Aprofundando saberes no Círculo de Estudos Nous
O que torna um idiota um idiota.
Gabriel. G. Oliveira
3/13/20266 min read
Como Evitar Ser Um Idiota
Comecei a dar aulas por volta de 2024, mas, na verdade, esse processo teve início muito antes, antes mesmo de eu imaginar que um dia estaria ensinando alguém. Teve início em casa, de um jeito que só fui compreender muitos anos mais tarde. Meu pai me criou de uma maneira que nunca vi ser feita com nenhuma outra criança. Não se tratava do tipo de educação que se aprende na escola, nem da ideia contemporânea de "deixar a criança descobrir tudo sozinha". Era diferente. Era praticamente um treinamento intelectual constante.
Ele me inscrevia em cursos desde muito jovem. Todo tipo de formação. Alguns são possíveis, outros beiram o absurdo para a idade. Informática, disciplinas técnicas, campos totalmente distintos entre si. Porém, o mais importante não eram os cursos propriamente ditos. As conversas e as aulas que ele ministrava em casa eram o mais importante.
Isso começou aproximadamente quando eu tinha sete anos.
E persistiu até eu completar quatorze anos.
Ele faleceu dois anos depois, vítima de câncer gástrico.
Ainda assim, ele continuava me ensinando até praticamente os momentos finais, quando ainda tinha forças.
Meu pai possuía uma mente brilhante. Acontece que quase ninguém sabia disso. Ele possuía uma peculiaridade: ocultar o que sabia. Não por falsa modéstia, mas por um certo desdém silencioso em relação ao ambiente intelectual ao seu redor. Ele costumava afirmar que a modernidade havia criado um tipo humano bastante particular. E que esse tipo humano era o responsável pela maioria das confusões intelectuais do mundo contemporâneo.
Ele se referia a esse indivíduo como idiota.
Não se tratava de um xingamento gratuito. Trata-se de um conceito.
Segundo ele, o idiota era a combinação de três tipos de pessoa em um só indivíduo. O burro, o arrogante e o ignorante.
O burro não como alguém incapaz de aprender, mas como alguém teimoso. A pessoa que não altera sua posição nem quando a realidade a confronta diretamente.
A prepotência surge como o segundo elemento a partir desse ponto. O indivíduo não possui conhecimento algum, absolutamente nenhum, porém acredita de forma sincera que está capacitado para julgar tudo. Frequentemente, ele se comporta como um moleque perto de quem está falando. Não estudou o tema, nunca se aprofundou, mas acredita que pode participar da discussão e fazer críticas como se tivesse autoridade intelectual.
E, então, surge o terceiro elemento: a ignorância. Falar como se soubesse do assunto, mesmo sem ter conhecimento sobre ele.
Quando a teimosia, a prepotência e a ignorância se combinam, dá origem ao que meu pai chamava de idiota moderno.
E, de acordo com ele, foi esse tipo de mente que começou a dominar a modernidade.
Ele dizia que a questão com o idiota não se resume apenas à ignorância. O desafio reside na crença de que se pode analisar qualquer coisa sem método, fundamentação e rigor intelectual. Como ele é obstinado, essa ausência de fundamento não o faz recuar. Ao contrário. Ela produz interpretações progressivamente mais radicais da realidade.
O indivíduo inicia a construção de sistemas completos dentro de sua própria mente.
E é dessa maneira, segundo meu pai, que surgem muitas formas de gnose.
Ele costumava dar um exemplo que me marcou desde a infância. Escolha um objeto básico. Um exemplo disso é um livro. A análise precisa sempre começa pelo real. Um livro é um objeto físico. Possui características físicas. Possui limites. Possui conteúdo. Possui estrutura. A partir desse ponto, é possível realizar análises mais complexas. Históricas, filosóficas, simbólicas e metafísicas.
No entanto, todas essas análises devem estar em contato com a verdadeira natureza do objeto.
A lógica se insere precisamente nesse aspecto.
Ele apresentava a lógica de forma bastante visual. Afirmava que a lógica se assemelha às quatro pernas de uma cadeira. Todos os outros tipos de análise — política, sociologia, teologia, metafísica, psicologia, simbologia — estão acima da cadeira. Mas se você retira as pernas da cadeira, tudo desmorona.
Sem lógica, nenhuma dessas análises se sustenta.
E, então, ele destacava a questão de algumas abordagens pedagógicas contemporâneas.
Um exemplo que ele costumava citar era o de Paulo Freire e o conceito exposto na Pedagogia do Oprimido. De acordo com ele, o problema estava na noção de que qualquer um pode interpretar qualquer coisa apenas com base em suas próprias experiências pessoais. A interpretação se torna um tipo de direito absoluto, desvinculado de conhecimento, método ou fundamento intelectual.
Em outras palavras, o indivíduo experimenta uma sensação relacionada ao texto, à realidade ou a um conceito e converte essa emoção em uma interpretação válida.
Meu pai costumava dizer que essa abordagem rompe totalmente com a tradição intelectual que ensinava o sujeito a primeiro entender o objeto, depois analisá-lo e, por fim, emitir um julgamento.
Quando esse processo é revertido, a imaginação passa a tomar o lugar da realidade.
E é precisamente nesse momento que, de acordo com ele, aparecem muitas formas de ocultismo moderno e interpretações esotéricas totalmente desconectadas da realidade. Não porque a análise simbólica seja inválida, mas porque muitos iniciam a investigação de metafísica, religião ou teologia apenas fundamentados em suas próprias imaginações.
Eles abandonam a análise da realidade e começam a examinar suas próprias fantasias a respeito dela.
Nesse cenário, meu pai criou uma representação que ele denominou de triângulo do idiota.
Pense em um triângulo.
Em cada extremidade, há um elemento: o burro, o prepotente e o ignorante.
No núcleo desse triângulo, há um buraco negro intelectual que absorve todos os pensamentos.
O relativismo é o buraco negro.
Quando tudo se torna interpretação pessoal, nada precisa mais aderir à realidade. Cada indivíduo constrói sua própria interpretação do mundo e começa a defendê-la com total certeza.
E quando essa forma de pensar se dissemina, começam a aparecer as gnoses contemporâneas, as ideologias extremistas e as perspectivas de mundo totalmente desvinculadas da realidade.
Meu pai costumava dizer algo que, na época, eu considerava exagerado, mas que agora faz total sentido para mim.
Ele afirmava que uma grande parte da sociedade opera exatamente dessa maneira. Que possivelmente sessenta ou setenta por cento das pessoas funcionam mentalmente dentro desse triângulo. Isso fica evidente ao conversar com alguém na rua por apenas alguns minutos. A pessoa fala com convicção sobre assuntos que nunca estudou, analisou ou, muitas vezes, sequer considerou seriamente.
Ele optou por me educar dessa maneira na tentativa de impedir que eu me tornasse esse tipo de pessoa.
As aulas em casa aconteciam com regularidade.
Às vezes, acerca de lógica.
Às vezes, sobre história.
Ocasionalmente, discuto temas como religião, política, cultura e sociedade.
Quase sempre se concentrando na mesma questão: o que aqui representa a realidade e o que aqui é apenas fruto da imaginação?
Ele possuía diversas opiniões pessoais sobre essas questões. Conceitos que nunca foram divulgados. Nunca teve interesse em se tornar um escritor público ou um acadêmico renomado. Uma parte disso era desinteresse, enquanto a outra era a percepção de que o ambiente intelectual contemporâneo frequentemente prioriza o consenso em vez da verdade.
Ainda assim, ele me deixou várias dessas ideias.
Algumas eu preservei exatamente como ele as expressou.
Outras eu trabalhei mais.
Outras eu mesma precisei desenvolver ao longo do tempo.
Muitas das discussões atuais no Círculo de Estudos Nous tiveram origem nessas aulas passadas.
Meu pai não se referia a isso como Círculo de Estudos. Porém, a estrutura já existia.
Examinar conceitos.
Avaliar argumentos.
Submeter tudo à razão.
Contrastar qualquer teoria com a realidade.
Fugir do triângulo do idiota.
Somente muitos anos depois comecei a entender que aquele tipo de formação não era usual. E foi ainda mais tarde que comecei a dar aulas.
Por volta de 2024, iniciei o ensino para alguns estudantes.
Alguns permaneceram por um ano.
Mais dois anos e pouco.
Muitos chegaram totalmente crus.
Alguns tinham uma noção bastante imprecisa do que desejavam fazer na vida. Consideravam cursos, universidades ou trajetórias profissionais que, na realidade, não refletiam quem eles eram de verdade. Eles apenas seguiam a direção que o ambiente ao redor os levava.
Durante as aulas, algo interessante acontecia.
Conforme as discussões progrediam e eles começavam a examinar suas próprias ideias, sua visão de mundo e sua vida com mais rigor intelectual, muitos aspectos internos começavam a se reorganizar.
Alguns mudaram totalmente de rumo acadêmico.
Outros optaram por áreas que de fato estavam alinhadas com o que descobriram sobre si mesmos.
Não porque eu mandei eles fazerem isso.
Porém, quando as pessoas começam a encarar a realidade com mais clareza, certas ilusões simplesmente deixam de parecer viáveis.
E talvez essa seja a tarefa mais sincera que um educador pode desempenhar.
Não gerar seguidores.
Não forçar ideologias.
Porém, auxiliar alguém a ver o mundo com menos autoengano.
Isso ocorre porque, quando a verdade se torna mais clara, muitas escolhas que antes pareciam impossíveis tornam-se simplesmente inevitáveis.
Brand
Explore our sleek website template for seamless navigation.
Contact
Newsletter
info@email.com
123-123-1234
© 2024. All rights reserved.
