Jujutsu Kaisen - O SANTO QUE ENGOLIU O DEMÔNIO

Existem mundos que não pertencem ao nosso, mas que, ainda assim, nos julgam. Um jovem engole um dedo podre para salvar duas crianças da morte. Um homem de olhos brancos atravessa toda a sua vida como se estivesse percorrendo quarenta dias em um deserto. O inferno clama que a esperança não existe, e é precisamente por essa razão que ele é capaz de matar o Messias no final. O que resta é um menino idoso implorando para ser dividido.

Gabriel G. Oliveira

8/21/202679 min ler

Jujutsu Kaisen e a teologia oculta de um mundo alternativo

Hoje, o enfoque será um pouco distinto. Hoje vamos discutir Jujutsu Kaisen, e faremos isso da maneira que vocês apreciam: de forma detalhada e minuciosa, sem pressa, explorando a fundo até que o símbolo revele sua verdadeira natureza. Não se trata de uma crítica, nem de uma classificação de combates, e muito menos de um debate sobre quem golpeia mais forte em quem. Trata-se de uma análise do imaginário. A análise de imaginário, quando realizada de forma adequada, não é um adereço intelectual que se coloca sobre a obra. É um trabalho de remoção do solo. Você pega uma narrativa que milhões de pessoas apreciaram como forma de entretenimento e levanta uma questão bastante simples, mas ao mesmo tempo arriscada: o que estava sendo comunicado aqui embaixo, enquanto todos estavam atentos ao que ocorria acima?

Primeiro, é essencial que eu marque firmemente uma posição, pois, caso contrário, o primeiro inconsciente que ler uma parte e sair comentando por aí, pode afirmar que o Gabriel acredita que Satoru Gojo é Jesus Cristo. Não é bem isso. Isso nunca foi o caso. Jujutsu Kaisen é uma história incrível. É um mundo completamente diferente, com outra perspectiva e outra organização de eventos. É um mundo que pode existir — e esse mundo possível é muito diferente da realidade que conhecemos, não se parece em nada com o mundo em que vivemos. É a mesma distinção que se observa entre as realidades paralelas que surgem em nossos sonhos e a mesa que sustenta seu cotovelo neste momento. As realidades presentes nos sonhos são autênticas, mas não são materiais. Elas possuem uma dimensão metafísica. Elas residem do outro lado. Aquele que mistura os dois âmbitos não compreende nem um nem outro.

De forma alguma: Satoru Gojo não é o Salvador. Ele representa o retorno do Messias nesse mundo. Dentro daquela mitologia única, com suas próprias leis e aquele Deus específico. É distinto, e essa distinção é tudo.

Aí você me questiona: Gabriel, como você pretende abordar o cristianismo em uma obra que é quase teosófica, um budismo com influências teosóficas, salpicado de nuances cristãs, mas que, no final das contas, ainda é essencialmente teosófico? Você que detesta teosofia. Então eu pergunto: de que forma isso me impede? Não, meu filho. Nada em absoluto. É preciso abordar os fenômenos esotéricos que ocorrem em Jujutsu como se fossem elementos naturais daquele universo — e não do nosso. É a mitologia específica daquele universo, e não a metafísica do universo em que você despertou nesta manhã. Isso é algo que muitas pessoas não compreendem ao buscar a análise simbólica. Elas acreditam que tudo precisa ser perfeitamente alinhado, que deve ser idêntico e seguir rigorosamente as normas da ficção. É uma grande tolice.

Tolkien mesmo chegaria a afirmar isso, e o fez, à sua maneira. Se você espera que uma obra de ficção reproduza todos os detalhes da realidade, ela será uma mentira por definição — afinal, não é algo que realmente ocorreu. Você converte a subcriação em imitação. E então a situação se transforma em quê? Transforma-se em evangelho extraviado. Transforma-se em um evangelho gnóstico. É precisamente o que faz o gnóstico: pegar uma narrativa e exigir que ela seja uma revelação literal, e quando não é, forçar para que pareça. As obras de ficção devem ser levadas a sério a partir de seus signos, não como um todo. É tão evidente que é até ridículo que eu precise escrever isso aqui. É fundamental, pois o que é evidente hoje se tornou algo raro e valioso.

Com isso em mente, vamos explorar o mundo. E sigamos o caminho que a própria obra começa a detalhar: o lado oposto.

O mangá deixa muito mais claro do que o anime que as maldições não são invisíveis porque são fruto da imaginação. Elas não são visíveis porque estão do outro lado. Os personagens deixam isso bem claro: essas entidades habitam o lado oposto, mas conseguem influenciar aqui. Então, o que representa aquele lado de lá? Trata-se de um plano metafísico. Mas, afinal, o que são essas entidades? São criaturas demoníacas. Não se trata de metáfora, nem de alegoria psicológica, nem é "representação do medo humano" no sentido raso que a crítica moderna adora. No contexto daquele universo, elas são verdadeiramente demônios.

Se você deseja um paralelo exato, considere o que a mística judaica se refere como qelipot — as cascas. São precisamente as maldições presentes em Jujutsu Kaisen. Estes são os pequenos demônios, os fragmentos endurecidos, as conchas que se nutrem de excessos e de impurezas. O cristianismo se referirá a isso como demônios, diabretes e espíritos do ar — e a Escritura os menciona de forma natural, sem histeria e sem folclore. Pertence à mesma linhagem ontológica. Isso será tratado com muito mais detalhe mais adiante na obra, quando o autor começa a explicar a origem de cada elemento.

Fique atento ao mecanismo, pois ele é delicado. Um espírito maligno pode ser expulso de uma pessoa, mas isso não significa que ele tenha surgido ali. Às vezes, trata-se de um demônio que veio de fora e se deparou com alguém que estava em sofrimento. Em outras ocasiões, de forma ainda mais lamentável, a própria pessoa, oprimida pela dor, converte-se em um espírito que carrega uma maldição. Transforma-se em uma maldição. Portanto, o exorcismo não se trata de expulsar um intruso, mas sim de libertar alguém que se tornou a prisão em si.

Rika é um exemplo notável, e é fundamental chamá-la pelo nome apropriado, pois um nome incorreto compromete toda a interpretação. Rika é um espírito maldito — uma garotinha falecida cujo amor ferido por Yuta a reteve neste plano, causando-lhe deformações. Ela é, em sua essência, o que o folclore japonês designa como onryō: um espírito que busca vingança, que não conseguiu seguir em frente devido a uma pendência não resolvida. Geto a designa como a Rainha das Maldições, e sob sua perspectiva, ele está correto. No entanto, a conexão dela com Yuta não se assemelha à relação entre uma maldição e seu hospedeiro: é uma ligação de um familiar pleno, entrelaçada por amor e por obsessão. Quando aquele mal interno é finalmente eliminado, quando a maldição é expurgada de seu interior, o que resta é nada. O que resta é um ser de uma natureza diferente: um servo espiritual, o que a tradição japonesa se refere como shikigami.

É fundamental que eu faça uma pausa aqui para esclarecer detalhadamente, pois estamos lidando com o vocabulário técnico que permeia toda a obra, e, para a grande maioria das pessoas no Ocidente, esse vocabulário é raramente utilizado de maneira correta. Shikigami, que se escreve com o ideograma que representa "fórmula" ou "rito" combinado com o símbolo de "deus", são espíritos servos que os praticantes do Onmyōdō — a tradicional cosmologia japonesa baseada na teoria dos cinco elementos e do Yin e Yang — convocam. O onmyōji é quem os chama: ele é o sacerdote, astrólogo e mago da corte imperial, e o mais famoso de todos foi Abe no Seimei. O shikigami não deve ser visto como uma força bruta direcionada ao inimigo. Ele é um ente mágico — ora invisível, ora representado por um pequeno papel dobrado, ora na forma de um animal — designado para cumprir tarefas de proteção, previsão ou, nos casos em que o onmyōji tinha intenções malignas, de maldição. É um poder temporário, moldado pelo ritual e pela lealdade à obediência.

Em outras palavras, o shikigami é, por definição, um ser que ocupa uma posição intermediária e está em uma posição de subordinação. Ele não é autônomo. Ele é convocado, ganha forma, realiza sua missão e responde àquele que o chamou. Ele transporta o que é enviado de cima para baixo e também leva o que se origina de baixo para cima. Na nossa tradição, isso possui um nome, que não é uma metáfora: é chamado de anjo. Não estou afirmando que o japonês antigo possuía uma angelologia no estilo tomista. Estou afirmando que a configuração ontológica que ele delineou — uma criatura espiritual, sem um corpo próprio, que assume uma forma, que serve e que é enviada — é idêntica àquela que Dionísio, Agostinho e Tomás utilizam ao se referirem aos anjos. Diversas pessoas falharam ao encontrar uma solução para o mesmo obstáculo, que continuava presente.

Gege Akutami faz essa adaptação com uma precisão que surpreende. Os shikigami presentes em Jujutsu Kaisen são espíritos familiares que foram criados ou são controlados por meio da energia amaldiçoada, e quase todos eles possuem um nome, uma origem e uma fonte de inspiração que estão diretamente ligados à mitologia japonesa e budista real. Dê uma olhada na Técnica das Dez Sombras de Megumi, e você perceberá uma exibição de teologia japonesa camuflada como uma técnica de combate. Os Cães Divinos, um de coloração preta e outro branca, representam a dualidade do Yin e Yang em forma de dois cães, originando dos inugami do folclore, que são cães espirituais conhecidos por sua lealdade e ferocidade como guardiões. A Grande Serpente é a serpente original, o ancestral imediato da Yamata no Orochi que Susanoo venceu no mito xintoísta. O Sapo e os Coelhos em Fuga são os personagens de fábulas conhecidas, representando o inteligente e o numeroso, o pequeno animal que triunfa devido à sua quantidade. O Elefante Máximo refere-se ao grande animal sagrado da representação budista indiana, que chegou ao Japão junto com o sutra. O Cervo, que possui um papel de cura, é o mensageiro sagrado das divindades — é o mesmo cervo de Nara que ainda hoje vaga livremente entre os templos. O Touro Perfurante é a criatura bovina incontrolável do folclore asiático. O Nue é um yōkai tradicional do período Heian, descrito no Heike Monogatari: ele possui a cabeça de um macaco, o corpo de um tanuki, as patas de um tigre e a cauda de uma serpente. Akutami, no entanto, adiciona a ele asas de coruja e uma carga elétrica. O Tigre Fúnebre carrega a intensidade felina que chegou ao Japão por meio da arte chinesa e do budismo, uma vez que tigres nunca habitaram aquelas terras.

Preste atenção ao que isso implica. Cada sombra que Megumi lança no chão representa uma fração da espiritualidade japonesa, evocada pelo nome e obrigada a cumprir sua função. O menino é um onmyōji. Não se trata de um lutador dotado de poderes: é um sacerdote que invoca. Aquele que convoca é responsável por quem foi convocado.

Não é por acaso que a obra utiliza essas criaturas para combater as maldições. Elas se referem a algo que é virtuoso. Elas são virtuosas. Você não invoca um shikigami para fazer o mal dentro da lógica interna daquele mundo — você invoca para conter o mal. A angelologia está ali inteira, vestida de estética budista, com roupa de onmyōdō, mas está ali. E está tão inteira que ela vai ter, mais adiante, até a sua própria queda: porque anjo que serve a um dono corrompido cai com o dono, e a obra vai desenhar isso com uma frieza que dói.

Agora, a expressão "feiticeiro". Isto é uma má transcrição ocidental. No Oriente, a palavra utilizada é xamã. O xamã se assemelha muito mais a um teurgo do que a um feiticeiro. Teurgo é aquele que atua em conjunto com o divino, que se posiciona como um intermediário, realizando um trabalho que vai de baixo para cima. Por essa razão, em certas traduções, eu opto por designar os feiticeiros jujutsu como magos, utilizando o sentido clássico e elevado do termo. Então, a diferença se torna evidente quando você observa o outro lado: aqueles que manipulam maldições. Não se trata de teurgos. Estes são goetas. Goécia é a habilidade de invocar essas entidades malignas e subjugá-las — de atar o demônio para o próprio benefício. É uma total inversão. O teurgo se entrega ao plano superior para oferecer seu serviço; já o goeta controla o plano inferior para atender às suas próprias necessidades.

Há um aspecto que remete a Gandalf e Saruman, e essa comparação não é meramente ornamental. Feiticeiros jujutsu são o equivalente a Gandalf: humanos que possuem uma força espiritual imensa, quase tão poderosa quanto a de um santo. Certamente, Gandalf é uma entidade de natureza angelical, e nesse aspecto ele se encontra em uma posição superior; no entanto, o princípio que o impulsiona é o mesmo — poder que é concedido, poder que é estruturado, poder que tem a finalidade de servir. Quem domina as maldições é o pessoal da Goécia. São os verdadeiros feiticeiros, no sentido em que o termo é utilizado como uma acusação, e não como um elogio. Eu continuo usando a palavra "feiticeiro" no texto, pois soa mais agradável, é mais contemporânea e carrega uma aura mais interessante — mas é importante mencionar que a tradução alterou o eixo do Oriente para o Ocidente e isso passou despercebido por todos.

No aspecto institucional, a situação se estrutura em uma oposição que qualquer leitor de quadrinhos consegue identificar na primeira página: é Xavier contra Magneto. A escola de Jujutsu é o Instituto; Gojo é o docente que traz para si as crianças que foram rejeitadas; Suguru Geto assemelha-se a Magneto, sendo aquele que se tornou um reflexo invertido, o amigo que optou pelo lado oposto do mesmo diagnóstico. Entretanto, Jujutsu Kaisen explora temas de forma mais profunda do que os X-Men, pois não se limita à política. Geto não cria um exército. Geto cria uma seita.

É oportuno destacar o que a obra revela de mais fascinante em sua arquitetura religiosa. Gege Akutami tece uma combinação que é essencialmente inspirada no ocultismo contemporâneo: elementos pagãos, conceitos abraâmicos e, em especial, noções cristãs, tudo isso entrelaçado sobre uma base de budismo xintoizado — aquele budismo zen que, no Japão, se fundiu com o culto aos kami a ponto de se tornar impossível distinguir entre os dois. Isso é extremamente interessante em um grande nível. Não se trata de um ecletismo acomodado; é a representação precisa do que ocorreu com a religiosidade moderna do Japão, que assimilou tudo sem realmente processar nada.

Então, você pode se perguntar: tudo bem, Gabriel, mas por favor, esclareça melhor essa mitologia. De onde isso se origina? E eu digo: vem de muito longe. Esses conceitos têm suas raízes na antiguidade, mesmo em nosso próprio mundo. Magos a serviço de quem pagasse, chamando criaturas do além e chegando a dominar reinos com elas. Certamente, existiram feiticeiros que dominaram reinos no passado. Isto não é um sonho. O Golem judeu, por exemplo, é um mito que possui tanto conteúdo histórico por trás que a palavra "mito" já fica apertada. As bruxas da Ilíada e da Odisseia mantêm uma relação direta com os deuses, e algumas delas são consideradas deusas — não por terem sido elevadas a esse status por mera afinidade, mas porque são teurgas de imenso poder. Ao explorar a arqueologia, você se depara com uma descoberta que deveria envergonhar o ceticismo contemporâneo: a extraordinária cidade de Troia realmente existiu. Foi demonstrado que estava presente. Muitas cidades incríveis eram simplesmente cidades. O homem estava se referindo a algo verdadeiro, e fomos nós que decidimos chamá-lo de conto.

Portanto, é verdade que esses fenômenos místicos são reais, e há manifestações no nosso mundo que são equivalentes àquilo que encontramos em Jujutsu Kaisen, embora com denominações distintas e consequências mais graves. Conservem isso, pois quando eu abordar o tema dos pactos, vocês compreenderão a razão da minha insistência.

Não farei uma análise minuciosa de cada detalhe. Não é possível. Jujutsu Kaisen é extremamente complexo, e se eu precisar explicar todo o seu universo, certamente vou acabar escrevendo um livro de duzentas páginas só sobre isso. Vou resumir a história, focando nos pontos principais e me baseando principalmente no mangá, já que é lá que a obra está completa. O anime é visualmente deslumbrante e a animação é absolutamente perfeita, mas ele distorce elementos fundamentais. A primeira delas aparece bem no início.

Recorda-te da cena em frente à escola. Yuji e Megumi estão presentes, a maldição já causou ferimentos em um dos amigos de Yuji e está prestes a eliminar o outro, e ela é excessivamente poderosa, mesmo para Megumi. Nesse momento, Yuji se depara com duas alternativas, e a forma como cada adaptação aborda essa escolha altera completamente a situação. No anime, Yuji utiliza o dedo de Sukuna principalmente para se proteger, mais do que por qualquer outra razão. Trata-se de uma escolha que é, no mínimo, egoísta. No manga, de forma alguma. No mangá, Yuji é muito mais puro. Ele avalia de maneira fria e racional, como um homem de bem: a única maneira de garantir que aqueles garotos sobrevivam é eu ter poder neste momento. Ele poderia facilmente se afastar e ir embora — e de fato poderia, pois estava em frente à escola, bastava dar meia-volta e desaparecer. Ninguém teria como saber. Ele optou por engolir aquele lixo para proteger os garotos.

Isso não acontece sem motivo. O mangá apresenta uma parte de sua infância, e a imagem que é retratada é a de um garoto que se tornou o terror dos bullies. Yuji era o tipo de garoto que sempre defendia os mais fracos, que se colocava entre eles e seus agressores, encarando o valentão e afirmando: não vai maltratar aquele infeliz aqui, não. Um desses garotos com quem ele lutou retorna muito tempo depois, já adulto e alinhado com os feiticeiros, e a admiração que ele sente por Yuji é proveniente de alguém que foi superado por alguém superior e que aprendeu a lição. É uma dinâmica semelhante à de Kuwabara e Yusuke — mas com Kuwabara plenamente ciente de que Yusuke é muito superior a ele, e aceitando isso tranquilamente.

Observe o que o autor está realizando. Ele está formando o caráter antes de qualquer poder. Yuji não é agraciado com a virtude do dedo. Yuji já possuía a virtude, e o dedo apenas descobriu seu lugar de residência. Essa é a distinção entre um herói e alguém que teve sorte, e é por isso que o mangá se destaca: no anime, é o poder que forma o herói; no mangá, o herói aceita o poder da mesma forma que se aceita uma cruz.

Os dois amigos conseguem sobreviver, embora estejam marcados e fragilizados, mas ainda assim, estão vivos — e o verdadeiro custo daquela noite não é a morte deles, mas sim algo diferente. Yuji tinha acabado de testemunhar a morte de seu avô. É que Yuji, ao testemunhar o outro mundo, acaba perdendo algo que não consegue recuperar. Há uma leve diminuição do livre-arbítrio, e eu opto por essa formulação com atenção. Não significa que ele não seja livre. É que ele não consegue mais fazer de conta que não vê. Há uma conversa entre ele e Megumi que aborda precisamente esse ponto: ignorar isso seria um modo de negar a própria realidade. Ele percebeu o que 99% das pessoas no mundo não conseguem ver. Você está imerso nesse mundo agora, e não há como escapar. Nunca mais voltará a acontecer.

Essa é uma verdade espiritual difícil, que se aplica além do mangá. O conhecimento impõe obrigações. Uma vez que você testemunha, o ato de não ver deixa de ser uma inocência e se transforma em uma mentira intencional. É por isso que a Escritura é tão dura com quem conhece e faz de conta que não conhece. A ignorância pode ser desculpada; a ignorância simulada é condenável.

Gradualmente, durante a primeira parte da narrativa, vamos nos aprofundando no verdadeiro inferno que é este mundo. É, de certa forma, o nosso próprio mundo — as mesmas ruas, os mesmos trens, as mesmas escolas — apenas habitado por indivíduos que possuem um nível de existência extremamente elevado. Não me refiro a força física. Refiro-me a um elevado nível espiritual. A comparação que desejo estabelecer aqui é a mais significativa de todo o texto.

Leia os Apotegmas dos Pais do Deserto. Considero esta a melhor contribuição da literatura cristã — tanto católica quanto ortodoxa — ao abordar uma questão que raramente é feita de maneira adequada: o que, afinal, é um santo? Ao ler sobre isso e retornar aos feiticeiros jujutsu, aos teurgos e xamãs, você consegue identificar o padrão. Eles estão canalizando uma força que não lhes pertence, uma energia que se relaciona mais com o caos do que com a paz, a fim de poderem combater. São locais onde a divindade desse mundo se concentra. Eles possuem a virtude, e eles refletem a virtude divina, enquanto a divindade retribui essa correspondência. Isso é precisamente o que os Padres do Deserto ilustram: a manifestação da virtude que se torna tangível e se transforma em um milagre.

Não é à toa que a escola de Jujutsu se assemelha a um mosteiro. Não se trata de uma academia nem de um quartel: é um mosteiro. Levantada como uma catedral e como um símbolo, repleta de crianças que abriram mão do mundo secular, pois este já as havia banido, dedicando-se, dia e noite, a um treinamento para uma batalha invisível a todos. Os magos e suas instituições representam os verdadeiros Padres do Deserto: guerreiros do espírito genuínos que deixam a cidade para lutar contra a confusão no combate invisível. Por outro lado, aqueles que dominam as maldições e os magos negros se comportam como os goetas de antigamente: praticantes da magia profana, exploradores das forças malignas, que distorcem a realidade para satisfazer seus próprios prazeres egoístas. Ao passo que o pagão percebe o sagrado como presente em todos os aspectos da natureza, a perspectiva teológica depura esses símbolos e distingue com precisão o mistério do Bem da corrupção do maligno.

Observe uma regra da obra que valida tudo isso: os feiticeiros nunca podem ter apenas força física. Nunca. Nanami, o mais realista de todos, trabalha com proporções, ritmos e elementos que vão além do mero músculo. Não pode ser apenas físico, e isso é tudo. É a interação do espiritual com o real. E o que, afinal, é essa força? É o antípoda de Deus. É caótica, mas isso não a torna má.

É fundamental que isso fique bem evidente, pois é nesse ponto que a maioria das pessoas comete enganos: a energia maldita não está relacionada a coisas negativas. É a energia que vem do impacto, da batalha, do conflito. Akutami não afirma que todas as batalhas são ruins. Ele afirma o oposto — que é necessário contar com essa força maldita, que se manifesta na guerra, na destruição, na poderosa e inerente capacidade de devastar, para conseguir libertar o mundo do mal. Nesse sentido, a energia maldita deixa de ser um elemento demoníaco e passa a ser o emblema da contenção e do autocontrole. É uma força que só se manifesta quando controlada. É uma força que só se torna útil quando está amarrada.

Há diversas formas de força naquele mundo, mas as duas mais significativas são a energia negativa e a energia positiva. E aqui trago uma imagem que eu adoro, o Pantocrátor. Observe um Pantocrátor bizantino de frente e note que os dois lados do rosto não são idênticos. De um lado, temos juízo, destruição, caos e justiça. O próximo é compaixão. Então, a energia negativa corresponde ao lado do juízo, enquanto a energia positiva — aquela que produz a técnica reversa, a cura do feiticeiro — está associada ao lado da misericórdia. Marte e Mercúrio. Há muitas pessoas que afirmarão que se trata de Vênus. Não exatamente. Há, sem dúvida, aspectos venusianos relacionados à misericórdia, mas a cura a que nos referimos é a restauração do que foi destruído, e essa noção de restauração é, de fato, mercurial. É salvação, não é amor. São Mercúrio e Marte, os dois aspectos do Pantocrátor.

O Deus desse mundo não se revela de forma direta. Ele se comunica através de mensageiros. A alta sacerdotisa que reside no templo é Tengen — uma entidade de forma indefinida, quase estática e tão antiga que se assemelha a uma planta, responsável por manter as barreiras e o equilíbrio de todo o sistema. Ela é o lugar onde a energia do mundo é controlada. O que Satoru Gojo afirma sobre o ápice do espírito reforça essa ideia: é essencial estar em harmonia com a força do mundo, e não apenas com a energia amaldiçoada ou somente com a positiva. Está tudo em ordem. O que é esse tudo, esse conjunto que gera o clarão negro que Itadori consegue produzir inúmeras vezes? É o próprio Senhor desse mundo. É o próprio jujutsu. Não se trata do personagem, da técnica ou da linhagem. Akutami afirmou que não há um personagem principal em Jujutsu Kaisen — e que o foco principal é, na verdade, o próprio jujutsu. O que ele está insinuando com isso, em termos do que não podia expressar abertamente? Que o personagem central é o Deus daquele universo.

Tenha essa afirmação em mente, pois ela retornará mais adiante de forma contundente: Deus é a essência do jujutsu. É a energia, é o universo, é tudo. E os homens que nele trabalham não estão controlando uma bateria. Estão agindo de acordo com um desejo que os precede.

É por essa razão, também, que os feiticeiros agem com cautela. Eles estão cientes de que muitos deles perderão a vida em um conflito. É a mesma conscientização que observamos nos X-Men: os mutantes enfrentam uma luta e alguns não retornam. Em Jujutsu Kaisen, muitas pessoas morrem, e de maneiras horríveis. O autor realiza uma ação que pode ser considerada tanto cruel quanto plenamente justificada: ele elimina feiticeiros sobre os quais você possui pouquíssimas informações. Um personagem aparece, pronuncia duas falas e é morto de forma horrível. Você nem chegou a descobrir o passado dele. Isso não ocorre em nossas vidas cotidianas? É assim que acontece. É o que o autor está afirmando. A vida é desse jeito. Às vezes, você tem uma conversa com alguém, se despede, faz planos para se encontrar no dia seguinte, e, de repente, essa pessoa é tragicamente atingida por um caminhão. A morte é inesperada porque o mundo é desse jeito. Ao se recusar a oferecer uma biografia para cada falecido, o mangá força o leitor a vivenciar a morte da maneira como realmente é experimentada: como uma interrupção, e não como uma conclusão.

No início, Megumi é o único que não demonstra muita cautela. E Satoru Gojo o repreende por isso — uma repreensão que revisitaremos mais adiante, pois é uma das passagens mais teológicas de toda a obra.

Entretanto, antes de abordar isso, é essencial compreender o que significa uma expansão de domínio, pois é nesse ponto que o ocultismo se infiltra na obra sem ser convidado. Quando o feiticeiro ativa o domínio, ele não está gerando um ambiente. Ele está expressando o microcosmo na realidade. Ele está projetando, no exterior, o mundo potencial que habita em seu interior — a materialização de sua alma. No ocultismo, isso possui um nome e uma representação: é o círculo mágico que o mago desenha no chão. O mago exerce controle total sobre tudo que está dentro do círculo. Em algumas ocasiões, o círculo é quebrado, e quando isso acontece, o mago fica vulnerável. É a mesma coisa. A obra se diverte com essa ideia, utilizando a mecânica de Hunter x Hunter, especificamente na saga das formigas quimera, onde há uma criatura com um poder semelhante. Contudo, a raiz não se refere ao mangá que o precede. A raiz representa o ritual.

Observe o que isso implica em termos morais. O domínio representa a essência do sujeito, invertida e imposta ao mundo ao seu redor. Quando Sukuna o abre, o que se revela é um santuário feito de carne e ossos, um templo que honra seu próprio apetite. Ao abrir o seu, o que se revela é um vazio interminável, onde a informação flui incessantemente — uma mente que detém todo o conhecimento e, por isso, se encontra eternamente solitária. Ninguém pode abrir um domínio que não seja autêntico. É o único local na obra onde a falsidade não é viável.

Agora vamos falar sobre o mal. Em Jujutsu Kaisen, o mal é identificado, possui histórico e segue um padrão.

Suguru Geto estabelece uma estranha seita gnóstica. Ele é, de fato, um líder de culto — tanto quando era Geto quanto quando ainda era ele mesmo. Após a morte de Geto, as maldições tomam conta do seu corpo, e Kenjaku é inserido dentro daquele cadáver. Jujutsu Kaisen 0 ilustra de maneira excelente: a forma como Geto encontra seu fim e como Kenjaku assume o seu lugar. Na trama principal, aquilo já não é Geto. Ali não há mais Geto. É apenas o diabo possuindo o corpo inerte do amigo. Portanto, a cena em que um personagem abre a parte superior de sua própria cabeça e ri em direção à tela é, sem dúvida, uma das representações mais aterradoras já criadas em um shōnen. Ele está afirmando, com um sorriso no rosto: eu dominei o corpo do seu amigo, e você não tem como reagir, agora esse corpo me pertence.

Kenjaku representa a crítica ao esoterismo levada ao extremo. Não se trata de uma crítica moralista vinda de fora — é uma crítica interna, elaborada por alguém que compreendeu como as coisas funcionam. Pois a origem do próprio protagonista é uma sátira ao esoterismo, à macumba disfuncional, ao ritual insano aplicado em ser vivo.

Dê uma olhada na estrutura. Kenjaku tomou conta do corpo da mãe de Yuji. Não se sabe ao certo como aconteceu; é provável que tenham capturado a mulher, a assassinado, e então inserido Kenjaku em seu interior, resultando na regeneração do corpo. E essa entidade coabitou com o pai de Itadori como se fosse sua esposa. Eles passaram um tempo juntos. Kenjaku provavelmente manteve relações sexuais com o pai de Itadori e concebeu Yuji naquele corpo. O objetivo era evidente: criar o único feto amaldiçoado que seria totalmente encarnado.

Os fetos considerados amaldiçoados, aqueles que habitam os Úteros da Morte Pintados, ocupam uma posição extremamente peculiar na hierarquia do ser. Nesse sentido, eles se assemelham a anjos: são capazes de transitar entre o mundo material e o espiritual. Possuem essa capacidade. Choso é um desses personagens, e ele é, na verdade, um irmão de sangue de Itadori. Ele é um ser híbrido, um anjo naquela definição, e pode se mover entre diferentes dimensões. Em Shibuya, isso se torna evidente: Choso inicia sua atuação no âmbito metafísico, depois transita para o plano físico e permanece ali. Mas ele pode retornar. Ele é um ser que habita dois mundos, como um anfíbio.

Isto é: um homem — já que Kenjaku, em sua origem, é um homem — cruza a fronteira e transforma-se em demônio, em maldição. Em seguida, ele começa a habitar os corpos de pessoas que morreram ao longo dos séculos, utilizando cada corpo até que ele envelheça, momento em que os seguidores simplesmente vão e matam para que a transferência ocorra para outro corpo. Durante mil anos, esse padrão se manteve, e o último da linhagem, após a mãe de Itadori, foi Geto. A progenitora de Itadori é Kenjaku. Diga isso devagar e sinta o pesadelo da frase.

Ele estava ciente de suas ações. Ele conduziu testes com seu próprio sangue e com todas aquelas linhagens, e tinha ciência de que o sangue de Itadori era o mesmo de Sukuna e do irmão de Sukuna. O pai de Yuji era um descendente do irmão de Sukuna — por essa razão, Sukuna é, de certa forma, um tio ancestral de Yuji. Em meio a todas essas loucuras presentes no mangá, nasceu Yuji: resultado de um experimento, uma combinação, uma engenharia espiritual.

Veja esta crítica interessante. Akutami critica a ciência sem limites, que entrelaça diversas coisas dentro dos indivíduos. Critica a macumba que faz implantações em seres vivos, aquele ritual insano. Ela critica a sexualidade desenfreada, pois a forma como Yuji idealiza o ato de gerar vida é uma completa perversão. Três elementos, que representam as facetas desordenadas da nossa sociedade: sexualidade, ocultismo e ciência. Sem rodeios: ao investigar, você perceberá que Kenjaku e toda essa trama têm uma semelhança notável com O Bebê de Rosemary. É uma coisa realmente louca nesse grau. É como se Rosemary tivesse diversos filhos simultaneamente — os fetos —, e alguns desses fetos fossem muito antigos, resultantes da mulher de Kenjaku, quando ele ainda era um homem vivo e humano, momento em que realizou experiências estranhas com ela para gerar esses fetos.

É aqui que surge o aspecto mais complicado de aceitar, e eu também vou lidar com isso ao lado de vocês. Para obter o poder que precisa, Itadori deve consumir os fetos. Fetos que foram abortados, aqueles associados à morte, e os fetos que carregam uma maldição. Há alguma relação com o espiritual? Sim e não. Começando pelo pecado: está evidente que Yuji Itadori é um transgressor. Ele comete um ato que é indiscutivelmente terrível. Contudo, ele realiza essa ação para proteger todo o mundo, uma vez que, do outro lado, encontra-se Sukuna, que é o demônio.

Agora ele está utilizando poderes do demônio? De jeito nenhum. É crucial que a interpretação seja precisa, pois é ela quem determina se o personagem é considerado um santo ou um herege. Esses fetos são parte dele. São fragmentos de sua alma, ali separados. É como se todos os fetos fossem um único ser — e o próprio Choso fala isso várias vezes: eles experimentam as emoções um do outro, compartilham visões e suas almas estão interligadas. Quando Yuji consome aquilo, ele não está adquirindo o poder de outra pessoa. Ele está se recuperando. Está reunindo as partes de si que um homem lançou pelo mundo como se fossem detritos.

É por essa razão que aquilo é simultaneamente uma sujeira e uma renovação. É considerado pecado no ato, mas é uma reintegração na essência. Akutami não dissipa essa tensão com uma frase de efeito. Ele te incomoda, e isso é bom.

Vamos nos dirigir a Junpei, pois é lá que a obra atinge seu primeiro verdadeiro momento teológico.

A primeira temporada do anime é um tanto superficial, distorce bastante o mangá e tem mais o objetivo de gerar um pouco de empatia do que realmente transmitir uma mensagem. Apenas se destaca de fato no arco de Junpei. Ali é o lugar onde você realmente compreende o que significa o universo do jujutsu. Ali surge o empreendimento mais brutal, repleto de um simbolismo intenso que te impacta de forma avassaladora — quando você descobre que a mãe de Junpei foi assassinada por uma maldição, a qual foi manipulada por Mahito. Junpei pensa que foi um bully na escola. De maneira alguma. Era o demônio que ele se referia como amigo, e o demônio permitiu que ele mantivesse essa falsa crença, pois o ódio direcionado de forma inadequada é o combustível favorito do inferno.

Junpei libera seu poder e invade a escola com sua criatura. Quando Itadori chega, a mentalidade de Junpei já foi dominada pelo niilismo. Absolutamente niilista. E ele está manipulando um shikigami — uma água-viva, um servo espiritual vinculado a ele pelo sacrifício de sua própria dor. Observe a inversão: a mesma espécie de ser que Megumi invoca para deter o mal, Junpei convoca impulsionado pelo ódio. Não é o servo que se transforma; é a alma daquele que invoca. Itadori tenta persuadir Junpei, e por um instante, parece que ele consegue. Contudo, já é tarde demais. Ele já fez muitas alianças com o diabo.

Porque Mahito havia se tornado um amigo supostamente leal, mas não era. Itadori — o protagonista desta narrativa — encara Mahito e imediatamente percebe: isso é um demônio. Não é necessário refletir muito sobre isso. Ele observa e compreende. Além disso, o design de Mahito se destaca como um dos elementos mais impressionantes de todo o mangá: Mahito é uma figura composta por fragmentos de outros corpos. Ele é uma criação monstruosa. Ele é uma criatura completamente mutilada e deformada, um ser humano deformado que a própria humanidade originou. Mahito é fruto do ódio que sentimos entre nós — é a nossa misantropia personificada.

E o que Mahito realiza? Ele manuseia, ele se deteriora. Ele não produz. Ele não gera a vida: ele perverte toda a existência. Isso possui um simbolismo extremamente poderoso, pois é exatamente como se define teologicamente o demônio. O diabo não possui a capacidade de criar. Ele é um parasita do ser. Ele só consegue distorcer o que Deus já criou. Todo o visual de Mahito — as costuras, os retalhos, os corpos revirados — é isso ilustrado.

Itadori alerta: Junpei, não se associe a esse indivíduo, ele não é seu amigo, é um demônio. E, posteriormente, descobre que Junpei já estava monitorando Mahito. Em outras palavras, trata-se de um adepto do demônio. O que o demônio realiza com seus adeptos humanos? Ele os pulveriza e os converte em um demônio semelhante a ele — apenas em uma versão menor, para poder utilizar. O judaísmo se refere a esses indivíduos que foram para o inferno, assim como às almas que os demônios utilizam, como qelipot. Muitas das qelipot são indivíduos falecidos que foram para esse lugar e permanecem lá, padecendo, e isso continuará por um longo período.

Junpei se transforma em uma qelipá. Ele se transforma em demônio, torna-se uma pessoa completamente deformada, converte-se em um animal. Está agindo de forma irracional, atacando Itadori sem motivo algum. E Itadori aceita o golpe como um sacrifício por ele — pois ele próprio falhou. Ele permite que Junpei o golpeie. Junpei já convertido em besta, completamente deformado, humilhado, desprezado, aviltado. E Itadori observa e diz: tudo bem, Junpei, me golpeie, pelo menos. E Junpei se põe a chorar. Ele pragueja e chora ao mesmo tempo.

É um dos trechos mais emocionantes da obra, e ninguém consegue identificar o que ele realmente é. Aquilo é compensação. É um homem lidando com a brutalidade de alguém que ele não conseguiu proteger, como se estivesse quitando uma dívida que não fez. É a lógica do sacrifício vicário surgindo em um mangá de combate, de forma inesperada, sem pregações, sem discursos, sem uma trilha sonora que explique.

Após esse evento, toda a escola entra em luto. A fala que Itadori traz de lá é realmente fascinante, pois ela inverte e, ao mesmo tempo, cumpre o que o avô dele havia dito. O ancião declarou: Itadori, ofereça sua ajuda aos outros. Já que você é extremamente forte e se destaca claramente da maioria, use essa força para apoiar os outros. Não se trata de ajudar a todos, de todas as maneiras, em qualquer momento. É oferecer apoio dentro das suas possibilidades. Isto é, sem dúvida, muito cristão. É a justa medida da caridade, que não é onipotência travestida de benevolência.

Até mesmo Cristo age dessa maneira. No episódio do jovem rico, ele afirma: abandone tudo e venha me seguir. Ele tentou auxiliar o jovem, apresentou-se a ele e revelou-lhe a Verdade em sua forma encarnada — no entanto, o jovem optou por se apegar às coisas materiais e saiu entristecido. Cristo não o puxou. Ofereceu-lhe a oportunidade e aceitou a negativa. Conservem isso também, pois essa mesma cena irá retornar ao final da obra, de forma inversa, e será a mais bela criação de Jujutsu Kaisen.

Agora, é necessário que eu mencione o homem que foi crucificado sem que ninguém se desse conta de que se tratava de uma cruz.

Satoru Gojo é o Salvador daquele universo. É crucial que você tenha essa compreensão, caso contrário, os outros elementos não se encaixarão. Ele serve como uma figura que reflete Cristo dentro daquele contexto — não Cristo em si, mas a imagem de Cristo naquele mangá, naquele anime, naquela estrutura de acontecimentos. Os paralelos não são impostados; são estruturais.

Inicie com a solidão. A existência dele se resume àquela prova dos quarenta dias no deserto, porém, prolongada por várias décadas. Ele nunca pôde ter um relacionamento amoroso por causa disso, já que ninguém conseguia se aproximar do que ele era como criatura. Ele é um ser que transcende tudo que já existiu ou que virá a existir. Era imenso, Gojo. É como se Cristo tentasse se conectar com outra pessoa em igualdade: isso não é possível. Cristo se conecta com todas as pessoas como se fossem filhos. A única pessoa que Ele se refere como mãe é Maria. José aparece, não fala nada e desaparece — nos Evangelhos, não se menciona mais José. Os pais de Satoru Gojo passam pela mesma situação. Eles simplesmente não estão presentes. O que observamos é uma criança que se sente muito sozinha, mas possui um conhecimento impressionante. Assim como o jovem Cristo ensina os mestres da Lei no Templo, o próprio Gojo, ainda criança, já possui um conhecimento extremamente amplo sobre o jujutsu. O mangá é claro sobre isso.

Certamente, ele não é Cristo. Ele é um espelho. É por essa razão que Gojo adota um comportamento brincalhão, faz piadas, se mete em encrencas e, em algumas ocasiões, realiza ações que podem ser consideradas como pecado — não é "meio pecado", é pecado de fato, quando ele fica de brincadeira com certas coisas ou solta um comentário esquisito. Mas é importante perceber que tudo isso se direciona a um objetivo maior: despertar o conhecimento nos alunos dele.

A interação com Megumi serve como evidência. Gojo o repreende e, em essência, o alerta: jovem, o que você está fazendo não é erradicar o mal, você está realizando um sacrifício ilusório. Você não está se colocando à disposição; você está se desfazendo. Isso é Cristo afirmando: sejam astutos como as serpentes e inocentes como as pombas. Trata-se da mesma lição. Gojo previne Megumi sobre a armadilha do falso martírio — aquela tendência inconsciente para o auto-sacrifício disfarçado de bravura. O papel do guerreiro não é partir para a morte de forma apressada, aguardando um desfecho incerto, mas sim viver com bravura e sabedoria para vencer o mal. Só o sacrifício que se ordena à vida e à salvação tem valor; jamais o atalho nascido do desespero ou do desprezo pela própria vida. São esse tipo de coisa, mano. Se você investigar mais a fundo, perceberá que a comparação entre Gojo e Cristo — para ser mais preciso, entre Gojo e Cristo, uma vez que ele é o reflexo e não o original — é tão significativa que, em certo momento, você vai parar e reconhecer: realmente é verdade.

Gojo possui apenas uma pessoa em sua vida, de maneira verdadeiramente humana, e essa pessoa é uma das professoras que atua ao seu lado: Utahime Iori. Eu me divirto ao escrever isso, pois é realmente engraçado — ela aparenta nutrir um ódio por ele, enquanto ele constantemente faz piadas com ela. É evidente que Gojo, devido a essas questões, é um ser humano. Ele não representa Cristo nesse contexto. Ele se comporta como uma criança que, por gostar de alguém, provoca e brinca com essa pessoa. Há indícios de que ele tem uma certa afinidade por aquela mulher. Mas ele não deseja isso. É como se ele já tivesse a convicção de que ela não pode compreendê-lo, pois ele pertence a outra espécie, de uma dimensão diferente, e, portanto, um relacionamento entre eles é impossível. E ainda por cima: minha existência é um verdadeiro desastre, pois estou constantemente batalhando contra o mal. Eu sou a única entidade cósmica que está ao lado da humanidade. Não há como.

É realmente agradável observar os dois. Ela afirma que não suporta Satoru, mas, no fundo, nutre uma grande admiração por ele. Sempre que ele faz algo sutil, ela fica sem jeito. É possível perceber a atração. No entanto, ele não deseja se expressar nem estabelecer um relacionamento. Você consegue sentir essa energia vibrante e ao mesmo tempo contida que existe nele. Porque ele não se considera digno, frequentemente em razão da vida difícil que levou, privando-se de tudo. Além disso, a vida dele é intricada e desafiadora de maneira bem concreta: ele precisa combater demônios reais constantemente. Ele não deseja que ela enfrente isso. Todo homem já passou por uma experiência semelhante em sua vida — a renúncia que permanece invisível, realizada para evitar que outra pessoa carregue um fardo que lhe pertence.

Você observa essa mesma situação com nitidez sempre que Gojo defende os estudantes. É a segurança que ele proporciona às crianças, que reflete exatamente o que Cristo ensina sobre elas. Permitai que os pequenos se aproximem de mim. Gojo é o verdadeiro papai da turma. Ele educa aquelas crianças da mesma forma que Xavier cuida dos mutantes — e os mutantes mantêm com Xavier uma relação que é quase paternal. O mesmo se aplica a Satoru Gojo, que age como um tio divertido, sempre fazendo piadas e brincando. Ele diz: vai lá, garoto, se machuca, que depois eu cuido de você.

No caso da Megumi, a situação é distinta. Com Megumi, a dinâmica não é de professor para aluno, como acontece com Itadori e Kugisaki. Com Megumi, a relação é de pai e filho mesmo.

Esta é a história. Megumi era o filho de Toji, um mercenário insano, que não possuía energia amaldiçoada, mas que tinha uma força física e uma resistência enormes — a restrição celestial levada ao seu limite. Gojo retira Megumi de lá para que ele não caia nas garras da família de Toji. A família Zenin representa uma crítica direta à brutalidade da humanidade organizada, uma vez que quase escraviza todos os seus integrantes. Os líderes submetem os integrantes à servidão. Se você não tiver poder, meu amigo, a situação complica: você se torna um servo deles. Aconteceu com Maki e sua irmã.

Gojo resgatou o garoto. Na prática, Megumi se torna o filho adotivo de Gojo. Gojo faz de tudo pelo menino. Gojo gera o garoto naquele lugar. Ele é o pai dele — pai adotivo, mas é pai. Pois, desde que Toji faleceu, ele nunca demonstrou interesse pelas crianças. A menina que cresceu ao lado de Tsumiki era fruto de um relacionamento anterior da esposa de Toji, e permaneceu ali sem uma razão clara. Gojo não apenas adotou Megumi: ele assumiu a responsabilidade por ambos. Em seguida, a irmã dele enfrentou um problema — que mais tarde se revela ser o próprio Kenjaku planejando tudo desde o começo, para que uma feiticeira milenar pudesse utilizar o corpo dela.

Durante todo esse tempo, eles residem com Gojo, que os ensina e faz o possível para ajudá-los. Desde pequeno, ele transforma Megumi em um dos feiticeiros de elite. Isso é extremamente interessante, pois é raramente mencionado no anime. A questão de Gojo ser, na verdade, o pai adotivo de Megumi quase não é explorada. Gojo tornou-se pai em uma idade bastante jovem, pois oficialmente adotou o menino como aluno, mas de fato, como seu filho: ele provia o sustento do garoto, zelosamente cuidava dele e cumpria todas as suas responsabilidades. No contexto japonês, isso se assemelha mais à dinâmica entre mestre e discípulo, embora não seja exatamente assim, pois Gojo tratava o garoto como se fosse seu filho. Você pode notar isso nas pequenas e divertidas brincadeiras de pai que ele compartilha com o menino. É uma relação de pai para filho, e é isso. No anime, resta apenas uma cena — a da reclamação.

Certamente: é por essa razão que o selamento de Gojo afeta Megumi de maneira tão profunda. Porque quem desapareceu foi o pai dele. Ao abrir a carta que Gojo deixou, muito tempo depois, Megumi sorri e chora ao mesmo tempo, percebendo a contradição de tudo aquilo. Porque Toji era um vagabundo, e ele foi quem tirou a vida do verdadeiro pai de Megumi — não no sentido mais estrito, mas no sentido de que a própria existência de Toji foi a causa do ferimento —, e mesmo assim Megumi ri e afirma: mas você foi meu pai. É algo realmente complicado, e é desolador.

Ao forjar o pensamento do filho adotivo, Gojo instrui que tanto o domínio sobre os espíritos quanto a invocação dos servos angélicos demandam a firmeza da razão e o controle sobre as virtudes. A verdadeira força reside em não se render à morte na primeira dificuldade, mas em nutrir a esperança interna e a maturidade de quem reconhece seu chamado para manter a ordem divina na terra. É uma educação paternal, não de técnico.

A relação de Itadori com Gojo é completamente diferente. É a relação de Pedro com Cristo. Pois é Gojo quem apresenta a Yuji as maravilhas do universo jujutsu — maravilhas trágicas, mas ainda assim maravilhas, no sentido de estarem além da realidade, totalmente metafísicas. No momento em que Itadori compreende tudo, durante o confronto de Gojo com a maldição de cabeça de vulcão chamada Jogo, quando Gojo revela seu microcosmo ao jovem, o que Yuji observa não se trata de um ataque. É uma descoberta.

Além disso, mencionando Toji, é essencial concluir a trajetória de Maki, pois ela é uma das mais bem elaboradas do mangá. A família de Maki a rejeitou por completo, e ninguém tinha conhecimento de sua restrição celestial. Mas ela não se assemelha a Toji: Toji era capaz de perceber o mundo metafísico. Maki não consegue ver, ela precisa de lentes corretivas. Eventualmente, chega um momento em que ela não necessita de nada — pois quando sua irmã falece, as almas das duas, que estão interligadas, se unificam em uma só. Elas agem como se fossem uma única entidade; quando uma delas morre, a outra absorve todo o poder. A seleção recaiu sobre Maki.

Quando o pai delas é deixado para morrer em um depósito repleto de maldições, a irmã sacrifica sua própria vida por ele. Ao agir dessa maneira, você terá a oportunidade de salvar o maior número possível de pessoas e, ao mesmo tempo, eliminar essa família repugnante que nos escravizou ao longo de nossas vidas. E Maki vai e aniquila toda a família Zenin.

É importante que você leia aquilo com atenção, pois não se trata de algo imoral. Isso representa a libertação de uma escravidão egípcia. É uma Sodoma em processo de desintegração. Pois o que se passa na família Zenin é profundamente antiético, e não só antiético: eles são cabeçudos, são teimosos, são completamente incapazes de ceder — tal como o Faraó era para com os judeus. A família Zenin personifica essa combinação de diversos males sociais. E Maki destrói tudo, especialmente o pai delas, que era o principal escravizador. Até mesmo a mãe, que sempre foi uma pessoa fraca e passiva, que nunca tomou uma atitude e que era tão submissa quanto suas filhas, mas que ainda assim contribuía para a escravidão das próprias filhas — até ela desmorona. Contribuir para a escravidão de seus próprios filhos é uma forma de escravidão ainda mais terrível do que aquela imposta por quem aplica o chicote, pois representa a traição do único laço que deveria ser incondicional.

Após a restrição celestial estar completamente imposta, Maki consegue ver. Ela é uma admiradora incondicional de Toji, e a razão é bastante válida: Toji foi a única pessoa que reconheceu o quão problemática e disfuncional é a família Zenin. Ele era visto como insignificante porque não emitia nenhum tipo de poder — e possuía uma força e resistência superiores até mesmo às de Satoru Gojo. Não é por acaso que Toji só encontrou a morte nas mãos de Gojo porque, naquele momento preciso, Gojo teve seu despertar. Aí surge a questão que distingue aqueles que compreenderam Jujutsu Kaisen de quem não captou nada.

Mas antes de Shibuya, é fundamental mencionar Kento Nanami, pois sua morte serve como o ponto central emocional de todo o arco, e sua vida é uma reflexão sobre o significado da existência.

Itadori precisava de uma morte significativa. Era necessário que ele perdesse alguém que se relacionou com ele e que o apoiou nos primórdios de sua jornada no jujutsu — seu primeiro mentor após Gojo. Nanami instrui Yuji sobre o que é certo e errado. Existem conversas muito engraçadas entre os dois, onde Nanami tenta descrever o que significa ser adulto, como um adulto raciocina, como você deve ser equilibrado e como é importante ter uma moral interna. São necessidades elementares que um pai proporcionaria. É nesse ponto que ressurge a conexão entre professor e pai, que permeia toda a obra: eles são educadores, mas também zelam por aquelas crianças, pois elas não têm um lugar para onde ir. Elas residem naquele local. Portanto, o professor é quase como um pai, pois precisa se preocupar, cuidar e realizar as tarefas essenciais.

A vida de Nanami é extremamente fascinante. Ele foi ensinado na escola de jujutsu, recebeu uma formação completa e adequada. Foi então que ele decidiu que queria levar uma vida comum, pois estava farto daquela vida insana e, além disso, seu amigo — Haibara — havia falecido de maneira terrível, devido a uma maldição. Ele desistiu de ter esperanças. Disse: estou farto dessa situação; isso só resultará em uma coisa para mim, e essa coisa é uma morte terrível.

Então ele conseguiu um trabalho mediano em uma empresa. Recebia um salário bastante elevado. Ela percebia que a vida dele era totalmente sem propósito. Certamente: ele já não se esforçava mais para alcançar alturas. Nanami começa a encarar sua vida como tola, sem charme e sem propósito. Em um diálogo extremamente engraçado, ele expressa uma ideia que só é plenamente compreendida quando se conhece a história do personagem: ele afirma que a vida no mundo dos negócios é algo estúpido, assim como ser um feiticeiro de jujutsu também é uma existência igualmente tola, e ele revela que prefere a vida que mais se adequa a ele. Contudo, essa não é a mensagem que ele transmite em seu interior. Em seu íntimo, ele expressa: ao menos neste lugar, minha vida realmente importa, e aqui eu consigo me empenhar em busca de grandes objetivos. Isso representa uma grande nobreza. Uma nobreza imensa, que só surge quando você examina a vida inteira do personagem.

Oi Shibuya. 31 de outubro de 2018, a data que o mangá registra com a exatidão de um boletim de ocorrência.

Na minha opinião, este é o arco mais belo de Jujutsu Kaisen. É impressionante, realmente não há o que dizer. Ele inicia com o colapso total do mundo: Jogo, essa maldição com a cabeça de vulcão, estoura metade do corpo de Nanami, incendeia Maki e causa a morte do avô dela. Toji volta à vida quando uma mulher idosa faz seu próprio neto invocar seu espírito, e então Toji começa a matar indiscriminadamente — até se deparar com Megumi. Assim que ele percebe que se trata de Megumi, seu próprio filho, ele decide tirar a própria vida para evitar causar dor ao garoto. Um homem que nunca aprendeu a ser pai descobre a única maneira de exercer a paternidade que lhe resta: morrer novamente, intencionalmente, para evitar causar dano.

Nesse intervalo, Sukuna desperta. Itadori está à beira da morte, perfurado e cortado por Choso — que havia levado uma surra dele acreditando que Itadori era apenas um feiticeiro qualquer que havia assassinado seus irmãos junto com Kugisaki. No entanto, não era. Itadori é seu irmão. E Choso observa e compreende: aquele indivíduo desprezível conhecido como Kenjaku, que, por sinal, é o pai deles, uma vez que, na época em que gerou esses filhos, Kenjaku era do sexo masculino — ele ocupava o papel de pai, e não de mãe, pelo menos não no sentido em que exerceu essa função em relação a Itadori posteriormente. Kenjaku era diferente naquela época.

Choso se enche de ódio ao descobrir que seu pai fez com que seus irmãos lutassem entre si e que Itadori teve que matar seus próprios irmãos para proteger outras pessoas. E ele observa aquilo e percebe que o pai deles é o maligno. Ele reconhece que aquele lugar representa o mal. Ele se junta ao grupo dos que são considerados bons. A partir daí, você nota que ele tenta incessantemente afirmar que é irmão de sangue de Yuji, e o que mais entristece em Choso é que essa irmandade só é completamente reconhecida no momento de sua morte. Yuji chorou naquele momento porque entendeu que havia perdido seu verdadeiro irmão, que morreu para protegê-lo. O reconhecimento vem tardio, como quase sempre acontece.

Mais para frente, durante a guerra já em curso, Choso se unirá a Yuki Tsukumo para enfrentar Kenjaku — Yuki, a loira de poder quase ilimitado, uma das mais poderosas de todo o universo jujutsu. Between the two, there exists a quasi-romance that the work neither affirms nor denies. Era a existência de duas pessoas que poderiam ter seguido um caminho positivo, constituindo uma família e tendo filhos. Escolheram se oferecer em sacrifício pelo bem. Yuki perece naquele combate, devastando a si mesma. Choso fica vivo apenas para ser morto posteriormente por Yuji. E é exatamente isso que aquela batalha ilustra, mesmo sem precisar afirmar.

Retornando a Shibuya: as duas jovens, filhas adotivas de Geto, congestionam Itadori com dedos de Sukuna para induzir seu despertar. O motivo pelo qual Sukuna não consegue despertar quando deseja é que Itadori possui seu sangue. É por isso que Yuji consegue controlar. Quando Sukuna finalmente aparece, ele provoca destruição e elimina inúmeras pessoas.

A seguir, ocorre o evento mais devastador do arco. Itadori desperta. Ele recupera a consciência. A primeira ideia que lhe ocorre é: eu causei a morte de milhões aqui. Ele desce os degraus, observa a cratera, fixa o olhar no que "ele" fez, e é tomado por um turbilhão de pensamentos caóticos. Ele começa a gritar, a se assustar, a se apavorar de choro, até que a própria noção de luto surge dentro dele. Ele se responsabiliza pelo erro causado por Sukuna.

É precisamente isso que o demônio deseja. Reservem isso, pois eu irei aprofundar esse assunto mais adiante com toda a seriedade teológica: a acusação é a segunda arma do inferno, e, em algumas ocasiões, pode ser mais eficaz do que a própria tentação.

Kugisaki veio antes de Mahito. Nobara estava em busca de Mahito quando ele surgiu e tocou seu rosto. Ela está prestes a morrer naquele lugar — pelo menos, essa é a crença geral. É um momento de imenso afeto: ela expressa sua gratidão, sinceramente, pelo tempo que viveu. Um dos raros períodos de felicidade constante em sua vida, que compartilhou com Itadori, Megumi e Satoru. A morte de Nobara é extremamente comovente precisamente porque não é uma morte heroica, mas sim uma expressão de gratidão.

Você pode observar a expressão de surpresa no rosto de Itadori. O homem está com trauma. É um menino. Está testemunhando toda aquela calamidade se desenrolar. Seu rosto altera sua expressão constantemente — ele está sem saber como reagir, tentando compreender e processar a situação, mas não consegue. É possível perceber em seu rosto: ele se esforça, se esforça, se esforça, e acaba se destruindo.

Ele vai para o metrô. Embaixo, está Nanami. Nanami estava completamente queimado, seu corpo devastado pelo que Jogo havia feito. Nesse momento, Nanami começa a imaginar-se no paraíso que ele descreve — uma ilusão de tranquilidade, a praia, o repouso que ele jamais experimentou. É realmente lamentável esse desfecho. Em seguida, Mahito toca o corpo de Nanami, fazendo-o explodir. As pernas estão excessivas. As entranhas estão espalhadas pelo chão. O pobre Itadori entra em desespero, se deteriorando ainda mais, e acaba caindo.

Mahito estava arrasando Nanami com o objetivo de traumatizar Itadori. Pois esse mal deseja despertar o mal que habita em Itadori. Todas as pessoas, incluindo aquelas em Shibuya, estão cientes de que Yuji abriga Sukuna em seu interior — e é por isso que todos se referem a ele como "o moleque do Sukuna". Eles estão cientes de que Sukuna pode despertar a qualquer momento e eliminar todos. E eles têm a intenção de despertar Sukuna. O mais fascinante é ver o inferno tentando despertar outro inferno. Mahito tentou e falhou, e Sukuna respondeu à altura, pois aqueles que desafiam Sukuna se arrependem amargamente.

Assim, Mahito inicia uma série de golpes em Itadori, até que chega um ponto em que Itadori simplesmente se entrega. Ele cai no chão e chega a implorar "me mata logo". Creio que ele chega a mencionar isso.

É então que aparece Aoi Todo, um amigo que ele conheceu durante o teste de admissão. É Todo menciona aquela famosa frase que anima qualquer pessoa. Observe o que ela representa, pois é algo que possui uma essência profundamente cristã. No paganismo da Antiguidade, tudo estava destinado; os deuses controlavam tudo; o karma, a moira, a necessidade. Tudo diz não a isso. Negar isso é precisamente o que um cristão faria. Ele afirma que nós, praticantes do jujutsu, não devemos nos culpar nem nos condenar pela derrota daqueles que tentaram; pois estamos isentos do karma do mundo, somos genuinamente livres — e somos realmente livres para proteger os outros.

Eu vejo isso como algo muito similar ao que Samwise Gamgee diz a Frodo. É o instante Samwise de Itadori. Todos o encaram e o instruem a se levantar. E Itadori questiona o motivo de estar soterrado nas sombras. Tudo nos indica que devemos nos esforçar e batalhar por aquilo que é positivo. É de admirar. É realmente impressionante. Nesse momento, Itadori encontra esperança e decide lutar.

A batalha contra Mahito é a mais impressionante que já testemunhei em animes. Porque Mahito é a entidade que controla e deforma tudo, e ele vai deformando tudo — os corpos dos mortos, os corpos dos vivos — para usar contra aqueles guerreiros. Há um elemento na composição que é carregado de simbolismo: em uma cena, Itadori e Todo estão posicionados de um lado, enquanto Mahito se encontra do outro, e entre eles há um barranco quebrado. Não há como retornar. A melhor abordagem é encarar a situação de forma direta. Agora é seguir em frente, e agora é hora de lutar.

Tudo perde o braço. E o leitor casual que nunca se aprofundou em Jujutsu acredita que tudo terminou, que Todo foi morto. Não os mataram. Tudo está vivo.

Assim se inicia a mais grandiosa batalha de todas, que não se caracteriza por uma simples troca de socos: é o demônio encarando o apóstolo de Deus, aquele que está profundamente imbuído da presença divina. Então, o que Mahito faz? Ele dá uma olhada e então corre rapidamente como um pequeno animal.

Isso é realmente fascinante, e uma das características mais admiráveis do autor é que ele aborda o fim dos demônios como sempre algo que se mostra patético. Uma criatura que se proclamava extremamente poderosa se mostra repugnante e patética. Isso é verdadeiramente belo, pois reflete a verdadeira natureza dos demônios. O demônio se torna imponente enquanto você o teme. Diante de um homem em situação de bênção, ele se retrai. A totalidade da tradição ascética expressa essa ideia, e um mangá japonês a ilustrou.

No entanto, Itadori tem consciência de que ele é uma parte fundamental de tudo isso. Que a sua existência é o que torna aquelas coisas possíveis. Essa consciência se tornará um fardo cada vez mais pesado até o final.

Após a vitória de Itadori sobre Mahito, Kenjaku aparece e consome não apenas Mahito, mas também todas as maldições poderosas presentes na área, incluindo aquelas que ele mantinha dentro de si — ele as extrai e as devora. Mas para quê? Para obter poder suficiente e fissurar a divisão entre o plano metafísico e o físico. Ali ocorre uma divisão entre os mundos. As maldições começam a se manifestar no mundo real, a tal ponto que pessoas comuns conseguem vê-las. Um casamento de dois planos que nunca deveria existir. Trata-se de um apocalipse, em seu significado literal: uma revelação. O véu se levantou, e aquilo que estava do outro lado agora caminha pelas ruas.

É neste ponto que preciso mencionar Mahoraga, pois Mahoraga representa o elemento teológico mais denso de todo o mangá.

Mahoraga é um anjo da morte. Ele é um anjo da ruína. Seu nome não é uma criação de mangá: no budismo, os mahoraga constituem uma das oito legiões de divindades celestiais que protegem o Dharma, sendo descritos como seres semelhantes a grandes serpentes. O nome de General Divino que ela recebe na invocação se refere aos doze generais celestiais que protegem o Buda, e a maneira como Megumi o invoca recita os Dez Tesouros Sagrados da antiga mitologia xintoísta, conforme documentado no Kojiki. Ou seja, para chamar aquilo, o menino tem que declamar as relíquias fundadoras do Japão. É uma reza, não um berro de ataque. Trata-se do rito mais elevado praticado pelos onmyōji, sendo também o mais arriscado, uma vez que o espírito invocado é superior a eles.

A imagem realmente corrobora: trata-se de uma entidade que combina traços angelicais com características de um guerreiro, sua cabeça adornada com asas, dotada da habilidade de voar, resultando nessa fusão entre ave e ser humano. Em sua mente, a roda está sempre em movimento — a roda do Dharma, a roda da dor, o ciclo do sofrimento e da reencarnação. Não é por acaso que ela é considerada uma arma. Você lança isso sobre o outro e o divide ao meio.

Você sabe a quem Mahoraga me recorda? Moisés frente ao Faraó. Deus ordena que os hebreus esfreguem sangue de cordeiro na verga das portas e avisa: aqueles que não fizerem isso, morrerão. Pois o que se aproximar aqui será capaz de aniquilar tudo. O que acontece é que o anjo passa. É como se o anjo estivesse descendo e destruindo a todos — assim como Mahoraga faz.

É Mahoraga, que Sukuna controla, e que acaba com Gojo. Em outras palavras, é o sofrimento humano que leva à morte do Messias. É a roda. Trata-se do ciclo. Quando você aborda o tema da reencarnação — dor, renascimento, dor, renascimento, até alcançar a ascensão — isso se torna uma falta de esperança. Gandhi, que estava muito familiarizado com o tema, afirmava que o fardo da estrutura reencarnatória é pesado demais para que um ser humano o suporte. É nesse momento que ocorre aquilo: o ser humano deixa de ter esperança.

Isso é o que importa. A carência de esperança extingue a própria esperança. De manera literal. Porque você está se contradizendo. A concepção da ausência de esperança, desse ciclo interminável, aniquila a noção do Messias, elimina a ideia de um Redentor e destrói a crença de que a história está se direcionando a um propósito. É a batalha entre o budismo e o cristianismo representada em uma página de mangá: de um lado, a roda, e do outro, a cruz; de um lado, o retorno eterno, e de outro, o Fim que salva.

Mais uma vez: Akutami não é anticristão. Pelo contrário. O que ele está afirmando é que, na ausência de esperança, fé e qualquer outra coisa, você não possui nada. Por que você considera que está escrito na porta do Inferno, na Divina Comédia: "Deixai toda esperança, vós que entrais"? Pois a esperança é o germinador de todas as virtudes. Sem esperança, nenhuma virtude pode surgir. É tão simples quanto isso. Não se trata de sentimentalismo; é uma questão de metafísica ética. A esperança é o que sustenta a determinação voltada para um futuro positivo que é desafiador, mas viável. Remova isso, e a coragem se transforma em temor, a caridade torna-se sentimentalismo, e a fé passa a ser apenas uma opinião.

E o mais sutil é que o escritor realiza isso com o leitor igualmente. Ele te confronta com desespero, tira a vida de pessoas que você ama, e em determinado momento, você acaba perdendo a esperança. Você diz: de jeito nenhum, Jujutsu Kaisen terminará em tragédia, caos e ruína. Você começa a observar isso e pensa: caramba, que pena. Mas não é o caso. Não irá. Sukuna's demise is one of the most intriguing plot points ever written in a shōnen — but we haven't reached that point yet.

Após Shibuya, Itadori e seus companheiros feiticeiros lutam pela sobrevivência em uma cidade devastada. Aquela cidade viveu um apocalipse místico, repleta de maldições e feiticeiros vagantes. E foi justamente essa interrupção que possibilitou a Kenjaku dar início ao jogo da morte: o feiticeiro que conseguir eliminar mais pessoas, especialmente outros feiticeiros, obtém mais poder. Quem ganha o jogo se torna de fato o rei do mundo. E Sukuna deseja conquistar isso.

Começa, então: bruxo contra bruxo, bruxo contra abandonado, todos contra todos. A escola de jujutsu está se esforçando para unir seus estudantes, garantindo que todos fiquem juntos e se apoiem mutuamente. É a Era do Apocalipse dos X-Men, mas com nomes do Japão. Contudo, o que se revela no tabuleiro é ainda mais terrível: feiticeiros extremamente antigos que tomaram posse dos corpos de indivíduos e se reencarnaram na matéria. Aqueles que são os mais influentes, indivíduos que viveram mil anos atrás e que agora utilizam as pessoas de hoje como uma espécie de vestimenta.

É nesse arco que Hakari faz sua aparição, sendo uma entidade que possui uma energia amaldiçoada infinita — como se tivesse uma conexão quase direta com Deus, embora, é claro, não tenha essa relação e não deva ser interpretado de forma séria, pois ele é mais uma figura cômica do que teológica dentro da narrativa. Entretanto, a concepção da ideia já existe: o indivíduo que destrói a casa de apostas do universo e obtém uma fonte inesgotável de energia. É curioso porque o autor reconhece que o humor não se conquista em uma roleta.

É neste ponto que sinto a necessidade de destacar a crítica mais incisiva e, ao mesmo tempo, mais incômoda que Akutami tece — a crítica direcionada ao próprio Japão. No mangá, há um feiticeiro de aparência infantil chamado Ui Ui, cuja relação com sua irmã mais velha, Mei Mei, que é uma das feiticeiras mais experientes do sistema, é claramente peculiar, excessivamente dependente e, nas entrelinhas, incestuosa. Isso tem um custo. É uma crítica clara a um aspecto da cultura japonesa: na mitologia xintoísta, os imperadores são praticamente filhos de deuses e tinham filhos com suas próprias irmãs. O mangá continua, pois nas últimas páginas fica implícito que aquele feiticeiro possui filhos que se assemelham muito a ele, e a única pessoa com quem ele tinha uma relação estranha era sua irmã. O autor tinha o hábito de condenar as práticas imorais presentes no ocultismo, e o fez.

No Japão, o ocultismo é extremamente popular. É o local que mais dá origem a seitas estranhas, bizarras, ocultistas e quase satanistas no mundo contemporâneo. E todo Jujutsu Kaisen serve como uma crítica a isso. O culto que Geto estabelece — e que Kenjaku posteriormente assume para si — é peculiar, um tanto excêntrico e dedicado à adoração do próprio ego. Um empreendimento que possui uma aura um tanto quanto Crowleyana, e, de fato, satânica, sendo que o mangá deixa isso bem mais evidente do que o anime. Em contrapartida, o que seria a escola de Jujutsu? Poxa, meu irmão: é um mosteiro. Agora você consegue perceber a diferença na expressão facial. De um lado, o culto ao ego; do outro, a sociedade pautada por regras.

E enquanto os pequenos se exterminam no jogo, os mais velhos fazem acordos. Porque os anciãos do mundo jujutsu — as cinco famílias, a tirania de meia dúzia de velhos — estavam informando tudo ao governo. O governo inicia sua oposição aos feiticeiros. Há uma cena de perseguição onde os alunos estão fugindo de agentes especiais dos Estados Unidos, e esses agentes comentam, com a mesma naturalidade de quem fala sobre questões logísticas, que um feiticeiro pode suportar um tiro de calibre doze no peito sem nenhum problema. Em outras palavras: estão planejando a forma de eliminar feiticeiros. O resultado que se aproxima é absolutamente aterrador: se Sukuna conseguir se libertar completamente, será como detonar uma bomba atômica, eliminando de fato todos presentes naquele local. Sukuna seria o único que permaneceria vivo. Em outras palavras, elimina-se precisamente aqueles que poderiam defender o mundo, enquanto se preserva o mal.

Quem é o responsável por tudo isso? Dois idosos miseráveis que controlam o universo do jujutsu. E Gojo, ao ser finalmente liberado do selo e encarar a cena diante de seus olhos, compreende que não há mais como reverter a situação. Ele olha e diz: eu não quero que os meus alunos saibam disso, eu não quero que os meus alunos vejam o que eu vou fazer nessa sala, porque nem eu concordo muito com isso. Eu não quero tirar a vida dessas pessoas. Mas eles são completamente corruptos, e estão querendo matar todos nós, porque a gente foi contra as ideias totalitárias deles. E ele vai lá e acaba com os velhos. E se torna a mente principal do mundo jujutsu.

Ali você vê um pedaço do Apocalipse. Quando todos os reis se prostituíram e beberam da taça da prostituta que é Babilônia, embriagada com o sangue dos santos — e depois disso vem Cristo, e destrói, e manda esse povo todo para o inferno. É o que Satoru Gojo fez ali. Não se trata de uma justiça administrativa; é um tribunal.

A seguir, surge a batalha.

Muitas pessoas observam o desfecho e afirmam: ah, o Sukuna conseguiu derrotar até o vazio roxo do Satoru Gojo, isso é um furo de roteiro. Amiga, você precisa compreender que isso é apenas um símbolo. Se Sukuna fosse morto naquele momento, haveria uma guerra interminável entre a escola e o culto de Kenjaku. Seria como um X-Men que nunca acaba, com uma nova temporada a cada ano. Para que o autor pudesse finalizar aquilo, era necessário que ele extinguísse aquele poder.

E de que maneira ele conseguiu isso? Sukuna possui um poder de anulação — e é crucial compreender que isso não é algo físico, mas sim metafísico. Quando Sukuna cancela uma habilidade desse nível, ele a obliterar completamente, pois se trata de algo metafísico, e não físico. Você precisa entender isso. Aquilo é encantamento. Não se pode tocar. Causa mudanças no corpo, mas não é material. O vazio roxo não se trata de um buraco negro; é algo muito mais místico. É pura magia.

Essa é a besteira que os fãs fazem: querem que o vazio roxo tivesse sugado Sukuna e o mantido lá pela eternidade, como se fosse física de colisor. Não, meu irmão. Não é físico. É filosófico, é metafísico. É a mesma coisa que um sujeito perguntar quantos anjos cabem na ponta de um alfinete e achar que está fazendo uma pergunta inteligente. Não cabe nenhum e cabem todos, porque anjo não ocupa lugar — anjo está onde opera. Você não leu Tomás de Aquino, esse é o problema. Vá ler o tratado sobre os anjos e depois volte para discutir vazio roxo comigo.

Porque é aquela linha ali mesmo, a das essências. Gojo, utilizando o poder concedido pelo jujutsu — que representa tanto a energia quanto o deus desse universo, a força e o próprio jujutsu — é capaz de extrair a propriedade metafísica das coisas e, em seguida, reimplantá-la. Ele não tem a aparência física disso. A origem é de natureza metafísica. É fundamental ter essa compreensão, caso contrário, você não conseguirá entender Jujutsu Kaisen. Embora os fãs façam cálculos simples, aquilo é uma narrativa sobre um grupo de feiticeiros místicos, uma coletividade de indivíduos que realizam milagres. Há até um termo técnico para isso; no entanto, vamos nos referir a isso como santo. É um grupo de santos lutando contra demônios. De que maneira você pretende representar isso fisicamente, de forma animal?

Não estou me referindo àquele professor que utiliza Jujutsu Kaisen em uma prova para motivar os alunos. Isso é excelente, e eu realmente incentivo isso. Refiro-me aos fãs que, em vez de explorarem o aspecto místico e simbólico, concentram-se no lado físico e acreditam que realizaram uma análise. Você está desconsiderando todo o aspecto espiritual do jujutsu. Está lendo um evangelho invertido como se fosse um guia de engenharia.

O que Sukuna realiza é cancelar algo que não deveria ser passível de anulação. A questão é que ele estabeleceu diversos acordos vinculativos com várias fontes de energia, que têm sido sustentados por milênios. Houve um momento em que ele parecia ter uma energia quase ilimitada, recuperando-se automaticamente de qualquer coisa que acontecesse. Então, ele se revela como o mal que não pode ser vencido. Veja como isso se transforma. A maioria dos feiticeiros está morta. Praticamente todos os professores foram assassinados. Os raríssimos alunos que ainda estão presentes começam a se perguntar: cara, o que fazemos agora? Já não há mais nada que possa ser feito. O fim do mundo está próximo.

Oi Yuta. Yuta, que é um parente remoto do clã Gojo, possui em seu sangue duas linhagens que se detestam profundamente. E Yuta possui uma influência — e eu me refiro a influência no aspecto ético, e não no aspecto técnico. Ele diz: pessoal, agora teremos que nos dirigir à parte negativa. E sugere a utilização do corpo de Satoru.

Aqui surge a questão simbólica central de toda a obra, que será complexa até mesmo para explicar.

Isso se baseia no hoodoo — H-O-O-D-O-O, e não no vodu. O hoodoo é um sistema norte-americano que se assemelha bastante ao culto católico, mas é mais íntimo e individual: você faz orações pelas almas de seus antepassados, e elas vêm para te ajudar. Além disso, existe um sistema de reencarnação: você tem a oportunidade de renascer aqui sete vezes. Se, após essas sete vidas, você ainda não conseguiu atingir um nível de evolução satisfatório, então você é enviado para o inferno. Há uma metafísica completa presente ali, que não irei explorar completamente neste momento.

O que realmente me atrai é a lenda. Há uma crença de que existiu um casal praticante de hoodoo, proprietários de uma dessas casas de macumba hoodoo, que viveram por muitos anos devido à troca de corpos — e é por essa razão que suas aparências são sempre variadas —, e que ainda estariam vivos nos dias de hoje porque realizam rituais específicos que lhes permitem trocar de corpo. É uma lenda sobre os reis da verdadeira feitiçaria, os autênticos magos. A história já foi narrada diversas vezes em Hollywood, e A Chave Mestra é a versão mais famosa.

A obra se utiliza dessa mesma ideia. Yuta realiza um elaborado e místico ritual com Rika, durante o qual ele coloca seu próprio cérebro dentro de Satoru e faz com que Rika sopre o fôlego vital para que ele retorne ao campo de batalha. Mas o corpo de Gojo é insustentável para Yuta. Ele não pode permanecer lá. Ele consegue apenas criar um vazio roxo — e esse vazio roxo aparece de forma fraca, pois Yuta ainda não domina a manipulação corretamente. Foi como dar um tapinha em Sukuna. Nesse momento, a situação se complica ainda mais, e você se vê encarando a página, pensando: meu Deus, o que está acontecendo, cara?

Sim: isso pode ser interpretado como um desrespeito a um cadáver. Sim, é verdade. Certamente se trata de um desrespeito a um cadáver. Contemple a dimensão mística da questão. Há uma intersecção entre os elementos relacionados aos mortos e aos vivos, incluindo aspectos corporais, em muitos rituais — tanto japoneses quanto em rituais místicos de forma geral. A proposta é que, por meio desse processo, uma parte da alma do indivíduo, as memórias que constituem a essência do falecido, venha à tona dentro do morto, permitindo que ele recupere as recordações que teve durante sua vida — promovendo a revitalização e a elevação de sua alma. Quem se dedica ao ocultismo já está familiarizado com essas situações. O vodu em si realiza isso.

É realmente fascinante que Jujutsu Kaisen contenha tantas referências a esse universo. Nobara é um estereótipo típico da cultura pop em relação ao vodu — martelo, prego, boneco. Em termos técnicos, a abordagem dela consiste no boneco de palha japonês, conhecido como wara ningyō, que é o mesmo utilizado para ser pregado nas árvores dos santuários durante a meia-noite. Entretanto, a leitura comum é comparável à vodu, e o autor está ciente disso, fazendo piadas a respeito.

No vodu, quando alguém falece, objetos pertencentes à pessoa em vida são deixados ao redor do túmulo — incluindo uma cumbuca com água, que deve permanecer lá para que a pessoa consiga ascender. Há toda essa questão de que a pessoa que está viva precisa adicionar algo àquele espaço. Então, o que ocorre? A prática do vodu permite que uma pessoa utilize o defunto como um objeto, chegando a empregá-lo como uma arma, se necessário. Todo bruxo recorre a mortos. O necromante emprega mortos ou objetos funerários para direcionar criaturas em direção ao alvo — seja para realizar ações benéficas ou prejudiciais.

É essa alusão que o autor pretende fazer. E, juntamente com isso, surge a crítica à dessensibilização em relação aos mortos, à condenação do desespero que acomete esses feiticeiros, e também à reprovação ao cientificismo: teremos que recorrer ao uso de Gojo, mas isso é, sem dúvida, algo profundamente incorreto. É possível perceber, lá no fundo, o quão equivocado foi — uma vez que o corpo de Gojo ainda é utilizado como arma mesmo quando Yuji já está na casa dos oitenta anos. Você consegue me entender? O pobre Satoru continua sendo manipulado como uma arma até aquele momento. Nem mesmo após a morte, o sujeito encontra tranquilidade. É como se isso fosse uma punição para Satoru, que foi o herói do mundo por tanto tempo. E você se entristece por causa dele.

Portanto, não foi algo positivo. Foi algo desprezível, algo negativo, mas que precisava ser feito — pois a única maneira de se conectar com aquela santidade suprema era tornar-se o santo. Mas o mangá transforma isso em algo literal: o aluno entra e se transforma no próprio corpo do mestre. Portanto, isso também representa a corruptela da comunhão. Pois a comunhão é exatamente isso — receber o corpo do mestre para se tornar um com ele. A diferença é que, na comunhão, é o mestre que te acolhe, enquanto, nesse contexto, é o aluno que acolhe o mestre. É o oposto exato. É o rito sagrado de cabeça para baixo.

Isso constituiu uma crítica à mentalidade fáustica total da modernidade. À loucura cientificista, ocultista e quase sexual que a mentalidade moderna de feitiçaria possui — a crença de que tudo é um material acessível, incluindo o corpo do santo e até mesmo o cadáver do amigo. O mais intrigante é o que o autor faz com a conclusão: não leva a lugar nenhum. Ele apenas lançou um pequeno vazio roxo que não serviu para nada. Ele desprezou o corpo do mestre, do messias daquele mundo, fez tudo o que pôde com recursos negativos, com recursos ruins — em vão. Não tomou nenhuma atitude contra Sukuna. Nada, nada, nada.

Esta é a afirmação de Akutami sobre o fáustico, e é uma afirmação impecável: o mal utilizado como ferramenta não triunfa sobre o mal. Apenas quem o utiliza consegue deixá-lo sujo.

Após isso, Itadori consegue, de forma independente, algo que Yuta não conseguiu realizar utilizando o corpo do mestre. E eis a moral que percorre todo o livro: aquilo que Yuta tentou reivindicar, Yuji absorveu internamente.

Porque Itadori estava se tornando extremamente poderoso. Ele se dedicou intensamente a treinar com Choso para adquirir os mesmos poderes que Choso possuía, além de ter treinado com diversas outras pessoas para liberar os poderes que já estavam latentes em sua alma — os próprios poderes de Sukuna. Pois ele pertence à família do irmão de Sukuna. Ele representa a combinação de ambos: o caos e a ordem, o Yin e o Yang, a síntese daquela entidade que foi dividida ao meio. Não é surpreendente que, ao final, ele se transforme em uma figura que se assemelha a um bodisatva. Ele se transforma em um santo naquele lugar. Yuji se torna um santo.

É nesse momento que ele derrota Sukuna. Mas antes disso, tivemos Nobara: ela consegue ter uma recuperação temporária, e mesmo ferida, é convocada novamente — venha nos ajudar, pois estou sem ideia sobre o que fazer a seguir. O ponto forte dela é perfurar qualquer coisa. Então ela utiliza um dos dedos de Sukuna que restou, o enfia no boneco, e os espetos emergem de dentro para fora do próprio Sukuna. Aquele é o boneco de palha, e é o hoodoo da literatura popular, seguindo a mesma lógica habitual: a parte representa o todo, e o semelhante influencia o semelhante. A obra utiliza o rito para desestabilizar aquele que o possui.

Antes de abordar a expansão de domínio, é essencial mencionar as manoplas de Yuji. Aquelas luvas escuras que se expandem nos seus braços. Quando você passa a olhar por esse ângulo, elas são tão intrigantes que dão medo. Elas lembram o sangue das vítimas que ele deixou para trás — mas não são exatamente isso. Elas representam o remorso que ele sente. São a raiva que ele tem de si mesmo por não ter conseguido. E não só por isso: por não ter conseguido ajudar o messias, Gojo, no sacrifício dele, no levar da cruz dele. Ele tem tanto ódio de si mesmo que aquilo se manifesta na carne. A culpa vira armadura, e armadura vira peso.

E na hora em que ele ativa a expansão de domínio — o contraponto exato do Santuário Malevolente de Sukuna, aquele templo de carne dedicado ao apetite —, as manoplas se destroem. Ele está livre daquele ressentimento e daquela desgraça toda. Não é que ele se perdoou por decreto. É que ele finalmente compreendeu como lidar com sua própria dor.

No interior do domínio, ele revela a Sukuna toda a sua existência. Revela que a vida dele foi repleta de dificuldades. É bastante complicado. Tão ligada à vida que até o Sukuna precisou causar uma sensação de tontura. Ele afirma: eu consegui escolher o caminho da virtude. Eu consegui escolher a esperança. A distinção entre você e eu reside no fato de que você não possui esperança. Você não acredita em nada. É por isso que a única coisa que motiva sua existência é o prazer. Mas você pode conseguir algo. Você pode ser uma pessoa do bem. Você pode se tornar alguém.

É como se ele afirmasse: você tem o potencial de ser uma boa pessoa. É precisamente o discurso de Paulo. Aquela parte em que um dos discípulos se aproxima dele e comenta que o que estão presenciando é um circo de Nero, e que todos ali irão morrer, se arruinar, sofrer violência ou serem mortos. E Paulo se levanta, encara o homem e questiona: você abandonaria o mundo, assim como Cristo não nos abandonou? E, em seguida, chega aquele momento maravilhoso — o amor é aquele que padece em silêncio, o amor é paciente, o amor suporta tudo —, até alcançar o desfecho, aquele que se refere ao casamento, que é uma das mais belas coisas já escritas.

É precisamente nesse ponto que Chesterton se insere, pois tudo se resume à monogamia. É O Homem que Era Quinta-Feira operando dentro de um mangá japonês: após toda a perseguição, todos os disfarces e a conspiração cósmica, o que permanece é a lealdade a uma pessoa. Isso acontece porque, em seguida, Yuji terá seu último encontro com Megumi — que estará em um corpo transformado em demônio, completamente distorcido. Ele está tentando resgatar a pessoa que o introduziu a esse universo. Aquele mundo que é o verdadeiro, o mundo espiritual. Aquele que, em essência, o levou a se voltar para Deus.

E nesse instante, Megumi afirma: não, acabe comigo. Não desejo permanecer aqui por mais tempo. Não possuo motivo algum para continuar vivendo. Acabe com Sukuna, essa criatura repulsiva, enquanto eu o mantenho sob controle.

E Yuji inicia um diálogo com ele. Aquela bela conversa. E ele diz: isso aí eu entendo. Porque o meu avô cometeu eutanásia. Essa falta de esperança eu compreendo. Eu compreendo por que o meu avô quis fazer aquilo.

E cara — quando você descobre isso, é chocante. Porque não é o neto chorando porque viu o avô morrer. É o neto chorando porque viu o avô tirar a própria vida na frente dele. É o avô que não tem mais esperança nenhuma e por isso escolhe acabar. E é ali que você se toca no que é Jujutsu Kaisen de verdade. Ali cai a ficha.

Então, a cena do jovem abastado reaparece, mas de cabeça para baixo. Jesus declara: vem após mim, e deixa para trás tudo o que possuis. E o jovem rejeita e se retira, cabisbaixo. Contudo, há um momento em que Megumi observa essa esperança que habita dentro dela — e a aceita. Isto é o que há de mais belo no mangá. O jovem que, desta vez, aceita.

No momento em que Yuji consegue expulsar Sukuna do corpo de Megumi, este permanece vivo, se recupera e retorna a sua forma habitual. Sukuna encontra um fim incrivelmente lamentável. Ele se transforma em uma gosma no chão.

No entanto, mesmo ali, Yuji não hesita em oferecer uma oportunidade a ele. É, simplesmente, misericórdia cristã. Ele diz: ainda tenho uma expectativa para que você possa se reconciliar. Você precisará se redimir por meio de mim. Vou te manter dentro de mim e você me conduzirá apenas para o que é bom. Se você tentar me levar para o caminho do mal, eu vou cortar. Mas você permanece preso em meu interior, Sukuna, e por meio das minhas ações, eu irei te redimir. Você gostaria disso, ou prefere morrer e ir para o inferno?

E Sukuna encara o garoto com sua habitual arrogância, prepotência e ignorância, fitando-o nos olhos com intensidade, e afirma: eu prefiro ir para o inferno a viver com uma desgraça feito você.

E se transforma em vapor. Transforma-se em uma ameba no chão e perece.

Por que motivo? Pois essa é a essência do demônio: é lamentável. Ele é apresentado com a oportunidade de redenção e a rejeita por orgulho, e esse orgulho não é algo grandioso — é, na verdade, ridículo, pois opta pelo pior em detrimento de seu próprio interesse, apenas para não se submeter. Non serviam não é um grito heroico. É um berro de criança quebrando o próprio brinquedo. Toda a teologia da obstinação demoníaca está nessa página, e ela é mais exata do que noventa por cento do que se prega por aí.

E agora deixe eu fechar o retrato da corte de Sukuna, porque falta uma peça, e é uma peça essencial: Uraume.

Uraume, como símbolo, simboliza Lilith. Por qual motivo? É por isso que Lilith possui essa concepção andrógina. Na mitologia judaica, os lilim são demônios que se originam das vontades sexuais do ser humano que não se concretizam — do sêmen perdido, do que vai a lugar nenhum. Os próprios demônios compactam essa substância para criar outros demônios. É dessa forma que se narra. Originados a partir dessas raízes, encontram-se os súcubos, que têm origem no aspecto feminino, e os íncubos, que decorrem da avareza masculina associada à masturbação.

E Lilith possui um corpo que se assemelha ao do homem, é robusta, tem a determinação masculina e, ao mesmo tempo, exibe uma beleza feminina. É quase um andrógino. E aquela mulher desejava assumir a posição dominante durante a relação sexual — algo que, na configuração tradicional, cabe ao homem. De todos os textos místicos do judaísmo, pode-se concluir que Lilith é uma mulher bastante obstinada e que se assemelha a um homem. Não é sem motivo que ela é considerada uma raça própria, quase um terceiro gênero. Ela não se assemelha muito à mulher que conhecemos. Ela era algo diferente. É por essa razão que ela se afasta e passa a viver sua própria vida, distante da criação — e é por isso que alega-se que ela é a mãe de todos os demônios, uma vez que é, de fato, a esposa de Satã.

Uraume possui precisamente isso. Chefe de cozinha, serva, criada de Sukuna, e às vezes com uma relação que beira o amoroso em relação a ele. Eu não consigo encontrar uma explicação para que essa pessoa comece a adorar Sukuna com uma devoção que beira o romantismo. É algo bastante estranho, pois a relação entre os dois é completamente distorcida: começa como um amor paternal que se transforma em amor romântico e, em seguida, passa a ser uma amizade; além disso, a pessoa era um homem e depois retornou na forma de uma mulher — ou o inverso, uma vez que não é possível determinar com precisão se era uma mulher que se manifestou no corpo de um homem ou se era um homem que se manifestou no corpo de uma mulher. É exatamente por essa razão que dá certo. O autor criou essa imagem para representar o modelo de distorção. Uraume é um andrógino, e esse andrógino, neste contexto, não representa uma síntese: é uma verdadeira confusão. É a categoria desfeita. É o inferno como um local onde nada possui uma forma definida.

Observe como isso se conecta com Mahito. Mahito deforma corpos; Uraume deforma conexões; Kenjaku deforma descendências; Sukuna deforma o sagrado em si, criando um santuário para si mesmo. O mal, nesse trabalho, nunca cria nada. Ele apenas mistura. O diagnóstico permanece o mesmo desde o início, agora respaldado por quatro testemunhas.

É hora de interromper a narrativa e abordar o aspecto difícil, pois sem isso, nada do que eu mencionei até agora tem fundamento. Você tem conhecimento sobre o que é um demônio?

Um demônio é um anjo caído que foi condenado para sempre. Um ser angelical que caiu. Mas o que exatamente é um anjo? É uma criatura de espírito puro — ou seja, não tem corpo, ao contrário de nós, humanos. Os demônios agem exatamente dessa maneira. A única distinção é que se levantaram contra Deus por orgulho, o que resultou em sua queda.

Isso não é uma crença que a filosofia aceita por cortesia. Trata-se de uma discussão filosófica legítima. Ao introduzir o mundo das ideias, Platão já sugere a possibilidade de seres imateriais — seres espirituais. Isso se torna ainda mais evidente em Aristóteles, no segundo livro de Do Céu, onde é afirmado que os corpos celestes seriam impulsionados por seres imateriais, eternos e dotados de inteligência, sendo que cada um desempenha uma função particular. A doutrina é enriquecida por Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, sendo então expandida por toda a tradição cristã. Descartes menciona anjos nas Meditações. Embora alguns filósofos possam questionar a existência de anjos e demônios, isso apenas enfatiza o caráter filosófico da questão: trata-se de uma discussão sobre a existência ou não de seres imateriais, e esse debate é tão válido quanto qualquer outro.

Os anjos foram feitos por Deus e testados. Em palavras simples: eles tinham conhecimento sobre Deus, mas não percebiam a verdadeira natureza de Deus. É algo semelhante a escutar uma voz sem visualizar o rosto. Não residiam no céu, pois ainda não desfrutavam da visão beatífica — encontravam-se em uma condição provisória de teste, que é assim que interpreto a doutrina de Santo Agostinho a respeito desse assunto. Nesta avaliação, aqueles que se submeteram foram devidamente premiados: tiveram a oportunidade de ingressar nos céus e desfrutar da visão beatífica, passando a contemplar Deus em sua essência e plenitude. Os que se negaram e desobedeceram transformaram-se em demônios e foram eternamente condenados.

Observe atentamente o mecanismo psicológico da queda, pois ele é idêntico ao que ocorre em nós. No início, eles hesitaram em decidir se deveriam seguir a vontade de Deus ou não. Mais tarde, alguns passaram a considerar a desobediência como uma opção. E aqueles que atingiram esse estágio começaram a se persuadir de que estavam corretos. No fim das contas, se Deus fosse imperfeito, qual seria a razão para obedecê-lo? A incerteza se transforma em suposição, a suposição se torna uma preferência, a preferência evolui para uma doutrina pessoal, e essa doutrina pessoal dá origem a um conflito.

E ocorreu uma luta nos céus. Miguel e seus anjos travaram uma batalha contra o dragão; o dragão também lutou com seus aliados, mas foi vencido e perdeu sua posição. Foi assim que o imenso dragão, a antiga serpente, conhecido como demônio ou Satanás, o tentador de todo o mundo, foi expulso. Ele foi banido para a terra, assim como seus anjos. Está no Livro do Apocalipse de São João, e não se trata de uma alegoria meramente ornamental: é a representação de um acontecimento espiritual cujas repercussões você experimenta a cada dia.

E o que foi que eles vieram fazer? Assegurar que os homens também sejam julgados e punidos. De que maneira? De diversas maneiras, mas abordarei duas especificamente: a tentação e a possessão.

A tentação consiste em incitar ao pecado, seja por meio de persuasão ou oferecendo algum tipo de benefício ou prazer. Frequentemente, o demônio insere em nossas mentes pensamentos pecaminosos e impulsivos, que nos tornam mais propensos a ceder e inclinados ao mal. No entanto, ele apenas transporta as ideias. É a pessoa quem decide se aceita ou não. Pensar de forma impulsiva não é um pecado. Todas as pessoas têm pensamentos impulsivos. Ter uma ideia impulsiva não significa que você realmente a colocará em prática. Oh, meu Deus, sinto uma forte vontade de me atirar pela janela. Você não vai fazer isso; você não é louco. Se você tivesse feito isso, realmente teria permitido que o demônio dominasse. É evidente que a maioria dos pensamentos impulsivos não tem origem demoníaca. É difícil encontrá-los. É algo que acontece.

A possessão ocorre quando o demônio toma controle do corpo humano. E eis aqui a diferenciação que redime o personagem e o leitor: a alma, por sua natureza, não pode ser possuída, tampouco privada de sua liberdade. Pode haver restrições quanto ao domínio e controle sobre os membros. Sukuna agiu exatamente dessa forma. Sukuna tomava o controle do corpo de Yuji, e Yuji continuava ali, em suspensão, assistindo.

Portanto — e isso precisa ser dito com todas as letras — Yuji não tem culpa dos seus atos quando estava possuído. Ele causou aquele massacre, mas não era ele. Não era a sua alma, não era a sua vontade, não era a sua liberdade que fazia aquilo. Ele não tinha controle dos seus membros.

Preste atenção à sequência, que se trata de uma aula sobre o funcionamento do inferno. Primeiro Yuji se encolhe em um canto, sem sentir culpa alguma. Em seguida, ele tenta combater o demônio. Em seguida, ele tenta estabelecer um pacto. Ao perceber, uma cidade inteira já foi devastada. Deus jamais se comporta dessa maneira. Deus atua de maneira gradual, internamente, com respeito. O demônio atua como uma avalanche.

Considere a questão da culpa utilizando um exemplo simples, pois, muitas vezes, o simples é mais eficaz para ensinar. Suponha que você esteja em Singapura e decida mastigar um chiclete. Você pode ser detido, pois isso é considerado um crime lá. Você se sentiu responsável? De jeito nenhum. Você não estava ciente. Você poderia ter feito uma pesquisa prévia, mas como poderia imaginar que algo assim fosse verdade? Da mesma forma, Yuji engoliu o dedo sem ter sido alertado dos efeitos colaterais. Ele não tinha plena consciência do que estava fazendo — e se ele não tinha plena consciência, ele não tinha culpa dos efeitos que se seguiram.

E é justamente por isso que ele foi condenado à morte pelos velhos. Só que ele conseguia restringir o demônio, e o demônio não conseguia controlar o corpo dele. Então adiaram a sentença: você pode continuar vivo aí, por enquanto.

Em determinado momento da história, ele está quase morrendo. E aí ele tem a ideia: vou deixar o demônio tomar conta do meu corpo, e ele vai me livrar dessa situação. E de fato aconteceu. Sukuna acabou com as ameaças. Mas quando Yuji foi retomar o corpo, descobriu que não estava conseguindo pegar o controle de volta. E aí, sim, ele pensou: e agora?

Porque veja bem — mesmo que a pessoa possuída acabe morta, o demônio, por não ter matéria, não morre. Aqui você vê como o inferno de fato age: ele só precisa de um motivo negativo para levar a pessoa à condenação eterna, para fazer todo mundo sofrer. Eles não se importam se o próprio sofrimento deles no inferno for amplificado por isso. Sukuna só queria fazer o caos. Ele só queria fazer maldade por pura maldade.

É o mesmo que se vê no demônio chamado Legião. Quando aqueles demônios recebem permissão para entrar nos porcos, o que eles fazem? Fazem com que a manada inteira se atire de um penhasco e morra. Um suicídio coletivo, sem ganho nenhum para eles. Pura destruição pela destruição. É esse o retrato.

E aí entra o pacto, e eu quero que você preste muita atenção nesta parte, porque ela é a razão pela qual eu escrevi este texto.

Naquele momento, o corpo de Yuji fica como que em suspensão. Está morto, mas não parece morto. E ele começa a conversar, dentro da própria mente, com aquele demônio. E o demônio chega e diz: olha, vou fazer um pacto com você. Eu deixo você voltar à vida, mas em troca você vai ter que fazer uma coisa para mim.

Yuji, já conhecendo a máxima de que o demônio mente, responde que não vai fazer nada. Só que o capiroto é esperto. Ele propõe outra coisa: vamos lutar. Se você ganhar, eu te revivo sem problema nenhum, não peço nada. Se eu ganhar, a gente faz o pacto. E Yuji aceita.

E na hora em que ele termina de falar, o demônio acaba com ele. Por qual motivo? Uma vez que não é possível combater o demônio. O demônio possui uma força superior a de qualquer um. Não é necessário ser o mais forte do mundo — o demônio continua sendo mais poderoso. Tentar é tolice. Não é possível derrotar o demônio em combate. A única maneira de superar o demônio é através da recusa, da graça e do nome de Cristo. E essa superação não deve ser vista como uma batalha: é, na verdade, uma rendição a Alguém que é superior.

Yuji foi derrotado, mas retornou à vida. Mas sob que circunstâncias? Sukuna tinha a permissão para assumir o controle do corpo de Yuji por um minuto, em um momento de sua escolha, sem causar dano a ninguém, e Yuji não poderia contar isso para ninguém.

Mantenha essa cláusula em mente, pois ela é um exemplo notável de malignidade.

Entretanto, antes disso, existe um momento que eu não consigo tirar da mente. Yuji, em desespero, oferecendo tudo. Eu te ofereço tudo, dou a minha vida, dou o meu corpo, eu faço o que você quiser, eu só queria salvar a vida desse aqui. Ele deu carta branca ao demônio. Ele estava pronto para sacrificar sua própria salvação e até mesmo seu próprio corpo para salvar um amigo. E qual foi a resposta do demônio? De forma alguma, não. Eu encontro mais prazer em observar você passar por dificuldades.

E ela riu enquanto o garotinho se debulhava em lágrimas.

Eu coloco a questão que realmente interessa, e não é uma pergunta retórica: e se fosse você? Se a vida de uma pessoa que você ama profundamente — seja sua mãe, seu filho ou um amigo — estivesse em risco, você aceitaria fazer um pacto desse tipo? Você concederia total liberdade ao diabo para agir como quisesse com seu corpo e sua alma? Reflita bem antes de responder, pois é simples ser categórico por escrito.

E, então, após um longo período, surge o notorious minuto. Sukuna pronuncia a palavra e assume o controle do corpo de Itadori por um minuto, durante o qual realiza a seguinte ação: corta o próprio dedo do corpo e força Megumi a ingeri-lo. Assim, ele se transfere para dentro de Megumi. Ele seguiu a cláusula à risca: não feriu Itadori. Mas agora ele controla outra pessoa e, através desse controle, começa a ferir os demais.

É assim que o demônio é astuto. Ele cumpre a letra e mata o espírito. Ele nunca precisa mentir tecnicamente. Ele só precisa que você assine.

E Megumi é possuído facilmente, porque Megumi não tem o sangue daquela criatura. Yuji resistia porque era parente; Megumi não tinha essa âncora. E aí acontece uma coisa terrível e simbolicamente perfeita: Sukuna consegue realizar, com os shikigami de Megumi, fusões dificílimas, que só deveriam ser possíveis a quem tem a alma limpa. Por quê? Porque aqueles servos angélicos não são mais anjos. Eles são criaturas caídas. Eles obedeciam porque respeitavam a pessoa que caminhava para o bem; ao contaminar a alma inteira — que é o que a possessão faz —, eles se tornam arautos do próprio Sukuna. Aqueles anjos todos que Megumi controlava caem junto com o dono. A queda se espalha.

Em seguida, inicia-se o confronto entre Gojo e Megumi. Pai versus filho. Às vezes, Megumi consegue recuperar um pouco de controle internamente, mas é bastante complicado, pois ele já está no último estágio de possessão.

Eu adoro a atuação de Sukuna no anime e aprecio o personagem como uma figura demoníaca, e isso por um motivo específico: se você assistir ao filme Nefarious, verá que o demônio que possui o condenado tem exatamente a mesma personalidade de Sukuna. Precisamente. A mesma ridicularização, o mesmo conhecimento malicioso, a mesma paciência de quem possui a eternidade. É como se Sukuna estivesse lá dentro. Isso não se trata de uma coincidência de enredo; quando se cria um retrato eficaz do demônio, ele sempre tende a se alinhar à mesma representação.

Através da perspectiva da teologia católica, Sukuna não é apenas um vilão nem uma entidade de poder excessivo. Ele representa a própria essência do Diabo: o Soberano das Maldições, a encarnação da soberania absoluta e da destruição isenta de qualquer sinal de caridade. A conexão entre ele e Yuji revela de forma precisa como funciona a possessão espiritual. Quando o recipiente aceita a presença do mal, uma luta devastadora pela supremacia da alma e do corpo se inicia. A possessão vai além da simples invasão de um corpo: é uma tentativa de usurpar o livre-arbítrio. O demônio age como um parasita que deforma a inteligência e contamina a vontade, fragmentando o ser internamente. A bagunça, a brutalidade e a profanação que Sukuna espalha pelo mundo são apenas a manifestação externa da desordem interna que o maligno instiga no ser humano.

Ao transformar o corpo do jovem em um bastião de brutalidade, o demônio revela sua inveja da obra da criação. Ele detesta que o ser humano tenha sido criado à imagem e semelhança de Deus, e por isso tenta desfigurar e profanar a carne que habita. É preciso realizar um ato de fortaleza espiritual, quase que sacrificial, para enfrentar essa infestação. A luta contra as forças de Sukuna nos ensina que o mal apenas surge e causa a destruição do mundo quando encontra vulnerabilidades na fragilidade humana — no entanto, a decisão sobre o destino do espírito continua a ser ditada por aqueles que se negam a entregar sua alma à escuridão.

Há um aspecto ontológico que merece ser mencionado, pois a obra é mais precisa do que aparenta. Sukuna foi, em sua origem, o ser humano mais forte do mundo, vivendo mil anos antes do começo da trama. Antes de ser selado, ele transferiu sua própria alma para os seus vinte dedos — pois possuía dois pares de braços. E ele acabou se transformando em uma maldição ao invés de um homem. Por isso ele não é exatamente um demônio, já que um demônio nunca foi um ser humano; os demônios sempre foram espíritos imateriais e jamais tiveram qualquer forma material. Contudo, ele se designa como um demônio: há um capítulo em que, de forma explícita, ele afirma a Yuji que é o anjo caído. Quando analisamos os pormenores, percebemos que ele se comporta como um demônio, e é por essa razão que o tratamos dessa forma. Um dos indícios que corroboram essa afirmação é que, ao longo de toda a obra, ele realiza ações através do corpo de outras pessoas, mas nunca pelo seu próprio corpo — uma vez que ele já não possui um corpo próprio.

É precisamente isso que o torna uma figura ainda mais assustadora do que um demônio típico. Ele representa a máxima expressão da possibilidade humana. Ele é o remanescente de um homem quando este, utilizando toda a sua inteligência, opta por se reduzir unicamente a apetite. O demônio despencou de uma altura que nunca havia alcançado; Sukuna ascendeu a uma altura e de lá lançou o que tinha.

Há uma terceira arma, que raramente é mencionada, mas que se revela a mais eficaz entre as três. Após induzi-lo ao pecado, o demônio o convence de que não há mais possibilidade de salvação para você. Chegou ao fim para você. Seu destino é o mais terrível que existe. Você precisa ser julgado e punido. Aqui, a obra realiza algo impressionante ao apresentar isso em um tribunal literal.

Itadori enfrenta um julgamento. E ele, perante todo o tribunal, confessa sua responsabilidade pelo massacre: sim, fui eu quem matou todas aquelas pessoas, não vou mentir nem refutar. O promotor — Hiromi Higuruma, o advogado que se tornou feiticeiro, cujo território é um tribunal — possui a evidência de que ele não estava no controle. Para resumir: Itadori, você é inocente. O promotor questiona o que toda a obra vinha indagando desde Shibuya: por que você afirma ser culpado?

Porque o denunciador foi o primeiro a chegar. Pelo simples fato de que o nome hebraico do diabo é precisamente esse: o acusador. Atenção ao acusador. Ele não te denuncia com a intenção de que você melhore; ele te denuncia para que você desista. A culpa que provoca arrependimento é de Deus; a culpa que causa desespero é do inferno. E Yuji, aquele garoto, carregou a culpa de outra pessoa durante arcos inteiros por não saber distinguir.

Então, já que estamos aqui, como é que realmente funciona o pacto? Se você analisar a Goécia — e eu não me refiro à Ordem Dourada nem a essas vertentes modernas, mas sim a sistemas que estão muito próximos da cabala qelipótica —, aquilo é o que realmente poderia ser considerado um pacto real. Ao contrário do que os filmes mostram, o pacto geralmente não envolve sangue algum. De forma alguma. É apenas consultar um livro de goécia clássica, no que diz respeito à cabala prática qelipótica, e observar: não há necessidade de sangue, nem de assinatura em pergaminho, nem nada disso. É algo diferente, bastante específico, muito mais burocrático e bem mais sombrio.

E qual foi o resultado? A existência do indivíduo só se deteriora. A partir do momento em que ele tomou aquela atitude até o desfecho da história, tudo se deteriora. O demônio altera a vida do imbecil que fez um pacto com ele na velocidade que conseguir. Isso pode resultar em possessões e obsessões, pois ele começa a aparecer na vida da pessoa e a agir como quiser dentro dela.

Contudo — e eis a única informação encorajadora deste capítulo inteiro — a pessoa pode se arrepender. Se ela realmente se lamentou, há sim uma possibilidade de salvá-la. Teófilo era um exemplo disso. Teófilo se penitenciou e suplicou à Virgem Santíssima, sua advogada, que intercedesse por ele para conseguir o perdão. De fato, isso ocorreu na história: ele se dedicou intensamente à penitência, chegou a confessar publicamente suas ações e queimou o contrato na frente de todos. Certamente, Teófilo é provavelmente um exemplo lendário e não um relato histórico; no entanto, a lenda serve precisamente para transmitir a doutrina, que é a seguinte: uma pessoa que cometeu esse pecado, que fez um pacto, pode ser perdoada. O arrependimento a acompanha também.

Para que não haja nenhuma dúvida: não estabeleça nenhum tipo de pacto com o capiroto, meu jovem. Nenhum dia passou em que Yuji tenha conseguido dormir tranquilo após testemunhar o massacre perpetrado pelo seu próprio corpo. Ele não teve culpa alguma. Visualize aqueles que possuem.

Agora, chegamos ao final, que é a parte mais encantadora.

Após tudo, os três surgem juntos. Kugisaki com o corpo machucado. Megumi, o mais sereno dos três. E Yuji já está em paz, com o dedo cicatrizado e as manoplas desfeitas. Nobara encontrará sua mãe, a quem nunca mais conseguiu ver. Quando a avó, que a criou, chega e se depara com a filha vivendo da maneira que estava, ela a agride severamente. E Nobara experimenta uma certa satisfação com isso, pois parece que a mãe realmente merece tudo isso em função da desgraça que trouxe para sua própria vida. Não é uma imagem agradável, e não deveria ser: é uma representação sincera do que o abandono provoca no interior de uma filha.

E Megumi observa a carta de Gojo e consegue apenas afirmar: você foi como um pai para mim.

Yuji tem prazer em prosseguir. E essa é a mensagem que todo o anime sempre tentou transmitir, desde o primeiro até o último quadro: continue em frente. Continue avançando com fé.

E, adiante, já bastante idoso em um mundo onde o jujutsu está se extinguindo, Yuji chama Nobara — também envelhecida, a última que ainda está ao seu lado — e faz o pedido mais surpreendente de toda a obra. Ele afirma: quando eu falecer, desejo que vocês me dividam, assim como fizeram com os dedos de Sukuna. Para que, no amanhã, quando o mundo enfrentar uma adversidade, vocês possuam poder suficiente. Para que o jujutsu retorne e que as pessoas possam se defender contra essa ameaça maior.

Em outras palavras, é o retorno do Cristo que está presente ali. O Cristo desse mundo, que é Gojo, também aparecerá mais adiante. É o retorno do Messias. Chamam isso de reencarnação, mas essa história de reencarnação é uma bobagem, pois no fim das contas, isso não se concretiza como uma doutrina: existem outras pessoas com os seis olhos que não são a reencarnação de Gojo, e nunca houve dois simultaneamente, sendo que o único que teve tudo reunido foi ele. Portanto, a reencarnação não tem nenhum significado nesse contexto. É apenas uma maneira de expressar algo que a obra não conseguia afirmar com essas palavras: o Messias retornará.

E isso é lindo, cara. É lindo. Um mangá japonês, no meio de uma cultura afogada em seita, em ocultismo e em desesperança, termina com o corpo do justo sendo repartido para que o mundo tenha força quando o mal voltar, e com a promessa de que aquele que morreu por todos há de retornar. Se você não sentiu a página tremer quando leu isso, leia de novo.

Com isso, chego ao fim e me despeço desta magnífica obra que é Jujutsu Kaisen — embora muitas pessoas não consigam perceber sua beleza devido a falhas na trama e a escolhas de escrita que parecem bobas. Certamente, houve erros: o negócio foi realizado com uma rapidez excessiva, o autor estava vivenciando um grande sucesso, ouviu opiniões de muitos fãs e, por isso, algumas questões se tornaram complicadas de resolver ao longo do processo. Akutami reconhece esse equívoco, e o erro que ele admite é exatamente esse — ter escutado demais os fãs.

Para mim, foi um belo desfecho. Foi realmente maravilhoso. Vários personagens que eram considerados mortos retornaram vivos ao final, e isso, por si só, já é uma forma de redenção. Quem leu, leu; quem não leu, vai perceber que Yuji contorna posteriormente as questões que ficaram em aberto, enquanto as crianças solucionaram o principal. E você percebe a magnitude do poder que aquele jovem possuía, assim como o imenso fardo que ele optou por carregar até o final.

Yuji Itadori, em sua verdadeira jornada, atinge a mais elevada transformação ontológica: ao derrotar o mal supremo por meio do sacrifício e da purificação de suas intenções, ele se torna um santo. Ele não triunfa através do poder da destruição, mas sim por meio da entrega de sua própria vida e da ativação da luz interior que transforma a dor em redenção. Assim como Pedro curava com a mera passagem de sua sombra, assim também Yuji vai além da força do corpo para realizar prodígios de purificação espiritual, transformando a dor da limitação na mais lídima energia de restauração — e provando que a derrota do mal não se dá pela fúria de um homem só, mas pela persistência do corpo místico unificado pela virtude e pela fé.

Quando Gojo é derrotado por Sukuna, sua queda ressoa como uma crucificação: o Mal acredita ter conquistado uma vitória definitiva ao eliminar a representação tangível da luz, sem perceber que o sacrifício do mestre é, na verdade, a chave que acende o processo de redenção. Ao partir, Gojo não abandona o mundo nas mãos das trevas: entrega o prosseguimento da missão à sua Igreja — à comunidade dos seus alunos, agora apóstolos da luta espiritual. Ao apontar para Yuji e confiar-lhe o peso do destino, ocorre a transferência de poder. Yuji aparece como o personagem petrino, a rocha sobre a qual a nova aliança se fundamenta.

E é por isso que este mundo possível, que não é o nosso, nos julga. Porque ele diz, com desenho e tinta, aquilo que a nossa época se recusa a ouvir: que existe um lado de lá; que o mal é pessoal e é patético; que a ciência sem ética gera monstros de laboratório; que o ocultismo não liberta ninguém, apenas escraviza quem chama; que o niilismo é o único pecado que fecha a porta por dentro; e que a esperança não é otimismo, é a semente sem a qual nenhuma virtude nasce.

Não faça pacto com o inimigo. Não venda o que não é seu. E siga em frente — com esperança.

Salve, Cristo Rei.

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