A VERTENTE BÁRBARA-CRISTÃ DO CÍRCULO DE ESTUDOS NOUS
Nós, integrantes do Círculo de Estudos Nous, não nos deixamos influenciar por modismos filosóficos, nem nos sujeitamos ao sincretismo contemporâneo. Retomamos a trajetória dos primórdios cristãos, considerados por muitos como bárbaros morais que o Império Romano não conseguiu civilizar, e estabelecemos uma comparação direta com Conan, o Cimério: um combatente dotado de uma determinação cristã, distanciado de qualquer capricho luciferiano. Este ensaio representa a grande narrativa dessa resistência — desde a arena romana até a produção do aço, da fragilidade do pensamento contemporâneo à concepção de um mundo organizado por Deus. Que ressoe nas entrelinhas destas páginas a melodia daquele que se transforma em herói.
Gabriel G. Oliveira
7/3/202662 min ler


Barbarismo Intelectual e Solarpunk Cristão: a Odisseia da Rejeição
Existe uma melodia que ressoa ao fundo de toda essa narrativa. Aqueles que assistiram a Conan, o Bárbaro, lançado em 1982, compreendem o que quero dizer: os tambores de Basil Poledouris ascendem como um exército em marcha, e os metais sinalizam que um homem está prestes a transcender o seu próprio destino. É precisamente essa canção que ressoa ao fundo dos cristãos primitivos. Trata-se da melodia que se apresenta ao fundo do Círculo de Estudos Nous. Este texto destina-se, essencialmente, a elucidar qual é a corrente filosófica que estamos estruturando no Círculo — e o motivo pelo qual ela é, simultaneamente, a mais arcaica e a mais contemporânea de todas.
Um aspecto que sempre apreciei é a comparação entre a filosofia do Círculo de Estudos Nous e Conan, o Bárbaro, buscando, especialmente, estabelecer conexões com os cristãos primitivos. E você me indagará o motivo. Farei a declaração: é simples. Os cristãos primitivos enfrentavam as mais terríveis adversidades que se possa imaginar, sendo rotulados como bárbaros. Recebiam a classificação de bárbaros mesmo dentro do próprio Império Romano — não pelo fato de habitarem fora das muralhas, mas por residirem em seu interior e se negarem a se submeter. Possuíam tudo o que a cidade oferecia, interagiam com os operários, quitavam tributos, comunicavam-se nas línguas do Império, entretanto, o cristianismo nunca demonstrou tolerância em relação aos deuses da pólis. Ao contrário. Afirmavam: "Você será condenado ao inferno, a um reino de dor e sofrimento eterno, caso persista nesse comportamento — mesmo compreendendo plenamente o que é o cristianismo e optando por continuar a adorar esses deuses." Portanto, é por essa razão que, durante um extenso período, o Império Romano exerceu uma intensa perseguição aos cristãos.
É necessário realizar uma precisão que a pesquisa íntegra demanda, e que apenas reforça a argumentação apresentada. Os cristãos não eram usualmente categorizados pelo Estado romano como bárbaros, em seu sentido técnico e jurídico, ou seja, grupos estrangeiros localizados além da civilização greco-romana. Numerosos indivíduos detinham cidadania romana e pertenciam a distintas classes sociais. Entretanto, os autores e avaliadores pagãos caracterizavam o cristianismo como uma doutrina primitiva em sua essência, uma vez que derivava da tradição judaica e não da filosofia helênica. Celso, renomado polemista anticristão do século II, cujos raciocínios foram preservados por Orígenes na obra Contra Celsum, tinha a convicção de que a gênese do sistema religioso do qual o cristianismo emanava era de natureza bárbara. Houve, assim, uma autêntica imputação de barbarismo na controvérsia intelectual contra os cristãos — no âmbito cultural, filosófico e retórico. Os rótulos oficiais eram, de fato, ainda mais desfavoráveis: Suetônio, em sua obra sobre Nero, considera o cristianismo uma superstição nova e perniciosa; Tácito, em seus Anais, retrata-o como uma superstição nociva proveniente da Judeia; Plínio, o Jovem, ao se dirigir ao imperador Trajano, por volta do ano 112, menciona uma superstição depravada e desmedida. Ateísmo, falta de devoção, obstinação ilegítima, aversão à humanidade, canibalismo, incesto, feitiçaria. Em diferentes termos, o cristão era encarado como uma espécie de bárbaro interno — um indivíduo que habitava a cidade romana, seguia diversas de suas normas, mas rejeitava integrar-se à essência religiosa da urbe. E é precisamente esse aspecto interior bárbaro que o Círculo de Estudos Nous postula.
Por qual motivo Roma nutria tamanha aversão por essa negativa? A recusa ocasionava a quebra da máquina. E que dispositivo era este? Recentemente, tem surgido um grupo de ocultistas conhecido como Zé Buceta — em Primavera, utilizamos essa denominação, pois o indivíduo se configura, essencialmente, como a prostituta intelectual que mencionamos no Círculo de Estudos. É necessário que as pessoas compreendam que a linguagem de um local pode divergir significativamente da de outro, uma vez que se trata de uma gíria, correto? Retomando o tema, é possível observar de forma clara a presença da prostituição intelectual na antiguidade. O Império Romano desejava que o cristianismo se submeter àquela teologia excêntrica de sua autoria. A teosofia não teve seu início com Madame Blavatsky no século XIX; na verdade, sua origem remonta ao passado, ao universo greco-romano, onde sua mitologia se nutria de diversas tradições mitológicas. Uma fusão, como se a totalidade estivesse interligada. Uma perspectiva quase perene: muitos afirmavam a existência de uma religião primordial, na qual os deuses apenas trocavam de denominação nas diversas mitologias, sendo, contudo, os mesmos deuses.
O Império Romano possuía plena consciência de suas ações. Eram indubitavelmente mais inteligentes e competentes em comparação com os indivíduos que compõem os governos atuais. Observe a tática de dominação deles: apropriavam-se da concepção religiosa que você possuía e afirmavam — não, trata-se literalmente do mesmo deus, do mesmo culto. Unificavam, de maneira literal, todos os cultos. Havia a veneração a Hórus e a adoração a Hélio; assim, todos esses elementos eram integrados em uma única mitologia, e o deus Hélio-Hórus, resultante da fusão entre as duas divindades, poderia ser invocado sem dificuldades utilizando-se tanto os nomes associados ao culto a Hórus quanto os referentes ao culto a Hélio. A prática possuía, até mesmo, uma denominação técnica: interpretatio romana e interpretatio graeca — a tradução metódica de divindades estrangeiras para o interior do próprio panteão. Houve um período em que os cultos órficos passaram a se transformar efetivamente nisso: deixaram de ser apenas praticados por gregos e romanos, e começaram a incorporar influências de diversas origens. Os papiros mágicos da tradição greco-egípcia representavam, portanto, o emblema de toda essa interconexão espiritual, um culto esotérico exclusivo que se nutria dessa particular fusão de culturas. Eis que a fonte primária valida de maneira contundente o que afirmo: na edição de referência dos Papiri Graecae Magicae, elaborada por Karl Preisendanz e traduzida por Hans Dieter Betz, os encantamentos evocam, sem pudor, os nomes do Deus bíblico — Iao (transcrição grega do Tetragrama), Sabaoth, Adonai, Elohim — entrelaçados a Hélio, a Hórus, a Tifão, a Hécate, tudo coexistindo no mesmo caldeirão operativo. Trata-se, efetivamente, de designações do Deus judaico, o Divino do Antigo Testamento, incorporadas como um elemento adicional no acervo sincrético. Solicito que forneça um texto específico para que eu possa realizar a paráfrase conforme solicitado. Porque almejavam reunir tudo para assegurar poder. Ao assimilar a divindade de outra nação, você consome a própria nação. Não é necessário o conflito: ah, não, compartilhamos a mesma fé, apenas de uma interpretação diferenciada. Torna-se mais simples para adquirir domínio.
E quem não se entregava a esse tipo de tolice promovida pelo Império Romano? Os seguidores de Cristo. Todas as nações abandonavam; o único que não abandonava era o cristão, a etnia mais vigorosa que não se retirava. E, então, o Império exclamou: isso está obstaculizando toda a minha forma de controle. Uma vez que o Império adora todos os deuses como uma estratégia de poder para governar pacificamente, sem conflitos, e o Deus cristão recusa ser venerado nesse contexto, então a peça que não se integra revela toda a estrutura. Faço uma comparação entre essa situação e o tumulto protestante do alvorecer do protestantismo: Lutero, de forma inadvertida, deu origem a uma série de seitas, e, ao longo do tempo, surgiram monarcas protestantes que, com o intuito de simplificar, afirmaram que todas as interpretações eram legitimadas — exceto a da Igreja Católica. Isso ocorreu em períodos em que era permitido a entrada de protestantes de diversas correntes em tais reinos, enquanto os católicos eram excluídos. A Igreja Católica historicamente enfrentou perseguições, inclusive por parte de outros cristãos.
No entanto, retornando ao assunto, o cristão era considerado um bárbaro, pois era esse indivíduo que não se submetia a nada. Poderia falecer das maneiras mais atrozes imagináveis, mas não cedia. Além disso, o próprio culto cristão causava escândalo. O ritual cristão consiste em consumir a carne e o sangue. Os pagãos já concebiam isso como uma forma de canibalismo. São Justino Mártir, aproximadamente no ano de 150, relata em sua Primeira Apologia que a Eucaristia não é recebida como alimentos comuns, mas como a carne e o sangue de Jesus encarnado, e que apenas aqueles batizados que seguem os preceitos ensinados podem participar. Para um espectador alheio que recebia partes dessa comunicação — encontros realizados antes do alvorecer, acesso limitado aos iniciados, consumo do corpo e do sangue, adoração de um homem condenado à morte — a cena se apresentava sombria. Dessa forma, emergiu a alegação de que os cristãos assassinavam crianças e as consumiam em cerimônias de iniciação. Minúcio Félix, em sua obra Octavius, conserva a versão mais atroz do rumor: uma criança revestida de farinha, agredida pelo iniciado, falecida e fragmentada entre os envolvidos — e o próprio texto apresenta essas narrativas como imputações pagãs que, posteriormente, são contestadas. Tertuliano, na obra Apologeticum, documenta a mesma imputação e a desmantela por meio da ironia. Atenágoras, na obra Legatio, sistematiza as três principais acusações: o ateísmo, os banquetes tiesteus — canibais — e as uniões edípicas — incestuosas. O ponto crucial, corroborado pela investigação administrativa romana, é que Plínio inquiriu cristãos, submeteu a tortura duas escravas conhecidas como diaconisas, e o que constatou foi uma comunidade que entoava hinos a Cristo como se fosse uma divindade, comprometia-se a não furtar, não cometer adultério, não enganar, e compartilhava uma refeição comum e inocente. Roma reprovava veementemente o canibalismo genuíno; foi a junção de uma linguagem sagrada, um segredo coletivo e uma propaganda desfavorável que transformou a Eucaristia em uma forma de antropofagia simbólica.
O paradoxo mais intrigante é o do ateísmo. Os cristãos eram imputados como ateus — estes, que entregavam suas vidas ao único Deus verdadeiro. Para o cidadão romano ordinário, considerava-se pessoa religiosa aquele que honrava os deuses da cidade, da família, dos ancestrais e do Império. Ao negarem a divindade de Júpiter, Marte, Vênus e Apolo, os cristãos aparentavam repudiar o próprio cosmos sagrado. Justino admite de forma clara: sim, somos ateus — em relação aos vossos deuses; contudo, não em relação ao Deus verdadeiro. Essa negativa atingia de maneira abrangente todos os aspectos: a religiosidade, as tradições familiares, a identidade cívica e o orgulho histórico. Pior: violava a pax deorum, a tranquilidade com as divindades. A lógica cultivada na Roma Antiga era, em essência, a seguinte: Roma presta reverência aos deuses; os deuses outorgam triunfos, safras abundantes e estabilidade; um grupo de indivíduos negligencia a adoração a essas divindades; a proteção divina pode ser revogada; conflitos, epidemias e carestias podem afetar toda a sociedade. Consequentemente, o cristão era percebido como alguém que comprometia a segurança de todos. A rejeição do sacrifício converteva uma crença individual em uma ameaça manifesta à ordem cósmica.
E havia a avaliação. A correspondência entre Plínio e Trajano, aproximadamente em 112, evidencia um procedimento com uma frieza administrativa significativa. O réu estava sendo questionado: "Você se considera cristão?" A indagação poderia ser reiterada sob coação. Caso a persistência se mantivesse, poderia ser sancionada — Plínio admite que, independentemente das convicções, a obstinação inabalável e a teimosia merecem penalização. Se rechaçasse, era suficiente apresentar evidências: invocar os deuses de acordo com a fórmula estabelecida pelo magistrado, oferecer incenso e vinho diante da efígie do imperador e proferir maldições contra Cristo — práticas que, conforme afirmado pelo próprio Plínio, não podem ser impostas a verdadeiros cristãos. Trajano respondeu com a abordagem que prevaleceria por várias décadas: não buscar os cristãos de maneira ativa, recusar delações anônimas, contudo, punir os denunciados que não se retratassem. Isso evidencia um aspecto peculiar sob a perspectiva contemporânea: o Estado não necessitava comprovar homicídio, conspiração ou canibalismo. A negativa pública em desistir do nome cristão era suficiente. O teste religioso operava como um exame político: aquele que não incensa o gênio de César admite a existência de um Senhor superior ao imperador.
As etapas repressivas se desenrolam como episódios de uma tragédia. Por volta do ano 64, após o devastador incêndio de Roma, Nero utilizou os cristãos como bodes expiatórios: Tácito narra a cena de indivíduos envergando peles de feras e sendo despedaçados por cães, crucificados e incendiados para servir de iluminação noturna nos jardins imperiais — e o próprio Tácito, que nutria hostilidade em relação aos cristãos, reconhece que surgiu compaixão, pois aparentavam ser aniquilados não em prol do bem público, mas para satisfazer a crueldade de um único homem. Nos séculos II e III, houve a predominância de processos locais, denúncias, mobilizações populares e governadores. Entre os anos 249 e 250, Décio impôs a todos os cidadãos do Império a obrigação de oferecer sacrifícios aos deuses e instituiu um sistema de certificados, denominados libelli — mais de quarenta desses documentos foram preservados nas areias do Egito, comprovando, de maneira burocrática, quem realizou a queima de incenso: sempre ofereci sacrifícios aos deuses e, neste momento, na vossa presença, de acordo com o edito, fiz libação, ofereci sacrifício e participei da carne das vítimas. Para o cristão, aquele fragmento de papiro representava a confirmação da apostasia. Valeriano, entre 257 e 258, focalizou a estrutura da Igreja: bispos, presbíteros, diáconos, cristãos influentes — o papa Sisto II, decapitado na catacumba; São Cipriano, decapitado em Cartago; e São Lourenço, assado na grelha, conforme a tradição. Diocleciano, a partir de 303, iniciou a Grande Perseguição: templos arrasados, textos sagrados incinerados, direitos suprimidos, clérigos encarcerados, e sacrifícios exigidos sob coação. Uma década de máquina imperial confrontando a Igreja — e a Igreja emergiu desse embate munida do Edito de Milão.
E os mártires transitaram por todas essas adversidades, assim como os heróis superam a tempestade. No ano de 177, em Lyon, a correspondência das igrejas de Lyon e Viena, conservada por Eusébio de Cesareia, relata a história da escrava Blandina: considerada tão debilitada fisicamente que suas colegas temiam que ela não suportasse, ela cansou os torturadores que se alternaram em seu tormento desde o amanhecer até o anoitecer, repetindo unicamente — sou cristã, e entre nós não se realiza nenhuma ação maliciosa. Suspensa em um poste, servindo como alimento para as bestas, parecia aos irmãos possuir a forma daquele que foi crucificado. As feras não a contataram naquele dia. Retornou à arena no derradeiro dia das apresentações, após ser submetida a açoites, enfrentando feras, a grelha incandescente, e, por fim, foi envolta em uma rede e lançada contra um touro. Os próprios pagãos admitiam nunca ter presenciado mulher padecer de forma tão intensa e prolongada. Em Cartago, no ano de 203, Perpétua — uma nobre de vinte e dois anos, mãe de um filho ainda amamentado — redigiu, enquanto estava encarcerada, o diário de seu martírio, o mais antigo registro que possuímos elaborado por uma mulher cristã. O seu pai suplicava que ela realizasse o sacrifício; ela indicou um vaso e indagou: "Pai, esse vaso pode receber outra denominação que não seja vaso?" Da mesma forma, não posso ser denominada de outra maneira senão pela minha essência: cristã. No anfiteatro, diante de uma vaca selvagem, ao lado da escrava Felicidade — que havia dado à luz na prisão dias antes, para poder falecer junto aos seus companheiros —, Perpétua ainda conduziu a mão trêmula do gladiador iniciante em direção à própria garganta. O autor do relato observa: possivelmente, uma mulher dessa natureza não poderia ser assassinada de outra forma, a menos que ela própria assim o desejasse.
Isso é uma composição de Poledouris executada no século II. Isso é o herói evidenciando que sua verdadeira força reside em seu espírito.
Antes de progredir, apresento aqui, conforme prometido, o catálogo dos ritos — uma vez que o leitor deve observar com seus próprios olhos o vasto oceano religioso no qual o cristão afirmava a negação. É imprescindível realizar a correção histórica necessária que a investigação forense exige: não existem indícios de que sacerdotes de Mitra, Ísis ou Cibele criassem instituições voltadas para a perseguição de cristãos. A engrenagem persecutória não se configurava como um sacerdote encapuzado oculto em um templo; apresentava-se de modo bastante mais gelado: altar, magistrado, ícone imperial, acusação, multidão e condenação. Os rituais pagãos operavam principalmente como avaliações públicas de submissão — o fiel cristão era libertado ao realizar o sacrifício e condenado ao recusar-se a fazê-lo. Aqui estão, portanto, aqueles que colidiam frontalmente com ele. Primeiramente, os exames diretos de identidade consistem no sacrificium publicum dedicado aos deuses oficiais; no sacrifício universal realizado por Décio; na thurificatio, que se refere à queima de grãos de incenso perante o altar; na libatio, que representa o vinho derramado; na immolatio da vítima animal; na gustatio victimarum, que é a experiência da carne sacrificada atestada nos libelli; na oblatio realizada diante da imagem de César; na invocatio deorum estipulada pelo magistrado; no culto ao genius Augusti e no juramento pelo genius do César; nas orações votivas pro salute imperatoris; na adoração conjunta a Roma e Augusto; além das duas exigências que, embora não fossem rituais pagãos tradicionais, configuravam um teste de apostasia — a maledictio Christi e a negatio nominis. Em seguida, o calendário imperial completo: o natalis imperatoris, o dies imperii, as decennalia e vicennalia, o adventus e a profectio de Augusto, o triunfo acompanhado de sacrifício no Capitólio, os jogos votivos, o culto aos divinos — imperadores falecidos que foram divinizados por meio da consagração e da apoteose —, os templos provinciais do Caesareum e do Sebasteion, a Victoria Augusta, a Fortuna Augusta, a Pax Augusta, o Numen Augusti, e os Lares Augusti nas encruzilhadas. Em seguida, abordamos a religião militar, a qual incluía o Feriale Duranum, calendário sagrado das legiões que perdurou em um papiro de Dura-Europos; o sacramentum, compromisso de fidelidade; a veneração aos estandartes e as rosaliae signorum, ocasião em que as águias eram adornadas com rosas; a lustratio do exército; a suovetaurilia — figura composta por porco, ovelha e touro — que purificava as tropas; e a evocatio, o ritual de convite para que o deus da cidade adversária se transferisse ao lado romano. Subsequentemente, as festividades públicas que entrelaçavam a existência ao altar: Lupercália, com seu sacrifício de cabras e cães, e o sangue na fronte dos jovens; Saturnália; Lemúria, com seus feijões negros destinados aos espíritos inquietos; Parentália e Ferália, realizadas nos túmulos; Vestália, em torno do fogo sagrado; Parília, Robigália e Fordicídia, com suas vacas gestantes sacrificadas; o Cavalo de Outubro, oferecido a Marte; os Argei lançados ao Tibre; e a devotio, mediante a qual um general consagrava a si mesmo e ao exército adversário aos deuses infernais antes de sucumbir à morte. Subsequentemente, as festividades — Ludi Romani, Megalenses, Apollinares, Plebeii, Saeculares — cujos rituais grandiosos incorporavam as representações divinas e em cujas arenas os cristãos condenados eram incluídos no espetáculo: a damnatio ad bestias, a submissão aos touros, leões, ursos e leopardos; o vivicomburium, referente à queima viva; a crucifixio; a decollatio, reservada aos cidadãos; a damnatio ad metalla, caracterizada pela morte lenta nas minas; e as reconstituições mitológicas, nas quais o condenado perecia vestido como personagem. E, em torno de tudo, os cultos de mistério com seus rituais de sangue e êxtase: o taurobolium de Cibele — o imersão no sangue do touro, cuja célebre descrição é tardia e debatida pelos historiadores, afirmo com sinceridade —, o Dies Sanguinis em que os sacerdotes se autoflagelavam, a castração ritual dos galli, a árvore de Átis desfilando em procissão, as Hilária; o Navigium Isidis com seu barco de oferendas, as iniciações de Ísis utilizando vestes de linho e cabeças raspadas, o lamento e a ressurreição de Osíris, a incubação nos templos de Serápis; os sete graus mitraicos — Corvo, Noivo, Soldado, Leão, Persa, Corredor do Sol, Pai — com sua refeição ritual diante da tauroctonia; os mistérios de Elêusis com o kykeon e a epopteia; os Cabiros da Samotrácia; as Bacanais; as purificações órficas; a sanguinatio dos sacerdotes de Belona; o culto da Dea Syria; a pedra sagrada de Elagábalo transportada em procissão; o Sol Invictus e seu Natalis. Tal era o mundo. Um universo repleto de altares. E, em seu centro, um homem permanecia em pé diante do incenso disposto pelo magistrado, afirmando: não farei sacrifício. Roma acolhia uma variedade de divindades, desde que tivessem um espaço dentro de seu território; por outro lado, o cristianismo professava a crença em um único Deus, submetendo Roma ao seu julgamento. Dessa forma, o cristão não necessitava brandir a espada para se apresentar como um revolucionário.
Entretanto, ao necessitar utilizar, fez uso. Neste contexto, introduz-se a segunda faceta da epopeia: o cristão enquanto combatente. Os gregos daquela época classificavam os cristãos como bárbaros, e posteriormente, outros grupos pagãos também os avaliaram da mesma forma, por um motivo a mais: o cristão possuía um propósito para engajar-se em combates. E essa razão era Deus. Ele possuía convicção de que, ao combater aqueles que dizimavam sua gente e violentavam suas mulheres, proclamava: luto por Deus, pela redenção das almas e por meu filho. Os Templários, em especial, assim como os combatentes que os acompanhavam, possuíam essa fé profundamente enraizada. Por essa razão, considero curioso quando as pessoas afirmam: "Ah, mas os sacerdotes permaneciam reclusos, o monarca residia no pequeno castelo, quem combatia era o povo." Nada se encontra mais distante da veracidade. Os padres-guerreiros e os monarcas lideravam suas tropas; dentre o povo, participava aquele que desejasse e fosse capaz de lutar — enquanto os verdadeiramente necessitados permaneciam nos feudos, sob proteção. Neste contexto, a precisão autêntica apresenta indícios para ambos os lados, sem comprometer a argumentação: o direito canônico proibia o clero secular de derramar sangue — ecclesia abhorret a sanguine — e é verídico que um padre de paróquia não integrava a linha de combate; contudo, a reação da Igreja a essa tensão consistiu precisamente na criação inovadora das ordens militares: monges que se tornaram cavaleiros, cavaleiros que se transformaram em monges. Entre os anos de 1119 e 1120, Hugo de Payens estabeleceu os Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão; o Concílio de Troyes, realizado em 1129, conferiu-lhes uma norma; e São Bernardo de Claraval — o mais proeminente monge do século — redigiu para eles o De laude novae militiae, intitulado Elogio da Nova Milícia, articulando a síntese ideal: o cavaleiro de Cristo é um cruzado em ambas as batalhas, tanto contra a carne e o sangue, quanto contra os espíritos malefícios; falecer em combate por Cristo não configura homicídio, e sim malicídio — a erradicação do mal. Eis que se encontra, escrito em preto sobre o pergaminho do século XII, a seita que orava e batalhava. Os bispos guerreiros proliferaram abundantemente, destacando-se Odo de Bayeux, que brandiu a maça na Batalha de Hastings, uma vez que a maça desferiu golpes sem a necessidade de derramar sangue — configurando a casuística mais bárbara e, ao mesmo tempo, mais aprazível da cristandade. No que tange à Inquisição, a historiografia documental revela que os tribunais eclesiásticos medievais apresentavam, para os padrões da época, características mais garantistas do que os tribunais seculares — demandavam provas, registravam atas e impunham penitências na maioria esmagadora das situações —, além de que a representação da fogueira consumindo milhões de inocentes resulta de uma construção posterior, de caráter panfletário. E quanto às bruxas, de fato? Se a investigação se dirigir aos rituais verdadeiramente executados fora do cristianismo na Europa pré-cristã e nas suas permanências, constatar-se-á a existência de práticas muito mais graves do que apenas ervas e caldeirões. Encontrará prática de sacrifício humano.
Neste ponto, é necessário introduzir o tema dos cultos sangrentos, uma vez que sua abordagem é fundamental para compreender a razão pela qual as nações belicosas se dirigiram à Igreja. Iniciemos pelos celtas. As fontes clássicas convergem de maneira inequívoca e direta: Júlio César, em sua obra De Bello Gallico, no livro VI, relata que os gauleses incineravam pessoas vivas dentro de grandes estátuas de vime — o homem de vime; Estrabão e Diodoro Sículo corroboram os sacrifícios, acrescentando que as convulsões da vítima apunhalada eram interpretadas como forma de adivinhação; Lucano, em sua obra Farsália, menciona a temível tríade — Esus, Taranis e Teutates — a quem eram oferecidos sacrifícios de sangue humano. Os celtas decapitavam adversários: Diodoro e Estrabão relatam que os guerreiros suspensavam as cabeças de seus inimigos nos arreios dos cavalos e preservavam as de adversários ilustres em óleo de cedro. A arqueologia corroborou a prática do culto das têtes coupées nos santuários de Roquepertuse e Entremont, localizados no sul da Gália, onde foram encontrados nichos confeccionados em pedra, destinados a receber crânios humanos autênticos; além disso, o corpo encontrado em pântano de Lindow, na Inglaterra — de um jovem saudável, ferido, estrangulado e decapitado em um ritual de morte trifásico —, assim como o osso humano fraturado para a extração de medula no local de Alveston, e o matadouro ritual de Ribemont-sur-Ancre, resultam em um estado de discussão acadêmica que indica: o sacrifício humano celta é PROVÁVEL e ESTABELECIDO em determinados contextos, embora os pormenores de cada relato romano devam ser interpretados com a cautela necessária ao se considerar a perspectiva de quem escrevia sobre o adversário. O jovem pagão que, por meio de um ritual de iniciação, assassinava um desconhecido e transportava a cabeça para sua tribo. Nem as fontes, nem as pedras de Entremont podem refutar-me. A Irlanda preservou em sua própria memória o nome da divindade que consumia esse sangue: Crom Cruach. Registre este nome, pois ele retornará de maneira transformada.
O Dindshenchas Métrico — abrangente compêndio medieval irlandês da tradição dos lugares, organizado e traduzido por Edward Gwynn — reserva um poema à planície de Magh Slécht, conhecida como a Planície das Prostrações, e revela as práticas que ali ocorriam: um ídolo de ouro circundado por doze ídolos de pedra, ao qual os gaélicos prestavam ofertas de seus primogênitos em troca de leite e grãos. "Leite e grão pela perda dos filhos, afirma o poema; o horror e o lamento eram imensos." A narrativa "A Vida Tripartida de São Patrício" revela um desfecho que qualquer roteirista de uma epopeia valorizará. São Patrício percorre a Irlanda, alcança Magh Slécht, levanta o báculo — o Bachall Ísu, o Báculo de Jesus — e o ídolo de ouro se dobra, se inclina e se enterra no solo, enquanto os doze ídolos de pedra se imergem até a altura das cabeças. O deus curvado — e Crom significa precisamente o curvado, o torto — curvou-se diante do Cristo. O folclore irlandês preservou a memória através da figura de Crom Dubh, o Curvado Negro, cujo domingo — Domhnach Chrom Dubh, o derradeiro domingo de julho, sucessor do Lughnasadh — ainda atrai, atualmente, milhares de peregrinos descalços ao cimo do Croagh Patrick, a montanha de Patrício, conforme foi magistralmente documentado por Máire MacNeill em The Festival of Lughnasa. O deus obscuro da montanha foi derrotado na montanha, que se transformou em santuário. Não fui o criador desta dramaturgia; ela encontra-se nas fontes.
E os indivíduos nórdicos? Idêntica epopeia, distinto cenário. Adam de Bremen, um cônego germânico do século XI, relata sobre o majestoso templo de Uppsala, localizado na Suécia, no qual, a cada nove anos, realizava-se um festival que envolvia o sacrifício de nove machos de cada espécie — incluindo humanos — cujos cadáveres eram pendurados em um bosque sagrado, onde cada árvore era considerada divina. A arqueologia em Gamla Uppsala, assim como os achados em Trelleborg, oferece um suporte parcial, com a presença de postes rituais e poços contendo esqueletos de crianças e de animais. Faço uma classificação honesta: a perspectiva geral do sacrifício humano nórdico é VEROSSÍMEL, apresentando aspectos que Adam pode ter amplificado devido à hostilidade cristã — no entanto, os poços de Trelleborg não foram escavados por polemistas. As fontes da Islândia registram, sem embaraço, as práticas que a conversão eliminou: o barnaútburðr, que consiste na exposição de recém-nascidos não desejados, abandonados para perecer à mercê das intempéries. Assim sendo, quando a Islândia inteira adotou o cristianismo, no ano 1000, durante a assembleia do Alþingi — tal episódio encontra-se registrado na Íslendingabók, obra de Ari Þorgilsson, o Sábio, escrita entre os anos de 1122 a 1133 —, o legislador pagão Thorgeir Thorkelsson, selecionado como mediador exatamente por ser pagão, permaneceu um dia e uma noite deitado sob o manto, em silêncio, e ao se erguer proclamou: para que não infrinjamos a lei, não rompamos a paz — que haja uma única lei e uma única fé; todos deverão ser batizados. Os antigos costumes tolerados temporariamente — a ingestão de carne de cavalo, a oferenda privada, a exibição de crianças — foram desaparecendo gradativamente ao longo dos anos subsequentes. Uma nação inteira transformada por decisão de assembleia, sem derramamento de sangue, pois um pagão íntegro refletiu sobre a questão e despertou ao lado da Cruz. Haroldo Dente-Azul já havia erguido, na Dinamarca, por volta do ano de 965, a pedra de Jelling — a certidão de batismo da Escandinávia, como é denominada — proclamando em runas: este Haroldo que subjugou toda a Dinamarca e a Noruega e converteu os dinamarqueses ao cristianismo. A Noruega contou com seus dois Olavos de ferro, Tryggvason e Haraldsson — este último, falecido em combate em Stiklestad no ano de 1030, foi canonizado como Santo Olavo, o eterno rei da Noruega.
E qual seria a razão pela qual esses povos belicosos se mobilizaram? Apresento a minha dissertação, sustentada pelas fontes: a razão pela qual o paganismo nórdico possuía uma concepção extremamente similar à católica em um aspecto fundamental — se eu falecer em favor do meu próximo, se eu perecer em sacrifício durante a luta, terei acesso ao Valhalla. O católico possui, de fato, uma estrutura de alma semelhante, contudo, depurada e sublimada: sacrificar-se por Cristo, pelo próximo e pela família, proporciona a abertura do céu — sem a necessidade de ceifar a vida dos filhos, sem expor os recém-nascidos, nem enforcar homens no bosque de Uppsala. O historiador Anders Winroth, na obra The Conversion of Scandinavia, demonstra que os líderes nórdicos abraçaram o cristianismo em grande medida por sua própria vontade, seduzidos pelo prestígio, pela literacia, pela organização — e acrescento: pela profunda afinidade entre a ética do sacrifício bélico e o Deus que se entregou. O cristianismo purificou a masculinidade sem aniquilá-la. Era exatamente isso que aquela população necessitava: de fato, é a solução — e não é mais necessário sacrificar nossos filhos. Os brutamontes que adornavam-se com a pele dos adversários vencidos identificaram no Crucificado o único prêmio que tinha valor eterno.
E, no lado oposto do oceano, séculos mais tarde, a mesma melodia ressoou na Mesoamérica — e aqui, declaro sem ambiguidade o meu imenso desconhecimento, tal como a integridade intelectual do Círculo demanda. Não consigo determinar com exatidão se a divindade a que me refiro é de origem maia, tolteca ou asteca; expresso aquilo que li e o que foi constatado. Constata-se que a evidência é robusta. Está documentada, em fonte primária colonial na língua náuatle — os Anales de Cuauhtitlan, compilados por volta de 1570 com base em tradições anteriores —, a figura de Topiltzin Quetzalcóatl, o sacerdote-rei de Tula, acerca de quem o texto afirma textualmente: e relatam que, em sua época, nunca consentiu em sacrifícios humanos; apenas sacrificava serpentes, aves e borboletas. Os demônios o atormentavam precisamente para que ele sacrificasse homens, o que jamais desejou, pois nutria um profundo amor por seu povo. Tal circunstância é CONSIDERADA uma tradição documentada: no interior do universo mesoamericano, imerso até a exaustão em sangue ritual, havia a recordação de um deus-sacerdote que rejeitava o sacrifício humano e que partiu rumo ao oriente prometendo — nas variantes da lenda — retornar. As fontes coloniais, especialmente o Códice Florentino de Sahagún, indicam que os nativos interpretaram a chegada dos espanhóis e do cristianismo sob essa perspectiva, destacando os presságios e a indecisão de Montezuma. Há, portanto, a nuance que a pesquisa contemporânea exige e que registro com firmeza, visto que uma tese que busca omitir objeções não é verdadeira tese: historiadores como Matthew Restall, em "Seven Myths of the Spanish Conquest", defendem que a associação entre Cortés e Quetzalcóatl, conforme a conhecemos, é em grande medida uma construção posterior à conquista, elaborada nas décadas subsequentes por meio do intercâmbio entre frades e informantes nahuas. É viável. Afirmo, portanto, com rigor analítico: existem INDÍCIOS na tradição documentada que sugerem que o mundo mesoamericano aguardava um mensageiro da verdade que extinguiria o sacrifício — a figura de Topiltzin é uma evidência —, e há CONTESTAÇÃO acadêmica acerca da extensão em que essa expectativa foi atribuída a Cortés, seja antes ou depois do acontecimento. A dissertação não requer mais do que isso: uma civilização que vertia o sangue de indivíduos pelos degraus das pirâmides — e o tzompantli de Tenochtitlan, a estrutura de crânios escavada pelos arqueólogos entre 2015 e 2020 nas imediações do Templo Mayor, contendo centenas de crânios de homens, mulheres e crianças, extinguiu, para sempre, a ilusão de que o sacrifício asteca era uma ampliação por parte dos espanhóis — conservava em seu interior a lembrança de um deus que não desejava sangue humano. Quando o Deus que abomina a derramamento de sangue humano — por haver oferecido o próprio — chegou à terra, naquela ocasião, a lembrança despertou. O que se segue é um relato registrado: a manifestação de Guadalupe em 1531, descrita no Nican Mopohua em náuatle, a Virgem de pele morena comunicando-se na língua dos conquistados, sob o manto de um indígena, resultando em milhões de conversões na década subsequente. O México transformou-se em uma das nações mais cristãs do planeta. Os grupos que mais derramavam sangue foram aqueles que mais rapidamente se dirigiram ao Sangue que redime.
Nórdicos, celtas e mesoamericanos: três manifestações de uma mesma epopeia. O povo destemido e sacrificial identifica no cristianismo a expressão elevada de sua própria intuição — o sacrifício máximo já foi realizado, de forma definitiva, na Cruz — e transforma a bravura em benevolência, sem abrir mão do embasamento da armadura. Foi extraordinário, compreendeu? Pois o sacrifício de Cristo, de forma literal, afirma: "Você pode se aproximar de mim; se você falecer em um confronto, dedicando-se por aqueles que efetivamente precisam, há espaço para você." Trata-se de uma característica profundamente associada ao masculino. Antes que a defensora do feminismo de plantão afirme que os cultos femininos eram superiores, cumpre mencionar que os cultos femininos da antiguidade não lograram êxito na história. Curiosamente, eram esses cultos que instigavam os homens a irem para a guerra, a fim de proteger as sacerdotisas-governantes. A imperatriz-sacerdotisa, ao contemplar a feminista contemporânea, provavelmente não compreenderia uma única palavra da acusação de machismo, uma vez que o regime predominante era matriarcal e, ainda assim, ou por essa razão, o homem comum arcava com o ônus do sangue. A percepção que a cultura global possui a respeito do suposto patriarcado católico revela-se, de maneira significativa, bastante equivocada.
E assim chegamos ao protagonista. Toda epopeia requer um rosto, e a figura que selecionei para representar a esfera do Círculo possui cabelos negros em um corte à tigela, olhos azuis intensos e uma espada cuja massa é superior à burocracia de um império completo. Conan, o Bárbaro, é essencialmente um cristão na aparência. E irei evidenciar isso sem elaborar fantasias, diferenciando com precisão o que constitui fato comprovado acerca de Robert E. Howard, o que se entende por texto verificável dos contos, e o que representa a minha interpretação simbólica — a qual é válida, mas é minha, proveniente do Círculo, e não uma assertiva sobre a intenção explícita do autor. Essa diferenciação representa a nossa privilegiada compreensão epistemológica.
Inicialmente, os eventos. Conan não é originado pelo filme de Schwarzenegger ou pelos quadrinhos da Marvel: sua criação remonta a histórias publicadas a partir de 1932 na revista Weird Tales, escritas pelo autor texano Robert Ervin Howard, nascido em 1906 — o que torna o cimério um personagem mais antigo que O Senhor dos Anéis. Há indícios, que classifico sinceramente como INDÍCIO e não como evidência, de que Tolkien leu e apreciou pelo menos uma narrativa sobre o bárbaro: a informação provém de L. Sprague de Camp, que teve a oportunidade de visitar Tolkien em 1967, anotou que o professor apreciava bastante as histórias de Conan que havia lido — um testemunho de segunda mão, proveniente de uma testemunha com interesse editorial na questão, e, portanto, deve ser considerado com cautela. A concepção do personagem possui um aspecto místico, se me permitem afirmar. Na comunicação de Howard — e nesta situação a fonte é primária e divulgada, A Means to Freedom: The Letters of Robert E. Howard e H. Desculpe, mas não há texto suficiente para criar uma paráfrase. Por favor, forneça um texto mais extenso para que eu possa ajudá-lo. Lovecraft, em dois volumes, acompanhada pelas Cartas Reunidas de Robert E. Howard Foundation — o autor texano caracteriza a vivência de redigir Conan como uma forma de possessão criativa. Na célebre correspondência endereçada a Clark Ashton Smith, datada de 14 de dezembro de 1933, Howard menciona que o personagem emergiu em sua mente de maneira súbita, já plenamente formado, sem demandar muito labor de sua parte, como se o homem tivesse, de fato, existido e estivesse narrando suas próprias peripécias. Ele relatou que, durante semanas, dedicou-se apenas a escrever sobre essa figura, com o conteúdo jorrando livremente, sem a necessidade de acionar qualquer mecanismo. Não elaborava; descrevia o que o bárbaro impunha. Há quem afirme que Conan representa a idealização do próprio autor: Howard praticava boxe, levantava pesos, devorava livros sobre civilizações antigas e, principalmente, sobre os celtas — nutria um orgulho intenso pela herança gaélica, irlandesa e escocesa, e finalizava suas correspondências com expressões de bravura céltica. E, não obstante venerar a força e a bravura, tratava-se de um gentleman introspectivo, erudito, que coexistia com uma profunda melancolia que acabaria por ceifar sua existência aos trinta anos, em 1936. A biografia do autor contribui para a compreensão da filosofia; sugiro "Blood and Thunder", de Mark Finn, além das pesquisas de Patrice Louinet, considerado o principal especialista global na cronologia das obras.
Agora, Crom. O nome não surgiu de maneira aleatória no Texas: os estudiosos de Howard consideram que se trata de uma derivação PROVÁVEL do Crom Cruach irlandês — o mesmo ídolo contorcido de Magh Slécht que foi derrubado por São Patrício, e que mencionei algumas páginas atrás. Howard, fervoroso leitor de lendas irlandesas, já utilizava Crom como uma imprecação gaélica na fala de seus heróis célticos anteriores, Turlogh Dubh O'Brien e Cormac Mac Art, antes de transferi-lo para a Ciméria. Sim — mencionei na transcrição original que Crom integra essas mitologias celtas e gaélicas, e uma pesquisa aprofundada corroborou essa afirmação: a raiz irlandesa é o entendimento consensual entre os especialistas; no que tange a um equivalente galês direto, reconheço a ausência com sinceridade — o que se encontra no País de Gales são paralelos temáticos, como a cabeça oracular de Brân, o Abençoado, no Mabinogion, que operam como analogias e não como genealogias. Entretanto, é imprescindível observar a operação alquímica realizada por Howard, pois esta constitui o cerne da minha análise: ele apropriou-se do nome do deus que demandava os primogênitos e o despojou totalmente do sacrifício. O Crom de Howard não requer sangue. Não solicita orações. Não solicita nada. A afinidade com Crom Cruach restringe-se ao nome; o conteúdo, por sua vez, é distinto — e é precisamente nesse conteúdo que reside o enigma.
Quais informações os textos verificáveis divulgam sobre Crom? O local clássico encontra-se em A Rainha da Costa Negra, obra de 1934, no intercâmbio teológico entre Conan e a pirata Bêlit — de fato, o bárbaro engaja-se em um diálogo teológico, que é um dos mais primorosos da literatura pulp. Conan afirma, e proporciono uma tradução próxima ao original: os deuses da Ciméria são Crom e sua estirpe obscura, que dominam uma terra desprovida de luz solar, o reino dos falecidos, a Ciméria perene. Qual é a utilidade de invocá-lo? Pouca relevância se atribui à existência ou à morte dos homens. É preferível manter-se em silêncio do que buscar a sua atenção; certamente ele trará infortúnio, e não prosperidade. É obscuro e desprovido de afeto, mas no surgimento do ser humano injetam-se em sua essência a capacidade de combater e aniquilar. O que mais deveria os deuses conceder aos seres humanos? E finaliza, em oposição às nuances metafísicas dos civilizados: não existe esperança neste lugar nem no além, porém... afaste a filosofia teológica e manifeste a crença que encerrará este ensaio. Em outros contos, Crom surge mais de cem vezes — quase sempre como uma maldição e um juramento, "Crom!", "por Crom!", "Crom conte os mortos!" — e apenas dois ou três parágrafos o descrevem: reside em uma imponente montanha; é reservado, inflexível, primitivo; despreza os fracos; não atende às súplicas; sua única benesse é o sopro primordial — a coragem, a determinação de viver, lutar e matar, incutida na essência do homem no momento de seu nascimento. É fútil invocá-lo, uma vez que ele se configura como uma divindade obscura que despreza os incapazes, porém concede ao ser humano, no momento do nascimento, a bravura, a determinação e a potência para eliminar seus adversários — o que, na concepção de Conan, representava tudo aquilo que se poderia aguardar de uma divindade.
Neste momento, a análise simbólica do Círculo — e enfatizo: análise simbólica, síntese de símbolos em uma entidade divina, fundamentada em semelhanças textuais concretas, e não em afirmações de Howard acerca de suas próprias referências. Afirmo que Crom representa uma síntese de três faces, e os textos me fornecem as correlações. Primeiro semblante: Odin. O divindade suprema e tenebrosa das Eddas, que não se caracteriza pela bondade, incumbindo-se da seleção dos falecidos, que se suspendeu por nove noites em Yggdrasil, lesionado pela própria lança, em um ato de sacrifício de si para si, conforme afirmado no Hávamál, estrofe 138 — o deus que representa a montanha do êxtase bélico. O segundo rosto: o Deus do Antigo Testamento. O paralelismo textual aqui é de provocar calafrios: Crom infunde na essência do ser humano, desde o nascimento, o desejo de viver. Então, o Senhor Deus moldou o ser humano a partir do pó da terra e insuflou-lhe, pelas narinas, o sopro da vida, tornando-o, assim, uma alma vivente. A exalação que origina a essência. Howard, filho da Bíblia texana, apesar de pessoalmente cético — Patrice Louinet o insere em um agnosticismo melancólico, e eu faço uma brincadeira: se Howard era ateu, ele era o ateu mais cristão que conheço —, conferiu ao seu deus obscuro o gesto preciso do Deus de Adão. O Deus do Antigo Testamento é igualmente o juiz temível, que reprova tanto a covardia quanto a idolatria; Ele reside na montanha, isto é, no Sinai fumegante, onde nenhum ser humano poderia tocar sem sucumbir. Ademais, não se permite ser influenciado por qualquer tipo de barganha ritual: rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes. O terceiro semblante: a expressão da justiça de Cristo. Não se trata do Cristo domesticado dos cartazes, mas daquele descrito em Apocalipse 19 — com olhos como chamas de fogo, da boca emerge uma espada afiada, trajando vestes tingidas de sangue, e que julga e guerreia com equidade — além do mencionado em Mateus 25, que distingue e sentencia. Crom, o divindade que despreza os débeis, representa uma antecipação pagã e literária desse aspecto: a de um Deus que não deseja servos lamentosos, mas sim filhos que afrontem a tempestade. Três faces, um emblema. Trata-se da minha análise, referente ao Círculo, a qual se fundamenta nos paralelos que acabo de apresentar sobre a mesa.
Os diálogos entre Conan e Crom — especialmente na fase mais recente das histórias em quadrinhos, onde Jason Aaron retrata Crom como a própria montanha — são extremamente significativos, uma vez que evidenciam o cristão iracundo em relação a Deus. Conan é um cristão um tanto revoltado: demonstrando descontentamento com Deus, expressa que se sente frustrado, acreditando que Deus lhe causou essa indignação e que suas ações foram inadequadas. O bárbaro se apresenta como arrogante diante do sagrado — algo habitual em sua natureza, assim como o verdadeiro cristão tende a agir com presunção em relação a Deus nas lamentações dos salmos, em Jó clamando do lodo, e em Jeremias, que denuncia: seduziste-me, Senhor, e eu me deixei seduzir. E Crom, por vezes, esculpe o mundo com a intenção de punir Conan, para que ele aprenda a ter respeito e cautela ao se referir aos deuses. Nesse embate, encontra-se uma teologia completa. Por essa razão, não aprecio determinadas narrativas-filhas, elaboradas por outros autores após Howard, nas quais Conan se dirige ao palácio de Crom como se fosse fazer uma visita a um vizinho: Crom representa algo muito superior; frequentemente, menciona-se que Crom reside na montanha, ou que ele é, em essência, a própria montanha. Não se trata de uma divindade ébria rodeada de mulheres. Ele é superior a isso. Restringir Crom, a personagem apresentada em cena, equivale ao equívoco de limitar o Deus de Israel a um ancião barbado: perde-se a sublime magnitude, e, com ela, a reverência, e, por conseguinte, a grandiosidade.
Examinemos, portanto, a obra cinematográfica de 1982 — que é uma criação autônoma em relação aos contos, destaco, com as liberdades que o próprio John Milius reconheceu, mesclando a mitologia de Crom à nórdica e concebendo o Enigma do Aço, que é exclusivo do filme, mas que, ainda assim, preserva o desprezo divino que Howard mencionou, elevando-o à categoria de parábola. A obra cinematográfica inicia-se com uma citação de Nietzsche: "aquilo que não me mata me fortalece" — Crepúsculo dos Ídolos, Máximas e Flechas, aforismo 8, referência precisa. Assim, o progenitor de Conan, um ferreiro, perante a forja, instrui o menino na primeira teologia: fogo e vento provêm do céu, oriundos dos deuses celestiais. Entretanto, Crom é o seu deus. Crom reside no planeta Terra. Em tempos remotos, imensos seres habitaram o planeta, e nas sombras do caos ludibriaram Crom, extraindo dele o segredo do metal. Crom irou-se, e a terra vibrou; o fogo e o vento desmoronaram os gigantes, que então depositaram seus corpos nas águas. Entretanto, na sua fúria, os deuses desconheceram o segredo do metal e o abandonaram no campo de batalha. E nós, que o consideramos, somos simplesmente humanos: nem divinos, nem titânicos. Somente homens. O segredo do aço sempre incorporou um enigma. É imprescindível que você apreenda a sua disciplina, uma vez que não é possível confiar em ninguém neste mundo — seja homem, mulher ou criatura. Nisso — e indica a espada — é possível confiar. O garoto descobre que a herança dos seres humanos corresponde a um mistério que os divinos perderam em um confronto: apresenta-se aqui uma representação do talento, da vocação, do dom que desceu dos céus e requer disciplina para ser utilizado.
É então que a engrenagem do mundo devora o garoto, e a música de Poledouris se intensifica, impulsionando a epopeia. Thulsa Doom — o mago da serpente, que, se você observar com atenção, é essencialmente uma alusão aos cultos luciferianos e serpentinos, bem como aos rituais de lavagem cerebral, nos quais o devoto se atira de um penhasco em resposta a um gesto do mestre — aparece com seu pequeno exército, assassina os pais de Conan e leva a espada do pai. O garoto é comercializado como escravo e preso à Roda da Dor, onde passa anos moendo grãos em círculos, até que o sofrimento o transforme em força. Importante ressaltar que, mesmo após sua libertação, ele ainda carrega a roda em seu peito, como um pingente — que, aliás, se assemelha bastante à roda do Dharma budista e ao seu caminho óctuplo para escapar do sofrimento cíclico; essa comparação é fruto da minha observação como simbolista, e não uma afirmação sobre a intenção do roteirista. Nada é inútil para Conan: aquilo que não o destrói, o torna mais forte, e ele usa o pingente como um lembrete do sofrimento que o moldou. Gladiador, triunfante, libertado, o bárbaro perambula em busca de vingança, recebe da bruxa da estepe a direção, descobre em uma caverna a espada atlante, forma uma aliança com os companheiros — Subotai, o arqueiro; Valéria, a rainha dos ladrões — e fixa os olhos no culto da serpente de duas cabeças, o quase-ouroboros sob o sol e a lua, que agora usa como pingente no lugar da roda: trocou a memória da escravidão pela memória do alvo.
Ao ser capturado, Conan escuta de Thulsa Doom a contraposição do seu pai. O mago ridiculariza o Enigma do Aço e fornece uma resposta diferente: o aço é fraco; a carne é mais poderosa. Veja — e com um simples gesto seu, uma fiel se lança do penhasco, descendo com a mesma elegância de uma pedra, tamanha é a autoridade espiritual do mestre das serpentes. Isso é poder, garoto: o poder da carne que se submete. Esta é, portanto, a mesma controvérsia representada em cena em 1982, que permeia as discussões deste ensaio: a vontade entendida como poder sobre o corpo do outro — o motor de toda teosofia imperial, de qualquer culto de dominação, de toda Roma — em oposição à vontade que se manifesta como lealdade, a qual nem mesmo a morte é capaz de romper. Conan é brutalmente agredido e pregado na Árvore da Aflição. Estava escrito: crucificado. O selvagem que se encontra suspenso no madeiro, no deserto, a morder o abutre que se aproxima para devorar seus olhos — aqui, a interpretação simbólica é dupla e claramente reconhecida como minha: um evidente paralelo cristológico, e um paralelo odínico do deus que pende na árvore. Após ser resgatado por seus companheiros, Conan é submetido ao ritual da vigília: seu corpo é pintado com símbolos, está amarrado, enquanto os espíritos vêm disputá-lo durante a noite, e Valéria paga o preço necessário para mantê-lo entre os vivos. Ele recebeu uma bênção total naquele momento — não posso afirmar, e admito que não sei, se o ritual retratado no filme faz referência a todos os deuses ou apenas a Crom —, e renasce com mais força e determinação: uma morte iniciática, que possui paralelos com o batismo que qualquer observador atento consegue identificar. Na luta final, em frente aos sepulcros, o bárbaro que jamais se ajoelha para rezar realiza a prece mais genuína já vista no cinema: Crom, nunca rezei para ti antes. Não consigo encontrar palavras para isso. Ninguém, nem mesmo você, se lembrará se éramos homens bons ou maus. Para que lutemos, ou para que morramos. Não: o que realmente conta é que dois se opuseram a muitos. Isso é o que realmente tem significado. Este valor agrada-te, Crom; por isso, dá-me um favor. Permita-me vingar-me! E se não me ouvires — então que vá para o inferno! É uma combinação de oração, desafio e declaração de guerra, tudo em um único jorro de trovão. Não se trata de ateísmo: é uma confiança robusta e viril. O Deus que merece ser adorado é aquele que valoriza aqueles que se mantêm firmes em sua luta — e o Deus verdadeiro, é importante mencionar, prefere Jó expressando sua indignação em pé a seus amigos que, em uma posição submissa, se dedicam a discutir teologicamente. Foi Jó quem falou a meu respeito o que é justo, afirma o Senhor ao final do livro.
E a conclusão desvenda o mistério. Conan batalha contra o campeão que carrega a espada que foi furtada de seu pai; a espada atlante corta a lâmina paterna ao meio — e ele a observa de braços abertos, sem demonstrar tristeza: simbolicamente, ele ultrapassou suas origens, quebrou as barreiras de sua própria ancestralidade. No confronto com Thulsa Doom, no cimo da escadaria do culto, é utilizando a espada estilhaçada de seu pai que Conan decapita o feiticeiro — a carne de Doom fendida pelo aço fraturado. O aço se quebrou. A carne desabou. Nem o aço nem a carne eram a resposta definitiva: a verdadeira resposta é a vontade que maneja o aço e guia a carne. A carne se torna fraca, o aço se desgasta; mas a vontade permanece incontrolável. Conan lança a cabeça do mago para os fiéis, que se dispersam como névoa sob a luz do sol, extinguindo as tochas nas águas. O bárbaro então se acomoda nos degraus, em um estado de reflexão, tendo resolvido o enigma sem pronunciar uma única palavra.
No entanto — e este é o ponto que distingue o Círculo de toda a esoteria contemporânea — qual vontade? É por isso que o esoterista impaciente observa isso e exclama: Crowley! Thelema! Faz o que desejas, pois tudo será conforme a Lei! De modo algum. De jeito nenhum. Como eu mostro. A vontade telêmica, conforme Aleister Crowley a definiu no Liber AL vel Legis, de 1904, refere-se à Verdadeira Vontade de cada indivíduo, que atua como a lei suprema: cada homem e cada mulher é uma estrela, e o pecado consiste em impor limitações; é fundamental descobrir a própria vontade e segui-la sem qualquer tipo de impedimento externo — não há outra lei além de Faze o que tu queres. É um subjetivismo metafísico de alto nível: a norma sou eu. O satanismo de LaVey, publicado em 1966, leva o conceito de ego a um extremo semelhante. Bem, Crom é exatamente o oposto. Crom possui uma ética que é objetiva. Crom detesta os covardes — mas covardes de espírito, não de físico. Crom exige respeito: quem morre de maneira vergonhosa não é aceito no seu reino; a vontade que Crom infunde é uma vontade voltada para a luta justa, organizada e com um código; Conan, nos próprios relatos de Howard, não suporta abusos contra mulheres e chega a ser preso por defender uma vítima; ele detesta a escravidão por tê-la vivido; tem aversão à civilização que legaliza a exploração, chamando-a de progresso; ele afirma: nós não vendemos nossos filhos, em Sombras ao Luar, e essa frase inteira é um soco na hipocrisia da civilização. Sua orientação moral é tanto instintiva quanto intacta — é natural, no sentido tomista: trata-se da lei natural inscrita no coração, que representa a participação da criatura racional na lei eterna, conforme ensina Santo Tomás na Summa Theologiae. A determinação de Conan é uma vontade clara e direta: direcionada ao bem comum, à justiça, à defesa do inocente e à luta em favor do próximo. Trata-se, de fato, da mentalidade dos guerreiros católicos, dos Cavaleiros Templários e dos nórdicos que se converteram. O mistério do aço, conforme interpretado pelo Círculo, se desvenda da seguinte maneira: a vontade triunfa sobre a carne e o aço apenas quando está harmonizada com o Bem que a inspirou. Crowley afirma: a vontade é a lei. Crom afirma: a vontade é um presente — e o Doador exige respeito. Entre a estrela que gira em torno de si mesma e o suspiro que volta à montanha, o Círculo opta pela montanha.
E Conan é muito mais complexo em todos os aspectos do que aparenta. Rápido como uma pantera, e não apenas forte como um touro — as ilustrações falham ao ignorar a agilidade. Falante de várias línguas hiborianas, erudito em muitas delas, líder carismático e estrategista competente. Ladrão, pirata, mercenário e, por fim, rei — um rei que toma o trono com suas próprias mãos e não se deixa transformar pela frieza do mármore: não tenho sangue real; sou bárbaro e filho de ferreiro, afirma em A Hora do Dragão, diminuindo a pompa da dinastia a fumaça diante do mérito conquistado. Pragmático: enquanto os civilizados discutem a forma mais eficaz de salvar a princesa, Conan já foi e fez isso. A respeito dos deuses e da vida após a morte, que os filósofos se envolvam em debates intermináveis: eu vivo um dia de cada vez — uma forma de existencialismo urgente de quem aprendeu com Crom a nunca esperar ajuda, e, nesse sentido, Howard transformou seu bárbaro em um reflexo do descaso que ele próprio, um agnóstico melancólico, talvez sentisse em relação ao céu do Texas. Receie apenas uma coisa: a magia — pois você está ciente do padrão de ataque de um ser humano, mas ser vítima de uma macumba é uma situação completamente diferente. A magia que permeia o universo criado por Howard é realista e informada por esoterismo: em O Povo do Círculo Negro, existe um talismã astrológico que é confeccionado durante o alinhamento dos astros e que é escondido ao lado do leito da vítima para atrair doença e morte — aqueles que estão familiarizados com a magia astrológica e a lógica simpática do Hoodoo podem reconhecer a verossimilhança técnica; Howard possuía algum conhecimento esotérico, mesmo que apenas teórico. A Era Hiboriana, que se localiza entre a submersão de Atlântida e a história documentada, estabelece uma conexão — servindo como um INDÍCIO para leitura e registro — com a Hiperbórea, conforme descrita na teosofia de Blavatsky e na antroposofia de Steiner, que circulavam no contexto cultural das publicações pulp; os estígios, com suas pirâmides e seu deus-serpente Set, representam uma transposição do sinistro Egito. Todo o familiar e todo o sombrio: o nosso universo, em um sonho mais ancestral.
A sentença final de Howard a respeito da civilização e da barbárie encontra-se em Além do Rio Negro, publicado em 1935, proferida pelo personagem que observa a fronteira em chamas: a barbárie é a condição natural do ser humano. A civilização vai contra a natureza. É um capricho do destino. Barbárie deve vencer ao final, em última análise. Não se trata do bom selvagem de Rousseau nem da guerra de todos contra todos de Hobbes — é um realismo trágico e equilibrado: a civilização, com suas leis e estruturas, se apresenta como protetora do povo, mas explora e manipula para beneficiar uma minoria privilegiada; inúmeras civilizações prosperaram com base na escravidão legalizada; e o bárbaro agressivo, que possui um código de honra, é mais digno do que o civilizado e refinado, que não possui nenhum código. Conan revela que, por trás da aparência, é a civilização que se manifesta como o verdadeiro monstro. O credo dos cimérios, o texto mais referenciado de toda a série, encontra-se em A Rainha da Costa Negra, e eu o reservo para concluir este ensaio, pois ele merece ressoar como os metais finais de Poledouris.
E quanto a hoje? Hoje estamos realizando a mesma apresentação, mas com um figurino inferior. Os recentes sincretistas — os ocultistas Zé Buceta e as prostitutas intelectuais de nossa época — são os sacerdotes da teosofia romana contemporânea. Confundem tudo, tornam tudo indistinto, promovem a ideia de que todas as tradições são válidas, exceto aquela que realmente provoca desconforto. Desejam que o cristianismo se submeta novamente, aceitando ser apenas mais uma tonalidade no arco-íris sincrético. Todo o esoterismo contemporâneo, repleto de uma mentalidade protestante, como é característico do esoterismo moderno, possui, de fato, alguma teoria da conspiração relacionada à Igreja Católica. Todo mundo. É como se existisse uma pequena lista para se tornar um ocultista contemporâneo, e, nessa lista, um item essencial seria: uma teoria absurda sobre a Igreja. Certa vez, encontrei um homem na internet afirmando que as bruxas eram queimadas e que seus ossos e cinzas eram utilizados na construção de igrejas, a fim de conferir poder espiritual a essas edificações. Veja a cabeça deste indivíduo. Veja a insanidade. Isso é realmente uma loucura. É por essa razão que o paganismo está ressurgindo, sempre acompanhado de teorias da conspiração das mais loucas. Com base na minha experiência pessoal — e posso afirmar que é realmente minha, pois já atuei como quimbandeiro e, portanto, tenho conhecimento de causa —, a maior parte dos ocultistas que encontrei ao longo da vida apresentava um comportamento insano, de uma loucura tão intensa que, em muitos aspectos, não há uma grande distinção entre um ocultista e uma pessoa que sofre de esquizofrenia. Poucos conseguem escapar. Entre aqueles que se destacam, faço questão de prestar homenagem aos que são verdadeiramente sérios: Humberto Maggio, na minha opinião, é o mais destacado pesquisador brasileiro contemporâneo sobre grimórios clássicos e um escritor fantástico; o Frater Goya, cujos materiais são fascinantes, mesmo que eu não consiga acompanhar muitas de suas posições teofilosóficas; e as editoras independentes que, com dedicação, traduzem — a Via Sestra, para aqueles que desejam estudar o luciferismo e o satanismo em sua verdadeira essência, sem omissões ou adições de elementos inexistentes. Quando se tem amor pelo aprendizado, traduz-se com dignidade. Nós, do Círculo, temos uma grande paixão por investigar tanto os cultos esotéricos quanto os exotéricos — é, de fato, o tema que mais dedicamos nosso tempo de estudo; eu, pessoalmente, adquiri recentemente uma coleção de livros esotéricos dos mais peculiares, e certamente traremos textos a respeito deles. Desprezar um culto não implica desprezar um indivíduo. Analisamos tudo. Não nos rendemos a nada.
No que diz respeito à quimbanda, afirmo com a cautela de alguém que teve experiência direta: é impossível negar a ocorrência de sacrifícios humanos em determinados cultos que utilizam as práticas da quimbanda. Há. A maior parte da quimbanda consiste em pessoas honestas e agradáveis, e é um culto extremamente fascinante para se estudar — não faço generalizações, pelo amor de Deus. Existem, porém, algumas correntes gnósticas bastante extremas, mesmo dentro da própria gnose quimbandeira, onde os praticantes são verdadeiramente insanos; e, quando ocorre um sacrifício ritual de uma criança no Brasil, aqueles que têm um olhar atento conseguem identificar os sinais. A imprensa não aborda isso para evitar que a população se assuste em relação à quimbanda como um todo — e realmente, a quimbanda inteira não merece esse tipo de alarde —, mas ignorar a existência desse fenômeno é a mesma falta de coragem no conhecimento que sempre vemos.
Essa mesma covardia se manifesta, agora, em uma escala geopolítica. Já presenciei ocultistas participarem de programas e afirmarem: os cristãos nunca foram perseguidos. Jamais foram e não são agora. Ao mesmo tempo, existem imagens e gravações de corpos de cristãos queimados e mutilados em nações de maioria islâmica, e atualmente, na África, está ocorrendo uma verdadeira carnificina que a mídia silencia, pois não envolve explosivos — lá, as pessoas se matam com facadas e tiros, o que é ainda mais grave, e isso não recebe atenção. A documentação é abundante e clara: a World Watch List da Portas Abertas contabiliza, ano após ano, milhares de cristãos assassinados por causa de sua fé — na lista de 2025, foram registrados 4.476 mortos, a grande maioria na África subsaariana, com a Nigéria respondendo sozinha por cerca de 3.100; a edição de 2026 continuou a indicar a Nigéria como o principal foco da matança no mundo. Boko Haram e o Estado Islâmico da Província da África Ocidental no norte da Nigéria; as milícias fulani devastando comunidades agrícolas cristãs no Cinturão Central — o massacre de Yelwata, em junho de 2025, resultou em cerca de duzentos mortos em uma única noite, muitos deslocados queimados vivos em seus abrigos; o degolamento em massa no Natal de 2023 no estado de Plateau, que deixou quase duzentas vítimas; os jihadistas do al-Shabaab em Moçambique decapitando cristãos em Cabo Delgado; e as Forças Democráticas Aliadas, ligadas ao Estado Islâmico, executando fiéis dentro de igrejas no leste do Congo — em fevereiro de 2025, setenta cristãos foram decapitados em uma igreja em Kasanga. Como mencionei na transcrição: em diversos desses grupos, a tragédia se acumula sobre a tragédia — uma ideologia revolucionária unida ao jihadismo, resultando em um pesadelo em dobro. Todo o material é documentado em relatórios bienais pela Ajuda à Igreja que Sofre. Isso está ocorrendo neste momento, em qualquer guerra que comece a ser noticiada na televisão, e o silêncio ao redor é absolutamente ensurdecedor. O sangue dos mártires continua a fluir; apenas deixaram de registrar isso em filme.
E, uma vez que mencionei a África, irei até o final, pois o Círculo não se afasta de um fato documentado por receio de ser vigiado. Na África do Sul, os eventos documentados pela própria Comissão de Verdade e Reconciliação — o tribunal ético do pós-apartheid, sob a presidência de Desmond Tutu, que não tinha nenhuma afinidade com o regime anterior — incluem, por parte do braço armado do Congresso Nacional Africano, o Umkhonto we Sizwe: o atentado com bomba na Church Street em Pretória, em 1983, que resultou em 19 mortes e mais de duzentos feridos, a maioria civis; a explosão do Magoo's Bar em Durban, em 1986, que matou três civis; as minas terrestres colocadas em estradas de fazendas, que matavam famílias; e a TRC classificou oficialmente vários desses atos como graves violações dos direitos humanos, além de registrar as execuções e torturas que ocorreram nos próprios campos do movimento. Ele registrou o necklacing — o pneu carregado de gasolina colocado ao redor do pescoço de um suspeito de colaboração, incendiado em frente à multidão —, uma prática que Winnie Mandela celebrou abertamente em 1986: com as nossas caixas de fósforo e os nossos colares, libertaremos este país. A TRC a analisou; a frase está registrada. Não digo isto para desculpar o apartheid, que era absolutamente injusto, mas para deixar claro o que a transcrição original afirma: que houve, dentro daqueles movimentos, uma corrente de terror racial e revolucionário contra civis, inclusive brancos por serem brancos, que a hagiografia posterior varreu para debaixo do tapete. E atualmente, anos depois, as manifestações de violência xenofóbica — em 2008, 2015, 2019, e através do movimento Operation Dudula perseguindo imigrantes africanos de outras nações nas ruas — evidenciam que a mentalidade do bode expiatório étnico não desapareceu com o fim do regime que a aplicou inicialmente; apenas mudou de alvo. A controvérsia em torno das estatísticas de ataques a propriedades rurais persiste entre a polícia sul-africana e as associações de agricultores, e eu menciono essa discordância da forma como se deve fazer: os dados são divergentes, mas o fenômeno é inegável. Se alguém desejar me acusar de algo, que o faça em conjunto com a Comissão de Verdade e Reconciliação.
Retomo o tema. Toda essa cegueira seletiva contemporânea é designada por um termo no léxico do Círculo: o fraco. É necessário estabelecer com uma precisão cirúrgica, pois a palavra pode ferir de ambos os lados. O fisicamente débil muitas vezes é alguém de imensa força: a pessoa que, por não ter uma perna, se dedica, com um esforço titânico, a realizar, durante o dia, o mínimo que outra pessoa consegue fazer sem sequer pensar no assunto — essa pessoa é verdadeiramente forte e merece um respeito ainda maior; aquele que, apesar de ter sido rejeitado por sua família ao longo de toda a sua vida, conseguiu superar essa adversidade — essa pessoa também é forte. O meu desdém se dirige àquele que é fraco de espírito, ao fraco no âmbito filosófico, ao fraco em sua mentalidade: ao covarde que finge ser virtuoso sem nunca se empenhar na busca de qualquer virtude. Interrogue esse indivíduo sobre os fundamentos da virtude que ele defende, e você se deparará com um lamaçal de subjetivismo: o vício que ele critica não é considerado vício dentro da própria filosofia que ele professa — ele o rotula como vício apenas naquele instante, com o intuito de menosprezar ou humilhar o outro. Trata-se do puritanismo que caracteriza a esquerda contemporânea: o ato de cancelar alguém, que considero a mais significativa das aberrações — e permitam-me esclarecer a gíria: no meu léxico, a expressão 'viadagem' refere-se à deturpação da percepção da realidade, à desvio moral, e nada mais além disso. Quando eu era criança, costumava enviar as professoras de ideologia esquerdista para bem longe e as chamava de vaca suja se elas militassem em sala de aula a favor de drogas, do suicídio ou de matar crianças no ventre — se houvesse gravações, eu certamente estaria cancelado nos dias de hoje. E qual é o problema? O que realmente importa para o fraco não é o que constitui, de fato, um vício ou uma virtude; é, sim, aquilo que ele percebe como tal, a fim de magoar. O fraco está sempre propenso a interpretar o que você disse da forma mais negativa possível, como se você fosse um verdadeiro monstro; ele vive imerso em uma interpretação cheia de desconfiança, que, na verdade, é uma confissão de sua parte: ele se vê como o eterno vítima de espancamentos do universo. Sempre existe uma teoria da conspiração que serve para validar essa filosofia absurda — o suposto complô dos homens que desejam submeter as mulheres novamente, apoiado por movimentos que são financiados e controlados por homens; o racismo que, curiosamente, só parece ocorrer em uma única direção, enquanto na própria África, imigrantes sofrem agressões nas ruas por serem estrangeiros, e brancos levam pancadas apenas por sua cor; e a educação sexual, que prometia diminuir os casos de gravidez precoce, acabou por multiplicá-los. Nenhuma de suas teses se mantém, e as respeitáveis que eles sustentam já eram apoiadas por outras correntes de pensamento — inclusive pela nossa. É a mentalidade da luta de classes em sua forma mais disfarçada: acreditar que todos ao seu redor, inclusive o cônjuge e os filhos, estão sempre prontos para te prejudicar. Eu compreendo, pois cresci em uma casa onde minha mãe possuía exatamente essa mentalidade — e que, ao se afastar da esquerda após os quarenta anos, reconheceu: talvez o mundo seja diferente do que a minha vaidade supunha — e foi somente a partir desse momento que sua mente começou a se expandir. O mundo está entrando em um estado de esquizofrenia devido a uma esquizofrenia induzida: tudo é conspiração, cada etnia deseja dominar a outra, e cada pessoa próxima representa uma ameaça. Os principais financiadores desses movimentos — as ONGs globalistas que defendem o aborto, a eutanásia e toda a agenda de desintegração — arcam com os custos da paranoia com grande satisfação, pois um rebanho amedrontado não levanta a cabeça.
Como lidar com esse indivíduo fraco? Aqui, a transcrição original sugere, com o exagero retórico característico que mantenho porque representa a voz do Círculo, o gulag pedagógico: não o gulag letal de 1929, mas um internato de choque, um quartel da alma — o indivíduo que defende a morte daqueles que pensam de forma diferente irá para lá entender o que significa ser humano, o que é o árduo trabalho de quem não depende de um iPhone, até que cesse com a sua vagabundagem moral. Converto o símbolo em conceito, sem podá-lo: a reação do Círculo à fragilidade mental não é a eliminação do fraco, mas sim a sua transformação em força. Alquimia: converter o chumbo da covardia teatral em aço da vontade firme — disciplina, trabalho efetivo, enfrentamento da realidade, responsabilidade, ética objetiva. Aquele que é fraco de mente deve ser eliminado do mundo enquanto essa fraqueza existir, transformando o indivíduo que a possui. É precisamente aquilo que Roma não realizou em relação aos cristãos e o que Cristo realiza para todos nós: em vez de destruir o vaso, Ele o transforma novamente.
Chego, finalmente, à afirmação do eu. Mas, afinal, o que vem a ser o Círculo de Estudos Nous? Somos católicos. De maneira bastante direta, afirmo que o Círculo se assemelha a um círculo que é quase totalmente católico — noventa por cento de nossa filosofia é católica; o restante é vivência e análise. Odiamos aquilo que aquelas seitas sangrentas praticam e a ética que elas seguem; respeitamos as pessoas com toda a tranquilidade; e adoramos estudar tudo, inclusive o que odiamos. Contudo — e é importante toar nota dessa diferenciação — eu não me considero um filósofo católico. Aqui sigo as palavras do professor Olavo de Carvalho, que lecionava no Curso Online de Filosofia, o COF: não posso me definir como um filósofo católico, pois isso significaria construir barreiras ao meu redor e afirmar que só posso seguir a Igreja, e apenas a Igreja, em todas as questões, e que qualquer desvio desse caminho representaria uma traição a mim mesmo e à minha própria visão de mundo. Estou completamente de acordo. Sou um intelectual católico no que diz respeito à adesão à Igreja Católica; mas não no que tange à produção de uma filosofia confessional e restrita. Não sou sacerdote — mesmo tendo quase ingressado no seminário em algumas ocasiões ao longo da vida, chegando realmente muito perto, até que eu tomei a decisão: a minha vocação é ser pai. A Igreja é a guia constante; a navegação é livre. Aderimos às teologias e às formas católicas de perceber o mundo e, a partir delas, formulamos especulações fundamentadas na própria Igreja, nos ensinamentos de Tomás de Aquino e nas grandes questões não resolvidas, o que leva à criação de nossas próprias teses — como ocorre com a teologia do imaginário, da qual deriva a teologia da imaginação. Uma é parte da outra e, por isso, no âmbito do Círculo, as consideramos como uma só.
E quanto à política? A totalidade da doutrina social da Igreja. Uma das ironias mais intrigantes do nosso tempo se revela da seguinte forma: ao interrogar um esquerdista católico, ponto a ponto, sobre suas convicções — como a dignidade do trabalho, um salário justo, a proteção da família e a imposição de limites ao capital predatório —, e, em seguida, indagar: você deseja a revolução do proletariado nos moldes do socialismo, com a abolição da propriedade privada?, ele recua: não, porque eu acredito em propriedade privada. Portanto, esse homem não apoia o comunismo; ele defende, sem ter consciência disso, a doutrina social da Igreja — a Rerum Novarum de Leão XIII, publicada em 1891, que rejeita tanto o socialismo (afirmando que a propriedade privada é um direito natural) quanto os excessos do capitalismo desenfreado (sublinhando que o salário deve ser suficiente para garantir o sustento de um trabalhador frugal e honesto); a Quadragesimo Anno de Pio XI, de 1931, que formulou o princípio da subsidiariedade — é uma injustiça e um grave prejuízo retirar das comunidades menores o que elas podem realizar por conta própria; e a Centesimus Annus de João Paulo II, que revisou todo o conteúdo após a queda do Muro de Berlim. Ele é um distributista que não conhece as obras de Chesterton. Porque o distributismo — a terceira alternativa proposta por Chesterton e Belloc, onde a propriedade é amplamente disseminada, com a ideia de três acres e uma vaca, em oposição ao Estado Servil que Belloc previu em 1912 como uma combinação de plutocracia e assistencialismo — é, entre as propostas econômicas contemporâneas, aquela que mais fielmente reflete a doutrina social da Igreja. É possível destacar pequenas diferenças, mas não existe uma estrutura mais confiável. E, enquanto isso, a influência do movimento esquerdista vai moldando a mente do católico desavisado até transformá-lo em esquerdista de verdade — apoiando o aborto e a eutanásia, indo contra a própria doutrina que o cativou. O cidadão brasileiro, em geral, não tem clareza sobre o que está defendendo, pois — afirmo de maneira direta e com firmeza — a maior parte da população é realmente pouco instruída, sendo educada para permanecer assim, e tende a votar naqueles que prometem oferecer o maior auxílio financeiro: anseiam por ter o Estado como uma figura protetora, desejando que o governo assuma os papéis de pai e mãe, em vez de buscarem a liberdade. É por essa razão que o Círculo se revela claramente antidemocrático na acepção contemporânea do termo: não veneramos a aritmética de rebanho; temos uma tendência a favorecer uma monarquia bastante particular, subsidiarista e organicamente restringida pela lei divina e pelos corpos intermediários — que, por sinal, é a única configuração em que o princípio de subsidiariedade se manifesta de forma autêntica. O católico tende a se posicionar mais à direita, mesmo que compartilhe algumas opiniões com a esquerda; e o católico de direita é, de certa forma, um bárbaro em dobro: é considerado bárbaro pelo mundo por ser católico e, ao mesmo tempo, é visto como bárbaro para a direita protestante por também ser católico.
De fato — e o Ítalo Marsili expressou isso em um podcast com uma clareza que merece uma ovação de pé, cujo vídeo está anexado a este texto no site do Círculo, para aqueles que desejam verificar na fonte —, um protestante no poder representa um risco de natureza particular. Repito o pensamento dele conforme anotei: por que cargas d'água ele está lá? Ele está lá por vontade divina; representa a manifestação de Deus na Terra para liderar o povo de Deus; qualquer um que se opuser a ele será considerado um servo de Satanás — portanto, ou ele é o próprio Cristo, ou estaremos estabelecendo uma tirania teocrática, governando não em nome de Deus, mas em função de versículos que ele, por acaso, escolheu para justificar suas ações. E Marsili finaliza com a imagem do roqueiro: o indivíduo se identifica apenas como roqueiro, mas ao entrar em seu carro, você ouve pagodão, e ao chegar em sua casa, encontra pôsteres do Belo — a discrepância entre a aparência confessional e a verdadeira trilha sonora da alma. A história valida o diagnóstico com uma série de tiranias teocráticas protestantes que nenhum católico conseguiu igualar, uma vez que a própria organização da Igreja impede tal possibilidade: Genebra sob a liderança de Calvino, onde o Consistório controlava a vestimenta, a dança e os nomes dados no batismo, e onde Miguel Serveto foi queimado vivo em 1553 com a aprovação dos reformadores; Münster anabatista, entre 1534 e 1535, com João de Leiden sendo coroado como rei do Novo Sião, impondo poligamia obrigatória e realizando execuções públicas de esposas desobedientes; a Nova Inglaterra puritana, que aplicava pena de morte por blasfêmia, baniu Roger Williams e Anne Hutchinson, e executou quacres enforcados em Boston — como foi o caso de Mary Dyer, em 1660 — e, por fim, Salém, em 1692, que presenciou vinte execuções por bruxaria espectral. O pastorzinho no poder, sem o freio de uma autoridade doutrinal supranacional, vira teocrata na primeira curva. A Igreja Católica, ao contrário, carrega desde o papa Gelásio I, no século V, a doutrina das duas espadas — duo sunt, dois são os poderes que regem o mundo, a autoridade sagrada dos pontífices e o poder régio, distintos e irredutíveis —, e por isso mesmo nunca produziu, nem poderia produzir, uma teocracia sacerdotal totalitária: os Estados Pontifícios eram um principado temporal com todas as misérias dos principados, não um regime de versículo em riste; e quando Bonifácio VIII esticou a corda na Unam Sanctam, a própria cristandade o puxou de volta. O católico distingue os gumes; o teocrata funde-os. Por isso confio a espada temporal a um rei ungido e vigiado pela Igreja, e não a um pastor que se acha a voz de Deus — nem, diga-se, a cinquenta e um por cento de uma multidão assustada.
E é dessa raiz — católica, tomista viva, não tomista extrínseca de manual, mas tomista que conjectura a partir das dúvidas monumentais com a Igreja como norte — que brota a nossa dupla bandeira. A filosofia do Círculo chama-se barbarismo intelectual. E o nome é uma lança apontada nos dois sentidos: não o bárbaro como o católico vê o bárbaro, mas o bárbaro como o mundo inteiro vê o católico. Porque o católico é o bárbaro do mundo: o que vai contra toda a ética subjetivista de todas as religiões e pensamentos políticos da hora; o que diz não onde a pólis exige sim. Assim como o Papa — o anterior, Francisco, frequentemente criticado por seu suposto progressismo, que, antes de assumir o pontificado, era um defensor da doutrina social com uma ênfase mais humanizante — quando a repórter sugeriu que, em um futuro, poderíamos ter sacerdotisas e papisas: ele a olhou com uma expressão de cansaço e irritação, apontou o dedo e declarou com firmeza — não, não vamos. O dedo do Papa em riste é o gesto do selvagem que há em nós: a recusa tranquila e irredutível. Barbarismo intelectual é uma prática sistemática que envolve a rejeição do sincretismo, do subjetivismo, da fraqueza performática e de qualquer forma de teosofia imperial, seja ela antiga ou digital. Essa recusa é acompanhada de um estudo aprofundado sobre tudo aquilo que se nega, uma vez que somente aqueles que têm um conhecimento profundo e íntimo do que estão recusando podem fazê-lo com verdadeira autoridade. Eu, Gabriel Godoi de Oliveira, sou o criador desta filosofia e desta perspectiva de mundo — possuo o Círculo e fui o responsável pela maior parte das criações que aqui existem; os senhores que governam os outros dias da semana me assistem em investigações e publicações, assim como o Jackson, que é o senhor terça-feira do Instagram —, e esta filosofia foi desenvolvida com base na Igreja. É tão simples quanto isso.
É a partir do barbarismo intelectual que se origina, assim como um braço se desenvolve a partir do tronco, a nossa estética e perspectiva de vida: o solarpunk cristão. Eu explico a deliciosa genealogia. O solarpunk surgiu nos anos 2000 e 2010 como um movimento estético e literário — e aqui vale destacar com orgulho que a primeira antologia do gênero no mundo foi brasileira, intitulada Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro em 2012 —, imaginando um futuro com energia limpa, comunidades orgânicas, tecnologia a favor da vida e uma natureza em harmonia com a técnica. Um mundo ideal. Sem a presença de Deus — algo que é absolutamente inviável, e Eric Voegelin elucidou isso de maneira brilhante, utilizando a lâmina mais afiada do século XX: qualquer tentativa de tornar o éschaton imanente, ou seja, de realizar dentro da história o que apenas se completa além dela, configura um gnosticismo político que culmina em um desastre, pois exige da política aquilo que somente a graça é capaz de proporcionar. O solarpunk não religioso é uma escada sustentada no ar. No entanto — aqui está a microvirada — considere o que a Igreja sempre ensinou: a doutrina social com sua ecologia humana; a Laudato Si de Francisco, publicada em 2015, que aborda a ecologia integral — onde tudo está interconectado, e a queixa da terra e a queixa dos pobres são uma só, e a tecnologia deve servir e não consumir; o distributismo com suas três gerações vivendo na mesma terra produtiva; os mosteiros beneditinos que, por mil anos, foram exatamente isso — embora não houvesse painéis solares, havia moinho, horta, biblioteca, liturgia e cerveja, a mais avançada tecnologia da época, dedicada ao louvor. A Igreja Católica sempre esteve à frente do movimento solarpunk; apenas não era chamado assim. O que o Círculo, com seu solarpunk cristão, realiza é a fusão de conceitos: absorver tudo aquilo que o solarpunk secular acerta na sua representação — a natureza sagrada e a técnica bem organizada — e restaurar o eixo transcendente que é essencial para que essa representação se mantenha sólida. Não se trata da utopia horizontal, mas sim da cidade que desce do céu: a Jerusalém do Apocalipse, que não é criada pelas mãos dos homens, mas que, ainda assim, acolhe a glória e a honra das nações — o trabalho, a arte e a técnica dos diversos povos — em seu interior. Natureza, parentesco, labor, formosura, majestade, técnica dominada, transcendência no auge. O intelectualismo bárbaro é a coluna vertebral; o solarpunk cristão é a substância e o panorama. Uma coisa se relaciona inevitavelmente com a outra: nós nos identificamos como uma filosofia — o barbarismo intelectual — que se manifesta no solarpunk cristão, tanto como estética quanto como perspectiva de mundo e plano de ação. Dentro da Revolução Conservadora mencionada pelo professor Olavo, nós nos posicionamos como a coluna católica: a Revolução Conservadora Católica, com todas as letras.
Dessa forma, a epopeia completa seu ciclo. O jovem da Ciméria que testemunhou a morte dos pais diante da forja; a escrava Blandina suspensa no poste perante as feras em Lyon; Perpétua direcionando a espada do gladiador em direção à sua própria garganta; Thorgeir reclinado sob o manto no Alþingi enquanto dois deuses competiam por uma ilha; Patrício levantando o báculo diante do ídolo de ouro que devorava primogênitos; Topiltzin rejeitando o sacrifício humano no coração de um mundo repleto de pirâmides sanguinárias; os cristãos da Nigéria sepultando seus mortos nesta semana, neste exato momento, enquanto escrevo — tudo isso é a mesma narrativa, a mesma melodia ascendente, o mesmo herói buscando se tornar um herói e demonstrando que sua própria força é, de fato, o seu espírito. O Círculo de Estudos Nous deixou de criar mais uma escolinha simpática no campo das ideias. Está reavivando a vertente bárbara-cristã: a estirpe dos que não se entregam, não se amalgamam, não se corrompem — e que, exatamente por essa razão, foram denominados bárbaros por todas as Romas de todos os tempos. Nossa visão é caracterizada por um barbarismo intelectual: a verdade prevalece sobre a potência, a fidelidade é mais importante do que o sincretismo, e a Carne e o Sangue reais são preferíveis a símbolos vazios. Rejeitamos de forma radical a ideia de um deus composto que serve ao Império — seja este romano, liberal, ocultista ou digital. Nossa visão estética e perspectiva de mundo é o solarpunk cristão: a natureza como algo sagrado e a técnica sob controle, ambas unidas no cume da transcendência, a cidade que desce do céu absorvendo a glória das nações. Quem não suporta essa perspectiva, que se dirija aos cultos órficos contemporâneos; nós preferimos nos associar aos mártires e a Conan — ambos, cada um à sua maneira, optaram por ser considerados selvagens em vez de se tornarem escravos bem-comportados dos deuses da cidade. Não se trata apenas de uma filosofia: é uma atitude, uma essência espiritual que permanece distinta. Há um filósofo que se debruça sobre tudo isso — o próprio Deus, que nos concede a oportunidade da aventura, que observa todas as nossas experiências, sejam elas triunfos ou fracassos, na vida, da mesma forma que Crom contempla, do alto de sua montanha: rindo e admirando as maravilhas que Ele mesmo criou.
O Deus verdadeiro é tão montanhoso quanto Crom; Ele é a montanha da qual Crom é apenas uma sombra e um murmúrio. Ele insuflou em nós, desde o momento do nascimento, o desejo de viver, de lutar e de amar; Ele nos concedeu o conhecimento do aço que se revela no tumultuado campo de batalha da história; Ele aguarda de nós não lamentações, mas bravura — pois a bravura O satisfaz, e Ele prefere o filho que argumenta em pé ao servo que se rebaixa em adoração de joelhos. Que o Senhor dos Exércitos, aquele que os romanos não conseguiram submeter, que transformou os nórdicos selvagens sem destruir suas espadas e converteu os maias, sedentos por sangue, sem eliminar a lembrança do deus que não desejava o sangue, proteja esta recusa que reside em nós.
Agora o Deus ri do alto de sua montanha que está na parte mais elevada de toda a criação.
Deixe-me viver intensamente enquanto vivo; deixe-me conhecer os sucos ricos da carne vermelha e o vinho picante no meu paladar, a exaltação louca da batalha quando as lâminas azuis flamejam e se tingem de carmesim — e estou satisfeito. Eu vivo, eu queimo de vida, eu amo, eu mato e estou contente. É para isso que vivo, pois não há nada mais repugnante do que o homem que só deseja a paz externa.
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