Não á jogo para ser jogado, não seja idiota
Usando a justificativa de “jogar o jogo”, muitos tentam transformar desonestidade em inteligência, quando na verdade apenas revelam a corrupção do próprio caráter. Este texto revela de que maneira a fraude, o cinismo e a covardia moral se camuflam como estratégia, e por que opor-se a isso é a única maneira de manter a integridade.
Gabriel G. Oliveira
3/29/202614 min read


Como se Deve Tratar Canalhas
Depois de uma canalhice bem-sucedida, é comum ouvir: "eu apenas joguei o jogo". É pronunciada com uma voz de sabedoria prática, quase como se fosse uma lei natural, tão inevitável quanto a gravidade. Mesmo assim, poucas frases revelam de maneira tão clara uma significativa carência moral. Não existe nenhum jogo para jogar. Existe caráter, ou não existe? O que se segue é apenas uma explicação elaborada para transformar um vício em uma virtude.
Quando alguém, depois de ter prejudicado de propósito um colega, manipulado regras, sabotado um trabalho ou humilhado um subordinado, diz que "apenas jogou o jogo", comete uma preguiça intelectual e uma grave falta moral: finge que a realidade a obrigou a ser um monstro. Como se houvesse um tabuleiro invisível onde a única opção possível fosse a trapaça. Aristóteles avisava que ninguém se torna injusto por força da necessidade, mas sim por costume (Ética a Nicômaco, V). No entanto, se isso é verdade, por que tantas pessoas teimam em chamar hábito de estratégia?
O artifício é velho e tem pedigree filosófico. Desde Maquiavel, a ideia de que a vida pública e, por extensão, a empresarial, acadêmica e até mesmo a pessoal opera segundo regras que nada têm a ver com a moral tradicional se tornou um lugar-comum. No Príncipe, a eficácia se sobrepõe à moralidade, e o êxito à verdade. Estudar Maquiavel não é um problema; o problema surge ao transformar seu diagnóstico em uma norma de vida. Nessas situações, o homem não "joga o jogo": ele renuncia ao juízo moral e o considera inteligência.
Em certas culturas, essa abnegação ainda é celebrada. A esperteza passa a ser considerada uma qualidade, a malandragem é vista como uma forma de genialidade prática, e quem sai prejudicado é visto como ingênuo. Max Weber já observava que, quando a ética é substituída por uma racionalidade puramente instrumental, o mundo passa a ser habitado por indivíduos que são eficientes, mas sem conteúdo (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo). No entanto, agir de maneira eficiente sem um critério adequado não é progresso; é simplesmente apressar-se rumo a um erro.
O efeito educativo que este mecanismo produz é o mais cruel. Quando descobre que o outro “jogou o jogo”, a vítima passa a questionar se sua postura ética foi um erro. Em vez de uma indignação clara, surge a tentação de imitar. O homem que foi traído se pergunta se deveria ter sido mais desconfiado, mais severo, mais cínico. Assim, o dano é tanto material quanto educativo. C.S. Lewis argumenta que “educação sem valores, por mais útil que seja, parece antes tornar o homem um demônio mais inteligente do que um anjo” (The Abolition of Man). No entanto, se o injusto prevalece, por que não segui-lo como exemplo?
A desordem moral se mantém exatamente assim. O mal não se dissemina só através das ações corruptas, mas também pela conversão discreta dos honestos em cínicos. Hannah Arendt tratou de um conceito análogo em sua análise de sociedades em que o que é reprovável se torna aceitável: em um contexto onde a mentira é a norma, afirmar a verdade passa a ser considerado um ato excêntrico (Between Past and Future). Não é preciso que todos sejam ruins; basta que os bons não julguem.
No entanto, isso não significa que devemos aceitar a posição passiva do cordeiro que é levado ao sacrifício. Não entrar no "jogo" da desonestidade e aceitar ser esmagado por ele são duas coisas diferentes. A tradição jurídica e moral sempre reconheceu o direito a uma defesa racional. Se você está enfrentando fraude, perseguição ou abuso, a resposta correta não é glorificar a injustiça nem perpetuá-la, mas documentá-la. Para isso, há evidências. É para isso que as instituições foram criadas. Quando elas não conseguem cumprir seu papel, buscar a justiça formal não é um ato de vingança; é uma forma de restaurar a ordem. Como lembrava Tomás de Aquino, a lei foi feita para conter o vício quando a virtude é insuficiente (Summa Theologiae, I-II, q. 95).
Existe um argumento claro e incisivo que a retórica da “jogo” tenta ocultar: quem age mal não é inteligente, é irresponsável; quem justifica o mal como norma do sistema não é realista, é covarde. G.K. Chesterton ressuscitava este tipo de gente ao dizer que “o mundo moderno está cheio de velhas virtudes cristãs enlouquecidas”, virtudes tiradas de seu contexto moral e transformadas em caricaturas. A sagacidade que falta à justiça não é sabedoria; é uma sagacidade insensata.
Portanto, a máxima é clara e se assemelha a um conselho para a vida: nenhuma partida pode comprometer a ética. Existem apenas aqueles que preferem abrir mão de sua própria consciência por um benefício passageiro. Não seja insensato ao ponto de confiar nisso, nem ingênuo ao ponto de seguir seu exemplo. Se você for uma vítima, reúna provas, denuncie a falha e exija compensação. Se ninguém agir, busque respaldo legal. Resistir à corrupção do caráter é mais difícil do que apenas “jogar o jogo”, mas é a única forma de não parecer vitorioso por fora e oco por dentro. Como disse Soljenítsin, “uma mentira pode dominar o mundo, mas apenas enquanto as pessoas se recusarem a chamá-la pelo nome”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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WEBER, Max. The Protestant ethic and the spirit of capitalism. London: Routledge, 2001.

Então como eu devo agir...
Não transforme seus vínculos em uma visão de mundo
Todos nós conhecemos essa sedução, ainda que raramente a reconheçamos: a de tomar aquilo que em nós é defeituoso, distorcido ou frouxo e denominá-lo virtude por uma mera questão de economia de alma. Errar é humano; reconhecer é quase nobre. O verdadeiro problema acontece quando alguém opta por adornar o erro e exibi-lo na parede como se fosse um troféu. Não transformar os próprios vícios em visão de mundo é, talvez, uma das mais elementares normas de higiene moral e também uma das mais esquecidas. O vício aceito ainda pode se arrepender; o vício difundido torna-se uma ideologia. Como é bem conhecido, a ideologia geralmente é mais rigorosa do que qualquer pecado individual. Não é curioso como as pessoas perdoam um erro, mas exaltam o sistema que o perdoa?
Comecei a usar essa máxima como uma espécie de detector de pessoas do mal. É fundamental ficar alerta sempre que alguém tenta justificar moralmente o que é, na verdade, uma falha de estrutura: uma limitação interna, uma apatia da alma ou uma covardia espiritual. Com a calma de quem não tem pressa para entender o mundo, Aristóteles já advertia na Ética a Nicômaco que a virtude não se dá em palavras, mas em costumes: é a consonância entre razão adequada e ação justa, não um sofisticado after all para justificar o malfeito. Ao inverter essa ordem, a pessoa não apenas comete um engano; ela estabelece um ambiente confortável que permite a continuidade dos erros sem perturbações. Quem não gosta de uma casa quentinha, ainda que construída sobre areia?
Recordo-me de uma daquelas conversas que começam em teologia e acabam em antropologia, e que são sempre as mais iluminadoras. Estava discutindo com um pastor calvinista protestante a respeito da gnose, um assunto que estudei extensivamente e que desenvolvi em Gnose: a origem do caos. A partir de Hans Jonas, Eric Voegelin e Olavo de Carvalho, defendo neste trabalho que a maior parte do protestantismo atual se estrutura em padrões gnósticos, ainda que o rótulo seja repudiado com aversão. Em determinado momento, meu interlocutor abandonou qualquer tentativa de manter um rigor intelectual e passou a afirmar, com uma tranquilidade quase pastoral, que os judeus sempre foram um povo essencialmente maligno. Ele chegou a afirmar que o Deus do Antigo Testamento era maligno ao ordenar guerras e castigos cruéis. Nesse momento, a teologia havia saído do lugar; o que se escutava era a psicologia camuflada de pregação.
Bastou confrontar essa afirmação com o contexto histórico, o que qualquer leitura, ao menos um pouco sincera, da Bíblia hebraica, confirmada pela arqueologia e pela historiografia do Antigo Oriente Próximo, como demonstram William Dever e K. A. Kitchen torna claro que é necessário um ambiente propício para que a irracionalidade ética se torne visível. As tribos inimigas de Israel praticavam estupros ritualizados, assassinato de crianças, sacrifícios humanos e, em algumas ocasiões, canibalismo religioso. Assim, com a simplicidade quase ingênua da lógica moral, eu perguntei: o que o povo judeu deveria ter feito? Presenciar a própria destruição em nome de um pacifismo teórico que jamais foi exigido de seus opressores? A resposta, naquele momento, já não era relevante. O funcionamento era evidente: a antipatia pessoal por qualquer tipo de conflito foi elevada a princípio moral indiscutível. A covardia, devidamente trajada, foi canonizada. E a partir de quando a fraqueza, somente ela, passou a ser vista como sagrada?
Aqui, chegamos ao ponto crucial. Pacifismo é uma virtude se nascer da força e da sabedoria; se nascer do medo e da incapacidade de julgar o concreto, é um vício, e perigoso, porque se apresenta como uma superioridade moral. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, dizia que a mansidão só é verdadeira se for movida pela justiça; do contrário, ela é omissão culposa. O que testemunhei naquele debate foi o oposto: uma teologia cuidadosamente estruturada para validar a evasão moral e a recusa em agir com bravura, aquela coragem que Aristóteles posicionava entre a temeridade e a covardia. Para salvaguardar uma crença sensível, transformou sua própria vulnerabilidade em doutrina. É curioso como o homem consegue ver como princípio aquilo que veio de um abalo?
Nesse ponto, a gnose retorna, sempre complexa e igualmente nociva. Quando se diz que o bem é insignificante, ou que o mal pode ser visto como uma virtude dependendo do ponto de vista, ou quando se culpa Deus por ser a fonte do mal, abandona-se a teologia clássica e entra-se no campo da gnose. Eric Voegelin foi claro ao afirmar que a gnose não é apenas uma heresia do passado, mas uma constante mental: sempre que o homem rejeita a ordem do ser, tenta recriar o bem e o mal em função de suas necessidades psicológicas. Ao negar a bondade ontológica de Deus, o calvinismo radical se torna, mesmo que involuntariamente, mais parecido com a ideia de um demiurgo típica dos sistemas gnósticos que Irineu de Lyon descreve em Adversus Haereses. Não se trata de uma coincidência histórica, mas sim de uma coerência interna. Como já mencionamos, coerência não implica em verdade.
Em menor escala, essa lógica se reflete no cotidiano. Pessoas que chamam sua raiva de "ira santa", sua inveja de "zelo", sua preguiça de "desapego" e sua covardia de "humildade". Nietzsche, que não era exatamente um defensor da moral cristã, percebeu isso com uma precisão impressionante ao afirmar em Além do Bem e do Mal que “a moral é muitas vezes apenas a racionalização tardia dos próprios instintos”. Reconhecer as próprias falhas é, sem dúvida, um primeiro passo para a clareza; transformá-las em uma base para avaliar o mundo é o caminho perfeito para uma corrupção total. A partir daí, tudo se corrompe: a ética, a crença, a política e as interações pessoais. No fim das contas, quem precisa da verdade quando uma boa explicação está à disposição?
Então, como um conselho de vida, não de polêmico, mas de alguém que refletiu muito sobre os impactos dessa deformação, desconfie daqueles que transformam seus defeitos em qualidades. Essa pessoa não busca a verdade, mas sim a justificativa para si mesma. Sociedades formadas por indivíduos desse tipo não avançam em direção à paz, mas sim em direção à falsidade institucionalizada. A virtude exige trabalho, autoavaliação e, especialmente, a bravura de admitir que nem tudo em nós merece reconhecimento positivo. Da mesma forma que G.K. Chesterton:
O engano não reside em o homem tombar; o verdadeiro engano é o homem se acomodar no chão.
A primeira coisa que se deve fazer para converter o inferno em um projeto moral respeitável é garantir que canalhas se sentem no trono.
Não seja covarde
Há verdades que nos inquietam não por serem incógnitas, mas por serem excessivamente patentes. Uma delas, de acordo com São Tomás de Aquino, é que a fraqueza moral não decorre da ignorância, mas sim da capitulação. O homem fraco não é aquele que não sabe; é aquele que sabe o que tem que fazer e não faz. A tradição chama isso de incontinentia, um termo elegante para uma situação que não é nada elegante: a razão em pé, lúcida, a vontade sentada, fatigada. Aristóteles a retratou de maneira quase cruel em sua discussão sobre a akrasía, alguém que "julga corretamente, mas age mal" (Ética a Nicômaco, VII). Não é a escuridão que falta, mas sim a liderança. A razão vê tudo, mas não governa nada.
Aquino vai além e aponta o motor interno dessa derrota. A fraqueza ocorre quando a vontade, pressionada pelas inclinações sensoriais, desiste de governar e passa a se submeter. Na Suma Teológica (I–II, q.77), ele argumenta que o pecado por fraqueza ocorre quando a paixão “ofusca o juízo particular”, levando o sujeito a não conseguir aplicar à ação concreta o que sabe ser verdadeiro em teoria. A inteligência não vai a lugar nenhum; ela fica calada, como uma voz de razão em meio ao barulho de todos os outros. No entanto, se isso acontecer uma vez, ainda pode ser considerado um acidente; quando acontece repetidamente, passa a ser um hábito. O hábito, como Tomás estava ciente, tem a capacidade de tanto instruir quanto desinstruir a razão prática.
Daí não se deve admirar que Aquino seja especialmente severo com os vícios carnais. Na Suma (II–II, q.153), a luxúria é tratada com um realismo quase clínico, e não como uma condenação ascética caprichosa. De acordo com ele, o prazer sexual “absorve intensamente a alma”, desviando a atenção da razão e mantendo a vontade focada no presente. A perda é tanto moral quanto intelectual. O homem que se entrega ao luxo não só perde a castidade, mas também a noção de medida. Oferece prazer, mas requer clareza em retorno. Aqueles que pagam, muitas vezes, só se dão conta disso mais tarde.
A avareza toma o mesmo rumo, só que usando talheres. II–II, q.148, Aquino observa que a excessiva alimentação e bebida influenciam, por sua própria natureza, a constituição do corpo e, por isso, a razão. Isso vai além da saúde; é uma questão de hierarquia interna. Um corpo que se deixa levar pelo desejo dificilmente aceitará ser guiado pela razão. Aristóteles já havia advertido que certos prazeres “corrompem o juízo” (Ética a Nicômaco, VI), e Tomás apenas organiza essa ideia antiga: os que se entregam inteiramente ao prazer do paladar dificilmente desenvolvem o anseio pela verdade. A razão não é combatida; é embalada até que adormeça.
No entanto, nem toda fraqueza se origina do estômago ou da carne. Há vícios que se disfarçam melhor e, por isso, ganham mais respeito. A acídia, segundo o que se expõe na II–II, q.35, não é meramente preguiça, mas uma tristeza pelo bem espiritual. É o cansaço anterior ao cansaço que exige esforço de dentro para fora. Ela se define como clareza, pragmatismo e até mesmo humildade, mas, na verdade, resulta em frouxidão, desinteresse e, frequentemente, covardia. No II–II, q.133, Aquino a caracteriza como uma humilhação da alma diante do que é grandioso. O homem não se vê como insignificante; ele escolhe ser insignificante. Isso significa que os juros serão altos.
A inveja completa essa imagem nada favorável da fragilidade interior. No II–II, q.36, Aquino refere-se a isso como um sinal de falta de magnanimidade, ou seja, de grandeza de alma. O invejoso não sofre por causa de seu próprio mal, mas sim por causa do bem alheio, pois isso o obriga a encarar aquilo que ele poderia ser e não é. Eric Voegelin descreveu esse fenômeno como uma "rebelião da alma contra a ordem do ser". A inveja tem essa função: tenta tornar o mundo inferior para não precisar se elevar. Não é ignorância, é recusa intencional, ainda que camuflada.
Tomás chama todos esses comportamentos de peccata ex infirmitate, ou pecados por fraqueza. São diversos dos pecados por malícia, porquanto não ama o mal enquanto tal; mas apenas se entrega ao prazer ou ao temor, contrariamente ao seu juízo. Mas o resultado final é igualmente nocivo. Ao homem, pouco a pouco, vai acontecendo o que animalmente lhe pode suceder: passa a reagir a estímulos, não age mais como homem, orientado pela razão. A fórmula tomista é severa, quase impiedosa: quando a razão não está no controle, o homem “segue o que sente, não o que entende” (Suma, I–II, q.77, a.2). E se isso for o caso, por que nos surpreendemos com o resultado?
Aí se entende um antigo fenômeno social, anterior a qualquer laboratório psicológico: a intuição da relação entre desordem externa e fragilidade interna. Com o tempo, nações inteiras chegaram à conclusão de que o corpo e o rosto se tornam uma espécie de autobiografia moral. Não porque toda aparência indique necessariamente um defeito isso seria covarde e injusto mas porque ações habituais tendem a deixar marcas. Afirma Aquino que as ações habituais geram hábitos, e estes formam a alma e o corpo (I–II, q.51). O que está fora não mostra o que está dentro, mas frequentemente murmura algo sobre isso.
Assim, não é de se admirar que tantas culturas desconfiem de quem parece estar fora de controle, descuidado ou que expressa ressentimento constante. A impressão de autocontrole está, mesmo que de maneira imperfeita, ligada à credibilidade humana. Um corpo desleixado, um olhar hesitante e uma estética permanentemente azeda comunicam, quer queiramos quer não, uma provável história de rendição. Com a brutalidade delicada que é típica dos grandes, Shakespeare fez Júlio César declarar: "Gosto dos homens gordos; homens magros e famintos são perigosos". Ele exagera, como qualquer grande dramaturgo, mas menciona essa antiga intuição de que o corpo se comunica, mesmo que não narre toda a história.
Em nenhum momento isso pode justificar a falta de atenção; tudo isso exige transparência. A vida moral não é um teatro de aparências, mas as aparências não são irrelevantes. Muitas vezes, elas representam decisões que não estão à vista. Quem sabe se não basta reter o essencial, como prática de vida: dominar-se não é reprimir-se, é libertar-se; organizar os desejos não é empobrecer a existência, é torná-la inteligível; fortalecer a vontade não é ser inflexível, é ser digno. São Tomás não queria santos apenas para o show, mas pessoas integrais, corpo, vontade e razão em perfeito equilíbrio. Quando estão juntos, é curioso como até o rosto parece saber com firmeza aonde vai.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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