O Grito Solitário Pela Santidade
"Por que negar que a santidade dos homens é a real causa a maior das desordens teológicas e no interior da alma humana."
Gabriel. G. Oliveira
3/14/202625 min read


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Afirmar categoricamente que “no judaísmo não existem santos” é uma dessas declarações repetidas com tanta certeza que ninguém se dá ao trabalho de questionar sua veracidade. É quase uma reação automática: alguém cita santos, outro responde que isso é invenção católica, e a discussão acaba ali, tranquila em um equívoco histórico que se perpetua porque poucos se dão ao trabalho de ler antes de opinar.
O problema surge ao se examinar a tradição judaica, que não corrobora essa caricatura.
No judaísmo, há uma figura antiga e altamente venerada conhecida como tzadik, sendo tzadikim seu plural. Em hebraico, a palavra significa "justo". Não se trata de uma metáfora bonita ou de um título simbólico: é uma categoria espiritual real. O tzadik é alguém cuja existência se harmonizou de tal maneira com a vontade divina que se torna um exemplo vivo de fidelidade à Torá.
Essas pessoas não são vistas como curiosidades do passado.
São recordadas, estudadas, mencionadas e reverenciadas na tradição judaica. Rabinos sábios, profetas, mártires e mestres da tradição oral fazem parte dessa memória viva do povo. Séculos após suas mortes, seus ensinamentos ainda são debatidos, seus túmulos recebem visitas de fiéis e, em algumas vertentes da espiritualidade judaica, especialmente no hassidismo e no misticismo judaico, suas vidas são consideradas fontes de mérito espiritual para o povo.
E aqui começa a aparecer algo que muitas pessoas preferem ignorar.
O conceito de intercessão.
Sim, intercessão. Muitos judeus devotos oram a Deus em nome dos tzadikim. Não é uma questão de venerar o justo, mas de admitir que a vida de alguém que viveu de maneira profundamente alinhada com Deus carrega um significado espiritual perante Ele. A lógica é simples: quanto mais alguém viveu próximo de Deus, mais poder têm suas preces.
Isso não é uma invenção recente. O texto bíblico já indica essa lógica espiritual ao declarar: “A oração do justo tem grande eficácia” (Provérbios 15,29 / Tiago 5,16).
Ao analisar isso de forma imparcial, é difícil não notar a semelhança com o que o cristianismo posteriormente denominou de comunhão dos santos. A diferença não reside na presença de justos venerados, mas na maneira como essa realidade se desdobra na teologia cristã.
No cristianismo, Cristo é considerado o maior Tzadik da história, o Justo por excelência. Os santos não substituem essa justiça; eles fazem parte dela. São homens e mulheres que, por meio da graça, espelham aspectos da vida de Cristo no mundo.
Afirmar que o judaísmo é radicalmente oposto à ideia de santos não é apenas impreciso. É ignorar a própria tradição judaica.
E, curiosamente, o mesmo tipo de erro ocorre quando o tema muda de santos para imagens.
Há um clichê amplamente disseminado que afirma que o judaísmo sempre interpretou o segundo mandamento "não farás para ti imagem esculpida" como uma proibição total de qualquer tipo de arte religiosa. Essa noção parece razoável... até que a arqueologia decide intervir e desmantelar o argumento em silêncio.
Uma das sinagogas mais antigas já encontradas, a Sinagoga de Dura Europos, foi descoberta na Síria no século XX. Essa sinagoga foi construída aproximadamente no ano 244 d.C.
O que existia dentro dela não era um templo desprovido de imagens.
As paredes estavam totalmente revestidas de pinturas.
Ali se viam cenas completas do Antigo Testamento: Moisés cruzando o Mar Vermelho, a unção de Davi, o profeta Elias, visões de Ezequiel, episódios da história de Israel. Não se tratava de rabiscos decorativos. Trata-se de um programa visual abrangente de catequese bíblica.
Essa descoberta deixou muitos estudiosos inquietos, pois revelava algo simples: nem todas as comunidades judaicas entendiam o mandamento como uma proibição absoluta de imagens.
A imagem nunca foi o problema.
A idolatria sempre foi o problema.
O mandamento não reprova a arte; reprova a adoração falsa. Condena a transformação de um objeto em divindade. Isso altera totalmente a situação. Uma pintura que indica Deus não é considerada um ídolo. Trata-se de memória, símbolo e ensino.
Por séculos, o cristianismo foi acusado de idolatria por empregar representações de Cristo, Maria e dos santos. Porém, como quase sempre, a história é mais complexa do que a acusação. Em certos momentos, a tradição judaica permitiu representações visuais de sua fé.
A arte sacra sempre teve, entre outras funções, um caráter pedagógico.
Em um mundo onde a maioria da população era analfabeta, as imagens funcionavam como uma Bíblia nas paredes. Elas preservavam a memória religiosa de um povo, transmitiam ensinamentos e recordavam histórias.
É evidente que a sinagoga de Dura Europos não encerra todos os debates teológicos. Porém, ela derruba a ideia simplista de que o judaísmo sempre foi totalmente iconoclasta.
E, de forma interessante, essa conversa nos remete à questão dos justos.
O conceito de tzadik já estava presente no judaísmo durante a época de Cristo. Não se tratava de uma construção tardia da espiritualidade medieval. O justo era uma pessoa cuja vida refletia uma fidelidade inabalável à Torá, alguém cuja justiça o distinguia de maneira especial perante Deus.
A Escritura já trazia figuras desse tipo.
Noé, Abraão, Moisés.
Homens cuja memória perdurava justamente por sua lealdade excepcional. Quando Jesus menciona essas figuras, ele não se comporta como alguém que desdenha dessa tradição. Ao contrário, ele a reconhece.
Por exemplo, na parábola do rico e Lázaro, Abraão é retratado como uma figura de autoridade espiritual. Não como um personagem secundário, mas como uma figura que desempenha um papel central na narrativa. Isso indica que o conceito de justiça exemplar já existia no imaginário religioso da população.
Porém, Jesus realiza algo ainda mais radical.
Ele reinterpreta o conceito de justiça.
Ao declarar no Sermão da Montanha que “se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no Reino dos Céus” (Mateus 5,20), ele não está negando o conceito de justiça. Está expandindo-a. A busca pela santidade não era o problema, mas o legalismo que misturava aparência com mudança interior.
Ser justo não significava seguir regras com rigor burocrático.
Era ter o coração em sintonia com Deus.
Essa discussão sobre justiça leva, inevitavelmente, a outra questão, uma que é atemporal: qual é o propósito da vida humana nesse contexto?
Por muito tempo, as pessoas acreditaram que viver era apenas trabalhar, pagar contas, criar filhos e morrer. A vida se transforma em um roteiro mecânico que ninguém questiona, pois questionar parece arriscado.
Porém, um instante de silêncio é suficiente para notar que algo está ausente.
Viktor Frankl, que analisou o comportamento humano em situações extremas durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a uma conclusão fundamental: para suportar a vida, as pessoas precisam de propósito. Não um sentido abstrato, mas algo concreto que oriente a vida.
O sentido surge quando a vida não se resume apenas à sobrevivência, mas se torna uma resposta a uma vocação.
No entanto, essa ideia apresenta um risco oculto.
Se o propósito da vida for apenas algo que cada pessoa cria para si mesma, então qualquer coisa pode ser suficiente. Hoje, sentido é um projeto; amanhã, é prazer; depois de amanhã, é poder. Como resultado, temos uma cultura em que o sentido se torna um produto descartável.
Esse problema foi identificado por Aristóteles e Tomás de Aquino muito antes de se tornar uma tendência acadêmica.
Para eles, o propósito da vida humana não pode ser apenas subjetivo, pois a natureza humana em si tem um propósito. Há um propósito final, um princípio que organiza a existência. Sem isso, a liberdade humana se torna apenas uma escolha aleatória.
O Logos, a razão que organiza o real, é o que evita que a vida se desintegre em caos.
O niilismo emerge quando essa ideia se desvanece.
Nietzsche identificou esse vazio com uma clareza brutal. Ele percebeu que uma cultura que renuncia a qualquer verdade superior está destinada a gerar valores arbitrários. O problema é que esses valores nunca são capazes de sustentar a própria existência.
O jovem que adota o niilismo acredita ter alcançado completa liberdade.
Mais cedo ou mais tarde, ele percebe que liberdade sem verdade é apenas vazio.
E nesse contexto surge a questão inevitável: se a vida humana tem propósito, de onde esse propósito vem?
A resposta mais antiga da filosofia e da teologia continua sendo surpreendentemente difícil de ignorar.
Deus.
Não como uma possibilidade emocional, mas como a essência do próprio ser. Se há um Logos que fundamenta o mundo, a existência humana não é um mero acaso sem propósito. Ela tem um propósito.
E é precisamente nesse contexto que o conceito de santidade adquire um sentido concreto.
O cristianismo nunca afirmou que os santos são além dos humanos. O que ele diz é muito mais perturbador: que o ser humano pode, por meio da graça, colaborar com Deus e mudar sua própria vida.
Essa perspectiva coloca o livre-arbítrio no centro.
A graça não cancela a liberdade humana; ela a aprimora. A santidade não é um privilégio arbitrário, mas uma resposta à intervenção divina. Por essa razão, a tradição cristã mantém viva a memória de homens e mulheres que vivenciaram essa transformação de forma exemplar.
Eles podem atestar que a graça tem o poder de transformar o ser humano.
E aqui surge uma quebra significativa com algumas vertentes do protestantismo.
Ao declarar "Peque à vontade, mas creia, e será salvo", Lutero buscava destacar a importância fundamental da fé. No entanto, a implicação teológica disso foi significativa. Se a salvação se baseia unicamente em um ato interior de fé, a transformação moral deixa de ser um componente fundamental.
A santidade passa a ser algo secundário.
A questão disso é simples.
Se não há uma possibilidade genuína de crescimento espiritual, também não há evidência concreta de que o Espírito Santo muda a vida humana. A fé se reduz a uma simples confiança subjetiva, deixando de ser uma realidade que se expressa na história.
A lógica se torna brutalmente clara.
Não há santidade sem livre-arbítrio.
Não há transformação genuína sem santidade.
Sem transformação, a fé se reduz a uma simples crença intelectual.
E o Deus que salva sem mudar não é bem o Deus retratado no Evangelho. Isso ocorre porque Cristo estabelece um padrão radical ao afirmar: "Sede santos, como vosso Pai é santo" (Mt 5,48).
Essa frase não é uma metáfora motivadora.
Trata-se de um apelo direto.
E talvez seja por isso que muitas pessoas a considerem um exagero religioso. Afinal, é bem mais fácil crer em um Deus que perdoa tudo sem pedir transformação do que em um Deus que demanda uma reconstrução da própria vida.
Porém, a história da espiritualidade judaica e cristã insiste em relembrar algo desconfortável.
Há homens e mulheres cuja vida prova que a santidade não é ilusão.
Eles estiveram presentes.
E continuam sendo a evidência de que a graça vai além do perdão. Ela modifica.
A santidade não é um ornamento moral para indivíduos domesticados, nem uma auréola fictícia colocada sobre a cabeça de pessoas excessivamente educadas para causar escândalo. A santidade é uma batalha. Guerra grave. Conflito interno e metafísica. Luta contra a falsidade que busca preencher a alma internamente e, em seguida, se estabelecer no mundo como se fosse parte da paisagem natural. É por isso que, no sentido mais preciso, ela representa a luta pela própria existência. Não apenas pela sobrevivência biológica, que até as baratas defendem, mas pela vida enquanto forma, finalidade, sentido, direção e glória do ser humano. O santo não é o homem “bonzinho”, essa figura estereotipada criada pela modernidade que converte virtude em delicadeza social. O santo é o homem virtuoso que batalha. Luta até contra própria. Batalha contra o caos no próprio lar interior. Luta para evitar que sua alma se torne pasto de vício, palco de autoengano e quartel-general do inferno.
É por isso que a santidade é a luta do bem. E não se trata de uma metáfora bonitinha para postagem na internet. É luta de verdade. Luta árdua, dura, extensa, por vezes silenciosa, por vezes humilhante, frequentemente sem público e raramente aplaudida. Ao longo da vida, o homem é constantemente empurrado para baixo, dispersando-se, tornando-se covarde, buscando prazeres fáceis, aderindo a mentiras funcionais, caindo em desespero elegante e sucumbindo àquela forma bastante contemporânea de suicídio espiritual conhecida como entretenimento constante. O santo surge exatamente como o oposto vivo de tudo isso. Não por ele não carregar o peso do mundo, mas sim por carregar e não se render. Não por ignorar o abismo, mas por conhecê-lo sem prometer lealdade a ele. A santidade se inicia quando o homem compreende que viver de verdade não é flutuar no fluxo, mas lutar contra aquilo que tenta lhe privar da essência humana.
Chesterton compreendeu isso com a clareza de alguém que parecia brincalhão apenas para ridicularizar os excessivamente sérios. "As coisas em que mais acreditava, naquela época, e as coisas em que mais acredito hoje são os chamados contos de fadas." Na minha opinião, esses contos são completamente racionais. Não são fantasias: as outras coisas é que, comparadas a eles, parecem-me fantásticas. O País das Fadas nada mais é do que o ensolarado país do bom senso. Em Ortodoxia e em toda a extensão do pensamento de Chesterton, de O Homem Eterno a O que há de errado com o mundo, isso não é uma fuga infantil, mas uma redescoberta do real; pois o conto de fadas não distorce a estrutura da existência, apenas a torna perceptível. Com imagens, ele expressa o que a filosofia e a teologia precisam articular com conceitos: o mundo é bom, mas machucado; a aventura é real; o mal existe; o dragão existe; a alma não foi criada para se submeter a ele; e a alegria é uma arma mais poderosa do que a inteligência melancólica de alguns céticos arrogantes.
É precisamente nesse ponto que muitas pessoas, especialmente no contexto moderno e protestantizado, começam a falhar. Isso ocorre porque, ao se falar em santidade, as pessoas tendem a imaginar ou um sentimentalismo moral ou um status religioso etéreo. Uma santidade superficial, que flutua sem consistência, desprovida de disciplina, transformação ontológica, elevação espiritual e luta genuína contra o mal. E isso é absurdo. Ridículo tanto do ponto de vista técnico quanto moral. Porque se não há uma verdadeira transformação do homem, não há santidade; se não há progresso em virtude, não há vitória alguma; se a graça não altera nada, a religião se torna apenas uma forma de consolo para aqueles que desejam permanecer como estão. Tomás de Aquino, em sua Suma Teológica, nunca consideraria a vida espiritual como uma mera maquiagem piedosa. Para ele, a graça aprimora a natureza, sem substituí-la, ignorá-la ou permitir que ela apodreça em nome de uma fé abstrata. Aristóteles, em sua obra Ética a Nicômaco, já havia demonstrado que a virtude é um hábito excelente e uma luta constante. Além disso, em sua Metafísica, ele deixou claro que o ser não se organiza pelo capricho do sujeito. A santidade, vista por essa perspectiva, é exatamente o momento em que a vida moral deixa de ser superficial e se transforma em uma forma elevada de existência.
Por isso, o protestantismo, em suas formas mais simplificadas e psicológicas, comete um erro grave ao tratar a santidade como se fosse apenas uma imputação externa, um rótulo celestial ou um decreto jurídico sem transfiguração. A alma permaneceria a mesma, apenas "coberta", como se colocassem um pano bonito sobre um cadáver e pensassem que o problema estava resolvido. Não teve efeito algum. Se o homem não pode colaborar com a graça, se o livre-arbítrio é quase inexistente, se a mudança interior é duvidosa, então o Evangelho está incompleto. Cristo não nos ensinou a observar a ideia de perfeição moral à distância, como se fosse uma obra de arte. Ele mandou: “Sede santos, como vosso Pai é santo” (Mt 5,48). E essa frase não permite passividade. Ela requer envolvimento. Exige resposta. Requer transformação interior, aprimoramento da mente, controle dos desejos, coragem prática, persistência e lealdade. Sem isso, o discurso sobre fé se transforma em anestesia verbal.
Em Em busca de sentido, Viktor Frankl compreendeu algo fundamental, mesmo sem utilizar o vocabulário completo da tradição metafísica: o ser humano é capaz de suportar quase qualquer dor se esta tiver um propósito. No entanto, o aspecto que a modernidade tende a distorcer em Frankl é o seguinte: o sentido não é uma invenção arbitrária do ego, nem um projeto subjetivo criado para lidar com o tédio. O verdadeiro sentido requer compromisso com algo concreto e superior ao mero capricho. É nesse ponto que Aristóteles, Tomás de Aquino e a tradição cristã trazem a exatidão que o psicologismo moderno não possui. Não é suficiente "encontrar um motivo". É necessário que esse motivo esteja direcionado ao propósito final do ser humano. A liberdade se torna uma desorientação sofisticada quando não tem propósito. Sem um propósito claro, a autenticidade se torna uma permissão para a decadência. Sem santidade, o propósito da vida se reduz a algo tão pequeno quanto a tela de um iPhone, e isso não é vida humana, mas apenas uma distração luxuosa.
Quando Chesterton menciona dragões, ele não está apenas brincando com a estética medieval para agradar adolescentes esotéricos. Ele está explicando a configuração da luta moral. A imagem do dragão é apropriada, pois o mal não se apresenta à alma como um mero erro abstrato, mas como uma força devoradora, sedutora, invasiva, repleta de promessas e vazia de essência. O dragão simboliza o que deseja estar no centro, absorver o alto, sequestrar a imaginação e estabelecer o medo como padrão. Nesse contexto, os contos de fadas se mostram mais racionais do que grande parte da academia contemporânea, pois mantêm o óbvio que a inteligência sofisticada esqueceu: o mal é monstruoso, porém não divino; é grande, mas derivado; aparenta ser soberano, mas é parasitário. O santo não triunfa por ser inocente de maneira ingênua. Vence porque está disposto a lutar pelo bem, mesmo ciente de que o mundo inteiro conspira para ridicularizar sua bravura.
Abordando agora um aspecto mais próximo do esoterismo, mas sem submeter a inteligência ao circo ocultista, não é insignificante que, na cabala prática judaica e em diversos sistemas ritualísticos antigos, entidades demoníacas apresentem características draconianas. Gershom Scholem, em Major Trends in Jewish Mysticism e Kabbalah, já havia evidenciado a complexidade com que o misticismo judaico aborda as forças do mal. Joseph Dan, em Kabbalah: A Very Short Introduction, e Arthur Green, ao analisar a experiência espiritual de Rabi Nachman em Tormented Master, contribuem para a compreensão de que o simbolismo religioso tradicional nunca foi tão simplista quanto o racionalismo tardio supõe. Mircea Eliade, em sua obra História das Crenças e das Ideias Religiosas, ressalta que o imaginário simbólico não é um mero ornamento, mas a gramática do sagrado e do abissal. A forma dracônica do mal não é um mero detalhe estético; ela representa a usurpação do que se eleva, desejando altura sem luz, poder sem bondade e transcendência sem verdade.
Portanto, a noção moderna de que dragões seriam apenas uma lembrança folclórica de dinossauros é uma simplificação pseudo-científica que agrada por não demandar inteligência simbólica. É conversa para quem acredita que interpretar biologicamente uma imagem religiosa equivale a entendê-la. Não é verdade. Jamais foi. O símbolo não compete com o fóssil. A experiência moral do ser é interpretada pelo símbolo. Quando textos que tratam da evocação demoníaca, como o Ars Goetia, presente em The Lesser Key of Solomon, e o Grimorium Verum, descrevem entidades que se manifestam em formas monstruosas, nebulosas e draconianas, não estão realizando zoologia. Estão demonstrando o que toda tradição respeitável sempre soube: o mal espiritual se manifesta como uma caricatura distorcida da grandeza. O ocultista usa o termo daimon de forma leviana para aparentar neutralidade, como se estivesse lidando apenas com forças ambíguas ou energias arquetípicas. No entanto, isso é frequentemente um erro linguístico combinado com covardia metafísica. Qualquer judeu ou cristão que tenha um conhecimento básico de grego, tradição patrística e crítica rabínica entende que nem toda tentativa de preservar o vocabulário antigo é intelectualmente sincera. Mudar o nome não altera a essência. Perfume conceitual não expurga a decomposição ontológica.
Portanto, o dragão não é apenas uma criatura mítica. Trata-se do modelo do parasita espiritual. Um "deus" entre aspas e com d minúsculo, pois tenta aparentar ser um princípio, mas se alimenta do bem que não tem. Evita a luz, despreza a verdade, utiliza seus próprios seguidores como bucha de canhão e propaga engano até mesmo entre eles. Isso é relevante, pois o mal não atinge apenas os inocentes; ele também devasta os seus seguidores. O inferno não premia fidelidade. Ele devora aliados. Essa é a marca do demoníaco. Faz promessas de ascensão, mas entrega humilhação. Proporciona sabedoria e causa destruição. Fala em liberdade e oferece servidão. Eric Voegelin, em The New Science of Politics, observou claramente como algumas manifestações da gnose moderna buscam imanentizar o escaton, trocar a ordem do ser por delírio ideológico e transformar a história em palco de salvação fabricada. Em aspectos políticos, psicológicos e espirituais, o dragão sempre oferece um caminho mais curto para a plenitude. E sempre exige a alma completa em retorno.
É nesse ponto que a santidade demonstra sua gravidade. Porque lutar pela santidade é lutar para não ser integrado a esse sistema de falsidade. A noite escura da alma, conforme São João da Cruz descreve em Noite Escura da Alma e Subida do Monte Carmelo, não se trata de um colapso emocional ou depressão com um toque barroco. Trata-se de despojamento. É o instante em que a alma é despojada de suas muletas, desnudada de seus confortos e privada de suas satisfações inferiores, a fim de que aprenda a se apegar a Deus não pelo prazer, mas pela verdade. " noite dos sentidos", "porta apertada", "raio de treva": essas expressões não têm o propósito de embelezar o sofrimento, mas de afirmar com clareza que a alma, para se elevar, deve desaprender a idolatria de si mesma. É realmente horrível. E é, de fato, glorioso. Pois, nesse caso, a fé deixa de ser uma opinião e passa a ser um dom infuso recebido, que posteriormente se transforma em virtude oferecida de volta. A santidade se inicia quando a alma deixa de negociar com seu próprio orgulho.
Essa fé, como um dom infuso, proporciona a percepção surpreendente de que Deus ama e convoca. E esse apelo não se trata de sentimentalismo religioso voltado para pessoas necessitadas. Trata-se de uma convocação direta para se envolver em uma obra que nos transcende. Ó espanto, de fato: Ele te inclui na Sua obra. Não por necessidade, como se fosse insuficiente, mas por desejar conceder à criatura a dignidade de cooperação. Isso altera tudo. A alma não é somente resgatada de algo; ela é convocada para algo. E esse "algo" não se refere a prosperidade emocional, harmonia no condomínio ou uma vida sem sofrimento. Trata-se de uma transformação genuína. Trata-se de uma nova faculdade da alma libertada. Trata-se de santidade. A fé, entendida como uma virtude, em resposta à fé infusa recebida, transforma-se em determinação, transformação do coração, reestruturação da mente, renovação dos sentimentos e transfiguração concreta da vida.
E é preciso dizer de forma contundente: a força espiritual não é concedida para que a pessoa cesse o sofrimento e viva tranquilamente neste mundinho com seu iPhone, utilizando a religião como uma fachada estética para uma alma indisciplinada. Não, meu querido. A força concedida por Deus é para combater o maligno, para resistir ao mal que se esconde no campo obscuro da tua alma vaidosa, para repelir a serpente voraz que deseja habitar em ti como se já tivesse escritura. E, se necessário, para sacrificar a própria vida nessa batalha. O cristianismo não garante proteção contra a dor. Promete sentido para a dor, alívio para o sofrimento e glória ao longo da luta. Quando Deus chama e quando o homem estende a mão para Ele, o sofrimento não desaparece; o homem é que é revestido. Envolto na couraça da justiça, na armadura dourada de Cristo. E, ao se revestir dessa forma, crucifica-se de tal maneira para este mundo que nenhum ataque proveniente desta terra consegue abalar a convicção de que a vida aqui não é tão importante quanto a vida com Ele.
A Filocalia, compilada por São Nicodemo Hagiorita e Macário de Corinto, apresenta uma descrição bela e precisa: “Coração abençoado do homem, firmemente ancorado na sobriedade e na contemplação, transforma-se em um céu interior com sol, lua, astros e se aproxima de Deus”. Isso não caracteriza uma fantasia íntima, mas uma cosmologia pessoal. O homem sagrado não se afasta do cosmos; ele o incorpora em si mesmo. O sol, a lua, os astros e a ordem interior estão todos relacionados à reintegração da alma na hierarquia do ser. Aqui, a sobriedade e a contemplação não são meros caprichos monásticos desvinculados da vida. Trata-se das condições da lucidez. Na falta de sobriedade, a imaginação transforma-se em prostíbulo do diabo. Sem reflexão, a inteligência se torna serva do que é útil no momento. O coração sagrado transforma-se em céu interior precisamente por não aceitar mais ser caverna de serpentes.
Por isso, a luta contra o mal é incessante, renovando-se constantemente, alma por alma, geração por geração, em todas as épocas e culturas. As chamadas guerras santas da história, com todas as suas ambiguidades humanas, apenas tornaram visível uma verdade anterior e mais funda: a verdadeira guerra santa é a guerra contra a morte, contra o pecado, contra o demônio, contra a mentira que quer devorar o humano por dentro antes de devorá-lo por fora. E essa guerra não está sujeita a modas culturais. Continua ocorrendo quando ninguém está olhando. Permanece no quarto do homem tentado pela desesperança, no corpo exausto de quem anseia por desistir, na mente seduzida pela blasfêmia sofisticada, no coração machucado que vê o cinismo como um mecanismo de defesa. O santo não se faz de desentendido quanto a essa guerra. Ele a adota como meio de sua própria existência.
Nem sempre Deus estará visivelmente presente entre nós, e quando não está, dependemos do testemunho daqueles que caminharam com Ele e continuam no mundo compartilhando a história e mantendo a chama acesa. E que fogo é esse? A lição de que Deus esteve entre nós por amor a nós e que vivemos um período de espera, ou advento, até sua volta. É por essa razão que a comunhão dos santos não é considerada um ornamento doutrinal. Trata-se de uma estrutura de combate. O homem não batalha isoladamente. Luta com o testemunho dos que vieram antes, com a força dos que venceram, com a memória dos mártires, com a inteligência dos doutores e com a intercessão dos justos. As armaduras deles brilham intensamente, como se o sol penetrasse o metal e o transformasse de dentro para fora. E isso reforça. Não como um mito psicológico compensatório, mas como um envolvimento concreto na economia da graça.
Nesse contexto, o sangue de Cristo não é uma metáfora poética desidratada. É poder. É uma bênção. Trata-se da justificação da fé. É penhor daquele que, sendo divino, tornou-se homem para santificar a tua humanidade. Isso não é uma expressão ornamental da tradição; é o núcleo da perspectiva cristã sobre a santidade. Cristo não utiliza o corpo humano como se estivesse usando uma fantasia para realizar uma missão. Ele adota a natureza humana e a exalta. A natureza humana e a natureza divina coexistem sem confusão e sem separação. Ele sofre pela humanidade, sofre com a humanidade, se envolve na batalha e, acima de tudo, se entrega como sacrifício. "Ninguém tira a minha vida; eu a entrego." Essa afirmação aniquila toda a metafísica da covardia. Cristo não é uma vítima passiva do mal; Ele é o triunfador que converte a cruz em trono e o sacrifício em vitória. Desce aos infernos, atravessa o reino da morte, derrota o maligno e, segundo a tradição, resgata Adão e Eva, os progenitores da raça humana. O novo Adão adentra a ruína para resgatar o que o antigo havia perdido.
Daí se compreende por que a santidade é uma batalha pela própria vida: porque, após a queda, a vida humana não se mantém por inércia. Ela precisa de proteção espiritual. Não existe possibilidade de neutralidade. Ou o homem luta para organizar a alma, ou a alma será dominada. Ou ele progride em virtude, ou retrocede em vício. Ou aprende a amar o bem, ou aprenderá a justificar o mal. A tradição moral completa, que vai de Aristóteles a Tomás, da Escritura aos Padres, da Filocalia à mística carmelita, enfatiza isso: o homem se forma por suas ações. Ele não é um bloco inerte revestido de intenções. Transforma-se no que ama, no que repete e no que se entrega. Portanto, a santidade não é um elemento decorativo da religião; é a realização da ética das virtudes sob a influência da graça.
Por essa razão, é tão superficial reduzir o santo a um homem "bom". A bondade, vista como docilidade social, nunca foi capaz de derrotar nenhum dragão. O santo é, primeiramente, o homem cuja prudência vê, cuja fortaleza aguenta, cuja temperança organiza, cuja justiça atribui a cada coisa seu lugar, e cuja caridade o liga a Deus acima de sua própria pessoa. Ele não é sentimental, mas pode ser carinhoso. Não é frágil, apesar de poder ser suave. Não é ingênuo, apesar de saber apreciar. O santo tem um conhecimento mais profundo do mal do que o cínico, precisamente por não ter feito acordo com ele. Conhece a lama sem a chamar de água limpa. Reconheça a vaidade sem santificá-la como autoestima. Conhece o desespero sem abordá-lo como uma profundidade intelectual. A santidade representa a forma mais elevada da lucidez, pois não permite a confusão entre ferida e identidade.
Tudo isso também justifica por que apenas as religiões tradicionais, e não as versões espiritualizadas do mundo contemporâneo, são capazes de abordar a santidade com a gravidade que ela exige. Onde não existe transcendência real, não existe verdadeira elevação espiritual. Onde não existe verdade objetiva, não há batalha pela alma, apenas administração de sentimentos. Em locais onde não existe uma hierarquia do ser, não há um bem último, somente preferências apresentadas em discurso terapêutico. E onde não existe um bem último, a imagem do santo se esvai, substituída pelo influenciador moral, pelo pregador de autoajuda, pelo guru de desempenho e pelo reformador de imagem pública. O santo desaparece; surge o coach. E essa troca revela muito sobre a pobreza espiritual da nossa época.
A modernidade, ao se concentrar na subjetividade, tenta persuadir o indivíduo de que seu conflito mais profundo é de natureza psicológica. Não é verdade. O psicológico é real e evidente, podendo auxiliar na descrição; no entanto, quando tenta assumir o controle da ética e da metafísica, deve ser ridicularizado. Porque a questão humana essencial não é "como me sinto", mas "quem sou, por que existo e qual é o meu propósito". Um homem pode ter plena compreensão de seus traumas e, mesmo assim, permanecer moralmente corrompido. É possível nomear suas sombras com palavras sofisticadas e continuar escravo delas. É possível transformar a própria análise em um mecanismo de autoengano. A santidade quebra essa barreira, pois coloca a alma em contato com o ser, com o bem e com Deus. Ela questiona não só como amenizar a dor, mas também como tornar a vida uma resposta autêntica ao real.
Por essa razão, a imagem do dragão permanece inalterada. Ele é o que provoca as guerras, pois é a vontade de poder desvinculada da verdade. Trata-se do parasita do ser. Trata-se da falsidade estruturada. É o motor escondido de sistemas que prometem liberdade, mas criam servidão. É a força que zomba do humano, transforma seguidores em armas, propaga a morte e o terror, e ainda se apresenta como redentora. Podem chamá-lo como quiserem os sistemas simbólicos; a tradição bíblica e cristã foi mais sincera e o chamou de inimigo. Samael, Lúcifer, o diabo, o dragão antigo. O Apocalipse não o descreve para saciar a curiosidade visual, mas para evidenciar que o mal histórico possui uma raiz espiritual e será, ao final, lançado ao abismo, aprisionado e incapaz de interferir novamente na ordem restaurada da criação. Não porque o mal seja infinito como Deus, o que seria uma blasfêmia metafísica, mas porque, sendo criado e decaído, ele será finalmente submetido. O rebelde não possui a eternidade; ela é do Senhor do ser.
Como, então, tornar-me um daqueles que colaboram com Cristo na grandiosa missão de erradicação do mal? Não por um devaneio heroico. Não por acaso. Não por delírio esotérico de quem confunde curiosidade com vocação. Aproxima-se por meio da comunhão, graça, virtude, fidelidade, luta, sacrifício e compromisso com o bem verdadeiro. Permite-se que a humanidade seja divinizada por meio da participação em Cristo. Chega-se a aceitar a armadura e a compreender que ela é pesada. Compreende-se que a luz que permeia a armadura dos santos não emana deles, mas transita por eles. E é exatamente por isso que pode nos afetar, se não protegermos a alma da corrosão.
Chesterton estava certo, e sua certeza era mais luminosa do que a sofisticação mórbida daqueles que zombam da imaginação moral. O país das fadas é o radiante país do bom senso, onde ainda se reconhece o que a modernidade esqueceu: que o verdadeiro herói não é aquele que ignora o dragão, mas o que o enfrenta; que o monstro não desaparece só porque alguém escreveu um artigo sobre seu simbolismo biológico; que o milagre não é sinônimo de infantilidade, mas uma surpresa diante da ordem do ser; e que a alegria só é genuína quando foi forjada no fogo. Isso é santidade. A alma que, ao contemplar a maravilha da existência, opta por não traí-la. A alma que, ao conhecer a beleza do verdadeiro, se rebela contra tudo que a distorce. A alma que compreende que viver não é apenas respirar, mas ser fiel.
Tomás de Aquino, Aristóteles, a Escritura, Frankl, João da Cruz, a Filocalia, Chesterton e até mesmo a análise crítica de textos rituais obscuros convergem nesse ponto quando interpretados sem desonestidade intelectual: o ser humano foi criado para algo além do conforto, da longevidade, da sobrevivência e da funcionalidade social. Foi criado para a plenitude do bem. E, em um mundo ferido, essa plenitude só pode ser alcançada por meio da luta. Não existe santidade sem batalha, assim como não existe amor sem perigo. Não existe elevação espiritual sem renúncia, pois não há ascensão sem o abandono de lastros. Não existe vida plena sem a morte do homem velho, pois não há ressurreição para aqueles que se apaixonam pela própria cova.
Em última análise, a santidade é a batalha pela própria existência, pois é a luta para que a tua alma não caia nas garras do dragão, do vício, do desespero, da mentira, do cinismo, da vaidade ou do vazio. É a batalha para que a tua liberdade não seja corrompida. Trata-se da batalha para que tua mente não seja dominada pela desordem. É a batalha para que tua mente não seja preenchida por criaturas disfarçadas de emancipação. É a batalha para que o teu sofrimento não seja em vão. É a batalha para que tua morte, quando chegar, não te encontre como um desertor. O santo é o indivíduo que batalhou para manter sua humanidade até o fim e, por essa razão, tornou-se mais do que simplesmente humano no sentido comum da palavra. Ele foi promovido. E elevou sua própria existência ao status de testemunho. É assim que os fracos definem o fervor religioso. E é isso que os resilientes, com temor e esperança, denominam de redenção.
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