O Hexagrama da Perdição: Anatomia do Idiota Brasileiro

Este livro se inicia com uma questão que muitos preferem não pronunciar em voz alta: por que o idiota se sente tão à vontade no Brasil? O que você encontrará aqui não é um desabafo, mas uma dissecação de um sistema que combina estultícia, arrogância e ignorância em um mecanismo de destruição tão eficaz que toda a nação aprendeu a denominar como liberdade.

Gabriel G. Oliveira

5/6/202636 min ler

Hexagrama Da Perdição
Hexagrama Da Perdição

O Brasil é o País dos Idiotas

Quando se refere ao Brasil como o país dos idiotas, não se trata de uma explosão emocional típica de um bar ou de um insulto de um homem exasperado que perdeu a paciência no trânsito. Seria simplista atribuir isso apenas à irritação do final da tarde. O problema é mais profundo, mais antigo e mais estrutural. O idiota não se resume apenas à pessoa desprovida de inteligência, nem se limita ao ignorante que nunca teve a oportunidade de estudar, tampouco se caracteriza apenas pelo teimoso que persiste em um erro por costume. O idiota é um retrato moral: ignorância desprovida de humildade, teimosia sem autoavaliação e prepotência sem qualquer mérito. É a entidade que ignora, ignora sua própria ignorância e ainda se ofende quando a verdade não hesita em contradizê-la.

A palavra já carrega uma história irônica, e começa aí o diagnóstico. No grego clássico, idiōtēs referia-se ao indivíduo particular, ao leigo, àquele que não estava envolvido na vida pública ou que não possuía conhecimento técnico em áreas que demandassem um estudo sério. Gradualmente, o termo foi se deslocando — como é comum que aconteça com as palavras que abordam assuntos sensíveis — para o território da ignorância, da falta de habilidade e, por fim, da estupidez. Mas a queda não apagou as raízes. O tolo, antes de se tornar apenas o asno contemporâneo, era o indivíduo que se encerrava em seu próprio universo, incapaz de se deslocar de sua própria perspectiva para adentrar na ordem compartilhada do logos, da cidade, da responsabilidade e da realidade que se estende além de suas próprias impressões. Isso é fundamental. O idiota não é a pessoa que nunca teve contato com o mundo exterior; é aquela que, tendo a oportunidade, opta por permanecer em sua zona de conforto.

Daí o idiota brasileiro não ser apenas quem comete enganos. Todos cometem erros. O tolo realiza uma outra ação: ele converte o erro em parte de sua identidade. Em vez de afirmar "eu me enganei", ele diz "essa é a minha verdade". Ele não afirma "não estudei isso"; ele declara "pra mim é assim". Ele não afirma "não entendi o conceito"; em vez disso, ele seleciona uma palavra, penetra em seu interior, insere seu próprio palpite e, em seguida, impõe que o mundo todo aceite essa improvisação como se fosse filosofia. A burrice simples ainda tem conserto. A ignorância humilde é capaz de aprender ainda. Entretanto, a ignorância arrogante, quando se une à teimosia, transforma-se em uma crença pessoal. A religião individual não debate — ela condena.

Eu tive que ver isso de perto para realmente compreender o que estava acontecendo. Quando eu era criança, tinha um grupo de amigos e eles convidaram um rapaz para se juntar a nós. Aquele homem era, de forma bastante evidente para qualquer espectador que prestasse atenção, um homossexual disfarçado. Não se tratava de suposições ou opiniões infundadas — era um comportamento visível, um padrão recorrente, um gesto que revelava antes mesmo da fala. Ele gostava de tocar outros rapazes, de fazer piadas de teor sexual que eram mais do que apenas brincadeiras, e de se aproximar de maneira que era mais íntima do que o grupo considerava aceitável. Não apreciávamos essa situação, mas mantivemos ele no grupo porque ele era o tipo de pessoa que, ao enfrentar qualquer desavença, não hesitava em considerar a opção de processar. Zé Processinho, que é mencionado aqui em Primavera. O tipo que você transporta com receio de precisar levá-lo a um tribunal. Assim ele permaneceu.

Este indivíduo possuía, de maneira quase exemplar, as três características que considero essenciais para definir um idiota: era tolo, arrogante e desinformado, além de criar interpretações pessoais para palavras que já possuíam um significado bem definido. Todos se referiam a ele como viado. Ele deu ao termo uma definição própria. A expressão viado origina-se de desviado — alguém que se desvia, seja em termos de sexualidade, caráter ou comportamento. É uma sigla muito popular, cheia de significado, mas com uma origem sólida. Esse sujeito mudou o significado da palavra para algo diferente: optou por definir viado como babaca. Apenas porque era conveniente para ele naquele instante, apenas porque a verdadeira definição o perturbava, apenas porque a arrogância lhe conferia a autoridade de estabelecer significado onde nunca teve nenhum poder.

Aquilo me incomodou de uma maneira particular. Não pela tolice em questão, pois tolices são algo comum. O que me incomodou foi o funcionamento do mecanismo. Veja o que estava ocorrendo: a pessoa não entendia o significado da palavra, criou um significado que o defendia e, em seguida, apresentou isso como se fosse uma definição válida. Desconhecimento sobre a origem — fonte da tolice. Crendice de que podia trocar o real pelo próprio achismo — fonte da arrogância. A teimosia cega em apoiar essa invenção, mesmo quando confrontado por aqueles que apontavam o erro — uma verdadeira tolice, pois um burro não é aquele que não possui conhecimento, mas sim aquele que se recusa a aprender mesmo após ser informado. Os três operando em conjunto, como engrenagens que se sustentam mutuamente.

Aí começa a surgir aquilo que eu denomino de imbecil. Ele não é somente um ser humano; ele é um sistema. A burrice, quando bem compreendida, não é uma incapacidade intelectual inata. É um fechamento intencional do entendimento diante do que é evidente. O burro teimoso é aquele que se depara com a realidade e, em vez de refletir sobre a situação, atribui à realidade a responsabilidade pela sua frustração. Ele prefere afundar com suas crenças a reconhecer que precisa mudar de direção. É a inteligência aprisionada pelo orgulho, onde toda a energia intelectual é dedicada não a entender o mundo, mas a preservar a falsidade que defende o ego. O burro debate não para se informar — debate para não ceder. Existem grandes distinções entre essas duas questões, e essas diferenças são reveladoras.

A prepotência é a expressão da hybris antiga, quando alguém se considera detentor de uma autoridade intelectual que nunca adquiriu por meio do estudo ou do mérito. Ele se considera superior à tradição, à razão e ao bom senso, acreditando que sua intuição passageira é mais valiosa do que milênios de sabedoria acumulada. Para o arrogante, a realidade é apenas um incômodo que deve se submeter à sua genialidade auto proclamada. Isso o torna incapaz de aprender de verdade, já que o aprendizado requer a aceitação de que outra pessoa possui mais conhecimento, algo que o arrogante não consegue fazer. Ele pode até escutar — mas escuta para contestar, não para acolher.

A ignorância trava o processo, mas não se trata de uma ignorância absoluta, pois ela ao menos reconhece ao dizer "não sei". É uma sabedoria falsa. É o estado do indivíduo que, além de não conhecer a verdade, ignora o fato de que não a conhece, preenchendo esse vazio com fragmentos de informações mal assimiladas. Ele emprega ideias elaboradas como armas retóricas, sem nunca ter se aprofundado em seu verdadeiro significado, gerando uma camada de superficialidade intelectual que esconde um imenso vazio de pensamento. Como Aristóteles observou na Metafísica, o pior dos enganos não é a ignorância, mas sim crer que o que se supõe é o padrão definitivo para tudo o que existe. Ainda é possível ensinar o ignorante de boa-fé. O ignorante que se apresenta como um sábio não deseja receber ensinamentos, pois aprender coloca em risco a sua fachada.

Quando esses três aspectos se juntam em uma única pessoa — e no Brasil isso acontece com uma frequência quase industrial —, o que temos é o que eu chamo de sofista de mau caráter. O verdadeiro sofista possuía técnica, retórica, formação, método e certa luminosidade. O brasileiro idiota é apenas fachada. Ele não compreende o conceito, mas age como se soubesse tudo sobre isso. Não conhece a etimologia da palavra, mas se expressa como se tivesse descoberto uma inscrição oculta no sepulcro de Platão. Embora não tenha estudado teologia, filosofia, história, linguística, política ou moral, fala com uma confiança que faria Aristóteles pedir para se calar por bondade. O principal problema não está no que ele diz, mas sim no que ele acredita estar realizando ao se expressar.

A famosa tese de Protágoras — de que "o homem é a medida de todas as coisas" — foi lida, com frequência, como uma das fontes do relativismo, precisamente por mover o critério da verdade para a aparência, a percepção ou a medida individual. O tolo contemporâneo não leu Protágoras. Seria um avanço, até, se tivesse interpretado errado. Ele simplesmente existe como uma versão exagerada e de mau gosto dessa ideia: se ele sente, é real; se ele repete, é um argumento; se ele se ofende, é uma evidência; se ele não compreende, então não existe. Ele mesmo, sem perceber, afirma: "Não é Deus a medida de todas as coisas — sou eu." É o sofista que não usa sofismas, o relativista que não tem uma teoria, o tirano que não possui um reino. É o pior tipo, pois falta até a grandiosidade do erro deliberado.

Desde que eu era mais jovem, percebi, e a certeza só cresceu com o tempo, que esse tipo de pessoa não é incomum no Brasil. É o que normalmente se espera. Não se trata de pessimismo ao se referir a isso como um padrão, mas sim de um diagnóstico. Posso afirmar que cerca de oitenta e seis por cento da população brasileira se encaixa nesse perfil em algum nível. Pode soar como um exagero. Não é mesmo. Preste atenção a qualquer debate público sobre qualquer assunto que exija a menor diferenciação conceitual — religião, política, ciência, história, educação — e verá o maquinário operando em cadeia. Estupidez, arrogância e falta de conhecimento se entrelaçando, gerando relativismo como um subproduto inevitável.

Esse tipo de relativismo não pode ser considerado uma filosofia. É a manutenção do ego. Considere a seguinte lógica: se sou teimoso e continuo cometendo um erro, a única maneira de não ser visto como louco é declarar que não há erro que seja absolutamente definitivo. O jumento depende do relativismo para que sua teimosia não seja interpretada como uma patologia, mas sim como "persistência em uma verdade pessoal". Se eu for arrogante e me considerar o núcleo do universo, a verdade não pode ser algo que venha de fora, algo que me avalia ou me impõe restrições. Portanto, aplico o relativismo para afirmar que a verdade surge como um reflexo da minha própria vontade. Se eu sou ignorante e não suporto a hierarquia do conhecimento, o relativismo iguala por baixo: "sua ciência é apenas uma narrativa, minha opinião é outra." O relativismo é a cama ética onde a ignorância se acomoda para não sofrer o impacto da realidade. Ele é o cimento da decadência — não por estar incorreto em algum aspecto trivial, mas por obliterar a própria habilidade de diferenciar o que sustenta do que colapsa.

Para decifrar com clareza esse sistema, criei o que denomino Hexagrama da Perdição. Não como uma ilustração mística destinada a decorar a parede de um jovem interessado no esoterismo, mas sim como uma representação conceitual de uma engrenagem. De um lado, o triângulo mental: estupidez, arrogância e falta de conhecimento. Em contrapartida, existe o triângulo moral e metafísico: a carne, o mundo e o diabo. No epicentro, o relativismo atua como um buraco negro que absorve tudo — linguagem, ética, religião, política, anseios, história, corporeidade, pecado, virtude, tradição, autoridade, verdade. Tudo é processado e retornado como uma substância indistinta que eu chamo de "minha opinião."

O triângulo descendente conclui o ciclo de destruição. A carne simboliza a opressão dos instintos: a vontade elevada à condição de uma crença indiscutível, o apetite que domina onde deveria haver controle, o corpo transformado em cárcere para um intelecto que se negou a exercer sua autoridade sobre si. Sem a orientação da razão e da lei natural, a carne demanda que a realidade se transforme em um parque de diversões para seus impulsos, convertendo vícios em parte da identidade e libertinagem em um ato de libertação. O Mundo representa a veneração das tendências intelectuais, das pautas políticas e do êxito material como os critérios máximos de moralidade. A pessoa para de procurar a aprovação do Logos e passa a buscar a validação da multidão, trocando a ética atemporal por um aplauso momentâneo. O mundo premia o idiota útil — contanto que este atue como uma peça submissa na máquina de opiniões inúteis. O Diabo simboliza o engano espiritual: a força da falsidade que atrai o ser humano a pensar que pode ser seu próprio Deus, o único árbitro do que é bom e do que é mau. Quando se relativiza, o diabo deixa de ser o inimigo da alma e passa a ser o símbolo da rebeldia necessária, o agente da provocação intelectual, a promessa da sabedoria secreta que legitima os mais baixos desvios do espírito.

O hexagrama se encerra em sua própria forma. Agora o ser humano é um prisioneiro de si mesmo. Denomina a cela como identidade, a corrente como autenticidade, o carcereiro como desejo e a escuridão como profundidade. Ele não precisa de explicações; ele precisa que a realidade intervenha, o que normalmente ocorre por meio de um desastre que sua imaginação não consegue mais ocultar. O idiota funcional não é a pessoa que não consegue ter pensamentos; é aquela que reflete excessivamente sobre questões que não existem, enquanto a realidade — silenciosa e implacável — aguarda o momento de exigir o pagamento.

Eu testemunhei isso ocorrer na prática de uma forma tão evidente que ainda me perturba. Em uma ocasião em que organizamos um evento em nossa casa, convidei um pastor para participar — aquele tipo de pastor comum que se encontra nas esquinas em Primavera, que não possui nenhum conhecimento sobre a Igreja Católica, nunca leu um padre, nunca se dedicou ao estudo de um concílio, jamais teve a oportunidade de abrir um texto patrístico, mas ainda assim se julgam superiores o suficiente para criticar a tradição mais bem documentada do Ocidente. Entramos em uma discussão, eu e ele, e eu consegui desconstruir toda a sua crença com um único argumento. Não restou nada. Após isso, meu amigo — aquele que se referiu ao pastor — ficou bastante irritado comigo. No dia seguinte, ele veio conversar comigo.

— Você que combina Cabalá, catolicismo e filosofia... como se o catolicismo tivesse alguma relação com a filosofia.

Eu interrompi. Inalei profundamente. Olhei para ele com aquele sentimento característico de quem acaba de ouvir uma confissão de ignorância tão profunda que chega a ser quase artística.

— Veja — eu afirmei —, a Igreja Católica possui profundas raízes na tradição judaica, originou-se do judaísmo e não está isenta da Cabalá. Os mesmos conceitos que o judeu obstinado se recusa a chamar pelo nome que a Igreja utiliza são, na verdade, os mesmos conceitos expressos de outra forma.

Ele fez uma expressão como se estivesse ouvindo uma língua estrangeira.

— E quanto à filosofia? — ele perguntou. — Qual a relação da filosofia com isso?

— Pegue sua Bíblia protestante — eu comentei —, aquela que você se refere como picotada, pois é exatamente isso quando comparada ao cânon completo. No livro Atos dos Apóstolos, especificamente no capítulo dezessete, Pedro e Paulo viajam até Atenas, sobem ao Areópago e indicam um monumento dedicado ao Deus desconhecido, afirmando: este é o Deus da Bíblia. Está escrito na sua Bíblia. Não estou inventando isso.

— Porém, não tem relação alguma com Sócrates — ele retrucou.

— O único Deus que, em toda a vastidão do mundo romano da época, fosse conhecido como Deus desconhecido, era o Deus de Sócrates. E Pedro e Paulo falavam com os discípulos daquele que provou a existência desse Deus — os discípulos de Sócrates, de Platão, de Aristóteles. Não se trata de uma mistura; é uma continuidade histórica.

Ele permaneceu em silêncio por um momento. Achei que estava progredindo.

— Ah — ele afirmou —, mas o nome de Sócrates não é mencionado na Bíblia. Portanto, posso desconsiderar toda essa tradição que você mencionou.

Eu compreendi todos os aspectos a respeito dele com uma exatidão quase científica. Eu observei o ocorrido: o homem foi até lá e, apenas porque o nome não estava claramente mencionado no livro que ele considera a autoridade máxima, decidiu desconsiderar toda a historiografia de uma obra, assim como todas as tradições interpretativas e a tradição argumentativa que se formou ao longo de séculos. Iniciar a leitura da Bíblia, sem nada disso é defecar sobre ela e em seguida enterrá-la. Isso mesmo, de forma literal.

— A filosofia — afirmou ele, gesticulando com o dedo —, essa sim, é maleável.

— De maneira nenhuma — respondi. — Não é.

— Sim, é isso mesmo. É uma questão de como se interpreta.

— Se você me afirma isso, é evidente que não tem a mínima ideia do que seja filosofia, e muito menos o charlatão do seu pastor. — Ele se irritou. — Não se irrite. A filosofia é passível de debate, aprofundamento, correção, desenvolvimento, contestação, superação e reinterpretação. No entanto, ao alterar seus princípios fundamentais, você não está mais seguindo a mesma filosofia: está desenvolvendo uma nova vertente. É por essa razão que se distinguem o platonismo e o neoplatonismo. De onde você acha que veio o neoplatonismo, seu idiota? Por que você acredita que há correntes de pensamento como o aristotelismo e o tomismo, assim como o escotismo e o nominalismo? Afirmar que a filosofia é flexível é apenas uma maneira superficial de expressar que você deseja manter o nome tradicional enquanto atribui um significado novo que você acabou de criar.

Ele relaxou um pouco. Pretendeu, então, usar a última alternativa.

— Mas você precisa respeitar — ele afirmou —, pois meu pastor tem uma crença que difere da sua.

Então, ela estava lá. A jogada derradeira do lacrador. A transformação da minha crítica em preconceito, da minha argumentação em intolerância e do meu conhecimento em agressão. Quando não consigo refutar, trato o outro como exclusivista. Trata-se do raciocínio que utiliza o testemunho da vítima como um escudo lógico. Não dá certo para mim.

— Eu já refutei suas argumentações completamente na presença de todos — eu declarei. — Não é necessário que eu prove mais nada.

Ele desviou o tema da conversa.

Essa pequena cena, apesar de sua aparência modesta, representa todo o Brasil em miniatura. Essa pessoa não se dedicou ao estudo da Igreja, da patrística, dos concílios, da história antiga, do judaísmo do Segundo Templo, da filosofia grega e nem mesmo da própria Bíblia de maneira séria. Ele se sentiu à vontade para criticar a Igreja Católica como se estivesse desmontando um brinquedo de má qualidade. A confiança que tinha não era fruto do saber; era resultado da bolha. Ele assimilou três expressões clichês, escutou uma série de acusações, memorizou uma caricatura e começou a circular por aí acreditando que empunhava uma espada, quando na realidade estava segurando uma colher torta.

O fanático religioso é particularmente perigoso porque equaciona fervor a licença para ser superficial. Ele acredita que defender Deus não requer inteligência, como se a fé fosse uma autorização para dizer tolices com paixão. Mas a verdade não depende da nossa ignorância. Deus não aumenta em grandeza simplesmente porque alguém levanta a voz. A Igreja não deixa de ser verdadeira por causa da falta de compreensão de alguém. A filosofia não se opõe à fé apenas porque um pastor de esquina se deparou com a palavra "grego" e ficou assustado. A tradição não se extingue apenas porque alguém indicou a Bíblia e afirmou: "se não está escrito do jeito que eu quero, não existe."

A discussão sobre o livre-arbítrio dentro do protestantismo segue essa mesma lógica de autocontradição. Lutero produziu De Servo Arbitrio — A Escravidão da Vontade — como uma resposta a Erasmo, no centro do debate sobre a liberdade da vontade e a graça. O Concílio de Trento, por sua vez, declarou que o livre-arbítrio do homem, movido e despertado por Deus, colabora no consentimento à graça, e não é meramente passivo como um objeto inanimado. É uma discussão técnica, antiga e importante, que precisa ser feita com cautela. Mas como isso se traduz na prática? O protestante contemporâneo que se encontra na esquina apanha um fragmento desse vasto edifício, coloca-o no bolso, leva-o para o churrasco e inicia uma conversa como se tivesse solucionado a Reforma Protestante entre um gole e outro. Ele sustenta que há livre-arbítrio no protestantismo — o que se opõe diretamente à própria formulação de Lutero. Se não há livre-arbítrio, não há progresso espiritual. Onde não há ascensão espiritual, não há santificação. Se a santificação não ocorre, então não há santos em seu sentido mais completo. Ao questionar um protestante contemporâneo sobre a razão pela qual não haveria santos, ele não consegue fornecer uma resposta. Não por ser ignorante em termos clínicos, mas porque nunca se dedicou a estudar aquilo que ensina. É tolice por teimosia, arrogância por costume, falta de conhecimento por comodidade.

A crítica ao protestantismo pode ser séria, sem cair em caricaturas. Ela pode ser rígida, direta e até um pouco impaciente, mas deve ter consciência do que está fazendo. É uma coisa afirmar que algumas correntes protestantes geraram uma verdadeira tensão entre graça, vontade, santificação e autoridade da igreja. Outra questão é o indivíduo contemporâneo, que, sem ter conhecimento de figuras como Lutero, Calvino, Trento, Agostinho, Tomás, Erasmo ou da história das controvérsias, acaba repetindo slogans como se estivesse tentando desarmar a Igreja utilizando uma chave de fenda enferrujada. A tragédia consiste em não divergir da Igreja. A tragédia reside no fato de discordar sem nem mesmo ter consciência do que está sendo negado.

O mesmo modelo que polui a discussão religiosa contamina qualquer discussão pública no Brasil. A mesma configuração — falta de inteligência, arrogância, desinformação, relativismo — se manifesta na política, na economia, na ciência, na família e na educação. Em qualquer tema que necessite de uma mínima distinção conceitual, o hexagrama estará em funcionamento. O político que converte rancor em estratégia. O estudante que emprega jargões para impressionar, mas não entende o básico. O religioso que emprega o pertencimento como um substituto para um argumento. O jovem que converte novo léxico em desdém pelos tradicionais. O idoso que converte vivências em justificativa para deixar de aprender.

Existem certos tipos que merecem uma descrição precisa. O sectário, que é um verdadeiro idiota, teme a liberdade genuína e, por isso, se submete completamente a um guru ou a uma instituição. Ele age com base na máxima implícita: "O líder disse, a realidade que se mude." O estúpido político age movido pelo rancor e pela falta, venerando burocratas e partidos, e acredita que "o Estado é o meu pastor e nada me faltará". O idiota criativo possui uma imaginação excessivamente desenvolvida — nada é como aparenta ser, ele percebe o que os outros não conseguem, cria universos alternativos para escapar da realidade e exige que as pessoas ao seu redor habitem nesse sonho. O niilista imbecil está fatigado demais para se submeter e arrogante demais para prestar adoração — ele assistiu a dois vídeos, leu três frases, ouviu um professor amargurado e decidiu que Deus está morto. Não entende que, em diversas ocasiões, não eliminou Deus; apenas deixou de anseiar por algo que transcenda seus próprios instintos. Seu ceticismo não é uma conclusão; é uma disposição de espírito com literatura. O tolo relativista em sua forma mais pura — possivelmente o mais frequente — não tem convicção em nada a ponto de se sacrificar, mas acredita em si mesmo com intensidade suficiente para jamais reconhecer seus próprios erros. Ele não possui uma doutrina; ele age por conveniência. Não é filosofia; é comédia. Não é uma questão de moralidade; é uma questão de preferência.

O mais interessante desse último tipo é que ele geralmente se considera muito livre. Isento de dogmas, isento de tradições, isento de moralidade, isento de qualquer autoridade, isento de culpa, isento de formas. Liberdade desprovida de estrutura é apenas uma queda acompanhada de autoconfiança. A pedra também cai com liberdade quando é solta do topo. O vício, em seu instante inicial, pode aparentar ser uma forma de liberdade. A falsidade pode parecer um alívio antes de enfrentar as consequências. O inferno, para ser realmente eficaz, não se inicia com fogo; ele começa com a agradável impressão de que ninguém tem o direito de julgá-lo.

O Brasil equilibra a opinião e a dignidade, o que gera uma reatividade intensa em relação à verdade. A pessoa não consegue aceitar que uma opinião possa ser débil, mal formulada, inadequada, resultante de preguiça ou apenas errada — pois começou a perceber qualquer correção de sua opinião como um ataque pessoal. Você não contradiz uma frase; você fere uma identidade. Em vez de corrigir um erro, você "humilha". Você não solicita uma referência; você "se acha". Você não faz distinções; você "complica demais". O país foi, então, erguendo uma barreira emocional contra a inteligência. A inteligência se transformou em hostilidade. A precisão se transformou em elitismo. O rigor se transformou em arrogância. O tolo se sentiu à vontade, pois tudo que poderia incomodá-lo foi considerado uma ofensa.

Essa proteção se manifesta de maneira singular quando uma pessoa utiliza sua própria vida como um exemplo universal. "Eu vivi muito." "Eu sei como as coisas são." "Comigo sempre foi assim." Vivência sem reflexão se torna apenas um amontoado de imagens. Ter existido não é o mesmo que ter entendido. Muitas pessoas envelhecem como uma gaveta antiga: repleta de objetos acumulados, mas sem qualquer tipo de organização. A idade pode trazer conhecimento, mas também pode solidificar maus hábitos, mágoas, medos e clichês. O tempo não torna ninguém sagrado por si só; muitas vezes, apenas preserva a ignorância em um estado de conservação. A pessoa atinge os quarenta anos e experimenta um bloqueio mental, um endurecimento que não se deve, necessariamente, à sabedoria, mas sim ao ego que se formou em torno de uma série de erros que, ao longo do tempo, se tornaram aparentes como verdades.

A razão pela qual a prudência é tão fundamental é a mesma que torna sua falta tão cara. Dentro da tradição aristotélica, a sabedoria prática — a phronesis — está longe de ser esperteza social ou malícia de sobrevivência. É saber deliberar bem sobre o que se deve fazer, pondo os meios em vista do fim certo. A ética da virtude afirma que caráter e sabedoria andam de mãos dadas: não é suficiente saber o que se deseja, é necessário querer o que é bom e ter um bom julgamento. Tomás de Aquino define com clareza a prudência como sendo a razão correta aplicada à ação, enquanto o Catecismo da Igreja Católica a apresenta como a virtude que prepara a razão prática para identificar o verdadeiro bem em cada situação e selecionar os meios apropriados para atingi-lo. Essa é precisamente a qualidade que o idiota nacional não possui. Ele possui uma visão sobre o que é o bem, mas falta-lhe disciplina para avaliar os métodos. Deseja proteger a família por meio da grosseria, a religião com a ignorância, a tradição com uma caricatura, a liberdade com um capricho, a justiça com inveja e a verdade com vaidade. No final, acaba comprometendo até mesmo o que afirma apoiar.

A educação no Brasil enfrenta uma questão que se repete constantemente: tornou-se uma produtora de conhecimento raso. O indivíduo passa anos diante de palavras significativas, sem jamais ser obrigado a incorporá-las internamente. Tem conhecimento de "democracia", "direitos", "ciência", "filosofia", "religião", "cultura", "preconceito", "liberdade", "opressão", "moral", "crítica", "história" — mas esse conhecimento é semelhante ao reconhecimento da fachada de uma casa na qual nunca pisou o pé.". A forma mais prejudicial de ignorância não é a falta total de contato; é a proximidade superficial. Quem nunca testemunhou algo pode, pelo menos, imaginar que não tem conhecimento sobre isso. Quem observa de forma superficial tende a acreditar que já compreendeu.

Os resultados educacionais apenas refletem de maneira estatística aquilo que qualquer professor sincero consegue observar em sala de aula, nas ruas e na internet: o país enfrenta sérias dificuldades em leitura, abstração, raciocínio lógico e resolução de problemas. De acordo com o PISA 2022, alunos do Brasil estão abaixo da média da OCDE em matemática, leitura e ciências; em matemática, só cerca de 1% dos estudantes alcançou os níveis mais elevados, em comparação com 9% da média da OCDE. Isso não quer dizer que a população esteja fadada à ignorância. Isso implica que todo o sistema gera uma escassa formação real e, em seguida, proporciona ao aluno uma autoestima retórica, para que ele possa classificar a deficiência como um ponto de vista. O indivíduo lê pouco e discute bastante. Não entende um parágrafo e já quer avaliar uma civilização. Não consegue fazer um resumo preciso do ponto de vista do oponente, mas já tem certeza de que ele está equivocado. Não faz diferença entre causa e pretexto, símbolo e fato, exceção e regra, analogia e prova, tradição e costume, autoridade e autoritarismo.

O brasileiro ignorante se refere a qualquer explicação que exija seriedade como "complicação". E essa palavra expõe o delito. O mundo é complexo. A lição é complexa. A trama é complexa. A teologia é um assunto complexo. A política é complexa. A linguagem pode ser complexa. A questão não é a complexidade; o verdadeiro problema é a falta de disposição para enfrentá-la. A mente fraca deseja que a realidade se desculpe por ser complexa. Deseja uma verdade que não exija esforço, uma tradição que não precise ser estudada e uma opinião que não tenha repercussões. Deseja obter a recompensa da sabedoria investindo apenas o esforço mental necessário para entender um meme. É uma relação com o saber que se apresenta como uma impostura — você chega com credenciais que não obteve e aguarda que o mundo te trate como alguém que realmente as possui.

No âmbito da religião, isso adquire contornos quase teatrais em meio a uma profunda mudança que o Brasil está atravessando. De acordo com o Censo 2022 do IBGE, o número de católicos caiu para 56,7% da população, enquanto o número de evangélicos aumentou para 26,9%. Uma pesquisa da Pew, divulgada em 2026, também posicionou o Brasil como um país com uma significativa presença protestante em toda a América Latina. O dado, por si só, não é motivo para que ninguém seja condenado. A questão não é a pluralidade de religiões. O problema surge quando a diversidade se transforma em um mercado de doutrinação improvisada, onde cada indivíduo estabelece sua própria banca de certezas, comercializa a salvação por meio de uma linguagem agressiva e rotula qualquer análise histórica como uma forma de perseguição. Quando a religião deixa de ser inteligente, transforma-se em uma torcida espiritual. O devoto já não questiona o que é a verdade, mas sim quem é "dos nossos". O pregador não cria consciência, ele cria um reflexo. A doutrina se transforma em um clichê. A Escritura se transforma em uma arma de fogo de cano curto. E a pessoa deixa aquele lugar acreditando que está fazendo a defesa de Deus, quando na realidade, muitas vezes, está apenas protegendo sua própria incapacidade de lidar com uma tradição que é superior ao seu grupo.

No entanto — e é importante ressaltar isso com a mesma clareza — a distorção também se manifesta entre os católicos. O católico desinformado se apropria da magnitude da Igreja como se fosse um título pessoal. Não se dedicou aos estudos, não leu nada, não conseguiu entender a missa, não sabe descrever um sacramento, não percebe a distinção entre dogma, doutrina, disciplina, devoção, costume e opinião teológica — mas se considera superior intelectualmente por ser parte da instituição certa. Isto é também tolice, e tolice de uma qualidade particularmente baixa, porquanto emprega uma verdadeira tradição como proteção para uma vaidade espúria. Ser da verdade não implica tê-la sempre como saber formado. A Igreja não está aqui para alimentar o orgulho de quem deseja triunfar em uma disputa; ela existe para guiar a alma em direção à verdade. Aqueles que utilizam a tradição como um símbolo de orgulho já começaram a traí-la internamente.

O idiota de antigamente tinha seus limites impostos pela praça, pela família, pelos vizinhos, pelo padre, pelo professor, pelo patrão e pelo constrangimento que sentia ao olhar para o rosto das outras pessoas. Existia uma tensão entre o delírio e a realidade. O indivíduo dizia bobagens, mas havia quem tossisse, quem mostrasse descontentamento com uma careta, quem o silenciasse com um grito, quem perguntasse de onde ele tinha tirado aquilo. A falsidade precisava transitar entre corpos de verdade. Atualmente, ela transita por telas. A tela é uma maravilha técnica que tem a essência de uma feira: ela conecta tudo, mas também possibilita que o lado mais negativo da humanidade se espalhe sem que seja necessário encarar ninguém nos olhos.

O Brasil não só tornou a internet acessível a todos; tornou a emissão de autoridade acessível a todos, sem antes estabelecer um senso de responsabilidade. Em 2024, o IBGE informou que a internet estava presente em 93,6% dos lares brasileiros, o que corresponde a 74,9 milhões de domicílios. É um grande triunfo técnico. Seria tolice recusar os benefícios materiais que isso proporciona. Há uma grande distinção entre simplesmente ter acesso ao mundo e realmente saber como navegar por ele. Ter uma porta é uma coisa; saber para onde ela leva é outra completamente diferente. O brasileiro conquistou a porta — mas, muitas vezes, não recebeu nem mapa, nem bússola, nem freio, nem critério, nem silêncio. Segundo a pesquisa TIC Domicílios 2024, realizada pelo CGI.br e Cetic.br, apenas 22% da população tinha "conectividade significativa" — uma combinação mais robusta de acesso, dispositivo, frequência e qualidade de uso. Esse dado é quase uma parábola do Brasil. Existe internet, mas não há densidade. Há acesso, mas não há capacitação. Existe uma tela, mas falta profundidade interior.

O indivíduo possui em seu bolso uma máquina que permite acessar bibliotecas, documentos, cursos, debates, arquivos históricos, línguas antigas, aulas inteiras, legislação, mapas, obras raras e comentários especializados. E o que ele realiza? Passa horas sendo nutrido por raiva, humor, boatos, clipes de podcasts, discussões políticas, vídeos reativos, profetas gerados por algoritmos e gurus que ensinam em cinco minutos. Não se trata de uma escassez de ferramentas. É uma carência de gestão interna. A questão não é a falta de acesso à informação no Brasil; o problema está em que muitas pessoas se relacionam com a informação da mesma forma que um porco lida com perfume: apenas tocando por fora, mas mantendo-se imerso na lama.

A tolice contemporânea, por conseguinte, vai além da mera ignorância. É uma ignorância apressada. O indivíduo não apenas ignora; ele ignora de forma acelerada. Não apenas comete enganos; ele divulga o erro antes que a incerteza tenha a chance de surgir. Quando cem mil pessoas dizem a mesma asneira, ela começa a parecer menos asneira e mais "movimento". O algoritmo não é responsável pelo pecado original. Ele simplesmente encontrou uma maneira sofisticada de nos fazer pagar aluguel pela nossa queda.

De acordo com a Comscore, em 2023, as redes sociais consumiram 337 bilhões de minutos por mês no Brasil, o que torna o país o maior consumidor desse tipo de conteúdo na América Latina e o segundo no mundo, apenas atrás da Índia. Isso ajuda a explicar a razão pela qual a opinião pública no Brasil se assemelha ao funcionamento de uma fritadeira. Tudo grita, tudo ferve, tudo parece ser uma emergência, tudo aparenta ser uma questão de grande importância moral por quinze minutos. Em seguida, surge um novo tema, um diferente adversário, outra agitação, outra citação, outra apresentação. O brasileiro não observa passivamente; ele age. Não reflete; ele desliza pela tela. Não segue uma linha de causas; ele se deixa levar por acessos de atenção.

A fragmentação aniquila a memória ética. Um povo que não possui uma memória moral não consegue aprender com seus erros; ele apenas substitui um escândalo por outro. Hoje se revolta com algo, amanhã com outra questão, e depois se esquece de ambas, achando-se ainda profundo por ter ficado emocionalmente cansado. O cansaço transforma-se em sinal de alerta. Um coração em chamas pode brilhar por um instante, mas também pode consumir tudo em fogo. A cultura digital no Brasil deu origem a um novo tipo de analfabeto: o analfabeto de contexto. Ele interpreta textos, mas não compreende contextos. Ele lê manchetes, mas não lê os processos. Lê denúncias, mas não lê evidências. Lê impressões, mas não lê contextos. Lê a letra, mas não capta a essência da mensagem. É por isso que ele se deixa levar por qualquer representação que lhe proporcione uma emoção imediata.

Este analfabetismo contextual é mais perigoso do que o analfabetismo simples, pois se disfarça de participação. A pessoa interage, expressa sua opinião, anula, denuncia, culpa, compartilha, exige, ironiza, cria discussões, produz vídeos e escreve textos longos. Parece ser uma cidadã participativa. Atitude sem reflexão é apenas ruído com CPF. A verdadeira participação requer uma capacidade moral mínima para diferenciar o que merece ser valorizado, o que deve ser ignorado, o que necessita de análise, o que pede silêncio e o que exige ação.

O mais sério dos dramas é que muitas pessoas foram formadas para pensar em "lugar de fala", "minha verdade", "minha vivência", "minha dor", "minha leitura", "minha visão" — e não foram igualmente formadas para perguntar: minha leitura corresponde ao real? Minha dor está avaliando corretamente as situações? Minha experiência é uma exceção ou uma norma? Minha verdade é realidade ou apenas uma autobiografia em alto e bom som? Claro que a experiência humana é importante. Ter mais experiência não significa ser infalível. Dor não converte um erro em um acerto. O sofrimento não pode substituir a razão. A experiência, sem reflexão, pode se tornar apenas um templo onde o ego queima incenso em sua própria homenagem.

O brasileiro contemporâneo aprecia pensar de si mesmo que é extremamente crítico, mas, na verdade, sua crítica frequentemente se resume a uma antipatia bem estruturada. Ele não critica com o intuito de melhorar; critica para se distanciar moralmente dos demais. Não busca compreender a falsidade de algo; deseja apenas sentir que faz parte do grupo dos que estão conscientes. Sua crítica carece de amor pela verdade e demonstra um prazer evidente em se sentir superior. Trata-se da antiga vaidade disfarçada de consciência social, religiosa, acadêmica ou política. O léxico se transforma. O pecado permanece.

A grande esperteza do relativismo no Brasil consiste em empregar a cordialidade como um sedativo. Tudo deve concluir com "deixa disso". Tudo tem que se transformar em churrasco. É necessário que tudo seja dissolvido no "cada um sabe de si". Entretanto, uma sociedade que nunca critica suas próprias concepções acaba sendo avaliada pelos resultados que delas decorrem. Não se pode desvalorizar a educação por várias décadas e depois se queixar de que ninguém consegue interpretar um texto. Não é possível tornar a religião algo relativo e, em seguida, queixar-se de charlatanismo. Não é possível questionar a definição de família e, em seguida, se queixar de abandono. Não é possível tornar a linguagem relativa e, em seguida, queixar-se de que ninguém consegue se comunicar. A realidade pode tolerar ser ignorada por um período, mas jamais aceita ser anulada.

O tolo detesta a hierarquia, pois ela revela a posição de cada um. Se a verdade existe, ele pode estar equivocado. Se existe virtude, pode haver vício. Se existe uma tradição, pode ser que ele seja atrasado. Se houver sabedoria, ele pode ser apenas ruidoso. Se Deus existe, ele não ocupa o papel principal. Portanto, dissolva tudo. Chama a liberdade de dissolução, a abertura de confusão, a humildade de preguiça, a consciência crítica de ressentimento e o palpite de filosofia.

Existe, também, uma adoração à espontaneidade que é típica do Brasil. Quando a pessoa diz algo, e se for corrigida, ela responde: "ah, mas você entendeu o que eu quis dizer." Às vezes, não é assim. Mesmo ao compreender, isso não soluciona o problema. Falar negativamente prejudica o pensamento. A linguagem vai além de ser apenas um suporte; ela configura o funcionamento interno da mente. Aqueles que se habituam a se expressar de qualquer maneira acabam pensando, avaliando e formando opiniões de maneira semelhante. Ainda se surpreende quando sua própria vida se transforma em uma série de escolhas erradas. Uma frase mal construída é, muitas vezes, o breve esboço de uma alma mal dirigida.

O relativismo dificilmente é uma tese de boa fé. É uma tática. Raramente alguém adota uma postura relativista quando o pagamento não é feito, quando o médico comete um erro, quando o mecânico engana, quando um contrato é violado, quando um filho mente, quando a comida chega estragada ou quando a fatura chega em dobro. Nessas horas, todos reaprendem rapidamente que existe o certo e o errado. O relativismo se manifesta de maneira sofisticada apenas quando a verdade demanda um sacrifício pessoal. Então ele entra no ambiente com um tom suave e afirma: "vamos respeitar as perspectivas."

A educação, a família e a religião deveriam preparar o indivíduo precisamente para enfrentar isso. A educação deveria instruir sobre como interpretar o mundo sem resumir tudo a um slogan. A família tem o dever de ensinar sobre limites, gratidão, responsabilidade e autocontrole. A religião deveria promover a verdadeira adoração, a humildade perante Deus e a organização da vida em função do seu objetivo final. Quando essas três esferas não conseguem cumprir seu papel, resta apenas o indivíduo exposto, frente à sua própria vontade, buscando converter desejo em destino e ponto de vista em doutrina.

O Brasil possui um grande número de pessoas "informadas" e um número reduzido de pessoas formadas. Conhecimento é armazenamento. Formação é organização. O dado afirma "eu vi". Educação questiona: "isso é verdadeiro, isso é bom, isso está no lugar certo?" O tolo pode ter conhecimento variado. De fato, hoje ele possui um repertório mais vasto do que nunca. Há vídeos, trechos, citações, podcasts, capturas de tela, PDFs, cursos rápidos, mapas mentais, resumos e análises prontas. O que lhe falta é um eixo. Um repertório desorganizado é apenas lixo conectado à internet.

Por essa razão, em algumas ocasiões, a pessoa mais perigosa pode não ser o ignorante e bruto, mas sim o vaidoso que possui um conhecimento superficial. O ignorante, por mais rude que seja, ainda pode ter consciência de sua própria ignorância. O semi-instruído acredita que deixou o básico para trás por ter adquirido vocabulário. Ele emprega termos como "narrativa", "estrutura", "sistema", "metafísica", "epistemologia", "trauma", "ideologia", "colonização", "gnose", "arquétipo", "ciência", "tradição" — mas usa como se estivesse vestindo roupas furtadas. Parece estar bem por alguns minutos, mas logo depois precisa se levantar e andar. Uma semi-instrução é a região tropical da idiotice. Há calor, ruídos, cores e movimento, mas a arquitetura é escassa. Essa pessoa tem um conhecimento geral, mas não é especialista em nada. E, como não tem muito domínio, precisa compensar com postura. Fale em voz alta. Rir do oponente. Faça uma expressão de desdém. Utilize ironia antes do exame. A agressividade se torna um recurso justificável. Quando a lógica falha, o tom busca compensar. É uma imagem lamentável: a alma ferida tentando se mostrar como uma lutadora.

As amizades são uma clara evidência disso. Amigo, hoje em dia, muitas vezes é aquele que valida a nossa história. Quem tem uma opinião diferente é considerado tóxico. Aqueles que corrigem acabam se tornando arrogantes. Aquele que faz um aviso é considerado invejoso. A amizade foi reduzida a uma ferramenta para alimentar o ego. Um verdadeiro amigo não é um espectador; é um testemunho. Ele precisa, em algum momento, afirmar: "isso em você está errado." Se essa afirmação é capaz de arruinar a amizade, então talvez ela nunca tenha sido uma verdadeira amizade — apenas um acordo de bajulação. Uma comunidade de bajuladores emocionais cria, por sua vez, adultos frágeis. Adultos que não toleram ser criticados, que não aguentam esperar, que não aceitam uma estrutura de autoridade, que não lidam bem com a frustração, que não suportam o silêncio e que não conseguem aceitar a derrota.

O resultado disso é uma cultura de personagens. As pessoas não desejam apenas existir; elas anseiam por atuar como protagonistas de suas próprias histórias para um público invisível. O crente desempenha o papel do defensor da fé. O ativista desempenha o papel do justo. O estudante faz a leitura do crítico. O jovem faz o papel de alguém que não é entendido. Todo mundo faz performances. Poucos se analisam quando a câmera interna é desligada. A performance é uma das maneiras mais sofisticadas de enganar na era contemporânea: não falsifica a verdade ao afirmar exatamente o oposto do que ocorre; engana ao escolher gestos que criam uma imagem moral. A pessoa pode até afirmar verdades, mas o faz para criar uma persona, e não para apoiar a realidade.

O imbecil não se deixa vencer apenas com argumentos. A persuasão pode ser útil, mas nem sempre funciona. A sua força não reside na lógica, mas sim nas emoções. Ele se apega emocionalmente ao erro. O erro proporciona a você uma posição no mundo, uma sensação de pertencimento a um grupo, uma vantagem, uma justificativa, uma missão e uma identidade. Arrancar isso dele parece ser uma crueldade, pois a mentira se tornou um refúgio. Entretanto, existem abrigos que desmoronam sobre os seus moradores. A verdadeira caridade, em certas ocasiões, consiste em gritar antes que o teto desabe.

A crítica e a crueldade se distinguem pela intenção. Criticar alguém com a intenção de arruiná-lo é um hábito prejudicial. Fazer críticas com o intuito de eliminar a falsidade que aprisiona a pessoa pode ser uma forma de misericórdia rigorosa. O Brasil deixou de ser visto dessa forma. Ou você agride por prazer, ou você acaricia por medo. Ou denigre, ou faz vista grossa. Raramente faz correções com uma ordem firme e clara. A correção gerou um grande alvoroço, pois a cultura atual misturou a ideia de amor com a necessidade de aprovação constante.

O tolo, em essência, não é apenas uma pessoa que tem pensamentos errôneos. É uma pessoa que teme que sua existência chegue ao fim caso cometa um erro. É por isso que ele defende suas opiniões como se estivesse lutando por sua própria sobrevivência. Aqueles que só existem enquanto têm razão nunca foram realmente autênticos; eles apenas desempenharam o papel de uma autoridade instável, que depende de aplausos e é blindada pelo barulho ao seu redor. A pessoa graduada pode cometer enganos sem consequências fatais, pois sua dignidade não está atrelada a cada opinião que expressa. É possível ajustar um conceito sem ter a sensação de ter perdido a essência. Essa é uma liberdade que o tolo não consegue compreender.

O Brasil só deixará de ser visto como a nação dos tolos quando deixar de considerar a verdade uma ofensa à boa educação. Quando deixar de recompensar aquele que opina sem saber, que grita antes de entender e que se ofende antes de realmente compreender. Quando redescobrirmos a finalidade, pois sem um propósito, tudo se torna uma questão de preferência. O aprendizado se transforma em diploma. A fé se transforma em identidade. A política se transforma em torcida. O corpo se transforma em uma exposição. A comunicação se transforma em barulho. A inteligência se transforma em um instrumento de humilhação. A vida toda se desintegra, pois já não há um bem maior que todos os menores se ordenem a ele.

O verdadeiro despertar não é tão glamouroso quanto aparenta. Inicia-se com um sentimento de vergonha. Sentir vergonha por ter reiterado algo que não compreendia. Um sentimento de vergonha por ter agredido algo que não entendia. Vergonha de ter empregado termos que superam a própria essência. Embaraço por ter equacionado intensidade com profundidade, teimosia com determinação, brutalidade com bravura, indolência com genuinidade e ressentimento com equidade. Essa vergonha, quando não se transforma em desespero, é uma dádiva da mente. Ela desmancha a pose e solta a pessoa no chão.

E talvez seja isso que o Brasil precise: conexão com a terra. Basta de discurso. Chega de performance. Chega de slogan. Terra. A verdadeira humildade se manifesta ao iniciar com o essencial: aprimorar a leitura, a fala, a escuta, o trabalho, a oração, a discordância e, acima de tudo, o amor. Não haverá cura para o país dos idiotas com uma grande teoria nacional se ele não for capaz de realizar pequenos atos diários de honestidade. Uma civilização não entra em decomposição apenas quando suas instituições sucumbem; ela começa a apodrecer quando as pessoas não conseguem mais se dizer a verdade nem mesmo a si mesmas, na escuridão de seu quarto.

O tolo tem medo da escuridão porque não há ninguém para observar. Não existe apreciação, não há palmas, não tem inimigo que seja conveniente, não existe um grupo de proteção, e não há uma frase impactante. Somente ele e aquilo que tem consciência de que decidiu não saber. É exatamente neste local, distante do barulho, que a inteligência pode recomeçar. Não tenho a intenção de aparentar algo que não sou. Não como instrumento de combate. Não me identifico. É como se fosse uma obediência à realidade.

Pensar, afinal, não consiste em adornar a própria mente com ideias. É submeter a vaidade ao reconhecimento do que realmente é.

A verdade não se impõe através de berros. Ela apenas fica lá. O imbecil consegue passar. O êxtase termina. A realidade é o que é.

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Algumas notas sobre as escolhas feitas. O Teeteto de Platão é a referência primária indispensável para a tese de Protágoras citada no texto é ali, em 152a, que Sócrates expõe e examina a proposição "o homem é a medida de todas as coisas" com o maior rigor disponível na tradição. Para o conceito de hybris, embora o termo apareça amplamente na tragédia grega e em Aristóteles, a referência à Ética a Nicômaco já cobre o uso filosófico preciso que o texto faz. A entrada do Concílio de Trento foi incluída através do Compêndio de Denzinger-Hünermann por ser a forma academicamente padrão de citar documentos conciliares em português. A pesquisa Pew de 2026 mencionada no texto não pôde ser especificada com título exato a referência ao relatório de 2014 é a mais próxima verificável sobre o mesmo tema regional; caso o autor possua acesso ao relatório de 2026 com título e DOI confirmados, a entrada deve ser substituída pela publicação exata.