A Máscara Como Destino: Persona, Gnose e a Demonificação do Homem Moderno
Existem homens que não vivem de verdade: apenas fazem papel. Elaboram fachadas tão impecáveis que se veem aprisionados dentro delas. Esse texto é um ataque à falsidade interna, ao orgulho e à decadência da alma. A primeira batalha contra a gnose se inicia quando o ser humano se atreve a confrontar a realidade.
Gabriel G. Oliveira
6/8/202636 min ler


A Personalidade e o Demiurgo Interno: Estudo sobre a Gnose do Homem Contemporâneo
Há um vício que eu poderia designar como estrutural no homem moderno, e que não nasce de má-fé, mas acaba por nela desembocar. Surge de uma origem mais traiçoeira: a criação intencional de uma imagem pessoal que, ao longo do tempo, captura a verdadeira identidade e se torna um substituto constante para o eu autêntico. Isto me causa aversão. Não emprego o verbo de maneira superficial, pois nutro um ódio que é tão exato quanto o de alguém que reconheceu uma enfermidade e passou anos se esforçando para que ela não se instalasse dentro de si. Repreendo meus alunos por isso com uma frequência que poderia ser interpretada como uma obsessão por aqueles que não compreendem a importância da situação. É que eu cuido dos meus alunos quase como se fosse pai deles e digo isso apesar de ser um homem de vinte e seis anos diante de alunos que muitas vezes já têm mais de trinta. A disparidade etária jamais foi um motivo suficiente para me silenciar, pois o verdadeiro parâmetro que eu valorizo é outro: aqueles que percebem a realidade com sinceridade e aqueles que criaram uma persona para evitar ter que confrontar essa mesma realidade.
O principal erro das pessoas que vivem na nossa época é o seguinte: elas criam uma figura mental em suas próprias mentes, uma representação de como deveriam ser, como deveriam se expressar, como deveriam reagir, e passam o restante de suas vidas tentando se moldar a essa imagem, em vez de simplesmente serem quem realmente são. A persona não é um ator consciente que seleciona o palco; ela é uma cilada que a pessoa construiu gradualmente, sem se dar conta, e que agora a mantém aprisionada em uma performance incessante, cansativa e profundamente desonesta. Isso pode ser ilustrado com um exemplo que qualquer pessoa que já viveu em comunidade reconhecerá de imediato. O membro mais popular do grupo, aquele que conhece todos, que ri com mais intensidade e que sempre tem uma resposta na ponta da língua, geralmente é um personagem fictício. Nem ele mesmo. Quando você o vê longe dos olhares do outros, surge uma outra pessoa. Uma pessoa que é mais reservada, mais hesitante e, em algumas ocasiões, mais intrigante do que a versão que se apresenta de forma extravagante, mas que se sente oprimida pela imagem que criou para o público em geral. O sério problema ocorre quando ele não consegue mais desligar. Quando você fica a sós com ele e ele continua interpretando, pois já não consegue distinguir o ator do homem.
Isso se torna particularmente evidente no contexto empresarial e administrativo, e posso afirmar com conhecimento de causa, uma vez que atuo como líder de setor em uma empresa, além de desempenhar outras funções. Tive um relacionamento com uma jovem que ocupava o cargo de líder de setor em uma empresa de porte médio. Observei de perto a discordância. No ambiente de trabalho, ela se comportava como uma chefe autoritária, com uma voz firme e uma postura rígida, discutindo com os funcionários como se estivesse aplicando punições. Comigo, ela era a pessoa mais gentil, mais delicada e mais carinhosa que se poderia imaginar. Quero enfatizar de forma clara: não vejo nenhuma questão em relação a isso. É completamente normal e, de fato, saudável que alguém crie uma persona para o ambiente de trabalho. Ninguém deve ser o mesmo com seu funcionário que é com seu cônjuge, e eu ficaria surpreso se fosse o contrário. O problema não reside na persona do trabalho. O problema é que não conseguir tirá-la quando entro em casa. Tratar o cônjuge como se fosse um empregado. Permanecer no modo de fúria, atuando como um chefe de setor, dentro da própria casa, na cozinha, ao lado da pessoa que escolheu para viver a vida. Já passei por isso. Isso já ocorreu com quase todos os meus amigos que são empresários ou ocupam cargos de liderança. Isso não se trata de uma falha de caráter, mas sim de uma desconexão, uma incapacidade de entender que o papel chegou ao fim assim que a porta se fechou.
Quando era pequeno, fiz uma aula de teatro que se revelou uma das experiências mais enriquecedoras da minha vida. Não porque tenha aprimorado minhas habilidades de atuação, mas porque me mostrou como distinguir a atuação da vida real. O teatro, ironicamente, é uma das melhores ferramentas para ensinar alguém a não atuar como um personagem fora do palco. Você aprende a desenvolver a persona, a mergulhar nela de forma plena durante a apresentação, e, por fim, a se desvincular dela de maneira tranquila ao final da peça. O homem contemporâneo inverte esse processo: em vez de ter treinado o ator, o ator tomou conta do homem, e agora ambos se misturam de tal forma que ele já não consegue discernir onde um termina e o outro começa.
Um amigo meu era um dos principais líderes de um motoclube no qual eu estava envolvido. Estávamos eu, ele e um terceiro amigo no topo do grupo. Meu amigo estava sempre em cena. Sim, o tempo todo. Chegou um momento em que eu realmente não sabia mais quem ele era de verdade, pois a personagem havia tomado conta de tudo. Em uma conversa particular comigo, ele se mostrava como uma pessoa totalmente distinta: mais humano, mais autêntico e mais vulnerável. À frente do grupo, ele retornava ao seu papel com uma rapidez e uma regularidade que, observadas de perto, eram inquietantes. O que tornava a situação ainda mais complexa era o fato de que não se tratava de uma empresa, não havia uma hierarquia estabelecida e, funcionalmente, não havia motivo para o teatro. Era um bando de amigos. E ele tentava se posicionar como o líder em um ambiente onde não havia necessidade de um líder, pois todos ali eram amigos há muito tempo e essa amizade era o que os unia. Para manter esse cargo fictício, ele se mostrava excessivamente emotivo durante os debates. Quando alguém levantava um argumento que ele não conseguia refutar, o que ocorria com certa frequência, já que sua formação intelectual era frágil, ele não aceitava a derrota. Ele saía acreditando que havia triunfado, ou mudava de assunto, ou ficava em silêncio com uma expressão de alguém que acaba de ter uma epifania, como se a pergunta do outro tivesse validado sua própria teoria. Era o que eu chamava de pérola escondida: uma pessoa com real possibilidade de aprofundar o raciocínio, mas que se negava a fazê-lo por já ter decidido que era sábio antes mesmo de iniciar os estudos.
Existia, aliás, uma questão de natureza religiosa que o afetava de maneira particular. Ele pertencia a uma vertente do protestantismo carismático que se baseava em um princípio implícito bastante arriscado: a crença de que a interpretação pessoal da Bíblia é a mais autoritária e conclusiva. Cada fiel é seu próprio papa, seu próprio concílio e sua própria tradição vivente. E mesmo que esse protestantismo nunca tenha expressado isso de forma explícita - aliás, certamente se afastaria apavorado de tal formulação - o princípio prático subjacente era precisamente este: a minha perspectiva sobre o mundo é a mesma perspectiva na qual a realidade se revela. Em outras palavras, possuo o conhecimento verdadeiro sobre todas as questões. Muitas pessoas vão identificar nessa atitude a expressão disfarçada do "faz o que tu queres", uma vez que se trata de tudo relacionado à lei, que é a principal máxima do thelema de Crowley. E isso não ocorre porque esses protestantes tenham lido Crowley, mas sim porque, ao eliminar qualquer autoridade objetiva na interpretação do sagrado e ao estabelecer o indivíduo como o juiz final de todas as questões, você acaba chegando a essa mesma conclusão por um caminho diferente, sem intenção, sem perceber e, possivelmente, enquanto critica aqueles que a alcançaram de forma consciente. Meu amigo estava ignorante a respeito disso. Fica assim sem entender que é isso. Pelo contrário, qualquer discussão, para ele, não era uma busca pela verdade, mas sim um risco à sua própria teologia.
Isso me leva a um ponto que precisa ser claramente destacado sobre o que constitui um verdadeiro debate, já que as pessoas frequentemente se confundem. Uma discussão intelectual não é uma briga. Não se trata de uma disputa de egos com a intenção de menosprezar o outro. É o que mais se assemelha a um teste entre duas perspectivas humanas, confrontando suas visões de mundo com a realidade. Eu treino jiu-jítsu, muay thai e judô e posso afirmar com certeza que o debate é bem mais doloroso que o tatame. Não no físico. Without ego. Pois quando você é derrotado em uma luta, você foi derrotado em uma luta. Você se levanta, treina ainda mais e retorna. Como o processo é físico e a lesão também, ela se cura com bastante facilidade. Contudo, quando alguém desmantela sua perspectiva de vida durante uma discussão, ao abordar os pilares fundamentais das suas crenças e desmontá-los um a um, utilizando lógica, exemplos e consistência, o que realmente desmorona não é o seu corpo. Trata-se de todo o templo. Imagine um templo romano, com suas colunas expostas, sem paredes que sustentem o teto. Se você derrubar as colunas adequadas, o teto desaba. Ao contrário de um corpo que se cura, uma perspectiva de mundo que foi obliterada nunca se reconstrói. É necessário reerguê-la completamente, utilizando diferentes materiais e baseando-se em novas fundações. Meu pai, que foi o homem que me ensinou a refletir antes de me instruir em qualquer outra questão, disse-me, certa vez, com uma serenidade que levei anos para entender: a maneira mais eficaz de aniquilar uma pessoa enquanto ela ainda vive é obliterar seu pensamento em um debate. Não se trata de uma crueldade desnecessária, mas sim da morte intelectual que antecede um renascimento, caso a pessoa tenha a coragem de se reerguer, em vez de permanecer entre os destroços, simulando que o teto ainda está intacto.
Em uma ocasião, fiz uma brincadeira com uma professora que tinha assistido a um debate em que eu havia refutado completamente a argumentação do meu oponente. Disse a ela: é como se ocorresse um apocalipse no pequeno mundo da pessoa. Seu mundo interior foi arrasado. Restaram restos. Até que esse mundo interior retorne à vitalidade que possuía anteriormente, o processo de reconstrução requer tempo, uma sinceridade que muitas pessoas não estão dispostas a oferecer, e uma humildade que a maioria simplesmente não está disposta a aceitar. É por isso que o debate pode ser mais destrutivo do que a própria morte, em certos aspectos. O indivíduo que faleceu de forma gloriosa viveu sua vida da maneira que viveu. No entanto, o homem que foi arrasado em um debate e não possuía a virtude necessária para se reerguer faleceu como alguém sem valor, com a cruel distinção de ter que despertar todos os dias, ainda consciente dos escombros que restaram.
No entanto, o homem contemporâneo não vê o debate dessa maneira. Para ele, debater é o mesmo que uma briga de rua. Assim como em qualquer briga de rua, o que se busca não é a verdade, mas sim a supremacia. Quando alguém identifica um erro conceitual simples, uma premissa mal formulada ou uma conclusão que não decorre das premissas, o homem moderno não responde com um simples "tem razão, vou pensar sobre isso". Ele se ofende profundamente. Como se você tivesse insultado a mãe dele com um palavrão. Quanto mais idade, pior fica. A vivência que era para ter gerado sabedoria resultou apenas em uma teimosia obstinada, a crença de que o simples fato de envelhecer é justificativa suficiente para qualquer opinião.
Quero ser claro nesse aspecto, pois me criticam por ter uma aversão generalizada aos idosos, o que não é correto. Não se trata de aversão a pessoas idosas, mas sim de aversão a aqueles que apenas envelheceram. Há velhos que têm conhecimento. Um exemplo disso era Olavo de Carvalho. Outro autor que aprecio genuinamente é Luiz Felipe Pondé. São homens que realmente acumularam sabedoria, e não apenas experiência de vida. No entanto, há outro tipo, que é muito mais frequente e que passou cinco décadas acumulando visões errôneas sobre a vida, considerando-as como sabedoria simplesmente porque envelheceram junto com ele. Este velho não entende a vida. Reuniu o que eu descreveria como lixo de longa data: um conjunto de crenças, ideologias e opiniões pouco embasadas que, devido ao tempo que permaneceram em sua mente, agora são consideradas tradicionais. Particularmente, aqueles que experimentaram o período de grande prosperidade econômica do Brasil, que podemos situar entre 1950 e, mais ou menos, o início dos anos 2000, levando em conta as crises que surgiram pontualmente a partir de 2008, chegaram à conclusão, a partir dessa vivência, de que o mundo opera dessa maneira, sempre funcionou assim, e aqueles que afirmam o contrário são considerados como alguém que não entende a realidade ou como comunistas. O jovem que veio ao mundo nos anos 2000 e observa o mundo atual, sem uma visão nostálgica e sem lembranças de um passado que não retornará, percebe uma realidade que esse idoso se recusa a reconhecer. Quando o jovem retrata essa situação, o velho responde: vocês é que causaram a confusão. Quem tiver um mínimo de conhecimento histórico e econômico saberá que a confusão foi herdada, e não criada do zero.
Argumentar de forma epistêmica com base no etarismo é um dos tipos mais canalhas de desonestidade intelectual que existem. Vinte e seis anos de idade. Atuei como professor particular, instrutor e líder de departamento. Li mais de dois mil cento e trinta e cinco livros. Há mais de dez anos estudo filosofia com afinco, já participei de diversos seminários, como os do Olavo de Carvalho, e fiz dezenas de cursos técnicos nas áreas de filosofia antiga, sociologia, história, Trivium, Quadrivium, astrologia, geografia e administração, além de um MBA executivo que estou cursando, complementado por uma formação em filosofia formal. Isso não me torna onisciente. Isso não me torna superior a ninguém. Me concede o direito de ser levado a sério nas questões que pesquiso e estudo, independente da minha idade. Quando um homem mais velho que não consegue ganhar um debate comigo e sua resposta é "você é moleque, não entende a realidade", o que esse homem está fazendo não é sabedoria: é fraude intelectual servida com autoridade de calendário. Quando um jovem mais novo do que eu realiza a mesma ação, fazendo o comentário "você fala igual a mim, não tem mais experiência", a enganação pode ser de menor magnitude, mas mantém a mesma estrutura.
Essas duas faixas etárias têm esse mesmo vício: usam a idade no lugar do argumento. Portanto, à exceção de algumas raras situações que realmente admiro, mantenho uma postura crítica em relação a ambos os grupos. Meus verdadeiros amigos, atualmente, são poucos, talvez quatro ou cinco, e todos compartilham uma qualidade: eles conseguem diferenciar entre uma brincadeira e um debate, reconhecem quando estão errados e têm a capacidade de admitir isso em voz alta sem entrar em uma crise existencial.
Há uma lista implícita de ações que são consideradas inaceitáveis entre os homens. Não se trata de um código de honra sofisticado nem de algo que se assemelhe a um manual. É mais fácil e mais sério do que isso. Isso ocorre quando uma pessoa ultrapassa os limites que são fundamentais para que homens que se respeitam mantenham uma relação saudável. O primeiro ponto dessa lista é zombar de alguém na presença de pessoas que são importantes para ela. Não é uma piada. É um ataque intencional à autoridade de outra pessoa. Quando você se diverte à custa de um homem na presença da esposa, dos filhos, dos pais e dos amigos mais íntimos dele, isso não é humor. Você está removendo a base social e emocional que sustenta esse homem. Está comunicando àqueles que lhe são queridos: esse indivíduo não merece o respeito que vocês lhe dispõe. Isso pode levar a consequências que se tornam irreversíveis. Já presenciei essa situação de perto, no caso de um amigo meu cujo "amigo" passou anos minando sua imagem na frente da esposa e dos amigos em comum, através de piadas, zombarias e referências a segredos que foram confiados e que se transformaram em material para humor público. O matrimônio não conseguiu se manter. Em um certo dia, durante uma discussão que ultrapassou todos os limites, o homem que havia sido humilhado e desvalorizado por anos fincou uma faca no peito do outro. Casi o matou. Não estou idealizando a violência. Estou explicando o preço real de ignorar que alguns limites não são apenas questões de sentimentos, mas sim pilares essenciais para a sobrevivência social. O homem que passou anos suportando essa corrosão estava apenas vivendo até atingir seu limite, e esse limite finalmente chegou.
O segundo ponto consiste em transformar em arma cômica algo que foi dito em confidência. Não existe traição mais genuína do que essa, pois, além de trair a confiança, transforma o ato de confiar em uma forma de castigo. Ao mostrar ao traído que revelar suas fragilidades resulta em agressão. Uma vez assimilado, esse aprendizado permanece para sempre.
O terceiro ponto consiste em transformar a vida alheia em assunto de fofoca para entretenimento público, principalmente com pessoas que não foram escolhidas por ele para fazer parte de sua intimidade. O quarto, e possivelmente o mais frequente atualmente, consiste em criticar o trabalho alheio sem apresentar argumentos, sem ter autoridade e sem um objetivo claro. Não se trata de um chefe cuja função é corrigir, nem de um colega que percebeu um erro específico, mas sim de alguém que sente a necessidade de menosprezar o outro para afirmar a sua própria existência. Vi um homem que conhecia levar uma facada no pescoço por causa disso. Ele era um homem que frequentemente desfrutava de outro de diversas maneiras, levando em conta a aparência, o trabalho, a estatura e a voz. Fez com que o outro perdesse a namorada, os amigos e a sua dignidade social. Até que o baixinho que ele havia humilhado revidou, levou uma surra, revidou novamente, foi espancado mais uma vez, e na terceira vez, atacou com uma faca. O que ocorreu foi a consequência inevitável de quem não percebe que minar a autoridade de outro homem diante da pessoa que ama é um ato bélico, não uma piada. Será que mereceu a faca? Dizer sim pode soar como algo impiedoso. Ou seja, a outra opção seria simular que havia consequências justificáveis para as ações que ele estava realizando, quando na verdade não havia nenhuma.
Tudo isso se origina de uma causa comum que, uma vez encontrada, esclarece uma impressionante quantidade de ações que, à primeira vista, parecem diferentes, mas são, na verdade, variações do mesmo problema. Essa origem é a prepotência. Não se trata de uma arrogância evidente, mas sim da prepotência que se manifesta de maneira estrutural, proveniente de alguém que se colocou no centro de tudo, sem jamais ter refletido se realmente merece essa posição. O arrogante não é, necessariamente, quem age com brutalidade ou desdém aberto. O prepotente que representa o maior risco é aquele que jamais se perguntou sobre si mesmo. Que atingiu a meia-idade, ou a juventude tardia, acreditando firmemente que suas opiniões são óbvias e que qualquer discordância é um ataque pessoal. Este é o protagonista do que denomino como quarta camada, que se refere a uma categoria de compreensão da personalidade que funciona a partir da integração de diversas perspectivas psicológicas: a psicologia evolutiva, a psicologia sombria, a Programação Neurolinguística e a psicologia das cores, sendo a psicologia tomista o eixo central que une todas elas.
O homem da quarta camada não é apenas um tolo. É uma questão mais particular e complexa de resolver: trata-se de alguém que é teimoso, arrogante e ignorante ao mesmo tempo, e que, devido a essa combinação, tende a relativizar tudo com base em sua própria perspectiva. Para ela, a noção de certo e errado não é algo absoluto; não está intrínseco às coisas, não se encontra em Deus, nem na tradição que reuniu milênios de experiências humanas. Está dentro dela. Ela é a autoridade definitiva sobre o que é correto. Quando alguém levanta questões sobre esse arbitramento, ela não vê isso como uma forma de debate. Considera isso uma heresia. Pois aquele que refuta as crenças dela não está apenas expressando uma discordância, mas sim agredindo o próprio Deus da sua opinião. O herege não é digno de receber argumentos. O que se exige é silêncio, ou afastamento, ou até mesmo raiva.
Em cerca de quatro horas de interação, sou capaz de identificar um homem da quarta camada. Às vezes, até menos. Não se trata de um dom sobrenatural, mas sim de um padrão. Estes traços são sempre recorrentes: um ego exagerado que busca validação incessantemente, a dificuldade em diferenciar uma derrota em um debate de uma ofensa pessoal, a necessidade de se colocar em uma posição superior em relação àqueles que consideram superiores a eles, e uma reação de birra quando essa superioridade é revelada. Sem comparações de birra. Birra ao pé da letra: o adulto de quarto nível e a criança de doze anos reagem exatamente igual quando suas posições são desafiadas de forma consistente. A única distinção entre os dois é que o adulto possui mais anos de vida e menos justificativas para permanecer dessa forma. É tanto que, se você fizer uma comparação entre um homem de cinquenta anos, que está na quarta camada, e uma criança de dez anos, perceberá que ambos reagem emocionalmente à realidade de maneira semelhante. A mesma resposta. O mesmo raciocínio de proteção. O calendário foi alterado; a estrutura interna permaneceu a mesma.
A principal diferença entre o homem da quinta camada e o da quarta é que o primeiro possui uma noção básica de hierarquia. Ele ainda deseja poder e nutre vaidades, mas ao menos consegue entender que existe alguém acima dele e que essa pessoa alcançou sua posição por um motivo. O indivíduo da quarta camada nem mesmo isso consegue fazer. Para ele, a única hierarquia aceitável é aquela que o posiciona como o mais alto, e qualquer prova em contrário é rapidamente considerada como uma injustiça. Por outro lado, o homem da sexta camada, que é mais inclinado ao materialismo e à acumulação, consegue pelo menos perceber o outro e sentir inveja do que ele possui, o que já representa uma forma de reconhecimento da existência do outro. O homem da quarta camada não quer o que o outro possui: ele aniquila o outro para evitar ter que admitir que o outro possui algo que ele não tem. A destruição se manifesta de maneira sempre covarde, sorrateiramente, em murmúrios, por meio de alianças de rancor, jamais de forma direta.
Olavo de Carvalho retratou esse padrão inúmeras vezes, com a precisão de alguém que passou décadas analisando a psicologia social no Brasil. O que ele mencionou não é algo exclusivo do nosso país, mas aqui se manifesta de uma maneira especialmente rica, pois estamos imersos em uma cultura que equaciona humildade com autoanulação e que, por sua vez, confunde arrogância com qualquer indivíduo que simplesmente expresse o que realmente é e o que conhece. Eu experimento isso. Resido em uma cidade que é majoritariamente agrícola, onde o nível de inteligência das discussões públicas é, para ser gentil, bem baixo. Quando afirmo, sem ostentação ou teatralidade, apenas como um fato biográfico que pode ser verificado, que possuo mais de dez anos de estudo formal em filosofia, que produzo textos acadêmicos e que li mais de dois mil livros, a reação imediata de algumas pessoas não é de curiosidade, respeito ou mesmo indiferença. Trata-se de uma ofensa. Como se relatar o que se realizou e o que se aprendeu como se fosse uma ofensa ao ego de todos. O arrogante, dentro dessa lógica distorcida, sou eu que apenas declarei quem realmente sou. Não aquela pessoa que se sentiu ofendida simplesmente pela minha existência. É esta inversão que me irrita, não por vaidade, mas por tédio com a falta de honestidade.
Com indivíduos desse tipo, eu adoto uma abordagem de total transparência: não tenho interesse em sua opinião sobre os assuntos que pesquisei e você não se dedicou a estudar. Se deseja discutir, traga argumentos. Se não possui um argumento, é melhor ficar em silêncio. Se você chegar com a atitude de quem busca justificativas sobre minha vida, como se eu tivesse a obrigação de lhe dar satisfações, a resposta que receberá será à altura da sua ousadia. Não se trata de ser gratuitamente agressivo, mas o fato de tratar um imbecil como se fosse um intelectual é uma cortesia que ele não irá devolver, e que você acabará pagando em termos de credibilidade.
A nova geração possui um receio extremo de rejeição, o qual converte a covardia em uma qualidade admirável. O jovem que suporta ver sua esposa sendo humilhada na sua frente sem tomar uma atitude, que permite que seu trabalho seja desvalorizado a ponto de não ter mais nenhuma função, e que ainda sorri quando deveria expressar raiva, esse jovem não é uma pessoa pacífica. É mole. E frouxidão, na minha leitura, não merece pena. Recebe o que merece. Pois a frouxidão não é uma fraqueza de caráter que alguém possa trabalhar e superar: é uma decisão constante de não ser quem se deve ser, por medo de desagradar. Um homem que teme a opinião alheia a ponto de não defender sua própria esposa não é um homem que precise de apoio. É um homem que necessita de uma profunda crise existencial para se livrar dessa inércia. Uma crise que, de preferência, se manifeste por meio de palavras, pois, caso ocorra de outra maneira, o preço a pagar será significativamente maior.
Aqui surge um aspecto que o senso comum contemporâneo entende de maneira equivocada, pois confunde categorias que deveriam ser distintas. Há a violência física, que possui suas regras, contextos e consequências legais bem definidas, e não sou ingênuo ao ponto de ignorar a legislação brasileira, que pune de forma desconcertantemente consistente quem mata um criminoso, o que, por si só, é um indicativo sério da situação vigente. No entanto, existe uma forma legítima de violência verbal que não se resume a insultos gratuitos ou à humilhação pública sem razão, mas sim à clara e firme exposição da verdadeira natureza de uma pessoa quando ela teima em se colocar em uma posição que não lhe cabe. Afirmar a alguém que "você não tem competência para o que está afirmando" não é uma ofensa. É um diagnóstico. E o homem da quarta camada que fica em fúria ao ouvir isso não se irrita por ter sido ofendido, mas sim porque o diagnóstico é preciso e ele não possui a maturidade necessária para lidar com a verdade sobre si mesmo. Quando afirmo isso a um jovem que teimou em discutir um assunto sem estar minimamente preparado, a reação é sempre uma ira desmedida. É como se eu tivesse tirado a vida de um membro da família dele. Pois, na visão egocêntrica que ele possui da cosmologia, minha habilidade representa um risco à sua própria existência.
Clóvis de Barros é um pensador público contemporâneo a quem aprecio, se não muito, pelo menos de forma genuína. Há muitos aspectos do trabalho dele que considero fracos, e certamente existem autores e pesquisadores recém-formados que conseguem elaborar análises mais refinadas do que as dele em algumas áreas. No papel de professor e treinador de pensamento, ele apresenta momentos verdadeiramente interessantes, especialmente ao abordar questões de competência e os mecanismos que levam as pessoas a se construírem ou se destruírem em contextos profissionais e pessoais. Seu maior desafio, que reconheço como um que também enfrento, é a dificuldade de resumir ideias complexas rapidamente. Eu enfrento a mesma dificuldade quando o suporte é o vídeo: consigo transmitir com clareza e profundidade, em formato de texto, o que acaba se tornando extenso e, às vezes, impreciso no vídeos curtos, já que cada detalhe precisa ser cuidadosamente colocado em seu devido lugar. Se alguém me solicitar que esclareça as condições metafísicas que Tomás de Aquino define para que uma pedra seja, de fato, uma pedra — e escolho este exemplo porque, embora pareça simples, é extraordinariamente complexo em sua elaboração — precisarei de, no mínimo, quarenta minutos para fazê-lo sem desvirtuar o pensamento. Não por eu ser demorado, mas por ser o pensamento realmente complicado e qualquer caminho mais curto gera uma caricatura. Clóvis de Barros lida com essa mesma tensão, o que cria profundidade, mas em certos momentos, causa confusão onde deveria haver entendimento claro.
Mário Sérgio Cortella e Leandro Karnal pertencem a uma categoria totalmente diferente. Não vou me dar ao trabalho de amenizar isso: são intelectuais da praça que sistematicamente desfiguram o pensamento dos filósofos a respeito dos quais falam. Karnal, especialmente quando ele traduz o Deus do catolicismo para a teologia, a metafísica e a cristologia, produz algo que é objetivamente falho em termos de educação fundamental. Não se trata de uma interpretação diferente com a qual eu não concorde. É um engano. E o erro é apresentado com a pompa de quem se supõe saber do que está falando, o que o torna desinformação ativa. Um educador que distorce a filosofia do pensador, adaptando-a para que seja mais agradável ao público da televisão, não pode ser considerado um verdadeiro professor. É um agente de simplificações, e o estrago que faz é diretamente proporcional ao alcance que possui.
Chegamos, então, ao cerne da questão. Tudo o que mencionei até agora - a busca incansável da persona, a prepotência de quarta camada, o debate transformado em um ego em conflito, e o etarismo como forma de conhecimento - são, na verdade, sintomas. A enfermidade é diferente. Ela possui um nome histórico, uma trajetória que pode ser precisamente traçada, e efeitos que se aproximam do que eu consideraria a demonização da alma. A doença em questão é a gnose.
Gnose, no sentido que estou empregando aqui e que é fundamental para a concepção do Círculo de Estudos que eu promovo, não se resume a conhecimento, como a etimologia grega simplista poderia sugerir. É uma particularidade do conhecimento: a realidade objetiva é trocada pelo ponto de vista subjetivo do sujeito como último padrão de verdade. O gnóstico, como eu uso o termo, não é, necessariamente, alguém que pertence a uma escola esotérica. É qualquer indivíduo que atingiu o estágio de pensar que sua visão da realidade supera a própria realidade. O mundo que ela observa é aquele que ela percebe, e não necessariamente como ele realmente é. Além disso, qualquer evidência que contrarie sua perspectiva pode ser ignorada, uma vez que essa visão é o juiz de tudo.
O início do processo é quase ingênuo. Cada um de nós experimenta, ao longo da vida, pequenas gnoses —momentos em que a fé, o desejo ou o medo distorcem temporariamente nossa percepção da realidade. Uma amiga da minha mãe, uma vez, disse que a minha gastrite crônica poderia ser curada pela fé, que se eu realmente acreditasse em Deus, comer uma bala de pimenta não me faria mal. Eu discuti com ela. A fé, então, muda os processos bioquímicos que ocorrem no estômago? Ela confirmou. Isso representa uma forma de gnose menor, uma interrupção específica na conexão com a realidade física. É natural que, em certos momentos da vida, tenhamos essas dúvidas, pois a fé verdadeira nos leva a questionar algumas limitações e nos perguntar se elas são realmente definitivas. Ter essas perguntas não é o problema. O problema surge quando elas se transformam no sistema operacional total, quando a maneira de interpretar a realidade deixa de ser uma exceção e passa a ser a norma.
A trajetória da demonização gnóstica é a seguinte: inicialmente, a pessoa passa a criar o mundo a partir de sua própria experiência, posicionando-se como o ponto focal de tudo que a rodeia. Tudo é filtrado pela própria percepção como parâmetro final. Em seguida, as primeiras expectativas começam a se desmoronar. Não por ser a esperança algo negativo, mas sim porque, ao contrário, ela é o impulso essencial de toda vida virtuosa. A esperança é a fonte da fé. Sem esperança, não há motivo para confiar em algo que vá além do presente e do tangível. É a esperança que alimenta a chance do amor, uma vez que o amor, de certa forma, é sempre uma aposta no que pode vir a ser. Ao eliminar a esperança, você extingue essa possibilidade antes que tenha a chance de se desenvolver. E quando a esperança chega ao fim, tudo o que estava sustentado por ela - a fé, a caridade, a prudência e a justiça - perde a base e começa a ruir.
Dostoiévski expressou isso em Os Irmãos Karamázov de uma forma que poucos conseguiram superar: se Deus não está presente, tudo é permitido. Não é uma provocação retórica, mas sim um diagnóstico preciso. Pois Deus, conforme a organização que Dostoiévski retrata, não é simplesmente um ser divino que ditam leis de maneira autoritária. Ele representa a realização da esperança mais intensa, a ideia de que o bem está presente, que a virtude é significativa e que há uma realidade objetiva que existe independentemente da sua percepção. Ao eliminar isso de seu interior, você não gera um vazio. Você gera uma sensação de urgência. O ser humano não consegue existir sem esperança; sem ela, é como se escolhesse a morte. Assim, a esperança retorna. Retorna com uma aparência distorcida. Retorna como uma expectativa que tombou e não conseguiu se reerguer adequadamente, assim como um anjo que teve suas asas perdidas e voltou rastejando, ainda aparentando um brilho radiante, mas agora servindo a um outro mestre. Isso que eu denomino como a demonização da esperança: ela ressurge como uma catábase incessante, um processo de descida que se camufla como uma subida. A expectativa do gnóstico não se dirige a Deus; ela se dirige ao paraíso terrestre criado com suas próprias mãos, à aniquilação do mundo tal como existe e à edificação de um novo mundo que emerge das ruínas. A estrutura escatológica que caracteriza os movimentos revolucionários consiste em demolir o antigo para permitir o surgimento do novo, sem, no entanto, definir com clareza o que, de fato, é esse novo. Isso ocorre porque o novo é simplesmente uma designação do desejo vigente no momento, que se altera conforme muda o líder.
E é por essa razão que eu digo que o movimento comunista, o socialismo, o progressismo moderno e muitos outros fenômenos políticos que aparentam ser diferentes compartilham, na verdade, uma mesma essência: todos são gnoses. São esperanças desprovidas de qualquer conotação demoníaca. São anjos decaídos que se fazem passar por salvadores. A esperança que se inverte não significa falta de esperança; pelo contrário, é uma esperança direcionada à dissolução, à aniquilação das formas, à transformação de tudo que é sólido em algo fluido. Zygmunt Bauman retratou as consequências disso por meio do conceito de modernidade líquida. Embora Bauman cometa erros ao identificar diversas direções, ele acerta ao diagnosticar o resultado: um mundo onde as conexões se desintegram, as identidades se dividem, e os indivíduos se encontram flutuando entre pertencimentos que não conseguem sustentar. E. Michael Jones, por sua vez, chega ao mesmo destino por um caminho distinto e, ao longo de grande parte da jornada, demonstra uma precisão maior do que Bauman, pois não subestima a importância da dimensão espiritual e teológica do processo. Recebo mais livros de Jones nesta semana, e, a cada nova leitura, torna-se cada vez mais claro que a análise que realizo aqui tem um predecessor que refletiu de maneira consistente e corajosa sobre as consequências da libido desordenada, não apenas em sua faceta sexual, mas também no sentido mais amplo de desejo desordenado, que se transforma no princípio organizador de uma civilização.
Para compreender a modernidade, a junção de Bauman e Jones, em minha análise atual, é o mais fiel dos mapas. Bauman revela o que ocorreu. Jones revela a razão do ocorrido. Ao lê-los em conjunto, fica claro que o que é apresentado como liberdade no discurso contemporâneo é, na maioria das vezes, a desintegração de uma forma que cumpria uma função. Essa desintegração foi promovida como um progresso, uma vez que as pessoas já não conseguiam reconhecer a função que a forma desempenhava.
O homem contemporâneo que herdou esse processo enfrenta dificuldades, pois perdeu a capacidade de virtude antes mesmo de tê-la adquirido. A filosofia moderna, que se estende desde Descartes até seus descendentes atuais, possui uma abundância de ideias verdadeiramente fascinantes, e não sou tão ignorante a ponto de negar essa realidade. No entanto, o cerne de grande parte dessa filosofia é tão subjetivo que mina qualquer chance de se estabelecer uma ética que seja objetiva. Quando o eu se transforma no ponto de partida inquestionável, como em Descartes, e essa ideia é levada ao extremo pelos que vieram depois, a ponto de a realidade externa ser vista como duvidosa ou mesmo sem importância, o que se obtém é uma pessoa que já se descontruiu antes mesmo de se construir. E que se desfez com tamanha atenção, que agora já não consegue distinguir entre o que é certo e o que é errado, o que constitui uma virtude com o que é considerado um vício, bem como o que se caracteriza como amor e o que se resume a possessão. Está desorganizada. Quando essa pessoa busca se reerguer a partir do caos que vive, ela o faz utilizando os restos que sobraram, que são materiais desordenados e invertidos, onde aquilo que é considerado um vício se transforma em uma virtude, e uma virtude acaba se convertendo em uma forma de repressão.
A falta de rigor moral que observo se espalhar atualmente não é apenas falta de conhecimento. É o resultado natural de alguém que experimentou a desconstrução sem ter vivido a construção anterior. É a geração que soube dizer não antes mesmo de dizer sim, que aprendeu a duvidar antes de encontrar algo que justificasse uma afirmação. O resultado não é liberdade, mas sim uma dissolução. A dissolução a que me refiro é conhecida pelo termo demonificação na linguagem que emprego. Não no que diz respeito à possessão sobrenatural, embora eu não exclua essa possibilidade de análise — mas em termos funcionais: a pessoa que passou por esse processo se comporta como um demônio se comporta. Transforma. Conquista. Desconstrói o outro não com o intuito de libertá-lo, mas para fazê-lo mais parecido consigo, pois a semelhança elimina a ameaça. Aquele que continua imutável, que preserva sua ética objetiva, sua crença e sua estrutura moral, torna-se uma acusação viva. O gnóstico possuído por demônios não tolera isso.
Polarização é positiva. É necessário que exista. Não como uma doença social, nem como uma indicação de que o diálogo falhou, mas sim como a consequência inevitável e lógica de ideias que são realmente incompatíveis. Quando me afirmam que devo "respeitar as ideias do outro para não ser polarizado", no fundo, o que estão solicitando é que eu concorde. Por que deveríamos dar respeito a uma concepção que considera o aborto como aceitável, que vê a eutanásia como uma forma de dignidade, que enxerga a dissolução de todas as normas morais como uma forma de libertação? Respeitar essas ideias, da maneira como elas solicitam que eu faça, implicaria em validá-las. E eu não as considero válidas. Não por ser intolerante, pois sou capaz de ouvir, avaliar e refutar com base em argumentos, mas sim porque certas ideias estão equivocadas em seu nível mais fundamental. Fingir que esse erro é apenas uma perspectiva diferente é a maneira mais sofisticada de rendição intelectual que existe.
O homem que leva uma pessoa idosa depressiva para ser eutanasiada em vez de tratá-la, não está sendo compassivo. Está cometendo homicídio de forma burocrática. E o intelectual que oferece a justificativa para tal prática, em minha perspectiva ética, está perpetrando um crime contra o logos, pois está empregando a razão para aniquilar a pessoa que deveria defender. Esse pensador não merece o respeito que se deve a quem se engana de boa-fé. Deve ser considerado pelo que realmente é: uma pessoa que utilizou sua inteligência para promover a morte.
Aqui introduzo a ideia que elaboro no Círculo de Estudos, a qual denomino demiurgo sintético. Não se trata de uma metáfora simples, mas sim de uma categoria analítica clara e precisa. Na antiga cosmologia gnóstica, o demiurgo é o criador do mundo material, um ente que é inferior ao verdadeiro Deus, e que confeccionou a realidade física como uma prisão para as almas. No meu entendimento, o demiurgo sintético é uma entidade metafísica coletiva, e não um ser individual ou uma organização particular. Trata-se de um padrão que emerge da convergência de diversas ideologias, fontes de poder e comportamentos humanos que, em uníssono, visam à dissolução de estruturas, à relativização de qualquer ética, à liquefação de identidades estáveis e à subversão de todas as hierarquias legítimas. Este demiurgo não possui um chefe. Não possui uma sede. Existem células. Cada indivíduo que foi demonificado e que experienciou o processo de inversão gnóstica que descrevi se assemelha a uma célula dentro de um organismo coletivo. Esse organismo opera de maneira coerente, uma coerência que não foi intencionalmente planejada, mas que gera resultados como se fosse o resultado de um plano.
As ideologias representam a mente desse demiurgo. O marxismo, comunismo, socialismo, progressismo, e até mesmo o satanismo em sua forma mais explícita, assim como muitas outras variações da filosofia do "faça o que você quiser", são, de diferentes maneiras, expressões de um mesmo princípio: a primazia do indivíduo sobre qualquer definição objetiva de bem. As pessoas que incorporam essas ideias formam o corpo desse demiurgo, não como uma metáfora poética, mas como uma explicação prática de como um sistema de crenças se dissemina por meio de comportamentos individuais que, embora pareçam autônomos, funcionam de maneira coordenada. O Estado, por sua vez, tem um interesse direto em perpetuar essa dissociação, uma vez que indivíduos desunidos são mais simples de controlar. O indivíduo que carece de uma identidade firme, que não possui uma ética clara e que não tem uma crença profundamente enraizada, tende a olhar para o poder do Estado como uma forma de substituto para tudo aquilo que foi destruído dentro de si mesmo. O Estado acolhe essa transferência de fé com satisfação, pois a fé depositada no poder político é a base de todo e qualquer totalitarismo, seja ele explícito ou velado.
No livro do Apocalipse, a marca da besta é mencionada como uma inscrição na mão e na testa. Os protestantes passaram muitos anos prevendo a aparição de chips implantados sob a pele e de tatuagens com códigos de barras. Eu interpreto de uma maneira mais simples, e acredito que essa interpretação está mais alinhada com o simbolismo do texto: a testa representa a consciência, ou seja, aquilo que você acredita, o que pensa e a forma como você organiza o seu mundo interior. A mão representa a ação, aquilo que você gera e realiza com base em suas crenças. A marca da besta não se trata de um chip. Trata-se de uma ideologia. É a ideologia que penetra a mente e começa a guiar os comportamentos. É o faz o que tu queres implementado não como um princípio explícito, mas como um sistema operacional invisível. Aqueles que adotam essa ideologia não ganham uma tatuagem, mas sim um padrão de pensamento e comportamento que é tão presente e tão naturalizado que parece ser apenas a forma como o mundo realmente é.
O capitalismo, tanto histórica quanto sociologicamente, representa a prática econômica do calvinismo. O comunismo representa a ação política de algumas vertentes apofáticas do judaísmo. Cada grande ideologia, portanto, possui uma teologia implícita, uma concepção do sagrado e do humano que a fundamenta, mesmo que, em muitos casos, ela negue qualquer aspecto transcendente. O ateísta que fundamentou seu sistema político na dignidade humana universal tomou essa dignidade do cristianismo, sem mencionar a origem. Mesmo sem ser nomeada, a raiz conceitual ainda atua. É por essa razão que afirmo que teologia e política não se separam; elas representam a mesma perspectiva de mundo atuando em áreas distintas. Aqueles que distinguem os dois, ou não compreendem nenhum dos dois, ou simulam essa separação para evitar confrontar a origem de suas próprias crenças.
Quanto mais solto, mais misturado, mais aberto à dissolução, mais simples se torna para esse demiurgo artificial assimilar uma pessoa. Essa incorporação não gera criaturas grotescas, pelo menos não de imediato. Gera indivíduos que estão um pouco insatisfeitos com tudo, que já não conseguem amar de forma leal, que não conseguem mais distinguir sem relativizar e que se sentem ofendidos por qualquer estrutura que não se dobre imediatamente à sua própria subjetividade. Gera indivíduos que permitem que suas parceiras sejam roubadas enquanto eles próprios fogem. Cria homens incapazes de fazer uma escolha sábia na hora de escolher uma esposa, pois o único critério que lhes foi ensinado é o interesse imediato. Cria indivíduos que consultam idosos que tiveram três casamentos fracassados em busca de conselhos sobre o amor, como se a somatória de fracassos os tornasse especialistas no assunto. Cria uma masculinidade cujo único impulsionador verdadeiro é a dopamina sexual, e não o amor, a lealdade ou a construção de algo que perdure. Trata-se apenas da acumulação de conquistas que não resultam em nada além de sua própria existência.
Bauman já anteviu isso. A modernidade líquida é, de fato, o cenário em que as conexões se desfazem, pois a fluidez se tornou o valor mais elevado. É um estado de permanecer livre de qualquer forma de permanência, de qualquer compromisso que limite a liberdade de movimentação, de qualquer amor que peça algo além do prazer do instante presente. O resultado é um isolamento constante, uma falta de habilidade para construir, criando indivíduos que desejam tudo, mas não conseguem sustentar nada.
O preconceito, que é a habilidade legítima de identificar padrões e tomar medidas antes que os custos se tornem elevados, é uma das mais antigas ferramentas de sobrevivência que possuímos. Há um livro na minha estante que argumenta a favor do preconceito como um mecanismo adaptativo indispensável, e a ideia é consistente: o preconceito que oferece proteção não é aquele que rebaixa; é o instinto treinado que identifica padrões de perigo antes que eles se tornem evidentes. Quando os movimentos atuais solicitam que você abandone seus preconceitos, na prática, estão pedindo para que você desative seu mecanismo de avaliação de perigos, permitindo que o predador se aproxime com mais facilidade. Não se trata de uma libertação. Trata-se de uma exposição intencional, apresentada como uma qualidade de acolhimento.
O preconceito dirigido à mulher que se apresenta ou age de forma a sugerir infidelidade não se trata de uma misoginia instintiva e irracional. É um padrão que a experiência coletiva da humanidade ao longo dos séculos já reconheceu. Desconsiderar intencionalmente esse padrão por receio de ser rotulado como preconceituoso é optar por uma cegueira frente a evidências, arcando posteriormente com as consequências dessa falta de visão, cujos custos não serão compensados por nenhuma retórica de abertura. Isso não significa tratar ninguém como se não fosse humano. É apenas utilizar o julgamento que você possui.
O cristianismo, e em especial o catolicismo, que considero a manifestação mais coerente e abrangente da tradição cristã, é, na minha perspectiva, a estrutura que se opõe de maneira mais consistente à gnose demonificante que mencionei. Não por ser uma religião repleta de regras opressivas, mas por ser uma perspectiva que considera a realidade objetiva, o logos em forma humana, como o padrão para toda a verdade. A ética da virtude, tanto em Aristóteles quanto em Tomás de Aquino, não deve ser vista como um conjunto de proibições: é uma explicação de como a natureza humana opera quando está voltada para seu verdadeiro propósito, e como ela se distorce quando essa direção é negligenciada. A prudência, a justiça, a coragem e a moderação não são deveres impostos de fora; elas representam as formas de excelência que se alinham com a essência mais profunda do ser humano. Quando essas estruturas são eliminadas por meio da desconstrução gnóstica, o que permanece não é um ser humano mais livre. Ele é um homem ainda mais confuso.
É por isso que a polarização é necessária. Portanto, a discussão não pode ser substituída pelo respeito paralisante que o progressismo exige. Portanto, os zumbis ideológicos que passaram pelo processo de demonificação e agora promovem a dissolução, acreditando ter encontrado a salvação, precisam ser reconhecidos pelo que realmente são e tratados com a seriedade que o diagnóstico exige. Sem crueldade desnecessária. Sem um desprezo meramente decorativo. Mas com a consciência de que há ideias que podem ser destrutivas, e que considerá-las apenas como diferentes é o primeiro passo em uma rendição que certamente não terá um desfecho positivo.
A criança de dez anos que grita quando não consegue o que quer e o homem de cinquenta anos que perde o controle quando seu ego é ameaçado são, essencialmente, a mesma manifestação em diferentes formas. O que os distancia não é sabedoria, nem maturidade, tampouco qualquer coisa que o passar do tempo possa gerar de forma automática. O que os distingue, quando alguém realmente amadureceu, é a anulação da gnose interna, ou seja, o instante em que a pessoa deixou de se considerar o centro de tudo e passou a observar a realidade com a honestidade necessária para reconhecer o que realmente existe, independentemente de sua preferência em relação ao que observa. Este momento marca o começo. A chegada em si não é o que importa; é apenas o ponto de partida para a possibilidade de alcançar um destino significativo.
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