Nenhuma Coisa é Só uma Coisa
Levante uma pedra do chão. É apenas uma pedra, você dirá — e é nesse ponto que você já cometeu um engano. Pois por trás daquela pedra existe um vasto mundo que a sustenta em sua essência, e a maior parte de nós atravessa a vida sem perceber, recolhendo pedras como se estivesse buscando trocados no bolso. Este texto trata de perceber algo que sempre esteve presente, ao nosso lado, o tempo todo.
Gabriel G. Oliveira
8/12/202621 min ler


Deus em Cada Pedra e o Encerramento das Caixinhas
Deixe-me conversar com você de uma maneira que, talvez, ninguém tenha feito antes — nessas conversas que surgem enquanto esperamos o ônibus no ponto, quando ele se atrasa e temos tempo para refletir, ou na varanda, com o café esquentando em nossas mãos. Este texto fala sobre como viver a vida. E você já começa de maneira errada: o que você quer dizer, Gabriel, ao falar sobre levar a vida? Eu te dou uma resposta imediata. Há muitas coisas que carregamos de maneira profana, e quando digo "um monte", estou sendo educado, pois, na verdade, é tudo. A vida toda a gente carrega como se fosse chão de terra batida, poeira, trocados — sem brilho, sem peso, sem mistério. Nós percorremos o mundo juntando pedras como se estivéssemos buscando moedas soltas no fundo do bolso, sem prestar muita atenção ao que estamos segurando. E não consegue perceber o sagrado que está ali, ao seu lado, o tempo todo. Eu não estou. Tudo o que vejo considero sagrado. Está tudo repleto da presença divina ao meu redor. Eu percebo a presença de Deus na pedra, no poste, na xícara rachada, e no homem que varre a rua às cinco da manhã, enquanto o restante do mundo ainda está adormecido. Não se trata de uma hipérbole ou de uma licença poética de um poeta tentando embelezar as coisas. É dessa forma, de maneira direta e sem filtros, que o meu olhar me revela o mundo desde que tenho consciência de mim mesmo.
Aí você já se considera muito esperto e responde: "ah, então tu é um santo, é?" De jeito nenhum, seu tolo. Tranquilize o seu coração. Em nenhum momento eu afirmei isso. Eu apenas tenho noção daquilo — e noção é uma coisa, santidade é outra coisa bem distinta, é de outro nível, e é um nível extremamente elevado, daqueles que a minha mão nem chega perto de alcançar. Um verdadeiro santo é Santa Teresa de Ávila, que escrevia com a alma exposta e ainda assim se divertia com suas próprias imperfeições. O verdadeiro santo é São Tomás de Aquino, que contemplou todo o universo, do mais insignificante ao mais grandioso, e, ao final, após uma visão, referiu-se a tudo aquilo como palha. O verdadeiro santo é o Padre Pio de Pietrelcina, que leva consigo os estigmas de Cristo em suas mãos. Não eu. Eu confronto meus sentimentos diariamente e, para ser sincero, nem sempre saio vitorioso nessa batalha. Há dias em que eu realmente luto, e luto com afinco, e vou para a cama ciente de que falhei. Então não me chame de santo, pois isso me deixa até um pouco constrangido, me causa uma certa vergonha. O que possuo não é santidade — é consciência. É ter a consciência de que existe algo ali, pulsante e respirando, mesmo nos dias em que eu não consigo estar à altura desse desafio. Ter a convicção do que é sagrado, mas não ser considerado santo, é quase uma forma de castigo, você sabia? É ver o que está acima e ainda assim cair no que está embaixo.
Agora me acompanhe novamente até a pedra, pois é a partir dela que tudo se origina. Quando olho para uma pedra no chão, percebo que ela pode abrigar um anjo ou um daemon — e quero esclarecer que me refiro à acepção antiga e grega da criatura espiritual que permanece ali observando e moldando, e não ao significado de capeta das animações exibidas nos desenhos de sábado de manhã. Há um anjo presente ali ou não? Isso eu não posso assegurar, não sou eu quem distribui anjos por metro quadrado. Há um princípio que mantém aquela pedra como ela é, exatamente aquela pedra e nenhuma outra, e disso eu tenho plena convicção até o mais profundo do meu ser. Reflita comigo, com calma. Para que aquela pedra seja exatamente como é, com seu contorno irregular, sua dureza e os minerais em constante conflito em uma dança química incessante, é necessário que haja algo que continue a moldá-la. Não se trata de dizer que o anjo reside dentro da pedra como um recheio de coxinha, pois não é isso que se quer afirmar. É que a estrutura daquilo necessita de alguém para persistir em sua forma, precisa de uma determinação que a mantenha unida para não se desintegrar. Aristóteles já havia explorado essa questão por meio da relação entre forma e matéria; Santo Tomás aprofundou ainda mais o tema, demonstrando que Deus não deixa a criação à mercê do acaso — Ele sustenta, organiza e delega, e faz isso precisamente para essas entidades inteligentes que a tradição designa como anjos. Houve um indivíduo extraordinariamente brilhante, conhecido como Duns Scotus, que criou uma palavra que me acompanha ao longo de toda a minha vida: haecceitas, a "isto-idade", a coisa que faz esta pedra ser ESTA e não uma qualquer. É exatamente isso que estou te falando. Nenhuma rocha é apenas rocha. Cada uma é um "isto" que alguém está segurando pra não virar poeira antes da hora.
E é aqui que reside o aspecto que mais fere a fé, meu amigo, aquele que causa mais destruição em pessoas do que qualquer tipo de perseguição, qualquer chama ardente, ou mesmo qualquer escárnio: a dúvida. Todo mundo acredita que a questão da fé reside no ateu externo que insiste em entrar, apresentando suas argumentações. De modo algum. A questão é o pequeno inseto que reside internamente, sussurrando suavemente "será?", "e se não for?", precisamente no momento em que você está quase completo. Aí você me responde: "ah, Gabriel, mas tem gente que não tem dúvida nenhuma." Sim, com certeza, eu sei disso. Mas deixe-me ser franco e dizer algo que pode soar áspero: uma boa parte dessas pessoas que "não têm dúvida" são aquelas que separaram a dimensão espiritual de sua vida cotidiana, guardaram Deus em uma gaveta, trancaram-na, e vivem tranquilamente, pois nunca se dão ao trabalho de abrir essa gaveta. E eu afirmo: isso está incorreto, meu amigo. Não é para dividir. Essa pessoa, no fundo de sua alma, não acredita realmente — ela apenas nutre a esperança de que aquilo seja verdadeiro. É belo, é sincero, é bastante humano também. É esperança, mas não é garantia. De dentro dela, surge uma pequena voz sussurrando que "provavelmente isso não existe, mas eu quero tanto que exista". Isso é uma crença otimista, uma fé que se baseia na sorte. Não é algo que está entranhado na carne. Tenho essa questão bem resolvida. Pois, ao contemplar o outro lado, você perde a possibilidade de manter a dúvida — ela desaparece, se dissipa, e a liberdade de questionar cessa de existir. É como se um sapo saltasse diante de você e, ao olhá-lo, você se virasse para a pessoa ao seu lado, que, com uma expressão séria, afirmasse: "sapo não existe". Amigo, o sapo está coaxando na sua canela. Não há como debater isso. Não existe filosofia que possa sustentar isso. Eu observei. Quem vê, não esquece.
Eu entendi o motivo durante uma noite — eu tinha aproximadamente doze anos, minha mãe estava viajando, e meu pai decidiu me mostrar a origem de todo o conhecimento que ele possuía. Meu pai estava envolvido com a cabala prática, na sua vertente mais séria e impactante, e não naquela superficial, que se vende em lojas de shopping com pulseirinhas vermelhas. Ele preparava medicamentos e fazia orações sobre eles, seguindo todo um ritual. Havia remédios que, ao serem consumidos por uma mulher, ele já sabia quais filhos ela teria, se a doença a levaria ou não, e tinha conhecimentos que nenhum médico poderia obter apenas ao olhar para a pessoa. Ele me revelou que a origem de tudo isso não se limitava apenas ao cálculo do método cabalista — envolvia também a interação com essas criaturas. Naquela noite, ele organizou um ritual de invocação, uma teurgia inspirada em Tritêmio, e não foi em uma data qualquer: era o dia dedicado a Vênus. Duas velas, uma de cada lado, iluminadas. Um chá de erva venusiana preparado e colocado à frente do local onde a entidade iria se manifestar, para ser consumido posteriormente, já com a bênção realizada sobre ele. Ele invocou o anjo. Anael, o amor divino na cabala. E o anjo chegou. Apareceu como um fogo-fátuo branco, um pequeno incêndio branco que surgiu do nada, realizando aqueles movimentos característicos do fogo-fátuo. Ele parava no ar, ia para um lado, voltava para o outro, tudo isso em uma casa com o chão de pedra, seco, sem uma única poça d'água, sem nenhum pântano, sem nada no mundo que justificasse a presença daquele fogo ali. E aquele galho delicado, apenas com a extremidade levemente queimada, tocou suavemente a superfície do chá — e, diante dos meus olhos, a água se transformou em leite. Transformou-se em leite. Eu, que estava cético até o último cabelo, que apenas concordava para satisfazer o velho, senti o chão desaparecer sob meus pés. Pois, naquele momento, eu compreendi, sem precisar de nenhuma palavra, que tudo aquilo poderia realmente existir. Que todos os contos de fada que o mundo inteiro afirma com convicção serem verdadeiros, de fato, são reais. Isso, meu amigo, atingiu-me como um golpe no peito que ainda sinto até hoje e que levarei comigo até o fim da minha vida.
Com essa convicção enraizada em mim, retorno ao mundo e percebo as limitações mentais que as pessoas possuem, e isso me provoca uma espécie de aflição afetuosa, pois eu também já estive nesse lugar. A pessoa chega e afirma: "ah, mas talvez isso não aconteça porque Deus tem que seguir as regras do real." E eu digo: não seja tolo, meu filho. Pare um instante e reflita sobre a magnitude da disparidade que você acabou de mencionar. Deus é a vontade que constitui a realidade. De que maneira Ele precisaria respeitar a realidade, se a realidade é Ele desejando, é Ele proclamando "seja"? Se Deus fosse obrigado a se submeter ao que é real, então o que é real se tornaria um Deus superior a Deus — e assim, você criou para mim um Deus que está acima de Deus, uma esfera dentro de outra, e essa relação nunca se resolve, nunca toca o chão, permanece em uma queda livre eterna. Não se pode fechar, então não fecha. É fundamental termos consciência dessas questões e purificarmos nossa mente das correntes que, muitas vezes, nem percebemos que estamos arrastando pelo chão, causando ruídos. É nesse momento que eu convido o Tomás a se juntar a nós na mesa e lhe ofereço uma xícara de café, pois há ateus que gostam de afirmar que ter fé é simplesmente acreditar em algo que não existe, que fé é um palpite feito no escuro, que fé é desligar a mente. Isto é uma demonstração de falta de inteligência, e não sou eu quem afirma isso, mas sim Aquino, um dos mais brilhantes intelectos que já existiram na Terra. A fé fundamenta-se na realidade. A fé caminha lado a lado com a lógica, ambas unidas, uma apoiando a outra. Começando pela lógica: a base que fundamenta tudo deve existir, caso contrário, nada pode ser compreendido, e nada se mantém em pé, nem mesmo esta pedra que estou segurando, nem você, nem eu. E então — e aqui está o meu trunfo, que é exclusivamente meu — eu testemunhei. Portanto, combine as duas partes: o que a razão demanda de um lado e o que o olho presenciou do outro. Quando essas duas se encontram em um abraço no centro, é o fim, não há como retornar à descrença.
E você terá todo o direito de me questionar: "Gabriel, mas como é que tu vê o mundo desse jeito, do que que é feita essa tua cabeça?" Vou te explicar, e serei sincero em relação à peça estranha que recebi da fábrica. Minha mente é um tanto quanto savant. Eu realmente não aprendi corretamente as regras do português, e isso é uma confissão. Escrevo de cor. Memorizei cada palavra, seu formato preciso, assim como alguém que decora rostos. Se você me perguntar sobre as regras da crase, eu vou te encarar sem entender, como um boi parado observando um trem passar. Todos os vocábulos presentes neste texto foram registrados aqui devido à minha memorização da sua forma escrita, e não por conta do conhecimento das regras que a regem. E isso demanda uma memória tão vasta quanto um armazém capaz de abrigar caminhões, e eu possuo essa capacidade — meu cérebro me proporcionou isso sem custo algum, mas, em contrapartida, cobrou um preço em outra instância. Pois a mente que embeleza tudo é a mente que raciocina por meio de símbolos, e não por significados áridos, triturados, dispostos em ordem. Quando eu menciono a palavra "pedra" e te mostro uma, tu já tem a noção da pedra na hora: o formato, o peso na mão, o material de que ela é feita. Tudo mundo possui isso, é algo que vem padrão em qualquer um. No entanto, o que a maioria das pessoas não possui é essa dimensão religiosa, essa compreensão do sagrado que vem intrinsecamente associada, como parte do mesmo conjunto. Eu carrego essa camada desde a infância, mesmo antes de descobrir que ela tinha um nome. Eu concebo todas as ideias simbólicas simultaneamente, de uma só vez, para classificar algo como sendo aquilo. É dessa maneira que um savant opera internamente: tudo funciona em conjunto, simultaneamente, no mesmo momento. Não se trata de um pensamento linear e sequencial. É um acorde. Tudo acontece ao mesmo tempo, e gera som.
Além disso, essa é a parte que faz com que as pessoas me olhem de forma estranha quando compartilho na mesa. Estou em constante diálogo com Deus. Isso não é uma metáfora, nem uma maneira de se expressar. Na verdade, eu sou uma pessoa bastante solitária, e sempre fui assim desde a infância — por isso, em vez de dialogar comigo mesmo, eu converso com Ele. Não se trata do eu interior que finge ser Deus; não há confusão nesse aspecto. É a porção das virtudes que, há tempos, Sócrates possuía e se referia como seu daimon, a voz interior que o direcionava para o bem, e que sempre que ele desconsiderava, as coisas acabavam se complicando. Os antigos chegaram a se referir a Sócrates como agathodaimon, que significa o bom espírito; além disso, houve quem indicasse que o Deus desconhecido que Paulo descobriu no Areópago de Atenas — aquele altar erguido "ao deus que ninguém conhece" — possuía exatamente essa mesma herança do Deus interior dos gregos. Então, eu sinto essa mesma pressão no peito. Depois de tanto refletir — pois minha mente está em constante atividade, meditando sem parar, vinte e quatro horas por dia, sem pausas para comerciais — essa parte ideal começou a me responder. Não se trata de "ah, estou conversando com meus próprios pensamentos", pois isso é muito superficial. É como se houvesse uma parte de mim que é alguém diferente, residindo dentro de mim, permeando-me de maneira transversal, representando o eu ideal que não consigo alcançar. A gente bate um papo como se fôssemos dois amigos de esquina. Eu chego a reclamar com Ele, xingar, discutir, bater o pé — e, no final, sempre que eu ignoro o que Ele me fala, as coisas saem do meu controle. Eric Voegelin, um homem que dedicou sua vida ao estudo dessas questões de forma impressionantemente séria, tinha um termo para designar este lugar em que habitamos: metaxy, o entre, o espaço intermediário, situado entre o humano e o divino. É essa tensão que sentimos ao estar com um pé firmemente plantado na terra e a alma elevada para o alto, como uma corda de violão esticada. É exatamente nesse lugar que eu resido, nesse espaço apertado e distante. Quem sabe eu experimente algo mais profundo com Deus, ou quem sabe minha consciência seja mais elevada em comparação à maioria das pessoas — quem sabe, sem falsa modéstia ou arrogância, deixo essa questão em aberto. Mais santo, repetidamente, não. Está na prateleira de cima, a outra, a de cima, é a de Santo. Sou apenas um indivíduo que se encontra preso em um limbo, e ao longo do tempo, aprendi a conversar com aqueles que estão do outro lado da parede.
E é exatamente daqui que surge a minha principal filosofia, aquela que defendo com unhas e dentes, e tudo mais que surgir, no Círculo de Estudos: não segmentar a vida em compartimentos distintos. Eu não consigo, e considero uma grande tolice quem consegue. Eu não faço distinção entre empresa, vida pessoal, vida espiritual e trabalho — não consigo compreender essa separação toda. Tudo é uma única vida, um único fluxo, uma única corrente de água indo para o mesmo destino. É um grande equívoco pensar que existem três versões distintas de uma pessoa: aquela que se comporta de uma certa maneira em casa, outra que adota uma postura diferente no ambiente de trabalho e, por fim, a que se apresenta de maneira ainda outra na igreja aos domingos. De jeito nenhum, cara. É a mesma pessoa, o mesmo indivíduo com a mesma essência. Ao chegar ao trabalho e fingir que a tua perspectiva metafísica sobre o mundo ficou pendurada no cabide na entrada, ao lado do casaco, tu não estás agindo de maneira profissional — tu estás deixando de ser quem realmente és. Você se transforma em um daqueles bonecos de posto de gasolina que balançam com o vento, fazendo movimentos divertidos para atrair clientes. Eu me recuso, de todas as maneiras possíveis, a ser um marionete ao sabor do vento. Porque mesmo a pessoa mais ao fundo da fila desempenha um papel importante na história — não é apenas o indivíduo de terno que está no topo e aparece na imagem. Se o indivíduo lá em cima não tivesse todas as pessoas ao seu redor sustentando o mundo junto com ele, ele nem sequer existiria, pois desmoronaria. A existência é como uma rede onde as pessoas se apoiam umas às outras, garantindo que ninguém tombe. Eliminar Deus dessa situação, ou ainda mais grave, desviar completamente o seu olhar no momento em que o relógio marca o fim do expediente, é como cortar a teia no meio e agir como se não tivesse sido você a fazê-lo.
Devido à minha mente incessantemente ativa, ocorre algo até mesmo curioso do lado de fora: em certas ocasiões, quando alguém está conversando comigo, eu pareço estar ausente, como se tivesse desaparecido. Ele acredita que eu estou distraída, que minha mente está divagando em outro assunto qualquer. Não estou. Estou prestando atenção em cada palavra que ele diz, refletindo sobre o que ele fala com cuidado — mas, ao mesmo tempo, há um raciocínio completo em andamento, em modo de espera, funcionando incessantemente no fundo da minha mente, como um motor ligado em ponto morto. Não se trata de pensar em duas coisas simultaneamente, pois ninguém no mundo é capaz disso; é uma tolice de quem se considera superior. É que, enquanto ele se expressa, eu vou relembrando continuamente, com pequenos significantes, como alças e ganchos, que mais tarde me permitem reviver a conversa por completo sem perder quase nada do que foi dito. Então ele silencia, para de falar, e eu retorno rapidamente a tudo aquilo novamente, para amarrar, para garantir que não escape. Eu percebo o mundo de forma semelhante. Não adianta você chegar com o "ah, mas todo mundo vê assim". Não enxerga, não. Realize o teste que vou te ensinar agora mesmo, usando uma cadeira simples, e você vai perceber de forma intensa algo que não consegue ver.
Escolha uma cadeira, qualquer uma, mesmo a mais simples da casa. Aproximando-se de alguém, pergunte: "me explica tudo o que é essa cadeira, tudo mesmo, não importa se parece bobo ou ridículo, me fala." O que a pessoa dirá? "É de plástico, tem quatro pernas, serve pra sentar." Ponto final, suspirou aliviada. Você está correta, ela não está mentindo nem se equivocando em suas afirmações. Mas observe com atenção o que esteve ausente. Faltou o restante do mundo todo. Se eu fosse o responsável por descrever aquela cadeira, iniciaria pela questão do plástico e, é claro, pelas quatro pernas, sem desmerecer o que é evidente — mas definitivamente não ficaria por aí. Eu diria que aquela cadeira possui suas qualidades ligadas a conceitos metafísicos de um mundo que foi concebido por uma grandiosa inteligência da natureza, o Deus que criou tudo, que originou, a partir de si mesmo, diversas pequenas inteligências — algumas denominadas anjos, outras chamadas de daemons, ou ainda referidas como inteligências da natureza; o nome é o que menos importa — que se dedicam a zelar para que as reações químicas e físicas ocorram da maneira precisa como acontecem, e não de outra forma. A cadeira só opera porque elas estão constantemente empurrando, como escravos de um motor; na verdade, essas inteligências se ajustam ligeiramente o tempo todo para que a situação permaneça como é ou para que se transforme em outra coisa, de acordo com a vontade suprema. Além disso, existe a camada superior, a mais profunda de todas: o que aquela cadeira representa no alto, para Deus e para os planos superiores? Como costumava afirmar o professor Olavo, com seu tom característico, Deus não se revela apenas através da palavra — Ele se manifesta tanto por meio da palavra quanto por objetos e ações, por meio dessa semiótica, desse simbolismo presente na realidade, que atua como uma assinatura abaixo de uma pintura. Cada objeto requer sua própria sutileza: não é possível descrever uma cadeira da mesma forma que se descreve uma folha de árvore. A folha solicita uma nova conversa, com um tom diferente. No entanto, tanto a cadeira quanto a folha clamam de maneira semelhante do seu íntimo: eu não sou apenas aquilo que os teus olhos conseguem perceber.
Veja bem, isso não se limita apenas à pedra e à cadeira. Isso se espalha por tudo, até mesmo para aquilo que as pessoas acreditam ser trivial ou imaturo. Quando eu era criança e devorava as histórias do Superman — assim como outros liam a Bíblia com fervor — não enxergava apenas um homem de collant voando pelos ares. Eu observava a bondade personificada em uma pessoa, e além disso, eu via Cristo refletido dentro dele. Não estou dizendo que o Superman seja Cristo, com calma, ele é o Superman, cada coisa em seu devido lugar — mas aquele "S" dentro do losango virou, pra mim, uma janelinha, uma fresta. Eu o observava e imaginava meu pai vestido como um cabalista para realizar os rituais, com as cores utilizadas pelos antigos herméticos, que se assemelhavam quase às mesmas do uniforme; eu visualizava o bombeiro enfrentando as chamas para resgatar pessoas de dentro; eu via o policial na esquina; eu enxergava toda a gente valiosa que a história já conheceu, acumulada naquele símbolo. Eu enxergava o sagrado residindo em uma história em quadrinhos simples e barata. Mircea Eliade elucidou isso de uma maneira que eu nunca conseguirei replicar: ele se referia a isso como hierofania, quando o sagrado se manifesta através de um objeto profano — seja uma pedra, uma árvore ou qualquer fragmento do mundo que, de repente, brilha internamente e se transforma em uma conexão com o divino. Para o homem que possui uma fé profunda, o homo religiosus que ele representa, nada é simplesmente nada; para o homem moderno, que perdeu a sacralidade e vive sem Deus, tudo se transforma em matéria inerte, poeira desprovida de alma, e é exatamente por essa razão que esse infeliz se sente tão vazio, tão desorientado. Chesterton expressava a mesma verdade de uma maneira diferente: o mundo é repleto de encantamento e os contos de fadas são muito mais reais do que estamos dispostos a reconhecer, pois eles nos lembram que a maçã poderia, de fato, não cair da árvore, assim como o sol poderia simplesmente não nascer amanhã — e, mesmo assim, ele nasce, dia após dia, como um milagre persistente que deixamos de notar. Quando Cristo afirma "vós sois deuses", Ele se refere à mesma dignidade oculta dentro de cada um de nós. Até mesmo os deuses pagãos, que eu acreditava, na minha infância, serem meras histórias para boi dormir, tornaram-se uma realidade para mim — não como objetos de adoração para me prostrar, mas como representações, combinações de informações oriundas da natureza: o Júpiter associado a tudo que gera e se expande, o Saturno relacionado às coisas que possuem peso, que limitam e que promovem a maturidade, tudo aquilo que a antiga alquimia já interpretava como a assinatura do alto manifestada no mundo inferior.
E foi assim que comecei a ver o mundo, conforme os ensinamentos do Olavo, que se encaixaram perfeitamente na minha maneira de pensar: observe tudo como se fosse verdade, em primeiro lugar, sem rir, sem desdenhar. Em seguida, você pode aplicar a dialética clássica, proveniente do trivium e do quadrivium — pegando aquela tese e atacando-a com a antítese, com objeções, com tudo o que tiver à disposição, sem hesitar. Se a tese conseguir suportar todo o ataque, ela está alinhada com a realidade e é sólida. Se ela se desfizer no primeiro impacto, então seria uma mentira, e paciência, é melhor descartá-la e seguir em frente com a vida. Observe como é astuto: para atacar algo com vigor, primeiro é necessário permitir que essa coisa exista, olhar para ela como se fosse possível, e dar-lhe a oportunidade de se defender. O ateu não age dessa forma, e é nesse ponto que ele se revela. O ateu que me ensinava na escola, aquele que insistia veementemente que tudo era explicado pela ciência e que a ideia de Deus era apenas uma fábula para enganar os fracos, nunca teve a ousadia de participar de um ritual esotérico para comprovar de fato se aquilo era real ou não. Ele permanecia à distância, o suficiente para suspeitar tranquilamente, como um espectador. Estava apavorado de me aproximar e olhar com meus próprios olhos. Porque olhar transforma tudo, observar não permite que reste nenhuma dúvida. Eu testemunhei.
Aí alguém se ofende um pouco e responde: "ah, Gabriel, mas eu também não separo, eu também vejo Deus nas coisas, viu." E eu afirmo, com todo o afeto possível, sem a intenção de menosprezar: você realmente se destaca, meu amigo. Eu te desafio imediatamente. Se eu te apresentar a cadeira e te solicitar todos os significados que ela pode ter, naquele instante preciso, e se o aspecto espiritual não vier à tua mente porque simplesmente não te ocorreu naquele momento — então tu não compartilhas da mesma perspectiva que eu, nem aqui, nem na China, nem em qualquer lugar do mundo. Isso não é um erro seu, preste atenção, não é falta de inteligência da sua parte. Ninguém jamais te forneceu o vocabulário necessário para lidar com isso. Ninguém te ofereceu as palavras de forma tão fácil. A catequese que eu recebi, por exemplo, era extremamente dolorosa — ensinava as crianças a decorar os nomes dos objetos sem nunca permitir que elas compreendessem a verdadeira essência do que eram por dentro. Recebi a primeira comunhão sem compreender o que significava, simplesmente engolindo sem entender. Eu realmente compreendi anos depois, e o mais curioso é que não foi inicialmente através da leitura de Tomás — foi lendo Aristóteles, com meu pai ao meu lado, que adquiri a noção de substância muito antes de qualquer catecismo mal ensinado. Só então surgiu o Aquino, quando eu tinha cerca de doze anos. Aí o pão realmente se tornou significativo. Aí eu percebi de que forma Deus poderia estar presente naquele pequeno pedaço de pão. Quantas pessoas saíram daquela mesma sala sem compreender nada e foram embora, transformando-se em algo diferente, mudando até mesmo de religião, porque ninguém ali se esforçou para que a criança realmente entendesse o que estava recebendo? A dimensão do sagrado está acessível a todos, é gratuita e democrática. A questão é que raramente alguém recebe as orientações adequadas para perceber o que está claramente diante de si.
Concordo com o aspecto que causa desconforto, pois é necessário que incomode; caso contrário, não tem valor. Você pode se voltar para mim e afirmar: "então, Gabriel, no fim das contas, tu peca porque quer." Peco. Com certeza eu cometo erros. Todos pecam por vontade própria, meu amigo, essa é a verdade que muitos não querem ouvir. A única diferença é que alguns reconhecem que aquilo é um pecado e sentem o peso disso, enquanto outros simulam que não compreendem para poderem dormir em paz. Apenas o pagão, lá no distante fim do mundo, em uma aldeia esquecida no meio da vegetação, vivendo de acordo com uma ética que lhe é totalmente própria, talvez não consiga identificar aquilo como pecado — e mesmo assim, mesmo ele, na escuridão, sente uma pulsação em seu peito que o faz pensar que "isso aqui tá errado". Essa voz invadiu sem pedir permissão. Ela já está inclusa, desde o início, juntamente com o ser humano. É a mesma voz que chamava Sócrates pelo braço, é a mesma que me responde de dentro quando eu permaneço em silêncio por muito tempo. E, quem sabe, ela seja a mais barata e a mais insistente de todas as provas de que nada é apenas uma coisa — nem a pedra, nem a cadeira, nem a folha, nem você, que está aí agora lendo isso e pensando que é apenas carne e osso passando o tempo até o momento da morte.
Portanto, é exatamente isso que venho lhe dizendo desde o início, meu estimado amigo, enquanto o café já esfriou na mesa. Não estou afirmando que eu seja superior a qualquer pessoa, muito pelo contrário, pois sou constantemente desafiado pelos meus afetos a cada dia. A questão é que eu realmente não consigo tirar isso da minha mente. Enquanto o mundo inteiro teima em afirmar que pedra é pedra, cadeira é cadeira, folha é folha, e ponto final, eu persisto aqui, com o fragmento em mãos, escutando o coro que entoa suavemente por trás de cada elemento deste mundo. Não se trata de santidade, como já mencionei e reafirmo. É apenas um homem que, numa noite, quando tinha doze anos, testemunhou a água se transformar em leite bem diante de seus olhos e, desde então, nunca mais conseguiu ver o mundo de forma incompleta. Se você chegou até aqui, acompanhando a leitura até o final, talvez também esteja enfrentando dificuldades. Então, o que você deve fazer é pegar uma pedra do chão. É apenas uma pedra, você vai argumentar. Aí você passa um período em silêncio, observando-a na palma da sua mão, com o coração ligeiramente aberto, sem saber exatamente como lidar com aquilo que de repente você consegue perceber.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Loyola, 2001-2006.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.
ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Edipro, 2012.
BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002. (Salmo 82; Evangelho de João 10; Atos dos Apóstolos 17)
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.
CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
MORRISON, Grant. Superdeuses. São Paulo: Seoman, 2012.
VOEGELIN, Eric. A nova ciência da política. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.

Círculo de Estudos Nous
Explore o site e converse conosco no Instagram e YouTube:
Contato
Boletim informativo
@ nous_pva
© 2026. Círculo de Estudos Nous. Todos os direitos reservados.
