Gosma e Forma: Um Estudo sobre a Crise do Real no Pensamento, na Crença e na Existência Brasileira

Qualquer sistema que proclama a libertação por meio da dissolução de formas, nomes e diferenças não é nada mais do que o Nada disfarçado com uma terminologia acadêmica. O Brasil, que já é uma nação marcada por um improviso metafísico, tem vivenciado essa ilusão com um entusiasmo comparável ao de um carnaval, mas com repercussões que se assemelham a um réquiem. Este texto examina, desde o catecismo mal realizado até a política de caráter messiânico, passando pelo intelectual que nutre aversão ao pobre real e chegando à civilização que substituiu o Verbo pela burocracia, as maneiras pelas quais a imundície se propaga e as formas em que a esperança, teimosa como uma criança segurando um desenho, ainda consegue persistir.

Gabriel G. Oliveira

5/6/202670 min ler

O Vazio de Terno: In-Gnose, Desintegração Civilizacional e os Últimos Vestígios de Esperança

Existe uma forma de filosofia que não se dedica a entender o mundo; em vez disso, ela invade esse universo com uma marreta, um capacete de obra pública e uma expressão facial que sugere que encontrou a chave secreta do universo no fundo de uma postagem mal organizada. O indivíduo observa a realidade e percebe a presença de crianças, famílias, comércio, missas, sonhos, pão, trabalho, vendedores ambulantes, imaginação, sacrifício e esperança. E, então, chega à conclusão, com a mesma gravidade de alguém que está prestes a inaugurar um viaduto: "isso tudo precisa ser consertado". Meu caro, quando uma proposta se inicia afirmando que irá reparar toda a realidade, é prudente verificar se ela realmente possui uma solução ou se, na verdade, está apenas equipada com um galão de combustível e um fósforo filosófico no bolso.

O problema das filosofias sem esperança não reside apenas no fato de serem melancólicas. Às vezes, a tristeza é sincera. O luto traz tristeza, a perda é lamentável e a consciência do mal também é triste. O grande problema surge quando a tristeza se transforma em uma questão metafísica, quando a pessoa pega seu próprio ressentimento, aplica um acabamento intelectual, adiciona uma nota de rodapé, rotula como crítica social e começa a proclamar por aí que tudo o que existe é uma prisão, uma forma de opressão, uma ilusão, uma estrutura maldita, uma construção arbitrária ou o resultado de alguma conspiração cósmica da matéria contra a alma. A partir daí, já não se trata mais de pensar. É má vontade com aspiração a sistema.

É aqui que se insere o que podemos denominar In-Gnose: não apenas a gnose enquanto um fenômeno histórico do passado, mas como um ícone espiritual e intelectual de um desejo de desintegração. O "in" possui diversos significados na linguagem clássica — início, indistinção, o antes-de-tudo — e é esse peso que é relevante neste contexto. Antes de tudo se formar, tudo era uma massa indistinta, uma totalidade que precedia qualquer forma, um conjunto que ainda não havia sido definido por nenhuma distinção. Diversas mitologias antigas, em particular as asiáticas, utilizam essa representação: no início, tudo era unitário; em seguida, ocorreu a separação e a diferenciação, o que resultou no surgimento do cosmos e dos seres. A In-Gnose é a nostalgia desse período anterior. É a vontade de retornar àquela unidade primordial, onde tudo se confunde, nada se distingue, nada se afirma, nada se organiza em hierarquias, nada recebe um nome, e nada é passível de responsabilidade. É o reino da meleca. Tudo se torna uma única entidade, tudo se amalgama, tudo se desfigura, e a pessoa ainda se refere a isso como libertação, como se dissolver a estátua fosse equivalente a emancipá-la da rocha.

Em discussões sobre o gnosticismo, é comum encontrar questões relacionadas ao demiurgo, à queda na existência material e à salvação como um retorno a uma origem espiritual mais elevada; a Biblioteca de Nag Hammadi contém várias dezenas de textos coptas que se conectam a diversas tradições gnósticas, herméticas e mitológicas. A questão não é realizar uma investigação arqueológica sobre seitas — isso se resumiria a um passatempo de um estudante entediado em um sábado chuvoso. A questão é identificar o padrão espiritual repetitivo: desdém pela criação, salvação através de um conhecimento privilegiado, uma elite esclarecida, o mundo físico como uma ilusão, e a libertação vista como uma escape da forma. Quer se trate do gnosticismo clássico, do catarismo, das correntes do hinduísmo que fundem tudo em Brahma, do apocalipse budista que anula até as cores, ou dos projetos políticos contemporâneos que prometem um paraíso enquanto eliminam o vocabulário moral necessário para designar o inferno como inferno, o movimento subjacente é sempre o mesmo. Constantemente desejando absorver o yang. A incessante lamina busca devorar a própria moldura.

A In-Gnose, nesse simbolismo, representa a sedução de observar a criação e afirmar: "isso aqui deu errado; vamos voltar tudo ao caldo". Onde há diferença, ela enxerga agressão. Onde há fronteiras, ela enxerga opressão. Onde há organização, ela enxerga opressão. Onde há natureza, ela enxerga um erro de produção. Onde há moral, ela enxerga opressão. Quando uma criança expressa "mas isso aí não faz sentido", ela enxerga uma ameaça ao grande projeto de engenharia do impossível.

E note que o drama se torna engraçado porque o indivíduo contemporâneo, muitas vezes, não possui a ousadia de afirmar que detesta a realidade. Ele afirma estar "problematizando". É uma palavra excelente, pois é aplicável a diversas situações. O arroz ficou queimado? Levanta questões. A criança questionou por que a hóstia representa o Corpo de Cristo, e ninguém conseguiu responder. Levanta questões. O vendedor informal deseja vender água no semáforo para sustentar sua família? Questiona. Um indigente deseja se tornar rico? Levanta questões. Alguém afirma que o bem e o mal são diferentes? Isso levanta questões, pois a situação se tornou arriscada: surgiu uma diferenciação.

A essência desse caos reside na luta contra a forma. O estilo, neste contexto, não é um mero enfeite; é o que define a essência de cada coisa. Sem contorno, tudo se torna um amontoado. Sem qualquer diferença, tudo se transforma em neblina. Sem identificação, nada pode ser avaliado. Sem a presença do bem e do mal, ninguém pode ser convocado à conversão. Quando ninguém é capaz de ser convocado à conversão, o mal não se extingue; ele apenas muda de aparência, assume um rótulo de virtude e passa a operar em uma instituição ideológica.

Daí certas versões contemporâneas do progressismo ideológico se assemelharem estranhamente à antiga estrutura gnóstica: veem a realidade como encarceramento, a natureza como contingência, a tradição como prisão, a família como problemática, a religião como doença e a esperança real como simplista. Não é correto afirmar que todos os indivíduos de esquerda compartilham desse pensamento, pois isso seria uma demonstração de ignorância extrema. É importante compreender um determinado tipo de mentalidade, uma caricatura da realidade, um personagem conhecido: o militante que é intrinsecamente azedo, aquele que, ao observar uma criança sorrindo para um brinquedo, não consegue evitar a desconfiança de que, por trás dessa cena, existe uma estrutura opressiva que requer seminários, material informativo e financiamento.

Aí surge um apofatismo mal compreendido. Em teologia, a via negativa é apropriada: ela admite que Deus está além de nossas categorias e que nenhuma expressão humana esgota o mistério divino. Está tudo certo, isso é totalmente compreensível. A questão surge quando essa verdadeira humildade é apropriada por uma mentalidade política que converte a negação em um método abrangente de destruição. Já não se afirma apenas que "Deus está além do conceito"; na prática, começa-se a sustentar que bem, mal, natureza, ordem, finalidade, verdade e limite são todos questionáveis. E quando tudo levanta suspeitas, é curioso notar que o único comitê que não é considerado suspeito é aquele que duvida de tudo. Vamos ser honestos: é uma astúcia impressionante.

A teologia catafática, ao positivar certas verdades — Deus é bom, Cristo é o Verbo encarnado, o bem é bem, o mal é mal — irrita esse projeto de não distinção. Cristo não vem e diz: "tudo é fluido, relaxem, cada um constrói sua própria montanha metafísica com massinha escolar". Ele distingue, julga, restaura, perdoa, estabelece, convoca ao arrependimento e diferencia entre luz e trevas. Isto é absolutamente intolerável para qualquer ideologia que só consiga prometer o paraíso após aniquilar o léxico moral que tornaria possível afirmar que o inferno é, de fato, inferno. É por isso que a esquerda contemporânea nutre um ódio quase digno de admiração por Cristo: ele representa a antítese fundamental do projeto apofático. Para que o paraíso da ausência de distinções venha a ser, é necessário eliminar exatamente aquele que fez da distinção entre o bem e o mal o foco de sua mensagem. O esquerdinha pretende invocar o Messias através da determinação da vontade política, assim como um mago que tenta impor sua vontade ao universo em vez de solicitá-la a Deus. Uma mentalidade que tanto Anton LaVey quanto Aleister Crowley identificariam de imediato, e que deveriam ser os primeiros a nomeá-la corretamente.

Aqui surge a familiar tentação de "imanentizar o escaton", uma expressão ligada à análise crítica de Eric Voegelin sobre as ideologias modernas que tentam trazer a salvação final para dentro da política, como se o céu pudesse ser produzido por decreto, partido, Estado, engenharia social ou ditador com cartaz bonito. Quando a política decide criar a redenção final, geralmente começa fazendo promessas de fraternidade e termina registrando adversários. Joaquim de Fiore, por sua vez, elaborou uma filosofia histórica dividida em três eras — a do Pai, a do Filho e a do Espírito —, e sua influência posterior alimentou muitas mentes milenaristas e utópicas; a noção de uma futura era espiritual, quando liberada de suas restrições teológicas e convertida em um programa político, torna-se um verdadeiro banquete para aqueles que desejam substituir a conversão pela gestão do paraíso. O indivíduo contemporâneo pega um elemento escatológico, combina com rancor, adiciona alguns termos sociológicos, mistura tudo em um liquidificador e apresenta isso como uma forma de salvação histórica. O resultado é um néctar denso de Messias sem o Cristo, salvação sem a graça, um paraíso sem santidade e uma justiça desprovida de juízo. Então, as pessoas consomem isso e ainda consideram sofisticado, pois é servido com uma camada de espuma acadêmica por cima.

Quem está impedindo esse projeto? A criança.

A criança perturba porque ainda possui alguma lealdade à realidade. Ela é capaz de conceber dragões, reinos, heróis, monstros e castelos, mas ao se deparar com algo concreto diante dela, faz uma pergunta com uma sinceridade que corta: "mas isso aí é o quê?". A criança possui um realismo crú, quase cruel, por ainda não ter assimilado todas as regras de fingimento social. Ela ainda não aprendeu a participar daquele teatro maduro em que todos reconhecem a presença do elefante na sala, mas concorda em referir-se a isso como "processo simbólico de corporeidade expandida". Uma criança não possui paciência para isso. Ela observa e comenta: "é um elefante". Está feito. A conferência chegou ao fim. A mentalidade que muitos consideram ingênua é, de fato, bastante tomista em seu sentido mais preciso: a criança começa com o que é real para formar conceitos, em vez de partir de abstrações para reconfigurar a realidade. Ela observa um homem que possui órgão genital masculino e o classifica como homem, com a mesma calma científica de um chimpanzé que participou de uma pesquisa destinada a provar o oposto, mas que falhou porque nem mesmo o primata se mostrou disposto a colaborar com o experimento de desmantelamento.

É evidente que a criança também necessita de educação. Ela pode ser crédula, egocêntrica, indecisa, medrosa, vaidosa e obstinada. Nenhuma criança vem ao mundo como doutora da Igreja, carregando uma lancheira. No entanto, há nela uma capacidade de se conectar com a realidade e com o bem que deve ser orientada, e não reprimida. É neste ponto que surge uma crítica que faço com propriedade, uma vez que vivi essa experiência e saí dela com uma cicatriz: a catequese mal realizada no Brasil é um verdadeiro desastre civilizacional disfarçado de material didático.

Oferece-se um pequeno livreto de qualidade duvidosa, daqueles que a CNBB publica com uma regularidade frustrante, e pede-se à criança que preencha as lacunas. Repetimos a frase "Jesus é amor" como se fosse a senha de Wi-Fi da paróquia, mas ninguém se dá ao trabalho de explicar o essencial: o que significa a Encarnação, o que é um Sacramento, o que é a Eucaristia, qual é o verdadeiro significado da presença real, e por que aquele pão consagrado não é "um símbolo bonitinho" jogado no teatro religioso da comunidade. A criança questiona: "como Cristo está ali?". A catequista, caso não tenha recebido uma boa formação - o que acontece com muitas delas -, sem ter total culpa pessoal, mas com uma responsabilidade prática que não pode ser negada, responde com um olhar semelhante ao de alguém que foi surpreendido por um fiscal da metafísica: "porque sim, meu filho, faz a página 17".

Foi dessa maneira comigo. Durante uma parte significativa da minha infância, mergulhei no paganismo, pois nenhuma catequista foi capaz de me explicar como Cristo poderia se transformar em um pão. A proposta me parecia bizarra, quase absurda, não por falta de receptividade, mas por falta de alguém qualificado para dialogar. Elas afirmavam que aquele pão representava o Corpo de Cristo. Eu me questionava sobre o como. Elas não tinham resposta. Um garoto que questiona "como" e é recebido com um silêncio disfarçado de paciência pedagógica acaba aprendendo algo importante: essa tradição não possui uma resposta para a sua pergunta, portanto, ele decide buscar a resposta em outra parte. E lá fui. Anos mais tarde, após intensos estudos e um aprofundamento em filosofia antiga, metafísica e na doutrina da Igreja, consegui entender o que é a transubstanciação, o que representa a presença real e o que sustenta a ontologia sacramental. Compreendi que era totalmente compreensível para uma criança, bastando explicar de forma organizada, paciente e com uma profundidade que aumentasse gradualmente. Não era necessário enfiar toda a Suma Teológica na cabeça do garoto como se estivesse despejando um saco de cimento. Era necessário alguém que tivesse a habilidade de abrir a porta.

Por que você está assustado? Você apresentou um mistério divino envolto em uma atividade de colorir e, em seguida, se queixou de que o garoto foi buscar significado em outro lugar. O jovem que se envolveu com o ocultismo, o protestantismo emocional, o ateísmo encontrado na internet ou até mesmo com a bruxaria de prateleira, em muitos casos, não estava se afastando de Cristo. Estava escapando da representação monótona, superficial e desprovida de pensamento crítico de Cristo que recebeu de adultos que confundiam catequese com o ato de preencher um livreto. A Igreja possui ferramentas para explicar a Encarnação a uma criança. Há Santos, Doutores, Catecismos, uma vasta e rica tradição filosófica. A questão não está na doutrina; mas na falta de empenho de quem deveria ensiná-la.

O catolicismo não deve temer a curiosidade infantil. Se uma tradição diz que o Logos se fez carne, não pode considerar a razão da criança como um incômodo. A criança necessita de uma catequese que ensine tanto a amar quanto a refletir. É necessário ouvir que Cristo é amor, mas também é justiça, verdade, sacrifício, ordem, misericórdia, juízo, cruz e ressurreição. Amor que não é sincero se transforma em afeto fraco. Justiça que não conhece a compaixão se transforma em pedra. Fé sem raciocínio se transforma em um slogan. Conhecimento sem crença se torna arrogância com uma estante de livros. A verdadeira formação não separa coração e razão como se estivesse montando um prato em um buffet espiritual; ela harmoniza os dois. Três anos de anotações no mesmo caderninho poderiam equivaler a um ano de tutoria filosófica efetiva, durante o qual a criança aprenderia o que é a presença real, o que constitui a graça, o que se define como pecado, o que é o Verbo, as razões pelas quais Cristo se distingue de Buda, e por que a Eucaristia é um sacramento e não apenas um símbolo. Uma criança consegue compreender tudo isso. A primeira tarefa é que o adulto se disponha a compreender.

O problema é ainda mais profundo, pois a má catequese é apenas um sinal de uma questão mais séria: a recusa em transmitir. A crise civilizacional não se apresenta inicialmente com nomes complicados. Ela não chega batendo à porta e dizendo: "boa tarde, sou a dissolução metafísica do Ocidente, vim desorganizar sua hierarquia de bens". Não. Ela vem como se fosse um bate-papo trivial, como o desgaste de um pai, como uma professora desmotivada, como um adolescente que se sente humilhado, como uma família que deixou de se reunir para o jantar, como uma criança que desenha dragões e ouve que isso é uma perda de tempo. A viscosidade se inicia na mesa da cozinha, e não no tratado universitário. É por essa razão que os exemplos da vida têm mais impacto do que os slogans.

Um pai que, ao chegar em casa exausto, se senta no sofá, pega o celular e passa três horas assistindo a vídeos enquanto o filho tenta mostrar um desenho, não está apenas descansando. Está instruando sobre uma liturgia. Está sugerindo, de forma implícita: "a tela merece mais atenção do que você". A criança tem uma capacidade de aprendizado rápida. Ela entende que seu pai está vivo em termos biológicos, mas ausente em espírito. Mais tarde, esse mesmo pai se queixa de que o filho se tornou uma pessoa introspectiva, irônica, distante, dependente de tecnologias digitais e sem interesse em dialogar. Mas, meu amigo, você semeou silêncio com internet sem fio e esperava obter comunhão? Aristóteles já via a virtude como um hábito consolidado, e não como um adorno moral que a pessoa coloca ao pescoço em ocasiões especiais. A formação do ser humano ocorre através da repetição de ações, do cultivo de sentimentos e da organização de desejos, até que a alma se torne capaz de apreciar o bem de fato, em vez de apenas elogiá-lo com discursos eloquentes. O pai que ignora isso tende a moldar seu filho com base em suas ações, e não em suas palavras. Pel suas escolhas, não por suas palavras.

O ensaio, então, se desvia para o aspecto social: uma sociedade que reprime a esperança nas crianças gera adultos repletos de ressentimento. O adulto desapontado não consegue tolerar os sonhos dos outros, pois esses sonhos revelam a morte de seus próprios anseios. Ele observa a criança que aspira a se tornar um cientista, um artista, um santo, um inventor, um escritor, um professor, um empreendedor ou até mesmo um herói, e responde com a gentileza característica de alguém que confunde cautela com um necrotério: "isso não dá futuro". Para uma criança, essa declaração pode ser interpretada como um convite a "desista e morra". Claro que não de forma física, mas sim de maneira simbólica. Uma parte da alma é morta ali. Mais tarde, esse mesmo adulto vai se queixar de que o jovem não possui um ideal. Foi ele que passou anos substituindo ideais por pagamentos, fantasia por receio, cautela por cowardice e orientação por traumas adquiridos. O indivíduo não guia a criança; transfere para ela o seu próprio insucesso, disfarçado de realismo. Afirma "estou preparando você para o mundo", mas na prática está só ensinando a alma a andar de cabeça baixa.

O garoto que se encanta em ilustrar monstros, robôs, santos lutadores, dragões, cidades fictícias e mapas de mundos impossíveis encontra dois tipos de adultos. O primeiro observa e comenta: "larga disso, vai estudar coisa que dá dinheiro". O segundo observa e comenta: "isso pode virar arte, literatura, arquitetura, design, imaginação moral, símbolo, linguagem". O primeiro destrói uma floresta por ver apenas um graveto. O segundo é responsável por irrigar uma semente. É nesse ponto que se estabelece a distinção entre civilização e barbárie: na forma como um adulto reage ao desenho imperfeito de uma criança.

Aqui, A História Sem Fim assume uma representação valiosa. O Vazio que consome a Fantasia não se resume a ser um mero efeito visual de um cinema antigo e esteticamente agradável. Representa a falta de esperança, a imaginação estéril e uma alma infantil oprimida pelo cinismo da idade adulta. No trabalho de Michael Ende, bem como em sua versão para o cinema, Gmork é apresentado como um servo ou um cúmplice do Nada, uma entidade obscura que persegue Atreyu e esclarece a conexão entre a aniquilação de Fantasia e o mundo humano; a representação do Nada serve precisamente como uma personificação do vácuo que avança quando as pessoas se tornam incapazes de imaginar e anseiam por um significado. Gmork é a voz que afirma que "sonho não serve para nada". Ele é o contemporâneo de nariz de lobo, o cinismo que morde, a didática do desespero grunhindo na penumbra. Ele não precisa recorrer a uma violência explícita para arruinar a criança; é suficiente persuadi-la de que ter esperança é uma tolice. Quando a criança começa a acreditar nisso, a Fantasia começa a desaparecer. O mundo não termina com uma explosão. Termina com um adulto afirmando "cresce" quando queria dizer "murcha".

Bastian, ao nomear a Imperatriz Criança, contribui para a reconstituição do mundo da imaginação. Isso vai além da superfície. Dar nomes é integrar-se à ordem. É rejeitar o Vazio. Isso significa que a realidade não precisa retornar à sua forma primitiva para ser redimida; ela deve ser renovada através da imaginação estruturada, da esperança, da bravura e da linguagem. Criação não é destruição. Criar não é amassar as formas até obter uma mistura caótica. Criar é moldar, nomear, estabelecer conexões e definir o propósito. E essa distinção separa de forma clara a autêntica esperança da utopia alimentada pelo ressentimento. A verdadeira esperança contempla o mundo machucado e proclama: "há salvação, há caminho, há cura, há graça, há trabalho". Uma utopia ressentida observa o mundo machucado e afirma: "vamos destruir tudo e depois a perfeição aparece, confia". É o que distingue um médico de um incendiário. O médico faz incisões para promover a cura; já o incendiário incendeia e se refere à fumaça como um novo paradigma.

Na sociedade brasileira, essa confusão se torna uma comédia particular, pois aqui até mesmo a metafísica viaja em ônibus lotados. O indivíduo critica o capitalismo utilizando um celular de importação, denuncia a opressão do comércio enquanto solicita um delivery, menciona o povo com desprezo em relação ao vendedor ambulante, defende os pobres contanto que estes permaneçam esteticamente pobres, domesticados, dependentes e agradecidos. Se o vendedor de água no farol é pobre, isso incomoda. Quando uma pequena banca é inaugurada, causa incômodo. Quando se torna rico, passa a ser um traidor da classe. Permanecer na pobreza transforma-se em um tema de discussão. É uma compaixão peculiar: ama intensamente o pobre em teoria, mas não tolera o pobre real que busca melhorar sua situação.

O infeliz real carrega um aroma, uma urgência, uma família, uma fatura, uma adaptação, uma ambição, um sonho, uma ira, uma fé, um cansaço e um desejo de adquirir uma geladeira superior. O pobre conceitual se encaixa em uma palestra. O infeliz real caminha pela rua, vendendo seus produtos. Há quem prefira o pobre que dá palestra, pois ele não solicita troco, não obstrui calçadas, não estabelece pequenos comércios, não vota de forma inadequada, não funda igrejas, não adquire motos, não almeja ter uma casa própria e não compromete a estética da revolução. O vendedor ambulante de São Paulo, que se esforça para vender água, balas ou carregadores sob o sol escaldante, em meio ao barulho das buzinas e à fumaça, buscando a sobrevivência de forma criativa, está praticando uma filosofia muito mais eficaz do que muitas palestras sobre a dignidade humana. Os primeiros a denunciá-lo costumam ser, muitas vezes, os defensores teóricos do povo. O infeliz real compromete a argumentação. Pobre de verdade não é um personagem submisso de um seminário; ele deseja vender, melhorar sua vida, quem sabe até enriquecer, e isso desagrada aqueles que preferem ver o pobre como uma imagem sagrada da dependência do Estado.

Olavo de Carvalho, com seu jeito peculiar, provocava essa contradição ao mencionar a ligação entre pobreza e obesidade, evidenciando como alguns setores intelectuais conseguem defender a justiça social enquanto nutrem um desprezo profundo pelo pobre real. É possível ter opiniões divergentes em muitos aspectos regarding Olavo, mas essa observação realmente atinge um ponto sensível na sociedade brasileira: há um grande número de pessoas que adora "o povo" como categoria retórica e despreza o povo como vizinho, vendedor, parente, fiel, aluno, motorista, pedreiro, diarista, comerciante ou eleitor. Apaixona-se pela massa; não tolera a pessoa. É fácil? O intelectual pretensioso consegue discutir a emancipação enquanto se refere ao franelinha como se fosse um erro de legenda. Fala sobre diversidade, mas fica em pane quando se depara com uma diversidade que ora, labuta, empreende, defende a família, aprecia a tradição ou apenas deseja viver sem solicitar autorização ao fiscal ideológico da esquina. O cidadão deseja emancipar a humanidade, mas não consegue manter uma conversa de cinco minutos com o porteiro de seu próprio edifício sem fazer uma expressão de tédio profundo.

Em última análise, tudo se resume a um único aspecto: a negação da realidade tangível. O gnóstico do passado tinha desconfiança em relação à matéria; o pensador contemporâneo tem dúvidas sobre a vida tal como a conhecemos. Ambos encontram dificuldades quando se trata de expressar gratidão. Sem gratidão, a inteligência se torna amarga. Isso não quer dizer que se deva ignorar injustiças reais — seria uma tolice. O mundo está repleto de exploração, falsidade, abuso, pobreza, violência, manipulação, doutrinação negativa, políticas corruptas, elites cínicas, religiões falsas, comércio desonesto, moralismo seletivo, e uma infinidade de pessoas que utilizam Deus, o povo, a ciência, a tradição ou a justiça como meras fantasias de carnaval ideológicas. É indispensável fazer críticas. O problema surge quando a crítica deixa de ser uma ferramenta de verdade e se transforma em um hábito prejudicial ao espírito. Existem indivíduos que não se dedicam à análise com o intuito de se curar; eles analisam para jamais se permitirem amar algo.

A esperança, diferentemente, não é falta de discernimento. Esperança não significa acreditar que tudo está certo. Isso se trata de anestesia. Esperança é reconhecer a existência do mal sem permitir que ele tenha a palavra final. É observar a criança e evitar desvalorizar sua pergunta. É contemplar a Eucaristia e não limitá-la a uma atividade pedagógica mal interpretada. É observar o pobre sem convertê-lo em um símbolo ideológico. É observar a imaginação e não rotulá-la como uma fuga apenas porque ela consegue enxergar a grandeza onde o ressentido só percebe números e estatísticas. A esperança pede discernimento. Fazer distinções não é sinônimo de ódio. Afirmar que o bem é realmente bom e que o mal é realmente mau não significa ser desprovido de compaixão; é, na verdade, uma condição essencial para qualquer forma de misericórdia que se pretenda séria. Quando tudo está bem, não há necessidade de salvar nada. Se tudo é uma questão de perspectiva, então ninguém pode ser considerado culpado — a não ser, curiosamente, aqueles que divergem do ponto de vista do relativista. Se qualquer forma é uma forma de opressão, até mesmo o rosto humano passa a ser visto com desconfiança. No final, a confusão que foi prometida como liberdade se transforma em uma lama moral, onde o mais forte sempre consegue se adaptar e se sobressair.

Toda civilização tem seu início com uma postura de reverência, ajoelhando-se diante de algo maior. É possível se submeter diante de Deus, dos deuses, da razão, do Estado, do mercado, da raça, da classe, do progresso, da técnica, do prazer, da própria identidade ou daquele bezerro de ouro moderno que atende pelo nome simpático de "minha verdade". Então, ajoelhe-se. O ser humano pode até afirmar que não tem nenhuma devoção, mas é suficiente analisar sua programação, seus medos, suas finanças, sua ira e seu domingo à noite. Ali, aparece o altar. Em algumas ocasiões, trata-se de uma igreja. Em algumas ocasiões, é uma tela. Às vezes, é uma ideologia apresentada em PowerPoint. Às vezes, é o próprio umbigo que se apresenta como um templo.

A questão civilizacional não se inicia na economia, mas certamente a envolve. Não se inicia na política, apesar de a política provocar um alvoroço semelhante a um caminhão descontrolado descendo uma ladeira. Nem mesmo a educação é o ponto de partida, uma vez que ela já pressupõe uma concepção do ser humano, do bem, da verdade e do objetivo final. A civilização tem seu início no ato de adoração: naquilo que uma nação considera sagrado, que não pode ser tocado, e que é merecedor de sacrifício. Christopher Dawson, ao abordar a religião como um componente dinâmico da cultura e não como um mero adereço periférico, fornece uma chave interpretativa que se revela crucial: uma cultura não se alimenta apenas de instrumentos, mas sim de significado; ela não se mantém apenas por meio de estradas, impostos e repartições públicas, mas sim por uma visão do que merece ser amado, transmitido e defendido.

Assim, quando uma civilização abandona seu núcleo religioso, ela não se torna neutra. Esta é a primeira piada de mau gosto da contemporaneidade: acreditar que, ao remover Deus do centro, este espaço se torna vazio, limpo, arejado, com o aroma de uma sala recém-pintada. Não permaneça. No meio, há outra ocupação. Nunca há um trono vazio por muito tempo. Se o ser humano não presta adoração ao Deus que está além de nós, inevitavelmente acabará venerando uma divindade criada por ele mesmo: seja o Estado que se apresenta como redentor, a técnica que é infalível, a revolução que purifica, a raça considerada eleita, a classe que assume um papel messiânico, o líder que é providencial, o mercado totalizante, o prazer que se torna soberano ou o "eu" absoluto, esse reizinho mimado que manda em tudo e chora quando a realidade não obedece.

A crise contemporânea não se resume a uma simples crise de opiniões. É uma crise de adoração. O homem contemporâneo não se tornou irreligioso; ele simplesmente começou a seguir religiões ocultas que utilizam uma linguagem secular. Substitui-se a liturgia por um simples processo, a confissão por uma forma de ativismo, o pecado por uma mudança na narrativa, a penitência por um cancelamento público, a salvação por uma adesão a uma ideologia e a excomunhão por um linchamento digital. Ainda persistem, no fundo, elementos como sacerdote, dogma, heresia, rito, culpa, pureza, inimigo, promessa escatológica e sacrifício. Mas agora, tudo parece ser apresentado como um debate civilizado, e o inquisidor utiliza threads.

A civilização cristã, em seu ponto mais robusto, não se origina da concepção de que o mundo é um erro a ser eliminado, mas sim da chocante afirmação de que o Logos se fez carne. O cristianismo não afirma apenas que Deus é elevado, remoto, indescritível e perdido em um absoluto sem forma. Ele afirma que o Verbo tornou-se carne. Isso altera completamente a situação. Se Deus se encarna, a matéria não é um desperdício cósmico. Se Deus vem ao mundo através de uma mulher, então a história não pode ser considerada uma ilusão sem valor. Se Deus se alimenta, chora, padece, falece e renasce, então o mundo que foi criado não é uma prisão total, mas sim um palco dramático da salvação. A lesão não compromete a bondade do corpo. A presença de poeira no chão não justifica que toda a casa seja queimada.

Esta é a distinção entre uma civilização sacramental e uma civilização gnóstica. A civilização sacramental contempla o que é visível e se questiona: "que invisível isto pode carregar?". A civilização gnóstica observa o que é visível e, antes mesmo de ser questionada, já afirma: "isso aqui é suspeito, isso aqui é prisão, isso aqui tem que ser superado". Uma interpreta o mundo como um sinal de que pode ser elevado. A outra enxerga o mundo como uma casca que precisa ser rompida. Uma consagra o pão, o vinho, a água, o óleo, o corpo, a palavra, o gesto, o tempo, o calendário, o casamento, o nascimento e a morte. A outra deseja se libertar da forma, eliminar a mediação, evitar o limite e abolir o dado. Quando o Catecismo católico fala da Eucaristia, diz que Cristo está realmente presente sob as espécies eucarísticas; isso é importante porque aponta uma lógica anti-gnóstica por excelência: Deus não redime o homem subtraindo-o da realidade material como se estivesse resgatando um documento encharcado de uma enchente, mas ao se incorporar à matéria e elevá-la.

Quando a gramática da religião se desvanece, outras gramáticas ocupam seu lugar. Algumas apresentam músicas agradáveis, outras com pesquisa acadêmica, algumas com uma raiva típica da juventude, e outras com a promessa de serem autênticas. Entrem. O jovem que não conseguiu perceber o pão consagrado como um mistério pode acabar buscando esse mistério em qualquer tipo de feitiçaria comercial, em qualquer guru que utilize algoritmos, em qualquer seita relacionada à estética, ou em qualquer ideologia que forneça uma identidade pré-definida e um inimigo claramente estabelecido. A alma do ser humano anseia pelo que é absoluto. Se não lhe oferecem pão de verdade, ela acaba mordendo pedras acompanhadas de um molho de autoajuda.

E essa formação gnóstica surge novamente, com novas vestimentas, na era moderna. O demiurgo deixou de ser um artesão cósmico desinformado; agora ele é "a sociedade", "a tradição", "a biologia", "a família", "a religião", "a linguagem", "a norma", "o Ocidente", "o passado", "a natureza", "o sistema". Tudo se torna demiurgo. Tudo se transforma em carcereiro. O homem levanta, pisa em seu próprio chinelo e já vislumbra uma estrutura opressora no corredor. Certamente há sistemas que são injustos. O que se torna um problema é quando qualquer coisa que restrinja o desejo é rotulada como opressão. Aí não se trata de justiça; é uma teimosia metafísica disfarçada de emancipação.

A célebre crítica de Eric Voegelin à "imanentização do escaton" ressalta precisamente essa aspiração de criar a redenção final no âmbito político, como se o Reino pudesse ser produzido por decreto, partido, burocracia, revolução ou engenharia social. O indivíduo para de aguardar a realização definitiva em Deus e começa a exigir que a história forneça o paraíso até sexta-feira, de preferência com financiamento público e penalizações para aqueles que não concordarem. Este é o principal desvio religioso da política contemporânea: em vez de eliminar a salvação, ela a sequestra. Não remove o Messias; cria messias temporários. Não remove o apocalipse; converte eleições, batalhas culturais, revoluções, crises climáticas ou qualquer notícia em um mini-apocalipse semanal. Não erradica o pecado; apenas altera a designação dos pecados aceitos e dos que não são permitidos. Não erradica a heresia; substitui o julgamento teológico pelo julgamento da opinião.

Uma das mais cômicas e arriscadas expressões do léxico contemporâneo é "lado certo da história". É engraçado, pois geralmente é utilizada por pessoas que mal conseguem discernir o lado correto da própria fatura de energia elétrica. Perigosa pois eleva a história à condição de deusa. O indivíduo não precisa mais demonstrar que algo é verdadeiro, justo, bom ou belo; é o suficiente afirmar que está ao lado da história correta. Que tipo de história? Quem a escreveu? Por qual tribunal foi julgada? Com qual objetivo final? Sem a presença de Deus, a narrativa se transforma em um animal de estimação do ideólogo: ele indica a direção que deseja, fornece uma alimentação retórica, denomina isso como progresso e espera que todos aplaudam.

Santo Agostinho presta assistência precisamente porque não mescla a cidade terrestre com a cidade celestial. No início do século V, Agostinho escreveu A Cidade de Deus, onde ele diferencia duas cidades com base na ordem dos amores: a cidade de Deus, guiada pelo amor a Deus, e a cidade terrena, caracterizada pelo amor a si mesmo, que resulta no desprezo por Deus. Essa diferença atua como uma vacina para a civilização. Ela previne duas extremas opostas: a crença de que a política é irrelevante e a convicção de que a política é a solução. Quando se perde de vista essa ideia, a direita converte o passado em um objeto de adoração, enquanto a esquerda faz o mesmo com o futuro. Um ama museus; o outro ama laboratórios. Um deseja preservar o mundo; o outro quer desmantelá-lo sobre a mesa de trabalho. Quando ambos perdem a humildade, eles se esquecem de que a civilização não é uma múmia nem um experimento de química: é uma herança viva.

O passado não é ideal. Apenas um sonhador de calendário teria fé nisso. O passado está repleto de crueldades, ignorâncias, guerras, injustiças, tolices enfeitadas, vaidades religiosas, violências de caráter político, elites exploradoras, e uma multitude de pessoas que confundem tradição com "sempre foi assim, então cala a boca". No entanto, o futuro não é automaticamente limpo. A crença de que o amanhã será eticamente melhor apenas por ser posterior ao hoje é uma superstição relacionada ao tempo. É uma astrologia de calendário, com um diploma. O tempo não torna ninguém sagrado. O ano novo não perdoa a tolice. Uma civilização madura necessita tanto de lembrança quanto de transformação. Recordação sem transformação se torna saudade. Conversão sem recordação transforma a juventude em uma revolução. A verdadeira tradição não é a poeira acumulada nos móveis da casa; é o motivo pelo qual a casa ainda existe. Se a casa estiver suja, deve-se limpá-la. Não é preciso destruir a casa para demonstrar um compromisso com a limpeza.

O Ocidente, em grande medida, surgiu dessa tensão entre Atenas, Jerusalém e Roma: razão filosófica, revelação bíblica, direito e ordem institucional. Não foi um processo claro, simples e agradável, acompanhado de uma trilha sonora de documentário. Pancadaria espiritual, crise, concílio, mosteiro, invasão bárbara, universidade, liturgia, cidade medieval, catedral, pecado, santidade, guerra, reforma, contrarreforma, ciência, técnica, império, revolução. Fundações religiosas e o encontro da tradição cristã com sociedades semi-bárbaras determinaram, até onde se pode avaliar, a cultura europeia ocidental, e Dawson assinala que tal encontro fez da Europa uma civilização cristã em contraste com o paganismo que ainda persistia e em contraste também com o Oriente, onde a tradição cristã se manteve em contato com a cultura greco-romana. Uma das ironias mais impressionantes da história é que a civilização não se origina de pessoas impecavelmente limpas debatendo conceitos em uma sala de ar-condicionado. Surge a partir de monges que transcrevem manuscritos em meio ao colapso do mundo, de bispos que fazem acordos com guerreiros que, possivelmente, mal conseguiriam diferenciar teologia de pilhagem, de camponeses que aprendem a noção de calendário através do ciclo litúrgico, e de artesãos que erguem pedra sobre pedra para construir uma catedral. A civilização é menos um "projeto perfeito" e mais uma penitência organizada no tempo.

Portanto, quando a época moderna se depara com a Idade Média e se limita a qualificá-la como "trevas", é possível perceber que a pessoa em questão está com a lanterna ideológica direcionada para o próprio olho. Havia escuridão, certamente. Chamar toda aquela sociedade de trevas enquanto se está em uma era que gera uma solidão em massa, uma pornografia disseminada em nível global, um aborto tratado como um simples trâmite burocrático, idosos que são abandonados, crianças viciadas em telas, adultos mergulhados em depressão, uma política messiânica, uma ciência dominada pela vaidade e pessoas que não conseguem manter uma conversa sem transformá-la em um inquérito moral é, no mínimo, uma falta de senso de humor em relação à história. Tenha cuidado ao rotular o século passado como bárbaro, enquanto o seu próprio século necessita de um guia para compreender conceitos como homem, mulher, pai, mãe, corpo, morte, limite e verdade.

A civilização cristã possuía um eixo vertical. Isso não significa que todos levassem uma vida santa. Pelo amor de Deus, não vamos transformar a história em um presépio. Entretanto, havia uma estrutura arquitetônica simbólica que representava o céu como o juiz da terra. O rei não era divino. O Estado não era totalitário. O corpo não era considerado lixo. A alma não era ilusão. O pecado não era simplesmente uma questão de má gestão. O pobre não era apenas um número. O matrimônio não se resumia apenas a um vínculo emocional. A criança não era apenas uma ideia psicológica. Existia uma ordem superior, e mesmo que os homens a traíssem, ainda assim podiam ser avaliados por ela.

A modernidade, ao tentar romper com esse eixo vertical, criou um mundo horizontalizado. Quando tudo está nivelado, a única distinção verdadeira é a força. Quem possui mais poder define o vocabulário. Aquele que domina o vocabulário, domina a percepção. Quem dirige a percepção, dirige a moral. Aí surge a clássica questão: "o que é verdade?" pergunta: "quem tem poder para definir a narrativa?". O Logos saiu pela porta, entrou o departamento de comunicação pela janela.

O resultado é uma gestão civilizada, mas desprovida de sabedoria. Temos muitas ferramentas e poucos objetivos. Dispomos de excesso de informação e insuficiência de formação. Estamos excessivamente conectados e insuficientemente unidos. O homem contemporâneo é capaz de configurar três apps de banco, mas é incapaz de justificar por que não deve trair a mulher, deixar o filho, odiar o vizinho, vender a alma por status ou converter o ressentimento em filosofia. Ele controla a máquina, mas é guiado pelo instinto. É o indivíduo moderno, dotado de uma mentalidade tecnológica, mas que carrega consigo a essência de uma criança mimada e o coração de um velho fatigado. Viktor Frankl afirmou que a busca por significado é fundamental para a vida humana e que, mesmo em circunstâncias extremas, o indivíduo mantém uma liberdade interior em face do sofrimento; quando uma sociedade retira o sentido da vida e se limita a oferecer consumo, entretenimento e indignação, ela produz pessoas repletas de estímulos, mas desprovidas de um propósito. Ele possui uma assinatura de streaming, pede comida pelo aplicativo, tem uma opinião sobre tudo, mas não consegue entender o motivo de se levantar da cama. Isso é o que se refere como liberdade. De forma alguma, meu amigo. É uma cadeia com sofá macio.

Quando a perspectiva sacramental do mundo é perdida, tudo se transforma em um recurso utilizável ou em matéria-prima para a engenharia. O corpo se transforma em um campo de desejo. A linguagem se torna um instrumento de poder. A natureza transforma-se em matéria-prima sem um propósito definido. A instrução transforma-se em adestramento econômico ou em catequese moral. A política se torna o equivalente à salvação. A religião transforma-se em uma forma de terapia emocional. A arte se transforma em publicidade ou ornamento. A família se transforma em um arranjo passível de negociação, sem uma ontologia definida. A infância se transforma em comércio. A velhice transforma-se em uma questão de logística. A morte se transforma em um transtorno técnico. E Deus, quando permitido, transforma-se em um terapeuta invisível que é acionado apenas para elevar a autoestima.

Aqui é importante fazer uma distinção clara e justa. Nem toda apofática é gnose, nem toda mística negativa é aniquilação, nem toda crítica moderna é desprezo pela realidade. Seria uma demonstração de preguiça intelectual amalgamar milênios de reflexão religiosa em um único pacote e rotulá-lo como "gosma". A verdadeira teologia apofática afirma que Deus está além de nossa linguagem; o erro não reside em saber que Deus está além dos conceitos. A questão reside em empregar a limitação humana de não conseguir compreender plenamente a divindade como uma justificativa para anular todas as verdades que Deus revelou, todas as manifestações criadas e todos os limites morais. A humildade apofática afirma: "Deus é maior do que minha linguagem". A apofática perversão afirma: "uma vez que a linguagem é limitada, posso desmanchar tudo que me contraria". A primeira se coloca de joelhos. A segunda é uma falsificação. Uma é misticismo; a outra é esperteza metafísica.

No Brasil, isso assume uma dimensão especial. Somos uma nação de intensa religiosidade, rica em simbolismo, emocionalmente exagerada, institucionalmente deficiente e metafisicamente festiva como um carnaval. Aqui a pessoa consegue prometer algo a um santo, reclamar do padre, seguir um coach quântico, compartilhar áudios apocalípticos, defender com uma paixão quase incontrolável a separação entre o Estado e a religião, pedir a bênção da mãe e ainda xingar um desconhecido no trânsito em menos de um dia. Somos uma combinação de procissão, mercado ao ar livre, cartório, novela, bar, culto, missa, universidade, superstição, burocracia e uma esperança teimosa. O Brasil possui fé, mas carece de doutrina. Há devoção, mas carece de catequese. Há emoção, mas carece de metafísica. Há povo, mas não há uma elite responsável. Há tradição, mas falta passar adiante. Há festa, mas falta organização. Possui esperança, mas está rodeado por ensinamentos que transmitem desespero. Então, o povo brasileiro, que tem o potencial de ser profundamente sacramental, acaba se tornando uma vítima fácil de qualquer imitação do sagrado: seja um político messiânico, um pastor que vende milagres, um intelectual ressentido, um guru da internet, um empresário da autoestima, um falso profeta de direita, um falso profeta de esquerda ou até mesmo um falso profeta neutro. Este último é particularmente curioso, pois afirma não ter religião, enquanto prega com a certeza de alguém que acabou de descer do Sinai, portando um tablet em vez de uma tábua.

A questão fundamental da civilização é: quem molda a imaginação da nação? Pois aquele que molda a imaginação também molda o desejo. Aquele que molda o desejo também molda a moral. Aqueles que moldam a moral também moldam a política. Aqueles que moldam a política moldam a cidade. E aqueles que moldam a cidade também moldam a criança que, um dia, questionará se o mundo tem um propósito ou se tudo não passa de uma piada de mau gosto, com uma conta a ser paga no final do mês. Uma sociedade que perdeu a esperança responde à criança: "o mundo é uma prisão; adapte-se ou revolte-se". Uma sociedade consumista oferece a seguinte resposta: "o mundo é uma vitrine; compre e distraia-se". Uma civilização tecnocrática diria: "o mundo é um sistema; funcione". Uma civilização pautada por ideais responde: "o mundo é uma guerra; escolha seu lado e odeie direito". Uma sociedade cristã deveria responder: "o mundo é criação ferida, mas amada; aprenda a ver, amar, julgar, sacrificar-se e esperar".

Essa resposta altera completamente a situação. Transforma até a forma de ensinar. Não se forma uma criança cristã apenas para "ser boazinha", esse adjetivo frouxo que às vezes significa só "não incomodar adulto cansado". Forma-se para a virtude. Virtude não é simplesmente uma ternura moral. Virtude é uma força que se encontra em harmonia e organização. É bravura sem violência, cautela sem medo, equidade sem crueldade, moderação sem um puritanismo obsessivo, crença sem extremismo, expectativa sem ilusão, generosidade sem sentimentalismo excessivo. Uma sociedade que não consegue mais se comunicar sobre a virtude passa a oscilar entre a permissividade e a punição, assim como um pai confuso que permite que seu filho cause uma verdadeira destruição em casa e, em seguida, fica furioso quando o copo se quebra.

A crise da civilização é, antes de mais, uma crise de pertença. O contemporâneo não se abre para receber. Deseja autogerar-se. Não deseja ser filho: almeja ser fonte. Não deseja receber: quer criar algo novo. Não deseja seguir ordens: quer reimaginar. Não deseja expressar gratidão: anseia por reivindicar. Quando um homem se recusa a assumir o papel de filho, ele se torna um órfão por escolha. E depois se queixa de que o mundo não tem um pai. A tradição cristã tem início exatamente na filiação: Pai Nosso. Não "Estado nosso", não "Mercado nosso", não "Ego nosso". Oraçao do Senhor. Isso estrutura a civilização internamente, pois estabelece o ser humano em uma relação de dependência afetiva, e não em uma autossuficiência delirante. O ser humano não é um verme, mas também não é um Deus. É ser: físico e espiritual, livre e restrito, pecador e chamado, machucado e esperançoso.

Essa abordagem antropológica é extremamente controversa em termos de civilização. Se o ser humano é uma criação, então ele tem a obrigação de ser grato. É preciso cultivar a gratidão, não se pode viver apenas de cobranças. Se é pecador, não deve ter plena confiança em si mesmo. Se você é convocado à santidade, não pode se conformar com a mediocridade como seu destino. Se é a representação de Deus, não pode ser considerado um item descartável do Estado, do mercado, da ideologia ou da estatística. Daí a civilização cristã, mesmo quando erra, ter mecanismos internos de correção. Ela é capaz de reconhecer seus erros e nomeá-los como pecados. Você pode admirar seus santos sem se referir a eles como deuses. Você pode olhar para os seus reis e lembrá-los de sua mortalidade. Você pode olhar para os seus necessitados e afirmar que Cristo, de maneira enigmática, se identifica com eles. Você pode observar seus intelectuais e afirmar que o conhecimento, quando desprovido de caridade, torna-se arrogante. Pode observar seus revolucionários e afirmar que a justiça que não se baseia na verdade se transforma em vingança. Você pode se dirigir a seus conservadores e afirmar que a tradição, quando desprovida de santidade, se transforma em um teatro de época.

Uma tradição é verdadeiramente enriquecedora para a civilização apenas quando é capaz de avaliar seus próprios integrantes. Quando a tradição se transforma em uma torcida organizada, chega ao fim. Quando a crença se transforma em uma marca de pertencimento a um grupo, é o fim. Quando a proteção da civilização cristã se resume a uma estética de castelo, espadas, latim pronunciado de maneira incorreta e fotos em tons sombrios nas redes sociais, é sinal de que as coisas já saíram do controle. A civilização não é defendida por pessoas vestidas como cruzados; ela é defendida por santos, famílias, mestres, trabalhadores e sacerdotes que são dignos, por crianças bem educadas, por uma liturgia que inspira reverência, por um pensamento honesto e pela coragem moral que se manifesta no dia a dia.

A crise civilizacional sempre se manifesta inicialmente de uma maneira que não é fácil de identificar. Ela vem como o fardo de um pai exausto, como uma catequese mal realizada, como um jovem humilhado, como um trabalhador subestimado, como uma família que deixou de se reunir para o jantar, como uma criança que desenha dragões e ouve que isso é uma perda de tempo. A sujeira se inicia na mesa da cozinha, e não no tratado universitário.

Imagine um pai que, ao chegar em casa, se acomoda no sofá, pega o celular e passa horas assistindo a vídeos, enquanto seu filho tenta lhe mostrar um desenho. Ele está dando uma aula sobre a liturgia. Está comunicando, de maneira implícita: "a tela merece mais atenção do que você". A criança tem uma rápida capacidade de aprendizado. Mais tarde, o pai se queixa de que o filho se tornou reservado, irônico e dependente das telas. No entanto, meu amigo, você semeou silêncio com conexão à internet e esperava obter comunhão? Imagine a mãe que passa o dia todo trabalhando, enfrenta ônibus superlotados, chega em casa e ainda se esforça para cozinhar, ajudar com as tarefas escolares e manter alguma organização em meio ao caos do lar. Ela está se dedicando à filosofia prática de uma maneira que supera muitos seminários universitários sobre o tema do cuidado. A civilização contemporânea possui uma malignidade peculiar: ela idealiza a maternidade em campanhas publicitárias do Dia das Mães, mas ignora a mãe de verdade durante o restante do ano. A verdadeira mãe não se encaixa no cartaz. Ela está exausta, frustrada e preocupada com o custo do arroz, com o filho doente e com as contas em atraso. Além disso, frequentemente é ela quem sustenta o que resta da civilização que ainda não despencou da mesa.

A residência é o primeiro mosteiro, a primeira instituição de ensino, o primeiro tribunal, o primeiro palco e a primeira igreja familiar. Antes mesmo de a criança aprender a escrever "sociedade", ela já adquiriu, através da sua vivência cotidiana, a compreensão de se o mundo é um espaço de amor ordenado ou de gritaria sem sentido. O que ocorre é que muitos lares contemporâneos se tornaram pequenas repúblicas emocionais sem uma constituição. Cada um habita seu próprio espaço, mergulhado em seus fones de ouvido, em suas redes sociais, alimentando suas frustrações. A mesa de jantar, quando está presente, transformou-se em um ponto de reabastecimento. A discussão se transformou em barulho. O pai se dirige ao filho como um gerente que exige resultados. A mãe se comunica com o filho como uma enfermeira de urgência emocional. O filho replica como um empregado mal remunerado de uma firma na qual nunca teve interesse em trabalhar. E todos consideram isso normal, pois a modernidade possui essa habilidade notável: converte destruição em hábito e depois o chama de adaptação.

Considere o jovem que se torna ateu aos quinze anos. Frequentemente, ele não está rejeitando a ideia de Deus; ele está refutando a imagem distorcida de Deus que recebeu de adultos complacentes. Ele observa uma religião que se limita a moralismo, sentimentalismo, atividade burocrática e reclamações sem esclarecimentos, e conclui: "se isso é Deus, então não quero". É como se você convidasse alguém para um grande jantar e oferecesse apenas um guardanapo. Imagine o estudante que chega à universidade repleto de questionamentos legítimos e se depara com docentes que equiparam o desenvolvimento do intelecto à produção de rancores. Ao invés de desenvolver a habilidade de diferenciar, comparar, avaliar, ler referências e entender a tradição, ele passa a aprender a duvidar de tudo, exceto da própria dúvida. Entenda que cada herança representa uma forma de opressão, toda autoridade é um ato de abuso, cada família impõe repressão, e todo limite se configura como uma violência simbólica. Aí o jovem sai, não mais sábio, mas com mais raiva. Não obteve iluminação; recebeu uma lanterna focada nas falhas do mundo, mas jamais nas suas próprias.

Quando esse rapaz retorna para casa, não consegue mais dialogar com a avó que reza o terço. Ele a observa como se estivesse diante de um fóssil de ideologia. A avó, que pode não ser capaz de explicar Santo Agostinho, mas que carregou seu filho doente, sepultou um parente, compartilhou comida, trabalhou em silêncio e enfrentou o sofrimento com fé, é chamada de "alienada". É uma imagem bastante típica do Brasil: o neto leu três PDFs e acredita que superou a mulher que sustentou uma família inteira com oração, café fraco e coragem. Uma civilização não se deteriora apenas quando os livros são incinerados; ela se deteriora quando a sabedoria dos mais velhos se torna motivo de vergonha para os jovens saturados de jargões.

Imagine um professor de escola pública que entra em uma sala de aula com quarenta alunos, ventilador fora de funcionamento, salário baixo, recursos escassos, e mesmo assim se esforça para ensinar. Ele se encontra em uma batalha civilizacional. Rende-se ao cinismo e deixa a sala em completa desordem. Se houver uma pequena chama, é possível salvar uma vida. Em algumas ocasiões, uma simples frase de um professor é suficiente para que um aluno não desista. Uma humilhação infligida por um professor pode, em certas ocasiões, aniquilar a ousadia intelectual de uma criança por longos anos. Na escola, com uma facilidade que impressiona, almas podem ser iluminadas ou extinguídas.

Imagine um estudante de origens humildes que é apaixonado pelos estudos, mas que, lamentavelmente, ouve de seus vizinhos que está "querendo ser melhor que os outros". Considere o jovem que, durante o dia, labuta para ganhar a vida, e à noite, se dedica aos estudos, aproveitando cada momento que pode. Ele dorme no ônibus, exausto, e ainda assim é tratado por alguns intelectuais como uma massa manipulada, simplesmente porque não se encaixa nos padrões que esperam dele, não vota da mesma forma, não se expressa, não reza ou não manifesta seus desejos conforme o que está previsto na cartilha. Considere a jovem que deseja se casar, ter filhos, estudar e construir uma carreira, mas que é vista como ultrapassada por aqueles que confundem a liberdade da mulher com a imposição de desvalorizar tudo que esteja relacionado à noção de família. Imagine o jovem que aspira a ser um pai responsável, mas se encontra imerso em uma cultura que zombifica a paternidade, retratando o homem apenas como opressor, bufão ou caixa eletrônico emocional. Estes casos não são marginais. É o território onde a civilização existe ou se extingue.

O cotidiano expõe o que a teoria procura ocultar. O indivíduo pode proclamar a libertação, mas se trata de maneira inadequada à esposa, humilha o filho, menospreza os pobres e mente no trabalho, sua filosofia já foi condenada. Você pode mencionar Marx, Tomás de Aquino, Nietzsche, Foucault, Aristóteles, Chesterton ou quem mais desejar; se não é capaz de ser justo com aqueles que estão à sua frente, então o pensamento se transforma em uma fantasia de carnaval acadêmico. Referência citada não substitui a virtude praticada. Um belo nome em uma frase feia ainda é apenas a cobertura de um bolo queimado.

Considere aquele casal que, em vez de se comunicar, apenas administra suas obrigações. "Pagou a conta?", "buscou o menino?", "comprou gás?". O que for preciso, naturalmente. No entanto, se o casamento se transforma apenas em uma questão logística, a essência se perde e o que fica é apenas um contrato habitando o lugar. A traição escandalosa não é a única causa da desintegração de uma família. Às vezes morre por falta de presença, por pequenas ironias, por não perdoar, por cansaço que se acumula, por orgulho, por não conseguir pedir desculpas. A civilização não entra em colapso apenas por causa de invasões militares; também desmorona quando um marido e uma esposa não conseguem mais se olhar nos olhos sem ressentimentos.

Imagine o idoso acomodado na sala enquanto os jovens trocam mensagens pelo celular. Ele possui lembranças, narrativas, sofrimentos, orientações, falhas e arrependimentos. Ninguém faz essa pergunta. A contemporaneidade considera o que é antigo como um arquivo desatualizado. Depois se queixa de que não lembra das coisas. A memória estava presente, de chinelo, ansiosa para narrar como era a vida, mas todos acharam isso entediante. Uma sociedade que ignora a sabedoria dos mais velhos terá que redescobrir tudo da maneira mais tola: através de erros e fracassos.

Considere o funeral. Em tempos passados, a morte fazia com que a comunidade interrompesse suas atividades. Existia luto, prece, quietude, acompanhamento, refeições enviadas à família, companhia. Atualmente, a morte frequentemente se transforma em uma postagem, acompanhada de um emoji triste, uma frase clichê e logo voltamos à rotina sem interrupções. O ritual não serve para adornar a dor. Serve para moldar a dor. Quando o ritual deixa de existir, a dor se transforma em um líquido escuro dentro da pessoa. Mais muco. Maior confusão. Mais dor sem palavras.

Reflita sobre o domingo. Para uma sociedade cristã, o domingo vai além de um dia de descanso. É o dia do Senhor, o dia dedicado à missa, à família, ao descanso, à celebração e à renovação da alma. Para a sociedade consumista, o domingo é uma antecipação nervosa da segunda-feira que se aproxima. Ele passa o dia inteiro tentando relaxar, mas se sente angustiado porque amanhã terá que trabalhar. Não inclui, não comemora, não expressa gratidão. É apenas um consumidor de distrações. O domingo sem serviço se transforma na sala de espera da produtividade.

Imagine o pequeno lojista abrindo a porta bem cedo. Ele varre o piso, arruma os produtos, faz preces para realizar vendas, lida com clientes complicados, paga impostos, leva calotes, sorri exausto. Ele não é um herói impecável nem um vilão capitalista típico de desenho animado. É alguém que busca criar algo. Uma sociedade saudável preserva esse impulso criativo. Uma sociedade repleta de ressentimentos observa com desconfiança: "está lucrando". Certamente, está buscando lucro, pois um boleto não é pago com ideais puros. O dilema ético não reside em obter lucro; mas sim em fazê-lo de maneira injusta, através da exploração, da mentira e da destruição. O ganho legítimo de quem labuta é indicador de uma vida social, e não uma culpa originária do comércio.

Imagine o estudante que chega ao reforço acreditando que é incapaz. Em algumas ocasiões, ele não é realmente tolo; na verdade, foi mal orientado, mal compreendido e mal guiado. Alguém lhe atribuiu uma etiqueta, e ele começou a viver dentro dessa etiqueta. Um bom professor vai além de ensinar conteúdo; ele devolve ao estudante a chance de se enxergar como capaz. O estudante compreende o conteúdo e, ao mesmo tempo, descobre algo sobre si mesmo: "eu posso aprender". Isso transforma uma vida. Imagine um pai que não consegue explicar a sua fé, mas inicia um aprendizado ao lado do filho. Esta cena é, civilizacionalmente, deslumbrante. O filho questiona: "pai, o que é pecado?". O pai não tem uma resposta clara. Ao invés de criar, sugere: "vamos estudar juntos". Está tudo pronto. A autoridade não só não diminuiu; ela cresceu. Autoridade genuína não consiste em pretender saber tudo, mas sim em guiar em direção à verdade. O filho adquire simultaneamente dois ensinamentos: o conhecimento e a humildade.

Pense, por último, na confissão. Não há muitas atitudes que sejam tão contrárias à civilização moderna quanto admitir uma culpa verdadeira. O mundo de hoje adora apontar dedos, mas abomina o arrependimento. Ama revelar os pecados dos outros, mas não consegue mencionar os seus próprios. A verdadeira confissão restaura a proporção. Ela afirma: "eu errei". Não "a sociedade errou em mim", não "fui atravessado por dinâmicas problemáticas". Eu cometi um erro. Esta frase serve como uma explosão contra a gosma. Porque a lama adora a indefinição; a confissão pede estrutura. Quem cometeu o erro? Em que sentido? Contra quem? De que maneira consertar? Isso representa a civilização ética.

A In-Gnose não se limita a ser um conceito teórico. Ela se manifesta na sala de aula quando a criança é chamada de burra. Surge na catequese quando o mistério dá lugar à tarefa. Surge na política quando a salvação se transforma em uma plataforma partidária. Manifesta-se na cultura quando a criatividade é zombada pelo ceticismo. Surge na ativismo quando o pobre de verdade interfere no pobre ideal. Surge na alma madura quando o anseio da criança interior, ao invés de ser refinado e organizado, é eliminado e, em seguida, retorna como rancor em relação aos sonhos alheios.

A gosma não se contenta apenas com a alma de um indivíduo. Ela deseja a cidade. Deseja a escola, a religião, a família, o governo, a arte, a linguagem, o corpo, a infância, a memória e o altar. Ela deseja converter a civilização em uma substância maleável, facilmente moldada por aqueles que detiverem mais poder em determinado momento. E sempre que alguém afirma "não há natureza", "não há verdade", "não há bem objetivo", "não há forma", "não há limite", "não há herança", "não há nada a receber", é possível perceber que, em um sussurro quase imperceptível, o Nada está sorrindo.

A resposta não é uma nostalgia ingênua, uma revolução ao contrário, um ódio originado da internet ou uma atitude acadêmica. A tarefa é bem mais complexa: reconstituir uma cultura baseada na realidade. Uma educação que forme a criança para refletir e orar; que instrua o adulto a não destruir o sonho do outro por causa de rancores; que mostre à política que não deve agir como se fosse um Messias; que ensine à religião a evitar transformar-se em sentimentalismo ou em uma busca de poder; que faça a filosofia servir à verdade e não à vaidade; que direcione a economia para beneficiar a vida e não para consumir a vida; que ensine a imaginação a criar universos sem nutrir ódio pelo mundo que já existe.

A vida, portanto, é o contexto em que a filosofia demonstra sua utilidade. Não serve de nada criticar a In-Gnose se levar uma vida de completa dissolução. Não serve de nada apoiar a forma se a vida não estiver organizada. Não vale a pena mencionar a esperança enquanto se destrói o sonho do filho. O enfrentamento entre civilizações tem início na alma, se estende para o lar, passa pela educação, atravessa a paróquia, chega ao ambiente de trabalho, estrutura a cidade e só então se manifesta como política. A vasta metafísica se revela em um simples ato. O Logos valoriza a cozinha, a oficina, a sala de aula, o balcão, a calçada, a fila, o quarto da criança e o leito do enfermo. Ao contrário: é nesse lugar que se pode observar se a alma está em harmonia ou se tornou apenas mais uma poça da imensa lama contemporânea.

A civilização chega ao fim quando se despede do léxico da realidade. As palavras adoecem primeiro. Em seguida, os costumes. Em seguida, as instituições. Em seguida, os corpos. Em seguida, as crianças. Assim, todos se surpreendem, como se a decadência tivesse surgido do nada, quando, na realidade, ela foi meticulosamente elaborada ao longo de gerações que consideraram refinado zombar da verdade, desmantelar a estrutura e nomear o vácuo como libertação.

Em última análise, uma civilização é avaliada com base naquilo que ela venera, no que ela transmite às gerações mais jovens e na forma como trata seus falecidos, seus necessitados, seus santos e seus símbolos. Se ela ama o Nada, certamente ensinará a arte de se dissolver. Quem adora o poder, será capaz de ensinar uma obediência cínica. Se ama o prazer, ensinará a ficar ansioso. Se ama, ensinará a ser narcisista. A adoração ao Deus vivo permite ainda aprender a organizar adequadamente tudo o que nos rodeia: o corpo, o lar, a cidade, a arte, a política, o trabalho, as celebrações, o luto e a esperança. Pois o oposto da meleca não é dureza morta. É uma forma que está cheia de vida. O oposto da In-Gnose não é a falta de conhecimento. É a própria sabedoria. O oposto do Nada não é ruído. É a Palavra.

O Vazio sempre se apresenta com um discurso sofisticado. Às vezes se manifesta como filosofia, outras vezes como política, em algumas ocasiões como pedagogia, em certos momentos como uma ironia madura, em outras como uma catequese deformada, e, às vezes, como uma crítica social de moda. No entanto, ele está sempre buscando o mesmo objetivo: persuadir a alma de que não há valor em criar, amar, diferenciar, rezar, lutar, ensinar, vender, sonhar, nomear e persistir. Em oposição a isso, em certas ocasiões, a revolução mais significativa pode ter um caráter quase ingênuo: observar a decrepitude do mundo contemporâneo, indicar com o dedo e afirmar, com toda a simplicidade metafísica que ainda resta, "não, meu amigo, isso aí não é libertação; isso aí é só o Nada usando terno e falando difícil".

Quem sabe seja isso o que pode ainda redimir uma civilização: olhar novamente para o que parecia insignificante e perceber que Deus, ao decidir entrar na história, não iniciou sua ação por meio de um ministério, uma revolução ou uma tese acadêmica, mas sim através de uma criança em uma família, em uma pequena cidade, sob o olhar de pessoas simples que ainda sabiam acolher o mistério sem transformá-lo em burocracia.

Há uma questão que todo o texto até aqui não abordou de forma direta, mas que tem estado presente, de maneira sutil, em cada parágrafo: o que ocorre com um homem que não consegue mais encontrar palavras para expressar o que sente?

Não se trata de uma retórica. Quase se trata de uma questão clínica. Pois o ser humano não vive apenas experiências; ele precisa nomeá-las para enfrentá-las com dignidade. A dor indefinida se transforma em pânico. A culpa não identificada se transforma em depressão. O luto que não recebe um nome se transforma em raiva generalizada. A vergonha desconhecida se transforma em uma destruição que ocorre em silêncio. O amor que não possui um nome definido se transforma em uma dependência emocional, caracterizada por um acordo implícito de asfixia mútua. O léxico moral não é um enfeite literário. É uma infraestrutura da existência. Quando uma civilização elimina de forma sistemática esse vocabulário, ela não proporciona liberdade às pessoas; ao contrário, a torna incapaz de se expressar diante de suas próprias profundezas.

A modernidade realizou isso de forma elegante. Substituiu o pecado por trauma, a virtude por saúde mental, a conversão por terapia, a prudência por processo, o arrependimento por ressignificação, a culpa por narrativa tóxica, o limite por gatilho, o sacrifício por adoecimento e a santidade por bem-estar. Cada mudança aparenta ser um avanço. Cada substituição é como uma amputação. Uma vez que o pecado requer a existência de um agente moral, ele também pressupõe uma verdadeira liberdade, responsabilidade, a possibilidade de perdão e a chance de recomeçar. Trauma requer uma vítima, implica um determinismo que sugere que a pessoa afetada não teve a opção de escolher e, portanto, não pode transformar sua situação a menos que todo o seu ambiente se transforme primeiro. Um pecador tem a capacidade de se transformar. Uma vítima de trauma pode ser apenas administrada.

Observe o impacto que isso tem na alma. O pecador que se confessa e é absolvido sente um alívio. Ele cometeu um engano, reconheceu seu erro, pediu desculpas e começou novamente. Aquele que passa anos reinterpretando traumas em uma linguagem que nunca toca a verdadeira essência moral do problema torna-se mais dependente, mais vulnerável e mais convencido de que necessita de mais processos, mais acompanhamento e mais gerenciamento de expectativas. O primeiro modelo é libertador; o segundo, compromissador. É importante reconhecer que um psicólogo que não desfruta de fins de semana não tem o desejo de que o paciente se recupere em apenas três sessões. Não se trata de uma acusação pessoal; é uma crítica estrutural a um sistema que capitalizou a vulnerabilidade humana, chamando-a de cuidado.

Aqui é preciso ser bem claro, porque a caricatura é simples e desonesta intelectualmente. A psicologia vale a pena. Existem padecimentos autênticos que requerem diagnóstico, monitoramento e, em alguns casos, medicação. Existem indivíduos que enfrentam transtornos graves, que têm histórias de vida cruéis e feridas que necessitam de atenção profissional e cuidado genuíno. Isso não está sendo criticado. O que está em questão é a transformação da ética em uma questão psicológica como forma de civilização: a troca do léxico moral pelo léxico clínico em todos os aspectos da vida, de maneira que a pessoa para de se questionar "o que devo fazer?" e então questiona "o que me foi feito?". Uma civilização inteira que apenas questiona o que foi feito com ela já não se governa. Aguardando o diagnóstico.

Aristóteles situou a prudência, a phronesis, como uma virtude intelectual que orienta a ação no tempo específico, que navega entre o princípio e as circunstâncias sem se desviar de nenhum deles. A ética tomista, portanto, gira em torno da capacidade de julgar bem, no presente, com as informações que temos, em direção ao verdadeiro bem da pessoa, e Aquino elaborou isso de maneira a sustentá-la plenamente. Este modelo presume a existência de um sujeito competente. Um emissário. Uma entidade que comete enganos, ajusta, adquire conhecimento e se desenvolve. A moderna psicologia de massa, se considerada ética em substituição e não em auxílio, gera precisamente o contrário: o sujeito administrado, o ser interpretado, o humano que requer constantemente uma mediação especializada para tomar qualquer decisão que outrora pertencia à consciência formada.

O que é ainda mais lamentável: essa psicologização gera uma nova elite moral. A pessoa que fez mais terapia, que possui um vocabulário mais amplo sobre autoconhecimento, que identifica mais processos internos, que reconhece mais gatilhos, limites e padrões de apego, tende a se ver como mais avançada em comparação àqueles que ainda utilizam uma linguagem mais tradicional. A avó que aguentou décadas com marido complicado, na base de oração, paciência, labuta e perdão de verdade transforma-se em "alguém com trauma não elaborado e codependência não resolvida". O indivíduo que dedicou sua vida ao trabalho, sustentou sua família, engoliu o orgulho quando necessário e se desculpou sem conseguir identificar o processo torna-se "emocionalmente imaturo". A mulher comum que deposita sua confiança em Deus tão naturalmente quanto confia no sol torna-se "não individuada". É uma maneira prazerosa de se considerar superior: em vez de empregar um diploma ou riqueza para se sentir melhor que os outros, utiliza-se o jargão da psicologia. Mais em conta e tão eficiente quanto.

No entanto, o que essa linguagem não transmite, e o que a linguagem moral mais antiga conseguia comunicar, é a noção de finalidade. O léxico terapêutico caracteriza estados; o léxico moral indica caminhos. Um informa seu estado atual; o outro orienta seu destino. A saúde mental, sem uma orientação clara, transforma-se em um objetivo por si só, um estado de equilíbrio que deve ser preservado, como se o propósito da vida humana fosse evitar o sofrimento, não se perturbar, não ser excessivamente exigido e não suportar nenhum fardo que não tenha sido previamente acordado com o próprio ego. A boa vida não se resume a uma existência sem conflitos. É uma vida que envolve desafios, um sofrimento que tem uma razão, e uma responsabilidade que possui um objetivo.

O mártir não enfrentou a morte com uma saúde mental estável. Era porque existia algo que o transcendia. O pai que levanta cedo com o filho doente e passa o dia exausto trabalhando não está vivendo um momento de máximo bem-estar emocional. Você está agindo corretamente porque ama e tem consciência do que ama. A mãe que perdoa a traição do filho pela décima vez e ainda está lá não tem uma autoestima saudável do ponto de vista clínico; ela está exercendo a caridade no sentido teológico. Não são pequenas essas diferenças. São cruciais para a civilização. Em uma sociedade que considera o bem-estar como a única justificativa válida para qualquer ação, os atos heroicos perdem seu lugar, o sacrifício é visto como uma patologia, e a santidade é interpretada como uma forma de psicose relacionada à autoexigência.

Além disso, surge a questão da beleza. Não no que diz respeito ao gosto decorativo ou à preferência pessoal em termos de estilo, mas como uma questão filosófica que a modernidade deixou para trás de maneira apressada e suspeita.

A tradição platônica, que foi revisitada e purificada pelo cristianismo, concebida o Belo como um dos transcendentais: coextensivo com o Ser, com o Verdadeiro e com o Bom. Isso quer dizer que a beleza não é um enfeite da realidade; é uma das maneiras pelas quais a realidade se revela como tal. Uma catedral não é bela apenas para servir de adorno. Ela é bela porque a beleza, nesse contexto, contribui para a verdade que se deseja transmitir. Um ícone não serve apenas como enfeite. Trata-se de uma questão teológica. Ele não é um representante; ele é um apresentador. A verdadeira arte sacra serve como um ensino espiritual, é uma via de contemplação e uma expressão que eleva o espírito em direção àquilo que a própria forma sugere.

Uma civilização que deixa de lado o critério da beleza não fica neutra em relação à arte. Ela troca um critério por outro. O critério que a modernidade utilizou é duplo e, por sua vez, contraditório: ou a arte se submete ao mercado, e, nesse caso, é considerada bela tudo aquilo que é comercializável, que gera cliques, que entretém sem exigir muito do espectador; ou a arte se dedica à provocação política, e, nesse sentido, é tida como bela tudo aquilo que causa choque, que destrói formas esperadas, que agride a sensibilidade burguesa, que "questiona estruturas". No primeiro exemplo, a beleza se transforma em eficácia nos negócios. No segundo, transforma-se em militância estética. Em ambos os casos, o resultado é idêntico: uma arte que não eleva, não contempla e não direciona para o transcendente.

Considere a reação de uma criança ao se deparar com uma catedral gótica. Ainda que não tenha conhecimento algum sobre arquitetura, ela levanta os olhos e experimenta uma sensação que não consegue identificar. A verticalidade comunica. A luz que entra tem algo a dizer. A proporção tem voz. Isso não resulta de um condicionamento cultural; é a reação da alma humana ao que é real e simbolicamente organizado. A catedral foi projetada precisamente com esse objetivo: para que, ao adentrar aquele ambiente, o corpo seja internamente reestruturado pelo espaço ao seu redor. A arquitetura é uma forma de educação. O espaço molda. A rocha talhada ora. A criança, que ainda não aprendeu a disfarçar suas emoções, acolhe isso com uma receptividade que o adulto contemporâneo já não possui, pois passou anos sendo instruído de que a emoção estética é algo subjetivo e, portanto, irrelevante como critério de verdade.

Imagine uma criança adentrando uma dessas igrejas contemporâneas que se assemelham a um auditório de uma conferência técnica: cadeiras de plástico, carpete em tom bege, um telão, microfone sem fio, iluminação LED branca, e um pastor usando tênis de marca, gesticulando como um treinador de uma startup espiritual. Ela não tem sentimentos. Ou, ainda pior, tem a impressão de que está participando de um espetáculo. Um espetáculo requer entretenimento, não devoção. Exija resultados, não reflexão. Exige que o produto seja de qualidade suficiente para que ela retorne na próxima semana. Aí o "culto" transforma-se em um produto consumível, com uma avaliação a cada semana. Quando a concorrência apresenta um produto mais atraente, os clientes fiéis mudam de lado. Pois nunca foi leal: era consumidor.

Isso se aplica igualmente a algumas celebrações católicas que, na tentativa de "ser relevantes", jogaram fora o sagrado com a água do banho. Missa com palhaço, guitarra fora de tom, piadas do padre tentando ser engraçado e cantos que mais parecem jingles de corretora de seguro espiritual não formam ninguém. Desmodelam. Porque instruem a alma de que o sagrado é algo trivial, que o mistério é um adendo, e que a liturgia se resume a um entretenimento perfumado com incenso. A reverência não é uma preferência estética de quem aprecia o que é antigo. É a resposta do corpo e da alma adequada ao Ser eterno que se faz presente. Remover a reverência da missa não é um ato de modernização; é como cortar o sinal que indica à alma sua localização e a presença de Quem está ali.

Assim sendo, a beleza é uma questão de moralidade. Uma sociedade que não é mais capaz de diferenciar o belo do feio, o sublime do kitsch, o sagrado do trivial, o símbolo do slogan, e a arte do produto, não perdeu apenas o seu senso estético. Deixou de ter a capacidade de ser elevada. Uma alma que não consegue se elevar pelo que é belo, verdadeiro e bom acaba ficando retida no plano do imediato, do estimulante, do rápido e do fácil. Permanece na horizontal. Permanece em uma aparência viscosa que reflete, de maneira exterior, a substância viscosa e metafísica.

Existe também uma questão que o texto anterior mencionou de maneira superficial, mas não abordou diretamente: a crise da masculinidade como um sintoma da civilização, e não como uma agenda identitária.

É importante abordar isso com cautela, não porque o assunto seja sensível de uma maneira medrosa, mas porque há distorções em ambos os extremos e é necessário identificá-las. Existe um discurso que atribui toda a culpa ao homem, que considera a masculinidade uma doença a ser tratada, que confunde ser pai com opressão sistêmica e que equaciona virilidade com violência inescapável. Esse discurso integra o plano de desintegração previamente discutido: é mais uma maneira de aniquilar a forma para gerar uma massa indistinta. No entanto, existe também, em contrapartida, um discurso que idealiza a masculinidade como uma virilidade crua, que confunde a noção de autoridade com o exercício de domínio, gerando homens que são capazes de levantar pesos, mas que não sabem ser pais, que estão familiarizados com todos os manuais de sedução, mas não conseguem amar, que têm opiniões sobre tudo, mas são incapazes de governar suas próprias almas.

A verdadeira questão é que a sociedade contemporânea não conseguiu oferecer um exemplo de masculinidade madura. Não no aspecto de que todos os homens devem ser um tipo único e homogêneo, mas no que diz respeito à existência de uma maneira particular de ser homem que envolve responsabilidade, proteção, serviço, força disciplinada, uma autoridade que serve em vez de oprimir e um sacrifício que não busca reconhecimento. Este modelo, apesar de todas as suas imperfeições ao longo da história, estava presente na tradição do pai de família, do artesão respeitável, do guerreiro que luta pelo bem, do sacerdote que foi ordenado para oferecer e do mestre que ensina, em vez de apenas mostrar. A modernidade não se limitou a criticar os excessos desse modelo, o que seria válido; ela destruiu o modelo por completo e não apresentou nada em troca, exceto versões contraditórias: o homem que deve ser gentil o suficiente para não causar medo, mas confiante o suficiente para ser atrativo; que deve ter sua própria opinião, mas nunca impô-la; que deve proteger, mas sem "masculinidade tóxica"; que deve ser um pai presente, mas sem uma autoridade real; que deve amar, mas sem possessividade; que deve ser forte, mas nunca intimidador; que deve existir, mas de maneira moderada e previamente aprovada.

É um conjunto de paradoxos insolúveis. O jovem que tenta se encontrar nesse contexto, sem uma orientação moral, sem um pai como modelo, sem a tradição que o sustente e sem uma comunidade que o estimule, frequentemente acaba se precipitando em uma de duas direções: o niilismo de um incel ressentido, que responsabiliza o mundo por não reconhecer seu valor, ou o conformismo de um homem pasteurizado que abandonou a sua autonomia e aceitou ser agradável como uma estratégia para sobreviver socialmente. Nem um nem outro é homem feito. Um é raiva sem forma. O outro é aparência sem conteúdo.

A tradição cristã oferecia um modelo de masculinidade que nem era violento nem excessivamente suave. Ele era o santo guerreiro, o mártir, o pai de família, o monge, o cavaleiro — figuras que mesclavam força com serviço, bravura com humildade, autoridade com responsabilidade, virilidade com castidade, poder com zelo. São Tomás More foi um administrador perspicaz da Inglaterra e perdeu a cabeça por não renunciar à própria consciência. São José atuou de forma discreta, ofereceu proteção sem cobrar nada em troca e prestou serviços sem esperar ser reconhecido. São Francisco de Assis era filho de um homem rico e decidiu viver em extrema pobreza, não por uma questão de masoquismo, mas por um amor bem direcionado. São João Paulo II foi trabalhador, ator, poeta, filósofo e papa, e nunca misturou ternura com fraqueza, nem firmeza com crueldade. Esses não são modelos para exposições. São figuras de masculinidade madura que a modernidade descartou por achá-las "ultrapassadas" e, em seguida, ficou observando, perplexa, as consequências da falta delas.

Um garoto que se desenvolve sem observar a figura de um homem adulto — que ama, trabalha, pede desculpas, cumpre suas promessas, protege sem exercer controle, chora quando necessário e se contém em lágrimas quando seria um ato de covardia — não conseguirá construir essa referência do zero por si mesmo. Ele procurará inspiração em outros lugares. O mercado de modelos de masculinidade online é um verdadeiro desfile de aberrações: o influenciador que vê as mulheres como troféus a serem conquistados, o streamer que ganha dinheiro explorando a raiva, o coach que comercializa uma versão da virilidade envolta em técnicas de sedução, o nostálgico que confunde brutalidade histórica com uma noção de honra, e o teórico da manosfera que transformou a solidão em uma ideologia. Estes modelos são precisamente o que uma cultura que não transmite conhecimento produz: uma masculinidade sem pai tentando se recriar sem legado, originando figuras distorcidas onde poderiam ter se desenvolvido homens plenos.

Paralelamente a isso, e inseparável dele, surge a questão da universidade como um mecanismo de desformação. Nem toda universidade, nem todo docente, nem todo programa de estudos. Mais do que uma tendência óbvia, documentada, visível a qualquer pessoa que tenha passado anos com os olhos bem abertos em meio à academia.

A universidade deve ser o espaço onde os jovens desenvolvem um pensamento crítico, aprendendo a diferenciar entre argumentos e impressões, fontes de opinião e conhecimento, bem como discernindo entre ideologias, verdades e narrativas. Deveria ser o ambiente em que se estuda as tradições para compreendê-las antes de emitir críticas, onde se valoriza a complexidade e a simplicidade não é vista como sinônimo de clareza. Deveria ser, em seu mais profundo significado, uma comunidade dedicada à busca da verdade. Às vezes, ainda é assim. No entanto, em muitos casos, o que realmente ocorre é a criação sistemática de um reflexo crítico que falha em se autoavaliar, de uma desconfiança que nunca se dirige àqueles que desconfiam, e de uma desconstrução que desmonta tudo, exceto seus próprios pressupostos.

O jovem adentra com curiosidade. Você está magoado. Faça perguntas ao entrar. Você já vem preparado com respostas. Mercado inicia com viés positivo para o real. Você possui um mapa ideológico que esclarece tudo antes mesmo de descobrir qualquer coisa. Adentre o universo do conhecimento com o coração repleto de amor. Sai com desdém daqueles que têm uma opinião divergente. O que é ainda mais lamentável é que ele sai acreditando que esse processo foi uma forma de emancipação. Que ele se livrou da inocência de antes. Que agora vê o que antes não via. Que agora consegue identificar as estruturas que os outros ainda não notaram. É o saber universal: aquele saber especial que esclarece o escolhido e expõe a falta de conhecimento dos não iniciados.

Essa configuração gera um tipo de pessoa muito particular e facilmente identificável: o estudante universitário que se deparou com a opressão e não consegue mais enxergar nada além disso. Ele observa uma família contente e percebe a dinâmica de poder. Observa uma tradição e a percebe como uma preservação de privilégios. Observa uma religião e identifica um sistema de controle. Observa um trabalhador em dificuldades e reconhece uma vítima da alienação. Olha para um empresário de sucesso e enxerga um explorador. Observe uma criança brincando e você verá a reprodução dos papéis de gênero. Observe a si mesmo como um indivíduo interseccional, portador de diversas camadas de violência simbólica acumulada ao longo do tempo. Ele não consegue ficar em um lugar sem analisá-lo. Não é possível existir sem expressar essa existência. Não é capaz de comer, dialogar, rir, trabalhar, produzir ou rezar sem antes filtrar tudo através do julgamento crítico que adquiriu, acreditando ser uma formação intelectual, mas que na realidade é apenas uma nova forma de expressar um ressentimento antigo.

A verdadeira inteligência não opera dessa maneira. A verdadeira inteligência, quando adequadamente desenvolvida, tem a capacidade de observar antes de emitir um juízo, de compreender antes de criticar e de apreciar antes de desmontar. A linha de pensamento filosófico que se estende de Platão a Aristóteles, passando por Agostinho e Aquino, e chegando a Newman e Stein, tem sempre o mesmo ponto de partida: o assombro, o thaumazein grego, como impulso do raciocínio. A criança que observa o céu repleto de estrelas e questiona "o que é isso?" está mais alinhada com a verdadeira filosofia do que o adulto que observa o mesmo céu e rapidamente associa à política de exploração da NASA ou à conexão entre a cosmologia e o colonialismo epistêmico. A apreciação permite que a realidade se manifeste. A desconfiança constante tranca a porta e, em seguida, se queixa de que está na escuridão.

E a universidade, ao operar como uma engrenagem de desconfiança constante, não capacita indivíduos a pensar por si mesmos. Cria barreiras de pensamento. Pessoas que têm plena consciência do que não deve ser mencionado, do que não pode ser imaginado e do que não é possível apoiar sem enfrentar um custo social. É assim que se referem a isso: pensamento crítico. Um verdadeiro pensamento crítico é aquele que também se questiona e se autoavalia. Questiona suas próprias premissas. Questiona a base das próprias indagações. Confere se a abordagem se aplica ao objeto. Verifica se a conclusão decorre das premissas. Isso requer uma coragem intelectual que se opõe ao conformismo acadêmico: afinal, o conformismo acadêmico contemporâneo possui suas próprias heresias proibidas, tão severamente quanto qualquer tribunal inquisitorial, e, em algumas situações, é ainda mais implacável com os hereges, uma vez que a Inquisição histórica contava com um processo formal.

Além disso, há a questão política, que não foi totalmente explorada antes, pois não é fácil esgotá-la, mas que merece uma nova perspectiva.

No Brasil, os partidos políticos transformaram-se em igrejas sem uma doutrina definida. Existem líderes carismáticos que são venerados com uma paixão que muitas vezes desafia a lógica. Há integrantes que apoiam o líder com uma lealdade que seria digna de admiração em um fervoroso seguidor de uma religião, mas que, em um cidadão comum, se resume a uma dependência emocional em termos políticos. Há hereges, expurgos, conversões públicas, excomunhões por desacordo. Contém escatologia: um futuro redentor que valida qualquer ação no presente. Existem liturgias: a votação é considerada um ato de fé, o palanque funciona como um púlpito, o discurso é equivalente a um sermão, o slogan atua como um credo, e o ódio direcionado ao oponente serve como a identificação do Demônio.

Além disso, os seguidores leais a esse partido-igreja não aceitam esse diagnóstico, pois, dentro da lógica da religião, os rituais não são percebidos como meras cerimônias; para eles, são a própria realidade. Assim como o verdadeiro devoto não considera suas práticas como um rito, mas sim como uma resposta autêntica à realidade. A verdadeira liturgia, ao contrário, direciona a atenção para algo que transcende a sua própria existência. A liturgia política dirige-se ao próprio partido, ao próprio líder e à própria comunidade de fiéis. É o reflexo visto como se fosse uma janela. É a torcida que acredita piamente que o estádio é o mundo.

O Lula, por exemplo, foi eleito em 2022 com uma dinâmica que qualquer estudioso sério dos fenômenos religiosos descreveria como messiânica: uma narrativa de retorno do herói, a promessa de uma restauração, um inimigo claramente definido, um grupo de fiéis devotados que não precisavam de uma explicação racional, e uma promessa implícita de redenção para todos. Não se trata de uma avaliação de valor governamental; é uma análise da estrutura do fenômeno político. O mesmo se aplicaria, embora com outros trajes, ao ciclo bolsonarista anterior: messianismo, pureza, inimigo demoníaco, promessa de restauração nacional, corpo de fiéis com lealdade acima da razão. Em ambos os casos, o que as pessoas estavam procurando não era apenas um administrador eficaz ou um legislador competente; elas estavam em busca de significado. Estava delegando à política uma carência que esta não consegue atender: a busca por uma direção final, por um sentido de pertencimento que vá além, por uma esperança que supere a morte.

Quando a política assume um fardo que não lhe pertence, ela entra em colapso. Não porque os políticos sejam, de fato, piores do que a média das pessoas, pois eles são apenas uma representação da média humana, com um microfone e um orçamento, mas sim porque nenhum indivíduo pode suportar a responsabilidade de ser um Messias sem, eventualmente, se transformar em um tirano ou em um fantoche. Aqueles que pensam que podem salvar o país, o mundo ou a humanidade, necessariamente precisam de adversários que estejam à altura de seu projeto. A magnitude do Messias torna necessária a malevolência do inimigo. A política se transforma, então, em uma incessante criação de vilões indispensáveis para legitimar a grandiosidade do salvador. O jogo permanece inalterado: o escolhido se torna mais virtuoso, enquanto o adversário se torna mais maligno. O seguidor leal que se comprometeu com o projeto não consegue se desvincular, pois fazê-lo significaria reconhecer que esteve a servir uma ilusão.

A vacina não se trata de uma desconfiança cínica em relação à política. Ceticismo cínico é simplesmente outra maneira de dependência: a de quem nega para evitar qualquer compromisso. A vacina representa uma sobriedade política, uma virtude que frequentemente é esquecida: ter a consciência de que a política é indispensável, que possui seu próprio campo de atuação, que é relevante saber quem está no poder e de que maneira exerce essa função, que as leis e instituições influenciam vidas de maneira tangível, e, ao mesmo tempo, reconhecer que a política, por si só, não é capaz de salvar. O bem comum não é o bem mais elevado. Que a cidade terrestre não é a cidade divina. Votar é um dever cívico, não uma crença. Um partido é um instrumento e não uma família. Que líder político é funcionário público e não oráculo. Quando o indivíduo tem essa consciência, ele consegue se engajar na política sem ser dominado por ela. É possível fazer críticas sem nutrir ódio, apoiar sem adorar, perder uma eleição sem entrar em uma crise de identidade, e vencer uma eleição sem acreditar que o paraíso finalmente chegou.

Há também uma questão que o texto inteiro passou sem abordar: a do corpo. Não o corpo como um suporte para a identidade, o que já foi alvo de críticas. O corpo enquanto informação, enquanto realidade, enquanto linguagem, enquanto espaço onde a alma reside, através do qual se manifesta e é moldada.

A modernidade estabeleceu uma relação perturbada com o corpo. De um lado, ele é um ícone: academia, estética, selfies, aprimoramento, biohacking, cirurgias, filtros, edição, exposição constante. No entanto, o nega não é visto como portador de significado intrínseco: se o corpo não possui um sexo autêntico, não possui uma finalidade verdadeira, e não possui uma linguagem verdadeira, ele é apenas matéria moldável na qual a vontade impõe o que deseja. São dois gestos aparentemente contraditórios, mas que na verdade são idênticos: em ambos os casos, o corpo é visto apenas como um meio para a realização da vontade, jamais como um colaborador da alma ou como um portador de informações morais intrínsecas.

A tradição filosófica antiga considerava o corpo como parte essencial da pessoa, e não como um invólucro descartável ou uma ferramenta passível de modificações. Aquino, à semelhança de Aristóteles, afirmava que o ser humano é constituído de matéria e forma, considerando a alma como a forma do corpo. Ele sustentava que o corpo e a alma não são dois seres distintos justapostos, mas sim uma unidade substancial. Isso quer dizer que o corpo se comunica. O corpo se fatigue para ensinar sobre limites. O corpo adoece para solicitar repouso. O envelhecimento do corpo nos ensina que somos seres criados e não os criadores absolutos de nossas próprias existências. Os corpos masculino e feminino apresentam diferenças tanto internamente quanto externamente, e essas distinções contêm informações, propósitos e uma complementaridade. Isso não se deve ao fato de que alguém decidiu que deveria ser assim, mas simplesmente porque é dessa forma. Essa realidade é um dado, uma realidade objetiva que existe antes de qualquer preferência pessoal.

Uma criança que sofre de enxaqueca descobre, através de seu corpo, que não é onipotente. Uma pessoa faminta descobre que precisa contar com os outros. Um homem que levantou pesos na construção civil aprende, através de seus músculos, que há um limite. E ceder a esse limite é um sinal de inteligência, e não de fraqueza. Uma mãe que amamentou compreende de maneira intuitiva, através de seu próprio corpo, algo a respeito da doação que nenhum livro é capaz de ensinar com a mesma profundidade. Um esportista que se dedicou aos treinos sabe, através do suor, que o bem requer esforço. O corpo modela. Uma cultura que vê o corpo como uma argila moldável pela ideologia acaba perdendo o professor mais sincero que o ser humano possui, uma vez que o corpo não engana da mesma forma que a vontade pode enganar.

A In-Gnose contemporânea não se resume apenas à política, nem a uma má catequese, nem à academia, nem mesmo a uma família disfuncional. Ela representa uma postura completa em relação ao real: a rejeição constante de aceitar a realidade como ela é, a não aceitação do limite como uma forma, a desconsideração do corpo como uma forma de expressão, a falta de reconhecimento da tradição como uma herança, e a recusa em ver o transcendente como um critério. É o desejo de ser fonte em vez de ser produto. Trata-se de um projeto de autogênese contínua, de reinvenção incessante, de recusa da assimilação. É Adão aspirando a ser igual a Deus, não pela elevação que Deus proporcionava, mas ao usurpar a prerrogativa divina de definir a realidade.

Aqui, o aspecto teológico se torna inevitável, mesmo que o texto tenha chegado até esse ponto por meio de abordagens civis e filosóficas: o pecado original não deve ser visto como uma narrativa charmosa de um jardim e uma maçã. É a representação mais fiel da estrutura da desordem humana. Antes de qualquer ato pecaminoso, existe uma intenção da vontade que opta por não aceitar: que deseja estabelecer por conta própria o que é certo e o que é errado, que anseia por ser o foco, que pretende substituir a perspectiva divina pela sua própria percepção. Toda a trajetória da humanidade é uma constante representação desse movimento e sua correção, iniciada por um homem que optou por afirmar e aceitar, em vez de rejeitar, que se submeteu até a cruz, pois tinha a compreensão de que a jornada em direção à vida exige a renúncia do próprio ideal de autossuficiência.

A agenda completa da In-Gnose, em todas as suas formas — políticas, acadêmicas, terapêuticas, estéticas, religiosas e culturais — representa a reencenação do pecado original, utilizando um vocabulário contemporâneo. É a vontade humana afirmando, de uma nova perspectiva, que não deseja aceitar a realidade como ela se apresenta; prefere moldá-la de acordo com suas próprias vontades. Toda a verdadeira agenda da esperança consiste, na verdade, em um movimento oposto: aprender a acolher, a reconhecer, a identificar, a expressar gratidão, a servir e a criar dentro da realidade, e não em oposição a ela.

O trabalho digno consiste em aceitar a realidade de um desafio e organizá-la de forma inteligente e com dedicação. A verdadeira família é assim: acolher o outro como ele é e amar sem eliminar as particularidades. A verdadeira arte consiste em acolher o belo e moldá-lo, em vez de submeter a moldura às próprias intenções. A verdadeira política consiste em aceitar a cidade como ela se apresenta, com seus desafios reais, e trabalhar em prol do bem comum, sem se colocar como um salvador. A liturgia consiste em acolher o sagrado que desce do alto e reagir com respeito, e não com uma apresentação. A filosofia consiste em acolher a realidade com um senso de maravilha, antes de penetrá-la com a noção.

A civilização que compreende isso ao longo do tempo, de maneira gradual, imperfeita, cheia de contradições, colapsos e ajustes, é a civilização que consegue sobreviver. Porque ela possui o único recurso que nenhum poder político, tecnologia, ideologia ou mercado consegue criar: a habilidade de perceber que não é suficiente por si só. Que existe algo superior. Que o real não é adversário. A arte de receber é um sinal de sabedoria, não de vulnerabilidade.

Assim, o Nada não tem medo de tanques ou de manifestos. Receber é uma habilidade que assusta quem não a domina. Receia o pai que suplica desculpas ao filho. Receia a catequista que decide se aprofundar na metafísica, pois a criança merece uma resposta genuína. Receia o estudante universitário que se depara com uma fonte primária sem ter recebido a tarefa. Receia o trabalhador que é fiel à sua palavra, mesmo quando não há ninguém por perto para observar. Receia o casal que opta por permanecer unido, independentemente das adversidades, e que se une pelo que realmente merece a pena. Receia a avó que ora, pois tem consciência de que existe Alguém que ouve. Receia-se a criança que faz perguntas e é ouvida com atenção. A comunidade que atribui nomes aos seus falecidos e realmente os lamenta.

O Vazio tem medo da forma. Sempre teve medo. Enquanto houver pessoas dispostas a moldar o amor, a reflexão, o trabalho, os rituais, a família, a arte, a fé, a virtude e até mesmo o luto, a podridão não triunfa. Apenas aguarde. A civilização que compreende isso não precisa aguardar o próximo Messias político, o próximo movimento cultural ou a próxima teoria redentora. Ela inicia exatamente de onde sempre se iniciou: com uma pessoa que observa a realidade com os olhos bem abertos e afirma, de maneira sincera e destemida, que tudo isso tem seu valor.

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 Um resumo De tudo isso para todos aqueles que tem fé e amam a verdade é um sincero, (Don't Stop Believin):