Demiurgo Sintético Contra os Santos do Sonhar — Teologia da Imaginação do Círculo de Estudos Nous Parte 8
Os antagonistas das histórias em quadrinhos conseguiram triunfar ao fazer com que o mundo esquecesse da existência dos heróis. O demiurgo triunfa diariamente, em cada alma que troca a memória pelo conforto do esquecimento. No entanto, a situação é completamente oposta, e é essa realidade que me impulsiona a escrever: os heróis retornam um a um, sempre que um homem se recusa a lembrar — sempre que alguém observa um símbolo desgastado, um S proveniente de uma banca de jornal, um santo vilipendiado, um pai, e reconhece ali a virtude indicando o céu. O retorno dos heróis não será um evento isolado; será uma coleção. E ela se inicia com uma decisão crucial: a escolha de não renunciar à esperança, pois a raiz de toda virtude é, de fato, a esperança — uma semente que é enterrada nunca é uma semente que foi vencida. É uma semente pronta para a batalha, há uma máquina que produz deuses de plástico e cobra viva em carne. Ela não deseja a sua alma de imediato: quer a sua esperança em parcelas. Primeiro, te convence de que o bem é uma questão de opinião; depois, faz você acreditar que essa opinião é sua. Quando os santos se tornam personagens descartáveis, os demônios se tornam acionistas. Este texto aborda o retorno dos heróis — e o custo de mantê-los na memória.
Gabriel G. Oliveira
8/15/202651 min ler


Os Heróis que Foram Esquecidos
Vou integrar neste texto do Círculo de Estudos Nous conceitos que estávamos desenvolvendo em diferentes frentes e apresentá-los sob a denominação que atribuí a todo esse sistema: o demiurgo sintético. Este texto faz parte da Teologia do Imaginário — especificamente a oitava parte — e aqueles que leram as partes seis e sete já estão cientes de onde ele vai chegar. Mas vamos com calma, pois o tema requer um abordamento metódico antes de despertar a indignação. Primeiro, a teologia do imaginário em si; depois, a conexão com o que ela revela no mundo real. O leitor que está aqui agora não necessita de nenhum conhecimento prévio: tudo o que é necessário é ter a sinceridade de observar o próprio século sem a sedação que este mesmo século oferece.
Vamos começar pelo teatro de operações. Atualmente, existe um conjunto de sistemas de poder — nos âmbitos econômico, cultural, midiático e educacional — que opera incansavelmente na sociedade com o objetivo de transmitir ao povo uma ética subjetiva, fazendo com que eles acreditem nessa noção insignificante. É, de fato, uma verdadeira calamidade, e eu falo isso sem hesitação, pois a excessiva formalidade foi o que possibilitou que ela se estabelecesse. A ética subjetiva se revela através de uma expressão que oscila entre a emancipação e a servidão: "eu tenho a minha ética". Observe o que a frase realiza. Ela não afirma "eu busco a ética"; ao contrário, diz "eu a possuo", como se tivesse um gosto musical. Você define o que é ético. Já não é Deus. Deus deixa de ser a norma do bem — e você passa a ocupar esse lugar. É constantemente o mesmo equívoco do ser humano, o erro da queda: afastar Deus de sua posição como a máxima potência de todas as coisas, aquilo que orienta a distinção entre o bem e o mal, o summum bonum mencionado pelos clássicos, e colocar no trono uma criatura totalmente imperfeita. A cobra do Gênesis não ofereceu a possibilidade de ser ateu; ela prometeu independência — "sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal" (Gn 3,5). O esquema da queda é o mesmo da ética subjetiva: passar da medida do Criador para a criatura e designar o furto de liberdade.
É fundamental esclarecer, de maneira bem clara, a origem da alternativa, uma vez que o subjetivista contemporâneo gosta de simular que a ética objetiva é apenas uma peculiaridade ou capricho dos sacerdotes. De modo algum. A lógica é a fonte da ética objetiva. A própria definição de virtude e vício emerge da lógica: se o ser humano possui uma natureza, ele também tem um propósito; e se ele tem um propósito, existem ações que o promovem e ações que o prejudicam; a distinção entre essas ações não é determinada por votação ou pela vontade de cada um — ela é revelada na configuração da realidade. A primeira tríade grega a abordar essa questão de forma definitiva no Ocidente foi composta por Sócrates, que não deixou escritos e é conhecido principalmente através das obras de Platão, e pelos próprios Platão e Aristóteles, que proporcionaram uma estrutura sólida ao tema. A Ética a Nicômaco não é uma obra de opiniões: é um tratado sobre o que a razão revela ao investigar a ação humana com a mesma profundidade com que analisa um triângulo. O que ela descobre é que há bens reais, em hierarquia, e um bem supremo ao qual todos se ordenam — descoberta que Tomás de Aquino culminaria ao identificar esse summum bonum com Deus mesmo, na Suma Teológica. Ou seja, quando um cristão afirma que o bem é algo objetivo, ele não está exigindo que você acredite nisso antes de mais nada; ele está relembrando que até mesmo a razão pagã, sem nenhuma Revelação, já havia chegado a essa conclusão simplesmente por meio de um pensamento correto e aprofundado.
Então, por que isso causa tanto desconforto? Desde que esses gregos elaboraram essa ideia, observou-se um fenômeno que persiste ao longo dos séculos: nações que se desenvolveram nessa escola começam a rejeitar certas coisas que poderiam trazer satisfação. O indivíduo que visualiza um objetivo além do desejo aprende a recusar. No mundo que era muito mais cristão, como o nosso foi por séculos, esse não se multiplicava por milhões. Quando uma civilização completa decide não ser apenas um mero impulso de desejos e começa a se empenhar, profundamente, na busca por algo que transcende — no sentido de seguir a vontade de Deus, em vez de cada indivíduo criar, segundo suas próprias ideias, um deus personalizado que se adeque às suas necessidades, como é feito em várias correntes, incluindo muitas de origem protestante —, essa civilização se torna ingovernável para aqueles que se beneficiam da satisfação dos apetites. As ideias de ética objetiva esclarecem de forma contundente o que é certo e o que é errado. A clareza contundente é um péssimo negócio para aqueles que se beneficiam da confusão rentável.
É nesse contexto que a teologia do imaginário, como temos abordado no Círculo, encontra seu drama. Nas seções anteriores, demonstramos como Deus tem tentado se revelar por meio do que denominei rotas de lixo: os meios corrompidos da cultura de massa, os quadrinhos, as animações, os filmes de super-heróis, os mitos contemporâneos — o detrito através do qual, mesmo assim, a luz persiste em atravessar, uma vez que a imaginação humana é criada à semelhança de um Criador e não consegue interromper sua indicação para o alto, nem mesmo quando é remunerada para apontar para baixo. Bem, a cultura em que estamos imersos, nos últimos tempos sob a influência predominante da esquerda em todo o mundo — e não apenas dela: também das várias ideologias em geral, incluindo essa direita entre aspas, que nada mais é do que a mesma maquinaria com um rótulo diferente —, empenha-se de maneira metódica para obstruir essas vias. Todas essas doutrinas, sem qualquer exceção que mereça ser mencionada, buscam enfraquecer a santidade. É tão simples quanto isso. Por que motivo? Uma vez que a pessoa santa "desvirtua" para uma ética objetiva — e até mesmo os próprios arquitetos dessa cultura veem a ética objetiva como uma desvirtuação da ética subjetiva que eles precisam manter em circulação. Leia novamente, pois a inversão é o cerne da questão: para o sistema, aqueles que se submetem ao verdadeiro bem são os que estão desviados.
Mas quem são esses engenheiros? Vou me referir a eles pelo nome que já é familiar a todos, sem recorrer a eufemismos: os globalistas — essa elite sem pátria, composta por indivíduos do mundo das finanças, das fundações e da mídia, que considera os povos como meros rebanhos contábeis. O que eles esperam de você é precisamente o que um fazendeiro deseja de um animal de carga: que você se torne o seu pequeno cavalo, o seu jumento, o seu boizinho atrelado, para que possam lucrar cada vez mais — e não apenas em termos financeiros: também para exercer controle sobre você. Eles desejam tudo o que o mundo tem a oferecer, mesmo que isso signifique desmantelar a sociedade inteira, tijolo por tijolo. Isso não se trata de especulação de bar: é uma verba orçamentária. Esses senhores financiam grandes ONGs — realmente grandes, com relatórios anuais encadernados e sites em quatro idiomas — que promovem todas as calamidades que você puder imaginar. Aborto, afastado do jargão da saúde, é a morte de uma criança: eliminar o filho porque não se deseja educá-lo. Eutanásia, que segue a mesma lógica aplicada ao final da vida. Assim, temos todo o menu anticristão que a caridade de aparência é capaz de sustentar financeiramente. São eles que financiam essa situação — e, em seguida, se exibem como filantropos na capa da revista que também patrocinam.
O sistema cultural é complexo. Uma cultura elevada que glorifica a Deus através da imaginação não pode ser arruinada apenas por um decreto que a proíba; ela é realmente destruída quando se começa a relativizar o que é considerado bom e o que é considerado mau, até que o indivíduo, por assim dizer, se torne o juiz de suas próprias definições: ele passa a determinar o que é bom e o que é ruim, de acordo com seu humor e suas vontades do momento. E qual é o resultado disso? Isso é um terreno fértil para as ideologias, que se deleitam com almas desprovidas de ossos — e, acima de tudo, representa o esquecimento de algo que transcende. É tão simples quanto isso: negligenciar o que é transcendente. Considero esse esquecimento algo realmente estranho, quase contrário à natureza, uma vez que tudo no ser humano tende a olhar para fora e para o alto; toda a lógica e a ética objetiva que dela resultam são flechas cravadas na alma, sinalizando uma direção. Remover as setas não altera a direção do norte — apenas resulta em uma massa de pessoas girando sem parar, atordoadas e facilmente manipuláveis. Compreenda a importância financeira do projeto, pois nada disso é de graça. O sujeito precisa que você experimente prazer para que continue a comprar, comprar e comprar. É isso que estou mencionando: eles exigem que você possua uma mente totalmente somatizada, uma mente conectada ao prazer como um dispositivo elétrico na tomada. Que você seja um hedonista por excelência; que deixe de lado tudo o que é positivo e se concentre apenas no prazer, pois, para eles, essa é a única coisa verdadeiramente boa que deve existir em sua vida — o prazer —, a fim de que eles possam lucrar ainda mais e exercer controle sobre tudo e todos. Mark Fisher, que não era católico nem conservador, nomeou essa situação de forma que se popularizou rapidamente: realismo capitalista — a impressão criada de que não há outras opções, de que todo o horizonte se encaixa dentro da vitrine. A sutileza que mencionei em outro texto meu, no ensaio A juventude: Um vislumbre de esperança, onde digo que o mal eficaz não costuma se apresentar de capa e tridente; ele chega com planilhas, sorriso corporativo e a palavra "contexto" em fonte pequena. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino explica que o ato humano é julgado de acordo com seu objetivo; quando esse objetivo se deteriora, tudo o mais se torna apenas uma técnica — e uma técnica que não possui um objetivo adequado é simplesmente astúcia com um diploma. O demiurgo sintético é, em termos planetários, uma combinação de astúcia, credenciais, financiamento e uma equipe jurídica.
Deseja uma representação de como essa força age na realidade? Considere o seguinte: o homem que, entre aqueles que conhecemos publicamente, detinha o maior poder concentrado sobre um grande número de pessoas influentes era o senhor Jeffrey Epstein. Primeiro, vamos nos concentrar nos fatos documentados, pois este Círculo não confunde registros com especulações: ele foi condenado na Flórida em 2008 por um crime sexual envolvendo um menor, em um acordo judicial escandalosamente brando; foi preso novamente em julho de 2019 pela Justiça federal dos Estados Unidos, sob a acusação de tráfico sexual de menores; faleceu em sua cela um mês depois, com um laudo oficial de suicídio que foi recebido com uma sobrancelha levantada por metade do planeta — e, pasmem, as câmeras do corredor falharam naquela noite específica. Isso se trata de registro. Agora, a interpretação que se destaca a partir da anotação: um indivíduo desse tipo poderia facilmente virar a cabeça de qualquer um, pois possuía em suas mãos pessoas de tamanho colossal. Ninguém tinha coragem de se opor ao cara — você me entende? —, pois qualquer um que fizesse isso seria aniquilado de todas as maneiras imagináveis: todo o prazer daquele indivíduo em particular se acabaria, sua carreira chegaria ao fim, e ele poderia até ser preso ou, quem sabe, aparecer morto. E se você olhar um pouco o que os processos, os depoimentos das vítimas e as boas reportagens apontam sobre a mecânica da casa — a produção de material comprometedor para manter todo mundo sob controle, tanto ele quanto pessoas em posições superiores —, a possibilidade que se revela, e que aqui registro como uma hipótese forte, não como uma sentença definitiva, é a mais antiga das estratégias: kompromat. Criação de evidências para submeter os poderosos. Quando você tem um homem de grande influência sob seu controle, você pode fazer o que desejar com ele, e ele se submete. Às vezes, pessoas que parecem ser razoáveis acabam entrando para o clubinho; no entanto, ao se infiltrar por aqueles caminhos, elas acabam gerando contra si mesmas evidências estranhamente perturbadoras — esse é o preço que se paga na entrada — e passam a estar expostas e vulneráveis para sempre. A partir desse momento, eles sempre agem conforme a vontade dos proprietários do arquivo. Isso é comum nesse ambiente; já surgiu, de formas variadas, em diversos casos que apresentamos aqui no Círculo de Estudos Nous. Em outras palavras, o Epstein não é o único. E ouso ir além, agora de maneira mais clara no campo da especulação que a lógica do poder permite: é bem possível que não fosse nem mesmo o mais influente. Existem questões que transcendem isso — e o simples fato de não conseguirmos capturá-las em fotografias não nos obriga a agir como se a pirâmide se encerrasse no último andar onde a polícia interrompeu sua subida.
E os seus pequenos soldadinhos? Os proprietários do arquivo não são vistos; em vez disso, o que se vê é a equipe principal do setor audiovisual, as celebridades da mídia, designadas para assumir o papel deles perante o público. É semelhante à clássica representação simbólica do demônio se aproximando de um ser humano e dizendo: "eu lhe darei todos os bens deste mundo, mas em troca você servirá a mim". Essa cena não é uma criação minha; ela aparece no Evangelho, durante a tentação no deserto: "Tudo isto te darei, se te prostrares diante de mim" (Mt 4,9). O diabo manteve a mesma oferta por dois mil anos; apenas trocou de aparência. Certamente, ao me referir ao mecanismo aqui, estou falando de maneira simbólica — no entanto, é de conhecimento geral, uma vez que os próprios indivíduos não fazem questão de ocultar, a respeito dos rituais esotéricos nos quais uma parte significativa dessa elite se envolve ou com os quais flerta de maneira ostensiva, desde as festas temáticas até as liturgias privadas que, ocasionalmente, vazam em fotografias. O princípio que rege essa forma de religiosidade paralela está escrito em preto no branco há mais de cem anos: "Faze o que tu queres, pois é tudo da Lei" — a fórmula do Liber AL vel Legis, o livro fundacional da Thelema de Aleister Crowley. Observe que se trata da ética subjetiva com adornos: a vontade pessoal elevada à única lei, precisamente o plano da queda que inaugurou este ensaio, agora acompanhada de incenso.
E não me contento com o lema; busco as origens diretamente deles, pois a mais eficaz das acusações é a própria autobiografia do incriminado. Crowley descreve, em seus escritos sobre a recepção do Livro da Lei, seu encontro em 1904, no Cairo, com uma inteligência a quem deu o nome de Aiwass — e as consequências dessa experiência, narradas por seus continuadores, como Kenneth Grant, revelam, sem qualquer pudor, contatos rituais com entidades de aparência não humana, criaturas que a literatura ocultista posterior passou a associar, por sua vez, à iconografia dos "alienígenas" da cultura pop: os famosos retratos de Lam, as especulações sobre inteligências de fora. No Templo de Set, uma vertente abertamente teísta do satanismo contemporâneo, a ideia é semelhante: existe uma entidade verdadeira do outro lado da mesa. Uau, que curioso, não é? — e estou sendo irônico, para que ninguém confunda relato com aprovação. No entanto, é isso: diversas celebridades que circulam nesses meios, em algum nível, se submetem a algum tipo de ritual esotérico; não são todas, mas uma quantidade significativa, de acordo com a narrativa que elas mesmas promovem. Trata-se de rituais bastante peculiares, relacionados a uma forma de religiosidade peculiar, da qual ninguém de fora tem uma compreensão clara do que se passa internamente; alguns livros oferecem algumas informações, os iniciados prometem manter segredo, e é extremamente difícil conhecer todos os detalhes do que realmente acontece nesses rituais. Não é complicado juntar dois mais dois quando se trata de doutrinas: a Igreja Católica, que não costuma brincar com as palavras, afirma no Catecismo que Satanás e os demônios são entidades pessoais reais, anjos caídos que "se opõem a Deus e ao seu desígnio de salvação" — não metáforas terapêuticas, não arquétipos de autoajuda às avessas. Assim, quando afirmo que esse dispositivo é um instrumento do demônio, de maneira literal, não estou utilizando uma figura de linguagem: estou empregando uma teologia católica básica para analisar um fenômeno que, por si só, se apresenta adornado com os trajes do culto.
Existem, de fato, entidades que se encaixam na engenharia demoníaca — não se trata do diabo de forma geral, mas sim de um demônio específico, aquele que, segundo a demonologia que estudamos aqui no Círculo, é o principal agente de toda essa construção: o demônio da gnose. A designação que a tradição atribuiu a ele é Coronzon — e é sob essa escrita que ele é mencionado pela primeira vez nos diários enoquianos de John Dee e Edward Kelley, datados do século dezesseis, onde o próprio Dee o reconhece, de forma clara, como a serpente do Éden. Tenha isso em mente, pois ele completa um circuito que foi iniciado no início deste ensaio: o demônio da gnose é a mesma serpente que sussurrou "sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal". Séculos mais tarde, Aleister Crowley trouxe-o de volta à prática da magia cerimonial — escrevendo seu nome como Choronzon, para que o total fosse trezentos e trinta e três na gematria hebraica — ao caracterizá-lo, em Liber 418, A Visão e a Voz, como o Morador do Abismo, a inteligência que vigia a fenda que distingue o mundo inferior das realidades superiores na árvore cabalística dos ocultistas. Preste atenção ao local, pois é uma parábola já formada: Coronzon reside em Daath, a sefirá falsa, o orifício no centro da árvore, a fissura que, segundo a interpretação deles, leva diretamente ao abismo. Ele aguarda ali, precisamente no momento em que a alma, ao ascender, está prestes a compreender Deus. É ali, na margem, que ele surge. Na ordem do mal que os próprios ocultistas sugerem e que interpretamos à luz da nossa fé, ele ocupa uma posição logo abaixo de Lúcifer — não em termos de hierarquia, mas pelo nível de dano que causa: é o demônio responsável por levar o mundo inteiro à ruína, tanto individualmente quanto coletivamente.
O que ele faz, na verdade, é sempre a mesma coisa: ele despeja sobre a pessoa uma série de ideias soltas, como uma tempestade de conhecimento estranho e meio peculiar, que cria uma lógica interna, mas que transforma a percepção que a pessoa tinha de Deus. É uma noite da alma, artificialmente criada, repleta de dispersão — e até o próprio Crowley admite que Coronzon não pode ser considerado exatamente um indivíduo, mas sim o abismo que contém todas as formas possíveis, cada uma delas igualmente fútil, e, por essa razão, cada uma é maligna no único sentido genuíno do termo: desprovida de sentido, mas ansiosa para se tornar real. Releia essa definição tendo em mente o demiurgo sintético e perceberá que é a mesma criatura: uma segunda realidade desprovida de sentido, suplicando para se tornar a única. Aqueles que enfrentam essa torrente e conseguem avançar — aqueles que mantêm firme a lógica e não se afastam de uma orientação espiritual correta — conseguem atravessar e alcançar Deus. Aquele que não avança, acaba caindo em Daath; e essa queda em Daath é equivalente a descer ao inferno pela entrada do próprio conhecimento, perdendo-se através daquilo que se acreditava ser sabedoria. O que emerge do outro lado dessa queda não é uma pessoa iluminada: é um gnóstico, alguém que realmente perdeu a distinção entre o bem e o mal, entre o que é objetivo e o que não é. Isso ocorreu com o próprio Crowley. O lema que ele recebeu em 1904, daquela "inteligência" que chamou Aiwass — "faze o que tu queres, pois é tudo da Lei" —, serve como a expressão completa dessa gnose em um slogan; e quando, anos depois, ele se aventurou ao deserto argelino para invocar pessoalmente o Morador do Abismo, o que retornou de lá foi a mesma dispersão que ele já pregava. Não passou: permaneceu. O lema de Thelema é a ata de um naufrágio em Daath, já assinado.
Por isso, mesmo que este Círculo tenha sido criado para enfrentar todo o mal presente na sociedade, a entidade contra a qual mais nos opomos, de forma explícita, é o Coronzon, o demônio da gnose, o principal mensageiro de Satanás — a ponto de merecer, em nossa interpretação, o título de espírito do anticristo em ação, o princípio que suaviza o mundo em direção à grande apostasia. Se houver um melhor amigo de Satanás, esse é ele. Compreender isso não é uma questão de erudição demonológica: é a chave para o restante, pois quase todo o outro mal que é comercializado individualmente é fornecido por esse demônio em grande escala. Aqueles que conseguem vislumbrar o Coronzon por trás da in-gnose, do relativismo de plataforma e do sorriso corporativo do demiurgo, deixam de lutar contra os sintomas e começam a identificar a verdadeira enfermidade. Vamos falar do quadrinho, porque nele tudo foi grafado antes — e por isso este texto pertence à Teologia do Imaginário, e não à parte policial. Exploremos o mundo de Grant Morrison, o mago escocês da Vertigo, que é uma linha editorial da DC: aqui, estou me referindo principalmente a Os Invisíveis e à sua obra complementar, Flex Mentallo. Na interpretação que fazemos no Círculo, essas duas obras constituem um único mito dividido em dois volumes. Como os supervilões desse universo conseguem silenciar a santidade de seu mundo? A santidade daquele mundo residia, em grande parte, nos heróis — nos super-heróis. Era um universo repleto desses personagens, muito semelhante aos heróis da DC, criações intencionalmente inspiradas nos quadrinhos da DC, ostentando aquele símbolo mais sagrado entre todos: o Superman, que, nesse contexto, servia como a própria representação de Cristo, uma manifestação de Cristo em tinta e papel — e, mais adiante, demonstrarei que essa afirmação não é apenas uma figura de linguagem da minha parte, mas algo que se aproxima de uma ficha técnica. No mundo em questão, os heróis eliminam completamente o mal; os demônios não conseguem sobreviver, por assim dizer, em um mundo tão radiante. Portanto, quais são as ações dos vilões — que representam esses demônios lutando pela sobrevivência; continuo utilizando a linguagem simbólica, mas vocês estão conseguindo me seguir? No livro Os Invisíveis, Morrison os denomina Igreja Exterior e seus Arcontes: seres inteligentes de origens externas que já triunfaram, gerenciando a realidade como se fosse uma fazenda e moldando a humanidade para se comportar como gado submisso. O que eles buscam é exatamente isso: fazer com que os heróis se esqueçam de sua verdadeira identidade. Persuadi-los de que são indivíduos comuns, como contadores, pessoas desempregadas e roteiristas que não tiveram sucesso; convencer todos de que aquele universo da cultura pop, da fantasia e dos homens que voam, nunca foi real — que sempre foi apenas papel de baixa qualidade destinado às crianças. Em outras palavras, eles alteram a própria realidade conforme desejam, reescrevem a história da humanidade, pois é fundamental para eles que a população permaneça submissa. Assim se convertem nos poderosos dominadores do mundo retratados naquele quadrinho: nada mais os desafia, o mundo já lhes pertence, todos os heróis são reduzidos à condição de pessoas comuns, e aqueles que conseguem descobrir a verdade — que despertam da lavagem cerebral provocada por toda a estrutura governamental e mágica, quase metafísica, que os envolvia — ou são mortos, ou desaparecem, ou sofrem algo ainda pior. Resta uma resistência: heróis que se tornaram conscientes de sua verdadeira natureza, que despertaram, e que estão tentando retornar. No final da história, de acordo com a nossa interpretação, os vilões saíram vitoriosos nesta batalha: os santos desse universo foram esquecidos, relegados ao status de personagens de histórias em quadrinhos, e a própria humanidade se esqueceu de que eles existiram — e de que ainda existem. Os Invisíveis, esses campeões, foram derrotados; os mestres da falsidade conquistaram todo o poder. É uma narrativa que não se conclui de maneira definitiva: os protagonistas podem retornar, ou talvez não — o texto não oferece uma resposta clara. Quem leu e refletiu conosco sobre a Teologia do Imaginário, especialmente as seções seis e sete, está ciente da nossa interpretação: sim, esses heróis retornarão no final dos tempos. O imaginário mantém a promessa que a superfície do tecido refuta.
O que torna essa fábula mais fascinante para mim do que mil editoriais? Porque testemunhamos, em plena vigília, atrocidades que se assemelham às ações daqueles estranhos vilões de histórias em quadrinhos. Basta consultar o dossiê do senhor Epstein, que acabamos de explorar, e os diversos casos que apresentamos no Círculo de Estudos: cultos estranhos de todas as espécies, além de episódios como o caso Franklin, ocorrido nos Estados Unidos na década de oitenta — a investigação de Omaha sobre uma suposta rede de exploração sexual de menores envolvendo figuras proeminentes, que um grande júri declarou ser uma farsa elaborada, enquanto o ex-senador estadual John DeCamp publicava um livro inteiro, intitulado The Franklin Cover-Up, defendendo o oposto. Apresento ambos os lados como realmente são: o veredicto oficial de uma parte e o dossiê dissidente da outra, com um nível de bizarrice tão impressionante no meio que qualquer leitor sincero pode compreender por que essa questão ainda não foi enterrada. Existe também um padrão que se repete na crônica dessas seitas, com uma insistência que provoca calafrios: a pessoa ingressa, e afirma-se que ela adquire poderes estranhos, uma prosperidade repentina, e se envolve, em rituais, com entidades espirituais de aparência reptiliana ou ainda mais perturbadora — assim como o próprio Crowley descreveu seu Aiwass, e como a linhagem do Templo de Set, bem como os cadernos de Kenneth Grant, detalham suas experiências —. Também se afirma que, caso não siga as diretrizes, ocorrerão "obras do destino": perderá tudo, sua família, seu dinheiro; pessoas ao seu redor morrerão; e ele mesmo falecerá de uma maneira peculiar, com um atestado de óbito que, anos depois, alguém reexaminará com uma expressão de suspeita de assassinato. Considero tudo isso pelo que realmente é: uma alegação que se repete, um folclore negro dentro do próprio contexto, uma possibilidade - e não um fato comprovado. Um método rigoroso não rejeita um padrão apenas porque ele não é esteticamente agradável; em vez disso, ele o armazena na categoria apropriada e continua a observar. Todo esse aparato, independentemente de onde esteja guardado, sempre se opõe à mesma entidade: o demiurgo sintético em sua luta contra a autêntica forma humana de alcançar a santidade e contra tudo que constitui uma verdadeira metafísica. A única metafísica permitida pelo sistema é aquela que é totalmente relativista — a que não faz julgamentos sobre ninguém e, por isso, não proporciona salvação a ninguém.
Agora dirija seu olhar para o lado oposto do tabuleiro, pois onde existe um dragão, sempre haverá, mesmo que camuflado, um São Jorge por perto. Por que você acredita que uma figura tão importante da religião, como o Papa, é constantemente alvo de ataques de diversas formas por essa mesma máquina? É suficiente observar as loucuras que o próprio senhor Epstein afirmava sobre o Papa e a Igreja — acusações totalmente sem fundamento, do tipo que não resistem nem cinco minutos a uma verificação. No que diz respeito ao lado católico, tudo o que foi investigado indica exatamente o oposto de um conluio: repulsa. A Igreja, em todas as suas manifestações, sempre repudiou tudo o que Epstein simbolizava e realizava, desejando aniquilar o que ele havia edificado. Em outras palavras, o verdadeiro herói da população, neste contexto, era precisamente aquele que o sistema mais ridicularizava — observem a inversão mais uma vez, pois ela é a marca registrada do demiurgo. E também ficou registrado na gaveta das especulações que circulam e que este Círculo analisa sem fazer juramentos, aquela teoria que circula há anos sobre Michael Jackson: a de que ele teria, nos bastidores, protegido e resgatado crianças do alcance dessa máquina de destruição — crianças que, caso contrário, teriam sido capturadas e levadas para a ilha, onde seriam submetidas a abusos e a todo tipo de horrores, atrocidades e malevolências inimagináveis que se podem infligir a uma criança. Não posso validar isso com um documento; mas posso notar a recorrência: o homem foi esmagado em plena praça, foi inocentado no tribunal e morreu da maneira peculiar de sempre. Se essa versão for verdadeira, então temos o retrato completo do que eu descrevo como pequenos heróis: pessoas que não podiam expressar nenhuma opinião — pois o mundo todo, moldado pelas grandes elites, se voltaria contra elas instantaneamente — e que, por essa razão, agiam nas entrelinhas para salvar alguém. E ela salvava. Um por um, sem medalha, sem destaque na mídia.
Isto sempre ocorreu em toda a história; não é uma enfermidade do nosso século, mas sim o nosso século sem disfarces. Observe o Holodomor na União Soviética: milhões de camponeses ucranianos morreram de fome causada intencionalmente na década de 1930, uma atrocidade meticulosamente documentada — Robert Conquest dedicou um livro inteiro, The Harvest of Sorrow, contando cada um dos corpos — e que até hoje uma parte da esquerda tenta encobrir afirmando que nunca ocorreu, ou que foi exagerado, ou que foi resultado das condições climáticas: um claro exemplo de reconstituição histórica, moldando o passado a golpes para que ele deixe de incriminar o presente. Assim como os neonazistas — que, segundo a perspectiva que estamos seguindo, a de Eric Voegelin, fazem parte, junto com o comunismo, do amplo ramo das religiões políticas modernas: movimentos gnósticos que buscam imanentizar o escaton, trazendo o paraíso para o interior da história por meio da força do Estado. No caso da Alemanha, esse messianismo secularizado se uniu de forma profunda ao coletivismo — tratava-se de um socialismo não marxista, nacional em vez de internacional, mas extremamente estatólatra —, uma interpretação que não é uma visão peculiar nossa: historiadores como Rainer Zitelmann documentaram amplamente o quanto Hitler se considerava um revolucionário social e desprezava a burguesia liberal. Assim como Hitler realizava em seus campos de concentração, a máquina triturando pessoas em milhões, enquanto a propaganda insistia que essa máquina não existia. Todas as conspirações que afirmavam não existir — aquelas que eliminavam precisamente aqueles que se recusavam a se submeter — estão todas documentadas; qualquer pessoa que consulte um livro de história respeitável poderá constatar isso. A melhor maneira de acabar de vez com essa mania de rir de "conspiração": as maiores da história não foram teoria; foram administração. Agora chegamos à definição que nomeia o dispositivo. A estrutura que se estabeleceu após a grande globalização — e que já estava sendo formada há bastante tempo — é o que denominamos, no Círculo, demiurgo sintético: a combinação de finanças, mídia, burocracia internacional, filantropia direcionada, indústria cultural e uma religiosidade superficial que opera, quase como se fosse um ser vivo, no âmbito metafísico. "Sintético" por não ser uma criação natural: foi construído; não é um ser humano, mas sim um conjunto de elementos — e mesmo assim, age com a impressionante coerência de uma única vontade, uma vez que todas as suas partes seguem a mesma lógica de lucro e controle. Demiurgo, pois, assim como o artesão inferior nas antigas cosmologias gnósticas, ele não cria a partir do nada: ele imita a criação, produz uma realidade secundária sobre a primária e obriga você a habitá-la. Reitero o que mencionei anteriormente, agora com a definição clara em mãos: esse objeto é um instrumento do demônio, de forma literal — não no sentido vago de "coisa ruim", mas no sentido técnico de meio pelo qual uma inteligência pessoal caída, aquela do Catecismo, atua na história. Quais são os objetivos desse demiurgo? Que todos permaneçam no estado atual. Você não pode se desvincular do status quo. Não pode progredir — especialmente no que diz respeito à santidade. Ah, religião é capaz? É permitido, contanto que se trate de uma religião que esteja alinhada com a agenda: especialmente aquelas religiões que eu denomino como pertencentes à grande dissolução. Essas são as que não se preocupam em manter sua santificação — simplesmente não se importam —, que aceitam de bom grado a destruição de toda a gramática do sagrado e que, além disso, trabalham ativamente para eliminar aquilo que ainda impede você de se tornar cada vez mais escravo. O que estou afirmando, de maneira direta, é o seguinte: você se tornou um escravo dessas grandes corporações — porém, não consegue perceber a corrente que o prende, pois a corrente da nossa era é composta pelo conforto. O escravo do passado tinha consciência de sua condição, enquanto o escravo atual paga a fatura do próprio grilhão e ainda o classifica com cinco estrelas. Está interessado no contorno geopolítico da situação? Considere um país como a China, onde o próprio povo é submetido a um regime de escravidão — jornadas de trabalho indignas, salários miseráveis, e nenhuma liberdade — tudo isso para que aqueles que compram do outro lado do mundo possam gastar cada vez menos; e então olhe para a nossa realidade, onde se força o indivíduo a vender sua vida em troca de migalhas representadas por um contracheque qualquer, sob a tutela de governos que adoram se apresentar como defensores do trabalhador, enquanto terceirizam a senzala para longe de seus olhos curiosos. Um trabalho que se assemelha à escravidão em uma extremidade, estimulando um consumo desenfreado na outra, enquanto a máquina continua a girar perfeitamente: é exatamente isso que eles desejam. O ódio se origina do fato de que a santificação confere à pessoa uma opinião própria, permitindo que ela enxergue Deus e compreenda verdadeiramente o que é o bem, ao contrário daquele bem subjetivo que transforma tudo em bem. As pessoas que reconhecem o bem de verdade não adquirem qualquer produto, não votam em qualquer opção e não adoram qualquer coisa. Cliente terrível. Súdito de má qualidade.
É fundamental mencionar quem é a mente responsável por todo esse aglomerado, já que um corpo não se move por conta própria. Se o demiurgo sintético possui um corpo, ele também tem uma cabeça — e essa cabeça é o demônio da gnose que já mencionei, chamado Coronzon. Faço a contagem com base na mais simples simetria da teologia: Cristo possui um corpo, que é a Igreja; Ele é a cabeça, os fiéis são os membros, e o conjunto funciona como um único organismo. Então, Satanás imita até isso, assim como imita tudo o mais — ele também possui um corpo na terra, e esse corpo é formado por todos aqueles que sucumbiram à gnose: aqueles que negam o mundo, que negam a bondade no que se refere ao bem e ao mal, que negam a lógica, a ética, a filosofia e toda a tradição — não por distração, mas com o intuito de estabelecer uma nova tradição, gnóstica, feita sob medida. Este corpo de Satã, estruturado e com financiamento, é exatamente o demiurgo sintético; e aquele que o dirige para o diabo, servindo como seu sistema nervoso, é o Coronzon, espalhando em todo o planeta a mesma desordem que provoca em uma única alma em Daath. Os globalistas mencionados são os grandes integrantes desse organismo. Na narrativa, eles desempenham um papel semelhante ao do demônio da gnose na mente: semeiam a incerteza sobre tudo que é concreto, até que não reste nem mesmo um chão ou uma direção.
Não estou introduzindo novidades na teologia; estou estudando o Apocalipse com atenção, linha por linha. São João observou essa engenharia e a denominou a grande prostituta — aquela que se assenta sobre muitas águas, "com a qual se prostituíram os reis da terra", e que ostenta na testa o nome MISTÉRIO, A GRANDE BABILÔNIA, A MÃE DAS PROSTITUIÇÕES E DAS ABOMINAÇÕES DA TERRA (Ap 17, 1-5). Observe como os reis se vendem: não por dinheiro em mãos, mas por ideias — essa prostituição é, na verdade, doutrinária, caracterizando a substituição da verdade objetiva pela afirmação da vontade própria como soberana, exatamente o pedágio da porta que descrevi no caso do arquivo. E também existe a frase mais aterradora do capítulo, que revela a magnitude do que está em jogo: "a mulher estava embriagada do sangue dos santos, e do sangue dos mártires de Jesus" (Ap 17, 6). Aqui está a máquina. O demiurgo sintético representa a versão contabilizada e adaptada ao clima da Babilônia descrita no Apocalipse: os soberanos da terra corrompidos por ideais, a estrutura embriagada pelo sangue daqueles que não se submetem, e, por trás de tudo isso, a mesma serpente do Éden, agora denominada Coronzon, oferecendo à besta o cálice da dissolução.
Como esse comando se transfere do plano espiritual para a mesa de discussão? Através do meio que a própria elite não disfarça: as cerimônias. Já demonstrei, utilizando as fontes deles próprios, que uma boa parte dessas pessoas se movimenta por meio de evocações — Goécia, Thelema e afins —, e que os praticantes relatam, sem constrangimento, contato ritual com entidades de aparência não humana, réptil ou "alienígena", que a literatura ocultista descreve como suas visitas e seus mestres. Considero isso como o que realmente é, na categoria de hipótese e relato: não apresento uma autópsia de um reptiliano, mas sim o que os próprios iniciados documentam sobre as descobertas que afirmam fazer. A leitura teológica é clara — essas aparições são mensageiros, arautos do mesmo Coronzon, o demônio que se revela ao adepto e o orienta: vai lá e faz, que tu cresces, vem na minha. O seguidor se expande, de fato: aumenta seu poder e diminui em espiritualidade, arrastando o mundo junto consigo. É por meio dessa conexão que a afirmação "faze o que tu queres, pois é tudo da Lei" transforma-se de um princípio de culto em um mandamento tangível da sociedade — a ordem espiritual que estabelece que qualquer coisa pode ser considerada verdadeira, desde que a verdade objetiva cesse de existir. Porque, no fundo, é isso que o corpo de Satã deseja: aniquilar toda a verdade objetiva. É para isso que se empenha, tanto de dia quanto de noite, com a paciência de alguém que possui séculos de experiência.
Vamos agora nos direcionar ao alvo favorito do demiurgo no âmbito do imaginário, pois é nesse contexto que a guerra se torna claramente perceptível. Esses ícones do imaginário, esses heróis que representavam a própria virtude em sua essência — cada um deles personificando uma ou mais virtudes em uma única figura, como a coragem simbolizada em um escudo, a justiça em uma capa, e a esperança em um elmo com a letra S —, todos eles precisam ser eliminados. Os engenheiros perceberam aquilo que Umberto Eco já havia observado de forma acadêmica em 1964, no célebre capítulo intitulado O Mito do Superman, presente na obra Apocalípticos e Integrados: o herói de massa é o sucessor direto de Hércules, Siegfried, Orlando e Peter Pan — uma constante na imaginação popular que personifica as virtudes em uma figura visível e as restitui ao povo de forma multiplicada. Pois então: se o personagem representa a virtude, retire a virtude e o personagem se torna uma casca vazia. O método utilizado é sempre o mesmo, repetido de forma sequencial: transformar a ética do personagem em algo subjetivo, atribuir a ele uma sexualidade estranha que não se relaciona de nenhuma forma com sua identidade, desfigurá-lo ao máximo para que se torne o mais "subjetivo possível" — pois assim se dissipa a questão da virtude que ele representava, e a partir desse ponto, vão-se formando as ideias no imaginário dos leitores. Os resultados falam por si: as ideias que possuímos atualmente, em comparação com os significados que esses significantes carregavam no passado, estão totalmente distorcidas. As palavras permaneceram; o que elas indicavam foi substituído no armazém. É fundamental termos essa consciência antes de tudo — pois, caso contrário, meu amigo, você estará confuso; confuso consigo mesmo, utilizando um mapa onde todas as rotas foram redesenhadas e apenas os nomes permanecem.
E, uma vez que mencionei o S em seu peito, vamos cumprir o que foi prometido e dar início ao dossiê referente ao maior deles, pois a trajetória do Superman, por si só, é uma verdadeira lição sobre tudo o que este ensaio sustenta. Ele é fruto de dois judeus — Jerry Siegel e Joe Shuster, dois jovens empobrecidos de Cleveland, obcecados por histórias de ficção científica —, e isso é crucial para o que pretendo afirmar: o judeu carrega, de forma intrínseca, a esperança do Messias, o ungido, o escolhido de Deus que irá solucionar todas as questões; Messias em hebraico e Cristo em grego têm o mesmo significado. Quando dois filhos dessa esperança se reúnem para conceber o homem ideal, a síntese de toda a virtude, o resultado é uma cristologia digna de uma banca de jornal — e isso não aconteceu de forma imediata. A primeira versão, presente no conto O Reinado do Superman, de 1933, era completamente o oposto: tratava-se de um mendigo que se tornava cobaia de um cientista, ganhando superpoderes e, sendo maltratado pela sociedade, decidia usá-los para se vingar e instaurar um regime de tirania — um super-homem no estilo nietzschiano, uma vontade de potência em forma de gibi, que ninguém se interessou em ler e que acabou falhando miseravelmente. A transformação da ideia ocorreu devido à dor: durante a Depressão, o pai de Siegel, que era alfaiate, foi assassinado durante um assalto à sua loja — as versões divergem quanto ao fato de ele ter sido alvejado ou falecido devido a um choque cardíaco causado pelo susto, conforme registrado nas biografias dos criadores —, e a partir daquela noite de sono conturbado surgiu a indagação que deu origem ao gênero: e se ele se tornasse um herói? E se um homem detentor de todo esse poder fosse absolutamente imune à corrupção moral, vivesse entre nós, em nossa cidade, e se colocasse na linha de fogo ao se interpor diante de uma bala disparada contra um simples alfaiate? O herói não surgiu da força; ele veio da ausência que um justo e forte fez em uma noite específica de 1932. Por isso, na primeira página de Action Comics nº 1, de 1938, ele já é apresentado como "protetor dos fracos e oprimidos, o prodígio que jurou devotar sua existência à defesa dos necessitados" — e nas primeiras histórias ele realmente age dessa forma, derrotando com as próprias mãos o orgulho das máquinas, enfrentando patrões desonestos, senhores de cortiço e políticos corruptos: o herói do povo, claramente ao lado dos mais pobres, defensor dos inocentes, "como um certo salvador de origem humilde nascido num estábulo", para citar a comparação que a própria crítica de quadrinhos não resiste a fazer. E os criadores ainda apresentaram a jogada final que Eco analisaria posteriormente: Clark Kent, o disfarce que funciona como um reflexo. Siegel criou Clark inspirado em sua própria imagem — um jovem inseguro, que é apaixonado por uma Lois que não o nota —, e Eco reconheceu nesse personagem o leitor comum, atormentado por complexos e menosprezado por seus pares, que alimenta, em segredo, a esperança de que, das camadas da sua personalidade atual, possa um dia emergir um homem de aço que compense anos de mediocridade. Grant Morrison, em Superdeuses, finaliza a teologia da entidade sem pedir autorização: Clark representa a alma, o aspecto transcendente da equação; ele é a evidência de que todos nós temos a capacidade de nos tornar o Superman; a centelha divina que habita em cada um de nós — através dos olhos de Lois, elevamos nosso olhar para o céu, nutrindo nossa imaginação; através dos olhos de Clark, voltamos nosso olhar para dentro de nós mesmos, com um sentimento de orgulho. Quando John Byrne reimaginou o personagem na década de oitenta, ele criou a fórmula que completa o ciclo: foi Krypton que o transformou em Superman, mas é a Terra que o transforma em um homem. Um deus que opta por uma posição modesta, que tem o poder de tudo e, ainda assim, prefere permitir que as pessoas vivam suas vidas, que não se manifesta porque deseja ser uma pessoa comum — se isso não representa uma imagem de Cristo esboçada por mãos que ansiavam pela vinda do Messias sem ter a consciência de que Ele já estava presente, eu não sei o que mais poderia ser. Não afirmo que o Superman seja Cristo, é importante que você note isso: o que eu digo é que ele reflete Cristo, assim como a lua reflete um sol que ela própria não gera; e afirmo também que a própria mitologia interna aceitou esse reflexo, com a casa de El — El, que é precisamente o nome semítico de Deus — descendo como uma linhagem quase davídica até o filho enviado das estrelas na arca-berço, e com aquele S que a editora acabou consagrando oficialmente como o símbolo kryptoniano da esperança. A própria ressignificação teve um caráter profético. A pedagogia do personagem é um exemplo claro de ética clássica disfarçada: na animação onde o Superman se enfrenta ao Shazam — o garoto Billy Batson que se torna um campeão com apenas uma palavra —, toda a conversa se resume a uma linha que poderia ser considerada um tratado: ser bom é uma tarefa difícil, enquanto ser mau é sempre a opção mais fácil; portanto, seja forte — e escolha ser bom. Aristóteles não conseguiria se expressar de forma mais adequada com uma criança. É importante ressaltar que este herói nunca foi subserviente a nenhum governo: uma das coisas que mais me irrita é quando tentam retratá-lo como um apoiador da ordem estatal, pois o personagem original se certifica de mostrar o oposto — se o Estado ordena que ele não salve alguém, que o Estado se dane, ele vai lá e salva, e ponto final. A sua virtude não consiste em obedecer: consiste em estar orientado para o bem, o que representa um perigo muito maior para aqueles que detêm o poder. O que o Superman sugere à criança, de forma inconsciente, é que o maior objetivo na vida é se desenvolver ao ponto de alcançar a mais alta virtude — que, com outro traje, representa a noção de contemplação e santificação. É isso que um mito proporciona a uma criança: de certa forma, ela ganha vida. Eu compreendo a razão pela qual você fez isso por mim: houve uma época, durante minha infância, em que eu contemplava aquele S dentro do losango e conseguia ver ali meu pai, percebia os bombeiros, os policiais, as pessoas de imenso valor na história — e conseguia ver Cristo. Toda a transcendência que os adultos à minha volta haviam se rendido a não me mostrar, atravessava clandestinamente uma rota de sucata de banca de jornal. Conservem essa revelação, pois retornarei a ela ao final: ela é a evidência concreta da argumentação deste ensaio. A intenção deles, em essência, é aniquilar os conceitos — arruinar tudo e, sobretudo, desmantelar a religião por meio da linguagem. Controlar a linguagem é o que torna a demolição mais eficiente por metro quadrado, pois quem domina as palavras também controla o que ainda é possível pensar com elas. O principal instrumento dessa demolição, como discutimos em outro de nossos textos sobre a destruição da linguagem a partir do feminino, é a eliminação dos gêneros da língua: a chamada linguagem neutra, que, na verdade, não é neutra em absoluto — observe que ela não elimina as nuances femininas; remove apenas as masculinas. É uma linguagem que se disfarça de imparcial, mas é totalmente feminina. E as repercussões litúrgicas são um efeito colateral: ao alterar a língua do próprio rito, o rito fica comprometido. Realizar uma celebração a Cristo em uma língua da qual foi removido o gênero masculino — não há como evocar o masculino que é, na verdade, o próprio Cristo, o próprio Deus Pai, uma vez que o rito exige que essa língua contenha esse elemento; a gramática da oração não é um detalhe, mas sim um meio de transporte. A comunhão se torna mais desafiadora para todas as religiões, pois cada tradição reza utilizando o som da sua própria língua. Através do subjetivismo, tudo isso prepara o terreno para a implementação da religião única que a teosofia representa como seu exemplo mais completo — a proposta de Blavatsky e seus sucessores de unir todas as religiões em uma só, uma religião que compartilha elementos de todas elas, e que atualmente está se tornando uma tendência seguida por muitos, mesmo sem saber o nome do que estão praticando: um pouco de mantra, um pouco de cristal, um Jesus "mestre ascensionado" espremido entre Buda e um orixá de boutique. Esse é o principal problema, pois quando você possui isso, fica impossível distinguir entre o que é bom e o que é ruim. Se Deus e o diabo — ou aqueles deuses que a tradição chama de demônios — forem apenas entidades com perspectivas distintas, companheiros de panteão em condições de igualdade, então o conceito de bem e mal deixa de existir. É exatamente isso que eles desejam: pois, uma vez que o conceito de bem e mal é obliterado, tudo se torna permitido. É apropriado permitir que duas testemunhas se pronunciem aqui. A primeira é aquela máxima que a tradição atribui a Chesterton e que sintetiza o século: quando o homem deixa de ter fé em Deus, ele não passa a acreditar em nada — ele passa a acreditar em qualquer coisa. Não é que o não-crente esteja sem conteúdo; ele está exposto. A segunda é o Ivan de Dostoiévski, de Os Irmãos Karamázov, chegando à conclusão com a franqueza que falta aos nossos relativistas de redes sociais: se Deus não existe, tudo é permitido — podemos desfrutar de todos os prazeres imagináveis. Ivan, pelo menos, teve a dignidade de surtar em decorrência de sua própria descoberta; o nosso contemporâneo compartilha essa descoberta nas redes sociais com uma hashtag. Em outras palavras, você, pessoa humana que está se deixando levar por essa moda do movimento woke e suas inúmeras bobagens relacionadas: permitam-me ser direto — você está se tornando um escravo. Eles desejam que você consuma cada vez mais; querem que você se torne um pequeno servo, defendendo gratuitamente o catálogo deles, acreditando que está desobedecendo enquanto, na verdade, está seguindo todas as normas.
Qual é a força motriz por trás de toda essa dissolução? Refiro-me ao que tenho denominado como in-gnose — a apreensão da grandiosa solução, a qual explorei em profundidade em outra oportunidade, mas cuja mecânica vou apresentar aqui de forma resumida, pois, sem essa compreensão, o restante pode parecer uma verdadeira loucura. Capture o ícone do yin-yang: o elemento criador e o elemento limitador, a energia que expande e a energia que molda, o impulsionador e o freio da realidade. A in-gnose funciona ao afirmar que tudo deve ser visto como positivo — tudo é bom, nada é ruim —, com o objetivo de forjar um mundo de perfeições ilusórias e, ainda por cima, enfraquecer a noção do mal. Observe a cláusula traiçoeira oculta na promessa: se tudo é positivo e o mal é definido como o ato de perceber algo como negativo, então aquele que classifica algo como negativo transforma-se, ele próprio, no mal. Aqueles que atribuem um nome ao mal se tornam o próprio mal. Aquele que aponta, transforma-se no monstro que está sendo indicado. É o yin devorando o yang até restar um círculo de uma única cor: pura afirmação, criação sem forma, "sim" universal — e a eliminação imediata de todos aqueles que não concordam, uma vez que discordar é o único pecado que permanece. Experimente na prática: se você se opuser ao candomblé, será considerado um maligno; o mesmo se aplica ao budismo e ao cristianismo protestante. Além disso, se você defender uma ética objetiva, com uma definição precisa de bem e mal, de verdade e falsidade, passará a ser visto como a própria personificação do demônio na terminologia deles. Qualquer pessoa que tenha uma posição clara é vilanizada — esse é o único exorcismo que esse grupo ainda realiza. O hexagrama da perdição, que discutimos aqui no Círculo como o motor de toda a gnose, gira precisamente em torno desse eixo: no vazio negro em seu centro, primeiro ocorre uma relativização — nada é absoluto, tudo é condicional — e, em seguida, quando você já se encontra imerso nesse abismo sem suporte, tudo se torna subjetivo — o que é considerado correto transforma-se naquilo que você sente. Deslocar para desocupar; tornar subjetivo para reinstaurar o eu no trono vago. Duas voltas de chave e a alma encontra-se aprisionada no interior.
Agora atribua um nome espiritual ao motor: essa in-gnose, esse hexagrama, essa criação de um mundo onde nada é mau — é a gnose negativa, e a gnose negativa tem um proprietário. Esta é a especialidade de Coronzon, o demônio de Daath: fazer com que a pessoa perca a noção do que é certo e do que é errado, do que é objetivo e do que não é, inundando sua mente com uma lógica aleatória que aparenta ser uma iluminação, mas que na verdade é uma dispersão. É necessário fazer uma distinção entre duas gnoses aqui, pois a palavra pode ser enganosa e muitas pessoas bem-intencionadas se assustam com ela sem razão. Há uma gnose que é boa e sagrada: trata-se do ato de sonhar, do desejo, da criança que ainda não possui conhecimento e que precisa imaginar para descobrir, agitando dentro de si tese, antítese e síntese até alcançar algo no final — e, assim, aprimorar sua própria compreensão da religião, da Igreja e de Deus. Esta gnose é a origem do pensamento dinâmico, e a revisitarei ao final, pois é precisamente o seu contrapeso. Há uma gnose negativa, a de Coronzon: aquela que não edifica nada, apenas destrói; a que não eleva a Deus, mas mergulha em Daath; a que, ao invés de suscitar uma pergunta, apaga a luz para que qualquer coisa possa parecer reluzir. O drama de nossa era é que a segunda se tornou a norma. A grande maioria, atualmente, é gnóstica nesse sentido negativo, mesmo nunca tendo lido um tratado gnóstico sequer — incorporou essa dispersão que permeia o ambiente que respira, nos aplicativos que navega, nas aulas que assiste. O indivíduo acredita que está se descobrindo e até pensa que está se conectando com Deus; no entanto, o que realmente encontra, ao final de sua jornada, é apenas o Coronzon. A tradição é implacável ao revelar o fim: aquilo que ele pensava ser a imagem de Deus, no último dia, se revela como a própria face do demônio que o afastou — e que deseja tê-lo como escravo para toda a eternidade.
Gostaria de observar a mesma operação representada simbolicamente em outra tradição, a fim de perceber que não estou caracterizando uma birra de origem ocidental? Vamos explorar o hinduísmo e o trio formado por Brahmā, Vishnu e Shiva — o aspecto que cria, o aspecto que preserva e mede, e o aspecto que limita e dissolve o que deve chegar ao fim. Porque o plano dos nossos agentes de dissolução é o seguinte: eles se assemelham a Brahmā, que deseja a destruição de Shiva. Desejam a força criativa sem o elemento da pressão, sem a energia que impede a criação caótica, sem qualquer tipo de limitação — e, com Shiva destruído, o próprio Vishnu, o deus que equilibra e mantém a ordem entre os dois, não possui mais uma função e desaparece também. Permanece apenas Brahmā, a força criadora caótica, gerando na insanidade, imprimindo um selo positivo em tudo o que jorra, sem qualquer pilar de restrição. E compreenda a sutileza: Brahmā representa o bem — a criatividade é benéfica, a energia é positiva —, mas é necessário que seja limitado por Shiva, pois a criação sem forma não é um paraíso, e sim um câncer. Crescimento descontrolado é, de fato, a definição clínica de câncer. É por essa razão que a esquerda sustenta esse tipo de pensamento; e não apenas a esquerda: todo o progressismo contemporâneo compartilha dessa visão, assim como o neopaganismo — não me refiro ao paganismo clássico, que reconhecia limites e oposições, mas ao neopaganismo consumista, e, de maneira geral, a qualquer forma de religiosidade que adote uma ética subjetiva. Qualquer coisa que siga uma ética subjetiva leva à sua própria aniquilação, pois a lógica é implacável: tudo terá que ser visto como positivo, e aqueles que classificarem algo como negativo serão considerados os vilões dessa narrativa.
E o que representam atualmente os santos — aqueles oficialmente canonizados e os novos que surgem? São ridicularizados como se fossem golpistas. Pela Igreja? É evidente que não: em todo o mundo, especialmente entre seitas excêntricas de diversas espécies — quando não são totalmente desvirtuados, que é a abordagem mais sutil, a mesma utilizada para transformar heróis de ficção. O ocultismo faz isso com o catolicismo de uma forma tão descarada que chega a ser educativa: já encontrei ocultistas que afirmam que os milagres do Padre Pio não eram resultado da ação de Deus nem do ministério de anjos — em vez disso, eles argumentam que o frade seria um "deus do próprio mundo interno", tão poderoso que gerava os fenômenos no mundo físico a partir de sua própria existência, evocando aquelas entidades pela força de sua alma; em outras palavras, ele seria o "homem deificado" da Télema, um adepto thelêmico que ainda não tinha consciência de sua verdadeira natureza. Veja até que ponto de loucura uma pessoa precisa chegar para ter esse tipo de pensamento: em vez de reconhecer a existência de um santo, cria-se a figura de um super-homem esotérico; em vez de se submeter à graça, dobra-se toda a realidade. É isso que nos referimos no Círculo como uma grande dissolução — e está ocorrendo de forma cada vez mais intensa, acelerando from decade to decade. Aí surge um ou outro brincalhão entre o pessoal do Círculo que vem me dizer: "ah, mas tal povo é que é assim, tal grupo é que caiu nessa". De maneira alguma, meu irmão. Não é assim que parece. Estão todos eles. Quase todos se perdem nessa grande dissolução; e só existe um povo eleito, no verdadeiro sentido da expressão: o novo Israel, que é a Igreja Católica — o único povo escolhido, conforme a própria Igreja afirma sobre si mesma. O que sobra? Certamente existem religiões muito específicas cujo verdadeiro propósito é escapar dessa dissolução, e que se alinham em muitos aspectos com a Igreja — mas não são considerados o povo eleito, e essa diferença é significativa. E no que diz respeito às falsidades: investigue o quanto se fala por aí sobre a Igreja Católica e você perceberá que, na verdade, noventa e nove por cento do que é dito é pura mentira — os difamadores nem mesmo conhecem a verdadeira natureza da Igreja; eles atacam uma caricatura que criaram por conta própria. Por que motivo? Porque caluniar é fácil e arruinar confere autoridade. Eu realmente não consigo entender como a modernidade pode ser tão cega a ponto de não perceber um mecanismo tão evidente — ou talvez entenda: ninguém percebe a corrente que está pagando em suaves parcelas mensais. Antes de considerar o medicamento, no entanto, permito que as objeções se apresentem de maneira clara e contundente, em sua forma mais robusta, pois uma tese que apenas derrota um espantalho não merece ocupar o papel em que foi impressa. Primeira objeção: "isso tudo não passa de paranoia conspiratória — você está costurando Epstein, quadrinho, teosofia e ONG num tapete que só existe na sua cabeça". A crítica acerta em um ponto relevante: o gênero conspiratório está realmente repleto de charlatães, e aqueles que não fazem essa distinção acabam alimentando o deboche. Por essa razão, este ensaio se esforçou para distinguir, de forma minuciosa, o que é fato comprovado — como condenações, processos, fome provocada, campos de concentração e orçamentos de fundação —, o que é uma alegação contestada e o que é uma suposição apresentada como tal. Portanto, a solução para a objeção é o próprio método: não estou solicitando que você acredite em um plano secreto; estou pedindo que você observe um padrão que é público. Eu me recordo do constrangedor histórico de zombarias: o Holodomor foi "teoria da conspiração" nos jornais ocidentais enquanto milhões morriam; a rede de Epstein foi "fofoca" durante décadas de festa; os campos foram "propaganda exagerada" até as portas se abrirem. A verdadeira questão nunca foi "existe gente poderosa coordenando o mal?" — a história responde que sim com uma monotonia deprimente; a questão que realmente importa é "onde termina o documento e começa a inferência?", e eu indiquei claramente essa fronteira no texto com sinais evidentes. Outra objeção, de caráter mais filosófico: "ética objetiva é autoritarismo — quem é você para dizer o que é o bem para os outros?". Também aqui admito aquilo que a objeção teme com razão: a história conhece tiranos de batina e de farda que chamaram de "ordem objetiva" o próprio apetite. Atenha-se ao artifício da indagação: "quem é você" — como se a objetividade fosse posse de alguém. É precisamente o oposto: o objetivo é exatamente aquilo que não pertence nem a mim nem a você, que se aplica a mim da mesma forma que a você; é o subjetivismo que entrega a régua de medida ao mais poderoso, pois, ao eliminar a medida comum, prevalece aquele que se faz ouvir com mais intensidade ou que paga um preço mais alto — Trasímaco, na República de Platão, já havia afirmado isso de maneira desinibida: a justiça como conveniência do mais forte é a base de todo relativismo prático. A ética objetiva representa a única barreira que o fraco possui contra o forte, uma vez que é a única autoridade diante da qual o forte também se torna réu. Não venham me apresentar, como uma alternativa, a figura de Cristo reimaginado como um hippie metafísico, um terapeuta cósmico que prega o perdão sem arrependimento e o amor desprovido de verdade: essa caricatura, como mencionei no meu livro "Como fazer inimigos", não é clemente — é pueril. O amor que não possui uma base se transforma em permissividade; por outro lado, uma base sem amor se torna tirania; o Evangelho é, de fato, a negação de ambas as deformações.
Ótimo: o que devemos fazer, então? Retornar aos clássicos. Digo isso com uma simplicidade que pode parecer chocante, mas a verdade é que a solução é realmente muito simples de ser expressa, embora seja difícil de ser vivida: devemos retornar a Aristóteles e a Tomás, voltar à Escritura interpretada à luz da Tradição, reencontrar os mitos que apontavam para o céu antes de serem corrompidos — pois somente assim poderemos nos tornar santos, e somente assim conseguiremos extrair a força do verdadeiro mundo das perfeições para o nosso próprio mundo: aquele mundo das perfeições no sentido divino e católico — a pátria das formas plenas que Deus é e concede —, e não esse mundo das perfeições subjetivo, demiúrgico, no qual tudo é considerado bom, que a in-gnose cria como isca. Faço aqui uma pausa para um ensinamento doutrinário essencial, para que ninguém que leia este texto saia com a ideia equivocada de que estou defendendo: não estou promovendo de forma alguma a realização antecipada do escaton — nem a criação de um paraíso na terra através das ações humanas. A Igreja Católica se opõe de maneira categórica a essa questão, e é neste ponto que podemos perceber a razão pela qual a abordagem adotada ao longo deste ensaio se alinha com o pensamento de Eric Voegelin: foi ele quem identificou, de forma clara, que as principais ideologias assassinas da modernidade — como o progressismo, o comunismo e o nazismo — não são, de fato, programas racionais, mas sim enfermidades espirituais, manifestações contemporâneas do gnosticismo. Ele dedicou o melhor de sua obra a isso, desde A Nova Ciência da Política até Ciência, Política e Gnosticismo, evidenciando que todas essas obras repetem a mesma estratégia: a tentativa gnóstica de trazer o fim dos tempos para o interior da história, de tornar o escaton imanente, de criar por meio de um decreto aquilo que somente a ação de Deus poderá realizar plenamente. Perceba como as duas partes deste ensaio se interligam: o que Voegelin define no âmbito da filosofia política — a gnose transformada na religião estatal — corresponde, no campo da teologia, à realização em grande escala do Coronzon, o demônio da gnose. A cobra do Éden, que inicia este texto com a promessa do conhecimento do bem e do mal, e o gnosticismo político que Voegelin identificou nos regimes totalitários são, na verdade, a mesma fonte de energia: embora a voltagem possa ser alterada, a usina permanece a mesma. O Catecismo deixa claro: a Igreja repudia todas as manifestações do messianismo secular, e o Reino não se estabelecerá através de uma conquista histórica e progressiva da Igreja ou de qualquer outra entidade, mas sim pela vitória de Deus sobre a última liberação do mal — a respeito desse dia e hora, ninguém tem conhecimento (Mt 24,36). Assim, quando me refiro a "trazer a potência do mundo das perfeições para cá", estou me referindo à santificação das pessoas, e não à criação de paraísos: o santo acolhe o céu em seu interior e o irradia; por outro lado, o gnóstico busca impor a presença do céu no mundo exterior e acaba gerando infernos administrados. Aqueles que misturam essas duas questões criaram uma doutrina que se desvia dos ensinamentos da própria Igreja — e, sem se dar conta, estão posicionados do outro lado do tabuleiro.
A razão pela qual a moldura do tabuleiro é essa, e isso está registrado nas Escrituras de uma maneira tão clara que não precisa de qualquer atualização, é que o mundo todo está sob o domínio do maligno (1 Jo 5,19). O mundo está sob a influência do maligno, meu filho — é essencial que você compreenda isso desde o início, não para se deixar levar pelo desespero, mas para que pare de se surpreender. São João não disse que o mundo está dando sinais de se envolver com o maligno ou que está passando por uma fase; ele afirmou que o mundo jaz, deitado e aconchegado. Aqueles que compreendem isso deixam de aguardar do sistema a solução que, na verdade, o sistema foi criado para evitar. Resta-nos apenas uma ação — a única que nos resta — que é o retorno dos heróis. Como se realiza o retorno dos heróis? De volta aos clássicos. Como ocorre o retorno aos clássicos? Através da moralidade; através das boas ações; através de uma restrição bem definida — restabelecer o limite claro entre o vício e a virtude, entre o mal e o bem; o retorno pleno da energia do yin-yang, o polo criador harmonizado com o polo formador, Brahmā novamente sob a orientação de Shiva. É lutar contra a má gnose utilizando a boa gnose — é transitar sobre o abismo em vez de cair nele, é seguir em frente pelo Coronzon sem soltar a mão de Deus. E o que se entende por essa boa gnose? É o ato de sonhar em si. São os desejos que habitam o coração de cada pessoa. É a expectativa.
É nesse ponto que toda a guerra se determina, e eu imploro ao leitor que não skim este parágrafo: eles almejam aniquilar sua esperança. Desejam, de qualquer maneira, que você observe sua vida e declare "minha vida não vale a pena" — e que então, no vácuo dessa sentença, você faça a única liturgia que o demiurgo celebra: comprar. Porque quem sabe, com mais um bugiganga, você consiga encontrar um propósito para a vida; e o bugiganga não funciona, como era esperado, e você adquire o seguinte, e o outro, um dízimo eterno pago ao deus de plástico. Eles desejam aniquilar a esperança, pois esta é a única força que mantém todas as virtudes em equilíbrio. Costumo afirmar, e defendo como a ideia mais íntima deste ensaio: a origem de toda virtude é a esperança. Pense bem: se você não acredita que algo é possível, de onde virá qualquer valor? De onde virá a coragem, se nada pode mudar para melhor? Como poderá surgir a temperança se não existe um amanhã pelo qual se preservar? De onde virá qualquer crença, qualquer início, qualquer coisa? A esperança é essa força verde — a força vital que habita em você, aquela que te motiva e te impulsiona: a força inerente à própria vida. E ela não representa o otimismo das mensagens de autoajuda, aquela luz suave que brilha no fim do túnel: como mencionei em outra ocasião, a verdadeira esperança age como um golpe inesperado na escuridão — não como um conforto, mas como uma decisão. É Rocky Balboa que se transforma em um ícone, não por triunfar, mas por sua capacidade de suportar; não pelo título, mas pela sua recusa em desistir antes do momento certo. É a majestade intensa daquele Ezequiel ampliado que o cinema reconheceu: abençoado aquele que, movido pela caridade e pela boa vontade, orienta o débil através do vale da sombra — uma definição de responsabilidade moral que os desatentos interpretam como uma advertência. É, de fato, a essência do mandamento em toda a sua rigidez: amar o próximo como a ti mesmo — note que o "a ti mesmo" aparece em primeiro lugar. É fundamental que você se ame; é essencial que você se cuide; é necessário que você abrace toda a força que percebe em si, o potencial que pode se tornar realidade, a possibilidade de se redimir e a determinação de nunca abrir mão de si mesmo. E, somente após ter testemunhado essa força em seu próprio lar, você se volta para o outro e afirma: você também é capaz disso; você também possui potencial. E assim compreendemos o que realmente é o amor divino: é nutrir a esperança, não apenas para si mesmo, mas também para os outros. Essa esperança que se estende é, de fato, o amor divino em ação — é aquilo que Deus, no dia do juízo, reconhecerá como amor, ao nos questionar não sobre os sentimentos que tivemos, mas sim sobre as expectativas que nutrimos uns para com os outros e sobre as ações que realizamos em relação a essa expectativa.
Antes de encerrar, devo ao leitor a contraprova pessoal que havia prometido. Eu compreendo o que significa ter a esperança meticulosamente removida da alma, como se fosse raspada com uma espátula, pois isso me aconteceu durante a minha infância escolar: professores com um olhar niilista, repetindo incessantemente que tudo é ruim, que sonhar é pura ilusão, que a fantasia não passa de tolice e que Deus é apenas um conto de fadas — a pedagogia convencional do demiurgo, aplicada com giz e diploma. Entre os meus oito e onze anos, fui gradualmente perdendo a crença de que houvesse algo além do material, e o resultado disso não foi uma clareza de pensamento: foi um garoto cheio de raiva, para quem nada mais parecia ter valor. E você também sabe como ela retorna, pois em minha vida ela apareceu novamente de duas maneiras que este ensaio inteiro tem descrito sem afirmar que se referia a mim: ela voltou através do assombro diante do sobrenatural que os céticos de carteirinha insistem em afirmar que não existe e que nunca se atreveram a ir conferir; e antes disso, ela voltou por um caminho repleto de lixo de banca de jornal — por causa de um S vermelho em um losango amarelo, onde um menino conseguia ver o pai, os bombeiros, os justos da história e, sem saber o nome do que estava observando, Cristo. Aquela "ideia de fantasia" que Chesterton defende na Ortodoxia — a de que os contos de fada são mais verdadeiros que o jornal, porque nos lembram que o mundo é um espanto com regras — transformou-se de uma tese em uma biografia. Se o demiurgo tivesse conhecimento do que circula pelas suas rotas de lixo, ele incendiaria o lixão. Felizmente para nós, o jumento é grande.
Considerações Finais
Levantamos os fios. Há um aparato — financiamento, mídia, fundação, burocracia e um culto de fachada — que atua como uma entidade singular no plano metafísico, e a esse conjunto atribuímos o nome de demiurgo sintético; ele é, no sentido específico da teologia católica, um instrumento do demônio. O seu objetivo é manter o status quo eterno: ninguém avança, ninguém se santifica, ninguém reconhece o verdadeiro bem — pois aqueles que reconhecem o verdadeiro bem deixam de ser clientes fiéis e súditos obedientes. Suas ferramentas consistem na ética subjetiva, que restaura a queda em cada consciência; na in-gnose, que declara tudo como bom e demoniza aqueles que identificam o mal; no hexagrama da perdição, que relativiza para, em seguida, subjetivar; na destruição da linguagem, que sabota a adoração à gramática; na teosofia de mercado, que combina as religiões para aniquilá-las; e na descaracterização dos santos do imaginário, que vai desde os heróis de papel até os santos de altar, pois a virtude condensada em uma figura visível é o alfabeto pelo qual o povo aprende a aspirar ao que é elevado. Em oposição a isso, há três lembretes de registro e um mandamento. Os lembretes: a ética objetiva não é opressão, mas sim a única defesa dos mais fracos; a história registra conspirações que são reais o suficiente para dispensar o riso sarcástico, desde que se estabeleça de forma honesta a diferença entre o que é fato e o que é suposição — e este texto fez essa distinção; e que a resposta cristã não consiste em qualquer tentativa de trazer o escatológico para o presente, nem em um paraíso artificialmente criado, mas na santificação de indivíduos em um mundo que está sob o domínio do maligno, até que Deus, e apenas Deus, o eleve. O preceito: conservar a esperança da mesma forma que se preserva a semente de todas as virtudes — nutrir o amor primeiramente em si mesmo, em seguida no outro, até que essa expectativa ampliada se manifeste como aquilo que sempre foi: o amor divino em ação. O demiurgo sintético é, em última análise, uma estrutura criada a partir do desespero. A santidade representa a estrutura da esperança. A luta ocorre no âmbito do imaginário, pois é nesse mesmo imaginário que uma das partes se estabelece inicialmente.
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