Contra o Rebanho do Abismo

Antes que a massa de imbecis se submeta a suas correntes de pensamento, é necessário indagar quem ainda reflete com sua própria essência. Este escrito serve como uma defesa contra a gnose que converte desejo em realidade, coletivo em consciência e rebelião em fé. Aqueles que adentrarem este lugar não encontrarão conforto, mas sim o reflexo implacável de uma era que celebra sua própria decadência.

Gabriel G. Oliveira

6/4/202620 min ler

Uma turma do barulho aprontando todas em um ritmo louco de azaração: eles são os imbecis.

Há um tipo de pessoa que, por sua natureza, pode ser considerada uma prostituta intelectual. Não no sentido de ofensa sem razão, mas no sentido mais técnico: é quem fornece ao grupo a venda do pensamento. Que não reflete de forma independente, pois simplesmente não possui essa habilidade ou, ainda mais lamentável, tem a capacidade de fazê-lo, mas prefere abdicar disso em troca de um sentimento de pertencimento. Olavo de Carvalho, em Imbecil Coletivo, atribui um nome apropriado e elegante a isso. Eu gosto mais do termo que utilizamos aqui no Círculo de Estudos Nous: a vadia intelectual. O imbecil de coleira. É a pessoa que se levanta pela manhã, observa seu pequeno grupo ideológico e indaga, de forma implícita, o que deve pensar naquele dia. O grupo pequeno responde. Então ele vai.

Não se trata de um dramatismo exagerado. É uma descrição prática do que ocorre quando uma pessoa se identifica unicamente com uma corrente de pensamento. Você se considera tomista? Excelente. Se algum dia você conceber uma ideia que se desvie um milímetro do tomismo, você não a publicará. Simplesmente engula. Por que razão? Pois o grupo irá te observar de maneira estranha. O receio de receber um olhar de reprovação do grupo geralmente se sobrepõe à integridade intelectual para a maioria das pessoas. É por essa razão que não me considero um olavista, apesar de Olavo de Carvalho ter sido um dos pensadores que mais impactou minha formação intelectual e de eu ainda o assistir toda semana até hoje. Em alguns dias, chego a ter até quatro aulas seguidas. Às vezes, uma por dia em cada dia da semana. A morte física não eliminou sua influência intelectual em minha vida, e isso revela algo importante sobre a verdadeira essência de um professor. No entanto, não me considero um olavista. Sou uma combinação que ainda não possui um nome completo, e assim deve continuar.

Meu modo de pensar se alinha com o de Chesterton, em certos aspectos, de maneira mais profunda do que o próprio Olavo. Há uma influência claramente tomista, uma dose de René Guénon no que Olavo utilizou e me ensinou, muito de Eric Voegelin na análise histórica e política, Jung na psicologia como instrumento descritivo, o distributismo como modelo econômico associado à Doutrina Social da Igreja, e uma visão monárquica particular, mais alinhada com as antigas monarquias cristãs do que com qualquer conservadorismo moderno de direita. Tudo isso integrado em uma gnoseologia que incorpora métodos do Trivium, do Quadrivium, da astrologia como um sistema simbólico para interpretar a realidade, e de muitas outras disciplinas, que, em conjunto, resultam em algo que eu denomino de solar punk cristão, por não encontrar uma designação mais adequada. Não se pode encaixar em uma caixinha. Se não se encaixa em um padrão, a prostituta intelectual nem consegue me localizar no seu mapa. Para ela, qualquer um que não se encaixe em um padrão é visto com desconfiança.

O Círculo de Estudos Nous, onde este texto se origina, opera com uma estrutura intencionalmente sutil. Eu sou o mestre da Segunda-feira. O senhor Terça-feira é responsável pelo nosso Instagram. A Senhora Sexta-Feira é minha mãe, Janice S. Godoi, professora de matemática que teve contato com seus alunos por tempo suficiente para observar de forma prática, no dia a dia da sala de aula, tudo o que estamos relatando aqui. Há também os anônimos: senhor Quarta-feira, senhor Quinta-feira, senhor Sábado, senhor Domingo. Eles não se mostram porque não têm essa capacidade. São indivíduos que pertencem a ordens, movimentos ou organizações de tal forma que, se forem reconhecidos, se tornarão alvos. Vários deles têm origens na própria gnose que estudamos, o que os torna mais familiarizados com o conteúdo. Quando publicamos os textos de sua autoria, eu faço os últimos ajustes de estilo para que a escrita não os reconheça. Em relação ao senhor Domingo, não farei menção a ele além do que já foi mencionado. Ele não deseja. Isso é tudo.

Agora, retornando à raiz da questão.

O conceito de imbecil coletivo possui uma profundidade que transcende a ideia do idiota comum. No grego, o termo idiota refere-se a uma pessoa que reúne três características simultaneamente: arrogância, falta de inteligência e desinformação. Já expliquei isso em outras ocasiões aqui no Círculo. As duas últimas giram em torno da primeira. Ele é arrogante demais para notar que não tem conhecimento sobre o assunto, e teimoso o bastante para não demonstrar interesse em aprender, mas ainda assim se posiciona como a autoridade máxima em tudo. Em sua cabeça, existe um buraco negro no centro. Este buraco negro representa o relativismo. O relativismo age de maneira semelhante aos buracos negros, que atraem e absorvem toda a matéria ao seu redor, tornando-a subjetiva. Inicia atribuindo uma perspectiva pessoal às ideias de outros. Em seguida, a lição moral. Em seguida, a realidade se impôs. A seguir, a própria vida. Todo esse processo ocorre de forma encadeada, assim como Giordano Bruno previu, o que representa uma das raras afirmações geniais que ele fez, uma vez que, em muitos outros aspectos, eu tenho uma opinião contrária em relação a ele. Mas, nesse aspecto, ele foi absolutamente preciso: ao relativizar conceitos, você não se limita a isso. Você vai minimizando, minimizando, até atingir um ponto em que o fogo não queima se você tiver fé suficiente, onde um porco pode voar se a história for persuasiva, onde toda a realidade se transforma em simulação e você se torna um personagem aprisionado em uma matrix do seu próprio ego. É precisamente isso que está ocorrendo neste momento.

Eu presenciei isso pessoalmente durante uma conversa entre uma amiga da minha mãe e eu. Ela chegou com a teoria que circula por esses lugares de crenças mágicas mal assimiladas: a comida em si não é prejudicial, o que realmente faz mal é ter a crença de que fará mal. Estou com gastrite. Feridas de verdade no estômago. Então eu coloquei à prova o argumento na forma mais prática que se pode imaginar: se eu tiver uma atitude super positiva e me empanturrar com uma tigela cheia de pimenta malagueta, não acontece nada? A mulher confirmou. O corpo reage de acordo com suas expectativas sobre o que vai acontecer. Eu disse a ela que estava descrevendo feitiçaria. De forma não metafórica. Em outras palavras: a ideia de que a mente pessoal pode influenciar os efeitos reais da matéria no corpo segue a mesma lógica que caracteriza o pensamento mágico em qualquer cultura que o analise. Ela tentou utilizar o efeito placebo. Eu esclareci a distinção: o placebo atua porque o paciente não tem conhecimento de que está ingerindo uma substância inerte, e, portanto, o sistema nervoso reage à expectativa gerada. Nenhum estudo com placebo é conhecido em que um paciente esteja ciente de ter uma ferida aberta no estômago, saiba que está consumindo pimenta e, ainda assim, não experimente sangrar. Essa não é a versão lírica do placebo. Isso é a versão da bruxa da novela. Pimenta em uma gastrite é como ácido em uma ferida exposta. Não importa se você reza, medita, visualiza ou acredita com toda a sua força cósmica. Vou ter fezes com sangue. Ponto final. Se eu engolir uma pilha completa, isso será fatal para mim. Independentemente do grau de otimismo. Então eu a chamei para ir para a rua e dar um chute com toda a força na guia de concreto que divide a calçada da sarjeta, e depois me contar, usando o pensamento mais mágico que ela puder, se conseguiu transformar a realidade o suficiente para que o dedo não quebrasse. Nessa época, minha mãe ainda não tinha o conhecimento de lógica formal que desenvolveu mais tarde, mas tentou ajudar com o argumento da mulher. Observei as duas e refleti: Meu Deus do céu.

Essa discussão parece trivial. De maneira alguma. É um exemplo claro de como a gnose afeta a mente humana quando age sem objeções. A gnose, de todas as suas maneiras, é uma rebelião contra a realidade. É a negação de reconhecer que a realidade possui uma organização que não depende dos desejos pessoais. Isso que se manifesta, na amiga da minha mãe, como uma versão new age de subúrbio, encontra na política sua expressão como marxismo, na academia se revela através do desconstrucionismo, nos movimentos identitários aparece sob a forma de ativismo pautado, e, em todos esses casos, compartilha a mesma maquinaria interna: a exceção transforma-se em norma, o subjetivo passa a ser o critério de verdade, e aqueles que se opõem a isso são rotulados como hereges.

O feminismo serve como o exemplo mais eficaz para ilustrar esse funcionamento no Brasil, não por ser a questão mais grave, mas porque foi a origem. A esquerda armada que atuou no Brasil durante as décadas de 1960 e 1970 era, de forma paradoxal, machista e rudimentar. O feminismo gramsciano forneceu a sofisticação cultural necessária para que o marxismo se infiltrasse nas instituições. Gramsci compreendeu algo que Marx não desenvolveu de maneira adequada: a revolução pode ocorrer pela cultura, em vez de ser necessária a utilização de armas. O feminismo, enquanto movimento de valores, era o meio perfeito. A partir daí, começaram a surgir outros movimentos identitários, uns se sobrepondo aos outros, cada nova camada justificando e defendendo a anterior, até chegarmos à situação atual, em que existem movimentos que se afirmam como representantes de minorias oprimidas e, ao mesmo tempo, produzem discursos abertamente favoráveis à destruição de grupos étnicos específicos. A vertente mais woke do movimento negro não representa a defesa dos negros pobres do Brasil. Trata-se da formação de uma elite negra ideológica que se beneficia às custas do verdadeiro pobre negro, da mesma forma que qualquer outra elite utiliza uma agenda enquanto a manipula em seu favor. Quando afirmo que uma parte considerável desse movimento defende a morte de brancos, não estou exagerando. Há vídeos, declarações escritas, palavras de líderes. Isso, de acordo com os registros, foi feito dez de Nelson Mandela. O que eles denominam como a maioria branca representa, na contagem da realidade, menos de 10% da população mundial, que possui as características fenotípicas de cabelos loiros, estatura alta e olhos claros, aquilo que eles se referem como a raça ariana. A verdadeira minoria no mundo é composta por eles, enquanto a verdadeira maioria é formada pelos outros. Transformam a minoria em uma maioria opressora e a maioria em uma vítima globalizada. Cometer o mesmo engano do jumento, mas no campo da geopolítica racial: fazer da exceção uma norma.

O racismo no Brasil é real? Em certos contextos, há racismo. Normalmente em lugares de baixíssima diversidade, onde a falta de contato com pessoas negras criou preconceito por falta de conhecimento. É algo sério, mas restrito, e é tratado com respeito e convivência genuína. A estrutura sistêmica que não foi importada do contexto americano, onde a escravidão foi abolida há bem menos tempo do que no Brasil, onde a segregação formal persistiu por várias décadas após a abolição, e onde a divisão racial foi moldada ao longo da história de uma maneira totalmente distinta. Trazer a narrativa racial dos Estados Unidos para um Brasil que é resultado de um grande cruzamento de raças não é uma análise, mas sim um colonialismo cultural ao contrário. É substituir a compreensão da realidade brasileira por uma ilusão ideológica estrangeira, e o resultado é uma narrativa que não retrata o que realmente acontece, mas que gera disputas em situações de convivência que, embora imperfeitas, são reais.

Quando você leva esse assunto a uma feminista engajada, a reação é bastante comum: ela solicita evidências, você as apresenta, e então ela tenta contornar a situação com argumentos legais. Você esclarece que existem cerca de oitenta dispositivos legais no Brasil que estabelecem privilégios formais para as mulheres em detrimento dos homens, abrangendo desde legislações explícitas até parágrafos inseridos em leis de outras áreas, e que as próprias advogadas que trabalham nessa área afirmam isso de forma clara. Segundo a perspectiva dela, a lei é infalível, todo homem que é acusado é considerado culpado, e a ideia de uma falsa acusação que seria elaborada ao longo de dois ou três anos, com testemunhas que se deixam influenciar pela narrativa carregada de emoção criada pela acusadora, é uma fantasia misógina. Ela não consegue pensar em possibilidades. Isso não é uma limitação mental por acaso. É a ideologia impedindo o contato com a realidade. Quando a análise é reduzida a um simples binário, onde tudo se resume a opressor e oprimido, e nenhuma prova ou evidência é capaz de mudar a posição de alguém nessa categorização, você já não está mais realizando uma análise. Você está praticando a liturgia.

Isso nos faz rir. Não fique com raiva. De um medo autêntico. Você observa essa perspectiva de vida e se pergunta como alguém com um QI mediano consegue sustentar essa ideia de forma lógica em sua mente por mais de cinco minutos. A resposta é: não preserva. É por essa razão que eles necessitam do grupo. O grupo mantém a fantasia em conjunto, pois, quando confrontada com a realidade de forma individual, essa fantasia desmorona.

Um exemplo claro disso é o caso de Marx. As pessoas me questionam sobre a razão de eu considerar Marx um idiota. A resposta é clara: porque ele criou uma teoria econômica da totalidade sem incluir o consumidor em sua concepção. O tipo de relação que ele menciona é puramente de patrão para empregado. O cliente, o mercado, a informação sobre preços que circula entre os agentes, o pequeno empreendedor que é trabalhador e proprietário ao mesmo tempo; tudo isso não se encaixa no modelo, pois este foi elaborado para validar uma tese, e não para retratar a realidade. E ao tentar encaixar toda a realidade em uma tese previamente elaborada, você acabará forçando a realidade a se ajustar em espaços que não são adequados. Marx fez isso ao herdar de Hegel a noção de que o impulso da história se origina da contradição entre opostos, que ele reinterpretou como luta de classes. Para compreender Hegel, é essencial ter um mínimo de conhecimento sobre a Kabbalah hermética, pois o misticismo presente na obra hegeliana não é apenas um adereço, mas sim a própria estrutura. Marx, por sua vez, secularizou essa estrutura e a direcionou para o campo econômico, eliminando a conotação metafísica e preservando apenas a noção de luta, o que resultou em uma perspectiva de mundo na qual tudo, até mesmo as forças da natureza, é entendido como revolução, oposição e dialética. Daí surge a conclusão inevitável: quem obstrui o paraíso na Terra é o capitalista. Extermine o capitalista e o paraíso surge por si só. Como se a realidade fosse uma questão que a violência pode solucionar. É luciferianismo desprovido da elegância poética. É uma revolta genuína contra a ordem da realidade, disfarçada de ciência.

Mas por que eles persistem nisso? Isso ocorre porque, ao acreditar fervorosamente na doutrina marxista e aplicá-la à realidade, é possível chegar a duas conclusões distintas. A primeira é evidente: tudo aquilo é conversa fiada, um discurso prolixo que não suporta a confrontação com qualquer dado econômico verificável. A segunda opção é a que a maioria das pessoas que continuam nessa trajetória escolhe: se o paraíso ainda não chegou, é porque os poderosos do mundo estão bloqueando sua chegada. Assim, o comunismo deixa de ser apenas uma teoria e se transforma em uma cosmologia da perseguição. Você começa a existir em um mundo onde cada falha do sistema é vista como uma sabotagem, cada barreira é considerada uma conspiração, e toda verdade que vai contra a doutrina é uma mentira criada pelos inimigos de sua classe. E isso nos leva de volta ao gnosticismo: o mundo não é como aparenta, a realidade que vemos é uma construção dos opressores, e apenas aqueles que foram iluminados pela doutrina conseguem perceber o que está subjacente. É a mesma organização dos cátaros do período medieval, dos gnósticos de Alexandria e dos adeptos do movimento new age em bairros abastados. Troca o vocabulário, mas o coração é o mesmo.

Voegelin se referia a isso como religião ideológica, e sua definição é precisa: ocorre quando o Estado ou um movimento político assume o papel de oferecer salvação, que anteriormente era atribuído à religião, mas com a diferença de que, enquanto a religião prometia essa salvação em um plano onde ela poderia continuar sendo uma promessa sem a necessidade de ser confirmada, agora esse papel é desempenhado pelo Estado ou movimento. A ideologia promete, em termos históricos, que o paraíso será alcançado. E, quando isso não acontece, é natural que alguém seja apontado como responsável por essa falha. Assim como o herege religioso, o herege ideológico não pode se permitir duvidar. No Brasil atual, que é considerado um dos países menos livres do mundo nesse aspecto, é possível fazer essa medição com exatidão: se você diverge da narrativa predominante dos movimentos identitários, não se trata apenas de ter uma opinião distinta. Você representa uma ameaça à sociedade. Tu és o mal. O mal não deve receber oposição.

Se Sócrates vivesse atualmente e fosse uma figura de destaque, certamente seria alvo de um linchamento. De forma não metafórica. Seria crucificado nas redes, ameaçado de morte, provavelmente espancado caso aparecesse numa manifestação do partido ou de qualquer um dos movimentos que estamos debatendo. Por qual motivo? Porque, segundo os escritos que nos foram legados, Sócrates era um homem de evidentes inclinações bissexuais, mas que não agia segundo tais inclinações por acreditar que a virtude se sobrepunha ao impulso. Ele tinha um amor profundo por sua esposa. Não tenho certeza se eram uma ou mais, mas o texto deve esclarecer isso com precisão histórica; o importante é que ele conseguia diferenciar entre suas emoções e o que era certo fazer. Ele resistia ao impulso porque sabia que o prazer efêmero não constrói uma vida virtuosa. Essa diferença, que é fundamental para qualquer estrutura ética séria, isso é completamente inaceitável para o movimento moderno, que proclamou que qualquer desejo deve ser satisfeito sem demora e que reprimir qualquer desejo é uma forma de violência.. Sócrates seria apedrejado por ter tendências bissexuais e não ceder a elas. A dor é tanta que vem acompanhada de uma forte ironia.

No Banquete de Platão, quando uma pessoa sugere algo a Sócrates e ele se recusa, respondendo que isso é algo destinado aos ricos, àqueles que exercem controle sobre os prazeres, essa recusa não se deve a uma postura puritana. Trata-se da ordem dos valores. Sócrates presta serviço ao Agathos Daemon, ao supremo bem, e essa devoção orienta as ações que ele realiza com seu próprio corpo. A modernidade reverteu essa situação: o corpo agora dita as regras, enquanto a virtude se submete. Aqueles que discordam são, no mínimo, silenciados; no pior dos casos, rotulados como fascistas.

Em relação à homossexualidade na Grécia e Roma antigos: não era, de maneira alguma, universalmente aceita como parte da cultura. Quem analisa os papiros, os documentos legais e os textos da época, percebe que havia criminalização em várias áreas e que a prática era desaprovada em muitos contextos sociais. O que havia, de fato, era uma prática concreta, relacionada a questões de poder e prestígio, que produzia efeitos legais em várias cidades-estado gregas e províncias romanas. Não era o paraíso LGBTQ+ que a narrativa contemporânea retroativamente pinta naquele período para conferir uma legitimidade histórica ao que deseja normalizar atualmente. É uma reinterpretação histórica a serviço de uma agenda. Novamente: o que era exceção se torna a regra, o marginal se transforma em norma, e o contexto se desvanece.

O discurso de esquerda sobre sexualidade, para concluir este ponto de maneira direta, apresenta uma incoerência interna que seria risível se não gerasse consequências reais. De um lado, proclama que não se deve julgar nem reprimir qualquer tendência sexual. Por outro lado, patologiza de forma clara o homem heterossexual que se recusa a experimentar o oposto. Um amigo meu, que é psicólogo bem formado e homossexual, me falou na lata: Gabriel, avisa pros caras héteros que estão sendo pressionados, pra não caírem nessa. Pois é o comportamento que gera atração. O sistema nervoso apresenta plasticidade. Isso não se trata de uma perspectiva conservadora, mas sim de fisiologia. Quando alguém expressa isso, qual é a reação da esquerda? Gritar "cura gay" e ficar literalmente com raiva de quem dormiu pouco e acordou de mau humor. A lógica não tem relevância. O dogma é relevante.

Não tenho, de forma alguma, atração por mulheres que são promíscuas. Não se trata de um julgamento moral expresso. É assim que eu opero. Há quem se refira a isso como demissexualidade, que, na linguagem progressista, se tornou mais uma condição a ser abordada. Ser exigente na seleção de parceiros se tornou um problema. O conservadorismo sexual tornou-se um sinal. A normalidade invertida é tão absoluta que até aqueles com preferências simples e convencionais precisam receber um diagnóstico.

Quando falo da mulher moderna, o que escrevo não reflete uma opinião sobre mulheres como um grupo. É uma constatação do que, em massa, o vício em dopamina e a ausência paterna geraram. A mulher que se desenvolveu sem uma figura paterna estável, que foi tratada como uma princesa inatingível por toda a cultura ao seu redor, que assimilou a ideia de que nenhum homem pode recusar sua presença sem ser rotulado como homossexual ou um conservador patológico, essa mulher não está preparada para identificar um relacionamento saudável quando este surge. A relação entre prazer e escassez que sustenta a atração feminina não se trata de uma sabedoria manipuladora e cínica. É a explicação de como o sistema nervoso feminino contemporâneo foi moldado para operar. Ao oferecer tudo de uma só vez, você se torna previsível e de baixo valor em sua percepção, não por maldade dela, mas porque o sistema de recompensa dopaminérgico busca variedade. Trata-se de um aspecto comportamental que pode ser observado, e não tem nada a ver com misoginia. Está completamente relacionado ao que a cultura moldou nas expectativas femininas ao longo das últimas décadas. A mulher que não se encontra nesse ciclo, que possui uma verdadeira feminilidade e não necessita de estímulos constantes, é uma exceção nos dias de hoje. É precisamente por ser escassa que tem valor.

Todo esse conteúdo, seja de maneira próxima ou distante, direciona-se para um único conceito: a gnose. A mentalidade gnóstica que, como descrevo em outras obras do Círculo, possui quatro motores principais que funcionam em conjunto. O primeiro é o hexagrama da ruína, que serve como o motor central de toda a organização gnóstica. A mentalidade revolucionária é a segunda questão, pois se tornou a forma habitual de enxergar o mundo, onde tudo é visto através da dialética, da contrariedade e da ruptura. Terceiro, está a devoção a uma filosofia gnóstica ou revolucionária como uma alternativa à religião convencional. O quarto aspecto é o milenarismo: a crença de que é possível, necessário e iminente o advento de um messias ou de uma era de perfeição terrena, seja por meio da chegada de um líder carismático, pela manifestação coletiva de uma nova ordem ou pela preparação do mundo para que esse momento ocorra. O milenarismo representa o núcleo emocional de toda essa questão. É isso que torna o fanatismo tão urgente. É o que converte um militante em uma verdadeira máquina de caça ao herege, uma vez que, em sua mente, o herege está impedindo a chegada do paraíso.

Essa organização não é inédita. É a mesma que possuíam os cátaros, os joaquinitas da Idade Média, os jacobinos durante a Revolução Francesa, os bolcheviques, os nazistas e, atualmente, os movimentos woke e as seitas tecnológicas que combinam transumanismo com uma visão apocalíptica. O transumanismo é um dos aspectos mais elucidativos sobre a direção que tudo isso tomará. A proposta da esquerda, em sua forma mais completa e definitiva, é que é necessário transformar o ser humano em sua essência para que o plano se concretize. Não é suficiente apenas reformar as instituições. Não é suficiente transformar a cultura. É necessário alterar a biologia. Portanto, chegamos aos laboratórios que atualmente introduzem DNA humano em animais e DNA animal em humanos para formar híbridos. Pesquisam terapia gênica com material genético de várias espécies, combinado com moduladores sintéticos, para criar organismos com uma longevidade extrema. Que criam interfaces cérebro-máquina para modificar a cognição humana fisicamente. Isso não é um conto de ficção científica. Está em andamento. Quando você se questiona por que o catolicismo é alvo de um ódio tão profundo, que nenhuma outra instituição experimenta, a resposta reside no fato de que o catolicismo é a única grande tradição que, com uma base doutrinária bem definida e uma lembrança histórica dos resultados que ocorrem quando a humanidade tenta recriar a si mesma à sua própria imagem, proíbe essa prática.

O dilúvio, para aqueles que abordam o Gênesis com uma séria perspectiva teológica, em vez de um literalismo infantil ou uma ironia desdenhosa, retrata um instante em que a criação foi corrompida a um nível irreparável. Deus não fez isso porque fosse malvado. Destruiu pois o experimento de corromper a forma criada atingiu um ponto onde não era mais possível voltar. O moderno projeto transumanista está, de maneira simbólica e evidente, recriando as circunstâncias desse período. As outras religiões abraâmicas têm visões diferentes sobre isso. O islã possui uma perspectiva de mundo restrita, o que torna a adesão mais difícil, mas não é totalmente resistente a isso. O judaísmo ortodoxo, em particular o mais estrito, frequentemente se mostra mais inflexível em suas recusas do que o catolicismo moderno. Entretanto, existe uma vertente do pensamento judaico, relacionada à noção de se preparar ativamente para a chegada do Messias, que vê nos projetos de transformação profunda da natureza humana uma justificativa religiosa para acelerar o fim dos tempos. Isso não é uma teoria da conspiração. Trata-se de teologia. É distinto afirmar isso do que afirmar que os judeus, enquanto povo ou raça, almejam qualquer coisa em particular. O pior erro de raciocínio que se pode cometer, e que eu sempre enfatizo por ser fundamental, é converter uma exceção em norma. Tratar um grupo inteiro, de qualquer tipo, como se fosse a causa dos problemas do mundo é uma versão ampliada do engano que consiste em acreditar que uma exceção representa toda a categoria. É preciso avaliar cada integrante do grupo com base em suas ideias e ações. Há, e são muitos, rabinos ortodoxos inclusivos que se opõem veementemente a qualquer forma de manipulação genética do ser humano. Há muitos judeus, inclusive, que estão por trás dos mais inquietantes projetos de transumanismo. São seres humanos. Através de escolhas. Não se trata de raça. É uma decisão.

Os materiais que estão por vir no Círculo de Estudos Nous abordarão esse tema de maneira muito mais detalhada. No próximo segmento, que foi principalmente elaborado pelos senhores anônimos com a minha edição, vamos tratar do milenarismo católico, dos movimentos heréticos que surgiram dentro da própria Igreja e foram condenados como tais e do antimilenarismo que eu defendo não por um conservadorismo estéril, mas pela coerência com o que Cristo mesmo disse: nem o Filho sabe o dia e a hora. Se nem o Filho tem conhecimento disso, é bem certo que você também não sabe. Se você está agindo como se tivesse conhecimento ou como se pudesse apressar o momento com suas próprias mãos, você está gerando as circunstâncias para o anticristo, e não para o Messias. Levará tempo. Vai ser intenso. Vai incluir referências. Mas vai acontecer.

Enquanto isso, o povo imbecil aplaude sua própria destruição, acreditando que está progredindo.

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