A Criança que Sobreviveu à Camada Quatro
Há homens que nunca deixam de ser meninos, mesmo com a idade avançando. O corpo cresce; a alma permanece instalada na porta do amor. Qualquer sucesso ou conquista de outra pessoa é visto por eles como um ataque pessoal. Além disso, para manter sua condição atual, eles criam dentro do crânio um universo inexistente. Chamam este mundo de verdade — e dão a vida para defendê-lo. Todo tolo pensa que encontrou o sentido da vida no momento em que deixou de se desenvolver. Chama, de fato, o ressoar do próprio crânio, a bravura à teimosia, e a genuinidade à corrente da tribo. Enquanto a criança que ele não sepultou persiste em sua posição diante da porta do amor, insistindo, exigindo, martelando, o homem que ele poderia ter se tornado envelhece do lado de fora, aguardando a permissão para entrar. Para aqueles que ainda estão dispostos a ouvir, a recomendação é clara: desenvolva-se enquanto a dor é menor.
Gabriel G. Oliveira
7/27/202672 min ler


Da quarta camada ao hexagrama da destruição: o ego que nunca foi cortado, a gnose que se cria internamente e a ruína que ela provoca.
Este texto possui uma crítica bastante severa, e já vou deixar claro desde o início para que ninguém se iluda quanto ao tom: ele é engraçado e cruel na mesma medida em que o tema abordado é engraçado e cruel. Nos EUA, há um arquétipo social conhecido como Karen — uma pessoa imatura e barulhenta, que transforma qualquer aborrecimento em um grande incêndio. Lá, isso representa uma minoria marginal. No Brasil, a Karen não é uma exceção: quase sempre é a norma. Affirmaria, sem recorrer a hipérboles retóricas e com toda a comicidade que a verdade frequentemente requer, que aproximadamente noventa e oito por cento da população brasileira é desse modo, enquanto apenas cerca de dois por cento conseguem se livrar dessa característica. Não tenho ideia de qual é o nome masculino equivalente a Karen em outros países, mas, para os meus propósitos, isso é irrelevante, pois estou agrupando tudo na mesma categoria. E, do ponto de vista social, quem são essas pessoas? Em uma perspectiva cômica, podemos dizer que são pessoas realmente infelizes. É o que há de pior. Affirmo isso com a risada de alguém que já sofreu bastante nas mãos dessas pessoas e que aprendeu a rir para não perder a sanidade.
O que caracteriza essa criatura não é a idade, mas sim a sua constituição. São indivíduos que possuem uma infantilidade extrema — e quando digo extrema, me refiro a um nível realmente profundo. Elas constituem, palavra por palavra, a pequena figura que reside na quarta camada da personalidade, aquela que qualquer pessoa que tenha lido apenas algumas linhas do professor Olavo de Carvalho é capaz de identificar imediatamente. É necessário que eu confesse, com a mais absoluta sinceridade que este texto exigirá do início ao fim, que nutro um profundo desprezo por esse tipo de pessoa. Detesto. Nem me atrevo a me aproximar. Quando alguém assim surge em um grupo onde estou, sou eu quem inicia a briga com essa pessoa — sempre acontece, é quase automático. E que ninguém me acuse de maneira preguiçosa de ser preconceituoso, pois eu não nutro preconceito algum em relação a qualquer tipo de pessoa. Tenho amigos e familiares de todos os tipos que se possa imaginar, e são realmente muito variados. O único tipo de preconceito que tenho, e que não escondo, é em relação ao idiota. Se houvesse a possibilidade de classificar os idiotas como uma classe social, essa seria a única classe contra a qual eu reconheceria ter uma aversão profunda, quase inata.
E é essencial consolidar o vocabulário aqui, pois a palavra idiota, dentro do Círculo de Estudos Nous, não é um insulto genérico. O idiota não é o incapaz, nem o enfermo, tampouco aquele que nasceu com uma deficiência imposta pela natureza. O idiota é aquele que, teimoso, arrogante e desinformado — desinformado no sentido literal de não ter conhecimento algum sobre o que está comentando — se comporta como um burro. É o que designamos como jumento no deck sagrado da perdição, o arquétipo repugnante que permeia todos os nossos estudos. É aquela pessoa que, longe de ter sido mal construída, acumulou uma série de limitações cognitivas devido à visão de mundo repugnante que optou por adotar. Considere um exemplo prático, daqueles que encontramos no dia a dia: um homem de quase trinta anos que vê preconceito em tudo, que percebe em cada situação uma tentativa de ofensa — não uma agressão física, mas uma ofensa à sua honra —, que se emociona intensamente em diversas ocasiões, que deseja ser o centro das atenções em qualquer grupo, e para quem ninguém, absolutamente ninguém, pode se colocar em uma posição ligeiramente superior a ele. Em certos momentos, isso ocorre de forma quase involuntária: ele não consegue aceitar, em sua essência, que outro ser humano tenha uma posição mais alta do que a sua naquele pequeno grupo. Se você se posiciona acima dele — seja de forma brincalhona ou porque realmente possui mais formação ou habilidades em qualquer aspecto —, se você demonstra ser um pouco superior em qualquer área, ele se sente profundamente desafiado. É um homem que vê desaforo precisamente em quem está acima dele. Este é o retrato do tolo da quarta camada, e é essa imagem que todo este texto irá buscar incansavelmente.
Essas pessoas costumam ser bastante emocionais e têm um comportamento infantil — afinal, são indivíduos cuja mentalidade não se desenvolveu. Pode ter quarenta, cinquenta anos, e continuar plantado ali. E isso normalmente se estende à quinta camada também; quem é assim quase sempre transita entre a quarta, a quinta e a sexta. O sujeito de sexta camada às vezes escapa um pouco desse padrão, e por um motivo bem prosaico: o de sexta está preocupado em ganhar dinheiro, em ser alguém na vida, e por isso não tem muito tempo sobrando para se sentir ofendido com cada merda que passa. É mais ou menos ali, chegando à sexta, que a pessoa começa a se afastar dessa lógica infantil. Mais adiante detalho cada camada com o cuidado que elas merecem; por ora basta a moldura.
Essa pessoa, em termos operacionais, se distingue por sua facilidade em provocar conflitos e, frequentemente, se arrepender das besteiras que comete, uma vez que é inclinada ao eros — sujeita às suas próprias emoções e desejos, tornando-se escrava deles. É uma criança dentro de um corpo adulto, e não há como suavizar essa verdade. Também aproveito para desmentir, de forma rápida, uma tolice protestante, que é a noção de que a criança não peca. Há, sim, e em grande quantidade. O que acontece, e a própria Escritura permite essa interpretação, é que os responsáveis pelo pecado da criança são os pais — são eles que pagam a conta. Isso não implica que a criança esteja isenta de pecados; simplesmente significa que a responsabilidade é atribuída a outra pessoa. A perspectiva protestante sobre a inocência das crianças mistura os conceitos e acaba se equivocando em ambos.
Para quem deseja verificar de maneira empírica o que estou afirmando, existe um método bastante simples: torne-se professor ou, pelo menos, passe tempo próximo a crianças com idades entre seis e doze anos. É uma criatura, meu Deus, que eu posso afirmar: detestável, ciumenta, maldosa quando deseja. Até os sete, oito anos ainda é aceitável; mas entre os oito e dez anos, é como se Deus desse um pequeno intervalo e a criança se transformasse em um verdadeiro furacão. Ela inicia a formação desse tipo de pensamento aproximadamente entre seis e sete anos, mantém essa fixação de maneira mais intensa entre oito e dez anos, e então, por volta dos onze a doze anos, começa a abandoná-lo. Esse é o pensamento de quarta camada, ainda não refinado, em seu ambiente natural, que é a infância. O drama — e é nesse ponto que a comédia se transforma em tragédia — reside no fato de que muitas pessoas não conseguem se desapegar. Continue assim até envelhecer. Incomoda-se com trivialidades, ou ainda pior, fica ofendido porque outra pessoa alcançou algo positivo. O ego é tão imenso que ninguém pode se igualar a ele, e ainda menos superar. Alguns chegam a ser aceitos no mesmo nível; no entanto, acima disso, nunca. Quem se aventurar a subir será alvo de escrutínio, perseguido e sabotado por esse indivíduo em particular.
Esse indivíduo possui características básicas que são facilmente identificáveis, e a primeira delas é o estereótipo do babacão. Qual é a origem da palavra babaca? Surge a partir da ação de ser o brincalhão — entre aspas — sem rei, sem limite algum. É o tipo de pessoa que não se importa em ofender os outros. Ao seu lado encontra-se o amigo, o familiar, seus próprios pais ou até mesmo o irmão, e ele ainda assim faz a piada. Às vezes, ele utiliza os segredos dos outros durante a diversão. É a pessoa que não tem limites quando se trata de humor, que faz piadas cruéis, realmente cruéis, e que, diante da expressão de todos, simplesmente diz que não se importa. Quando a vítima se sente ofendida, e, em algumas ocasiões, chega a revidar, ele ri; no entanto, depois, ao perceber que isso resultou na perda total da amizade, tenta retratar-se. Por que razão? Pois representa o arquétipo verdadeiro da juventude, e a juventude não tem noção de como brincar. Um jovem, até cerca de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, ainda não consegue distinguir entre uma ofensa e uma verdadeira brincadeira. Ele recorre à zombaria e, quando é confrontado, sempre repete a mesma justificativa: mas era uma piada; mas todos se divertiram. Ele não age assim apenas uma vez, mas sim de forma insistente, às vezes até em sequência, para te rotular como o moralista irritante do grupo.
Observe o mecanismo, pois ele é sempre o mesmo. O idiota de quarta camada pega os seus segredos e os ridiculariza diante do grupo. Ela age dessa maneira precisamente porque tem uma opinião diferente da sua e não tem fornecido nenhuma resposta para você. Ele não irá contestar, nem se corrigir, nem procurar uma argumentação — apenas fará zombarias. Vai criar uma brincadeira de mau gosto para que todos te desprezem, ou seja, para te rebaixar ainda mais. É isso que se esconde sob a superfície do riso: ele está te esmagando. Esse tipo de pessoa geralmente se comporta dessa forma; é muito raro encontrar alguém que não siga essa tendência. Ele ri repetidamente do mesmo alvo, sem perceber o limite que está ultrapassando. Existem certas coisas que, quando expressas, ofendem de maneira inevitável: ofender a família da pessoa, ofender o que ela possui, ofender seu trabalho, prejudicá-la financeiramente, desmerecer sua honra e divulgar uma confidência importante em um grupo como uma piada. Tudo isso é uma falta de respeito com o cara. E o que realmente complica é fazer isso na frente dele — é como estar solicitando um soco na boca.
Ao se deparar com uma pessoa desse tipo em um círculo de amigos, a lógica pode ser cruel, mas é clara: ou você se distancia desse grupo, ou você remove essa pessoa do grupo, pois uma convivência a três não é viável — no final, um de vocês dois acabará sendo excluído. Quando ele consegue te alcançar — o que aqui chamamos de levar alguém a Cristo — ele faz isso com a intenção de zombar, para ridicularizar de forma constante. Ele normalmente opta pelo membro mais desenvolvido do grupo, não apenas em termos de mentalidade, mas também em relação a posses: aquele que é mais maduro, que possui mais bens, ou, em um grupo menos favorecido, aquele que atrai mais mulheres do que os demais. Com isso, ele tornará a vida uma verdadeira tortura. Portanto, reitero o que sempre afirmei: diante de uma pessoa assim, existem apenas duas opções sinceras. Ou você se afasta e sai, ou você faz com que seus amigos percebam o mal que ele representa — que é exatamente isso — e o exclui do grupo gradualmente. Às vezes, você precisará, mesmo que temporariamente, confrontar os próprios amigos, pois esse tipo de indivíduo abala sua reputação dentro do grupo, causando danos que podem ser quase irreversíveis.
Daí a diretriz prática que sempre reitero: evite compartilhar informações pessoais em um grupo de amigos. Somente a uma pessoa que é um amigo de confiança absoluta, com a cabeça sempre no lugar. E o que significa ter a mente clara, no linguajar que usamos aqui em Primavera? É ser a pessoa que, mesmo quando está furioso com você e sente a vontade de agredi-lo, não revelará seu segredo em uma roda de amigos — nem na sua presença, nem na ausência. Ele simplesmente não o faz. Esse é alguém a quem você pode recorrer para obter conselhos, e com esse você pode contar. Os demais, não. Embora afirmem ser seus amigos, os outros têm plena capacidade de revelar seu segredo em uma conversa, e é nesse momento que os problemas começam. Pois o idiota do grupo vai pegar isso e usar para zombar de forma ainda mais cortante. É fundamental compreender de uma vez por todas: aquele indivíduo que ridiculariza você não é seu amigo, mas sim seu inimigo. Ele deseja arruinar você. E questiona o fato de você ser superior a ele, assim como o motivo pelo qual ele sente a necessidade de ser o mais importante do grupo.
De que maneira podemos reconhecer um sujeito dessa natureza? É fácil. Ele começa a zombar apenas de você, e às vezes de maneira exagerada — o que é totalmente incoerente, pois não faz sentido que alguém insista em perturbar sistematicamente apenas uma pessoa do grupo. Ou apenas com dois ou três. Entre dez indivíduos, ele escolherá focar nos três, nos dois ou apenas em um deles. Somente neles. Ou então vive criando tumulto, convocando a pessoa visada do nada para discutir dentro do próprio grupo de WhatsApp. Este indivíduo em particular é o seu inimigo, e é fundamental que isso esteja muito claro em sua mente. Enquanto tiver a oportunidade de complicar a sua vida, ele vai complicar — mas não age da mesma forma com quem é superior a ele. É realmente lamentável ter uma pessoa desse tipo em um círculo de amigos, pois, além de te fazer parecer fraco diante dos outros, ela te retrata como alguém em quem não se pode confiar. É como se dois leões lutassem em um espaço confinado: o que conseguir eliminar o oponente se proclamará como o mais forte. É comportamento animal, realmente. Muitos não têm consciência de que estão agindo dessa forma, mas, em seu íntimo, em sua essência animal, é precisamente isso que está em disputa — dois seres lutando por território. Não há como escapar desse contexto, pois trata-se de uma disputa por espaço.
Esse indivíduo mesquinho pode até criar falsidades a seu respeito, com o intuito de minar a confiança que os outros têm em você no grupo. É isso que ele deseja, e você precisa ter isso em mente: de jeito nenhum confie nele. Qual deve ser a nossa resposta a isso? Da mesma forma que ele age, mas invertendo os papéis: corroer a confiança que os outros depositam nele — que, aliás, é uma pessoa que de fato não merece confiança alguma — revelando para o grupo quem ele realmente é. Há também um aspecto significativo em relação à maneira como essa exposição é apresentada. Esses indivíduos são tão imaturos que, frequentemente, iniciam piadas de conotação sexual com você. É como se o tiramisu estivesse se divertindo ao deslizar a mão, sugerindo de maneira sutil. Esse tipo de comportamento é exatamente o que observamos em algumas tribos de macacos: quando o membro mais fraco do grupo começa a se fortalecer e se desenvolver, o macaco dominante intervenha de forma a subjugá-lo, com o intuito de torná-lo, por assim dizer, sua fêmea, para evitar qualquer tipo de confronto. Não é uma invenção da minha parte; existem diversas tribos de primatas que se comportam exatamente dessa maneira. O que esse sujeito está fazendo, com a brincadeira de conotação sexual, é uma forma de afirmar posse sobre você. Porque a ordem é sempre a mesma: primeiro, a provocação com uma piada de mau gosto; em segundo lugar, a insinuação de conotação sexual; e, por fim, o momento em que nem ele nem qualquer outra pessoa do grupo tem mais qualquer tipo de confiança em você, fazendo com que todos te vejam como um fracasso, no sentido de fragilidade. É um passinho atrás do outro, sempre rumo ao inferno.
Ao atingir esse terceiro nível, meu irmão, a única opção que resta é sair do grupo. Você não pode mais considerar aquelas pessoas como suas amigas, pois o idiota conseguiu destruir a confiança que todos tinham em você, e fez isso com mentiras e brincadeiras de mau gosto. Como resultado, todos começam a te enxergar como alguém insignificante. E não se engane: é necessário romper a amizade com todas aquelas pessoas, sem exceção. Por qual motivo? Pois quando você estiver em outro grupo e reencontrar os antigos, eles virão até você e começarão a zombar. Em outras palavras, eles conseguiram perceber quem era o idiota. Começam a ser aqueles que zombam de você na frente dos novos amigos. E agem assim porque, devido à influência do primeiro, aprenderam a te enxergar como insignificante, como alguém que não merece respeito por ser tão fraco. É por isso que eu reitero: em meio a um grupo de amigos, é fundamental ter extrema cautela com esse tipo de pessoa.
Falo com conhecimento de causa, pois vivenciei isso pessoalmente. Quando eu era garoto, creio que tinha aproximadamente onze anos, isso aconteceu comigo. Eu era mais alto do que o gordinho que estava me irritando; eu era mais forte, mais capaz, e também tinha mais educação, no sentido de ser um jovem bem-educado. O gordinho não tinha importância alguma, e afirmo isso de maneira enfática — era realmente um nada, um nada, um nada —, mas ele era o idiota do grupo na escola onde eu estudava, que se chamava 13 de Maio. Esse garoto conseguiu destruir a minha imagem de forte diante do grupo a ponto de todos na sala me enxergarem como um desgraçado, um repugnante, um lixo. De repente, um homem fraco. A consequência foi rápida e severa: eu, que era um cara muito popular na sala, com várias meninas interessadas em mim e querendo ter um relacionamento, de repente não conseguia mais me aproximar de nenhuma delas. As garotas já não queriam mais se aproximar de mim. Naquela época, eu nem tinha a intenção de namorar alguém, pois me considerava ainda muito jovem; eu era maduro o suficiente para reconhecer que não seria capaz de manter um relacionamento, uma vez que minha mentalidade ainda não estava totalmente formada — ao contrário das meninas de lá, que desejavam isso. Eu era o garoto simpático do grupo, aquele que entrou e fez amizade com quase todos, e aquele menino gordinho, percebendo que eu era o queridinho, acabou com toda a minha reputação. Ele agiu como um chupim: arruinou a minha reputação perante todos e, em seguida, proclamou a si mesmo como o queridinho da sala, enquanto eu fiquei em uma situação lamentável. Foi literalmente uma briga moral — e é isso que as pessoas não conseguem entender.
Porque a pessoa que é verdadeiramente seu inimigo é a pessoa que é má, e essa pessoa é, quase sempre, a de quarta camada. Tenho plena consciência disso, não apenas por teoria, mas porque, de fato, já tive uma namorada com essas características. Eu tive um relacionamento com uma garota por um período, que vai mais ou menos de 2019 a 2021. Não consigo lembrar exatamente quando, já que, após quatro anos, esse tipo de detalhe temporal tende a se apagar na memória. Por que ela era mal-educada e eu acabei o relacionamento? Pelo fato de ser paranoica, possuía todas as características da quarta camada. Ela criava uma bola de neve de conspiração em sua mente, uma hipnose psíquica, interpretando o mundo de acordo com sua perspectiva, e pronto — a realidade que ela estabelecia era a única que realmente existia. Quando cheguei ao fim, pois já não suportava mais, ela começou a me tratar de forma desprezível na frente dos outros, pois desejava se afirmar como a mais superior, a forte do relacionamento. Isso, afirmo sem hesitação, é uma das características mais deploráveis da mulher contemporânea: tratar o homem como se fosse um idiota, quando, na verdade, a verdadeira tola é ela, que toma tal atitude, desestabilizando a posição do homem na relação para assumir o papel masculino. Nessa mudança de papéis, o homem passa a ser a fêmea da relação, enquanto ela assume o papel de machão. É precisamente isso que o feminismo implantou na mente das mulheres.
Eu nunca fui o tipo de pessoa que se submete a isso; pelo contrário, considero isso uma grande tolice. A mulher possui uma característica que, de forma natural, atrai o homem: a sua feminilidade e a sua docilidade. Com o passar do tempo, o homem também se torna mais dócil ao seu lado. O conflito surge quando a menina se dá conta dessa submissão e passa a querer tirar proveito disso, quando deseja ocupar a posição dele na relação, quando quer ter total controle sobre tudo e não permite que você saia com os amigos, pois acredita que você possa se meter em encrenca. Esse tipo de mulher é uma das pessoas mais desprezíveis que existem, e eu levo isso muito a sério em minha vida, por uma razão simples: minha mãe é literalmente esse tipo de pessoa. Meu pai passou por muitos sofrimentos devido a ela nesse relacionamento, e não foram poucos. Minha mãe era a típica mulher mimada, filha de um fazendeiro, que recebeu tudo de forma facilitada até atingir os dezessete ou dezenove anos — até que meu avô, que era o proprietário de tudo, entrou em falência, vendeu a maior parte das terras, e ficaram apenas ela, os irmãos mais novos, a minha tia e, posteriormente, os dois tios. E, mesmo após o pai e a mãe perderem sua riqueza, minha mãe manteve um estilo de vida de dondoca.
Tudo lhe dava nojo, tudo era motivo de reclamação; era a mulher mandona, o arquétipo exato da idiota de que falo no Círculo de Estudos. É como se, na quarta e quinta camada, quando o negócio encrosta no interior da pessoa, aquilo virasse sujeira grudada na alma. Minha mãe sempre viveu assim: tudo a ofende, nada lhe parece bom, tudo tem de ser feito por ela mesma, de tudo ela reclama, nada está à altura. Meu pai sofreu tanto que uma vez, numa conversa reservada, me disse: cara, quando eu estava no começo do relacionamento com a tua mãe, não sei nem como não larguei ela, porque a tua mãe é insuportável. E é mesmo, quando ela quer. Ela xingava meu pai — cê não vai me ajudar, cê não vai fazer isso —, e meu pai respondia: tudo o que eu faço você acha ruim, então eu não faço mais nada. Meu pai era muito parecido comigo nisso. Você não gostou? Portanto, não o farei mais. Que você se dane. Quando ela começava a se queixar excessivamente e a se intrometer sem razão, ele interrompia: ah, é? Portanto, não farei isso novamente, jamais. Era a única maneira de enfrentá-la, e ele mesmo afirmava que era a única forma de fazer com que Jani o respeitasse. Eu tenho uma abordagem semelhante com a minha mãe: preciso estabelecer limites constantemente, pois se não o fizer, ela acaba se aproveitando da situação.
É exatamente nesse ponto que reside a essência da quarta camada. Ela age como uma criança: se você não estabelece limites, ela tira proveito da situação. Você inicia atendendo às suas solicitações — vai lá e realiza —, e então ela passa a exigir uma coisa, em seguida outra, e depois mais uma. Quando você se dá conta, já se tornou um pequeno escravo dela. Não é suficiente fazer de qualquer maneira que funcione bem; tem que ser exatamente como ela quer, pois a partir daí, ela começa a exigir tudo e mais um pouco. Quem teve muitos namoros e relacionamentos longos, entende que essa quarta camada, essa infantilidade, é quase normal na mulher moderna. Isso é compreensível, pois a mulher moderna sempre foi vista como a "princesinha", aquela para quem o homem tem de fazer tudo, e se não fizer, é ruim, não presta para casar. Foi isso que foi repetido insistentemente para ela. Você pode notar: a filha que sempre foi considerada a princesinha da casa geralmente será a menina da quarta camada, pois não amadurece. A irmã que recebeu mais socos no rosto e cuja existência quase não importava para os pais tende a se transformar em uma mulher de caráter, uma mulher exemplar para a vida, e uma excelente opção para o casamento. Isso se aplica não apenas às mulheres, mas também aos homens. O filho que é mais valorizado dentro da casa — e isso é algo que a psicologia também reconhece — frequentemente acaba enfrentando mais dificuldades na vida, enquanto aquele que é mais rejeitado, menos apreciado e que, porventura, levava mais reprimendas, é geralmente o que se sai melhor. Isso acontece sempre.
Eu percebi isso de maneira evidente em minha mãe. Era a pequena princesa do lar; à medida que crescia, meu pai se dedicava a satisfazer todos os seus desejos, e o ponto fraco do meu pai era que, nesse aspecto, ele era leniente com ela — não estabelecia nenhum limite, exceto o famoso "não vou fazer". Eu dizia a ela para fazer de uma certa maneira, e ela fazia o oposto, de propósito, apenas para me irritar. Atualmente, aos quase sessenta anos, ela continua a ser dessa maneira, pois é uma pessoa com limitações. E não se limitava a isso: toda vez que eu alcançava algo positivo em minha vida, ela imediatamente me encarava e afirmava que foi ela quem fez tudo por mim, que havia se empenhado em tudo para me ajudar. É por isso que afirmo que aqueles que pertencem à quarta, quinta e até mesmo à sexta camada geralmente são pais bastante inadequados. Tudo que eu conseguia, minha mãe endossava como se fosse dela, mesmo quando, na maioria das vezes, não tinha me ajudado em nada. É por essa razão que não expresso gratidão alguma à minha mãe — absolutamente nada, nada, nada. Ela arruinou minha vida muito mais do que a tornou melhor. Era alguém que, em vez de oferecer apoio, apenas tornava as coisas mais difíceis para mim, sempre por causa da quarta camada, devido a uma mente limitada. Dava-me orientações que eram completamente desconectadas da realidade, sempre prevendo o pior. Este é o traço característico da quarta camada: ela acredita que você é incapaz, e te trata como se fosse a criatura mais estúpida do planeta, exatamente para te humilhar na frente dos outros.
Ela se apropriava de tudo que eu conquistava, agindo como um parasita, e passava a atribuir a si mesma esses feitos. Além de ser uma usurpadora — tanto de ideias quanto de conquistas —, sempre me retratou como o vilão da situação, para que os outros começassem a me ver como o tolo da narrativa. É característico da quarta camada sempre rotular como o mal supremo aquele que discorda dela ou que a confronta. Como alguém que convive com uma mãe de quarta camada, eu entendo perfeitamente como as coisas funcionam. Como consequência, meus próprios familiares me percebiam, durante minha infância, como a pior pessoa do mundo — tudo isso devido a uma mãe que, na minha criação, se comportava de maneira terrível. Recentemente, conversei com um amigo e disse a ele: meu amigo, se eu me casar com uma mulher que seja semelhante à minha mãe, serei um homem amaldiçoado, pois isso seria a coisa mais terrível do mundo. Meu pai só conseguiu sobreviver porque tinha o controle do "não vou fazer". Se ele pedisse para ela fazer algo, ela faria o oposto só para irritá-lo. Tudo o que dizia tinha uma intenção oculta. Quando eu tinha apenas seis ou sete anos, ela acreditava que eu era o garotinho que estava sempre tentando arruiná-la aos olhos do meu pai. Ela era, de fato, a pessoa mais querida na relação, e mesmo assim me causava todo tipo de sofrimento: agredia por qualquer motivo, destruiu coisas e dizia que eu é que tinha feito. Ela era uma das mães mais negligentes que já conheci. Quando meu pai chegava, ela — a quem eu perturbara — dizia que eu havia quebrado o objeto e meu pai, sem questionar, me punia.
Em um determinado dia, meu pai começou a perceber que era ela quem causava os danos e, em seguida, me responsabilizava. Aí surgiu o "ai", eu esqueci — mentira, era ela querendo se safar da responsabilidade, como tentou a vida inteira. Quando indiquei com o dedo para ela e meu pai hesitou em acreditar, eu a insultou e afirmei: foi você, sua maldita, você é a responsável por tudo isso. E, a partir daí, quando eu tinha cerca de sete ou oito anos, ela fez da minha vida um verdadeiro inferno, pois começou a acreditar que eu estava conspirando para prejudicá-la na frente do meu pai — pensava que havia uma trama secreta e que eu era o vilão por trás disso. Chegava a esse ponto de esquizofrenia. Por isso, esta é a grande lição que permeia todas as qualidades que observei, tanto nos amigos inconvenientes quanto na minha mãe: a pessoa da quarta camada jamais reconhecerá um erro. Nunca. Ao contrário, ele/ela vai atribuir a culpa a você. Até hoje, minha mãe age da mesma forma: se deixa cair e quebrar algo no chão, culpa quem estiver por perto. Certa vez, ela pegou um objeto e logo em seguida o deixou cair. Eu a avisei, dizendo: "Olha que vai cair", mas não fiz nada além de avisar, pois sabia que se eu pegasse e recolocasse, ela tornaria a largar — é teimosa nesse nível. Por mais que você fique irritado e jogue o objeto contra a parede com raiva, ela vai continuar agindo da mesma forma. Era uma ausência de controle por parte do meu avô, uma falta de estabelecimento de limites. Quando eu sugiro algo para ela, ela se recusa a fazer, simplesmente por teimosia, mesmo que a solução que estou oferecendo a beneficie muito mais do que o que ela está insistindo em fazer.
Preste atenção ao perfil detalhado, pois ele se reproduz com uma precisão quase automática. A pessoa da quarta camada nunca se responsabiliza; ela sempre se vê como a melhor e considera os outros da pior forma possível — ou como os mais imbecis, ou como os incapazes, ou como aqueles que estão mentindo. Ah, você está dizendo isso de forma errada. Ah, não tem capacidade. Ah, não dá. Sempre a mesma ladainha. E, no fundo, o que ela realmente deseja? Ela possui um ego extremamente elevado, uma vez que, durante sua infância, esse ego nunca foi controlado. Por não ter recebido a poda necessária, ela sempre busca ter a razão e se mostrar superior ao outro, mesmo que este seja infinitamente maior do que ela. Nunca vai assumir os erros dele, vai te culpar por tudo que fizer de errado, ainda vai querer ser superior a você — até mesmo tomando suas medalhas, suas conquistas. Após estar em um grupo ao seu lado e levá-lo a Cristo, ela cria toda uma estrutura para desestabilizá-lo internamente. Não faz diferença se é da família ou um amigo — ela tentará arruiná-lo dentro do grupo. Depois de alguns dias, você percebe que todos agora o enxergam como um monstro, um fraco ou um pobre coitado. Essa pessoa age de maneira similar a um demônio, corroendo lentamente a sua imagem, da mesma forma que um demônio enfraquece as virtudes de alguém até levá-lo completamente ao vício.
Portanto, a primeira pessoa que reconheço dessa maneira em um grupo é a primeira com quem provoquer confusão, pois meu verdadeiro desejo é que ela se retire daquele lugar. Chamo esse indivíduo de imundo porque age como uma contaminação que se propaga entre os outros; de repente, todo o grupo se transforma em um conjunto de idiotas — todos, exceto aquele que for mais superior a ele, pois é nesse caso que ele tentará cuspir em seu rosto. Isso se torna evidente até mesmo dentro da própria família, se você começar a refletir sobre isso. Compartilhe no grupo familiar e conte sobre uma vitória sua. Diga, por exemplo, quando você se formar: consegui aprovação em todas as matérias com nota máxima, sempre obtive as melhores notas. De repente, surgirá um primo, um tio, uma tia ou até mesmo seus próprios pais para lançar no grupo uma ofensa disfarçada. Ah, você está com um ego inflado. Ou então: ah, mas ainda comete erros de escrita — quando na verdade você apenas esqueceu uma vírgula e a própria pessoa escreve incorretamente muito mais do que você. O que ela deseja é roubar a sua conquista, deixá-la vazia. Então, alguns dias depois, ela compartilha sua conquista, e todos aplaudem, porque a sua já foi desvalorizada. Essa pessoa é seu adversário, independentemente de ser pai, mãe, primo, amigo ou tio. Ela deseja arruiná-lo na frente dos outros, quer se sobressair em relação a você, e, embora nunca admita isso, é exatamente isso que almeja.
Expor uma pessoa assim é a melhor abordagem dentro de um grupo. Ele é um canalha que realiza essas e essas ações — essa é a exposição. Evite fazer piadas ou brincadeiras de forma depreciativa; nesse contexto, você pode acabar piorando a situação. É verdade. Somente dessa maneira esse indivíduo se sente ofendido e para de te incomodar. Ele se comporta como qualquer valentão de escola, que só recua quando percebe que você é mais forte. Você se recorda do garoto do 13 de Maio, aquele gordinho que arruinou completamente a minha imagem? O que eu fui fazer? Ele se considerava superior a mim, agredia e causava problemas. Foi então que cheguei e dei-lhe um soco na boca. É fundamental que eu seja claro aqui, pois não desejo ser mal interpretado: o que vou relatar não é uma promoção ou incentivo — trata-se de crianças. A criança, lamentavelmente, tem a cabeça muito similar à de um animal, e frequentemente aprende apenas na base da experiência dolorosa. É por essa razão que, até os dias atuais, utiliza-se o pequeno chicote para conduzir o boi em direção ao curral: não com a intenção de feri-lo, mas para indicar que ele deve ir para lá; caso contrário, acabará recebendo o laço. O animal não compreende você completamente; muitas vezes, ele apenas reage ao sinal físico que você dá. A criança da quarta camada, especialmente aquela que ainda está saindo da fase de bebê, realmente precisa enfrentar uma situação extrema, seja uma severa reprimenda ou uma humilhação colossal, para que consiga se envergonhar e avançar para camadas superiores. Digo isto descrevendo o que houve, não prescrevendo o que se deve fazer, e registrando até o meu próprio arrependimento pelo exagero.
E o que aconteceu foi isto: meti-lhe o murro na boca, ele caiu, e comecei a socar. Quando eu parei, ela perguntou: é o fim? Chegou agora? Agora você vai deixar de ser esse canalha preguiçoso que vive inventando mentiras sobre mim e falando bobagens a meu respeito. Até agora tratei você com gentileza; não te agredi porque optei por não fazer isso, considerando que você é um gordinho que mede dez centímetros a menos do que eu, que nem consegue correr, mas ainda assim se coloca como se fosse o maior de todos diante de mim. Portanto, jovem, esteja ciente de que se você disser qualquer coisa, eu não hesitarei em te eliminar. É evidente que eu nunca chegaria a cometer um assassinato; aquelas palavras foram ditas apenas para intimidá-lo, uma vez que ele já havia levado uma surra considerável. No entanto, assim que me virei, ele tentou me agredir: pegou um cabo de vassoura e me golpeou nas costas. Agarrar o cabo e golpeá-lo de forma que os professores precisassem intervir para ajudá-lo, caso contrário, eu o teria desfigurado. Após sua queda naquele campo de areia onde as crianças se divertiam, coloquei areia em sua boca e fui com a mão em seu rosto. Foi uma surra tão intensa que, até hoje, sinto um certo arrependimento por ter ido tão longe, pois não era necessário exagerar dessa forma. Mas o impacto foi claro e duradouro: ninguém no 13 de Maio jamais tentou se elevar à minha custa — e se destacar em relação ao outro, neste contexto, implica em querer se mostrar superior e me diminuir. Mas eu recuperei tudo que fui. Mais tarde, relatei tudo à diretora — isto, isto e isto, ele é um vagabundo —, e quando ela foi questionar o garoto, era exatamente aquilo que eu havia dito. Mas eu saí vitorioso, pois todos puderam testemunhar a verdadeira índole dele, um verdadeiro vagabundo desonesto. Começou a ser considerado um sujeito realmente ruim, em quem ninguém da escola confia. E dessa forma continuou até o término das aulas — na verdade, para sempre. Isso aconteceu por volta do quinto ano, e eu estudei com esse rapaz até o nono ano. Desde então, ele nunca mais se aproximou de mim nem comentou nada a meu respeito, devido à gravidade da surra que levou e, especialmente, à humilhação que sofreu na frente de todos.
Essa é a chave amarga: muitas vezes, a única forma de reduzir o ego inflado dessa pessoa é humilhá-la publicamente. É a única forma de revelar o criminoso que ela realmente é, de evidenciar para todos que se trata de uma pessoa desonesta e sem caráter. É nesse lugar que você recupera a sua essência, e, além disso, é nesse mesmo espaço que você consegue influenciar essa pessoa a se transformar — e, de fato, ela se transforma. A maioria das pessoas que observei enfrentar uma humilhação significativa em suas vidas se transformou. Existem pessoas que só conseguem se adaptar ou mudar dessa maneira, e a crença de que todos se transformam apenas através de uma boa conversa é uma das maiores falsidades que existem. Isso não dá certo. Não com o indivíduo de quarta ou quinta camada já desenvolvido. Na sexta-feira, como mencionei, não é tão frequente — alguns podem ser assim, e quando isso ocorre, geralmente é aquele chefe insuportável, bêbado, que aprecia humilhar seus funcionários ou, ainda pior, um pai irritante. O principal acontece na quarta e na quinta. Essas pessoas são seus adversários, e é fundamental enfrentá-los de forma direta. De forma alguma me refiro a agredir fisicamente, a não ser em uma situação extrema de legítima defesa; e mesmo assim, se for para se proteger, que seja de maneira contundente, pois a mentalidade dela se assemelha à de um pequeno bully escolar. Confrontar de forma direta, em seu verdadeiro sentido, é submeter essa pessoa a uma humilhação em níveis extraordinários — não através de ofensas, mas revelando a figura repugnante que ela realmente é. É a única maneira de lidar com esse tipo de pessoa. As pessoas frequentemente não reconhecem esse tipo, pois tiveram pouco contato com ele ao longo da vida. Assim, começam a se prejudicar por acreditarem que essa personalidade detestável é a de um amigo, quando na verdade não é. Pelo oposto: essa pessoa está tentando tirar vantagem de você.
Se ela se comporta dessa maneira com todos, exceto com você — que é superior a ela em todos os aspectos —, pode ter certeza de que, em algum momento, ela tentará te enganar. Existem duas opções. No primeiro caso, ela está corroendo sua reputação de forma discreta, pelas costas, em conversas entre amigos, até que você passe a ser visto como uma pessoa de má fama sem entender o motivo; mais tarde, ao investigar a situação, você descobre que foi o fulano quem falou, e que ele pediu para que não revelassem que foi ele. Está corroendo você em todo o seu círculo social, pois deseja assumir a sua posição. Esse canalha precisa ser denunciado. Na segunda hipótese, ela deseja seu pertencer a tal ponto que está disposta a aguardar o momento certo para tomá-lo. O que você quer dizer? Imagine o colaborador que, à medida que avança na hierarquia da empresa, se torna um grande amigo seu — considerando que você é o chefe dele — até o momento em que vocês decidem abrir um empreendimento juntos. Na primeira chance que tiver, esse sujeito te trai e fica com tudo que te pertence; se puder tirar até suas cuecas, ele tira. É por isso que não se deve confiar em bajuladores, já que a maioria deles se comporta dessa maneira. Ele não amadureceu; considera o outro como um verdadeiro adversário. Além disso, frequentemente essa pessoa não tem plena consciência de suas ações — ou seja, ela tem plena noção do que está fazendo, mas nunca irá reconhecer isso, pois a quarta camada nunca admite nada ao longo da vida. Só a partir dos trinta anos, e somente após passar por uma imensa humilhação, é que ela consegue perceber; até esse momento, será uma pessoa insignificante, que apenas nutre inveja pelas posses dos outros. Pode afirmar que não sente inveja; no entanto, todos ao seu redor estão cientes de que este é o caso, pois você se esforça para desestabilizar os outros a fim de garantir sua posição no grupo. Recordo-me, até os dias atuais, de um indivíduo com esse perfil que fazia parte do meu círculo de amigos — entre aspas, amigo, pois nunca foi realmente meu amigo; apenas afirmava ser. No segundo dia em que ele se juntou ao grupo, desenvolvi uma aversão enorme por ele; ele se tornou meu verdadeiro inimigo, pois era a personificação da quarta camada.
Existem certos tipos de pessoas com quem não é aconselhável, por assim dizer, estabelecer um acordo, pois eles podem utilizar a legislação para te prejudicar. Eu não estou fazendo uma piada. É precisamente por serem quem são — indivíduos da quarta camada — que você se encontra em uma situação extremamente complicada, e eu vou detalhar o motivo. Esse arquétipo será aquele que tentará usar a lei contra você sempre que tiver a oportunidade, pois sua principal motivação é sempre sair vencedor, independentemente do custo. Da mesma forma, existe um conhecimento prático, que é transmitido oralmente, sobre com quem não se deve estabelecer uma parceria. Não se negocia com quem é avarento — aquela pessoa que não reconhece o valor do que você tem a oferecer, que sempre tentará te prejudicar, buscando reduzir seus ganhos e jamais te concederá confiança. Não se negocia com crianças, com militares, com avarentos ou com pessoas em situação de mendicância. Como um mendigo, pois não há nada a perder: se a pessoa não possui bens, de que forma você pode responsabilizá-la ou vinculá-la a algo? Há quem generalize essa desconfiança em relação às mulheres, e é essencial distinguir entre o que é experiência real e o que é simplesmente o temor do próprio autor em face do ambiente jurídico e social que ele acredita estar presente. A norma que ele estabelece é que a mulher, cumprindo seu papel, expressará suas emoções e opiniões, e que, dado o contexto atual, ele julga perigoso se envolver em relações profissionais ou societárias desse tipo, temendo que uma simples interrupção ou um desentendimento possam ser utilizados contra ele — até mesmo por meio de gravações. É a interpretação que ele realiza do terreno, e é com base nessa interpretação, e não de acordo com qualquer norma que se possa mencionar com segurança, que ele afirma preferir não se expor. O aspecto em questão, para ele, não é jurídico; é um reflexo de uma desconfiança generalizada que é fomentada pela própria dinâmica da quarta camada, que está presente na sociedade.
Como, então, identificar se alguém pertence à quarta camada? Este método é fácil e sempre eficaz. Em algum momento, diante do grupo, apresente-se como superior a ela em uma área na qual você realmente é, de maneira notável — e é crucial que essa superioridade seja verdadeira e claramente demonstrável. A pessoa da quarta camada tem plena consciência de que não é superior a você nesse aspecto; ela tem certeza disso. E realizará duas ações. Primeiro, tentará fazer piada. Em segundo lugar, você utilizará um argumento convincente sobre o tema que domina e começará a apresentá-lo, fazendo com que a outra pessoa pareça pouco inteligente diante do grupo — e, a partir daí, aquela pessoa que costumava te intimidar se encontrará em uma posição defensiva. Vai tentar zombar, vai te desafiar e, como uma criança mimada, vai se jogar no chão e gritar, falando de forma figurada. Por qual motivo? Porque não consegue te ver prosperar; se incomoda apenas ao notar que você a supera em algum aspecto. É garantido o que afirmo: sempre que desejar testemunhar a reação de uma pessoa de quarta ou quinta camada, utilize isso. Uma pessoa comum responderá com um "foda-se" e não dará a menor importância; já alguém que se enquadra na quarta camada pode afirmar que não se importa, mas, na verdade, organizará uma verdadeira tempestade, xingando você de todas as maneiras possíveis e se deixará levar por uma raiva que você jamais imaginaria — simplesmente pelo fato de você ser superior a ela nesse aspecto.
Você pode fazer o teste com algum amigo que note ser esquisito. Diga: fulano, eu sou melhor que você nisso, sempre fui. Se for uma pessoa comum, ela dirá que está tudo bem, que você deve ir em frente e fazer o que precisa, e não falará nada negativo sobre você, nada de ruim ocorrerá. Entretanto, se a pessoa for má, pertencente à quarta ou quinta camada, geralmente com um comportamento bastante imaturo, ela ficará extremamente ofendida. Você já pode perceber que, ao expressar seu desejo de fazer as coisas do seu jeito, essa pessoa fica irritada e começa a tentar impor sua própria visão de como as coisas devem ser. É dessa forma que se reconhece o membro de quarta camada dentro do grupo, e a partir desse momento, começa-se a tratá-lo como um adversário. Importante ressaltar: não se trata de expressar isso de maneira sarcástica ou zombeteira; a questão é afirmar com sinceridade — eu sou superior a você nesse aspecto, e você não tem nada a me ensinar aqui. Aí você vai perceber que essa pessoa vai transbordar ódio. É nesse patamar. Um homem na faixa dos trinta a quarenta e poucos anos, ao ouvir algo assim, fica tomado por uma raiva intensa: como assim você se considera superior a mim nesse aspecto? — embora, na realidade, você seja realmente melhor. É realmente divertido de assistir, chega a ser engraçado, e, de modo geral, as pessoas não sabem que é dessa forma que se faz.
Ao se investigar os métodos psicológicos, depara-se com o que eu denomino triângulo de Proteu — um método que eu mesmo elaborei, no qual a psicologia evolutiva, a psicologia das profundezas, a Programação Neurolinguística e a psicologia tomista são utilizadas em conjunto, sempre tendo o centro ético tomista como ponto de referência. Nomeio-o de Proteu, uma vez que Proteu era um deus do engano: ninguém conseguia apanhá-lo, um deus que se metamorfoseava, totalmente enganador, mas também um grande sábio — o arquétipo do trapaceiro, o deus trapaceiro do ar, aquele mencionado na Odisseia. E de que maneira, na Odisseia, conseguem apanhá-lo? Desenvolvem um elaborado plano, e Proteu assume diversas formas, utilizando todos os tipos de elementos em sua tentativa de fuga, até que finalmente é capturado e revela sua verdadeira identidade. Transfira isso para o quarto nível de guarda, o pilantra da roda. Ele percebe que você é superior a ele, não consegue te contestar, e o que ele faz? Utiliza todo tipo de joguinho sujo e qualquer detalhe para se livrar da situação e controlar seu próprio ego, pois deseja ser o mais impressionante do grupo. É semelhante à situação em que os guerreiros da Odisseia conseguem capturar Proteu: ele tenta mudar de forma em cada elemento até que, ao ser preso, revela sua verdadeira identidade. É por isso que afirmo que devemos aplicar o triângulo de Proteu em todas as situações, até mesmo durante uma conversa com alguém. Nesse contexto, não apenas conseguimos dobrar a roda inteira, mas também conseguimos identificar quem realmente está ali para causar problemas. Certamente, é um método que pode ser considerado complexo. Visualize três homens ao redor de uma linha, com Proteu posicionado no centro: essa linha representa a psicologia tomista, enquanto cada um dos três homens encarna a psicologia sombria, a psicologia dialética e a PNL — as ferramentas utilizadas para apreender o deus trapaceiro que se encontra no meio. Ao fazer isso, você identifica todos os desonestos e os preguiçosos, até mesmo entre familiares e amigos, que desejam tirar proveito de você. A razão pela qual a pessoa da quarta camada é extremamente perigosa é que se trata de uma inimiga disfarçada, engajada em uma disputa interna pela liderança da matilha, e para se tornar a líder, ela precisa te eliminar. Sendo fraca, buscará todos os meios que conseguir. Entretanto, por essa razão, é simples de expor, e possui uma característica pessoal distinta: aprecia tirar proveito da miséria humana. Por ser imaturo, trata-se de pessoas que não têm muitos limites, indivíduos realmente maus que precisam enfrentar duras consequências na vida — verbais, e em casos mais extremos, até físicas — para que possam aprender. Não negue essa agressão a essa pessoa, pois ela é sua inimiga e deseja prejudicá-lo.
É aceitável que a quarta camada esteja presente na criança — compreende-se a criança até os quinze, dezesseis anos, e alguns prolongam isso até os vinte e poucos, e ainda assim é aceito. Aos vinte anos, deixar isso para trás é o mínimo que se pode fazer, já que a pessoa ainda está em desenvolvimento. O grande problema surge quando a faixa etária passa dos vinte e cinco anos e se aproxima dos trinta, ou até mesmo dos quarenta; nesse caso, é fundamental assumir o controle da própria vida, pois a falta dessa iniciativa pode resultar em uma frustração imensa. Pois essa pessoa, que é um tanto maligna por desejar constantemente carinho e se envolver em conflitos com o amiguinho que recebe mais afeto, acumula uma série de processos legais, leva uma vida bastante insatisfatória e possui uma moral questionável. Cuidado com isso. Se por acaso você estiver lendo isso — o que eu realmente duvido —, você não pertence à quarta camada. A turma da quarta camada é bem dionisíaca e não curte muito ler; raramente lê. E, ao ler, geralmente desenvolveu uma fachada de intelectual de esquerda. No Círculo de Estudos Nous, há uma série de conteúdos que podem ofender pessoas de quarta camada apenas com a leitura; alguns indivíduos já vieram, inclusive no canal do YouTube, proferindo insultos, sem sequer compreenderem o essencial do que estou dizendo. A única maneira de essa pessoa se tornar realmente estimada pelos outros — e ela jamais reconhecerá isso — é passar por uma experiência extremamente dolorosa, seja de forma moral ou até mesmo física, algo que a faça sentir uma profunda vergonha e que a leve a perceber a direção em que está se encaminhando. Aí, realmente se desenvolve. Enquanto isso não se concretiza, ela permanece a mesma imatura e tola.
Outro ponto a ser considerado é o esquecimento por parte dos pais. Quando uma criança não percebe que é amada por seus próprios pais devido à falta de demonstração de afeto, isso gera um padrão — e isso é frequente em famílias que são totalmente desestruturadas, das quais conheço várias. Esse esquecimento se manifesta no futuro, especialmente nas mulheres, que estão constantemente tentando compensar algo quando pertencem à quarta camada. Ela tenta substituir o marido como se ele fosse seu pai — e não no sentido paternal que Tomás de Aquino descreve, que envolve cuidar, ouvir e corrigir. É nesse desejo que ela espera que o homem se porte como o pai que ela imaginou: oferecendo tudo, zelando, providenciando a base para que ela possa realizar tudo o que desejar. Frequentemente, ele representa o pai que ela nunca teve, o pai ideal. Ela não quer o sentido paterno de Tomás — o sujeito que cuida, que faz o máximo pela família, que tem a cabeça correta, que não corre para a bajulação o tempo todo, que a corrige inclusive, e que a corrige sempre que deve ser corrigida. Para essa mulher, a correção não pode ser um ponto de referência; ela deseja o papai que presenteia, o pai idealizado. Tomás de Aquino já possuía, em sua época, a compreensão de que o homem deve atuar, para sua esposa, como uma figura paterna — isto é, proporcionar orientação, oferecer o que é benéfico e, sobretudo, corrigir quando necessário. Essa postura é essencial, pois é a única forma de estabelecer limites e evitar se tornar um submisso, que posteriormente solicita o divórcio. No que diz respeito aos homens, muitos deles desejarão que suas parceiras assumam um papel semelhante ao de suas mães — e, nesse sentido, Freud pode ter algum fundamento, mas apenas no que se refere àqueles indivíduos que tiveram uma educação inadequada.
Existem dois trajetos que fazem uma pessoa permanecer na quarta camada até se tornar adulta. O primeiro tipo é aquela pessoa que, desde a infância, foi excessivamente mimada e paparicada, recebendo dos pais toda a liberdade possível, sem quaisquer restrições ou limites, tendo acesso a tudo o que desejava, vivendo a vida dos seus sonhos, enquanto os demais membros da família enfrentavam dificuldades — é essa pessoa que desenvolveu um ego imenso desde muito cedo. O segundo é o oposto exato: trata-se da pessoa que nunca experimentou um amor paterno ou materno adequado e que irá buscá-lo em outras pessoas. Um deles experimentou algo e, ao deixar sua casa, sentiu a falta disso e desejou mais; o outro, por sua vez, nunca teve essa experiência. Ambas as trajetórias resultam, essencialmente, na mesma consequência: indivíduos que se sentem intensamente inferiores e desvalorizados — de maneira significativa —, mas que não expressam esses sentimentos e, em vez disso, agem de forma a prejudicar aqueles que realmente são superiores a eles. Aquele que se encontra em uma posição de superioridade, para aquele que se sente inferior, torna-se um obstáculo, uma vez que ele deseja que o outro compartilhe de seus próprios sentimentos. O anseio de poder dessa pessoa consiste, de fato, em assumir a posição do outro. Eu costumo fazer uma piada dizendo que o marxismo foi elaborado de maneira bastante literal por dois indivíduos que se encaixam na quarta camada; se você analisar as características que menciono, verá que isso se aplica exatamente a Marx e Engels — ambos compartilhavam o mesmo anseio de poder. Essas pessoas, quando cometem um grande erro, além de sempre responsabilizar os outros, se apresentam como vítimas, uma vez que nunca se consideram erradas e estão constantemente em busca de apoio emocional. Põe-se como alguém que tanto padeceu neste mundo que uma lei geral, comum a todos, não deveria aplicar-se a ela. Apresenta-se sempre na posição de vítima, mesmo quando foi o agressor.
Permita-me apresentar um exemplo. Quando eu era menino, alguns dos meus amigos eram assim, achando-se melhores que os outros. Certa vez, um menino mais magro — que, sem ter consciência da situação, coitado, não sabia que uma determinada garota estava comprometida com um deles — decidiu se declarar para ela. Ele tinha grande afeição por ela, eram amigos desde a infância, e ele não estava ciente de que ela estava em um relacionamento, pois ela nunca compartilhava informações sobre sua vida pessoal com os outros. Meu outro amigo, que havia iniciado o namoro recentemente, também não tinha ideia de que os dois se conheciam desde a infância. Este meu amigo era o exemplo clássico de um idiota: decidiu zombar. Sempre que eu via aquele garoto, eu o atormentava com piadas de mau gosto, coisas que realmente não se deve fazer, e isso estava se tornando bullying. Existia um local aqui em Primavera, conhecido como Praça do Rock, e sempre que o garoto aparecia, meu amigo fazia questão de zombar dele de forma intensa. Eu nunca tive qualquer tipo de contato com aquele garoto, nunca conversei com ele, mas era comum ouvir comentários sobre o quanto meu amigo o menosprezava. Certa vez, observei-o de perto e comentei: amigo, esse jovem em algum momento pode explodir, e então algo sério poderá acontecer; é mais prudente que você pare. Então ele respondeu: ah, aquele é um covarde, não realiza nada. É precisamente isso que eu condeno no artigo que escrevi, que oferecia conselhos aos jovens, publicado no Círculo de Estudos: ele subestimou uma lei social fundamental, que é nunca tentar prever o comportamento de alguém. Eu nunca tentei prever os outros, porque, no instante em que você subjuga uma pessoa e crava que ela nunca fará nada, é justamente aí que a coisa acontece. Não há como prever o que o outro fará de bom por você ou contra você.
Meu amigo sempre menosprezava o garoto, tratando-o como se fosse um verdadeiro azarado — é evidente que ele é um coitado, afirmava. Em um determinado dia, na escola, o menino foi buscar seu irmão mais novo, que cursava o primeiro ano do ensino médio, enquanto estávamos no terceiro; ele era um garotinho bem pequeno, inclusive em termos de estatura. Um amigo meu resolveu provocá-lo novamente, e o rapaz ficou tão enfurecido que pegou um canivete e o cravou no pescoço do meu amigo. Em seguida, ele saiu correndo com o irmão. Ele não foi preso apenas porque fui ao hospital conversar com um amigo meu e lhe disse: veja o que eu sempre te avisei. Você maltratava esse infeliz por algum erro que ele cometeu, sem ao menos saber quem ele era; e é ainda mais grave, pois se você não teve uma convivência recente com essa pessoa, se não passou muito tempo da sua vida ao seu lado, não tem o direito de agir dessa forma. Você não pode rebaixar o pobre coitado da maneira como fez, por causa do ciúme. Agora, isso serve para você adquirir conhecimento. Não o denuncie na delegacia, pois isso é um problema que diz respeito a você; ele inclusive esteve aqui e deixou uma carta se desculpando. Você não pode enviar esse homem para a prisão, pois a responsabilidade pelo erro é sua. Meu amigo respondeu: cara, você tem razão, vou admitir que concordo com você, pois eu fui o responsável por isso; realmente estava irritando ele demais, e agora, após essa facada, percebo que você estava certo, porque, em algumas ocasiões, eu o deixava fora de si com minha insistência. Após essa conversa, que se estendeu por quase uma hora, percebi que o rapaz não era culpado da situação; eu realmente o humilhei excessivamente. Foi então que meu amigo entrou em contato com a mãe do garoto, obtendo o número com a ex-namorada — que já não era mais sua namorada, pois ele costumava fazer piadas às custas do infeliz garoto —, e a mãe do menino acompanhou meu amigo ao hospital, onde ele se desculpou. Veja o que poderia ter evitado tudo isso. Está tudo certo, o rapaz expressou seus sentimentos para a sua namorada, tomou a iniciativa e fez isso; no entanto, foi apenas uma vez. Não era necessário menosprezar o coitadinho constantemente. É exatamente isso que a galera da quarta camada não compreende: eles continuam pisoteando os outros, pisando incessantemente, até que a situação se torna insustentável. Se o indivíduo da quarta camada conseguir sobreviver, então ele realmente perceberá o erro que cometeu — isso foi exatamente o que aconteceu com um amigo meu, aquele cara punk, muito durão, que tentava se mostrar superior e que acabou testemunhando as consequências de suas ações. É benéfico para desenvolver a humildade, que é precisamente o que essas pessoas não possuem.
Isto não se limita apenas a este episódio. Já tive outros amigos desse tipo, e o comportamento é sempre o mesmo: o sujeito comete erros que resultam em sérios danos, seja de forma física ou causando uma vergonha extrema, uma humilhação significativa, e só então é que ele passa a se comportar de outra forma. Sem isso, nada se altera. A quarta camada é constantemente a mesma: a personalidade típica do valentão de escola. O cerne da questão é este: refere-se ao modelo do tolo representado no hexagrama da ruína, pessoas que se colocam na posição de Deus. Consideram que não devem ser punidos da mesma forma que os demais. Acreditam que tudo o que afirmam é verdade, que nunca devem alterar suas opiniões e que jamais precisam reconsiderar qualquer questão. Em seus textos, não há uma disputa interna de conceitos, nem uma refutação interna; eles estão sempre na posição de líderes, sempre convencidos de que estão certos, sempre exibindo um ego colossal. É exatamente nesse ponto que se manifesta o hexagrama da perdição, que simboliza a união da ignorância — aquele teimoso, arrogante e incauto que nada sabe, que inventa suas próprias ideias na mente, que não produz nada de valor, que não possui referências externas, criando a partir de sua própria cabeça, sem conexão com a realidade, fundamentado unicamente em seu pequeno universo pessoal.
O que essa pessoa faz é construir uma visão do mundo que ela chama de verdade. Ela não acredita em múltiplas verdades; a questão é que ela mistura a verdade — que é a realidade — com sua verdade pessoal, que é apenas uma perspectiva. Ela confunde a perspectiva com a realidade. É como um buraco negro no centro do hexagrama, que vai tragando tudo. A primeira parte desse movimento é a relativização de tudo: ela relativiza, relativiza, relativiza, até subjetivar tudo, inclusive a própria realidade. E o outro triângulo do hexagrama é o do diabo, do mundo e da carne: ela subjetiva todos os vícios. Primeiro relativiza, depois subjetiva. O que é vício? Não há vício. Não há diabo, mundo, carne; quem determina o que é isso somos nós. E assim ela se torna um idiota completo. O hexagrama demonstra a origem de todas as deficiências mentais da personalidade — a esquizofrênica, por exemplo, ou a profundamente infantil. Todos os problemas mentais, à exceção dos orgânicos, nascem daí, do hexagrama da perdição, com a pessoa imersa nele. Ela não aceita quase nada porque acha que não precisa aceitar. Eu tenho a minha verdade — é sempre o mesmo argumento de vagabundo, aquele que a menina de quarta camada me dava e que eu não conseguia refutar, porque quando ela diz eu só acredito na minha verdade, ela está fazendo duas coisas ao mesmo tempo: está te deslegitimando e está dizendo dane-se, eu sou superior porque tenho a minha verdade, e você só tem a verdade da massa.
Esta, então, é a raiz de quase todos os distúrbios mentais — com uma observação que eu preciso fazer questão de frisar, por ser de grande importância. Exceto no caso de indivíduos que nascem com uma deficiência física ou mental. Por exemplo, o autismo é uma condição física; há problemas cerebrais que geram confusões mentais, e algumas pessoas nascem com problemas no cérebro que favorecem a esquizofrenia, ou com síndrome de Down, ou com outros problemas. Isso é algo totalmente distinto e não é a isso que me refiro. Falo das questões que surgem ao adaptar a personalidade dessa forma, ou ao ser influenciado por outras pessoas nessa direção — refiro-me àqueles que cometeram o erro de se tornar assim, e não àqueles que nasceram com um transtorno mental evidente. Afiançar que alguém portador de microcefalia se encontra no hexagrama da perdição seria proferir uma ofensa gratuita, e longe de mim afirmar algo desse tipo, de jeito nenhum. Refiro-me à personalidade que se forma de maneira distorcida, e não à natureza que já nasceu machucada. É uma diferença que não podemos esquecer, pois se a esquecermos, estaremos sendo exatamente a pessoa tola que este texto critica.
Pessoas que se encontram na quarta camada enfrentam esses problemas e é essencial que busquem a ajuda de um profissional da psicologia — preferencialmente um psicólogo que siga a abordagem tomista, de orientação católica, ou aquele que adota a linha de Viktor Frankl, que é bastante eficaz na interpretação dos sentimentos. Não é a psicologia descuidada que considera a virtude e o vício como algo relativo, que relativiza tudo. Ao adotar essa relativização, o psicólogo acaba validando o comportamento do indivíduo. O sujeito apresenta um argumento que o psicólogo, na ausência de uma ética objetiva, não consegue contestar, e ele sai da terapia em uma situação ainda mais negativa do que a anterior, com o psicólogo relativizando o conceito de bem e mal. Se o psicólogo seguir a filosofia de Kant, então, chegamos ao fim: Kant afirma que existe a moral do Estado e a moral individual de cada um, que é guiada pela moral do Estado, e não há nenhum princípio objetivo que esteja acima disso. Se o Estado ordenar que você pratique o canibalismo, e sua própria ética interior também o instruir a fazer isso, então você o fará. É uma loucura. Por isso é preciso saber que tipo de psicólogo deve tratar esse tipo de gente — e não é qualquer um, porque o psicólogo errado, com ética subjetiva, apenas afunda o paciente no próprio buraco.
O Brasil possui uma grande quantidade desse tipo, a maior parte. Recentemente, eu também tenho um exemplo pessoal. Eu me encontrava em uma sala de aula, participando de um curso, e fiz um comentário bastante simples, pois a pessoa ao meu lado havia estudado apenas até o nono ano. Eu perguntei a ela se tinha concluído o ensino superior, e ela respondeu que não. O professor, que era doutor, estava por perto; ela estava à vontade durante a conversa, tudo estava normal. No entanto, apareceu outro professor afirmando que a faculdade não é tudo, como se eu estivesse ofendendo o cara. Então eu disse: não estou ofendendo ele, ele está de boa, ofendido aqui está o senhor, professor. E, a propósito, não cursei uma faculdade, mas sou um leitor voraz; eu já desafiava professores como você quando tinha apenas doze anos e estava na oitava série. O que eu indaguei foi somente sobre universidades; ele se envolveu na conversa, eu questionei se ele possuía, ele respondeu que não, e seguimos conversando de forma tranquila. Quem se sente ofendido aqui é o senhor. Então, quem era o indivíduo da quarta camada naquela cena? O docente. As pessoas exageram em suas reações, e quando a quarta camada se torna excessiva em um grupo, todos se ofendem, e rapidamente, todos acabam se comportando como se fossem parte dessa quarta camada — é um verdadeiro contágio.
Existe um percurso pelo qual uma pessoa pode se tornar de quarta camada mesmo após já ter ascendido. Visualize alguém que se encontra na sétima camada, onde a atenção está mais direcionada à família, ao auxílio e ao ato de dar e servir ao próximo. Os esquerdistas se juntam ao grupo dela e, gradualmente, vão influenciando suas ideias até que ela volte à quarta camada. Ela era uma pessoa inteligente e tinha o desejo de ajudar os outros; se alistou na esquerda, que, em algumas ocasiões raras, realmente oferece essa oportunidade de servir ao próximo. No entanto, como ideologia, acaba estragando tudo, pois impõe obrigações. Vem com um pacote inclusivo: à esquerda, todos estão constantemente ofendidos, e a pessoa começa a se ofender por qualquer coisa. Ela tinha alcançado um patamar mais alto, mas agora estava mergulhando nas camadas de sua personalidade. Corou. Isso ocorre com frequência no Brasil. É aquela que escuta o povo. É necessário ter o desejo de se elevar, viver buscando essa elevação, sem confundir a catábase com a anábase — sem misturar a queda com a ascensão. Porque muitas pessoas descem acreditando que estão subindo e denominam sua própria degradação como um despertar.
Chegamos, então, à quinta camada, que se caracteriza quando a pessoa se afasta dos pais, para de buscar a aprovação dos outros e deixa de necessitar de afeto constante — porém, em contrapartida, torna-se extremamente competitiva. Ele desiste do motor emocional. Você deixará de se sentir ofendido por outras pessoas, mas começará a se ofender consigo mesmo: aquele indivíduo veio da mesma origem que eu, teve a mesma educação, e agora é rico; eu preciso me esforçar ao máximo para ser superior a ele. E, assim, atua como a quarta camada, dominando o outro. A quinta camada é aquela em que a pessoa se livra das bobagens emocionais e afirma: quero fazer algo por mim, desejo sair da sombra dos meus familiares e anseio por me tornar alguém. É nesse ponto que o jovem comete muitos erros, pois se envolve com religiões incomuns, assim como eu fiz, participa de movimentos estranhos e adota ideologias diversas, experimentando uma variedade de coisas até que, finalmente, se sente à vontade e afirma: "é isto que eu quero." Eu era bastante assim, e comecei desde cedo, aos oito anos, pois quando eu era mais jovem, nada do que eu fazia agradava meus pais, eles nunca ficavam satisfeitos ou felizes. Então me desviei: que se danem, eu vou viver a minha vida. Aos oito anos soltei a mão dos meus pais — dane-se, vocês só se preocupam em me incomodar. Evoluí um pouco antes do tempo. Tem pessoas que iniciam isso apenas aos dezesseis ou dezessete anos, como um primo meu.
No meu caso, acabei indo para o pior lugar que poderia existir: o rock e o metal — uma cena que, embora tenha algumas pessoas inteligentes, é majoritariamente composta por indivíduos burros e egocêntricos. Burro, arrogante, sem conhecimento; a maioria é composta por pessoas tolas. E vou expressar algo que pode te ofender, mas é a interpretação que tenho do ambiente e que eu afirmo claramente, da maneira como definimos as palavras aqui no Círculo: não existe nada mais efeminado, mais dramático, do que aquele indivíduo que adota a estética do rock e do metal. Ele deseja se mostrar como o durão o tempo todo, quer atuar como um verdadeiro machão, mas está precisamente em um dos ambientes com o maior número de gays que existem. Quer ser o durão, o forte, e se você não concorda com ele, procura briga. Veste-se de maneira estranha, veste-se de forma excêntrica. É fundamental distinguir entre a estética e a música: o que estou abordando é a estética e o comportamento, não a música em si. Aconselho que não se namore esse tipo, pela postura, pela estética, não pelo som. Ele se veste de maneira excêntrica porque deseja, como ele mesmo diz, desafiar normas e convenções — o que, em outras palavras, significa que ele não amadureceu nem se desenvolveu da forma que era esperado para ter um relacionamento saudável. A pessoa que se apresenta dessa maneira acredita estar desafiando normas e sendo verdadeira consigo mesma. Mas não é de forma alguma genuína: está apenas demonstrando respeito por um grupinho. Se a comunidade se opõe, ela também se opõe. É um pequeno escravo da tribo, sem ter consciência disso. Ele protege a tribo com todas as suas forças. Se você se aproximar de um fã de metal e afirmar que ele se veste e fala de maneira efeminada, é bem provável que ele reaja com agressividade, pois não terá argumentos para refutá-lo em uma discussão intelectual comum. Ele deseja aumentar sua estatura e está pronto para entrar em uma briga física — e é exatamente aquele indivíduo flamboyant do círculo, que, em um debate comum, sem argumentos válidos, parte para a confusão. Pessoas que desejam ter poder. É a quinta camada normal, onde a pessoa busca ser verdadeira consigo mesma. Ao privar um jovem do anseio de ser autêntico — algo que ele nunca experimentou, pois sempre dependeu dos pais, vivendo à sombra deles e sendo apenas o filho de fulano —, ele se conscientiza: eu sou alguém em minha própria vida, ou sou apenas reconhecido por meio da minha família? É observando isso que ele se desenvolve.
A quinta camada é, de igual modo, a camada dedicada aos coachings. É o indivíduo cuja vida foi, em grande parte, insatisfatória, que conseguiu acumular riqueza, mas que não conseguiu preencher as lacunas de carência emocional que carrega, e que anda por aí, por todos os lugares, tentando descobrir como se tornar um verdadeiro homem. Isso não é necessariamente negativo, mas deveria ser realizado pela Igreja e não por coaches com ideias equivocadas e uma ética questionável. Esses indivíduos não buscam o apoio da Igreja porque não têm interesse; preferem contar com o suporte de um CEO. Eu também me formei em administração e fiz um MBA executivo, mas sempre considerei tudo isso um tanto ridículo: havia muitos homens feridos, em busca de afeto, mas que não conseguiam recebê-lo, e então se voltavam para coaching barulhento, proclamando o quão incríveis eram, adorando a si mesmos, tentando suprir suas carências de maneiras extremamente inadequadas e manipuladoras. Crianças. Todos os títulos sobre administração repetem a fórmula de Pai Rico, Pai Pobre; a lógica é sempre idêntica. Um dos livros mais renomados nesse campo, que um tio meu — também envolvido nesse meio — me presenteou, é, palavra por palavra, o Pai Rico, Pai Pobre. Você questiona: tudo é igual, por que essa repetição? Você lê uma seção completa que permanece invariável. Então ele responde com aquela famosa frase: porque ninguém faz. Estupidez. Não é que ninguém faça; é você quem não faz. O opulento realiza. O empresário necessitado busca o coaching para devorar suas próprias concepções — são excrementos mentais, uma coprofagia de ideias, assim como o porco que se alimenta de suas próprias fezes. São todos indivíduos necessitados de atenção, que elaboram listas administrativas e proclamam o quanto são impressionantes; isso se refere ao setor do marketing. Coaching é apenas uma farsa, quase todos, sem exceção. É preferível consultar um psicólogo do que recorrer ao coaching. Rejeite aquele trapaceiro que constantemente eleva seu ego, pois, caso contrário, você poderá cometer sérios erros: um indivíduo que vive de forma mais confortável financeiramente inflaciona seu ego ao extremo, e você corre o risco de agir de maneira imprudente, começando a acreditar que possui um poder divino.
Isso não é apenas uma maneira de falar. O coaching origina-se de uma mentalidade que pode ser considerada satanista, na medida em que afirma que uma pessoa pode assumir o papel de Deus, colocando o indivíduo na posição de divindade. Como ele pode afirmar isso? Eles adotam métodos de gestão, exploram o Oriente, chegam à divinização e apresentam isso como se fosse possível manipular o cosmos a seu favor. Os coachings quânticos são, na verdade, telemitas camuflados; eles seguem a filosofia de Thelema quase que à risca — promover o empoderamento para que se possa tornar um deus. É a antítese do catolicismo: eu me igualarei a Deus. A principal afirmação do catolicismo é que ninguém se compara a Deus; eles fazem uma inversão: torne-se o deus da sua própria história, o deus da sua existência. Comédia. Devem incluir o satanismo no meio disso tudo. O ego se torna tão profundamente enraizado na pessoa — que, em geral, teve um ego baixo e foi desprezado desde jovem — que ela passa a acreditar que é um deus: veja como eu sou incrível. Na primeira vez que ele pronuncia esse discurso, permanece; e isso leva à maçonaria, uma vez que o pensamento telemita foi concebido para a maçonaria. Um ego humano amplificado ao máximo resulta em satanismo. O empoderamento em excesso resulta em satanismo e em diversas outras ideologias modernas, uma vez que o satanismo pode ser considerado uma ideologia comum, assim como o comunismo ou o socialismo. Trata-se de uma filosofia que se opõe à religião e que, por sua vez, dá origem ao socialismo, ao totalitarismo e ao autoritarismo. A atividade do satanismo consiste em trazer o Messias para o mundo, e todo o comunismo incorpora conceitos que são considerados satânicos; o socialista contemporâneo, dentro do contexto do satanismo, possui um ideal que é, em si mesmo, satânico.
A quinta camada, na verdade, consiste em uma autoexploração — o indivíduo experimentando os limites do que é possível, do que ele próprio é capaz e do que os outros podem alcançar. O maior problema dela são os níveis. O indivíduo considerado fraco dentro desse grupo é aquele que não atende às expectativas do coletivo. É por isso que os jovens consomem drogas devido à influência do grupo: é quase considerado uma ofensa, dentro do grupo, não participar. Trata-se de uma heresia de caráter religioso. Se você for considerado herege, então é um fraco; não deseja fazer isso? Portanto, você é fraco. Coisas irracionais se tornam testes para o grupo, e se você não conseguir, é considerado fraco. O coach acredita que pode antecipar todos os aspectos da sua vida: seus pensamentos, comportamentos e sua identidade. Acha que consegue adivinhar tudo só de olhar para o seu rosto. Eu sou fã de uma crônica, uma parábola do Talmude que meu pai costumava narrar para mim — e, a propósito, meu pai a detestava, a ponto de eu não conseguir fazer isso na sua presença, pois ele a classificava como desonestidade e te chamava de vagabundo. Porque é uma grande falta de vergonha: encarar alguém nos olhos, ter uma conversa de uma hora e acreditar que sabe tudo sobre a vida da pessoa. Você pode ter uma ideia de como ela pensa, mas não de como foi sua vida nem de como ela se comporta. Isso demonstra falta de integridade intelectual. É necessário fazer uma análise cuidadosa. Uma pessoa não é algo que se possa observar e determinar de forma definitiva. É preciso conviver com ela, saber quem ela é, para só então traçar um perfil. E o coaching é um engodo principalmente por causa disso: cria gente que acha que pode fazer isso, porque viu um momento de fraqueza e decretou é fraca. Isso é a administração moderna: se você mostrou fraqueza em algo, num conceito completamente subjetivo de fraco, já era.
O administrador moderno tem uma ética completamente subjetiva; ele não sabe o que é ética. Meu tio tinha uma tabelinha com os requisitos da empresa, e nela estava escrito ética. Perguntei a ele: o que é ética? Ele não soube responder. Dizia uma coisa, eu respondia não, é assim, poderia haver tal situação; ele dizia mas aplica-se do mesmo jeito; e não conseguia explicar o que era ética. Na verdade, o que ele descrevia como ética eram todas as outras virtudes que já estavam listadas ali — era redundante na plaquinha. Ele não sabia o que era ética. E essa é a maior tragédia do administrador moderno: não saber o que é ética. É burro. Acha que foda-se a história da humanidade, agora eu descobri a pílula vermelha, sou o fodão, acordei antes desses gados, vou criar a minha própria ética. É ridículo. E a ética deles é sempre kantiana, derivada de Maquiavel ou da antiética maquiavélica. O curioso, e que beira o cômico, é que esses idiotas dão Maquiavel para o funcionário ler; depois, quando o funcionário passa a perna neles, ficam sem entender o que aconteceu. É uma burrice gigantesca. A maior deficiência da quinta camada é a ética. Eles têm uma porcaria que os coloca como os caras que querem criar a própria ética, e quando você lhes apresenta uma ética objetiva, não subjetiva, o sujeito viaja — é como pôr algemas nos pés e nas mãos de alguém, jogá-lo na piscina e mandar nadar. Ele não vai nadar, vai morrer, vai surtar, vai achar que aquilo é uma prisão, porque não sabe o que está fazendo, por causa da ética subjetiva. Uma empresa com ética subjetiva é burrice pura. Alguém passa a perna em você e diz eu só estava jogando o jogo, e você, de palerma, acredita. Quando o sujeito toma um pé na bunda de um parceiro que o rouba, aí talvez entenda que a ética subjetiva estava errada — obviamente estava. O administrador moderno é esse jumento que não consegue entender.
Um exemplo prático: analisar se um sujeito é maquiavélico antes de contratá-lo. Se for maquiavélico, não se contrata. O maquiavélico te enrola, joga migué, faz malvadeza com os outros dentro da empresa — é o comportamento clássico. Certas perguntas demonstram a ética subjetiva dele. Você não pode contratar alguém que basicamente diz eu sigo a ética maquiavélica, eu vou te passar para trás; se contrata, você é um jumento. O maquiavélico se percebe de longe: gosta de manipular as situações sempre a seu favor, e ser desonesto é apenas mais um passo. É a tríade negra — o maquiavelismo unido à psicopatia e a outros traços, três porque é um triângulo, uma das deficiências mentais mais perigosas que existem. Esse cara vai te passar para trás. E o empresário moderno é um jumento que contrata um sujeito conhecendo a filosofia interna dele — esse cara poderia me passar para trás, mas dane-se, ele segue uma filosofia parecida com a minha. Sempre acontece. O cara vira amigo do chefe, e o chefe é tão burro que não percebe; torna-se o grande amigo, começa a subir dinheiro por dentro, vira líder, vira chefe, com ações, comprando ação por ação, uma por uma, e em pouco tempo aquele chefe admirado vira funcionário dele. É mais normal do que se pensa. O macaco velho da administração cai nessa, porque é burro. E isso é quinta camada.
A quinta camada é essencial, e o próprio Olavo dizia que não se pode evitá-la: é preciso confrontar algo para demonstrar quem se é, em que potência, senão a pessoa vira um nada, um depressivo para sempre. Considere o debate como um exemplo. Tenho um certo prazer em superar os outros em questões de ideias — de forma não física, algo que reprovo com veemência —, mas me considero sádico quando se trata de um debate. Tenho uma inclinação a apreciar o sofrimento alheio, especialmente quando se manifesta de forma expressiva; se eu estiver em um confronto com um indivíduo que se humilha, chora e causa um grande alvoroço, sinto um imenso prazer, principalmente se essa pessoa for um vagabundo ou um criminoso — defensor da eutanásia, do aborto e do genocídio interno. É uma imensa sensação de justiça pessoal, quase como um prazer erótico. Apenas não discuto com qualquer pessoa insignificante. É aqui que reside a questão: o indivíduo de quinta camada aceita isso e se envolve em discussões com qualquer pessoa comum para demonstrar seu valor. Olavo afirmava: mostre um pouco da sua força para se desvincular da camada, mas em seguida procure alguém respeitável para debater, caso você já seja grande. Discutir com qualquer pessoa é apenas uma questão de querer exibir o ego. O indivíduo da quinta camada está constantemente buscando validação, discutindo com um interlocutor irrelevante, com um idoso em um bar ou com um familiar pouco inteligente. Que benefício resulta disso? Você está evitando que um mal leve as pessoas à ignorância? Não. Mas por que fazê-lo? Olavo afirmava que um debate é considerado decente apenas quando é realmente relevante, e não quando se origina de alguém que está apenas buscando afirmar a si mesmo. Se não tem importância, não há motivo.
A sexta camada consiste em aplicar a quinta na prática. A quinta consiste em querer mostrar que se é algo, enquanto a sexta é criar algo que eleve a moral da pessoa aos olhos dos outros. Não me alongo muito sobre a sexta porque ela é a continuidade da quinta, palavra por palavra; a distinção é que a quinta aspira a ser algo e a sexta se propõe a criar algo. O problema da sexta camada é, mais uma vez, a administração contemporânea e os empresários pouco inteligentes. Coloque ao lado de um deles um santo — uma pessoa de elevação espiritual extraordinária, cuja condição é inatingível para a maioria, e que possui uma meditação em Deus que poucos conseguem alcançar. O palhaço do empresário observa o santo e reflete: não obterei nada para mim, nada material, não consigo gerar nada a partir disso. Esse indivíduo prefere recusar a sua própria felicidade eterna e a oportunidade de estar ao lado de Deus, apenas para dar ouvidos ao empresário do outro lado, que acumulou riquezas e produziu bens materiais, mas que, como pessoa, é absolutamente deplorável. O empresário — que, em sua maior parte, pertence à sexta camada, e o restante à quinta — irá recusar a salvação que lhe é oferecida por meio de bens materiais. É semelhante ao Fausto de Goethe. Fausto não possui a convicção de que Deus realmente existe; sua mentalidade teosófica permite que ele acredite que qualquer coisa pode existir. Ele busca descobrir qual é a verdade e, por isso, decide fazer um pacto com Mefistófeles: deseja testemunhar eventos acontecerem. O desejo de Fausto é moldar o mundo a seu favor. É uma denúncia dessa mentalidade satânica da sua época, e Goethe coloca isso em Fausto — o homem que nega a própria salvação, por rebeldia, para criar alguma coisa, para descobrir a verdade. No final, o Fausto de Goethe rejeita Mefistófeles e se ascende; entre as diversas versões de Fausto, a de Goethe é a mais notável, e algumas das outras que já analisei em meus escritos no Círculo. É a pessoa que renuncia até mesmo à sua própria salvação, sem ter certeza se ela é genuína, apenas com o intuito de gerar algo aqui na terra. Em Fausto, de Goethe, tudo o que o diabo tem a oferecer é aceito pelo humano; isso contrasta com Cristo, que recusa tudo o que o diabo lhe propõe. O Fausto contemporâneo, o homem de negócios, aceita tudo de bom grado. Este é o principal problema da quinta e sexta camadas.
É oportuno, neste momento, apresentar de maneira mais detalhada a teoria das camadas, tal como foi elaborada pelo professor Olavo de Carvalho, uma vez que é a partir dela que todo esse diagnóstico se sustenta. Olavo caracterizava a personalidade humana como uma série de camadas ou estratos que se revelam ao longo da vida, cada um com sua própria questão, seu bem específico e sua doença particular. Não se trata de compartimentos separados, mas de camadas que se sobrepõem: aqueles que atingem um nível mais elevado não abandonam os inferiores, mas os reestruturam a partir de uma nova perspectiva. A questão, que é o cerne de todo este texto, não reside em passar por uma camada — mas sim em ficar aprisionado nela, em torná-la a referência final para tudo, quando na verdade deveria ter sido apenas um passo.
A quarta camada diz respeito à história pulsional e afetiva do sujeito. É o nível onde se determina, no fundo da alma, a experiência fundamental de ser ou não ser amado. A questão que a governante, sempre mutável, mas constante, se faz é: sou amado? Toda a experiência emocional da pessoa se estrutura em função da resposta que ela deu, ou não conseguiu dar, a essa questão na infância. Aqui se originam a felicidade e a infelicidade de maneira crua, quase tangível: a experiência de ser acolhido ou de se sentir negligenciado, de fazer parte de algo ou de se sentir em excesso. É fundamental, com atenção, diferenciar entre a verdadeira necessidade e aquela que é apenas alegada. Há pessoas que realmente foram privadas de afeto, e sua dor é genuína; por outro lado, existem aquelas que reclamam de uma falta que não experimentaram, ou que vivenciaram em uma medida muito inferior à queixa, e se agarram a essa alegação como se fosse um distintivo de nobreza. Em ambos os casos, quando a quarta camada não é ultrapassada, surge uma dependência em relação ao olhar dos outros: a pessoa se torna incapaz de existir sem a constante validação de que está sendo observada, apreciada e aprovada. Dessa dependência emerge o traço mais distintivo da camada, que é a ferida da excepcionalidade — a crença de que se é um caso único, especial, e de que o mundo cometeu uma injustiça primordial contra esse caso especial, a qual tudo o mais deve compensar. A quarta camada, quando bem integrada, resulta em um adulto que é capaz de amar e receber amor sem recorrer a manipulações emocionais. Esse indivíduo obteve ou reconstruiu a confiança em seu próprio valor e, por essa razão, não sente a necessidade de exigir constantemente dos outros a validação de sua existência. A quarta camada mal resolvida gera precisamente o tipo de infantil que tenho caracterizado desde o início deste texto.
A quinta camada refere-se ao ego, à autoconsciência e à individuação. É o instante em que a pessoa se desvincula da rede emocional e passa a definir seu próprio espaço vital, questionando não mais "sou amado?", mas sim "tenho poder?" — poder, neste contexto, como a habilidade de se afirmar, de ocupar um lugar, de não ser apenas o filho de alguém. Aqui, a autoimagem transforma-se em um campo de batalha: o indivíduo se avalia, compara-se aos outros e deseja demonstrar do que é capaz. Trata-se de uma transição essencial, a qual Olavo afirmava não ser possível evitar, pois, na sua ausência, a pessoa continua a se perder na aceitação dos outros, sem conseguir afirmar sua própria identidade com um "eu". O risco particular da quinta camada reside na distinção entre uma derrota e uma rendição interna. A derrota é uma realidade: perde-se uma competição, uma discussão, um projeto. A covardia interna consiste em evitar se colocar na situação de enfrentar uma possível derrota, é a atitude de quem prefere não se arriscar a tentar do que correr o risco de falhar. Aqueles que misturam os dois conceitos acabam se tornando incapazes de agir, paralisados pelo receio de perder, ou, em contrapartida, compensam esse medo com uma atitude arrogante e ostentosa — a fanfarronice de quem clama por sua própria força justamente por não possuí-la. No cerne da quinta camada, existe uma solidão intrínseca a sua essência: ao se afastar da matriz emocional, a pessoa percebe sua própria solidão, e é essa solidão que deve tolerar sem convertê-la em depressão ou arrogância. A quinta camada bem desenvolvida gera o indivíduo que consegue afirmar-se sem sobrepujar os outros, que aceita sua própria solidão e força sem ter a necessidade de humilhar ninguém para reconhecê-las. Pouco integrada, gera o competitivo doente, que só é competitivo se ganhar, o bully que este texto caracteriza em todas as suas formas.
A sexta camada refere-se à aptidão e à vocação. É o plano onde o potencial se transforma em ação, onde o eu não se questiona mais se possui poder. para questionar se isso é eficaz? — isto é, quando a energia deixa de se direcionar para a própria imagem e passa a se concentrar em uma obra, em uma atividade específica no mundo. Aqui o mundo passa a ser a medida: não interessa tanto o que os outros pensam a meu respeito, mas se o que faço se valida perante a realidade, se gera resultados, se resiste à confrontação com os fatos. É a transição do posso para o faço. É fundamental não confundir vocação com um sonho idealizado: vocação não é a agradável ilusão do que eu almejo ser, mas sim o foco intenso, muitas vezes doloroso, em uma tarefa que requer o renúncia de inúmeras outras possibilidades para se dedicar a uma única. Implica dor pessoal, requer apoio, e demanda a consciência de que é quase impossível realizar muitas coisas por conta própria. Contudo, a sexta camada continua a ser, de certa forma, pessoal — dedicada à criação do indivíduo, ao seu trabalho, à sua profissão. É neste lugar que reside o Fausto ao qual me referi: o indivíduo da sexta camada, capaz de criar e moldar o mundo de acordo com sua própria obra. No entanto, se ele não for tocado pela vida espiritual, irá renunciar à sua própria salvação em troca do que consegue erguer com as mãos. A sexta camada, quando bem integrada, dá origem ao artífice, aquele que cria e serve através de sua obra. No entanto, se estiver mal integrada, resulta no empresário que troca Deus por riquezas, no Fausto que aceita todas as ofertas do diabo.
Um único exemplo, depois das três camadas, torna a mecânica óbvia. Imagine uma pessoa que está escrevendo um livro. No quarto nível, está em jogo apenas o olhar: ele escreve para ser amado, para que os pais, os amigos, o mundo o reconheçam, e o valor do livro se confunde completamente com o carinho que ele espera receber — se não o elogiarem, ele não tem valor algum, e nem o livro nem o autor conseguem suportar a indiferença. Na quinta camada, o mesmo livro transforma-se em um campo de batalha do ego: ele escreve para demonstrar sua capacidade, para triunfar, para se consolidar diante daqueles que duvidavam, e o livro deixa de ser uma obra para se tornar um troféu, uma evidência de poder. Só na sexta camada o livro começa a existir autonomamente: ele escreve porque a obra exige que seja feita, porque existe uma verdade a ser expressa e uma missão a ser realizada, e assim, já não é a opinião dos outros nem a sua própria representação que determinam o valor, mas a própria essência, a sua verdade, a sua solidez diante da realidade. É o mesmo ato — escrever — passando por três almas distintas ou por três estados consecutivos da mesma alma.
É por isso que Olavo mencionava, em essência, a ideia de três nascimentos. O primeiro refere-se ao surgimento do eu afetivo, aquele que, ao explorar a quarta camada, descobre que é amado e que também tem a capacidade de amar — pois, sem essa descoberta, a pessoa pode passar toda a sua vida implorando por afeto. O segundo refere-se ao surgimento do eu agente, aquele que, ao atingir a quinta camada, percebe que possui poder, que é capaz de se afirmar e que existe como um sujeito em si mesmo, e não apenas como uma sombra de outros. O terceiro aspecto é o surgimento do eu criador, que, na sexta camada, se dá conta de que possui a capacidade de criar, reconhecendo que existe uma obra e uma vocação que o transcendem e o chamam. Cada novo começo implica um fim: para que o eu ativo venha à tona, é necessário permitir a morte da dependência emocional; para que o eu criador se manifeste, é preciso deixar de lado a adoração da própria imagem. O drama da criança que nunca morre — drama que intitula este ensaio — reside precisamente naqueles que se negam a aceitar essas mortes consecutivas e, por essa razão, não conseguem alcançar nenhum dos nascimentos subsequentes, permanecendo parados diante da primeira porta, incessantemente batendo nela, implorando ao mundo o afeto que deveriam ter recebido, a fim de transformá-lo em força, em criação, em serviço.
Chego, por fim, àquilo que reputo como um dos maiores males da quarta camada, que é, na verdade, a ideia principal de tudo o que tenho afirmado: o ato de se ficar martelando excessivamente. Se você possui uma quarta camada, lute com todas as suas forças para não cair nessa repetição, pois é exatamente aqui que as vidas se arruinam. Imagine que você é casado e sua esposa deseja sair com suas amigas. Você é muito irritante. Às vezes, ela realmente se sentirá à vontade, e em outras ocasiões, talvez não; mas imagine que ela vai a uma festa com suas amigas, uma festa repleta de homens. Qualquer homem responderia: se você vai, eu quero ir também. Mas por que isso? Uma vez que, em certos aspectos, a mulher é mais vulnerável em termos sexuais — mais vulnerável até do que o homem nesse aspecto. Considere quantas mulheres deixam seus parceiros devido a infidelidades ou porque estão interessadas em outro homem. As mulheres abandonam os homens por razões que muitas vezes parecem triviais: ele se dedica demais ao trabalho e não passa tempo com ela; ele não é um bom pai; ou, em alguns casos, a própria mulher traiu o parceiro, cometendo um erro, e ainda assim reclama de que ele não estava presente. É sempre essa porcaria. Acontece que, se um homem faz o mesmo, ele é considerado o demônio máximo, o mal absoluto. As mulheres se tornaram assim devido às ações do feminismo, e especialmente por causa das manifestações do protestantismo, que elevam a posição da filha a um patamar que não deveria ocupar.
Aqui farei um parêntese teológico necessário, pois ele esclarece a fonte espiritual de toda essa inversão.O protestantismo compartilha uma perspectiva sobre a mulher que é bastante similar à do judaísmo contemporâneo. No judaísmo contemporâneo, as mulheres não usam quipá porque se acredita que Deus já está presente nelas, que elas são mais dotadas de divindade do que os homens; por essa razão, é o homem que deve colocar o quipá. Nessa interpretação, a mulher seria um ser metafisicamente superior ao homem — o que contrasta de maneira radical com o catolicismo. O protestantismo é uma combinação peculiar do cristianismo e do judaísmo; eu costumo afirmar que, assim como a Umbanda se relaciona ao cristianismo, o protestantismo é uma forma de sincretismo que une o cristianismo ao cabundá. O protestante afirma que a mulher é santificada na carne, o que contrasta com a nossa posição, nós católicos: você é um ser humano como qualquer outro, não há uma elevação apenas por ser algo. Apenas Maria experimentou isso, e ela já não está mais entre nós. Qualquer pessoa pode alcançar a santificação, mas ninguém nasce com qualidades superiores. Este é o equívoco tanto do protestantismo quanto do judaísmo, uma questão teológica que foi transferida de uma tradição para a outra: a mulher é considerada mais santa do que o homem apenas por sua habilidade de dar à luz e gerar filhos. É a partir desse contexto que surgiram muitas das leis em defesa dos direitos das mulheres, bem como uma parte significativa do próprio movimento feminista, originado de seitas protestantes que eram extremamente rigorosas e inflexíveis em relação às jovens. Em seguida, outras seitas protestantes, abordando a questão judaica, afirmaram que as anteriores estavam equivocadas. O núcleo originou-se, de um lado, da rigidez das famílias em relação às suas filhas, e, de outro, da problemática da mentalidade puritana; tanto a manifestação de um rigor excessivo quanto a proteção exagerada tiveram suas raízes nessa região, tudo fruto da invenção protestante, que posteriormente se deslocou para a esquerda, transformando-se em feminismo. A raiz espiritual do feminismo se encontra na junção do paganismo com certas doutrinas cristãs distorcidas, provenientes de seitas que adoravam deusas no contexto pagão, e a partir daí, o movimento se direcionou para a esquerda. Em outras palavras, não se origina do catolicismo. Um padre ignorante, típico daqueles que encontramos na internet, afirmou certa vez que um santo era feminista — isso não tem nenhuma relação, pois o indivíduo nem sequer compreende o que é feminismo.
Retorno à questão central que aflige a mulher contemporânea, que é essa remoção. Escolha um homem que seja bem afeminado, que se enquadre nas camadas quarta, quinta ou sexta; o afeminado por excelência; a esposa dele não pode sair de casa para absolutamente nada. Qual é o significado disso? Que ele é bastante imaturo e acredita que a parceira pode ser infiel a qualquer instante. Em geral, esses indivíduos foram subjugados ainda na juventude — vocês não conseguem, afirmavam, menosprezando a pessoa. Ao se casar, ele se torna ciumento: estou com uma jovem que considero melhor do que eu; se a perder, será difícil encontrar outra igual; e, por eu ser feio, ela pode me trair a qualquer momento. É mais ou menos assim que se pensa. Às vezes, o indivíduo em questão nem se encaixa em nenhuma dessas categorias — é a sociedade que o cerca, assim como a microssociedade que compõe sua própria família, que desde pequeno o fez sentir que não era capaz. Eu tinha um amigo assim, muito melhor do que a garota em todos os aspectos, e mesmo assim ele se via como um fracasso e tinha medo de ser traído. Quando ela realmente o traiu, ele decidiu terminar o relacionamento e caiu em uma profunda depressão, pois tudo o que sua família havia dito — que ele era um fracassado — estava tão enraizado em sua mente que quase o levou ao suicídio, mesmo sendo ele um empresário de sucesso. A família implantou essa ideia de tal forma que ele chegou a considerar tirar a própria vida. É por isso que os pais devem educar seus filhos para que gerenciem o ego de forma mais eficaz. Todas essas questões derivam do ego, como afirma Jung — o ego interno. É necessário descobrir uma maneira de se libertar, em vez de manter o ego em um nível extremamente baixo, o que resulta em depressão; um ego quase inexistente é sinônimo de depressão, sem nem mesmo a ilusão metafísica de se considerar inferior aos outros. Ter muito ego é sinônimo de prepotência. É a presença e a ausência do ego. A verdadeira vontade é estar equilibrado entre os dois extremos; fora desse ponto, mergulha-se no vício. O marido ciumento foi subjugado na juventude, e o mesmo se aplica à mulher: aquela que deseja aprisionar seu marido ou que anseia por um pai, ou ainda, que também foi subjugada em sua juventude. Ela conquista o homem que deseja e não permite que ele saia de casa, pois acredita que, se o perder, nunca mais encontrará outro igual. É bastante comum entre esse tipo de pessoa.
Ao centro de tudo, ao cerne do processo de remoerção, aí está o motor. A pessoa acumula diversas experiências da vida, incluindo as dificuldades que encontra, coisas simples e cotidianas, e vai reunindo essas situações, criando uma bola de neve. Em algum momento, uma amiga, um familiar, a mãe, o pai ou o irmão dela pode sugerir que seria interessante verificar se fulano está sendo infiel. Isso requer uma análise que ela não consegue realizar. Assim, ela vai acumulando camadas, por vezes ao longo de muitos anos, reunindo fragmentos até criar uma representação da realidade — uma bola de neve totalmente gnóstica. Não faz parte da realidade, mas na mente dela, é assim. É completamente lógico e incontestável lá dentro. E ela vai conversar com o parceiro — na verdade, ela não vai conversar, ela entra em confronto, pois tem plena convicção do que ocorreu, sem ter ideia do que realmente aconteceu. Embora não saiba o que aconteceu, internamente tem plena convicção de que é verdadeiro. É daí que surge a gnose psíquica: o indivíduo construiu uma realidade exclusiva para si, que não se relaciona de forma alguma com a realidade objetiva, uma realidade interna que apenas existe na sua mente e que não tem existência no mundo exterior. Essas pessoas acabam se tornando amargas. A principal questão da "morte" em um relacionamento — quando um lado, digamos a mulher, mata o cara, ou o contrário — surge, em grande parte, disso: um dos parceiros se fixa em pensamentos negativos até que o outro se transforme no maior mal que possam imaginar. O que está prejudicando a vida dela é ele; ou dela; mas ela não fez nada, ele é quem está gerando confusões. Na opinião dela, você é uma das piores pessoas que existem, alguém que trai, critica, menospreza, um indivíduo completamente desprezível. Então surge a questão crucial para ela: minha existência só terá significado se eu te deixar de uma vez por todas ou se eu te eliminar. Algumas chegam a acreditar tanto nisso que, em meio a uma grande briga, ela pode te cravar uma faca na barriga, ou vice-versa. É essa a razão pela qual é arriscado. A ideia central de toda essa discussão é a remoerção. Reescrever a ponto de criar uma fanfic. Esse tipo de raciocínio apavorado, criando uma gnose psíquica que só existe na mente do indivíduo, pode ser considerado uma forma de esquizofrenia.
Além disso, existe o oposto masculino da mesma questão, que se refere ao homem moderno, tão submisso que permite que a mulher o domine constantemente. Não toma as rédeas do lar, pois tudo gira em torno dela; é ela quem exerce o controle sobre ele. É algo extremamente tolo e pode pôr fim a um relacionamento rapidamente, caso o homem seja realmente masculino — pois em algum momento ele vai explodir e vai dizer: ou você me permite sair com meus amigos, ou tudo termina. Aí ela vai, e é nesse ponto que tudo chega ao fim. O ego da mulher se eleva tanto, graças a ele, pois foi ele quem a fez se sentir superior, que ela começa a acreditar que está com alguém que considera inferior a ela, e passa a pensar que é muito mais valiosa do que ele, fazendo com que ele a deva respeito para sempre, enquanto ela não tem nenhuma obrigação em relação a ele. É uma autorização para tratá-lo de forma desprezível, o que deteriora a relação. As pessoas contemporâneas precisam deixar de agir dessa maneira e começar a tratar os outros com respeito, reconhecendo sua humanidade e aprendendo a lidar adequadamente com as situações que surgem. O contemporâneo ignora: acumula confusão em sua mente, depois a despeja sobre os outros, e ao final, se lamenta profundamente, pois não consegue controlar seus próprios sentimentos e emoções.
Qual é, portanto, a solução? A maneira mais eficaz de evitar tudo isso é ter uma boa conversa com o cônjuge. É fundamental ter um cuidado que raramente é observado: não é necessário compartilhar todos os pequenos detalhes. Algumas mulheres, ao ouvir determinadas situações da vida, podem simplesmente optar por encerrar o relacionamento, pois são bastante sensíveis, especialmente no início da relação. Quando se trata de uma mulher com quem você é casado, a abordagem é diferente; no entanto, em um relacionamento de namoro, é melhor não compartilhar certos assuntos muito pessoais. Quem sabe mais tarde, no casamento, se for algo realmente necessário; caso contrário, você pode arruinar o seu próprio casamento, pois muitas se mostram frágeis demais em relação ao que você compartilha com elas. O ideal, quando surgir desconfianças, é sentar e dialogar. Sentem-se, e idealmente, comecem reunindo ela e todos os amigos do casal. Comunique-se dizendo: eu desejo desvendar algumas questões, e para isso, preciso que todos vocês compareçam a uma pequena reunião, onde poderão me auxiliar a dialogar com ela e a compreender melhor o que está se passando. Amigos de verdade estão lá para ajudar, e é dessa maneira que você descobre tudo. É uma espécie de mini-análise para entender a situação, e ela elimina grande parte das percepções equivocadas que você possa ter. O cerne do problema nos relacionamentos contemporâneos reside exatamente nisso: alimentar uma mágoa até que a outra pessoa se transforme em um verdadeiro monstro em minha mente, e então eu decido acabar com a relação, ou uma situação negativa ocorre, ou eu cometo um erro grave em relação a ela. É uma grande tolice, e essas pessoas estão completamente perdidas. A maior parte dos relacionamentos termina dessa maneira, com um dos parceiros desenvolvendo uma compreensão profunda sobre o outro. Às vezes, pode ser um amor genuíno, e nesse caso, não há qualquer problema; o que realmente se torna problemático é a criação dessas gnoses internas, algo que é muito mais frequente entre as mulheres — elas são verdadeiras especialistas nisso. A natureza do homem tende a ser mais pragmática; ele raramente se entrega a isso, a menos que carregue um complexo ou uma sensação de inferioridade muito pessoal, ou se já tiver um comportamento mais afeminado. No entanto, entre as mulheres, isso é quase considerado normal.
E é para que você perceba o quão desagradável é agir de forma imatura que eu escrevi tudo isso. O texto todo se tratou disso. São essas pequenas manias da infância, esses comportamentos típicos das crianças, que muitos de nós não conseguimos deixar para trás na juventude, que vão criando frustrações psicológicas capazes de arruinar sua vida no futuro. A criança que sobreviveu dentro do adulto não é de forma alguma um símbolo de doçura; é uma ferida que continua a pulsar, demandando, mesmo após tantas décadas, o afeto que nunca recebeu do mundo. Ela ainda se rebela contra aquilo que considera superior, erguendo em seu interior, dentro do próprio crânio, uma verdade singular que não se relaciona com a realidade de nenhuma maneira. O custo dessa criança que sobreviveu contra todas as probabilidades é sempre excessivamente alto: representa a amizade perdida, o grupo deixado para trás, o casamento desfeito, a traição dolorosa e a recusa de ajuda em troca de um punhado de posses. Eliminar a dependência emocional da criança no momento apropriado — permitir que essa busca por afeto cesse para dar origem à força, e deixar de lado a adoração da própria imagem para que a verdadeira obra possa surgir — não é um ato de crueldade. É a única forma de ser misericordioso consigo mesmo.
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CÍRCULO DE ESTUDOS NOUS. Formulações conceituais próprias — o hexagrama da perdição, a gnose psíquica, o triângulo de Proteu, a remoerção e o arquétipo do idiota — desenvolvidas por Gabriel Godoi de Oliveira. Primavera do Leste: Círculo de Estudos Nous, 2026.

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