O Ímpeto Verde: Uma Filosofia da Ira que Constrói
Este ensaio surge da indignação de um jovem que aprendeu a se virar por conta própria e percebeu que as filosofias podem causar mortes ou salvar vidas muito antes que qualquer arma se aproxime. É para aqueles que ainda têm fé de que a luta pelo bem, acompanhada de uma rigorosa precisão intelectual, é o único enfrentamento que realmente transforma o destino do mundo.
Gabriel G. Oliveira
5/7/202652 min ler


O Policial que Via Demônios: Combate Espiritual, Filosofia e a Arte de Não Dissolver
Fui menino o bastante para saber que o mundo não estava à minha espera. Não havia tapete vermelho, nem um adulto com o braço estendido, convidando: venha, eu vou te ensinar. Era, no máximo, indiferença; no mínimo, hostilidade aberta. Foi exatamente nessa falta que eu descobri a lição mais valiosa que qualquer livro poderia me transmitir: o verdadeiro impulso para estudar, refletir e desenvolver uma compreensão abrangente do mundo não surge de contextos propícios, de mestres inspiradores ou de famílias que incentivam. Surge da indignação. De uma fúria bem definida, focada, que não quer causar danos ao que está ao seu redor, pois entende que a destruição é dispendiosa e pouco eficaz. Surge dessa ânsia de rebelião que, se não for direcionada para algo construtivo, acaba te consumindo internamente antes que qualquer adversário externo tenha a oportunidade de te atingir.
Eu costumo dizer, quando estou explicando isso a alguém, que a concepção do solarpunk surge exatamente a partir dessa tensão. O solarpunk não se trata de um movimento politicamente organizado de indivíduos otimistas que cultivam hortas e acreditam que tudo ficará bem se formos bondosos o suficiente. Não. Surge do mesmo ímpeto que dá origem ao punk mais tradicional, que é a indignação perante a deplorável situação das coisas. A distinção está no fato de que o punk clássico, em várias de suas correntes filosóficas mais radicais, contém o princípio da autodestruição em seu interior. Ele refuta tudo, mas não oferece nada em substituição. O solarpunk canaliza essa mesma paixão e indignação, e questiona: tudo bem, você está irritado, ótimo, agora como você vai utilizá-la? A resposta não é detonar, nem desaparecer, tampouco transformar o ódio em um niilismo sofisticado. É erguer. É aproveitar a energia gerada pela indignação para impulsionar ações que tenham um impacto mais duradouro do que o próprio ressentimento. É por isso que trago comigo a ideia de um solarpunk cristão, que, para aqueles que não refletiram profundamente sobre os dois conceitos, pode parecer uma contradição. No entanto, para mim, essa expressão representa de forma mais sincera de onde venho e para onde estou direcionado.
Na minha infância, eu era a criança que precisava se impor em todas as situações. Não se trata de uma metáfora. É uma autobiografia. Meus dois pais eram ótimos em seus trabalhos. Capazes, eficientes, admirados. Aquele adulto que é respeitado no âmbito profissional e, quando falecido, é lembrado positivamente por suas contribuições no trabalho. No entanto, como pais, eram irresponsáveis, preguiçosos, arrogantes e dominantes em relação à criança, de maneiras que não podem ser justificadas de forma educada. Não me refiro a limitações humanas que são compreensíveis. Refiro-me a adultos que possuíam todos os meios necessários para oferecer ao seu filho uma vida digna e, por escolha consciente ou por fraqueza moral, decidiram não fazê-lo. Eram os piores adultos que se poderia imaginar para ter uma criança. Eu sou originário deles. Portanto, de certa maneira, a eles eu devo exatamente o oposto do que esperavam: a eles eu devo a urgência de me constituir, de me inventar, de buscar minhas próprias referências, de perceber que o mundo não estava interessado na minha presença e de converter essa percepção não em conformismo, mas em propulsor.
Por muito tempo da minha vida, eu carreguei a crença básica de que o mundo não apenas não me esperava, mas que realmente me desprezava. Ele me detestava por uma razão particular: eu era a criança que cutucava a ferida. Não de uma forma poética. No sentido literal de ir até onde estavam as hipocrisias de alguém e apontá-las sem pudor. Aquela criança que era exatamente o oposto do que os adultos com uma ética subjetiva, aqueles que advogavam a favor do suicídio como uma forma de liberdade, da pedofilia como uma questão complexa, do niilismo absoluto como uma manifestação de sofisticação intelectual, que seguiam as filosofias que inevitavelmente conduzem à morte, uma vez que lhes faltava coragem para enfrentar a vida, realmente detestavam com uma intensidade que hoje interpreto como um profundo medo. Pois a criança que faz as perguntas adequadas é o principal adversário de qualquer sistema que se baseie na recusa de se aprofundar no pensamento.
E aqui chegamos ao ponto que eu descobri quando era muito novo e tinha muito tempo para ver o mundo ao meu redor: quem realmente muda o mundo não são os homens extremamente agradáveis cercados por multidões, nem os governantes com uma atitude dramática, nem os revolucionários bem-intencionados, mas com pouca lógica. Trata-se de filosofias. São perspectivas diferentes da vida. São maneiras de entender o mundo que, uma vez que se instalam na mente de uma pessoa, transformam radicalmente sua identidade, suas ações, suas decisões e aquilo que decide ignorar. Todo aspecto da vida de uma pessoa, sem exceção, desde suas crenças religiosas até sua perspectiva sobre o dinheiro, desde a maneira como trata seus filhos até o tipo de voto que escolhe depositar na urna, é influenciado por alguma filosofia que ela possui, seja de forma consciente ou inconsciente. Essa compreensão me levou a perceber que a batalha do intelecto não é um privilégio reservado àqueles que dispõem de tempo livre. É a única batalha que realmente tem importância, pois é a única capaz de transformar milhões sem a necessidade de um exército.
Eu fui aquela criança que, se não tivesse escolhido estudar filosofia e administração - e acabei optando por ambos - certamente teria seguido o caminho da física quântica. Eu tinha uma verdadeira facilidade com o tema e apreciava a lógica que o pensamento necessário exigia. No entanto, havia um obstáculo: eu carregava, naquela época, uma mentalidade extremamente gnóstica, e ao dizer isso, faço-o como um diagnóstico, não como um elogio. Eu era ateu, e no ateísmo que eu vivia havia um erro particular que hoje consigo identificar com clareza: eu tentava conectar o mundo das idealizações ao mundo real. Queria tornar o ideal em realidade, trazer o paraíso para a terra por meio de uma combinação de intelecto e determinação. Eric Voegelin, talvez o crítico mais perspicaz dessa tendência, tem toda razão em identificar isso como o erro primordial do ateísmo que se considera sério. Pois o que eu estava fazendo era idêntico à ação de todos os revolucionários gnósticos ao longo da história: eu negava a manifestação do impossível, ignorava que o mundo é infinitamente mais vasto e extraordinário do que qualquer sistema humano possa compreender, e tentava impor uma síntese que a realidade não necessita da autorização humana para concretizar.
A admiração. Chesterton expressa isso de maneira que nenhuma reformulação possa aprimorar: o mundo não perecerá por falta de maravilhas, mas sim por carecer de assombro. E foi exatamente assim que me senti quando a cabeça se quebrou pela primeira vez. Quando me deparei com algo que não se encaixava na minha visão ateísta da época, ao perceber que os sonhos que eu considerava impossíveis estavam associados a uma presença que não precisava da minha autorização para existir, e quando compreendi que o plano espiritual não é apenas uma metáfora poética, mas sim uma dimensão da realidade que precede e sustenta tudo o que consideramos concreto, a noção de impossibilidade se quebrou em meu interior. Com ele, desapareceu o arquétipo do jovem niilista que eu havia moldado como uma identidade de defesa. Eu vim a compreender que o niilismo não é uma filosofia. É uma caixa oca na mente de alguém que, de forma metódica, retira todo o conteúdo das outras caixas ao redor, esvaziando-as completamente. A morte espiritual que essa caixa causa não é apenas uma figura de linguagem. Quando levadas a sério, doutrinas que conduzem ao nihilismo absoluto resultam em extinção biológica. Nem sempre de imediato, nem sempre de maneira dramática, mas a alma se enfraquece, a habilidade de encontrar motivos para seguir em frente se desvanece, e o corpo, por fim, se entrega, pois já não há vontade suficiente para sustentar o fardo da existência.
A catequese se apresenta aqui não como um aspecto autobiográfico irrelevante, mas como um exemplo exemplar de como meios de transmissão do conhecimento mais profundo da humanidade podem ser corroídos internamente por indivíduos que não compreenderam em nada o que deveriam ensinar. Eu fiz a catequese. O que encontrei lá, na sua maioria, foi uma série de heresias criadas pelas próprias catequistas, não por má intenção, mas por uma ignorância tão profunda que, em épocas passadas, teria sido considerada séria o suficiente para que alguém não assumisse essa responsabilidade desde o início. Havia catequistas que estavam convencidos de que mastigar a hóstia durante a comunhão era um pecado, uma ideia que surgiu do nada, sem qualquer fundamentação doutrinária, sem textos magisteriais e sem nenhum outro respaldo, exceto a superstição fruto da própria imaginação. Existiam aquelas que sustentavam que uma criança não comete pecados, o que representa uma confusão teológica de grandes proporções, uma vez que, na realidade, a criança peca sim. No entanto, os pais são aqueles que assumem as consequências espirituais pelos pecados de seus filhos, e essa diferença altera radicalmente a responsabilidade que a parentalidade cristã implica. Uma espada de dois fios. A criança é, de fato, uma verdadeira faca de dois gumes em movimento, que nenhuma das catequistas conseguia segurar sem se ferir com seu próprio pensamento.
Uma delas tinha a convicção de que Jesus retornaria em forma de reencarnação. Nascido de Novo. Uma educadora da fé católica. Outra via de crença considerava Lilith como a ex-esposa única de Adão, enquanto na Mishná encontramos apenas uma menção a colônias inteiras de demônios que possuem uma aparência mais associada ao feminino. Estas criaturas, sem um sexo definido, aparecem em diversas formas, dependendo da energia que elas mobilizam. Isso, certamente, é algo completamente distinto de uma mulher individual com um nome específico e um enredo conjugal. O debate sobre o sexo dos anjos, que se tornou um clichê de discussão fútil, é, na verdade, uma demonstração de tolice em dose dupla: em primeiro lugar, porque anjo é uma entidade de energia pura, uma estrutura espiritual sem qualquer definição biológica; e em segundo lugar, porque confundir a manifestação de algo com sua verdadeira natureza é o erro primordial de qualquer demonologia feita de forma improvisada. A Igreja Católica possui escritos que são bem claros tanto sobre Gênesis 6 quanto sobre as práticas rituais da época. Esses textos explicam como os anjos caídos eram invocados em rituais por tribos que os adoravam como deuses, e como essa energia se combinava com a reprodução humana, de maneiras que a narrativa bíblica simboliza, enquanto a tradição esotérica judaica elabora isso com mais detalhes técnicos. Em diversas partes do mundo, foram encontrados ossos de tamanho colossal que possuem um DNA muito semelhante ao humano, mas que não é idêntico. É verdade que muitas das fotos que circulam são montagens. No entanto, o fenômeno que elas buscam retratar possui documentação histórica e arqueológica suficiente para que não seja considerado uma invenção. O Livro de Enoque é um caso à parte: nem mesmo o judaísmo convencional o reconhece como parte de seu canon, sendo aceito apenas por certos grupos, como os judeus Bet Israel e algumas pequenas seitas do cristianismo ortodoxo, que o consideram escritura válida. A explicação para isso é clara: trata-se, em grande parte, de um romance que tentou reunir toda a Cabala em uma única narrativa, mas que, no processo, criou elementos sem qualquer correspondência em tradições respeitáveis.
Mas eu estava presente, uma criança com uma mente muito mais avançada do que o ambiente previa, tentando escrever coisas que as catequistas não conseguiam entender. Quando fui solicitado a descrever a minha concepção de Deus, elaborei um texto que utilizava simbolismo alquímico e estabelecia uma analogia entre a essência do divino e a imagem de um dragão. No entanto, não me refiro à interpretação ocidental desse ser como uma criatura malévola, mas sim à visão do dragão chinês, que simboliza poder e transcendência, completamente branco, com olhos azuis. Seu corpo não terminava onde a matéria se encontra com os limites das coisas, mas se fundia com o todo, tornando-se o próprio infinito. Era uma tentativa de representar o que não pode ser expresso com palavras por meio de uma imagem que tivesse um significado simbólico, e eu utilizava referências que havia formado ao estudar por conta própria. A catequista encarou aquilo e, diante de todos, afirmou que era uma grande tolice. Não negou. Não fez perguntas. Descartou com a autoridade oca de quem confunde a falta de compreensão com a inexistência do que não compreendeu.
No último encontro de catequese, a atividade consistiu em redigir uma redação sobre o que eu faria se tivesse a oportunidade de estar diante de Cristo. Respondi de forma que me pareceu honesta e intelectualmente consistente: eu o acolheria em minha casa, pois era isso que, na ocasião, as pessoas próximas a ele faziam, recebiam o visitante, ofereciam alimento, abriam espaço para a conversa. Após essa acolhida simples, eu gostaria de ter uma conversa extensa para descobrir se ele realmente era o Messias, o que ele ensinava e quais eram as consequências do que ele trazia. Uma discussão intelectual com o próprio Cristo, com o objetivo de confirmar a veracidade da mensagem antes de aceitá-la sem questionar. Ela perdeu o controle. No dia seguinte, trouxe o trabalho e o apresentou diante de toda a turma como um exemplo negativo. Fez uma série de comentários sobre os erros que continham e, para finalizar, mandou que eu fizesse uma prova. Eu consegui. Que coisa inesperada.
É isso que essas pessoas simbolizam para a educação de nossos filhos. Um ser desse tipo, com uma incapacidade intelectual tão evidente, e com a presunção de acreditar que compreende o que, na verdade, não compreende, detendo autoridade sobre crianças durante três anos para ensinar os princípios da fé cristã. É compreensível que a maior parte dos rapazes que se originou desse lugar tenha se tornado protestante. Porque não foi possível elucidar o que realmente constitui a comunhão, que representa o corpo e o sangue de Cristo, resumidos em uma questão metafísica que, quando bem explicada, revela-se como uma das concepções mais radicais e belas que qualquer religião já produziu. Três anos se passaram. Um problema de natureza metafísica. Impossível explicar. A catequese contemporânea precisa ser desmantelada e reestruturada com um requisito fundamental: avalie o professor antes de colocá-lo diante de uma criança. Conforme afirma a Rasta News, com uma precisão que pode parecer uma piada, mas não é: antes de ensinar crianças, o professor precisa, antes de tudo, criar um porco. É importante entender que uma criança não é um porco. Que podemos fazer essa mudança.
Entretanto, a questão das catequistas representa apenas a manifestação mais evidente de um problema muito mais amplo: o ego do educador, que se coloca como um impedimento constante ao pensamento crítico. Os professores possuem um ego enorme apenas por serem professores. Ainda mais quando são idosos. O ego aumenta na medida em que a qualidade do argumento diminui: quanto menos um indivíduo tem a dizer de fato, mais convicto ele se torna ao afirmar. Quando alguém surge com mais conhecimento ou apresenta uma ideia que ele não consegue entender, a reação não deve ser refutar o argumento. Nunca é contestar o argumento. Ofender a pessoa é a resposta. Desacreditar a moral, a conduta e a credibilidade dela enquanto ser humano, de forma que a ideia não se sustente mais, não por ter sido refutada logicamente, mas porque quem a expressou foi convertido em alguém que não merece atenção. Isso representa a mais profunda admissão de charlatanismo intelectual que alguém pode expressar em público. Atacar a pessoa em vez do argumento é, sem dúvida, a maneira mais clara de mostrar que você não está apto a refutar o argumento. É como se fosse uma manobra intelectual de sabotagem, furando o pneu do concorrente antes da corrida e, em seguida, ostentando o título de campeão.
Isso é evidente em discussões. O canal do Vilela, Inteligência Limitada, que é um projeto incrível no que se propõe a fazer, possui um problema estrutural que o impede de funcionar como um verdadeiro debate: quem determina o vencedor é a audiência. A plateia. A turma. A multidão de espectadores, que não tem a obrigação de entender a lógica dos argumentos, está presente apenas para se entreter e aplaudirá aqueles que se destacarem mais, que gesticularem com mais convicção ou que tiverem uma voz mais firme no momento apropriado. Para que um debate académico de qualidade ocorra, é necessário contar com alguém como o Victorelli, que possui um dos canais mais respeitáveis em lógica formal na língua portuguesa atualmente, que realmente compreende os fundamentos da argumentação, e que é capaz de se sentar e examinar detalhadamente cada premissa, cada inferência, e cada falácia, para então fornecer um veredicto que se baseie na estrutura do raciocínio, em vez de levar em conta a reação do público. Porque o público é bastante crítico. O jacu, que é uma referência amplamente compreendida por todos em Primavera do Leste, é um pássaro que, biologicamente, exemplifica de maneira perfeita o que ocorre quando a ignorância se une à completa falta de instinto de autopreservação. O jacu se aproxima do seu predador. Não se mova. Veja. O caçador encara o que está à sua frente. O jacu permanece. Não corra. Não consegue compreender o perigo. Permanece ali até ser devorado, com a tranquilidade de quem não entende que existem coisas no mundo que podem causar dano. Uma vez, presenciei uma onça capturando um jacu: ela ficou em silêncio, balançou o rabo, enquanto o jacu, ao seu lado, a observava com uma expressão de completa ignorância existencial, e morreu sem compreender o motivo. O burro, ao menos, consegue sentir quando algo está prestes a dar errado e foge, teimoso, seguindo seus próprios instintos. O jacu nem isso possui. O jacu humanoide é aquele que assiste a um debate e vota em quem aparentou vencer, e o esquerdista contemporâneo que observa o Islã radical e diz "religião de paz" enquanto abraça entusiasticamente o convite para a própria destruição.
A democracia, enquanto um sistema de aferição das preferências coletivas, enfrenta o mesmo problema estrutural. Quando um país realiza uma revolução em busca de mais democracia e essa democracia é realmente estabelecida, o desfecho histórico tende a ser quase sempre o mesmo: surge um ditador. Tipicamente um ditador de inclinação esquerda. Quando o povo não possui a formação intelectual necessária para compreender os aspectos do que está escolhendo, tende a votar em quem promete oferecer benefícios. Bolsinha para pessoas de baixa renda, bolsinha para pessoas trans, bolsinha para negros, bolsinha para gays, bolsinha para mulheres. Dinheiro de todas as espécies espalhado por todas as direções, enquanto a economia se afunda e a moeda não vale mais o papel que a imprime. Além disso, o infeliz burro que acreditou nessa promessa se prejudica mais do que qualquer outra pessoa, pois é o que mais sofre com a inflação, o desemprego e a falência das instituições. Mas não tem essa consciência. Falta a compreensão de que, se o governo aumentar a arrecadação sem gerar mais riqueza, o valor do dinheiro distribuído em forma de benefícios diminuirá constantemente. A falta de discernimento educacional sempre levará a um triunfo do oportunismo imediato sobre a cautela a longo prazo. E aquele que se sustenta com o dinheiro alheio, sem oferecer nada em retorno e sem ter nenhuma restrição de saúde que justifique tal situação, é um parasita. É tão simples quanto isso. Quem ganha utilizando o dinheiro alheio não passa de uma prostituta ou um criminoso. Se você não estiver se entregando de forma construtiva, você é o vilão da narrativa.
Tudo isso não pode ser solucionado por meio de revoluções políticas ou pela presença de bons políticos no poder. Trata-se de uma questão filosófica. Trata-se de uma questão de perspectiva. É precisamente por isso que a batalha intelectual é a única que realmente merece ser lutada. Assim como Cristo afirmava: você se tornará um pescador de homens. O pescador de homens não briga com as mãos. Ele faz a conversão. Ele atrai outros indivíduos para uma perspectiva do mundo que é mais autêntica, mais abrangente e mais capaz de suportar a realidade. Cada vez que você se vê derrotado em um debate, ou desiste de uma conversa por fadiga ou receio de ser visto como arrogante, e em cada ocasião em que você ameniza suas opiniões para evitar perturbar alguém, está permitindo que mais uma pessoa se entregue ao Marciano Branco.
É nesse ponto que o Marciano Absoluto se faz presente, e eu gostaria de solicitar que você leia este quadrinho, pois ele realiza uma tarefa que poucos trabalhos de ficção conseguem: personifica a batalha espiritual pelo destino do mundo em personagens que são alegóricos, mas sem parecerem alegóricos. O Marciano Verde é um extraterrestre, que só pode ser visto por um detetive particular, John, o marciano que atua para a eterna sapiência universal, como é chamado no quadrinho. Em termos de narrativa e simbolismo, ele está servindo a Deus. Ele é uma entidade não orgânica, o que o roteirista utiliza para afirmar que não é precisamente um espírito no sentido religioso convencional, mas que age exatamente como um anjo agiria: uma presença que orienta, que auxilia, que intervém nos momentos adequados, que possui uma devoção absoluta ao bem, sem nenhuma concessão à conveniência. O verde que ele simboliza não é sem motivo: em toda a simbologia ocidental e esotérica, o verde é a cor da esperança. A expectativa que Deus tem para a humanidade. A esperança que persiste, mesmo quando seu objeto a fere, a despreza ou a destrói. É o amor que atinge a profundidade de testemunhar seu próprio filho ser brutalmente atacado pelo próprio objeto de seu afeto e, mesmo assim, não hesitar, continuando a afirmar: eu tenho fé em vocês. Isto é o amor de Deus. Ao longo de toda a obra, o Marciano Verde carrega consigo um amor pela humanidade tão profundo que chega a quase se sacrificar para eliminar o Marciano Branco.
O Marciano Branco representa o próprio demônio. Não se trata do demônio cor-de-rosa que aparece em memes da internet. O verdadeiro demônio. A potência da dissolução, daquela dissolução completa, que deseja converter tudo o que possui forma, estrutura, ordem, nuance, diversidade e hierarquia em uma massa homogênea e desprovida de significado. Você busca provocar um colapso não por malícia pessoal, mas porque a desintegração é a sua essência e o seu propósito. O Marciano Branco propaga um estado de letargia existencial. Ele não assassina ninguém pessoalmente. Ela o atrapalha. Faz com que percam o dom de se espantar, de ter um sentido, de saber o que é bem e o que é mal com alguma certeza. John, o detetive, é um indivíduo comum que, por motivos que ele ainda não entende completamente, consegue perceber coisas que os outros não veem. Por essa razão, ele é chamado para participar de uma guerra que parece ser excessivamente grande e desproporcional para alguém de sua estatura. A batalha culminante entre o Marciano Verde e o Marciano Branco é psicodélica, espiritual e carregada de simbolismo em todas as suas facetas. O Marciano Verde triunfa não através da força bruta, mas pela profundidade do amor que ele possui, que é, de fato, mais poderoso do que a força da dissolução. Afinal, a dissolução, em essência, representa apenas a ausência de ser, enquanto o ser se revela mais forte do que o nada. O comic conclui com o Marciano Verde expressando todas as suas cores, cada uma representando uma qualidade divina, como se fosse a revelação gradual do rosto de Deus, observada através de uma perspectiva extraterrestre, que o leitor comum pode aceitar sem a necessidade de um vocabulário religioso para compreender. O autor apresenta alguns detalhes que, provavelmente, foram incluídos para não desagradar a certos leitores, além de algumas concessões de agenda que qualquer observador atento consegue notar. A obra como um todo sugere exatamente o que estou afirmando, e a discussão entre o anjo e o demônio sobre o destino de cada alma humana está presente de maneira mais evidente do que em muitos textos que são claramente religiosos.





















Jujutsu Kaisen realiza uma abordagem semelhante, porém com uma estética totalmente distinta e um léxico simbólico oriundo do budismo e do xintoísmo japoneses. A energia maldita que existe no universo da obra é, em essência, a energia da pura potencialidade, o poder de ser algo que ainda não se definiu. Essa energia é considerada amaldiçoada, pois, segundo a perspectiva budista, a violência é sempre má, e essa energia pode produzir violência tanto quanto pode proporcionar proteção. Os magos, que o mangá se refere dessa forma para que o público em geral possa entender sem dificuldade, são na verdade algo muito mais parecido com teurgos, sacerdotes-guerreiros, santos combatentes que invocam seres do plano espiritual para combater as maldições, que são os demônios da obra. O Mahoraga, a serpente de oito marcas que Megumi Fushiguro invoca a um preço exorbitante sempre que aparece, é, literalmente, um anjo do budismo xintoísta. Um dos deuses menores responsáveis pelo fluxo da natureza. É uma entidade que existe antes de qualquer sistema humano de categorização e que, ao ser chamada, proporciona um poder que vai além de qualquer forma de adaptação. O Mahoraga é capaz de se adaptar a qualquer situação. Qualquer ataque. A qualquer método. Pois ele simboliza a ordem natural, que não pode ser superada por qualquer plano elaborado dentro de seus limites. Gojo Satoru, o mago mais forte da história, emprega o Infinito, uma manipulação do espaço que o impede de ser tocado, como uma ilustração da onipotência divina restringida ao domínio técnico. O Infinito de Gojo vai além de uma simples habilidade: é a linha que distingue o sagrado do profano, o que o divino protege do caos que o expõe.
A interação entre Mahito e Itadori na segunda temporada é uma das mais profundas em termos filosóficos de toda a obra. Mahito é uma maldição, um demônio que surgiu do medo e do rancor que os seres humanos nutrem uns pelos outros. Ele é, de fato, uma personificação da falha moral coletiva da humanidade. Quando Itadori se encontra completamente devastado emocionalmente, testemunhando a transformação de tudo ao seu redor em sangue, morte e um caos irreversível, Mahito interrompe a luta e diz a ele: você chegou até aqui acreditando que era um herói de shounen. Que viria, agrediria a todos e as situações se resolveriam. Você está aqui, lágrimas nos olhos, sem perceber que o que se desenrola diante de nós é a escolha que determinará o destino do mundo. Quem irá dominar a realidade: os seres humanos, com sua lógica estruturada, ou as maldições, com seu eros indomável e o caos absoluto? Mahito não se expressa dessa maneira. Estou fazendo a tradução do que a cena representa filosoficamente para quem já está familiarizado com o vocabulário. O que ele afirma é: você não é um herói. Você é débil. A fraqueza deles será o que causará a ruína de tudo. E Itadori, naquele instante, não possui uma resposta imediata. Porque ele entende que Mahito está certo ao diagnosticar a situação, embora a conclusão do demônio esteja totalmente errada. A desordem não é a resposta. No entanto, a ingenuidade heroica, faltando qualquer profundidade filosófica, também não é o caso. O que resgata Itadori não é a força física: é a decisão de persistir na luta mesmo sem ter todas as respostas. É a negação de se tornar um todo indistinto.

Sukuna, o rei das maldições e principal vilão de toda a história, encontra um fim que é, no mínimo, lamentável. Não da forma como um grande antagonista que é derrotado em uma batalha épica, com trilha sonora dramática e cenas em câmera lenta. Ele se desintegra. Transforma-se em lagarta. Transforma-se na entidade mais amorfa que você consegue conceber, destituída de dignidade, grandiosidade e de quaisquer das características que ele demonstrou ao longo de toda a história. I isso é teologicamente preciso de uma maneira que os roteiristas talvez nem tenham imaginado totalmente: Satanás, nas escrituras, encontra sua morte de maneira lamentável. A narrativa predominante do adversário é que ele age como se fosse dotado de um poder infinito, como se sua destruição fosse algo impensável, e como se aqueles que o apoiam estivessem alinhados com a força final e definitiva da realidade. No final, ele é lançado, derrotado e finalizado de uma maneira que não possui qualquer traço de grandiosidade. Sukuna chega até a exibir um princípio de conversão no final, ou pelo menos um reconhecimento de derrota que não é pura negação, e Mahito entra em conflito com ele no plano pós-morte, nos limites do inferno da mitologia budista, ainda em disputa, ainda incapaz de chegar a uma resolução, pois é intrínseco ao mal não conseguir se resolver. Ele só pode ser derrotado. Sempre mudando por fora.


O Clube da Luta realiza a mesma função, mas com uma estética totalmente distinta. Tyler Durden não é o anti-herói que o cinema contemporâneo tenta, às vezes, moldá-lo após décadas de reavaliação crítica. Tyler é a representação do homem de força contida que foi castrado de forma sistemática e cultural. O narrador, que não possui um nome porque pode representar qualquer homem de qualquer idade nesta situação, foi moldado por uma sociedade que trocou a verdadeira iniciação por livros de autoajuda, o sofrimento que leva à formação pessoal por terapia focada na gestão das emoções, e a masculinidade entendida como uma responsabilidade por uma culpa masculina que se tornou norma. Tyler representa o retorno brutal e distorcido de tudo aquilo que foi reprimido. Ele não está em boa saúde. Ele é honesto de uma maneira que o sistema que o criou nunca foi. A parte em que Tyler menciona que Deus pode não ter uma boa opinião sobre você se assemelha mais ao livro de Jó do que a qualquer forma de negação da fé. É a teologia do Deus que não é o responsável pelo serviço de atendimento ao cliente do universo, que não está aqui para aprovar suas decisões, que possui uma natureza que vai além do conforto pessoal de qualquer pessoa. Chesterton afirmava que, quando as pessoas deixam de crer em Deus, elas não param de crer em algo; ao contrário, começam a acreditar em qualquer coisa. Tyler cria uma seita porque o desejo de pertencer e de ser iniciado não pode ser aniquilado pela modernidade, apenas redirecionado para maneiras cada vez mais estranhas e arriscadas quando as formas legítimas são destruídas. Quando Tyler afirma que nossos pais eram nossos modelos de Deus, e que quando eles falham Deus também falha, ele está fazendo a confissão mais direta possível sobre como a ausência de uma figura paterna real provoca distorções metafísicas profundas que, por sua vez, se revelam em diversos aspectos da vida, desde a política até a religião, passando pela nossa capacidade de amar.
É a história do leão. Um leão é preso e enviado para o zoológico. Há comida, há abrigo, há fêmeas. Mas acaba por perder a dignidade. Os fios caem. O brilho dos olhos se extingue. Ele se transforma em uma sombra do que costumava ser, pois sua verdadeira essência não pode existir sem a prática constante do que realmente é. Um dia ele se dá conta de que isso está lhe fazendo mal. Duas alternativas: agredir o cuidador, que é o representante direto do sistema que o mantém preso, resultando na morte garantida. A sociedade não tolera aqueles que confrontam o sistema abertamente sem um plano. Ou: confrontar o leão que reina no sistema, não com o intuito de arruinar tudo, mas para assumir uma posição de poder dentro da estrutura existente. Brigar, ganhar, ocupar um lugar. Não se trata de uma liberdade total. É poder real em uma realidade real. Aristóteles se referiria a isso como prudência. Nietzsche se referiria a isso como uma transvaloração. A Bíblia se referiria a isso como uma sabedoria serpentina. E quem considera isso uma forma de opressão nunca realmente teve que lutar pela sobrevivência.


Jujutsu Kaisen realiza uma abordagem semelhante, porém com uma estética totalmente distinta e um léxico simbólico oriundo do budismo e do xintoísmo japoneses. A energia maldita que existe no universo da obra é, em essência, a energia da pura potencialidade, o poder de ser algo que ainda não se definiu. Essa energia é considerada amaldiçoada, pois, segundo a perspectiva budista, a violência é sempre má, e essa energia pode produzir violência tanto quanto pode proporcionar proteção. Os magos, que o mangá se refere dessa forma para que o público em geral possa entender sem dificuldade, são na verdade algo muito mais parecido com teurgos, sacerdotes-guerreiros, santos combatentes que invocam seres do plano espiritual para combater as maldições, que são os demônios da obra. O Mahoraga, a serpente de oito marcas que Megumi Fushiguro invoca a um preço exorbitante sempre que aparece, é, literalmente, um anjo do budismo xintoísta. Um dos deuses menores responsáveis pelo fluxo da natureza. É uma entidade que existe antes de qualquer sistema humano de categorização e que, ao ser chamada, proporciona um poder que vai além de qualquer forma de adaptação. O Mahoraga é capaz de se adaptar a qualquer situação. Qualquer ataque. A qualquer método. Pois ele simboliza a ordem natural, que não pode ser superada por qualquer plano elaborado dentro de seus limites. Gojo Satoru, o mago mais forte da história, emprega o Infinito, uma manipulação do espaço que o impede de ser tocado, como uma ilustração da onipotência divina restringida ao domínio técnico. O Infinito de Gojo vai além de uma simples habilidade: é a linha que distingue o sagrado do profano, o que o divino protege do caos que o expõe.
A interação entre Mahito e Itadori na segunda temporada é uma das mais profundas em termos filosóficos de toda a obra. Mahito é uma maldição, um demônio que surgiu do medo e do rancor que os seres humanos nutrem uns pelos outros. Ele é, de fato, uma personificação da falha moral coletiva da humanidade. Quando Itadori se encontra completamente devastado emocionalmente, testemunhando a transformação de tudo ao seu redor em sangue, morte e um caos irreversível, Mahito interrompe a luta e diz a ele: você chegou até aqui acreditando que era um herói de shounen. Que viria, agrediria a todos e as situações se resolveriam. Você está aqui, lágrimas nos olhos, sem perceber que o que se desenrola diante de nós é a escolha que determinará o destino do mundo. Quem irá dominar a realidade: os seres humanos, com sua lógica estruturada, ou as maldições, com seu eros indomável e o caos absoluto? Mahito não se expressa dessa maneira. Estou fazendo a tradução do que a cena representa filosoficamente para quem já está familiarizado com o vocabulário. O que ele afirma é: você não é um herói. Você é débil. A fraqueza deles será o que causará a ruína de tudo. E Itadori, naquele instante, não possui uma resposta imediata. Porque ele entende que Mahito está certo ao diagnosticar a situação, embora a conclusão do demônio esteja totalmente errada. A desordem não é a resposta. No entanto, a ingenuidade heroica, lacking any philosophical depth, is also not the case. O que resgata Itadori não é a força física: é a decisão de persistir na luta mesmo sem ter todas as respostas. É a negação de se tornar um todo indistinto.
Sukuna, o rei das maldições e principal vilão de toda a história, encontra um fim que é, no mínimo, lamentável. Não da forma como um grande antagonista que é derrotado em uma batalha épica, com trilha sonora dramática e cenas em câmera lenta. Ele se desintegra. Transforma-se em lagarta. Transforma-se na entidade mais amorfa que você consegue conceber, destituída de dignidade, grandiosidade e de quaisquer das características que ele demonstrou ao longo de toda a história. I isso é teologicamente preciso de uma maneira que os roteiristas talvez nem tenham imaginado totalmente: Satanás, nas escrituras, encontra sua morte de maneira lamentável. A narrativa predominante do adversário é que ele age como se fosse dotado de um poder infinito, como se sua destruição fosse algo impensável, e como se aqueles que o apoiam estivessem alinhados com a força final e definitiva da realidade. No final, ele é lançado, derrotado e finalizado de uma maneira que não possui qualquer traço de grandiosidade. Sukuna chega até a exibir um princípio de conversão no final, ou pelo menos um reconhecimento de derrota que não é pura negação, e Mahito entra em conflito com ele no plano pós-morte, nos limites do inferno da mitologia budista, ainda em disputa, ainda incapaz de chegar a uma resolução, pois é intrínseco ao mal não conseguir se resolver. Ele só pode ser derrotado. Sempre mudando por fora.
O Clube da Luta realiza a mesma função, mas com uma estética totalmente distinta. Tyler Durden não é o anti-herói que o cinema contemporâneo tenta, às vezes, moldá-lo após décadas de reavaliação crítica. Tyler é a representação do homem de força contida que foi castrado de forma sistemática e cultural. O narrador, que não possui um nome porque pode representar qualquer homem de qualquer idade nesta situação, foi moldado por uma sociedade que trocou a verdadeira iniciação por livros de autoajuda, o sofrimento que leva à formação pessoal por terapia focada na gestão das emoções, e a masculinidade entendida como uma responsabilidade por uma culpa masculina que se tornou norma. Tyler representa o retorno brutal e distorcido de tudo aquilo que foi reprimido. Ele não está em boa saúde. Ele é honesto de uma maneira que o sistema que o criou nunca foi. A parte em que Tyler menciona que Deus pode não ter uma boa opinião sobre você se assemelha mais ao livro de Jó do que a qualquer forma de negação da fé. É a teologia do Deus que não é o responsável pelo serviço de atendimento ao cliente do universo, que não está aqui para aprovar suas decisões, que possui uma natureza que vai além do conforto pessoal de qualquer pessoa. Chesterton afirmava que, quando as pessoas deixam de crer em Deus, elas não param de crer em algo; ao contrário, começam a acreditar em qualquer coisa. Tyler cria uma seita porque o desejo de pertencer e de ser iniciado não pode ser aniquilado pela modernidade, apenas redirecionado para maneiras cada vez mais estranhas e arriscadas quando as formas legítimas são destruídas. Quando Tyler afirma que nossos pais eram nossos modelos de Deus, e que quando eles falham Deus também falha, ele está fazendo a confissão mais direta possível sobre como a ausência de uma figura paterna real provoca distorções metafísicas profundas que, por sua vez, se revelam em diversos aspectos da vida, desde a política até a religião, passando pela nossa capacidade de amar.
É a história do leão. Um leão é preso e enviado para o zoológico. Há comida, há abrigo, há fêmeas. Mas acaba por perder a dignidade. Os fios caem. O brilho dos olhos se extingue. Ele se transforma em uma sombra do que costumava ser, pois sua verdadeira essência não pode existir sem a prática constante do que realmente é. Um dia ele se dá conta de que isso está lhe fazendo mal. Duas alternativas: agredir o cuidador, que é o representante direto do sistema que o mantém preso, resultando na morte garantida. A sociedade não tolera aqueles que confrontam o sistema abertamente sem um plano. Ou: confrontar o leão que reina no sistema, não com o intuito de arruinar tudo, mas para assumir uma posição de poder dentro da estrutura existente. Brigar, ganhar, ocupar um lugar. Não se trata de uma liberdade total. É poder real em uma realidade real. Aristóteles se referiria a isso como prudência. Nietzsche se referiria a isso como uma transvaloração. A Bíblia se referiria a isso como uma sabedoria serpentina. E quem considera isso uma forma de opressão nunca realmente teve que lutar pela sobrevivência.
Há uma cena menos significativa em Breaking Bad que supera em valor muitas páginas de análise cultural. Walter desperta Jesse no meio da noite e diz: Jesse, você é um baiacu. E Jesse, ainda sem entender, inicia um mantra: eu sou um baiacu, eu sou um baiacu. Então, de repente, transforma-se em um brado: eu sou um baiacu. A situação é engraçada, mas também é uma sátira precisa: de repente, você olha para o seu redor e percebe que todos ao seu redor estão funcionando com um nível de consciência tão baixo que a comparação com um peixe inflável se torna perfeitamente sensata. O longa-metragem Idiocracia, que assisti na infância e com o qual me identificava de maneira inquietante, pois eu era, de fato, aquele menino cercado por um grupo de meninas que falavam sobre maquiagem e brilho labial, enquanto nós discutíamos como acoplar um motor a um carro para torná-lo mais veloz e questionávamos por que as montadoras ainda não haviam feito isso, traz essa mesma ideia central: o que ocorre quando a mediocridade prevalece por ser mais abundante? Quando as garotas me chamavam de burro e eu destacava que a conversa delas girava em torno de gloss, enquanto a nossa se concentrava em mecânica, elas ficavam irritadas. Coragem, por assim dizer, é a resposta habitual de quem não possui um argumento.
O verdadeiro preconceito, que se distingue da simples antipatia de boteco disfarçada de uma opinião sólida, é sempre organizado. Trata-se de uma metafísica do ódio, uma perspectiva que define, de maneira quase teológica, quem tem o direito de existir plenamente e quem é apenas um erro estatístico que precisa ser ajustado. Nazismo não nasceu de um bêbado xingando os outros. Proveniente de uma organização espiritual deformada que empregava mitologia racial, simbolismo ocultista e uma crença invertida que prometia redenção através da exclusão. O Sol Negro não era ornamentação estética: era teologia disfarçada. Quem acredita que aquilo foi apenas um excesso de política nunca compreendeu como o mal age de forma astuta. O mal astuto sempre se disfarça com vestes de bondade. A maior opressão de um grupo sempre se dá por um sistema que se diz necessário para a moral. Eric Voegelin foi exato ao chamar essas estruturas de religiões políticas: a transcendência expulsa, ela volta como ideologia totalizante e exige um preço muito maior.

As ditaduras mais severas documentadas na história foram de natureza puritana. De forma não metafórica. De manera literal. O puritanismo representa o modelo de moralismo que se vê obrigado a impor suas crenças a todo o mundo para se sentir legitimado, uma vez que uma moral que não é difundida para fora ainda nutre incertezas sobre si mesma. O puritano considera tudo o que está ao seu redor como demoníaco. Todo. Se você acompanha Dragon Ball, está consumindo uma obra do diabo. Se o seu cartão de Natal apresenta o Papai Noel, você está iniciando a criança na adoração a demônios. Tive uma tia que flertava com essas questões, era católica buscando se converter ao protestantismo, e que certa vez me pegou assistindo Fullmetal Alchemist. Fullmetal Alchemist pode ser considerado o anime que mais incorpora elementos cristãos, o que é uma bela ironia, levando em conta que se trata de uma produção japonesa. É uma reprovação completa à modernidade mágica, ao raciocínio que pensa que o homem pode controlar as forças do universo por meio da técnica e da pura vontade. Os irmãos Elric, Edward e Alphonse, representam uma crítica viva a Eliphas Levi e Aleister Crowley, os dois grandes magos da modernidade ocidental. Edward perde um braço e uma perna ao tentar ressuscitar sua mãe. Alphonse perde seu corpo completamente e sua alma fica aprisionada em uma armadura. O custo da transmutação humana, ou da tentativa de fazer com que a realidade se conforme à vontade pessoal, desafiando as leis que a regem, é sempre excessivo em comparação ao benefício obtido. A mãe não retorna. O que retorna é algo terrível que evidencia que há coisas que não podem ser recriadas apenas pela vontade. Isso se refere à doutrina. E minha tia descartaria esse anime juntamente com o Papai Noel de chocolate, caso tivesse a oportunidade, sem nem mesmo conseguir perceber que estava se livrando de algo que era mais intrinsecamente cristão do que qualquer coisa gerada pela sua catequese mal executada.
O protestantismo contemporâneo é o puritano da atualidade. Qualquer coisa pode ser motivo de ofensa. Nada está certo. A verdadeira razão por trás disso é a mesma de sempre: ele é o devoto, o moralista, aquele que necessita que o mundo todo confirme sua própria perspectiva de vida para que esta pareça autêntica. Uma crença que não consegue conviver com pontos de vista distintos não é realmente crença: é apenas medo disfarçado de convicção. A distinção entre um judeu ortodoxo, que observa rigorosamente as suas práticas e é considerado, por vezes, um tanto incômodo com as suas duas cozinhas separadas para manter o kosher e seus ritmos que não se adaptam ao mundo ao seu redor, e um protestante puritano, reside no fato de que o judeu ortodoxo é meticuloso em nome de uma tradição que possui uma substância histórica e filosófica que se estende por milênios. O pequeno crente protestante é uma versão extremamente irritante de alguém que se considera devoto, intensificado a um nível de cinquenta, apresentando a mesma característica de impor suas opiniões, mas sem a profundidade necessária que o tornaria, pelo menos do ponto de vista intelectual, um assunto interessante para análise.
O protestambobo é um termo que surgiu no vocabulário popular muito antes de qualquer estudioso conseguir atribuir um nome a ele. Não se trata de ofensa: é uma avaliação. É o fiel protestante que transferiu todo o seu discernimento espiritual para um pastor que atua como oráculo, juiz, confessor, profeta e terapeuta ao mesmo tempo, sem nenhuma estrutura objetiva que o restrinja. O Papa está ligado ao Magistério, aos Concílios, à Tradição, à doutrina que não pode ser negada por uma preferência pessoal. Um pronunciamento ex cathedra é algo extremamente raro e simboliza a culminação de séculos de consenso teológico, em vez de uma nova opinião. Um pastor de uma seita protestante elabora uma nova doutrina antes mesmo de tomar o café da manhã. Faz nova descoberta durante o almoço. Adapta o que Deus teria comunicado durante o jantar às exigências da coleta dominical. É um opressor espiritual que se diz libertador de opressões. O devoto entrega sua consciência com fervor, pois a liberdade é um fardo, e ter alguém que pense por você é um alívio instantâneo, embora essa escolha possa resultar, mais tarde, em uma total desordem espiritual.
O debate sobre o calvinismo que realizei com o pastor de meu amigo ocorreu de uma maneira que só pode ser chamada de inevitável. Estive ouvindo, por algum tempo, alegações que qualquer pessoa que tenha um conhecimento rudimentar da teologia católica desmantelaria em cinco minutos. A afirmação de que a comunhão católica representaria o ícone da traição de Judas é uma das mais grosseiras e absurdas tolices que já ouvi de alguém que se diz teólogo. Judas não cria o sacramento. Cristo estabeleceu o sacramento. "Este é o meu corpo. Este é o meu sangue." Não se pode afirmar que "isto representa algo que alguém vai fazer de errado". É uma afirmação ontológica sobre a presença real. Toda a patrística e toda a Igreja desde os primórdios estão de acordo com isso. No segundo século, Irineu de Lyon já argumentava em favor da realidade da Eucaristia, contrabalançando aqueles que tentavam limitá-la a um simples símbolo. Negar isso não significa reinterpretar o cristianismo: trata-se de criar uma nova religião e utilizar o nome da anterior para evitar a necessidade de estabelecer credibilidade desde o início.
A CEIA E O DEUS DESCONHECIDO
Um ambiente de sala de conferência em uma Igreja. Ambiente contido, porém carregado de tensão. A conversa já começou.
MINISTRO: Em essência, a comunhão representa um símbolo. Isso simboliza a traição de Judas. É um lembrete da falibilidade humana.
EU: De maneira alguma. Isso representa um erro teológico e simbólico grave. Jesus não afirma "isto representa algo que Judas fez". Ele afirma: "isto é o meu corpo." "Este é o meu sangue." Se a comunhão representasse a traição, o foco da Ceia não seria Cristo, mas sim Judas. Judas não estabelece o sacramento. Ele o aniquila.
MINISTRO: Contudo, diversos símbolos pagãos foram assimilados pelo cristianismo. Dionísio, pão, vinho, tudo isso já era conhecido.
EU: Evidentemente, existia. Isso não fortalece sua argumentação; pelo contrário, a refuta completamente. Comer alimentos sagrados é algo que existia antes de Dionísio, do helenismo e do paganismo grego. Na Páscoa judaica, encontramos o pão ázimo e o vinho da bênção. O maná no deserto representa sustento espiritual. Leite e mel, óleo, água, sal: cada tradição emprega materiais para conectar o profano ao sagrado. A distinção do cristianismo não reside no uso de símbolos, mas sim na prática do que esses símbolos preconizavam. Dionísio é a promessa de um gozo. Cristo assegura salvação. Um aniquila o homem no turbilhão. O outro o recria na cruz.
MINISTRO: Contudo, ainda possui um caráter simbólico. A presença não é real.
EU: Você está afirmando que toda a Igreja, tanto a latina quanto a oriental, assim como a patrística e a medieval, esteve equivocada por um período de mil e quinhentos anos, e que a verdade somente surgiu no século dezesseis? Porque todos os sacerdotes estão de acordo: a Eucaristia representa o Cordeiro da Páscoa. Não se trata de metáfora. Não se trata de alegoria psicológica. É estar lá. Tomás de Aquino deixa bem claro: a substância se altera, enquanto os acidentes continuam os mesmos. Isto não é poesia. É a aplicação da metafísica de Aristóteles. Se você o nega, não está reinterpretando o cristianismo. Está fundando uma nova seita.
MINISTRO: No entanto, a vontade humana está corrompida. Não existe um verdadeiro livre-arbítrio espiritual. Tudo está subordinado à vontade suprema de Deus.
EU: Portanto, sejamos completamente francos. Calvino argumenta que tudo acontece por vontade de Deus. Até o mal. Assim, quando o ser humano comete um pecado, ele age precisamente de acordo com os planos de Deus. Como é que um homem pode ser responsabilizado por algo que estava fora de seu controle? Como já menciona Calvino: "o homem é responsável por sua própria ruína." No entanto, se ele nunca teve uma verdadeira opção, isso se torna uma encenação moral. Não é dever: é culpa carregada sobre um marionete.
MINISTRO: A vontade é livre, no sentido de não ser forçada por fatores externos.
EU: Isso não é liberdade. Isto é automatismo interno. Um tigre que mata não age por obrigação e não pode ser considerado moralmente responsável por isso. Se o homem atua apenas em função de uma inclinação específica, ele não está fazendo uma escolha. A Bíblia contraria essa ideia de forma clara: "Escolhe, pois, a vida." "Quantas vezes eu desejei, mas você não quis." Jesus não se entristece com bonecos de vento. Ele se entristece com anseios que foram realmente negados.
MINISTRO: No entanto, Agostinho menciona a graça soberana.
EU: Sim. Ele nunca impediu que as pessoas escolhessem livremente. Agostinho afirma que, na ausência do livre-arbítrio, não é possível haver justiça nem culpa. Tomás é ainda mais claro: a providência divina não elimina a liberdade, mas a ordena. Deus governa sem destruir. Calvino governa destruindo.
MINISTRO: O ser humano tem algum papel a desempenhar na salvação?
EU: Exactamente. Não como fator principal, mas como um contribuidor. Sem isso, não existe santificação, mérito, santos, sentido moral ou uma encarnação real. Cristo transforma-se em um evento superficial dentro de um teatro já estabelecido. Seu sistema gera um Deus que estabelece o mal, pune aqueles que não tinham como agir de outra forma e chama isso de justiça. Este não é o Deus do cristianismo. É um criador. De maneira irônica, o gnosticismo não vai tão longe, uma vez que, ao menos dentro dessa corrente de pensamento, existe um Deus superior que nos resgata do mal. Em relação ao calvinismo, nem mesmo isso.
O grupo me chamou de provocadora. Confusão, neste contexto, refere-se à violação do acordo tácito de ignorância confortável. Eu era "bruto", "diabólico", "maligno". Fazer alguém refletir passou a ser visto como uma possessão demoníaca. Não é nenhuma novidade: sociedades puritanas sempre enxergaram a lucidez como uma ameaça, e o movimento woke atual não trouxe nada de novo, sendo uma versão do calvinismo moralista, com pronomes substituindo os versículos. Rompi todas as conexões. Não por vaidade. Em nome da integridade moral. O idiota contamina, e a confusão que ele dissemina gera custos reais para aqueles que permanecem por perto tempo suficiente, sem possuírem anticorpos intelectuais bem desenvolvidos.
O hábito de contemplação enquanto atividade mental fundamenta tudo isso. Não se trata de uma contemplação que seja uma forma de fuga, nem de um retiro confortável para aqueles que não suportam a rigidez da vida. Reflexão como uma batalha tranquila. No Fédon, Platão faz com que Sócrates afirme que filosofar é, de certa forma, preparar-se para a morte. Isso implica em aprender a diferenciar o que é realmente essencial do que é supérfluo, de uma maneira tão profunda e incisiva que pode ser dolorosa. No livro Ética a Nicômaco, Aristóteles argumenta que a vida contemplativa é a mais sublime, pois liga o homem ao seu aspecto eterno, ao intelecto que faz parte da ordem cósmica. Refletir não é desconsiderar o mundo. Significa abrir os olhos de um jeito tão profundo que as coisas mostram aquilo que estavam ocultando.
Van Gogh compreendeu isso de maneira trágica e ao mesmo tempo esclarecedora. Não como um homem modelo, pois ele foi insuportável, complexo e muitas vezes injusto, mas como alguém que aprendeu a enxergar de uma forma que a maioria das pessoas nunca consegue. Aqueles que interpretam as cartas de Theo descobrem um espírito que se esforça para preservar algo de um naufrágio, utilizando o único recurso disponível: a habilidade de observar as coisas atentamente e devolvê-las ao mundo em sua verdadeira cor, não na tonalidade habitual ou naquela que proporciona conforto, mas na cor que realmente possuem quando alguém se dedica a observá-las com atenção. Meyer Schapiro observou: Van Gogh deu ao mundo uma nova visão, onde a cor não representa a realidade, mas a revela. Ele faleceu em meio a um fracasso social, rodeado de solidão, após uma recaída que culminou em suicídio. O que ele criou continua a existir precisamente porque não era próprio do seu tempo. Fazia parte da realidade.
George Bailey, do filme A Felicidade Não Se Compra, dirigido por Frank Capra, não muda o mundo por meio de ações grandiosas. Ele protege o banco da sua cidade utilizando dinheiro que seus amigos emprestaram. Ele permanece quando poderia ir. Ele opta pela responsabilidade em vez de se deixar levar pela atraente aventura. O filme requer um anjo que revele uma realidade paralela na qual ele não existiu, a fim de evidenciar as consequências que as decisões diárias, muitas vezes consideradas triviais, geram ao longo do tempo. Segundo Hannah Arendt, a realidade humana é composta por ações tão pequenas que não aparecem nas notícias, mas grandes o bastante para impedir um colapso. George Bailey não é um herói de uma grande epopeia. É um herói de lealdades constantes e de negativas silenciosas ao caminho mais simples.
Samwise Gamgee, nas obras de Tolkien, não nasceu com um destino grandioso pela frente. Ele é jardineiro. Não busca uma pretensão heróica. Não prometeu salvar a Terra-média. No entanto, quando Frodo tropeça, Sam não diz nada. Ele o transporta. Em uma de suas cartas, Tolkien mencionou que as grandes narrativas são compostas por pequenas lealdades. A contemplação revela exatamente isso: a virtude geralmente se apresenta de maneira simples, cotidiana e quase invisível, o que a torna passível de ser ignorada por aqueles que buscam heróis em lugares inadequados.
Sandman, de Neil Gaiman, realiza algo que pouquíssimas obras de fantasia conseguem sem recorrer a alegorias baratas: defende os sonhos, não como uma fuga da realidade, mas como uma linguagem simbólica através da qual a alma se prepara para confrontar aquilo que ainda não conseguiu compreender diretamente. Morfeus não defende falsidades. Defende a habilidade humana de conceber o que ainda não existe, de se precaver para eventos que ainda não ocorreram e de manter internamente a semente do que poderá se tornar realidade. A afirmação que ele faz, de que o que não são mentiras, mas sonhos, é mais significativa do que aparenta. Destruir os sonhos de outra pessoa sob a justificativa de uma sinceridade brutal não é um ato de coragem intelectual; é, na verdade, uma forma de crueldade disfarçada de realismo. Jung afirmou que tanto os mitos quanto os sonhos não mentem, mas sim intensificam. Quando Morfeus vigia os sonhos, ele está zelando pela incubadora do significado. Um homem que não tem sonhos não se torna mais esclarecido. Fica mais vulnerável, embora disfarce isso com expressões de sobrancelhas franzidas e um tom de voz áspero.

The Boys é o oposto dessa ideia. É uma obra que se diz corajosa e realista, mas que, no fundo, realiza uma covardia essencial: parte do princípio de que toda virtude é impossível e que todo poder corrompe de forma absoluta, e a partir disso oferece ao espectador a noção de que a postura mais sensata é o cinismo absoluto. Nietzsche alertou que aqueles que combatem monstros devem ter cuidado para não se transformar em um deles. The Boys não prestou atenção. Ao afirmar que cada ideal é uma forma de ilusão e que todo herói na verdade é um vilão à espera do momento apropriado para se revelar, a obra não proporciona realismo, mas sim uma paralisia ética. Se nada possui valor, qual a razão para praticar o bem? Se cada virtude é uma atuação, por que se esforçar? A resposta que o livro não consegue oferecer é que a virtude não é rara por ser impossível: ela é rara porque é desafiadora, e o fato de ser desafiadora não significa que não exista. Chesterton observou que o mundo contemporâneo está repleto de virtudes cristãs que, enlourecidas, perderam o contexto que lhes conferia significado e agora se destroem mutuamente. The Boys faz isso com a coragem: transforma a oposição ao poder em desculpa para nunca realizar nada positivo. Após consumir esse tipo de narrativa, o que resta não é compreensão. É fadiga.
O que se deixa para a posteridade não se mede pelos filhos. Está nas concepções. Essa é uma das verdades mais incômodas que se pode comunicar a alguém que construiu toda a sua vida em torno da crença de que os filhos irão conquistar aquilo que o pai não conseguiu. Porque o sangue não é um meio para que as ideias circulem. Exigem empenho, vigilância, coordenação, exposição pública, risco de serem questionadas e a habilidade de resistir a uma possível refutação. O DNA é responsável pela formação de corpos. Apenas o esforço interno gera estruturas que se mantêm ao longo do tempo. Newton deixou para trás séculos de física aristotélica. Einstein ultrapassou em muitos aspectos Newton. Nenhum deles será esquecido, não porque estavam sempre certos, mas porque refletiram profundamente o suficiente para mudar a realidade de sua época. Como afirmou Newton: "se vi mais longe foi por estar sobre ombros de gigantes." Mas preste atenção nesse detalhe: ele subiu nos ombros. Não esperou que alguém pisasse em seus. A diferença entre confiar o próprio desenvolvimento a um filho que pode não nascer e edificar algo que já existe neste momento é a distinção entre uma esperança que serve como fuga e uma esperança que impulsiona a ação.
Karl Popper mostrou que o avanço do conhecimento se dá somente por meio de conjecturas públicas e refutações abertas. Ideias que permanecem aprisionadas não são profundas; elas são infrutíferas. A evolução da humanidade não se baseia em mistérios, mas sim na clareza, mesmo que essa clareza possa ser dolorosa. O conselho atual de não divulgar suas ideias para se destacar é uma das formas mais elaboradas de suicídio intelectual que já ouvi. Você não será especial apenas mantendo seus pensamentos para si. Vai ser insignificante. A única singularidade que realmente conta é aquela que foi testada através do confronto com outras mentes e conseguiu se manter.
Ortega y Gasset afirmou: "eu sou eu e minha circunstância, e se não a salvo, não salvo a mim mesmo." Preservar a própria condição é, portanto, exercer uma ação intelectual sobre ela. Não passá-la adiante para as próximas gerações como se fosse uma dívida a ser quitada por alguém no futuro. A obrigação financeira é sua. O projeto é seu. Optar por refletir, por escrever, por cometer enganos em plena vista do público, por fazer correções, por persistir e por apresentar algo inovador ao mundo que se extinguira junto com você caso não o ofereça imediatamente, é uma responsabilidade que não pode ser delegada a ninguém. Os genes desaparecem. As ideias persistem. Os corpos se dissipam. As formas continuam a existir. Aqueles que escolhem não refletir e aguardam que outros o façam por eles não apenas serão esquecidos; na verdade, já estão começando a se apagar enquanto ainda estão vivos.
O amor deteriorado também representa uma forma de extinção. C. S. Em "Os Quatro Amores", Lewis realizou algo que raras obras de análise da natureza humana conseguem: descreveu com precisão clínica e afeto humano simultaneamente os quatro tipos de amor que o ser humano é capaz de, e mostrou que cada um deles, quando removido do seu eixo transcendente, se transforma num vício socialmente aceito." O Storge, aquele amor quase instintivo entre pais e filhos, que Lewis se refere como amor-necessidade de forma não pejorativa, uma vez que se trata de uma necessidade biológica e profundamente humana, foi minuciosamente desmantelado por uma modernidade que transferiu a responsabilidade da educação para terceiros e que confundiu o ato de fornecer recursos materiais com a presença emocional. O resultado é uma geração que se relaciona com os pais como quem encontra um cachorro desconhecido na rua: com um gesto rápido, sem afeto, sem obrigação. E então, ela se surpreende com sua própria indiferença emocional, a qual considera como sinal de maturidade.
A Philia, a verdadeira amizade que Lewis retrata como o amor humano mais raro, necessita de tempo junto, virtude compartilhada e lealdade, três coisas que a cultura do movimento perpétuo considera uma inconveniência. Tomás de Aquino observou que ser amigo significa querer o bem do outro pelo que ele é, e não pela vantagem que ele oferece. As amizades modernas são passageiras: se desfazem na primeira mudança de cidade, de interesse ou de circunstâncias da vida. As crianças já aprendem desde pequenas que viver juntos não é o mesmo que se conectar. É familiarizar-se de forma efémera. Denominam isso como liberdade coletiva. É temor de permanência, mas com outro nome.
Ao chegar ao Eros, tudo se transforma em um caos controlado. Lewis distingue entre desejo sexual e amor erótico: Eros busca a totalidade da pessoa, e não apenas o prazer. A modernidade seguiu um caminho oposto: tornou o desejo mais sensual e retirou o indivíduo da equação. O jogo das relações transformou-se em uma contabilidade de características, como se os indivíduos fossem fichas de RPG mal calibradas, com pontos distribuídos em beleza e riqueza, enquanto habilidades relacionadas ao caráter e à inteligência são desconsideradas por não gerarem confrontos diretos e eficazes. O homem de virtude não grita, não ameaça e não promete show. Assim, parece que está com algum problema em um mercado que apenas julga fogos de artifício. O cínico que conhece as regras do jogo, mas se recusa a jogá-lo de forma honesta, floresce, enquanto aquele que possui verdadeira essência começa a duvidar se essa essência ainda possui algum valor reconhecido pelo mundo.
Nesse momento, entra em cena a narrativa do bárbaro e da princesa, conforme relatada por George Gilder em Men and Marriage, de forma resumida: o livro, que tinha o título mais claro de Sexual Suicide, funciona menos como uma fábula moral e mais como um estudo social. No coração de um reino próspero, um bárbaro sanguinário surge na floresta, semeando o terror, o roubo e a morte. O reino sofre, mas ainda é civilizado. Farta da rotina imposta, a princesa opta por explorar além dos muros e se depara com o bárbaro. Ele é perigoso, agressivo e eletrizante. Ela conversa, se fascina, se sente plena. O bárbaro adota novos hábitos, passa a se expressar de maneira sofisticada, aprende a se portar adequadamente, casa com a princesa e torna-se rei. Parece que a civilização sai vitoriosa.
No entanto, o ciclo continua. Um bárbaro diferente surge anos depois. A nova princesa, criada com ensinamentos sobre ser autêntica, expressar emoções e aproveitar o momento, encontra o novo selvagem. Ele é ótimo na cama, mas inconstante e intenso. Ela empenha-se. Logo aparece um nobre sofisticado de outro reino, com ideias modernas, discursos envolventes e a promessa de quebrar velhas tradições. A tendência continua. O bárbaro sempre fascina, pois simboliza o caos estimulante; o homem civilizado provoca irritação, pois oferece um futuro repleto de confortos e luxos. O bárbaro se esforça ao máximo para conquistar a mulher, mas ela decide ficar com o nobre, já que ele é mais rico. Portanto, o bárbaro se torna furioso e, junto com outros bárbaros, é convocado para devastar o reino, uma vez que a única coisa que o impedia de fazê-lo o deixou.
A lição que se extrai dessa história não é nem reconfortante nem idealizada. Quando a sociedade passa a premiar o caos com aplausos, likes e validação simbólica, não se surpreenda se o bárbaro começar a brotar. Uma cultura que desencoraja o casamento não elimina o desejo; ela o redireciona para formas cada vez mais inseguras, destrutivas e dolorosas. E, por conseguinte, finge não compreender quando o mundo passa a espelhar exatamente aquilo que ela dedicou décadas a incutir nos outros.
Patrick Moynihan, em The Negro Family: The Case for National Action, não elaborou um panfleto, mas sim um diagnóstico sociológico que era excessivamente incômodo para ser aceito na época e que ainda é desconfortável o suficiente para ser ignorado. As suas políticas públicas mal planejadas, que recompensaram a desintegração da família e puniram a estabilidade, não foram uma conspiração: foram uma forma de estupidez institucional com financiamento. A estupidez financiada transforma-se em uma tragédia estatística. Tomás de Aquino afirmaria que uma lei que, ao invés de promover o bem comum, acaba incentivando o vício por falta de cuidado, torna-se uma mestra do caos. Não é necessário ter uma intenção maligna. Basta uma negligência adequada, e essa negligência adequada gera resultados que uma malícia intencional levaria décadas para alcançar.
O princípio moral que permeia tudo o que abordei aqui é tão simples que pode parecer evidente, mas é suficientemente profundo para ser desconsiderado pela maioria: na maior parte das vezes, a pessoa não é má. É extremamente raro encontrar uma pessoa que seja realmente má, que tenha escolhido o mal com total consciência de sua escolha e continuado nesse caminho com firmeza. O que existe, na maior parte das vezes, são indivíduos cuja perspectiva está voltada para o caminho incorreto, frequentemente devido à influência de algo ou alguém que os direcionou assim, antes que tivessem os recursos intelectuais e espirituais necessários para se opor a essa influência. A pessoa não é a responsável por manter esse registro incorreto. É o Branco Marciano. É o anjo da luz que desceu, que percebeu que não é necessário obrigar ninguém a praticar o mal se conseguir persuadir as pessoas de que o mal representa liberdade, sofisticação, realismo ou, simplesmente, a falta de preconceitos.
A polarização é genuína e indispensável. De forma alguma no sentido de uma disputa tribal rasa entre torcidas políticas de futebol. No que diz respeito à objetividade da distinção entre bem e mal, a mão esquerda nos sistemas esotéricos simboliza a dissolução, enquanto a mão direita representa a ordem, e isso se deve a uma razão que vai além das convenções culturais. Ademais, as seitas associadas à mão esquerda são todas luciferianas, satanistas e gnósticas por uma razão que está intrinsecamente ligada à própria essência do que elas professam. A parte esquerda da mão, do ponto de vista energético, representa a jornada em direção à completa dissolução, ao retorno ao estado não diferenciado, ao término de todas as distinções, de todas as sutilezas, de toda hierarquia e de toda forma. A esquerda política, ao ser levada às suas mais sinceras conclusões filosóficas, almeja precisamente isso: a eliminação das diferenças de sexo, a anulação da cultura, a extinção das fronteiras e a desintegração de qualquer distinção que possa ser percebida como uma forma de exclusão. Todo o conjunto está homogêneo. Está tudo como antes. Tudo sem distinção. A referida dissolução, que à primeira vista pode ser interpretada como um ato de generosidade, resulta, na realidade, na extinção de todos os elementos que são essenciais para que a vida humana seja vivenciada como uma experiência repleta de significado.
Você deseja ser o homem que se empenha por Deus no campo de batalha. Não se trata de uma luta literária com espadas e sangue, embora isso possa ser necessário em algumas ocasiões, mas sim da batalha espiritual que se dá sempre que você se engaja em uma conversa com a sincera intenção de descobrir a verdade, sempre que você se dispõe a abrir um livro com a mente aberta para ser desafiado, e sempre que você rejeita a covardia intelectual de simplesmente concordar com o que a sua окружение espera que você concorde. Os Padres do Deserto se referiam aos guerreiros espirituais que residiam nas extremidades do deserto, batalhando contra entidades invisíveis para aqueles ao seu redor. O santo na função de combatente espiritual é uma classe que nós contemporâneos não conseguimos manter por falta de palavras adequadas, mas que permanece verdadeira, independentemente da ausência desse vocabulário. Você pode se tornar um herói no mundo espiritual. O marciano absoluto é exatamente isso. O Nanami Kento de Jujutsu Kaisen é exatamente isso: um homem maduro que compreende a situação sem a necessidade de verbalizar seu entendimento, que age de forma disciplinada não porque seja uma máquina, mas porque acredita no futuro, que enfrenta a dor sem transformá-la em um show e sem desistir do dever que o sofrimento torna mais desafiador. Tomás de Aquino se referiria a isso como fortaleza: a habilidade de tolerar um mal imediato em prol de um bem superior, sem deixar de ser fiel à sua própria essência durante o processo.
Além da clareza. A sobriedade do pensamento. Não é nada agradável ser a única pessoa sóbria em uma sala repleta de pessoas embriagadas. No entanto, é a única função que gera algo realmente valioso. A clareza não se preocupa em ser vista. Não solicita validação. Ela revela, e isso é visto como uma agressão no mundo atual, pois a sociedade contemporânea aprendeu a confundir a confusão com profundidade e a clareza com arrogância. Aristóteles observou na Metafísica que, na ausência da razão, o homem recorre ao ruído. O barulho não esclarece. Exaure. No entanto, aqueles que possuem a clareza necessária para separar o ruído do argumento, e a coragem para destacar essa diferença em público, estão realizando uma ação que, embora pareça insignificante, representa a mesma luta espiritual de sempre, travada com as únicas ferramentas que a modernidade ainda permite: palavras precisas, uma lógica honesta e a recusa de se anular para que alguém se sinta à vontade.
A existência contemplativa é o único significado que consegue suportar a carga da realidade. Não como fuga: como desafio. Você, assim como eu, um jovem que teve que se desenvolver de maneira independente, que descobriu nos livros e na filosofia aquilo que os adultos ao seu redor não conseguiram oferecer, e que, devido à ausência, foi obrigado a construir sua própria perspectiva do mundo, peça por peça, você entende que essa situação não é nada confortável. Tem consciência de que a reflexão não resolve todos os problemas. Não promete conclusões felizes. Não se combate a injustiça mundial com sofisticação. Mas te deixa desperto. No contexto de um mundo em declínio, como afirmava Tomás de Aquino ao se referir à beleza como um dos possíveis epítetos da verdade, manter-se desperto é o ato mais extraordinário e sublime de amor a Deus, além de ser o mais imprescindível que se possa imaginar.
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