Genes se Vão, Ideias Permanecem

Há vidas que passam apenas pela carne, mas há outras que permanecem porque ousaram pensar, agir e gravar uma forma no mundo. Este texto começa exatamente no ponto em que a ilusão da herança biológica se rompe e surge a exigência de construir, por si mesmo, um legado verdadeiro.

Gabriel G. Oliveira

3/29/20264 min read

Viva a beleza de estar vivo, pois você logo será esquecido

Essa noção, que pode aparecer como humildade ou pragmatismo, é algo que todos nós já encontramos: "não tenho talento para isso, então vou criar alguém que tenha". Apesar de a frase parecer simples e até mesmo prudente, ela esconde uma das mais persistentes tolices da humanidade. A pessoa não aprimora sua inteligência, moral ou espiritualidade, mas delega sua própria missão. Refere-se ao atalho existencial que diz: "já que eu não serei, criarei". Não é curioso que esse atalho quase sempre leve ao esquecimento?

Há uma ironia trágica no indivíduo que não cultivou nada dentro de si e deposita todas as suas esperanças apenas no fato de possuir genes. Ele age como se a biologia pudesse substituir a alma, como se as ideias pudessem ser herdadas biologicamente. No entanto, ao contrário do sangue, as ideias não surgem com facilidade; elas exigem trabalho, foco e renúncia. O DNA é capaz de gerar corpos, mas apenas o trabalho interno é responsável por criar formas que perduram. Aqui começa, em silêncio, a tragédia de gerações que confundiram ser pai com ser pleno.


Esse tipo de indivíduo não tem a intenção de se tornar profissional, nem de se santificar, e ainda menos de aprimorar sua capacidade de expressar de forma clara seus pensamentos. Prefere a cômoda posição de "mentor biológico", alguém que repassa sua própria tarefa essencial por mera indolência metafísica. Classicamente falando, isso implica em uma rejeição deliberada da areté, a excelência humana que Aristóteles considera fundamental em sua obra "Ética a Nicômaco". O homem não aspira a se tornar melhor; ele apenas quer ser um instrumento para que alguém, quem sabe, o torne. No entanto, se isso fosse considerado uma qualidade, por que a história não documenta pais anônimos citados por seus filhos famosos?

O resultado é claro, quase evidente: elas serão lembradas como esquecidas. Não por crueldade do mundo, mas por lealdade à realidade. A memória do ser humano não guarda corpos; guarda formas. Os nomes não são registrados com base em laços familiares, mas sim pela influência que exercem. Santo Agostinho observava que o ser humano realmente existe naquilo que ama (Confissões, X). Aquele que ama apenas a sua própria preservação biológica se limita a isso. Existir somente com o propósito de "não morrer" é uma aspiração extremamente modesta para justificar uma vida inteira, você não acha?

A única maneira que se pode considerar autenticamente humana de escapar do esquecimento, mesmo que seja apenas por um período mais prolongado e não até o fim da própria humanidade, é agir no domínio das ideias. Não porque as ideias não possam ser tocadas, mas porque estão bem estruturadas. O homem é a criatura divina por excelência, e a sua especificamente humana maneira de se relacionar com o mundo é através do intelecto que ordena a ação. Economistas, filósofos, cientistas, legisladores, teólogos: todos eles operam nesse delicado ponto onde o pensamento se torna concreto. Tomás de Aquino foi direto e objetivo: agere sequitur esse, agir é consequência de ser. No entanto, se isso é verdade, por que tantas pessoas aguardam a oportunidade de transformar o mundo sem antes se instruir?

Assim, o maior legado que se pode deixar para o mundo não são filhos, mas sim ideias. Não são ideias mantidas como tesouros íntimos, mas sim ideias espalhadas como se fossem sementes. Um dos maiores empecilhos da inteligência humana é o conselho moderno de “não compartilhe seus pensamentos com ninguém para ser único”. Karl Popper mostrou que só é possível avançar no conhecimento através de conjecturas abertas e refutações públicas (A Lógica da Descoberta Científica). Ideias aprisionadas não são profundas; elas são inférteis. A humanidade não evolui através de mistérios, mas sim por meio da clareza, mesmo que isso possa ser doloroso.

Isaac Newton é um exemplo quase que didático desse paradoxo. Einstein ultrapassou boa parte de sua própria física, e suas convicções pessoais eram místicas, nebulosas e, por vezes, contraditórias. Apesar disso, ele sempre será lembrado, uma vez que suas ideias mudaram o mundo. Não é porque ele estava sempre certo que ele entrou para a história, mas porque pensou antes, de forma intensa o suficiente para mudar o mundo. Como Newton afirmou: "se vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes". Mas preste atenção no detalhe incômodo: ele se acomodou nos ombros. Não esperou que alguém pisasse nelas. Não é essa a questão fundamental?

Esta é, de fato, a única escolha que se impõe a cada homem: empenhar-se em forjar um gênio ou, com sinceridade, esforçar-se para ser uma versão aprimorada de si mesmo a cada dia. O primeiro impõe a sua própria vocação e o segundo a recebe. Somente o segundo é capaz de deixar marcas. Conforme advertia Ortega y Gasset, “eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo”. Salvar a própria pele implica, necessariamente, em intervir intelectualmente sobre a própria situação, em vez de passá-la adiante para a próxima geração.

Em resumo, essa regra pode ser considerada desconfortável, mas, de certa forma, também oferece uma sensação de liberdade: você não está aqui para moldar uma pessoa que realize tarefas que você se recusa a fazer. Você está aqui para viver. Para ponderar. Para escrever. Errar em público, retificar, insistir e apresentar algo novo. Os genes podem desaparecer; as ideias, por outro lado, perduram. Os corpos desaparecem; as formas permanecem. Aquele que decide não refletir e permite que outros tomem decisões por ele não apenas será esquecido, mas já está, de maneira sutil, se extinguindo enquanto ainda está vivo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo. Confessions. Oxford: Oxford University Press, 2008. Livro X.

AQUINO, Tomás de. Summa theologiae. Taurini: Marietti, 1948-.

ARISTÓTELES. Nicomachean ethics. 2. ed. Indianapolis: Hackett Publishing Company, 1999.

EINSTEIN, Albert. Relativity; the special and general theory. New York: H. Holt and Company, 1920.

NEWTON, Isaac. The correspondence of Isaac Newton. Cambridge: Cambridge University Press, 1959. v. 1.

ORTEGA Y GASSET, José. Meditaciones del Quijote. Madrid: Residencia de Estudiantes, 1914.

POPPER, Karl R. A lógica da pesquisa científica. 11. ed. São Paulo: Cultrix, 2004.