A LUA E AS JANELAS: A ETERNA CEPARAÇÃO VS ETERNA UNIÃO
Prólogo Em uma noite de primavera no Leste, dois amigos chegam à conclusão de que a questão mais arriscada não é se Deus existe, mas sim se é possível que existam mais de um. No meio das árvores e da tranquilidade do sobrado, a amizade se dispõe a suportar o fardo da verdade. O que vem a seguir não é uma conquista; é um luto.
Gabriel G. Oliveira
7/22/202639 min ler


A QUESTÃO DE SABER SE OS VÁRIOS NOMES DO SAGRADO SE REFERE A DIVERSOS DEUSES OU A UM SOMENTE PRINCÍPIO
Começou, assim como quase tudo que é significativo, de maneira aleatória. Gabriel havia colocado duas cadeiras na parte inferior do terreno, onde a grama dá lugar às árvores, e o sobrado se ergue, escuro e imponente, como uma testemunha que prefere não intervir. Existia uma garrafa sobre a mesa de madeira, acompanhada do zumbido dos insetos, enquanto o vento soprava entre as folhas de maneira tão irregular que nos levava ao silêncio, sem entender o motivo. Geovane estava com os olhos voltados para o céu. A lua se encontrava quase cheia.
Geovane: Olha só isso, Gabriel. Esta mesma lua está sendo contemplada neste instante por um monge no Tibete, por um pajé nas proximidades, por um imã em Istambul, por você que é católico e por mim. Cada pessoa a chama de uma forma distinta e cada um tem sua própria maneira de rezar. É a mesma lua. Acredito que seja da mesma forma com Deus. Várias janelas, uma única luz.
Gabriel levou um tempo para responder. Não por falta de resposta, mas porque a imagem era boa, e ele costumava não prejudicar as boas imagens.
Gabriel: Isso é realmente belo, Geo. E eu não vou disfarçar que isso é trivial, pois definitivamente não é. Há uma verdade que preciso admitir antes de tudo: há uma inquietação no ser humano que transcende todas as culturas, um assombro compartilhado em relação ao céu, uma mesma ânsia. É verdade. A própria Igreja admite isso na Declaração Nostra Aetate, segundo parágrafo, promulgada por Paulo VI em 28 de outubro de 1965, quando afirma que "a Igreja Católica nada rejeita daquilo que é verdadeiro e santo nessas religiões" e que elas "não raramente refletem um raio daquela Verdade que ilumina todos os homens". Então, mantenha essa metáfora por um momento, pois eu gostaria de analisá-la com você em vez de descartá-la. Entender uma metáfora não é o mesmo que aceitá-la. Permita-me fazer uma pergunta simples: como você pode ter certeza de que é a mesma lua?
Geovane: Por que todos estão olhando para cima, para o mesmo ponto no céu.
Gabriel: Entendido. Você tem a certeza de que é a mesma lua porque pode sair pela sua janela, ir até a casa do imã, olhar pela janela dele e fazer uma comparação. Há um local fora das janelas de onde é possível verificar. Então me explique: em relação a Deus, quem foi que saiu de todas as janelas simultaneamente para verificar se é realmente o mesmo lá em cima? Quando você afirma que "é a mesma luz", será que não está observando a partir de mais uma janela? A sua janela é aquela que sustenta que todas as janelas levam ao mesmo pátio. Isso é uma tese, Geo, não é uma vista.
É importante interromper a conversa neste ponto e explicar com mais calma o que estava em disputa naquela primeira interação, pois toda a noite dependia disso. A dissertação de Geovane possui um nome, ou, para ser mais preciso, uma família de nomes: perennialismo, a noção de uma sabedoria atemporal que permeia todas as tradições; e, em sua versão moderna e estruturada, a Teosofia, cuja máxima oficial — "não há religião superior à verdade" — foi adotada pela Sociedade Teosófica no final de dezembro de 1880, inspirada na máxima do Marajá de Benares, "Satyāt nāsti paro dharmaḥ", uma expressão alterada do Mahabharata. A ideia persistente da tradição, apresentada por Helena Blavatsky na introdução de A Doutrina Secreta, de 1888, é que a filosofia esotérica "reconcilia todas as religiões, despe cada uma das suas vestes exteriores e humanas, e mostra que a raiz de cada uma é idêntica à de todas as outras grandes religiões". É necessário, por questão de honestidade, diferenciar isso de várias outras coisas com as quais frequentemente se confunde. O perennialismo não se trata do politeísmo vulgar encontrado nas mitologias, onde o mundo era habitado por deuses ciumentos e adúlteros. Não se trata de henoteísmo, que venera uma divindade sem rejeitar as demais. Não se trata da adoração exclusiva a um único deus, como em determinados períodos da história de Israel. Não se trata do panteísmo, que une Deus e o mundo, nem do panenteísmo, que insere o mundo em Deus, tampouco do emanacionismo neoplatônico, do animismo ou do culto aos antepassados. Esta é uma tese de nível secundário: uma alegação a respeito das religiões que sugere que suas distinções são superficiais, enquanto sua essência é profunda. E foi precisamente em oposição à aparente solidez dessa teoria que Gabriel se apoiou.
Gabriel: Vou te fazer uma proposta. Vamos distinguir entre aquilo que você realmente respeita e o que apenas imagina que respeita. Eu te respeito — isso é uma coisa. Eu posso admitir que há verdade no que você afirma — isso é um ponto diferente. Acredito que você tem pleno direito de acreditar em suas convicções, sem que ninguém te imponha nada — isso é uma terceira. E eu gostaria de ter uma conversa sincera com você — isso é uma quarta. Nenhuma das quatro coisas me obriga à quinta, a saber, a afirmar que o que você diz é verdadeiro. Há uma citação que venho refletindo há bastante tempo: a caridade exige que eu respeite o homem que fala; a verdade exige que eu examine se aquilo que ele fala pode realmente ser verdadeiro. Se eu combinar os dois, eu deixo de te respeitar de verdade, pois respeitar você implica em levá-lo a sério o bastante para ter uma opinião divergente.
Geovane sorriu, agitava o copo, e o gelo produziu um som sutil.
Geovane: Você está me afirmando que me contrabalançar é uma maneira de demonstrar respeito por mim.
Gabriel: Estou afirmando que afirmar que "tanto faz, é tudo igual" pode ser a maior falta de respeito de todas. Pois é rejeitar ouvir o que a sua tradição realmente declara. Levo o budismo tão a sério que estou disposto a reconhecer que ele pode, em aspectos cruciais, entrar em conflito com o cristianismo. Para preservar a harmonia, o perennialista deve afirmar que essas contradições são meramente superficiais. Mas quem tomou essa decisão? Ele mesmo. Ele impôs um novo dogma, discreto: o dogma da equivalência fundamental. Então, ele trata sua religião e a minha da mesma forma que critica os dogmáticos: estabelece antecipadamente o que é fundamental em cada uma e o que pode ser ignorado.
O vento soprou mais forte por um momento e, em seguida, cessou completamente, e nesse silêncio repentino, a conversa elevou-se, como quando um chão de terra se transforma em uma ladeira de repente. Geovane recuou para o ponto mais sólido de sua defesa, e é preciso dar o crédito a ele, pois fez isso de maneira competente, sem recorrer a clichês.
Geovane: Veja, eu não sou um teósofo de carteirinha, e não concordo com tudo o que a Blavatsky escreveu. Deixe-me expressar minha própria opinião. Eu trago uma sensibilidade budista, contemporânea, equilibrada com a intuição de que as diversas tradições se complementam. O que eu posso te afirmar é que, possivelmente, o equívoco reside anteriormente na insistência em "fundamento absoluto do ser". É possível que essa procura por uma substância imutável, por um Único que sustente tudo, seja, por si só, uma manifestação de apego — um apego de natureza metafísica, o receio de que, na ausência de uma base eterna, tudo venha a ruir. O budismo me proporcionou uma nova perspectiva: enxergar a realidade como uma originação dependente, onde tudo aparece em decorrência de condições, é impermanente e carece de uma existência intrínseca. Não preciso de um criador para esclarecer isso. Certamente, os deuses e os devas fazem parte das cosmologias budistas, mas são entidades condicionadas, imersas no mesmo fluxo, e não representam fundamentos. No final, o que realmente importa para mim não é entender a metafísica, mas sim a compaixão e a libertação do sofrimento. A vivência contemplativa comunica mais a mim do que qualquer doutrina.
Gabriel permaneceu em silêncio por um tempo. Depois falou de forma mais pausada, como se estivesse caminhando cuidadosamente em um lugar que aprecia.
Gabriel: Você agiu corretamente, Geo, ao me impedir de cometer um erro. Eu pretendia apresentar a você uma série de argumentos que foram utilizados contra o politeísmo — ou seja, contra a concepção de múltiplos deuses supremos. E você não está promovendo isso. Isso é relevante e eu desejo ser sincero: as objeções a muitos deuses supremos não desmentem o budismo, uma vez que a maior parte do budismo não sustenta a crença em vários criadores supremos. Você não está substituindo um deus por dez. Você está afirmando que a busca pelo fundamento é uma indagação mal formulada. Portanto, essa não é a nossa disputa. A nossa disputa é diferente e mais profunda. A questão é a seguinte: há ou não um fundamento último para a existência? A dependência de originação é a razão pela qual existe algo em vez de nada, ou ela apenas descreve as interações entre as coisas que já existem?
Geovane: Você acredita que ela não dá explicações.
Gabriel: Na minha opinião, ela retrata isso de forma excepcional. Quando você afirma que "isto surge em dependência daquilo, e aquilo de um terceiro", você me apresentou uma sequência. Uma bela corrente, genuína e autêntica, até onde meus olhos podem alcançar. Uma série de entidades que recebem a existência não me esclarece a origem do ser que está sendo transmitido. É como se eu questionasse "por que essa lâmpada está acesa?" e você me perguntasse "porque está ligada naquela, que está ligada naquela outra". Excelente. Contudo, em determinado momento, eu necessito de uma tomada que não esteja, por sua vez, pendurada em outra. Não se trata da primeira lâmpada mais antiga da fila — isso seria apenas mais um elo. Uma fonte que gera sua própria corrente. Filósofos cristãos se referiram a isso como ipsum esse subsistens, que significa o ato de existir que subsiste por si só. Tomás de Aquino afirmava que, nas criaturas, a essência e a existência são distintas — o que uma coisa é e o fato de ela ser — e que apenas em Deus elas se encontram: a essência de Deus é existir. O restante existe de forma temporária.
Aqui a conversa levou ao que seria o ponto central da noite, e é importante apresentar, com a devida atenção que o assunto merece, a sequência de argumentos que Gabriel foi apresentando ao longo das horas — não de forma abrupta, mas gradualmente, entre goles e momentos de silêncio, recuando quando Geovane pressionava, reformulando quando percebia que havia avançado muito rapidamente.
O primeiro é o argumento da simplicidade de Deus, que é muito antigo e foi elaborado de forma clássica por Tomás de Aquino, na primeira parte da Suma Teológica, onde ele discute a simplicidade divina na terceira questão e, ao concluir sobre a unidade, na décima primeira questão, no terceiro artigo. Aliás, Tomás de Aquino defende que, em sua essência, Deus é simples. Deus é aquilo que Ele é e, portanto, a maneira pela qual Ele é Deus é idêntica à maneira pela qual Ele é este Deus específico. Consequentemente, não é possível que haja múltiplos deuses. A concepção é a seguinte: um ser que é absolutamente primordial não pode ser constituído, uma vez que todo ser constituído depende de suas partes e ocorre posteriormente a elas. Por sua natureza, o ser que é primeiro não pode ter dependências nem surgir após qualquer outra coisa. Portanto, caso existissem dois deuses supremos, seria necessário que eles se diferenciassem de alguma forma; caso contrário, seriam idênticos. A introdução da composição é o que os diferencia: neles coexistiria a natureza divina comum e a individualidade que os distingue, mas um ser assim, formado pelo que é comum e pelo que é próprio, deixa de ser simples e já não é o primeiro.
Geovane: Aguarde. Por que não é possível haver múltiplos seres simples que não compartilhem uma natureza comum entre eles? Cada um simples de sua maneira, sem nada que precise ser compartilhado?
Gabriel: Tudo certo. Esta é precisamente a objeção que não pode ser desconsiderada. Se não houver nada que os una, então nada neles possui a característica de "divindade" no mesmo sentido — e, nesse caso, não se pode falar em dois deuses, mas sim em duas entidades que você decidiu chamar pelo mesmo nome. Se houver alguma semelhança entre eles — no que diz respeito a serem a base, o infinito e a origem do ser — então esse "em comum" está neles, e a distinção que os separa representa um acréscimo, onde está a simplicidade? Ou eles são distintos, e nesse caso, são formados por elementos comuns e diferentes; ou eles não apresentam nenhuma distinção, e, nesse caso, são considerados um único ente. A mera diferenciação relacional, desprovida de qualquer conteúdo, não distingue dois absolutos: ela apenas separa dois rótulos.
O segundo argumento é apresentado por Tomás de maneira quase cirúrgica, e Gabriel apreciava esse aspecto, pois não se baseia em nenhuma teoria física antiga. É o raciocínio da plena perfeição. Como afirma a Suma, no artigo terceiro da questão onze: "Se existissem muitos deuses, eles necessariamente difeririam entre si. Algo, assim, seria de um que não seria de outro. Se isso fosse uma forma de privação, um deles não poderia ser considerado absolutamente perfeito; no entanto, se fosse uma forma de perfeição, o outro estaria em falta. Portanto, não é possível que existam vários deuses." É de uma clareza impressionante: dois seres que são ilimitados não podem se diferenciar por meio de perfeições distintas, pois isso significaria que cada um deles dependeria da perfeição do outro, o que resultaria na falta de uma das características que os tornaria ilimitados. Plenitude sem carência é, por essência, uma só.
Gabriel: E neste ponto, Geo, é onde acredito que está a chave para a confusão, ou melhor, onde reside o verdadeiro problema. Estamos tão habituados a ver coisas que se multiplicam que consideramos a multiplicação como algo normal. Dois cães, três poltronas, mil constelações. Atenção: O que faz com que dois cães sejam diferentes um do outro? Porque são fragmentos distintos de matéria. É a substância que distingue este cachorro daquele, mesmo que ambos compartilhem a mesma essência canina. Retire a substância da jogada e a multiplicação deixa de ter impulso. De acordo com São Tomás, os anjos não se reproduzem dentro da mesma espécie, pois cada um deles é considerado uma espécie única. Agora visualize o ser cuja natureza é o existir ilimitado em sua plenitude. O que tornaria um diferente do outro? Não se trata de ter, porque ele não possui. Não existe posição no espaço, pois ele não ocupa um lugar. Não se trata de um acidente, mas sim de um atributo adicional, pois não há espaço para adições nele. Não a medida de perfeição, pois ambos seriam eternamente infinitos. Não se trata de uma espécie comum aumentada em número de indivíduos, pois não existe matéria suficiente para individualizar. O que sobrou que dá pra fazer dois? Absolutamente nada. E "nada" não faz dois.
Esse é, essencialmente, o ponto central da individuação, que Gabriel apontava como o mais desafiador para aqueles que desejam defender a existência de múltiplos absolutos: afinal, o que diferenciaria o Deus A do Deus B? Toda a vivência humana da pluralidade repousa sobre princípios de individuação — matéria, tempo, espaço, qualidade — e nenhum desses princípios se aplica ao que é ilimitado e unificado. Sem um verdadeiro princípio de individuação, afirmar que "há vários" torna-se uma frase vazia de significado, assim como solicitar que dois números idênticos a três sejam, apesar de tudo, dois.
Geovane, no entanto, não estava preparado para ceder tão rapidamente e alterou a abordagem, algo que caracteriza um bom conversador.
Geovane: Todo esse raciocínio parte do princípio da existência desse "ser cuja essência é existir". Você está me demonstrando que, caso haja um fundamento absoluto, ele é singular. Eu aceito a coerência interna. No entanto, eu tenho a opção de rejeitar a premissa. Posso afirmar com certeza: não existe nenhum fundamento que seja completamente absoluto. Existem apenas uma série de condições, sem uma conclusão definitiva. A sua gramática pode exigir que uma tomada "tem corrente por si", mas não é assim que as coisas funcionam na realidade. Quem sabe a realidade não tenha nenhuma obrigação de satisfazer sua demanda por uma explicação definitiva.
Gabriel: Esta é, de fato, a jogada mais importante da noite, Geo, eu admito. Você não está dizendo que, caso exista justificativa, ele não é um. Você está afirmando que não é necessário haver fundamento. É honesto e é poderoso. Não vou afirmar que encontrei evidências em contrário da mesma forma que se comprova uma conta de padaria. Deixe-me esclarecer algo que me irrita quando um cristão menciona: quando Tomás apresenta as cinco vias, isso não se trata de uma prova matemática que resolve a questão de forma definitiva e desmoraliza quem discorda. É uma jornada fundamentada na lógica, que revela a direção para a qual a inteligência é impulsionada quando persiste em fazer perguntas. O que quero dizer é o seguinte: a sua rejeição da explicação final tem suas consequências. Ela te força a afirmar que o mais elementar dos fatos — o fato de que existe algo em vez de nada — é um fato bruto, sem explicação, absolutamente opaco. Você é capaz de arcar com esse custo. Observe que, nesse caso, não é a metafísica que se sobrepõe ao seu budismo; na verdade, você substituiu a pergunta "por que há ser?" por "vamos parar de perguntar isso". Eu não consigo parar. Para mim, chegar a esse ponto é como estar diante de uma casa completa e, por algum tipo de decreto, afirmar que ninguém a construiu e que não há razão para questionar a origem do tijolo.
Aproximadamente nesse período, Geovane conseguiu devolver a lua, e a metáfora, que parecia ter sido esquecida, revelou que ainda possuía combustível.
Geovane: Mas retorne à minha lua. Ainda que eu reconheça a singularidade de sua base, persiste em mim uma intuição profunda: todas as religiões se voltam para esse fundamento, cada uma através de sua própria perspectiva. Você não acabou de confirmar o que eu disse? Se existe apenas uma base, então todos nós estamos direcionando nosso olhar para ela.
Gabriel: Contudo, agora a metáfora se voltou contra você, e é aqui que eu preciso ser cuidadoso. Observe o que ocorreu. Uma de suas janelas — o budismo clássico — afirma que, no fundo, não existe nenhuma pessoa, e que a noção de um Eu absoluto é uma ilusão. Outra perspectiva — a minha — indica que a base é pessoal, que se trata de uma Pessoa que ama, que se comunica e que escolhe um nome para si mesma. Uma janela afirma que a lua foi responsável por criar a casa. Outra afirma que tanto a casa quanto a lua são manifestações condicionadas e, assim como essas, desprovidas de conteúdo. Agora, essas duas afirmações não podem ser verdadeiras simultaneamente no mesmo contexto. Ou a base é individual ou não é. Ou existe criação livre, ou existe emanação que é necessária, ou então não há nenhuma origem. Ou a alma é uma substância ou é um fluxo sem sujeito. Ao afirmar que "é tudo a mesma lua", você está, sem perceber, escolhendo uma das janelas — a que diz que a personalidade, a criação, a história são todas decoração cultural em cima de um fundo impessoal. Você não está superior às religiões. Você ocupa uma posição bastante particular, que é a de eliminar as divergências. Eliminar as distinções é uma dissertação que se refere à lua, mas não à própria lua.
Este é o que poderíamos denominar como o argumento da verdade única, e não se trata de uma mera figura de linguagem: proposições que se contradizem não podem ser verdadeiras simultaneamente sob o mesmo aspecto. Duas pessoas podem vivenciar experiências psicológicas semelhantes — compartilhando o mesmo silêncio interno, a mesma dissolução do ego e a mesma paz expansiva — e, ainda assim, interpretá-las de maneiras que são totalmente divergentes. A experiência que se sobrepõe não assegura que os objetos sejam os mesmos. Nesse ponto, Gabriel apresentou uma diferenciação que lhe era muito valiosa, a qual ele expunha de maneira clara como uma síntese de suas próprias ideias, e não como uma doutrina de qualquer Igreja ou de algum pensador do passado — o argumento baseado na experiência e na forma como ela é interpretada.
Gabriel: Vou fazer uma proposta a você, Geo, que é inteiramente minha, e quero enfatizar que é minha, sem atribuí-la a Santo Tomás ou ao Concílio. Eu me refiro a isso como o dilema entre a experiência e a interpretação. Uma vivência de união, de tranquilidade, de falta de ego — isso realmente existe, tenho certeza de que você a experimentou, e pode ser genuíno. Entretanto, ela não chega acompanhada de uma etiqueta metafísica colada. Ela não te diz, por si mesma, "o fundamento é impessoal" ou "o fundamento é pessoal". A interpretação é um segundo momento, e nesse segundo momento entram pressupostos, tradição, linguagem. Então eu posso reconhecer a sua experiência como verdadeira e ainda assim discordar da sua interpretação dela. As duas coisas não são a mesma coisa. Quando o perennialismo diz "as místicas de todas as tradições apontam pro mesmo", ele está tratando a interpretação como se fosse a experiência crua. E não é.
Geovane: Porém, você também age da mesma forma, Gabriel. Você vê sua vivência sob a perspectiva do catolicismo.
Gabriel: Sim, eu faço. É por essa razão que não posso apresentar a minha interpretação como se fosse evidente e imparcial. A distinção é que eu reconheço que estou atuando. O perennialismo surge como se não estivesse — como se fosse a perspectiva exterior de todas as janelas, quando na verdade é apenas mais uma janela. Tudo o que te peço é que reconheça que a sua argumentação sobre a unidade é uma crença, assim como a minha. A partir desse ponto, poderemos nos tratar como iguais.
Existiam mais razões, e a noite era extensa. Gabriel apreciava um que surgia da mais simples e comum observação do mundo, e que, na verdade, remonta a Aristóteles e, posteriormente, a Platão. É a justificativa relacionada à harmonia do universo. Todas as coisas do mundo estão interligadas: elas ajudam umas às outras, se ajustam, trabalham juntas como um todo. Agora, Tomás seguia o Estagirita, afirmando que coisas diferentes não podem se unir em uma mesma ordem a menos que algo as organize, pois muitos alcançam a unidade apenas por acaso, enquanto o um a alcança por si só. Gabriel utilizava a analogia da orquestra.
Gabriel: Imagine uma orquestra, Geo. Cem músicos, cem instrumentos distintos, cada um com sua própria função. E sai som, não ruído. Por que razão? Pois existe uma partitura, uma tonalidade, um regente e um objetivo compartilhado. Agora, se você me afirmar que os deuses se assemelham aos músicos — cada um responsável por uma parte, como o do mar, o da guerra e o do amor — então eu lhe pergunto: e a partitura? Quem foi o autor da tonalidade que todos tocam? Se os deuses são elementos de uma ordem, então essa ordem é anterior a eles, e é a ordem que possui a qualidade divina, e não os próprios deuses. O deus do mar e o deus da guerra — eles são servidores públicos dentro de uma repartição. O funcionário não é o proprietário da empresa. Eu me refiro a isso, para meu próprio entendimento, como o argumento do deus regional: aquele que governa exclusivamente o mar ou a guerra desempenha um papel dentro de uma estrutura maior, e não pode ser considerado a causa final da própria ordem que o abriga.
Geovane: A menos que a ordem venha da interação deles mesmos, sem uma supervisão externa. Tal como um ecossistema. Ninguém governa a floresta, e ela encontra seu equilíbrio.
Gabriel: Uma objeção belíssima, e eu preciso tratá-la com seriedade, pois é o que há de melhor a ser argumentado. Observe que, para que a floresta encontre seu equilíbrio, já é necessário que existam leis — sejam elas da química, da física ou da biologia — que os seres vivos não criaram, mas que seguem. Para que haja equilíbrio, é necessário que exista uma legalidade prévia. Você fez o maestro recuar para os limites estabelecidos do jogo, mas não o removeu; apenas alterou o seu nome. Atualmente, ele é conhecido como "as leis segundo as quais tudo se harmoniza". Assim, eu lhe questiono mais uma vez, com a máxima gentileza: qual é a origem dessas leis? Por que o ser segue uma lógica em vez de ser apenas desordem? Uma ordem compreensível requer uma inteligência que a unifique. Nem como um relojoeiro que dá corda e se retira — isso caracterizaria novamente um deus regional, o deus-relojoeiro. Assim como aquilo que sustenta a própria compreensão.
A partir daí, Gabriel passou a apresentar dois argumentos que ele julgava fundamentais para refutar a ideia de várias soberanias divinas. Primeiro, há o argumento da soberania. Visualize duas vontades que são completamente dominantes. Ou uma domina a outra em algum momento — e então a que se submete não é onipotente, nem absoluta. Ou nenhuma prevalece, e ambas são limitadas uma pela outra. Ou elas sempre concordam — mas então essa unanimidade perfeita e inevitável exige uma explicação: por que nunca divergem? Se for o acaso, isso é muito frágil para estabelecer um cosmos; se for por uma lei que ambas seguem, essa lei é mais elevada do que elas; se for porque elas compartilham uma mesma natureza que as leva a desejar o mesmo, então existe algo mais primordial do que as duas, que é essa única natureza. Uma pluralidade de soberanos, de qualquer modo, remete a uma unidade que os precede. Não é surpreendente que, ao concluir o décimo segundo livro da Metafísica, Aristóteles, após reconhecer a existência de múltiplos motores celestes, retorne à ideia de uma única entidade, citando a Ilíada: "O governo de muitos não é bom; que haja um só senhor."
Gabriel: Existe uma variação desse conceito que eu costumo chamar, em minha perspectiva, de argumento do conselho divino. Imagine que os deuses se encontram em um conselho para determinar o futuro do mundo, assim como nas mitologias. De que maneira eles tomam decisões? Com a maioria? Assim, os deuses que foram derrotados não são considerados soberanos, pois foram minoria em uma votação e agora obedecem mesmo contra sua própria vontade. Unanimidade obrigatória? A necessidade de chegarem a um acordo é mais essencial do que cada um deles individualmente, e é essa necessidade que prevalece. Sem nenhum tipo de acordo? Portanto, o universo seria uma batalha, e não uma organização, e não perceberíamos a regularidade que observamos. Em qualquer situação, o conselho é efetivo apenas na medida em que existe uma unidade prévia que ele não estabeleceu.
Além disso, seu irmão gêmeo, Gabriel, também o identificava como uma criação sua: o argumento da fronteira divina.
Gabriel: Cada limite estabelecido entre duas entidades divinas requer uma base sólida, Geo. Imagine uma fronteira que separa o domínio de um deus do de outro. De onde surge essa linha? Se a fronteira é essencial — se cada deus é, por natureza, apenas até aquele ponto — então cada um é, por natureza, restrito, e um deus que é restrito por natureza não é absoluto, é grandioso, mas finito. Se a fronteira é estabelecida externamente, isso implica que há algo acima dos dois que a definiu, e esse algo é, de fato, o que se considera superior. Se a delimitação é consensual entre eles, ela se torna vulnerável, passível de ser quebrada a qualquer instante, e a estabilidade do mundo dependeria de um acordo que poderia ser anulado a qualquer momento. Se a fronteira é apenas uma ilusão — se, na essência, não existe uma separação verdadeira — então não existem múltiplos, mas sim um único. Constitutiva, compulsória, opcional ou fictícia: em três situações, os deuses não são considerados absolutos, e no quarto caso, eles não são numerosos.
Geovane ouviu tudo isso atentamente e não deu uma resposta imediata. Levantou-se, andou alguns passos em direção às árvores, onde a escuridão era mais profunda, e falou de costas, o que conferiu à sua voz um timbre peculiar, como se estivesse dialogando também com a noite.
Geovane: Sabe o que mais me irrita em toda essa situação? Não se trata da lógica. A lógica que você apresenta eu entendo, e em muitos aspectos eu até concordo. O que me irrita é a impressão de que você está triunfando em uma debate sobre divindades que eu não apoio, apenas para depois me exigir uma responsabilidade que não me pertence. Jamais afirmei que há vários absolutos em conflito. Você destruiu o Olimpo, parabéns. Contudo, não resido no Olimpo.
Gabriel se aproximou dele. Ficou em silêncio por um tempo. As folhas balançaram.
Gabriel: Você está certo, e eu fico te devendo essa. Permita-me organizar os pontos de maneira sincera, pois caso contrário, correrei o risco de me tornar precisamente a pessoa que eu desejo evitar, aquela que argumenta de forma a desviar do verdadeiro foco e acaba sobrepondo o oponente com questões que não estão relacionadas a ele. Tudo o que mencionei até aqui — simplicidade, perfeição, soberania, fronteira, conselho, individuação — está direcionado à noção de vários deuses que seriam totalmente autônomos. A intenção aqui é atacar o politeísmo filosófico, ou seja, a noção de que existem múltiplos fundamentos últimos. E isso, eu afirmo, não consegue se manter de forma estável. Você está absolutamente correto: isso não afeta o cerne do budismo, uma vez que o budismo tradicional não atribui a vários criadores absolutos o controle sobre as coisas. O seu desafio é diferente, e tem um toque mais refinado: você argumenta que questionar a razão de ser é um sinal de apego. Então me permita ir até o seu território e parar de lutar contra sombras.
E foi nesse ponto que a conversa se direcionou, tornando-se mais pausada e cautelosa, pois ambos estavam cientes de que nenhuma das partes teria uma vitória fácil, e isso era algo que ambos reconheciam.
Gabriel: O que estou percebendo em sua tese, se eu não estiver enganado, é que a vacuidade — sunyata — implica que nada possui uma existência independente ou intrínseca, que tudo é desprovido de uma essência autônoma. Nagarjuna conecta isso à originação dependente: as coisas são consideradas vazias exatamente porque aparecem de forma dependente. Entendido Agora, minha pergunta é, ao mesmo tempo, a mais simples e a mais desafiadora: esse vazio é a ausência de existência intrínseca das coisas — isto é, uma teoria sobre como as coisas existem, sempre em relação umas com as outras e nunca isoladamente — ou é a afirmação de que, em última análise, não existe absolutamente nenhuma existência? Isso porque essas duas coisas são bastante distintas. Na primeira afirmação, chego a concordar contigo em certa medida: nenhuma criatura existe por si só; todas são interdependentes e relacionais. O cristão expressa precisamente essa ideia ao afirmar que a criatura é contingente. Na segunda-feira, nos deparamos de forma direta, pois você está fazendo uma afirmação ontológica gigante — "não há fundamento" — vestida de negação modesta.
Geovane: Pode ser que ela não seja nem uma nem outra. Quem sabe a vacuidade seja precisamente a negação de responder a essa questão conforme os teus parâmetros. Você deseja que eu afirme "há ser" ou "não há ser", e o budismo me ensina a desconfiar dessa própria dicotomia. O conceito de nirvana, por exemplo. Você vai me questionar se se trata de uma cessação, de uma realidade incondicionada ou do nada. A resposta mais precisa é que ele não se encaixa adequadamente em nenhuma dessas categorias.
Gabriel: E veja só, Geo — nesse aspecto, você e a minha tradição estão mais alinhados do que aparentam, e eu não vou omitir isso para simular uma vitória. Ao se referir a Deus, Dionísio, o Areopagita, afirma que Deus não é "ser" no sentido em que as coisas são, que ele está "além do ser", hyperousios, e que devemos afastar de sua natureza até mesmo as afirmações, pois, no final, a linguagem se silencia. Ao iniciar a exposição da fé, João Damasceno afirma que a divindade é "inefável e incompreensível". Portanto, essa sua desconfiança em relação às gavetas, essa relutância em classificar o último em uma categoria — isso não me é desconhecido. A grande distinção, que não pode ser ignorada, reside no fato de que a minha tradição é capaz de cultivar esse silêncio em reverência a Alguém, enquanto a tua, por outro lado, mantém esse mesmo silêncio diante de um estado ou de uma condição que não possui rosto ou identidade. Fico em silêncio diante de um Tu. Você se silencia diante de um certo algo. Então, não podemos agir como se estivéssemos mergulhados no mesmo silêncio.
Gabriel percebeu que a abordagem negativa do cristianismo — a de Dionísio, aquela dos Padres gregos — e a apofática do budismo têm, de fato, um parentesco formal: as duas duvidam que a linguagem consiga abranger o último. Ele enfatizou uma distinção que considerava essencial e não negociável: a apófase cristã refere-se ao silêncio diante de uma Pessoa infinita, cuja plenitude vai além das palavras, e não ao silêncio em relação a uma falta de fundamento pessoal. Rejeitar a ideia de que Deus é "bom" no sentido em que uma sopa é boa não implica afirmar que Ele não seja bom; ao contrário, é afirmar que Ele é bom de uma maneira que vai além do significado da palavra.
Geovane resistiu, e foi acertado em sua decisão, pois ainda possuía uma carta que muitos consideram a mais poderosa de todas, e ele a utilizou sem criar alarde.
Geovane: Esqueça a metafísica por um momento. Deixe-me revelar a você o que realmente me orienta. Não se trata da convicção a respeito do fundamento. É o sentimento de compaixão. Tenho mais fé na compaixão do que em qualquer evidência. Perante a dor de um ser vivo, eu sei como agir, e não é preciso entender a questão do ser necessário para ter essa clareza. Não acha que passamos tempo demais discutindo isso, quando o que realmente faz a diferença é a bondade em ação?
Gabriel se sentou novamente. Ele esfregou o rosto. E ele respondeu de uma maneira que não era apenas uma resposta, mas também uma forma de questionamento.
Gabriel: Eu realmente adoro isso em você, Geo, e não estou exagerando. A compaixão é autêntica e imediata, e, de certa forma, é mais significativa do que toda a nossa discussão. Mas permita-me fazer-lhe uma pequena pergunta, sem qualquer malícia: por que a compaixão é superior à crueldade? Não da maneira que você percebe — eu sei que você acredita que é. Mas qual é a razão, de fato, na realidade das coisas? Se, em essência, tudo se resume a um fluxo determinado, sem um sujeito, sem uma base, sem um propósito — qual é a origem da autoridade daquele "melhor? Note que há uma questão muito antiga aqui. Não o Eutífron, Sócrates conseguiu levar à questão um indivíduo que afirmava que o piedoso é aquele que é amado pelos deuses. E Sócrates inquiriu: é piedoso porque os deuses o amam, ou os deuses o amam porque é piedoso? Se um bem é considerado tal apenas porque é desejado por uma vontade, então ele é fruto da arbitrariedade — seria suficiente que essa vontade se alterasse. Se a vontade deseja algo porque ele é bom, então o bem precede a vontade. Se os deuses têm opiniões divergentes sobre o que é considerado bom, assim como acontecia nas narrativas da Grécia Antiga, então a vontade divina não pode servir como a base do bem, uma vez que se torna uma fonte de contradição. Sócrates não possuía a concepção cristã de Deus, muito pelo contrário; ele também não elaborou uma crítica ao politeísmo de forma sistemática. No entanto, ele percebeu, com uma lucidez que transcende os séculos, que o bem não pode ser refém da arbitrariedade, seja de um deus ou de vários. É exatamente isso que te retorno: a tua compaixão é tão imensa que não pode ser apenas um sentimento superficial. Ela age como se fosse genuína, de forma objetiva. Ele solicita, de maneira objetiva, uma base do bem que não seja apenas mais um elemento dentro do fluxo.
Geovane riu, um riso sem entusiasmo, mas também um pouco emocionado.
Geovane: Você me fez incorporar o Sócrates no meu jardim.
Gabriel: Ele pode entrar em qualquer jardim. Era do seu jeito. Aliás, o que considero mais admirável em Sócrates, e que se relaciona à nossa noite? Ele afirmava possuir um sinal celestial, um daimonion, uma voz interior que apenas o advertia contra certas ações, mas nunca o instruía a fazer algo. Limitava-se a responder "não". Ele foi acusado de ser ímpio, de não acreditar nos deuses da cidade e de trazer novas divindades, o que resultou em sua morte. No entanto, na Apologia, ele menciona uma frase que eu sempre levo comigo: que obedeceria ao deus antes que aos homens. Um homem que perece em decorrência de uma voz que se limita a dizer "não", e que, mesmo assim, refere-se a isso como uma forma de obedecer ao deus. Há uma intuição de que o sagrado e o bem estão alinhados, e que um homem virtuoso não pode fazer com que o divino se torne moralmente inferior a ele. Isso não representa o cristianismo, Geo, eu não vou tirar o Sócrates do time dele para o meu. Contudo, é uma semente.
A referência às sementes levou a conversa para um aspecto mais histórico, e Gabriel, que tinha interesse por história e se preocupava em não distorcê-la, fez questão de mostrar a Geovane que a tradição da qual ele falava não era um bloco monolítico caído do céu, mas uma longa construção, com tensões internas.
A filosofia grega, muito antes de qualquer seguidor do cristianismo, foi forçada a se unificar, apesar de não ter começado como um todo. Na República, nos livros segundo e terceiro, Platão realiza uma crítica profunda às narrativas que atribuíam aos deuses características como mentira, adultério, inveja e violência: Deus, afirma ele, é benevolente e, sendo assim, não pode ser a origem do mal, mas apenas de um número reduzido de coisas, uma vez que os males possuem uma causa diferente dele; além disso, Deus não engana nem se transforma para enganar, pois a mentira é detestada tanto por deuses quanto por humanos. Note-se bem: Platão não estava realizando uma teologia cristã; ele estava refinando a representação do divino por meio do poder da razão moral. No Timeu, Platão introduz o Demiurgo, o artífice divino responsável por dar ordem ao mundo. No entanto, é fundamental para a integridade do argumento que se esclareça que o Demiurgo platônico não cria a partir do nada; ele descobre uma matéria caótica que já existia e a organiza, baseando-se nos modelos eternos, conhecidos como as Formas. Não se trata do Deus cristão que é o criador, e afirmar que é seria uma enganação. Platão sustenta a existência de múltiplas divindades, menciona uma alma do mundo e refere-se a outros deuses criados pelo Demiurgo. O que ele legou à posteridade não é o monoteísmo, mas a transcendência do Bem, que na República está "além da essência", e a convicção, desdobrada nas Leis, de que há providência e de que o divino é a medida de todas as coisas.
Aristóteles avançou mais em um aspecto e menos em outro. Na obra Física e Metafísica, especialmente no décimo segundo livro, ele sustenta que não é possível ter uma regressão infinita de causas que são essencialmente subordinadas, e assim chega à ideia de um primeiro motor que permanece imóvel: um ato puro, desprovido de matéria, eterno e necessário, que é responsável por movimentar o mundo não através da ação de empurrar, mas sim por ser objeto de desejo — move "como o amado move o amante". Pensamento é o que pensa a si mesmo, noesis noeseos. E aqui a franqueza impõe que se diga o que a apologia indolente costuma ocultar: Aristóteles, no capítulo oitavo do mesmo livro décimo segundo, ao procurar entender os movimentos celestes, aceitou uma pluralidade de motores — quarenta e sete ou cinquenta e cinco, segundo adotasse os cálculos astronômicos de Eudoxo ou de Calipo. Ele não era um monoteísta da perspectiva bíblica. O que ele deixou como legado foi a diferenciação entre potência e ato, o raciocínio que refuta a possibilidade de um regresso infinito, e a ideia de um princípio inicial imaterial, cuja unicidade resulta do fato de não possuir matéria — pois, segundo ele, aquilo que é numericamente múltiplo possui matéria, enquanto o primeiro motor não a possui. É necessário, portanto, fazer uma distinção entre o primeiro motor absoluto, os motores subordinados das esferas, as divindades da mitologia e o Deus criador dos cristãos: quatro entidades distintas que a pressa tende a confundir em uma só.
Plotino, um pagão que viveu três séculos após Cristo e que nunca foi cristão, foi, no entanto, o homem responsável por criar muitas das ferramentas que os cristãos utilizariam posteriormente. Em suas Enéadas, especialmente nos quinto e sexto tratados, Plotino argumenta que, antes de qualquer multiplicidade, deve existir o Uno, que é totalmente simples, autossuficiente e "além do ser", do qual emanam o Intelecto e a Alma. O seu raciocínio possui uma força que transcende os séculos: qualquer pluralidade, para ser considerada como tal, necessita de uma certa unidade; o que é múltiplo sempre é múltiplo em relação a algo, referindo-se a um. É impossível que haja dois princípios que sejam absolutamente primeiros e simples, uma vez que a dualidade em si já constitui uma forma de composição e implica a necessidade de um "um" que se sobreponha a ambos. No entanto — e Gabriel insistia nesse ponto — a emanação de Plotino não pode ser comparada à criação livre do cristianismo. O Uno de Plotino transborda por uma necessidade inerente à sua natureza, assim como o sol emite sua luz sem fazer uma escolha; não ama, não toma decisões e não se dirige a ninguém pelo nome. Converter o Uno de Plotino no Deus Trinitário é adulterar ambos. O neoplatonismo ofereceu ao cristianismo um conjunto de termos — como participação, transcendência, e a ideia de uma unidade que precede a multiplicidade, além da noção de causalidade que não diminui a fonte — mas não a crença em si.
Os Padres da Igreja se dedicaram a essa herança, fazendo as devidas correções onde era necessário. Atanásio, em sua juventude, no Contra os Gentios, apresenta argumentos contra a divinização das criaturas e a divisão do governo do cosmos, além de demonstrar a impossibilidade da existência de dois deuses. Ele explica como a idolatria surge quando a alma, esquecendo-se de Deus e imersa nas coisas materiais, cria divindades a partir do que é gerado. Agostinho, em De Trinitate e em outros lugares, descreve a elevação da alma em direção à verdade que é imutável: existem verdades que permanecem constantes, que não são criadas pela minha mente e às quais ela se submete, e essa verdade, que está acima da mente, aponta para Aquele que é a Verdade; existe uma hierarquia dos bens, e todo bem que é limitado remete ao Bem que é ilimitado. Os Capadócios — Basílio de Cesareia, Gregório de Nazianzo e Gregório de Nissa — confrontaram a acusação de triteísmo com uma resposta que se tornaria histórica: uma única essência, ousia, manifestada em três hipóstases; uma única operação divina que, como afirma Gregório de Nissa em seu tratado dirigido a Ablábio, "sobre não haver três deuses", origina-se no Pai, flui através do Filho e se culmina no Espírito, constituindo uma única ação e não três ações paralelas. Dionísio descreveu Deus como o Uno, o Bem, a causa transcendente de tudo, que é a "Unidade dos que buscam a unidade". João Damasceno, ao resumir o Oriente, iniciou sua Exposição da Fé Ortodoxa confessando "um só Deus, um só princípio, sem princípio, incriado", e afirmando que na Trindade há "uma só essência, uma só bondade, um só poder, uma só vontade, uma só energia, uma só autoridade", não três semelhantes, mas uma só e idêntica. Centenas de anos mais tarde, Anselmo começaria o Monologion afirmando que há "uma natureza suprema entre todas as coisas que existem, que sozinha se basta a si mesma", e Boécio, enquanto estava encarcerado, redigiria na Consolação da Filosofia que tudo o que existe anseia por continuar a existir, e que esse desejo de persistir está intrinsicamente ligado à busca pela unidade, uma vez que cada coisa existe enquanto mantém sua singularidade e deixa de existir assim que não é mais uma.
Gabriel: E é aqui, Geo, que eu preciso desativar uma bomba antes que ela detone por conta própria. Você deve estar se questionando: mas espere um momento, você passou toda a noite me demonstrando que não é possível haver vários deuses absolutos, e você é trinitário, acredita no Pai, no Filho e no Espírito Santo. Isso não equivale a três?
Geovane: Eu admito que a pergunta estava prestes a ser feita.
Gabriel: Permita-me ser claro, pois a falta de precisão aqui é considerada uma heresia por ambos os lados. A Trindade não se refere a três deuses. Não se trata de três centros de poder que se juntaram para cooperar. Isso constituiria triteísmo, o qual estaria sujeito a todos os argumentos que apresentei contra o politeísmo — e cairia, de fato, e com plena justificativa. A fé cristã ensina que há uma única essência divina, uma única inteligência, uma única vontade, uma única ação, uma única causalidade na criação — e, ao mesmo tempo, três Pessoas, ou hipóstases, que se diferenciam não por serem partes distintas de Deus, nem por terem desejos diferentes, mas exclusivamente pelas relações de origem: o Pai não é gerado, o Filho é gerado pelo Pai, e o Espírito procede do Pai. É a única água, não três baldes distintos. O cristianismo não se originou da tentativa de unir três deuses; ele teve seu início na afirmação do único Deus de Israel — "Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus, o Senhor é um", como afirma o Deuteronômio — e foi a partir dessa unidade indiscutível que ele precisou compreender a identidade do Filho e do Espírito. A sequência é importante. Primeiro, a unidade; em seguida, dentro dessa unidade, a vida trinitária. Paulo, ao se dirigir aos Coríntios, o faz de forma direta: "ainda que haja muitos que se chamem deuses, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas, e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas". Ele não abandonou o monoteísmo; ele o desenvolveu ainda mais.
Geovane: E quanto aos santos? As fotografias? Quando eu me deparo com pessoas orando a Nossa Senhora ou a São Jorge em uma igreja, e acendendo velas em homenagem a santos, você pode me dizer que isso não é uma maneira cortês de praticar o politeísmo?
Gabriel: Boa pergunta, e muita gente, até mesmo cristãos, se confunde com isso. Portanto, é importante fazer essa sutil distinção. Há uma forma de adoração, conhecida na teologia como latria, que é exclusivamente reservada a Deus, ao fundamento absoluto. Há veneração, respeito, recordação e solicitação de intercessão — que é o que se faz com os santos. Quando solicito a um santo que ore por mim, não estou afirmando que ele seja um deus local responsável pelo setor das causas perdidas. Estou tratando com ele da mesma forma que faço ao solicitar que você reze por mim: admitindo que estamos interconectados e que a comunhão permanece intacta mesmo após a morte. A distinção entre honrar e adorar não é uma questão de trivialidades; é a diferença entre solicitar a um amigo que interceda por você e se ajoelhar diante dele como se fosse o Absoluto. Dois fins últimos distintos aniquilariam a própria ideia de "último" — não podem existir dois "mais importantes que tudo". É por isso que a adoração é única e se destina a uma única entidade. O que sobra é honra, e a honra não cria mais deuses, assim como o fato de respeitar o juiz e o porteiro não transforma o porteiro em um segundo juiz.
A noite já estava avançada. Um cão latiu à distância, e então ficou em silêncio. Geovane encheu seu copo novamente e começou a girá-lo sem beber, como se estivesse planejando uma retirada digna ou um último ataque. Foi um último impulso, e um bom.
Geovane: Vou te dar muita coisa, Gabriel, porque seria desonesto não dar. Reconheço que a afirmação de que "muitos deuses absolutos" não se sustenta. Reconheço que o perennialismo superficial, o "tanto faz, é tudo igual", é ele mesmo uma tese disfarçada de neutralidade, e que eu preciso assumi-lo como crença e não como vista de cima. Reconheço que a minha compaixão atua como se fosse objetivamente verdadeira, o que gera um problema que não consegui resolver hoje. Mas eu não pretendo me converter, e tenho a impressão de que você também não deseja que eu faça isso apenas por um argumento convincente em uma noite de sexta-feira.
Gabriel: Realmente não desejo isso. Seria a vitória mais lamentável, uma vitória apenas no discurso. Eu iria vencer a discussão, mas perderia a amizade, e além disso, o Deus sobre o qual estou falando não impõe sua entrada a ninguém — ele simplesmente toca a porta e aguarda. Aliás, permita-me compartilhar minha opinião sobre o que realizamos hoje, pois não foi pouca coisa. Constatamos que defender a afirmação de que "todas as religiões são iguais" é uma tarefa muito mais complicada do que parecia no início, quando você contemplava a lua. Eu percebi, ou melhor, recordei, que desacreditar no politeísmo não implica em compreender o budismo, e que deixo este lugar com uma dívida em relação a você, uma compreensão que ainda não possuo. Creio que deixei claro que, se existe um fundamento, ele é único. Não demonstrei que ele é pessoal — isso requer mais. Não demonstrei que ele formou o mundo de maneira independente, nem que se manifestou, nem que assumiu a forma humana, nem que a Igreja é realmente o que afirma ser. Cada uma dessas questões representa um novo passo, e eu estaria agindo de forma desonesta se utilizasse a unidade de Deus como um atalho para impor a totalidade da fé de forma abrupta. Uma coisa de cada vez, e algumas dessas coisas não se provam: se creem, se recebem, ou não.
Há uma diferença de estatuto entre afirmar, por argumento metafísico, que o primeiro princípio é uno; demonstrar que ele é pessoal, inteligente, livre; sustentar que criou o mundo do nada e não por necessidade; crer que exerce providência; aceitar que se revelou na história; confessar a Trindade; reconhecer a encarnação; e afirmar que a Igreja é portadora de uma plenitude. São degraus distintos, e cada um pede o seu próprio tipo de razão — uns a metafísica, outros o testemunho histórico, outros a fé. Confundi-los é o vício da apologética apressada. A unidade do primeiro princípio, essa, sim, era a conclusão que Gabriel sustentava como resultado ao qual a razão chega quando persiste em questionar; os demais, ele os diferenciava com atenção. Foi aproximadamente neste ponto que ele se recordou de Eric Voegelin, trazendo-o de maneira cautelosa: Voegelin descrevia a passagem das antigas experiências "compactas" da ordem — em que cosmos, deuses e sociedade formavam um único tecido simbolizado pelo mito — para aquilo que ele chamava a "diferenciação" da consciência, o momento em que a alma se descobre como sensório da transcendência e o divino se revela na sua transcendência radicalmente não-humana. Não se tratava de uma prova, afirmava Gabriel; era um guia que ilustrava como a humanidade, de forma desajeitada, foi conduzida do muitos ao Um — sem que isso implicasse em um progresso sempre claro e contínuo, uma vez que o próprio Voegelin tinha suas reservas em relação aos esquemas lineares.
Havia também algo que Gabriel reservava para o final, que ele via como sua contribuição mais pessoal, quase um pedido. Ele o chamava, em silêncio, de o argumento da hospitalidade sem dissolução, e o gêmeo dele, o argumento da caridade metafísica.
Gabriel: Sabe por que eu não quero que a gente dissolva as diferenças, Geo? Não é pra ganhar. É que sem paredes não existe casa. Uma casa que derruba todas as paredes pra ser "aberta" não recebe ninguém — vira um descampado batido de vento. As identidades doutrinais são as paredes que permitem a hospitalidade. Eu só posso te receber na minha casa porque ela é uma casa, com um formato, com um teto que é aquele e não outro. Se pra te receber eu tiver que fingir que a minha casa é igual à sua e à de todo mundo, eu não te recebi: eu me dissolvi, e você entrou num lugar que não é lugar nenhum. O diálogo verdadeiro não pede que a gente apague quem é. Pede o oposto: que cada um seja completamente quem é, e ainda assim possamos nos reunir à mesma mesa. Como estamos neste momento.
Geovane: E quanto à caridade em tudo isso?
Gabriel: Para mim, a caridade consiste exatamente nisso: reconhecer em você alguém que merece uma resposta sincera. Amar você é acreditar que você tem a capacidade de enfrentar a verdade, mesmo quando essa verdade vai contra você. O "tudo é igual" aparenta ser uma expressão de amor, mas em algumas ocasiões, revela-se como uma forma de preguiça disfarçada de bondade — pois ele se recusa a ouvir verdadeiramente o que a sua tradição realmente ensina, uma vez que escutar de forma atenta exigiria esforço e poderia me forçar a reconhecer que temos divergências em questões que são significativas. Levar a tua fé religiosamente pode ser que eu tenha de reconhecer que ela se opõe à minha. Isto não é violência. Isso é antítese da violência. Violência é quando eu não consigo te persuadir e decido te silenciar. Afimar que algo é verdadeiro e outro é falso não me dá o direito de te assediar, nem de te menosprezar, nem de te forçar a fazer nada. É possível acreditar que há uma única verdade suprema e, ao mesmo tempo, lutar com vigor pelo seu direito de discordar dessa verdade. Na verdade, é algo que vai além da nossa capacidade de acreditar: é imprescindível, caso o Deus que eu professar seja aquele que disciplina e aguarda, em vez de ser aquele que invade e força a situação.
Permaneceu em silêncio por um longo período. A lua havia ascendido, e agora apresentava um tom mais claro, parecia menor e estava mais elevada no céu. O sobrado permanecia ali nos fundos, envolto em sombras, sem emitir qualquer juízo. Geovane foi o primeiro a se pronunciar, e o fez em um tom suave.
Geovane: Você sabia que a sua lua e a minha lua, no final, podem não ser a mesma?
Gabriel: Talvez não sejam. Mas observe que só conseguimos perceber isso porque as analisamos de forma atenta, uma ao lado da outra, em vez de afirmar imediatamente que eram idênticas. Foi a nossa divergência que honrou ambas as luas. Se tivéssemos chegado a um acordo desde o início, teríamos eliminado as duas.
Geovane sorriu, com aquele sorriso fatigado e satisfeito de alguém que passou a noite refletindo e não se arrepende.
Geovane: Portanto, não chegamos a nenhuma solução.
Gabriel: Chegamos a uma conclusão. Decidimos que é possível manter uma amizade lidando com isso. Que a amizade suporta o fardo da verdade, mesmo quando essa verdade leva à separação. Não é pouco, Geo. A maior parte das pessoas, para manter a amizade, precisa simular que está de acordo. Descobrimos que não é necessário.
O vento retornou com força uma última vez, agitando todas as folhas simultaneamente, como se a noite estivesse folheando uma página. Dentro, alguém ligou uma luz no sobrado, e por um breve momento, os dois homens ficaram parcialmente iluminados, antes que a luz se apagasse novamente, deixando-os imersos na familiar escuridão amistosa, observando para cima, cada um através de sua própria janela, agora cientes de que eram janelas, e que essa consciência — saber que são janelas — poderia ser o início de tudo.
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