Do feminismo utópico ao Red Pill: sobre a dissolução programada do real e o homem que se recusou a desaparecer

Este capítulo oferece uma análise filosófica do que ocorre quando uma ideologia se dedica, por várias décadas, a desmantelar os fundamentos do que é masculino, da estrutura familiar, das diferenças entre os sexos e de toda cultura específica que se recusa a se fundir em uma massa indistinta e controlável. O homem que, em última instância, reage a essa situação não é o problema da história, mas sim o seu inevitável sintoma: o feminismo utópico aspirava a criar um mundo livre de homens de verdade e, como consequência, gerou homens que, de fato, estão irados. Se você está se queixando tanto, "tá ali a pia cheia de louça pra lavar".

4/27/202619 min read

O Movimento Red Pill: Antítese de uma Catástrofe Anunciada

O movimento Red Pill tem sido alvo de um desprezo e vilipêndio tão intenso e sistemático nos últimos quatro anos que, se você olhar para isso com um pouco de frieza intelectual, pode acabar revelando mais sobre aqueles que o atacam do que sobre o que está sendo atacado. Não se trata de uma defesa irracional ou de um simples apoio incondicional. É uma constatação evidente: quando um movimento passa a causar tanto desconforto, é porque ele revelou alguma verdade que aqueles que se sentem incomodados prefeririam ocultar.

A mulher contemporânea, e emprego o adjetivo com uma precisão cirúrgica, sem que se transforme em um insulto genérico, elaborou uma estrutura mental que o relativismo não apenas ocupa, mas também controla. Ela não atingiu essa condição por sorte, nem por uma natureza maligna. Chegou lá porque foi levada por uma engenharia social elaborada, cuja base ideológica é o feminismo. Não é misoginia entender isso. É um diagnóstico. Um diagnóstico incorreto nunca foi responsabilidade do médico.

Para compreender o movimento Red Pill com a seriedade que realmente merece, mesmo que de forma parcial e com algumas reservas, é fundamental primeiro entender suas origens. O que deu origem a isso tem um nome: feminismo utópico. Nem o feminismo das sufragistas do século XIX que desejava o direito de voto, nem o feminismo moderado de quem solicitava que o salário fosse o mesmo para um trabalho igual. Esse feminismo inicial já passou e não retornará. O que funciona atualmente é algo diferente. É uma perspectiva global cujo objetivo final é claramente expresso por suas fundadoras teóricas: a reestruturação total da espécie humana.

A reorganização, neste contexto, é algo literal.

O plano mais extremo e intelectualmente mais sincero, no aspecto de que, pelo menos, não oculta suas bases, prevê, em sua trajetória de desenvolvimento, a troca do modelo reprodutivo natural por um modelo controlado pelo Estado. A proposta, em sua forma mais básica, é esta: homens com "genes inferiores" entendendo-se por inferiores aqueles que não atendem ao padrão estabelecido pelo movimento seriam progressivamente excluídos da reprodução. O Estado forneceria reprodutores de elite. O parceiro doméstico, o fornecedor, o marido prático estaria presente como um figura de apoio logístico, mas não como pai biológico. Quem daria à luz os filhos seria outra pessoa. A pessoa que reside na casa seria responsável por pagar as contas. A diferença entre os dois papéis seria não só aceita, mas vista como uma evolução a ser celebrada.

Isso dá a impressão de ser ficção científica? É o que parece. Está escrito. Não em folhetos anônimos de fóruns desconhecidos, mas nos escritos das teóricas que estabeleceram as principais correntes do feminismo acadêmico atual. O grande problema das ideias no papel é que, com o tempo e com os recursos institucionais necessários, elas deixam de ser apenas teorias.

O próximo estágio cronológico deste projeto é a reprodução assistida em larga escala, o que resultará na eliminação da necessidade masculina, mesmo nos aspectos puramente biológicos. Quando se trata da fusão dos sexos, não de uma maneira poética de complementaridade, mas de uma perspectiva literal de engenharia genética, a distância entre isso e a realidade é menor do que se imagina. O destino declarado é um ser que reúna em si as qualidades de ambos os sexos, eliminando a diferença sexual como algo não só dispensável, mas já superado historicamente. Uma única forma humana, cultivada em laboratório, sob o controle de uma única autoridade.

Está tudo como antes. Todas as raças combinadas. Todos os gêneros entrelaçados. Todos os povos que não existem mais. Todos os deuses que já morreram.

Não é uma hipérbole essa síntese. O feminismo, nas suas vertentes predominantes, defende a aniquilação das culturas específicas com a mesma firmeza com que defendia, na década de 1970, o término do patriarcado familiar. A cultura alemã deve ser eliminada. A cultura japonesa precisa sumir. A cultura judaica, a cristã e a islâmica devem ser fundidas em uma mistura de uma identidade humana uniformizada, sem contornos, sem passado e sem divindade. É por isso que o feminismo e o ateísmo militante estão sempre associados: não se trata de uma coincidência ideológica, mas sim de uma necessidade intrínseca. Ninguém consegue viver sem o outro. Para criar o novo homem ou o novo ser, uma vez que "homem" também é categoria a ser extinta, é necessário, antes de tudo, demolir os fundamentos do antigo homem. Os fundamentos do homem primitivo são a religião, a família, a cultura e a diferenciação de gêneros.

Provenho de uma família de origem judaica, por parte de pai, que se encontra na nona ou décima geração desde um antepassado que imigrou para o Brasil e se casou com uma católica, transmitindo o catolicismo aos filhos e ele mesmo convertendo-se posteriormente. A abordagem que meu pai me ensinou é fundamentada no judaísmo, entrelaçada com a tradição cristã. Menciono isso não por um orgulho exagerado de minha linhagem, mas porque é uma questão tangível: essa herança cultural, que influenciou meu modo de pensar, de aprender e de me envolver com a escrita e com a argumentação, é precisamente o que o feminismo utópico deseja eliminar. Não porque seja, de modo específico, judaica. É particular porque sim. Porque é única. Pois é de alguém.

O projeto exige que nada seja de ninguém, pois ter uma identidade particular é o primeiro empecilho ao poder total de uma estrutura única.

Zygmunt Bauman, um homem de esquerda que possuía a honestidade intelectual necessária para não distorcer o que observava, denominou esse fenômeno de modernidade líquida. A afirmação dele é que as conexões sociais foram intencionalmente criadas para serem efêmeras, e não por um mero acaso da história, pois essa flexibilidade favorece aqueles que detêm o poder. Quando tudo é transitório, nada se sustenta. Quando os relacionamentos não são duradouros, a pessoa acaba sozinha. O indivíduo, de forma paradoxal, é muito mais fácil de ser controlado do que aquele que faz parte de uma comunidade, de uma família, e que está imerso em tradições. Bauman tinha razão. O que ele relatou está se concretizando. Os movimentos sociais se tornaram tão numerosos que as pessoas, por natureza, tendem a desconfiar umas das outras. Os direitos se expandiram a tal ponto que se transformaram em ferramentas de coerção, e os relacionamentos agora são meros arranjos temporários que se encerram na primeira situação inconveniente. É a modernidade líquida em movimento. Além de tudo, o feminismo, com toda a sua discursividade em torno da libertação, foi um dos seus mais potentes solventes.

O efeito desse processo na mente individual, especialmente na mente das crianças que se desenvolveram dentro dele, é o que eu denomino gnose psíquica: o estado de quem não se conforma com a realidade tal como se apresenta e busca trocá-la pela realidade que existe unicamente em sua mente, elaborada pela ideologia que o permeia. O gnóstico psíquico não falseia a verdade, em um sentido técnico. Ele realmente acredita na realidade que criou dentro de sua mente. A questão é que esse mundo não é real. Quando você tenta habitar esse espaço, o choque com a realidade gera confusão, rancor e, em casos extremos, violência tanto simbólica quanto física.
Isso clarifica a situação nas escolas.

Uma docente que se formou na ideologia predominante das instituições de ensino superior em pedagogia do Brasil, que, sem exageros, podem ser consideradas fábricas de produção em massa de gnose psíquica, entra na sala de aula com uma missão que ela acredita ser uma verdadeira libertação. Ela sustenta, com a convicção que apenas uma ideologia pode gerar, que o masculino sempre foi opressor, que os meninos nascem inclinados ao mal e que essa tendência precisa ser ajustada, e que tornar os comportamentos masculinos mais femininos é, de fato, um avanço moral. Portanto, ela transmite esse conhecimento. Não exatamente com palavras diretas. Mais frequentemente em moldura, em exclusão, em louvor seletivo, em abafamento do que contraria o padrão.

O garoto que se desenvolve nesse contexto internaliza, tanto por influência quanto pela pressão do grupo, a ideia de que o masculino é o adversário. Que ser homem, em sua acepção substantiva, implica ser, potencialmente, uma ameaça. Que a maneira mais digna de escapar é se tornar feminina. Assim como uma criança deseja ser considerada boa, cada ser humano também aspira a ser bom. Essa característica é uma constante na natureza humana, e, por isso, a pessoa tende a se moldar à definição de bondade que seu ambiente lhe apresenta. O resultado não é, na maioria das situações, uma verdadeira homossexualidade. É uma confusão de identidade criada de forma intencional, um processo de feminização ideológica: o garoto que se identifica como gay não por sentir atração por outros homens, mas porque o movimento ao seu redor o fez perceber que essa identificação é a chave para escapar do domínio dos opressores.

Eu testemunhei isso de perto. No meio teatral, havia uma pressão social visível, embora nunca expressa de forma direta: um homem heterossexual que se identificasse como tal era visto com desconfiança. A maneira confortável de escapar era agir com ambiguidade. Os rapazes ao meu redor que se renderam a essa pressão não eram realmente homossexuais. Eram indivíduos que descobriram que uma determinada atitude lhes garantia mais aceitação social naquele contexto particular. Defendi meu ponto de vista e saí vitorioso nos debates. Isso também me rendeu ódio. É possível conciliar essas duas coisas.

Simultaneamente, enquanto isso se desenrolava nas escolas e na cultura, o sistema jurídico estava passando por algo que, em grande parte, não tem paralelo recente na maioria das democracias ocidentais: a elaboração de um conjunto de leis que, na prática, tornou a mulher juridicamente intocável. Não me refiro às legislações que garantem proteção às mulheres contra a violência doméstica, pois estas são bem fundamentadas, e a Igreja Católica, inclusive, foi a precursora na sua proposta, muito antes de qualquer movimento feminista levantar essa questão. Refiro-me às mais de oitenta leis de privilégio que atualmente elevam a palavra de uma mulher acima de qualquer evidência contrária, que estabelecem uma presunção de culpa masculina por padrão e que converteram a simples acusação em punição antes mesmo de um veredicto.

Em termos legais, a vida de um homem no Brasil contemporâneo tem um valor inferior ao de uma planta em risco de extinção. Não se trata de uma hipérbole retórica. É uma comparação legalmente verificável: arrancar uma planta em perigo de extinção pode custar mais caro do que matar um pai de família, em certos casos. A mulher transformou-se no que eu denomino deusa jurídica, uma classe que, ao simplesmente existir e se expressar, faz com que o sistema estatal se mobilize. Um homem pode ser detido apenas com o que foi dito. Uma declaração, sem confirmação, sem o devido processo legal e sem um contraditório eficaz. Quando se sentem seguros para fazê-lo, membros do sistema de justiça falam abertamente sobre isso: há um grande número de homens encarcerados por acusações que não aguentariam um exame probatório minimamente rigoroso.

O movimento feminista, quando se depara com essa questão, desvia o olhar. Porque a história que pinta o homem como o agressor sistêmico não resiste à análise de dados mais complexos. Por exemplo: ao buscar o número de crianças que sofrem abuso sexual anualmente no Brasil, percebe-se uma discrepância que o debate público ignora completamente. O número de meninas que são vítimas é verdadeiro e lamentável. O número de meninos que são vítimas é muito maior, e uma parte considerável das agressoras é do sexo feminino. Essa informação não é relevante para a discussão, pois vai de encontro ao modelo ideológico que necessita do homem como o único agressor viável e da mulher como a única vítima plausível.

Esse mesmo padrão se observa quando se faz uma análise mais aprofundada da violência doméstica. A história simplista de homem mata mulher, e nada mais, se desfaz quando se compara com as informações sobre envenenamento dentro do casamento, sobre mortes que ocorrem em situações de conflito entre as partes e sobre as verdadeiras circunstâncias dos homicídios que envolvem casais. Isso não implica que a agressão masculina contra mulheres não aconteça ou que não seja uma questão grave. Isso indica que a questão é mais intricada do que o movimento feminista está disposto a reconhecer, e que essa nuance é ignorada porque atende a uma agenda política, em vez de realmente proteger as pessoas.

Existe um aspecto específico relacionado à maneira como alguns homicídios de mulheres acontecem que ninguém se atreve a abordar de forma séria. O movimento feminista se apresenta a uma mulher que está em um relacionamento com um homem de temperamento volátil, um homem que ela mesma reconhece como instável, que é claramente identificado como tal por aqueles ao seu redor, e diz: fortaleça-se, desafie-o, não se submeta. Ela não foge. Ele detona. Então, o movimento que a motivou a se confrontar não aparece para prestar contas da orientação que forneceu.

Eu digo isso diretamente para minhas primas e tias, com a sinceridade de alguém que prefere ser mal compreendido a ser cúmplice de uma tragédia que poderia ser evitada. Quando você está com um homem que não conhece bem, que não é do seu círculo social, cujo passado você não pesquisou e cuja ética você não avaliou, evite provocá-lo. Não porque instigar seja eticamente incorreto, mas porque há circunstâncias cujas consequências não podem ser desfeitas. Se um homem possui uma ética pessoal e trata de maneira vil aqueles que estão ao seu redor, é natural que ele também o trate da mesma forma. Não se trata de preconceito. É um padrão observado. Eu tinha uma tia que desconsiderou completamente o conselho que meu pai deu e acabou passando dez anos lidando com as consequências da escolha que fez, sendo ameaçada de morte e tendo que deixar a cidade com a filha que teve com ele. O conselho que foi oferecido não se tratava de preconceito. Era vivência.

A dica prática é bem simples, mas pode parecer estranha para quem foi ensinado a "seja simpática com todo mundo": se você não tem interesse em um homem, especialmente se ele é desconhecido do seu círculo social, seja objetiva. Seja clara e objetiva. Evite criar situações ambíguas, pois, para certos tipos de personalidade, a ambiguidade é interpretada como um sinal de interesse. Um homem que espera por algo que não existe se torna uma ameaça quando a ilusão se desfaz. Não se trata de uma teoria psicológica convencional. É algo que ocorre frequentemente e que qualquer um que preste atenção ao que acontece ao seu redor já testemunhou.

O desafio particular que o movimento feminista gerou neste contexto é de natureza dupla. Em primeiro lugar, instruiu as mulheres a compreenderem que serem objetivas com homens que não desejam sua companhia é uma forma de crueldade, alegando que ser bondosa implica em manter todas as possibilidades em aberto. Segundo essa perspectiva, recusar algo a qualquer homem seria uma manifestação do patriarcado. Em segundo lugar, estabeleceu a cultura da gaveta: manter o homem em uma posição indefinida entre pretendente e amigo, sem qualquer definição, porque "quem sabe, se tudo falhar". A mistura de ambiguidade, alimentada por ideologias, e a presença de um homem de caráter duvidoso que se mantém por perto, é uma fórmula que frequentemente resulta em tragédias. Isso é algo que as estatísticas sobre feminicídio poderiam indicar, caso alguém se dispusesse a investigar as verdadeiras circunstâncias de cada caso, em vez de simplesmente categorizá-los todos sob a mesma narrativa padrão.

Além disso, há a questão dos padres, que me é difícil mencionar, pois sou católico e sou leal à Igreja. Ser leal não significa ser conivente. Em um retiro que aconteceu em Primavera do Leste, certo padre relatou a história de uma mulher que havia sido infiel ao seu marido. O esposo não a batia, nem a intimidava. O "crime" cometido pelo marido, de acordo com o padre, consistia em não permitir que ela frequentasse determinados lugares e em não apoiar algumas de suas escolhas de vestuário. O padre tratou isso como uma forma de machismo que legitimava a traição. Observei aquele homem com a mesma sensação de desconforto que se tem ao ouvir que dois mais dois é igual a cinco.

Esse mesmo sacerdote, após eu terminar um namoro na entrada da igreja devido a motivos que eu considerava válidos, já que a pessoa havia feito algo que eu não estava disposto a aceitar, veio me oferecer conselhos que eu não pedi. Respondi com a rudeza que a situação parecia exigir. Ele me ofereceu então apresentar opções de mulheres para conhecer. A primeira era uma mãe solteira com três filhos. A segunda estava interessada nos pais dela, e não em mim. A terceira era famosa na cidade por um passado amoroso que, para não dizer mais, não era sinônimo de estabilidade. Na quarta vez, deixei a coordenação da catequese e não retornei mais a esse circuito. Não me desliguei da Igreja. Afastei-me da influência de um padre que havia assimilado tanto a lógica feminista que a confundia com a pastoral.

O feminismo infiltrou-se no clero não de maneira direta, com manifestações e bandeiras, mas de forma discreta, utilizando uma linguagem de misericórdia que não estava bem ajustada. Quando um sacerdote afirma a um homem que ele deve "acolher" uma situação que objetivamente o prejudica, e quando a virtude cristã é reduzida a uma autoanulação do masculino, enquanto a parte feminina da equação não enfrenta nenhuma exigência moral, isso não pode ser considerado catolicismo. É um feminismo de batina.

A diferença é significativa porque o verdadeiro catolicismo é, de fato, uma das poucas tradições que trata homens e mulheres de maneira realmente equitativa. Não se trata de uma igualdade de funções ou papéis, mas de um equilíbrio estrutural: ambos têm deveres, ambos têm responsabilidades, ambos devem colaborar para o bem-estar da família e da comunidade. A concepção protestante de que o homem deve ser o responsável por tudo, enquanto a mulher é uma figura quase divina a ser venerada, tem origens teológicas que o catolicismo sempre questionou. A mulher não é uma deusa do lar. Tem responsabilidades morais tão autênticas como as do homem.

Daí também se explica o porquê de algumas comunidades católicas manterem critérios mais severos para certos grupos de encontro matrimonial: pessoas com histórico de múltiplos relacionamentos ou filhos de pais distintos não são aceitos nos grupos fechados, e o mesmo se aplica aos homens. Isso não é cruel. É a consciência de que determinadas decisões acarretam consequências, e que não existe um sistema de "perdão automático" como o que o protestantismo reformado tende a oferecer, devido a razões doutrinárias que estão ligadas à falta da confissão sacramental, que substitui a verdadeira reforma do comportamento. No contexto católico, para que haja confissão é necessário sentir verdadeira contrição e ter a intenção de se corrigir. Não é uma lousa em branco acessível a qualquer momento sem uma cobrança ética.

A Igreja Católica é, por toda a sua história, a entidade que mais protegeu mulheres que sofreram abuso real. Em vez de um manifesto, com ações tangíveis: comunidades que acolheram mulheres que estavam escapando de situações de violência, oferecendo transporte, abrigo, assistência jurídica e a oportunidade de recomeçar em outra cidade, sem deixar vestígios para que o agressor os encontrasse. Mulheres que, ao optar por esse caminho, jamais reencontraram seus agressores, não precisaram enfrentar nenhuma situação de forma pública e não dependeram de nenhum movimento para recomeçar suas vidas. Aconteceu em Primavera do Leste. Ocorreu em várias cidades. Isso ocorre há séculos. A ironia reside no fato de que o movimento que se diz defensor das mulheres, o feminismo institucionalizado, é o mesmo que, nos dias de hoje, defende a liberação de condenados por crimes contra mulheres, em nome da solidariedade ideológica. Enquanto a Igreja planejava discretamente uma fuga e um novo começo, o movimento se dedicava a fazer discursos. A diferença entre as duas coisas reside na distância entre fazer e performar.

Retomemos a questão central, pois a digressão envolvendo os padres e a teologia cumpre um papel estrutural: é exatamente nessa confusão institucional que surge o movimento Red Pill como uma reação perfeitamente compreensível. Ser compreensível não quer dizer que não se possa criticar, mas implica que há uma causa real, e não patológica.

O homem contemporâneo é bombardeado, de todas as partes, por uma mensagem estruturalmente inconsistente. Ele deve fornecer tudo, mas não pode cobrar nada. É necessário suportar em silêncio a degradação verbal e emocional que seria completamente inaceitável se a situação fosse inversa, uma vez que a lei, a cultura e até mesmo o clero corrompido validam o fato de que sua voz é considerada suspeita por natureza. Deve aceitar qualquer mulher que lhe seja apresentada, pois ter critérios é considerado arrogância ou, ainda mais grave, uma forma de repressão, uma acusação que, curiosamente, é mais frequente entre homens que professam uma ideologia feminista do que entre as próprias mulheres. Se ele rejeitar a mulher que possui três filhos com pais distintos e um passado de traições, será avaliado pelo padre, pelo pastor e pelo progressista de plantão com uma unanimidade intelectual surpreendente.

Então, o homem, ao atingir um limite que se acumula com o passar dos anos, toma uma atitude simples: deixa de ouvir. Comece a prestar atenção. Começa a identificar o que observa. Ele percebe que outros homens estão notando o que ele nota e pensando o que ele pensa.

Isto é o Red Pill. Não se trata de uma ideologia, e eu utilizo esse termo de forma técnica, com precisão, e não como um insulto. Uma ideologia possui um núcleo doutrinário que é coerente e que todos os membros aceitam. O feminismo é uma ideologia: existem vertentes distintas, mas todas compartilham um mesmo foco central. O Red Pill não oferece isso. É um movimento constituído por um grupo de indivíduos que, apesar de terem seguido trajetórias distintas e com diferentes ênfases, chegaram à mesma conclusão e possuem diversas propostas sobre como avançar a partir desse ponto. Afirmar que o Red Pill é uma ideologia é o mesmo que dizer que "insatisfação com o sistema" é uma plataforma política. A insatisfação pode dar origem a diversas consequências.

No seio do movimento, existe uma vertente que chegou à conclusão de que se relacionar com mulheres modernas é, por definição, impossível e que a solução é o celibato voluntário ou outras configurações de vida afetiva. Não vejo essa conclusão como válida. Ela entende a frustração que se acumula e que a produz, pois é legítima e pode ser documentada, mas está equivocada por motivos que transcendem o âmbito pessoal.

Existe uma questão demográfica que o radical do Red Pill simplesmente não considera: a crescente islamização do Ocidente. Não me refiro a uma ameaça abstrata de choque de civilizações em um artigo acadêmico. Com uma taxa de fecundidade bem definida e uma presença territorial cada vez maior. Famílias muçulmanas têm crianças. Vários filhos. Por crença religiosa, por formação cultural, por motivos que o Ocidente pós-cristão e pós-feminista simplesmente ignorou. Se os homens do Ocidente, em particular os cristãos, e mais ainda os conservadores que estão cientes das apostas civilizacionais em andamento, decidirem coletivamente não ter filhos devido à complexidade das mulheres contemporâneas, o resultado em termos demográficos é evidente. A maior parte do movimento Red Pill, que defende o celibato, é, ironicamente, o segmento que mais reconhece o perigo representado pelo avanço do islamismo. Estão nutrindo aquilo que pretendem combater.

A solução não consiste em ceder ao relativismo e se unir em matrimônio com a pessoa que o padre progressista sugere. A solução está em ser criterioso com padrões definidos. Criterios que sejam reais e passíveis de verificação, e não apenas estéticos. Pessoalmente, não espero que a mulher seja uma beleza incomparável. Peço que não seja excessivamente obesa, nem tão magra a ponto de parecer doente, que possua uma inteligência funcional, que tenha uma ética baseada no cristianismo e, se possível, que seja católica. Ao expressar isso em alto e bom som, a esquerda ideológica o entende como uma exigência irrealizável. O que estou falando é o básico. Há um mínimo que existe.

Observei isso em Cuiabá, durante uma visita com meu primo a uma comunidade religiosa. Existiam jovens mulheres que tinham princípios morais bem definidos, algumas com poucos ou nenhum relacionamento anterior, com uma família presente e cuja postura demonstrava uma intenção séria. Meu primo, que fora traído três vezes, fitou aquelas moças e afirmou que mulheres assim podem ser encontradas em qualquer shopping. Respondi com o pouco de paciência que me restava que não, não existia. A mulher que, na faixa etária em questão, visita shoppings e já teve dezoito relacionamentos em apenas dois anos não se equipara àquela que vive em uma comunidade religiosa, onde a estrutura familiar é sólida e presente. Não se trata de preconceito. É um reconhecimento de que diferentes contextos geram histórias distintas.

O Red Pill, nas suas versões mais claras, afirma exatamente isso. Diz que não é qualquer mulher, que é necessário ter discernimento, pois casar com alguém cujo passado ou cujos princípios não se alinham é uma armadilha que tem um tempo limitado. Que o homem pode ter seus critérios sem que isso seja visto como um problema de saúde mental. A igualdade defendida pelo feminismo não pode ser aplicada de forma seletiva, beneficiando apenas um dos lados.

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