A LITURGIA DOS JUMENTOS

A mediocridade não é um destino. É uma decisão tomada em nome de um outro homem que nunca foi digno desse sacrifício. Tenha consideração pelo jumento: ele te mostra o que você não deve se tornar, e isso já é mais valioso do que qualquer orientação que ele pudesse oferecer.

Gabriel G. Oliveira

5/10/202628 min ler

Da Desesperança Masculina e do Colapso Anunciado de Todas as Coisas

Há uma forma específica de desonestidade que se transfere de geração em geração, como uma herança mal interpretada: é a desonestidade de quem aprendeu a cultivar o desespero de maneira sofisticada e transmitiu isso adiante, como se fosse um conhecimento valioso acumulado ao longo do tempo. Não se trata de sabedoria. É deslealdade acumulada ao longo de muitos anos. A covardia, ao atingir a maturidade, passa a exigir respeito, a reivindicar poder e a se apresentar como uma experiência vivida. Esta é a raiz. Aqui é onde tudo começa a apodrecer.

A mediocridade humana não é algo que aparece sem causa. Ela possui uma linhagem, um endereço e indivíduos culpáveis identificados, entre os quais se destaca, de maneira frequente, a falta intencional de esperança, cuidadosamente cultivada por aqueles que viveram de forma tão confortável que não perceberam que estavam, de maneira silenciosa, comprometendo o futuro de outros. A geração que se beneficiou do período pós-guerra, conhecida como baby boomer, foi, ao mesmo tempo, a geração que desfrutou do maior privilégio econômico dos últimos cem anos e uma das mais eficazes em transmitir um niilismo camuflado sob a forma de experiência de vida. Adquiriram residências com apenas seis meses de salário, compraram automóveis após um ano de trabalho, testemunharam o crescimento do mundo ao seu redor impulsionado por uma economia em constante expansão, e mesmo assim, acreditaram que tinham o direito moral, ou até mesmo o dever, de olhar para as gerações futuras e afirmar que os sonhos eram inviáveis, que o mundo não operava dessa forma, e que era preferível adotar uma postura realista. Hoje em dia, um homem precisa trabalhar dez anos para conseguir comprar uma casa, mas mesmo assim, não consegue. Dez anos de vida adulta, de segunda a sexta, de sacrifício e autocontrole, e o resultado ainda não é suficiente. Mesmo diante de tal situação, ainda existem alguns indivíduos mais velhos que se mostram contentes ao afirmar que a questão se resume à falta de disciplina. O ridículo teria um caráter humorístico, caso não fosse tão devastador.

Quando um homem desta geração, ou de qualquer geração anterior que tenha a mesma visão de desespero em relação ao mundo, se dirige a mim e afirma que meus objetivos são inviáveis, eu o reconheço imediatamente pelo que realmente é: um tolo que não merece nem mesmo o privilégio de minha atenção, e muito menos o de minha consideração intelectual. Não por presunção. Pela matemática. A existência dele refuta sua argumentação. Ele experimentou um período de crescimento econômico que nunca o pressionou da maneira que nos pressiona, e, mesmo assim, conseguiu criar muito pouco além de uma perspectiva de vida pessimista e cheia de rancor, a qual ele envolveu com um laço de "realismo" e distribuiu como se fosse um presente. A experiência dele não torna a opinião dele mais válida. A falta de conhecimento dele sobre as exigências do presente destrói por completo qualquer autoridade que ele pense ter.

No cerne dessa questão, há um paradoxo cruel. Os progenitores destes boomers, que foram testemunhas da guerra e viram homens mutilados nos campos de batalha da Europa, e que conseguiram sobreviver à atrocidade que foi a Segunda Guerra Mundial, eram, na essência, indivíduos cujas almas estavam profundamente marcadas por uma experiência que nenhuma palavra consegue descrever com precisão. A guerra cria uma tristeza profunda que não se dissipa mesmo com a chegada da paz. Ela continua insistindo. Ela se estabelece nas narrativas que os pais sussurram, nas interrupções que ocorrem durante uma frase, quando uma recordação os atinge, e na maneira como fixam o olhar no vazio em uma tarde de domingo. Essa tristeza foi transmitida para os filhos. Os filhos, que cresceram em um período de prosperidade sem igual, internalizaram o trauma de seus pais sem ter experienciado o cenário que o provocou. O resultado é uma geração que se desenvolveu tanto rica quanto deprimida, o que, talvez, seja a combinação mais arriscada que existe.

Há um acontecimento da Primeira Guerra Mundial que exemplifica perfeitamente o que estou afirmando sobre a natureza humana, e que esses mesmos indivíduos melancólicos e superficiais se negam a reconhecer, pois isso comprometeria a narrativa niilista que sustenta a visão de mundo que possuem. No Natal de 1914, em diversas trincheiras do front ocidental, ocorreu algo que ninguém poderia imaginar: soldados alemães e soldados aliados, inimigos declarados, homens preparados para a luta, deixaram suas armas de lado, saíram de suas trincheiras e se uniram para comemorar o Natal. Fizeram a troca de presentes. Eles tiveram uma conversa. Eles jogaram futebol no meio da guerra. Descobriram os nomes uns dos outros, as cidades de onde eram, os filhos que haviam deixado em casa. Eram indivíduos que não optaram por estar naquele lugar. Eram homens forçados por governos e doutrinas a mirarem suas armas para outros homens que, em outras situações, teriam sido apenas vizinhos, colegas de trabalho ou amigos em potencial. A recusa em prosseguir com a guerra naquele dia foi um gesto de humanidade que nenhum general havia ordenado e nenhum governo aprovado. Os comandantes ficaram tão incomodados com isso que mudaram os batalhões de posição, enviaram os alemães para lutar em outro fronte, deslocaram os aliados, pois perceberam que quando os homens se veem como iguais, a guerra se torna inviável. Mesmo assim, em diversos casos, os soldados que foram transferidos ainda se negaram a atirar.

Isso é algo que os niilistas de sofá não conseguem aceitar. A humanidade é muito mais ampla do que o que pode ser compreendido por qualquer pessoa que, imersa em seu desespero e confortavelmente instalada na poltrona de sua frustração, declarou que todos são desprezíveis, que o mundo não tem solução e que, no fundo, todas as pessoas são más. Esse tipo de diagnóstico diz muito mais sobre quem o emite do que sobre a realidade que ele tenta retratar. É a perspectiva de alguém que nunca teve a real necessidade de confiar plenamente em outra pessoa. Para aqueles que, assim como eu, já enfrentaram o desafio de construir algo com suas próprias mãos ao lado de alguém que é diferente de si. De quem teve uma vida tão boa que nunca precisou descobrir do que a humanidade é capaz quando se sente ameaçada.

Não foi nos livros que aprendi sobre a morte. Eu aprendi observando-a. Meu pai era mestre em uma secretaria de obras da prefeitura, aquele emprego que ninguém pinta como glamouroso, mas que é fundamental para o funcionamento de tudo, gerenciando garis, lixeiros, equipes de limpeza e tudo mais que faz uma cidade funcionar, ao menos de forma minimamente. Uma parte dessas funções consistia em comparecer a acidentes sérios para dar a autorização e organizar a remoção dos destroços. Em algumas dessas situações, havia de fato corpos. Corpos destroçados. O sexo feminino. Meninos e Meninas. Homens mais velhos. Pelos motivos que apenas meu pai conseguiria detalhar, mas que suspeito estarem relacionados a uma educação rigorosa e franca sobre a verdadeira natureza do mundo, ele me levava com ele. Eu estava na faixa dos dez a onze anos. Havia corpos mutilados antes mesmo de termos qualquer hipótese filosófica para entender o que estávamos observando. Testemunhei os efeitos devastadores da guerra urbana sobre um ser humano: explosões de carros, embates entre facções, acidentes de trânsito em alta velocidade, tudo isso deixa marcas que a maioria das pessoas só compreende através de metáforas. Ao longo de minha existência, já me deparei com um total de vinte e cinco cadáveres. Não durante um funeral. No piso. Alguns deles ainda estavam sofrendo quando cheguei. Isso não se trata de uma credencial de guerra. Não estou afirmando que entendo o que é uma trincheira europeia em 1944. Quando me refiro à esperança e à desesperança, à morte e à resistência humana, estou me referindo a um alicerce que reside em meu interior como uma experiência vivida, e não como um recurso retórico. Existe uma distinção entre aqueles que apenas leram sobre a morte e aqueles que estiveram em pé ao lado dela, aguardando que alguém assinasse um documento.

Com isso em mente, podemos afirmar que essas filosofias modernas desprovidas de esperança, bem como as ideologias que se camuflam sob a aparência de clareza, na verdade, não passam de uma forma de depressão resultante da guerra, transmitida ao longo das gerações até se tornar uma tendência intelectual. São, sem dúvida, o veneno mais eficaz já criado contra o interior do ser humano. Elas aniquilam a esperança antes mesmo de ela surgir. Elas chegam antes de o sonho acontecer e colocam um sentinela armado que se chama "mas isso é impossível", que se chama "mas quem você pensa que é", que se chama "mas seja realista". O que é ainda mais lamentável é que elas se apresentam vestidas de sabedoria, sofisticação e maturidade intelectual. Aquele que as rejeita é inocente. Questionar essas pessoas é algo próprio da imaturidade. Aqueles que se opõem a elas são considerados idealistas. Esse é o funcionamento. Designar a resistência como fraqueza até que não haja mais ninguém que se oponha.

Há um tio meu, homem de secretaria e de processos, burocrata, que um dia se atreveu a pensar sobre educação, área em que estudo há mais de dez anos, formalmente, e já atuei como professor de reforço e instrutor. Ele questionou, com a segurança descontraída de alguém que nunca teve dúvidas sobre si mesmo, se não seria uma inevitabilidade que as pessoas ficassem eternamente em suas categorias: o burro sempre burro, o mediano sempre mediano, e o mais avançado sempre à frente. Como se a superioridade intelectual fosse uma casta biológica, algo impossível de mudar. Eu disse que não. Que ele não possuía a menor ideia do que se passava na mente humana ao encontrar o estímulo adequado. A mente humana, afirmei a ele, é muito mais intricada do que qualquer mapa que um funcionário público elabore com uma régua sobre uma mesa. Ela é uma surpresa. Ela salta. Quando é tratada com dignidade, com desafios e com dificuldades construtivas, ela realiza feitos que nenhuma planilha poderia prever.

O problema reside no fato de que o burocrata que se considera inteligente não o é devido à vasta leitura ou à construção de algo complexo, mas simplesmente por ter vivido mais anos do que você, como se o simples passar do tempo fosse suficiente para garantir sabedoria. Esse tipo de pessoa é uma ocorrência frequente na vida de qualquer jovem que se atreva a expressar uma opinião. É aquele que nunca leu mais de dois livros, mas participa de um debate com a confiança de quem possui todo o conhecimento do universo em sua mente. Pois ele é idoso. Pelo simples fato de que ele existiu. Porque ele compreende o funcionamento das coisas. Qualquer coisa que você afirmar que vá contra a perspectiva dele é vista como imaturidade, falta de experiência, ou a ingenuidade comum de alguém que ainda não compreendeu a vida da forma correta, que, para ele, é a única forma válida.

A única maneira eficaz de lidar com esse tipo de pessoa é através de uma derrota pública em um debate sólido e bem fundamentado. Não foi uma vitória fácil. Uma vitória clara, fundamentada, embasada em dados e lógica, uma vitória consistente que o faz engolir em seco, sem conseguir rebater. Neste momento, para algumas pessoas, ocorre uma mudança significativa. A vergonha intelectual, quando gerida de maneira sincera e sem brutalidades desnecessárias, pode ser o início de uma verdadeira transformação. Ela semeia incerteza onde antes existia apenas convicção. A incerteza, em algumas mentes, é o princípio de toda filosofia. No caso de algumas pessoas, a vergonha não tem o efeito de mudar, mas sim de endurecer. O homem que já tinha uma mentalidade depressiva desde o início sai de lá ainda mais fechado. Pelo fato de ele não estar em busca da verdade. Ele está procurando validação de que o mundo corresponde exatamente à sua percepção, e qualquer informação que desafie essa convicção é interpretada não como fato, mas como uma ameaça.

A depressão tem uma estrutura bem definida. Ela afirma: não consigo porque sou estúpido. Não consigo, pois só estudei até o quinto ano. Não posso porque sou pobre demais, ou feio demais, ou venho da cidade errada, ou da família errada, ou sou do sexo errado, ou tenho a cor errada. Ela elabora um enredo consistente de impossibilidade estrutural e, em seguida, se acomoda nessa história com a confortável aceitação de quem descobriu uma justificativa convincente. A pessoa que age dessa maneira jamais se tornará um verdadeiro intelectual. Não porque lhe falte inteligência, mas talvez conhecimento sobre o assunto. Pois toda a sua capacidade de pensamento está focada em encontrar explicações para suas omissões, em vez de estar voltada para entender a realidade do mundo que o cerca. Mesmo o filósofo mais descontraído, aquele que nunca frequentou uma academia, está essencialmente interessado em uma questão: compreender a lógica por trás das coisas. A razão. A repercussão. As consequências extremas de um determinado pensamento ou comportamento. É isso aí. Essa preocupação com a realidade, esse interesse pelo que está além das próprias inquietações imediatas, contrasta completamente com o que a mentalidade depressiva gera.

Há uma cena que testemunhei no interior do Brasil e que simbolizava de maneira inquietante tudo o que estou descrevendo: o rapaz que se dedicava aos estudos era chamado de fraco, alvo de zombarias e tratado como inferior pelo grupo. Não por saber menos. Porque tinha mais conhecimento. No conjunto de valores de uma comunidade que já havia assimilado a desesperança como norma, adquirir mais conhecimento representava uma ameaça, uma anomalia, um desvio que precisava ser ridicularizado para ser corrigido. Isso não é algo que eu esteja criando. Já estudei em lugares onde isso era claro, onde ser intelectual era visto como uma fraqueza social, onde ser ignorante era visto como um atestado de pertencimento ao grupo. Isso não acontece apenas no nordeste brasileiro ou em qualquer lugar em particular. É um fenômeno humano que se manifesta em todas as culturas onde a esperança foi amplamente eliminada, onde indivíduos que foram instruídos de que não são capazes de prosperar começam a agredir qualquer pessoa ao seu redor que mostre que é possível.

Aqueles que, por algum motivo, não se consideravam incapazes e que conseguiram resistir a essa pressão, persistindo nos estudos mesmo diante das zombarias, e que mantiveram seus sonhos vivos, mesmo enfrentando críticas e ataques, frequentemente se tornaram, em diversas situações, figuras de grande importância e relevância. Filósofos, autores, cientistas, empresários, educadores que mudaram vidas. Claro que não, de forma alguma. Entretanto, a relação entre aqueles que sonharam e aqueles que concretizaram algo é imensamente superior àquela entre os que se deixaram levar pela narrativa da incapacidade e os que conseguiram realizar qualquer coisa além de uma vida de mera sobrevivência. Isso não se trata de uma motivação superficial. É a constatação prática de décadas de pesquisa e vivencia, leitura intensa desde a infância, e de uma convivência íntima e prolongada com ambos os tipos.

O que destrói a esperança de uma pessoa, na maior parte das vezes, não é uma tragédia em si. É o eco de quem está por perto. É a mãe que afirma que você não será capaz. É o tio que zomba da ilusão. É aquele grupo de amigos que, ao ouvir você falar sobre uma conquista ou um objetivo, experimenta uma sensação de desconforto e reage da única maneira que conhece: diminuindo você. "Quem você pensa que é." "Isso é coisa de gente rica." "Você não vai aguentar." Essas palavras são como balas. Embora sejam armas simples, elas ainda são consideradas armas. Quando disparadas repetidamente contra uma mente jovem que ainda não desenvolveu uma estrutura filosófica sólida o suficiente para identificá-las como projeções de fracasso e ressentimento disfarçado de conselho, elas podem infligir um dano que é difícil de reverter.

Uma das atitudes mais prejudiciais que uma pessoa pode ter em relação a outra é comemorar o insucesso alheio com mais fervor do que comemora suas próprias conquistas. Há um tipo de relação que, apesar de ser frequentemente chamado de "amizade", não deveria realmente ser contemplado por essa palavra, pois funciona de uma maneira totalmente diferente. A pessoa que, ao ouvir sobre uma conquista, um progresso ou uma pequena vitória em sua vida, imediatamente busca uma forma de minimizá-la. "Mas e quando acabar o dinheiro?" "Mas você sabe que isso não dura." "Mas quem você acha que é para estar se achando?" Este homem não é seu amigo. Esse indivíduo é um amargurado que te utiliza como reflexo para evitar encarar a si mesmo. Sempre que você avança um passo, a comparação automática faz com que você sinta que retrocedeu. Como ele não deseja descer ou não se dá conta de que já está no fundo, ele te puxa para trás. Não se trata, nesse caso, de debate. É afastamento. Pessoas que não conseguem comemorar suas conquistas não merecem sua companhia nos momentos difíceis. A simetria está completamente ausente.

Com isso em mente, gostaria de abordar um aspecto particular relacionado à competitividade e ao aprendizado, pois isso estabelece uma ligação entre a questão dos amigos que nos diminuem e o problema das instituições que nos educam, e essa relação é mais evidente do que aparenta. O ser humano possui um instinto de caçador. Não se trata de uma metáfora. Trata-se da descrição de uma estrutura cognitiva e motivacional que a educação moderna optou por desconsiderar por completo, uma vez que "gera conflito". O aprendizado profundo, aquele que realmente se fixa e gera um comprometimento autêntico, que provoca um desejo genuíno de adquirir mais conhecimento, está quase sempre associado a algum tipo de desafio, competição ou disputa em que há algo em jogo. Não propriamente contra o outro, mas contra o próprio eu, contra um obstáculo, contra uma barreira que se manifesta como oponente. A instituição que elimina toda forma de competição, que resguarda o estudante de qualquer tipo de fracasso e que iguala o esforço à apatia, essa instituição está se tornando menos humana. Está agindo com mais covardia. Está formando adultos que nunca tiveram a oportunidade de enfrentar a derrota em um ambiente controlado, o que os leva a entrar no mundo real, onde a derrota é comum e frequente, sem ter as ferramentas necessárias para lidar com isso.

Visualize um modelo de sala de aula no qual os estudantes discutem entre si, seguindo regras específicas para os debates. Quando um aluno se destaca em um debate, isso resulta em uma pontuação positiva. O professor está disponível para ser desafiado argumentativamente por qualquer aluno que apresente dados e raciocínio lógico suficientes, e aquele que conseguir fazê-lo é recompensado com a nota máxima. Esse sistema formaria jovens com foco em ganhar, e não em apenas passar de ano. Que perseguem o aprendizado com a mesma intensidade com que buscam triunfar. Que desenvolvem um apreço pelo processo, uma vez que este envolve tensão, consequências e resultados tangíveis. Pelo contrário, o sistema educacional brasileiro, e não apenas o brasileiro, escolheu o caminho oposto. Escolheu o método de ensino tradicional, a prova padrão, o conteúdo memorizado e reproduzido, e a avaliação que testa apenas a memória de curto prazo em vez de avaliar a capacidade de pensar criticamente. Depois, fica surpreso com o resultado.

Este resultado se manifesta de formas bastante tangíveis. Um exemplo disso ocorre quando você participa de um debate, seja online ou presencial, e a pessoa com quem está conversando, em vez de rebater os seus argumentos, passa a atacar a fonte dos dados que você apresentou. "Isso é dado de esquerda." "Isso é dado judaico." "Isso é dado comunista." Como se a verdade de um dado dependesse da ideologia do seu autor, e não do fato de corresponder à realidade observável. Isso representa uma falta de honestidade intelectual, e Schopenhauer, em seu trabalho sobre estratagemas dialéticos, identificou com uma precisão cirúrgica exatamente esse tipo de tática. No seu exame das táticas para ganhar debates sem estar certo, ele aponta desqualificar a fonte em vez de refutar o argumento como um dos truques mais antigos e eficazes da retórica desonesta. O indivíduo não deseja discutir a ideia. Quer extinguir a noção antes que tenha chance de ser ponderada. Ele faz isso indicando quem proferiu a afirmação, e não o conteúdo da mesma.

A questão é que elementos de uma análise filosófica ou científica podem ser verdadeiros sem depender da tradição que os gerou. Isso não se trata de relativismo; é, na verdade, o contrário do relativismo. É rigor científico. Se um pensador marxista identificou corretamente um determinado fenômeno social, essa constatação pode ser utilizada para apoiar um argumento que, em outros aspectos, contraria o marxismo, sem que isso resulte em contradições ou inconsistências. Não é fraqueza intelectual, mas sim honestidade intelectual, usar dados empiricamente verificáveis gerados por uma tradição com a qual você discorda para reforçar sua própria posição, caso essa tradição tenha gerado tais dados sobre o assunto em questão. Não conseguir distinguir entre a verdade de um fato e a ideologia de quem o produziu é um claro indicativo de que a pessoa não está realmente refletindo. Está apenas protegendo seu território.

Isso esclarece um fenômeno frustrante que todos aqueles que se envolvem em discussões sérias no Brasil, tanto à esquerda quanto à direita, acabam enfrentando: o oponente que, após um debate, se mostra derrotado em termos de argumentos, mas ainda assim acredita que saiu vitorioso. Não por má intenção consciente, necessariamente. Pois nunca conseguiu diferenciar entre "minha posição resistiu à crítica" e "eu me senti bem durante o debate". Ele não possui um padrão para determinar o que constitui uma boa resposta. Ele apenas sente que respondeu. E como é tão agradável sentir que respondeu, não há necessidade de verificar o que aconteceu. Esse fenômeno não se limita apenas ao brasileiro comum; também é observado com a mesma regularidade em indivíduos com ensino superior, em estudantes universitários, em jornalistas e em políticos. A educação intelectual no Brasil, de uma maneira geral, não prepara para o debate. Treina para o desempenho no debate. São dois assuntos distintos.

Tenho uma história que sempre trago comigo, pois ela ilustra de maneira eficaz a questão que estou abordando. Embora essa narrativa se apresente sob uma perspectiva completamente diferente, ela se dirige ao mesmo ponto central. Havia um ator, cujo nome não é relevante, pois o que realmente importa é o padrão. Ele possuía um talento indiscutível, mas estava aprisionado em uma timidez paralisante. Sentia embaraço por parecer tolo. Receava o que os outros pensariam. Esse receio não se tratava de humildade. Era a mesma falta de esperança disfarçada de modestia: "eu não sou suficientemente bom para correr o risco de parecer inadequado". Um ator mais experiente, de muito mais prestígio, ouviu a questão e respondeu de forma simples, mas que carregava uma profunda reflexão filosófica: vá e desempenhe o papel de tolo. Por que razão? Se você não agir, estará desperdiçando a única vida que possui, apenas temendo uma opinião de outra pessoa que, na maioria das vezes, nem é real, mas sim uma projeção das suas próprias inseguranças em relação ao julgamento dos outros.

Essa timidez que te impede de agir, esse receio de parecer inadequado, de ser avaliado, de não corresponder às expectativas que você acredita que os outros têm de você, é uma das maneiras mais eficazes de se autossabotar que existem. Essas consequências são bastante tangíveis: o homem que se abstém de abordar a mulher que lhe atrai por acreditar que ela o rejeitará; o homem que não se candidata ao cargo que merece por pensar que não terá sucesso; o homem que não publica seus escritos por temer ser ridicularizado; e o homem que evita falar em público porque teme gaguejar, ficar paralisado ou ser mal avaliado. Em todas essas situações, o julgamento que causa a paralisação não é verdadeiro. É uma previsão do insucesso que age como o insucesso em si, sem sequer permitir que a pessoa tenha a oportunidade de descobrir o que poderia ter ocorrido se tivesse tentado.

O Bushido, que é o código moral dos samurais do Japão e uma tradição de ética guerreira que se formou ao longo de séculos em uma cultura que é radicalmente distinta da nossa, mas que, de maneira surpreendente, se alinha em vários aspectos com a ética das virtudes do Ocidente, possui uma máxima que considero absolutamente essencial para essa questão: nunca se coloque abaixo de outro homem. Não aceito como presunção. Enquanto pressuposto ontológico. Você é um rapaz. Trata-se de um homem. A natureza que vocês dois compartilham é idêntica. O que ele criou, você também pode criar. O que ele descobriu, você também pode descobrir. O que ele conseguiu vencer, você também pode vencer. Se ele, sendo um homem como você, conseguiu, então a única distinção entre quem você é atualmente e quem você pode se tornar reside na maneira como você escolhe aproveitar o tempo que possui. Isso não se trata de um pensamento positivo de autoajuda superficial. É uma afirmação metafísica acerca da essência do ser humano, que se encontra profundamente enraizada tanto na tradição oriental quanto na tradição ocidental aristotélica: o homem é um ser de potencialidades, e a concretização dessa potencialidade está vinculada ao ato, à decisão, à vontade em ação.

Em relação à questão das limitações, deficiências e condições que parecem restringir as possibilidades, há uma descoberta fascinante que a ciência tem confirmado com crescente precisão: o fenômeno do savantismo, que se refere à tendência de algumas mentes que operam de maneira atípica em certas áreas a exibirem habilidades extraordinárias em outras. Isso não é algo que se aplique a todas as situações, nem se trata de uma garantia de que poderes compensatórios estarão disponíveis. No entanto, isso demonstra que a mente humana possui uma plasticidade e uma habilidade de realocar recursos cognitivos que desafiam qualquer história de total incapacidade. Afirmar que "sou dislexo, logo não posso aprender" é uma generalização que a biologia não sustenta. A questão que devemos nos fazer não é "o que não consigo fazer?" é "o que consigo fazer que outros não conseguem com a mesma facilidade, e como posso construir sobre isso?"

Retornando à questão principal, a desesperança masculina é um projeto, e por isso o desvio foi necessário, mas a tese permaneceu inalterada. Nem todos os seus agentes precisam estar cientes disso. Não se trata, necessariamente, de uma conspiração planejada em todos os detalhes. É metódica o suficiente para ser considerada um projeto, pois possui um objetivo claro, é consistente e gera resultados que podem ser antecipados. O homem contemporâneo recebe, através de diversos meios ao mesmo tempo - educação formal, mídia, interações sociais, o discurso cultural predominante -, a mensagem de que ele é, por sua própria natureza, a fonte do problema. Que ele é responsável por todos os problemas. Que ele representa o abusador em potencial, o opressor sistêmico, a criatura civilizada que, de maneira instável, se não houver uma contenção constante, acaba por causar estragos inevitavelmente. Essa história não é apenas falsa em vários pontos. Ela é destrutiva em sua funcionalidade. Isso porque, ao ensinar incessantemente e por todos os meios possíveis a um ser humano que ele é intrinsecamente mau, você não o transforma em uma pessoa melhor. Você o deixa confuso, imobilizado e à mercê de uma busca por redenção por erros que nunca cometeu.

O homem contemporâneo habita uma culpa difusa e constante. Ele carrega um pecado original secular que não possui rito de perdão, uma vez que a história que o gerou não oferece absolvição, apenas uma adição de culpa. Ele não fez o bastante. Ele não se dobrou o bastante. Ele não ficou quieto o bastante. Ele não se humilhou o bastante. O interessante, e o verdadeiro paradoxo filosófico dessa situação, é que quanto mais ele busca se redimir, mais suspeito ele parece. Pois o homem que se entrega por completo à história de sua própria vilania não inspira respeito. Provoca desprezo. Isso se aplica especialmente às mulheres, que foram ensinadas a, teoricamente, apreciar um homem humilde e submisso, mas, na realidade, em um nível mais instintivo, são atraídas por um homem que é centrado e confiante.

Uma mulher que observa um homem e afirma "você não é suficiente" está desferindo um dos golpes mais devastadores que o idioma humano permite. Apenas porque a frase geralmente não é verdadeira na maioria das situações em que é utilizada. Pois ela reflete tudo o que a sociedade já comunicou a esse homem ao longo dos anos, por meio de todos os meios possíveis. Ele já recebeu essa mensagem de forma implícita tantas vezes que, quando a ouve de maneira clara, vinda de uma mulher com quem tem ou deseja uma relação íntima, o impacto é como a confirmação de uma afirmação que ele sabia que aconteceria. Não porque realmente não seja suficiente. Porque foi ensinado a acreditar que assim seria.

Esse processo, essa erosão contínua da esperança masculina, gera efeitos mensuráveis que ultrapassam em muito o indivíduo. Desesperados, homens não edificam. Não trazem novidades. Eles não se expõem ao risco. Não são líderes. Não se responsabilizam. Não constituem famílias. Não criam filhos. Retiraram-se. Faz-se a anestesia. Procuram paliativos para o sentido que lhes foi roubado: gratificação do gozo imediato, falta de projeto a longo prazo, uma existência que é, na prática, uma espera indefinida por nada em particular. Quando uma geração inteira de homens age dessa forma, e uma parte considerável dos homens em uma sociedade vive desse modo de existência reduzida, o impacto sobre toda a civilização é comparável à remoção de colunas que sustentam sua estrutura. As demais seções do edifício permanecem de pé por mais um tempo. Em seguida, começam a fissurar. Em seguida, desmoronam.

Curiosamente, quando o homem se desanima, a mulher — que, ao mesmo tempo, foi apoiada e empoderada por toda a estrutura cultural — se apropria do ânimo que o homem deixou para trás. As mulheres, sobretudo nas últimas décadas, foram vistas como o núcleo de toda a história cultural relacionada ao desenvolvimento, ao potencial e à capacidade. Elas foram apoiadas a cada passo, comemoradas a cada vitória e protegidas de cada desânimo. O que se observa é que muitas mulheres atualmente demonstram mais iniciativa, disposição para assumir riscos e determinação do que muitos homens da mesma idade. Isso não é uma questão exclusiva das mulheres. É o resultado esperado de um sistema que, meticulosamente, edificou sua própria autoestima enquanto, de forma oposta, aniquilava a autoestima dos homens. Quando você nutre a esperança de um lado enquanto retira constantemente essa mesma esperança do outro, para qual lado a iniciativa tenderá a se inclinar mais? Não há dúvida de que a resposta é clara.

Em relação aos dados sobre abuso e violência de gênero, que geralmente surgem nessa discussão carregados de ideologia, tornando uma análise sincera bastante difícil, posso afirmar, com base em uma leitura crítica das pesquisas disponíveis, que os números oficiais frequentemente apresentam uma assimetria que não reflete a realidade observada. Não se trata de negar a gravidade dos abusos enfrentados por mulheres, pois eles existem e são sérios, merecendo ser enfrentados. Isso acontece porque, em muitas situações, as metodologias de coleta de dados são elaboradas de tal forma que subestimam de maneira consistente o abuso que os homens sofrem, especialmente quando a abusadora é uma mulher. A sociedade ainda não desenvolveu um vocabulário emocional e cultural adequado para reconhecer o homem, especialmente quando jovem, como uma vítima. Meninos que sofreram abuso por parte de mulheres mais velhas muitas vezes são vistos pelos seus colegas, pela família e pelo sistema como se tivessem tido uma sorte imensa. A normalização do abuso masculino não é um tema político menor. É uma negligência grave em relação ao cuidado humano, que gera traumas não resolvidos, silêncios impostos e adultos que carregam cicatrizes nunca reconhecidas como tais.

E aqui chegamos à essência da minha argumentação: toda essa estrutura de desespero que herdamos do período pós-guerra, a destruição metódica da esperança masculina, a aceitação da impotência como um destino inevitável, a falta de honestidade intelectual nas discussões, a mediocridade dos círculos de amizade que em vez de elevar, rebaixam, e a timidez paralisante que impede qualquer ação, tudo isso se direciona para um único desfecho: a eliminação do homem como um agente ético no mundo. Um mundo onde não existem homens que atuem como agentes éticos, que assumam suas responsabilidades, que construam com intenção e que se oponham firmemente a narrativas que os aniquilam, é um mundo que está se direcionando para uma forma de totalitarismo muito mais sutil do que aqueles que o século XX nos mostrou. Pois o totalitarismo mais eficaz não requer campos de concentração. Ele precisa apenas de homens desesperançados que pensam que não têm poder para agir, que não vale a pena se esforçar, que o mundo sempre será controlado por outros e que a melhor opção para eles é simplesmente sobreviver dentro das regras que foram estabelecidas para eles.

Existe um homem que veio de uma pequena vila composta por apenas cinco casas de barro, localizada no interior do nordeste brasileiro. Nesta região, não há um fornecimento de eletricidade estável, nem acesso à internet, muito menos uma biblioteca municipal, e absolutamente nenhuma das infraestruturas que o discurso contemporâneo considera essenciais para um desenvolvimento intelectual adequado. No entanto, esse homem conseguiu se tornar um intelectual de destaque. Não é um só, são muitos. Porque a esperança, mesmo não sendo totalmente aniquilada, se utiliza dos recursos que possui. Um bloco de notas e um lápis. Um antigo celular com internet de baixa velocidade. Um serviço de hospedagem por apenas cinquenta reais ao ano. Uma biblioteca pública que abre as portas três dias na semana. A maior parte dos brasileiros que nada constrói em termos intelectuais não o faz por falta de acesso. Deixa estar, pois foi persuadida de que não é capaz, de que não justifica, de que aqueles que se encontram nessa situação não têm o direito de se posicionar como pensadores, criadores ou como pessoas que têm algo a expressar. Essa crença é uma ilusão. Uma falsidade que causa danos funcionais imensos, mas ainda assim uma falsidade.

Portanto, cesse de ser um frouxo desprovido de esperança. Isto não é um mero insulto retórico vazio. É uma orientação clara. Seja um homem. Quando afirmo "seja homem", não estou invocando uma identidade de gênero como performance cultural, mas sim invocando uma ética. A ética de alguém que aceita a responsabilidade de ser verdadeiramente si mesmo, de criar o que é possível, de lutar contra aquilo que tenta aniquilá-lo e de não ceder ao domínio da narrativa de desespero sem antes travar a batalha que o momento exige. Seja um homem, mesmo que esteja envelhecendo. Seja um homem, mesmo que ainda seja jovem e tenha medo. Seja um homem, mesmo que as pessoas ao seu redor nunca tenham te mostrado como isso é na realidade. Existe uma voz em seu interior que possui o conhecimento. Que sempre esteve ciente. E que, de forma constante, foi instruída a permanecer em silêncio.

Não se mantenha em silêncio.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. A Cidade de Deus. São Paulo: Paulus, 2012.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Paulus, 2006.

AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001–2006. (10 volumes)

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