O JUDEU QUE A ALT-RIGHT INVENTOU E A DISSOLUÇÃO QUE ELA NÃO ENXERGA
Existe uma habilidade peculiar, exercida com dedicação nas profundezas da internet brasileira, que envolve criticar de forma meticulosa aquilo que não se leu, não se aprendeu e não se compreendeu, mas que, sejamos francos, confere um certo ar de sabedoria àqueles que a dominam.
Gabriel G. Oliveira
5/14/202639 min ler


Gnose, Cabalá, Protestantismo e o Bode Expiatório Mais Mal-Pesquisado da História Recente
Há um exemplar intelectual, bastante intrigante, que se destaca na fauna do debate público brasileiro. Não se pode considerá-lo um pensador, de fato. Não se trata de um militante, exatamente. É uma combinação inesperada entre os dois: a pessoa que pensa que se aprofundou em todo o conhecimento sobre o judaísmo apenas por ter assistido a três vídeos no YouTube com títulos em letras maiúsculas, ter passado a tarde em um fórum com fundo preto e chegado à conclusão de que descobriu a verdade oculta pelo sistema. Este indivíduo é o impulsionador da alt-right brasileira em sua forma mais deliciosamente contestável. É a respeito dele, do campo de destruição que ele designa como argumento, e do abismo que separa suas palavras dos dados reais, que eu necessito discutir urgentemente aqui, sem qualquer amenização.
Antes de tudo, é necessário deixar bem claro onde está o território demarcado: não todo o judaísmo está no centro das críticas intelectualmente válidas que alguns poucos pensadores sérios levantam. Sempre foi. Aqueles que reduzem todo o judaísmo a um único estereótipo de malignidade étnica já cometeram um erro antes mesmo de se pronunciar. Cometeu erros em termos de metodologia, história e teologia, e, para o constrangimento daqueles que se autodenominam de direita, também errou politicamente, ao reproduzir, sem se dar conta, o mesmo tipo de essencialismo coletivista que atribui à esquerda que critica. Trata-se de uma gnose invertida: ao invés de salvar o mundo eliminando todas as distinções, ela condena o mundo ao reduzir todas as diferenças a um único inimigo sanguíneo. A organização continua a mesma. Alterou apenas o sinal.
A alt-right americana é, sem dúvida, um terreno repleto de contradições. Ela pelo menos consegue gerar pensadores que, às vezes, se esforçam para defender uma ideia por mais de dois parágrafos antes de recorrer a ataques pessoais. A alt-right brasileira, produto 100% tupiniquim, é uma mistura da importação acrítica dos piores estereótipos gringos com uma boa dose de preguiça intelectual, que, essa sim, é uma contribuição genuinamente brasileira à tradição do pensamento raso. O resultado é uma confusão de ideias onde o judaísmo é equiparado ao globalismo, o globalismo se torna sinônimo de satanismo, que por sua vez é associado a Marx, e Marx acaba sendo relacionado a qualquer coisa que a pessoa não aprecia, levando à conclusão de que o judeu é, em última instância, o culpado por tudo: pela inflação, pelo relativismo, pelo aquecimento global, pelas desavenças com a sogra e pela derrota do time no domingo.
Não é apenas uma figura de linguagem. Existem, de fato, escritores e influenciadores da alt-right, tanto na sua vertente americana quanto na tropical, que afirmam ser suficiente para implicar cumplicidade num suposto projeto de dissolução mundial apenas a descendência judaica. Se o raciocínio acima fosse aplicado de forma consistente em relação ao Brasil, isso significaria que cerca de oitenta por cento da população brasileira carregaria essa mesma "contaminação", dado o nível de mistura genética e cultural de um país que foi, durante séculos, território de convergência de populações do mundo inteiro. A alt-right brasileira, na sua busca obsessiva pelo inimigo ideal, acabaria por perceber que esse inimigo é, em grande parte, ela mesma. O que poderia ser considerado engraçado, se não fosse tão lamentável.
Eu tenho essa convicção interna. De maneira alguma abstrata. Não por meio da leitura de um artigo bem-intencionado. Minha família tem ascendência judaica que se estende por nove gerações. Há nove gerações, um antepassado cujo título eu não sei exatamente como designar, se tataravô, trisavô ou outra denominação que a língua portuguesa não utiliza com elegância, era judeu. Ele apresentou isso à sua família. Raros foram os irmãos que se seguiram e demonstraram interesse em aprender o que ele tinha a transmitir. A maior parte não se importou. A maior parte seguiu sua vida sem se preocupar com o passado. No entanto, esse saber persistiu graças à teimosia de alguns poucos que se recusaram a ignorá-lo. Chegou até o meu avô. Do meu avô, o único dos irmãos que achava aquilo verdadeiramente interessante, que levava a questão a sério e que realmente desejava compreender, era o meu pai. Veio de meu pai até mim. E eu, que quando era criança nem me importava muito com isso, fui sendo puxado para essas questões de um jeito que não sei bem explicar. Meu pai comentava sobre Cabalá, e eu achava aquilo extremamente fascinante. Foi desse jeito que tudo teve início. Eu prossegui com treze anos de estudos dedicados, que venho realizando desde os treze anos. Atualmente, tenho vinte e seis anos. 13 anos. Não é uma leitura para se fazer no fim de semana. Não se trata de uma mera curiosidade do YouTube. Trata-se de um aprendizado incessante, que envolve o acesso a textos originais, a leitura do Zohar traduzido para o português e, mais recentemente, a aquisição do Zohar em sua versão original. Isso também inclui a convivência com pessoas que possuíam um profundo conhecimento sobre o assunto, além dos livros que meu pai possuía e de alguns parentes que ainda preservavam aquele conhecimento. Ademais, houve um esforço genuíno para se integrar a uma tradição fechada, de fora para dentro, o que, por si só, já representa uma façanha que a maioria dos comentaristas da internet nunca se atreveu a tentar.
É por isso que posso afirmar com segurança: a Cabalá não se resume a uma única coisa. Aqueles que afirmam o oposto não se dedicaram a estudá-la. Aqueles que simplificam a Cabalá a um conjunto uniforme de crenças politicamente prejudiciais, ou, por outro lado, à prática inofensiva de uma análise simbólica desvinculada de qualquer conteúdo teológico, estão ambos cometendo um erro. E eu sei que eles estão equivocados, pois compreendo as distinções internas dessa tradição de uma maneira que não se adquire lendo um parágrafo de enciclopédia.
Há a Cabalá teórica e a prática, e essa distinção é o bastante para acabar com boa parte das discussões que pipocam em grupos de WhatsApp sobre o tema. A Cabalá teórica inclina-se para o especulativo e cosmológico, buscando desenvolver sistemas que expliquem a natureza de Deus, a criação e os mundos que a intermediários. Ela se ocupa da estrutura da realidade, das sefirot como formas de emanação do Divino, e da relação entre Ein Sof e a diversidade da criação. É complexa, desafiadora, e é o tipo de conteúdo que requer anos de preparo antes de ser abordado com verdadeira integridade intelectual. O Sefer HaZohar, o Sefer HaBahir e o Sefer Raziel HaMalach não são livros que se recomendam para quem está começando, e não é por acaso que a tradição judaica estabelece rigorosos pré-requisitos antes de permitir que sejam estudados. Um jovem erudito não é dado o Zohar para ler antes de ter completado anos de estudos preparatórios. Isso não se trata de sectarismo; é a compreensão de que textos complexos, lidos sem a devida preparação, geram mais confusão do que clareza. A confusão de doutrinas, disfarçada como uma nova revelação, é exatamente o que a gnose mais aprecia.
A prática da Cabalá, por outro lado, tende mais para o aspecto operativo, envolvendo a gematria, o notaricon, a temura, e a aplicação de métodos concretos de análise dos textos sagrados, que geram consequências doutrinárias que, em diversos aspectos, estão muito mais alinhadas com a teologia católica do que qualquer uma das partes costuma reconhecer publicamente. Eu, oriundo dessa vertente mais prática, à qual adiciono uma estrutura de leitura que é igualmente enraizada nos pressupostos católicos da tradição, posso afirmar que existe, de fato, uma afinidade genuína entre os dois sistemas, que a maioria das pessoas tende a negar por motivos que se relacionam muito mais à identidade política do que à qualidade filosófica. Os três métodos de interpretação textual utilizados na Cabalá, que são a gematria, o notaricon e a temura, não são meras arbitrariedades místicas; eles funcionam como ferramentas hermenêuticas que, quando aplicadas de forma rigorosa, desvendam camadas de significado nos textos que uma leitura direta não consegue atingir. O catolicismo tem conhecimento sobre isso. A totalidade da tradição dos Padres da Igreja foi edificada utilizando ferramentas semelhantes. Quem não percebe a convergência, ou não se informou sobre ambos os lados, ou está defendendo uma narrativa de conflito que lhe é conveniente.
Há também, no âmbito cabalístico, uma distinção entre a vertente messiânica e a vertente apofática, e é aqui que se inicia, sem dúvida, o ponto mais crucial de toda essa discussão. A corrente messiânica espera um Messias pessoal, encarnado, da linha davídica, que virá em carne e osso para estabelecer a era de paz. Trata-se de uma expectativa real, histórica e personificada. A abordagem apofática, por sua vez, considera essa expectativa teologicamente inviável: Deus está tão além de qualquer atributo positivo e é tão inalcançável para qualquer descrição que não seja negativa, que a noção de um mensageiro divino em forma humana desmorona sob a carga da própria teologia que ela implica. Para esse segundo grupo, o que está por vir não é um Messias, mas sim uma era messiânica, uma transformação que ocorre de forma coletiva, originada pelo próprio povo, sem a necessidade de um mediador sobrenatural de natureza encarnada. O povo cria sua própria época de paz. O povo é o portador da salvação. O povo, como um todo, transforma-se no Messias.
É aqui, exatamente nesse ponto, que surge o problema. Não é o problema que a alt-right imagina, que seria a malícia inerente a quem possui essa crença enraizada. O verdadeiro problema, que é muito mais intrigante e, ao mesmo tempo, mais alarmante do que essa representação exagerada, é de uma natureza estrutural: quando essa teologia apofática messiânica deixa de ser enquadrada no contexto religioso e se infiltra na política, ela se transforma em algo diferente. Ela se transforma em um programa. E programas que não alcançam a transcendência costumam se tornar tiranias ao longo da história.
O pai de Karl Marx era um rabino com tendências cabalísticas acentuadas, particularmente no que se refere às correntes apofáticas da tradição. Isso não ficou isolado em uma cápsula hermética, desvinculada da filosofia que o filho desenvolveria mais tarde. A concepção marxista de que o impulso da história é uma tensão dialética interna, onde cada arranjo social contém em si a semente de sua própria superação, e que o desfecho da história representa um estado de reconciliação coletiva a ser produzido pela ação do próprio povo, tudo isso possui uma morfologia que não é fruto do acaso. É a era messiânica secularizada. É o apofatismo aplicado ao materialismo histórico. O Messias não vem do céu; ele surge do proletariado. Não é obra de Deus; surge da luta entre classes sociais. A estrutura teológica sobreviveu à destruição da teologia. O esqueleto ficou intacto, mesmo após a carne religiosa ter sido removida. Quando você começa a conectar as ideias do pai rabino cabalístico, a estrutura de emanação messiânica coletiva e a noção de que o universo se movimenta devido a uma tensão dialética, que Marx denomina como luta de classes, mas que apresenta uma morfologia similar à dinâmica interna das sefirot, o que você descobre não é uma conspiração judaica. Há uma genealogia intelectual que esclarece as razões pelas quais determinadas ideias assumem a forma que possuem, sem que isso signifique que todos os judeus sejam culpados por Marx, assim como não se pode atribuir a responsabilidade a todos os alemães por Nietzsche ou a todos os italianos por Maquiavel.
Georg Wilhelm Friedrich Hegel é uma figura ainda mais complicada, e é importante ressaltar algo que os estudiosos acadêmicos normalmente não afirmam com essa clareza: para compreender Hegel de maneira plena, é essencial entender o hermetismo. Não se trata de uma metáfora. Não se trata de provocação. As influências de Hegel no pensamento hermético e em algumas correntes teosóficas ocultistas podem ser rastreadas e são importantes para entender o sistema. Hegel já possuía influências herméticas e cabalistas há bastante tempo. A dialética envolvendo tese, antítese e síntese vai além da lógica formal. É um movimento do cosmos, uma explicação de como o Absoluto se revela através do tempo. Este desdobramento segue uma estrutura teosófica: emanação, queda, e retorno. Trata-se do esquema neoplatônico adornado com a terminologia lógica proveniente da Prússia. As transformações mencionadas por Hegel refletem diretamente os mitos gregos sobre as raças-raízes, que Blavatsky posteriormente organizou, desenvolvendo a noção de que a história avança por meio de ciclos, nos quais uma configuração obliterando a anterior permite que uma nova surja. Para compreender Hegel de forma satisfatória, é imprescindível ter um entendimento, ainda que básico, sobre Cabalá, hermetismo e ocultismo. Você pode se considerar um especialista em Hegel. No entanto, se eu questionar se você possui algum conhecimento sobre ocultismo e Cabalá, e sua resposta for negativa, isso indica que você não compreende Hegel por completo. Não se trata de snobismo; é uma verdadeira chave hermenêutica que estou disponibilizando gratuitamente para aqueles que desejam utilizá-la.
Marx se apropria dessa concepção de Hegel, mas a apresenta sob uma perspectiva que Hegel já possuía, de maneira menos clara, uma visão apofática do mundo em que tudo é constantemente uma revolução. A revolução dos céus, a revolução das pedras, a revolução das classes sociais. Tudo se resume, de fato, a um embate entre um ser e outro ser. Além disso, de acordo com relatos confiáveis de pessoas que estiveram próximas a ele, Marx era um esotérico. Não era incrédulo da maneira que os marxistas contemporâneos supõem. Ele era um esotérico com inclinações que, ao serem investigadas, se aproximam bastante do satanismo de La Vey, especialmente em sua estrutura de inversão de valores. Aqueles que viveram ao seu redor estavam cientes disso. Vários indivíduos que se autodenominam marxistas atualmente não têm conhecimento das concepções metafísicas do autor. Não tinham conhecimento das crenças dele em relação à religião. Eles não têm ideia de que ele possuía uma perspectiva subjacente que estava muito mais profundamente enraizada no esoterismo do século XIX do que qualquer forma de materialismo puro que os manuais acadêmicos comercializam.
Eric Voegelin, um dos mais significativos filósofos políticos do século XX, cuja obra é injustamente pouco lida no Brasil se comparada à sua influência intelectual, observou tudo isso com uma clareza cristalina. Na grandiosa série Ordem e História e em seus estudos sobre a gnose na política, Voegelin detectou a estrutura subjacente que interconecta os principais totalitarismos: todos são, fundamentalmente, modalidades de imanentização do eschaton. Em outras palavras, são tentativas de incorporar à narrativa, por meio da ação humana, aquilo que tanto a tradição clássica quanto a cristã sempre consideraram além dos limites da história, como a salvação, a perfeição e o paraíso. O projeto gnóstico, do qual Voegelin fala, ao usar o termo gnóstico em um sentido amplo e estrutural, sem conotações confessionais, é precisamente isso: trocar a ordem transcendente, que o homem não cria, mas apenas reconhece, por uma ordem imanente, que ele mesmo projeta e impõe à força. O resultado sem precedentes desse substituto é o campo de concentração, a fome disseminada em massa, a burocracia totalitária, em resumo, o inferno criado por aqueles que acreditavam estar edificando o paraíso. Quando Voegelin afirma isso, ele não está realizando uma crítica de direita à esquerda. Ele está elaborando uma crítica filosófica que se estende tanto à esquerda quanto à direita, uma vez que o mesmo impulso gnóstico se manifesta em ambas as partes, apenas com os termos invertidos.
É aqui que surge o paradoxo que deveria fazer a alt-right sentir vergonha: ao empregar a fórmula simplista de que "judaísmo é a raiz de todo mal", ela acaba reproduzindo, sem se dar conta, o enquadramento da própria esquerda que afirma combater. O nazismo não se pode considerar conservadorismo. É conhecimento esotérico. É a imanentização do eschaton, onde a raça é vista como portadora do absoluto. O comunismo não se configura como uma ciência social. É conhecimento. É a imanentização do eschaton com a classe detentora do absoluto. Ambos possuem origens apofáticas, estruturas gnósticas e promessas de salvação obtidas por meio de ações conjuntas, sem qualquer transcendência. Ao afirmar que o nazismo é "de direita", a alt-right repete, sem perceber, o enquadramento da esquerda americana, e assim já entra em desvantagem antes mesmo de iniciar sua disputa. O nazismo originou-se de uma base apofática e socialista que está muito mais relacionada ao comunismo do que a qualquer forma de conservadorismo tradicional. Sem dúvida, trata-se de um governo gnóstico. Além disso, qualquer pessoa que tenha lido Voegelin com atenção está ciente disso.
A Igreja Católica, frequentemente mencionada pela alt-right, mas raramente compreendida, percebeu isso com muita antecedência em relação a qualquer comentarista da internet. E percebi com clareza que ela foi, historicamente, o maior empecilho à imanentização, não por ser de direita em qualquer significado contemporâneo do termo, mas porque defendia, em contrariedade a todos os esforços de salvação artificial, que a ordem do ser não é um dilema a ser solucionado pelo engenheiro social, mas sim uma realidade a ser reconhecida, vivida e reverenciada. A única pessoa que apresentou uma teoria consistente sobre o que realmente distingue a direita da esquerda, uma teoria que é noventa e nove vírgula nove por cento mais alinhada com a realidade do que qualquer outra explicação que eu conheça sobre o tema, foi Eric Voegelin. Antes dele, a Igreja Católica já tinha alcançado na prática aquilo que ele posteriormente organizou em uma teoria.
Finalmente, chegamos ao assunto que não pode ser ignorado. Para o predador que se encontra no campo, enquanto a alt-right dirige seu olhar para um outro ponto. O movimento protestante. Este é o tema que a alt-right brasileira, em sua maioria com uma formação cultural protestante ou mesmo protestante, simplesmente não se atreve a explorar. A falta de coragem para refletir sobre isso não é sabedoria. É uma falta de bravura intelectual. É o jacu em pé no campo, observando o homem que apenas caminha pela calçada, enquanto o predador se move à vontade.
O protestantismo, ao rejeitar o livre-arbítrio de maneira mais extrema, como Calvin fez ao introduzir a doutrina da dupla predestinação, estabelece uma estrutura teológica cujas implicações se estendem a questões que muitos protestantes preferem não enfrentar. Quando Calvino afirma que Deus determinou, antes do início dos tempos, quem seria salvo e quem estaria condenado, independentemente das ações dos seres humanos, o bem e o mal deixam de ser opções e se transformam em papéis cósmicos já designados. Quando essa estrutura é levada ao seu extremo lógico, por meio de tradições esotéricas que existem há muito tempo, ela se alinha com algumas interpretações gnósticas nas quais o deus do mundo físico é considerado um demiurgo maligno, enquanto o verdadeiro deus é aquele que transcende, capaz de libertar as almas que estão aprisionadas na matéria. Nesta perspectiva, Cristo e a entidade que a teologia cristã designa como o inimigo de Deus tornam-se, dentro da lógica do próprio sistema, o mesmo agente: o mensageiro do Deus transcendente, enviado para emancipar as almas do demiurgo. É de deixar qualquer um de queixo caído. De acordo com a lógica gnóstica que se origina de certos desdobramentos radicais do protestantismo, Cristo e Lúcifer seriam a mesma entidade. Cristo e Satanás, são a mesma entidade. Não é algo que eu tenha inventado. Este é o resultado inevitável para aqueles que adotam o apofatismo radical, sem a âncora da encarnação e a mediação da Tradição viva. O protestantismo não se precipitou nesse abismo de forma direta, mas preparou o caminho para que outros o fizessem, ao destruir as barreiras que impediam a queda.
Vou ser ainda mais claro: o protestantismo, ao interpretar a Bíblia sem qualquer influência externa, sem tradições, sem uma hierarquia de interpretação, sem a mediação institucional que a Igreja Católica oferece, age como se a leitura pessoal fosse uma forma de iluminação imediata. Assim como você e eu, ao ler o texto sem qualquer preparação, sem anos de estudo, e sem o contexto litúrgico e patrístico que ele pressupõe, estivéssemos prestes a receber a gnose. "Receba a gnose", como dizem os memes, mas o protestante faz isso com seriedade. Ele vai ler aquilo e pensar que o Espírito Santo vai diretamente esclarecer o que está escrito, sem que nenhuma tradição o prepare e sem que nenhum mediador o ajuste. Se você analisar, isso representa uma forma gnostica de adquirir conhecimento. Está mais alinhado com os pagãos que discutem a iluminação imediata do que com o judeu que afirma que o estudo dos textos místicos resulta de uma interpretação lógica das escrituras, utilizando métodos rigorosos, estabelecendo uma hierarquia de textos e seguindo etapas claras de aprendizado. O protestante não consegue ser judeu o bastante para compreender plenamente o que o judaísmo realmente oferece. Depois, quer afirmar que é mais bíblico do que o católico.
Preciso abordar a questão das imagens e do cânone, pois é bastante reveladora. O judeu contemporâneo afirma que é proibido fazer imagens. No entanto, ao observar o Templo de Salomão e outros templos da antiga Israel, podemos encontrar querubins, anjos e representações por toda parte. Além disso, ao explorar a diáspora europeia, você encontrará representações visuais dentro do contexto do judaísmo antigo que se opõem de maneira clara à narrativa moderna. A atual proibição de representações no judaísmo é, em grande parte, uma resposta tardia a uma tentativa de se distinguir do catolicismo, que surgiu após a conversão em massa de muitos judeus ao catolicismo. Para não parecerem católicos, o judaísmo pós-destruição do Segundo Templo elaborou um sistema de distinções que, em muitos casos, contrariam o próprio judaísmo mais antigo. O mais irônico é que, durante esse processo de organização da tradição, sete textos foram removidos do Tanakh não pelos protestantes, mas pelos próprios judeus. Lutero mais tarde utilizou essa versão reduzida. Além disso, o atual protestante, uma pessoa de uma ingenuidade intelectual que é realmente tocante, vem até mim afirmar que "ah, nós não retiramos textos bíblicos". Meu irmão, você está se baseando no cânone que os próprios judeus encurtaram, por motivos que estavam muito mais ligados a questões de poder religioso do que à revelação em si. Além de empregar esse cânone incompleto, você ainda proíbe os próprios fiéis da sua denominação de refletirem livremente sobre o assunto, sem o medo de serem expulsos por heresia. Você emprega a mesma forma de controle que reprova nos outros, mas não percebe isso porque a placa à sua frente exibe a expressão "liberdade individual".
Cristo seguia o cânone que compreendia os sete livros que foram adicionados à Septuaginta, juntamente com os textos que posteriormente foram objeto de questionamento. Ele vinha de uma família de sacerdotes, não era um viajante sem conexão com a tradição litúrgica de seu povo. Existiam, naquele tempo, cinco grandes grupos judaicos organizados em função de diferentes interpretações do cânone. Um seguia somente os cinco primeiros livros. O restante acompanhava o Tanakh, excluindo os livros deuterocanônicos. Além disso, há os sete livros que constituem o grupo de Cristo e da linhagem a que pertencera. Existiam também os essênios, que chegavam a consultar o Livro de Enoque e outros escritos gnósticos, e que, de fato, eram os gnósticos judeus daquela época. Cristo não pertencia aos essênios. Ele atacava ferozmente os essênios e outras seitas puristas. A ideia de que Cristo tinha ligação com os essênios é pura fantasia. Não encontra respaldo nos textos. O batismo de João Batista não se relaciona de forma alguma com as purificações praticadas pelos essênios, que eram uma outra forma de prática, sustentada por uma teologia distinta. Os essênios possuíam uma perspectiva de purismo extremo, acreditando que o mundo exterior estava espiritualmente contaminado, e, por isso, a comunidade precisava se isolar para preservar sua pureza. Isso é bastante semelhante aos cátaros. Isso é semelhante aos gnósticos que afirmam que a matéria é má. Jesus não ensinou isso. Cristo partilhou refeições com cobradores de impostos e pecadores. Jesus não se afastou da realidade material. A encarnação contrasta completamente com a gnose essênia.
Retomemos, então, a questão que ficou pendente sobre as vertentes cabalísticas, pois existem outros aspectos internos significativos. A reencarnação, por exemplo, é um desses assuntos que consegue dividir o campo de maneira significativa. Há escolas cabalísticas que aceitam a doutrina do guilgul, a transmigração das almas, principalmente a partir de determinadas interpretações do Sefer HaBahir e do Zohar. Há outras vertentes, especialmente dentro da Cabalá prática mais tradicional que eu estudo, que rejeitam essa noção e trabalham com uma concepção de ascensão espiritual que não pressupõe retorno ao ciclo material. Essa segunda perspectiva, surpreendentemente, faz com que essa corrente se assemelhe à espiritualidade ascensional do catolicismo. Para mim, a reencarnação é uma loucura que eles tiraram do paganismo, de interpretações equivocadas da Bíblia, de leituras possíveis se você torcer o texto, mas não obrigatórias. Na minha perspectiva, a Cabalá prática que realmente é significativa está muito mais ligada à ascensão espiritual do que ao ciclo de reencarnações. I isso não é simplesmente uma opinião pessoal: é uma perspectiva que se baseia na tradição do misticismo dos palácios, no misticismo da Merkavá, que precede muitas das definições cabalísticas que vieram depois e que eu acredito ser, em grande parte, a verdadeira origem da Cabalá prática.
O tzadik, ou justo, assim como o santo na tradição judaica, exerce um papel que se assemelha bastante ao do santo católico: é uma pessoa que atingiu um nível de proximidade com o divino que lhe permite atuar como um intermediário ou mediador entre o mundo humano e o sagrado. Ao observar o tzadik e o santo canonizado pela Igreja Católica, percebo que se trata da mesma entidade, mas com nomes distintos. O procedimento é semelhante. A função é equivalente. A teologia subjacente é intimamente relacionada. Assim, o Gehinnom, que é o local de purificação temporária descrito pelo judaísmo rabínico e místico, é, nessa interpretação, muito semelhante ao purgatório do catolicismo. A disparidade de termos não oculta a aproximação de ideias. A diferenciação que o catolicismo estabelece entre o purgatório e o inferno eterno é, em sua função, análoga à distinção que o judaísmo faz entre o Gehinnom temporário e o Gehenna eterno. Não é o título que altera a ideia; é a ideia que permanece a mesma, mas com uma designação diferente. O que é, no mínimo, intrigante para aqueles que foram educados a vida toda a acreditar que essas duas tradições são completamente incompatíveis.
Existe um aspecto doutrinário intrigante na Cabalá que esclarece toda a questão entre gnose e materialismo, e que merece ser apresentado com atenção: a essência dos anjos e dos diferentes níveis de realidade. A inclinação de leitores cristãos, que foram educados na metafísica escolástica (e eu me incluo entre eles, uma vez que minha interpretação da Cabalá também se baseia nessa formação), é a de compreender os diversos mundos cabalísticos como uma hierarquia de planos imateriais, um arquivo estratificado de substâncias espirituais que flutuam acima da matéria. Em boa parte, trata-se de um equívoco de transposição. A Cabalá teórica não funciona assim. Para ela, não existe um plano metafísico da maneira como eu conheço, seguindo a perspectiva aristotélica; há diferentes dimensões que são realidades igualmente materiais, mas dispostas em hierarquias de existência que vão além da capacidade de percepção dos seres humanos que estão encarnados nesta dimensão específica. Tudo é material, mas é material de uma forma que vai além da percepção dos nossos sentidos. O anjo não é uma essência etérea flutuando em um além conceitual; é uma criatura de uma dimensão superior que atua em níveis de realidade que vão além da nossa percepção imediata.
A comparação com a física moderna é estranhamente pertinente aqui. Visualize uma entidade bidimensional habitando um universo plano, possuindo comprimento e largura, mas sem altura. Para essa criatura, a ideia de "para cima" é literalmente inconcebível; não faz parte do seu espaço de experiência. Você, sendo tridimensional, tem a capacidade de atravessar esse universo que é plano. Para a criatura que vive em duas dimensões, a sua presença seria algo totalmente incompreensível: você surge do nada, age de maneiras que desafiam todas as leis que ela conhece sobre o seu universo, e então, simplesmente desaparece. Não no sentido de ser sobrenatural por estar além das leis físicas, mas sim por estar em uma dimensão que a física não consegue atingir. Você pode pegar aquele serzinho bidimensional e erguê-lo do chão. Ela nem sabe o que é "cima". Ela não consegue imaginar o que você fez. É precisamente isso que a Cabalá afirma a respeito dos anjos: eles são seres de dimensões superiores capazes de realizar na nossa dimensão ações que são incomensuráveis para aqueles que estão encarnados aqui. Dimensões além da quarta são aquelas que superam a nossa. Não se trata de sobrenatural como é geralmente entendido; é físico, mas em um outro nível da realidade. Isso é evidente em qualquer pesquisa séria sobre a Cabalá, incluindo a Cabalá prática. Embora a Cabalá prática não se comprometa completamente com essa questão dimensional, ela aceita essa estrutura sem transformá-la em um dogma central. A teoria da Cabalá, essa sim, transforma isso em uma questão de estrutura.
Contudo, toda essa situação é muito mais intricada do que a alt-right imagina. A alt-right não tem conhecimento porque não se dedicou a estudar. E não se dedicou aos estudos pois isso demandaria uma atitude humilde. A humildade é a qualidade que mais escasseia em um movimento fundamentado na convicção de ter identificado o verdadeiro inimigo. Já presenciei, e não estou usando essa expressão de maneira figurativa, alguém me afirmando durante uma discussão que o judeu acreditava em Buda. O judeu tinha fé em Buda. Não estou brincando falando sério. É isso aí. Esse é o padrão da discussão. Uma pessoa que nem mesmo tem conhecimento das diversas correntes do judaísmo, que nunca leu uma linha de texto judaico original, que ignora o que é o Talmude e o que está contido no Zohar, mas que se atreve a me explicar o que o judaísmo realmente propõe e como ele é responsável por todas as mazelas do mundo. Eu tenho me dedicado a esse assunto há treze anos. Eu, que praticamente tudo que foi traduzido para o português do Talmude eu já li. Eu li o Zohar traduzido. Esses indivíduos são, de fato, o estereótipo do idiota que combina a tolice de um jumento com a presunção e a falta de conhecimento, subjetivando tudo ao seu redor e frequentemente se envolvendo em uma teoria que existe apenas em sua própria mente — são gnósticos no sentido mais estrito da palavra: aqueles que renunciam à lógica e afirmam que a própria lógica é uma criação do demiurgo, elaborada para mantê-los aprisionados.
A Cabalá hermética, por sua vez, merece um comentário à parte, pois representa outro capítulo dessa confusão toda. Ela emerge da fusão do misticismo judaico com as doutrinas herméticas do Renascimento, sendo o resultado da busca de indivíduos que, originariamente judaístas, se converteram a outras religiões e desejavam incorporar à sua nova fé a estrutura teológica da Árvore da Vida, que é autenticamente fascinante e extremamente frutífera. O que fizeram não foi absurdo. Mas, ao fazer isso, a Cabala Hermética divergiu tanto de suas raízes cabalísticas judaicas originais que se tornou, em muitos aspectos, uma oponente da própria tradição da qual surgiu. Ela funciona com símbolos puros; a Cabalá judaica funciona com letras, códigos e rituais. Trata-se de abordagens distintas, cada uma com suas próprias suposições e implicações doutrinárias variadas.
O que me incomoda na Cabalá hermética não é o uso de símbolos. Ela frequentemente tenta unir componentes de sistemas que não são compatíveis em uma única árvore, que não foi projetada para suportar essa carga. Exu em Gevurah? De maneira nenhuma. Hod tem Papa Legba? Nem isso. A esfera do combate tem relações com Exu, certamente, mas Exu possui tanto elementos de Mercúrio quanto de Marte, e, em algumas ocasiões, tem mais a ver com Mercúrio do que com Marte. Não se pode classificar esse ser em uma única esfera da Árvore da Vida judaica, pois a estrutura que o originou e que o caracteriza não se baseia nessa categorização. É como tentar colocar um objeto quadrado em uma fenda triangular. Dá para forçar. Você vai danificar a peça. E posteriormente afirma que se ajustou. A Umbanda, por sua vez, possui toda a capacidade de desenvolver sua própria estrutura cosmológica, e digo isso não como uma crítica, mas como um reconhecimento de que seria mais autêntico e mais enriquecedor para ela ter uma árvore da vida própria, com suas próprias esferas e correspondências, do que insistir em adaptações que não se adequam. Eu advogo que essas tradições não dependem da Cabalá judaica. Não é porque a Cabalá seja apenas judaica e que ninguém mais tenha permissão para se envolver com ela, mas sim porque tentar encaixar todos os sistemas cosmológicos existentes em uma única estrutura resulta precisamente no tipo de desintegração simbólica que estou condenando. Cada tradição que possui seus próprios seres, uma cosmologia única e modos específicos de se relacionar com o sagrado, merece uma estrutura que se alinhe a essa cosmologia, e não um mapa emprestado, feito para outro território.
Agora, vamos abordar um tema que não pode ser omitido em nenhuma conversa sobre o antissemitismo contemporâneo: os Protocolos dos Sábios de Sião. Vou ser bem claro: isso é uma falsificação. Não uma teoria polêmica. Não se trata de um documento cuja autenticidade seja questionada. Uma falsificação crassa, documentada, evidenciada por mais de cem anos de apurações jornalísticas, parlamentares e acadêmicas. No ano de 1920, Lucian Wolf publicou um estudo que evidenciava a fraude. Em 1921, o Times de Londres publicou a coisa toda, apontando exatamente de onde havia tirado cada trecho. Em 1964, uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos o chamou de "pura baboseira". Em qualquer lugar onde uma pesquisa séria tenha sido realizada, o consenso é total.
Sabemos de onde vem: da Rússia czarista do começo do século XX, onde membros da Okhrana, a polícia política, eram necessários para desviar o descontentamento social para um bode expiatório útil. O texto foi copiado de fontes que não tinham qualquer relação com judeus. Uma boa parte foi tirada de um romance satírico francês de 1864, escrito por Maurice Joly, intitulado Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu, que satirizava Napoleão III sem sequer mencionar judeus. Outra parte foi baseada em um romance alemão de 1868, intitulado Biarritz, escrito por Hermann Goedsche, que é uma obra de ficção científica e política, sem qualquer ligação com a realidade judaica. A noção de uma conspiração judaica mundial foi adicionada a esse enredo narrativo roubado, da mesma forma que se coloca uma etiqueta em uma prateleira vazia.
No ano de 1905, os Protocolos foram publicados como um apêndice de uma obra que tratava da vinda do Anticristo, escrita pelo russo Sergei Nilus, que mesclava misticismo e antissemitismo de tal forma que qualquer leitura atenta reconhece imediatamente como uma fabricação de segundo ou terceiro grau. Hitler utilizou-os como referência para o Mein Kampf, que foi publicado em 1925. Alfred Rosenberg os apresentou ao núcleo do nazismo. Henry Ford publicou nos EUA, no seu jornal, gerando a versão O Judeu Internacional. Quando uma personalidade do calibre de Ford decide publicar e apoiar algo, o impacto se torna tão grande que seria risível, não fosse o fato de ter causado o que causou — perseguições, pogroms e, por fim, a base ideológica que sustentou o extermínio sistemático de milhões.
No entanto, os Protocolos ainda estão sendo disseminados. Continuam a ser mencionados nos grupos de mensagens como "revelação proibida". Elas ainda são utilizadas como fundamento para argumentos que, se fossem apresentados em um ambiente acadêmico que exigisse qualquer padrão básico de rigor, seriam rejeitados em apenas trinta segundos. O Hamas os utilizou como base em seus documentos políticos. Grupos extremistas de diversas tradições ainda os consideram como evidência. Uma porção considerável da alt-right brasileira, que se diz a protetora da verdade ocultada pelo sistema, ainda recorre a um documento que o Senado dos EUA classificou como pura baboseira em 1964 como uma fonte legítima. Isto não é coragem intelectual. É uma traição. Ter um vilão global é bem mais simples do que analisar as causas específicas, diversas e muitas vezes conflitantes dos problemas do mundo. É bem mais cômodo acreditar em uma conspiração do que admitir que o mundo é complexo, que os problemas têm múltiplas causas, muitas das quais se encontram nas próprias tradições que se deseja preservar.
Existem situações extremas que precisam ser identificadas de forma direta, e eu farei isso. O episódio real e alarmante, em janeiro de 2024, dos túneis ilegais descobertos sob uma sinagoga em Crown Heights, no Brooklyn, foi para lá de sinistro. Jovens do movimento Chabad Lubavitch escavaram túneis sem permissão, levando a um confronto com a administração do local que resultou em prisões. Foram detidas dez pessoas. Foram descobertos lá dentro itens que suscitaram interrogações não totalmente esclarecidas: uma cadeirinha de bebê, um colchão imundo e manchado. A explicação oficial foi de expansão não autorizada da área. As incertezas continuaram. O caso não teve uma conclusão totalmente satisfatória para todas as partes envolvidas. É fundamental afirmar com clareza que se tratou de um episódio irregular e perturbador, que suscitou questionamentos válidos, os quais a simples explicação oficial não conseguiu resolver completamente.
Em novembro de 2025, na Colômbia, o caso da seita Lev Tahor foi ainda mais grave em termos de documentação. Na operação realizada em Yarumal, foram identificados 26 integrantes do grupo — 17 deles eram menores de idade, e cinco desses menores tinham ordens de busca da Interpol por sequestro e tráfico de pessoas. Membros adultos do grupo estavam sendo investigados na Guatemala e nos Estados Unidos por desaparecimentos de crianças. As acusações registradas incluem abuso sexual, casamento forçado de menores, sequestro e negligência. O grupo originou-se de diversos países — Estados Unidos, Guatemala, Canadá — e chegou à Colômbia no final de outubro de 2025, em busca, conforme as autoridades colombianas, de um país onde enfrentem menos restrições para seguir com suas atividades. No mês de dezembro de 2024, as autoridades da Guatemala realizaram uma invasão a um assentamento do grupo, conseguindo resgatar cerca de 160 crianças. Os adultos foram expulsos da Colômbia e entregues às autoridades dos EUA. As crianças foram levadas para centros de proteção. O grupo, como todos os outros semelhantes a ele, refutou todas as acusações e afirmou estar sendo alvo de uma perseguição religiosa.
O Lev Tahor se considera parte do hassidismo racídico, mas os próprios hassidim o rejeitam. A comunidade judaica colombiana se pronunciou de forma categórica, afirmando que as ações deste grupo contrariam as tradições judaicas e que ele não os representa. É considerada radical, inclusive pelos judeus ortodoxos. É necessário afirmar isso de maneira clara: trata-se de uma seita, na acepção mais exata da palavra. Um grupo fechado, sob a liderança de uma pessoa carismática que afirma ter uma autoridade especial, referindo-se a um certo Jumento que alega ter recebido uma missão divina para estabelecer um clã puro na terra. Esse grupo opera de maneira cada vez mais isolada e utiliza uma linguagem religiosa para justificar o controle sobre seus membros, além de abusos que qualquer sistema jurídico civilizado consideraria crimes.
Utilizar o Lev Tahor para criticar o judaísmo é tão responsável do ponto de vista intelectual quanto empregar a FLDS, a Igreja Fundamentalista de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias—aquele grupo mórmon que continuou a prática da poligamia e gerou décadas de abusos documentados—para condenar o mormonismo ou o protestantismo. Em qualquer tradição, a dinâmica psicossocial do abuso dentro de seitas fechadas se revela consistente: um líder carismático, o isolamento em relação ao mundo exterior, uma doutrina de eleição que justifica qualquer desvio moral, a pressão exercida sobre crianças que não têm capacidade de consentir, e a acusação de perseguição religiosa como um escudo protetor contra investigações. O léxico teológico é diverso. A mecânica não muda. Confundir a disfunção patológica de uma seita marginal com a totalidade de uma tradição que possui bilhões de textos, séculos de ensinamentos, diversas correntes internas e que é repudiada pela própria comunidade judaica não é uma análise. É busca por validação daquilo que já se acredita.
Também existe a questão do Estado de Israel e a política de Netanyahu, da qual não consigo me esquivar. O Estado de Israel foi criado, em boa parte, por indivíduos que possuíam ideais legítimos e que sobreviveram ou perderam entes queridos durante o maior crime de extermínio sistemático da história contemporânea. O Holocausto ocorreu. Os campos de morte existiram de fato. Negar isso não é "fazer perguntas difíceis"; é criar falsehoods about historical reality. Mas o que este Estado, criado com intenções legítimas, gerou ao longo de várias décadas é um corpo burocrático imensamente intricado, composto por facções que variam entre o laicismo tecnocrático e a extrema-direita religiosa nacionalista, cujos interesses não se limitam a uma narrativa simples.
Benjamin Netanyahu pertence ao partido Likud, que se origina do sionismo revisionista e que abrange descendentes de grupos como o Irgun, que, nas décadas que antecederam a criação do Estado, empregaram táticas que muitos israelenses de hoje classificam como terrorismo. Netanyahu é astuto, possui uma habilidade retórica indiscutível e tem princípios morais que não o impedem de agir conforme o que julga necessário. O que, na prática, é bastante. O fato de que o Patriarca Latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, um homem que é fluente em hebraico, formado na Universidade Hebraica de Jerusalém e que se ofereceu como refém ao Hamas para libertar crianças sequestradas, além de ter uma reputação de estar excessivamente próximo de Israel, tenha sido impedido de celebrar a missa no Santo Sepulcro durante o Domingo de Ramos, revela algo sobre o governo atual de Israel que não deve ser minimizado. A pressão internacional imediata e o constrangimento que se seguiu, incluindo protestos da Meloni, do embaixador dos EUA e de outros, foram os responsáveis por reverter a ação. Netanyahu ficou acuado e teve que afirmar que se tratou de um mal-entendido.
A operação militar em Gaza, orquestrada pelo governo Netanyahu, possui características que, para qualquer observador imparcial, ultrapassam a simples defesa legítima contra os ataques terroristas do Hamas, os quais foram, por sua vez, indefensáveis e que o próprio Patriarcado Latino de Jerusalém foi um dos primeiros a repudiar. O que Israel está realizando em Gaza neste momento histórico são ações de guerra total que, segundo uma análise jurídica e moral criteriosa, são consideradas desproporcionais e genocidas em sua essência. Isso não constitui antissemitismo. É a mesma avaliação que se faz a qualquer outro governo. Equivaler a crítica legítima a um governo em particular com o ódio a um povo inteiro é, mais uma vez, o colapso analítico que a alt-right adota com fervor, mas que a verdadeira honestidade intelectual não permite.
É fundamental compreender que o Santo Sepulcro é um complexo que apresenta uma complexa teia institucional. Há o Patriarcado Latino de Jerusalém, a arquieparquia greco-católica melquita, os próprios gregos ortodoxos do Patriarcado Ortodoxo de Jerusalém, que é dominado por padres e monges gregos. Estes, em certos momentos, mantiveram relações muito próximas com o Estado israelense, o que gerou tensões significativas com os árabes cristãos. Além disso, existem várias dioceses monofisitas: a armênia, a copta e a etíope. Cada uma tem sua seção do Santo Sepulcro, seu horário e sua autoridade litúrgica sobre certos locais. O rei da Jordânia atua como custódio para mediar as disputas entre essas comunidades, uma vez que apenas um muçulmano poderia servir como árbitro imparcial em uma situação que os próprios cristãos não conseguem resolver por conta própria. Nesse sentido, o que pode ser visto como uma mera interrupção de uma missa é, na realidade, um ataque direto ao centro de uma complexa teia de acordos, compromissos e concessões que perduraram ao longo de séculos. O simples fato de que o governo responsável por essa ação se sente agora suficientemente livre de consequências para agir dessa maneira revela muito sobre a direção que Israel está tomando em sua relação com o mundo cristão.
Retorno ao Brasil, pois é aqui que a argumentação da alt-right mais fracassa de maneira evidente e sem necessidade. Não há um histórico de domínio financeiro judaico no Brasil. A maior parte do sistema bancário brasileiro é controlada pelo Estado. Os principais bancos privados do Brasil não são controlados por judeus. O estamento burocrático brasileiro, esse verdadeiro leviatã de repartições, selos, carimbos e procedimentos que transformam a vida do cidadão em uma jornada kafkiana entre janelas que se fecham antes do tempo, não conta, nas suas camadas mais decisivas, com a presença significativa de indivíduos de origem judaica. A identidade teológica e cultural que predomina nesse estrato é, para aqueles que tiverem a mente aberta, muito mais ligada ao protestantismo do que a qualquer outra tradição. O sindicalismo patronal no Brasil sempre foi controlado, em sua maior parte, por industriais de diferentes origens europeias. O presidente que obteve o diploma de torneiro mecânico, que a alt-right adora detestar, é um filho espiritual de uma tradição trabalhista com raízes católicas e de uma esquerda não-judaica. Para adaptar a narrativa brasileira ao modelo de teoria da conspiração estrangeiro, é necessário um grau de distorção interpretativa que só pode ser atribuído a uma das duas seguintes explicações: falta de conhecimento ou má-intenção. Normalmente as duas estão juntas.
A maior parte dos globalistas que são alvo de ódio da alt-right não são judeus. Protestantes. Pertencem à religião protestante. Não se trata de uma coincidência, mas sim de uma linhagem intelectual. O individualismo que desmantela a união social, o relativismo moral que destruiu os padrões de verdade prática, o subjetivismo teológico que converteu a fé em uma experiência pessoal e não transferível, a ética de mercado que trocou a virtude pela utilidade, a dissolução dos laços tradicionais que fez do indivíduo um consumidor de identidades em vez de um portador de herança, tudo isso tem origem protestante. Max Weber registrou isso com uma minuciosidade que ninguém mais dedicou ao tema: o capitalismo moderno, em sua forma mais prejudicial aos laços sociais, originou-se do ascetismo calvinista protestante. O dinheiro visto como uma bênção, o lucro como uma forma de agradecimento, e a riqueza como prova de uma escolha divina. Isso não é encontrado no Talmude. Encontra-se nos discursos puritanos.
A alt-right que defende a hierarquia, a ordem e a tradição, mas ignora o rigoroso estudo, não pratica a esmola e carece da humildade necessária para avaliar sua própria tradição, tem muito a aprender com aqueles que se dedicam ao estudo da Torá. De acordo com qualquer medida de observação direta, a comunidade judaica do Brasil é uma comunidade que se doa generosamente. Não por ser generoso de maneira estratégica. A tzedaká é uma obrigação religiosa que carrega o mesmo peso que a esmola no catolicismo. Não é uma questão de escolha. Não serve para a conversão. Aqueles que afirmam que um judeu só faz doações para outros judeus ou que o faz com a intenção de convertê-los estão, simplesmente, equivocados. Está incorreto de uma maneira que qualquer pessoa interessada possa checar os dados. A alt-right que menciona a caridade como ferramenta de propaganda está, de forma irônica, descrevendo a prática do protestantismo, que condiciona a doação à conversão, e não o que é feito no judaísmo.
De maneira semelhante, é necessário fazer uma observação sobre o protestantismo e o catolicismo que poucos se atrevem a afirmar de forma direta: em termos teológicos, o catolicismo está muito mais alinhado com o judaísmo histórico do que o protestantismo jamais esteve ou poderá estar. Os sacramentos tangíveis, concretos e indissociáveis da fisicalidade encontram correspondências diretas nas cerimônias rituais do Templo. Os santos reconhecidos têm uma semelhança com os tzadikim. O purgatório é comparável ao Gehinnom. A sofisticada leitura tipológica das Escrituras, que foi realizada pelos Padres da Igreja, encontra um paralelo direto nos métodos hermenêuticos utilizados pela Cabalá. A Tradição viva, que serve como um critério de interpretação e que o catolicismo sustenta em oposição ao protestantismo, é precisamente o que o judaísmo sempre defendeu contra uma leitura desorganizada e individual da Torá. A encarnação, que representa a verdadeira linha de separação entre o catolicismo e o judaísmo, também serve como uma salvaguarda para o catolicismo, impedindo que ele caia em um apofatismo extremo que o conduziria aos mesmos destinos que mencionei anteriormente. O Palavra tornou-se carne. Esta declaração é o mais eficaz antídoto contra a gnose que a mente humana foi capaz de criar.
É por isso que afirmo: a verdadeira oposição à desintegração de tudo não consiste em identificar o inimigo étnico adequado. Inclui a declaração sobre a encarnação. O apofatismo radical sustenta que Deus está tão distante que nenhuma forma de mediação é viável. Nesse contexto, o Messias se transforma em uma era que é fruto do povo, e essa era, sem a presença de uma transcendência que a modere, se converte em um programa totalitário. O imanentismo gnóstico afirma que o mundo material é maligno, que a salvação se encontra na escapada, que qualquer tipo de limitação é uma forma de opressão e que toda distinção é uma discriminação, e, por isso, ele anula tudo aquilo que é dado, herdado, físico e finito. A encarnação rejeita ambas as afirmações: o corpo é sagrado pois Deus o habitou. A narrativa é sagrada porque ele a percorreu. A tradição é sagrada por conta do fato de rememorar um acontecimento verídico. O limite é considerado sagrado, pois a finitude não é uma forma de aprisionamento, mas sim uma condição essencial para que a existência concreta seja possível. O catolicismo tem uma capacidade de resistência superior, não por ser "de direita", mas porque defende com igual força o Verbo encarnado em oposição ao apofatismo e ao imanentismo.
O jacu, que é um pássaro brasileiro famoso por não fugir de um predador e simplesmente ficar parado observando, é o oposto do burro, que pelo menos se afasta ao perceber o perigo. O jacu permanece imóvel por não compreender a situação que está presenciando, tornando-se a representação ideal da alt-right brasileira nesse aspecto. Ela está ali, observando atentamente o judeu que, na maior parte do tempo, está apenas levando sua vida normalmente, dedicando-se ao estudo de seus textos sagrados, fazendo doações para a caridade e prestando ajuda ao vizinho, assim como a grande maioria das comunidades judaicas no Brasil costuma fazer. Enquanto o jacu observa atentamente esse indivíduo que apenas caminha pela calçada, o verdadeiro predador se move livremente em outra direção. O verdadeiro predador é a gnose. A mentalidade que oferece salvação sem elevação espiritual, um paraíso que dispensa a encarnação, redenção que ocorre sem a graça, liberdade sem definição, e perfeição sem fronteiras. Esse predador não pertence a nenhum grupo étnico. Está livre de sangue. Está sem passaporte. Ele se manifesta como um protestante individualista, um marxista coletivista, um liberal cosmopolita, um neopentecostal da prosperidade, e ainda sob a forma de um movimento ecológico de paganismo contemporâneo. Além disso, é fundamental afirmar, sem rodeios, que também se apresenta na versão alt-right de etnonacionalismo. Porque o etnonacionalismo é uma forma de conhecimento de direita. É a mesma realização do eschaton, com a raça substituindo a classe ou o proletariado em sua posição. É a mesma promessa de um paraíso construído pela ação conjunta, sem qualquer intervenção divina, e sem a modéstia necessária para admitir que a estrutura do ser não é a base para os projetos humanos de redenção.
Não se pode resistir à desintegração de tudo com uma desintegração oposta. A gnose de esquerda não pode ser curada pela gnose de direita. Não é possível defender a tradição utilizando um instrumento que, ao longo de toda a patrística até os escolásticos, e da Igreja dos primeiros séculos até os pensadores católicos do século XX, foi reconhecido como o seu mais profundo antagonista.
Encarar a realidade como ela é o primeiro passo de resistência contra qualquer tipo de desintegração. Compreender que o judaísmo não é uma entidade única. Observar que a Cabalá possui várias vertentes, cada uma com implicações doutrinárias bastante distintas. Reconhecer que há, de fato, um fio apofático que influenciou a formação de pensamentos destrutivos, mas que esse fio é particular, identificável e não representa toda a tradição. Constatar que os Protocolos dos Sábios de Sião são uma fraude comprovada e que insistir em mencioná-los é resultado de ignorância ou desonestidade. Observa que o protestantismo, e não o judaísmo, é o principal agente teológico e cultural da moderna dissolução no Ocidente. Reconhecer a existência de seitas criminosas que se dizem parte do judaísmo e que precisam ser combatidas, identificadas e responsabilizadas, sem que isso justifique a condenação de toda uma tradição com base na patologia de um de seus ramos mais marginais e amplamente reprovados pelos próprios judeus. Reconhecer que o Estado de Israel comete erros que merecem ser criticados de maneira específica, e que essa crítica não se configura como antissemitismo, assim como criticar o Vaticano não é considerado anticatolicismo.
É importante ressaltar, finalmente, que o verdadeiro inimigo não possui passaporte e não participa de encontros secretos em cemitérios de Praga. Possui uma forma de raciocínio. Essa estrutura pode surgir, e de fato surge, dentro das próprias tradições que buscam combatê-la.
A desintegração de tudo se inicia com a recusa em perceber as realidades como realmente são. Quem se recusa por comodidade, medo ou falta de curiosidade intelectual não está lutando contra a desintegração. Tem sido o seu meio mais eficaz.
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