Goécia: o que seus rituais escondem sobre poder, doutrina e perigo espiritual

Um catálogo é como um convite para um baile onde tudo pode ser listado. Assim, setenta e dois nomes ganharam o destaque e a vitrine se transformou em um ponto de chegada. Ninguém se infiltra em um reino apenas por folhear o índice; o acesso vem do acolhimento, e quem decide isso não são regras, mas sim a bagunça que já habitava quem se apresenta. Este ensaio não vem com um manual de instruções. Quem estava na busca por um guia sobre como medir o chão antes de dar os primeiros passos pode encerrar a leitura por aqui — isso não existe.

Gabriel G. Oliveira

8/30/202644 min ler

A arte que se chamou pelo som do choro

A palavra tem início com um som. Goeteia, em grego, não tem origem em nenhuma raiz que denote nobreza: vem do uivo, da lamúria, do canto fúnebre levantado sobre os mortos. O góes era o indivíduo que uivava durante a noite, e o seu uivo servia para convocar — inicialmente os mortos, e, em seguida, de forma natural, os habitantes do submundo. A necromancia representa a origem histórica de tudo que posteriormente foi denominado goécia, e o nome preserva essa raiz como uma cicatriz que remete à lâmina. Antes de se tornar um sistema, um catálogo ou um produto, a goécia foi um som gerado na escuridão por alguém que desejava recuperar o que a morte havia levado.

Isso não se trata de uma questão filológica. É a chave metafísica primordial do tema. Toda prática goética, independentemente da época, mantém a forma do ato original: o praticante deseja algo que a ordem natural do mundo não lhe fornece e, então, recorre a uma alternativa. O luto representa a forma mais intensa dessa fome — a negação de aceitar os limites. Em seguida, surgiram outras formas de fome: a fome por dinheiro, por conhecimento, por controle sobre a vontade dos outros, por vingança e por tesouros ocultos. A gramática, contudo, continuou a mesma. Existe um limite; existe um anseio; existe uma porta que não é a porta.

Os gregos estavam cientes disso e, por essa razão, criaram na sua própria língua a diferença que o mundo contemporâneo perdeu. À goécia opõe-se a teurgia — literalmente, obra divina. Iâmblico, ao defender os ritos teúrgicos contra as objeções de Porfírio, é explícito quanto ao que está em jogo: a teurgia não é uma técnica pela qual o homem force os deuses, e sim uma disposição pela qual o homem se torna capaz de receber o que os deuses concedem. O operador teúrgico não puxa nada para baixo; ele sobe, e sobe purificando-se. A goécia faz o contrário, e a diferença não é de intensidade nem de moralidade convencional: é de direção.

Fixe-se essa imagem, porque ela governará tudo o que vem adiante. A teurgia é uma ascensão em que o operador é transformado. A goécia é uma tração em que o operador permanece o mesmo e o objeto é deslocado. Numa, muda quem opera; noutra, muda-se o mundo ao redor de quem opera. Por isso a teurgia é lenta, e por isso a goécia é atraente: ela promete resultado sem conversão. Não há, em toda a história do esoterismo, oferta mais sedutora do que essa, e não há nenhuma outra que tenha produzido tanto destroço humano.

Convém, antes de prosseguir, desfazer uma confusão de vocabulário que envenena o debate desde o início. As entidades com que a goécia trata são chamadas daimones, e a palavra, na sua origem, não significava nada de maligno. Designava uma potência intermediária entre o divino e o humano; a raiz remete a repartir, distribuir, atribuir quinhões — o daimon é o que reparte sortes. Hesíodo afirma que os homens da geração de ouro, quando faleceram, transformaram-se em protetores dos que estavam vivos. No Banquete, Platão chega a caracterizar Eros como um grande daimon, justamente por ser uma ponte. O período helenístico reforçou a importante diferença entre o agathodaimon e o kakodaimon, ou seja, entre o espírito benevolente e o espírito maligno — uma diferença que, de certa forma, já estava presente nos textos órficos.

Quando a Septuaginta optou por utilizar a palavra daimonion para traduzir os espíritos malignos e os deuses das nações, o termo neutro perdeu sua vida, mas seu corpo inerte continuou a exercer sua influência. A partir desse ponto, no Ocidente, "demônio" passou a significar apenas espírito mau, e o resultado é que hoje se discute goécia com um vocabulário incapaz de distinguir o guardião pessoal de Sócrates de um duque infernal do século XVII. Isso não se trata de uma questão intelectual. Uma inteligência que não faz distinções não é uma inteligência tolerante: é uma inteligência desprotegida. O desarmamento é o que possibilitou todas as transformações que a modernidade trouxe a essa região.

Onde exatamente estão localizados os reinos

Se as entidades goéticas não são deuses nem a personificação do mal, então o que elas são? A resposta definitiva implica a aceitação de uma premissa que, nos dias de hoje, pode parecer severa, mas que constitui o cerne da metafísica tradicional: o mal não é uma substância. Agostinho estabeleceu a doutrina, enquanto Tomás de Aquino a organizou com a precisão de um relojoeiro. Não há uma substância básica do terror, nem uma criatura artificialmente criada para ser maligna, tampouco um anti-Deus gerando maldade em uma oficina própria. Existe ser, e existe ser que falta onde deveria estar. A cegueira não é um órgão adicional: é a visão ausente de um olho que deveria ver.

Aplicada às inteligências separadas, a doutrina produz uma consequência que os operadores modernos jamais consideram. O demônio não é o oposto simétrico do anjo. É um anjo cuja natureza permanece intacta e cuja ordenação se corrompeu. Ele conserva inteligência, potência, alcance, imortalidade, velocidade — perdeu o norte. Quem se apressa acha isso consolador, como se a não-substancialidade do mal implicasse inocuidade. É o contrário. Precisamente porque a natureza angélica permanece íntegra, o estrago disponível permanece assombroso. Um exército que conserva toda a sua logística, artilharia e disciplina interna, e que trocou o objetivo por um delírio, não é menos perigoso que antes: é mais, porque a competência agora serve à insensatez. A privação não diminui o dano. Organiza-o.

Tomás precisa ainda o modo de atuação, e é aqui que a goécia inteira fica inteligível. O anjo, seja ele bom ou mau, é uma essência distinta: não possui um corpo e não influencia a matéria da mesma forma que um corpo influencia outro. Ele funciona ao mobilizar os sentidos internos — a imaginação, a memória sensorial, os humores do corpo. Não insere ideias na mente da mesma forma que se digita em um teclado; ela reorganiza visões, propõe ligações, intensifica uma emoção, torna uma reflexão menos clara, e faz com que algo que antes não parecia possível se torne crível. A vontade continua sagrada, pois ninguém pode querer por outra pessoa. É por esta razão que a tentação em si não é considerada pecado. É por essa razão que questionar se a experiência goética "veio de fora ou de dentro" é uma pergunta mal formulada: veio de fora pelo dentro. A alma representa a fissura. Não há outra porta, nem nunca houve.

A tradição cabalística propõe, para a mesma questão, uma topografia que merece ser explorada, pois ela esclarece uma dúvida que a escolástica não responde: onde exatamente essas potências habitam. A cosmologia luriânica nos revela que, durante o ato primordial, alguns vasos se fragmentaram, resultando em faíscas de luz divina que ficaram aprisionadas na matéria; as klipot, ou cascas, representam o invólucro impuro que as contém. No contexto desse esquema, o mal não é uma força oposta: é uma sobra que ainda conserva luz. É precisamente nessa geografia — nas margens da criação, nas ruínas, nos desertos, nos espaços de caos, onde a Presença se afastou — que a literatura rabínica localiza os shedim e os mazikim. A lógica é mais ecológica do que moral: onde existe decomposição, surge aquilo que se nutre dela; onde há um vazio, algo preenche.

Dessa topografia decorre a advertência mais fria de toda a literatura mística judaica, e ela deveria estar impressa na capa de qualquer edição de grimório. O Zohar chama certos remanescentes espirituais pela expressão mais desdenhosa que a língua permite: sopro vazio dos ossos. Não são potências a serem cortejadas; são cascas a serem desprezadas. E — este é o ponto que a divulgação contemporânea sistematicamente omite — na literatura rabínica clássica esses seres não são servidores de feiticeiros humanos. Eles existem, influenciam, enganam, molestam. Não obedecem. A ideia de um catálogo de espíritos disponíveis para contratação é estranha à tradição de onde os grimórios tiraram os seus nomes divinos.

Some-se a isso a hierarquia celeste tal como o Pseudo-Dionísio a estabeleceu — nove coros ordenados em três tríades, cada um recebendo iluminação do superior e transmitindo-a ao inferior — e obtém-se o diagnóstico estrutural da goécia. A hierarquia angélica é uma cadeia de doação: cada grau existe para transmitir o que recebeu. A hierarquia infernal, tal como a Idade Média a desenhou por espelhamento, é uma cadeia de retenção: duques, marqueses, presidentes e cavaleiros que administram domínios sem transmitir nada, porque nada recebem. É por isso que a nobreza infernal dos grimórios é sempre uma paródia da corte celeste, e é por isso que ela impressiona tanto o leitor moderno: a paródia é reconhecível. O inferno, na descrição clássica, não cria — imita. E imita justamente aquilo cuja perda o define.

Desse ponto, chega-se a uma conclusão que a maioria dos praticantes atuais nunca chegou a considerar, a qual se configura como o juízo metafísico deste ensaio: do lado goético, nada há a receber que não seja resto. Uma força que não se abastece não pode oferecer nada. O que ela disponibiliza, ela move — retira de um local para colocar em outro, e a conta continua em aberto. Não se trata de moralismo. É a contabilidade ontológica.

A covardia sofisticada: quando o daimon se tornou arquétipo

Existe uma manobra que é hoje uma obrigação no ocultismo moderno e que precisa ser chamada pelo nome que tem. Quando se trata da questão do estatuto das entidades goéticas, o praticante contemporâneo responde dentro de uma perspectiva psicológica: não se trata de um demônio, mas sim de um arquétipo. Bael não é um soberano do submundo, mas sim o símbolo da ambição. Astaroth não é um poder, é a sombra do querer. Dessa forma, supõe-se que a questão ontológica estaria solucionada, permitindo à pessoa prosseguir acendendo velas sem qualquer culpa, sabendo que está apenas realizando uma terapia com incenso.

A manobra apresenta duas falhas, e ambas são sérias.

A primeira é histórica e diz respeito ao autor invocado. Jung nunca afirmou que as entidades não existam. Ele suspendeu deliberadamente o juízo sobre a natureza última daquilo com que lidava, o que é uma posição metodológica e não uma tese metafísica — e é intelectualmente desonesto converter uma abstenção em negação. Mais: a própria obra pessoal dele torna a leitura redutora insustentável. A figura de Filêmon, que ele descreve como interlocutor interior dotado de um saber que ele próprio não possuía e que lhe dizia coisas que ele não teria dito a si mesmo, não cabe confortavelmente na categoria de projeção. Um conteúdo psíquico que ensina ao psiquismo o que ele ignora é, no mínimo, um conteúdo estranho. Jung, em vez de negar os grimórios, os redescreveu — traduziu para a linguagem do consultório um mecanismo que os manuais já descreviam na linguagem da oficina.

A segunda falha é lógica, e é fatal. Se aquilo é apenas um arquétipo, um conteúdo psíquico próprio, então não há razão nenhuma para o cuidado, para o círculo, para o jejum, para a hora planetária, para o selo e para a licença de partir. Ninguém precisa de proteção contra um conceito. Ninguém fica com as mãos frias por causa de uma metáfora. E, no entanto, observe-se o comportamento real: o mesmo praticante que declara em público tratar-se de arquétipo, em particular ergue o círculo, escolhe a data, respeita o horário e sai abalado. O comportamento desmente a declaração. Considerar isso como sofisticação é um elogio excessivo; a definição precisa é covardia disfarçada de cortesia. É afirmar, com um tom de quem está dando uma palestra: eu não desejo determinar se isso realmente existe, mas quero continuar explorando.

A indecisão em tomar uma decisão se deve a uma razão econômica, e não a uma intelectual. Ambas as respostas possíveis têm um alto preço. Se isso existe, o operador tem uma obrigação moral — precisa assumir a responsabilidade pelas consequências, deve agir com ética e aceitar a hierarquia. Se isso não existe, o operador tem que reconhecer que passou anos fazendo um teatro particular e que precisa reorientar sua vida em outra direção. A moldura arquetípica é o único abrigo que cuida de ambas as contas sem necessidade alguma. Não se trata de uma tese: é um remédio para a dor.

Resta, ainda, uma última ironia nessa narrativa. Ao considerar os daimones como meros conteúdos psíquicos, o ocultismo contemporâneo acreditou estar secularizando a questão, mas, na realidade, fez exatamente o contrário: concedeu-lhes o único domínio onde a intervenção mencionada pela metafísica tradicional é realmente viável. Se o agir dessas potências se dá pelo caminho da imaginação e dos sentidos internos — como sustenta Tomás —, então afirmar que "isso está na minha psique" não serve como uma refutação. É uma confirmação com uma entonação equivocada. A questão "o demônio é real ou é você?" tem a mesma estrutura de "a onda é água ou é mar?". Nasce partida.

A ressonância, ou por que ninguém encontra o que não carrega

Nenhum sistema goético funciona por decreto. Isso é o que os manuais de mercado não dizem e o que qualquer tradição séria repete até cansar: a operação exige uma correspondência entre o operador e a potência convocada. Chamemos as coisas pelo nome. Cada entidade goética se fixou numa desordem determinada e opera por ela — e como todo vício é a corrupção de uma virtude, cada uma delas é o negativo de uma potência real do cosmos. A vaidade da grandeza é a magnanimidade solar corrompida; a rigidez destrutiva é a justiça marcial desligada da misericórdia; a dispersão é a abundância apodrecida. Para tocar essas potências, é preciso vibrar naquilo. Ninguém encontra o vício que não carrega.

O que o operador chama de "sintonia", o teólogo chama de consentimento, e o moralista, com menos poesia, chama de cumplicidade. É por isso que a doutrina católica insiste — e o Catecismo é sóbrio nesse ponto — que a criatura espiritual atua onde recebe permissão. Não se trata de uma autorização legal, nem de um contrato assinado com sangue à meia-noite. Autorização real: a que se dá por excesso de admiração, por entrega de juízo, por fascínio duradouro, por preguiça de julgar. Ninguém levanta pela manhã com a intenção de se render. Entregamo-nos gradualmente, sempre pela entrada que parecia inofensiva.

Desse modo, surge o diagnóstico mais valioso que este ensaio pode apresentar àqueles que se interessam pelo tema. Em vez de questionar "que entidade devo procurar", a indagação apropriada seria "que desordem em mim é a chave que abre esta porta". Aqueles que procuram o senhor da decomposição para preencher uma carência afetiva não estão em busca de sabedoria: estão solicitando que uma força de destruição atue sobre uma ferida exposta. Aqueles que almejam as potências da grandeza como uma forma de compensar humilhações passadas não alcançarão a verdadeira grandeza; em vez disso, conquistarão uma inflação de grandeza, que se caracteriza por ser superficial e sem substância. A operação não cura a ferida — ela a transforma em destino.

É neste ponto que a estética moderna do tema demonstra sua verdadeira função. A internet idealizou a conexão com essas forças dentro de um cenário sombrio, dramático e intencionalmente inquietante; e uma parte significativa das pessoas que a utilizam não traz escuridão: traz traumas. A estética atua como uma forma de validação — ela dá uma expressão familiar a uma dor que não possui um nome e restaura uma identidade que o mundo não ofereceu. É da natureza humana, é compreensível, e é justamente por isso que representa um risco. Porque a potência convocada não tem interesse algum na estética de quem a convoca. Se ela opera por dissolução, a primeira coisa que dissolverá é a identidade sombria construída para suportá-la. O operador chega achando que assinou por poder e descobre que assinou pela remoção da máscara que o mantinha em pé.

Cena — Feira esotérica, mesa dobrável, banner com um selo impresso em papel couché

Um vendedor de trinta e poucos anos, camisa preta impecável; um homem grisalho de camisa xadrez, que segurava um copo de café e agora não segura mais.

O VENDEDOR — O curso é modular. Módulo um, teoria dos setenta e dois. Módulo dois, evocação prática. Módulo três, resultados.

O GRISALHO — Resultados.

O VENDEDOR — Sucesso, atração pessoal, eliminação de barreiras. É seguro, tá vendo? Nós lidamos com arquétipos.

O GRISALHO — Se é arquétipo, por que há um módulo de proteção no meio?

O VENDEDOR — (com firmeza) Porque a psique é sensível.

O GRISALHO — A mente é sensível. Rapaz, eu já vi cirurgião se comunicar com muito menos formalidade sobre a cavidade abdominal.

O VENDEDOR — O senhor está duvidando.

O GRISALHO — Estou atuando como contador. Você comercializa algo que não existe e ainda cobra a mais por uma proteção contra isso. Isso não é ocultismo, é venda casada.

O VENDEDOR — E se existir?

O GRISALHO — Aí é pior, meu filho. Aí você tá vendendo passagem pra um lugar que você nunca visitou, com mapa que você comprou de outro que também não visitou.

O vendedor sorri profissionalmente e olha para o lado. O grisalho recolhe o copo vazio, sem pressa.

O GRISALHO — Bota no módulo quatro o que ninguém bota: como fechar a porta.

Como se fabrica um catálogo

Toda a magia cerimonial ocidental repousa sobre um fiador, e o fiador é um rei bíblico. É importante investigar como esse homem se transformou em um sistema, pois essa análise desfaz uma grande parte da autoridade que atualmente é mencionada em seu nome.

Shlomó, que tem seu nome derivado da raiz que significa paz, é o terceiro rei de Israel e ascende ao trono de forma atípica: não era o filho mais velho. A cena crucial da sua existência não possui nenhum elemento encantado. Deus lhe oferece qualquer coisa que desejar, e ele solicita um coração que possa discernir — não saúde, não riqueza, não a cabeça dos inimigos. Recebe aquilo que solicitou e, além disso, tudo o que não solicitou. O verdadeiro legado deste homem consiste em três volumes de sabedoria, sendo o mais rigoroso deles, o Eclesiastes, que ensina exatamente o oposto de qualquer promessa goética: que tudo é hevel, vapor, algo que se observa, mas não se consegue manter; que é a ação que se governa, e não o resultado; que o conhecimento, ao intensificar a percepção, aumenta a dor; e que a angústia humana surge, em grande parte, da recusa em reconhecer que existem perguntas sem resposta nesta vida.

Este indivíduo foi convertido em arquimago pela história, e essa metamorfose pode ser acompanhada em quatro etapas distintas. Em Reis, ele ergue o templo e, já idoso, se desvia para adorar deuses estrangeiros — deuses que, nesse contexto, ainda não se tornaram demônios. No tempo helenístico, o livro da Sabedoria já o descreve como alguém que conhece a estrutura do mundo, os ciclos, os astros e as virtudes das raízes: um sábio que possui um conhecimento prático, em harmonia com a ordem divina. Depois, na comunidade do deserto cujo fundador fora banido de Jerusalém, o templo herodiano passa a ser visto como um espaço profanado por forças impuras, e os antigos deuses estrangeiros são reinterpretados como demônios. Assim, o ciclo se fecha: Salomão deixa de ser o rei que se afastou do caminho e torna-se o rei que liderou com firmeza.

A conclusão se dá no Testamento de Salomão, um texto apócrifo que apresenta, pela primeira vez, o anel que foi concedido ao rei pelo arcanjo Miguel. Com esse anel, o rei consegue dominar os espíritos e os obriga a trabalhar na edificação do templo. A imagem tem beleza teológica considerável: potências da desordem coagidas a servir ao que é santo, o mal convertido em mão de obra da santidade. A tradição posterior acrescentou o número — setenta e dois espíritos lacrados num vaso de bronze — e o midrash acrescentou o contrapeso, que os manuais modernos jamais citam: o anel foi a ruína dele. A mesma literatura que lhe atribuiu o domínio narrou, na sequência, o destronamento por Ashmedai, que assume a sua forma, ocupa o trono e o lança ao deserto, onde o homem mais sábio do mundo caminha anos como mendigo sem que ninguém o reconheça.

Não existe, em toda a demonologia, parábola mais eficiente, e ela é uma parábola especificamente goética. O que derruba Salomão não é a força do demônio: é a certeza de Salomão. O domínio sobre as potências não protege absolutamente ninguém quando o operador se torna, ele mesmo, o objeto do próprio culto. Quem vende magia salomônica costuma interromper a narrativa exatamente antes da segunda metade.

Registre-se então o fato histórico com todas as letras: a goécia não é uma prática judaica, e o que os grimórios chamam de magia de Salomão é um amálgama medieval e moderno, formado séculos depois do reinado histórico e do fechamento do cânone. Havia, sim, uma tradição judaica sobre esses temas — midráshica, talmúdica, cabalística —, e ela é mais antiga, mais coerente e incomparavelmente menos acessível que qualquer arquivo baixado de um site. Confundir as duas coisas não é imprecisão erudita: é a fraude fundadora de um mercado inteiro.

Quanto ao uso do nome do rei nos manuais, ele obedece a uma prática corrente e perfeitamente conhecida: a pseudepigrafia. Atribuía-se um livro a uma autoridade antiga para lhe emprestar peso, e o sábio de Israel era o nome mais rentável do mercado. Nenhum dos artigos que levam seu nome é de sua autoria. Todos datam do período medieval ou de épocas posteriores.

O tiro que se voltou contra quem disparou

O catálogo goético assume sua forma identificável no século XVI, e essa ironia é tão perfeita que parece uma criação literária.

Johann Weyer, um médico alemão e aprendiz de Agrippa, foi um dos primeiros europeus a abertamente se opor à caça às bruxas, tendo publicado em 1563 o De praestigiis daemonum — "Dos enganos dos demônios". A proposta do livro é cética em relação à eficácia: a superstição comum não tem efeito, as chamadas bruxas geralmente são mulheres doentes ou enganadas, e o que se acredita ser fruto de um pacto é, na verdade, um erro de julgamento. Na versão de 1577, Weyer incluiu um apêndice com o objetivo de revelar a loucura na qual sua contemporaneidade acreditava: a Pseudomonarchia daemonum, a falsa monarquia dos demônios, contendo nomes, títulos de nobreza, funções e instruções para a invocação.

O objetivo era fazer uma denúncia. O resultado foi exatamente o contrário. Os ocultistas interpretaram o apêndice como um guia prático, incorporaram-no e o repassaram. O papel gerado para provar a inexistência daquilo tornou-se o alicerce do catálogo que, quatrocentos anos depois, alguém o imprimaria e o denominaria de milenar. Não há na história do esoterismo ocidental episódio mais eloquente sobre a distância entre o que um texto diz e o que uma cultura faz com ele.

Um detalhe técnico dessa lista importa mais do que qualquer discussão sobre a natureza dos espíritos, e por isso deve ser dito devagar. A relação de Weyer não coincide com a lista canônica que hoje circula. Nomes que qualquer praticante contemporâneo trata como clássicos — Vassago, Seere, Dantalion, Andromalius, entre outros — não figuram nela: foram incorporados depois, em textos posteriores. E há bom fundamento para suspeitar do motivo dessas inclusões: elas arredondam o número para setenta e dois.

A cifra não é neutra. Setenta e dois é o número dos nomes divinos que a tradição cabalística extrai dos três versículos do Êxodo sobre a passagem do mar; é o número que estrutura o chamado Shem HaMephorash e o número dos anjos correspondentes. Ou seja: a lista dos espíritos infernais foi ajustada para espelhar, um a um, uma estrutura angélica. O catálogo cresceu por exigência simbólica, não por descoberta. Quem hoje trata os setenta e dois como um censo estável, milenar e canonizado está tratando como registro aquilo que é sedimentação — e sedimentação orientada por uma simetria de origem cabalística que a maioria dos praticantes desconhece.

Esta é a primeira grande correção que se impõe contra o senso comum do meio: a lista nunca foi estática, nunca teve dois mil anos e nunca foi canonizada de forma unificada. Ela varia entre manuscritos, ganha e perde nomes, muda atribuições, redistribui títulos. Adorar a Ars Goetia como se fosse a obra-prima é venerar uma fase avançada de um processo, repleta de material adicional e com camadas de composição claramente visíveis.

Vamos registrar aqui uma suposição apoiada pelo Círculo de Estudos Nous, e que se define claramente como suposição, e não como fato comprovado: a suposição de que apenas uma pequena fração do catálogo se refere a entidades reais, enquanto o restante é composto por construtos astrais gerados e sustentados por antigos operadores — servidores, e não daimones. Os métodos históricos não conseguem verificar nenhuma dessas informações, e por essa razão, elas não podem ser afirmadas como certezas. Contudo, é válido destacar o mérito diagnóstico: esclarece o motivo pelo qual praticantes de diferentes tradições obtêm resultados incomparáveis, mesmo utilizando os mesmos termos. Um catálogo que se expandisse por pressão de números criaria precisamente esse ruído.

O livro que raramente é lido por completo

A obra que estabeleceu esse modelo data do século XVII: o Lemegeton Clavicula Salomonis Regis, também conhecida como a Chave Menor de Salomão. Manuscrito anônimo, que reúne conteúdos de obras anteriores — inclusive do apêndice de Weyer —, está organizado em cinco seções.

A primeira é a Ars Goetia, que lista os setenta e dois, junto com seus selos, suas denominações e os rituais necessários para evocá-los. A segunda se chama Theurgia-Goetia e se refere a espíritos de natureza mista, que não são totalmente bons nem totalmente maus, e que estão relacionados aos pontos cardeais. A terceira é a Ars Paulina, que se concentra nos anjos que regem as horas e os graus do zodíaco. A quarta é a Ars Almadel, que trata de espíritos angélicos acessados por meio de uma tábua de cera e das alturas celestes. A quinta é a Ars Notoria, coleção de orações destinadas à obtenção de memória, eloquência e ciência — a mais antiga de todas, com circulação medieval documentada.

Observe-se a proporção. De cinco partes, quatro tratam de potências superiores, de anjos, de horas sagradas e de aquisição legítima de conhecimento pela oração. Uma trata de espíritos coagidos. E o público moderno conhece exclusivamente essa uma. Não é acidente e não é culpa do livro; é um dado sobre o leitor. Entre a oração que pede memória e o selo que promete tesouro, a modernidade escolheu com uma unanimidade impressionante.

Há ainda um elemento estrutural que o público descartou e que, tecnicamente, é o mais importante de toda a tradição goética documentada. A linhagem preservada no manuscrito conhecido como a goécia do doutor Rudd combina o catálogo dos setenta e dois espíritos com os setenta e dois anjos do Shem HaMephorash, de modo que a cada espírito corresponde um anjo que o frustra e o constrange. Nesse arranjo, a operação jamais se dirige à entidade sozinha: dirige-se ao anjo, e o anjo é que submete o espírito. Retire-se essa peça, e o que sobra é um homem sozinho conversando com uma potência que o excede em todos os aspectos mensuráveis. Foi exatamente essa peça que a prática contemporânea eliminou — não por refutação, mas por desconhecimento e por preguiça, porque ela dobra o trabalho e retira do operador o papel de protagonista.

Em torno da Chave Menor, existe uma variedade de textos reais, e as distinções entre eles são mais educativas do que qualquer teoria. O Heptameron que Pietro d'Abano assina é o responsável por introduzir o círculo e as horas planetárias e deixa claro que nenhum outro meio — incenso, prece ou objeto — pode substituir o círculo como proteção do operador. O Picatrix, que é a versão latina do árabe Ghayat al-Hakim, serviu como o meio através do qual a astrologia mágica helenística chegou à Europa latina. O Liber Juratus Honorii faz parte da tradição medieval da magia ritual clerical, ou seja, aquela magia ritual que clérigos ordenados praticavam em segredo, enquanto estudavam o que a sua Igreja denunciava publicamente. O Grimorium Verum e o Grand Grimoire são as versões impressas e mais conhecidas a partir do século XVIII, contendo suas próprias hierarquias e pactos claramente definidos. Existe um livro que é atribuído a Abramelin e que se diferencia de todos os outros por uma exigência que deveria ser suficiente para servir como filtro: é necessário passar meses em retiro, oração e purificação antes de realizar qualquer operação, com o objetivo declarado de, primeiramente, obter o conhecimento e a conversação com o anjo guardião — e, em seguida, sob essa autoridade, submeter os espíritos.

Observe o padrão. Em todos os textos realmente antigos, o acesso vem antes de um período de treinamento que consome tempo, comida, sono e comodidade. Todo manual sério de história, desde os mais antigos, evita começar pela evocação. Todos iniciam com a preparação do operador — e foi essa parte que a modernidade eliminou primeiro, não por descrença, mas sim por falta de paciência.

Cena — Livraria de sebo, chuva tamborilando na porta de vidro, estantes que vão até o teto

Um livreiro velho, de avental, empilhando volumes. Um rapaz encharcado, mochila, celular na mão.

O RAPAZ — Chefe, o senhor tem a Goécia?

O LIVREIRO — Tenho a Chave Menor inteira. Cinco partes.

O RAPAZ — Inteira não precisa não. Eu quero só a primeira.

O LIVREIRO — (sem levantar os olhos) Claro que quer.

O RAPAZ — É que o resto é anjo, né. Anjo não resolve.

O LIVREIRO — Que problema não está sendo resolvido, exatamente?

O RAPAZ — Ah, o senhor compreendeu.

O LIVREIRO — Compreendi. Você deseja o único capítulo que garante trabalho, companheira e riqueza, e quer ignorar os quatro que instruem a rezar por seis meses antes de falar.

O RAPAZ — Seis meses é muito tempo.

O LIVREIRO — Sim. É precisamente nesse ponto que se encontra a evidência. (pausa) Permita-me fazer uma pergunta a você. Você está ciente de que a pessoa que criou a lista original o fez para demonstrar que aquilo era um absurdo?

O RAPAZ — O que você quer dizer com isso?

O LIVREIRO — Um médico. Publicou o catálogo dentro de um livro que dizia "olhem o disparate em que essa gente acredita". Vocês pegaram o anexo e jogaram fora o livro.

O RAPAZ — (rindo) Tá de sacanagem.

O LIVREIRO — Tô não. Vocês operam com a nota de rodapé de um cético do século dezesseis e chamam isso de tradição milenar.

O rapaz olha para o celular, depois para a estante. Não compra nada. O livreiro volta a empilhar.

O LIVREIRO — (para ninguém) Sempre a primeira parte. Jamais a quarta.

A gramática da ação

A mecânica ritual presente nos manuais tradicionais é surpreendentemente consistente em sua essência, e essa essência não é o que se pensa. O leitor atual busca receitas ali; na verdade, encontra um sistema de contenção.

Há o círculo marcado no chão, apresentado nos textos como a defesa primordial e irrefutável do operador. Tem o triângulo, fora do círculo, e essa exterioridade é doutrina compacta: o lugar da manifestação nunca é o lugar de quem opera. Existem os selos, que atuam como endereços e não como chaves. Existem as horas planetárias, os nomes sagrados, as vestes cerimoniais, as substâncias incineradas e o instrumento consagrado. Há, ainda, algo que a prática moderna quase sempre desconsidera: o jejum de longa duração, a purificação, a confissão clara da própria indignidade e, para finalizar, a permissão para partir — a maneira como o operador libera o espírito e encerra o que foi aberto.

Concentre-se especialmente nesse último ponto, pois é o que mais é negligenciado e o mais crucial. Um rito que não chega ao fim não é um rito falhado: é uma porta que permanece aberta. A operação, na lógica dos manuais, tem começo, meio e fim, e o fim não é o momento em que o operador se cansa e vai dormir. É um ato deliberado, com fórmula própria, cuja função é restituir a separação entre os planos. Quem interrompe em vez de encerrar não voltou; ficou no umbral, carregando resíduo de um lugar que sequer sabe nomear.

Mas o núcleo doutrinário de toda a magia cerimonial clássica não está em nenhum desses instrumentos. Está numa distinção que separa o operador tradicional do demonólatra moderno, e ela cabe em três palavras: constranger não é adorar.

Os textos mandam invocar o nome de Deus incessantemente. Mandam ordenar em nome do que é superior. Mandam ameaçar com a autoridade divina, exibir os nomes, apelar aos anjos que frustram. Não mandam oferecer. Não mandam agradecer culto. Não mandam venerar. O operador que monta altar, que dedica devoção, que faz oferendas, que se apresenta como sacerdote da entidade, saiu da magia cerimonial e entrou na idolatria — e entrou por aquela que é, na avaliação de toda a tradição, a pior das portas. A diferença não é de grau: numa, o homem se coloca sob a autoridade divina para submeter uma potência inferior; noutra, o homem entrega a uma potência inferior o lugar que só o Absoluto ocupa.

Existe um caso de arquitetura simbólica que encapsula toda a lógica. No design tradicional das tábuas de evocação, o triângulo central é adornado com os nomes divinos que normalmente estão associados à proteção dos arcanjos. Há uma versão mais severa que troca essa referência intermediária por símbolos das três Pessoas divinas, organizando, em círculos concêntricos, os gênios dos polos, arcanjos e potências celestes ao redor. O significado é claro: quanto mais arriscada for a missão, maior será o nível de autoridade que se invoca — e a proteção final não está confiada a nenhum anjo, por mais poderoso que seja, mas sim diretamente a Deus. Um homem que trata com o abismo por meio de um intermediário está arriscando sua alma em uma cadeia de autoridade.

O que os reinos proporcionam e por que essa oferta é sempre consistente.

É útil analisar o que está contido no catálogo, pois a lista de ofícios revela mais do que a lista de nomes. Os espíritos da Ars Goetia oferecem ensinamentos sobre ciências, gramática, retórica e astronomia. Descubro segredos e mistérios. Identificam tesouros soterrados. São atribuídos familiares. Às vezes, interferindo nos sentimentos dos outros, fazem com que alguém seja querido mesmo sem merecer, promovem a paz entre inimigos e, por outro lado, podem também causar conflitos e desentendimentos. Transportam objetos e homens de um lugar a outro. Concedem dignidades, cargos, favores de príncipes. Falam do passado, do presente e do porvir.

Ordene-se essa lista e um padrão salta aos olhos. Cada ofício corresponde a um bem que é, em si mesmo, legítimo — conhecimento, prosperidade, afeto, reputação, segurança, previsão. Nenhum deles é intrinsecamente perverso. O que a oferta goética faz não é propor o mal: é propor o bem sem o caminho. Aprender retórica sem estudar. Ser amado sem ser amável. Ter dignidade sem mérito. Conhecer o futuro sem prudência. A promessa constante, em todas as entradas do catálogo, é a supressão do processo.

Ora, é justamente o processo que forma o homem. A clássica metafísica não considera as virtudes como adornos morais: ela as vê como hábitos práticos que disciplinam o intelecto e a vontade, e que só podem ser adquiridos por meio da prática constante. Um homem que experimenta os benefícios da virtude sem realmente possuí-la não avançou — ele ficou desequilibrado, pois agora detém uma capacidade que sua alma não consegue controlar. É essa mesma razão que explica por que uma criança de sete anos com um cartão de crédito ilimitado não se torna rica: ela acaba se endividando rapidamente.

Por isso, a mais verdadeira de todas as máximas sobre o assunto deveria substituir todos os slogans do meio: a goécia não é para dar poder; é para mostrar quem consegue suportá-lo. Cada ação é um reflexo da organização mental, dos princípios éticos e da autoridade do seu executor. A grande maioria é reprovada antes mesmo de iniciar, pois chega tratando o sistema como um menu de serviços — abre a lista, seleciona o que deseja, procura o selo e acredita que a operação é uma simples transação. É a esfinge da mitologia, que não dá riqueza: apresenta um enigma e devora quem falha. O que a grande maioria recebe não é o que foi solicitado. Trata-se de um diagnóstico.

É importante afirmar de maneira clara qual é a exigência que a modernidade rejeitou em primeiro lugar, uma vez que é a mais valiosa: a ética objetiva. Aquele que age de acordo com uma ética subjetiva — na qual o bem e o mal são definidos por suas próprias decisões diárias — não possui nenhum critério que o ajude a perceber que está sendo levado a um engano, uma vez que este não se manifesta como uma mentira concreta, mas sim como uma reinterpretação plausível do que é considerado bom. A entidade que se apresenta como um anjo de luz não distorce os fatos; ela engana em relação à hierarquia dos valores, tornando aceitável o que na verdade é desproporcional. Sem uma medida que não seja a própria preferência, o operador não tem como recusar nada. E no instante em que ele não pode recusar, já não comanda: é usado.

O segundo requisito, correlato, é a soberania — palavra que o meio contemporâneo usa muito e entende pouco. Soberania não é confiança, não é atrevimento e não é a certeza de estar no controle. É a capacidade de permanecer no centro de si mesmo sob pressão, resistindo tanto à intimidação quanto à inflação. E a inflação é, de longe, o modo mais comum de fracasso: o operador tem uma experiência ambígua, sente um arrepio, interpreta aquilo como eleição pessoal e, em vinte e quatro horas, apresenta-se como representante exclusivo de uma entidade sobre a qual mal sabe pronunciar o nome. Isso não prova contato. Prova que a pessoa não sabe distinguir o que vem de fora do que vem da própria sombra — e que não sabe sequer se aterrar depois do trabalho.

A conta que sempre existe

Há uma lei que o esoterismo cobra sem exceção e que a cultura da abundância instantânea se recusa a ensinar: nada é dado. Existe troca equivalente. A regra não é literária, embora a ficção a tenha formulado com felicidade — dois irmãos alquimistas que descobrem, pelo caminho mais caro possível, que para obter algo é preciso oferecer algo de valor igual. Todo o capital espiritual das grandes tradições repousa aí: sacrifício, ascese, jejum, renúncia, tempo. Se alguém promete um resultado sem cobrar nada por isso, é provável que o custo esteja oculto ou que o resultado em si não seja real. Não existe uma terceira opção.

Portanto, a disparidade entre aqueles que simplesmente anseiam por abundância e aqueles que realmente estabelecem poder no mundo se resume a uma questão de arquétipo, sendo este arquétipo de natureza saturnina. Saturno não proporciona sorte: ele apenas oferece o que o tempo e a organização são capazes de suportar. Aqueles que realmente exercem o poder raramente se referem a manifestações; preferem falar em construção, permanência, linhagem, sistema e instituição. Não solicitam dinheiro — requerem a habilidade de mantê-lo, o que é distinto e constitui uma virtude, não uma quantia. Saturno é o deus do limite, do ciclo, da forma que resiste; trabalha com o que sobra depois que a emoção passou. Por isso a insistência cultural em pintá-lo como vilão não é ingênua: quem acredita que a limitação é sempre inimiga jamais construirá coisa alguma que sobreviva a si mesmo. E é por isso, também, que a tradição associa o rei sábio às virtudes saturninas antes das solares: primeiro o alicerce, depois o brilho.

Aplicada ao nosso campo, a lei da troca produz o critério prático mais útil que se pode oferecer a quem se sente atraído por essas operações. A pergunta correta antes de qualquer coisa não é o que eu quero pedir. É aquilo que estou pronto para desembolsar — e, de forma mais exata, o que eu me tornarei assim que efetuar esse pagamento. Porque o preço, nesses sistemas, raramente é cobrado em dinheiro ou em saúde. É cobrado em forma: naquilo que o operador se torna para poder sustentar o que obteve. Quem pula essa pergunta num sistema que a formulou antes de deixá-lo entrar não foi enganado pela entidade. Foi enganado pela própria pressa.

Três nomes, três provas

Do catálogo inteiro, três figuras se destacam para uma análise mais cuidadosa, não por serem as mais potentes — a medida de potência, nesse contexto, é frequentemente uma projeção do operador —, mas porque cada uma delas ilustra de forma precisa um tipo diferente de destruição. Quando consideradas em conjunto, elas se aproximam de uma classificação do fracasso goético.

Belzebub. A origem do nome está ligada a Baal Zebub, uma divindade filistéia mencionada na Escritura, e a interpretação comum o traduz como o senhor das moscas. A caricatura matou a figura: encurtada a moscas, putrefacção e estética de galeria comercial, tornou-se o emblema favorito de quem confunde trevas com carácter. No entanto, o nome transmite uma mensagem diferente, e o faz com exatidão. A mosca é o sinal da putrefação; a putrefação é um processo; e todo processo tem função. O que se deteriora se transforma em adubo. A decomposição liberta o que estava retido e cria espaço para o que ainda não surgiu. Belzebu, sob a perspectiva de sua própria lógica, não representa o demônio da imundície: é a energia da putrefação — a entropia personificada.

Isso não o absolve, e é fundamental manter uma postura crítica aqui para evitar cair no ocultismo amigável que está promovendo demônios como guias. A tradição nos ensina que Deus utiliza o mal para propósitos que o mal não almeja; o instrumento permanece sendo um instrumento, e ainda é considerado mau. A literatura contemporânea apresentou essa doutrina de forma mais clara ao fazer o Criador afirmar ao insurgente, essencialmente, que nenhum assunto pode ser abordado sem que sua origem última esteja Nele, e que aquele que tentar modificá-lo por sua própria vontade acabará se revelando como um instrumento de maravilhas que jamais poderia imaginar. A destruição é real, o dano é real, e ainda assim a partitura permanece. É esse o sentido teológico do fim dos tempos: não a negociação com a entropia, mas a sua abolição.

E a prova que essa potência aplica é específica, e é implacável com o público que mais a procura. Quem busca o senhor da decomposição para preencher um vazio — o afeto que não veio dos pais, a exclusão do grupo, a solidão que não se nomeia — está pedindo que uma força de dissolução opere sobre uma ferida aberta. A primeira coisa que ela dissolverá não é o obstáculo externo: é a estrutura precária que mantinha a pessoa de pé. Inclusive, e principalmente, a identidade sombria construída para tornar suportável a dor. O operador chega acreditando que contratou poder, mas descobre que na verdade contratou a retirada da máscara. É por isso que essa figura desmancha gostos, costumes e certezas antes de qualquer outra coisa: não porque seja pedagógica, mas porque é aquilo que ela é.

Lucifuge Rofocale. Figura da linhagem impressa dos grimórios franceses, primeiro-ministro infernal encarregado das riquezas e dos tesouros, é o nome mais requisitado pelos aprendizes apressados, e é o único do catálogo que traz a advertência dentro do próprio vocábulo. Lucifuge: aquele que foge da luz.

Isso não é estética gótica; é informação técnica. Firmar um pacto com uma potência que se distancia da luz é equivalente a consentir com a escuridão, e essa questão da escuridão não se trata de moralidade, mas sim de assimetria informacional. Isso quer dizer que haverá disposições que você não conseguirá visualizar, e a parte que as elaborou tem interesse em que você não as veja. Todo o folclore do pacto se concentra nesse aspecto: o prazo é definido, o objetivo é evidente, e a contrapartida é aquilo que o contratante não investigou. O saber de Fausto não ilude quanto ao que recebe; ilude quanto ao que, afinal, ele mesmo é.

Há uma demanda que a tradição respeitável estabelece e que o mercado eliminou. Antes de qualquer tipo de pacto, acordo ou solicitação, a questão a ser levantada não é o que eu desejo. É o que eu estou disposto a não ver. Pois aquele que aceita agir na escuridão já concordou, de antemão, em não investigar. Um homem que não se questiona não possui nada — nem o que lhe foi dado, nem a si mesmo. O pacto, afinal, nunca demonstra a magnitude da potência. Mostra a vulnerabilidade de quem a buscou, e faz isso exatamente na mesma proporção da urgência com que foi buscada.

Choronzon. O terceiro caso é o mais didático de todos e é contemporâneo. Em 1909, no deserto argelino, Aleister Crowley e Victor Neuburg conduziram a operação registrada em A Visão e a Voz, da qual saiu o nome que a tradição posterior fixou como o habitante do Abismo — o guardião do intervalo entre o que se é e o que se pretende ser. Não há vestígio consistente dessa figura antes daquele registro; ela é, para todos os efeitos históricos, uma criação do século XX. Registre-se o fato com a mesma frieza com que se registrou a construção da lista dos setenta e dois: nem tudo o que hoje se venera como antigo é antigo.

E é justamente por ser moderno que esse nome descreve tão bem o mal moderno. Choronzon não tenta com prazer, nem com riqueza, nem com poder. Não precisa mentir. Ele intensifica o que já está desorganizado dentro do operador até o limite do colapso, permitindo que a pessoa se desintegre em suas próprias contradições. É o princípio da dispersão: a alma que se dissolve em versões incompatíveis de si mesma até deixar de existir como unidade.

A prova que ele aplica não é a coragem. É a coerência. E ninguém a improvisa na hora — ou o homem chegou íntegro, ou não chegou. É por isso que a resposta correta diante da figura que se apresenta como passagem, como revelação, como anjo de luz, não é o combate: é a recusa. Dizer que não, que aquilo não é o caminho, que aquilo é mentira. Aqueles que concordam atravessam para a posição incorreta, acreditando que ascenderam — e essa crença é parte do funcionamento do sistema, e não uma consequência dele.

O Círculo de Estudos Nous sugere — e se distingue claramente como uma leitura simbólica, em vez de uma declaração factual — que a gnose difusa da modernidade atua exatamente nesse nível: uma dispersão que se apresenta como uma oportunidade, um desmantelamento comercializado como pluralidade e uma ausência de forma mostrada como liberdade de forma. Se estiver certa a leitura, o traço mais distintivo da espiritualidade atual não é o excesso de fé: é a falta de capacidade para manter uma.

As três figuras, quando consideradas em conjunto, formam um retrato do caos. A primeira remove a máscara de quem buscou conforto. A segunda cobra o que não foi examinado por quem procurou atalho. A terceira distribuição separa aqueles que chegaram sem coesão. Nenhuma das três precisa enganar; nenhuma delas precisa pressionar nada. Todas funcionam com material que o próprio operador trouxe.

Cena — Cozinha de um apartamento, três horas da manhã, sal espalhado sobre a bancada e um caderno aberto.

Uma mulher na casa dos trinta anos, com olheiras, vestindo um roupão. Sentado à mesa, um homem mais velho, de terno velho, que não parece estar ali para consolar.

ELA — Eu fiz tudo certo. Eu li o texto inteiro, eu decorei os nomes, eu marquei a hora.

ELE — E o que você pediu?

ELA — Que ele retornasse.

Silêncio. O homem apoia os cotovelos na mesa.

ELE — Você não pediu poder. Você pediu companhia.

ELA — E qual é a questão?

ELE — Nenhum, se você tivesse consultado um padre, uma amiga ou um terapeuta. O endereço é o problema. Você trouxe uma ferida exposta para um lugar cuja especialidade é abrir.

ELA — (irritada) Eu não sou estúpida.

ELE — Não afirmei que fosse. Eu comentei que você estava faminto. O que acontece com a fome é que ela não seleciona o prato, mas sim o que chega mais rápido.

ELA — Uma semana depois, comecei a sentir uma estranheza em mim mesma.

ELE — De que maneira estranha?

ELA — Como se as coisas que eu gostava não fossem mais minhas. Como se eu tivesse esquecido de que jeito eu era.

Ele se levanta devagar e olha o caderno na bancada, sem tocar.

ELE — Você não foi atacada, filha. Você foi desmantelada. E não foi ninguém que desmontou: foi você que entregou as peças achando que estava pagando com moeda.

ELA — E agora?

ELE — Agora você faz a única coisa que ninguém ensina nesses PDFs. Fecha. Depois janta. Depois você pode dormir. Amanhã, teremos a oportunidade de discutir o jovem, que, desde o início, tem sido o foco desta conversa.

O que realmente falha

É hora de passar do nível metafísico ao nível dos danos, porque é este que causa ferimentos nas pessoas, e porque a literatura clássica oferece muito mais detalhes do que os guias de mercado.

O primeiro risco é o erro ritual, e ele é o mais frequente. Um círculo mal feito, uma hora equivocada, um nome pronunciado incorretamente, um selo feito às pressas, um fecho esquecido. Os grandes textos procedem de maneira obsessiva e meticulosa, não por uma superstição ligada à forma, mas pela mesma razão que leva a um protocolo cirúrgico a ser tão rigoroso: porque as consequências de qualquer desvio não afetam quem elaborou esse protocolo.

A segunda questão é a falta de controle. Todos os guias alertam que a entidade pode simular uma partida, ficar em silêncio, esperar que você se relaxe e depois voltar. É por isso que se torna necessária a exigência de um encerramento claro, e é também por isso que se enfatiza a importância da licença para partir como um ato significativo, e não apenas como uma formalidade. Um operador que se desvincula, acreditando que tudo está finalizado, na verdade não concluiu.

O terceiro é o resíduo. Quando o ciclo não se completa, permanece uma abertura cujo destino o próprio operador não sabe nomear, e ele volta à vida comum carregando material de um lugar que não identificou. Os relatos tradicionais descrevem a consequência num vocabulário estável ao longo dos séculos: perturbação do sono, pesadelos recorrentes, hostilidade concentrada no ambiente doméstico, animais inquietos, degradação súbita de relações, incapacidade de descanso. Nada disso prova nada por si só, e é honesto dizê-lo. Mas a constância do relato ao longo de quinhentos anos e de culturas distintas não é ruído: é dado.

O quarto é o mais sério e requer total sobriedade, pois é nele que o erro prejudica os outros. A tradição sustenta que, em casos extremos, o desfecho é a possessão, e a doutrina católica trata a matéria como assentada. Mas a mesma tradição é hoje muito mais cuidadosa do que o público imagina: a Igreja exige avaliação médica e psicológica prévia antes de autorizar o rito, precisamente porque epilepsia, esquizofrenia, transtornos dissociativos e crises psicóticas produzem sinais que, num ambiente religioso intenso, são lidos como possessão. E a leitura errada não é apenas inútil — é agravante, porque substitui um tratamento eficaz por um procedimento que realimenta o delírio. Houve, no século XX, casos que terminaram em morte por essa confusão, e eles devem pesar sobre qualquer um que trate o assunto como entretenimento. Atribuir a uma potência o que é doença é uma forma de negligência. E negar a existência do fenômeno diante de relatos que a sugestão não explica é dogmatismo pelo avesso. Prudência, aqui, significa recusar as duas facilidades.

O quinto risco não deixa sinal aparente e é o que mais pessoas enfrentam: a inflação. O operador não é aniquilado; é elevado aos seus próprios olhos. Começa a enxergar a si mesmo como escolhido, como intermediário, como representante. E já que a inflação é tão agradável, ela não é vista como um sinal. É por isso que as escrituras exigiam que se confessasse a indignidade, antes de tudo — não por devotamento masoquista, mas porque a humildade é, em termos práticos, uma defesa. Um homem que tem consciência de sua pequenez é difícil de cooptar. Um homem que se acha eleito já foi.

A solitude indesejada por todos

Há uma figura que sintetiza a exigência interna de toda operação que se pretenda séria, e essa figura está na primeira lâmina do tarô. O mago surge com uma mão erguida em direção ao céu e a outra apontando para a terra, sem companhia — sem observadores, sem público, sem ninguém que valide o gesto.

Essa solidão não é um enfeite simbólico. É a condição. O arquétipo da vontade transformadora só se ativa quando o eu deixa de precisar de reconhecimento externo, e todo operador que trabalha para ser visto está fazendo outra coisa: está performando poder em vez de exercê-lo. A distinção é limpa e cruel. Quem exerce não precisa contar; quem performa não pode parar de contar. O primeiro é governado pelo arquétipo do mago; o segundo, pelo do bobo — aquele que caminha alegre em direção ao precipício com a plateia aplaudindo o passo.

Isso não é apologia do isolamento, e a distinção importa. Existem santos que alcançaram a santidade na solidão e outros que o fizeram em meio à multidão; a solidão mencionada aqui é a interna, e não a geográfica. Trata-se do ponto em que vontade e ação deixam de necessitar de aplauso. E é aqui que o diagnóstico se torna desconfortável para toda uma geração: quem precisa ser visto para existir já entregou a alguém a chave do próprio ser. Não há operação goética que produza dano comparável a esse, porque essa é a forma mais discreta e mais duradoura de possessão que existe — e ela não exige círculo, selo, nem hora planetária. Exige apenas uma tela.

A grande inversão

Estamos, finalmente, em posição de designar o que a modernidade impôs a este território, e para tal diagnóstico é necessário, antes de tudo, descrever o funcionamento geral do mecanismo.

Cada símbolo clássico pode ser visto como uma janela: ele se dirige a algo que o transcende. O moderno operar com os símbolos acontece em duas etapas. Começa pelo esvaziamento: o signo perde seu conteúdo interno e se transforma em adorno, logotipo, referência estética. Em seguida, ocorre a inversão: dá-se a ela um sentido que muitas vezes contraria o original. A verdadeira genialidade do processo reside no fato de que, após a primeira fase, a segunda não enfrenta qualquer oposição — ninguém se opõe a algo que já perdeu seu significado.

Quando aplicada à goécia, a sequência é claramente perceptível a olho nu. A tradição completa — tanto judaica quanto cristã, assim como a grega — abordava esse domínio com respeito e severidade. Medo, pois sabia da existência de forças que estão além do ser humano. Rigor, pois exigia preparação, hierarquia, uma autoridade superior e um término. A modernidade retirou ambas as coisas e manteve apenas o léxico. O que restou foi um dicionário de nomes exóticos à disposição para uso.

Três produtos resultaram dessa extração, e vale distingui-los porque atendem a públicos diferentes. O primeiro é o produto psicológico: a moldura arquetípica, que converte potências em conteúdos internos e dispensa o operador de decidir se aquilo existe. O segundo é o produto estético: a iconografia sombria como identidade disponível, especialmente atraente para quem carrega dor sem nome e encontra ali uma forma reconhecível para exibi-la. O terceiro é o produto de status: a goécia como sinal de pertencimento a um grupo que se imagina superior aos crédulos das religiões estabelecidas — e que reproduz, com outro figurino, exatamente a mesma estrutura de adesão acrítica que julga ter superado.

Os três compartilham a mesma operação de fundo, e é justo enunciá-la sem eufemismo: transformaram o que exigia conversão em algo que exige apenas compra. Um curso modular. Selo estampado. Um arquivo. Uma vela colorida. E, quando o resultado não vem — que é o desfecho ordinário —, a explicação disponível nunca é a única honesta, que seria "eu não estava preparado". É sempre externa: a energia estava densa, o ambiente estava carregado, havia interferência, alguém trabalhou contra. A terceirização da responsabilidade é o produto final desse mercado, e é o mais barato de produzir.

Há ainda um efeito colateral que atinge o adversário. É precisamente porque o tema foi despojado que ele passou a ser intrigante. Em uma sociedade que não acredita mais de forma literal em forças espirituais, os demônios adquiriram uma aura estética que nunca teriam conseguido se fossem levados a sério. Ninguém enfeita a parede com o que teme. A trivialização gerou o encantamento, que por sua vez deu origem ao mercado — e, no final, quem arca com as consequências é sempre o indivíduo real que se aventurou em um território autêntico munido de um mapa de brinquedo.

A solução, que permanece inalterada há dois mil anos

Se a goécia é uma tração e a teurgia é uma ascensão, então a alternativa ao território examinado neste ensaio não é o ceticismo: é a direção contrária.

Moderna ficção criou o mais claro par de imagens para essa dicotomia, e é apropriado utilizá-lo. Existe o mago que absorve energias e as projeta no universo para concretizar seus desejos, convencendo-se, durante esse processo, de que está contribuindo para a ordem ao, na verdade, servir a si mesmo — e existe aquele que possui um poder de igual magnitude, mas opta por não utilizá-lo, pois se submete a uma providência que deseja a vitória dos mais humildes. Um é uma obra sobre a criação; o outro, de acordo com ela. É a mesma força com direções opostas, e a única diferença é a obediência.

Isso nos leva de volta à imagem que permeia toda a tradição: a porta estreita. A promessa do caminho invertido é sempre expansão — expandir a consciência, expandir os limites, expandir o eu até que nada mais o contenha. A tradição teúrgica, que vem de Sócrates e de Platão e que a metafísica cristã depois estruturou, ensina o contrário: não te expandas, restringe-te para caber onde deves caber. Cortar do próprio eu o que não passa pela porta é o trabalho de uma vida inteira, e não há técnica que o dispense.

E há a última inversão, que é geográfica. A mística judaica descreve a travessia dos palácios celestes chamando-a de descida à Carruagem, e a inversão de vocabulário não é acidente: o caminho não se percorre para fora do sujeito, percorre-se para dentro. Teresa de Ávila diz a mesma coisa ao descrever as moradas sucessivas do castelo interior até a mais íntima. Não se alcança Deus como se estivesse no topo de uma torre — deve-se descer até o âmago, pois é nesse núcleo da criação que Ele se encontra, e a entrada para esse lugar é a alma mesma. Quem "sobe" fugindo do próprio interior não ascende: afasta-se. A humildade espiritual, nesse esquema, deixa de ser virtude decorativa e vira questão de direção.

Conclusão

O percurso fecha sobre si. Começamos com uma palavra que designava o uivo de quem chamava os mortos e terminamos diante de um mercado que vende selos plastificados com garantia de resultado. Entre esses dois pontos, não foi feita nenhuma descoberta. Foi feita uma extração.

Em cada fase, o que foi removido sempre foi a mesma coisa: a medida. Eliminou-se a diferenciação entre goécia e teurgia, levando consigo a distinção entre submeter-se à ordem e aproveitar-se dela. Removeu-se a diferença entre adoração e adoração, levando consigo a única barreira que separava o praticante cristão do idólatra. Foi removido o anjo que causa frustração, assim como a hierarquia de autoridade que impedia o homem de confrontar, por si mesmo, aquilo que está além de sua compreensão. Retirou-se a preparação, e com ela a única coisa que jamais poderia ser comprada. Removeu-se o fim, e com ele a chance de retornar por completo. Finalmente, afastou-se a questão de determinar o status do que se manipula — pois tomar decisões é oneroso, e o mercado floresce na incerteza.

O que é fundamental permanece, e é conciso. Os reinos goéticos não são uma exposição de serviços: são um domínio onde as potências, caso existam, não recebem nada e, portanto, não têm nada a oferecer — elas se movem, e a conta continua em aberto. O que é oferecido lá é sempre um bem legítimo, mas falta o percurso que o torna viável, e é precisamente esse percurso que molda o ser humano. A operação não cura a ferida que trouxe o operador até lá; transforma a ferida em destino. E a prova a que ele é submetido não é a coragem, nem a técnica, nem a erudição sobre selos: é a coerência, que ninguém improvisa na hora.

Duas advertências restam, e são o resíduo prático deste percurso. A primeira: nada ali precisa mentir para vencer. Basta desordenar as prioridades e esperar. A dispersão não chega anunciando dispersão — chega anunciando liberdade, abertura, autenticidade, autoconhecimento. A segunda: não é a entidade que desestabiliza. A falta de estrutura é o que causa a desestabilização. Quem entra sem método, sem símbolo, sem tempo delimitado, sem fechamento e sem ética objetiva não foi vitimado por um poder externo. Foi vitimado pela própria pressa, e chamou de reino goético o buraco que ele mesmo cavou.

O nome dos reinos importa menos do que o mapa. E um mapa serve, no fim, para uma coisa só: saber onde não se deve entrar — e por onde se volta.

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SUTIN, Lawrence. Do what thou wilt: a life of Aleister Crowley. Nova York: St. Martin's Press, 2000.

Fontes modernas examinadas criticamente

CROWLEY, Aleister. The vision and the voice, with commentary and other papers. York Beach: Weiser, 1998.

JUNG, Carl Gustav. O livro vermelho: Liber Novus. Petrópolis: Vozes, 2013.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 2011.

Literatura

GOETHE, Johann Wolfgang von. Fausto. Tradução de Jenny Klabin Segall. São Paulo: Editora 34, 2004.

TOLKIEN, J. R. R. O Silmarillion. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2019.