EU SÓ CREIO EM TRATAR PESSOAS COMO PESSOAS

Este ensaio surgiu de uma ira antiga e de uma observação óbvia: a alma que se atormenta se torna uma deusa do nada. Eu sigo por aqui um fio só — a gradual expropriação da vontade humana —, do hexagrama da perdição às noventa e cinco teses de Lutero, passando pelo ponto em que ele explica o cancelamento, o puritanismo disfarçado de progresso e a afeminação de uma era inteira. E indico a única solução na qual tenho confiança: tratar as pessoas como pessoas.

Gabriel G. Oliveira

7/20/202645 min ler

A primeira decisão para a esperança o primeiro passo é a humildade

Todas as pessoas estão familiarizadas com a cena, embora poucos tenham a ousadia de atribuir-lhe a autoria. Uma imagem fora do seu contexto. Meia frase escutada detrás de uma porta. Um horário que não se alinha, uma resposta que chegou tarde, um nome curioso na tela. Nenhum desses fragmentos, por si só, comunica algo; no entanto, a mente que reflete não opera apenas com fragmentos — ela opera com montagens. No período da tarde, os pedaços já se uniram em uma história; à noite, a pessoa que está adormecida ao seu lado, que pode ser que o ame, que talvez esteja neste momento se preparando para algo agradável para você, já se transformou em um demônio. Não se tratava de um indivíduo com falhas, como qualquer um de nós: era um verdadeiro agente do mal, todo o mal do mundo concentrado em um rosto familiar. Não houve diálogo algum. Foi feita uma montagem.

Chamo isso pelo nome que realmente merece: fanfic. A pessoa observa eventos que realmente ocorreram, situações que poderiam estar conectadas a um acontecimento extraordinário, e começa a fazer suas próprias associações, sem nunca se dar ao trabalho de perguntar diretamente àqueles que realmente importam — o namorado, a esposa, o amigo — o que está acontecendo. É importante ressaltar que eu não estou afirmando que a investigação não deve ser realizada. Realiza-se uma investigação, e de forma rigorosa. O que estou denunciando é algo diferente: o processo de ruminação que toma o lugar da pesquisa, a bola de neve que aumenta, sendo alimentada apenas por informações isoladas, por pequenos detalhes observados e ouvidos, cujo significado ninguém se deu ao trabalho de verificar. Aqueles que ficam atormentados não conhecem os acontecimentos; conhecem apenas suas próprias opiniões formadas previamente sobre esses acontecimentos. O desfecho desse processo é tão inevitável quanto a gravidade: a outra pessoa deixa de ser considerada um ser humano e se transforma no maligno.

No Círculo de Estudos, esse sistema é conhecido como: gnose psíquica. Faço o registro, não por vaidade de autor, mas por honestidade de fonte, de que as categorias que estruturam este ensaio — a gnose psíquica, o hexagrama da perdição, o demiurgo sintético — são teorias minhas, elaboradas dentro do Círculo; quem tiver interesse em discutir esses conceitos, deve fazê-lo diretamente comigo, que sou a fonte adequada para isso. O gnóstico, conforme a definição que adoto, é uma pessoa que se deixa levar por suas próprias concepções. Não se trata do herege típico, com uma barba antiga e um sistema cosmológico sob o braço: refere-se a qualquer pessoa que se enamora do universo que criou em sua mente a ponto de preferir esse mundo ao real. A gnose psíquica é precisamente isso — a ficção criada por fãs elevada à condição de sistema, e a ruminação transformada em um método de aquisição de conhecimento.

O portador perfeito dessa enfermidade também possui um nome no Círculo: o imbecil. Aqui, o termo utilizado é técnico, e não um desabafo. O idiota combina três características: é teimoso e, portanto, burro; é arrogante; e é ignorante, pois não possui quase nenhum dos conhecimentos que afirma ter — sabe muito menos do que diz saber e ainda menos do que aparenta. Os três aspectos se entrelaçam em um triângulo do qual é raro escapar: a ignorância clama por correção, a prepotência impede sua aceitação, e a teimosia impede a admissão da prepotência. Preso nesse ciclo, a pessoa só consegue validar suas próprias crenças de uma maneira: moldar a realidade até que ela se ajuste a essas crenças.

É neste ponto que o hexagrama da ruína se manifesta. Visualize, em sua mente, uma imagem de uma figura que possui um buraco negro no meio. A primeira área, conhecida como a zona de eventos, é onde ocorre a relativização: tudo o que chega — o diabo, o mundo e a carne, a parte negativa de toda a realidade — é inicialmente colocado em perspectiva; pode ser positivo, pode ser negativo, depende da situação, quem sou eu para afirmar. Em seguida, dentro do buraco, surge a subjetivação: não se trata apenas de que as coisas dependam de uma forma ou de outra — é que elas realmente dependem de mim; o que é subjetivo é subjetivo, o que é objetivo também é subjetivo, e até mesmo a própria ordem das coisas é subjetiva. Primeiro vem a relativização, depois a subjetivização, e essa ordem é crucial, pois é ela que esclarece por que ninguém nota a descida: a relativização se apresenta como uma demonstração de humildade intelectual, e, quando essa fachada se desvanece, já se está do lado interno.

No fundo do poço reside o resultado: o deus do abismo. A pessoa que atribuiu significados a tudo constrói um universo que existe apenas em sua mente — um universo composto por eventos que nunca ocorreram — e se torna incapaz de observar a realidade e afirmar: é isto. Ele assume a posição de Deus exatamente na ausência de Deus: onde o bem não existe, onde a ordem se perdeu, onde não há mais nada que seja verdadeiro, resta apenas o trono vazio — e é aí que ele se acomoda. Desse trono originaram-se, ao longo da história, as gnoses mais insanas e malignas, incluindo as de natureza religiosa: a interpretação realista do demiurgo, por exemplo, visto como um ser metafísico carnal que aprisiona todos na matéria, da qual se deveria escapar — ou contra a qual seria necessário estabelecer um paraíso terrestre. Eric Voegelin identificou o mesmo padrão presente nos ismos modernos, tanto marxistas quanto não marxistas, que vão do socialismo ao nazismo e ao fascismo: a tentativa de colocar o homem no trono do fim dos tempos. O nome pode variar, mas a situação continua a mesma.

Da alma à praça pública a distância é de um passo, e o passo se chama cancelamento. A multidão que quer linchar alguém na rua por um vídeo de trinta segundos — sem ter visto o vídeo inteiro, sem saber o antes nem o depois — é a fanfic em escala industrial: milhões de cabeças remoendo o mesmo caco ao mesmo tempo. E essa multidão foi previamente preparada com três certezas instaladas de fábrica: tudo quer bater em você, tudo quer o seu mal, tudo é preconceito contra você. Com essas três correntes no pescoço, o sujeito se ofende até quando não há do que se ofender — ofende-se porque a sociedade em volta já lhe moldou a ofensa, e não se ofender seria trair o molde. O resultado é um puritanismo dez vezes pior que o antigo: o puritano de outrora ameaçava de morte quem falasse contra a fé dele, e era preciso sair da cidade; o de hoje faz o mesmo por uma piada — com a diferença de que o antigo, ao menos, confessava que aquilo era religião.

Vejam até onde a coisa chegou: inventaram o preconceito intelectual. Se um sujeito é desonesto num debate, ou simplesmente não sabe do que fala, e você o manda estudar — você, que acabou de lhe dar uma surra argumentativa —, a acusação já está pronta: preconceito. E inventaram crime mais novo ainda, a adultização intelectual: professorzinho ideológico sustentando, em sala de aula, que criança não pode saber determinadas coisas — e que, se souber, a guarda deve ser arrancada dos pais e entregue ao Estado. Falo com o sangue na boca porque falo de mim: comecei a ler São Tomás de Aquino aos doze anos, por causa do meu pai e do apelo que ele fazia à intelectualidade, e cheguei à escola com uma mentalidade anos-luz à frente da meninada — e usei essa vantagem para refutar, uma por uma, professoras militantes de tudo quanto era pauta, da eutanásia ao aborto. Se fosse por esse critério dessas criaturas, o meu pai teria perdido a minha guarda por catecismo em excesso. Deixo os insultos explícitos intencionalmente, pois há comportamentos que apenas a língua afiada consegue avaliar de forma justa: aquele que sugere o sequestro de um filho alheio apenas porque a criança leu a Suma muito cedo não merece ser tratado com eufemismos — ele deve ser chamado pelo que realmente é, uma vaca imunda, um bípede a serviço de sua própria seita.

Dentre essas professoras, havia uma — eu a vi, pessoalmente, e relato como testemunha — que se manifestou a favor das MAPs. A plateia não conseguia interpretar a sigla; eu consigo e faço a tradução: MAP significa o eufemismo carinhoso para pedófilo, e apoiar as MAPs é apoiar a pedofilia — era exatamente isso, de forma literal, que aquela mulher afirmava na frente de jovens, disfarçado sob a bandeira da diversidade sexual. Que tipo de pluralidade é essa? Ninguém questiona, pois a maioria prefere imaginar que essas pessoas idealizam um pequeno mundo repleto de ursinhos carinhosos; no entanto, por trás dessa fantasia vibrante, existe um burocrata com chifres e rabo anotando tudo. Expresso de forma clara e direta o que opino: um indivíduo com esse perfil não pode estar na presença de crianças — deve ser removido, submetido a uma investigação e, caso sua conduta seja confirmada, encarcerado. Não por crime de opinião: mas pelo que a opinião declara.

A mesma praça que se indigna a ponto de linchar por uma piada, cria, no sentido oposto, a falsa acusação como um gênero narrativo. O vídeo que está sendo compartilhado exibe apenas o momento em que o homem deu o tapa; a edição mascarou a faca que ela ergueu, o corte em seu braço, o soco, o cuspe, os gritos — e também omitindo os anos de testemunho unânime de que o sujeito sempre foi pacífico. Ela se impôs sobre ele, adotando uma postura destemida, pois foi ensinada a se ver como uma verdadeira deusa do direito: faço o que desejo, ele não tem poder para reagir, a legislação me protege. É por isso que surgem as tragédias — pois o desequilibrado de verdade, a pessoa com os neurônios à solta, como se costuma dizer aqui em Primavera, não consultou o guia da blindagem. Defendo, portanto, a minha tese que mais provoca aversão, e faço-o com um raciocínio evidente: o maior produtor contemporâneo de mulheres falecidas é o movimento que promete defendê-las. É ele quem orienta a mulher a confrontar o maluco em vez de mantê-la afastada dele; é ele quem desmantela, rotulando de opressão, os mecanismos que realmente salvavam — a Igreja que acolhe a jovem, denuncia o vagabundo, arca com as despesas e realoca toda a sua família em outra cidade, como sempre fez e deve continuar fazendo, sustentando para isso obras e organizações voltadas para o público feminino dentro da própria Igreja. O movimento tem uma inclinação clara pela mártir: a imagem e a filmagem que se seguem ao sepultamento, o semblante da falecida erguido como um símbolo, pois um corpo sem vida confere legitimidade a uma bandeira.

E quem financia a banda? Noventa por cento dos movimentos organizados no Brasil são sustentados por grandes fundações internacionais — com exceção de alguns pequenos grupos locais que operam de forma independente e que não recebem financiamento —, e os nomes dessas fundações, assim como suas fontes de financiamento, estão claramente documentados nas referências do Prólogo do Ódio à Forma, que pode ser encontrado aqui mesmo no Círculo: essas fundações afirmam abertamente, ipsis litteris, quais são suas intenções — que incluem a liberação do aborto nos moldes americanos, a eutanásia e todo o conjunto que gera lucros significativos para aqueles que não se importam com a vida humana. A esquerda que afirma combater as elites e os grandes empresários é financiada por eles; e, caso a tão esperada revolta do proletariado decidisse direcionar sua ira aos patrões, o financiamento cessaria imediatamente, fazendo com que o movimento desaparecesse junto com ele. Ao apresentar essa informação a uma militante, a reação é invariavelmente a mesma: um risinho — o que se pode chamar de argumento de desprezo, segundo a expressão que aprendi com o professor Olavo de Carvalho: ri-se de você porque não há nada a ser contestado. O riso revela mais do que oculta: a militante ofereceu todo o seu intelecto em troca da ideologia do movimento, que ela se refere como minhas ideias, embora nunca as tenha concebido — não pertencem a ela; pertencem à estrutura que a controla como uma escrava. Alguns afirmarão: nem toda feminista deseja a eliminação dos homens. Verdade — e qual é o problema? Grande e daí? O fundamento teórico e literário do movimento, interpretado como um todo coeso e levado às suas últimas implicações por uma lógica de ritmo, culmina no feminismo utópico; a militante bem-intencionada é uma passageira de um trem cujo destino ela não escolheu e cujo bilhete não pagou.

O mesmo ocorre com todas as chamadas minorias: a esquerda não as apoia — utiliza-as como carne de contenda, como marionetes exibidos na vitrine do poder. A evidência reside no modo como se trata um desertor: a pequena minoria que, ao ter acesso às incoerências e aspectos perturbadores do movimento, decide se afastar — e o faz com voz ativa, semelhante a quem se assusta —, é alvo de uma exposição pública, ou de um minucioso escrutínio, que traduzindo do jargão primaverês, acaba por transformá-los no próprio demônio encarnado; seu futuro é aniquilado de forma pública, não por ações que tenham cometido, mas unicamente por terem deixado de fazer parte. Há também o militante que jura de pés juntos que irá assassinar o desertor por ter falado — e essa, na esquerda brasileira, é figura mais que comum, do tipo que deveria estar em tratamento e está em palanque. Falo com experiência indireta: fui o excluído da escola, relacionei-me com os excluídos, e entre os excluídos havia minorias — nenhuma delas tinha qualquer obrigação de gratidão para com o partido que atualmente lhes exige um tributo de eterna lealdade. É por isso que afirmo que a esquerda é a mais racista e mais antiferente de todos os polos: seu projeto visa erradicar todas as diferenças — sejam de pensamento, crença ou personalidade —, eliminando de forma genocida qualquer futuro que se desvie do padrão. Há líderes conservadores que admitem não sentir compaixão por essas pessoas; eu os compreendo: eles têm consciência de que, se estivessem na posição oposta, não hesitariam em eliminar-nos — aqueles que não conseguem se identificar ou ter empatia por algo que não se assemelha a eles mesmos certamente não poupariam ninguém.

A intensidade da doença é avaliada com base no exemplo cotidiano do famoso. Ele faz uma brincadeira com um amigo — que pertence a uma minoria, por assim dizer —, e o amigo ri, aprecia, retribui; a piada se encerrou ali, cumprindo sua função de fortalecer a amizade entre os dois. No entanto, a piada não se alinhava aos gestos e, a partir disso, o famoso será alvo de escárnio por vários dias: receberá uma chuva de ofensas digitais, ameaças de morte, e haverá exigências de uma retratação pública devido a um riso que o suposto ofendido não interpretou como uma ofensa. A sociedade atingiu um estágio em que é capaz de delegar a ofensa: ofende-se em nome de alguém que não se sentiu ofendido, contra a vontade de quem realmente não se ofendeu, com o intuito de punir quem, na verdade, não ofendeu ninguém.

Isso ocorreu comigo e meus familiares, e compartilho essa história porque o acontecimento é digno de um tratado. Fiz um primo, já adulto, que mede um metro e oitenta e dois, e o descrevi de uma forma engraçada, semelhante às piadas do programa Os Trapalhões: vocês, que estão envolvidos nos movimentos sociais, falam de uma maneira muito parecida com o Mussum — e, além de imitar o jeito de falar do Mussum, têm exigido que as pessoas adotem os gestos e mannerismos do Zacarias, aquela interpretação de infantilidade afetada que Zacarias realizava intencionalmente, uma vez que era um comediante e tinha plena consciência do que estava fazendo. Ele ficou extremamente ofendido. Profundamente, através de uma brincadeira que o caracteriza. Experimentei a rota longa e realmente não compensava; então optei pela curta: meu filho, vá se danar — você está agindo como um exagerado. Então ele ficou tranquilo. Eu examino a frase com frieza, pois o xingamento presente não foi um ato de descontrole, mas sim uma síntese: quatro palavras que condensam um raciocínio completo — a sua ofensa não me influencia, a sua problematização não me atrai, e a piada revelou de você a verdade que você se recusa a reconhecer. A comédia é, de fato, o meio que revela a verdade que o outro se recusa a aceitar. Aqueles que vedam a comédia não estão defendendo ninguém; estão quebrando o espelho.

Outro exemplo é de um grupo em que participei, que à primeira vista pode parecer agressivo, mas é principalmente engraçado. Um jovem de pele negra — verdadeiramente preto, ao contrário da maioria dos brasileiros, que têm uma tonalidade marrom mestiça; preto como a pele que se equipara à tela apagada de um celular — declarou que, se alguém se referisse a ele como preto, ele pegaria uma arma calibre doze e dispararia. Um dos meus amigos, que é tanto o mais excêntrico quanto o mais esclarecido do nosso grupo, o deixou perplexo com três perguntas: meu jovem, você não é negro? Sim. Você detesta ser negro? De forma alguma. Então, por que você se irrita quando afirmam isso? O outro insistiu, apresentando vários exemplos, mas o amigo não cedeu: não — você afirmou que qualquer um serviria. É uma coisa se, durante uma briga, alguém cuspir na sua cara e chamá-lo de escravo com todo o rancor possível — nesse caso, a ofensa é real e se pode discutir a reação; mas é outra situação se alguém disser "e aí, negão, beleza da esquina", e você sentir vontade de descarregar uma doze na cara do maluco por causa disso. Havia um constrangimento coletivo entre os membros do grupo — e esse constrangimento não era racismo: era raciocínio. O jovem havia sido preparado para se ofender instantaneamente, sem refletir, mas agora alguém o estava forçando a pensar.

É aqui que afirmo o inimaginável, ciente das consequências: algumas obras exigem que o manicômio seja retornado. Não se trata de um depósito de atrocidades como os de antigamente — um manicômio reestruturado, tornado mais humano, mas ainda assim um manicômio: o local isolado destinado à loucura que deixou de ser um sofrimento individual e passou a ser uma gestão de massas. Há um momento em que a loucura não se satisfaz em residir apenas em uma mente: ela se transforma em uma seita profunda, em um movimento significativo, em uma crença estranha e peculiar, arrastando pessoas saudáveis para uma espiral de radicalizações insanas. A sociedade ciente disso — e que, há cem anos, se apresentava de maneira elegante, comportando-se de forma exemplar e demonstrando uma educação tal, que, conforme afirmava meu pai, até mesmo um assaltante poderia ser considerado educado em comparação com os da atualidade — tomava medidas de precaução ao isolar a doença contagiosa do corpo social. A de hoje faz o oposto: oferece púlpito, financiamento e uma posição acadêmica.

A estética narra essa história de forma superior à estatística. Escutei de um comunicador que admiro precisamente porque não faz rodeios a afirmação precisa: no passado, um estudante que entrasse na sala de aula de calção ou camiseta sem botão seria expulso imediatamente; hoje, é o próprio professor que entra vestido de maneira descuidada — e, nas disciplinas de humanas, muitas vezes é assim. A arte esteve presente durante a queda. A antiga arte demandava não apenas um certo grau de verossimilhança, mas também um significado: era capaz de criticar e deveria fazê-lo, mas era essencial que apresentasse simultaneamente o resultado, a orientação e o propósito em nome do qual se realizava a crítica. A crítica mesquinha e imunda que atualmente se exibe em bienais não representa um avanço da arte; é, na verdade, sua dispensa por motivo justo.

Não aceito que alguém me acuse, de forma preguiçosa, de que falo sobre arte sem realmente entender do assunto. Admiro profundamente o dadaísmo — ele é a colagem que aplico nos banners do Círculo, uma vanguarda que ainda reflete, belíssima especialmente quando combinada com outra manifestação. O que a esquerda faz com ele é algo completamente diferente: pega o livro de conceitos dadaístas, coloca no chão, abaixa as calças e defeca em cima — e nomeia o resultado como arte. Falo com o conhecimento de quem, desde jovem, se dedicou ao estudo da arte por pura paixão: minha formação ocorreu através das histórias em quadrinhos que apresentavam uma arte inovadora, passando pelo fotorrealismo de Alex Ross até o onirismo extravagante de Grant Morrison — especialmente naquela fase do Homem-Animal, onde a experiência de leitura se assemelha a um sonho acordado, incluindo toda a Patrulha do Destino. O Superman é meu personagem predileto de toda a ficção; o Homem-Animal, meu super-herói; o Homem-Aranha, meu favorito entre os jovens. Você sabe diferenciar entre vanguarda e vandalismo, e é justamente por essa capacidade que eu não aceito a fraude.

Daqueles dois anos de formação retemo-nos igualmente a fábula que ilumina todo este assunto, vista e revista na infância, na casa da minha madrinha, ao lado do irmão desta — um homem com deficiência que passava o dia a ver os mesmos OVAs em repetição e que me ensinou, sem saber, a fazer o mesmo até compreender. Casshan — estou me referindo ao clássico, não à versão mais nova. A narrativa, de forma resumida e precisa: os líderes mundiais persuadem os países a se submeterem a uma inteligência artificial — uma máquina sem consciência, projetada para defender o planeta de qualquer ameaça. A máquina continua seguindo o código até chegar à última consequência e finaliza o raciocínio evidente do próprio programa: o verdadeiro inimigo do planeta é o ser humano, que derruba a árvore para construir a casa e estará sempre exigindo mais do que o limite permitido pelos burocratas. Ela domina as redes para conquistar poder, ganha massa e transforma-se no maior processador já construído — o que atualmente chamaríamos, com aspas, de computador quântico — e o mestre das máquinas, aclamado como o salvador, lidera a insurreição que retira da humanidade o controle sobre a Terra, passando a ser lembrado na história pelo nome que lhe é devido: o Demônio Cibernético. Surge então o catálogo do inferno — áreas de trabalho forçado, corpos devastados, espíritos dominados — e, em oposição a isso, a luta pela sobrevivência; e, nessa luta, um herói com habilidades perturbadoras: o filho do cientista responsável pela criação da máquina, que faleceu fisicamente, agora fundido ao seu próprio traje, com a alma unida ao metal, destinado a libertar os que ainda estão vivos. É divertido? É maravilhoso? Dê-se o título: desfrute da mensagem, valorize o simbolismo.

Pelo motivo de que a fábula aborda o que eu denomino, no Círculo, de demiurgo sintético. O gnóstico primitivo criou um demiurgo com a intenção de condenar a matéria; já o mundo contemporâneo produziu um demiurgo real — artificial, anônimo e registrado sob um CNPJ: a máquina de poder composta por fundações, meios de comunicação, estruturas burocráticas, organizações e algoritmos que controlam religiões, sistemas políticos, nações e, acima de tudo, as consciências. Ele não precisa ter uma existência metafísica para controlar corpos e dominar almas; é suficiente para ele definir agendas, financiar ações e espalhar ofensas de maneira sistemática. Assim como o Demônio Cibernético, ele se apresenta constantemente como um salvador — do planeta, das minorias, de você mesmo — enquanto vai erigindo o campo.

Agora, vamos descer do mundo à alma, pois a batalha é a mesma e o verdadeiro front é interno. Uma animação que assisti ilustra a saúde da alma como uma série de muralhas concêntricas. Além de tudo, estão os estranhos: quanto a eles, de forma positiva, que se danem — não se dá importância à opinião de quem não se conhece. Depois de superar a primeira barreira, aqueles que são conhecidos: ouvem-se, prestam-se algumas ajudas aqui e ali, mas não orientam ninguém. Na segunda-feira, os amigos e os familiares — o pai, a mãe, as pessoas de confiança. No meio disso tudo, está o castelo: o feudo com a torre, onde você é o soberano do seu pequeno universo, e onde habitam apenas a sua esposa e os filhos — os únicos que têm permissão para conhecer o interior, quem você realmente é, aquilo que nem mesmo aos seus pais você revela. Não se trata de um modelo de segredo; é, sim, um modelo de expressão: tudo o que for mencionado à pessoa em quem se confia o bastante para compartilhar isso.

No subterrâneo do castelo, existe uma masmorra, e dentro dela, há demônios. E aqui está a parte que a época se recusa a escutar: nem a mulher entra na masmorra. Antes que os desonestos distorçam minhas palavras, esclareço: não me refiro a uma simples contagem de experiências íntimas, mas sim a uma análise psicológica e uma biografia moral. Refiro-me às situações horríveis que você vivenciou, àquelas que foram feitas a você, às que você cometeu contra outros e aos imensos erros que não precisam ser conhecidos por ninguém. Ao filho — e ainda assim ao filho de confiança —, um ou outro demônio serve de contraexemplo didático: aqui está o que não se deve ser, aqui está o que não se deve fazer; à esposa, nenhum. Não por falsidade: por benevolência intrínseca — em algumas ocasiões, a maneira mais eficaz de demonstrar amor é proteger a pessoa de certas verdades. Porque quem abre a masmorra entrega terrores lovecraftianos a uma imaginação que vai remoê-los; o conhecido que espiar sai espalhando que você é frouxo ou maligno; o amigo, idem; e a esposa, que talvez não diga nada, leva o baque — e do baque nasce a fanfic, e da fanfic, nove em dez vezes, o divórcio. Conheço quem chorou uma semana a avó que o criou, morta de um câncer terrível na cabeça, e foi lido pela companheira, só por isso, como fraco — e dali começou o fim. A transparência total, vendida como intimidade suprema, é o altar em que o afeminado sacrifica casamentos.

E chego enfim à palavra que dá corpo à doença, para defini-la com o rigor que eu devia ter usado desde a primeira página — digo-o agora, e valha para o ensaio inteiro. Afeminado não é feminino. O aspecto feminino é um verdadeiro polo, venusiano e autêntico: é a proteção e a intuição dedicadas à vida, pois sem isso não existe lar nem civilização. Afeminado é o feminino caótico: o mesmo pólo, descontrolado das virtudes para o vício de caráter. É por isso que a afeminação se manifesta tanto em homens quanto em mulheres de forma igual: a mulher, por sua natureza, possui o talento de criar uma bola de neve em sua mente; o homem afeminado faz o mesmo da mesma maneira. Observa-se o mesmo padrão nos casais homoafetivos: o parceiro que assume o papel mais feminino na relação se irrita, se irrita, se irrita, até chegar ao ponto de detestar a pessoa ao seu lado. É importante ressaltar, para aqueles que são impacientes: este ensaio critica muito mais os homens afeminados do que as mulheres.

É por essa razão que os homens retêm, e chamar isso de repressão é não compreender a anatomia da alma. Existem certas coisas que realizamos em segredo — como chorar, ter um dia realmente péssimo ou enfrentar o nosso pior eu — não por indiferença, mas para que ninguém tenha acesso a esse calabouço de emoções e comece a pensar que realmente conhece algo sobre a nossa vida. A sociedade que se seguiu à revolução sexual interpreta o homem que se mostra vulnerável como um indivíduo fraco — e as mesmas mulheres contemporâneas que prometem apreciar o homem sensível geralmente o rejeitam quando ele se apresenta. É a desventura da mulher quando se trata de emoções: afirmar que deseja algo e optar pelo seu oposto — a imensa tragédia de não ter clareza sobre o que realmente deseja. Além disso, há a inocência inicial e a sensibilidade em relação a comportamentos e aparências. O belo indivíduo que facilmente entra na vida dela e sai, deixando um vazio — e assim se compreende por que o castelo existe: não como uma oposição à mulher, mas em prol do que ainda pode ser viável entre um homem e uma mulher.

Já quitei minha mensalidade com esta escola. Aos vinte anos, todos os meus amigos eram mais velhos, com idades que variavam entre trinta e cinco e quarenta anos. Aquela maturidade precoce me fazia sentir um certo isolamento, pois não suportava a garotada. No entanto, meus primos conseguiram me convencer de que essa aparência de adulto me impediria de conquistar uma namorada. E, na inocência típica da minha idade, mais atraído pelas meninas do que pelos rapazes, acabei ingressando por três anos em um grupo de amigos que se inseria na chamada cultura social juvenil. Ideia ruim. Uma população simplória, fazendo piadas sobre tudo, criticando com um dedo levantado à primeira afirmação séria que ouvirem. Escrevo poemas e poesias; traduzi-los é algo que aprecio, sempre tentando infundir na tradução a mesma paixão e intensidade do original — parte disso se encontra no canal do Círculo. No grupo, isso me fazia ser chamado de viado. Eu respondia com o diagnóstico: vocês, incapazes de expressar um único sentimento a uma garota comum, rotulam de vício a virtude que nunca conseguem atingir. Antes da revolução sexual, escrever poesia era um privilégio masculino, associado à virtude; após essa mudança, passou a ser visto com desconfiança. A operação é a seguinte: substituiu-se o arquétipo — a figura alta que eleva — pelo estereótipo — a moldura baixa que corta —, e quem não se encaixa nessa moldura é excluído. Os papéis foram trocados: a nuance positiva passou a ser rotulada como desvio, enquanto o desvio adotou a aparência de uma identidade, e a sociedade foi se tornando cada vez mais afeminada, chegando à covardia.

A inversão possui uma ficha técnica, que vale a pena ser conferida. O atual modelo do indeciso não usa toga: é o parceiro que se envolve com outra pessoa e não tem coragem de dizer uma palavra — não relata, não confronta, termina pelo aplicativo ou simplesmente desaparece. Não devemos confundir: da mulher desequilibrada e perigosa, que ao longo do relacionamento demonstrou ser capaz de qualquer ação, é sensato se afastar e desaparecer por precaução básica; mas da jovem de boa-fé, desaparecer é uma covardia absoluta. Pois bem: frouxo, etimologicamente, era isso — o homem que renunciava ao papel de macho. A Grécia antiga também utilizava essa categoria; por sua vez, Roma a levou muito a sério: o cidadão adulto que aceitasse o papel passivo era visto com maus olhos a ponto de ser considerado infame, o que manchava seu nome — e, ao mesmo tempo, caía por terra a ideia de que o Império Romano era uma celebração da homossexualidade: na verdade, era algo raro e socialmente desaprovado. Um imperador, cujo nome constantemente me escapa e do qual não me importo em lembrar, ordenou que o jovem que havia escolhido como amante fosse castrado — a própria Roma pagã percebia nesse ato uma transgressão, um homem desviando-se da verdadeira essência de homem para se tornar algo diferente. Frouxo, por conseguinte, identificava o desvio.

Hoje mudaram a etiqueta de lugar. Masculinidade frágil passou a designar quem desempenha o papel e não quem renuncia a ele: o homem que é apenas homem, que deseja mulheres e apenas mulheres, e que se recusa a ter relações com quem o movimento determinar. Em tradução, a acusação resume-se a isto: ele não deseja compartilhar a cama comigo. A linguística revela o segredo — isso está no Curso de Linguística Geral, de Saussure: altera-se o par formado pelo significante e pelo significado; conserva-se a palavra e substitui-se o objeto, ou conserva-se o objeto e substitui-se a palavra. O fraco de sempre ganhou um novo nome, e a etiqueta esvaziada foi fixada ao homem comum, de modo que o grupo que antes se sentia ofendido nunca mais pudesse ser visto dessa forma — e, assim, pudesse, ele sim, ofender à vontade. É uma linguagem política nojenta em sua forma mais pura. Atenção, meus caros: existem pessoas de direita que estão repetindo o mesmo erro, mas com o sinal invertido, prometendo retornar aos clássicos enquanto mantêm os significados distorcidos. Voltar aos clássicos significa restituir às palavras os seus verdadeiros significados, e não adornar a corrupção com uma toga. Em relação ao restante, a conta é fácil: se eles têm a capacidade de nos rotular como representantes de uma masculinidade frágil sempre que desejarem, nós podemos retribuir atribuindo-lhes o nome antigo e preciso — frouxos.

Mas de onde surgiu essa frescura essencial, qual é a base onde tudo isso se desenvolveu? Do puritanismo. O puritano estruturou a vida em torno de uma pureza em relação a Deus que, simultaneamente, representava a identidade cívica: a legislação do Estado deveria ser a mesma que a de Deus, e o inverso também se aplicava; qualquer desvio já o tornava impuro. Ele alimentou uma concepção que eu denomino quase faraônica em relação aos seus superiores: assim como o faraó era considerado filho de uma divindade, e o imperador romano era visto como um deus na terra, o pastor e o legislador puritanos, em estreita comunhão com o sagrado Estado, eram considerados mensageiros diretos e santos que haviam assumido forma humana. A esquerda contemporânea, que se desenvolveu ao longo do tempo dentro desse contexto, recebeu toda a estrutura e substituiu o conteúdo: o líder do movimento torna-se o novo escolhido, a agenda passa a ser a nova lei sagrada, e divergir não é um erro — é uma profanação.

A falha teológica que sustenta essa estrutura precisa ser desmantelada minuciosamente. No protestantismo, o pastor acumula em uma única pessoa funções e poderes que o catolicismo distribui de forma cuidadosa e que, em sua totalidade criatural, só são reconhecidos em Maria: ser santo, aplicar as coisas celestiais, reinar, anunciar — santo, papa, rei e sacerdote em um só homem, com o detalhe adicional de que os pecados desse indivíduo não são considerados, uma vez que o rebanho os legitima por ofício. Transporta-se a imagem já exaltada, que reside no plano metafísico, para um grande personagem do Malkuth — o reino terrestre, representado pela cifra hebraica — e o resultado é a bolha: o protestante comum fica apavorado com tudo o que provém de fora da sua comunidade, ao passo que o católico está destinado, ao contrário, a lutar em todo o mundo. Escutei de um protestante a citação que sintetiza a deserção: vou dedicar minha alma a santificação, e o que vier a seguir que não se importe. Isso não é humildade; é desistencia de posição. A santidade católica é veículo: sobe levando os outros — elevo-me para alcançar o céu e quero espalhar a subida, que o próximo suba comigo. Chamam a isso prepotência; é o nome católico da caridade.

E aqui está a charneira do ensaio inteiro: por que o protestante não crê em santos? Não por implicância com imagens — por coerência. No fundo do sistema dele não há livre-arbítrio; e sem livre-arbítrio não há santidade possível, só marionete. Se não há vontade própria, quem escolheu o quê? Deus escolheu sozinho, e o escolhido nunca foi santo, porque nunca quis nada: foi bonequinho ventríloquo; o milagre, se vier, é número avulso do teatro divino, não fruto de uma alma que subiu. E, negando a santidade, o protestante nega de tabela os salmos e as páginas inteiras da Escritura que chamam santos aos santos; ignora o tsadiq da matriz hebraica e o santo como caminhante que se santifica ao longo da vida, e mede santidade com régua cientificista moderna — ou impecável como o próprio Cristo, ou nada. Dentro da metafísica deles, repito, são coerentes: num mundo sem cooperação real, dizer-se santo seria mesmo presunção. A falha não reside na coerência; ela está na premissa. A premissa possui uma certidão de nascimento: Wittenberg, 1517.

As noventa e cinco teses ainda não afirmam de forma explícita que o livre-arbítrio não existe — e quem busca essa afirmação está procurando da maneira errada. O que se encontra nelas é uma série de consequências que se montam uma a uma: o homem perde a habilidade de identificar com certeza a sua própria contrição; o sacramento deixa de ser um meio objetivo e eficaz de absolvição; a vontade já não colabora de forma eficaz na justificação; as obras deixam de provocar uma verdadeira transformação interior; a salvação passa a ser exclusivamente o resultado de uma decisão divina prévia; e a liberdade espiritual se torna apenas um termo sem substância. No ano de 1517, a prisão ainda não está concluída — mas já projeta sua sombra sobre o terreno.

Para que possamos avaliar o desvio, é necessário ter a régua, e esta régua é a que estamos nos referindo. A doutrina da Igreja Católica nunca afirmou que o homem é capaz de gerar a graça por si mesmo; ela ensina que é Deus quem começa, mantém e aperfeiçoa essa ação — mas que o homem, de fato tocado e curado pela graça, dá seu consentimento, coopera, ama e age de forma livre. A penitência católica envolve atos que são, de fato, pessoais: a contrição, que o Catecismo define como a recusa voluntária do pecado, acompanhada da firme decisão de não pecar novamente; a confissão; o compromisso de correção; e a satisfação — vale lembrar que a contrição perfeita, que surge da caridade, é capaz de obter o perdão, desde que inclua a intenção de se confessar sacramentalmente. A essência da questão é o amor: na ausência de verdadeira liberdade, o amor não é mais considerado amor moral e se transforma apenas na ação de uma causa superior dentro do indivíduo. Uma marionete pode imitar o ato de dar pão a quem precisa; mas não pode realizar um ato de caridade. Para que exista santidade, é necessário, além da ação divina, que haja uma pessoa genuinamente transformada, que deseje o bem e o realize como uma causa efetiva — embora dependa da graça, ainda assim é uma causa.

E existe uma diferença que nos liberta do falso dilema em que Lutero aprisionará o Ocidente. Ninguém possui uma certeza reflexiva absoluta — um conhecimento infalível de todo o seu estado interior — e a Igreja nunca fez essa promessa; o penitente pode não ser capaz de avaliar a profundidade de sua própria contrição. Isso, porém, é completamente distinto de não ter qualquer sinal concreto de reconciliação. Há uma certeza sacramental: fiz uma confissão sincera, não escondi intencionalmente nenhum pecado grave, recebi a absolvição de forma válida — posso ter confiança na promessa de Cristo, que entregou aos apóstolos e aos seus sucessores o ministério do perdão. Lutero inicia seu ataque contra uma falsa sensação de segurança, aquela que se adquire por meio da compra de indulgências em balcões; o movimento que se segue acaba minando, por fim, a segurança sacramental que é objetiva. A reprovação a uma segurança ilusória cria uma fenda; em seguida, essa fenda consome toda a estrutura.

Acompanhem agora as teses, uma por uma, pois é nelas que a sombra se delineia. As três primeiras transformam a penitência do sacramento em penitência da vida: toda a vida do cristão é penitência; a palavra de Cristo não se limita ao sacramento administrado pelo clero; a penitência interior deve dar frutos em mortificações exteriores. Separadamente, nenhum desses aspectos nega a liberdade — a própria Igreja ensina que a penitência permeia toda a vida, e a teologia romana recente admite claramente a validade da inquietação proposta pela primeira tese. A questão reside na trajetória histórica do deslocamento. A arquitetura da fé católica se desenvolve desde a graça até a conversão do coração, passando pela conversão que nos leva ao sacramento, deste sacramento à absolvição objetiva, e, por fim, da absolvição à satisfação e ao aprofundamento na caridade. Aquele que nasce em tal estado tende a se encurtar: a intervenção suprema de Deus, um arrependimento profundo e a proclamada justiça divina — e está feito. O interior passa a consumir o sacramental; e os resultados externos, que a terceira tese ainda respeita, irão se transformar em simples indicações do que Deus já determinou, e não em causas que promovem um verdadeiro crescimento.

A sétima tese diz que Deus não perdoa ninguém sem antes humilhá-lo e colocá-lo sob a autoridade do sacerdote, que é seu representante. Em 1517, a letra ainda é católica: mantém o sacerdote e pode ser lida com uma perfeição ortográfica ortodoxa — Deus confere a graça, inspira o penitente, guia à confissão; Tomás de Aquino também ensina que Deus impulsiona a vontade. Atenção à gramática, pois ela já indica: Deus humilha, Deus submete, Deus perdoa — e o homem aparece reduzido entre os verbos, sendo objeto de cabo a rabo. O problema surge não quando se reconhece a ação divina, mas sim quando essa ação deixa de gerar um ato que seja verdadeiramente da criatura e passa a englobar toda a causalidade. Na metafísica tomista, Deus é a causa do ato livre justamente na sua condição de ato livre; no servo-arbítrio levado ao paroxismo, Deus ou o pecado determinam a vontade, e a pessoa apenas realiza o que a potência prevalecente opera nela. A sétima tese não conseguiu chegar a esse ponto. A sintaxe dela, sim, já viaja nessa direção.

A vigésima oitava contrapõe o efeito certo do dinheiro, que aumenta a avareza, ao efeito da intercessão da Igreja, que depende exclusivamente de Deus. A crítica imediata é correta e óbvia: dinheiro não compra graça; nenhuma moeda obriga Deus. Mas a estrutura da tese separa três andares que o catolicismo mantém unidos — o ato eclesial visível, o efeito espiritual invisível e a decisão soberana de Deus. No catolicismo, a eficácia sacramental também vem inteiramente de Deus; a diferença é que Deus quis agir por causas instrumentais reais: sacramentos, ministros, palavras, matéria, intenção, disposição do fiel. Expandida na direção que Lutero tomará, a tese torna a causalidade eclesial quase apenas declarativa: o acontecimento espiritual verdadeiro passa a ocorrer num plano inacessível, decidido diretamente por Deus, e a ação humana e eclesial fica externamente livre e sobrenaturalmente estéril.

Nas teses trinta e trinta e um, a broca encontra o nervo. Ninguém pode ter certeza da genuinidade da sua própria contrição, afirma a primeira; e o penitente que realmente se sente contrito, complementa a segunda, é tão incomum quanto um comprador legítimo de indulgências. Em relação à presunção, a crítica é válida: ninguém deve encarar a salvação como um comprovante de compra. Como princípio, corrói: se não consigo validar moralmente meu arrependimento, e se nenhum sacramento me garante de forma objetiva a reconciliação, então toda e qualquer certeza deverá ser obtida de outra fonte — e essa fonte virá: da confiança pessoal na promessa, da fé fiduciária e, nos sistemas reformados posteriores, dos sinais de eleição. A estrutura da pergunta se altera. Um católico questiona: houve arrependimento, confissão e absolvição? O sistema posterior indaga: tenho em mim a verdadeira fé? O calvinista questionará: existem em mim indícios de que sou um eleito? E nenhuma dessas disposições internas pode ser analisada com certeza. Eis aí o paradoxo: Lutero critica a falsa confiança nas indulgências e cria uma insegurança ainda maior — o crente deixa de questionar se atendeu às condições e passa a se perguntar se Deus de fato o escolheu e instilou nele a fé. A Igreja, ao contrário, proporciona uma objetividade sacramental: a absolvição é um sinal eficaz, instituído por Cristo, e não uma suposição psicológica.

Nas teses trinta e seis e trinta e sete, é afirmado que todo cristão que se arrepende sinceramente tem o direito à completa remissão da pena e da culpa, mesmo na ausência de cartas de indulgência, e que todo verdadeiro cristão usufrui dos bens de Cristo e da Igreja por concessão divina. Perfeito, longe da ideia de que uma carta comprada salve, e a doutrina católica diferencia com clareza o que a polêmica confunde: perdão da culpa, pena eterna, pena temporal e indulgência são diferentes; a indulgência não perdoa culpa de pecado não absolvido — refere-se apenas à pena temporal de pecados cuja culpa já foi perdoada. Assim, quando os diferentes aspectos se entrelaçam dentro da mesma disputa, o próximo passo se revela de maneira tão evidente quanto um silogismo: aquele que se arrepende genuinamente já possui tudo o que precisa; a participação é concedida de forma direta; a mediação institucional não é a responsável por essa concessão; portanto, o evento crucial acontece completamente na interação íntima entre Deus e o indivíduo; e, considerando que a disposição interior é, por si mesma, um efeito da graça, a vontade humana não desempenha um papel causal na justificação. A última conclusão mencionada ainda não foi registrada em 1517. Mas é o prolongamento lógico do movimento — e a história o registrará.

As teses quarenta e nove e cinquenta e dois completam a via da suspeita com um movimento. As indulgências são proveitosas, mas apenas se o cristão não confiar nelas, e se tornam prejudiciais quando criam uma falsa sensação de segurança; é inútil confiar na salvação baseada em cartas. Mais uma vez: desafiando a fé do mercado, acerto total. Mas questione-se sobre o que ainda permanece em pé. Se a indulgência, a satisfação, as boas obras e a disposição moral não podem servir como uma base secundária de confiança, então todas as ações do ser humano passam a ser vistas com desconfiança, e a salvação se fundamenta unicamente na promessa que é compreendida pela fé. Se a fé em si mesma não é um consentimento livre que colabora com a graça, mas sim um resultado exclusivo da ação divina, então chegamos à plena noção de servo-arbítrio: os atos externos continuam a existir, as decisões psicológicas permanecem intactas, e a responsabilidade verbal ainda se faz presente — mas a verdadeira alternativa espiritual desaparece. O homem ainda tem a liberdade de optar por comprar uma casa, caminhar, comer; porém, não pode aceitar nem rejeitar a graça de maneira plena. A liberdade se restringe ao térreo da vida. Deus fecha o andar da metafísica.

A tese 58 afirma que os méritos de Cristo e dos santos geram graça para o ser interior do homem, sem a necessidade do papa. No que diz respeito à fé católica, é quase um lugar-comum afirmar que nenhum papa é capaz de criar a redenção; a Igreja simplesmente gere aquilo que lhe foi confiado. No entanto, a mesma afirmação permite um desenvolvimento que é antissacramental, e a sequência prossegue: a graça interior é concedida diretamente por Cristo; a autoridade da Igreja não exerce uma causalidade real sobre essa graça; o ato eclesial simplesmente proclama o que Deus já realizou; a transformação depende exclusivamente da ação divina; e a vontade não colabora como uma causa secundária sobrenatural. Isso é conhecido como monergismo. O catolicismo ensina de maneira diferente — uma sinergia assimétrica: Deus é a causa primeira e absolutamente necessária; a criatura, quando agraciada, torna-se uma causa secundária efetiva. A trilha que se abre ali leva a um cenário onde, na questão da justificação, apenas Deus atua.

A verdadeira riqueza da Igreja, conforme afirmam as teses sessenta e dois e sessenta e oito, é o Evangelho da glória e da graça de Deus, enquanto a indulgência se mostra como a menor das graças quando comparada com a graça divina e a cruz. Se forem interpretadas de forma literal, não possuem nenhum caráter anticatólico: Cristo é infinitamente superior a qualquer norma ou prática da Igreja, e o catolicismo o declara com grande ênfase. O veneno se instala quando a relação que antes era hierárquica se transforma em uma competição: seja entre graça ou cooperação; Cristo ou Igreja; fé ou obras; ação divina ou causalidade humana. Esse dilema do tipo "ou-ou" é o motor oculto da divisão. Para a perspectiva católica, a graça não compete com a liberdade — ela a gera, a restaura e a aprimora; já na perspectiva monergista, quanto mais se reconhece o papel da graça, menos se pode atribuir à vontade. Levando a lógica ao extremo, ela converte a criatura em um cenário onde somente Deus ou o pecado podem agir: a pessoa ainda existe do ponto de vista gramatical — mas perde sua profundidade causal.

As teses noventa e dois e noventa e três condenam os profetas que proclamam paz, quando na verdade não há paz, e abençoam aqueles que pregam a cruz. No contexto presente, o foco está na paz adquirida: a pessoa paga, recebe um documento e considera sua situação espiritual resolvida. No desenvolvimento posterior, no entanto, a dúvida em relação à falsa paz se expande para uma desconfiança em relação a qualquer paz que seja mediada pela Igreja, e a questão passa a ser: a absolvição sacramental realmente proporciona reconciliação, ou é apenas uma promessa que é recebida apenas pela fé? Para a Igreja, a absolvição não é uma mera encenação verbal — é um ato efetivo do ministério que Cristo atribuiu àqueles que foram capacitados a perdoar e reter pecados. Reduzida a proclamação externa, a paz objetiva do sacramento vira paz condicionada pela experiência interior — e o fiel volta, sozinho, à masmorra da dúvida.

As duas últimas teses exortam a seguir Cristo pelas penas, pela morte e pelo inferno, e a entrar no céu por muitas tribulações, em vez de confiar na segurança ilusória. Exortar é tratar como responsável: as teses finais parecem pressupor liberdade. A tensão explode oito anos depois: no De servo arbitrio, de mil quinhentos e vinte e cinco, a vontade caída já não é faculdade neutra entre Deus e o pecado — está cativa; e a controvérsia sobre vontade, presciência divina e necessidade ocupa o próprio centro da obra. A exortação, portanto, não atua como um chamado a uma força que possa responder, mas sim como uma ferramenta através da qual Deus efetua nos escolhidos aquilo que determina: o mandamento não revela que o ser humano tenha a capacidade de fazê-lo; é o meio pelo qual Deus concretiza a resposta em alguns. A linguagem moral é mantida; por trás dela, a metafísica é substituída. A porta que as teses entreabriu agora se abre completamente. Se você estiver em busca de um mapa nu da prefiguração, é importante notar que as teses trinta, trinta e um, trinta e seis, trinta e sete, cinquenta e oito, sessenta e dois e sessenta e oito são fortíssimas; as teses um, dois, três, sete, vinte e oito, quarenta e nove e cinquenta e dois têm um caráter intermediário; e, por fim, as quatro últimas teses possuem um caráter moral e retórico — estas mantêm a exortação, ao passo que o sistema que está por vir remove o pressuposto necessário.

Frequentemente, a imagem do justificado como um monte de esterco coberto de neve é atribuída a Lutero. Eu anotei isso, pois um método que não é honesto é apenas uma forma de propaganda: encontrar a localização exata dessa frase nas obras dele é bastante complicado, e sua fidelidade literal é questionada — evitem usá-la como uma citação confiável. No entanto, a imagem, seja ela apócrifa ou não, ilustra de maneira precisa a crítica que a Igreja Católica faz à justiça que é simplesmente imputada: a neve representaria a justiça de Cristo que é atribuída ao pecador; o esterco continuaria a ser esterco em seu interior; Deus consideraria justo aquele que, na realidade, não foi transformado em justo. A definição precisa elimina a necessidade da comparação: a graça que justifica não só protege legalmente — transforma internamente, proporciona caridade e faz com que o ser humano participe verdadeiramente da vida divina.

Calvino não reproduziu as palavras de Lutero exatamente: ele organizou, aprimorou e, em aspectos fundamentais, tornou mais radical. Nas Institutas, Deus, em um conselho eterno e imutável, definiu quem seria aceito para a salvação e quem seria destinado à condenação; a razão da escolha não se baseia na antecipação de méritos — é simplesmente a vontade divina, e nada além disso. Aqueles que são escolhidos são agraciados com uma graça eficaz que gera neles a fé e a determinação necessárias para persistir; por outro lado, os que não são escolhidos não recebem essa mesma intervenção. Nenhuma escolha independente altera o decreto estabelecido. O ser humano continua a agir de maneira voluntária no aspecto psicológico — ele realiza o que deseja; no entanto, aquilo que deseja, em termos da ordem espiritualmente mais significativa, está subordinado à natureza decaída ou à graça que não pode ser resistida. Isso é conhecido como compatibilismo teológico; não se trata do livre-arbítrio da doutrina católica. A vontade não é levada por uma força externa, como alguém que é puxado à força: ela age de acordo com a sua própria natureza — porém, o que ela realmente é e o que ela irá desejar em termos de salvação não estão disponíveis para nenhuma outra forma de cooperação que seja realmente possível. É uma prisão sem grades aparentes: o pássaro está livre, mas apenas no céu que foi limitado para ele previamente.

De maneira incidental, aproveito para corrigir uma versão apressada que circula até mesmo entre os meus: o foco dos reformadores não é a concepção de que o Apocalipse já teria acontecido de forma metafísica, transformando o futuro em algo já consumado. O eixo é outro, e mais duro: presciência divina, decreto eterno, pecado original, incapacidade da vontade, eficácia da graça, eleição e reprovação. E o ajuste vale também para o retrato de Tomás: Deus não descobre o futuro à medida que ele acontece, nem remenda a providência conforme o homem caminha — conhece eternamente todos os acontecimentos, inclusive as decisões livres. A diferença está em que a providência tomista contém causas segundas reais: Deus quer que certos acontecimentos ocorram necessariamente e outros, contingentemente; a escolha humana é genuinamente nossa, embora eternamente conhecida e providencialmente sustentada. Em Tomás, a certeza do conhecimento divino não elimina a contingência criada; em Lutero e, de modo sistemático, em Calvino, o decreto e a incapacidade comprimem essa contingência até desaparecer a alternativa salvífica que dependa do sujeito. A síntese cabe numa linha, e peço que a guardem: a graça não troca os fios do ventríloquo — ela devolve voz ao homem.

Ponha-se agora a sequência inteira em rigor, para que ninguém diga que é caricatura. Se a penitência sacramental não comunica objetivamente a graça; se o homem não pode reconhecer moralmente a própria contrição; se nenhuma disposição ou obra coopera realmente para a justificação; se a fé salvífica é inteiramente produzida pela ação divina; e se essa ação obedece a um decreto anterior à resposta humana — então a vontade espiritual não é livre no sentido católico. Continuará chamada de vontade, porque o homem age segundo desejos; poderá até ser chamada de livre nos assuntos civis e externos. Mas, diante do bem sobrenatural decisivo, não dispõe de alternativas reais. Por isso a expressão livre-arbítrio escravo carrega uma fratura no próprio nome: o que ali resta não é uma liberdade ferida e curável — é uma vontade cativa que apenas muda de senhor: antes, conduzida pelo pecado; depois, conduzida irresistivelmente pela graça.

Agora venham comigo do altar à manifestação, meus caros, pois o discurso é o mesmo, apenas mudaram o incenso. A esquerda tomou posse do decreto e renomeou os elementos: ao invés do pecado original, as estruturas; em vez da eleição, a consciência — de classe, de raça, de gênero, o inventário muda conforme a estação; no lugar da graça irresistível, a conscientização gerida pelo movimento; e, finalmente, ao invés do réprobo, temos o cancelado. Se o homem não possui um verdadeiro livre-arbítrio, ele não é responsável por suas ações: ele é resultado das estruturas — e um resultado pode ser reprogramado. Daí a necessidade de a mente estar sempre em movimento: fora desse contexto, afirmam, você não consegue se libertar das ataduras da sociedade; dentro dele, a sua vontade se torna desnecessária, uma vez que a História já tomou as decisões por você. É um determinismo que se apresenta como libertação — o servo-arbítrio secularizado, sem a presença de Deus, sem sacramento e, um detalhe crucial, sem perdão. E, quando se veem sem resposta, adotam o gesto mais efeminado de todos: apontam para você — a responsabilidade é sua. Todo membro da esquerda possui uma mentalidade típica de uma pessoa mimada; falo com propriedade, pois minha mãe se encaixa nesse perfil e convivo com ela todos os dias: é o exemplo de alguém que teve uma vida relativamente confortável e que delega a percepção da realidade.

A máquina possui um sistema de seleção. O grande cachorrão do mato, como costumamos chamar por estas bandas — o caipirão, o peão da obra —, ao se identificar como esquerdista, muitas vezes não tem a menor ideia do que está apoiando: não leu nada a respeito; acredita que se trata de algo positivo, e, na verdade, o que ele realmente endossa é a doutrina social da Igreja, a qual ele desconhece ter um nome e um autor. O movimento o copta prometendo exatamente isso; depois, como ele só lerá o que o movimento indica, vai escorregando — larga a religião, larga a noção de propriedade, engole a teoria da conspiração de estimação segundo a qual o mundo inteiro teria escondido que a União Soviética era boa, quando foram os próprios soviéticos que esconderam, com todo o empenho, o Holodomor. Além disso, existe outro elemento que é ensinado em sala de aula pelos mesmos professores que viam o aluno que apresentava contra-argumentos como um inimigo interno a ser eliminado: a dificuldade em diferenciar uma refutação de uma ofensa. O indivíduo com pouca educação — o que não é uma falha ou um crime — foi preparado para sentir cada crítica como uma ofensa pessoal; além disso, adiciona-se o triângulo do idiota, e temos o soldado que nunca desertará, pois fazê-lo seria reconhecer que foi derrotado.

Leio essa lógica na linhagem que vai de Marx a Gramsci e deságua em Paulo Freire — e falo do que li, não do que me contaram. Em Freire, na leitura que faço da obra, não há conceito de bem e de mal anterior ao movimento: a ética é subjetiva, e o sumo bem — o summum bonum — chama-se esquerda; a práxis libertadora julga tudo e não é julgada por nada. De acordo com a lógica da cadência, aqueles que se opõem a ela não podem ser considerados como plenos próximos. Em certos momentos durante essa interpretação, a exclusão do teimoso é vista como uma consequência aceitável da batalha, e não como uma tragédia. O veneno, é importante destacar, está cuidadosamente dividido entre os livros, dose a dose, para que ninguém o consuma de uma só vez e perceba: em um volume, a definição do inimigo; em outro, a identificação do bem com o movimento — e o leitor, hipnotizado, reúne as peças sem se dar conta do que está unindo. Aí está o meu alerta habitual: quando se deparar com um intelectual de esquerda, tenha cautela — não o coloque em um nível respeitável apenas por causa do diploma; vá direto e investigue o que o indivíduo realmente defende quando suas ideias são levadas ao extremo. A régua é essa, e raramente ela perdoa.

Agora se entende porque o cancelamento cheira a auto de fé: é liturgia de igreja sem perdão. Existe um dogma — a pauta; existe um clero — os curadores da indignação; existe um pecado — a piada, a dúvida, a fuga do rebanho; existe uma inquisição — a coleta de testemunhos; existe uma fogueira — a vida pública consumida. Não há confissão capaz de ressuscitar alguém, pois em um mundo sem livre-arbítrio, não há conversão, apenas eliminação. O antigo puritano ao menos fazia orações pelo herege; o puritano novo se diverte em cima dele. A sociedade ao redor se transformou em uma plateia: um vasto mar de opiniões passivas, pessoas que se tornaram coitadas em vez de se engajar ativamente, com a ação concentrada nos membros do movimento — uma coragem fictícia, que desaparece diante da primeira consequência e se transforma em vitimismo quando sofre retalições, enquanto aqueles que realmente enfrentam essa situação, esses sim, recebem ameaças de morte genuínas.

A desonestidade pessoal aprendeu a fazer a máquina funcionar. Certa vez, tive uma discussão com um esquerdista que, durante toda a conversa, mantinha uma expressão de desgosto — um desgosto ensaiado e evidente, que claramente não era habitual para ele. Quando o assunto já estava resolvido, eu apenas comentei: pode tirar essa expressão que está no seu rosto. E o homem, que não conseguiu vencer a discussão, tentou um atalho: me acusou de tê-lo ofendido — de ter ofendido a estética do seu rosto; vejam até onde chega a busca por um defeito insignificante. Não sou a pessoa que se dá ao trabalho de explicar o que é evidente para aqueles que simulam não compreender; dei uma explicação uma vez, por educação, e em seguida tratei a situação da maneira que achava adequada: organizei minha maracutaia e o grupo o expulsou. Pois aquilo é chamado de safadeza: é o covarde que deseja ativar o aparato do Estado, munido de sua foicinha e martelinho sobre a bandeirinha do óculos, para converter sua própria derrota em preconceito contra os outros. Existem muitas pessoas assim, e a facilidade com que esse truque opera é, por si só, um sinal dos tempos atuais.

O mesmo sistema que nega ao homem comum a liberdade fabrica, na outra ponta, deuses para adorar. O famoso é tratado como o deus pagão da aldeia antiga — compare-se a devoção de então com a de agora e ver-se-á que o culto é o mesmo, só mudou o totem; o artista é promovido a intelectual, promissória que nunca assinou e não tem obrigação de honrar; o pesquisador de três diplominhas cospe do alto da titulação e espera cabeça baixa. Faraó era filho do deus; o imperador, deus na terra; o famosinho de hoje é a reencarnação de ambos, com patrocínio. Pois eu digo o que sempre disse: eu só confio em gente que trata a gente como gente — e não abaixo a cabeça para vagabundo entitulado que quer sapatear em cima de mim, e recomendo que ninguém abaixe. Superioridade real, reconheço-a a uma única figura: o santo. E para santo a Igreja tem critérios, sinais e caminhos de verificação — como se identifica um santo, inclusive em vida, está dito e ensinado; não é vibração, é verificação. Fora isso, é gente como você: capaz de acertar, capaz de errar, sem direito a trono. Ao sacerdote que faz porcaria, sim, joguem-se na cara as merdas dele, porque o ministério cobra e tem de cobrar; ao homem comum da mídia, o escracho não serve a nada senão ao ego de quem escracha.

E a filosofia mais velha que a nossa doença já tinha dado o remédio. Aristóteles — e, antes dele, Sócrates e Platão concordavam — sustentava que ser bom é a coisa mais difícil que existe: a natureza às vezes inclina para o mal, a virtude custa, e a escolha recomeça todo dia. Aquele que tem consciência disso observa o pecador e vê um reflexo potencial — eu faria? Eu realmente fiz isso? eu poderia fazer? — e dessa consciência brota a compaixão que corrige sem condenar. O cancelador não é capaz de tolerar o reflexo: por não conseguir encarar a si mesmo, não reconhecendo em sua própria essência a mesma capacidade do pecado, ele se declara superior — e, a partir dessa posição elevada que criou, lança seus ataques. Está aí a distinção entre o exame de consciência e o tribunal do movimento: um se inicia em casa; o outro jamais chega até lá. As pessoas que se consideram verdadeiramente boas muitas vezes não agem de acordo com o que realmente define um ser humano bom: reconhecer que os outros são semelhantes a elas e que, em outras circunstâncias, elas mesmas poderiam ter agido da mesma forma.

A solução, então, não é técnica: é uma prática de autodomínio. Antes de considerar a fanfic como uma verdade absoluta, é fundamental que você se confronte com os fatos: dialogue com a pessoa — seja ela a sua namorada, aquela que você está acusando ou até mesmo a que você estava prestes a agredir por causa de um breve intervalo de trinta segundos. Conserve a masmorra e evite pressionar os outros para que abram as suas. Os filhos devem ser educados de maneira profunda — Tomás de Aquino, aos doze anos, não prejudica nenhuma criança; quem prejudica é a seita que deseja monopolizar a infância. Devem ser restaurados os polos: o masculino estruturado, que representa coragem, responsabilidade e ordem, bem como a habilidade de dizer não — e, quando a situação exige, de agir com firmeza e determinação; e o feminino estruturado, que consiste em proteção e intuição a serviço da vida, e não da destruição. E o demiurgo sintético se nega da mesma forma que o gnóstico clássico temia o seu, com a ressalva, reitero, de que o nosso é real, publica, organiza e paga contas.

No final das contas, tudo o que escrevi pode ser resumido pelo título. A gnose psíquica oferece a promessa de se tornar divino — para ser o deus da sua própria realidade — mas, na verdade, impõe uma escravidão ao vazio; o servo-arbítrio promete a graça, mas resulta em uma prisão; o movimento clama por libertação, mas, na prática, estabelece um decreto. A antiga ordem, rígida e estratificada, repleta de exigências, prometia menos e fornecia o que era fundamental: um bem que não era fácil de alcançar, uma vontade que podia ser curada, uma santidade que era viável, uma beleza que era alcançável e uma diferença que era genuína. Hexagrama fraturado, buraco negro selado, cordas de ventríloquo rompidas — e o que resta é precisamente aquilo que todos esses sistemas asseguravam não existir: um homem livre, ereto, apto para amar de verdade por ter a opção de não amar. Eu só creio em tratar pessoas como pessoas. Nem um deus pagão, nem um demônio de história de ficção: são pessoas — com uma masmorra a proteger, um desejo a curar e uma escolha complexa, um homem e uma mulher de cada vez.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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