que cometeram suicídio, pois sentiam que ninguém, absolutamente ninguém, se importava com elas. É fácil reconstituir a cadeia. Os pais desejam que a educação do filho tenha o mínimo de interferência possível. Em outras palavras, é uma afirmação clara de que não desejam se relacionar com o próprio filho. Não desejam criar essa criança. No fundo, eles desejam ter o menor contato possível. Isso se tornou até uma piada em uma série, aquele momento da Escolinha do Professor onde o Ptolomeu faz perguntas completamente absurdas — o aluno menciona que o pai manda ele correr de trás para frente, e os pais assistem se divertindo, comentando que ele até fez uma pergunta interessante, e ele chega à conclusão de que vai à escola não para aprender, mas para evitar ficar em casa incomodando os pais. É, sem dúvida, uma sátira. É uma sátira que se desenrola na realidade. Os pais de fato não têm interesse em educar seus próprios filhos.
E não me tragam a justificativa do tempo. Há quem tenha até tempo de sobra. O que eles desejam é não ter que se preocupar. Não querem ter que ir até lá e tratar a criança como um ser humano. Este é um dos maiores problemas da educação brasileira contemporânea. Vários pais se posicionaram fortemente a favor da escola de tempo integral, e a verdadeira razão por trás disso é bastante lamentável: como eles não assumem a responsabilidade pela criação dos filhos, quanto mais tempo as crianças ficarem fora de casa, melhor. Ele não é um bom pai, vive na rua, e agora o garoto passa o dia todo na escola sem perturbar. Incrível, segundo a visão deles. Falei com pais desse tipo, que apoiavam, e todos tinham o mesmo pensamento. Todos.
PAI ATUAL
(com o alívio de quem se desvencilhou de um peso)
Ai, como eu não aguentava ficar com meu filho em casa. Eu nunca consegui tolerar isso. Agora ele passa o dia inteiro na escola e eu não tenho que me preocupar.
É lamentável, e isso está na origem do problema. O Brasil está formando nações de baixa qualidade. Com uma economia péssima, os pais delegaram toda a educação ao Estado, pois, entre aspas, não queriam você. É uma realidade difícil de aceitar, mas a verdade é que eles não desejavam sua presença. Não desejavam assumir a responsabilidade, não queriam ter que se preocupar. Delegaram a terceiros. Em seguida, elaboraram um discurso em cima disso. Atualmente, o pai observa seu filho, que o menospreza e, em algumas ocasiões, responde de forma desdenhosa. O pai então se volta para o público e diz: "olha só, que moleque ingrato, eu dei tudo para ele, e ele me trata como se eu fosse a pior pessoa do mundo." Mas talvez você realmente tenha sido a pior pessoa do mundo para ele. Você não o fez nascer. Delegou todas as suas responsabilidades para os outros e ainda encheu a cabeça do garoto com cursos, atividades e uma infinidade de coisas, exceto com a sua presença.
É aqui que eu preciso distinguir o que realmente me perturba. Não se trata de simplesmente dizer "vai estudar". Existem horários específicos para estudar, e eu, que já tive a experiência de dar aulas de reforço e particulares para os filhos de outras pessoas, escutei essa mesma história inúmeras vezes. Você questiona o jovem sobre como está sua vida no ensino médio, e ele responde: "meus pais não me deixavam em casa um minuto." Era imperativo que eu comparecesse a cada curso e a cada aula. Saía de casa às seis da manhã, passava o dia na escola e, em seguida, fazia um curso à tarde, retornando apenas às dez da noite." Isto é, esse garoto deixou o lar, na prática, aos doze anos. Ao chegar aos quatorze anos, a infância havia ficado para trás. E quando você menciona isso ao pai, ele fica chateado com você. Por que razão? Pois, em sua concepção, ele está proporcionando ao filho tudo aquilo que não recebeu. Está proporcionando o mundo ideal que ele concebeu. O que ele não consegue compreender é que a criança não é uma extensão dele. A criança é um ser humano. Não se trata de uma coisa. O pai contemporâneo não aceita isso: ele deu vida a um ser humano, está em processo de criar outro e não irá transformar uma pessoa em um objeto.
É exatamente assim que eles percebem. Preste atenção ao que eles dizem, com um olhar que conheça um pouco de psicologia, e a conclusão se torna evidente: eles vêem a criança como um objeto a ser moldado ou como um animal a ser adestrado. Este é, sem dúvida, o pior. Quando afirmam, de maneira explícita, que "a criança é um cachorro que você adestra", estão revelando uma verdade sobre si mesmos. É por isso que a maioria dos jovens atualmente nutre um profundo ressentimento em relação aos seus próprios pais: esses jovens, na verdade, não receberam a devida orientação e educação. Como educador, você começa a identificar o padrão — é possível até antecipar as razões pelas quais essas crianças chegam a nutrir um profundo descontentamento por quase tudo. O pai ausente, a mãe também, ninguém esteve lá. A escola e os cursinhos foram os responsáveis por criar o moleque. E no pouco tempo que o menino passa com o pai ou com a mãe — já que muitas vezes ambos estão ausentes ao mesmo tempo —, ele não recebe afeto. Não é afetuado. Quando solicita uma orientação, acaba recebendo um conselho ruim, ou nem isso: os pais nem se dão ao trabalho de ligar. Então o garoto sai sem rumo. Vem ao mundo de forma despojada. É daí que surgem apenas duas opções. Ou ele começa a se comportar de maneira inadequada — furtando, danificando coisas, se envolvendo em confusões — ou ele se afunda no universo digital, nos videogames, no entretenimento instantâneo da internet, consumindo incessantemente, pois é o único ambiente que lhe dá retorno. Tudo o leva para o mundo do prazer imediato. Então, quando me perguntam "Gabriel, como é que o jovem chegou nesse estado?", a resposta é essa, sem meias palavras: eles não tiveram criação. Foram largados. Criaram um bando de gente ferida os próprios pais que não os criaram, que os trataram como animais e que terceirizaram o máximo possível da formação. Não tiveram filhos. Existiram ativos.
Eu tenho um profundo conhecimento sobre esse ativo, pois meu pai me observava dessa maneira. Ele afirmava, sem pudor, o que muitos pensam, mas não têm coragem de admitir.
PAI
(com a mesma simplicidade de quem está calculando)
Ah, eu só te tive mesmo porque, quando a gente envelhecer, você vai cuidar da gente. Se você for uma pessoa ruim e nos colocar em um asilo, pelo menos terá dinheiro suficiente para custear a estadia.
Veja a qualidade. É risível ao ser narrado, mas it truly aches. Se você observar ao seu redor, verá que a maioria dos pais atualmente se encontra exatamente nesse ponto. Não se trata mais da minoria de pais excêntricos que existiam na minha época. É assim que deve ser. A criança deixou de ser vista como um fardo e passou a ser reconhecida como um recurso valioso. O ativo é sempre uma coisa ou um ser vivo. Não se trata de ser humano. Este é o pior aspecto que percebo nos pais atuais: o desejo de delegar a educação a outros e minimizar ao máximo o contato, uma vez que a criança "dá trabalho, dá perigo, dá fogo". "Ah, eu não quero lidar com essa criança." Você continua passando o menino para as outras pessoas. O filho, por sua vez, passa a ser aquilo que mantém os pais presos — não por vontade da criança, mas porque, na concepção deles, ela se transformou no obstáculo personificado. É neste ponto que eu me refiro a esse padrão pelo nome que realmente lhe pertence: Proteu. O pai se transforma constantemente para evitar o contato, desliza como o velho do mar e converte sua própria prole em um obstáculo, em algo que apenas dificulta a vida que ele desejava estar vivendo na rua. A maior parte dos jovens atualmente não desfruta de uma infância adequada, pois teve que se esforçar excessivamente, realizar inúmeras tarefas e produzir muito para saciar essa necessidade.
É crucial que eu faça uma distinção clara, caso contrário, a questão se perde. O que eu relato aqui não se aplica de forma alguma à verdadeira família necessitada, onde a criança é obrigada a trabalhar para que todos não passem fome. Não existe outra opção. Ali a criança renuncia à infância porque não tem alternativa: ou ela vende balas no semáforo, ou consegue um bico, ou toda a família enfrenta a fome e fica em risco. Neste caso, eu estou de acordo e sem nenhuma objeção. A questão é diferente: trata-se do pai, que tem recursos financeiros, privando a criança da infância que ele poderia proporcionar. Trata-se de um vício da classe burguesa, e não de uma necessidade. E há uma diferença física entre a criança do pobre e a do rico, inclusive no corpo: a criança precisa dormir, precisa descansar mais que um adulto, e a criança da classe média — falo da classe média de verdade, aquela a um passo de morar na rua, não a que o brasileiro confunde com classe média — muitas vezes dorme mais porque o corpo dela exige. E os pais modernos não entendem isso.
Meu pai era o retrato do que não entende. Se ele me visse dormindo um pouco mais, ou simplesmente parado meia hora, aquilo era um escândalo para ele. Ele não conseguia me ver parado. Tinha uma espécie de dor de me ver em repouso. Precisava me ver fazendo alguma coisa, ocupado em algo, porque na cabeça dele o homem tinha que estar sempre ocupado. Uma cabeça deficitária, de quem confunde movimento com valor. O resultado disso é a mochila sobrecarregada da infância: cramaram em mim todos os tipos de cursos, informações e coisas diversas. Os anos se passaram, e eu trago uma notícia para você: a maioria daqueles cursos perdeu seu valor. Estão atrasados. Apenas os cursos práticos se destacam, aqueles que ensinam habilidades manuais — como o de eletricista, o de confeiteiro e o de panificação. Oitenta por cento do que sobra é bobagem que se torna obsoleta em cinco ou dez anos e some do currículo como se nunca tivesse estado lá. Sou a pessoa que passou cerca de dez anos juntando papéis que hoje não têm valor algum. Nothing at all.
Portanto, a regra é clara e contraria o instinto do pai atual. Ao invés de inundar seu filho com informações que rapidamente se perdem, ofereça a ele algo prático e valioso: ensine-o a operar uma máquina, a serrar de diferentes maneiras, introduza-o na marcenaria, na arte da botica, ou em qualquer ofício que possa proporcionar um sustento. Coisas que têm valor ou utilidade. Não se trata de um curso preparatório de quatro ou cinco anos que não serve para nada. O pai contemporâneo não consegue entender isso, pois acredita que deve proporcionar ao filho tudo o que não conseguiu alcançar em sua própria vida, sem jamais perguntar o que realmente deseja o filho. Ele projeta na criança o que gostaria de ter conquistado em sua própria vida. Esta é a mediocridade que define o pai contemporâneo. O indivíduo tem trinta e cinco anos e se considera o homem mais velho e bem-sucedido do mundo por não ter feito um curso, mas, ao mesmo tempo, deseja delegar ao filho aquilo que ele mesmo não consegue realizar. O que ele não faz, ele passa para o filho assumir. O filho carrega a responsabilidade de preencher a falta que o pai não consegue suprir. Isso acontece muito mais frequentemente do que você pensa. Demasiado.
Quando alguém me diz "ah, Gabriel, mas meu filho é criança, ele nunca vai querer fazer nada", eu digo: obviamente não, se for da maneira que você faz. Inclua apenas alguns poucos princípios como obrigatórios — conhecimentos básicos de informática, saber montar e reparar itens domésticos — e deixe o restante à sua preferência. Uma coisa é evidente, e as mulheres contemporâneas provam isso a cada dia: nenhuma mulher deseja compartilhar sua vida com um homem que não tem habilidades para ajudar nas tarefas do lar. Ela não terá interesse. Então, ele terá que se tornar um profissional de forma repentina, pois o pai não o preparou para ser um homem de valor antes. No final, a única lição que se pode extrair é esta: ofereça à criança o que realmente será benéfico para ela. Não é a porcaria que se dissipa. É isso que as pessoas não conseguem captar.
O fato de o adulto não reconhecer a criança como um indivíduo real traz consigo um lado negativo, que, de certa forma, beneficia o adulto. Deixe-me retornar à realidade. Eu testemunhei, com estes olhos, um entregador que combinava vários benefícios, acumulando mais de dois mil reais por mês provenientes do governo — enquanto eu estava desempregado. Fiquei desse jeito por dois anos. O cálculo é verdadeiramente absurdo: você se empenha como se estivesse lutando contra o tempo, e, durante dois anos, recebe menos do que alguém que não levanta um dedo. Nesse modelo, o Estado não presta auxílio ao trabalhador. Ele nutre o parasita. O parasita estatal se alimentará diretamente do Estado, e nos governos de esquerda isso se transforma em um projeto. Por essa razão, não tenho fé na democracia. Acredito muito mais em uma república ou em uma monarquia — e, para ser sincero, mais em uma monarquia do que em uma república. Os Estados Unidos foram, na minha opinião, a única república que realmente funcionou. As outras enfiaram na própria Constituição uma espécie de fé nacional, a crença de que aquele arranjo é o melhor do mundo, e escorregaram: viraram democracias, que é o degrau de baixo.
Preciso elevar a discussão para o plano abstrato, pois isso não se trata de uma mera birra da minha parte — é uma antiga lição sobre a deterioração das formas de governo, tal como Platão a descreveu. Há monarquia, há aristocracia, há república, cada uma com sua versão corrompida, para a qual se inclina quando se deteriora. A monarquia se transforma em tirania — foi isso que ocorreu, por exemplo, com algumas monarquias protestantes que, ao se deteriorarem, se tornaram tiranias que executavam aqueles que não concordavam e impunham pesados impostos a todos que não eram protestantes. A aristocracia se transforma em oligarquia — que é, na verdade, uma tirania repartida entre um pequeno grupo, uma tirania em movimento, onde nada é considerado sagrado pelo próprio governo. A república deteriora em democracia, que por sua vez se degenera, culminando, no final da linha, também em tirania. Porque tudo que apodrece acaba se tornando tirânico. Repare no que a democracia é na prática: o arranjo em que qualquer jaco vota. Qualquer um. E quando você elege alguém para decidir o que precisa ser feito no governo, e essa pessoa foi escolhida por uma multidão de jacos e não pelo cidadão que pensa, o resultado é previsível. O vagabundo que vive da teta do Estado vai votar, sempre, no governo parasitário que arranca do trabalhador para lhe entregar. É isso que esse parasita quer. E é isso que o governo de esquerda oferece.
E olha a mecânica do incentivo, que é diabólica na sua simplicidade. O sujeito recebe o auxílio, tem um prazo para arranjar emprego, e descobre que, se conseguir emprego, perde o benefício — mas se não conseguir, continua recebendo. Ou seja, você é quase premiado por não ter carteira assinada. Depois de um tempinho, quando a pessoa finalmente estabilizaria a vida, cortam a bolsa, e ela volta à estaca zero. Portanto, a atitude mais sensata, considerando essa situação, é simplesmente se acomodar e receber o que o governo oferece. Observe a falta de respeito presente na animação: ninguém é obrigado a sustentar você enquanto não faz nada, pois isso o transforma em um passivo — um passivo que depende totalmente de quem arca com as despesas. O eleitor passivo sempre vota no mesmo local, pois esse lugar lhe proporcionou tudo de forma facilitada.
Mas — e aqui eu me distancio de uma certa direita crédula — não é verdade que todos têm oportunidades na vida. Isso é falso, e eu estou totalmente de acordo com essa observação. Não tive uma infância fácil, mas cresci em um bairro de pessoas honestas, com parentes que, apesar de suas falhas, conseguiram me educar bem. Agora imagine um garoto que nasceu no coração de uma favela dominada pelo tráfico, cercado por parentes envolvidos com a venda de drogas e assassinatos, sem pai, sem mãe, abandonado à própria sorte. Que tipo de exemplo esse garoto terá? Nenhuma. Ele crescerá testemunhando a calamidade ao seu redor e acreditará que isso representa todo o mundo, pois é o único universo que conhece. Esses jovens, frequentemente, terão dificuldades para progredir na vida. Dizer a eles "ah, todo mundo tem oportunidade" é o discurso de quem nunca saiu de casa — normalmente, filhos de papai e mamãe ricos, que projetam a própria sorte como se fosse regra universal. Esses indivíduos da direita que insistem nisso não têm a mínima noção da realidade.
Portanto, vou expressar algo que não agradará a nenhuma das duas partes. O único modo de apoiar aquelas pessoas que verdadeiramente não possuem nada, levando em consideração a tecnologia disponível atualmente, seria através de uma renda efetiva — mas que essa renda não seja prejudicial. Não se trata de simplesmente fornecer dinheiro em abundância para que a pessoa se alimente, relaxe e durma, como aquele personagem de novela que só se dedica a comer e dormir, o "caga e dorme". É uma coisa diferente. Em outras palavras, nós, enquanto governo, iremos oferecer uma bolsa para complementar sua renda, e, caso você deseje iniciar um negócio, também forneceremos uma bolsa ainda mais substancial. Em outras palavras, você recebe mais se estiver trabalhando. O incentivo é sempre direcionado para cima, e não para baixo. Se você não tomar nenhuma dessas ações, seu único resultado possível será criar um exército de parasitas ou permitir que o povo morra de fome. A única forma de garantir o sucesso disso é recompensando aqueles que geram resultados — o empresário e o pequeno empreendedor que iniciou seu negócio e está se esforçando. Se não, o país se tornará comunista, e o comunismo representa a morte para a humanidade. Para conseguir estabilizar a economia de um país assim, não tem outro jeito: tem que premiar quem quer vencer, porque é isso que a sociedade precisa recompensar. Ao contrário, se todos se acomodarem na bolsa, a produção para e as consequências surgem — e essas consequências são a fome. O que a esquerda mesma apresenta como "ajuda ao trabalhador" acaba piorando exatamente a vida do trabalhador.
Certamente, há também aqueles que receberam oportunidades e as desperdiçaram devido à sua própria falta de inteligência. Há. Eu compreendo, pois eu fui a pessoa que aproveitou todas as chances que surgiram em minha vida, enquanto observei de perto meus primos, que tiveram oportunidades muito maiores do que as minhas, mas as recusaram uma a uma. Tudo o que estava ao meu alcance, eu realizei; no entanto, eles tinham a capacidade de agir da mesma forma, mas optaram por não fazê-lo. Essa é a distinção entre aquele que é vagabundo por opção — como o meu primo que teve tudo e decidiu recusar — e o indivíduo que realmente almejou progredir e está batalhando por isso. Não sou um homem de sucesso financeiro, mas estou a caminho e sei diferenciar os dois. Nem todo mundo. Simultaneamente, existe um terceiro grupo, o mais ressentido: pessoas semelhantes àquelas que conheço na Primavera 3, que são realmente pobres e que, por três razões acumuladas, não têm oportunidades reais. Em primeiro lugar, a criação. Em segundo lugar, a ausência de recursos financeiros para qualquer coisa. Em terceiro lugar, porque o que esses indivíduos conseguem obter é, no melhor dos casos, um cursinho gratuito sobre um assunto que, na verdade, não traz nenhum benefício e que se torna obsoleto em apenas cinco ou dez anos. É apenas isso que chega até eles.
De fato, o custo das faculdades diminuiu, o que alterou um pouco a situação: atualmente, uma boa graduação online pode ser obtida por cerca de duzentos a trezentos reais, permitindo que a pessoa se forme, o que cria uma oportunidade de ascensão. Contudo, continua a ser complicado, extremamente complicado. Um garoto respeitável desse ambiente, no máximo, trabalhará empacotando compras em um supermercado. É pouco provável que consiga mais do que isso. Se ele conseguir um emprego como mecânico, isso será uma grande conquista para ele, quase o ponto culminante de sua vida — pois um mecânico comum ganha cerca de cinco mil por mês sem dificuldades, e isso o coloca em uma posição superior em relação aos outros. Para esse garoto, tornar-se mecânico seria uma conquista significativa, pois ele nunca encontrou uma oportunidade tão grande quanto essa. Aqueles que afirmam que "todo mundo pode chegar lá" geralmente vêm de famílias ricas ou com boas condições financeiras. Diga isso diretamente para aquele garoto do morro. Desculpe, mas esses indivíduos da direita são completamente desinformados sobre o mundo. Afirmação de que essas crianças têm oportunidades desde o nascimento é uma inverdade. Afaste essa ideia da mente: elas não terão. Não irão.
Por outro lado, temos o idoso. O idoso afortunado que apoia o PT com fervor, e o velho infeliz que vota no PT por pura ignorância — recebe aposentadoria, recebe todas as benesses do governo, e por isso, votar no PT é, para ele, a coisa mais maravilhosa do mundo. Que os outros se danem. Não se trata de uma mera impressão: as pesquisas de votação indicam que os eleitores mais velhos foram os que mais apoiaram Lula na última eleição. Está tudo ultrapassado. Uma pequena parte dos jovens seguiu. Se você comparar as proporções — os jovens votaram significativamente menos no PT em comparação com os idosos e adultos —, é possível perceber algo que pode ser desconfortável: o jovem, mesmo com toda a sua inocência, não consegue ser tão insensato quanto esses idosos que viveram um período de prosperidade econômica e agora se consideram os proprietários do espaço, exigindo uma série de benefícios por não estarem em atividade no mercado de trabalho. Além disso, aqueles que mais frequentemente fazem esse tipo de afirmação são, geralmente, os que menos se esforçam. No Nordeste, há muitas tias que dependem exclusivamente de auxílio, passando o dia em casa e elaborando diversas estratégias para levar uma vida sem contribuir em nada. Dependem do suporte do governo, e é isso. Em outras palavras: quando o Estado promove a ociosidade, é isso que se reflete na economia. Ao invés de apoiar o empreendedor que lançou sua empresa e está dando os primeiros passos, ele te ensina a ser preguiçoso. E, em contrapartida, impõe obstáculos ao pequeno empresário. Para constituir uma empresa de verdade, que não seja MEI, é um empecilho após o outro, como se o governo estivesse tentando sabotar você intencionalmente. É o clima perfeito para a esquerda.
É nesse ponto que a minha ideia de Jeca se aplica de forma contundente, pois ela elucida como a miséria é perpetuada de mente para mente. O Jeca é o tipo de pessoa que, em primeiro lugar, não tem sucesso na vida porque é pouco inteligente; e, em segundo lugar, é tão pouco inteligente que recusa todas as oportunidades que surgem. O que é ainda mais lamentável: ele acredita que seu filho — que é ainda mais Jeca do que ele — vai se tornar uma pessoa diferente. O garoto, nascido de um pai e uma mãe Jeca, não poderia ser diferente. Vai se cansar de todo e qualquer esforço, vai deixar tudo de lado e vai optar por se juntar à multidão e à bebida, pois o pai nunca se esforçou de verdade, nunca foi capaz de diferenciar o que era bom do que era ruim para ele. O garoto comete o mesmo equívoco que seu pai, pois este último possui a mentalidade antiquada de que a educação do filho ocorre por osmose, de forma automática, sem a necessidade de esforço. Portanto, é essencial que o pai aprenda a educar seu próprio filho. Mas ele ainda não tem conhecimento disso. Ele taca leitura no moleque, taca curso, taca atividade, e o moleque some, mata aula, vai fazer coisa na rua — porque ele é um menino largado que não tem apreço nenhum pela vida boa, já que o pai nunca deu o exemplo, e a mãe também não.
E o que faltou não foi ordem, foi presença viva. O pai poderia se sentar ao lado do filho e estudar junto, mostrar na prática, dar gosto pelo estudo, dizer com o próprio corpo: "olha, é muito melhor ser um cara que sabe do que um cara que fica no chão." Mas o pai não faz isso. Ele até pode falar, mas fala da boca para fora, e o menino sente a distância entre a palavra e o exemplo. Então imagine o desfecho grotesco. O moleque, apesar de tudo, cresce, estuda por conta própria, se torna alguém. E o pai, em vez de orgulho, sente ameaça. Vai à academia, à roda de conversa, e desdenha o próprio filho.
O PAI QUE TEM CIÚMES DO FILHO
(dando risada para os amigos, indicando o menino)
Veja este garoto repugnante. Continua acreditando que tem mais conhecimento do que eu. Você acredita que estudar algo indefinido o torna um especialista?
O FILHO
(em um tom baixo, sem aumentar a voz, pois já compreendeu)
Eu apenas estudei o material que você me indicou.
É a mais pura hipocrisia, pois o pai ouve o filho apenas por ser seu filho, mas não tolera que o filho o supere. Eu observo isso até mesmo em empresas. Eu conheço alguém que possui uma empresa e apenas completou alguns cursos de graduação, sem se atualizar posteriormente. E essa pessoa, que não busca se atualizar, especialmente nas áreas exatas, acaba ficando para trás a cada ano, pois qualquer um consegue fazer isso. É exatamente por isso que eu afirmo que a matemática é uma ciência inferior às ciências humanas. No campo das ciências humanas, se você comete um erro, é possível que ele influencie negativamente muitas pessoas, uma vez que suas crenças religiosas ou filosóficas moldam a forma de pensar dos indivíduos. Na matemática, se você cometer um erro de cálculo, todos podem identificá-lo naquele papel, mas a situação se resolve ali mesmo. Não tem impacto no mundo. Por isso o peso é outro. Mas o pai Jeca não pensa nada disso: para ele, tratar o filho como cachorro é o normal. E aqui cai bem aquela piada caipira.
O CAIPIRA
(suspirando, olhando o cão espreguiçar)
Sabe o que eu mais queria ser nesta vida? Cão.
O OUTRO
(sem compreender)
Por que, ó homem?
O HOMEN DO INTERIOR
(com a melancólica sabedoria de quem viu demais)
Pelo simples fato de que o cachorro se ergue, se espreguiça e se dirige ao seu dono e o dono já grita vai deita.
É precisamente isso. O garoto chega todo cansado da escola, tem apenas uma horinha de descanso, e o pai já manda logo "vai estudar". Preciso desmantelar um culto que se tornou tendência: o culto ao educacionismo. "Ah, o educacionismo é a coisa mais linda do mundo." Para quem, exatamente, é a coisa mais bela do mundo? Pois, no final, é a criança que acaba sofrendo as consequências. Observe o processo de geração. O indivíduo que atualmente possui trinta anos ou mais — e aos trinta já se considera apto a dar conselhos — passou sua infância em uma época de prosperidade econômica. Quando enfrenta pressão, em razão da sua própria geração, ele critica os mais jovens, dizendo: "olha que bando de moleque frouxo, não consegue nem comprar uma casa, sair da casa dos pais e casar." A resposta mais apropriada, com toda a sofisticação de irreverência que o momento exige, é encará-lo e dizer-lhe para ir para aquele lugar. Atualmente, a economia é um verdadeiro desastre, e a situação só se agrava. O real despencou. Há vinte e seis anos — e eu me recordo bem, pois era apenas um garotinho de cerca de seis anos na época — o dólar tinha o valor de dois reais. Não era de todo ruim; era realmente excelente. Hoje, o dólar alcança a marca de seis reais. Há também o economista associado ao PT, que é uma figura cômica, alguém que se gaba e afirma que, apesar de tudo estar em ruínas, alguns aspectos foram melhores do que durante outros governos.
O Economista do Partido dos Trabalhadores
(ajustando a gravata, orgulhoso de um pormenor insignificante)
Veja como o governo do PT se destacou neste pequeno indicador aqui.
EU
(sem tolerância para a desonestidade)
Meu irmão, veja como um homem pode ser preguiçoso e desonesto ao mesmo tempo. Seja ético, ao menos uma vez na vida.
Porque o economista petista apoia o governo, e não você. Ele deseja te prejudicar e está sendo muito bem pago por isso. É por essa razão que compartilho essas informações: é fundamental que as pessoas aprendam a avaliar o governo com base em suas ações, e não pela publicidade. Eu conheci várias gerações — Y, X, Baby Boomer — que acreditavam em tudo com fervor, pois temiam intensamente a guerra e não tinham muita disposição para trabalhar, uma vez que testemunharam seus pais se esforçando arduamente na roça por um salário que mal compensava o esforço. Daí eu vejo a indignação: ralar e não ganhar é um absurdo. Mas, naquela época, o que se ganhava comprava bastante, pois o real tinha um valor muito próximo ao do dólar. Isso é algo que o homem moderno não compreende.
Há também uma cicatriz mais profunda, que revela a razão pela qual muitas pessoas ainda hoje lidam com o dinheiro com um medo supersticioso. Em um período anterior à introdução do real, a moeda enfrentou uma desvalorização tão drástica que uma decisão governamental, tomada quase de forma repentina, se tornou um trauma coletivo — muitas pessoas adoeceram e algumas até cometeram suicídio em decorrência disso. O governo foi lá e prendeu, do dia para a noite, o dinheiro que estava no banco, e boa parte do que foi confiscado nunca mais voltou para o verdadeiro proprietário. Em seguida, houve a conversão para o real, mas os comerciantes não se ajustaram a essa mudança. Apenas muito mais tarde, com a implementação de várias leis, as coisas começaram a se organizar. Vou ilustrar isso com um exemplo — e é importante ressaltar que se trata apenas de um exemplo, não é uma descrição fiel do que ocorreu, mas sim uma maneira de você compreender a lógica por trás disso. Imagine que eram cinco mil cruzeiros; o comerciante prosseguia com a cobrança de "cinco" por uma pera, enquanto o povão nem fazia ideia de como o realzinho estava se comportando. O valor aparentava ser o mesmo, mas a conversão oculta era diferente. Trata-se de um colossal erro de gestão. De tal forma que, se a moeda do Brasil ainda fosse o cruzeiro, atualmente estaríamos contando de forma similar ao iene japonês ou ao yuan chinês, dada a imensa desvalorização que se acumulou. Gerou algum benefício para a economia, é verdade, mas a um preço de uma enorme confusão. É por essa razão que o idoso rico e simpatizante do PT considera maravilhoso votar da maneira que vota: ele recebe todas as benesses do governo, incluindo a aposentadoria, e, portanto, para ele, tudo está ótimo. Que os outros se danem.
Isso nos conduz à essência do etarismo — um termo que eu enfatizo frequentemente, pois ele representa uma injustiça concreta. O adulto típico ficou preso em um mundo que existia há trinta, quarenta ou cinquenta anos e continua a oferecer conselhos sobre uma realidade que já não existe mais. É por isso que a maioria das pessoas é considerada pouco inteligente e apenas sabe votar no Lula: acreditam que o PT "deu coisa aos pobres", quando na verdade o que ocorreu foi a criação de um indivíduo preguiçoso e sem vergonha que explorou o país por anos, transferiu a dívida para os outros e ainda retornou ao poder porque repartiu pequenas quantias para aqueles que não conseguem nem fazer contas ou gerir suas próprias vidas. Portanto, aqui vai um conselho de vida: o idoso pode até recordar como era a vida aos vinte anos, quando ainda precisava se virar sozinho e não estava preso à segurança de um casamento e de uma vida já definida. Sim, ele estava ciente disso. Mas o homem que se casou jovem, que trabalha sob o regime CLT, que não abriu sua própria empresa e que já possui tudo o que um pai de família típico necessita, esse pouco conhece sobre a vida de quem ainda está enfrentando desafios no mundo exterior. E você, que está enfrentando essa batalha, não precisa dar ouvidos a essa pessoa. Você deve prestar atenção, mas apenas quando ela se pronuncia com base na experiência prática — o economista respeitável, a pessoa que realmente gerenciou algo — e não no pai ausente de esquerda que nunca teve a responsabilidade de administrar nada. A verdadeira voz é a da experiência real, e não a de qualquer pessoa que simplesmente passa na rua. Se você optar pelo conselho inadequado, poderá enfrentar sérias consequências na vida.
Em nenhum aspecto a orientação do velho se revela tão fútil quanto no que diz respeito ao amor. Recentemente, tive uma conversa com uma parceira que estava saindo, a respeito de um tio meu, um homem na casa dos setenta anos, que decidiu me oferecer conselhos sobre o amor. Eu, que tive muitos relacionamentos e saí com várias pessoas, e que não me dedico à vida de ficadas porque sou excessivamente cristão para isso — não por falta de oportunidades ou por constrangimento. Não sinto vergonha alguma; tenho princípios. Quando eu inicio um relacionamento com uma mulher, é porque, após conhecê-la, tenho a intenção genuína de me casar com ela. Aí tá certo. Não sou o tipo de pessoa que aborda garotas desconhecidas na rua ou em festas. Para mim, isso é uma insanidade — é um desejo de arruinar a própria vida. Se você se envolver com alguém que é realmente mau, essa pessoa pode arruinar sua vida de inúmeras maneiras. Eu testemunhei pessoas perderem suas vidas devido a isso, de fato. No entanto, o tio, com seus setenta anos de vida, pretende me ensinar sobre um mercado que ele não frequenta há cinquenta anos.
Porque a vida se transformou de maneira drástica nos últimos trinta anos, e no que diz respeito ao amor, essa mudança foi verdadeiramente monumental. É só observar como funcionam as relações sociais: os conselhos de outrora não servem mais. Hoje em dia, as mulheres possuem gostos que são amplamente estereotipados, são muito mais exigentes e desfrutam de uma liberdade que é totalmente distinta da que tinham anteriormente. As mulheres mais velhas, eu sei, são bem mais carinhosas que as mais novas — têm ainda aquele amor no meio, raro de achar, mas verdadeiro. Com a garota mais nova, é difícil saber se ela está ao seu lado por causa do que você possui, do que pode oferecer a ela, se a relação é apenas por interesse, ou se realmente gosta de você. Você não consegue perceber. Ela mesma às vezes não sabe. Então você é obrigado a fazer um monte de teste para saber se aquela mulher vale a pena. E é aqui que eu digo, sem rodeio: a única forma de você acreditar num homem velho falando de relacionamento é se ele estiver solteiro e ainda for pegador. Um sujeito que está na pista, saideiro, esse ao menos conhece o terreno atual. Agora, o cara que está há vinte, trinta anos casado, que nem procura mais ninguém, esse tem a cabeça parada no mercado de trinta anos atrás. Ele acha que as coisas ainda funcionam como funcionavam quando ele era solteiro. Saiu da fila, não sabe o que está acontecendo. Não acredite nele.
O que é ainda mais curioso é quando o conselheiro é um pastor que está casado há quarenta anos, muitas vezes em um casamento arranjado, sendo obrigado a permanecer ao lado de uma mulher que mal teve a oportunidade de conhecer. Tenho amigos que, com a mais absoluta seriedade, afirmam que não devo oferecer conselhos sobre amor os meus amigos mais novos.
O PASTOR AMIGO
(com a autoridade de quem mistura a duração do casamento com sabedoria)
Cara, não é apropriado oferecer conselhos sobre relacionamentos ao pessoal mas novo.
EU
(sinceramente intrigado pela lógica distorcida)
Por que não? Você é casado há quarenta anos em um matrimônio arranjado e exerce a função de pastor. Você é quem não pode. O mundo atual é muito diferente do que era há quarenta anos.
O PASTOR AMIGO
(sem resposta, pois não existe resposta)
Como assim?
EU
(entregando o remédio amargo)
Faz o seguinte: pega esses blogs de red pill, lê tudo, e depois compra um teste de fidelidade para você ver o mercado como ele está hoje. Você vai descobrir que virou uma zona. Você não pode aconselhar seu filho porque não conhece mais o campo. Se o seu filho é ingênuo, e ninguém avisa que a mulher pode ser horrível moralmente, ele leva um chifre, e a vida dele recomeça lá atrás, do zero.
É isso que os "adultos" não conseguem entender. Possuem vinte e cinco anos de "adultescência" acumulada — que termo idiota — e continuam a oferecer conselhos sobre um mundo que deixaram para trás. Portanto, jovem, converse com seus professores e seus pais, pois eles não têm ideia de como o mundo é atualmente. Pararam há muitas décadas. Ouça pela vivência, não pela idade.
O retrato se torna mais claro à medida que você avança na hierarquia social, pois, nesse contexto, o medo é identificado e possui um processo definido. A elite não se casa com alguém de outra classe, e isso não é apenas uma questão de esnobismo — é um preconceito que, nesse caso, possui uma base real. A lógica que eles seguem é a seguinte: se você é financeiramente estável e se une em matrimônio a alguém que está em uma situação financeira bem inferior, essa pessoa pode explorar as quatro possibilidades legais para prejudicá-lo quando o relacionamento chegar ao fim. No exemplo de um homem rico ao lado de uma mulher que não está à sua altura, a família dele reage de forma intensa e preocupada, pois teme que ela tente levar tudo se o relacionamento chegar ao fim. O que é ainda mais lamentável é que muitos desses casos realmente ocorrem no Brasil. Vários. O indivíduo extremamente rico, que é herdeiro de uma fortuna, enfrenta uma ação de pensão na qual é obrigado a comprovar cada um de seus bens, passando anos pagando essa quantia, enquanto a mulher quase tornou sua vida um verdadeiro inferno para conseguir — e conseguiu. São circunstâncias absurdas, e elas ocorrem com uma facilidade impressionante. Se era arriscado antes, agora está ainda mais. Portanto, não é possível remover o medo que essas famílias sentem. Em várias questões, elas têm razão.
Eu testemunhei isso de perto em minha própria família. Há um primo meu que é casado com uma mulher — que é tia de uma menina da família — e que atormenta a vida de todos os namorados da sobrinha, um por um, sempre que o jovem é pobre. É tão simples quanto isso. A melodia que ela canta é sempre a mesma.
A TIA INTERESSADA
(martelando na cabeça da sobrinha)
Você deve se casar com um homem rico. Ser pobre é um verdadeiro pesadelo. Não há relacionamento com pessoas de classe baixa. Apenas pessoas da classe média em diante.
O aspecto cruel da situação é que a sobrinha não é especialmente bonita — na verdade, ela é um pouco acima da média em termos de feiura, sendo uma jovem que prefere andar por aí, o que é socialmente pouco aceitável e moralmente descuidado. A tia a pressionar levou-a a terminar o último namoro, que mantinha com um rapaz de classe financeira mais elevada que a sua. Em outras palavras, a garota, que não possui exatamente as qualidades necessárias para atender a todas essas exigências, constantemente rejeita pessoas que realmente merecem a sua atenção, devido à influência negativa da tia. Eu fui o único a oferecer a ela um conselho diferente.
EU
(abertamente, uma vez que ninguém mais se atreveu)
Não ouça sua tia. A tua tia está fora de si. Eu conheço o seu tio desde que ele tinha vinte anos — eu tinha apenas cinco. Atualmente, ele tem quarenta anos. Você sabe muito bem quem é a sua tia: uma mulher que só se preocupa com interesses próprios, e que ele foi encontrar de uma forma que ninguém entende. Não siga o mesmo caminho que ela, ou você pode acabar sozinha.
Depois desse empurrão, ela conseguiu encontrar um namorado. Isso acontece porque esses tios não têm noção de como o campo atual funciona: suas vidas amorosas, enquanto solteiros, ficaram paradas no tempo, como se ainda fossem vinte anos mais jovens, quando eram totalmente apaixonados. Além disso, é importante distinguir entre aconselhar uma gestão financeira prudente e garantir que a mulher tenha condições financeiras, um emprego e autonomia suficientes para não depender de ninguém e não se tornar um fardo. Isso é fundamental, pois a dependência é um fator que leva muitas pessoas a optar por um comportamento parasitário em relação ao voto. Além disso, há essa obsessão, bastante distinta, com o "cara rico" como único critério, que arruína a vida de quem a segue. Uma representa a sabedoria; a outra, a enfermidade.
Há também o aspecto religioso, que se tornou um capítulo à parte. Até mesmo na igreja está complicado. Após uma certa adaptação dos costumes influenciada pelo protestantismo, as mulheres começaram a agir de maneira semelhante ao pai protestante típico: ele apenas prepara a filha para se casar com um homem rico. É preciso ser rico, independentemente de quão irritante a garota possa ser, mesmo que ninguém a suporte ou a aprecie. Tenho amigos protestantes cujas filhas, em algumas ocasiões, são até mais velhas do que eu, e o discurso é sempre o mesmo: "minha filha só vai casar com um menino rico." No entanto, se a filha é difícil de lidar e não possui nem mesmo uma boa aparência, quem se interessaria por ela apenas por causa do sobrenome? Atualmente, é uma perspectiva bastante ignorante. Porque eles a educam como uma princesinha e não conseguem perceber que, na realidade, ela não é tão excepcional assim — e mesmo assim esperam o par ideal. Nos tempos passados, os jovens católicos estabeleciam relacionamentos que eram muito mais cheios de virtude. Você não precisava se esforçar tanto para encontrar: era apenas uma questão de encontrar, dentro das possibilidades de cada um, um jovem respeitável, com uma vida estável, que pudesse sustentar confortavelmente a moça e ter filhos. Se fosse uma pessoa do bem, tudo estaria certo. Não hoje. O matrimônio se transformou em uma verdadeira expedição, e a jovem inicia a competição com uma lista de aproximadamente dezesseis exigências. Você precisa ser, essencialmente, aquela pequena fração de meio por cento da sociedade — atraente, abastado, o homem ideal —, o que não faz o menor sentido. As mulheres protestantes possuíam isso, e acabou por infectar o ambiente católico.
Na Primavera, tudo possui um tempero singular, pois é o que eu designo, seguindo a teoria das camadas que se aprende no Curso Online de Filosofia do Olavo, como indivíduos que estão muito na quarta camada — aquele estrato em que as pessoas vivem imersas em imagem, reagem a estímulos e mal conseguem tocar o mundo objetivo. Os catequistas, por exemplo, quase sempre eram filhos de famílias abastadas: proprietários de imobiliárias, donos de lojas e membros da alta sociedade da cidade. As meninas estavam interessadas em se relacionar com os filhos das catequistas, bem como com os filhos de pais abastados, de fazendeiros e de pessoas ricas. E o garoto bom, o jovem de mérito sem um sobrenome, era desprezado como se fosse lixo. Pior: a menina de Primavera, ao ver que você se aproxima com algum valor, não só te rejeita — ela ofende a sua aparência e ainda te menospreza.
A MENINA DA PRIMAVERA
(com o desdém adquirido por aqueles que misturam crueldade com bravura)
Você realmente acredita que eu teria interesse em você? Você?
É aí que se inicia a humilhação. Portanto, na Primavera, a regra é clara: você precisa se destacar e se afirmar como alguém acima, é essencial devolver as provocações de forma que a pessoa se sinta mais envergonhada do que você, pois a única maneira de evitar ser subestimado é retaliar com firmeza. Além disso, são as outras meninas ao seu redor que precisam desejar a sua presença. Isso pode não ser aplicável em todos os lugares, mas aqui, onde exibições não são permitidas, isso realmente funciona. É por todas essas razões que eu afirmo que a declaração feminina é uma hipocrisia significativa.
A MULHER ATUAL
(com a suavidade previamente ensaiada do discurso público)
Podemos nos interessar por um rapaz que não possua todas essas qualidades.
A REALIDADE
(sem cerimônia, contando o que de fato acontece)
Mentira. A maioria não fica com cara de pouca posse. Se o sujeito não dá pelo menos uma casa, uma vida de classe média alta, ela já diz que não quer.
Não me refiro à jovem atraente que é alvo de competição; estou me referindo até mesmo à menina que recebe uma nota cinco, que também almeja o chefão, e não o trabalhador da fábrica. É esse egocentrismo que permeia quase tudo. Não me interprete de forma errada: não estou dizendo que a mulher não seja capaz de amar. É que hoje o mundo todo pressiona a relação para esse tipo de contabilidade. Tenha isso em mente, pois é a chave para o que realmente é significativo neste texto.
Ao observar toda essa situação de uma perspectiva elevada, o que percebo embaixo é aquilo que denomino como demiurgo sintético, determinismo sintético, o delírio de um projeto de poder global que cria uma segunda realidade e a impõe como se fosse a única existente. E há um aspecto que este projeto detesta profundamente: as crianças. A imagem da inocência que ainda mantém a esperança. Pois a criança em si é a esperança personificada. Ela almeja ser aquilo que o adulto aspira, mas falha em alcançar — a criatividade preservada, a motivação para explorar o que ultrapassa as expectativas de todos, aquela energia interior do coração que ainda se direciona para o bem. A criança possui isso. O adulto, devido ao seu modo de vida, com o passar do tempo comete mais erros, se desorienta e vai eliminando de si a essência da criança interior. É exatamente por essa razão que considerar a criança como um ativo financeiro é a maior forma de ruína: quando ela é reduzida a um ativo, não importa se ela vive ou morre. Uma criança faleceu? É tudo igual. Faz outra. É a lógica da substituição, mas aplicada a uma pessoa, e isso ensina à criança a frase mais horrenda que existe: você pode ser trocado. O adulto não se dá conta de que internalizou essa lógica, pois ele próprio não consegue compreender que a vida é muito mais do que a perspectiva da sociedade. Para ele, a criança é tão descartável quanto um filhote de cachorro, um recurso que se produz com o intuito de que, ao atingir a idade avançada, possa zelar por ele — um investimento de longo prazo que possui uma aparência humana. É justamente por essa razão, na maior parte das vezes, que essas pessoas decidem ter filhos. Mantenha esse fundo sombrio, pois é em oposição a ele que se levanta tudo o que está por vir — e o terreno onde a luta se torna mais clara é o da masculinidade.
Pois, na contemporaneidade, o indivíduo só é visto como "homem grande" se for um estereótipo ambulante. É o estereótipo do gigante com pouca inteligência que chega a ser um pouco irritante, aquele que, no fundo, todos consideram um tanto quanto ridículo, mas ninguém tem a coragem de afirmar. A pessoa que não acolhe o filho com um abraço, pois acredita que "abraço é coisa de viado", que enxerga traços de homossexualidade em tudo ao seu redor, que não se permite tocar o próprio menino e que não permite que o garoto abrace a mãe. É a mesma fala do estereótipo exagerado do homem — aquele sujeito que precisa demonstrar, a todo instante, que não é covarde, e que, por essa razão, evita qualquer demonstração de afeto como se estivesse fugindo do diabo. Este é o indivíduo que surgiu da revolução sexual de orientação esquerdista. Já não é o homem que era. O homem da antiguidade tentava colocar seus sentimentos para fora da maneira mais nobre — por meio da poesia, por exemplo. Veja a contradição: se você apresentar a esse estereótipo masculino uma poesia escrita por um homem, ele irá insistir com todas as forças que o autor é gay. Mesmo que seja uma poesia dedicada à própria esposa. Foi por causa dessa mesma poesia que a mulher se deixou levar pelo amor, que a noite chegou e que os filhos vieram. Para ele, qualquer ato de expressão já levanta suspeitas. Parece que o homem precisa ser grosseiro para que sua existência como homem seja aceita.
É importante que eu seja sincero quanto à natureza do que vou afirmar, pois se trata de uma interpretação que eu faço no Círculo, e não de um resultado obtido em um laboratório. A minha suposição — e apresento-a como tal, não como um fato científico — é que esses homens que repudiem de forma tão agressiva tudo que é feminino frequentemente estão, no fundo, agredindo a si mesmos. Aqueles que nutrem uma intensa aversão ao feminino tendem a perceber o próprio feminino como algo incompleto, falho e exclusivamente como uma fonte de fragilidade. No meu entendimento, é precisamente nesse ponto que, em certas ocasiões, surge uma inversão: a pessoa começa a admirar exclusivamente o masculino e a rejeitar até mesmo a parte feminina que surge em seu interior. Essa rejeição completa pode, por sua vez, se transformar em atração. Já presenciei isso diversas vezes ao longo da vida — aquele que mais ofendia os homossexuais, nos bastidores, era quem buscava um encontro com uma travesti. É a minha observação de um padrão que notei, não uma regra que se aplica a todos os homens.
E aqui eu admito a objeção, em sua versão mais contundente, pois seria desonesto ignorá-la. Argumentarão, de forma metódica e fundamentada, que a orientação sexual não é algo que se cria nem se rejeita, que a relação que eu percebo pode ocorrer de forma oposta — ou seja, um indivíduo que já reconhece sua atração por homens adota uma postura masculina para se camuflar —, ou ainda pode ser simplesmente um acaso dentro da minha amostra, um viés de alguém que apenas notou os casos que corroboravam a tese. Essa é uma objeção válida, e ela realmente toca em um aspecto importante: não consigo converter a experiência de vida em evidência, e não vou agir como se pudesse. O que ela não consegue desmantelar é o verdadeiro alvo da minha crítica. Porque meu ataque nunca se dirigiu ao homem que compartilha suas emoções; meu alvo sempre foi a caricatura de masculinidade que se considera o modelo a ser seguido. Curiosamente, eu compartilho de uma boa parte das críticas que surgem do próprio público LGBT: esse homem estereotipado, por ser um indivíduo tão repulsivo, fornece ao filho uma referência totalmente distorcida. O garoto, a fim de evitar se tornar como o pai, acaba se transformando em seu antípoda, pois ninguém deseja se tornar aquilo. Se o pai é rude e repudia qualquer sinal de afeto, o filho pode vir a rejeitar a masculinidade que o pai representa, pois em seu lar não havia uma figura paterna — havia um tirano. Ele não é um verdadeiro homem; é um palhaço com sérios problemas na infância. O que eu não consigo aceitar é que isso seja chamado de "homem raiz". Isso não é masculinidade; é masculinidade ao contrário. Trata-se de uma ofensa demoníaca à masculinidade — o homem demonizado, com suas virtudes invertidas, a demonização como uma esperança corrompida.
Isso porque, para esse tipo de pessoa, qualquer forma de demonstração de emoção é imediatamente rotulada como "coisa de viado", enquanto tudo que se opõe à caricatura do macho é visto como quase satânico, algo maligno que puxa para o diabo. Um outro homem, à sua frente, é incapaz de demonstrar qualquer sentimento. Quer ver como isso se torna absurdo na prática? Neste final de semana, tive a oportunidade de me reunir com alguns primos meus, que têm idades entre trinta e quarenta anos, e que representam de forma exemplar o estereótipo do macho de direita caricatural. São aqueles indivíduos que cometeram a maior parte dos erros possíveis na juventude, apenas para ter histórias interessantes para compartilhar. Uma verdadeira aberração. Na visão deles, se você se interessou por uma garota e optou por construir uma vida respeitável ao lado dela, formando um casal digno, você já cometeu um erro. Você é jovem, você "deveria estar fazendo merda". Se você age de maneira correta, é considerado gay. Você já é rebaixado só por ser uma pessoa boa. É exatamente isso.
Eu sou completamente diferente disso. Não costumo me envolver em aventuras por aí e não saio de Primavera em busca de mulheres desconhecidas nas festas. Sou crente demais pra isso. Somente inicio um relacionamento com uma garota após conhecê-la melhor, para avaliar se realmente desejo algo sério com ela e se ela é uma pessoa respeitável. Não é por fraqueza, mas sim porque considero isso uma sabedoria fundamental: escolher a pessoa errada pode arruinar toda a sua vida. Eu não me baseio em teorias. Eu tinha um amigo que era o estereótipo do macho alfa, aquele tipo que conseguia qualquer garota, independentemente de ela estar em um relacionamento — pouco se importava, ele não hesitava em ficar com todas. Certa vez, o cônjuge de uma delas encontrou e meu amigo levou um tiro na cabeça. Faleceu. Um outro amigo tentou flertar com uma garota em uma balada, sem ter a menor ideia de que ela estava comprometida com um determinado rapaz; o jovem percebeu a situação, se aproximou e desferiu uma facada em seu peito. Faleceu naquele instante, com o coração atingido. Portanto, quando afirmo que não sou tolo o suficiente para viver dessa maneira, estou plenamente ciente do custo que estou mencionando. No entanto, para o homem de "visão" pare eles, tanto faz se você morrer; se você viver de acordo com os prazeres da carne, então morra em nome da carne.
Esse sujeito é obcecado apenas por sexo, e mesmo quando sua própria existência é um caos, ele se envolve com uma garota e sente que pode traí-la e retornar sem nenhum remorso, como se desprezasse o que tem e, em seguida, voltasse a valorizá-lo como antes. Eu tenho um primo desse jeito, imundo, que fala na frente da própria esposa.
O PRIMO IMUNDO
(risos, com a esposa ao lado)
Eu gostaria de estar solteiro, meu amigo. Estar solteiro atrai muitas mulheres.
EU
(avaliando a pobreza de aquilo)
Então, quem ele acredita que poderia desempenhar um papel melhor do que o dele? O indivíduo mais medíocre que conheço ainda tem a audácia de me questionar por que não tenho apreço pela minha família.
É nesse ponto que surge um dos memes mais precisos que possuímos: a família corno conservadora. O indivíduo afirma ser extremamente hétero, casa com uma jovem, mas a trai, tendo relações com a mãe dela, e depois se casa com a mãe; a jovem, por sua vez, acaba se casando com o irmão dele; este, por sua vez, deseja um relacionamento aberto e coloca as duas mulheres sob o mesmo teto; e o homem que se declara como o mais macho de todos é, na verdade, aquele que leva a própria esposa e não consegue conter-se em um prostíbulo. Não se encaixa. É essa família conservadora, que eu gosto de expor como "corno", e eu conheci o retrato dela num suposto fã do Círculo de Estudos Nous.
O SUPOSTO FÃ
(entusiasmado, acreditando que estamos na mesma equipe)
Ah, eu te reconheço do Círculo de Estudos! Você diz umas coisas que acho bem interessantes.
União Europeia
(testando a profundidade)
Juridicamente. E o que você leu sobre o Círculo?
O SUPOSTO FÃ
(já indicando que não leu nada)
Não, eu apenas vejo os vídeos. Deixa eu te explicar sobre a minha vida: eu era casado com uma moça, me desgastei com o relacionamento, acabei sendo infiel e agora estou prestes a me casar com a mãe dela. Acontece que a mãe dela, e já que não sou homem de uma mulher só, fui e me casei com a jovem que me deparei em uma balada, e ainda teve um filho com ela, e trouxe para casa e disse: agora vocês duas vão ser minhas esposas. E elas, grávidas, até concordaram.
EU
(contendo um riso de amargura)
Está tudo certo, não é? De onde você é?
O SUPOSTO FÃ
(satisfeito)
Eu sou do Acre. Meu pai trabalha na agricultura.
EU
(desconfiando do "estilo raiz" de fantasia)
Você já teve experiência com colhedoras ou outras máquinas? Já trabalhou em alguma loja?
O SUPOSTO FÃ
(sem fundamento para qualquer coisa que afirma)
Não, de forma alguma. Mas tem aquele jeito rural, não é? Funcionou. Poderia me dar um autógrafo?
Aí eu rabisquei qualquer coisa, um "arroba" torto, só o meu nome mal feito, e mandei. Era o modelo ideal de um Jurandir — o homem do campo de forma estereotipada, sem se basear em nada do que realmente afirma. O que meus primos estavam realizando naquela noite, de certa forma, era equivalente ao que esse Jurandir faz por si mesmo: manter uma aparência. Mas a imagem que eles projetavam precisava da minha humilhação. É como se insinuassem, sem realmente falar: "senta aí, você é mais novo, incompetente, você não pode sair maior que eu." É por isso que eu não tenho uma boa relação com muitos dos meus primos. Cheguei a um nível de aversão que não posso deixar de ser sincero: pessoas que atormentam os primos mais novos desde a infância, que sabotam, que envergonham o garoto por ser gordinho, tímido ou por gostar de ler livros, aqueles que destroem a reputação do outro se ele se atrever a retrucar. Se o garoto reply, eles mudavam de opinião: "esse aí vai ser bandido, vai ser vagabundo." No entanto, em um desses casos, ocorreu o oposto da profecia. Um primo mais jovem, que era um pouco mais gordinho e que levou um tempo para crescer, foi incessantemente humilhado pelos primos mais velhos, sendo tratado como a criatura mais insignificante do planeta — quando, na verdade, ele era muito superior a todos eles. Um dia, ele aumentou o tom de voz.
O PRIMO DEGRADADO
(finalmente de pé, enfrentando os mais velhos)
Você é um porco imundo. Com essa esposa ao lado, é bem provável que chifres adornem a cabeça.
No dia seguinte, como eu havia previsto, eles o ridicularizaram. Até hoje criticam. Para conseguir sobreviver em meio àquela família, ele teve que se tornar tão vil quanto eles — pois, ou ele prejudicava alguém, ou a família o esmagava incessantemente. Um sujeito que desejava melhorar sua situação e, ao final, acabou se prejudicando na tentativa de ser aceito. Esse tipo de idiota é uma das piores criaturas que podem existir. Quando um pai vem até mim para reclamar, dizendo "você fez meu filho pensar assim", eu respondo: graças a Deus que fiz. Usar essa família problemática como exemplo é exatamente o que impede o garoto de se desenvolver. O pai ausente deseja, simultaneamente, que o filho se comporte como um idiota, assim como aqueles, e que ele tenha sucesso na vida — o que é inviável, uma vez que essas duas expectativas se contradizem. Se o filho é bom, o pai o considera viado; se o filho é um fracasso, o pai se queixa de que ele não deu certo. Ou você é um idiota, ou você é visto como um idiota. Dentro daquela casa, não existe escape. É justamente por essa razão que, no final das contas, eu não tenho apreço por grande parte da minha família — não no sentido de laços de sangue, mas sim como indivíduos. Não tenho apreço por pessoas desagradáveis.
Veja como a falta de bom gosto é evidente entre essas pessoas: eu deixei meu cabelo longo por causa da minha namorada da época, que prefere a cor — quando o cabelo está curto, ele escurece e não é possível notar que é ruivo; só quando está comprido é que se destaca o ruivo. Eu deixei crescer por causa dela. Então, o que os meus primos fazem? Já me chamam de gay só porque tenho cabelo longo. Vejam quão ridículo isso é: eles só conseguem enxergar a imagem. Não veem nenhuma virtude, apenas a casca. Se você for extremamente atraente, atlético e não tiver nenhum "vício de viado" na conta que é algo completamente subjetivo, e seja presunçoso e arrogante, eles vão te tratar como um deus. Isso pode parecer surpreendente, mas é verdade. As próprias mulheres reconhecem a armadilha: "a gente queria que o homem não fosse assim", afirmam elas — enquanto tudo ao redor incentiva o homem a ser exatamente esse tipo ridículo. É justamente aí que reside a cruel distinção entre os gêneros, na maneira como cada um pode viver.
Você, mulher que está me lendo, pode perceber nitidamente que tudo ao redor impulsiona o homem para um único padrão. Observe a assimetria: a mulher possui diversos caminhos à sua disposição, e nenhum deles é imposto — ela tem a liberdade de escolher. O ser humano, de maneira alguma. Ou se é o sujeito carnal e "divertido", ou não se é homem. É como se houvesse um único caminho a seguir para ser verdadeiramente reconhecido como homem na contemporaneidade: aquele do sujeito que se expressa de forma superficial, aquele que precisa mostrar sua masculinidade de maneira excessiva e grotesca a todo instante. Quanto mais exagerado, mais "decente" ele parece aos olhos da tribo. É devido a essa psicologia distorcida que o estereótipo do macho, que se envolve com diversas mulheres e as trata de forma inadequada, se opõe venhementemente a qualquer traço — seja masculino ou feminino — que fuja dessa caricatura. Ele acaba admirando exclusivamente o que é masculino e, em alguns casos, pode sentir atração apenas por isso. Esta é a minha interpretação, novamente, e não uma imposição: o indivíduo está sempre em busca de novidades, rapidamente se cansa de tudo, menospreza qualquer tipo de ligação e, nesse desprezo generalizado, seu próprio desejo perde a organização.
Então, permita-me finalmente explicar quem é o verdadeiro homem, pois essa é a única maneira de escapar deste labirinto. O verdadeiro homem é aquele que é virtuoso. Trata-se de Shakespeare. Identifica-se como São Tomás de Aquino. Estes são os meus modelos de homem — não pela vida ideal, que é inatingível, mas pelas características que os definem: a magnitude de suas realizações, a bravura de suas ideias e a nobreza de sua expressão espiritual. Este é um homem. O que sobrou é o que sobrou. O confronto entre esses dois modelos é, essencialmente, a antiga disputa entre Aristóteles e Epicuro. Epicuro sustenta o hedonismo, que é viver em função do prazer. Aristóteles se baseia na filosofia que distingue a virtude do vício, considerando a vida como uma prática do caráter. É a discussão entre essas duas figuras que permeia toda essa narrativa, uma vez que a virtude precisa se opor a esse indivíduo repulsivo, que é fruto de uma caricatura, e que confunde ser homem com o ato de consumir cachaça até perder a consciência e se entregar à prostituição. Não é dessa forma. O homem de tempos passados se dedicava à poesia, à erudição, à teologia e à busca de Deus, sendo um homem de virtudes que era reconhecido como tal pela própria Igreja. Esse é o homem tradicional. É por essa razão que eu afirmo, e faço questão de pronunciar em um tom claro e enfático: a principal falha da juventude é pautar suas ações nos mais velhos. Não siga o exemplo deles. Negue-os. Seja clássico — mas não se inspire nos antiquados e chatos. Seu pai, seu avô, seu tio, esses homens não têm conhecimento algum sobre a vida; estão lidando com suas próprias dificuldades e acreditando que possuem algum entendimento. Quando um deles vier te instruir, enfrente-os diretamente.
Não se deve confundir "clássico" com "antigo": os velhos que eu rejeito são justamente os que traíram o clássico. O pai de um amigo meu, já idoso, acreditava que um homem deveria ser assim — chegou a deixar seu próprio filho caído no chão, bêbado e deitado, sem ajudá-lo a se levantar, porque "homem tem que aguentar". Ele levou este meu amigo a uma casa de prostituição quando tinha apenas quatorze anos. Veja este pai tão excêntrico. Para ele, um homem deve ter relações com mulheres, e se não aprecia frequentar casas de prostituição, é considerado homossexual. Se não aprecia, é homossexual. Para esse tipo de indivíduo, o homem não deve ficar só, não pode escolher a solidão, não pode desejar algo mais sublime do que sair e ter relações. É preciso ser intrinsecamente maligno e profundamente animal, caso contrário, não se pode considerar um verdadeiro homem. É precisamente neste ponto que, curiosamente, encontro um ponto de concordância com as críticas que vêm do público LGBT: um indivíduo como esse oferece uma referência tão distorcida que acaba afastando seu próprio filho de qualquer forma de masculinidade saudável. Portanto, possuo um teste infalível para revelar o macho estereotipado: inscreva-o em um curso de poesia. Converse sobre poesia com ele. No momento, ele irá indicar e afirmar "esse cara é viado", de forma automática, mesmo que a poesia seja dedicada a uma esposa. Assim, você já tem conhecimento de com quem está se comunicando. As mentes dessas pessoas são extremamente limitadas. É por isso que as palavras desse indivíduo não podem ser consideradas sérias — ele é insignificante, um homem que se diverte em ofender os outros chamando-os de viado, mas, nos bastidores, é bem provável que esteja se envolvendo com uma travesti, assumindo o papel passivo. A família corno conservadora está de volta, agora pessoalmente.
Não é útil indicar o "vencedor" desse jogo como modelo. Meus primos me incentivaram a admirar um primo adicional, que é o vocalista de uma bandinha de punk, e que já foi traído por todas as suas namoradas. Um comediante. No imaginário deles, ele é o modelo a ser seguido, pois "come mulher".
O CONSELHEIRO PRINCIPAL
(indicando o exemplo incorreto como se fosse um troféu)
Aprenda com ele. Este realmente é um homem. Você precisa se envolver com alguém, caso contrário, não pode ser considerado um homem.
EU
(rejeitando a lógica desde a origem)
Ele se deu mal em todos os seus relacionamentos, foi traído em todos. Por que eu deveria me inspirar em alguém que é menos virtuoso apenas porque ele atrai mais mulheres? É uma vergonha.
Portanto, esse é o indivíduo que devemos confrontar, evitando nos tornarmos como ele. O que o combate contra ele necessita não é de um argumento, mas sim de uma imagem, uma narrativa, um protagonista. Porque a nossa geração, que está conseguindo se elevar mais do que as anteriores, não aprendeu o que é ser homem com os pais. Aprendeu com os campeões. Para mim, o maior de todos possui um rosto marcado e a fala arrastada de um jovem que ninguém acreditou.
Para mim, o Rocky é mais intrigante do que o próprio Joe do Amanhã, e isso se deve a uma razão clara: ele é um homem bondoso que também enfrentou uma vida repleta de dificuldades, e a dureza de sua existência se deve precisamente ao fato de que dedica seu tempo a ajudar os outros. Preste atenção na estética com a qual o filme se inicia — suja, mal cuidada, quase deprimente, um local que foi uma igreja e se transformou em um ringue de luta quase clandestino, com uma imagem de Cristo lá em cima observando o esporte da sobrevivência. Está tudo expressado ali: o sacrifício, a batalha pela sobrevivência, com Cristo sobre a arena. Após a luta, Rocky se dirige a uma garotinha que ele conhece, e ela lhe ofende. Uma estética noir, quase melancólica. Ao retornar para casa, ele se comunica com os animais que habitam com ele — as tartarugas, que considera como sua família, uma vez que não há mais ninguém ali para uma verdadeira conversa. Ele reside em um cortiço onde as divisões são feitas apenas por paredes de madeira que ele mesmo construiu, separando o banheiro, o espaço para suas coisas e o pequeno canto da cama. No dia seguinte, na academia, Mickey, que já se habituou a menosprezar homens como Rocky, o encara e dispara.
MICKEY
(exceto o Rocky sem piedade)
Você não significa nada. Você é um lixo, um inútil.
É lamentável, pois Rocky consegue ganhar algum dinheiro, mas não consegue um emprego digno, já que mal sabe escrever. Então, o que ele faz? Transforma-se em capanga de agiota. Um emprego terrível, onde ele é obrigado a intimidar as pessoas, fazer ameaças por telefone e cobrar dívidas na base da agressão. Em um desses casos, ele se recusa.
ROCKY
(observando seu próprio punho, refletindo sobre sua identidade)
Não vou agredir esse cara. Não vou me permitir destruí-lo.
GAZZA
(o chefe, sem compreender a misericórdia)
Rocky, você está maluco? Como você conseguiu não quebrar o cara? Agora vou ficar sem meu dinheiro.
É através desse gesto que se revela a verdadeira essência de Rocky: um homem de imensa misericórdia, de caráter exemplar, mas que, por essa mesma razão, é menosprezado. Na perspectiva distorcida do macho estereotipado, ser um homem bondoso e sinônimo de ser ingênuo, é ser "viado". É exatamente esse homem que a narrativa seleciona para alcançar a glória. De repente, Apollo Creed, o verdadeiro deus do esporte que já derrotou todos os seus concorrentes, está à procura de um novo rival e opta por Rocky por uma razão que beira o ridículo: Por ser um italiano com um excelente físico e um nome que chama a atenção pelo nome de "Garanhão Italiano".
O EMPRESARIO DE APOLLO
(saboreando cada palavra, com calma)
Visualize a cena: Apollo Creed enfrentando o garanhão italiano.
O Apollo fica encantado com a ideia. Quando Rocky recebe o chamado, ele nem compreende que se trata de uma luta — imagina que é para atuar como um saco de pancadas e chega com uma atitude humilde, respeitosa e expressando sua gratidão pela oportunidade de ser sparring do renomado Apollo. Até o treinador fica surpreso com a tranquilidade. Quando lhe dizem que não, que deve enfrentar o Apollo de igual para igual, Rocky fica surpreso, como se não conseguisse acreditar que finalmente o destino se apresentou diante dele. Nesse interim, ele começa a se relacionar com a Adrian — a única mulher que já despertou seu interesse, precisamente aquela que o desprezava, que mal dirigia o olhar para ele. Ele começa a frequentar a loja apenas para vê-la, utilizando o absurdo pretexto de comprar ração para o animal, sem se importar com a compra em si: sua atenção está voltada para a Adrian. É o irmão dela, Paulie, que organiza o encontro entre os dois durante um jantar de Natal, no qual, em um momento de fúria, Paulie lança o peru pela janela para provocar a saída dela. É nesse encontro que Rocky ganha o coração de Adrian.
ROCKY
(no banheiro, expelindo anos de sofrimento)
Por que você não esteve aqui quando eu precisei? Agora você vem até mim e me apresenta isso? Estou quase na casa dos trinta anos. Agora. Acabou.
E o Mickey, envergonhado, começa a descer as escadas com a cabeça baixa. Então Rocky reflete sobre outra ideia: "não, talvez eu possa dar essa oportunidade a ele." Porque, no fundo, ele era o único que ainda tinha fé. O gesto de Rocky, em última análise, representa um ato de perdão.
ROCKY
(capturando o idoso antes que ele desapareça)
Espera un momento. Chega aqui. Eu te perdoo.
Em seguida, temos a cena mais despida de todas. A Adrian está descansando na cama do Rocky, pois o Paulie causou problemas na casa dela, o que a levou a se mudar para lá. O Rocky, deitado, se recusa a encarar o rosto dela, pois está em lágrimas. Ele se vira, evitando que ela o veja com uma expressão negativa, e pronuncia a frase que sustenta todo o filme.
ROCKY
(de costas, para que ela não perceba as lágrimas)
Não posso vencer. Ele vai dividir minha cabeça ao meio. O que realmente conta é que eu consiga chegar lá. Eu apenas não desejo ser visto como um vagabundo do bairro. Não tenho receio de levar uma surra. Eu apenas desejo que você tenha orgulho de mim.
É isso mesmo. O Rocky tinha uma razão para lutar, e essa razão não era dinheiro. Era um sentimento de orgulho. Era deixar de ser visto como um andarilho aos olhos do pai. É por isso que, quando a porta se abre e a música de Bill Conti começa a tocar, essa cena representa a esperança de todos aqueles que nunca tiveram uma oportunidade. Ele não ganha a luta — é importante lembrar que Rocky perde no primeiro filme —, mas consegue uma vitória moral ao ficar de pé durante os quinze rounds enfrentando a lenda Creed. Se anteriormente ninguém tinha fé nele, agora o futuro se mostra promissor. Todo aquele conteúdo, como o próprio Stallone admite, está relacionado a Cristo: o sacrifício, a figura de Rocky em combate, a representação de Cristo sobre a academia e a luta pela vida. A narrativa, de fato, teve sua origem em uma luta de verdade: Chuck Wepner, um lutador que ocupava as últimas posições e sobre o qual ninguém tinha esperanças, conseguiu permanecer de pé por quase quinze rounds contra Muhammad Ali. Foi a partir disso, assim como de outros recortes, que Stallone conseguiu extrair a ideia inicial.
Não é surpreendente que essa narrativa me toque profundamente: o pai e a mãe do Stallone tinham semelhanças notáveis com os meus, pois eram igualmente pais muito ruins. O pai do Stallone o agredia por qualquer motivo e não desejava que o filho o superasse em altura. A mãe, ainda mais lamentável. No documentário, o próprio irmão de Stallone revela que a casa vibrava quando o pai gritava e agredia. Depois, o irmão foi para um lado com a mãe, para outra cidade, e o pai foi morar numa fazenda só de cavalos, onde o Stallone entrou num time de polo. E quando o Stallone chegou às semifinais e estava ganhando, o pai foi lá, no meio do campo, e derrubou o filho, jogou tudo no chão, para que ele não vencesse. Foi ali que o Stallone jurou: "eu nunca mais vou fazer isso." O pai do Stallone não era muito diferente da cabeça que eu descrevi este texto inteiro. E é dessa mesma matéria que se faz a ferida mais funda do jovem moderno, aquela que eu preciso nomear com todas as letras: dizer a alguém, desde criancinha, que ele não é digno.
Porque é isso que mais machuca. Cuspir na cara de um garoto, desde muito cedo, que ele não presta, que nunca vai ser nada, que a única coisa que ele pode ser é tão ruim quanto os outros — isso destrói lá no fundo. Você pode chegar a uma pessoa que está mais vulnerável e afirmar "você não é digno", o que equivale a ofender sua família de forma grave. Pois o indivíduo se esforça durante anos para se tornar alguém, e ao olhar em seu rosto, você desmantela tudo com uma simples frase. Foi essa frase, repetida por todos ao longo do tempo, que ensinou uma geração inteira a questionar seu próprio valor. É contra ela que Rocky e Joe se levantam.
Pois Ashita no Joe, o Joe do Amanhã, representa um outro aspecto da mesma batalha, porém de uma maneira mais trágica. A trama gira em torno de Joe, um jovem órfão que vive nas ruas de uma favela em Tóquio. Ele é um garoto problemático e, ao se envolver em uma briga, acaba cruzando o caminho de Danpei, um ex-boxeador que agora vive na rua. Danpei decide treinar Joe para que ele se torne um lutador, na expectativa de conquistar um futuro melhor para si mesmo. A noção de batalhar pelo futuro é o tema central até o final. E eis aqui o choque brutal com o sonho americano: Joe recusa até o fim de seus dias entrar de cabeça no boxe. A primeira luta ocorre muito tempo depois, considerada o último recurso, uma opção quando todas as outras já falharam. O mangá não se esforça para retratar o Joe como um personagem bom; suas intenções não são elevadas; ele infringe as regras do esporte constantemente e não hesita em trapacear. Para Joe, o boxe é uma ferramenta que ele nem considera com respeito.
O mangá captura a dualidade de medos e esperanças que caracterizava o Japão após a guerra: de um lado, a pobreza e a deterioração das cidades; do outro, o crescimento da classe média e um crescente anseio por consumo. O Joe personifica essa contradição, repudiando de forma feroz as promessas oferecidas pela sociedade japonesa e desafiando as instituições criadas para lidar com pessoas como ele. O boxe, de um lado, simboliza a chance de se afirmar, vindo da raiz da classe trabalhadora, mas, por outro, é a entrega total do corpo a um jogo cuja conclusão inevitável é a tragédia — onde se consome o fogo do indivíduo até não restar nada, e onde, na realidade, pode ser que nem haja um amanhã. É bastante visual. A maior parte da motivação de Joe é alimentada pela culpa e pelo arrependimento, e seu retorno aos combates não deve ser encarado como uma superação através do esporte, mas sim como uma aceitação de que, finalmente, acredita que aquela dor é o que realmente merece. Em um determinado momento, Joe rouba, de forma desdenhosa, o prêmio simbólico de uma jovem rica e devolve o dinheiro jogando-o de volta em seu rosto, dizendo: "acho que roubei você mesmo". Essa mesma jovem, que mais tarde se torna seu interesse romântico, tenta auxiliá-lo, mas Joe não se considera merecedor dessa ajuda. Mais uma vez, o "não ser digno". No entanto, mesmo em meio à tragédia, existem relacionamentos autênticos: a relação intricada com o treinador, repleta de respeito e compreensão mútua; e, acima de tudo, o Rikishi, que inicialmente é o grande adversário, o alvo de toda a fúria de Joe, mas que depois se torna a pessoa com quem ele consegue se conectar de maneira mais genuína, sendo a única que não teve a intenção de aproveitá-lo para qualquer fim. Uma conexão breve, mas autêntica.
O término é o que devasta por dentro. O Joe se esforça ao máximo na luta, quase se entrega de corpo e alma. Ele tem plena consciência de sua saúde debilitada, e ainda assim, ele entra no ringue e falece. Surge, então, a última imagem: Joe, com a cabeça baixa, pálido, desgastado, concluído. É uma cena de uma tristeza profunda, onde um garoto apenas desejava alcançar algo, e o final é agridoce — quem sabe o esforço dele possa impulsionar alguém, ou talvez não, e é exatamente essa dúvida que causa uma dor intensa.
É por essa razão que eu sou fã de Megalobox, um anime de 2018 que foi produzido como uma homenagem a Ashita no Joe e que opta por enfatizar os aspectos mais sinceros e otimistas desse mesmo tema. A pressão social ainda persiste, mesmo em meio àquele universo cyberpunk de batalhas com tecnologia incorporada ao corpo: ele é o lutador que se enfrenta desprovido de qualquer equipamento, aquele que, de fato, não possui identidade nem nome. No entanto, o anime adota uma perspectiva mais positiva em relação ao boxe, abordando-o como uma jornada para redescobrir a verdadeira essência do esporte e suas oportunidades de conexão entre as pessoas, superação e alcance. O mito original do Junk Dog, do Joe sem guier que enfrenta a morte diariamente, ainda persiste de forma vívida e carregada de significado. Eu adoro Megalobox porque impactou minha vida em um momento preciso. Ao iniciar o ensino médio, os alunos mais velhos, como de costume, colavam avisos na entrada da escola para brincar com os novatos. Um deles estava redigido em inglês — pois estavam cientes de que seria improvável que a garotada conseguisse entender, e que, quando finalmente o fizessem, já seria tarde: "esta escola não é para junk dog." Em outras palavras, não é para um viralata. E eu compreendi. Então eu aceitei aquela etiqueta e a incorporei.
EU
(ler o papel, acolher o nome como estandarte)
Está bem. Então, eu serei o junk dog. Eu vou vencer a todos aqui.
Por isso, muitos me chamavam de Cachorro Louco na minha juventude, pois eu era o único que enfrentava os professores, saía vitorioso e tinha a credibilidade necessária para que eles não pudessem me prejudicar. Comecei o ensino médio como um jovem sem história — conhecido apenas por conta das realizações do meu pai, da minha mãe, dos meus tios, proporcionando prestígio aos outros sem possuir o meu próprio. Foi naquele momento que eu decidi confrontar tudo de maneira direta, pois encontrava prazer nisso, um prazer que poderia ser considerado sádico, uma vez que, ao mesmo tempo, estava ajudando pessoas a se libertarem daquela estrutura decadente. No final do ensino médio, após ter vencido quase todos os professores, estava prestes a começar uma greve indefinida, e eu participei de um debate contra o diretor, na frente de toda a escola, e consegui vencer. Eu tirei a autoridade dele perante todos. Não foi uma luta qualquer: foi como a batalha final de todo o jogo, aquela em que Joe finalmente se transforma de simples Joe em Joe sem guier — alguém. Mas eu alcancei o mérito de me tornar alguém. Deixei de ser o filho da minha mãe, o filho do meu pai, o sobrinho de alguém que não sei quem é, e passei a ser Gabriel Cachorro Louco. Temido, porém, é uma outra pessoa. É por isso que Megalobox entrou na minha vida naquela época, e foi a razão pela qual me inspirei nessas batalhas para conquistar minha independência de forma determinada.
Agora, é necessário que eu eleve minha posição, saindo do concreto do meu ringue de escola, e alcance a estrutura maior que sustenta todo esse contexto — o mito do underdog, aquele que se origina das camadas inferiores e ascende na escada do reconhecimento e da glória, desafiando, ao longo de sua trajetória, os próprios deuses do panteão, indivíduos que personificam ideais e valores, como se fossem verdadeiras divindades. No Ocidente, esse mito é simbolizado, em grande parte, por Rocky, impulsionado por uma paixão intensa pelo esporte ou pelo desejo de demonstrar que, apesar de ser considerado um ninguém, ele é capaz de superar expectativas. O Rocky está constantemente ligado à autoimagem dos Estados Unidos. Não é por acaso que o primeiro filme aparece em um dos períodos mais conturbados da autoimagem do país: logo após o escândalo de corrupção de Watergate, que resultou na renúncia de Nixon, e após a retirada das tropas do Vietnã, quando a autopercepção propagandística dos americanos como defensores da liberdade em todo o mundo foi profundamente abalada, juntamente com uma indignação silenciosa em relação à indiferença do país em relação aos soldados que retornaram. O primeiro Rocky disputa o Oscar, em 1977, com obras que lidam com a faceta mais podre dessa autopercepção — filmes mergulhados na corrupção, na decadência, no retrato do local maligno que forma indivíduos malignos. E é neste sentido que o Oscar de Rocky, o melhor filme, reabilita um herói: o filho de uma família de imigrantes italianos que chegou ao topo pela garra, pelo trabalho, pela determinação feroz.
O desenho se torna completo à medida que você acompanha a saga. Apresentado quase como um oponente de sacrifício pelo Apollo Creed, Rocky realmente perde essa primeira luta, mas sai com a cabeça erguida, aguentando todos os quinze rounds contra a lenda. Após a batalha contra o Creed e até o embate da Guerra Fria com o soviético — frio, um super-soldado sem qualquer traço de personalidade, elaborado com o uso de anabolizantes —, o boxe transforma-se em um campo de ascensão, autossuperação e superação das contradições que atormentavam a sociedade americana. Ele se esforça para alcançar o máximo que puder, e mesmo quando perde, há uma vitória simbólica ou, pelo menos, a expectativa de uma. É um panorama completamente distinto do que se observa na mesma década esportiva sob a ótica japonesa, onde Joe se consome até o último instante, sem que, no horizonte, haja a certeza de um amanhã. Duas representações da mesma necessidade, acompanhadas de duas soluções — e o jovem atual precisa de ambas: a expectativa que Rocky oferece para não perder a determinação, e a realidade apresentada por Joe para evitar desilusões.
É nesse ponto que eu preciso afirmar de maneira clara: a minha geração, conhecida como geração Z, não teve como referência masculina os seus pais. Nada disso aconteceu. Nem no pai, nem na mãe. Os heróis foram aqueles que nos mostraram o caminho a seguir. Um dos maiores mestres da masculinidade, que influenciou uma geração inteira, pode ter sido, na verdade, um desenho animado — e ao afirmar isso, não estou de forma alguma desmerecendo a escola ou os professores, já que eu mesmo exerci a profissão de professor por quase uma década. Estou falando de mentalidade. Questione qualquer adulto que se criou acompanhando Dragon Ball, que viu o Goku lutar contra diversos tipos de inimigos, se isso não teve influência em sua vida. Se não causou impacto ver o Goku ser menosprezado por ser um saiyajin de classe baixa e não usar isso como desculpa para suas fraquezas — pelo contrário, olhar para o Vegeta e mostrar que um perdedor que se esforça muito pode superar o poder de um guerreiro de classe.
Pense numa criança vendo isso. Uma criança que, em muitos lares, era vista como uma complicação, um obstáculo, um engano, um fracasso, inclusive pela sua própria família. Esse garoto permanece assistindo, observando Goku lutar contra adversários muito mais fortes e se tornar cada vez mais poderoso — não por acaso, mas porque se dedicava a treinar todos os dias. Isso se fixa na mente de um garoto e o faz entender que não é o local de nascimento que determina quem você é, mas sim as escolhas que você faz a partir desse ponto. Veja o Gohan, que detestava lutar e nasceu em uma família de guerreiros. E aqui temos um dos mais belos discursos de toda a saga Dragon Ball, quando o Androide 16 se dirige ao Gohan e afirma que não é errado lutar pelo que é certo, pois existem inimigos que não se deixam persuadir apenas com palavras. Muitos garotos compreenderam isso. Compreendeu que não é um erro perseguir seus sonhos, que acreditar neles não é uma falha, e que serão suas ações, e não as palavras, que realmente têm o poder de transformar sua realidade.
Além disso, temos o Vegeta, que, a princípio, apenas se preocupava com seu orgulho, até perceber que o ódio estava o consumindo e que a raiva o estava corrompendo de forma literal. Há muitas pessoas assim, carregando feridas profundas, mas optando por não permitir que o ódio tome conta de suas vidas, tal como Vegeta. A realidade é que Dragon Ball transmitiu a uma geração inteira a lição de que não há inimigo que não possa ser vencido, que as pessoas têm a capacidade de se transformar, e que somos muito mais fortes do que imaginamos. Se eu não tomar essa iniciativa, ninguém o fará por mim.
A figura masculina que eu admiro não é meu pai — é o Superman. Quando meu pai faleceu, eu tinha apenas dezesseis anos, e, mesmo antes disso, durante minha infância, a figura masculina que eu mais admirava era o Superman. Desde pequeno, eu lia muitas obras dele. Portanto, de maneira involuntária, a minha concepção de homem, assim como a definição do que era certo e do que era errado, foi influenciada em muito maior grau pelo Superman do que pelo meu pai — uma vez que eu passava muito mais tempo na companhia do Superman do que com ele. Eu devorava histórias do Superman sempre que tinha um momento livre, enquanto meu pai só queria me afastar para que não ficasse muito tempo ao meu lado. Isso teve um impacto na minha psique, servindo como uma fonte de inspiração para quem eu poderia me tornar. Esse é o aspecto que os pais contemporâneos não conseguem perceber: quando o pai desleixado chega e tira do menino o anime, o desenho ou o gibi, dizendo "vai assistir algo interessante", ele está removendo a única referência masculina que o garoto possuía — uma vez que, como figura paterna, o próprio pai é um zero.
Eu me identifico profundamente com essa personagem, pois, em minha própria medida, também fui um desses jovens que receberam o mesmo tipo de tratamento que Rocky. Em um lugar que lembrava a cidade suja do filme, eu era o grande rapaz de jaqueta de couro e boné, que ia para a escola assim, visto como o azarão, aquele em quem ninguém apostava. Mas eu era incomumente cortês, um garoto excessivamente sério — a criança mais séria que eu já conheci. Eu raramente ria, não por ser naturalmente triste, mas porque se dedicava excessivamente aos estudos, era extremamente focado e, para ser sincero, não havia muitas razões para rir. Eu sempre fui claro sobre o que desejo. Eu não aprecio o uso de figuras de linguagem para criticar alguém de maneira indireta; eu prefiro ser direto e confrontar a pessoa. Quando se trata de confrontar alguém, eu não me prendo a rodeios ou jogos de insinuar, como fazem "certas pessoas", com indiretas ou um contato especial. Eu não gosto disso. Chego e exclamo: fulano, você é um verdadeiro filho da puta, pare com essa porcaria. De maneira direta. Os meus próprios amigos me chamam de devorador, voraz, honesto e verdadeiro em tudo que diz — e eu me esforço para ser exatamente assim.
Há uma forma de brincadeira que eu me recuso a aceitar como princípio: a brincadeira sexual utilizada para dominar. Os seres humanos, na ausência de uma personalidade elevada, agem de maneira semelhante a macacos: tendem a agredir uns aos outros para assertivamente dominá-los, e o primeiro ataque geralmente ocorre no âmbito sexual. "Esse cara não transa? Portanto, não compensa escutar." É uma piada que serve como um disfarce para uma tentativa de dominação, e eu a detesto desde a minha infância. Eu não me comporto assim e não deixo que isso passe quando acontece comigo. Os professores me viam como uma pessoa terrível precisamente porque eu era assim — sério, direto e opositor do sistema —, mesmo sendo educado e defendendo com determinação os dois garotos mais fracos que os valentões estavam prestes a massacrar. Eu confrontava o valentão, enfrentava a injustiça estrutural da escola e até denunciava à polícia algumas situações que não deveriam ocorrer. É por isso que a escola me difamava. Era o custo de desafiar a autoridade do local.
Houve um dia que transformou tudo. Eu era apenas um menino quando um importante intelectual da esquerda de Primavera veio discutir assuntos relacionados à PEC em uma escola que eu estudava — e eu tinha plena consciência de que aquilo era um evento um tanto clandestino, que não deveria ocorrer ali. Levantei-me e fui confrontar o rapaz olho no olho, diante de toda a audiência. E eu venci. Foi semelhante à preparação de Rocky para seu retorno ao ringue: um oponente amplamente superior a mim, um indivíduo que possui muito mais dinheiro do que se pode imaginar, um homem difícil de derrotar e perigoso — e, mesmo assim, eu o critiquei severamente, na frente de todos, e saí vitorioso. Toda a gente ficou pasmo: como é que um puto daquelas dimensões conseguiu derrotar aquele homem? No entanto, ele saiu vitorioso. E a partir daí, passaram a me respeitar e a me denominar como um grande intelectual de primavera. Por teimosia, ainda encontro dificuldade em aceitar isso, devido à baixa autoestima que carreguei ao longo de toda a minha vida. Foi nesse momento que comecei a duvidar de que eu poderia, de fato, ter algo a oferecer.
A baixa autoestima não surgiu do nada — ela foi desenvolvida no ambiente familiar. Eu venho de uma família que tem o hábito de rebaixar os outros, que se preocupa excessivamente com a aparência, pessoas que, se você disser que alcançou algo, imediatamente duvidam e acreditam que é uma mentira. Quando mencionei que era estudante do Curso Online de Filosofia do Olavo, que ocorreu há aproximadamente seis anos, eles não acreditaram de forma alguma; eu precisei salvar uma imagem de uma aula no meu celular para apresentar como evidência, semelhante a uma prova de um crime, pois não conseguiam compreender que aquilo era verdade. Essas pessoas só confiam no que um mais velho realiza; no mais jovem, jamais. A comunicação entre eles era tão superficial que meu próprio pai se distraía com a televisão durante nossas sessões de entretenimento em família — assim que o tema se tornava um pouco mais profundo ou sério, todos se afastavam para retomar as piadas. Cheguei a me distanciar de um grupo inteiro que se comportava assim, pois não era possível ter uma conversa saudável. O mais curioso é que meus parentes quase nada sabiam sobre a minha vida: desconheciam a existência de amigos, de uma namorada e de toda uma vida que se desenrolava, pois eram tão alheios que não se interessavam em saber. Somente após o falecimento do meu pai, quando eu tinha dezenove anos, tive a coragem de revelar à minha família quem eu realmente era. Até aquele momento, eu era apenas aquele garotinho, filho dos irmãos deles, levando uma vida que ninguém realmente conhecia, construída a partir da versão distorcida que minha mãe contava.
Desde a mais tenra idade, eu sempre fui uma criança ligada à natureza — assim como o Gon, de Hunter x Hunter, aquele garotinho que cresce imerso na mata e que é a própria personificação da natureza, a mesma que, ao se transformar, assume uma forma ardente e furiosa. Eu ia todos os dias até o fundo da minha casa, onde havia uma mata, para brincar sozinho, pois não tinha a menor vontade de discutir os assuntos que minha família abordava; eu desejava conversar sobre temas mais elevados, e eles viam esse anseio com um certo desprezo, como se fosse algo trivial. Em suas mentes, o mais novo nunca poderá ser superior ao mais velho. É interessante notar que eu testemunhei o oposto ocorrer com meus próprios alunos. Comecei a dar aulas particulares quando tinha cerca de vinte anos, e alguns dos meus alunos que se tornaram professores passaram a ensinar — de forma semelhante ao que eu ensino — pessoas muito mais velhas, com trinta, quarenta anos ou mais. No início de cada uma dessas aulas, o estudante mais velho se apresenta com a mesma expressão de nervosismo: "esse moleque vai me dar aula?" Aí o professor mais jovem terá que desconstruir essa desconfiança mostrando coisas tão grandiosas que o outro nem imaginava que existisse. Funciona — sem qualquer preconceito, pois sejamos sinceros, o velho pode, de fato, me ensinar muitas coisas práticas: eu sei como enrolar uma isca no anzol para pescar, sei operar uma máquina, e isso se aprende com aqueles que já viveram. Ele não pode me instruir sobre o mundo atual, pois as dinâmicas sociais mudaram tanto em três décadas que seus conselhos já estão desatualizados.
E foi essa desconfiança que me motivou a criar. Isso acontece porque, desde jovem, você é constantemente avaliado e criticado, ouvindo de todos que não tem potencial para ter sucesso na vida ou que jamais se tornará alguém importante, fazendo com que esse veneno se instale profundamente. O erro mais grave seria capitular diante dele — deixar que a preocupação com a frase "ninguém vai ler o que você escreve, ninguém vai ligar para as suas ideias" o impedisse de escrever qualquer coisa. Pois é exatamente aí que está a derrota. Você pode guiar outras pessoas por meio das suas ideias. Você pode ajudar a santificar almas e a libertá-las do inferno. Se você é filósofo ou intelectual, o que você faz pode realmente ter o poder de salvar vidas. Atualmente, observo isso ocorrer com cifras que jamais imaginei: o site do Círculo de Estudos Nous registra mais de duas mil visualizações mensais, o Instagram ultrapassa as sessenta mil, e o YouTube acumula centenas de milhares. Eu passei tanto tempo acreditando que era impossível ter sucesso, e agora percebo que talvez isso realmente esteja se concretizando. É Rocky vendo, no espelho o vagabundo, que quem sabe ele não tem uma chance. Eu me inspiro bastante em Sylvester Stallone justamente por essa razão: não apenas porque minha vida teve muitas semelhanças com a dele — em outra perspectiva, é claro, a dele no cinema e a minha na filosofia e na literatura —, mas também porque, ao observá-lo, sinto que estou vendo uma versão de mim mesmo que alcançou o sucesso. É realmente valioso ouvir diretamente dele como tudo se iniciou.
O documentário sobre a vida dele, claro reescrito de uma forma teatralizada, o Sly — que eu peço, quase implorando, que vocês assistam, porque eu dificilmente faço propaganda de streaming, mas esse aqui vale cada minuto —, começa pelo começo, e o começo já é uma ferida. Deixo, então, que ele mesmo fale, na primeira pessoa, e vou intercalando o que ele conta com o que eu enxergo por baixo. Minha mãe já estava grávida de nove meses e ainda pegava o ônibus quando entrou em trabalho de parto. Alguém a tirou do ônibus e a levou para um hospital gratuito, e foi lá que eu cheguei a este mundo — por um erro médico que paralisou os nervos deste lado da boca. É por isso que eu falo assim. Ou seja, antes de qualquer sonho, o corpo dele já carregava a marca de um erro que não foi dele: o médico errou no uso do fórceps e lesionou parte do rosto do menino, e é dali que vem aquele canto da boca caído, aquela fala arrastada que o mundo inteiro imita — e que o mundo, mais tarde, usaria como sentença para mantê-lo do lado de fora.
E a casa em que esse menino cresceu era um campo de guerra. Ela era excêntrica, animada, muito sincera, imprevisível, e eu puxei ao meu pai: meio bravo, sem dúvida. Meus pais viviam brigando. Eu já estava na cama e ouvia os gritos, ouvia as batidas, e ficava apavorado, porque tudo em volta tremia. Não é força de expressão: nas palavras do próprio irmão do Stallone, o Frank, a casa tremia mesmo quando o pai gritava e batia, e as duas crianças se encolhiam no meio daquilo. O pai era violento, de mão pesada, e não suportava a ideia de ver o filho crescer para além dele; a mãe, à sua maneira, também não foi porto seguro. Acho que eles estavam tão envolvidos com os próprios problemas que nos largaram de mão. Na maior parte do tempo, eu morava internado, ficava o ano inteiro lá, nunca ia para casa, porque eles não tinham tempo. E o povo diz que você se sente mal, que foi largado — e é verdade. E de repente o cuidado vem do respeito e do amor de desconhecidos. Ser acolhido e amado pelo público é insaciável. Eu queria não depender disso, mas não dá.
E o que faz uma criança largada dentro de uma casa dessas? Ela procura uma fresta de mundo em outro lugar. Para o Stallone, essa fresta foi o cinema. Os filmes eram uma válvula de escape. Eu passava horas a fio no cinema, não ligava para qual filme era, ficava ali vendo cinco, seis vezes. Eu queria aquela vida — o ideal, o esplendor, a dedicação, o triunfo sobre o mal. Eu sempre admirei o herói. Eu queria ser o cara que salvava as crianças de um assalto. Eu sonhava em ser o cara que salvava. Eu ficava sozinho no quarto dos meus pais, e eles tinham um espelho barato, que devia ter custado uns três dólares. Eu me olhava e fazia caras e bocas o dia inteiro. Ou eu ia ver um filme como Hércules e voltava imitando o Steve Reeves. Quando o Hércules se solta das correntes e derruba o templo, eu vi aquele ator absurdamente bonito, musculoso, o modelo de homem perfeito, e falei: é isso, eu vou ser ele. É exatamente o Rocky no espelho barato do cortiço, muitos anos antes de o Rocky existir: a criança que ninguém queria construindo, na própria imaginação, o homem que ela ainda ia ser. Ela finalmente tinha um exemplo para idealizar — e não foi o pai.
Depois vieram os solavancos de uma família que não parava de se desmontar quando Frank diz: Meu pai percebeu que não teria sucesso em Nova Iorque, e a gente foi morar em Maryland. O casamento deles era ruim. Eu cheguei da escola e não tinha ninguém em casa: minha mãe tinha ido embora. Foram para a justiça, foi um horror. Eu fui com a minha mãe para a Filadélfia, e meu irmão ficou com meu pai em Maryland, no interiorzão, só com cavalos. E aqui está o episódio que, para mim, é o coração de tudo, porque é o mesmo veneno que eu descrevi este texto inteiro. Por algum motivo, eu tinha afinidade com cavalos. Meu pai não tinha grana, mas acabou entrando num time de polo antigo. Todo mundo do polo tinha cavalos lindos, trailers, fazendas; a gente, nada. A maioria dos nossos cavalos tinha doença. E aí eu comecei a jogar polo, uma coisa bem amadora, mas fui melhorando muito. Com treze anos, entrei para o ranking de classificação nacional. Meu pai não curtiu, e no meio de uma partida eu tentei um winner side backhand, fiz tudo certo — e ele veio, no meio do campo, e derrubou tudo. Derrubou o próprio filho do cavalo, humilhou o menino na frente de todo mundo, só para que ele não brilhasse. E foi ali, exatamente ali, que o Stallone fez a promessa que atravessa a vida dele.
O JOVEM STALLONE
(no chão do campo de polo, com o pai olhando de cima)
Eu nunca mais vou fazer isso na minha vida. Eu nunca mais vou tocar num cavalo.
E ele cumpriu. Largou o polo, largou o esporte do pai, e carregou aquela cena como cicatriz e como juramento. Eu fui criado por um pai bem violento. Eu sabia como era sentir dor, e acho que decidi que ia resistir. Ele podia tentar de tudo, mas eu só ia resistir. Em parte era inveja dele. O irmão, o Frank fala sobre Sly, ele era encrenqueiro, se metia em brigas, expulso de escola após escola; e o próprio Stallone não ficava atrás. Ele passou por treze colégios em doze anos. Botaram ele num colégio militar; não ficou lá nem um mês. Ele era incorrigível, até ir para o Devereux, uma espécie de colégio para crianças desobedientes — e foi lá que ele começou a se apaixonar pela atuação. Ele era o junk dog americano, o vira-lata que nenhuma instituição queria. E, no entanto, foi justamente uma sala de aula que acendeu a primeira luz: ele topou com a peça A Morte do Caixeiro-Viajante, do Arthur Miller, e com um professor que enxergou ali dentro alguma coisa que ninguém tinha enxergado. Eu estava no palco e não sentia nervosismo nenhum: aquilo vinha fácil para mim. Havia um professor de Harvard na plateia, e ele me disse: você devia investir nessa carreira, você tem talento. E aquele momento mudou a minha vida. Foi o primeiro adulto a dizer ao Stallone que ele podia. E isso, para um menino que só ouviu que não prestava, é um terremoto.
Mas o mesmo sistema que, num canto, tinha um professor generoso, no geral tratava o menino como exemplo do que não prestava. No ensino médio, eu era considerado um exemplo de como não escrever. E tem uma cena de sala descrita de aula, no documentário, que diz tudo sobre o que estamos falando neste texto inteiro — a mesma humilhação ritual, o mesmo prazer do adulto em rebaixar a criança na frente das outras.
O PROFESSOR
(escolhendo a vítima para o escárnio)
Silvester, você pode ir ali e ler em voz alta?
STALLONE
(menino, já ferido pela antecipação)
Não, eu não quero.
O PROFESSOR
(sem dó)
Vai, porque ninguém mais quer.
E o Stallone tira, disso, a única lição que salva um homem a quem o mundo decidiu rebaixar. A rejeição é o meu desafio. Ou eu aceitava o que eles achavam de mim, ou eu teria uma opinião sobre mim mesmo. É a escolha inteira do texto, dita numa frase: você aceita a sentença que te cospem, ou você forja o próprio veredito. E entre a primeira luz e a glória houve o deserto, e o deserto foi longo. O Stallone foi para Nova York tentar ser ator, e o que encontrou foi a miséria pura. Eu me virava nas ruas, aprendi a sobreviver nelas: dormia em soleiras de porta, pontos de ônibus, estações de trem, bibliotecas. Passei muito frio. Eu ia às agências e dizia: eu quero ser cliente, não tem nenhuma vaga? Empurrava a minha foto, e eles a empurravam de volta. E os motivos que davam eram sempre os mesmos, e sempre os piores: a sua fala é estranha, o seu olho é caído, o seu rosto não serve. Ou seja, a marca de nascença, o erro do fórceps, virou a sentença que o mundo repetia para mantê-lo do lado de fora. É a frase de novo. É sempre a mesma frase. Você não é digno.
E o fundo do poço foi fundo mesmo. O melhor que eu consegui foi no Off Off Broadway, tendo que atuar seminu; era horrível. Aí me disseram que eu seria figurante. E eu comecei a acreditar nessa ideia, porque toda vez que me chamavam era para ser bandido. Eu era o coadjuvante, cuidava dos objetos cênicos, e nunca me respeitavam. Ninguém queria o Stallone como herói; o mundo tinha decidido que o lugar dele era a margem. Foi então que ele fez a única coisa que restava a um homem a quem negaram todos os papéis: resolveu escrever o próprio. Eu comecei a escrever porque não me davam os papéis. Eu não ficava esquentando a cabeça pensando no que escrever — eu escrevia. Virei porteiro e ficava vendo filmes o dia inteiro; eu tinha um gravadorzinho barato, gravava a trilha e as falas, e tentava substituir o diálogo. A gente nunca comprou um ingresso, e nunca pensou, nem por um segundo, em fracasso. Tem que ter um lugar para a gente, porque somos estranhos, e um lugar assim existe.
A primeira tentativa de criar o próprio destino foi um filme delirante, que diz muito sobre a ferida do pai. A gente resolveu fazer o filme Horses: um cowboy e um indígena que ressuscitam um século depois de serem enforcados. Entramos no carro, fomos para Beverly, alugamos armas — e quando atiramos dentro do carro, vimos que a bala era de verdade; foi uma loucura. O meu pai tinha reencarnado no roteiro como um xerife que perseguia a gente; ele está no filme e atira na gente, e adorou a cena em que nos matou. E eu achei aquilo pessoal demais, meio bíblico. Era um filme mudo, e o irmão perguntou: por que ninguém falava — porque era muito caro. Quem achou que um filme mudo funcionaria em 1971? Repare no símbolo: o pai, mesmo dentro da ficção do filho, aparece para matá-lo — e ainda gosta da cena. Era o mundo inteiro do Stallone condensado num curta esquisito.
E aí veio o papel que abriu a fresta. Ele quase desistiu de atuar de vez, até que o John Herzfeld o chamou para ajudar num teste, e na plateia estava um sujeito que acabou escrevendo Os Lordes de Flatbush. É uma questão de estar no lugar certo, na hora certa. E um dos colegas de elenco e o próprio Sly lembra da dupla improvável: ele, judeu, intelectual, estudado; eu, só desse jeito. As nossas culturas eram totalmente opostas. Henry Winkler: Ele me levou ao microapartamento dele, na Lexington Avenue, com um cachorro imenso e as janelas pintadas de preto para ele poder escrever. E é aqui que nasce o método que o Stallone repetiria a vida inteira: ele reescrevia a própria cena para poder dizer o que quisesse. Quando eu tô atrás da garota, ela fala: "senhor Rosiello, o que o senhor está fazendo?" E eu digo: eu só mudei de posição porque o sol tá batendo nos meus olhos. Aí ela volta a dar aula. Um pouco depois, eu tô mais perto, abraçando ela: e eu digo que o sol tá me perseguindo, eu já fui pra lá, vim pra cá. Percebi que era uma oportunidade de falar o que eu quisesse no filme todo. Foi ali, no valentão Stanley Rosiello — jaqueta de motoqueiro, cabelo com gel, cigarro, mas com carisma —, que nasceu o precursor do Rocky. E foi ali que ele entendeu o próprio destino: eu sabia que era difícil me escalar, eu era sempre o criminoso, agressivo, mas também legal, manipulável. Se combinassem essas duas facetas, daria um bom personagem. Me deram mil e trezentos, que serviram para comprar um carro para ir a Hollywood.
A única pessoa que eu conhecia na cidade era o Henry Winkler, que era uma grande estrela como o Fonz. Meu carro deu pau na esquina da Hollywood com a Vine — era o destino. E a primeira pessoa para quem eu liguei foi o Henry.
STALLONE
(no orelhão, sem plano B)
Cara, vem me pegar aqui. Meu carro parou. Tô no meio da rua.
HENRY WINKLER
(do outro lado da linha)
Já tô indo pra aí.
E o Henry lembra a cena com ternura: eu fui buscá-lo, e ele tinha um cachorro gigantesco. Pegamos todas as roupas dele, botamos no carro e sentamos em cima das malas. Não dava para ele ficar na minha casa, porque eu tinha um cão e uma esposa; então eu falei onde tinha um motel, e ele ficou lá uns três dias. Depois alugou um chiqueiro no Valley. E foi nesse chiqueiro, com o cachorro deitado do lado, que nasceu o filme mais esperançoso do cinema americano.
A faísca, como eu já disse, veio da luta real entre o Chuck Wepner e o Muhammad Ali — aquele ninguém que aguentou de pé, round após round, contra o maior de todos, e quase chegou ao fim. O Stallone saiu daquela luta transtornado, correu para casa e escreveu o roteiro de Rocky num jorro de poucos dias — a lenda fala em três dias e três noites de possessão. Saiu tudo de dentro dele porque não era ficção: era autobiografia disfarçada de boxe. O vagabundo que ninguém queria, o homem de fala torta que só precisava de uma chance para provar que não era lixo — era ele escrevendo sobre si mesmo. Eu me baseei em caminhos perigosos, eu queria um mafioso, um cara safo nas ruas. Eu trabalhava com o cachorro do lado, fumando, virando café para dentro. Só que, na primeira versão, o Rocky era violento demais — e foi uma amiga que datilografou o roteiro e chorou.
A AMIGA
(datilografando, revoltada com o personagem)
Eu odeio o Rocky. Odeio, odeio. Ele é cruel, ele bate nos outros, ele causa dor.
E quando o Rocky deixou de bater à toa — quando ele quase bate em alguém, xinga, mas não é cruel —, ela gostou. "E se ele tivesse uma namorada?" Ela curtiu. Aí eu também fui mudando. Ele foi se lembrando do Terry Malloy de Sindicato de Ladrões, de Caminhos Perigosos, botou uma pitada dele mesmo, e tudo fez sentido quando o personagem virou lutador.
STALLONE
(escolhendo a chance real em vez da ilusão confortável)
O que é melhor? Ser um velho iludido e ainda ter um pouco de esperança de que você teve sucesso, ou ter uma chance de fazer sucesso e ver que falhou? Eu acho que o mais fácil é você se dizer: se eu tivesse tido uma chance, eu teria acabado com isso.
E aí veio o teste que definiu o caráter do homem. Os estúdios leram o roteiro e adoraram. Ofereceram dinheiro, muito dinheiro, uma fortuna para um sujeito que dormia em rodoviária. Só que tinha uma condição: o Stallone venderia o roteiro, mas quem faria o Rocky seria um ator famoso, um nome de cartaz. E o Stallone, duro, faminto, com quase nada no bolso, disse não.
OS ESTÚDIOS
(empurrando o cheque por cima da mesa, certos de que o faminto vai ceder)
É muito dinheiro, garoto. Você pega isso hoje e nunca mais passa fome. Só que o Rocky vai ser feito por outro. Um nome de verdade.
STALLONE
(com fome de anos, e ainda assim de pé)
Não. Ou eu sou o Rocky, ou não tem Rocky. Esse papel é meu. Eu escrevi ele para mim.
Não foi uma recusa fácil. Foi recusar o que ele mais precisava, no momento em que mais precisava, para não trair a única coisa que dava sentido à vida dele. No fim, o estúdio cedeu, mas cobrou o preço: se ele fazia questão de ser o protagonista, o filme seria feito com quase nada, um orçamento apertadíssimo, e o cachê dele seria uma miséria, poucas dezenas de milhares de dólares perto da fortuna recusada. Ele topou na hora. Estava tão liso que, no início, nem conseguia cuidar do próprio cachorro, o Butkus, aquele buldogue enorme que aparece no filme — aquele cão do Rocky é o próprio cão do Stallone —; chegou a ter que vendê-lo por desespero e depois, com o dinheiro do roteiro, correr atrás para comprá-lo de volta. É esse o nível de miséria de onde saiu o filme.
A produção foi um milagre remendado. Faltava dinheiro para tudo, e várias peças se encaixaram no susto. Não deu certo com nenhum ator que eu queria, mas eles foram substituídos por atores perfeitos. Para o Apollo Creed só havia um cara perfeito: ele tinha voz, corpo e arrogância. A gente ia usar o Ken Norton, mas ele saiu dois dias antes, e eu fiquei em pânico. Eu acredito em intervenção divina. A Talia Shire também foi escolhida em cima da hora — e quando ela entrou pela porta, tinha uma luz, o cabelo bem preto, e o olhar era aquele. Eu amei ela. É uma história de amor. E era isso que os produtores custavam a entender: aquilo não era um filme de luta. O soco era o cenário; o coração era o Rocky querendo ser digno aos olhos da Adrian, querendo deixar de ser o vagabundo do bairro. Ele brigou para manter as cenas silenciosas, a lentidão do romance, contra quem só queria porrada — e ganhou essa briga. As cenas de rua foram praticamente roubadas, filmadas sem aparato. Eu saí do trailer pela primeira vez, direto para as ruas geladas da Filadélfia, e sabia que aquele era o meu momento.
O Rocky tinha um motivo para lutar, e o motivo não era grana — era orgulho, era não ser mais o vagabundo aos olhos de quem ele amava.
ROCKY
(falando para a Adrian)
Quero que você se orgulhe de mim. Quero que você fale que eu sou o seu. Eu não quero ser mais um vagabundo do bairro. Não tenho medo de levar pancada.
E há um detalhe que revela como aquilo era, do começo ao fim, autobiografia. Aquela cena em que o Rocky explode contra o Mickey — que eu já contei lá atrás, o "por que você não veio quando eu precisei?" — o Stallone confessa que a escreveu para si mesmo. Eu tinha escrito só uma fala. Aí eu fui gravar e falei: eu quero falar de mim, e vou fazer isso como se fosse o Rocky. Eu tava com quase trinta anos. Você chega aqui e me oferece isso agora? Passou. Mas eu peguei a minha frustração e levei para o Rocky. Eu desconfiava que tinha um montão de gente com aquela mesma frustração, gente ignorada, negligenciada. Eu nunca teria dito aquilo na cara do ator — teria sido um desrespeito. Ele pegou a própria dor de trinta anos e emprestou ao personagem. Por isso a cena arrebenta: não é atuação, é confissão.
E então veio o julgamento — a noite que decide se toda aquela teimosia valeu a pena ou foi o maior erro de uma vida. Antes da estreia oficial, exibiram o filme numa matinê, cinco dias antes, e o Stallone estava apreensivo, sabendo que a primeira grande crítica de Nova York, a do temido Vincent Canby, viria dali. Frank: Eu tava lá, e do nada um Sly se virou e disse: "fodeu". Com vinte minutos de filme, três quartos da plateia tinha ido embora. E os chefões do estúdio estavam ali. Eu fui afundando na cadeira. Ele achou, naquele instante, que seria um fracasso retumbante. Mas a estreia de verdade foi outra história. Eu tava do outro lado da rua, de jaqueta militar, apavorado, à beira de vomitar, e alguém, nos bastidores, virou para ele com a pergunta que valia tudo.
A VOZ NOS BASTIDORES
(pouco antes de a luz apagar e a tela acender)
Sylvester, você tá pronto?
STALLONE
(branco de medo, mas sabendo exatamente quem ele era)
Eu não. Mas o Rocky tá.
E o irmão, o Frank, ao lado dele, soltou a frase que fecha o círculo inteiro de uma vida.
FRANK, O IRMÃO
(vendo o irmão largado virar mito diante dos próprios olhos)
Sly, ou este é o melhor dia da sua vida, ou é o pior. Porque depois disto, nada nunca mais vai ser igual.
E a tela acendeu. E quando o filme terminou, quando a trilha do Bill Conti subiu e o Rocky, massacrado, chamou pela Adrian no meio do ringue, a plateia inteira se levantou. De pé, chorando e aplaudindo um homem que, dez anos antes, dormia numa soleira de porta. Parecia natureza morta: ninguém se movia, todo mundo escutava cada palavra. A plateia agia como se fosse uma luta real; do lado de fora, dava para ouvir o povo gritando dentro do cinema. Ninguém se lembra que o Rocky perde a luta, porque todo mundo queria acreditar que ele ganha. Os grandes críticos, o Canby incluído, renderam-se; o filme estreou em primeiro lugar e ganhou o Oscar de melhor filme de 1977, batendo obras que encaravam a face podre da América, e coroou o vagabundo como herói. E o Stallone fecha com a imagem que resume tudo — uma foto recente, ao lado do cinema. É a última foto minha com anônimo. A minha vida mudou, da água para o vinho. Foi o melhor dia. Foi a prova viva de que o menino do espelho, o vira-lata dos treze colégios, o homem de fala torta que dormia em rodoviária, estava certo o tempo todo, e o mundo, errado.
É por isso que a resposta não está em consertar o que já existe. O idoso defecado não possui cura. Aquele que passou três ou quatro décadas aprisionado em sua própria mente, que inverteu os conceitos de virtude e vício, que se refere como "viado" ao homem que escreve poesia e considera "sábio" o macho que não abraça o filho, que apoia sua própria destruição e ainda tem a audácia de dizer ao jovem para se virar — não vai mudar. Discutir com ele é como jogar fora a energia que você poderia usar para outras coisas. A única saída é a que a parte mais sadia da minha geração já começou a adotar por instinto, mesmo sem nomeá-la, e que estou vendo de modo intenso na Europa agora: jovens da geração Z construindo uma vida sustentável, comunidades inteiras voltadas para o trabalho rural, cuidando dos filhos e educando as crianças de forma clássica e tradicional, apreciando o que é genuíno e autêntico, negando a fragmentação da vida urbana e se opondo à modernidade que os adoeceu. É desconsiderar o que está danificado e procurar motivação onde ela ainda permanece intacta — nas obras clássicas. Em Aristóteles e Aquino, em Shakespeare e Homero, em Rocky e Joe, e no homem que, num gesto de delicadeza, chora de costas para não apavorar a mulher que ama, mas que ainda assim ousa entrar no ringue.
Eu sei do que estou falando, pois fiz isso muitas vezes quando era criança. Aos 8 anos, consegui o que pouquíssimas crianças conseguem: tirar todos os meses a nota máxima em um teste que até os professores ficaram surpresos. Quais foram as atitudes do meu pai e da minha mãe? Elas fizeram uma cara de desagrado e disseram que aquilo era apenas o mínimo do que eu deveria fazer. Nesse instante, eu decidi: sabem de uma coisa, agora eu vou me afastar de vocês e seguir a minha própria vida. É ótimo que eu tenha me tornado dessa maneira. Se eu não tivesse feito essa escolha, talvez hoje eu estivesse vivendo uma vida de fracassos, casado às pressas e com um filho apenas para satisfazer pais que nunca conheceram. Porque quando sua criação foi retirada de você, o que restou? Você é o único que restou. Os heróis me ensinaram isso, e é precisamente essa mensagem que estou aqui para transmitir àqueles que sofreram a mesma injustiça que eu: não se deixe levar por essa afirmação. Aquela mentira que você ouviu a vida inteira, que você não pode, que você não vai, que você pode ser trocado por qualquer um — é uma mentira, a mais antiga de todas. Você pode conduzir outros com seus pensamentos. O que você faz pode, de fato, fazer a diferença entre a vida e a morte. Se ninguém acreditou em você, não se importe: o Rocky pode ter perdido a luta, mas saiu vitorioso por ter conseguido ir até o fim em pé.
Ela ainda está viva. Esse é o milagre da geração rejeitada pelos pais, escanteada de modo zombeteiro, a ponto de eles terem afirmado que não era merecedora, e ela, com bravura, foi atrás dos heróis e santos para entender o valor que carregava. A esperança deixou de ser uma fonte de lucros e se tornou fogo quando a trataram como uma matéria-prima. Quando a porta se abrir e a música tocar, o que estará em pé no ringue não é o velho tolo — é a criança negada, agora homem, dizendo, com o rosto marcado e a voz firme, que só queria chegar ali e que custe o que custar, conseguiu. Ninguém fez apostas, mas, ainda assim, ocorreu.
Preciso terminar da única maneira que me parece autêntica: agradecer. Agradecemos a cada pessoa que acompanha o Círculo de Estudos Nous, que lê, escuta, discute, discorda e volta — é esse público que nos permite crescer. Nós continuaremos a aprofundar e intensificar isso a cada dia, com mais profundidade, mais energia e mais autenticidade — essa pequena chama que se recusou a apagar.
REFERÊNCIAS FILOSÓFICAS E CLÁSSICAS
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção Os Pensadores).
HOMERO. Odisseia. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.
PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.
TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. São Paulo: Edições Loyola, 2001-2006. 9 v.
VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Tradução de José Viegas Filho. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1979.
REFERÊNCIAS LITERÁRIAS, CULTURAIS E CINEMATOGRÁFICAS
ASHITA NO JOE. Texto de Asao Takamori (pseudônimo de Ikki Kajiwara); arte de Tetsuya Chiba. Tóquio: Kodansha, 1968-1973. (mangá).
MEGALO BOX. Direção: Yō Moriyama. Produção: TMS Entertainment. Japão, 2018. (série de animação).
MILLER, Arthur. A Morte do Caixeiro-Viajante. Nova York, 1949. (peça teatral).
ROCKY, um lutador. Direção: John G. Avildsen. Roteiro: Sylvester Stallone. Estados Unidos: United Artists, 1976. (filme).
SIEGEL, Jerry; SHUSTER, Joe. Superman. In: Action Comics, n. 1. Nova York: DC Comics, 1938. (história em quadrinhos).
SLY. Direção: Thom Zimny. Estados Unidos: Netflix, 2023. (documentário).
TORIYAMA, Akira. Dragon Ball. Tóquio: Shueisha, 1984-1995. (mangá).
REFERÊNCIAS CONCEITUAIS
CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia (COF): a teoria das camadas da personalidade. São Paulo: Seminário de Filosofia. (curso; aulas orais).

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