O Fogo da Vontade

Chega um momento na vida em que a alma desperta e se questiona sobre o propósito da existência. Quando ninguém dá uma resposta, o silêncio se torna uma arma que mata lentamente. Tiraram do jovem todo o céu e chamaram essa perda de liberdade. Sobrou-lhe a visão, e informaram-lhe que a visão era a realidade. Contudo, a chama que tentaram extinguir ainda queima, e seu nome é esperança. O céu se abrirá para aqueles que tiverem a ousadia de levantar o olhar. A perspectiva é apenas um ângulo; a realidade é a casa por completo. Nenhuma cinza é permanente enquanto sobrar uma brasa que questiona. E toda alma que busca por Deus já iniciou, sem perceber, o processo de iluminar-se.

Gabriel G. Oliveira

9/4/202631 min ler

A pergunta que veio de Krypto

Há uma fase — geralmente por volta dos dez anos — em que a criança começa a entender o que significa ser humano, a reconhecer sua própria identidade e a imaginar seu futuro. É nesse momento que a alma faz, pela primeira vez, a pergunta mais arriscada de todas: qual é o propósito da vida? Aqueles que enfrentam essa questão ainda na juventude o fazem quase sem perceber, assim como quem passa por um rio raso em uma manhã de verão. O verdadeiro caos é o do adulto que nunca passou por isso. Esse não sai barato. Cai em uma depressão profunda e, muitas vezes, chega a tirar a própria vida. Não escrevo isso como uma figura de linguagem. Escrevo porque observei. O homem que envelhece sem nunca ter encontrado uma resposta para a razão da sua existência carrega uma dor que o passar do tempo apenas intensifica. É sobre essa dor — e, principalmente, sobre a maneira de cicatrizá-la — que aborda todo este ensaio.

A lenda de Krypton continha a mesma questão em uma única frase. Quando o menino Kal-El é enviado à Terra, seu pai, inclinando-se sobre o berço que se afasta, expressa a angústia que sintetiza toda a modernidade: e se uma criança desejar ser mais do que a sociedade determinou que ela fosse? E se desejar ser alguém melhor, superior, algo diferente do que o padrão estabelecido para ela? Toda a tragédia do adulto da atualidade se revela na forma como ele responde a essa pergunta por meio de suas ações. O principal objetivo dos adultos atuais — e refiro-me primeiramente aos pais, depois à escola e, por último, ao Estado — é criar estruturas, até mesmo no ambiente doméstico, que reprimem os sonhos das crianças, substituindo-os pelos anseios que os adultos têm para com elas. Ele não deseja que o filho seja quem ele realmente é; anseia que o filho se torne aquilo que ele idealizou. O resultado dessa engenharia familiar é a produção em massa de crianças amargas, que crescem se estranhando com seus próprios pais, quando não chegam a odiá-los abertamente.

Eu conheci garotos assim, amigos da minha juventude, antes de se mudarem da minha cidade, que, em silêncio, chegavam a desejar a morte dos pais, tamanha a mágoa acumulada. Não se tratavam de monstros. Eram o resultado esperado de uma geração de pais que, crescida no pós-guerra e educada com base na desconfiança, aprendeu que tudo o que se padece é opressão e que todo outro pode ser um agressor em potencial. É necessário esclarecer, de forma clara, a origem desse veneno. Na segunda metade do século XX, ocorreu uma época em que a humanidade idealizou a aldeia global: as tecnologias, a comunicação instantânea e a internet em seus primeiros passos prometiam um mundo onde um jovem no Brasil pudesse dialogar com um jovem em Londres como se fossem vizinhos de parede, e onde essa proximidade acabaria por criar, finalmente, amizade e paz. O sonho era lindo e sincero. O que ninguém antecipou foi que, juntamente com os cabos e as antenas, chegaria um pequeno parasita ideológico — a noção de luta de classes, em sua forma mais simples — que se infiltrou primeiro na cultura, depois nas instituições e, por último, na própria essência das pessoas. Onde havia a promessa de fraternidade, surgiu a desconfiança. Ambos começaram a perceber no outro um opressor camuflado, e o mundo, que deveria se fechar em um abraço, se contraiu em direção ao medo.

Eu me refiro, no Círculo de Estudos Nous, a essa arquitetura discreta de coação de um demiurgo sintético: o sistema de poder social que cria o desejo do indivíduo e o persuade, sem que ele se dê conta, a desejar justamente aquilo que a estrutura requer que ele almeje. Denomino de hexagrama da perdição o sistema que impulsiona a consciência, por meio de seis caminhos convergentes, na direção da subjetivação de tudo. O nome é menos relevante do que o impacto. O resultado é o seguinte: o jovem se desenvolve dentro de um sistema que o convence, dia após dia, de que ser adulto é se submeter, de que ter uma opinião é apenas reagir, e de que a própria realidade não passa de mais uma história entre tantas. É contra esse aparelho que se faz a escrita.

Existe um sintoma dessa enfermidade que requer uma análise cuidadosa, pois é nesse momento que o parasita se torna perceptível. Falo sobre o que denomino de gnose psíquica, a lógica interna do ressentido. Funciona dessa forma. Uma pessoa pode cultivar, por ciúmes ou por uma mágoa passada, uma aversão silenciosa por outra. Basta uma discussão, um conflito, um desentendimento qualquer, para que se forme a fissura por onde tudo escapa. A partir desse ponto, ela passa a juntar pedaços — uma frase que escutou de forma indevida, um movimento, uma lembrança do passado, um pormenor fora de lugar — e a unir todos esses fragmentos em uma única teoria, uma bola de neve que cresce até se tornar uma avalanche, onde, no final, o outro se torna o mal supremo. Trata-se da elaboração de uma conspiração pessoal dentro de um único cérebro: uma conclusão que apenas aquela pessoa, e ninguém mais, conseguiria alcançar a partir daquele conjunto de informações, uma vez que a conclusão foi estabelecida antes mesmo das evidências. O ressentido nunca faz perguntas ao outro; nunca busca entender; nunca confirma. Ele sempre faz interpretações baseadas na pior suposição possível, pois para ele, a maldade é a maneira natural de enxergar o mundo.

Aqui é fundamental uma diferenciação que quase ninguém realiza, e cuja falta é uma das principais ruínas intelectuais do nosso tempo: a distinção entre a lógica interna de uma mente e a lógica propriamente dita. O que o ressentido denomina de raciocínio é, na verdade, o encadeamento particular de seus preconceitos, um sistema isolado que opera perfeitamente dentro de sua lógica, mas que não consegue resistir a qualquer interação com a realidade externa. Nunca se deve confundir a gnose pessoal de um indivíduo — a maneira específica como ele analisa e compreende a realidade — com a lógica investigativa, aquela que foi estabelecida por Sócrates, Platão e Aristóteles, e que demanda, antes de tudo, sinceridade. Equivocar-se entre as duas é a origem do fracasso. É isso que leva um homem a confundir sua própria paranoia com dedução e sua própria mágoa com uma evidência.

Chego, portanto, ao cerne epistemológico da questão, ao ponto a partir do qual tudo o mais se origina. É a distinção entre a verdade interna e a verdade. Há, de fato, inúmeras verdades interiores, assim como existem pessoas, pois cada indivíduo possui sua própria perspectiva, seu ângulo único, sua maneira particular de compreender a realidade. Isso pode ser considerado verdade, se assim desejarmos, mas apenas sob a ótica da perspectiva subjetiva. A verdade, na sua essência, é a realidade em si, e essa realidade não se adapta às nossas interpretações. A gnose interior se refere ao saber que extraímos da realidade, passando por nossas percepções mentais até chegar a uma conclusão; no entanto, essa conclusão não representa a realidade, mas sim a nossa interpretação dela, sendo que a realidade é sempre muito mais vasta do que imaginamos. Por isso, não adianta me trazer essa história das muitas verdades como se fossem várias realidades. Aquele que mistura sua própria visão de mundo com a realidade do que a vida realmente é comete um erro básico, e é dessa falta de discernimento que se nutrem todas as seitas — sejam religiosas, políticas ou terapêuticas — que, atualmente, atraem os jovens. Estamos, como frequentemente menciono, na era da gnose: a época em que cada um considera sua própria percepção como a regra do universo.

Vamos passar do conceito para a prática, pois um conceito sem aplicação não convence ninguém. Uma vez, uma amiga me procurou para falar sobre o marido, que era meu amigo. Ela dizia que o homem era um péssimo companheiro, e cabia a nós, amigos dele, informá-lo sobre isso, ou ela ameaçava abandoná-lo. Quando passei a escutar os motivos, percebi que estava frente a algo que não era apenas um problema de casal, mas a necessidade de revisar toda uma gramática afetiva. As reclamações eram todas da mesma família: ele a abandonou quando ela se transferiu para a cidade dele; ela se casou para ter uma companhia e não para viver sozinha. Eu lhe respondi o que ainda mantenho até hoje. Casar não é simplesmente adotar um cachorro para aliviar a solidão, que pode vir a falecer em quinze anos; casar é comprometer-se com uma entrega mútua. E ali estava o vício de origem: ela afirmava desejar um parceiro, mas na verdade almejava alguém que a suprisse em tudo sem que ela precisasse oferecer nada, que completasse cada lacuna sua sem exigir nada em troca. Notei que havia tornado o casamento numa oração invertida — não o venha a nós o vosso reino, mas o venha a mim aquilo de que eu necessito. Indaguei a ele se havia se empenhado bastante. Ele respondeu que tinha dado. Entretanto, oferecer algo em troca do que se recebe, eu lhe disse, não é realmente dar; é sim cobrar. Um ano depois, o esposo veio me agradecer quase de joelhos: aquela conversa, assim como a de outros amigos, salvou o casamento, pois a esposa, ao ser confrontada com sua própria lógica, acabou mudando. Conservo o episódio não pelo final feliz, mas pela lição que traz: existe uma maneira de amar que é somente um desejo disfarçado de presente, e ela prejudica tanto homens quanto mulheres.

A doença possui um arquétipo, e é importante nomeá-lo, uma vez que a modernidade o transformou em um ideal. Eu o chamo de Jurandir. É o homem cuja vida se centra totalmente em seu próprio prazer: bebe, engana, persegue com uma devoção quase religiosa a diversão e a satisfação, e tem uma ética totalmente distorcida, construída para validar o que já pretendia fazer de qualquer maneira. No primeiro livro da Ética a Nicômaco, Aristóteles já expôs tudo que havia a ser dito sobre esse tipo, ao classificar a vida totalmente voltada para o prazer como a vida que pertence aos animais que pastam. Não se trata de um insulto, mas sim de um diagnóstico: aqueles que estruturam sua vida em torno do apetite não se diferenciam, em essência, do animal que busca o melhor pasto, a água mais pura e a melhor luz do sol, sem almejar nada além disso. O que causa indignação é que a revolução sexual elevou exatamente esse tipo de homem à condição de exemplo de masculinidade. Antes dela, o Jurandir era visto de forma negativa, rejeitado pelos outros homens e considerado uma figura patética; após conhecê-la, ele se transformou e se tornou um exemplo. O aspecto mais doloroso dessa narrativa é que uma boa parte do moralismo atual, que se diz oposta ao patriarcado, se torna, sem perceber, a raiz ideológica desse estereótipo — pois, ao desconstruir a masculinidade tradicional, abriu espaço para que apenas a versão caricaturesca e dionisíaca do homem permanecesse.

Dessa forma, surge um dos paradoxos mais analisados e menos entendidos da vida emocional contemporânea, e peço a permissão para apresentá-lo com a sinceridade que ele requer, sem transformar ninguém em uma caricatura. A partir da análise da minha própria trajetória e da de diversos amigos, cheguei a uma conclusão que a experiência tem reafirmado repetidamente: há um descompasso comum entre o modelo de parceiro que muitas mulheres afirmam querer e aquilo que realmente as atrai. O ideal apresentado é, muitas vezes, o príncipe encantado, o jovem de bom coração; no entanto, a atração, com frequência, se volta para o arquétipo oposto, para o homem cuja moral é relaxada, mas cujo exterior se encaixa no estereótipo que a cultura lhes impôs desde a infância, muitas vezes na figura do próprio pai. O jovem virtuoso é, então, visto como fraco, não por ser realmente fraco, mas por não se encaixar no padrão. Não expresso isso para julgar ninguém; compartilho porque é um fenômeno verdadeiro e doloroso, e porque a solução não está em acusar, mas em entender que o desejo, quando não é guiado pela virtude, segue padrões que não escolhemos e que muitas vezes atuam contra a nossa própria felicidade.

No cerne de tudo isso, está uma questão de ética, e o mundo se recusa a reconhecer que é disso que se trata. Grave bem esta frase: tudo é ética. A distinção fundamental entre o homem clássico e o homem moderno, assim como entre a mulher clássica e a mulher moderna, reside na diferença entre uma ética objetiva e uma ética subjetiva. Aquele que adota uma ética subjetiva considera o bem e o mal como questões internas, que dependem de sua própria percepção, e não de Deus, da realidade ou de qualquer algo que esteja além dele. Se você tirar o sentido de um homem, a sua ética se tornará subjetiva na mesma hora — não há como evitar. Diversos ateus militantes, até mesmo aqueles que almejam a erradicação de todas as religiões, afirmam que existe, de fato, uma ética objetiva. No entanto, quando questionados sobre qual é o objetivo final dessa ética, costumam responder que é a melhoria da humanidade. E ao serem indagados sobre que melhoria seria essa, passam a listar preferências pessoais camufladas como princípios universais. A ética que se apresentava como objetiva demonstra, quando analisada mais a fundo, ser tão subjetiva quanto qualquer capricho. Uma sociedade que perdeu o critério objetivo do que é bom está fadada a resolver tudo na base da força de quem fala mais alto.

É neste ponto que os movimentos ideológicos se inserem, e é necessário examiná-los com a atenção que Eric Voegelin nos orientou, considerando-os não como partidos, mas como o que realmente representam: seitas gnósticas contemporâneas, tentativas de concretizar a salvação, de trazer para o interior da história um paraíso que a própria história não consegue oferecer. O equívoco de quem os enfrenta de maneira inadequada é resumir seus argumentos a rótulos; a correta abordagem consiste em analisar a lógica interna de cada um até suas últimas consequências. Porque toda ideologia, quando é lida palavra por palavra, ao se considerar a totalidade do que ela propõe e se seguir suas diretrizes até o final, leva ao radicalismo — mesmo que a maioria de seus adeptos nunca chegue a esse ponto, permanecendo, por bom senso ou medo, em um estágio intermediário. Existem diferentes formas dessa lógica, mas uma que me parece a mais sombria de todas é aquela que descreve com exatidão o funcionamento que destrói a esperança: a que afirma que não haverá nenhum tipo de redenção enquanto um determinado grupo de pessoas não for extinto da face da Terra. É a lógica da eliminação, a esperança distorcida em destruição, e ela se oculta sob a aparência de justiça. Quando um movimento começa a ensinar que a felicidade de alguns depende da eliminação de outros, ele deixa de ser uma causa e se transforma em seita, independentemente de usar a linguagem de raça, classe ou gênero.

Reconheço a validade da objeção de que nem todo militante é radical, e isso é verdade: a grande maioria das pessoas envolvidas nesses movimentos não é mal-intencionada, apenas está ferida. Trata-se de pessoas que enfrentaram uma vida difícil, que receberam pouco amor, que associam sua própria dor a uma perspectiva de mundo, e que, desse modo, se apegaram a aquilo que promete restituir-lhes um certo poder e um sentido de pertencimento. Sinto por elas uma compaixão genuína, e afirmo isso sem ironia: grande parte da minha aversão a certas ideias vem da pena que sinto por quem as defende. Entretanto, o que a objeção não considera é o seguinte: a bondade dos adeptos não reabilita a lógica do sistema, e muitos dos líderes desses movimentos não são vítimas inocentes — são pessoas que têm plena consciência de suas ações. É por isso que defendo, em contrariedade à tendência pacifista atual, que a polarização possui um valor. Ela brilha. Ela revela, de forma clara, quem realmente quer a sua ruína e quem apenas se deixou levar por ilusões ao longo do caminho. O equívoco do ingênuo é observar aqueles que apoiam o pior — a opressão dos mais fracos, a eliminação dos inocentes — e tratá-los como amigos, entregando-se de mãos vazias a quem, caso tivesse a oportunidade, o subjugaria. Eu não defendo o ódio nem a violência contra ninguém; defendo a clareza de pensamento, a rejeição de um pacifismo ingênuo que confunde suavidade com falta de percepção, e a determinação de quem, no debate, não se intimida diante de quem deseja seu mal.

Há uma etapa decisiva nesse processo de dissolução, e ela é de natureza teológica antes de se tornar política. O projeto mais recente — chamem como preferirem — é amalgamar todas as religiões em uma espécie de paganismo reiventado, uma teosofia universal onde tudo é aceito, pois tudo é igualmente verdadeiro. Aqui, a lógica se vira contra aqueles que a defendem, em um argumento que julgo ser determinante. Se todas as religiões são verdadeiras, se toda interpretação é válida e se todos os caminhos levam igualmente ao divino, é necessário reconhecer que todos os sacramentos são equivalentes — incluindo aqueles que, em algumas tradições, exigiram o sacrifício de vidas humanas. O relativismo religioso, quando praticado com sinceridade até o final, não resulta em uma tolerância gentil; acaba na incapacidade de rejeitar o horror, pois se desvinculou de si mesmo o critério que possibilitaria sua condenação. Uma teosofia que funde todas as crenças em uma só também dissolve qualquer barreira moral, e o que se mostra como um abraço termina sendo a eliminação do próprio conceito de sagrado.

Não criei esse impulso sincretista; ele possui exemplos históricos sólidos, que venho analisando há anos e que cito aqui de forma estrutural, sem entrar nos pormenores de qualquer rito. Existem tradições que entrelaçam cristianismo e paganismo de forma harmônica: os galdramenn da Islândia, que conectam a fé cristã ao folclore nórdico; a umbanda, que amalgama influências africanas ao catolicismo popular; e algumas correntes do vodu moderno, que surgiram na América e fundiram o culto africano ao cristianismo, ao contrário do vodu genuinamente pagão de sua origem. Anoto que essas leituras são minhas, interpretações de quem analisou o material, e não dogmas históricos imutáveis; porém, o padrão que elas revelam é autêntico. Em todas essas situações, ocorre uma fusão, e quanto mais extensa for essa fusão, mais frágil se torna o lastro, até atingirmos o ponto máximo em que uma doutrina como o budismo pode sustentar a coexistência de todas as religiões — e, ao fazer essa afirmação, pode perder completamente o lastro, já que aceitar todas as crenças como verdadeiras é equivalente a recair na teosofia e, por consequência, na equivalência de todos os sacramentos, incluindo aqueles que desrespeitam a dignidade do ser humano.

O que muitos não notam é que a origem desse relativismo é mais antiga e mais próxima do que se supõe, e se enfoca nas próprias fundações da modernidade religiosa. A individualização da fé teve início, em grande parte, com a interpretação pessoal das Escrituras. Quando se afirma que cada pessoa pode interpretar a Bíblia conforme a sua própria consciência — levando ao extremo o princípio da sola scriptura — abre-se um espaço para que existam tantas verdades religiosas quantas forem as mentes, e a unidade só pode ser restaurada mediante uma ilusão: a de que o mesmo Espírito se manifesta em cada crença e aceita todas as interpretações, mesmo que sejam profundamente contraditórias. Essa obra de ficção foi desenvolvida, de fato, com um propósito elevado — evitar que sociedades cristãs se destruissem devido a divergências de interpretação. Entretanto, o preço foi extremamente alto: criou-se um amálgama sem definição, onde a virtude e o próprio conceito de bem se tornaram subjectivos, frequentemente a visão do pregador, que a considerava uma revelação e os fiéis a seguiam como se fosse a sua própria. Apresento isso como uma tese teológica, e não como uma decisão jurídica: onde a interpretação predomina, não existe uma ética objetiva; existe apenas o conhecimento interior de quem ensina, elevado à posição de norma.

E é precisamente esse mesmo raciocínio que, secularizado, ressurge na ideologia progressista. Refere-se à mesma estrutura — a interpretação pessoal como a principal fonte de significado — apenas adaptada a um gnosticismo sem Deus, que eu denomino, no Círculo de Estudos Nous, de messianismo apofático. O ateu radical não renuncia à esperança messiânica; ele a despoja de Deus e a direciona para o coletivo, fazendo com que o messias brote do próprio povo, se personifique no ditador e se realize na revolução. É a mesma busca por uma salvação histórica, o mesmo anseio por um paraíso que se manifesta, apenas sem a designação divina. Assim, a esquerda revolucionária e o protestantismo subjetivista, que à primeira vista parecem não ter nada em comum, compartilham uma mesma lógica subjacente: a de que o sentido não é fornecido pela realidade, mas construído pela interpretação, e a de que a redenção é criada na história por meio da ação do homem organizado.

É importante, para não perder a linha de raciocínio, recordar o verdadeiro significado da comunhão, uma vez que a modernidade a distorceu. Desde os primórdios — e em todas as principais tradições religiosas, muito antes do cristianismo — comunhão sempre teve um significado que vai além da simples convivência harmoniosa entre os fiéis. Isso representou uma verdadeira conexão com o divino, e essa conexão ocorria por meio de um ato, de um rito, através de um caminho sacramental. O judeu obtinha a expiação por meio do sacrifício, e o cordeiro sacrificado era a garantia dessa reconciliação; o cristianismo a realiza através da oferta. Quando se perde a via sacramental, sobra apenas o substituto: as boas ações como forma de reconciliação, as atitudes do fiel na sociedade ocupando o lugar do sacrifício. Registro isto como uma estrutura comparativa, e não como uma polêmica de bastidor: o que se apresenta é que a comunhão, em sua acepção tradicional e profunda, representa uma união efetiva com o transcendente, e não apenas uma coesão emocional de um grupo que se sente bem reunido. Reduzir a fé a mero companheirismo é despojá-la de seu conteúdo, e uma fé desprovida de uma verdadeira comunhão perde o alicerce que a sustentava.

Junte agora todo o quadro e você perceberá a estratégia. O que a máquina cultural faz com o jovem é fácil de descrever e devastador na realidade: elimina, um a um, os seus referenciais. Remove-lhe a referência de Deus, a referência de ética, a referência do sentido da vida, a referência do que deveria ser, a referência mesmo de virtude e de vício. No final, ele não possui referência de absolutamente nada. E tem pessoas que chegam aos vinte, aos cinquenta, aos setenta anos sem jamais ter conseguido retomar um único desses pontos de apoio, perambulando por uma vida sem direção. É exatamente por essa razão — e não por falta de caráter — que atualmente se observa tantas pessoas sem esperança afirmando que o mundo é um verdadeiro desastre sem solução. Foi-lhes retirada a base. E é por essa razão que homens que levam uma vida que parece ser invejável, pessoas ricas, sem necessidades materiais, cometem suicídio: porque não há quantidade de conforto que possa substituir o sentido da vida, e aqueles que apagaram o brilho da esperança na alma de uma geração não devem se surpreender com a quantidade de vidas que se apagam. Afirmo isso com toda a seriedade que consigo, pois aqui é onde o ensaio se conecta com a essência da vida e da morte: a busca pelo sentido não é um privilégio de filósofos; é uma questão de sobrevivência.

Chego, então, ao remédio, e ele inicia com uma diferenciação que pode salvar vidas quando é entendida a tempo: a diferença entre o sentido da vida e a vocação. O significado da vida é único para todos, e tem suas raízes na religiosidade. Além da religião, a vida não possui sentido algum, e o ateu genuíno que explode seu ateísmo em seu máximo terá que se alinhar a Albert Camus e reconhecer que a vida e a existência não detêm nenhum sentido intrínseco — essa é a única posição lógica que ele pode sustentar. Para aqueles que têm fé, no entanto, o propósito é evidente: santificar-se e auxiliar na santificação das almas. Não me refiro a já ser um santo; falo sobre o processo de se tornar uma pessoa digna e, em seguida, compartilhar essa dignidade com os outros, sob risco de, ao inverter a ordem, cair na hipocrisia repugnante de quem professa o que não pratica. Este é o fim último, e é o mesmo tanto para o operário quanto para o rei. A vocação é algo diferente. A vocação é um talento especial, algo em que cada pessoa possui uma facilidade que os outros não têm, a abertura pela qual sua essência se manifesta. O desespero do jovem contemporâneo surge exatamente da confusão entre os dois aspectos: ele procura no seu talento individual o significado completo da vida, e como o talento por si só não satisfaz sua necessidade de sentido, chega à conclusão de que a vida não tem valor. A vocação não define o sentido da vida; ela é a forma como cada pessoa experiencia o seu propósito. Entender isso é escapar da cilada.

A partir desse ponto, a orientação prática é clara e passível de verificação. Descubra o que você realmente sabe fazer bem, aquilo que você executa com facilidade e que para os outros seria extremamente difícil; é ali que, provavelmente, reside a sua vocação. Quando eu tinha doze anos, eu me destacava em física, em ciências, em tudo que fosse exato e teórico. No entanto, acabei me tornando filósofo — não por acaso, mas porque minha habilidade me permitiu mergulhar profundamente na disciplina até encontrar significado e gerar crises que contribuíram para o meu crescimento. E é neste ponto que preciso confrontar a objeção mais robusta em relação a uma afirmação que costumo fazer, pois ela realmente exige uma resposta sincera. Costumo afirmar que o trabalho meramente manual, voltado apenas para o lucro, não contribui para o crescimento espiritual, e acabam me acusando, com certa razão, de menosprezar a atividade honrosa de quem conserta uma máquina ou ergue um muro. A objeção é relevante, e reconheço os pontos que possui de verídico: toda a tradição cristã ensina que qualquer forma de vida pode ser um caminho para a santidade, que o carpinteiro de Nazaré santificou seu trabalho, e que se pode encontrar Deus tanto ao lavar pratos quanto ao escrever tratados. Entretanto, eu restringo o alcance da objeção e mantenho o cerne da minha afirmação: meu argumento sempre foi que o trabalho manual não é indigno; na verdade, nenhum trabalho, seja ele manual ou intelectual, é capaz de fazer a alma evoluir por si só, a menos que lhe seja acrescentada uma dimensão que estimule a reflexão interna — como o estudo, o ensino, o serviço ao próximo, a prática da oração, ou o enfrentamento das próprias crises. O lucro quita as despesas e é desejável que o faça; no entanto, o crescimento espiritual não surge da ação automática repetida, e sim daquilo que o indivíduo, em qualquer profissão, decide adicionar ao ato. Faço, então, a correção do que a formulação precipitada tinha de injusto e mantenho o que ela possuía de verdadeiro.

Existe uma realidade dura sobre o trabalho no mundo tal como o conhecemos, e essa verdade se relaciona diretamente com este mesmo capítulo da existência. Quando comecei a trabalhar, ainda adolescente, cometi o erro de todo iniciante: fazia tudo o que mandavam, com afinco de quem quer provar o próprio valor. O resultado foi que passaram a exigir cada vez mais sem pagar nada a mais, e no dia em que recusei, veio a ameaça velada da demissão. Aprendi então o que quem trabalha há tempo já sabe: o esforço cego não é recompensado; é explorado. Ao trabalhador passivo, sentam-lhe em cima. Por isso digo, e a experiência confirma, que muitas vezes vale mais trazer ideias novas para dentro de uma empresa do que carregar peso como um jumento — porque a passividade convida ao abuso, ao passo que quem contribui com inteligência torna-se difícil de descartar. Não é cinismo; é lucidez sobre uma engrenagem real. Seja ativo, não seja o passivo de quem todos abusam, e não confunda servilismo com virtude.

O jovem que não vê esse mecanismo apodrece na inveja. Ele contempla os mais velhos — as gerações que viveram na maior pujança econômica da história, quando enriquecer era incomparavelmente mais fácil — e ouve dessas mesmas gerações, que herdaram um mundo próspero e o deixaram encarecido dez vezes, o dedo apontado e a palavra fraco. É natural que daí nasça um ressentimento, e é compreensível que parte da juventude o converta em adesão a movimentos que prometem culpados. Mas a saída não é o ressentimento; é a lucidez sobre a própria condição e a recusa de fazer da mágoa uma filosofia. Quem transforma a dor em pertencimento ideológico troca uma escravidão por outra, e os movimentos que dizem libertar são, com frequência, uma nova servidão: acorrentam o corpo e subjugam a alma, inclusive a de quem lhes é fiel.

O antídoto tem nome, e é o mais improvável de todos: o estudo, o estudo sério, feito com humildade e com o único método que funciona. Santo Agostinho é o exemplo eterno. Ele viveu de forma desregrada, imerso em seus próprios labirintos, até que a razão o guiou, dentro do cristianismo, para a compreensão do que realmente é o cristianismo. E se São Tomás de Aquino construiu, em seguida, a catedral tomista, foi, em grande parte, para educar aqueles que precisavam do básico: não é por acaso que a Suma Teológica era, no início da formação, a primeira e mínima leitura, a base a partir da qual se progredia. Costumam afirmar que Tomás é extremamente difícil, e eu sempre digo que Tomás é complicado apenas para aqueles que não possuem um bom embasamento. Aqueles que já exploraram o edifício grego — Sócrates, Platão, Aristóteles — identificam, no Aquinate, em grande medida, a mesma estrutura reimaginada e nomeada, e conseguem compreendê-la sem dificuldade. Desde os doze anos eu já organizava essas ideias, não por ser um gênio, mas porque não tinha preguiça de ler. A dificuldade que muitos mencionam não está na obra em si; é, na verdade, a própria preguiça que se nega a criar a fundação.

Não posso tratar da metafísica sem mencionar ao menos sua essência, pois é nela que o argumento se sustenta. Aristóteles, ao investigar o movimento, chega à conclusão do motor imóvel, ou seja, um princípio que provoca movimento sem ser ele mesmo movido, identificado pela tradição como Deus. Tomás, por sua vez, nas cinco vias, reinterpreta e adapta esse caminho à perspectiva cristã, demonstrando que a razão, quando seguida com coerência, leva à confirmação da existência do primeiro princípio. Na cosmologia tradicional, existem os motores subordinados — que uma parte da tradição interpretou como inteligências ou anjos, e que algumas leituras aproximaram das esferas da Árvore da Vida. E aqui preciso ser sincero em relação ao que estou afirmando: ao notar a relação entre a metafísica tomista e a cabala, e ao sugerir que Moisés Maimônides se inspirou profundamente em Aristóteles ao desenvolver o pensamento que levaria à tradição cabalística, estou fazendo uma inferência como leitor, e não apresentando um fato historiográfico definitivo. É sabido que Maimônides tinha uma profunda influência de Aristóteles; a conexão que estabeleço a partir disso é uma interpretação pessoal, e assim a apresento. Meu pai, na verdade, era o único homem que conheci que conseguia fazer esses paralelos com facilidade, e o motivo era sempre o mesmo: ele não tinha preguiça de estudar.

Duas lições de método são abordadas nesta parte, e devo grande parte delas ao professor Olavo de Carvalho, que foi, no sentido verdadeiro da palavra, um filósofo — uma pessoa com um corpo teórico, uma metafísica e uma visão de mundo bem estruturada — e não apenas um simples professor de filosofia, daqueles que transmitem o pensamento dos outros sem jamais ter refletido sobre o seu próprio. A lição inicial trata da importância da ordem na leitura: antes de criticar um autor, é fundamental compreendê-lo de maneira profunda, como se suas ideias fossem corretas, explorando suas fundações e reconstituindo o que ele realmente queria expressar; somente após essa compreensão é permitido levantar objeções, e estas devem ser analisadas pela lógica, e não pelos preconceitos. Abordar um autor com a intenção de descreditá-lo é uma das principais razões para a deterioração do intelecto, pois impede a compreensão do que realmente se está contestando. A segunda lição trata da importância de ser honesto nas opiniões: o professor Olavo afirmava que ninguém deveria fazer julgamentos sobre assuntos sérios sem antes ter lido, no mínimo, mil páginas de Platão e Aristóteles, e estava certo. Atualmente, todos têm uma opinião sobre qualquer assunto, e essa excessiva manifestação de opiniões, que se considera liberdade, é apenas uma maneira sofisticada de ignorância.

É nesse momento que se compreende por que a chamada pedagogia crítica, tal como foi popularizada em nosso meio a partir de Paulo Freire, me parece um erro com consequências duradouras — e ressalto que estou discutindo aqui a postura que se disseminou a partir dela, e não necessariamente cada detalhe da obra do autor, cuja leitura permite diversas interpretações. O que eu combato é o tipo de ensino que prepara o aluno para contestar antes de tê-lo instruído a entender. Para o adolescente que ainda não formou uma base sólida, apresentar a suspeita como a primeira ferramenta é confundir sua mente e desencorajá-lo em relação ao estudo, resultando na escassez de jovens verdadeiramente interessados em aprender. Duzentos anos atrás, existiam grandes pensadores e, mesmo entre aqueles que não eram, havia a modéstia de não opinar sobre aquilo que não se compreende. Redescobrir esse pudor é parte da cura.

Realizei, em uma ocasião, um pequeno experimento social em uma dessas praças digitais, e ele demonstra de maneira mais clara do que qualquer teoria o mecanismo que desejo apresentar. Eu expressei, de forma discreta, o que valorizo em uma parceira — aspectos básicos de saúde, de personalidade e de crença, nada que qualquer um não pense para si mesmo em segredo. A resposta foi instantânea e reveladora: inúmeras mensagens de zombaria, risadas e indignação, muitas delas de pessoas que, em seus próprios perfis, realizavam exatamente o que criticavam em mim, ou seja, listavam suas preferências. O que realmente chamou a atenção não foi a hostilidade em si, mas sim a sua gramática. Existiam ali dois vícios em funcionamento. A primeira questão é a hipocrisia do critério duplo: o que é aceitável quando eu falo se torna escandaloso quando é dito por outra pessoa. O segundo, mais profundo, é o uso da vergonha como uma ferramenta. A intenção do linchamento vai além de apenas discutir; busca desonrar, fazer com que a pessoa nem pense em continuar sendo quem realmente é. A explicação para essa engenharia da vergonha se tornou evidente para mim naquele dia: aqueles que se negam a se transformar no estereótipo vivo que a sociedade impõe são vistos como aberrações, como algo que merece ser eliminado. Aos que não se rendem, é direcionado todo o ódio acumulado.

Entendi, então, a lógica da cooptação, que é o núcleo de todo o cancelamento. E isso precisa ser expresso de maneira clara, embora com exatidão. O movimento — qualquer tipo de movimento ideológico — vê o membro como uma ferramenta. Enquanto ele atua conforme o esperado, recebe aplausos, é reverenciado e celebrado. Quando uma pessoa se recusa a fazer algo que a maioria espera, ela é imediatamente rejeitada, e não de maneira silenciosa: é ofendida, ameaçada e sua reputação é desmoralizada. Utilize-o enquanto lhe for útil; e será deixado de lado quando se recusar. É a utilização absoluta do indivíduo, convertido em um simples recurso e nunca considerado como um objetivo em si, enquanto o cancelamento representa apenas o ritual público dessa rejeição. Fui alvo de tentativas de cancelamento inúmeras vezes, desde sempre, por ter opiniões diferentes; nunca me deixei abater, e por isso cada tentativa foi apenas mais uma. Aqueles que fundamentaram sua postura na busca pela aprovação dos outros se dão conta, no momento da adversidade, de que construíram sobre terreno instável. Quem busca agradar a todos acaba se tornando um capacho de todos; não há como fugir dessa lógica.

O homem não consegue impor em si um desejo que não possui; a vontade pode ordenar diversas coisas, mas não consegue criar a atração onde ela não está presente, e Santo Agostinho, ao falar da vontade dividida, compreendia isso melhor do que ninguém. Por isso, vejo como um verdadeiro absurdo moral qualquer sistema legal que busque punir uma pessoa apenas por rejeitar um relacionamento afetivo ou íntimo. Onde a recusa se torna crime, o consentimento deixa de ter valor, e o que se consegue por meio da intimidação de um processo ou pena não é uma relação, mas sim uma coação. Um tio meu fez uma comparação direta e impactante: o amor é semelhante a uma necessidade física — se você tentar forçar demais, pode acabar em confusão. Não se pode impor o afeto sem degradá-lo, e uma sociedade que tenta regular a atração, na verdade, regula a servidão do corpo. Esse é o cerne da questão, desprovido de toda a polêmica: a liberdade de dizer não é a última barreira da dignidade, e quem a desmantela abala a própria ideia de consentimento.

Antes de apresentar a conclusão, preciso esclarecer um equívoco sobre o niilismo, pois ele destaca o contraste que me interessa. Frequentemente, o niilismo é creditado a Nietzsche, mas isso é um erro: o niilismo já existia antes dele, e o próprio Nietzsche, de sua forma trágica, possuía muito mais esperança na vida do que os niilistas passivos que atualmente afirmam que nada tem significado. Quando era jovem, fui um leitor fiel de Nietzsche, e, por sinal, sou um dos cristãos que mais o menciona, pois nele há uma rebelião contra o vazio que, por si só, é uma maneira enviesada de amor à vida. O niilismo genuíno dos tempos atuais não é aquele; é uma perspectiva de mundo pessimista que prega, das academias, que nada possui valor — e não é por coincidência que, entre as pessoas que conheci e que tiraram a própria vida, muitas compartilhavam essa visão sem sentido. Uma visão de mundo que afirma a existência absurda cria condições para a desesperança, e essa desesperança, quando completa, leva à morte.

Finalmente, chego à última solução, e ela carrega um nome que a contemporaneidade ignora por não conseguir entendê-lo: esperança. Acredito que a esperança é a origem de todas as virtudes e vou explicar o porquê utilizando o exemplo mais extremo de um ateu. O percurso para a saída, mesmo para aqueles que não acreditam atualmente, se inicia com um pequeno gesto de esperança: a esperança de que Deus possa, quem sabe, existir. A partir desse grão, alimentado por argumentos, evidências e uma análise sincera do que está à nossa frente, surge gradualmente a convicção; e dessa convicção brota a ética objetiva, a qual, por sua vez, gera a libertação em relação ao demiurgo sintético que consome os neurônios de uma geração inteira. Não existe um outro percurso. O que eu considero como ética objetiva não se trata de um preceito específico adquirido por hábito, mas sim de uma ética baseada na lógica — entendida da maneira como a definiram Sócrates, Platão e Aristóteles, da qual a honestidade acadêmica é uma parte indissociável. Alcançar essa ética é a única maneira verdadeira de um jovem escapar do labirinto, e é por isso que a esperança é o primeiro passo: porque sem ela, nem mesmo o primeiro passo é dado, e com ela, até o que parece impossível torna-se, gradualmente, possível.

Encontro a representação mais precisa dessa jornada em uma obra inesperada, e a ela me volto porque a arte, em algumas ocasiões, expressa o que o tratado não consegue transmitir. Falo de Neon Genesis Evangelion e do seu protagonista, Shinji Ikari, que é, literalmente, o homem contemporâneo: um jovem sem referências, abandonado pelo pai, criado quase de forma solitária, lançado em um mundo caótico onde jovens são forçados a se sacrificar por uma humanidade que mal conseguem entender. Hideaki Anno realiza o gesto mais audacioso que um criador pode ter — colocar uma criança desprovida de qualquer referência no meio do caos e retratar sua busca, contra todas as adversidades, por um significado que a sustente. Sempre tive uma preferência, em vez de um final mais grandioso, por aquele que muitos consideram peculiar, elaborado quase sem recursos. Nele, Shinji percebe o fundamental: há uma realidade além da qual ele se debate, um mundo superior, um propósito maior para a vida, e que a existência pode ser infinitamente mais extraordinária do que a sociedade lhe ensinou a acreditar. O que muitos consideravam impossível passa a ser viável com uma simples mudança de perspectiva — a perspectiva da esperança e da ação, a de quem não se conforma em ser passivo em relação à própria vida.

O que ocorre nesse trecho final, e resuma-o sem utilizar suas palavras, é uma ensinamento sobre metafísica camuflado em uma conversa. Afirma-se ali que é a nossa mente que distingue o real do que consideramos detestável, e que é o ponto de vista a partir do qual observamos que determina o significado do que percebemos, sendo que a mesma chuva pode simbolizar tristeza ou alegria, dependendo de como a recebemos. Afirmam que a verdade de cada pessoa é delicada, construída a partir dos pontos de vista que optamos; mas — e aqui está a conexão que une tudo o que venho defendendo — essa verdade é apenas a nossa perspectiva, a nossa compreensão interna, e não a realidade em sua essência, que é sempre mais ampla do que qualquer um dos ângulos. O drama de Shinji representa a luta do jovem que se detesta por nunca ter aprendido a se valorizar, que tem medo do que os outros pensam dele e, por conta disso, acaba se isolando; sua libertação acontece quando ele percebe que pode aprender a se amar e que a vida pode ter um significado muito mais profundo do que imaginava. O anime chega ao fim quando ele afirma, finalmente, que deseja ser autêntico — e é nesse sorriso que se concentra toda a argumentação deste trabalho.

Porque é sobre isso, no final das contas, que se trata. A visão do jovem atual está distorcida porque lhe tiraram o ponto de referência, e sobre esse vazio construíram a ilusão de que seu conhecimento interior é a verdadeira realidade. A esquerda — e uso a expressão no sentido exato da máquina de dissolução que venho descrevendo — captura essa perspectiva, que é apenas um ângulo, e a eleva à condição de verdade absoluta, criando as ilusões tecno-gnósticas de um mundo que seria apenas uma ilusão, almas adormecidas escravizadas por máquinas, realidades artificiais. É o tempo da gnose alcançando o delírio. Em relação a isso, a missão do jovem é única e desafiadora: encontrar uma base de ética objetiva; construir sobre essa base os fundamentos de uma vida digna; e, a partir desse ponto, seguir o propósito da própria vida por meio da própria vocação, sem se deixar influenciar pelo que os outros pensam. Aquele que se esforça para agradar a todos acaba se desmoronando; já quem se mantém firme em sua essência se mantém em pé, mesmo que enfrente críticas de todas as partes. Sejamos humanos, enxerguemos o próximo como uma pessoa que também comete erros, assim como nós. É importante entender que a esperança de Deus em relação à humanidade — de que ela possa alcançar grandeza, assim como muitos que começaram de forma medíocre — serve como um exemplo do que devemos ser uns para os outros.

Despojaram-no do céu e o chamaram de livre; ofereceram-lhe a perspectiva e afirmaram que era a verdade; extinguíram seu fogo e batizaram as cinzas de maturidade. Entretanto, a chama da vontade, a chama da esperança, não pode ser extirpada completamente: ela ainda brilha nas profundezas de cada jovem que indaga, sem perceber que indaga, qual é a finalidade de viver. A única ação que realmente importa é lhe responder. E, ao final de todas as reflexões, a resposta é clara e direta: você está aqui para se tornar uma versão melhor de si mesmo do que o mundo lhe fez acreditar que poderia ser, e também para ajudar o próximo a alcançar essa transformação — que, no fundo, é a mesma missão que Krypton confiou a uma criança em perigo, e que ainda hoje, diante de toda a artificialidade deste século, a única coisa que espera é que alguém tenha a coragem de dizer isso em voz alta.

Referências

Filosofia clássica e metafísica

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Edson Bini. Bauru: Edipro, 2007.

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Teologia, patrística e metafísica medieval

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MAIMONIDES, Moses. The Guide of the Perplexed. Tradução de Shlomo Pines. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

TOMÁS DE AQUINO, Santo. Suma Teológica. Tradução coordenada por Carlos-Josaphat Pinto de Oliveira. São Paulo: Loyola, 2001-2006. 9 v.

Filosofia política e crítica das ideologias

CARVALHO, Olavo de. Aristóteles em Nova Perspectiva: introdução à teoria dos quatro discursos. Campinas: Vide Editorial, 2013.

CARVALHO, Olavo de. O Mínimo que Você Precisa para Não Ser um Idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 2013.

VOEGELIN, Eric. Science, Politics and Gnosticism: two essays. Washington: Regnery, 1968.

VOEGELIN, Eric. The New Science of Politics: an introduction. Chicago: University of Chicago Press, 1952.

Existencialismo, niilismo e a questão do sentido

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht. Rio de Janeiro: Record, 2004.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Pedagogia (fonte discutida criticamente)

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

Obras de referência cultural

ANNO, Hideaki (dir.). Neon Genesis Evangelion. Tóquio: Gainax; TV Tokyo, 1995-1996. Série de animação.

SNYDER, Zack (dir.). O Homem de Aço [Man of Steel]. Estados Unidos: Warner Bros. Pictures, 2013. 1 filme (143 min).