A Fortaleza a qual os Fracos se Referem como Veneno
Se os alunos perguntarem de novo, esta será a resposta que darei a eles, não a outra. Não é uma questão de se render sem protestar — de forma alguma; que ninguém confunda a submissão de quem foi castrado com uma virtude, pois definitivamente não é. Que voltem a distinguir soldado de carrasco, porque a diferença é uma pergunta que deveríamos fazer a nós mesmos antes de cada debate: eu quero que o golpe dele não prospere, ou eu quero vê-lo fracassar? Se esta for sua primeira experiência, aproveite o fogo sem moderação, pois ele é seu e sagrado. Não permita que ninguém minimize sua intensidade afirmando que ter paixão é algo negativo. Se for a segunda, preste atenção — o buraco que você está fazendo tem seu nome marcado no fundo. Restaura à geração a espinha que lhe tiraram; restitui ao jovem o direito de ser o que a sua natureza o chamou a ser; e, reacendida a sua chama interna, conserva-a com a única coragem que ainda se mantém ereta depois da fumaça ter se dissipado: a coragem de assumir e sustentar a sua própria força. Um homem, afinal, não se define por ser o responsável por mais mortes. É aquele que pode derrubar, mas sabe por que não o faz.
Gabriel G. Oliveira
8/19/202627 min ler


A autoproteção, o instinto e o indivíduo que foi ensinado a detestar a própria espinha dorsal
Vários estudantes me solicitaram que eu abordasse o tema da autodefesa verbal, e isso pode ser uma das contribuições mais valiosas que tenho a oferecer, pois a maioria das pessoas não compreende realmente do que se trata.
A maioria das pessoas acredita que a autodefesa verbal consiste em ofender, em falar bobagens, em provocar o outro para que ele ataque você. Isso não tem relação alguma com o assunto. Não é isso que a garotada atual considera como "mitar", esse teatro de subir em cima do outro para arrancar aplauso de plateia. É algo diferente, e de uma gravidade maior. A autodefesa verbal refere-se à sua reação quando uma pessoa — que não é um amigo, nem um adversário qualquer, mas alguém que, de maneira cruel e calculada, decidiu arruinar você — decide atacar, e você precisa fazê-la recuar sem se envolver no jogo medíocre que ela planejou. Não se trata de lutar em pé de igualdade. Desmantelar completamente a lógica do sujeito, evidenciar a insignificância de suas ações e forçá-lo a se distanciar. Assim como qualquer ferramenta cortante, ela inicia por um aspecto que muitos ignoram: o aprendizado de identificar quem são seus adversários.
Há pessoas que intencionalmente vão te provocar para brigar, agindo com maldade e com o claro propósito de te magoar. O método mais frequente que essas pessoas usam não é um soco no rosto — é a ofensa disfarçada, que elas lançam no meio de uma conversa, camuflada como uma brincadeira. Para o grupo, isso pode parecer uma brincadeira; mas para você, que está na situação crítica, é uma ofensa grotesca disfarçada, e é precisamente esse disfarce que a torna aceitável. Preste atenção na abordagem do agressor, pois ele segue um padrão: inicialmente, ele critica o seu aspecto físico, o seu corpo. Em seguida, passa para a sua vida pessoal e seus relacionamentos. Em seguida, observa-se o próprio trabalho, os pertences e tudo o que se conseguiu alcançar, seja pouco ou muito, e isso está relacionado também às finanças, ao que se possui ou não. Assim, quando decide elevar o tom, ele te rebaixa na presença de quem você estima — seja sua namorada, esposa ou qualquer outra pessoa; e, caso você seja mulher, isso ocorre na frente do seu marido. Cada passo desses é uma mensagem, e essa mensagem é invariavelmente a mesma: eu tenho o poder de te diminuir e ninguém será capaz de me deter. Isto não é uma piada. Jamais foi. É um homem que tenta te submeter diante do público, e justamente por entender essa dinâmica de poder, você não se torna uma vítima fácil.
É a mesma estrutura gramatical que observamos nos primatas, e isso não é apenas uma figura de linguagem. Nos macacos, a dominação chega a um nível em que um indivíduo submete completamente o outro, e aquele que foi subjugado começa a agir como uma fêmea do dominante para não desafiar o poderoso líder do grupo. O indivíduo de caráter duvidoso realiza uma analogia simbólica desse comportamento: em vez de se opor a você, ele busca deixá-lo em uma posição de submissão perante os outros. É por essa razão que a situação demanda cautela — cautela, cautela, cautela, pois essas pessoas estão presentes e têm plena consciência do que estão fazendo. O cuidado inicia com uma pergunta fundamental: essa pessoa deseja o meu bem ou o meu mal? Você só pode considerar alguém como um possível adversário quando houver sinais claros e evidentes. Uma pessoa que você acabou de conhecer e que já demonstra hostilidade, chegando com preconceitos enraizados e tentando desmoralizá-lo sem sequer ter trocado dez palavras com você — essa pessoa claramente não tem apreço por você e deseja lhe causar dano; ela possui alguma forma de inveja reprimida, que se manifesta de forma excessiva antes mesmo que haja um motivo real para isso. Ou é aquele que leva tempo, fica por perto, e de repente você nota que ele está disseminando coisas negativas sobre você para minar sua reputação dentro do grupo, mesmo sem você ter feito nada. Não é à toa. Ele deseja ascender, e sua intenção é fazê-lo precisamente sobre os escombros da sua reputação: permanecer no auge em cima do que restar de você.
É aqui que se insere um conceito que exploramos profundamente no Círculo de Estudos, oriundo da teoria das camadas da personalidade, elaborada pelo professor Olavo de Carvalho, no Curso Online de Filosofia. Tenha cautela, especialmente com aqueles que estão na quarta, quinta e sexta camadas. Embora nem todas as pessoas difíceis se encaixem nessa descrição, é importante notar que, na maioria dos casos (cerca de noventa por cento), aqueles que se comportam como verdadeiros antagonistas geralmente têm más intenções. Eles estão em busca de afeto, e se você não estiver disposto a oferecê-lo, é provável que eles tentem prejudicá-lo para se apropriar do afeto que você já possui. O de quinta tem um enorme potencial para se tornar um verdadeiro vilão; não no sentido de um criminoso que rouba carteiras, mas sim aquele que deseja arrancar sua imagem para usá-la como um traje, que busca destruir sua honra para utilizá-la como um trampolim. Estas são as pessoas que enfraquecem a sua autoridade dentro de um grupo com aquelas piadinhas que não são piadas. Dar um nome à camada não é um rótulo arrogante; é reconhecer de forma antecipada a intenção que se oculta por trás de um sorriso, e ter essa percepção já é metade do caminho para se proteger.
Eu experimentei isso pessoalmente. Havia um garoto, que era cerca de cinco anos mais novo que eu, dentro do meu grupo de amigos, que sempre tentava se mostrar mais maduro em relação a mim. Ele era o tipo de pessoa que me convidava, de forma gratuita, para entrar em meio ao tumulto: ocorria uma discussão no grupo do qual eu não fazia parte, e ele já começava a me ofender sem motivo algum, demonstrando um desejo imediato de me envolver na briga. Certa vez, tomei a decisão de pôr fim àquela situação. E terminei — não no braço, mas na letra. Coloquei o homem sentado no chão sem sequer tocá-lo: revelei, um por um, os males que ele tanto ocultava, e tracei sem compaixão o abismo que existia entre a sua vida e a minha, entre quem ele realmente era e a imagem que tentava projetar para os outros. Foi difícil, foi algo íntimo, foi criado para causar uma dor que nenhum soco conseguiria provocar. Todo o grupo se aproximou de mim para afirmar que eu havia sido excessivamente cruel com ele. É possível que estejam corretos em relação à quantidade; no entanto, estão equivocados quanto ao princípio. Aquele garoto havia mostrado, repetidamente, que desejava minha destruição, e quando se está diante de alguém que busca sua ruína, a falta de ação não é um ato de bondade, mas sim uma capitulação.
Algum tempo depois, ele começou a provocar brigas com os outros membros do grupo, e até mesmo os próprios rapazes o expulsaram — ninguém conseguia suportá-lo mais. Então, de maneira tão previsível quanto um relógio, ele expressou o desejo de retornar. Comecei a me desculpar com todos, e quando recebi a mensagem no meu celular, enquanto um amigo estava aqui em casa, eu já tinha certeza do que iria fazer. Deixei bem claro: não preciso ouvir o que você tem a dizer. Você deseja ser uma pessoa respeitável? Primeiramente, torne-se uma pessoa que merece respeito. Vá buscar uma religião, vá adquirir valores morais e retorne daqui a alguns anos, quando realmente tiver alterado a forma como se comporta em relação a todos — aí, de fato, poderei afirmar que você se transformou. Ninguém se transforma de fato em apenas seis meses; isso requer anos de esforço, e enquanto você continuar sendo quem é atualmente, mantenha distância de mim. Ele ainda tentou se afirmar, perguntou se eu estava disposto a brigar, e eu respondi que não: eu apenas planejava informar a todos sobre a verdadeira natureza dele e suas ações, e ele imediatamente abaixou a cabeça, pois compreendeu que eu poderia expô-lo diante de todo o grupo como o que ele mesmo havia criado ser. Mais tarde, soube que ele procurou o mencionado amigo em comum para desabafar, afirmando que eu havia arruinado sua semana e que, se eu tivesse lhe dado um murro no rosto seguido de outro no estômago, teria doído menos. Aí está toda a lição, e eu vou explorá-la até o final, pois existe uma nuance que raramente é percebida.
A nuance é a seguinte: há uma distinção sutil, mas crucial, entre frustrar o ataque do indivíduo e eliminá-lo por mero deleite. A verdadeira autodefesa é o primeiro passo. Ela refuta o raciocínio do agressor, expõe a hipocrisia deste, evidencia a mesquinhez da ofensa e responde à ofensa velada com uma verdade declarada diretamente — responde com acréscimos, de forma clara e sem rodeios. Isto é poder, e é um poder legítimo, portanto, não hesite em empregá-lo contra aqueles que se aproximaram para te aniquilar. No entanto, existe um limite além do qual a mesma força transforma sua essência sem aviso: quando ela para de desejar que o ataque não suceda e começa a se deliciar com a ideia de ver o outro em ruínas, ela não está mais agindo em sua defesa. Observe que eu mesmo reprovo, e com toda a justificação, aquele que arrasa a honra alheia para se elevar sobre os escombros; e a humilhação levada ao extremo é precisamente isso — manter-se em pé sobre o outro. É o mais antigo dos mecanismos, aquele que René Girard dedicou sua vida a esboçar: a rivalidade por imitação, a coesão grupal que se manifesta na liberação de tensões sobre uma vítima, a violência originária que exige uma pessoa caída para que os demais possam respirar aliviados. No momento em que a roda exalou um suspiro de alívio por eu ter deixado um homem reduzido a pó, eu não tomei medidas para me proteger: acendi a mais primitiva das fogueiras e assumi o papel de sacerdote em relação a ela. A defesa te restitui por completo; a crueldade te faz mudar de lado sem que você note. A questão que distingue uma da outra é simples e severa — uma vez realizado, você é capaz de olhar para o que fez?
E ao puxar esse fio, comecei a mapear toda a origem desse povo e entender por que, atualmente, há tantas pessoas frouxas do outro lado. O mundo se fragmentou em dois enganos opostos. De um lado, aqueles que desejam sua destruição; do outro, uma multitude que não tem a intenção de prejudicar ninguém, mas que está tão desorientada que percebe ameaças em todos os lugares. As pessoas parecem estar imersas em um medo peculiar, como se tivessem interpretado a tese de Hobbes de forma literal e acreditassem que todos têm a intenção de prejudicar uns aos outros a qualquer momento, sem pausa. Você pronuncia uma frase — uma perspectiva diferente, apenas isso — e a pessoa imediatamente se coloca em defesa, como se você estivesse brandindo uma faca. Toda a gente está ansiosa para se destacar, para se afirmar, e, nesse cenário, alguém simplesmente apresentou uma perspectiva diferente e foi interpretado como um agressor. Isso não tem relação com ofensa alguma. No entanto, a pessoa se magoa sozinha, isolada em seu canto, e ainda consegue colocar a culpa em você por uma ferida que foi causada por ela mesma, acionada pelos seus próprios gatilhos.
Um exemplo simples ilustra a magnitude da questão. O corretor do meu celular costuma separar a palavra amanhã, deixando o "a" isolado do restante; isso é um problema do dispositivo e ocorre com todos os usuários de corretores. Então, em um simples story, emerge do esgoto um indivíduo para dizer: veja como você escreve incorretamente. Eu fico observando a expressão dele, ciente de que vou precisar atualizar o maldito aplicativo apenas para evitar ter que esclarecer o óbvio para aqueles que não têm paciência de refletir por dois segundos. O mais triste é que, frequentemente, são membros da própria família, pessoas mais jovens. Tenho um primo que sempre faz isso, toda vez, sabendo muito bem que é o corretor, e mesmo assim me força a repetir a explicação como se estivesse ensinando uma criança teimosa. Chega um ponto em que você se irrita e apenas bloqueia as pessoas para não ser mais perturbado. Eu mesmo parei de responder às mensagens do público em um canal e passei essa responsabilidade para o Jackson, um colega que também administra o Círculo comigo, pois não tenho paciência para explicar o óbvio a quem insiste em não compreender. Não se trata de arrogância; é uma forma de poupança de paciência. Com autismo, eu possuo uma tranquilidade imensa — sou autista, então isso é algo que vem naturalmente para mim. O que me irrita profundamente é aquela pessoa de pensamento limitado que, mesmo ciente de seu engano, insiste em se colocar em uma posição superior a você, fingindo que você é o ignorante da situação. Isso me provoca uma fadiga que se aproxima do ódio, e admito que sinto ódio sem qualquer constrangimento, pois ele é merecido.
No entanto, o exemplo mais preciso dessa fragilidade que eu observei se manifestar foi em um professor, dentro de uma universidade. Estava tendo uma conversa com um colega — que mal conhecia, pois éramos apenas conhecidos de turma — a respeito do puritanismo e da arrogância que, em geral, caracteriza as pessoas que frequentam a academia, além do seu moralismo que chega a ser insuportável, pessoas que se ofendem com qualquer comentário. Estávamos nos divertindo com isso, apresentando exemplos. Há bastante tempo, o professor pensou que estava acontecendo uma briga e veio até nós para nos acalmar, afirmando que a vida é muito mais importante do que isso e que precisávamos compreender que há um mundo além disso. Eu observei e comentei: professor, é precisamente sobre isso que estávamos conversando. E a expressão dele caiu, pois ele havia acabado de exemplificar nossa tese — o homem que enxerga conflito onde há diálogo. Em sua defesa, algo que hoje é raro entre os professores, ele teve a humildade de admitir seu erro: pediu desculpas, reconheceu que havia agido de forma arrogante e que havia feito um julgamento sobre uma situação que na verdade não estava ocorrendo. Mas a tela permaneceu eternamente pintada. O frágil não ouve o que é dito; ele ouve aquilo que teme. O que ele realmente receia é, sem dúvida, um ataque.
Chesterton fez um diagnóstico desse tipo com uma precisão aterrorizante. O homem considerado louco, segundo ele na obra Ortodoxia, não é aquele que perdeu a capacidade de raciocínio; é, na verdade, aquele que perdeu tudo, exceto a razão. O frágil moderno funciona dessa maneira: pensa de forma absolutamente correta dentro de um círculo que é pequeno demais, e qualquer discordância dentro desse círculo é rapidamente interpretada como uma evidência de hostilidade. Tudo se interconecta, tudo valida, tudo indica a mesma direção — todos se opõem a ele. É uma paranoia que faz sentido, completa e consistente, e por essa razão, é impossível de ser desmascarada de fora. Para Voegelin, ele se referiria ao local onde essas pessoas residem como uma segunda realidade: um universo que é interiormente moldado e que substitui o mundo que realmente existe, onde o que importa não é o que ocorre, mas sim o que a construção exige que ocorra. Eles não estão dizendo a verdade, preste atenção. Eles de fato residem em um local onde qualquer um que tenha uma opinião divergente não hesita em puxar a faca. As pessoas que vivem naquela área estão constantemente em posição de defesa, sempre com armas à mão e prontas para repreendê-lo por uma ofensa que só existe em sua imaginação.
É neste ponto que chego à origem de tudo, ao lugar onde este texto realmente se conecta à realidade: o delicado percebe facas por toda parte, pois não possui nenhum suporte sob seus próprios pés. Ele carece do que eu descreveria, seguindo Tomás de Aquino, como estar firmemente ligado à realidade. Observe a diferença. Quando você me solicita uma definição de cadeira, eu não compartilho minha opinião sobre o que são cadeiras. Cadeira é o que a Suma Teológica afirma ser — não sou eu quem determina, é a realidade que se impõe, é o ser que já existia antes de qualquer preferência minha. Não consigo encarar uma cadeira como apenas um objeto de plástico com resistência, projetado para sentar; eu percebo todo o plano metafísico que sustenta sua existência, a forma que faz com que essa matéria seja exatamente isso e não outra coisa. É como se eu estivesse em constante meditação, pois para mim, tudo ao meu redor está sempre interconectado, remetendo à ordem que sustenta sua essência. Contemplo uma folha e reconheço a existência de algo — que se pode denominar ordem, forma ou anjo moldador — que a torna uma folha, em vez de uma massa amorfa e caótica, um borrão de matéria desprovida de qualquer regra. Aquele que percebe essa ordem não se perturba com um insulto trivial, pois um insulto é insignificante em comparação ao que ele está observando.
Falo sobre isso porque experimentei isso durante toda a minha infância e sei que é muito difícil fazer com que alguém que não viveu essa experiência compreenda. Quando eu era ainda muito jovem, tive experiências espirituais de altíssimo nível, que apenas uma minoria de seres humanos consegue vivenciar — não menciono isso para me vangloriar, mas sim porque é a informação que elucida todo o restante. Eu participei, em uma escola católica e de noite cerimônias durante as quais invocávamos, eu e meu pai, anjos nas caladas da noite, e uma dessas entidades apareceu diante de nós na forma de uma esfera de plasma, um fogo de intensidade branca, e era possível observar suas perninhas e o dorso coberto de asas movimentando-se de um lado para o outro. Era o arcanjo Cassiel, e o mais impressionante é que ele apareceu exatamente como algumas descrições antigas o retratam — em Tritêmio, no Zohar e na própria tradição católica sobre certos anjos que cobrem o rosto: ele estava com o rosto escondido pelas enormes asas que envolviam todo o seu corpo, com apenas as pernas visíveis, nada daquelaquelas representações de anjos com asas na cabeça que surgiram posteriormente. Havia outras pessoas ao meu redor, ouvindo os gritos, os lamentos, um choro que parecia ser de alguém morrendo ao nosso lado, quando de repente, um estalo ocorreu, e tudo parou, trazendo uma paz. Assim que você testemunha algo assim, não há como enxergar a vida da mesma forma. É semelhante à afirmação de que o santo perde parte de seu livre-arbítrio: aquele que teve uma experiência com o sobrenatural realmente perde essa capacidade, pois não pode mais afirmar que aquilo não existe.
É como se um sapo estivesse saltando em seu pé. O animal está ali, se agitando, pegajoso, escorregadio, recém-vindo do rio; ao tocar sua mão, ele emite um grito, um coaxo, e ainda tenta saltar novamente. Como você pode afirmar que esse sapo não existe? Não há como. Você está observando, experimentando e tocando. Portanto, foi dessa maneira que a metafísica deixou de ser uma teoria para mim: eu segui uma forma, uma descrição, e a entidade apareceu exatamente de acordo com aquela forma. Portanto, essa metafísica é autêntica — e, assim como todas as outras que investiguei e que se revelaram falsas, aquilo que estava na Suma se confirmou como verdadeiro diante dos meus olhos. É a partir daí que se origina a distinção entre duas crenças, e ela elucida o delicado de maneira mais eficaz do que qualquer outra coisa. Há uma crença que, na verdade, se resume a uma esperança ainda não consolidada, uma espécie de "acho que creio, mas talvez nada disso seja real"; você pode chamá-la de pseudofé, uma esperança em sua forma mais primitiva, ainda vibrante. Há uma fé genuína, aquela que surge quando o que parecia impossível se torna uma realidade diante de seus olhos, a ponto de ser inegável, assim como ninguém contestaria a presença do sapo que se segura em sua mão. Aqueles que possuem apenas a primeira tendem a se sentir inseguros, e essa insegurança é a raiz da fragilidade: sem uma base sólida, cada comentário de outra pessoa se transforma em um empurrão que pode levar à queda. Aqueles que possuem a segunda estão atados à realidade por um fio que nenhum ataque verbal consegue romper. O que é frágil não é fraco por sua essência; é fraco porque está à deriva. Aquele que flutua acaba colidindo com tudo ao seu redor.
Então, de onde surge toda essa gente flutuando? Resulta de uma ação cuidadosa e intencional que removeu de uma geração inteira de jovens exatamente aquilo que os sustentava: a motivação. E é crucial afirmar de maneira clara e inequívoca o que realmente representa o masculino, uma vez que o significante foi intencionalmente distorcido. O que define o masculino não se resume ao músculo, ao grito ou à barba. Masculino é o impulso — a necessidade de resistir, de não se submeter diante das imposições, de recusar ser uma vítima do Estado, uma vítima da moral momentaneamente prevalente, ou uma vítima de um movimento social. O verdadeiro homem carrega essa rebelião em sua essência; ele percebe quando tentam convertê-lo em parte de uma manada e resiste. É o ímpeto que produz a força, e não o oposto. Assim, ao retirar o ímpeto de um menino, você não o torna mais calmo — você o esvazia, tira sua essência, pois tudo o que caracteriza uma personalidade masculina está relacionado a isso: o ímpeto, o que está em ação, aquilo que a simbologia antiga designa como polo ativo, em contraste com o polo passivo. Quando o homem se torna inativo, ele se torna mais feminino. E foi exatamente isso que realizaram, de forma massiva, com os garotos.
O garoto é criado entre mulheres bem antes de ter qualquer contato com homens — a mãe, as tias, e, posteriormente, a escola, que é majoritariamente feminina, lidando com sua impulsividade como se fosse um erro a ser corrigido. Não estou responsabilizando a mãe por exercer seu papel: é inerente à sua natureza ser o símbolo da paz, o lar, aquela que tranquiliza e oferece proteção. A questão é que, quando deixados apenas nesse extremo, sem a presença do contraponto masculino, os meninos mais enérgicos, que costumam brigar e que são difíceis de lidar, passam a ser considerados um problema de comportamento, em vez de serem vistos como uma virtude bruta que ainda precisa de forma. A abordagem educacional inspirada em Gramsci e Freire, que não faz nenhuma distinção entre meninos e meninas, permitindo que todos se misturem e recebam o mesmo tipo de ensino, piora ainda mais a situação: as professoras precisam garantir que a sala de aula permaneça organizada, e a energia natural dos meninos é o que mais perturba essa ordem. Como resultado, o trabalho das professoras se transforma em um esforço para conter esse ímpeto, até que ele seja praticamente eliminado. Insistem tanto nesse ponto que chega um momento em que o jovem se entrega completamente, e o que resta é um indivíduo sem qualquer transcendência, que já não espera nada da vida nem de Deus, muitas vezes até se declarando ateu — não por uma convicção refletida, mas porque o seu próprio interior, a essência masculina que o definia, foi tratado ao longo de toda a sua vida como algo demoníaco por aqueles que o educaram. Dá pena, dá pena mesmo, porque são crianças a quem disseram, com todas as letras, que ser o que nasceram para ser é ser mau. O garoto, em determinada fase da vida, se rebela contra tudo que o cerca — e essa rebelião, essencialmente, é uma resposta instintiva de alguém que percebe que estão tentando arrancar sua própria essência.
Então, o mundo realiza sua última mágica: rotula como tóxico exatamente aquele homem que permaneceu completo. O homem prejudicial da publicidade não é aquele que agride — longe disso. É o que possui impulso e ponto final. Quando a mulher lhe dirige um insulto enquanto estão dentro do carro, ele responde com um "fique quieta, eu não vou ouvir isso; se você não quer colaborar, desça e vá embora" — e é por isso que o consideram violento. É o que mantém uma opinião firme, sem ceder para o lado oposto ao primeiro sinal de pressão. Isto é o que não é permitido, e essa proibição é imposta por duas mãos que se entrelaçam. Em primeiro lugar, essa é uma cultura que valoriza a conformidade e não consegue lidar com um indivíduo que resiste ou se opõe. Em seguida, por meio de uma agenda que, de forma explícita, busca a aniquilação do masculino — e falo com propriedade, pois estive imerso nesses movimentos e testemunhei sua estrutura interna: a base ideológica sempre converge para o radicalismo, uma vez que, no fundo, se trata do ódio direcionado a um gênero específico, ou seja, a transformação de todas as qualidades associadas ao homem em vícios. E, considerando que a ética agora se tornou algo subjetivo, o que antes era visto como vício pode passar a ser qualquer aspecto que contrarie a visão de mundo predominante. Assim, o homem por completo transforma-se em um vício; ele não possui nem mesmo uma única virtude, sendo totalmente mal — seguindo a mesma lógica que o nazismo utilizou em relação aos judeus, e não é por acaso que nos referimos a esse núcleo como feminazi, proveniente de uma linha de pensamento que se origina da mesma raiz. A forma mais eficaz de eliminar o pastoreio desde a sua origem é persuadir o próprio homem de que o seu fogo é, na verdade, um veneno. É o método mais eficaz que já presenciei: você não precisa nem mesmo deter a pessoa, apenas instrua-a a sentir vergonha de sua própria espinha dorsal.
Em relação ao impacto que isso teve nas estatísticas das últimas décadas, tenho uma opinião firme, e quero deixar claro que a apresento como uma opinião convicto, e não como uma afirmação definitiva proveniente de um laboratório. A minha interpretação é que grande parte do desenvolvimento de meninos afeminados, assim como certos comportamentos que se seguem, não se origina da genética, mas sim dessa afeminização cultural que é imposta desde a tenra idade — o menino do qual se extraiu toda a vivacidade, moldado para se tornar um cordeirinho obediente, o mais calmo e tímido do grupo, por vezes apresentando traços de uma profunda introversão, moldado ao longo da vida para não desenvolver qualquer tipo de impulso de luta. Isso contrasta com o caso, realmente raro, de uma diferenciação hormonal autêntica, onde o corpo, ao longo da vida, produz mais hormônio de um tipo do que de outro, tornando a situação difícil de reverter. Uma coisa é uma exceção biológica; outra, muito diferente, é a produção social em larga escala. Quando aquele político, durante as eleições, exclamava repetidamente "kit gay, kit gay, kit gay", apesar da sonoridade grotesca da expressão, ele estava se referindo a um elemento concreto: um material que, na prática, induz o menino à lascívia precoce e desconfigura o significante de masculino. Digo isto ciente de que se trata de um campo de batalha intenso, e é precisamente por ser uma disputa que eu a defendo como uma tese pessoal, fundamentada e não como um fato neutro — mas eu a defendo, e a defendo em sua totalidade.
Desse controle do impulso surge uma inversão das virtudes que contamina até os aspectos mais pessoais da vida. A primeira vítima é a compreensão do que é paz. Foi ensinado a uma geração que a paz é sempre algo positivo e o conflito é sempre algo negativo, e isso é uma diminuição da masculinidade camuflada de bondade. A paz representa o papel da mulher — é ela quem permanece no ninho, quem dá à luz os filhos, quem se dedica a encontrar aquilo que proporciona tranquilidade ao lar, e isso é positivo e corresponde ao seu lugar. No entanto, quando o homem coloca a paz como seu principal valor, ele acaba se tornando mais efeminado, pois para o homem, uma paz excessiva frequentemente se torna uma inimiga. Eu possuía um amigo, um homem robusto, forte e extremamente educado, uma pessoa genuinamente bondosa, tão bondosa que, às vezes, parecia ingênuo. Entrava pessoas para confrontá-lo, e ele permanecia em silêncio. Eu te advertia: a qualquer momento, você poderá se complicar por causa disso, pois você é excessivamente generoso com aqueles que não merecem a sua bondade. Ele afirmava que estava tudo bem. Pois então entrou no curso um rapaz diferente, um agroboy arrogante, e esse cara destruiu a autoestima do meu amigo — falava mal dele o tempo todo, e como meu amigo não respondia, em pouco tempo todo o grupo começou a vê-lo como um fracassado, um idiota. Um homem que era objeto de admiração entre as garotas, que era genuinamente querido, teve sua honra subtraída quase sem a necessidade de muitas palavras, e passou os anos da faculdade enfrentando uma situação deplorável em razão disso, sendo tratado de forma desdenhosa por pessoas que apenas reproduziam a calúnia. Ele não era medroso, entenda; apenas era preguiçoso — e essa preguiça, que se camuflava de tranquilidade, lhe custou anos que ele nunca mais recuperou. Foi naquele momento que eu compreendi definitivamente que a paz pode ser uma cilada; no entanto, também percebi, e isso representa o outro lado da mesma moeda, que a resposta que meu amigo tanto precisava não era se tornar um destruidor, mas sim ter a determinação de revelar a calúnia e erradicá-la desde sua origem.
A mesma deturpação contamina o amor. A cabeça do homem é diferente da cabeça da mulher, e ignorar isso arrasa montanhas de relacionamentos. A mulher, em sua posição, geralmente aprecia um homem que demonstra contenção, firmeza e exigências bem definidas — o que o dicionário informal poderia classificar, na sua versão feminina mais descontrolada, como cu-doce: a mulher que nega excessivamente, que impõe suas condições de maneira rigorosa, ou que prefere que tudo ocorra exatamente como ela deseja, caso contrário, não se mostra interessada; aquela que parece estar em conflito com você, mesmo sem um motivo aparente, que faz testes para descobrir até onde você está disposto a ir, a fim de determinar se você é o homem que ela está buscando. Esse teste, até certo ponto, é inerente à espécie, é uma questão de psicologia evolutiva, é o mesmo impulso que uma criança tem para explorar os limites impostos por seu pai. O problema ocorre quando isso se torna excessivo, e hoje isso aconteceu. Há um limite que, uma vez ultrapassado, muda completamente a dinâmica da relação: se o homem se submete excessivamente, os papéis se invertem — a mulher passa a ser a ativa, enquanto ele se torna o passivo, o submisso, e ela deixa de ter respeito por ele. Quando uma mulher deixa de respeitar um homem, é raro que a situação se reverta, pois ela começa a vê-lo como um par, e não como um homem — e isso se baseia na psicologia evolutiva, e não em uma simples opinião minha. É por isso que eu aconselho meus alunos, de maneira fundamentada e sem recorrer a clichês, que quem foi traído não deve retomar um relacionamento com a ex: a chance de que isso aconteça novamente é grande, e o trabalho necessário para reconstruir o respeito que foi perdido raramente vale a pena. Eu também tive um relacionamento com alguém que, nos primeiros meses, parecia ser incrível, mas depois se mostrou uma pessoa totalmente diferente; até hoje, meus amigos me questionam como consegui suportar isso por tanto tempo, e a verdade é que eu mesmo não tenho essa resposta.
O retrato completo dessa inversão é o homem falso, aquele que nomeamos durante o Círculo de Jurandir. O jurandir é a pessoa que se entrega completamente aos seus próprios prazeres, cujo foco na vida é o desfrute, e nada além disso. Você pode notar, até mesmo nas suas preces: ele não expressa gratidão, não solicita revelação, não pede para contemplar as coisas celestiais nem para ter a coragem de lutar por Deus — ele apenas solicita bens materiais, me conceda um carro, me dê uma casa, me forneça isto, me ofereça aquilo. Falecer como um mártir? Ignore-o; ele não deseja morrer de jeito nenhum. Geralmente, ele é um homem de quarta ou quinta camada, que prefere ficar deitado e relaxado, evitando qualquer tipo de confronto. No entanto, quando está diante de uma plateia que lhe convém, ele se enche de orgulho e se apresenta como o machão da relação, embora continue sendo o passivão de sempre. É como se ele fosse o autoritário da situação e, assim que você diverge dele em um mínimo detalhe, ele começa a chorar, incapaz de manter um argumento, sem mencionar uma única fonte, e por fim se senta como uma criança teimosa e afirma: eu acredito nisso, e ponto final. É uma garotinha sensível que usa armadura. Eu conhecia o tipo: o ex-namorado de uma pessoa com quem depois tive um relacionamento era precisamente isso, um charlatão disfarçado de investidor, um moralista de aparência que traía constantemente enquanto pregava sobre a ética, um indivíduo que se apresentava como inovador mas que não possuía uma única ideia que resistisse ao primeiro desafio. Um estereótipo vivo do que outros homens acreditam que um homem deve ser — e, por cima, o estereótipo mais negativo, pois é aquele relacionado ao prazer. É nesse contexto que se destacam os poucos verdadeiros homens que tive o privilégio de conhecer de perto: o professor Olavo de Carvalho, meu mestre durante uma década, por quem nutro um imenso respeito; e, entre aqueles com quem ainda posso me sentar e dialogar, pessoas como Suassuna e Gurgel, um grande professor de literatura — homens de notável estatura, que são o exato oposto de Jurandir. Porque a virtude não se resume a estereótipos; frequentemente, o estereótipo é exatamente o oposto da verdadeira virtude. Um homem respeitável deve possuir a ousadia; uma mulher respeitável deve ter a sua essência feminina. O ativo e o passivo, cada um em sua posição, ou nenhum deles apoia o outro.
Se eu me expresso com essa confiança em relação ao ímpeto, é porque ninguém conseguiu tirar o meu, e toda a minha vida é uma demonstração do que o ímpeto é capaz de realizar. Desde os dez anos, tenho me dedicado intensamente ao estudo do Talmud, da Torá, do Tanach e da Cabalá, e continuei a explorar a Cabalá, mesmo durante o período em que explorei outras tradições religiosas. E passei por muitas tradições, como se estivesse cavando até o osso: pratiquei quimbanda, wicca, vodu, umbanda, visitei o candomblé, mergulhei no hinduísmo e, sobretudo, no budismo zen, que eu adorava, passando horas diante daqueles magníficos quadros dos deuses budistas, explorando a metafísica que ali se encontrava; estudei o islã e suas criaturas, os jinns, e ainda hoje fico maravilhado com as descrições em árabe; investiguei a Telema, o Ásatrú e o Vanatrú, a teosofia de Madame Blavatsky, e o judaísmo com uma profundidade que era rara para a minha idade — cheguei a ler praticamente todo o Talmud traduzido para o português até aquele momento, boa parte da Cabalá disponível, além de textos místicos do âmago da tradição, que quase ninguém consegue acessar, que um rabino da idade não teria conseguido alcançar, e que apenas um tzadik é capaz de decifrar. Meu hebraico era bem fraco; eu consultava o dicionário e o método de leitura, palavra por palavra, e conseguia. Atualmente, observe se um jovem realiza esse tipo de coisa. Não crie. Esta geração apresenta uma certa falta de vigor — e eu valorizo muitas qualidades dessa geração, mas, nesse aspecto, ela se comporta como um grupo de indivíduos que perderam sua determinação e coragem, pessoas das quais foram removidos os atributos que lhes conferiam ousadia, e, por isso, não demonstram ímpeto para realizar nada. Eles não conseguem fazer sequer uma única associação simbólica, uma vez que a afeminação lhes privou do impulso necessário para buscar o que desejam. Eu fui, e fui porque tive determinação. É só isso. Não conseguiram me convencer a me desfazer daquilo, e é exatamente isso que eu tento transmitir à juventude: se você deseja conhecer Deus, busque-o; se tem interesse em descobrir qualquer outra coisa, vá em frente; tenha coragem, meu jovem, tenha coragem. É isso que está ausente, pois foi isso que tiraram.
É neste ponto, no cume de toda essa trajetória, que a lição sobre a autodefesa se completa e se organiza. O ímpeto representa a essência do ser humano, é sagrado, e é nossa obrigação defendê-lo — no entanto, o mesmo Tomás que me ensinou a reconhecer a cadeira também me instrui sobre qual é a ação principal da fortaleza, a fortitudo dos escolásticos: não se trata de atacar, mas sim de sustentar, suportar e manter-se firme diante do mal sem ceder ou recuar; a coragem, antes de tudo, é resistência e, em segundo lugar, uma investida. E o vício que se relaciona com essa virtude quando esta se deteriora possui um nome específico: crueldade, a crudelitas que ele contrapõe à clemência — o apetite irascível, aquele mesmo impulso que eu apoio, desvinculado da justiça e avançando sem restrições, com o objetivo de não apenas corrigir o mal, mas de provocá-lo por prazer. Isto é: a brutalidade não é oposta à força do masculino; é a força do masculino deteriorada, utilizando a mesma matéria-prima, o mesmo fogo, mas sem a moldura que a organiza. Aplica-se a ela exatamente o que afirmamos no Círculo sobre a satanização ser uma esperança corrompida: a crueldade é uma coragem pervertida, um thymós que, ao deixar de atuar em defesa, transforma-se em um pequeno demiurgo, moldando o outro à semelhança do seu próprio desprezo. Assim, a solução nunca consiste em renunciar ao punho; é ter a sabedoria de mantê-lo firme. A verdadeira força não se mede pela quantidade de cidades que você conquista, mas sim pela capacidade de controlar o próprio espírito. O Provérbio afirma de forma direta que é preferível ser paciente do que ser corajoso, e aquele que consegue dominar sua própria mente é superior àquele que conquista uma cidade. Davi teve Saul nas mãos, com o inimigo rendido dentro da caverna, a lança a poucos centímetros do pescoço do homem que o perseguia para matá-lo, e ainda assim se absteve — não por medo, mas por domínio sobre si mesmo, e essa recusa demandou mais coragem do que o ato de golpeá-lo teria exigido. Irai-vos e não pequeis, afirma o apóstolo: há uma ira que não é pecado, uma fúria que se controla, que queima sem se render ao prazer de causar destruição. É essa que o homem deve recuperar — não a docilidade do castrado, mas a fúria controlada do soldado.
Considerações Finais
No final, tudo o que desenvolvi a partir da questão dos estudantes culmina em uma única imagem: um fogo com duas chamas. Deus não concedeu ao homem a energia para que ele queimasse seu semelhante; concedeu-a para que ele construísse — uma parede, uma proteção, um teto onde os mais vulneráveis possam descansar. A potência que o universo afeminado denominou como veneno é autêntica, benéfica e sagrada, mas apenas enquanto estiver em defesa. No momento em que começa a se nutrir do ato de esmagar, deixa de ser sua força e se torna seu dominador: o fogo que deveria estar sob seu controle passa a consumir sua própria mão. De um lado temos o vulnerável, que cometeu um erro por se sentir leve demais, por não ter uma base sólida, por interpretar uma faca em toda conversa — resultado de uma geração que teve sua espinha dorsal arrancada e foi ensinada a envergonhar-se do próprio cerne. No outro lado, há o cruel, que comete erros ainda mais graves, pois possui o fogo e o entrega ao incêndio, arruinando a honra dos outros para se elevar sobre os escombros. Entre os dois, existe um terceiro homem, o único que é reconhecido por Deus: aquele que está firmemente conectado à realidade e, por essa razão, não se deixa abalar pelos insultos da rua; aquele que possui um punho cerrado, mas sabe que não deve abri-lo em um gesto de raiva ou agressão; aquele que é capaz de dominar seu próprio espírito e, por isso, é mais forte do que aquele que conquista uma cidade; aquele que, tendo o inimigo rendido em suas mãos, dentro da caverna, ainda é suficientemente senhor de si para decidir o que fazer com a lança. Defender-se consiste em neutralizar a ofensiva do outro, fazendo com que ela não tenha efeito, sem que você precise abrir mão da sua humanidade para triunfar.
Referências
Filosofia, teologia e formação
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001-2006. 9 v. (Referências à IIª-IIae, questões 123, 157 e 159.)
CARVALHO, Olavo de. Curso Online de Filosofia. Aulas sobre a teoria das camadas da personalidade. [S. l.]: Seminário de Filosofia, 2009-2019.
CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
VOEGELIN, Eric. A Nova Ciência da Política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.
Antropologia e teoria mimética
GIRARD, René. A Violência e o Sagrado. São Paulo: Paz e Terra, 1990.
Escrituras
BÍBLIA. Provérbios; Efésios; I Samuel. In: Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida (Revista e Atualizada). Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.

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