A Língua que o Espelho Não Aceitou
Existe uma maneira de exterminar uma nação sem ferir seu corpo: simplesmente arranque sua língua. Não é a carne vermelha que reside na boca, mas sim a outra, aquela que não se vê, constituída por gírias, sotaques e preces — a língua que representa a alma. Este artigo aborda essa morte premeditada e aqueles que a almejam sob a máscara da cortesia. Fala sobre a língua falada no Brasil como se fosse a carne da nossa cultura, e também sobre o desprezo que a persegue, comparando-o a um auto-ódio disfarçado de superioridade.
Gabriel G. Oliveira
6/26/202632 min ler


A Língua que o Espelho Não Aceitou
Rapaz, meu irmão. Veja aquele objeto ali. Dois moradores de Primavera que estão na rua observam quando um Celta colide com um Fiat, e o Fiat se transforma em pura sucata. Um deles responde: "Oxe, véi!" O outro retruca: "Que é, Zé? Olha o negócio ali!" Além disso, apresenta um diálogo repleto de expressões como "porra", "fi", "arretado", "pá", e de um "diabo" pronunciado com um jota arrastado no meio, como quem cospe a palavra na cara do espanto. Essa é a típica conversa que se ouve em qualquer rua de Primavera do Leste, no Mato Grosso. Não se trata de um erro. É um aspecto cultural. Todo o Brasil se fundiu em um caldeirão e deu origem a um sotaque único. Quem passa a entender a língua a partir desse momento, e não pela gramática normativa de um livro didático, já captou o fundamental: a língua falada se forma na fala do povo antes de ser ajustada no papel do gramático. O que acontece naquela esquina é, em pequena escala, refletido na profundidade da alma de uma nação.
É melhor começar com o que é mais simples e, ao mesmo tempo, mais negado, pois é nesse ponto que o orgulho frequentemente se precipita: o português brasileiro não é o mesmo que o português de Portugal. Veio ao mundo de uma maneira única e se desenvolveu de forma singular. Não se trata de um dialeto degradado de um original mais superior; é algo diferente, resultante de uma junção que Portugal nunca experimentou. A evidência mais evidente, e por isso a mais expressiva, reside nas palavras que separam as duas nações. No que toca a Portugal, "bunda" praticamente não circula; fala-se "cu" ou "rabo" sem o peso de palavrão que a expressão carrega aqui. É interessante notar que "bunda" — a palavra que o purista trataria como deselegante — seja um dos mais antigos brasões da nossa mestiçagem: ela vem do quimbundo, língua banta de Angola, do termo que designava as nádegas, e entrou no português do Brasil pela boca dos africanos escravizados, registrada já no século XIX como angolismo. Quando um brasileiro se refere a "bunda", ele fala, sem saber, a herança da África dentro da gramática de Lisboa. O purista que faz cara feia para a palavra está fazendo cara feia para a própria história do país. O mesmo se aplica à palavra "rapariga": em Portugal, ela se refere simplesmente a uma moça, jovem ou mulher, sem conotações negativas, enquanto no Brasil, especialmente no Nordeste, o termo evoluiu para significar mulher de vida fácil, e ainda mantém, no Sul, vestígios do uso mais antigo de Portugal. Uma única palavra, dois universos éticos. Isso não se trata de decadência. É a vida.
Isso resulta em uma demanda de coerência que o purista nunca consegue atender. Se deseja pureza, que mantenha essa pureza até o final: que retorne ao português europeu completo, com todas as suas expressões diretas, sem a sutileza que o Brasil criou. Porém, ninguém se dedica a isso, pois o verdadeiro purismo não é a meta. A meta é seletiva, e essa seletividade revela a intenção: a gíria do pobre é condenada enquanto se celebra o estrangeirismo do rico, ignora-se o "oxente" do nordestino e aplaude-se o anglicismo do executivo. Poucas vezes, no Brasil, o purismo foi sinônimo de amor à língua. É uma ferramenta para ver o próprio povo de uma posição elevada. É um instrumento de classe camuflado como um instrumento de gramática.
Há quem considere tudo isso como um reflexo de uma pobreza linguística, como se a gíria fosse um sinal de falta de palavras. É precisamente o oposto. O brasileiro tomou a língua latina, que herdou de Roma através de Portugal, e a tornou fluida, como alguém que junta peças para criar novos significados. Cada cidade, quase cada bairro, acrescenta uma nova camada de significado ao mesmo som: "véi", "oxe", "pá", "uai", "arretado", "caba". Enquanto o inglês muitas vezes expressa uma ideia com apenas alguns termos claros, nós a articulamos de várias maneiras, dependendo do local, do tom e do momento. Gosto de dizer que o brasileiro tem com o latim uma relação que evoca, ainda que de maneira bastante distante, a essência do japonês — não na técnica, mas na forma como se organiza. O japonês utiliza os kanji, que são ideogramas de origem chinesa, onde cada símbolo possui um significado e se une a outros para formar palavras completas; esse é um sistema logográfico, que é complementado pelos silabários kana. É importante corrigir um exagero antes que o oponente o utilize contra nós: não são "mais de dez mil" os caracteres da conversa cotidiana japonesa. A jōyō kanji, lista oficial de uso geral elaborada pelo Ministério da Educação japonês, inclui dois mil cento e trinta e seis caracteres, suficientes para mais de noventa por cento dos textos do dia a dia — os milhares de kanji restantes ficam adormecidos nos dicionários e raramente são utilizados. O importante não é o número preciso; o importante é o conceito. O brasileiro possui, em sua própria maneira de se expressar, esse impulso de colher fragmentos de significado e reconfigurá-los, de variar a mesma raiz em mil caminhos diferentes. Isso não torna a língua mais pobre. Mantenha-a vibrante, pulsante e abundante.
Primavera do Leste serve como um laboratório perfeito para ilustrar esse fenômeno, e isso se deve a uma razão histórica: a grande maioria das pessoas que vive lá não é nativa da região. O Mato Grosso é um verdadeiro amálgama de pessoas de diversas origens. São raríssimas as famílias que têm origem nos povos autóctones da região — os Xavantes e demais nações que realmente pertencem àquela terra. A grande maioria veio depois, em fluxos migratórios, carregando o sotaque de sua terra natal. E de onde são, em Primavera? Chegaram habitantes de São Paulo, Minas Gerais, do Nordeste e do Sul, todos ao mesmo tempo, todos em uma mesma cidade. O resultado é um sotaque que varia até na mesma frase: às vezes é gaúcho, outras é nordestino, mineiro, carioca, e tem vezes que os quatro ao mesmo tempo na mesma respiração. Isso não significa ausência de identidade. É uma identidade mais profunda, pois representa uma síntese. O "véi", que o paulista utiliza para se referir a qualquer pessoa, é pronunciado pelo mesmo falante que, alguns segundos depois, emite um "pá" com a inflexão gaúcha, relacionado a eventos, que é irmão gêmeo do "oxe" nordestino, também empregado nessa região; mais adiante, surge o "arretado" do Nordeste, o "vixe", que já se tornou nacionalizado, e o "os óio" do mineiro caipira, que substitui o lh pelo i. Quem se dedica a catalogar as gírias presentes nos dicionários informais de todo o país descobre que quase todas elas reaparecem em Primavera, reunidas em um único lugar, como se estivessem em um caldeirão. É a manifestação do pensamento coletivo de todo o Brasil em uma única cidade. Há uma ilustração que captura perfeitamente essa ideia: o Chico Bento, o típico caipira das histórias em quadrinhos, em Primavera seria considerado um homem da capital. O primaverense consegue ser, em diversas ocasiões, mais caipira do que o Chico Bento, pois carrega consigo as expressões de todo o interior do Brasil. O caipira, neste contexto, não representa a falta de progresso de uma área específica; é a representação de todas elas.
A questão, e é aqui que a tensão da discussão aumenta, surge quando essa fala espontânea se transforma em objeto de desdém. O intelectual progressista — ou, com a mesma frequência, o purista conservador que venera o que vem de fora — faz uma careta. "Escreve errado." "Fala errado." "É caipira." E enquanto declara a sentença, se alimenta da mesma cultura que simula adorar. Aprecia o indígena que está longe, contanto que esteja longe; idealiza o negro, desde que seja uma abstração; festeja o povo, desde que o povo seja uma noção e não uma pessoa real vendendo queijo à margem da estrada. Porque, na prática, quando o verdadeiro pobre surge — seja vendendo seu queijo na esquina ou exclamando um "oxente" durante uma discussão — ele deixa de ser um símbolo e passa a ser um incômodo. O amor teórico pela humanidade se dá muito bem com o ódio real pelo ser humano ali presente. Existe um mecanismo que a psicologia humana sempre compreendeu: é mais simples amar aqueles que estão distantes, pois não nos exigem nada, do que amar o próximo, que tem seu odor, sua maneira de falar que pode ser áspera e que nos impõe exigências. A caridade que é oferecida a causas longínquas, mas que se recusa ao mendigo que está na esquina, não pode ser considerada caridade; é apenas a estética da virtude.
Isso foi precisamente o que Olavo de Carvalho analisou em um texto que merece ser lido de joelhos, intitulado "Pobreza e grossura", que foi publicado pela primeira vez na revista Bravo! no ano de 2000 e posteriormente publicado na coletânea O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Trata-se de um daqueles ensaios que nos comovem profundamente, pois expressam, de forma pungente e cristalina, o que muitas pessoas sentem, mas não conseguem articular: o fato de que o intelectual progressista não nutre amor pelo pobre em si, mas sim pela noção abstrata de pobreza, pela categoria sociológica, pelo proletariado descrito em manuais. Ao mendigo de verdade, ao flanelinha que solicita uma moeda, ele o despreza de forma desrespeitosa. Carvalho ilustra que a verdadeira caridade não consiste na doação grandiosa para um movimento ou na promoção da glória de uma causa, mas sim no ato discreto e muitas vezes imperceptível: identificar se aquela pessoa necessita de um amigo, de uma conta de água paga ou de um prato de comida que a sustente ao longo de todo o dia. Segundo ele, a verdadeira raiz cultural da pobreza não reside nos pobres, mas sim na carência de educação moral daqueles que se consideram superiores a eles. Isso se observa, de maneira ampliada no âmbito municipal, em diversos intelectuais de esquerda provenientes de pequenas cidades: trata-se da pessoa que contribui de forma generosa para o seu pequeno movimento, mas nunca oferece nada ao pobre que não garante um voto. É a mentalidade do pastor que só aceita as ovelhas que estão de acordo e deixa de lado os bodes que se atrevem a divergir. Reúne aqueles que já estão indo na mesma linha de pensamento; ignora aqueles que apenas estão em busca de algo.
Esse mesmo sistema de atacar os mais vulneráveis enquanto se afirma ser seu protetor se revela na máquina que, em nome da lei, pulveriza o pequeno. Na esquina, é montada uma barraca de queijo, sem toda a burocracia que o Estado exige, sem o imposto que os muito pobres não conseguem pagar, e rapidamente surge a autoridade para confiscar tudo. Existem vídeos que provocam uma profunda irritação: policiais que, ao invés de perseguirem criminosos, se voltam contra aqueles que vendem alimentos para sobreviver; e, muitas vezes, a denúncia não é feita por iniciativa do próprio Estado, mas por alguma organização que se autodenomina protetora, a qual prefere ver o vendedor humilhado a vê-lo vivo e lutando pela sua sobrevivência. Dizem que é para a criança, que deveria estar estudando em vez de vender. Se não vendem, a criança não se alimenta; e a escola não serve o prato cheio. Critica-se a falta de supervisão de uma barraca à beira da estrada, como se o pequeno empresário tivesse a capacidade de controlar toda a legislação sanitária do país. É uma estratégia astuta de atacar o pobre e, em seguida, responsabilizar aqueles que apoiam a liberdade econômica pela pobreza gerada pela própria asfixia regulatória. Isso também se aplica às comunidades indígenas que vivem em aldeias isoladas do interior da Amazônia, onde enfrentam uma fome verdadeira e são impedidos, por meio de burocracias, até mesmo de receber doações de pessoas que desejam ajudar — enquanto, nos palanques, se proclama um amor abstrato pelo indígena, que não é reconhecido pelo indígena real. Richard Rasmussen, um biólogo familiarizado com essas regiões, já comentou em público que muitos povos indígenas sentem mais desconfiança do que gratidão em relação a um certo ativismo ambiental de escritório, que surge apenas para se envolver em pequenas discussões e desaparece quando chega a hora da necessidade. Aquele amor que é proclamado no microfone e negado no deserto não pode ser considerado amor. É teatro.
No entanto, é necessário ir além da mera aparência econômica e penetrar mais fundo, pois a luta contra a língua e contra os pobres é apenas a parte visível de um conflito mais profundo — uma batalha que se volta contra a alma do povo, e no Brasil, a alma de um povo é, de forma irreversível, religiosa. A essência do povo brasileiro é profundamente religiosa. É impossível compreender este país sem reconhecer que, por trás da ironia, das gírias e dos sotaques, existe uma dimensão espiritual que sustenta tudo o que vem a seguir. A língua brasileira vai além de ser apenas um meio de comunicação; é um microcosmos. Transporta a memória sagrada de uma nação que é católica em sua essência, apesar de se desviar em inúmeras manifestações sincréticas. E é preciso aqui afirmar algo que desagrada tanto à esquerda quanto a certos puristas religiosos, mas que a constatação honesta valida: as religiões de matriz africana, como existem no Brasil, são fenômenos brasileiros, não africanos. Elas se nutrem da África — é fundamental enfatizar isso claramente —, mas não representam a África. São algo inédito, mais compacto, criado neste lugar.
Identifique-se com a Umbanda. Ela é exclusiva do Brasil; somente agora, nos últimos tempos, está começando a aparecer de forma discreta na África e em outras partes do mundo, mas ainda como uma exportação brasileira. A data de fundação, que os próprios praticantes da umbanda consideram um mito de origem, é mil novecentos e oito, em Niterói, quando Zélio Fernandino de Moraes recebeu a manifestação do espírito conhecido como Caboclo das Sete Encruzilhadas — ainda que estudiosos mais rigorosos, como Diana Brown e Renato Ortiz, coloquem os eventos um pouco mais tarde, nos anos vinte, e ressaltem que o relato fundacional possui a qualidade de um mito, e não de um registro oficial. O que realmente conta é o conteúdo: a Umbanda é uma verdadeira síntese brasileira. Ela absorve uma grande parte do espiritismo originado na França, através de Allan Kardec; incorpora do catolicismo quase toda a sua estrutura de imagens, santos e práticas devocionais, embora muitos praticantes da umbanda, atualmente, nutram um profundo desprezo pelo catolicismo do qual são descendentes; e, por fim, recebe da África, com a mitologia dos orixás, a herança que se manifesta através do sangue. No entanto, a forma final é inédita. Há um aspecto que demonstra a nacionalidade espiritual do assunto, um ponto que faz os olhos de quem compreende brilharem: na Umbanda, os espíritos se comunicam em português brasileiro. O preto-velho não vem falando em iorubá antigo; ele se expressa como um brasileiro que foi escravizado e que agora é idoso, com a dicção suave e antiquada de alguém que viveu nas senzalas. O caboclo se expressa usando termos indígenas e locais. O Exu que está incorporado compreende as expressões "véi" e "arretado", pois ele foi uma pessoa que viveu aqui. São, na maior parte, brasileiros que faleceram e retornaram falando o idioma que usavam em vida. A própria organização espiritual da religião está imersa na cultura brasileira — mesmo os mortos venerados e as entidades refletem as influências dessa terra. Isso é impressionante, e é precisamente o que o esquerdista que afirma ter apreço por essas religiões não consegue perceber, uma vez que isso o obrigaria a reconhecer que a base da cultura brasileira é, em última análise, ibérica e católica.
O Candomblé merece o mesmo reconhecimento, com a mesma convicção. Primeiro, o Candomblé; e o Candomblé que se pratica no Brasil é totalmente diferente do que se encontra na África. Originou-se na Bahia, durante o século XIX, a partir das tradições iorubás, jejes e bantos, mas essas tradições foram reorganizadas, recriadas e mescladas de uma maneira que a África original nunca havia experimentado. Roger Bastide, um dos poucos estudiosos dessas religiões, mencionava uma África brasileira, sincrética, que se distingue da verdadeira África. Pierre Verger registrou, viajando entre a Bahia e a África, as diferenças entre os orixás de ambos os lados do Atlântico. Reginaldo Prandi demonstrou que o movimento posterior de reafricanização — a tentativa de "voltar" às raízes africanas puras — é uma evidência de que o Candomblé já era brasileiro, uma vez que aqueles que estão imersos em uma tradição não necessitam fazer um retorno a ela; são os que se afastaram, que se transformaram em algo diferente, que precisam voltar. O Candomblé autêntico da África e o Candomblé brasileiro são primos distantes, não são gêmeos. Existem nuances do outro lado do oceano, mas o que se faz aqui é uma criação genuinamente nacional.
É nesse momento que é necessário adentrar a área mais difícil, pois eu não me refiro a isso de uma perspectiva externa. Eu me refiro àquele que esteve por dentro. Também existe a Quimbanda, mas é importante fazer uma distinção cuidadosa entre o que é tradição e o que é uma releitura moderna, a fim de evitar injustas generalizações. O termo "quimbanda" tem origem africana: deriva do quimbundo angolano e se referia ao curandeiro, ao sacerdote, àquele que realiza curas. No Brasil do século XX, frequentemente pelos próprios praticantes, ganhou um novo significado, funcionando como o oposto da Umbanda, que se refere à adoração de Exus e Pombagiras. Atualmente, existe uma vertente que se identifica como Quimbanda luciferiana — algumas escolas escrevem de maneiras diferentes para se distinguir, e a apresentam como um caminho da mão esquerda, abertamente luciferiano, um satanismo teísta. Uso de forma deliberada a expressão "autoidentifica", uma vez que essa interpretação luciferiana é o resultado do trabalho de praticantes e editores modernos, e não um consenso histórico validado pela academia. É importante que o ensaísta íntegro não apresente como um fato consolidado aquilo que, em grande parte, é uma identidade adotada por grupos recentes. Isto é, falo do que presenciei. Eu estive envolvido na Quimbanda, conversei com pessoas, incluindo Exus incorporados, participei dos rituais e compreendo a teologia que a fundamenta, pois li os livros sobre o assunto. Aqui sinto que devo, com uma sinceridade que pode surpreender alguns leitores católicos, expressar minha gratidão a algumas editoras. Para aqueles que se dedicam seriamente ao estudo dessas questões — e eu me incluo, sem falsa modéstia, entre aqueles que investigam os diferentes modos de conhecimento, ou seja, um gnosiólogo —, essas editoras representam um valioso serviço, uma vez que organizam e mantêm um acervo cultural que é amplamente ignorado em quase todo o Brasil, poupando ao pesquisador o árduo trabalho de reunir, linha por linha, o que está disperso. A Via Sestra, que eu acompanhava desde jovem, a Nova Senda, a Manus Gloriae, e a Madras, que antigamente era menos forte mas hoje é mais sólida — todas preservam o que de outra forma se perderia. Faço, sinceramente, um apelo aos meus irmãos na fé cristã: evitem perturbar essas editoras e não hostilizem os editores. O trabalho de preservação que eles realizam é fundamental para que eu, assim como muitas outras pessoas, possamos compreender a mentalidade de uma época, os costumes dos rituais e as condições metafísicas que sustentavam tais práticas. Aquele que escreve com paixão sobre o que investiga, mesmo que se debruce sobre o sombrio, oferece um valioso serviço àqueles que necessitam entender.
O que aprendi ao conviver intimamente com essas religiões — e, posteriormente, ao retornar à Igreja Católica, da qual eu havia saído e à qual voltei no final de dois mil e dezoito, após anos de busca — foi algo que poucas pessoas têm a oportunidade de observar de perto: a Umbanda é uma filha do catolicismo. Não há como negar isso de forma sincera. A própria Quimbanda, com seu caráter gnóstico e místico, emerge do mesmo sistema, assim como um ramo torto que se desenvolve em direção oposta à árvore, mas que dela obtém seu sustento. Todas as religiões afro-brasileiras, nesse aspecto, podem ser consideradas como descendentes da Igreja Católica — descendentes rebeldes, é verdade, mas ainda assim descendentes. Para acrescentar, as filhas brigam menos com a mãe do que se poderia imaginar, pois, ao contrário dos protestantes, elas não se dividiram em partes incompatíveis. Tanto os umbandistas quanto os adeptos do Candomblé compartilham a mesma mitologia, a mesma compreensão sobre a prática e a mesma estrutura espiritual, enquanto cada seita protestante representa, em relação às demais, um universo metafísico distinto. Um umbandista e um praticante de Candomblé estão, na estrutura de suas crenças, muito mais alinhados com um católico do que dois protestantes entre si. É precisamente por isso que causa tanta dor observar o desprezo direcionado a eles, uma vez que a desconsideração em relação à sua expressão e à sua crença é, em essência, uma forma de desprezo à mesma origem católica e popular da qual todos nós, brasileiros, somos descendentes.
Existe, nesta narrativa, uma chaga que reconheço em minha própria experiência: o preconceito que se manifesta dentro da própria família. Quando eu era jovem e comecei a frequentar esses ambientes, meu pai, enquanto esteve vivo, controlou bastante a hostilidade dos parentes. Após sua falecimento, os parentes começaram a se afastar da minha casa, pois acreditavam que havia algo denso, obscuro e negativo em meu lar — quando na verdade, não havia nada disso, apenas o que o preconceito é incapaz de entender. Essa aversão popular, esse estigma familiar que pesa sobre quem professa uma religião marcada, é um sofrimento concreto e bastante frequente entre umbandistas, e eu o conheço por experiência própria. A esquerda se beneficia exatamente dessa mágoa. Aqui o argumento sofre sua mais grave virada, pois o que se apresentava como desprezo cultural se revela como estratégia política. Aqueles que foram rejeitados, os que foram excluídos pela fé, e os que a sociedade empurra para suas margens — esses são precisamente o alvo que uma certa esquerda se esforça para abraçar. Não é só uma leitura minha; é a implementação, quase literal, de uma tática que se diz pertencente a Antonio Gramsci. É importante ser claro e sincero: Gramsci, em seus Cadernos do Cárcere, que escreveu enquanto estava preso sob o regime fascista, elaborou a noção de hegemonia cultural — a ideia de que a classe dominante exerce seu poder não apenas pela força, mas também por meio do consenso, conquistando as instituições, a educação, a cultura e o senso comum. E mencionou os subalternos, os grupos que não têm uma voz própria. A interpretação que sugere que isso se transforma em uma estratégia intencional de "capturar os marginais" para um projeto de poder é, é justo reconhecer, uma crítica — a interpretação que a tradição conservadora, assim como o próprio Olavo, fez de Gramsci, mais do que a autodescrição literal do sardo. A interpretação é robusta, pois o que se observa no Brasil é precisamente isso: pegam aqueles que são marginalizados, os incorporam como membros do movimento e oferecem a eles um sentido de pertencimento em troca de submissão.
O processo de captura mencionado atinge o cerne da condição humana, onde as mais antigas tradições psicológicas se encontram com as mais elevadas reflexões teológicas. Pois a esquerda, na sua versão mais radical, dá o eros total, o dionisíaco sem limites, a libertação absoluta do desejo. A questão que ela levanta, essencialmente, para cada pessoa que retira da beira, é uma indagação ancestral, a mais primitiva de todas: você troca sua liberdade por prazer? Se a resposta for afirmativa, o acordo se concretiza — você desfrutará do que deseja, e lutaremos para que tenha ainda mais, mas você se tornará nosso, nunca poderá sair, sua mente será nossa, e no dia em que você desejar ir embora, terá se tornado nosso inimigo. É uma limpeza que proporciona prazer e exige a alma. Experimentei isso em uma aula, durante um debate com um professor de administração abertamente influenciado por Gramsci, que havia estudado suas obras e acreditava nele com a devoção de alguém que se converteu; e quando a discussão chegou a esse ponto, diante de uma sala cheia de militantes, foi quase um milagre que não se voltassem contra mim. Pois o que estava em jogo naquele lugar não era uma tese universitária. Era a própria estrutura de um acordo. Este pacto possui um nome ancestral, amplamente reconhecido pela cultura cristã: é o pacto com o diabo. Quando Cristo enfrenta a tentação no deserto, essa é, em essência, a proposta que lhe é apresentada. O episódio é encontrado tanto no Evangelho de Mateus quanto no de Lucas — é importante ser preciso, pois essa exatidão é uma maneira de demonstrar respeito pelo texto. Satanás apresenta a Cristo todos os reinos da Terra, juntamente com sua glória, caso Ele se curve e o adore; esta proposta é a terceira tentação em Mateus e a segunda em Lucas, havendo uma diferença na ordem entre os dois evangelhos. Há também a sedução de converter pedras em pão para matar a fome — a mesma ilusão de solucionar a necessidade material em troca da submissão espiritual. Cristo diz não. Ao ler o texto com a imaginação ativa, é possível visualizar a imagem do próprio Lúcifer, já distorcido em razão da queda, cerclando os dentes em frustração diante daquele que não cede. No Sermão da Montanha, há uma citação que esclarece internamente essa recusa: não atireis as vossas pérolas aos porcos, para que não as pisem e, voltando-se, vos despedacem. Embora sejam trechos diferentes — a tentação no deserto e a advertência das pérolas referem-se a momentos distintos do Evangelho —, o espírito que os conecta é o mesmo: existem coisas que não devem ser entregues, há um valor que não se deve comprovar na presença de quem não o merece. Jesus não tem a necessidade de se demonstrar ao adversário. É essa recusa que estabelece a liberdade.
Porque, na verdade, é a liberdade que está em questão. O que a esquerda radical almeja, em sua essência filosófica, vai além da simples conquista política; trata-se de uma dissolução. A total destruição dos fundamentos que sustentam a sociedade, para que, a partir dos destroços de todas as distinções, se possa construir um novo conceito, um mundo renovado à semelhança da vontade. No léxico do meu círculo de estudos, designamos isso como demiurgo sintético: a vontade humana, privada da influência divina, que se atribui o poder de gerar uma realidade própria a partir do mero sonho interior. Existe uma verdade metafísica que o materialista ignora: a vontade molda o mundo. O microcosmos, o universo interno de cada espírito, ressoa no cosmos. Quando esse desejo se desvincula das potências de virtude — quando se separa de Deus, que é a origem de toda virtude —, o ser humano se torna vulnerável àquilo que pode levá-lo à sua própria destruição. Está à mercê da pulsão pura, do eros ilimitado, do desejo que consome a alma com seus próprios vícios. No fundo, isso é tudo o que o demônio sempre desejou: que você arruine sua própria alma com seus vícios e troque sua liberdade pelo prazer. A esquerda, ao permitir todos os vícios e eliminar qualquer distinção, realiza a tarefa que a teologia sempre atribuiu ao tentador. Então, a questão que sempre coloco de volta ao ativista que idealiza um mundo de perfeições construído sobre as cinzas de tudo: quando você tiver triunfado e aniquilado tudo durante esse processo, e quando tiver até mesmo desfeito Deus em conceito, quem será capaz de salvá-lo no dia em que o próprio diabo vier desafiá-lo? Quem irá auxiliá-lo, então? É uma questão que não possui uma resposta satisfatória, e é por isso que ela perturba.
Esse desejo de se desfazer não é uma reflexão filosófica sem repercussões práticas; ele chega até a gramática, à vírgula, ao gênero das palavras. É por essa razão que o início de tudo se deu na língua, e é a ela que o argumento retorna, agora carregando a magnitude de tudo o que foi testemunhado ao longo do percurso. A novilíngua — o conjunto de regras que visa reformar a língua para eliminar as distinções entre masculino e feminino, neutralizando os extremos simbólicos da criação — não é um capricho inofensivo de uma minoria barulhenta. É um método de destruição cultural. Atualmente, essa técnica tem se mostrado um fracasso estrondoso, uma vez que ninguém é tolo o suficiente para destruir a cultura de um povo inteiro em nome de uma língua artificial, que nunca foi falada por nenhum grupo, e que foi criada não pela evolução natural do uso, mas pela manipulação de um movimento ideológico. A tentativa, mesmo sem sucesso, demonstra a intenção. Porque a esquerda é persistente como a água que erode a rocha: golpeia repetidamente até criar um buraco. Se o povo, que geralmente é passivo como o povo brasileiro, não tomar nenhuma atitude, talvez consiga um dia. O que ela pretende, ao padronizar a língua, é eliminar a estrutura cultural que reside na língua — pois é na língua, de forma muito mais significativa do que em qualquer outro aspecto, que está presente a cultura de um povo. Se você pegar qualquer oração ou invocação, seja católica ou pagã, e traduzi-la para uma língua neutra, o efeito desejado se perde. Se uma língua elimina as nuances masculinas que se referem ao aspecto masculino do sagrado na criação, como ficará a conexão simbólica, ritual e até metafísica entre o homem e o divino? A destruição ocorre em uma dimensão que vai além do gramatical; ela age sobre o símbolo, que serve como a conexão entre o microcosmo e o cosmos.
Observe-se o encadeamento lógico, que se sucede como dominós caindo. Elimine-se o masculino na linguagem. Abandone a expressão "Cristo" e passe a utilizar uma forma neutralizada e feminizada. E questiono: como posso invocar Cristo, se desde o começo do meu vocabulário Ele é exatamente o que é, e se a nova maneira de se referir a Ele já não O designa como aquele que Ele é? Destrói-se o conceito de comunhão. Destrói-se a própria capacidade do rito de indicar a realidade que se propõe a alcançar. A herança da teosofia se faz presente aqui, pois a novilíngua é, afinal, uma irmã da teosofia. Helena Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica em mil oitocentos e setenta e cinco e autora de Ísis sem Véu e A Doutrina Secreta, sugeriu que todas as religiões são expressões de uma única religião-sabedoria primária, diferentes aspectos de uma única verdade. É a eliminação das diferenças entre as religiões, a combinação de todas em uma única crença, sob o princípio de que nenhuma religião é superior à verdade. A sintaxe neutra, em termos linguísticos, é comparável ao que a teosofia oferece no âmbito da metafísica: um universo onde cada deidade, seja ela masculina ou feminina, se manifesta apenas como uma faceta de uma única entidade, onde as barreiras desaparecem e tudo é considerado como uma só coisa — mesmo que, nesse contexto, haja distinções metafísicas que são autênticas e intransigentes. A teosofia está minando a mente da maior parte da modernidade; todos, como ovelhas, repetem a ideia de que todas as religiões são verdadeiras e são apenas diferentes manifestações de Deus, sem se dar conta de que cada religião representa um universo metafísico único e, muitas vezes, incompatível com os demais. Um dia, espero poder dedicar uma refutação completa a isso, pois o equívoco é sério e se encontra em muitos lugares.
É oportuno, agora que o principal oponente foi identificado, direcionar a atenção para um adversário menor, mas que pode ser educativo, uma vez que ele expõe o mesmo defeito em seu método. Estou me referindo à maneira protestante de interpretar — e costumo brincar com meus amigos, dizendo que algumas análises que encontramos por aí são "análise protestante de meia-tigela", não por desdém em relação às pessoas, mas devido à abordagem utilizada. O protestante pega um livro cujas primeiras seções foram escritas há milênios, em meio a uma rica e complexa tradição interpretativa, onde cada obra surgiu em seu contexto histórico, com a interpretação característica do povo daquela época, e desconsidera toda essa tradição viva para aderir a um cânone estabelecido posteriormente e de forma definitiva. É necessário, com erudição, corrigir um engano que eu mesmo cometia. Dizia-se que os judeus "arrancaram" sete livros num concílio realizado setenta anos depois de Cristo — o suposto Concílio de Jâmnia. A erudição moderna veio, então, a desautorizar essa versão dos fatos. Jâmnia, ou Yavné, foi uma academia rabínica, uma escola de estudos, e não um concílio com a autoridade de estabelecer listas; nunca decretou um cânone e as discussões que ali foram registradas giravam em torno da inspiração de obras como Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos, e não sobre a exclusão dos deuterocanônicos. A ideia de um "concílio" que teria fixado e mutilado o cânone judaico, proposta no século XIX por Heinrich Graetz, foi revisada e em grande parte deixada de lado por pesquisadores como Jack Lewis e Albert Sundberg, que a relegaram, na expressão consagrada, ao limbo das hipóteses não estabelecidas. A verdadeira disparidade entre os cânones é mais bem compreendida através de duas tradições textuais: o cânone hebraico, que é mais conciso e tem origem palestinense, e o mais extenso cânone grego da Septuaginta alexandrina, que foi adotado pelos cristãos e que incluía os deuterocanônicos. Esse cânone mais amplo foi solenemente estabelecido pela Igreja Católica no Concílio de Trento, em mil quinhentos e quarenta e seis. Não se tratou, portanto, de uma ruptura planejada e específica; houve uma coexistência de duas tradições, e a opção dos protestantes por uma delas. No entanto, a atitude fundamental do protestante persiste: desconsiderar toda a tradição porque, supostamente, todos cometeram erros e apenas ele está correto.
Este ato possui uma denominação, a qual esclarece toda a questão: trata-se do ímpeto gnóstico. O protestante, em seu impulso mais típico, imita a ação do antigo gnóstico — a afirmação de que o verdadeiro conhecimento foi perdido por todos e redescoberto por mim, em oposição à tradição, à comunidade e à história. E quando questionam se o protestantismo possui um método de validação, eu digo: sim, conforme o líder de cada denominação. Não existe um sistema que abrace todo o protestantismo, pois isso seria inviável, uma vez que cada denominação possui uma perspectiva metafísica do mundo que é totalmente diferente das outras. A Reforma não é unificada. Para ilustrar meu ponto, utilizo uma metáfora que considero bastante precisa: imagine uma pequena caixa etiquetada como "protestantismo". Ao abri-la, no entanto, você se depara com um livro que se enquadra no gnosticismo — mais especificamente, os próprios evangelhos gnósticos de Nague Hamadi, envoltos em papel de presente. Aquela tendência ao subjetivismo que, primeiramente, relativiza e, em seguida, torna tudo subjetivo — ou, para ser mais preciso, que inicialmente relativiza para, depois, concentrar tudo no âmbito pessoal do indivíduo — é o método que a gnose, em suas diversas manifestações, sempre utilizou para exercer controle sobre a mente. É interessante e verdadeiramente belo que a direção contrária conduza a um destino diferente. Se um protestante realmente compreendesse a interpretação judaica, ele acabaria se deparando com a Cabala; e na Cabala, ele encontraria conceitos como o livre-arbítrio, as hierarquias espirituais e os estados intermediários de purgação — e assim, estaria, sem se dar conta, diante da Igreja Católica.
Aqui existe uma convergência que encanta aqueles que a observam atentamente, e que merece ser apresentada com cuidado, pois convergência não é sinônimo de identidade. A teologia católica e a Cabala judaica se intersectam de maneiras inesperadas. O purgatório, que foi abordado por São Tomás de Aquino na Suma Teológica ao diferenciar a pena de dano — ou seja, a privação temporária da visão de Deus — da pena de sentido, é um estado transitório de purificação para almas que estão todas destinadas ao Céu. No judaísmo, existe um estado de purificação chamado Gehinnom, que é tradicionalmente limitado a doze meses, após os quais a alma é elevada ao mundo futuro. A base escritural é compartilhada e pode ser encontrada no segundo livro dos Macabeus, onde se fala da oração e do sacrifício em favor dos mortos — que é precisamente um dos deuterocanônicos que os protestantes rejeitam. Os judeus referem-se ao que nós chamamos de purgatório como um inferno temporário. Tanto os católicos quanto os cabalistas, acreditamos na existência do céu e do inferno, que ambos possuem vários níveis, assim como nas hierarquias angélicas e em um plano espiritual bem organizado. Além disso, também cremos nos justos, os tzadikim, que são reverenciados na tradição judaica da mesma forma que nós veneramos os santos. A grande diferença reside na reencarnação — o gilgul de certa Cabala, que não se encontra no tomismo. No entanto, se alguém comparar lado a lado a teologia de São Tomás com a Cabala clássica, incluindo as camadas mais antigas do Zohar — o tratado atribuído pela tradição a Shimon bar Yochai, do segundo século, mas que, conforme a erudição de Gershom Scholem, foi identificado como uma obra de Moisés de Leão, que viveu na Espanha do século XIII — e analisar tudo isso sob uma perspectiva metafísica, perceberá que as semelhanças são tão estreitas que se começa a vislumbrar, em tais comparações, uma graça em seu sentido mais elevado: uma beleza divina. O protestante elimina tudo isso. Desconsidera completamente a tradição. Ao ignorá-la, perde a diversão de observar como todo o edifício se mantém de pé.
Em tudo, desde a guerra até a língua, da guerra até os pobres, e da guerra até a fé, existe um fato cru que a ingenuidade prefere ignorar, e que deve ser declarado de maneira sóbria, sem teorias fantasiosas: o dinheiro. Os gestos não permanecem flutuando no ar. Existem imensas fortunas que sustentam isso, e a esquerda raramente teve a ousadia de questionar por que esses bilionários a apoiam. Gosto de imaginar que são almas generosas, bondosas, virtuosas — quando, na verdade, o que esses homens muitas vezes desejam é uma massa de manobra que atue em defesa de seus próprios interesses. Aquele que recebe esse favor, em contrapartida, adquire uma matilha que está pronta para atacar qualquer pessoa que se oponha ao financiador: se alguém se atrever a levantar a voz contra o bilionário apropriado, uma pressão coordenada surgirá de diversos cantos da internet para proclamá-lo um homem de bem. O caso de Jeffrey Epstein serve como um exemplo documentado desse fenômeno — uma teia de abuso e tráfico que se relacionava com indivíduos extremamente ricos e influentes, condenado em 2008 e novamente indiciado em 2019 por tráfico sexual de menores, falecido enquanto estava sob custódia, com toda a estrutura operando para silenciar os nomes envolvidos. Há quem faça comparações entre esse caso e o escândalo conhecido como Franklin, que ocorreu em Omaha durante os anos oitenta — no entanto, é necessário destacar, em nome da honestidade, que as alegações relacionadas ao caso Franklin foram oficialmente rotuladas como uma fraude por dois grandes júris em mil novecentos e noventa, os quais se referiram a ele como uma farsa meticulosamente elaborada. Além disso, uma das acusadoras foi condenada por perjúrio; é verdade que Lawrence King, a figura central do escândalo, foi condenado, mas apenas por crimes financeiros, relacionados ao desvio de dezenas de milhões de dólares. O caso continua a ser alvo de teorias que se mantêm, mas não pode ser apresentado como uma rede de abuso demonstrada, e quem o faz fornece ao oponente uma maneira simples de refutar. Dito isso, o princípio que esses casos, que possuem diferentes pesos probatórios, ajudam a esclarecer ainda se mantém: quando alguém acumula dinheiro a ponto de ter o mundo em suas mãos, resta-lhe apenas uma pergunta, caso não tenha Deus em mente — farei o que eu desejo. Sem uma consciência formada, sem a mentalidade que reconhece no outro um próximo e não um boneco, o muito poderoso olha para o povo como se olha para peças descartáveis, certo de que, depois de qualquer atrocidade, pagará ao Estado, apagará os fatos, comprará o silêncio, e seguirá de boa. Isso é evidente mesmo em uma pequena cidade, onde a figura importante, que já teve um passado questionável, hoje se apresenta como um modelo de cidadão, um respeitável mestre de loja, membro ativo da igreja e dedicado pai de família — e cujas conspirações ocultas ninguém se atreve a investigar.
É nesse contexto que a promoção da língua se torna realmente significativa, e o raciocínio, que teve início em uma esquina da Primavera, pode agora se concluir de forma coesa. Quando o intelectual de plantão aparece e afirma que você cometeu um erro por não incluir uma vírgula, que você se enganou ao usar uma palavra que é típica da sua região, ou que errou ao empregar "uai", "oxente", "caba" — tente compreender o que realmente está em disputa. Não se trata de uma vírgula. Está em causa a aniquilação de uma cultura pela via do estético, o aniquilamento de um universo inteiro pelo flanco da gramaticalidade. Ao atacar a língua, causa-se uma destruição que vai muito além das palavras. Existe uma análise cultural das palavras que raramente é realizada atualmente, pois a mente contemporânea se deteriorou na crença de que cada palavra possui um único significado fixo, assim como o anteparo colocado nos olhos do cavalo para que ele siga em linha reta e não se assuste. No entanto, a palavra possui diversos significados; o dicionário lista vários deles, e a cidade adiciona mais um, enquanto a pessoa traz mais outro. O falante coloquial não perde o significado da palavra: ele adiciona significado, ele entende o que a palavra representa e ainda lhe adiciona uma camada. Considere-se "viado". A compreensão que o público tem, e que linguistas com quem conversei confirmaram ser uma leitura culturalmente enraizada, remete a "desviado" — aquele que se desviou da trajetória que os outros seguem. O filólogo pode debater a etimologia distante da palavra; o que realmente importa para a análise cultural é que a comunidade atribui um significado ativo a essa palavra, e é esse significado dinâmico, essa riqueza semântica acumulada ao longo do tempo, que o purista não consegue compreender e, por isso, ignora. Homens como Ariano Suassuna, que se empenhou a vida inteira em combater a cultura popular nordestina contra o complexo de inferioridade, e o professor Rafael Nogueira, em suas aulas de história — pessoas que ensinam a observar um povo de forma digna, ao invés de avaliá-lo com uma régua estrangeira, foram aqueles que realizaram esse tipo de análise com seriedade.
De maneira alguma, amigos, não permitam que sua cultura se extinga. E quando surgir a justificativa de que a sua cultura o faz "escrever errado", reaja com a indagação que desarma: estão lhe pagando para escrever assim? Estão te obrigando a falar sua língua, com uma pistola na cabeça? De maneira alguma. Portanto, utilize-a, pois ela representa quem você é. Esse jeito de se expressar faz parte da sua essência, ressoa em seus saberes, em sua lembrança, na imagem que tem de si mesmo — e essa imagem, que representa sua alma, esse microcosmo, absorve tudo o que você é. Quando o corpo chega ao fim, a alma se dirige para o juízo da mesma forma que alguém que perdeu uma mão, mas continua vivendo o que é fundamental; e tudo o que você sabe, a maneira como se expressa, sua memória e sua consciência, isso é você, de fato você. É isso que buscam aniquilar em você ao criticar a sua maneira de se expressar. Esteja ciente disso. Se me acusam de abraçar a dicotomia política do "nós contra eles", afirmo sem hesitação: sim, eu a abraço, pois é evidente que o faço — essas pessoas têm a intenção de destruí-lo, e aqueles que o negam esquecem os mártires católicos e ortodoxos gerados pelo comunismo, que não foram fruto da imaginação. Padres humildes que pregavam em suas pequenas comunidades foram assassinados de maneiras inimaginavelmente cruéis; relatos afirmam que os soldados chegavam a abrir o ventre dos padres ainda vivos, retorcendo suas entranhas enquanto riam. Isso ocorreu e continua a ocorrer sob administrações que eu prefiro denominar sociocomunistas ou neomarxistas, uma vez que a própria esquerda se distancia das designações tradicionais. Àqueles que fazem a analogia entre política e futebol, afirmo que tal comparação é superficial: no futebol, a pior consequência que se pode enfrentar é a perda da simpatia de alguém devido à preferência por um determinado time; já na política, a realidade é bem mais grave, pois é possível ser fatalmente atingido por um tiro na cabeça simplesmente por discordar de um ditador. Continue sendo passivo, se preferir, e vamos ver se isso não acontece. Pois a língua é o microcosmos da alma, e eliminá-la é eliminar a nossa identidade. Permitir que uma língua se extinga é equivalente a permitir a morte de uma cultura; e, ao permitir que a cultura morra, estamos, de certa forma, permitindo que o povo se apague internamente, em silêncio, sem que haja alguém que dispare o gatilho. Oxente, meu irmão. Veja isso. É a nossa identidade. Ela é tão valiosa que não podemos permitir que sua voz se extinga em silêncio.
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