A Lógica Protestante da Perdição: Gnosticismo, Luciferianismo e a Verdade da Teologia Encarnada
Este ensaio demonstra que o protestantismo desemboca inevitavelmente no gnosticismo pela lógica interna de sua negação do livre-arbítrio e destruição das cinco vias tomistas, oferecendo apenas ilusão de libertação através do poder e do conhecimento secreto. Contra essa cosmologia demiúrgica, apresenta-se a teologia do imaginário como via verdadeira onde a virtude, e não o poder, revela Deus de forma encarnada, acessível e profundamente transformadora para qualquer ser humano disposto a sofrer o que é necessário sofrer para estar verdadeiramente de pé diante da realidade.
Gabriel G. Oliveira
4/25/202646 min read


A ruina da "metafisica protestante" foi parida pela gnose
Se o protestantismo for autêntico, então a Quimbanda e o luciferianismo não podem ser considerados heresias. São o resultado inevitável. Esta é a tese. É minha, Gabriel Godoi de Oliveira, e irei tocá-la adiante sem pedir permissão.
Vamos começar pela base que ninguém no protestantismo quer olhar de frente: para Lutero, para Calvino, para qualquer um que assine embaixo das consequências reais das Noventa e Cinco Teses, o livre-arbítrio é uma ilusão. Não se trata de uma posição marginal, nem de um pormenor de alguma escola teológica. É de natureza estrutural. Lutero dedicou livros inteiros a refutar a ideia do livre-arbítrio. Calvino elaborou uma teologia completa a partir dessa destruição. Aquele que se abastece dessa fonte, que se declara como herdeiro dessa tradição sem de fato ler o que ela realmente expressa, leva essa conclusão consigo, no bolso, sem ter consciência disso.
Agora surge a questão que geralmente não é levantada pelo protestante comum: se ninguém possui livre-arbítrio, nem mesmo os anjos ou os seres humanos, qual é a implicação disso para Lúcifer?
Isso implica que Lúcifer caiu devido à vontade de Deus. Não existe outra alternativa racional dentro do sistema. Se não há livre-arbítrio em qualquer ser, então a rebelião de Lúcifer não foi uma decisão dele. Era um roteiro. O roteiro foi escrito por Deus. Todos os assassinatos, todas as guerras e toda a corrupção histórica do mundo ocorreram porque esse Deus assim desejou. Desde a queda até o pecado e o inferno. O bem e o mal são reais porque este Deus em particular, o Deus protestante que não concede livre-arbítrio a suas criaturas, fez a escolha de que ambos existissem.
Isso anula de forma irremediável as cinco vias de Tomás de Aquino, e essa anulação não pode ser reparada dentro do contexto protestante. A primeira maneira, o motor parado, requer que a origem de tudo seja ideal. Um Deus que determina o mal e inscreve a crueldade no funcionamento do universo, sem que ninguém seja responsável por isso, não pode ser considerado perfeito. Trata-se de um Deus ambíguo, cuja ética se altera de acordo com o que lhe convém, ou, ainda mais preocupante, que não possui uma ética objetiva. Quebrou o motor parado. No entanto, as cinco rotas não são autônomas. Elas se alimentam umas das outras, cada uma pressupõe a existência das anteriores. Assim, quando o motor imóvel deixa de existir, a causa eficiente também se extingue, o ser necessário cessa sua função, os graus de perfeição desaparecem, e o que resta é apenas uma casca: o governante das coisas. Com esse resquício de onipotência, que não possui bondade, perfeição ou necessidade ontológica, nos deparamos precisamente com os manuscritos de Nag Hammadi.
De forma alguma isso foi um acidente. Lógica.
Se esse Deus é responsável tanto pelo bem quanto pelo mal, então não existe livre-arbítrio para ninguém. No entanto, deve haver algo que explique a origem da verdadeira transcendência, pois existe uma dimensão espiritual autêntica. A gnose tradicional responde: há um Deus superior a esse Deus. O Deus do pleroma, o Deus original que transcende tudo o que é gerido pelo demiurgo corrupto. Este demiurgo, este Deus do Velho Testamento que orquestra o caos e exige obediência simultaneamente, é o tirano do cosmos. Foi a serpente quem impulsionou o ser humano rumo ao conhecimento proibido, em direção à autonomia em um sistema que não contemplava a possibilidade de autonomia alguma. Os textos de Nag Hammadi afirmam claramente que a serpente era Cristo. A cobra chegou para oferecer a gnose, a consciência que é proibida, o despertar que ocorre dentro da prisão. No contexto gnóstico, Cristo é identificado como Lúcifer. Elas são a mesma pessoa. Este Cristo-Lúcifer retornará para derrubar a ordem estabelecida pelo demiurgo e dar início a um novo mundo, uma nova era que se origina da grande revolução espiritual.
Não criei essa lógica em uma obra teórica. Eu estive em círculos gnósticos. Eu fui iniciado intelectualmente na Quimbanda mais não por Ritual. E foi exatamente isso que me comunicaram, utilizando essa mesma estrutura e vocabulário. O líder chegará. Ele vai arrasar. Ele irá refazer. Em algumas vertentes da Quimbanda, esse líder é conhecido como Lúcifer, que se destaca não apenas como um Exu entre muitos, mas como o arauto da gnose e o Cristo, que o demiurgo designou como diabo. Ele é o dragão em si, o próprio Belzebu o maioral como entidade, e em certos sistemas de crença todas essas representações se fundem em uma única entidade, o messias gnóstico que provocará o que esses sistemas denominam de Armageddon, e que a gnose refere-se como a dissolução dos arcontes.
Portanto, o protestante que acredita estar em uma posição superior está agindo dentro de uma cosmologia cuja consequência natural é o luciferianismo. Ele vive inconscientemente no universo gnóstico. Ele continua sob a influência do demiurgo, mas sem os conhecimentos necessários para perceber isso.
E quando um protestante diz "mas não está na Bíblia", a resposta é simples e brutal: que grande merda isso é. Pois a Bíblia não inclui o cânon bíblico. Não há em nenhum livro da Bíblia uma indicação de quais livros devem fazer parte dela. A Igreja estabeleceu o cânone por meio de concílios e da autoridade magisterial, utilizando exatamente o tipo de tradição que os protestantes rejeitam. Portanto, o protestante, que aceita apenas a Bíblia como fonte de autoridade e nega a Tradição, não possui um critério para determinar o que pertence ou não ao cânone. Isso implica que, de acordo com a perspectiva protestante, os escritos de Nag Hammadi podem ser considerados tão canônicos quanto o Evangelho de João. Não há nenhum critério interno ao protestantismo que justifique sua exclusão. Se forem considerados incluíveis, então toda a narrativa gnóstica pode ser assimilada e ampliada dentro do protestantismo. Se é possível incrementá-la, então não se trata de um desvio. Ela é a razão pela qual o sistema existe.
O protestantismo inevitavelmente culmina na gnose. Não por falta de disposição, nem por distorção, mas por consistência. Ao aniquilar o tomismo sem oferecer uma alternativa que se mostre superior, e ao ficar desprovido de epistemologia, metafísica e de um cânone verificável, o que resta é um misticismo absoluto. Qual é o caminho que o protestantismo utiliza para se conectar com Deus? O impulso do Espírito Santo. A exposição clara. Uma glossolalia. A vivência mística pessoal que não se submete a padrões externos.
Isto é esoterismo. Todo serviço religioso protestante é um rito de magia. Ele não está disposto a aceitar qualquer coisa. Ele busca alcançar algo místico por meio de uma revelação direta, resultante de uma intervenção do Espírito Santo, que de maneira alguma poderá ocorrer da forma como eles afirmam. Porque Deus não pode ser contido em um ser humano limitado. Não há como, do ponto de vista matemático, inserir um infinito em um finito. Todas as tradições mitológicas ao redor do mundo estão cientes disso. Os escritos judaicos, incluindo o Mishna e a Merkavah, bem como as tradições de aqueles que se aventuraram a contemplar o divino diretamente, sem intermediários, convergem para uma única conclusão: o homem que tenta aprisionar Deus dentro de si mesmo experimenta uma explosão, uma combustão, uma morte, uma perda de sanidade. É impossível. Deus não é instalado em você como um arquivo em um pen drive.
O que a doutrina católica ensina, assim como a descrição feita pelos padres do deserto, que ainda me impressiona, é distinto: ao cultivar a virtude, Deus te recompensa com dons internos que se manifestam externamente. Não se trata de Deus ter ingressado em você. Sua alma cresceu tanto que agora consegue refletir a luz sem se destruir. É nesse contexto que surgem os dons, os carismas e até mesmo os fenômenos sobrenaturais. Não é porque você experimentou a presença de Deus, mas sim porque se tornou apto a acolher as dádivas que Ele oferece. Isso representa a santificação. É assim que Santa Teresa de Ávila se refere às moradas celestiais. Não se trata de uma invasão, mas sim de uma ascensão.
O que os neopentecostais realizam está longe de ser isso. A glossolalia que eles exercem não possui qualquer precedente bíblico legítimo. O dom de línguas mencionado nas escrituras, tanto em Pedro quanto em Paulo, não se refere a uma linguagem totalmente estranha que parece ser o resultado de espasmos vocais. É a habilidade de se comunicar na língua de um povo que não conhecemos. Uma pessoa que nunca teve contato com o aramaico começa a falar esse idioma. Uma pessoa que nunca aprendeu grego começa a se comunicar nessa língua. Isso é o verdadeiro milagre. Os neopentecostais criam ruídos que não são parte de nenhuma língua humana reconhecida, sem estrutura, sem formação, sem nada que uma linguagem autêntica deva possuir. No judaísmo, isso não ocorre. Isso não existe em nenhuma fonte autorizada do judaísmo. Tudo ali deve estar conectado à Cabala; tudo precisa ter uma relação lógica e numérica, utilizando gematria, notarikon e métodos formais. A palavra não surge do vazio. No pentecostalismo protestante, é realmente extraída do vazio, do estado alterado de consciência que eles denominam unção e que um observador imparcial descreveria como dissociação coletiva.
Em todos os exorcismos autênticos registrados pela Igreja, já foram escutadas línguas que não pertencem a nenhum vocabulário humano. Isso realmente é distinto. Indivíduos que nunca aprenderam latim, sânscrito ou grego, mas que, durante uma sessão de exorcismo, começaram a se expressar nessas línguas com fluência. Isso possui um critério de verificação. Existem relatos documentados. Há algo que pode ser destacado e afirmado: isso não pode ser explicado pela psicologia convencional. As práticas dos protestantes pentecostais não seguem esse critério. Por sua natureza, é algo subjetivo. É a vivência de quem está envolvido, que não pode ser transmitida a quem está de fora, impossibilitada de ser verificada, irrefutável, e, por conseguinte, sem utilidade como argumento para qualquer coisa.
Além disso, há um aspecto que raramente é discutido de maneira franca: certas seitas neopentecostais no Brasil, na busca por rituais que "funcionem" emocionalmente, passaram a incorporar objetos e práticas provenientes da Umbanda. Pipoca, algumas cores, rituais específicos e determinados ritmos de adoração que carregam um significado simbólico semelhante aos rituais de Umbanda. Extraído da Umbanda sem dar crédito à fonte. Contudo, eles demonstram o maior preconceito aberto em relação à Umbanda. É a hipocrisia intelectual que só consegue funcionar se o público não ler.
O que ocorre em um culto protestante é, estruturalmente, o mesmo fenômeno que acontece em um terreiro. A possessão demoníaca, que o pastor se refere, e a manifestação de Exu, conforme o zelador do terreiro, apresentam uma morfologia idêntica. A mesma falta de controle sobre os movimentos, a mesma maneira de falar desconectada, a mesma mudança de personalidade, o mesmo padrão ritual em torno do acontecimento. Não estou acusando ninguém. É uma nota. Existem autores brasileiros que notaram isso antes de mim. Não sou o pioneiro, mas estou me expressando de forma mais clara do que a maioria.
Existe uma outra dimensão em tudo isso que precisa ser explorada. São Tomás de Aquino menciona os anjos dos elementos e é bem exato: todo amontoado de matéria, por mais intrincado que seja, tem um único anjo que cuida dele no plano metafísico. Não é que cada função daquele corpo ou daquele objeto tenha um anjo distinto. É um anjo responsável por tudo aquilo, que mantém a existência das coisas e garante que elas manifestem as virtudes que lhes são inerentes. O ser humano, por sua vez, adquire essas virtudes através do intelecto. Os anjos despertam na mente humana uma luminosidade, uma forma de clareza que se origina do alto e que o ser humano compreende, processa e transforma em discernimento. Cada elemento no mundo possui um aspecto positivo e um negativo, assim como uma virtude e um vício que pode evocar no ser humano que interage com ela. O animal também experimenta algo semelhante, embora não da mesma maneira que um ser humano, mas de uma forma que é bastante parecida. O ser humano, possuindo todas as capacidades intelectuais, é capaz de compreender e refletir de maneira muito mais profunda sobre o que determinada coisa está trazendo à sua mente.
É por isso que Deus pode se revelar através de uma garrafa. Pode se revelar por meio de uma representação de Nossa Senhora. Certamente, o caminho da imagem sagrada é bem mais direto e eficaz, pois possui uma intenção sacramental direcionada a isso. No entanto, a ideia permanece a mesma. Em toda a realidade, há um modo de expressão presente. Não se trata de um pensamento ilusório. É a metafísica tomista considerada de maneira séria.
Isso é conhecido como teurgia, mas a palavra foi tão distorcida pelo ocultismo e pela negação cristã do ocultismo que atualmente poucas pessoas compreendem seu verdadeiro significado. Teurgia não é mágica. Teurgia não é magia prática. É uma prece de ação física, com símbolos da natureza dispostos de maneira a se relacionar a uma virtude particular, que pode ou não ser emanada do alto. Um pantáculo das Clavículas de Salomão e uma medalha de São Bento não são equivalentes em termos doutrinários, mas têm uma semelhança em sua função: ambos são formas de oração tangíveis que se referem a um princípio superior, aguardando uma resposta que pode ou não ocorrer. A distinção reside em quem você está chamando e qual ética orienta suas ações. A ética do operador é fundamental. Se a ética é corrupta, a resposta que se obtém é aquela que se alinha a essa ética corrupta. Os anjos da natureza vão ecoar o que está sendo solicitado. Se o que se está solicitando é uma maldição, então, que venha aquilo que tem o poder de criar uma maldição. Não sem implicações para quem solicitou, mas vem. Isso se alinha com toda a metafísica tomista relacionada aos anjos. Aqueles que pediram irão passar por provações espirituais, mas o evento reverbera em todo o universo, pois as personificações das virtudes, que são os próprios anjos, atendem à intenção.
No catolicismo, esse mesmo princípio age de forma oposta. A comunhão representa o exemplo mais extremo dessa realidade: Cristo está realmente presente naquele elemento material, que é a hóstia, de uma maneira metafísica autêntica, e não de forma simbólica ou alegórica. Carne e sangue situados naquele ponto da realidade. Existe um anjo que se relaciona com aquele objeto e que materializa na realidade o que a consagração indica. Isto é a transubstanciação em todas as suas implicações metafísicas.
Para o gnóstico, todas essas questões são atribuídas ao demiurgo. Todo o que se manifesta no mundo físico, com algumas raras exceções que só podem ser compreendidas através de caminhos esotéricos gnósticos, é uma ilusão criada pelo tirano cósmico para manter a humanidade aprisionada na cela material. Os arcontes, que o gnóstico equipara aos anjos do catolicismo, são considerados, na gnose, os próprios agentes do demiurgo. O católico que presta culto aos anjos e consagra hóstias está, para o gnóstico, agindo exatamente conforme as vontades do demiurgo. Mas e o protestante? O protestante tem exatamente a mesma visão sobre as práticas católicas. Ele se refere à idolatria como aquilo que o gnóstico denomina servidão ao demiurgo. A sobreposição não é por acaso.
A maçonaria contribuiu para edificar essa sobreposição. Um bom número dos fundadores do protestantismo moderno, tanto o inglês quanto o americano, que posteriormente se estabeleceu no Brasil, era membro da maçonaria. A maçonaria possui uma doutrina esotérica que é evidentemente teosófica. Não se trata de uma teoria da conspiração. Isso foi registrado. René Guénon tratou desse assunto. Olavo de Carvalho comentou sobre isso. Há alguns maçons que se rebelaram contra a maçonaria depois que ela incorporou a teosofia de Blavatsky e eles escreveram sobre isso. A teosofia proposta por Blavatsky ilustra de maneira clara a direção que esse raciocínio pode tomar quando é levado a sério: ao tentar unificar todas as mitologias do mundo em uma única narrativa, você perceberá que nenhuma delas pode ser considerada verdadeira, uma vez que, se todas forem reconhecidas como verdadeiras simultaneamente, elas acabam se contradizendo. Lúcifer e Deus não podem ambos estar certos dentro do mesmo sistema lógico e coerente. Se ambos estão corretos, então nenhum deles está realmente certo. E Blavatsky, com a ousadia de quem não tenta disfarçar uma posição imparcial, afirmou que o messias que se aproxima é Lúcifer. Samael. O anjo que é considerado o inimigo no judaísmo, cristianismo e islã. Para ela, esse oponente é amistoso. O mal, ela afirmou em diversos textos, é algo subjetivo.
É aí que a ética deixa de existir. Quando o mal é uma questão de percepção, a ética se torna apenas um enfeite. Toda a corrente de ocultismo contemporânea se desmorona nesse abismo: Crowley se perde, Blavatsky também, assim como Samuel Liddell MacGregor Mathers, a Golden Dawn e a Rosa Cruz. Todas essas correntes convergem em um único ponto: uma gnose que anula qualquer critério moral e entrega o ser humano a uma liberdade amorfa, que se configura como a mais terrível das prisões, pois o prisioneiro ignora sua condição de encarcerado.
Se seguirmos por esse caminho de análise, o paganismo também se torna falho. Chesterton percebeu isso. Olavo de Carvalho percebeu isso. Tomás de Aquino já tinha observado isso antes dos dois. Ao utilizar o filtro tomista em qualquer sistema que não seja a Igreja Católica, o que se revela é a gnose. De diversas maneiras, utilizando diferentes léxicos e enriquecidas por mitologias locais fascinantes, mas essencialmente: um Deus menor, um mundo físico questionável, uma elite espiritual que possui acesso ao conhecimento vedado, e uma massa que se encontra aprisionada sem ter consciência disso.
Não estou dizendo que tudo nessa gnose é horrível. Deus se revela onde desejar, e sua vontade se encontra onde há receptividade para a verdade, mesmo que essa receptividade exista dentro de um sistema distorcido. Os heróis representam o mais belo exemplo disso. O herói mitológico, o herói cinematográfico, o herói das narrativas que a humanidade compartilha desde que começou a contar histórias, é uma representação que a mente humana utiliza para compreender uma virtude autêntica. Um herói não pode ser considerado perfeito, pois, se fosse assim, não seria capaz de se destacar ou ser reconhecido. Ele possui suas fraquezas, comete erros e também tem seus momentos de falha. Mas ele simboliza algo que transcende o humano, algo que a mente humana, por si só, não consegue criar do zero, pois está recebendo influência de uma fonte superior a ela. O antagonista simboliza a compulsão. A luta entre os dois representa a encarnação da luta entre a virtude e o vício, manifestada de maneiras que a mente humana consegue compreender. São anjos da mente, num sentido que é literal mas não exatamente igual ao anjo teológico. São maneiras pelas quais Deus se revela na mente humana, que é a mesma mente capaz de observar uma garrafa, perceber os símbolos que ela representa e, a partir disso, alcançar uma intuição do divino por meio desse caminho.
É assim que eu me refiro à teologia do imaginário. Ela não espera que o sistema ao seu redor seja impecável. Ela apenas pede que exista uma pessoa com uma mente aberta o suficiente para compreender o que está sendo apresentado.
O que ocorre, então? O caminho mais direto para alcançar Deus ainda se dá através da encarnação. Não há possibilidade de que o Espírito Santo se encarne em você, pois isso é inviável e comprometeria a essência do ser. A materialização de conceitos divinos em manifestações que a humanidade é capaz de reconhecer e compreender. Em que lugar a criatura é capaz de compreender melhor? Nos aspectos que ela observa, nas coisas que ela manipula e nas experiências que ela vivencia. É por essa razão que o sacramento é eficaz. É por isso que o símbolo é eficaz. Não se pode afirmar que o símbolo seja apenas uma bela concha que envolve uma verdade oculta. O símbolo representa a interseção entre o visível e o invisível, onde ambos se comunicam em uma linguagem que a criatura é capaz de compreender.
O protestante nega abertamente tudo isso. Dizem que se trata de uma superficialidade católica, que é uma forma de adoração a imagens, que é considerado idolatria, e que Deus está acima de tudo isso. No entanto, o que ele realiza em seus cultos é exatamente o mesmo processo: ele utiliza símbolos musicais para despertar uma emoção, emprega uma linguagem que não é realmente uma linguagem para estabelecer uma conexão mística e recorre à repetição ritualística para facilitar a abertura de uma porta. Ele apenas deu outros nomes a isso. Nomeou de unção o que, na verdade, é um rito. Chamou de Espírito Santo aquilo que é uma força do universo que responde a uma chamada. Designou como glossolalia o que é puro esoterismo.
Chegamos, então, à parte que muitas pessoas relutam em aceitar: o neopentecostal e o carismático atuam dentro de um contexto protestante, mas estão muito mais alinhados com a verdade do que o pastor tradicional que se limita a pregar uma teologia cerebral e desatualizada. Por qual razão? Pois ele compreendeu que a religião é a manifestação da vida. Que ela percorre o corpo. Que ela se manifesta através das emoções e dos sentidos. Ele errou em todos os outros aspectos, mas nesse ponto ele estava certo. O pastor que ensina uma teologia puramente intelectual, sem qualquer aspecto ritual, sem uma verdadeira encarnação e sem símbolos que tenham um significado que vá além de si mesmos, está atuando dentro de uma lógica protestante totalmente consistente, mas que não se relaciona com a realidade. Uma vez que a realidade humana se manifesta através do corpo. Deus não se dirige a conceitos abstratos. Ele se dirige a corpos.
Agora, vamos para o terceiro movimento. Se um universo assim fosse protestante, se essa visão do cosmos fosse válida, quem estaria correto? O praticante de Quimbanda. De forma não irônica. Sem intenção de criticar. Como um fato observado. Se Deus for ambíguo, se não houver livre-arbítrio para ninguém, se Ele gerou tanto o bem quanto o mal e deseja a existência de ambos, e se toda a estrutura do cosmos é regida por um tirano que se faz passar por um juiz justo, então o praticante do Quimbanda, ao invocar Exu Lúcifer, ao evocar o maioral e ao buscar o conhecimento que o liberta do domínio do demiurgo, está agindo de forma coerente. Está sendo consistente. Está acompanhando as consequências práticas do que o protestantismo afirma, em vez de pretender que essa doutrina diz algo distinto. O protestante é um luciferiano disfarçado de cristão. Trata-se da Quimbanda. Isso pode parecer uma provocação, mas é uma observação.
A teosofia de Blavatsky, que influencia quase todo o ocultismo contemporâneo, apresenta uma ideia bem definida: Lúcifer é uma representação, mas ao mesmo tempo, não é. Todo o emblema que ela insere atrás daquele nome representa precisamente o que Lúcifer simboliza em todas as tradições. E ela tem a opinião de que Samael, conhecido como o adversário no judaísmo, cristianismo e islamismo, é uma entidade benevolente. De acordo com ela, o mal é algo subjetivo. O que é bom, varia de pessoa para pessoa. Tudo é uma questão de perspectiva. Se o mal for algo subjetivo e todas as coisas forem verdades simultaneamente, então não existe nenhuma verdade. Porque não é possível que Lúcifer e Deus estejam certos ao mesmo tempo em um sistema que preserve qualquer forma de lógica. O ocultismo contemporâneo optou por alinhar-se com Lúcifer. Decidiu denominar isso como liberdade. Você optou por comercializar este pacote para indivíduos que se encontram em uma busca desesperada por significado, autonomia e poder em um mundo que os faz sentir-se sem controle.
E aqui está a verdade que permeia tudo isso: a gnose não é apenas maligna. É porque a gnose proporciona uma certa lógica. Dispõe de um mapa. Fornece explicações que são coerentes em seu próprio contexto. Sim, o mundo está em frangalhos. A realidade está distorcida, com certeza. O ser humano encontra-se aprisionado em uma estrutura que não foi criada para sua emancipação, de fato. A gnose tem razão ao identificar todas essas questões. No entanto, ela comete um engano ao tentar curar. Ela proporciona uma liberdade que, na verdade, é apenas uma mudança de cativeiro. Você deixa de estar sob a influência do demiurgo para passar a fazer parte da esfera de controle de Lúcifer, que oferece a mesma coisa que o demiurgo: poder.
E onde está a verdadeira diferença entre um e outro? No final, nenhuma. Pois os dois agem segundo a lógica de que ter poder é ser livre. Ambos estão priorizando a autonomia da vontade em detrimento da ética. Ambos estão subvertendo a ordem que preserva a humanidade de uma pessoa.
A Igreja Católica tem suas imperfeições. Existem indivíduos mal-intencionados dentro dela. Possui estruturas repetitivas. Existem pecados que jamais deveriam ter sido aceitos. Tudo isso é real. No entanto, ela conserva um aspecto que nenhuma outra instituição cristã preserva de maneira semelhante: tudo isso está fundamentado em uma ética que não é subjetiva. A ética de Santo Tomás não é uma ética baseada em conveniências. Não se trata de uma ética de interpretação subjetiva. É uma ética que se origina da natureza. Finalidade. Sobre a virtude. Se você questionar um teólogo católico sobre o motivo pelo qual algo é considerado pecado, a resposta não será "porque a Igreja mandou" ou "porque Deus mandou sem explicar". A resposta será "porque isso vai contra a finalidade do ser humano e vai danificar a sua alma".
Quando um protestante é questionado sobre o porquê de suas crenças, ele geralmente apresenta duas respostas: a primeira é que está na Bíblia, e a segunda é que, de acordo com sua interpretação, a Bíblia assim se manifesta. Não há como sustentar uma ética de fato com nenhuma delas. O fato de estar na Bíblia não passa de uma autoridade que não se sustenta racionalmente, e essa autoridade desmorona ao primeiro desafio de alguém que questiona. Se essa é uma interpretação pessoal, então estamos diante de uma subjetividade completa, o que leva ao caos moral que caracteriza a realidade protestante atual: cada indivíduo interpreta da sua própria maneira, cada um age conforme o que acredita que Deus ordenou, e o resultado é uma nova denominação surgindo após a outra, cada uma mais convencida de que está correta em relação à anterior.
A gnose soluciona essa questão de maneira extremamente sofisticada e devastadora: ela simplesmente afirma que a ética não possui objetividade. Refuta a ideia de que o bem e o mal possuam uma existência concreta. Coloque tudo em termos relativos. Ao negar a ética, você permite que a vontade faça o que quiser. Chame isso de sabedoria, chame isso de liberdade, mas o que você realmente possui é uma mão solta em um carro desgovernado.
De que maneira a gnose atinge esse estágio? A partir de uma base protestante. Começando pela recusa da ideia de livre-arbítrio nos seres, ao mesmo tempo em que se proclama um Deus todo-poderoso responsável por gerar tanto o bem quanto o mal. De lá, a razão te puxa.
É por essa razão que o protestante que reflete de fato, que se empenha em analisar as implicações do que professa acreditar, inevitavelmente acaba se encaminhando para alguma forma de gnose, ocultismo ou luciferianismo. Crowley tomou esse rumo. Blavatsky prosseguiu. Os criadores da Golden Dawn prosseguiram. Os seguidores da teosofia continuaram. Os maçons de determinados graus os acompanharam. E o que eles fizeram, ao chegar a esse ponto, foi tentar incorporar isso ao protestantismo, uma vez que perceberam que o protestantismo era a via mais adequada para isso.
O mais interessante é que tudo isso já era previsto. Em outras palavras, era algo que se podia prever para aqueles que estavam observando a realidade de forma adequada. Existe uma interdependência evidente: o protestantismo necessita da gnose para evitar cair em um relativismo absoluto, enquanto a gnose requer o protestantismo para obter uma base de apoio, um contexto onde possa se estabelecer. O protestantismo oferece a falta de reconhecimento institucional da verdade católica. A gnose oferece uma narrativa que aparenta ser lógica, enquanto desintegra a lógica na relatividade.
Isto não significa que todos os protestantes sejam gnósticos de forma consciente. Não é a maior parte. A maior parte das pessoas é afetada por um processo que teve início há quinhentos anos, quando Lutero desafiou a autoridade da Igreja, e que culminou exatamente onde era de se esperar: em um mundo no qual ninguém possui qualquer tipo de autoridade, uma vez que a autoridade é vista como opressão, a verdade é considerada relativa, Deus se comunica de maneiras distintas para cada indivíduo, e cada pessoa se torna seu próprio papa. Daí em diante, é simples traçar a última curva: se cada indivíduo é o seu próprio papa, por que não se considerar o seu próprio deus? E se você é o seu próprio deus, por que não prestar culto à divindade que oferece verdadeira liberdade, sem toda essa conversa sobre ética, naturalidade e a finalidade da existência humana? Por que não render-se a Lúcifer, que dá poder sem exigências?
O protestante que chega a esse estágio não é um traidor da herança protestante. Ele representa a conclusão natural dela. Ele representa aquilo que o protestantismo buscava desde o princípio, mas não tinha coragem de afirmar em alto e bom som.
Certamente, há indivíduos na Umbanda e na Quimbanda que agem dentro dessa perspectiva gnóstica de maneira muito mais sinceros do que o pastor neopentecostal que prega a graça enquanto observa as intenções de seus fiéis para tirar proveito de suas fragilidades. Há indivíduos que buscam poder, pois estão cientes de que o mundo opera dessa maneira. Estão corretos ao afirmar que o mundo é uma luta pelo poder. Estão enganados ao pensar que se aliar a Lúcifer é a solução. Pois Lúcifer não oferece liberdade a ninguém. Ele move a corrente para outro pulso, aplicando uma taxa muito superior àquela que o demiurgo jamais exigiu.
No entanto, é importante afirmar de maneira clara, já que isso tem sido negligenciado: nem tudo que se encontra na gnose é falso. Nem tudo na Quimbanda se resume à maldade. Existem certos ramos da gnose que possuem uma sofisticação filosófica que o protestantismo nunca conseguiu atingir. Existe um entendimento verdadeiro acerca do funcionamento das forças cósmicas na Quimbanda que o catolicismo popular optou por desconsiderar. Há um reconhecimento da dualidade da realidade cósmica, no sentido de que o mal é uma força autêntica que não se dissipa apenas porque você entoa um hino, e que há uma estrutura de poder no universo que opera de maneiras que a teologia escolástica, por vezes, ameniza.
A distinção reside no fato de que tanto a gnose quanto a Quimbanda, assim como todo o ocultismo, estão corretos em sua análise, mas equivocados nas soluções propostas. Eles observam a jaula. Aparece o tirano. Vejam as correntes. No entanto, ao conceder liberdade, oferece apenas uma troca de papéis dentro da mesma prisão. O catolicismo percebe as mesmas realidades, mas proporciona algo distinto: uma verdadeira transcendência. Não com poder. Através da virtude. Não por meio do saber. Pela santidade. Não por meio da negação do mundo material. Através da sua transformação.
E é exatamente nesse ponto que a teologia do imaginário se revela: é possível alcançar essa verdadeira transcendência ao observar uma garrafa. Observei um protagonista em um filme. Estou vendendo uma mulher bela, cujos traços são marcados pela dor. Observando um gesto de bravura de uma pessoa comum que não imaginava que fosse corajosa. Pois em toda essa situação, Deus está se revelando, não de uma maneira mística e indescritível que apenas você é capaz de perceber, mas como uma verdade que você pode compreender, nomear e compartilhar. Não se trata de relatividade. A variedade de maneiras pelas quais a realidade única se revela a um ser capaz de compreender.
Portanto, a verdadeira teurgia, a oração física que se alinha a virtudes autênticas, é mais eficaz quando realizada com alegria do que quando praticada em meio ao desespero. A alegria indica que você está alinhado com uma verdade, e ao invocá-la, as forças cósmicas que a correspondem agem a seu favor. Não é por causa do seu poder. Porque você está em sintonia. O demônio atende aos seus pedidos quando você os formula com intenções maliciosas, mas o preço a se pagar é ele mesmo. Você está trocando um pedacinho da sua alma por algo que não vale a pena. O santo realiza aquilo que é solicitado por ele, pois suas petições estão em harmonia com a verdadeira ordem cósmica.
O verdadeiro pensador entre os protestantes deve tomar uma decisão em determinado momento. Ou ele admite que sua crença religiosa leva inevitavelmente ao luciferianismo, e, sendo assim, decide ser sincero consigo mesmo e o aceita plenamente. Ou ele admite que há um problema na base e busca fora do protestantismo uma verdade que ainda não conseguiu atingir. A maior parte das pessoas opta por uma terceira alternativa: persiste em simular que o protestantismo é uma única entidade, quando na verdade é evidentemente algo diferente, e assim vive em constante contradição, arcando com as consequências disso em sua própria alma.
O que estou mencionando aqui vai além da teologia. É um diagnóstico. É uma descrição da realidade em lugares onde o protestantismo está sendo levado ao seu extremo lógico. Eu observei isso. Eu estive presente. Eu falei com indivíduos que atravessaram essa fronteira de forma consciente, aqueles que deixaram o protestantismo ao perceberem que ele os estava levando para esse caminho, e que, em seguida, tiveram que decidir entre seguir em frente ou retornar.
A maior parte retorna. Retorno ao catolicismo. Alguns retornam a uma prática de pagamento convencional, que, pelo menos, tem a sinceridade de não pretender que está buscando a Deus da maneira que o protestantismo simula. Um pequeno número de pessoas aceita a gnose por completo e, a partir daí, enfrenta as consequências de sua escolha. Existem aqueles que se encontram em um estado intermediário, na dissociação cognitiva característica do protestantismo atual.
Há uma certeza: se você se aprofundar no protestantismo e for uma pessoa reflexiva, inevitavelmente encontrará a face de Lúcifer. Você precisará escolher se o que observa é uma forma de liberdade ou apenas uma prisão com uma aparência diferente. Quando a maioria das pessoas atinge esse estágio e realmente enxerga o que está sendo apresentado, elas hesitam. Porque têm consciência, de uma forma que lhes escapa, que não se trata de liberdade. É aniquilação. É a promessa de trocar tudo por aquilo que realmente vale a pena, que é a alma.
Há um aspecto que não podemos ignorar e que precisa ser abordado de maneira direta. Quimbanda não é religião de pessoas tolas. De maneira nenhuma. Em todas as religiões, podemos encontrar pessoas que não demonstram inteligência. Entretanto, a base conceitual da Quimbanda, quando realmente aprofundada, demanda uma sofisticação intelectual que a maior parte das pessoas não consegue suportar. Exige que você observe o universo sem ilusões, sem expectativas reconfortantes, e afirme: está danificado e permanecerá assim. Então, você decide se aceita essa ruptura ou se tenta reparar o que foi danificado.
O verdadeiro Quimbandeiro não é aquele que implora a Exu para ganhar na loteria ou para que sua ex-namorada retorne. Este é o impostor. O verdadeiro Quimbandeiro é aquele que reconhece a existência de forças no universo que não se associam à bondade, mas que atuam dentro de uma lógica de poder, controle e transformação, e que está fazendo essas negociações de forma consciente. Ele tem conhecimento sobre o que está discutindo. Tem consciência de que está invocando algo que exigirá um preço. Está ciente de que não existe almoço grátis em uma ordem cósmica que se baseia na desigualdade.
Isso é mais sincero do que um protestante que pede a Deus que abençoe sua empresa desonesta. Mais sincero do que o católico que se confessam toda semana do mesmo pecado, acreditando que a absolvição trará alguma mudança. O Quimbandeiro atua com base em uma ontologia bem definida: existem forças, há trocas e uma ética que, embora não seja moral, é concreta. Se a ética dessa troca for rompida, você será devorado.
O que estou tentando expressar com tudo isso é que o Quimbandeiro está correto no que diz respeito ao mapa, mas está equivocado em relação à direção. Ele teve um entendimento da realidade que a maioria não conseguiu ter. Perceba que o mundo possui um lado sombrio que não deixa de existir apenas porque você prefere não vê-lo. Percebeu que o poder é real e que aqueles que o possuem no universo realmente o têm. Então, ele se voltou para aquela parte do universo e proclamou: vou servir aquele que detém o poder aqui.
É exatamente nesse ponto que ele cometeu um engano. Isso porque a virtude representa uma espécie de poder que o Quimbandeiro não consegue conceber. Não por ser fraca, mas por ser completamente distinta. A força de Lúcifer reside na capacidade de dominar, controlar, destruir e perpetuar o estado atual das coisas. A força da virtude reside em sua capacidade de libertar, criar, transformar e abrir trilhas onde antes não existiam. O primeiro é um poder que se aplica às coisas. O segundo é uma força que permeia os objetos.
E qual deles é de fato o mais poderoso? Aquele que permanece de pé enquanto tudo ao seu redor desmorona. O Quimbandeiro tem plena convicção de que tudo está desmoronando. O que ele não entende é que a virtude consegue permanecer ereta mesmo quando tudo ao seu redor desmorona. Não por recusar o colapso. Porque descobre uma maneira de ser que não precisa do colapso para se manter firme.
Agora chegamos à parte que poderá parecer insana para aqueles que não conseguem pensar além dos limites impostos pela cultura. A realidade é que é possível estar imerso em um universo protestante, repleto de toda essa organização demiúrgica, toda essa negação do livre-arbítrio e toda essa cosmologia distorcida, e mesmo assim, descobrir a presença de Deus. Não porque o cosmos tenha deixado de ser protestante. Deus não requer que o universo abandone seu caráter protestante para que Ele esteja presente.
Ele se encontra onde existe um corpo que opta pela virtude, mesmo quando o universo não proporciona a liberdade de escolha. Ele se encontra onde existe uma mente que compreende a verdade, mesmo quando a cosmologia afirma que tudo é relativo. Ele está presente onde há uma determinação que opta pelo bem, mesmo quando a ordem do cosmos afirma que não há um bem objetivo. É como se o próprio viver bem em um mundo que não permite a virtude fosse uma invocação. Realizasse uma teurgia. Fosse um clamor capaz de atravessar a cosmologia.
É por essa razão que os santos habitam em universos que estão incorretos. Há pessoas que nasceram em meio à perdição e, surpreendentemente, encontraram Deus exatamente nesse lugar, sem a necessidade de se afastar da perdição. Isso ocorreu porque a perdição deixou de ser a prioridade quando a alma descobriu um caminho ascendente. Ao descobrir um caminho que não se dirige nem para cima nem para baixo dentro da cosmologia demiúrgica, mas que é perpendicular a toda a cosmologia.
Aqui, a teologia do imaginário adquire uma profundidade que talvez não tenha sido evidenciada anteriormente. Para encontrar Deus, um universo perfeito não é necessário. É necessário ter um olhar que consiga perceber Deus em sua verdadeira localização. Ele está presente em todos os locais onde a verdade é proclamada. Em que lugar a virtude se manifesta de fato. Onde a alma opta pelo bem não em razão das recompensas do universo, mas simplesmente porque o bem é, por si só, algo positivo e não há mais nada a ser considerado. Você percebe isso em um herói que, ciente de sua derrota iminente, ainda assim decide lutar. Observe isso em uma mãe que se dedica completamente a seu filho, em um mundo que não oferece nenhuma garantia de que isso trará um resultado positivo. Observe isso em um homem comum que opta por dizer a verdade, mesmo quando seria mais simples mentir.
O que você observa é Deus. Não uma concepção de Deus. Deus autêntico, na forma humana, atravessando aquelas mãos, aqueles olhos, aquele coração. É nesse momento, quando você consegue perceber e compreender isso, quando sua mente é iluminada por essa luz divina que emana do alto e transforma tudo ao seu redor em brilho, que você realmente experimenta a autêntica experiência mística. Não há dissociação. Nem glossolalia. Chega de perder o controle. Uma clareza tão profunda que parece de outro mundo, pois realmente é.
É nesse aspecto que o protestantismo, em sua essência, se revela como uma via para se aproximar de Deus. Não por ser o protestantismo algo positivo. Porque a pessoa que está inserida no protestantismo pode estar buscando Deus de maneira tão genuína que consegue superar toda a distorção cosmológica e descobrir o que realmente existe. É possível encontrar um herói na Bíblia protestante, testemunhar Cristo padecendo de forma injusta, e isso ressoa com algo na alma que não tem nenhuma relação com o sistema religioso. É algo que permeia todos os sistemas.
Contudo, é crucial ressaltar que este caminho só é eficaz se você estiver genuinamente em busca. Se você está apenas simulando sua participação no sistema, se está apenas acumulando influência religiosa ou prestígio dentro da comunidade, isso não é eficaz. O que você está chamando, sem ter consciência disso, é a verdade. A verdade não se deixa enganar por disfarces. A verdade não se molda para agradar à covardia. Quando você está verdadeiramente em busca do bem e se depara com o que realmente é bom, ao se confrontar diretamente com a verdade, é nesse momento que algo significativo acontece. Aí a teologia do imaginário ganha vida e se concretiza.
Isso contrasta completamente com o que a gnose proporciona. A gnose proporciona um saber que é oculto, reservado a poucos, que demanda uma iniciação e o distanciamento das pessoas comuns. A verdadeira teologia e a verdadeira mística consistem em apresentar algo que qualquer pessoa pode perceber, desde que aprenda a observar da maneira adequada. Um trabalhador que percebe a presença de Deus em uma ferramenta que manuseia com maestria está vivenciando uma verdadeira experiência mística. Uma mulher que percebe a encarnação do bem em uma criança que ela criou e educou está mais perto do divino do que um iniciado que estuda textos herméticos para decifrar mistérios. Um percebe a verdade, enquanto o outro apenas acumula palavras.
E é aqui que a crítica ao ocultismo contemporâneo se torna mais evidente. O ocultismo contemporâneo se alimenta dessa crença de que saber é poder. A ideia é que, se você souber o nome oculto de algo, terá o poder de dominá-lo. Existe uma elite que possui acesso a informações que não são disponíveis para a maioria. Tudo isso é ilusão criada para manter as pessoas em um constante estado de procura. Para que elas nunca descubram o que realmente buscam, pois, se o fizessem, parariam de investir nos cursos, deixariam de adquirir os livros e não participariam mais das lojas.
O verdadeiro conhecimento, aquele que altera a vida e transforma a alma, não é oculto. Está exposto para que o mundo todo veja. Está na maneira como você cuida de alguém que não pode retribuir de forma alguma. Está na maneira como você cumpre suas promessas quando não há ninguém para observar. É uma questão de como você opta por sofrer no caminho certo em vez de prosperar no caminho errado. Nas pequenas coisas reside a verdade, pois muitos passam a vida inteira em busca de algo distante, sem perceber que está bem ao seu lado.
A Quimbanda, pelo menos de forma sincera, não tem a intenção de ser isso. Ela afirma de maneira clara: neste lugar, nós fazemos acordos com as forças que fornecem aquilo que você deseja. Isso não é um conhecimento oculto. Trata-se de um acordo. Você tem consciência do que está fazendo. Está ciente de quem está solicitando. Tem ideia de quanto custa. Transparente, sincero e pobre. O que a torna, de maneira paradoxal, mais digna do que aquelas práticas que aparentam estar em busca de Deus, mas na verdade estão à procura de poder.
Então, retoma-se aquela questão: se você reconheceu que tudo está desmoronando, se compreendeu a existência de um demiurgo que exerce controle sobre tudo, e se percebe que o lado do demiurgo continuará a dominar enquanto você estiver vivo, por que não aceitar a força que, ao menos, proporciona clareza em meio a essa escuridão? Por que adorar aquele que oferece poder, mesmo que seja um poder restrito, que apenas serve para preservar as mesmas estruturas?
A resposta reside no fato de que existe algo que a gnose, a Quimbanda e todo o ocultismo não conseguem proporcionar: uma esperança sólida e fundamentada. Não se trata da esperança ingênua de que tudo se resolverá. No entanto, a expectativa que surge ao perceber que existe um caminho que não envolve vender sua alma em troca de um poder efêmero. Há uma maneira que envolve tornar-se a pessoa que permanece em pé enquanto tudo ao seu redor desmorona.
Este percurso é o da virtude. Não a virtude que é ensinada nas faculdades como uma ideia teórica. A virtude é o meio pelo qual a alma humana se alinha com a verdadeira realidade. É nesse momento que você percebe que uma garrafa possui uma qualidade, e essa qualidade representa um ponto em que o divino interage com o material. É nesse momento que você percebe que uma criança possui uma inocência que não é falta de discernimento, mas sim uma maneira de ser que precede a compreensão do que é bom e do que é mau, e essa maneira de ser é sagrada. É nesse momento que você percebe que um ato de coragem, compaixão ou honestidade não é apenas uma decisão mental, mas uma ação que ressoa em todo o universo, pois está em harmonia com a própria essência da realidade.
É isso que Santo Tomás se referia ao mencionar os anjos dos elementos. Não se trata de que cada objeto tenha um anjo que o governa de fora. Cada coisa possui uma origem que define seu ser, uma justificativa para sua existência na forma que tem, e essa origem é a participação em uma virtude atemporal. E ao se harmonizar com essa virtude, sintonizando sua alma à mesma frequência que ela, você não está apenas descobrindo um segredo. Você está se tornando apto a contribuir para a construção do mundo.
Portanto, a teologia do imaginário se concretiza: não se trata de você acreditar que Deus existe no universo. Você está cultivando o órgão de percepção capaz de enxergar de fato a presença de Deus. Você está desenvolvendo sua imaginação para que ela não crie ilusões, mas seja capaz de compreender a realidade. Não se trata de uma mística dissociativa. É percepção apurada. É transparência. É contemplar o mundo sem o manto de interpretações que o egoísmo impõe, percebendo o que realmente está presente.
Está isso ao alcance de qualquer pessoa? Em teoria, sim. Em resumo, isso depende de várias condições que não são miraculosas. Isso vai depender de você aceitar passar por um pequeno sofrimento. De sua disposição em encarar a realidade como ela é, em vez de como você gostaria que fosse. Estar disposto a optar pelo bem não devido aos resultados positivos que ele possa trazer, mas sim porque o bem é, por si só, algo bom. Isso é realmente difícil. É bem mais difícil do que simplesmente aceitar a facilidade oferecida por uma religião que afirma que Deus te ama exatamente do jeito que você é, sem a necessidade de mudanças, crescimento ou renúncia de si mesmo.
O protestantismo, em sua expressão atual, é essencialmente uma fé que proporciona isso: consolo. Dá a oportunidade de você estar correto sem precisar se alterar. Dá a oportunidade de você estar salvo sem precisar se sacrificar. Proporciona a oportunidade de se relacionar com Deus sem a necessidade de se tornar uma pessoa virtuosa. É por essa razão que ela se transforma tão rapidamente em gnose. Isso porque a gnose proporciona exatamente o que foi mencionado: poder, conhecimento e liberdade, tudo isso sem a necessidade de se tornar uma pessoa melhor.
Quando praticado com seriedade, o catolicismo proporciona exatamente o contrário: uma constante presença de desafios. Oferta incessante de morte. Pois, para que você alcance o que foi destinado a ser, é necessário renunciar àquilo que você atualmente é. Essa é uma dor que persiste durante toda a vida. A recompensa não consiste em conforto. A recompensa consiste em obter clareza e uma verdadeira alegria, que se distingue do simples conforto. A felicidade é o que surge quando estamos em harmonia com a verdade. Conforto é só não estar incomodado.
Isso nos leva de volta àquela questão sobre o herói. O herói não traz conforto. O herói está constantemente sendo convocado a ir mais longe, a abrir mão de algo, a sofrer uma perda, a enfrentar situações que poderiam levá-lo à morte, se não fosse pela sua capacidade de permanecer em pé no meio da morte. O verdadeiro herói é aquele que compreendeu que a verdadeira vida não se resume à ausência da morte, mas sim à experiência constante de morte e ressurreição. É por essa razão que o herói é a maneira pela qual Deus se torna mais evidente na imaginação humana. Não porque o protagonista seja sem falhas. O herói é aquele que optou por permanecer em pé quando a opção mais simples seria sucumbir.
É isso que distingue a teologia do imaginário de toda a mitologia gnóstica. A gnose apresenta histórias nas quais o protagonista é uma pessoa que obtém um conhecimento oculto e, a partir daí, consegue transcender. A teologia do imaginário traz histórias onde o herói é aquele que decide enfrentar a adversidade de cabeça erguida e, com isso, consegue superar seus limites. Uma história está oculta. A outra está aberta. Uma te promete uma solução. A outra te proporciona a chance de se sentir completo, mesmo sem uma solução.
Creio que esse seja o ponto que o protestantismo ainda não conseguiu compreender. Pois o protestantismo ainda busca uma solução. Continua à espera do Armageddon. Continua aguardando o retorno de Cristo como um acontecimento externo que solucionará todas as questões. Enquanto aguarda, proporciona conforto, segurança e a falsa impressão de que você já está lá. Não aponta o caminho, que é o que realmente vale.
Quando praticado de maneira adequada, o catolicismo apresenta o caminho. Dispõe das práticas, dos sacramentos, da comunidade, do testemunho dos santos, tudo isso que em conjunto constitui um caminho pelo qual a alma pode ser transformada. Não garanta que será simples. Faça a promessa de que você vai chegar. Pois promete o que pode ser comprovado: se você fizer isso, sua alma mudará. Ao receber o corpo de Cristo, você se tornará um pouco mais como Ele. Se você realizar um exame de consciência e confiar em suas vulnerabilidades, aprenderá a identificar seus erros. Se você se alegar em meio à dor de alguém que sofre, você se unirá ao sofrimento de Cristo, que é a maior realização que um ser humano pode alcançar.
Existe um aspecto que a maioria das pessoas que discute esses assuntos ignora intencionalmente ou sem ter consciência: o sacrifício exigido pela verdadeira vida cristã não é um sacrifício que diminui a sua essência. É um sacrifício que te faz crescer. Isso não representa uma redução. É uma morte que também representa uma nova vida. Quando você se entrega totalmente ao pé do altar, oferecendo a Deus tudo o que você é, isso não significa que Ele esteja exigindo um tributo de alguém que mereça mais. É por isso que você está dando o que é insignificante e temporário em troca do que é duradouro e eterno. É uma troca que favorece você de forma desigual. Sempre foi assim.
A gnose apresenta uma proposta totalmente contrária: ela promete que você se tornará mais forte ao aceitar Lúcifer, que adquirirá poder e que será introduzido a um conhecimento que não está disponível em nenhum outro lugar. Tudo é falsidade. O saber proporcionado pela gnose é um saber sobre como controlar energias que estão presentes em uma cosmologia fadada ao insucesso. É como se estivesse oferecendo poltronas aconchegantes em um barco que está se afundando. A única vantagem é sentir-se à vontade enquanto se afunda.
Retornando àquele ponto crucial que deve ser enfatizado: o protestantismo é uma edificação do pensamento que, fatalmente, leva à gnose. Não se trata de um percurso realizado por alguns protestantes. É a conclusão inevitável para qualquer protestante que reflita de forma séria. Isso ocorre porque o protestantismo aniquila a tradição, desmantela a autoridade do magistério e arrasa a base metafísica da ética. Ao eliminar esses elementos, restam apenas vazios que apenas a gnose é capaz de preencher. A gnose chega e afirma: agora, você compreende. Agora você compreende a razão pela qual não há um conceito de bem e mal que seja universal. Agora está claro por que o Deus a quem você orava se revela como um tirano. Você agora compreende que a verdadeira liberdade não se alcança pela virtude, mas sim pelo poder. Para muitos protestantes, isso representa um alívio imenso. Pelo menos agora faz sentido.
Um católico que cai na gnose do mesmo jeito é um católico que traiu algo que sabia. Porque a Igreja apresenta uma opção distinta. Apresenta um caminho que realmente funciona. Dispensa sacramentos que transformam a alma. Apresenta casos de santos que demonstram que é possível manter-se firme mesmo quando tudo ao redor desmorona. Um católico que opta pela gnose está, de forma consciente, rejeitando o que reconhece como verdadeiro em favor do que sabe ser falso. É uma traição deliberada. O protestante que se depara com a gnose está apenas percebendo para onde seu próprio sistema o conduzia desde o começo.
Agora, é essencial apresentar ao leitor uma questão que merece toda a clareza necessária: se você estiver inserido em um contexto protestante e se a cosmologia protestante fosse de fato verdadeira, seria o Quimbandeiro quem estaria correto em suas decisões? Sim. Sim, com certeza. Porque ele compreendeu a lógica da cosmologia e está se harmonizando com a verdadeira força que domina aquele universo. Então, qual é a questão?
O que ocorre é que a cosmologia protestante não reflete a verdade. Você consegue entender isso não através de uma revelação mística, nem por meio de uma iniciação secreta, ou pelo toque do Espírito Santo, mas sim pela razão. Através da inteligência. Ao observar o mundo, percebo que existe um princípio de ordem que não pode ser resultado do caos. Pelo fato de acreditar que a virtude é real e eficaz. Ao perceber que, quando você está em sintonia com a verdade, as coisas acontecem de maneira distinta em comparação a quando está alinhado com a mentira. Porque entende que a satisfação de estar certo não se compara ao alívio de se livrar da responsabilidade ética.
Este é o verdadeiro teste. Não se trata de um teste de teologia. Trata-se de um teste de realidade. Coloque um gnóstico verdadeiro e um verdadeiro santo lado a lado e veja o que acontece. Preste atenção às duas pessoas. Preste atenção na forma como elas reagem ao sofrimento. Veja como elas lidam com os impotentes. Preste atenção ao que essas duas pessoas fazem quando estão sozinhas. Veja qual delas consegue permanecer de pé quando tudo desmorona. Veja qual delas consegue se alegrar em um cenário sem solução. Veja qual delas é capaz de amar sem interesses envolvidos. Não se trata de filosofia abstrata. Isto é fenomenologia. Essa é a descrição do que realmente ocorre no mundo.
Aí você perceberá que o santo está agindo dentro de uma cosmologia que é eficaz. O que possibilita que essa pessoa esteja plenamente humana, de maneira integrada e autêntica. Que não a obriga a rejeitar nada do que ela sabe ser real. Que lhe proporciona um caminho que satisfaz tanto a lógica quanto a crença, tanto os sentimentos quanto a razão. Enquanto o gnóstico atua dentro de uma cosmologia que precisa da negação constante para funcionar. Força você a desconsiderar os indícios de que tudo isso é baseado em mentiras. Solicita a desvinculação.
A teologia do imaginário serve, portanto, como um método para identificar onde se encontra a verdade. A imaginação humana, quando é exercitada para perceber a realidade em vez de criar ilusões, é capaz de compreender o que é autêntico. Consegue visualizar um herói lendário e identificar nele algo que não foi criado, mas sim encontrado. Consegue observar uma criança e perceber nela uma maneira de ser que antecede a falsidade. Você consegue perceber um ato de sacrifício e encontrar nele algo que é mais genuíno do que qualquer palavra já foi.
Portanto, qualquer cosmologia que exija que você desconsidere ou recuse esses sinais não é verdadeira. O protestantismo impõe que você aceite a ideia de que Deus não concedeu livre-arbítrio a ninguém, que tudo foi predeterminado, e que a moralidade é subjetiva, variando conforme a interpretação de um antigo texto. A gnose exige que você aceite a ideia de que o mundo material é malvado, que o bem não passa de uma ilusão e que a verdadeira libertação consiste em acolher o seu oposto. Nenhuma dessas questões se sustenta quando você confronta com o que você realmente conhece.
O que você de fato conhece, caso esteja preparado para olhar com sinceridade, é que existe uma ordem no meio do caos. Que existe uma razão racional que rege a realidade. Que todos os seres têm uma maneira de existir que é própria deles, e quando estão alinhados com essa maneira, prosperam. Que a virtude existe, que é eficaz, e que está ao nosso alcance. Que o verdadeiro sacrifício tem o poder de transformar. O amor existe de verdade. Que o bem e o mal não são subjetivos. Há um propósito para o ser humano, e quando você o atinge, tem a certeza de que o fez, pois sua alma é envolvida por uma clareza que elimina qualquer incerteza.
Tudo isso pode ser alcançado por meio da teologia do imaginário. É possível confirmar tudo isso. Tudo isso pode ser observado de maneira sincera. O que não é alcançável é a fantasia. Não enquanto você estiver observando de verdade. É por essa razão que a verdade é simples, enquanto a mentira é complicada. A verdade apenas pede que você desperte sua visão. A falsidade requer que você aprenda um sistema elaborado, que envolve iniciações, conhecimentos ocultos, símbolos, nomes de anjos ou demônios, bem como diversos métodos e práticas. Quanto mais um sistema é elaborado e complexo, mais distante você se encontra da verdade.
O catolicismo, em sua essência, é igualmente direto: receba isto e consuma, pois isto é o meu corpo. Aime o Senhor seu Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo. Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste. Abandone a si mesmo e venha após mim. Está tudo simples. Todos compreendem. A intricada natureza do catolicismo reside, não em ocultar a verdade, mas em explorar todas as consequências do que é essencialmente simples. Em demonstrar como essa simplicidade se aplica a todos os aspectos. Mostrar a ligação da virtude com a metafísica, da metafísica com a ética, da ética com o fim do homem.
O protestantismo surgiu com a intenção de tornar isso mais simples. Iniciou afirmando que tudo que você necessita é da Bíblia e da fé. No entanto, ao longo do percurso, perdeu a Tradição que confere significado à Bíblia. Perdeu a autoridade que confere um critério à interpretação. Perdeu a metaf física que sustenta a ética. No final, resultou em textos que podem ter diversos significados, dependendo da interpretação de quem os lê. Isso depende de diversas circunstâncias, mas no final das contas, você não possui uma base sólida para sustentar isso. No fim das contas, você se depara com o caos de interpretações que caracteriza o protestantismo atual. Ao final, você se depara com pastores que promovem a prosperidade, enquanto outros pregam a pobreza; alguns que permitem o divórcio e outros que proíbem; alguns afirmam que o batismo é salvador, enquanto outros afirmam que não é. Inteiramente conforme a Bíblia. Protestantismo total. Tudo é verdade se você acreditar que é.
A gnose, então, se apresenta como um verdadeiro alívio. A gnose afirma: pronto, vocês estavam certos ao perceber que aquele livro não possui um significado unificado. Porque aquele livro é uma obra de um tirano. Porque a verdade não se encontra lá. A verdade se encontra em um outro lugar. Em saberes ocultos. Em manifestação direta. Em fase de início. Estar no comando. Para aqueles que se encontram aprisionados em um universo de interpretações que não fazem sentido, ouvir isso representa uma enorme libertação.
Entretanto, a realidade é distinta. A realidade é que a Bíblia adquire um significado coeso quando é lida à luz da Tradição, sob a autoridade da Igreja, e dentro do contexto teológico que foi transmitido juntamente com esse texto. A Bíblia é um livro que só pode ser entendido de forma correta se você tiver a chave que foi entregue com ele. A chave não é confidencial. Não se trata de uma cifra. É a tradição. É a docência. É a vida sacramental da Igreja. Qualquer pessoa pode acessar. Está em aberto. Todo batizado pode receber a Eucaristia. Todo cristão é capaz de viver as virtudes. Qualquer um, seja rico ou pobre, inteligente ou simples, pode se colocar de pé diante de Deus e afirmar: sim, eu creio, e esse credo não é irracional, não é cego, mas fundamentado.
Isso é extremo. Isso representa uma verdadeira revolução. Está proporcionando a todos o que a gnose oferece somente a um seleto grupo de iniciados: a oportunidade de compreender o universo de uma maneira que realmente funcione. De estar em consonância com a verdade. De maneira a evitar uma dissociação permanente. O catolicismo proporciona isso a qualquer pessoa. Justamente por não conter nenhum mistério. Pois tudo foi crucificado publicamente. Tudo foi oferecido na missa de maneira explícita. Pois qualquer um pode permanecer diante de um tabernáculo e compreender que a presença do divino está ali, não porque adquiriu um saber oculto, mas porque treinou seus olhos para perceber o que está presente naquele lugar.
Portanto, retornamos à Quimbanda. A Quimbanda acredita firmemente que existe um lado sombrio no mundo. A Quimbanda tem plena convicção de que existem forças que buscam poder e controle. A Quimbanda tem convicção de que certos anseios humanos só podem ser realizados por meio de um acordo com essas entidades. A Quimbanda acredita firmemente que tudo tem um preço. No entanto, a Quimbanda se engana ao pensar que este é o verdadeiro lado da realidade. Este é o lado que realmente detém o poder. Pois existe uma verdade ainda mais profunda, uma verdade que a maioria das pessoas não consegue perceber, pois está demasiadamente envolvida com os seus próprios anseios. Há uma face da realidade que só se mostra a quem consegue permanecer em pé, mesmo quando o que deseja não se concretiza. Que são capazes de amar mesmo quando esse amor não é correspondido. Que conseguem padecer com alegria porque têm consciência de que o padecimento está ligado a algo autêntico.
O Quimbandeiro poderia perceber isso se estivesse disposto a abrir mão do que a Quimbanda proporciona. O que a Quimbanda tem a oferecer é tão sedutor, tão direto e tão simples em termos de negociação, que é compreensível por que alguém não gostaria de abrir mão disso. É muito mais simples obter o que você deseja instantaneamente do que aguardar o que realmente é verdadeiro. Ter poder no presente, mesmo que custe caro no futuro, é mais atraente do que cultivar uma virtude que só trará benefícios em uma vida que talvez nunca vivamos plenamente.
É exatamente aí que reside o equívoco. A virtude também produz resultados imediatos. Mas o resultado é distinto. Não é o que você solicitou. É o que você verdadeiramente necessita. Ao ser honesto, o benefício instantâneo não é triunfar na vida, mas sim a tranquilidade de saber que você está em sintonia com a verdade. Quando você age com coragem, o que você ganha imediatamente não é a vitória, mas a dignidade de saber que fez o que era certo. Ao agir com compaixão, o que você recebe de imediato não é amor, mas a felicidade de saber que ajudou alguém a se sentir melhor. Os resultados são rápidos. Estão em reais. São capazes de provocar mudanças. Mas só são reconhecidos se você tiver cultivado uma percepção para o que é genuinamente bom.
É nesse ponto que a teologia do imaginário se reintroduz. Pois ela proporciona um meio de desenvolver essa sensibilidade. Apresenta exemplos de indivíduos, narrativas e circunstâncias nas quais a virtude se manifesta. Apresenta uma maneira de entender Deus não como uma ideia vaga, mas como uma presença ativa em todos os lugares onde a verdade é proclamada. Proporciona uma vida inteira de aprendizado, que é rico e não dogmático, além de ser libertador em vez de restritivo.
Isso é totalmente diferente do que a Quimbanda oferece. Contudo, a questão não é que a Quimbanda seja apenas maligna. O que acontece é que a Quimbanda está oferecendo algo de valor inferior a alguém que é capaz de aceitar algo muito mais significativo. É como dar uma moeda a quem merece um tesouro. A pessoa aceita a moeda pois não tem fé na existência do tesouro. Ou porque passou por uma experiência de vida que a fez acreditar que pessoas como ela não são recompensadas. Só dinheiro, só restos, só poder o bastante para causar um pouco de mal em troca de uma pequena vantagem.
Quando o protestante se depara com essa realidade, ele precisa tomar uma decisão. Ou ele admite que seu sistema de crenças é disfuncional e busca uma alternativa superior. Ou ele persiste em simular que está funcionando, enquanto consome uma dose crescente de anfetaminas espirituais para manter a crença. Ou ele segue o caminho lógico que seu sistema propõe e aceita a gnose. Qualquer que ele escolher das três opções, dependerá totalmente do seu caráter. Isso depende de sua coragem para encarar a verdade. Isso vai depender de sua disposição em suportar o que for necessário para alcançar algo verdadeiro. Isso depende de sua crença sobre o valor da verdade em comparação ao conforto.
A maior parte das pessoas não acredita. A maior parte das pessoas opta por permanecer dormindo, continuar imersa no sistema e continuar a fingir que tudo está funcionando, enquanto prosseguem com suas vidas. A maior parte é vítima. Não é responsabilidade deles terem nascido em uma religião que proporciona uma estrutura cosmológica ilusória. Mas chega um momento em que eles perceberão que aquilo não é real. Chegará um momento em que observarão alguém com os olhos abertos e sentirão uma pitada de inveja. Ou com raiva. Se aquela pessoa conseguiu se libertar e encontrar algo verdadeiro, isso implica que os outros também teriam essa capacidade, mas optaram por não fazê-lo. Reconhecer a escolha é sempre a parte mais desafiadora.
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