Entre o Nome e o Abismo: os papiros greco-egípcios e a produção ritual do cosmos

Existem textos que retratam o mundo; outros buscam tocá-lo internamente. Nesses escritos, a palavra atrai, conecta, afasta, cura e põe em risco. Cada fórmula conecta corpos, divindades, astros e falecidos. É preciso abordá-los com seriedade, pois a modernidade criadora de encantamentos fabrica permanências. Era preciso ter imaginação: conhecer, para eles, era estar dentro do real.

Gabriel G. Oliveira

6/30/2026105 min ler

O Coração do Ocultismo Moderno

Os Papiros Mágicos Gregos, abreviados como PGM, não são um único livro antigo, não formam uma escritura sagrada e não contêm a doutrina consistente de uma única escola de pensamento. Trata-se de um corpus moderno composto por manuscritos e fragmentos que foram produzidos, copiados, relocados e utilizados durante o período helenístico, romano e tardio do Egito, especialmente entre os séculos I a.C. e V d.C., embora algumas das tradições que eles preservam sejam mais antigas e alguns testemunhos relacionados a essas tradições excedam esse período. A coleção abrange formulários, cadernos de receitas, rolos longos, folhas soltas, amuletos, textos aplicados, canções, invocações, instruções de adivinhação, procedimentos astrológicos, remédios, malefícios, fórmulas de proteção, operações de revelação e ritos de aproximação do divino. O termo “gregos” refere-se mais à língua predominante de uma parte do corpus do que à identidade exclusiva de suas práticas. Escritas grega, demótica, copta arcaico e híbridas convivem; deuses egípcios com epítetos gregos, nomes judaicos atravessam hinos solares, fórmulas homéricas cabem em operações egípcias, imagens faraônicas ganham novas legendas. Portanto, especialistas como Robert Ritner, Jacco Dieleman, David Frankfurter, Korshi Dosoo e os editores do recente projeto Greek and Egyptian Magical Formularies optam por classificar esses documentos como testemunhos greco-egípcios, que são multilíngues e transculturais, de modo a evitar que a etiqueta editorial se transforme em uma falsa genealogia étnica (Ritner, 1993; Dieleman, 2005; Frankfurter, 2019; Faraone; Torallas Tovar, 2022).

O primeiro dever filosófico em relação a esses documentos é evitar ceder a duas tentações opostas. A primeira é a crença retrospectiva, que interpreta toda prescrição como um relato de um resultado realmente alcançado e transforma a linguagem ritual em evidência de intervenções sobrenaturais. O segundo tipo é o ceticismo empobrecido, que explica tudo como sendo superstição, fraude ou psicopatologia, perdendo, assim, de vista o seu verdadeiro objeto histórico: uma civilização onde palavras, imagens, substâncias, astros, nomes e gestos podiam interagir dentro de uma mesma economia de eficácia. Não é necessário que a análise acadêmica valide a adivinhação para entender como uma lâmpada, um menino médium, uma sequência vocálica e um quarto escurecido produziam autoridade oracular; e não precisa decidir se um deus “veio” para reconhecer que o operador esperava, temia e organizava o rito em torno dessa vinda. Entre defender a metafísica do praticante e zombar dela, há um terreno mais preciso: reconstituir os regimes de verdade, as tecnologias do corpo, as hierarquias sociais, as condições materiais e os léxicos pelos quais a eficácia era reconhecida, atribuída, discutida e desafiada. Aí se inicia a fenomenologia histórica: não no julgamento contemporâneo acerca do impossível, mas na elucidação de como o possível era constituído.

No que diz respeito a isso, a palavra “magia” é, simultaneamente, indispensável e perigosa. Ela possibilita a junção de itens que possuem características semelhantes — segredos, habilidades rituais, finalidades práticas, nomes de poder, manipulação de correspondências, busca de efeitos extraordinários —, mas também carrega séculos de conflito entre a religião legítima e a prática ilegítima. Na Antiguidade, mageia, goēteia, pharmakeia e palavras relacionadas poderiam servir como acusações, definições pessoais, classificações legais ou descrições literárias, sem constituir um sistema estável. Um mesmo rito poderia ser descrito como um pedido de ajuda por um cliente, enquanto um concorrente poderia chamá-lo de feitiçaria; a prece de um templo poderia utilizar os mesmos elementos e métodos que um amuleto particular; um filósofo neoplatônico fazia uma distinção entre a teurgia, vista como uma obra divina, e a goécia coercitiva, ao passo que um polemista cristão poderia condenar ambas. A ideia egípcia de heka torna essa contrapartida ainda mais infundada: heka era poder criador, saber técnico, deus, uma força formadora do mundo e das práticas de templo, e não um controle alheio à religião. Traduzi-lo simplesmente como “magia” apaga sua inserção na ordem cósmica; deixá-lo sem tradução, contudo, não resolve a questão, uma vez que também pode fetichizar uma palavra e isolá-la de seus usos históricos (Ritner, 1993; Cardoso, 2016; Dosoo, 2021).

No Egito dos faraós, a eficácia de um ritual não era vista como uma imposição de violência humana sobre um universo passivo. O cosmos já tinha sido falado, separado, formado e sustentado por atos divinos; atos humanos podiam re-falar, re-constituir, re-apoderar-se dessa linguagem original. Nomes verdadeiros concentravam identidade e autoridade; imagens eram corpos em potencial; substâncias transportavam biografias míticas; analogias entre um evento divino e uma crise humana tornavam o mito funcional. Um feitiço para picadas poderia reconhecer o paciente como Hórus ferido e o veneno como a força que foi superada por Ísis; uma ameaça ritual poderia relembrar ao deus que a desordem de um caso específico estava comprometendo a ordem maior; um amuleto não “simbolizava” apenas proteção, mas estabelecia uma conexão material entre o corpo, a escrita e a presença divina. O que os PGM realizam, em várias situações, é levar e reconfigurar essa mecânica em um contexto onde a língua grega passou a ser o meio de administração, literatura, filosofia e comércio, sem extinguir o conhecimento sacerdotal egípcio.

A conquista de Alexandre em 332 a.C. e a constituição da monarquia ptolomaica não resultaram em uma mescla imediata de religiões, como se gregos e egípcios tivessem misturado todos os seus deuses em um só recipiente. O sincretismo ocorreu de maneira desigual, contextualizado e influenciado politicamente. Reis macedônios apresentaram-se sob a forma de deuses em trajes faraônicos, financiaram a construção de templos e instituíram cultos que podiam circular entre diferentes audiências; Sarapis, cuja teologia mesclava elementos dos cultos de Osíris, Apis e dos deuses helênicos, tornou-se o símbolo de uma monarquia que precisava governar sem ser meramente incorporada. Alexandria reuniu bibliotecas, templos, instituições de ensino, comunidades judaicas e redes comerciais, enquanto o vale do Nilo manteve centros sacerdotais que possuíam seus próprios arquivos, calendários, oficinas de escrita e disputas locais. O encontro não eliminou as fronteiras: gregos, macedônios, judeus e egípcios tinham diferentes status legais e sociais; a língua de um documento podia indicar acesso a instituições, mas não significava que houvesse uma identidade pessoal. O sincretismo dos papiros deve, portanto, ser visto menos como uma sinfonia e mais como uma labuta: tradução, equivalência, contestação, apropriação, sigilo e busca de legitimidade.

A etimologia de “sincretismo” nos traz a palavra synkrēsis, que significa mistura, mas a história efetiva se parece mais com uma série de encaixes imperfeitos. Thoth podia ser associado a Hermes, já que ambos eram os deuses da escrita, dos números e do conhecimento, mas Hermes-Thoth não era apenas a junção de duas divindades. Ísis, que se espalhou pelo Mediterrâneo, poderia ser chamada por nomes gregos e ainda assim manter sua conexão com os mitos egípcios relacionados à realeza, maternidade, cura e luto; Hélio poderia ser invocado com os nomes de Rá, Aion e Iao; Hécate poderia se associar a Selene, Ártemis, Perséfone, Eresquígal ou a divindades noturnas do Egito, dependendo do contexto. Cada equivalência gerava uma nova possibilidade e estabelecia uma questão: quanto mais amplo e universal se apresentava o deus, mais denominações eram necessárias para delimitar sua manifestação. O resultado não é um panteão harmonioso, mas sim uma teologia repleta de sobreposições, onde o nome apropriado varia conforme o momento, o local, a intenção, a manifestação divina e o nível cósmico envolvido.

Com a conquista romana, em 30 a.C., as condições de produção dessa bebida se alteraram mais uma vez. O Egito foi transformado em uma província imperial de status especial, governada por uma burocracia que classificava grupos, impunha impostos às aldeias e reorganizava as elites. Templos que funcionaram por séculos passaram por crises econômicas, perda de recursos e aumento da supervisão; sacerdotes, escribas e especialistas tiveram que encontrar novos meios de sustento. É nesse contexto, especialmente durante os séculos III e IV d.C., que se encontra a maior parte dos grandes formulários conhecidos atualmente como PGM. A ideia de que os manuais sejam apenas a “religião decadente” de templos em colapso é atraente, mas não é suficiente. Certos rituais mantêm um saber sacerdotal; outros parecem feitos para freguês de cidade, torneio, disputa judicial, paixão amorosa, microempresa, crise familiar. A mesma mão poderia reproduzir um hino solar com uma rica carga teológica e, ao mesmo tempo, uma receita para eliminar percevejos. O sagrado não se emanava de uma metafísica pura para propósitos cotidianos; ele já se encontrava entrelaçado ao corpo, à habitação, à enfermidade, ao erotismo, ao perigo e ao dinheiro.

A famosa Biblioteca Mágica Tebana é a representação mais forte desse cruzamento. Vários dos maiores manuscritos, agora espalhados por Paris, Leiden, Londres e Berlim, foram comprados no século XIX, provavelmente em Tebas, pelo diplomata e negociante de antiguidades Giovanni Anastasi. A semelhança paleográfica, temática e de suporte levou estudiosos a postular a existência de um antigo arquivo pertencente a um praticante ou a uma família de especialistas. O grupo englobaria imensos códices em grego e demótico, bem como papiros alquímicos como Leiden X e Estocolmo. A hipótese é robusta, mas não se compara a uma escavação devidamente registrada: os artefatos foram adquiridos no mercado de antiguidades, as informações sobre como foram encontrados são incompletas, e a própria ideia de “biblioteca” pode projetar unidade sobre materiais reunidos em momentos diferentes. Apesar de o projeto Coptic Magical Papyri continuar a considerar o arquivo tebano o mais famoso conjunto de papiros mágicos, uma cautela forense é necessária para distinguir a proveniência provável, a associação comercial moderna e o pertencimento antigo demonstrado.

Essa precaução não atenua o impacto material da coleção; pelo contrário, expõe uma nova fratura. Os papiros que atualmente nos possibilitam reconstituir a prática religiosa diária do Egito romano foram adquiridos pelos estudos modernos através de teias coloniais de coleta, compra, fragmentação e exportação. Um rolo era cortado, vendido em seções, renumerado e desvinculado de seu contexto arqueológico; a mesma obra passava a existir em diferentes museus nacionais. O Papiro Mágico Demótico de Londres e Leiden é um caso em questão: o rolo, que quando inteiro media cerca de cinco metros, foi fracionado entre Londres e Leiden depois de ser vendido em Tebas. Suas colunas documentam práticas de adivinhação por meio de recipientes, curas, feitiços de amor, fórmulas de proteção e anotações em caracteres gregos e demóticos que foram essenciais para a compreensão do copta antigo. A coleção é sincrética não apenas em sua gênese; sua configuração atual é fruto de deslocamentos, reconfigurações e assimetrias de poder.

As primeiras edições do século XIX expandiram o campo, mas também o distorceram. Em 1852, Charles Wycliffe Goodwin publicou um fragmento greco-egípcio do British Museum; Richard Lepsius, Gustav Parthey, Conrad Leemans e Karl Wessely editaram outros manuscritos; Albrecht Dieterich interpretou a parte de PGM IV 475-829 como uma “Liturgia de Mitra”, título que gerou discussões por mais de cem anos. Entre 1928 e 1931, Karl Preisendanz organizou a publicação Papyri Graecae Magicae, que reunia textos dispersos e introduziu a sigla que se tornou padrão na referência a esses textos. A segunda edição, que recebeu uma revisão de Albert Henrichs, fortaleceu o aparato crítico. Hans Dieter Betz organizou, em 1986 (com uma segunda edição em 1992), a tradução para o inglês, que incluiu textos gregos, demóticos e coptas, aumentando o número de obras além do corpus de Preisendanz. Em 1987, José Luis Calvo Martínez e María Dolores Sánchez Romero, em espanhol, lançaram uma tradução que continua sendo fundamental para o público ibero-americano. Os trabalhos de Patrícia Cardoso, Giovana da Rosa Carlos, Julia Roberta Melo Ribeiro, Hariadne da Penha Soares e outros estudiosos no Brasil têm ampliado tanto o acesso quanto o debate, embora ainda não haja uma tradução completa em português que seja equivalente (Betz, 1992; Martínez; Sánchez Romero, 1987; Cardoso, 2016; Carlos, 2019; Ribeiro, 2024).

A recente edição Greek and Egyptian Magical Formularies, editada por Christopher Faraone e Sofía Torallas Tovar, muda o foco dos “grandes grimórios” tardios para a história material e cronológica dos formulários. Ao coletar depoimentos que datam do século II a.C. até o IV d.C., o projeto revela que a estrutura do manual ritual evoluiu: receitas independentes foram reproduzidas, combinadas, resumidas, reorganizadas e integradas em volumes maiores; aquilo que aparenta ser uma unidade doutrinal pode ser, na verdade, um resultado de um processo editorial de sedimentação. Essa mudança é fundamental. Ao invés de simplesmente questionar “no que acreditavam os magos?”, é mais pertinente indagar quem foi o autor, em qual meio foi registrado, qual foi a formação recebida, para que finalidade foi elaborado, qual a ordem de apresentação e quais sinais de correção foram utilizados. A mão do escriba, o vazio gráfico, a tinta escarlate, o esquema apretado, a assinatura e a troca de idioma passam a ser indícios tão importantes quanto o nome do deus. A cosmologia não paira sobre o papiro: ela é gerada por uma tecnologia de escrita.

O manuscrito ritual é, acima de tudo, uma ferramenta. Muitos escritos têm lacunas para serem preenchidas com nomes que variam: “fulano, filho de fulana”, “sobre tal assunto”, “na hora determinada”. Essa gramática modular sugere que a receita deve ser ajustada a situações específicas. O formulário mantém a estrutura; o texto utilizado inclui a pessoa, o oponente, a enfermidade, o anseio ou a indagação. É por essa razão que é arriscado considerar toda prescrição como uma autobiografia de quem a escreveu. Um escriba poderia documentar técnicas que nunca tentou, reproduzir tradições respeitáveis ou reunir opções que se contradizem. Simultaneamente, marcas de utilização, emendas, siglas, páginas dobradas e itens relacionados indicam que uma parte desse conhecimento deixou o arquivo e passou a residir em corpos, lares, sepulturas, arenas e tribunais. A diferença entre manual e prática não é uma barreira: é um elo de transformação.

A própria escrita está envolvida na operação. Palavras podem ser contadas, refletidas, sobrepostas, escritas em formas de asas, círculos ou triângulos; palavras podem perder uma letra por linha até sumir; vogais podem criar sequências que mostram crescimento e diminuição; nomes podem rodear uma imagem como uma barreira sonora. Certos sinais, que os estudiosos denominam charaktêres, assemelham-se a estrelas, ganchos, cruzes, tridentes, formas pseudoalfabéticas ou a desenhos que não se enquadram claramente em nenhum sistema convencional. Não se trata de “rabiscos” no sentido de ruído gráfico. Agem como sinais de diferença, emblemas de identidade divina, concentrações de som, imagem e poder. Um diagrama ritual não representa uma ideia preconcebida: ele orienta o trajeto visual do observador e estabelece uma disposição espacial para o leitor que a frase contínua não consegue oferecer.

Ao observar de perto, um papiro mágico revela uma riqueza de intensidades. Instruções podem se alternar com longos discursos; palavras egípcias transliteradas para o grego coexistem com nomes hebraicos que foram helenizados; a cor da tinta pode variar; um desenho pode interromper a coluna; um palíndromo força a leitura a voltar sobre si mesma. A forma mais célebre, ablanathanalba, é um nome palíndromo que aparece em amuletos, pedras e grimórios. Seu poder não se resume a uma tradução simples de palavras. O palíndromo representa a ideia de reversibilidade e conclusão: a palavra retorna ao seu ponto inicial sem alterar sua essência. Em uma perspectiva cosmológica, indica uma totalidade que não possui um exterior; em um contexto funcional, estabelece uma fórmula que é resistente a qualquer tentativa de inversão maliciosa; e, do ponto de vista psicológico, mantém a atenção através da repetição e do estranhamento. A evidência da recorrência material não exclui a função exata em cada rito como inferência contextual, mas é preciso graduá-las.

Os onomatos barbara, ou as vozes mágicas, representam o exemplo mais extremo da palavra que escapa ao dicionário. Cardoso, ao analisar sistematicamente os contextos, mostrou que essas sequências não ocorrem como uma massa homogênea. Elas podem assumir funções de invocação, dar sentido a ordens, acompanhar fórmulas “eu sou”, atuar como instrumentos escritos ou fazer parte de descrições cosmogônicas. Alguns preservam nomes que são bem conhecidos — Iao, Sabaoth, Adonai, Abrasax, Michael —; outros podem conter egípcio transliterado, variações resultantes de cópias, jogos de sons, sequências de vogais ou nomes que são intencionalmente obscuros. Rotular tudo como “sem sentido” reflete o ponto de vista de alguém que não tem a chave. No que toca ao praticante, a intraduzibilidade podia ser a certeza de que o nome não se destinava à conversação vulgar. O som que vinha de fora era um som que afastava a linguagem humana e aproximava-se de uma fala original ou divina (Cardoso, 2016; Frankfurter, 2019).

A distância era gerada pelo corpo. No papiro, uma sequência de vogais não se manifesta como uma força independente; ela necessita de respiração, duração, timbre, volume, repetição e postura. Há receitas que exigem que se pronuncie cada vogal com uma qualidade determinada, que se alonguem os sons, que se assobie, que se estale a língua, que se emitam ruídos de animais ou que se sopre junto à fala. O alfabeto transforma-se num aparelho pneumático. A boca é o primeiro templo móvel: nela o nome grafado ganha ar, calor, batida. A prática une a linguagem e a fisiologia, uma vez que o operador não se limita a “dizer” o cosmos; ele o modela no fluxo respiratório. Isso elucida a razão pela qual doutrinas tardias, em particular a teurgia neoplatônica, conferiram importância a nomes ininteligíveis: seu poder não estaria condicionado ao entendimento do intelecto humano, mas sim a uma afinidade concedida pelos deuses, anterior à interpretação racional (Iâmblico, De mysteriis VII; Shaw, 1995).

O nome sagrado, contudo, não é uma chave mecânica universal. Nas tradições egípcias, saber o nome oculto de uma divindade pode permitir um contato, uma identificação ou uma pressão ritual, mas esse saber normalmente se encontra dentro de uma narrativa e de uma hierarquia. O mito de Ísis conseguindo o nome secreto de Rá ilustra de forma intensa a fragilidade que vem com a nomeação; nos PGM, as listas de epítetos acumulam funções e manifestações, como se o praticante cercasse o deus por todos os lados até minimizar a possibilidade de recusa. A invocação pode ser utilizada para louvar, rememorar feitos, estabelecer relações familiares, ameaçar com a desordem ou identificar o praticante com uma figura reconhecida e autorizada. A eficácia é tanto retórica quanto ontológica: ela convence porque expressa algo pertinente e incomoda porque busca atingir a verdadeira identidade.

A expressão “eu sou” reflete esse desejo. O operador afirma ser Moisés, Hermes, um deus do sol, um mensageiro faraônico ou uma força cósmica. Seria um exagero classificar isso como um delírio de identidade. No âmbito ritual, a primeira pessoa se torna uma máscara performática: ao narrar uma genealogia e adotar nomes, o praticante assume uma posição de fala que não lhe é atribuída na vida cotidiana. A mudança é passageira, técnica e arriscada. Ela concede a ordem porque transforma a boca humana no canal de uma voz superior; ao mesmo tempo, ela ameaça eliminar a distinção entre representação e presença. Aqui, o “horror sagrado” dos papiros não precisa de monstros inventados. Surge a partir da capacidade de o rito operar de acordo com sua própria lógica: para que suas palavras sejam ouvidas, o operador precisa parar de falar apenas como sua própria pessoa.

A preparação ritual estabelece essa transição por meio da separação. Banhos, abstinência de relações sexuais, jejum, uso de vestimentas limpas, isolamento, silêncio, escolha de um local purificado, etc., aparecem em diferentes frequências. Não existe um protocolo universal e nem todas as receitas demandam uma ascese longa; algumas são intencionalmente rápidas e pragmáticas. Entretanto, quando aplicadas, essas medidas afastam o corpo do tempo habitual. A água purifica e simboliza o renascimento; a abstinência mantém uma energia concentrada; o jejum aumenta a sensibilidade do corpo, mudando sono e foco; o vestuário de linho conecta o praticante a tradições sacerdotais do Egito; o ambiente fechado minimiza distrações. A purificação não deve ser confundida com a higiene moderna, embora possa abranger essa última. Trata-se de uma reclassificação: o corpo passa de corpo social a suporte apropriado para a presença.

O tempo também é uma forma de matéria. As fases da Lua, o nascer e o pôr do Sol, as horas planetárias, a posição das constelações, os dias fastos ou nefastos e os calendários egípcios definem quando se deve agir. Um rito que visa atrair algo pode buscar a Lua crescente, que é ligada ao aumento; por outro lado, um rito de separação ou diminuição pode aproveitar a Lua minguante; invocações solares podem ser feitas ao amanhecer, ao meio-dia ou ao pôr do sol, dependendo da manifestação divina que se deseja invocar. A escolha do momento não é uma superstição adicionada a um processo que é neutro. Ela descreve um universo qualitativo onde as horas não são apenas distintas em quantidade, mas também em natureza. Fazer no tempo certo é colocar a ação humana dentro de um fluxo que já está em andamento.

Os materiais constituem uma outra linguagem. Mirra, olíbano, estoraque, kyphi, louro, artemísia, verbena, açafrão, junípero, vinho, leite, mel, água do Nilo, óleo, cera, argila, chumbo, ouro, prata, linho e sangue estão presentes por suas qualidades sensoriais, econômicas, terapêuticas, míticas ou astrológicas. Uma substância rara demonstra investimento e prestígio; uma planta colhida sob invocação deixa de ser ingrediente anônimo e torna-se corpo de uma potência; o chumbo, frio, pesado e associado ao mundo inferior, serve bem à fixação e ao vínculo; o ouro, incorruptível e solar, convém a amuletos que aspiram permanência. A interpretação simbólica deve emergir do uso registrado ao longo do tempo, e não de tabelas modernas e esotéricas que foram criadas para olhar para o passado. A mesma mirra é capaz de purificar, aromatizar, encantar ou até mesmo funcionar como tinta, dependendo da preparação.

A colheita de vegetais, com frequência, é cercada de rituais. O praticante chega de manhã, antes do sol nascer, realiza um processo de purificação, dá a volta na planta, chama pela divindade que reside nela, toma cuidado para não deixar sua sombra tocar a planta, corta-a com a ferramenta indicada e faz uma oferenda à terra como compensação. O ato de arrancar uma raiz é, de fato, interromper uma vida e deslocar uma força, e esse gesto reconhece isso. Em certas receitas, ingredientes com nomes enigmáticos — “sangue de Héstia”, “semente de Hermes”, “osso de médico” — parecem esconder substâncias comuns ou métodos artesanais. Uma parte dessa linguagem preserva o sigilo profissional; outra parte eleva o assunto a um nível mítico; e uma parte ainda fica indecifrada. O pesquisador forense não deve ceder à tentação de transformar todo criptônimo em ingrediente seguro sem respaldo filológico.

O incenso, por outro lado, atua em transformações que podem ser observadas. Um sólido que se transforma em vapor, ele proporciona uma representação tangível da transição entre diferentes dimensões. O cheiro preenche o ambiente, mesmo sem uma forma definida, e invade a respiração, alertando todos os corpos ao redor da realização do rito. Diferentes tipos de fumos podem atrair, limpar, repelir ou até mesmo tornar algo invisível. Certas misturas mais antigas eram compostas por substâncias irritantes ou até mesmo tóxicas; outras faziam com que o operador permanecesse em um cômodo fechado, sem se alimentar e sem dormir. A experiência de visão, então, não deve ser encarada apenas como “alucinação química”, mas também não precisa ser elevada a um plano espiritual, ignorando a importância do corpo. A expectativa, a escuridão, a fumaça, a repetição, o medo, a autoridade do manual e as mudanças fisiológicas formam, juntas, o evento.

A luz ritual gera um teatro reduzido. Na licnomancia, uma lâmpada de óleo ilumina como um ponto singular em um ambiente sombrio; a chama pode ser refletida em uma tigela de água ou óleo, formando profundidades em movimento. O recipiente atua como uma superfície e um abismo: revela o mundo, enquanto também parece desvelar outro. Às vezes, um garoto é selecionado para ser médium, visto como mais puro ou mais aberto; o especialista faz perguntas, unge os olhos, recita nomes, observa os sinais e interpreta as respostas. A distribuição de funções tem um peso social considerável. O cliente depende do operador; o médium observa, mas outro é quem controla a forma de expressar a visão; o deus se comunica por meio de uma série de intermediários. A autoridade reside não apenas no que o oráculo comunica, mas também na performance que estabelece quem tem permissão para questionar, quem pode observar e quem é capaz de interpretar.

É necessário descrever com atenção os diagramas que acompanham essas práticas. Um ouroboros — cobra que devora a própria cauda — envolve nomes ou personagens, criando um contorno fechado e sem fissuras. Dentro dele, podem surgir um escaravelho solar, uma divindade com cabeça de animal, uma múmia ou símbolos organizados em faixas. Em outros casos, sete vogais são dispostas nas extremidades de uma figura, ligadas às esferas planetárias; trinta letras formam dois conjuntos curvos, “como asas”, de tal forma que a escrita cria uma criatura ou um veículo. Existem figuras sem cabeça, corpos humanos cujas cabeças foram trocadas por coroas, criaturas que pisam em esqueletos, luas em fase crescente, estrelas, chaves e selos. Chamar esses desenhos de “ilustrações” é diminuir seu papel. Eles são dispositivos de conexão: juntam o alto e o baixo, o centro e a periferia, a vida e a morte, o fechamento e a transição em um único espaço visual.

Essa tangibilidade estabelece um limite crucial para a interpretação moderna. Simplesmente reproduzir o texto contínuo de uma edição, sem levar em conta a formatação, espaços, pontuação e meio, pode romper a lógica do ritual. A crítica filológica integra a interpretação filosófica, na medida em que uma letra duvidosa transforma um nome, uma coluna fora do lugar altera a ordem e um traço ausente elimina a relação espacial que sustentava o rito. A tradução monumental de Betz tornou o corpus acessível, mas não é o aparato completo e não substitui as edições críticas e as fotografias; o trabalho de Preisendanz, Daniel, Faraone, Torallas Tovar, Zellmann-Rohrer, Love e os projetos digitais Trismegistos, papyri.info, Kyprianos hoje permitem cruzar manuscrito, edição, tradução e proveniência. A pesquisa massiva não é acumular citações, mas reconstruir a cadeia do antigo ao novo na página.

A cosmologia dos PGM não é uma obra sistemática, mas uma série de mapas funcionais. O cosmos se apresenta como uma hierarquia composta por deuses, daimones, anjos, astros, ventos, decanos, elementos, mortos e potências subterrâneas; além disso, é também visto como um organismo cujas partes têm correspondência com o corpo humano, as plantas, os metais, as horas e as letras. A unidade não é capaz de extinguir disputas. Existem poderes que são benéficos, outros que são neutros ou ambivalentes, e alguns que são hostis; deidades que brilham podem ter aspectos sombrios; um mesmo nome pode oferecer proteção em uma fórmula e causar constrangimento em outra. O praticante não observa uma ordem tranquilamente completa. Ele transita entre alianças, precedências e riscos, buscando descobrir qual manifestação rege o problema atual.

A ideia grega de dynamis lança luz sobre essa paisagem. Dynamis pode ser entendida como capacidade, força, potência ou eficácia; nos textos rituais, refere-se tanto ao poder de um deus quanto à força conferida a uma palavra, objeto ou ao seu agente. Não se trata de um equivalente perfeito de heka. Heka faz parte de uma extensa ontologia egípcia relacionada à criação e aos rituais; por sua vez, dynamis permeia os discursos filosóficos, médicos, religiosos e políticos da Grécia antiga. Quando essas duas tradições se encontram, elas não se mesclam completamente. Uma substância pode ter dynamis por natureza, por associação astral, por consagração ou por carregar a história de um deus; uma fórmula pode ativar heka ao evocar um precedente mítico e, ao mesmo tempo, ser descrita em grego como técnica capaz de produzir efeito. O sincretismo se manifesta tanto na linguagem quanto na ação, e não apenas na lista de deuses.

Hermes-Thoth é o modelo ideal desse encontro. Thoth, o escriba dos deuses, o senhor da Lua, dos cálculos, das medidas, da cura através das palavras e do julgamento, apresentava ao especialista egípcio o modelo supremo da inteligência ritual. Hermes, o mensageiro, o condutor de almas, o deus das transições, da comunicação, do comércio e da sagacidade, podia assumir essas funções sem abrir mão de sua natureza ágil e tipicamente grega. O “trismegisto” — três vezes grande — passa a ser o mestre da revelação, da astrologia e do conhecimento oculto. Nos Programas de Grande Mestre, Hermes pode oferecer um anel, um sonho, uma memória, uma vitória ou a oportunidade de vislumbrar algo; em textos herméticos, ele ensina sobre a estrutura do cosmos e a renovação da alma. A proximidade não permite afirmar que cada uma das receitas dos PGM se origina do Corpus Hermeticum, nem vice-versa. Ambos fazem parte de ecologias do saber que se reconhecem por meio de nomes, imagens e especialistas em comum, mas que têm gêneros, propósitos e audiências diferentes.

Hélio também é uma figura central, pois o Sol simboliza tanto a visibilidade quanto a transcendência. Ele atravessa o céu, observa tudo, calcula o tempo, desce no Ocidente e renasce; pode ser chamado de Rá, Hórus, Mitra, Apolo, Aion ou Iao, dependendo da operação em questão. As invocações solares mencionam raios, escaravelhos, falcões, coroas e serpentes; o praticante saúda as diversas manifestações nas horas do dia, como se o deus fosse uma série de transformações. O Sol é observador de juramentos, manancial de revelação, purificador e meio de ascensão. Contudo, sua luz não é apenas benevolente. Proximidade demanda proteção; olhar pode ofuscar; a chama que clareia também devora. A teologia solar contida nos papiros representa uma filosofia que busca o equilíbrio entre o anseio pela presença e o perigo do exagero.

Aion abrange uma temporalidade mais ampla. O termo grego possui significados como vida, era, eternidade ou a duração do mundo; nos PGM, Aion é mencionado como o mestre dos ciclos, uma representação solar, uma força oculta ou um nome utilizado em amuletos. Sua representação tardo-antiga — por vezes um corpo humano coberto por serpentes, ligado ao zodíaco e às estações do ano — transmite uma noção de tempo que vai além da simples sequência. Ao invocar Aion em um rito, a intenção é acessar a fonte que abriga todos os momentos, permitindo assim a reordenação de destino, memória ou visibilidade. Filosoficamente, Aion é a fissura entre o calendário que governa o cidadão e a duração cósmica que o rito pretende atravessar.

Hécate ocupa as encruzilhadas dessa cosmologia. Deusa grega de limiares, noite, tochas, cães, mortos e proteção doméstica, ela se expande nos PGM em composições com Selene, Ártemis, Perséfone, Brimo e outras potências. Seus epítetos podem ser luminosos, terríveis, ctônicos ou celestes; seus ritos aparecem em atração erótica, coerção, proteção e revelação. A encruzilhada não é apenas cenário folclórico. É modelo do mundo ritual: lugar em que caminhos se abrem, identidades se tornam instáveis e oferendas podem ser deixadas fora da casa. O cachorro preto, o barulho da noite e a Lua formam uma presença que não se encaixa na simples dicotomia entre o bem e o mal. Hécate protege exatamente porque sabe o que coloca em risco.

Ísis apresenta uma outra gramática de poder. Seu mito a define como esposa, mãe, viúva, curadora e rainha dos nomes; no Mediterrâneo helenístico e romano, ela é deusa da navegação, do destino, da iniciação e da salvação. Nos papiros, encantamentos a invocam por meio de extensas sequências de epítetos, associando-a a diversas deusas. A diversidade não anula a personagem: ao contrário, fortalece sua habilidade de transitar entre diferentes papéis. Ísis é uma deusa poderosa pois combina sabedoria ritual, dor e renovação. Ela busca as partes de Osíris, defende Hórus e triunfa com a palavra. Para um operador que busca restaurar saúde, amor, memória ou autoridade, sua narrativa oferece mais do que uma simples analogia; ela apresenta um método de ação.

Osíris, por outro lado, controla a transmutação da morte em estado eficaz. Nos textos funerários egípcios, aquele que é justificado após a morte transforma-se em Osíris; já nos PGM, o nome pode ser encontrado em fórmulas de identificação, substâncias, invocações e ameaças. O corpo fracionado, mumificado e revivido serve como uma base para rituais que lidam com mortos, espíritos e renascimento. Isso não implica que toda a necromancia greco-egípcia seja um culto dedicado a Osíris, mas esclarece por que o túmulo, a semente, a água e o nome podem estar interligados em uma mesma rede simbólica. O falecido não é apenas um resíduo. Pode ser ancestral, maldito, herói, vítima precoce, portador de mensagem ou ameaça; sua condição liminar torna-o acessível e assustador.

Seth-Typhon encarna uma outra faceta da ambivalência. Seth é oposto a Osíris e atua como um defensor solar contra Apófis; ele é o senhor do deserto, das tempestades, da violência e do que é estrangeiro, mas não se encaixa em uma definição demoníaca. A identificação grega de Typhon com uma força caótica e monstruosa, particularmente em tempos mais recentes, é ainda mais evidente, mas os PGM mergulham precisamente nessa força indomável. Nomens sethianos são utilizados em feitiços de maldição, dominação, defesa e manobras de poder. O rito não “adora o mal”; ele mobiliza uma força cuja capacidade de causar rupturas é útil para determinados objetivos. O risco reside na mesma característica que a torna valiosa: uma força descontrolada pode se voltar contra quem a utiliza ou demandar ameaças ainda mais intensas.

Bes, Anúbis e Sarapis ilustram como as figuras egípcias podiam ter papéis diferentes. Bes, um anão de aparência leonina e com propriedades apotropaicas, é o protetor do parto, do sono, da música e da sexualidade; nos papiros, ele atua como um agente para oráculos oníricos e visões. Anúbis, o deus da mumificação e condutor das almas, estava ligado à necromancia, à proteção dos mortos e à passagem para o além; sua conexão com Hermes resultou no Hermanúbis, um psicopompo. Sarapis, associado a Osíris e Ápis, incorpora traços de Zeus, Hades e Asclépio, tendo domínio sobre cura, realeza, o submundo e os sonhos. Essas ilustrações mostram que o panteão ritual não se trata de uma lista de substituições, mas sim de uma teia de habilidades.

Quando se trata da presença de Iao, Sabaoth, Adonai, Eloai, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Salomão e de nomes de anjos, é preciso ter um cuidado ainda maior. Ela observa a interação com as tradições judaicas, o prestígio da antiga era mosaica, a disseminação de nomes bíblicos e a habilidade dos especialistas em adotar linguagens que são vistas como poderosas. Não demonstra que todos os que praticavam isso eram judeus, tampouco que o judaísmo antigo aceitasse tais apropriações. Certos nomes sofreram alterações fonéticas e foram integrados em teologias solares ou egípcias; Moisés pode ser apresentado como o profeta do deus sem cabeça; e Salomão pode ser retratado como uma figura de autoridade em exorcismos. O poder resulta, em parte, da reputação de segredo e da unicidade de culto, mas o efeito é uma recontextualização que comunidades judaicas poderiam achar ilegítima. O sincretismo também apresenta uma assimetria: nomear o outro não significa compreender plenamente toda a sua tradição.

Abrasax, muitas vezes gravado em pedras, é uma representação de uma força cujo ser provém do movimento. O valor calculado das letras gregas que compõem o seu nome totaliza 365, o que o associa ao ano solar. As representações vinculadas a ele exibem um corpo humano, uma cabeça de galo, pernas que se assemelham a serpentes, além de um escudo e um chicote. No entanto, não é verdade que todas as gemas que apresentam essa figura pertençam ao mesmo sistema. Textos gnósticos, talismãs e feitiços empregam o nome de diversas maneiras. A interpretação moderna, que fez de “Abraxas” um símbolo literário da união dos opostos, não deve ser automaticamente aplicada aos antigos objetos. Mesmo assim, a imagem é filosoficamente expressiva: ela é animal, humana, militar e com forma de serpente, reunindo o cosmos por meio da justaposição de elementos que não se encaixam em uma anatomia natural.

Os astros não estão em um cenário remoto. Os planetas e os decanos têm nomes, símbolos, substâncias e horários; afetam enfermidades, emoções, escolhas e destinos. A astrologia dos papiros pode dar indicações sobre os melhores momentos para colher, escrever, consagrar ou fazer perguntas. Os sete planetas que podem ser vistos associam-se a vogais, metais, dias da semana e esferas; os trinta e seis decanos, que vieram da astronomia egípcia e foram adaptados no mundo helenístico, regem divisões do zodíaco e partes do corpo humano. Um amuleto astrológico, portanto, é uma pequena representação da gestão cósmica. O operador não busca eliminar completamente o destino, mas sim dialogar com suas forças, optar por momentos de menor oposição ou chamar por autoridades superiores às estrelas.

A concepção de heimarmenē, ou destino interconectado, gera uma tensão central. Vários escritos tardo-antigos retratam o mundo sublunar como dominado por forças planetárias; tradições herméticas, gnósticas e neoplatônicas sugerem diferentes maneiras de entender ou superar essa subordinação. Nos PGM, rituais de elevação, nomes supracósmicos e associações solares podem ser vistos como tentativas de atingir um nível de poder suficiente para reorganizar o que está abaixo. No entanto, o mesmo corpus disponibiliza receitas simples para conquistar uma corrida, atrair clientes ou reduzir a febre. A metafísica da libertação e a urgência do dia a dia não são opostos autônomos. O homem deseja fugir das estrelas, pois elas sobrecarregam seu amor, seu corpo, seu senso de julgamento e até mesmo o seu sustento.

Os quatro elementos da Grécia — fogo, ar, água e terra — estão entrelaçados com as cosmologias egípcias relacionadas ao céu, às águas primordiais, ao deserto, ao Nilo e ao sol. Em algumas invocações, o deus é descrito como aquele que distinguiu o céu da terra, estabeleceu as fundações, fez as águas fluírem e acendeu o fogo; em outras, as vogais em si mesmas atravessam os elementos. A execução do ritual é uma pequena recriação da cosmogonia: marca um território, acende um fogo, prepara água, faz uma oferta de fumaça e enterra uma lâmina. O círculo, a tigela, a luz e o altar constituem um universo. A eficácia almejada requer uma comparação estrutural: aquele que restaura em pequena escala a ordem original fala do ponto de onde vem.

Abaixo dessa ordem existe o mundo ctônico, que não se resume a um inferno de caráter moral. Túmulos, encruzilhadas, poços, águas profundas e locais de execução permitem a conexão com mortos e deuses que habitam o subsolo. Objetos são sepultados para fixar, esconder ou transmitir uma mensagem; lâminas de chumbo são dobradas e perfuradas; figuras são atadas; restos humanos podem ser buscados por sua relação com uma morte violenta. Esses rituais expõem o lado mais obscuro da religião instrumental. A vítima de um ritual pode ser reduzida a um nome, um corpo de cera ou uma lista de órgãos; o desejo do cliente permeia o sono, a fala, a sexualidade e a reputação. O “horror” não reside apenas na estética funerária, mas na conversão de outra pessoa em um objeto gerenciável.

Proteger-se contra essas ameaças é, simultaneamente, um dos combustíveis do corpus. Amuletos selam o corpo, afastam febres, neutralizam escorpiões, salvaguardam a gravidez, repelem daimones e silenciavam inimigos. A mesma cosmologia que possibilita a ofensiva também oferece recursos para a defesa. Isso torna impossível rotular o praticante de forma simples como um predador. Um especialista poderia ser consultado por alguém que estivesse em uma situação de vulnerabilidade, enfermidade, abandono, envolvimento em processos legais ou mesmo aterrorizado por pesadelos. As práticas são uma resposta a um mundo sem hospitais modernos, sem uma polícia confiável e sem uma segurança econômica abrangente. A compaixão histórica não pede que celebremos tudo; ela nos exige reconhecer que a coerção e o cuidado coexistem na mesma oficina.

O procedimento para se obter um paredros, “assistente” ou “companheiro que se senta ao lado”, em PGM I 42-195, torna explícita a ambiguidade da maestria ritual. O ritual promete criar uma entidade que irá servir ao operador, proporcionará revelações, realizará tarefas e oferecerá proteção. A preparação requer abstenção, purificação, seleção de materiais, confecção ou consagração de um objeto e uma invocação prolongada. O texto aparece como saber que Pnouthis transmitiu a um destinatário, conferindo à receita o peso de uma missiva sacerdotal. Ao invés de conceber um “demônio familiar” de acordo com as categorias cristãs que surgiram posteriormente, é mais apropriado pensar em um daimon auxiliar dentro do contexto da ecologia greco-egípcia: um intermediário entre o humano e o divino, dotado de capacidades de informação e ação, mas que não é necessariamente definido em termos morais.

A ordem dos rituais cria uma interdependência mútua. O operador tenta submeter o assistente ao seu conhecimento de nomes e sinais; ao mesmo tempo, deve purificar-se, oferecer, repetir e obedecer ao calendário estabelecido. O senhor também é responsável pelo andamento do procedimento. A promessa de poder absoluto — ser invisível, teletransportar-se, descobrir segredos, ter acesso a riquezas — vem acompanhada de um preço existencial: a vida deve ser estruturada em função de uma presença que não faz parte do mundo social comum. A leitura psicológica pode identificar nesse contexto a manifestação de habilidades, a criação de uma persona oracular ou o aumento da imaginação por meio de uma prática disciplinada. A leitura histórica, contudo, deve manter o léxico arcaico: o texto aguarda uma entidade real e narra indícios de sua vinda. A opção não é escolher uma única explicação, mas diferenciar os níveis de afirmação.

Aparecimentos rituais desse tipo necessitam de um script sensorial. Perfume, luz, silêncio, repetição, expectativa... tudo leva a um instante em que o invisível precisa tomar forma. O guia explica como identificar a presença e evitar confusões. Em muitos PGM, o usuário tem medo de que um daimon falso se faça passar por um deus; por isso, ele exige o nome verdadeiro, um sinal, um juramento ou uma evidência. A dúvida interna possui grande importância epistemológica. No mundo da magia, não se pode aceitar qualquer visão como válida. Existem critérios de autenticação, mas estes são elaborados dentro do próprio sistema ritual. O atual especialista em ciências forenses deve se questionar não apenas se um fenômeno realmente ocorreu, mas também de que maneira a sociedade identificava e diferenciava entre revelação, fraude, erro e possessão.

O famoso exemplo de uma operação de ascensão e imortalização é o rito chamado desde Dieterich de “Liturgia de Mitra”, PGM IV 475-829. O moderno título é controverso. O texto faz referência a Mitra e a representações solares, mas não se resume apenas à liturgia pública de um mistério mitraico romano; ele faz parte de um extenso formulário greco-egípcio, mescla elementos solares, astrológicos e egípcios e pode ter sido modificado por várias mãos ao longo do tempo. É prático chamar de “Liturgia de Mitra”, desde que o rótulo não substitua a análise. Marvin Meyer optou por se referir a isso como um ritual de ascensão e imortalização; pesquisas posteriores analisam sua conexão com mistérios, teurgia, magia e experiências visionárias (Dieterich, 1923; Meyer, 1976; Betz, 2003).

O rito começa com uma preparação que transforma respiração e identidade. O operador deve gerar um “espírito” ou pneuma a partir de ingredientes e fórmulas, manter a pureza, alinhar-se com o Sol e recitar uma prece que pede um nascimento imortal. A estrutura é ascendente: primeiro ocorre uma mudança no mundo visível; em seguida, surgem forças atmosféricas, ventos, discos solares, deuses associados às estrelas e, por fim, uma figura suprema emerge. A descrição abrange barulhos de combate, portas se abrindo, sons de trovão, cobras, estrelas e uma presença cuja aparência é jovem, brilhante e majestosa. O praticante não ascende por uma geografia física; ele transita entre estados e fronteiras definidas por imagens do cosmos.

Os movimentos respiratórios são fundamentais. O texto orienta a inalar profundamente, produzir sons, beijar amuletos ou objetos, manter o olhar fixo e gerar assobios e estalos. A respiração conecta o corpo e o cosmos, uma vez que o pneuma é, ao mesmo tempo, ar vital, veículo psíquico e meio de presença divina em diversas tradições filosóficas antigas. A cada fase, o corpo emula a transição que almeja: inala a força superior, exala nomes, se contrai diante do medo e se expande ao acolher a luz. O rito é uma filosofia que se vive. Não traz sugestões a respeito da alma; faz com que o operador experimente sua desvinculação do regime comum.

O caminho para o topo não é fácil. O texto menciona guardiões, hostilidade e choques sensoriais. O céu se revela como uma administração celeste, cercada de potestades que devem ser devidamente saudadas. A ilustração evoca tanto as cosmologias astrológicas quanto as narrativas apocalípticas e os itinerários funerários do Egito, onde o falecido passa por portões e aprende nomes. A semelhança não é suficiente para evidenciar um empréstimo linear de uma única fonte. Ela demonstra que a salvação tardo-antiga podia ser vista como a travessia de uma burocracia cósmica. Conhecer não é contemplar uma verdade abstrata; é possuir credenciais, fórmulas e corpo adequado.

No ápice, o operador contempla ou se aproxima de uma potência solar supracósmica e solicita regeneração. A expressão “imortalização” não deve ser entendida como promessa simples de não morrer biologicamente. Pode designar experiência temporária de participação na condição divina, garantia de proteção, antecipação do destino pós-morte ou transformação iniciática. A unio mystica é uma categoria comparativa possível, mas não aparece como conceito técnico uniforme no texto. Há identificação e proximidade, não necessariamente dissolução completa da individualidade. O praticante quer tornar-se “igual” ou “nascido” do deus o suficiente para ser reconhecido, sem desaparecer como agente da oração.

A dimensão alquímica dessa operação não reside em metais de laboratório, mas em uma lógica de transformação. O corpo impuro é separado, purificado e submetido a calor, respiração e nomes; a identidade ordinária é decomposta; uma nova filiação solar é coagula. Evento, operação, evidência, alternativa e síntese podem ser distinguidos: o evento textual é a subida visionária; a operação é a disciplina sensorial e verbal; a evidência histórica é o formulário com paralelos astrológicos e egípcios; a alternativa é lê-lo como construção literária ou rito iniciático sem execução; a síntese reconhece que o texto foi composto para tornar praticável uma experiência de transcendência, independentemente de quantas vezes foi efetivamente realizado.

O preço dessa elevação se revela no contraste entre a promessa de se tornar divino e a delicadeza da base que a sustenta. Um papiro frágil, escrito por mãos humanas, traz o segredo para se vencer o destino. A cracração é filosófica: o eterno depende de tinta que desbota; o nome indizível depende de ortografia; a imortalidade precisa de um corpo em jejum. Essa ironia não chega a anular o rito. Essa é a essência da condição religiosa: o absoluto só se manifesta na história através de elementos que podem falhar.

A chamada “Estela de Jeu, o hieroglifista”, PGM V 96-172, passou a ser outro texto de grande circulação. A sua chamada do “Acéfalo”, criador de céu e terra, equipara o mago a Moisés e usa nomes greco-egípcios e hebraicos. Esta figura sem cabeça pode representar uma transcendência que vai além da forma, uma divindade cuja inteligência não está concentrada em nenhum órgão humano, ou pode ter origem em iconografias egípcias particulares. Além disso, a palavra “acéfalo” também evoca ameaça e monstruosidade. No ritual, contudo, a falta da cabeça não implica falta de autoridade; representa um ser que precede a distinção comum entre pensar, ver e governar.

A série inclui um louvor à criação, uma genealogia que confere autoridade, nomes estranhos e instruções destinadas a libertar o praticante de um espírito adverso. O operador declara ser mensageiro de uma autoridade faraônica e profeta mosaico, costurando Egito e Israel numa identidade ritual composta. Não é história da religião no sentido moderno; é uma política do nome. Ao afirmar que é quem recebeu a transmissão dos mistérios, o praticante diminui a lacuna entre o manuscrito e a revelação. O texto não solicita que o deus tenha fé em alguém anônimo; apresenta-lhe uma figura familiar.

A recepção contemporânea do rito acéfalo ilustra como os PGM ainda são capazes de criar novas tradições. Em fins do século XIX e começo do XX, círculos ocultistas britânicos fizeram uma tradução e adaptação da fórmula; Aleister Crowley incluiu uma versão no “Liber Samekh”, associando-a à obtenção do “Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião”. Essa continuidade existe de fato, mas é como uma história de recepção, e não como uma linhagem ininterrupta que se estende desde o Egito romano. Entre o manuscrito e o ocultismo contemporâneo, houve uma edição filológica, tradução, reinterpretação cabalística, cristianização e psicologização. Discutir a “sobrevivência” sem mencionar essas mediações transforma a redescoberta em uma tradição ancestral imaginária.

A carta de Nephotes para Psammetichos, PGM IV 154-285, apresenta uma série de rituais de lecanomancia ou adivinhação por meio de um recipiente. Seu formato de carta representa a transmissão de informações entre especialistas egípcios e apresenta o conhecimento como uma melhoria em relação a métodos inferiores. O rito envolve a preparação de uma tigela, água ou óleo, uma superfície reflexiva, uma lâmpada e incensos; ele invoca uma força para gerar visão e reação. Em algumas adaptações, um garoto médium vê o recipiente; em outras, o próprio operador vai em busca da epifania. A imagem é bastante simples: um líquido escuro em um círculo, com uma luz oscilante nas bordas, o rosto do vidente refletido e distorcido, e fumaça subindo. No entanto, essa simplicidade é sustentada por nomes, tempo e pureza.

O recipiente atua como um microcosmo de água. Na cosmologia do Egito, as águas primordiais existem antes da criação; a superfície plana pode se tornar um espaço onde a forma se destaca do que é indefinido. No olhar concreto, o tempo de permanência sobre reflexos instáveis gera imagens ambíguas, o especialista oferece categorias para interpretá-las. A eficácia da adivinhação surge quando cosmologia e percepção se encontram. Embora reduzir a questão à pareidolia possa elucidar um mecanismo cognitivo, isso não esclarece por que aquela sociedade optou por água, luz, nomes e um médium, nem como conseguiu converter imagens pessoais em decisões coletivas.

O Papiro Demótico de Londres e Leiden, PDM xiv, contém várias modalidades de adivinhação através de vasos. As orientações podem incluir água de fonte, óleo, tinta, plantas, representações divinas e nomes pronunciados em demótico, acompanhados de glosas em grego ou copta antigo. O expert prepara o ambiente, consagra o recipiente, instrui o médium a observar e faz perguntas sobre doenças, roubos, viagens ou o futuro. O caráter bilíngue indica que a transmissão não se tratava de uma simples decoração: tanto a pronúncia quanto a escrita precisavam transpor barreiras linguísticas. A glosa faz com que a língua egípcia seja pronunciável para aqueles que liam caracteres gregos, enquanto mantém a aura de um idioma sagrado.

A presença de crianças como médiuns requer uma leitura ética. Textos antigos frequentemente associam pureza e passividade a meninos pré-adolescentes, mas isso implica que adultos ditavam o ambiente, as questões e a interpretação. Não há fundamento para idealizar essa vivência. Jejum, escuridão, fumaça e expectativa podiam assustar; a autoridade do operador podia orientar o que deveria ser visto. A análise pastoral, entendida como prudência e cuidado, precisa manter a dignidade dos sujeitos antigos sem repetir a assimetria que os transformava em instrumentos. O historiador pode reconhecer a lógica ritual e ainda nomear seus custos humanos.

Nos ritos de visão direta, o objetivo não é obter um símbolo obscuro, mas fazer a divindade aparecer. PGM IV 930-1114 e numerosos procedimentos de PGM VII combinam lâmpada, incenso, fórmula, proteção e comando. A receita frequentemente prevê uma primeira oração, sinais de aproximação, uma fórmula de acolhida, a pergunta e uma despedida. Esta última fase é crucial: abrir sem fechar significaria deixar o espaço e o corpo vulneráveis. A despedida, assim como a purificação inicial, restabelece limites. O rito integral é um espectro de hospitalidade delimitada: preparar a casa, chamar, reconhecer, dialogar, oferecer e despedir de volta.

Quando a manifestação leva tempo, alguns guias incluem “coações” ou ameaças. O operador pode acusar a divindade de falta de atenção, ameaçar expor nomes, perturbar a ordem do cosmos ou invocar uma autoridade superior. Ainda que a retórica pareça um tanto arrogante, ela tem precedentes egípcios em encantamentos que dramatizam desastres a fim de provocar uma intervenção. Isso não quer dizer que o praticante se considerasse mais forte que o deus em essência; quer dizer que acreditava estar, por meio da fórmula, em uma posição legal ou mítica que o lembraria de suas obrigações. O rito cósmico é igualmente um tribunal.

Estas ameaças expõem o funcionamento oculto do poder. O especialista não precisa apenas de fé; precisa de informação assimétrica. Ele diz saber o nome que a deidade não pode ignorar, o mito que a obriga, o selo que a marca. A perícia representa um capital simbólico. É por isso que os manuais enfatizam a importância do segredo, da transmissão seletiva e da pureza do destinatário. Se o conhecimento fosse livremente acessível, perderia uma parte de sua legitimidade social, embora sua eficácia ontológica permanecesse inalterada. O segredo salvaguarda tanto o rito quanto a profissão.

Os rituais eróticos podem ser considerados, talvez, a parte mais incômoda do conjunto, uma vez que evidenciam a violência latente em certa linguagem associada ao desejo. As receitas fazem uma distinção entre philia, que se refere à afeição ou favor, e agōgē, que é a atração que “conduz” a pessoa até o solicitante, assim como em relação a procedimentos de separação, insônia ou submissão. Frequentemente, uma imagem de cera ou argila é feita e depois furada, amarrada, colocada ao lado de uma lâmina inscrita e enterrada em um túmulo; a invocação exige que a vítima não coma, não durma e não sinta prazer algum até que busque o cliente. A linguagem do amor é transformada em cerco físico. O ritual tem a intenção de preencher a memória, o ventre, o coração, o fígado e os órgãos sexuais, convertendo o corpo do outro em um território de dominação.

O PGM IV 296-466, frequentemente chamado de “feitiço maravilhoso para vincular uma amante”, combina uma figura feminina, agulhas inseridas em pontos determinados, uma lâmina de chumbo e invocação a potências ctônicas. Em termos visuais, a boneca ritual não é uma representação do alvo em forma de arte, mas um corpo jurídico substituto. Cada furo encontra uma ordem; cada membro atado imobiliza; cada depósito funerário cede o comando aos mortos. O paralelo com os rituais de ligação documentados, tais como o conjunto do Louvre que se relaciona com uma tabuleta de maldição, indica que procedimentos dessa categoria foram utilizados, mesmo que não consigamos associar cada artefato a uma receita particular.

A dimensão cósmica desses rituais utiliza a atração universal como base para legitimar a coerção específica. Lua, estrelas, fogo e mortos invocam para refletir no alvo o movimento que já rege marés, ciclos e paixões. A camada psicológica evoca a ansiedade e o ressentimento do requerente; a camada social expõe relações nas quais casamento, sexualidade, escravidão e honra eram permeados por desigualdade; a camada mágica estabelece uma série de trocas entre nome, imagem, órgão e entidade responsável pela execução. A camada existencial é a mais resistente: o desejo, intolerante à liberdade do outro, clama ao universo por sua aniquilação.

Nem todo erotismo é tão ofensivo. Existem amuletos de favorecimento, feitiços para intensificar a atração, elixires, fragrâncias, preces a Afrodite e solicitações de reconciliação. Mulheres também figuram como solicitantes, e há também fórmulas homoeróticas, como os manuscritos de Hawara que estão ligados a encantamentos entre pessoas do mesmo sexo. Contudo, a moderna classificação de “magia do amor” pode suavizar o que muitos textos dizem claramente. Uma interpretação pastoral não pode julgar antigos indivíduos com uma facilidade arrogante, mas deve manter a figura da vítima idealizada pelo ritual. A caridade ao longo da história abrange aqueles que não conseguiram registrar sua própria voz no papiro.

A “Espada de Dárdano”, PGM IV 1716-1870, liga a pedra preciosa, a imagem, a fórmula e o erotismo. Uma pedra é entalhada com a imagem de Afrodite ou de uma figura similar, os nomes são inscritos, e o objeto é consagrado para várias finalidades, entre elas a atração. A espada mencionada no título vai além de uma simples arma; representa a capacidade de decidir e de agir com determinação. Joias encantadas desse tipo combinam mobilidade e durabilidade. Ao contrário do rito longo, elas podem seguir o corpo, serem tocadas, ficarem montadas em anel e serem mostradas de forma seletiva. A imagem registrada cristaliza uma revelação em substância perene; o nome faz com que a figura corresponda a uma identidade; o contato transforma o usuário em um ponto focal dentro de uma teia de conexões.

As maldições e defixiones expandem essa esfera para incluir tribunais, competições, transações comerciais e rivalidades. Lâminas de chumbo eram gravadas com nomes, intenções, ilustrações e feitiços, em seguida dobradas, furadas e colocadas em sepulturas, fontes ou locais sagrados. O verbo latino defigere e o grego katadein evocam as noções de fixar, atar, prender. Em competições, o alvo pode ser mãos, pés, voz, memória ou animais “atados”; em litígios, pede-se que o adversário esqueça argumentos ou permaneça silencioso; em roubos, algumas “orações por justiça” entregam o culpado a uma divindade e prometem recompensa. Nem toda lâmina, diz Versnel, deve receber a classificação de maldição privada: há lâminas que empregam uma linguagem de petição judicial, fazendo do deus um juiz e recuperador (Gager, 1992; Versnel, 1991).

O ato de perfurar uma lâmina ou boneco simboliza a transição da palavra para a ferida. Dobrar esconde e aprisiona; enterrar transfere; escrever fixa. A eficácia desejada depende mais de uma sequência meticulosa de ações e interações do que de “energia negativa” — uma expressão contemporânea imprecisa. O chumbo confere peso e frieza; o túmulo disponibiliza um morto intermediário; o nome serve para identificar; o prego mantém tudo no lugar; a fórmula determina o dano. Esse encadeamento representa a mecânica ritual em seu sentido mais profundo. Cada parte tem uma função que pode ser verificada dentro do sistema, mesmo que o efeito sobrenatural não tenha sido comprovado.

Práticas de silenciamento evidenciam a conexão entre magia e fragilidade política. Quem teme ser acusado pode não confiar nas instituições que são capazes de oferecer uma defesa. Silenciar o adversário por amuleto ou lâmina é buscar fora do tribunal um controle que o tribunal não oferece. Isso não torna o procedimento justo, mas situa sua racionalidade. O mesmo vale para feitiços de vitória nas corridas: arenas mobilizavam dinheiro, facções e prestígio; uma derrota podia ser atribuída a sabotagem ritual, e a suspeita alimentava contramedidas. A magia funciona como linguagem para riscos cuja causalidade é opaca.

A necromancia lida com o poder dos mortos, especialmente os que faleceram de maneira prematura, violenta ou sem rituais completos. Na concepção greco-romana, esses espíritos poderiam ficar perto dos vivos e ser mais facilmente forçados. PGM IV 1928-2005 e outras receitas trazem fórmulas de “atração” de um morto; PGM IV 2140-2144 apresenta selo de contenção; práticas de questionar cadáveres ou obter sonhos têm similaridade com tradições literárias de consulta aos mortos. A fonte formular não encena quadros teatrais de mortos-vivos, mas indica que o corpo, o sepulcro e o nome do falecido serviam como infraestrutura oracular.

O preço humano dessa prática é quase sempre invisibilizado pelo olhar do manual. Os vestígios de uma pessoa transformam-se em ingrediente; uma fatalidade converte-se em recurso. O horror sagrado apresenta, neste contexto, sua ruptura ética: a crença de que o defunto ainda detém poder de ação coexistindo com sua instrumentalização. Certa tradição exige uma oferenda com respeito; outra, ameaça e constrange. A ambivalência expressa uma conexão mais ampla com a ancestralidade e os mortos no Mediterrâneo antigo, onde era essencial cuidar do falecido para salvaguardar a cidade e a família, mas ao mesmo tempo, ele poderia ser temido como uma fonte de contaminação.

Os rituais de invisibilidade, encontrados em PGM I, PGM VII e em outros textos, não precisam ser interpretados apenas como uma fantasia relacionada à visão. A promessa explícita é passar despercebido, mas as aplicações possíveis vão desde escapar de adversários, evitar ser notado, fugir da prisão até diminuir a proeminência social. Os rituais podem incluir a unção do rosto, o uso de um amuleto, a recitação de nomes solares ou a identificação com uma força oculta. Em uma perspectiva fenomenológica, o rito transforma a confiança e a postura do indivíduo; sob um aspecto simbólico, submete o operador à face noturna do deus; e, em uma dimensão mágica, busca alterar a percepção dos outros em relação a ele. A diversidade de níveis não permite que um seja trocado pelo outro.

Os feitiços de memória indicam uma necessidade distinta. Em um mundo onde os livros eram caros e a oralidade ainda tinha um papel crucial, estudantes, oradores, escribas e especialistas precisavam memorizar longas passagens. Os PGM I 232-247 e PGM III contêm feitiços destinados a aprimorar a memória, frequentemente utilizando ervas, palavras e a invocação a Hermes. A abordagem integra medicamentos, rituais e disciplina mental. Memória é dom e potência do corpo; consagrá-la é sincronia entre pensamento, palavra e protetor da escrita.

Obter clientes, ter êxito nos negócios, conseguir um favor: todos esses procedimentos indicam que o templo portátil dos PGM estava a serviço da economia. O praticante pode criar um amuleto, ungir a entrada de uma casa, fazer uma invocação ao Sol ou carregar uma inscrição. A promessa de “favor diante de todos” tem o intuito de reestruturar percepções, reputações e o movimento de pessoas. Aqui é onde a magia se cruza com a psicologia social: confiança, aparência e expectativas podem gerar efeitos reais, mas o manual os explica por uma causalidade mais abrangente. O objeto sagrado não é simplesmente um placebo na linguagem antiga; é um companheiro material cuja força transforma o campo de relacionamentos.

A cura é um tema central em muitos papiros, e ela desmantela a divisão contemporânea entre medicina e religião. Existem elixires para febres, enxaquecas, tosse, inflamações, picadas, distúrbios ginecológicos e até possessão. Algumas utilizam ingredientes que podem ter propriedades medicinais; outras escrevem palavras, usam amuletos ou transferem a enfermidade para um objeto, animal ou local. O diagnóstico pode variar entre desequilíbrio do corpo, possessão por daimon, inveja, contaminação e destino astrológico. O paciente não escolhia necessariamente entre “médico” e “mago” como categorias exclusivas. Poderia unir especialistas e medicamentos.

O papiro-códice Michigan Ms. 136, que foi reeditado por Michael Zellmann-Rohrer e Edward Love, é um exemplo notável: este manuscrito, datado do século IV, compila tanto receitas gregas quanto coptas que visam a cura por meio de medicamentos e rituais, evidenciando uma transmissão bilíngue e a falta de uma fronteira rigorosa entre o que é considerado um medicamento e um encantamento. O texto pode indicar, na mesma unidade, a substância, a oração e o sinal. Esse tipo de documento torna impossível contar a história da ciência como uma simples substituição da magia pela razão. Métodos eficientes e teorias atualmente descartadas coexistiam; a experimentação podia acontecer dentro de visões de mundo religiosas (Zellmann-Rohrer; Love, 2022).

Amuletos para combater a febre costumam escrever a doença em ordem decrescente, eliminando uma letra a cada linha. A representação visual torna o mal mais fácil de ser suportado. O ritual não apenas expressa uma intenção; ele materializa a cura graficamente. Em outras situações, um nome sagrado envolve o corpo do paciente em ouro ou em papiro dobrado. O amuleto forma uma segunda pele literária. De Bruyn demonstrou que, durante a Antiguidade tardia cristã, elementos bíblicos, nomes de Jesus, cruzes, salmos e histórias evangélicas foram incorporados a amuletos pré-existentes, em vez de apenas substituí-los. A transformação do amuleto foi um processo de reconfiguração, e não um ponto de partida (De Bruyn, 2017).

Os rituais de exorcismo se situam em uma área onde a cura, a fé e a luta espiritual se entrelaçam. PGM IV 3007-3086, junto com Pibechis, chama nomes e autoridades para banir daimones; encantamentos judaicos e egípcios podem coexistir. O exorcista deve reconhecer a entidade, afirmar sua superioridade e garantir que ela não retorne. A enfermidade é descrita como uma invasão do corpo; a recuperação, como a restituição de limites. Essa narrativa também se encontra nos evangelhos e na literatura judaica, mas sem a necessidade de que um corpus derive diretamente do outro. O exorcismo era uma forma de comunicação comum em um Mediterrâneo onde o sofrimento podia ser personificado.

A proteção do parto e do útero evidencia como a insegurança em relação à biologia se manifestava de maneira ritualística. Mortes de mães e de bebês eram comuns; divindades como Ísis, Bes, Taweret e Ártemis podiam ser chamadas; nós, pedras, representações e histórias de partos divinos protegíamos a mulher grávida. Certas receitas antigas consideram o útero como um órgão móvel, uma concepção que se encontra nas tradições médicas da Grécia, e recomendam fumigações para “fazê-lo descer” ou “subir”. A leitura contemporânea deve reconhecer a trajetória do corpo feminino, evitando repetir seus equívocos. O ritual reflete tanto preocupação e temor quanto um conhecimento que foi principalmente desenvolvido em instituições dominadas por homens.

Os feitiços contra escorpiões e cobras são uma das mais duradouras continuações do heka egípcio. O especialista reconhece a vítima como Hórus, invoca Ísis ou narra a derrota mítica do animal. Estelas de Hórus sobre crocodilos eram banhadas, e a água que tocava imagens e inscrições era bebida como veículo de proteção. Nos papiros tardios, essa lógica continua em novas línguas e combinações. A imagem não é decoração; a água não é simples solvente; o mito não é narrativa distante. Juntos, formam uma cadeia em que a cura repete a vitória divina.

A ideia de consagrar objetos “para todo fim”, como em PGM IV 1596-1715, é reunir versatilidade em uma só peça. Um anel, uma pedra ou uma figura passa a ter nomes, fumos e preces, transformando-se em um instrumento de favor, vitória, revelação ou proteção. O texto promete ser geral, mas a consagração é detalhada. Essa tensão representa a aspiração técnica por um aparelho universal. Quanto maior o impacto desejado, mais numerosas são as autoridades envolvidas. O “para todo fim” não torna o cosmos mais simples; busca compactá-lo.

Os anéis de Hermes e outras peças rituais ilustram a interseção entre poder, estética e tecnologia. A pedra é selecionada de acordo com a cor e a associação; a imagem é esculpida por um artesão; a inscrição deve caber em uma superfície bem pequena; a peça é defumada, ungida e utilizada em um dedo específico. Existe uma divisão de tarefas entre os compositores, os gravadores e os operadores. A antiga magia é também uma economia de experts. Uma pedra preciosa “mágica” não cai pronta do mito: depende de mineração, comércio, lapidação, alfabetização e cliente.

O risco material dos ritos raramente é mencionado nas edições devocionais contemporâneas. Certa parte das receitas faz uso de sangue, bile, fezes, vegetais venenosos, fumaça densa, restos de animais ou objetos extraídos de sepulturas. A execução literal poderia resultar em envenenamento, infecção, lesão ou problemas legais. Outras imposições incluem coerção sexual, profanação de sepulturas ou causar danos a terceiros. Fazer uma descrição histórica não equivale a fazer uma recomendação. A distância acadêmica resguarda tanto o pesquisador quanto a respeitabilidade dos antigos, evitando que um fragmento documentário se converta em manual moderno desprovido de contexto.

Há também risco psicológico, embora não devamos retroativamente diagnosticar cada caso como tal. Privação de sono, jejum, isolamento, hiperventilação, expectativa de aparecimento, repetição prolongada, entre outros, podem induzir estados de pânico, dissociação ou experiências intensas. O guia muitas vezes fornece amuletos, despedidas e sinais de controle porque reconhece o perigo em seus próprios termos. A linguagem que expressa pureza e proteção não é um adereço; é uma forma de gerenciamento de risco dentro da cosmologia. O operador que cruza uma fronteira precisa ter um retorno garantido.

A prática da adivinhação nos papiros abrange uma ampla gama de métodos, desde a solicitação de sonhos e aparições diretas até a interpretação de sinais de lâmpadas, bem como a consulta a tabelas, versos e astros. O “Oráculo de Homero”, em PGM VII 1-148, liga números a versos homéricos, convertendo a poesia épica em repertório de respostas. O consulente realiza um sorteio ou um cálculo de um número, e então recebe uma linha cuja direção deve ser interpretada em relação à sua situação. O poeta não precisa da autorização de Homero para ter sua voz legitimada. A sua antiguidade, o seu caráter de memorização coletiva, a sua densidade proverbial conferem ao texto a capacidade de gerar orientação em novos contextos.

A homeromancia revela que o sentido não está totalmente definido antes do sorteio. Ele surge da intersecção entre questionamento, processo e fragmento. Esse procedimento assemelha-se às sortes virgilianae, às sortes bíblicas e a outros métodos de consulta a livros sagrados ou clássicos. O acaso é cerimonializado para que não seja mais barulho: ganha contornos, prece, contagem, poder do texto. Em termos filosóficos, a prática questiona se o que é contingente pode se transformar em um símbolo. A antiga resposta nos ensina que não basta qualquer coincidência para ser significativa, mas que um acaso bem controlado pode paveiar o caminho para uma ordem superior.

Os sonhos têm um espaço parecido. Receitas de oneiromancia incluem a preparação de uma lâmpada, um travesseiro, ervas, um amuleto e uma oração; o praticante solicita que a divindade se manifeste de forma clara, responda sem ambiguidade e permita que ele se lembre do sonho ao acordar. A preocupação com o esquecimento demonstra que a visão não é suficiente: é necessário trazê-la para o estado de alerta. Certas fórmulas pedem que se durma com Bes, Hermes, Apolo ou com deuses solares; outras, um pedido escrito é colocado sob a cabeça durante o sono. O travesseiro transforma-se em um arquivo temporário entre diferentes universos.

A incubação em santuários dedicados a Asclépio e Sarapis oferece um contexto mais amplo, embora os PGM não sejam meros manuais de culto institucional. Era comum dormir em locais sagrados para receber cura ou orientação. O formulário privado reduz esse ambiente a uma miniatura: purifica um quarto, ilumina e perfuma, convoca o deus e converte o sono caseiro em recinto oracular. A distinção entre religião pública e magia privada surge mais uma vez como uma questão de escala, autoridade e legitimidade, e não necessariamente de funcionamento ou mecanismo.

A cleromancia e os horóscopos fornecem respostas por meio de combinações. Números, lotes, pedras, letras ou tabelas transformam uma questão em índice; o sistema organiza previamente as possibilidades, mas a interpretação permanece em aberto. O mesmo se aplica a dias e horas auspiciosos. O calendário não anuncia um evento particular; categoriza situações de ação. Ele representa uma tecnologia de tomada de decisão em meio à incerteza. Ao determinar o momento do ritual, o praticante não aguarda passivamente que o destino se manifeste: ele busca a oportunidade onde o destino pode ser alterado.

A astrologia greco-egípcia é o resultado de séculos de intercâmbios entre a astronomia mesopotâmica, os calendários egípcios e a geometria grega. O zodíaco, os planetas, as casas e os decanos foram assimilados a sistemas que ligam nascimento, corpo, ofício, enfermidade e temperamento. Em nossos PGM, esses componentes aparecem de forma funcional: símbolos ditam imagens, materiais e momentos; nomes planetários oferecem proteção ou impõem restrições; o Sol e a Lua controlam ações. Não existe uma única astrologia que sustente o corpus. Existiam conhecimentos que eram compartilhados entre astrólogos, sacerdotes, médicos e artesãos.

Particularmente evidente é o paralelo com a alquimia no conjunto tebano que se liga a Anastasi. Os papiros de Leiden X e de Estocolmo contêm receitas para tingir, imitar metais preciosos, criar pedras e manipular substâncias. Embora esses textos não sejam PGM propriamente ditos, eles compartilham origem provável, linguagem sigilosa e um ambiente técnico. A sua presença, em conjunto com formulários mágicos, indica que laboratórios, oficinas e rituais faziam parte de uma mesma tradição de transformação material, embora cada um desses processos possua sua própria lógica.

Chamar essas receitas de “alquimia” exige rigor. Muitas dessas técnicas são artesanais e não revelam a filosofia da transmutação espiritual que se tornou famosa em períodos posteriores. No entanto, a mescla de imitação, purificação, coloração, maturação e segredo criou um espaço propício para o surgimento de tradições alquímicas greco-egípcias, como aquelas atribuídas a Pseudo-Demócrito e Zósimo de Panópolis. Em Zósimo, imagens de corpos desmembrados, incinerados e restaurados conectam laboratório, mito e metamorfose da alma. A oficina transforma-se em um palco de morte e renascimento; o metal, tolerante e reflexivo.

A abordagem alquímica em relação aos PGM deve, portanto, ser analógica e cuidadosamente monitorada. Um rito tem a capacidade de desmantelar a identidade e reconfigurá-la, mas isso não demonstra que quem o criou estivesse seguindo uma doutrina alquímica. A analogia é útil quando ajuda a entender processos como separação, purificação, união e fixação, mas se torna equivocada quando troca a história por uma tabela universal de símbolos. O mesmo se aplica às interpretações junguianas. Elas podem indicar a recepção contemporânea e certas estruturas psíquicas, mas não devem ser apresentadas como se fossem a intenção manifesta de sacerdotes egípcios.

A fenomenologia ritual possibilita o progresso sem essa ideia anacrônica. Um rito consiste em uma reestruturação da atenção, do corpo, do espaço, do tempo e das interações. Ele estabelece um “como se” suficientemente robusto para modificar tanto a percepção quanto a ação, mas, para quem pratica, isso não se limita apenas à representação. A chama é simultaneamente fogo e presença; o nome é som e identificação; a água é substância e abismo primordial. O antigo símbolo não é um código aleatório imposto sobre a realidade. É uma participação entre entidades que possuem potência, história ou forma em comum.

Essa contribuição pode ser descrita como uma simpatia cósmica. Estoicos, platonistas, astrólogos e escritores herméticos desenvolveram, de várias formas, a noção de que o cosmos é um ser vivo, cujas partes se comunicam e reagem entre si. As plantas estão ligadas a planetas; as pedras têm a capacidade de atrair ou repelir; os sons se harmonizam com deuses; as imagens são afetadas por influências. A magia natural do Renascimento herdará esse léxico, mas nos PGM ele surge menos como uma teoria sistemática e mais como uma prática. A receita indica qual folha usar, qual pedra escolher, em que hora agir e qual nome invocar; por sua vez, a filosofia pode ser reconstruída com base na coerência das decisões tomadas.

A ideia de symbolon dentro de tradições teúrgicas traz uma dimensão adicional. Um símbolo é um sinal deixado pelos deuses nas coisas, que pode levar de volta à sua origem. Iâmblico sustenta que a teurgia não opera devido à compreensão que a mente humana possui sobre os deuses, mas sim porque são os próprios deuses que reconhecem seus sinais. Esta doutrina proporciona um paralelo forte para nomes indecifráveis e ingredientes estabelecidos nos PGM. No entanto, a cronologia e os gêneros evitam uma identidade automática: diversos formularios precedem ou existem paralelamente à teurgia filosófica organizada. É mais sensato referir-se a um espaço comum de ritualização da correspondência.

A teurgia, que significa "obra divina", emerge no contexto dos Oráculos Caldeus e do neoplatonismo tardio. Porfírio interpela sobre rituais e sacrifícios na sua Carta a Anebo; Iâmblico replica, sob o pseudônimo de Abamon, afirmando a eficácia dos ritos, nomes e símbolos. Para ele, a comunhão com os deuses não é a técnica de um ego conquistador que os impõe; é a ação divina, mediada por sinais que vão além da razão. Essa diferenciação possibilita aos pensadores distinguir a teurgia elevada da goécia voltada para interesses pessoais, embora, na prática, os materiais e os métodos possam se entrelaçar.

Os PGM perturbam essa ordem. Um único manuscrito pode associar a ascensão solar à atração erótica e a um remédio para a tosse. O velho editor não necessariamente organiza o conhecimento segundo a contrariedade entre contemplação elevada e necessidade mesquinha. Isso irritou os leitores contemporâneos, que tentaram tirar “hinos sublimes” do contexto mágico. A proximidade é, contudo, uma prova filosófica: o anseio por se fundir ao divino e o anseio por saldar uma dívida pertencem ao mesmo indivíduo. Dividi-los completamente pode revelar mais sobre os nossos gêneros acadêmicos do que sobre a velha oficina.

Quando a unio mystica é utilizada em referência a rituais de imortalização, ela deve manter suas distinções. No neoplatonismo, a união pode ser entendida como o retorno do intelecto ou da alma ao Uno e aos deuses; no hermetismo, trata-se de uma regeneração e do autoconhecimento como filho do cosmos; em textos gnósticos, refere-se ao despertar da centelha e à passagem por poderes; nos PGM, envolve a identificação ritual, a visão e a filiação solar. Existem relações de parentesco estrutural — como purificação, ascensão, nomeação, transformação de identidade —, mas não uma vivência universal que seja idêntica. A comparação deve manter a singularidade antes de chegar a uma síntese.

O medo que essas práticas geram não é uma contrariedade à mística; é o seu limite intrínseco. Quanto mais o operador almeja transcender a condição humana, mais percebe a fragilidade dessa mesma condição. Guardiões, ventos, serpentes, trovões e ameaças não são adornos góticos. Ressalta o contraste entre o humano e o divino. Uma mística sem perigo seria o turismo cósmico; os papiros falam de um limiar onde um erro de nomenclatura, uma impureza ou a perda de controle podem resultar em confusão, insanidade, ataque espiritual ou fracasso diante do público.

O fracasso merece atenção igual à da promessa. As receitas incluem variações, repetições e versões mais potentes porque os rituais não eram vistos como garantidamente eficazes. Um guia pode instruir: caso não se manifeste em três dias, realize outra fumigação; se a manifestação for negativa, utilize um selo; se o médium não perceber, altere a preparação. Isso revela uma cultura de adaptação, que não é exatamente um teste experimental nos moldes atuais, mas sim uma observação prática. A tradição persiste porque oferece explicações para falhas: erro de pureza, tempo errado, cópia imperfeita, entidade enganadora, resistência do alvo ou vontade divina.

A flexibilidade gera um problema epistemológico. Um sistema que consegue atribuir cada falha a fatores invisíveis corre o risco de se proteger de qualquer tentativa de refutação. Teorias podem ser protegidas por hipóteses auxiliares, assim como muitos sistemas modernos de cura, economia ou política fazem. O historiador não precisa afirmar que são iguais; pode examinar como as comunidades repartem a culpa e mantêm o poder. Em nossos Programas de Gestão de Performance (PGM), o especialista que gerencia um maior número de variáveis também é aquele que tem mais influência na interpretação dos resultados.

O vínculo entre cliente e operador quase sempre é indireto, já que os manuais se dedicam à técnica e não documentam consultas inteiras. As lacunas “NN” demonstram personalização, enquanto os objetivos apontam para as demandas. O consumidor busca amor, retribuição, sonhos, cura, triunfo, segurança e conhecimento. O especialista traduz sofrimento em operação: escolhe deuses, materiais, tempo e formato. Esse ato de tradução é poder pastoral em sentido amplo. Pode oferecer conforto, guiar e inspirar confiança; mas também pode manipular o medo, exigir muito ou aumentar a pressão.

Não devemos confundir a figura do “mago” descrita pela literatura antiga — estrangeiro, charlatão, mulher perigosa, sacerdote degenerado — com os verdadeiros produtores dos manuscritos. Alguns tinham uma formação avançada em grego e egípcio, além de conhecimentos em métricas, mitologia, astrologia e medicina; outros apenas faziam cópias mecânicas. Palavras como magos, goes, mantis, pharmakeus, hierogrammateus e prophetes eram rótulos de prestígio. Ribeiro destaca que a imagem do feiticeiro é mediada por traduções e categorias contemporâneas; na sociedade, sua figura poderia variar entre um conselheiro respeitado e um criminoso temido (Ribeiro, 2024).

As legislações romanas que se opunham ao veneficium, maleficium, à astrologia perigosa e à consulta sobre a vida do imperador impunham um risco verdadeiro. A repressão era diferente dependendo do período, do status e do objetivo. Um amuleto de cura não seria considerado uma conspiração; uma operação para prever a morte do imperador, por outro lado, poderia ser punida com a pena de morte. O segredo ritual resguarda tanto a técnica quanto quem a pratica. A magia passa a ser “ilegal” não por uma essência metafísica, mas quando começa a ameaçar corpos, propriedade, ordem política ou monopólio religioso.

Com uma crescente cristianização, a hierarquia se torna mais rígida, mas a prática não deixa de existir. Bispos e monges reprovam práticas como encantamentos, sacrifícios e adivinhação; contudo, exorcismos, relíquias, sinais da cruz, água, óleo, nomes de anjos e textos bíblicos formam novos conjuntos de manifestações de poder sagrado. A questão histórica, portanto, não consiste em saber se o cristianismo “copiou magia”, uma formulação polemicamente carregada, mas sim em como as comunidades reconfiguraram ritos considerados legítimos e ilegítimos, deslocando agentes e reorganizando os materiais envolvidos. A busca pela eficácia persistiu; a autoridade que poderia assegurá-la foi alterada.

O gnosticismo é muitas vezes invocado para elucidar qualquer denominação peculiar ou cosmologia de vários céus presente nos PGM, mas esse termo abrange uma variedade de movimentos, textos e comunidades. Vários manuscritos de Nag Hammadi falam de arcontes, de senhas do céu, de batismos, de selos, de ascensões; nomes como Iao, Sabaoth e Abrasax permeiam círculos gnósticos e mágicos. Existem verdadeiros paralelos de linguagem e imaginação, bem como um contato viável entre os especialistas. Entretanto, ter um nome não é o que faz um feitiço se tornar uma liturgia gnóstica. O critério deve ser baseado na estrutura: mito de origem, antropologia, objetivo salvífico, sequência de rituais e contexto dos manuscritos, e não uma associação por semelhança de ambiente.

A mais profunda afinidade reside na ideia de conhecimento como transição. Gnosis não é um acúmulo de informações, mas um reconhecimento que transforma a consciência sobre a origem e o destino; nos rituais de ascensão, o simples ato de conhecer nomes é o que permite transitar entre diferentes poderes. Em ambos, o universo pode ser tanto uma revelação quanto uma cela. Entretanto, muitos PGM não compartilham a hostilidade gnóstica à criação: invocam os poderes do mundo para obter benefícios neste mundo. A comparação revela uma fronteira porosa entre transcendência e instrumentalidade, não uma identidade.

O hermetismo oferece relação ainda mais íntima com o Egito greco-romano. O Corpus Hermeticum e o Asclepius apresentam diálogos entre Hermes Trismegisto, Tat, Asclépio e outros discípulos sobre mente, cosmos, piedade e regeneração. Os chamados Hermetica técnicos tratam de astrologia, alquimia, medicina e magia. A antiga divisão entre hermetismo “filosófico” puro e técnicas inferiores foi em grande parte produto de edição moderna. Nos contextos antigos, tanto a contemplação da estrutura do cosmos quanto a prática de agir por correspondências poderiam estar nas mãos do mesmo sábio, ainda que não necessariamente no mesmo texto.

No Poimandres, a visão do cosmos leva à compreensão de que o ser humano é parte do Intelecto divino e, após a morte, atravessa as esferas. No PGM XIII, o chamado “Livro Sagrado” ou “Mônada”, ritos de revelação e cosmogonia associam Hermes, nascimento divino e nomes. A semelhança revela um léxico compartilhado de renovação; contudo, as distinções de gênero persistem. O diálogo hermético transmite conhecimento através da fala; o formulário ensina por meio da prática. Um discorre “sobre” a ascensão, enquanto o outro procura concretizá-la no quarto, utilizando tinta, incenso e respiração.

Hermes Trismegisto foi o responsável por garantir que esses conhecimentos sobrevivessem ao longo do tempo. Escritores cristãos como Lactâncio mencionaram Hermes como uma testemunha pagã de verdades que se aproximam do monoteísmo; por sua vez, Agostinho criticou as práticas teúrgicas e a criação de deuses que ele descreveu no Asclepius. Na Idade Média latina, fragmentos do hermetismo técnico foram transmitidos por meio de traduções árabes e latinas; durante o Renascimento, Marsilio Ficino realizou a tradução do Corpus Hermeticum em 1463, acreditando que se tratava de um texto extremamente antigo. Essa linha do tempo incorreta conferiu aos textos a autoridade de Moisés e contribuiu para a validação de uma filosofia das correspondências. A descoberta posterior, em 1614, de Isaac Casaubon de que o Corpus era um texto tardo-antigo alterou essa datação, mas não conseguiu apagar sua influência.

O neoplatonismo reconfigurou a conexão entre contemplação e ritual. Plotino salienta a elevação íntima da alma e sua fusão com o Uno, apesar de admitir uma simpatia cósmica; Porfírio questiona a eficácia de sacrifícios e nomes; Iâmblico sustenta a teurgia; Proclo organiza cadeias de correspondências e hinos. Embora os PGM não sejam manuais oficiais dessas escolas, eles levantam a mesma questão crucial: de que maneira um ser encarnado pode interagir com planos superiores sem transformar o divino em algo a ser controlado? A resposta teúrgica transfere a iniciativa para os deuses. O rito funciona porque o divino já semeou símbolos na matéria.

Essa doutrina dignifica a matéria. Se cada nível do cosmos contém vestígios do superior, pedra, planta, som e imagem não são obstáculos à transcendência. A encarnação ritual não é queda adicional, mas caminho de retorno. Esse ponto aproxima a teurgia de práticas egípcias de animação de imagens e de consagração de estátuas. Contudo, o paralelismo deve ser tratado como comparação histórica, não como derivação simples. Os filósofos reinterpretaram tradições egípcias por categorias gregas, e sacerdotes egípcios também adaptaram sua linguagem para públicos helenizados.

A fabricação ou vivificação de imagens era um dos temas que mais perturbavam críticos cristãos. No Asclepius, estátuas podem receber espíritos por meio de ervas, pedras, aromas e fórmulas; para Agostinho, isso prova demonologia. Nos PGM, figuras e gemas recebem nomes e fumigações, tornando-se focos de presença. Não se trata apenas de ídolos. É uma questão de mediação: é possível que o divino resida em uma matéria criada pelas mãos humanas? A resposta positiva mantém templos, talismãs e sacramentos; a controvérsia é sobre quem tem a autoridade para consagrar.

O cristianismo primitivo forjou sua identidade nesse mercado de sinais. Os Evangelhos contam histórias de curas, exorcismos, visões e o poder do nome de Jesus; já o livro Atos dos Apóstolos coloca os apóstolos em oposição a Simão Mago e aos exorcistas filhos de Ceva; por sua vez, os textos apologéticos atribuem prodígios de origem pagã a daimones. A classificação de “magia” atua como um limite: o poder que alguém possui é considerado um milagre ou um dom; por outro lado, o que pertence ao adversário é magia. Isso não significa que todas as práticas sejam equivalentes, mas evidencia que a legitimidade é criada por meio de narrativa, instituições e teologia.

As semelhanças entre PGM e a literatura cristã — rituais de exorcismo, imposição de mãos, invocação de nomes, sonhos, talismãs — foram analisadas desde os tempos da equipe de Betz. A conclusão mais clara é que se trata de um ambiente compartilhado. Cristãos, judeus, gregos e egípcios habitavam as mesmas cidades, falavam línguas semelhantes, buscavam cura e proteção, e estavam familiarizados com as tradições uns dos outros. A influência pode ser bilateral, e as práticas populares nem sempre se limitam às fronteiras estabelecidas pelos teólogos. Um papiro contendo uma cruz, um salmo e algumas vozes mágicas não deve ser considerado “paganismo disfarçado” nem cristianismo oficial; é uma solução situada.

A transição do grego e demótico para o copta torna esse processo aparente. O copta é uma língua egípcia que utiliza um alfabeto grego modificado; passou a ser o principal meio de comunicação do cristianismo no Egito, além de ser utilizado em rituais e fórmulas. Dos séculos IV ao XII, manuscritos coptas chamam por Cristo, arcanjos, santos, nomes secretos e entidades que derivam de repertórios preexistentes. O projeto Coptic Magical Papyri e a base Kyprianos têm catalogado esses documentos como evidências de práticas religiosas não oficiais e de crises do dia a dia. Em junho de 2026, a base ainda estava em atualização e continha mais de mil entradas de manuscritos, indicando que o corpus é dinâmico.

A continuidade copta representa uma mudança linguística, teológica e social. Nomes antigos podem persistir sob uma nova perspectiva; deuses transformam-se em daimones; Ísis pode deixar de ser uma figura explícita enquanto as histórias de Maria e dos santos assumem papéis protetores; salmos passam a substituir hinos, mas a folha que é dobrada, o nó e o desenho continuam a existir. “Sobrevivência” é uma palavra valiosa quando se refere à transmissão modificada, em vez de simplesmente significar fossilização. Uma tradição que se mantém viva é aquela que se adapta.

O antigo judaísmo também fez parte dessa ecologia, sem se limitar às designações atribuídas pelos PGM. Amuletos do judaísmo, escritos apocalípticos, tradições ligadas a Salomão, literatura hekhalot e tigelas de encantamento em aramaico documentam uma variedade de rituais de proteção, exorcismo e ascensão. O monoteísmo não aboliu a crença em anjos, demônios e nomes poderosos; subordinou-os à soberania divina. O Nome de Deus pode ser visto como impronunciável e, por essa razão, transformar-se em objeto de especulação ritual. A movimentação de Iao nos PGM ilustra como um nome sagrado pode ser transferido para cosmologias que sua comunidade de origem não domina.

O Testament of Solomon, um trabalho pseudepigráfico que foi escrito e editado durante o período da Antiguidade tardia, mostra o rei fazendo perguntas a demônios, obtendo informações sobre seus nomes, funções e os anjos que lhes são opostos. A sua estrutura assemelha-se a catálogos tanto terapêuticos quanto astrológicos, e a forma como foi recebida contribuiu para a formação de demonologias na Idade Média. Não se trata da tradução de um PGM, mas segue uma lógica semelhante: conhecer é governar. A autoridade salomônica concede ao exorcista um respaldo bíblico que pode validar ações que outros classificariam como mágicas.

No mundo bizantino, grimórios como a Hygromanteia e tradições salomônicas combinaram astrologia, orações cristãs, nomes de anjos, círculos, instrumentos e consagrações. A transmissão grega medieval não preservou integralmente os grandes PGM, que permaneceram enterrados ou dispersos até o século XIX, mas preservou gêneros e técnicas aparentadas. É crucial distinguir continuidade de repertório e continuidade documental. Não existe uma linha comprovada em que PGM IV seja copiado secretamente por ordens mágicas até a Renascença. Existem rios que se separam, recebem afluentes e voltam a produzir formas semelhantes.

O mundo árabe foi decisivo para astrologia, alquimia e magia talismânica. O Ghāyat al-ḥakīm, traduzido ao latim como Picatrix, reúne correspondências planetárias, imagens, fumigações e orações num sistema elaborado. Textos herméticos árabes atribuídos a Hermes, tratados de alquimia e obras de astrologia preservaram e transformaram saberes gregos, egípcios, persas e indianos. A relação com os PGM é uma longa trajetória intelectual, mas não se pode afirmar uma dependência direta em relação a cada receita. Os dois são oriundos de tradições que veem o cosmos e a matéria como teias de simpatia.

A música, as imagens, os cheiros e uma vida disciplinada, através dos quais a magia renascentista de Marsilio Ficino tenta captar as influências celestes; a combinação da cabala cristã com a filosofia, feita por Giovanni Pico della Mirandola; a sistematização das correspondências em De occulta philosophia, de Heinrich Cornelius Agrippa. Estes escritores estavam familiarizados com o hermetismo, o neoplatonismo, textos astrológicos e materiais medievais, mas não com a coleção PGM tal como está atualmente editada. Assim, a influência greco-egípcia chega filtrada por meios filosóficos e árabes. Dizer que Agrippa “usou os PGM” é anacrônico; dizer que ele trabalhou em um contexto de correspondências com raízes tardo-antigas é defensável historicamente.

A magia cerimonial contemporânea traz uma dimensão adicional. Um Ordem Hermética do Amanhã Dourado, que se originou no final do século XIX, mesclou a cabala, o tarot, a astrologia, a alquimia, a magia enoquiana e as influências recebidas do Egito. Quando as traduções dos papiros começaram a ser divulgadas, certos rituais foram adicionados. O Egito atuou tanto como fonte de texto quanto como imaginário orientalista. Nomes e imagens foram extraídos de contextos filológicos e reestruturados em níveis de iniciação. Essa acolhida gerou tradições realmente ativas, mas não permite que as apresentemos como um ritual egípcio completamente preservado.

Aleister Crowley é o exemplo mais evidente. Seu rito acéfalo adaptado destaca o “Sagrado Anjo Guardião”, conceito vindo de tradições abraâmicas e magia renascentista, e reinterpreta nomes conforme seu sistema thelêmico. O resultado é uma obra contemporânea que se baseia em uma tradução de PGM V, e não uma versão neutra do original. Reconhecer isso não reduz a criatividade da interpretação; apenas restabelece a autoria histórica. O passado não se comunica de forma autônoma no rito contemporâneo: é montado.

Durante o século XX, traduções de Preisendanz e Betz, bem como trabalhos de outros estudiosos, nutriram o ocultismo, neopaganismo, magia do caos, reconstruções helênicas e keméticas. Os praticantes começaram a entoar sequências de vogais, a recriar hinos, a adaptar invocações a Hécate e a utilizar o “Bornless Rite”. A internet tornou a circulação e a descontextualização mais rápidas. Um trecho pode surgir sem qualquer aparato, sendo traduzido diversas vezes e apresentado como “antigo segredo egípcio”. O acesso democrático é bom; a proveniência perdida, perigosa.

Tradições keméticas modernas tentam restaurar a religião egípcia a partir de fontes, assim como movimentos neopagãos helênicos revigoram os cultos gregos. Enquanto alguns os incorporam como PGM, outros os rejeitam como sincréticos, tardios ou impostos. A resposta não é única, pois “tradição viva” abrange comunidades que possuem critérios diversos em relação à autenticidade. O pesquisador deve abordá-las sem automaticamente assumir uma continuidade histórica e sem desconsiderar sua atual relevância religiosa. Uma tradição pode ser recente e ainda assim ter um grande significado.

As práticas populares mediterrâneas e norte-africanas relacionadas a amuletos, cura, olho mau, santos e recitações têm semelhanças formais com as da Antiguidade, mas não se pode assumir uma continuidade direta sem uma análise detalhada de cada caso. Motivos se mantêm por serem soluções para questões recorrentes e pela circulação de materiais; também podem voltar a surgir por convergência. A honestidade histórica opta por termos como “possível continuidade”, “reconfiguração” ou “analogia” em vez de se referir a genealogias totais. Respeitar tradições vivas é evitar que elas se tornem museus de um passado idealizado por forasteiros.

Até a recepção acadêmica tem seus próprios rituais de poder. A filologia determina as letras; o museu define o acesso; a editora estabelece a tradução; o pesquisador seleciona as categorias. Por muito tempo, “magia” serviu para distinguir entre práticas populares ou colonizadas e uma religião nobre. Pesquisas recentes mudaram o foco para materialidade, agência, gênero, economia e práticas não oficiais. O campo passou a duvidar de oposições simplistas, mas pode cair no erro oposto de eliminar todas as distinções. Se tudo for considerado religião e toda religião for vista como magia, a análise se torna menos nítida.

Não se trata de uma definição única, mas sim de uma descrição com várias dimensões. Questiona-se quem foi o responsável por nomear essa prática, se havia alguma aprovação formal, quem a realizava, qual era a intenção por trás dela, quais materiais eram utilizados, como lidavam com a coerção e qual era a relação dessa prática com o templo, a lei e a comunidade. Um mesmo objeto pode estar em diferentes lugares ao longo do tempo. A categoria passa a ser um instrumento de comparação, e não o cerne. A proposta dessa metodologia, que aparece em livros como o Guide to the Study of Ancient Magic, é que se estude a ambiguidade sem ter que fingir uma neutralidade total (Frankfurter, 2019).

A arqueologia ajusta o encantamento da escrita. Figuras furadas, pedras preciosas, lâminas, amuletos dobrados, vasos, restos e contextos de deposição revelam o que ficou fora da página. Simultaneamente, muitos itens foram removidos sem qualquer registro, e os museus acabaram herdando proveniências que estavam longe de ser completas. O investigador deve estabelecer níveis de certeza. A: inscrição direta, contexto, e paralelos; B: forte material correspondence; C: plausible inference; D: hypothesis; E: speculation. Esse escalonamento evita que uma boneca aleatória se torne uma representação segura de uma determinada linha do PGM.

A filologia desfaz mais um engano: o de que nomes estranhos guardam sempre uma língua secreta intacta. Cópias carregam erros; os sons se ajustam aos alfabetos; escribas têm um entendimento parcial do que estão copiando. Uma vox magica pode ser um egípcio distorcido, um hebraico helenizado, uma combinação criada ou uma sequência de sons. A pesquisa de Cardoso indica que é possível estudar a função sintática e ritual de uma palavra sem que se tenha uma etimologia clara. Não conseguir traduzir não é o mesmo que não conseguir interpretar; é restringir a afirmação.

A comparação intercultural deve obedecer ao mesmo rigor. Embora existam paralelos com mantras indianos, xamanismo, cabala, tantra ou religiões afro-diaspóricas que possam esclarecer temas gerais relacionados a som, possessão e objeto, isso não demonstra uma conexão comprovada. Fazer comparações é relacionar as diferenças, e não transformar todas as práticas numa “sabedoria universal”. O universalismo esotérico, muitas vezes, surgiu em cenários coloniais que extraíam aspectos de suas narrativas. A filosofia que deve ser feita busca ressonâncias sem eliminar genealogias.

O estudo dos PGM também transforma a história da filosofia. Ele sugere que a Antiguidade tardia não se limitava a escolas de pensamento e debates, mas também explorava maneiras de estar presente. A indagação “o que é o real?” vinha com “como entrar em contato com ele?”. A metafísica emanava o aroma de incenso, a solidez de uma pedra e o compasso de uma vogal. Eliminar essas práticas para manter uma filosofia totalmente racional é reescrever a história de acordo com limites contemporâneos. Não é porque as inclua que as aceite; é porque as inclua que reconheça que a velha razão era mais encarnada e ritual do que nossas linhagens escolares aceitam.

PGM XIII, em parte chamado de “Livro Sagrado chamado Mônada” e relacionado ao papiro de Leiden J 395, fornece um dos melhores exemplos dessa ambição enciclopédica desses formulários. O texto une cosmogonia, revelação, rituais de consagração e orientações, utilizando uma linguagem que aproxima Hermes, Aion, criação e regeneração. A “Mônada” não é uma unidade abstrata no sentido exclusivamente matemático; é um princípio que contém a multiplicidade e permite que o operador percorra do uno aos muitos e de volta. A receita estabelece de forma ritual uma questão filosófica: como a pluralidade do mundo pode manter relação com uma origem única?

A série incorpora as imagens de ovo, semente, respiração e luz. O ovo cósmico abriga a forma antes de se diferenciar; a semente carrega o futuro em um estado concentrado; a respiração impulsiona o invisível; a luz revela o que estava escondido. Quando o operador fala nomes em relação a essas imagens, ele tenta se inserir no momento em que o cosmos ainda pode ser moldado. O rito não retorna no tempo até a criação; ele gera uma atualidade mítica. A origem se torna acessível por meio da sua repetição em sinais.

O papiro de Leiden J 384, PGM XII, inclui um formulário adicional que contém anel de Hermes, defixio, revelação e outros rituais. Daniel lançou uma edição fotográfica dos grandes papiros de Leiden, o que possibilita notar que o livro não se trata de uma sequência doutrinal elegante. Receitas foram apresentadas, revisadas e comparadas. Essa diversidade é um fato. A biblioteca ritual não classifica o conhecimento da mesma forma que a obra de Aristóteles; ela preserva soluções que podem ser recuperadas. O índice implícito reside na memória do usuário profissional.

O Papiro Mágico de Leiden I 384, que não é o mesmo que J 384, assim como o Papiro de Londres e Leiden, ilustram como os nomes atribuídos pelos museus podem confundir os leitores. Vários objetos de épocas e gêneros diversos são designados pelo nome “Papiro de Leiden”. Leiden I 348 é um manuscrito egípcio que remonta a um período muito anterior ao núcleo dos PGM e contém textos mágicos que seguem a tradição faraônica; Leiden I 343 e I 345 preservam encantamentos destinados a combater doenças e forças hostis; Leiden I 384 inclui material demótico e grego; J 384 e J 395 são equivalentes aos PGM XII e XIII. Um levantamento minucioso sempre traz o número do estoque, a edição e a data. A denominação da cidade não é um elemento de identidade textual.

No PGM VII 540-578, um rito de visão envolvendo um menino invoca Hermes Trismegisto, Anúbis e poderes da cosmogonia. A prece solicita que a luz e o Sol se manifestem ao médium, que os deuses se revelem para a adivinhação e que a resposta seja autêntica. O texto concebe Hermes como uma mente expansiva e o criador das quatro áreas do céu, assim como das quatro bases da terra. A quadratura dispõe o espaço: quatro direções, quatro fundamentos, um centro que é preenchido pelo recipiente ou pelo vidente. O operador estabelece um pequeno cosmos direcionado e convoca o deus para o seu eixo.

Em seguida, são entoados os nomes e as vogais. A repetição não só torna a oração mais longa; transforma também o estado de quem a profere e de quem a escuta. O garoto recebe uma moldura interpretativa antes de observar: luz, Sol, Anúbis, Hermes, dois deuses acompanhantes. A visão antecipada é, em parte, pré-formada. Isso não a classifica como “falsa” em termos fenomenológicos; revela de que maneira experiência e tradição se coproduzem. Toda experiência religiosa é atravessada por expectativas, até quando é inesperada.

PGM VII 703-726 inclui um pedido de sonho onde um nome com trinta letras é representado como duas asas. As letras, em seu traçado visual, se alongam em linhas simétricas, serpenteiam ao redor de um núcleo de vogais e criam a sensação de que estão em pleno voo. A escrita transforma-se em meio. O sonho não é apenas uma mensagem que vem do alto; a própria estrutura do sonho ganha asas para superar o espaço que separa o divino do adormecido. O esquema ilustra o modo como o escriba concebia o espaço: o nome tem anatomia, e a anatomia cumpre sua função.

PGM VII 579-590 fala de um amuleto com uma cobra que morde sua própria cauda, contendo os nomes Kmephis, Iao e Aion, com caracteres gravados em ouro ou prata. O círculo da serpente é um símbolo de proteção, pois não possui nenhuma abertura; Aion serve para prolongar a duração; e o metal é capaz de resistir ao passar do tempo. No meio, esses nomes se cruzam entre Egito, judaísmo e cosmologia helenística. A forma é uma teologia concisa. Levar a portá-la é envolver o corpo em um tempo delimitado.

PGM IV 2241-2358 utiliza versos de Homero para invocar ajuda divina. O poema épico, fora de sua narrativa, torna-se discurso de poder. Os versos podem ser escritos, falados e ligados a imagens. Essa prática não “corrompe” Homero; ao contrário, ela revela uma maneira diferente de leitura que é antiga. O texto clássico serve como um repositório de diálogos impactantes, uma vez que os heróis e deuses já se manifestaram nele. Pronunciar uma linha é reabrir a cena e transferir sua intensidade para o agora.

PGM IV 2785-2890 combina um hino a Selene com um feitiço de amor, ilustrando como um hino de beleza suprema pode ser empregado para fins coercitivos. A Lua é atribuída a epítetos, formas de animais, cores e poderes relacionados à terra; sua luz ilumina o mundo e sua capacidade de mudar rege o desejo. A beleza não justifica a ação. Essa justaposição desafia a inclinação contemporânea de separar hinos “religiosos” de instruções “mágicas”, extraindo apenas os primeiros e descartando os últimos. A totalidade da obra revela que poesia e domínio podem coexistir na mesma expressão.

PGM IV 3007-3086, a receita de Pibechis para aqueles que estão possuídos por daimones, utiliza nomes judaicos, visões e a autoridade dos exorcismos. O ritual consiste em escrever uma proteção, recitá-la e então aplicar a fórmula sobre a pessoa. O exorcismo estabelece uma hierarquia de vozes: o espírito é designado como intruso, o exorcista se pronuncia em nome de uma autoridade superior, e o paciente transforma-se em um território a ser reconquistado. Quando se fala na eficácia social, isso pode significar alívio, reintegração e esperança; quando se menciona o risco, isso pode incluir o reforço de estigmas ou a interpretação de uma doença médica como possessão.

O PGM III 1-164 abriga o célebre ritual do gato, uma manobra polivalente que abrange afogamento, preparação do corpo, inscrições e invocação. É um dos escritos mais inquietantes por empregar a morte de animais de forma funcional. O gato tinha ligações religiosas egípcias, particularmente com Bastet, e sua morte ritual podia ser tabu. O ritual converte o corpo em um meio de adivinhação ou de obtenção de poder. Não há razão para suavizar a violência nem para usá-la como prova de uma “barbárie” egípcia. Sacrifício e uso animal atravessavam muitas sociedades antigas; a tarefa é nomear o ato, seu contexto e sua função sem reproduzi-lo.

A operação com o gato evidencia também o paradoxo da consagração pelo dano. O animal é valorizado porque está próximo do divino, mas essa proximidade o torna material eficaz. O rito destrói o suporte para capturar sua potência. A mesma lógica aparece em plantas arrancadas, pedras gravadas e corpos perfurados. Toda técnica extrai algo do mundo; o ritual antigo torna explícito o custo que a técnica moderna frequentemente oculta.

Ritos de “sombra” e de controle da própria sombra, como PGM III 612-632, trabalham com uma parte do corpo que é visível e incorpórea. A sombra acompanha sem ser tocada, duplica sem possuir volume, desaparece na escuridão. Controlá-la significa governar um limiar entre pessoa e imagem. Em culturas diversas, sombra pode representar vida, alma ou vulnerabilidade; no contexto greco-egípcio, a concepção egípcia de šwt, componente da pessoa, fornece paralelo relevante. Mas a equivalência exige cautela, pois o texto grego pode recombinar conceitos.

A invisibilidade e a sombra se encontram num mesmo desejo: escapar do olhar que define e vigia. No Egito romano, documentos, impostos, hierarquias e acusações faziam do reconhecimento uma forma de poder. Tornar-se invisível é fantasia religiosa e crítica social involuntária. O indivíduo quer suspender a rede que o identifica. O amuleto proporciona um espaço privado onde o nome secreto é utilizado em vez do nome administrativo.

O “documento à Lua minguante”, PGM IV 2241-2358 em certos ramos editoriais, e várias outras manobras lunares lidam com a diminuição, o afastamento e a entrega ao mundo da noite. O operador se dirige à Lua da mesma forma que enviaria um pedido a uma autoridade. A burocratização do universo espelha sociedades de papel: deuses recebem missivas, acordos, lacres e catálogos. A escrita ritual não apenas imita as formas religiosas; ela também se apropria das tecnologias jurídicas e administrativas.

As expressões “pedido de negócio” e “aquisição de clientes” revelam, de maneira semelhante, uma adoração da circulação. É possível invocar Hermes, Agathos Daimon e as forças solares para atrair pessoas, abrir caminhos e conceder eloquência persuasiva. O comércio tradicional se baseava na reputação e na capacidade de se deslocar; o rito converte a incerteza financeira em uma relação pessoal com divindades. A esperança é acompanhada de um destino e um horário. Às vezes, mesmo sem a possibilidade de comprovar um efeito externo, o ato de organizar um procedimento já é capaz de trazer clareza nas decisões e diminuir a inação.

Não se deve desconsiderar o custo econômico. Ouro, gemas lapidadas, fragrâncias estrangeiras e animais poderiam custar uma fortuna. A promessa de um rito elaborado atraía clientes e aumentava o prestígio do especialista. Existe uma economia da escassez: quanto mais difícil de obter o material, mais impressionante parece a técnica. Ao mesmo tempo, muitas práticas utilizam itens do lar, fragmentos, tintas e plantas comuns. A magia não era um privilégio exclusivo das elites; ela se moldava a diferentes níveis de recursos.

A preparação de tintas é mais um aspecto onde matéria e escrita se entrelaçam. Pigmentos particulares podem ser originados de mirra, fuligem, água, sangue ou sucos vegetais. Escrever com uma materialidade que se associe ao deus é escrever não apenas o nome, mas o corpo simbólico desse deus. A tinta traz consigo cheiro, cor e procedência. Uma fórmula com mirra não se parece, à vista, com uma tinta comum, embora as letras sejam iguais. A edição impressa não possui essa espessura.

O uso de ouro e prata em lamelas busca permanência, pureza e brilho. Folhas finas podem ser enroladas, dobradas e colocadas em cápsulas. O ouro associa-se ao Sol e à carne dos deuses na imaginação egípcia; a prata, à Lua e aos ossos divinos em certas tradições. Essas relações não são universais em todo texto, mas explicam escolhas recorrentes. O metal precioso transforma segurança em investimento palpável.

As pedras mágicas, analisadas por Bonner e Simone Michel, preservam iconografias como Chnoubis, uma serpente leonina associada a decanos e à proteção do abdômen; Harpócrates sobre um lótus; Abrasax com forma de uma criatura que se assemelha a uma mistura de homem e cobra; Ísis e Anúbis; representações uterinas que se fecham com uma chave; o ouroboros e nomes. A face escrita e o verso textual constituem um todo. Uma pedra que trata de questões uterinas pode representar o útero como um vaso rodeado por uma serpente e fechado com uma chave, concretizando uma anatomia simbólica. Trata-se de uma medicina que se baseia na visão.

É perigoso tirar conclusões excessivas sobre esses desenhos. Uma estrela pode servir como um planeta, um ornamento ou um símbolo de oficina; uma figura sem cabeça pode ser o resultado de um dano; um animal pode simbolizar mais de uma divindade. A iconologia deve confrontar a inscrição, a origem, o material e os paralelos. Quando um símbolo carece de evidências, ele se transforma no reflexo do seu intérprete. O sempre presente método alquímico inclui esta alternativa: o que mais pode representar esta forma?

A mesma rigorosidade se aplica à numerologia. Sete vogais podem representar os sete planetas; 365 referem-se ao ano; quatro estão ligadas às direções; e doze ao zodíaco. Quando a fonte apresenta esses números de forma clara e organizada, a interpretação é bastante sólida. Quando o pesquisador começa a contar letras até achar um padrão, a hipótese perde força. A antiga civilização tinha conhecimento da isopsefia e dos valores alfabéticos, porém, nem toda quantia possui um código. O encanto pelo mistério é capaz de criar segredos que nunca existiram no papiro.

A pesquisa contemporânea enriquece o corpus por meio da digitalização e da reedição. Trismegistos integra metadados de textos e coleções; papyri.info disponibiliza edições e imagens quando permitidas; Kyprianos reúne manuscritos, textos, arquivos e objetos mágicos em grego, demótico e copta; projetos de universidades europeias e norte-americanas reexaminam fragmentos esquecidos em depósitos. O resultado é uma mudança de escala. O PGM clássico deixa de ser centro exclusivo e passa a ser parte de um universo maior de amuletos, formulários pequenos e textos aplicados.

Esse alargamento modifica também a linha do tempo. Os grandes livros datados dos séculos III e IV d.C. pareciam ser o exemplo padrão; formulários mais antigos e menores mostram desenvolvimento. Segundo Faraone e Torallas Tovar, favorecer os manuscritos longos pode ocultar tradições anteriores de transmissão. O “grimório” não foi criado de uma só vez. Receitas passaram de folhas soltas a arquivos e composições até se tornarem compêndios. A trajetória do gênero é uma história de montagem.

Os arquivos mágicos, no entanto, continuam a ser hipóteses arqueológicas frágeis. O grupo tebano é reconstituído através do mercado, da paleografia e do conteúdo; outros “arquivos” podem reunir textos que chegaram juntos a uma coleção moderna sem terem convivido na Antiguidade. A cadeia de custódia é fundamental na análise forense: data da aquisição, vendedor, lote, inventário, mão, fibra, tinta, medidas, danos e correspondências. Quando a cadeia se quebra, a conclusão deve ser proporcional.

A ética da proveniência entrou em cena na investigação. Manuscritos que foram removidos durante o período colonial, adquiridos sob leis desiguais ou sem a devida documentação, levantam questões sobre a propriedade, o acesso e a repatriação. Embora a digitalização não resolva todos os problemas, ela diminui as barreiras. Um tratado de sabedoria ancestral que esquece o deslocamento dos objetos reitera a invisibilidade de quem os manteve, comercializou ou deixou escapar. O papiro possui duas narrativas: a antiga, que relata sua produção, e a moderna, que conta como foi capturado.

A preservação física introduz uma nova dimensão temporal. Papiro consegue se manter devido ao clima árido, à sorte e ao esforço de conservadores; a luz, umidade e o toque humano o arruínam. Antigas fotografias às vezes guardam letras que hoje estão apagadas. A conservação é fundamental para a filologia, e essa conservação depende de decisões tomadas pelas instituições. O invocado que nunca cessa, no texto, permanece submisso à fragilidade. Essa dualidade contraditória representa a essência de toda a obra.

Simbolicamente ler “como na época” não é fazer de conta que temos acesso imediato à mente helenística. Os autores não comentaram todas as opções; nossa reconstrução se apoia em paralelos, linguística, arqueologia e teoria. A leitura mais precisa é a que indica níveis de certeza. Heka, enquanto potência formadora, tem raízes profundas na tradição egípcia; uma vogal relacionada a um planeta pode ser evidente; uma etapa psicológica supostamente chamada de “integração da sombra” é uma adição moderna. Conservar a visão tradicional também implica em reconhecer nossas ignorâncias.

A categoria da experiência religiosa também deve ser usada com cautela. William James e os fenômenos que vieram depois dele falaram de estados internos, mas os papiros revelam uma experiência socialmente produzida. O operador descobre como se sentir, qual imagem antecipar, que som emitir e como designar o resultado. Isso não diminui a intensidade da experiência. Isso implica que o interior e o exterior não podem ser considerados distintos: a cultura fornece os meios simbólicos para a percepção.

O corpo ritual é controlado e idealizado. Regras são impostas à respiração, à alimentação, à sexualidade, ao sono, à voz, aos olhos, às mãos e aos pés. O operador traça letras, segura um ramo, se volta para a direção, veste linho, unge-se, pisa ou não pisa em certo lugar. A cosmologia se infiltra através das articulações. A filosofia deixa de ser mera opinião e transforma-se em hábito corpóreo. É por isso que a transformação pode continuar mesmo sem ser visível: o corpo assimilou uma nova organização.

A prática constante é o combustível desse aprendizado. Repetir sete vezes, ao longo de três dias, em horários determinados, estabelece uma continuidade e gera uma expectativa. Repetição diminui a espontaneidade e aumenta a sensação de exatidão; também pode provocar um estado de transe. No campo social, evidencia empenho: quem se dedica, conquista. No contexto da cosmologia, reproduz ciclos. O ritual se repete porque o universo faz o mesmo.

O silêncio se alterna com a fala. Segredos não devem ser revelados; nomes podem ser sussurrados; algumas ações ocorrem sem qualquer testemunha. O silêncio resguarda contra a profanação e a competição, mas, ao mesmo tempo, amplifica a escuta interna. O que não se pode expressar em público se torna mais significativo. A questão levantada por Juliano — se devemos falar o que é impronunciável — captura a tensão: o rito existe precisamente porque transgride uma proibição, e sua autoridade se sustenta ao preservar parte dessa proibição.

A iniciação se apresenta como uma linguagem que transmite de forma seletiva. O destinatário é denominado mystēs, ou iniciado; a fórmula pode exigir um juramento e ser mantida em segredo; o conhecimento é transmitido por um sacerdote lendário, um rei ou uma divindade. Estes aparelhos geram descendência. Até uma cópia recente pretende fazer parte da velha cadeia. A verdadeira autenticidade de um ritual não se resume apenas à sua antiguidade em termos de material; ela também envolve a narrativa que explica sua origem. O nome sagrado é um selo.

Essa tática não se resume a uma fraude simples. A prática da autoria antiga muitas vezes atribuía obras a figuras proeminentes para inseri-las em uma linhagem reconhecida. Hermes, Moisés, Salomão, Pitys, Demócrito e Zoroastro transformam-se em designações que abrigam saberes acumulados em circulação. É fundamental que o leitor contemporâneo faça a distinção entre autor histórico, persona textual e autoridade conferida. Ainda que uma obra seja considerada pseudepígrafa, ela pode refletir crenças genuínas.

A função da mulher nos PGM é intricada e pouco resguardada. As mulheres se apresentam como objetos de desejo, consumidoras, vítimas, potenciais colaboradoras e divinas. A preponderância das vozes masculinas nos textos litúrgicos é um reflexo da estrutura social e das convenções de escrita, e não a ausência feminina absoluta da religião ritual. Embora amuletos de parto e pedidos de amor indiquem solicitações, eles raramente aparecem em relatos em primeira pessoa. A narrativa deve interpretar o silêncio sem preenchê-lo com imaginação.

A escravidão também permeia o corpus. Os nomes, as relações de poder no lar, os pedidos de controle podiam envolver pessoas escravizadas; o corpo submisso era mais suscetível à imposição de coerção ritual e física. Textos que prometem trazer alguém “contra sua vontade” adquirem um peso considerável em um mundo onde a propriedade humana é uma realidade. A investigação do sagrado não pode se desvincular da estrutura social que dava suporte a seus adeptos.

Entretanto, a violência ritual não pode ser vista como uma característica exclusiva da magia. Religiões estatais realizavam sacrifícios de animais, governos executavam condenados, senhores aplicavam punições e exércitos devastavam. Ao se referir a uma prática privada como “mágica”, poderia-se deslocar para as margens uma violência que é tolerada no centro. O exame forense questiona quem estava autorizado a agir. Há uma diferença moral, legal e institucional entre sacrifício e malefício.

Por outro lado, não é apropriado eliminar toda crítica em um mar de relativismo. A intenção de eliminar o consentimento, causar dano a um adversário ou explorar a fragilidade de alguém pode ser identificada como uma questão ética, mesmo em um contexto mais antigo. A caridade não é um paliativo. Ela procura entender sem desumanizar e julgar sem se sentir superior. O ensaio filosófico precisa atender às duas exigências.

O mais profundo “horror sagrado” não reside nos nomes estranhos, mas na proximidade entre proteção e dominação. O mesmo saber que sara pode machucar; a mesma representação que para o corpo pode silenciar a fala de outro; o mesmo deus que concede liberdade pode ser invocado para aprisionar o desejo. Técnica não é sinônimo de sabedoria. Os papiros levantam uma questão que ainda é muito atual: toda forma de poder traz consigo uma responsabilidade maior para aqueles que a exercem.

A esperança, no entanto, também é real. Um talismã pendurado no pescoço de uma criança, uma prece dedicada à febre, uma lâmpada acesa por alguém à procura de uma resposta, uma fórmula mnemônica: tudo isso atesta que os humanos não se resignam à passividade. Mesmo quando a cosmologia não é a nossa, a necessidade é reconhecível. Eles procuravam uma margem de ação diante de doença, perda e acaso. A magia é, entre outras coisas, uma política da esperança em escala íntima.

Essa esperança não elimina o trágico. O rito pode falhar; a criança pode morrer; o amante não voltar; o julgamento ser perdido. O papiro guarda a receita, não o desfecho. Entre prescrição e vida abre-se silêncio. A pesquisa deve respeitá-lo. Inventar um êxito que embelezasse o texto seria tão enganoso quanto imaginar um fracasso geral que o tornasse logicamente seguro.

A influência persistente dos PGM se dá, então, de três maneiras diferentes. A primeira é clássica e abrangente: nomes, amuletos, exorcismos, astrologia, imagens e métodos que foram transmitidos entre as tradições judaica, cristã, copta, bizantina e árabe. A segunda é mais sutil: o hermetismo, o neoplatonismo, a alquimia e a magia astral, transmitidos através de vários manuscritos até a Idade Média e o Renascimento. A terceira abordagem é contemporânea e documental: redescoberta, edição e tradução dos próprios papiros, seguidas de apropriação por ocultismo, neopaganismo e cultura popular. Combinar as três gera um mito de continuidade; separá-las revela uma história mais rica.

Não existe evidência de que uma única irmandade secreta tenha mantido os PGM intactos por dois mil anos. Escribas, sacerdotes, artesãos, monges, tradutores, antiquários, filólogos, ocultistas e bancos de dados, todos eles reprocessando o conteúdo. A tradição não é um fio de ouro contínuo; é um pano de remendos. Seu poder reside mais na capacidade de acolher novas formas do que na pureza.

O futuro atual desses textos depende de nossa interpretação. Uma interpretação sensacionalista os transforma em um catálogo de feitiços “proibidos”; uma interpretação positivista os considera um erro; uma interpretação esotérica e universalista elimina referências ao Egito, à língua e ao poder; e uma análise puramente filológica pode negligenciar aspectos relacionados ao corpo e ao medo. A síntese deve conservar as diferenças de tensão: entre objeto e símbolo, crença e técnica, beleza e violência, continuidade e ruptura, evidência e hipótese.

Um trabalho de pesquisa acadêmica meticuloso não se opõe ao assombro. Pelo contrário, troca o espanto fácil pelo espanto difícil: o espanto de ver que um nome copiado há dezessete séculos ainda pede escolhas tradutórias; o espanto de ver que uma folha adquirida em Tebas liga templo, mercado colonial e rito moderno; o espanto de ver que uma figura de serpente abriga astronomia, medicina e medo. A disciplina não elimina o mistério; ela impede que o mistério seja preenchido por algo fruto da imaginação.

Os papiros, do ponto de vista filosófico, levantam três questões. A primeira: a palavra só retrata ou também atua? A segunda questão: o conteúdo é passivo ou existem relações que a linguagem pode ativar? A terceira: até que ponto a vontade humana pode influenciar o mundo sem transformar tudo em uma ferramenta? As velhas respostas não são como as nossas, mas as questões ainda existem. O direito, a medicina, a tecnologia, a política ainda falam palavras que produzem estados, imagens que mobilizam corpos, sistemas que governam pessoas.

A performatividade contemporânea lança luz sobre uma parte da questão. Uma sentença, uma promessa, um diagnóstico, um contrato: essas coisas transformam realidades porque instituições as reconhecem como legítimas. O encantamento primitivo também requer convenções, autoridades e recursos, mas clama por um alcance universal. A análise evidencia uma consistência na estrutura, mas uma divergência na ontologia. Não é necessário afirmar que toda linguagem é mágica; basta reconhecer que a fronteira entre signo e ato nunca foi definitiva.

Os PGM também observam que o conhecimento pode ser indissociável de uma posição ética. Conhecer o nome confere poder, mas não ensina a utilizá-lo. A teurgia busca solucionar essa questão ao subordinar o rito ao divino; a pastoral cristã coloca os carismas a serviço do amor; enquanto filosofias herméticas ligam o conhecimento à regeneração. O formulário pragmático, por sua vez, pode fornecer técnica sem qualquer consideração ética. Essa falta é o que a torna tão fascinante e tão arriscada.

A figura do operador, conforme descrita nos textos, é uma combinação de sacerdote, artesão, poeta, astrólogo, farmacologista, dramaturgo e negociador. Ele tem conhecimento sobre ingredientes, calendários, pronúncias, imagens e clientes. Essa combinação de habilidades coloca em xeque a atual divisão do conhecimento. Entretanto, o conceito de figura total é, na verdade, uma invenção editorial: não era necessário que uma única pessoa dominasse todos os aspectos que um grande livro reunia. O manual concebe um mestre que, provavelmente, nunca foi encontrado pelo próprio corpus.

A “magia” greco-egípcia não é relíquia irracional à margem da civilização clássica. Ela é um laboratório no qual essa civilização testou a linguagem, o corpo, a alteridade e o poder. Os seus deuses são clássicos e estrangeiros; os seus materiais, nacionais e universais; os seus fins, elevados e vulgares. A coleção é incômoda porque interrompe a inocência que gostaríamos de atribuir ao passado.

No fim, a imagem que se fixa é a do vaso oracular. Uma tigela escura se enche de água; ao lado, uma lâmpada gera reflexos; o operador diz nomes compostos de diferentes línguas; uma criança observa; um cliente aguarda uma resposta. Dentro deste pequeno círculo, encontramos Alexandria e Tebas, os templos dos faraós, a filosofia grega, comunidades judaicas e romanas, o comércio e os mistérios, bem como a atenção e a coerção. A água não proporciona um acesso claro à história. Ela restitui reflexos dinâmicos. O trabalho histórico é precisamente não os confundirmos com o nosso próprio rosto.

O papiro, por outro lado, é uma superfície diferente. Ele foi planta do Nilo, folha feita à mão, obra de perito, produto, pedaço de museu, imagem, edição e arquivo eletrônico. Cada mudança manteve algo e abandonou algo. O mesmo se aplica ao pensamento que abriga. A forma final que se mantém mais fiel não é aquela que promete restaurar uma voz completamente intacta, mas sim aquela que evidencia suas camadas, documenta suas interrupções e preserva a diversidade em aberto.

Entre heka e dynamis, entre o nome e o corpo, entre divindade e cliente, os papiros erigem uma metafísica de ação. O real consiste em uma teia de interconexões; agir é fazer parte dessa teia por meio de analogias, autoridade, sacrifício e atenção. A nossa era pode desprezar a causalidade sobrenatural e ao mesmo tempo aceitar a profundidade da intuição relacional. Nada se encontra isoladamente: a palavra necessita da boca, a imagem do material, o rito da comunidade e o poder do custo.

A derradeira lição é sobre ética. Qualquer esforço para alcançar o invisível altera o que é visível. O jejuador busca a imortalidade; o amante ameaça um corpo alheio; o suplicante cura convertendo uma folha em amuleto; o filólogo editor estipula o que gerações vão ler; o ocultista adaptador cria tradição; o museu conservador gere a memória. Não há acesso sem ação. É na intervenção reconhecida que a responsabilidade começa.

Portanto, os papiros greco-egípcios não apresentam uma doutrina definitiva sobre o cosmos. Apresentam o registro esparsado de indivíduos que se negaram a aceitar o mundo como uma superfície imutável. Elas o conceberam repleto de ouvintes, nomes, entradas, feridas e correspondências. Algumas de suas técnicas foram terapêuticas; outras, controladoras; muitas eram tanto uma coisa quanto a outra em medidas que era difícil distinguir. O ensaio que as retrata de forma justa não deve santificá-las nem afastar qualquer influência negativa. Deve chegar com a mão segura de um filólogo, o olhar desconfiado de um investigador, a atenção de um antropólogo, a cautela pastoral e a humildade de quem sabe que todo nome que é chamado diante do abismo volta alterado.

O ritual do escaravelho, que aparece em PGM IV 1-25 de forma fragmentada, reúne diversas camadas do pensamento greco-egípcio. O fiel busca uma entidade profética ligada ao Sol; vai ao nascer do dia a uma terra que foi recentemente inundada, levanta um altar de adobe, sacrifica um galo branco e apanha um escaravelho em condições específicas. Carlos destaca a lógica da coação: o alimento e a oferta seduzem, mas reter o inseto pressiona a potência associada a ele. O escaravelho, khepri, representa o Sol que se torna, simbolizando renovação e autossustentação. Capturá-lo é acionar o sistema da aurora (Carlos, 2019).

A cena deve ser concebida sem qualquer idealização. A lama do Nilo ainda molhada, o altar baixo, o galo, o sangue, o inseto atado, o Sol ascendente e a fumaça de uma oferta compõem uma cena onde fertilidade e violência se entrelaçam. A inundação simboliza a vida; o sacrifício estabelece a comunicação; o escaravelho é tanto um prisioneiro quanto um emblema do renascimento. O operador oferece ao daimon uma parte de sua comida, criando uma relação de comensalidade, mas cobra uma resposta em troca. A hospitalidade e a extorsão são parte da mesma operação. Essa combinação representa uma microimagem da magia ritual como uma forma de diplomacia assimétrica.

A preparação dos alimentos — alimentar-se de forma leve e dividir as porções — transforma o corpo e estabelece uma mesa para o que é invisível. Compartilhar alimento é atribuir personalidade ao daimon; controlar a quantidade é limitar o acesso. O rito não se relaciona com uma “energia” impessoal, mas sim com um agente que tem a capacidade de aceitar, recusar e negociar. Até mesmo ao utilizar a força, pressupõe a existência de um outro. A ética do procedimento é, portanto, um paradoxo que concede agência para subjugá-la.

O galo branco, por sua cor, canto e hábitos, está associado à aurora. Seu sangue e sua bile, segundo algumas versões do texto, conferem ao operador propriedades solares e belicosas. Consumir materiais de origem animal seria arriscado e não deve ser imitado; no entanto, historicamente, reflete uma lógica de assimilação literal. Não é suficiente apenas observar o Sol: é necessário absorver uma essência do animal que o representa. A empatia cósmica se origina no estômago.

O galho e as crinas que seguram o escaravelho convertem o cenário em ferramenta. O ramo vertical serve como um eixo; o animal solar pendurado transforma-se em um sinal evidente para o daimon; o Oriente guia a ação. Nada é imparcial. A orientação no espaço, o tempo e o material constituem uma frase silenciosa. O rito se manifesta antes mesmo de chamar.

Em PGM IV e VII, Hécate é apresentada com rituais que misturam pão, encruzilhadas, cães, a Lua e forças do submundo. Uma operação pode ordenar que fragmentos de comida sejam jogados ou colocados em um local liminar, acompanhados de nomes e epítetos. Quando a resposta não chega, a receita intensifica a cobrança com fumos incômodos ou poluentes. A transição de oferta para coerção evidencia uma dramaturgia de barganha. O operador inicia sua atuação como um solicitante e pode, eventualmente, passar a ser um litigante.

Devemos pensar a encruzilhada como um espaço socialmente ambíguo: fora do seio familiar, permeado por forasteiros, resíduos, memoriais e mini santuários. Deixar algo lá significa tirá-lo de casa e entregá-lo a forças de transição. Voltar sem olhar para trás, norma comum em rituais mediterrâneos, evita que o laço acompanhe o doador. O movimento do corpo representa a ideia de que algo é irreversível. Olhar seria reabrir a estrada.

Ritos lunares frequentemente retratam a deusa com várias cabeças, formas de animais ou diferentes cores. O diagrama pode posicionar uma crescente sobre a figura, tochas nas mãos, serpentes ao redor e caracteres perto dos pés. Não é preciso imaginar que cada representação foi observada fisicamente. A imagem orienta a imaginação e dá forma a uma potência que pode mudar. A Lua aumenta, diminui e some; sua deusa necessita de uma anatomia que possa se transformar.

A colheita de vegetais em PGM IV 286-295, imediatamente após a carta de Nephotes em várias seções, instrui a falar com a planta como se fosse um ser, evocar sua origem e garantir seu uso. A raiz não é matéria-prima. Ela tem “senhor”, hora e nome. O cortador deve evitar sombras, olhares ou ferramentas inadequadas. A botânica não pode ser dissociada da etiqueta religiosa. A planta tem a capacidade de curar ou estabelecer uma conexão porque foi colhida de uma maneira que mantém sua ligação com o sagrado.

Esses protocolos também salvaguardam o conhecimento ecológico. Conhecer o local de crescimento de uma planta, o momento ideal para sua colheita e qual parte utilizar é uma verdadeira competência. A ritualização pode manter processos devido à memória e exigir prudência. Embora isso não comprove automaticamente qualquer propriedade medicinal atribuída, indica que mito e observação podem trabalhar juntos. A dicotomia entre ciência e religião não captura adequadamente o caráter de uma oficina onde a eficácia de uma raiz é testada, relatada e, ao mesmo tempo, consagrada.

As “receitas de substituição” sugerem flexibilidade. Quando um ingrediente raro não está disponível, alguns livros oferecem uma substituição; outros codificam um nome comum como uma substância sagrada. Isso mostra que o rito não é um sistema rígido. Especialistas se ajustavam ao mercado, à região e aos clientes. A tradição consiste na prática de manter a equivalência. Ser fiel não é repetir tudo igual, mas manter a função de outra maneira.

A chamada total de um rito ancestral vai muito além das palavras traduzidas. Inclui: rubrica, pronúncia incerta, ritmo, repetições, lacunas, caracteres, gestos, suporte, contexto. Assim, este ensaio detalha tanto as estruturas quanto as sequências, mas evita reproduzir como “manual” longas traduções modernas protegidas e não tenta simular a recuperação de sons que foram perdidos. A plenitude acadêmica não é sinônimo de ilusão de operacionalidade. Uma linguagem sem sua própria língua, sem as mãos que a gesticulam, e sem o mundo que a circunda, já se transforma em algo completamente diferente.

As versões registram trechos onde o escriba escreve “diz o logos” e deixa abreviado o conteúdo, ou onde um nome aparece corrompido. Nenhuma tradução é capaz de restituir uma certeza que nunca existiu. O melhor aparato traz variações e justifica as escolhas. Uma reconstituição excessivamente suave pode ser mais ilusória do que um fragmento. A fissura textual precisa continuar aparecendo, pois faz parte da narrativa.

Os papiros também apresentam camadas de trabalho humano e temporalidade. Uma receita pode ser reproduzida a partir de uma cópia mais antiga, receber ajustes nas margens, ser adaptada a um novo deus e, por fim, fazer parte de um códice. O texto que consumimos é um palimpsesto, mesmo sem a necessidade de uma raspagem física. Cada vez que repete, muda. O sincretismo também se manifesta entre diferentes versões de uma mesma fórmula.

O modo como se pronunciam as voces magicae ilustra esse problema. O grego representa de forma aproximada os sons estrangeiros; iotacismo e alterações fonéticas modificam a leitura; copistas trocam letras; editores definem os acentos. Um praticante moderno que “pronuncia como no original” está fazendo uma reconstrução baseada em suposições. Isso não diminui sua fé, mas é importante reconhecer que é uma criação informada, e não uma recuperação perfeita.

A investigação filológica atual busca confrontar recorrências por meio de bancos de dados. Quando uma passagem se encontra em diversos manuscritos, as variações podem indicar famílias de transmissão. Nomes que antes eram vistos como caóticos podem revelar elementos de origem egípcia, semítica ou grega. A computação auxilia na identificação de padrões, mas não é um substituto para o conhecimento de idiomas e para o contexto. Semelhança visual pode ser casual; é essencial uma crítica ao algoritmo.

Uma análise química de tintas e suportes pode revelar oficinas, restaurações e falsificações. A paleográfica ainda é crucial, mas tem uma margem; o radiocarbono precisa de uma amostra e data o material, não o momento preciso em que foi escrito. A pesquisa do corpus é, de fato, interdisciplinar: papirologia, linguística, história das religiões, arqueometria, preservação e antropologia. “Pesquisa profunda” implica a coordenação de fronteiras, e não a voz que tudo domina.

A ideia do praticante-sacerdote precisa ser testada empiricamente. O conhecimento egípcio e a escrita demótica indicam que alguns manuscritos eram treinamentos associados a templos; aparecem títulos como profeta e hierogramata; os ritos imitam as técnicas dos sacerdotes. Contudo, o Egito romano contava com escribas que não estavam ligados a templos, e o conhecimento podia se disseminar. Afirmar que todos os PGM foram elaborados por “sacerdotes desempregados” converte o modelo social em algo indiscutivelmente certo. É provável que o corpus contenha diferentes trajetórias.

Para abordar a ideia do “declínio dos templos”, é essencial estabelecer uma cronologia. Não foi de uma vez que, no século I, as instituições deixaram de existir; algumas persistiram até a Antiguidade tardia. As transformações econômicas, o fechamento de santuários, a cristianização e as mudanças linguísticas não aconteceram de forma uniforme. Um formulário do século IV pode manter a tradição do templo e servir ao cliente cristão. As identidades não se conformam a calendários escolares.

A Alexandria idealizada como um caldeirão universal representa outro perigo. A cidade foi um ponto de tradução e reunião, mas uma grande quantidade de papiros veio do Alto Egito e de fontes locais. Essa narrativa, que coloca Alexandria como o berço de toda inovação, reflete uma centralização típica da época helenística. Tebas, Panópolis, Hermópolis, Fayum e vilas colaboraram. O sincretismo não se limita ao meio urbano e cosmopolita; ele pode ocorrer em uma oficina bilíngue em uma pequena cidade.

Panópolis, que se relaciona com Zósimo e as tradições alquímicas, revela a relevância do Alto Egito. Hermópolis, a cidade de Thoth, proporcionava o cenário ideal para a figura de Hermes; Tebas mantinha viva a memória sacerdotal e era um mercado de antiguidades; e Fayum produzia amuletos e papiros em meio a um contexto multicultural. A geografia ritual é diversificada. O Nilo une sem tornar tudo igual.

As tradições religiosas romana, grega e egípcia helenizada não eram sistemas fechados. Um cidadão romano poderia adorar Ísis, consultar um astrólogo grego e carregar um amuleto egípcio; um egípcio helenizado poderia escrever em grego e interpretar a realidade por meio dos mitos locais; uma comunidade judaica poderia falar grego sem renunciar à sua lei. O papiro documenta essas intersecções de maneira mais pessoal do que os monumentos imperiais. Ele revela o que as pessoas solicitavam quando o calendário oficial não era suficiente.

A religião romana trouxe uma linguagem jurídica, imperial e cósmica. Os deuses podem ser referidos como “reis”, “senhores”, “governadores”; o rito reproduz uma audiência, uma petição. O imperador, por outro lado, temia tanto a astrologia quanto os feitiços, pois o mesmo universo que conferia legitimidade ao seu domínio poderia prever sua queda. A magia privada é a sombra da soberania: ambas buscam governar através de símbolos.

A religião grega trouxe hinos, mitos, nomes de deuses olímpicos, filosofia, poesia e classes de daimones. Entretanto, “grego” nos PGM não significa clássico puro. Hinos são reescritos; Hécate adquire epítetos de origem estrangeira; Apolo se expressa em um contexto egípcio; versos homéricos transformam-se em amuletos. A tradição persiste porque acolhe práticas que seus zeladores literários podem ter menosprezado.

A religião helenizada do Egito não é uma sobrevivência passiva. Sacerdotes fazem a tradução, a interpretação e a universalização dos seus deuses; Ísis transforma-se na deusa que possui muitos nomes; Thoth passa a ser conhecido como Hermes; os calendários e os decanos se integram à astrologia em uma escala internacional. A helenização é igualmente uma egipcianização do grego. A língua hegemônica traz conteúdos que a fazem mudar.

O cristianismo posterior vai herdar o problema da pluralidade. Ao repudiar certos nomes pagãos, conserva alguns em listas de demônios; ao recusar amuletos, cria amuletos a partir dos evangelhos; ao opor-se à adivinhação, valoriza os sonhos atribuídos a santos; ao eliminar estátuas, investe em relíquias de presença. A distinção teológica existe, mas a prática humana de buscar intermediação persiste. A trajetória religiosa se desenvolve através de substituições e traduções que ocorrem ao mesmo tempo.

A influência sobre o ocultismo renascentista é mais no sentido de ideia do que de texto. Ficino não leu a PGM IV, mas leu Plotino, Jâmblico, textos herméticos e sobre astrologia; Agrippa reuniu obras de autores clássicos e medievais; e o Picatrix ensinou magia astral. Quando os PGM foram lançados, ocultistas contemporâneos identificaram neles padrões conhecidos e os integraram a sistemas já estabelecidos. O encontro foi organizado por uma recordação indireta.

O século XIX trouxe consigo a egiptomania, o colonialismo e o surgimento de novas disciplinas científicas. A decifração de hieróglifos, as escavações e os museus tornaram o Egito acessível e passível de apropriação. Ordem esotérica fez uso de símbolos egípcios para clamar por uma origem antiga; filólogos os publicaram como se fossem documentos; nacionalismos europeus brigaram por suas coleções. O mesmo item sustentou tanto o conhecimento científico quanto a imaginação. Separá-las por completo significaria apagar sua história compartilhada, enquanto misturá-las seria equivalente a perder a lógica.

No século XXI, comunidades virtuais convertem fragmentos em rotinas individuais. Tem gente que lê língua e críticas; tem gente que lê traduções populares. A questão da autenticidade se transforma em uma negociação entre fidelidade, segurança e experiência. A academia pode fornecer contexto sem exercer uma autoridade espiritual sobre as comunidades. As comunidades podem, de fato, perceber que devoção não é sinônimo de crítica documental.

Vivas tradições devem ser respeitadas com autorização e em detalhes. Não é correto afirmar que as práticas coptas, as tradições populares egípcias ou as manifestações neopagãs “são” continuação dos PGM sem consultar aqueles que as praticam e sem investigar como essa transmissão ocorre. Também não se pode negar a eles o direito de reinterpretar. O historiador elabora genealogias; a comunidade determina sua identidade. É possível que os dois discursos se comuniquem sem se misturar.

A cautela pastoral em relação a este corpus envolve quatro aspectos: honestidade em relação às evidências, proteção dos vulneráveis, generosidade com os mais velhos e esperança sem promessas enganosas. Ela proíbe tanto o deboche quanto o encorajamento imprudente de repetir ações arriscadas. O saber não deve ser esterilizado, mas contextualizado. Não se ensina a execução de um rito de sangue ao descrevê-lo; nem se legitima a coerção amorosa ao analisá-la.

O método forense traz cronologia, cadeia de custódia e hipóteses contrárias. Para cada declaração, questiona-se: é oriunda do manuscrito, de uma edição, de um relato de antiquário ou é uma reconstrução moderna? A publicação antiga não é o mesmo que o evento antigo. Página de museu atualiza seu catálogo, mas não estabelece uma proveniência histórica. A fonte primária também pode fornecer informações falsas, exageradas ou teóricas, sem uma base prática. Um documento não equivale à transparência.

A visão exige uma hierarquia de pontos focais. Em um diagrama, a posição central é significativa; em uma cena ritual, a luz e a direção são importantes; durante um ensaio, é essencial que o leitor consiga distinguir entre o que é núcleo e o que é detalhe. A profusão dos PGM pode tornar-se inventário sem reflexão. A verdadeira síntese não elimina detalhes: ela os organiza em torno da questão da eficácia. De que maneira o vocábulo, a matéria e o poder se entrelaçaram para moldar tanto o mundo quanto o agente que o opera?

A resposta está no fato de que o rito cria uma circunstância na qual conexões ocultas podem ser ativadas. O nome permite que a divindade seja identificada; o material a torna tangível; o tempo proporciona continuidade; o gesto define a posição; o mito oferece um exemplo anterior; o segredo concentra o poder; a repetição garante a estabilidade; a comunidade reconhece ou teme. Nenhum componente isolado é suficiente para elucidar o efeito. A magia é uma construção de relações.

É possível estudar essa arquitetura sem a necessidade de replicá-la. O historiador explora o edifício com plantas falhas, examina fundações, contrasta ruínas e se recusa a restaurar torres fictícias. O filósofo indaga qual visão de realidade possibilitou sua elaboração. O antropólogo observa práticas e interações. O filólogo escuta letras. O conservador evita que a casa se desfaça em pó. O ensaio é onde essas profissões se cruzam.

O encontro não gera uma certeza absoluta. Algumas vozes continuarão opacas; alguns traços, indecifráveis; algumas origens, extraviadas. A maturidade intelectual se avalia pela habilidade de manter a ausência. O vazio não deve ser considerado uma falta a ser preenchida com um símbolo; é uma realidade. No campo da papirologia, a ausência de uma fibra pode ser mais autêntica do que uma palavra criada.

Essa sinceridade também resguarda o maravilhamento. Um texto que, por ser fragmentário, sabemos que é incompleto pode ser mais impactante do que uma reconstrução ideal, pois evidencia a disparidade. No leitor, há uma voz interrompida e o passado é percebido como não sendo posse. O nome incompleto não se submete completamente. Conservar a história é resistir.

Os papiros greco-egípcios são, em última análise, registros de uma humanidade técnica e suscetível. Eles retratam indivíduos que pensavam ter a capacidade de influenciar o cosmos, mas que precisavam de orientações; que invocavam deuses universais, mas temiam cometer erros de escrita; que buscavam a imortalidade, mas escreviam em material efêmero; que desejavam amor, mas apelavam para amarras; e que buscavam cura utilizando o que possuíam. Sua grandeza não reside no fato de serem detentores de um conhecimento oculto e esquecido. É o momento em que força e vulnerabilidade se tornam inseparáveis.

Quando esses textos se situam no presente, acabamos por reproduzir a questão. Podemos utilizá-los para controlar uma representação do Egito, para comercializar o mistério, para formar uma identidade ou para entender as divergências. Essa escolha não é imparcial. A melhor recepção é a que aceita intermediação, menciona fontes, rejeita genealogias criadas, preserva a beleza e identifica a violência. Dessa forma, o passado não se transforma em um instrumento silencioso, mas sim em um interlocutor desafiador.

Assim, o nome e o abismo não são antônimos. O nome serve como uma ponte que construímos sobre aquilo que está além do nosso controle; o abismo, por sua vez, é aquilo que continua a existir mesmo com a ponte presente. Os PGM transformaram essa tensão em uma arte ritualística. A pesquisa transforma isso em uma ética de leitura. Entre falar e silenciar, entre refazer e deixar vazio, inicia-se a tarefa de escutar.

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