Chama da Determinação

Há um ponto na vida em que a alma se torna consciente e se pergunta sobre o significado da vida. Quando não se tem respostas, o silêncio é capaz de provocar uma morte lenta. Tiraram do jovem todo o seu paraíso e deram o nome de roubo de liberdade. Ele acreditou que a perspectiva era a verdade, e foi informado de que era exatamente isso. Mas a chama que tentaram apagar ainda arde, e seu nome é esperança. O céu se tornará novamente acessível para quem ousar olhar para cima. Perspectiva é somente um ponto de vista; a realidade é a casa inteira. Nenhum cinza é duradouro enquanto existir uma brasa inquisitiva. Todo espírito que anseia por Deus já começou, mesmo que de forma inconsciente, seu caminho rumo à iluminação.

Gabriel G. Oliveira

6/3/202635 min ler

Dissertação a respeito da juventude sem parâmetro, o demiurgo artificial e a expectativa como o germem de toda a virtude

Há uma idade — geralmente em torno dos dez anos, quando a criança passa a entender o que significa ser humano, o que ela própria é e o que pode se tornar — em que a alma, pela primeira vez, formula a pergunta mais arriscada de todas: qual é a finalidade da vida? Aqueles que enfrentam essa questão precocemente, durante a juventude, o fazem de forma quase imperceptível, como quem atravessa um rio raso em uma manhã de verão. O verdadeiro desastre é o adulto que nunca a atravessou. Este não vai sair impune. Mergulha em uma depressão profunda e, muitas vezes, chega a tirar a própria vida. Não digo isto como uma simples metáfora. Escrevo por ter visto. O indivíduo que envelhece sem jamais ter encontrado uma resposta para a questão da sua existência carrega uma ferida que o tempo apenas intensifica. É a partir dessa ferida — e, acima de tudo, da maneira de estancá-la — que se desenvolve todo este ensaio.

O mito de Krypton preservou a mesma questão em uma única frase. Ao enviarem o jovem Kal-El para a Terra, seu pai, inclinado sobre o berço que está prestes a partir, expressa a preocupação que encapsula toda a modernidade: e se uma criança desejar ser mais do que a sociedade determinou que ela fosse? E se desejar se tornar algo melhor, mais elevado, ou diferente do padrão estabelecido para ela? A totalidade da tragédia do adulto moderno se reflete na resposta que ele oferece a essa questão por meio de suas próprias ações. O imenso objetivo que o adulto contemporâneo — refiro-me, nesta ordem de responsabilidade, ao pai, à mãe, à escola e ao Estado — almeja é criar estruturas, até mesmo dentro do lar, que impeçam a criança de sonhar e, em seu lugar, introduzir as aspirações que o adulto nutre em relação a ela. Ele não deseja que seu filho seja quem realmente é; ele quer que seu filho se torne aquilo que ele idealizou. O resultado dessa engenharia familiar é a produção em massa de crianças que se tornam amargas, que, ao crescer, passam a estranhar seus próprios pais, quando não chegam a nutrir um ódio explícito por eles.

Eu conheci garotos desse tipo, que eram amigos meus da infância, antes de deixarem a minha cidade, e que chegavam a desejar, em seus pensamentos, a morte dos próprios pais, tamanha era a raiva que acumulavam. Eles não eram criaturas aterrorizantes. Era o que se podia esperar de uma geração de pais, criada no pós-guerra e educada a golpes de desconfiança, que aprendera a ver todo sofrimento como opressão e cada pessoa como um agressor em potencial. É necessário afirmar claramente a origem desse veneno. Em algum ponto da segunda metade do século XX, a humanidade nutria o sonho de uma aldeia global: a tecnologia, a comunicação instantânea e a incipiente internet prometiam um mundo onde um jovem no Brasil dialogaria com outro no Londres como se fossem vizinhos de parede, e essa proximidade resultaria, finalmente, em amizade e paz. O sonho era bonito e sincero. Ninguém poderia imaginar que, junto aos cabos e antenas, chegaria um pequeno parasita ideológico — a ideia de luta de classes, em sua forma mais simplista — que se infiltrou inicialmente na cultura, depois nas instituições e, por último, na própria essência das pessoas. Onde havia a promessa de fraternidade, agora reina a desconfiança. Cada um começou a ver no outro um opressor camuflado, e o mundo, que deveria se contrair em direção ao abraço, se contraiu em direção ao medo.

Chamo, dentro do Círculo de Estudos Nous, a essa arquitetura invisível de coerção de um demiurgo sintético: o aparato de dominação social que produz o desejo do sujeito e o persuade, sem que ele tenha consciência disso, a desejar precisamente aquilo que a estrutura necessita que ele deseje. Denomino hexagrama da perdição o dispositivo que, por seis rotas convergentes, conduz a consciência à subjetivação total. O que realmente importa é o impacto, e não o nome. O resultado é o seguinte: o jovem se desenvolve imerso em um dispositivo que o convence, dia após dia, de que tornar-se adulto é submeter-se, de que ter uma opinião é apenas reagir e de que a própria realidade é apenas mais uma história entre muitas outras. É contra esse dispositivo que se escreve.

Existe um sinal dessa enfermidade que requer uma análise cuidadosa, pois é nesse sinal que o parasita se torna aparente. Discorro sobre aquilo que denomino gnose psíquica, a racionalidade intrínseca do ressentido. É assim que funciona. Alguém nutre, devido à inveja ou a uma mágoa do passado, uma aversão silenciosa em relação a outra pessoa. Uma simples discussão, um conflito ou qualquer desentendimento é suficiente para que se forme uma fenda por onde tudo se derrama. A partir desse ponto, ela começa a reunir pequenos fragmentos — uma frase mal escutada, um gesto, um acontecimento do passado, um detalhe fora de seu contexto original — e a unir todos esses pedaços em uma única teoria, que se torna uma bola de neve que cresce até se transformar em uma avalanche, resultando no fato de que a outra pessoa passa a ser vista como o mal em sua forma mais extrema. Trata-se da elaboração de uma conspiração particular dentro de um único cérebro: uma conclusão que apenas aquela pessoa, e ninguém mais, conseguiria alcançar a partir daquele conjunto de informações, uma vez que a conclusão foi definida antes mesmo da análise das evidências. O ressentido jamais se dirige ao outro; nunca investiga; nunca confere. Ele sempre assume a pior das possibilidades, pois, para ele, o mal é a interpretação mais evidente da realidade.

Aqui é absolutamente necessário que se faça uma distinção que raramente se vê, e cuja falta é uma das maiores ruínas intelectuais do nosso tempo: a distinção entre a lógica interna de um pensamento e a lógica propriamente dita. O que o ressentido considera raciocínio é, na verdade, uma sequência particular de seus preconceitos, um sistema autossuficiente que opera de forma ideal para ele, mas que não resiste a qualquer interação com o mundo fora de sua bolha. Jamais se deve confundir a gnose individual de alguém — a maneira particular como ele filtra e compreende a realidade — com a lógica de investigação, aquela que foi delineada por Sócrates, Platão e Aristóteles, a qual exige, acima de tudo, honestidade. Equivocar-se entre as duas é a origem de todos os fracassos. É o que leva um homem a confundir sua própria paranoia com raciocínio e sua própria dor com evidência.

Chego, portanto, ao cerne epistemológico do assunto, à origem de onde tudo o mais se origina. É a disparidade entre a verdade interna e a verdade. Há, de fato, tantas verdades internas quantas são as pessoas, uma vez que cada indivíduo possui sua própria perspectiva, seu próprio ponto de vista e sua maneira única de abstrair a realidade. Pode-se chamar isso de verdade, se assim desejar, mas apenas no que se refere a uma perspectiva subjetiva. A verdade, de fato, é a realidade sem aspas, e esta não se adapta às nossas interpretações. A gnose interior refere-se ao entendimento que extraímos da realidade e que passa pelos nossos filtros mentais até que cheguemos a uma conclusão. No entanto, essa conclusão não representa a realidade em si, mas sim a nossa interpretação dela. É importante destacar que a realidade é sempre incomensuravelmente mais vasta do que imaginamos. Portanto, não venham me dizer que existem várias verdades como se fossem múltiplas realidades. Aqueles que confundem sua própria visão com a realidade do mundo cometem um erro fundamental, e é essa ignorância que sustenta todas as seitas — sejam elas religiosas, políticas ou terapêuticas — que atualmente atraem os jovens. Estamos, como costumo afirmar com regularidade, vivendo na era da gnose: um período em que cada indivíduo considera sua própria impressão como a verdadeira lei do universo.

Permita-me passar do conceito para a prática, pois apenas discutir teorias sem exemplos concretos não convence ninguém. Em certa ocasião, uma amiga veio até mim para expressar suas queixas sobre o marido, que era meu amigo. Segundo ela, o homem era um péssimo companheiro, e era nossa responsabilidade, como amigos dele, informá-lo disso, caso contrário, ela ameaçava deixá-lo. Ao começar a escutar os motivos, percebi que não se tratava de uma questão de casal, mas sim de uma gramática do afeto que precisava ser toda revista. As reclamações eram todas da mesma natureza: ele a abandonara quando ela se mudou para sua cidade; ela se casou para ter companhia, não para viver sozinha. Disse-lhe o que ainda hoje defendo. Casar não é como comprar um cachorro que cure a solidão e que morra em quinze anos; casar é comprometer-se mutuamente. E eis aqui a raiz do vício: ela afirmava desejar um companheiro, mas, na realidade, queria alguém que lhe proporcionasse tudo sem que ela precisasse oferecer nada em troca, que preenchesse cada uma de suas carências sem exigir nada em retorno. Notei que havia convertido o casamento em uma prece invertida — em vez de "não nos dêis o vosso reino, mas dai-me a mim aquilo que eu desejo." Perguntei-lhe se havia contribuído bastante. Disse que tinha dado. Dar é receber, disse-lhe, não é dar; é cobrar. Passado um ano, o marido apareceu para me agradecer, quase implorando: aquela conversa, juntamente com a de outros amigos, havia salvado o casamento, pois a esposa, ao se deparar com sua própria razão, decidiu mudar. Eu conservo esse episódio, não pelo final feliz, mas pela valiosa lição que ele transmite: existe uma maneira de amar que se camufla de dádiva, mas que, na verdade, é apenas um apetite disfarçado, e essa forma de amor adoece tanto homens quanto mulheres de maneira igual.

A doença possui um arquétipo, e é importante que o chamemos pelo nome, pois a modernidade o elevou à condição de ideal. Eu o chamo de Jurandir. É o indivíduo cuja existência se dedica inteiramente à busca de seu próprio prazer: consome bebidas, comete adultérios, e persegue com uma devoção quase religiosa seu time favorito e as sensações prazerosas, além de possuir uma ética totalmente distorcida, elaborada para justificar ações que ele já estava determinado a realizar de qualquer forma. No primeiro livro da Ética a Nicômaco, Aristóteles já havia exposto tudo o que era necessário sobre esse tipo, ao classificar a vida totalmente dedicada ao prazer como a existência típica do gado que se alimenta de pasto. Não se trata de um insulto, mas sim de um diagnóstico: aqueles que estruturam suas vidas em torno do apetite não se diferenciam, em essência, do animal que busca a melhor pastagem, a água mais pura e o sol mais agradável, sem almejar nada além disso. A revolução sexual elevou esse homem à posição de ideal masculino, e isso é o escândalo. Antes dela, Jurandir era mal visto, desprezado pelos outros homens, visto como uma figura lamentável; após a sua chegada, ele se multiplicou e tornou-se um exemplo. O mais triste de tudo é que uma boa parte do próprio moralismo moderno, que se diz crítica do patriarcado, é, sem consciência disso, a mãe ideológica desse arquétipo — porque, ao desfazer a virilidade clássica, deixou o terreno aberto para que sobrasse apenas a caricatura dionisíaca do homem.

Daí surge um dos paradoxos mais analisados e menos compreendidos da vida emocional contemporânea, e peço permissão para apresentá-lo com a sinceridade que merece, sem transformar ninguém em uma caricatura. Ao longo da minha vida e também observando a de muitos amigos, cheguei a uma conclusão que a experiência tem reiterado: há uma frequência entre o parceiro ideal que muitas moças afirmam querer e aquele por quem realmente se sentem atraídas. O ideal proclamado é, na maioria das vezes, o príncipe ideal, o bom moço; a paixão, porém, frequentemente se volta para o oposto, para o homem de moral duvidosa, mas que, na aparência, encaixa-se no estereótipo que a sociedade lhes impôs desde a infância, muitas vezes na figura do próprio pai. O jovem virtuoso é, portanto, visto como fraco, não por realmente ser, mas por não se encaixar no padrão. Não menciono isso com a intenção de julgar ninguém; faço-o porque se trata de um fenômeno real e doloroso, e a solução para essa situação não reside em lançar acusações, mas sim em reconhecer que o desejo, na ausência de uma orientação pautada pela virtude, se submete a padrões que não escolhemos e que, muitas vezes, agem de forma contrária à nossa própria felicidade.

Em última análise, tudo isso se resume a uma questão de ética, mas o mundo se recusa a reconhecer que é esse o tema central. Ética é tudo, e essa frase deve ser levada a sério. A distinção fundamental entre o homem clássico e o homem moderno, assim como entre a mulher clássica e a mulher moderna, reside na oposição entre uma ética que é objetiva e uma ética que é subjetiva. Aquele que possui uma ética subjetiva considera o bem e o mal como questões internas, que dependem unicamente de sua própria opinião, e não de Deus, da realidade ou de qualquer outra ordem que os transcenda. Retire de um homem o sentido, e sua ética se tornará subjetiva na mesma hora — não tem como evitar. Vários ateus militantes, inclusive aqueles que almejam a eliminação de todas as religiões, afirmam categoricamente que existe uma ética objetiva. No entanto, quando questionados sobre qual é o propósito final dessa ética, eles respondem que se trata da melhoria da humanidade. E, ao serem indagados sobre que tipo de melhoria é essa, eles começam a listar suas preferências pessoais, que estão camufladas como princípios universais. A ética que se apresentava como objetiva mostra-se, quando questionada, as subjetivas de qualquer whim. Uma sociedade que não possui um padrão objetivo do que é o bem está fadada a resolver suas questões pela imposição da força daqueles que se fazem ouvir com mais intensidade.

Aqui é onde os movimentos ideológicos se inserem, e é fundamental examiná-los com a mesma minúcia que Eric Voegelin nos ensinou, encarando-os não como partidos políticos, mas como aquilo que realmente são: seitas gnósticas contemporâneas, tentativas de tornar a salvação presente, de trazer para o âmbito da história um paraíso que a própria história é incapaz de oferecer. O equívoco de aqueles que os enfrentam de forma inadequada é tratá-los como simples rótulos; a abordagem correta consiste em analisar a lógica interna de cada um, levando-a às suas consequências mais extremas. Porque qualquer ideologia, se for interpretada à letra, se considerarmos o totalidade do que ela defende e seguirmos essa totalidade até as últimas consequências, acaba resultando em radicalismo — mesmo que a maioria de seus adeptos nunca chegue a esse ponto, parando em um estágio intermediário por bom senso ou temor. Existe uma versão dessa lógica que me parece a mais perversa de todas, e que ilustra com clareza o funcionamento que devora a esperança: a que afirma que não haverá qualquer tipo de salvação enquanto não for exterminado da face da terra um determinado grupo de seres humanos. É a lógica da eliminação, a esperança corrompida que se transforma em extermínio, e ela se oculta sob a aparência de justiça. Quando um movimento começa a afirmar que a felicidade de alguns está atrelada à eliminação de outros, ele deixou de ser uma causa e se transformou em uma seita, independentemente de utilizar a linguagem da raça, da classe social ou do gênero.

Reconheço a validade da objeção de que nem todo militante é um radical, e ela é verdadeira: a grande maioria das pessoas envolvidas nesses movimentos não é mal-intencionada, mas sim ferida. São pessoas que enfrentaram dificuldades ao longo da vida, que receberam pouco amor, que misturam sua própria dor com uma perspectiva de vida, e que, por essa razão, se unem a aquilo que promete restaurar-lhes um sentido de poder e de pertencimento. Tenho por elas uma verdadeira compaixão, e repito-o sem ironia: não raro, a antipatia que algumas posições me suscitam provém do pesar que tenho por quem as defende. No entanto, o que a objeção não consegue capturar é o seguinte: a bondade dos adeptos não compensa a lógica intrínseca do sistema, e muitos dos líderes desses movimentos não são vítimas inocentes — são indivíduos que têm plena consciência de suas ações. É por essa razão que defendo, em oposição à tendência pacifista atual, que a polarização possui um valor. Ela é uma fonte de luz. Ela revela, de maneira clara, quem realmente deseja a sua ruína e quem apenas se deixou levar por ilusões ao longo do caminho. O equívoco do ingênuo consiste em observar aqueles que apoiam o pior — como a opressão dos mais fracos e a eliminação dos inocentes — e apelidá-los de "amiguinho", rendendo-se desprotegido a quem, se tivesse a oportunidade, o subjugaria. Não defendo o ódio nem a violência contra ninguém; defendo a clareza de pensamento, a rejeição a um pacifismo ingênuo que confunde a mansidão com a falta de percepção, e a determinação de quem, em um debate, não se retrai diante daqueles que desejam o seu mal.

Há um último estágio nessa engenharia de desintegração, e esse estágio é teológico antes de se tornar político. O último projeto — chamem-no como quiserem — consiste em amalgamar todas as religiões em uma espécie de paganismo reavivado, uma teosofia global onde tudo é permitido, pois tudo é igualmente verdadeiro. A lógica, nesse ponto, se volta contra aqueles que a defendem, em um argumento que eu considero fundamental. Se todas as crenças são verdadeiras, se todas as interpretações são aceitáveis, e se todos os trajetos conduzem de maneira igual ao divino, então é inevitável concluir que todos os sacramentos são iguais — mesmo aqueles que, em algumas tradições, necessitaram de um sacrifício humano. O relativismo religioso, quando levado com sinceridade até suas últimas consequências, não resulta em uma tolerância benevolente; resulta na impossibilidade de se opor ao horror, uma vez que se despojou do critério necessário para julgá-lo. Uma teosofia que amalgama todas as crenças em uma única fé também elimina qualquer barreira moral, e aquilo que é apresentado como um abraço resulta na completa erradicação do próprio conceito de sagrado.

Não crio eu mesmo esse impulso sincretista; ele existe historicamente, com exemplos concretos que estudo há anos e que cito aqui em termos estruturais, sem entrar na minúcia operacional de nenhum rito específico. Existem tradições que entrelaçam o cristianismo e o paganismo de uma forma única: os galdramenn da Islândia, que combinam a fé cristã com o imaginário nórdico; a umbanda, que mescla as raízes africanas ao catolicismo popular; e algumas correntes do vodu moderno, que surgiram no continente americano e uniram o culto africano ao cristianismo, ao contrário do vodu puramente pagão de sua origem. É importante destacar que essas leituras são as minhas interpretações, resultantes do estudo do material, e não verdades históricas absolutas; no entanto, o padrão que elas evidenciam é, de fato, autêntico. Em todas essas situações, ocorre uma fusão, e quanto mais abrangente essa fusão se torna, mais tênue se torna o lastro, até alcançar o limite em que uma doutrina como o budismo pode sustentar a coexistência de todas as religiões — e, ao fazer isso, perder completamente o lastro, uma vez que aceitar todas as crenças como verdadeiras equivale a cair na teosofia e, por consequência, na equivalência de todos os sacramentos, inclusive aqueles que ofendem a dignidade humana.

O que muitos não conseguem notar é que a origem desse relativismo é mais antiga e mais próxima do que se pensa, e está enraizada no próprio terreno que deu origem à modernidade religiosa. A subjetivização da crença iniciou-se, em grande parte, com a leitura pessoal da Escritura. Ao afirmar que cada pessoa pode interpretar a Bíblia de acordo com sua própria consciência — levando o princípio da sola scriptura ao extremo —, abre-se a possibilidade de que existam tantas verdades religiosas quantas forem as pessoas, e a unidade só pode ser restaurada à custa de uma ilusão: a crença de que o mesmo Espírito se manifesta de diferentes maneiras em cada fé, legitimando todas as interpretações, por mais contraditórias que possam ser. É verdade que essa ficção foi criada com um objetivo louvável — evitar que sociedades cristãs se destruíssem por causa de uma questão de interpretação. No entanto, o custo foi extremamente elevado: criou-se um amálgama sem definição, onde a virtude e até mesmo a própria noção do que é bom passaram a ser vistas como meras opiniões pessoais, na maioria das vezes refletindo a opinião do pregador, que as recebia como uma revelação e que os fiéis adotavam como se fossem suas. Afirmo isso como uma tese teológica, e não como uma decisão legal: onde a interpretação reina, não existe uma ética objetiva; há apenas o conhecimento interno de quem faz a pregação, que é elevado à posição de norma.

É precisamente essa mesma ideia, secularizada, que ressurge na ideologia progressista. É a mesma estrutura — a interpretação pessoal como a fonte definitiva do significado — apenas adaptada para um gnosticismo que nega a existência de Deus, o que eu denomino, no Círculo de Estudos Nous, como messianismo apofático. O ateu radical não renuncia à esperança messiânica; ele retira Deus desse conceito e o transfere para o grupo, fazendo com que o messias surja do próprio povo, se manifeste no ditador e se realize na revolução. É a mesma busca histórica por salvação, o mesmo anseio por um paraíso aqui e agora, apenas sem a designação divina. É por isso que a esquerda revolucionária e o protestantismo subjetivista, que à primeira vista parecem não ter nenhuma semelhança, compartilham uma gramática fundamental: ambos acreditam que o significado não é inerente à realidade, mas sim criado através da interpretação, e que a salvação é construída ao longo da história pela ação do homem organizado.

É importante, para manter a continuidade do raciocínio, relembrar o que a comunhão sempre representou, uma vez que a modernidade a corrompeu. Desde o seu início — e em todas as importantes tradições religiosas, muito antes do cristianismo — a comunhão nunca se restringiu apenas à convivência harmoniosa entre os fiéis. Representou uma verdadeira comunhão com o sagrado, e essa interação ocorria por meio de um ato, de um rito, por uma maneira sacramental. O judeu obtinha isso por meio da expiação, e o cordeiro sacrificado era a garantia dessa reconciliação; o cristianismo realiza isso na oferta. Quando se abandona o caminho sacramental, o que sobra é apenas o substituto: as boas ações como forma de alcançar a reconciliação, as obras do fiel no mundo assumindo o lugar do sacrifício. Deixo isto anotado como comparação estrutural, não como briga de igreja: o que está em questão é que a comunhão, em seu significado tradicional e poderoso, representa uma união real com o transcendente, e não apenas uma coesão emocional de um grupo que se sente confortável na companhia uns dos outros. Reduzir a fé a meramente um companheirismo é torná-la vazia, e uma fé desprovida de verdadeira comunhão perde o fundamento que a sustenta.

Junte agora todo o quadro e perceberás a estratégia. O que a máquina cultural realiza com os jovens é fácil de expressar e profundamente prejudicial na realidade: ela elimina, gradualmente, todas as suas referências. Retira-lhe a base de Deus, a noção de ética, a compreensão do propósito da vida, o parâmetro do que deveria ser, assim como a referência à virtude e ao vício. No final, ele não possui nenhum tipo de referência. Há pessoas que, ao chegarem aos vinte, cinquenta ou até setenta anos, nunca conseguiram reencontrar nenhum desses pilares de apoio, vivendo uma vida sem direção. É por essa razão — e não devido a uma falta de firmeza de caráter — que se observa atualmente um número tão grande de pessoas desprovidas de esperança afirmando que o mundo é um desastre irreparável. Tiraram-lhes o chão. É por essa razão que homens que levam uma vida aparentemente digna de inveja, pessoas milionárias que não enfrentam nenhuma privação material, chegam a tirar a própria vida: pois nenhuma quantidade de conforto pode substituir o propósito, e aquele que apagou a chama da esperança na alma de uma geração não deve se surpreender com a quantidade de fogueiras que se apagam. Digo-o com a mais profunda seriedade que consigo reunir, pois aqui reside o aspecto em que o ensaio se conecta à existência e à mortalidade: a luta pela compreensão não é um privilégio reservado aos filósofos; trata-se de uma questão de sobrevivência.

Chego, portanto, ao remédio, que se inicia com uma diferenciação que pode ser crucial para salvar vidas, desde que seja entendida a tempo: a diferenciação entre o significado da vida e a vocação. A propósito, o significado da vida é único para todos e, em sua essência, é de natureza religiosa. Fora de qualquer crença religiosa, a vida não possui significado algum, e o ateu sincero que levar sua descrença até as últimas consequências terá que se alinhar a Albert Camus e reconhecer que a vida e a existência não têm nenhum sentido intrínseco — essa é a única posição consistente que lhe sobra. Para aqueles que acreditam, no entanto, o propósito é evidente: tornar-se santo e auxiliar na santificação das almas. Não me refiro a ser um santo imediatamente; estou falando sobre o processo de transformação, sobre tornar-se uma pessoa digna e, em seguida, oferecer essa dignidade aos outros, pois, caso inverta essa ordem, corre-se o risco de cair na hipocrisia abominável de quem prega aquilo que não pratica. Esse é o objetivo final, e é o mesmo tanto para o trabalhador quanto para o monarca. A chamada é algo completamente diferente. A vocação refere-se ao talento único de cada indivíduo, algo em que cada pessoa demonstra uma facilidade que os outros não possuem, sendo a fissura através da qual sua essência se manifesta plenamente. O desespero do jovem contemporâneo surge precisamente da confusão entre essas duas questões: ele procura, no seu talento específico, o significado pleno da vida, e, como esse talento por si só não satisfaz sua sede de significado, chega à conclusão de que a vida não tem valor. A vocação não é o propósito da vida; ela é a forma pela qual cada indivíduo expressa seu propósito. Ter essa compreensão é libertar-se da cilada.

A partir desse ponto, a orientação prática é sóbria e passível de verificação. Encontre o que você faz com facilidade, o que parece natural para você, mas que é desafiador para os outros; é aí que, provavelmente, reside a sua vocação. Aos doze anos, eu era extremamente talentoso em física, ciências e em todas as disciplinas que eram exatas e teóricas. No entanto, acabei me tornando filósofo — não foi por acaso, mas sim porque a facilidade que eu tinha me possibilitou mergulhar profundamente no assunto, até que eu conseguisse encontrar significado dentro dele e gerar crises que me impulsionaram a crescer. É neste ponto que preciso lidar com a objeção mais significativa que se levanta contra uma afirmação que frequentemente faço, pois ela merece uma resposta sincera. Costumo afirmar que o trabalho que é realizado apenas com as mãos, voltado unicamente para o lucro, não contribui para o crescimento da alma, e por isso me acusam, com certa justificativa, de menosprezar o trabalho que é digno de quem repara uma máquina ou constrói um muro. A objeção é válida, e reconheço a verdade que ela contém: toda a tradição cristã ensina que qualquer estado de vida pode ser um caminho para a santidade, que o carpinteiro de Nazaré santificou seu local de trabalho e que é possível encontrar Deus ao lavar pratos assim como ao escrever tratados. Contudo, eu refino o escopo da objeção e preservo o fundamental do que defendo: nunca afirmei que o trabalho manual seja indigno; a minha posição sempre foi que nenhum tipo de trabalho, seja ele manual ou intelectual, contribui para o crescimento da alma por si só, a menos que a ele se adicione uma dimensão que estimule a interioridade — como o estudo, o ensino, o serviço ao próximo, a vida de oração e o enfrentamento das próprias crises. O lucro cobre as despesas e é desejável que o faça; no entanto, o crescimento espiritual não surge da ação automática repetida, mas sim daquilo que o indivíduo, em qualquer profissão, decide adicionar ao ato. Então, eu rectifico aquilo que a formulação apressada tinha de injusto e mantenho o que ela tinha de verdadeiro.

Existe uma realidade cruel acerca do trabalho no mundo tal como o conhecemos, e essa realidade está relacionada a este mesmo capítulo do significado. Quando ingressei no mercado de trabalho, ainda na adolescência, cometi o equívoco comum a todos os novatos: obedecia a todas as ordens com a determinação de alguém que deseja demonstrar seu valor. O resultado disso foi que começaram a exigir cada vez mais, sem oferecer uma compensação adicional, e no dia em que me recusei, recebi uma ameaça sutil de demissão. Foi então que compreendi o que aqueles que estão na labuta há mais tempo já descobriram: o esforço feito sem questionar não é devidamente valorizado; ele é simplesmente explorado. Ao operário apático, põem-lhe o peso em cima. Por isso afirmo, e a experiência corroborou, que frequentemente é mais vantajoso introduzir novas ideias em uma empresa do que suportar fardos como um jumento — pois a passividade tende a ser explorada, enquanto aqueles que aportam valor com inteligência se tornam difíceis de dispensar. Não se trata de cinismo; é uma compreensão clara de um mecanismo que existe de fato. Seja proativo, não permita que os outros se aproveitem de você, e não confunda subserviência com virtude.

O rapaz que não percebe esse funcionamento apodrece de inveja. Ele observa os mais velhos — as gerações que viveram o período de maior prosperidade econômica da história, quando enriquecer era infinitamente mais simples — e escuta dessas mesmas gerações, que herdaram um mundo próspero e o deixaram com preços dez vezes maiores, o dedo indicador levantado e a palavra fraco. É compreensível que isso gere um ressentimento, e é natural que uma parte da juventude o transforme em apoio a grupos que oferecem culpados. A solução não está no ressentimento; ela reside na clareza em relação à própria situação e na decisão de não transformar a dor em uma filosofia de vida. Aqueles que convertem a dor em um senso de pertencimento ideológico trocam uma forma de escravidão por outra, e os movimentos que afirmam oferecer liberdade são, muitas vezes, uma nova forma de servidão: eles prendem o corpo e dominam a alma, incluindo a daqueles que lhes são leais.

O antídoto tem nome, e é o mais improvável de todos: o estudo, o estudo sério, feito com humildade e com o único método que funciona. Santo Agostinho é o exemplo perpétuo. Foi homem de vida desregrada, mergulhado nos seus próprios labirintos, até que a razão o conduziu, dentro do cristianismo, à compreensão do que o cristianismo verdadeiramente é. E se São Tomás de Aquino ergueu depois a catedral tomista, fê-lo, em boa medida, para instruir os que precisavam do essencial: não por acaso a Suma Teológica era, no início da formação, a leitura primeira e mínima, o piso a partir do qual se subia. Dizem que Tomás é muito complicado, e eu digo que ele só é difícil para quem não possui conhecimento suficiente. Aqueles que anteriormente exploraram o edifício grego — como Sócrates, Platão e Aristóteles — reconhecem, em grande parte, no Aquinate a mesma estrutura adaptada e renomeada, e conseguem apreciá-lo sem dificuldades. Aos doze anos eu já organizava essas ideias, não por ser um gênio, mas porque não tinha preguiça de ler. O que muitos chamam de dificuldade não é da obra; é da própria preguiça que se recusa a fundamentar.

Não posso ignorar a metafísica sem, ao menos, mencionar seu cerne, pois é nela que o argumento se sustenta. Aristóteles, ao investigar o movimento, chega à noção do motor imóvel, ao princípio que provoca o movimento sem ser movido, o qual a tradição reconhece como Deus; e Tomás, em suas cinco vias, retoma e dá um caráter cristão a esse caminho, demonstrando que a razão, quando seguida de forma rigorosa, leva à descoberta do primeiro princípio. Na cosmologia que nos foi legada, existem motores que estão em um nível inferior — os quais uma parte da tradição interpretou como sendo as inteligências ou os anjos, e que algumas interpretações aproximaram das esferas da Árvore da Vida. Devo ser sincero em relação à natureza do que afirmo: ao perceber a semelhança entre a metafísica tomista e a cabala, e ao sugerir que Moisés Maimônides se inspirou profundamente em Aristóteles ao moldar o pensamento que levaria à tradição cabalística, estou fazendo uma inferência como leitor, e não apresentando um fato historiográfico definitivo. Está documentado que Maimônides era um grande seguidor de Aristóteles; o parentesco que menciono a partir daí é uma interpretação minha, e é assim que a apresento. Meu pai, por sinal, foi o único homem que conheci que conseguia fazer esses paralelos sem esforço algum, e a explicação era sempre a mesma: não tinha preguiça de aprender.

Duas lições de método encerram esta seção, e devo-as, em grande parte, ao professor Olavo de Carvalho, que foi, no verdadeiro sentido da palavra, um filósofo — um homem dotado de um sistema teórico, uma metafísica e uma visão de mundo bem estruturada — e não apenas um simples professor de filosofia, daqueles que transmitem o pensamento de outrem sem nunca terem elaborado o seu próprio. A primeira lição consiste na seguinte ordem ao ler: antes de se opor a um autor, é essencial compreendê-lo plenamente, adotando uma perspectiva que o veja como verdadeiro. É importante explorar suas fundamentações e reconstruir suas intenções; somente após essa compreensão é válido apresentar objeções, as quais devem ser avaliadas com base na lógica, e não em preconceitos. Estudar um autor com a intenção de desmantelá-lo é uma das principais fontes de ruína intelectual, pois impede a compreensão do que realmente se está contestando. A segunda lição diz respeito à sinceridade de opinião: o mestre Olavo afirmava que ninguém deveria opinar sobre questões sérias sem antes ter lido pelo menos mil páginas de Platão e Aristóteles, e ele estava correto. Atualmente, todos têm uma opinião sobre qualquer assunto, e essa excessiva manifestação de opiniões, que é confundida com liberdade, nada mais é do que a versão refinada da ignorância.

É aqui que se explica porque a chamada pedagogia crítica, tal como foi divulgada entre nós a partir de Paulo Freire, parece ser um equívoco cujas consequências são duradouras — com a ressalva de que analiso a postura popularizada e não necessariamente cada uma das obras do autor, cuja leitura pode gerar controvérsias. O que eu critico é a educação que prepara o aluno para contestar antes de tê-lo ensinado a entender. Para um jovem que ainda está formando suas bases, apresentar a suspeita como ferramenta inicial é confundi-lo e desestimular seu interesse pelo aprendizado, o que explica a escassez de jovens realmente entusiasmados em aprender. Há dois séculos, existiam grandes estudiosos, e mesmo entre aqueles que não eram, havia a reserva de não emitir opiniões sobre o que não se conhecia. Redescobrir esse pudor é uma parte da cura.

Realizei, em uma dessas praças digitais, um pequeno experimento social que, mais do que qualquer teoria, demonstra o funcionamento do mecanismo que desejo explicar. Expressei, de maneira contida, o que valorizo em uma companheira — características básicas de saúde, de personalidade e de fé, nada que qualquer pessoa não elabore em sua mente de forma silenciosa. A resposta foi rápida e elucidativa: uma enxurrada de mensagens de zombarias, risadas e indignação, muitas delas de pessoas que, em seus próprios perfis, faziam exatamente aquilo que criticavam em mim, ou seja, listavam suas preferências. O que realmente chamou a atenção não foi a hostilidade em si, mas sim a maneira como estava estruturada. Dois vícios estavam presentes ali. O primeiro ponto é a hipocrisia do critério duplo: o que é aceitável quando eu o digo torna-se chocante quando é dito por outra pessoa. O segundo, que é mais profundo, consiste em utilizar a vergonha como uma ferramenta de ataque. O propósito do linchamento não é debater; é humilhar, é fazer com que a pessoa não se atreva mais a ser quem é. Foi naquele dia que eu percebi a verdadeira razão por trás dessa engenharia da vergonha: aqueles que se negam a se transformar no estereótipo vivo que a sociedade impõe são vistos como aberrações, algo que deve ser eliminado. Contra aqueles que não se rendem, liberta-se todo o ódio acumulado.

Foi então que entendi a lógica da cooptação, que está no âmago de todo cancelamento, e ela deve ser expressa sem rodeios, mas com exatidão. O movimento — qualquer movimento de natureza ideológica — considera o membro como um mero instrumento. Enquanto ele cumpre o que é esperado, recebe aplausos, é venerado e celebrado. No momento em que se recusa a atender a uma única demanda da maioria, é rejeitado de forma barulhenta: é ofendido, ameaçado e sua reputação é menosprezada. Utiliza-se dele enquanto se está em serviço; e é deixado para trás quando se recusa. Trata-se da instrumentalização completa do indivíduo, convertido em um meio e nunca considerado como um fim em si mesmo, e o cancelamento é simplesmente a cerimônia pública desse abandono. Já tentaram me cancelar muitas vezes, desde sempre, por ter uma opinião diferente; nunca cedi, e cada vez que tentaram, foi só mais uma. Mas aqueles que fundamentaram sua própria perspectiva na necessidade de aprovação dos outros, acabam por perceber, no momento de sua queda, que construíram sobre uma base instável. Aquele que busca agradar a todos se torna o tapete de todos; não há como evitar essa verdade matemática.

Agora preciso relatar um episódio da minha juventude que contém, talvez, o cerne emocional de tudo o que venho expor, e peço ao leitor que o acolha como tal: um testemunho pessoal, narrado com o respeito que é devido a todos os envolvidos, cujos nomes omito. Quando eu ainda era bem jovem, no começo da faculdade, e um rapaz tímido e quase antissocial naquele meio, uma moça que, mais tarde, se tornou meu grande amor se aproximou de mim, demonstrando uma paciência que durou meses. Após uma longa amizade, começamos a namorar, e esse namoro foi, durante seis meses, um dos mais felizes que experimentei. Sempre fui cristão a ponto de não querer a intimidade física antes do compromisso firmado, e foi assim que passamos por aquele período, entre visitas à casa dela, conversas com o padre e a ternura de quem acredita, diante do amor da sua existência. No entanto, havia indícios que eu não conseguia interpretar: olhares curiosos na universidade, brincadeiras com duplo sentido que eu creditava à minha falta de experiência, uma leve estranheza que pairava no ambiente. Então, na noite anterior ao que seria nossa primeira experiência íntima, ela me falou que era necessário ter uma conversa séria e, durante essa conversa, me contou que era uma pessoa transexual.

Não falarei daquela pessoa com desprezo, porque não o merece; antes, foi decente para comigo, e é dessa decência que depende o desfecho que vou contar. Sim, narrar-ei o que se passou dentro de mim, porque é isso que, filosoficamente, interessa. Fui consumido por uma batalha interna que me deixou completamente desorientado, do topo da cabeça até a ponta dos pés. Não se tratava de preconceito no sentido de uma aversão sem motivo; era a realização de que havia um abismo entre aquilo que eu desejava desejar e aquilo que realmente desejava. Fiquei sem dormir, sem comer, e emagreci muitos quilos em apenas duas semanas, a gastrite retornou com muita força. Sou um homem que precisa ter tudo sob controle, e naquele momento eu desmoronava, pois o que estava em jogo não podia ser controlado. Prolonguei o relacionamento por mais seis meses, tentando, por obrigação, fazer o que o desejo se negava, indo à igreja, estudando o que o padre falaria, forçando a minha vontade contra a minha própria inclinação. Um amigo de infância, que atualmente se dedica à psicologia, foi quem me revelou a verdade que eu estava tentando ignorar: eu não sentia nenhuma atração por aquela pessoa, nem nunca tinha sentido por ninguém da mesma forma, e continuar insistindo apenas serviria para feri-la ainda mais profundamente. Ele me conhecia desde a infância e estava ciente do que estava falando. Chegamos ao fim, e o fizemos de maneira harmoniosa, pois não havia maldade em nenhum de nós — apenas a percepção de uma discordância que a vontade não consegue superar.

Desse episódio obtenho um argumento autossuficiente, desvinculado de qualquer generalização, que se refere à essência da liberdade humana. Um homem não consegue impor a si mesmo um desejo que não sente; a vontade pode comandar diversas ações, mas não é capaz de criar uma atração onde ela não está presente, e Santo Agostinho, em sua obra sobre a vontade dividida, compreendia isso como ninguém. Por essa razão, vejo como um verdadeiro abominável horror moral qualquer sistema legal que tente punir alguém apenas por se recusar a estabelecer um relacionamento afetivo ou íntimo. Quando a recusa se transforma em crime, o consentimento se torna irrelevante, e aquilo que se consegue através da ameaça de um processo ou de uma pena não é uma relação, mas sim uma coação. Um tio meu fez uma comparação bastante rude, mas precisa: o amor é semelhante a uma necessidade fisiológica — se você pressionar demais, o resultado será catastrófico. Não se pode exigir amor sem que isso o torne prejudicial, e uma sociedade que busca regular a atração está, na verdade, impondo a submissão do corpo. Este é o cerne da questão, despojado de toda a controvérsia: a liberdade de recusar é a última bastilha da dignidade, e quem a destrói, aniquila a própria ideia de consentimento.

Antes de chegar à conclusão, preciso esclarecer um equívoco comum sobre o niilismo, pois ele destaca o contraste que estou explorando. Frequentemente, o niilismo é associado a Nietzsche, mas isso é um erro: o niilismo já existia antes dele, e Nietzsche, de sua forma trágica, nutria muito mais esperança na vida do que os niilistas passivos de hoje, que insistem que nada possui significado. Quando era jovem, lia Nietzsche com grande frequência e, de fato, sou um dos cristãos que mais o mencionam, pois, em sua obra, há uma revolta contra o nada que é, a qual, por sua vez, representa uma forma distorcida de amor à própria existência. O niilismo autêntico que vivemos atualmente difere do dele; trata-se de uma perspectiva do mundo, sombria e deprimente, que ensina, a partir das cátedras, que nada possui valor — e não é por acaso que, entre as pessoas que conheci que tiraram a própria vida, muitas compartilhavam essa visão desprovida de sentido. Uma visão de mundo que afirma a existência absurda paveia o caminho para a desesperança, e a desesperança, quando completa, é fatal.

Chego, finalmente, à última solução, e ela possui um nome que a modernidade ignora por não conseguir entendê-la: esperança. Defendo que a esperança é a origem de todas as virtudes e elucidarei essa afirmação usando o exemplo mais extremo de um ateu. O caminho para a saída, mesmo para aqueles que atualmente não acreditam, inicia-se com um pequeno gesto de esperança: a expectativa de que Deus possa realmente existir. Desse grão, nutrido por argumentos, evidências e uma análise sincera da realidade ao nosso redor, surge gradualmente a convicção; e a partir dessa convicção, emerge a ética objetiva, que por sua vez, dá origem à libertação em relação ao demiurgo sintético que consome os neurônios de uma geração inteira. Não existe outro caminho. O que eu me refiro como ética objetiva não é simplesmente este ou aquele princípio adquirido por costume, mas sim a ética que se baseia na lógica — entendida da maneira como Sócrates, Platão e Aristóteles a descreveram, da qual a integridade acadêmica é uma parte indispensável. Obter essa ética é a única maneira eficaz para que um jovem escape do labirinto, e é por essa razão que a esperança ocupa o primeiro lugar: pois, sem ela, nem mesmo o primeiro passo é dado, e com ela, até o que parece impossível gradualmente se torna viável.

Faço essa travessia com a mais precisa imagem encontrada em uma obra inesperada, que recorro porque, em algumas ocasiões, a arte expressa o que o tratado não consegue alcançar. Estou me referindo a Neon Genesis Evangelion e ao seu personagem principal, Shinji Ikari, que é, ipsis litteris, o homem contemporâneo: um jovem sem nenhum tipo de referência, abandonado pelo pai, criado quase que de forma solitária, lançado em um mundo caótico onde crianças são levadas a se sacrificar por uma humanidade que mal conseguem entender. Hideaki Anno realiza o ato mais audacioso que um autor pode conceber — lançar uma criança desprovida de qualquer referência no meio do caos e revelar sua busca, às cegas, por algum significado que a faça resistir. Sempre optei por aquele final que, apesar de ser considerado estranho por muitos e realizado com poucos recursos, é preferível ao encerramento mais grandioso. Nele, Shinji consegue entender o que realmente importa: que há uma realidade que transcende a sua luta, um mundo superior, um propósito final para a vida, e que a existência pode ser incomensuravelmente mais grandiosa do que a sociedade lhe ensinou a acreditar. O que todos consideravam impossível passa a ser possível simplesmente por uma mudança na forma de ver as coisas — o olhar cheio de esperança e aquele que se ativa, de quem para de ser passivo em relação à própria vida.

O que acontece naquele final, e que eu resumo sem reproduzir suas palavras, é uma lição de metafísica apresentada de forma disfarçada como um diálogo. Dizem que é a nossa mente que distingue o que é real do que consideramos odioso, que a perspectiva a partir da qual observamos é que determina o significado do que vemos, e que a mesma chuva pode ser interpretada como tristeza ou alegria, dependendo de como a recebemos. Diz-se que a verdade de cada um é delicada, composta pelos pontos de vista que decidimos adotar; no entanto — e aqui está a conexão que reúne tudo o que tenho defendido — essa verdade é apenas a nossa visão, a nossa gnose interna, e não a realidade em si, que é sempre mais abrangente do que qualquer um dos ângulos. O conflito de Shinji reflete o dilema do jovem que se detesta por nunca ter aprendido a se valorizar, que teme a opinião dos outros e, por isso, se resguarda; sua libertação ocorre ao perceber que talvez possa se amar e que a vida pode ter um significado muito mais profundo do que ele imaginava. O anime termina quando ele finalmente afirma que deseja ser ele mesmo — e é nesse sorriso que se concentra toda a argumentação deste ensaio.

É precisamente disso que se trata, no final. A visão do jovem atual está distorcida, pois lhe tiraram seu ponto de referência, e em cima desse vácuo, construíram a ilusão de que seu conhecimento interno é a verdadeira realidade. A esquerda — e empregando o termo no significado exato da engrenagem de aniquilação que venho detalhando — captura essa visão, que é apenas uma faceta, e a eleva à categoria de verdade absoluta, dando origem às ilusões tecno-gnósticas de um universo que seria inteiramente ilusório, com almas adormecidas e escravizadas por máquinas, e realidades artificiais. É a época da gnose levada ao extremo. Em oposição a isso, a missão do jovem é clara e desafiadora: encontrar uma base de ética objetiva; construir sobre essa base os fundamentos de uma vida digna; e, a partir daí, seguir o rumo de sua própria existência por meio de sua verdadeira vocação, sem se deixar influenciar pela opinião dos outros. Aqueles que buscam agradar a todos acabam falecendo em suas tentativas; por outro lado, aqueles que descobrem seu próprio centro permanecem firmes, mesmo que enfrentem o cancelamento em todos os lugares. Sejamos humanos, vejamos o outro como um ser que também comete erros, assim como nós, e reconheçamos que a esperança de Deus em relação à humanidade — a expectativa de que ela possa se tornar grandiosa, assim como muitos que tiveram um início medíocre — é o verdadeiro exemplo do que devemos ser uns para os outros.

Tomaram-lhe o paraíso e apelidaram-no de libertação; ofereceram-lhe uma visão do futuro e afirmaram que era a realidade; extinguíram sua paixão e chamaram as cinzas de sabedoria. Entretanto, a chama da determinação, a chama da esperança, não pode ser completamente extirpada: ela ainda queima intensamente no íntimo de cada jovem que questiona, sem ter consciência de que está questionando, qual é o propósito de estar vivo. Responder-lhe é a única coisa que realmente conta. A resposta, após todas as reflexões, é clara e direta: sua finalidade é aprimorar-se além das limitações impostas pelo mundo e auxiliar os outros a fazer o mesmo — o que, no fundo, é essencialmente a mesma missão que Krypton confiou a um berço em queda, e que, ainda nos dias atuais, diante de toda a artificialidade do século, aguarda ansiosamente que alguém a pronuncie em voz alta.

C. S. Lewis menciona precisamente isso em "A Abolição do Homem":

“De maneira quase macabra, extraímos o órgão e exigimos que ele funcione. Concebemos indivíduos desprovidos de coragem e esperamos que possuam virtude e iniciativa. Ridicularizamos a honra e nos surpreendemos ao descobrir traidores entre nós. Castramos e exigimos dos castrados que sejam frutíferos.”

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Filosofia clássica e metafísica

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2007.

ARISTÓTELES. Metafísica. Ensaio introdutório, texto grego, tradução e comentário de Giovanni Reale. Tradução de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2002.

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Teologia, patrística e metafísica medieval

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Abril Cultural, 1980. (Coleção Os Pensadores).

MAIMONIDES, Moses. The Guide of the Perplexed. Tradução de Shlomo Pines. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. Tradução coordenada por Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001-2006. 9 v.

Filosofia política e crítica das ideologias

CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva: introdução à teoria dos quatro discursos. Campinas: Vide Editorial, 2013.

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VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism: two essays. Washington: Regnery, 1968.

VOEGELIN, Eric. The New Science of Politics: an introduction. Chicago: University of Chicago Press, 1952.

Existencialismo, niilismo e a questão do sentido

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Record, 2004.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Pedagogia (fonte discutida criticamente)

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Obras de referência cultural

ANNO, Hideaki (dir.). Neon Genesis Evangelion. Tóquio: Gainax; TV Tokyo, 1995-1996. Série de animação.

SNYDER, Zack (dir.). O Homem de Aço [Man of Steel]. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2013. 1 filme (143 min).