O Jumento Coroado

Ensaio jocoso-filosófico sobre a burrice triunfante, seus sacerdotes engravatados e a nobre arte de não correr da onça.

Gabriel G. Oliveira

6/12/202657 min ler

O Idiota e sua Tragédia

Várias pessoas vêm até mim com a mesma questão, sempre com um olhar que demonstra o peso de ter um parente nas costas, como se carregassem um piano: Gabriel, como posso converter meus pais? Gabriel, de que maneira posso incentivar essas pessoas a adotar uma nova ideia? Eles estão tão imersos em seu próprio mundo que não conseguem ver além de sua rotina e não aceitam nenhuma outra visão de vida, nem mesmo sob pressão. Eu, que já perdi mais tempo respondendo a essa pergunta do que um padre em plena semana santa, decidi escrever de uma vez por todas a resposta — e ela não é nada gentil. Há pessoas que se transformam, que estão abertas à mudança e que aceitam o desconforto de reconhecer que estavam equivocadas. E há o asno filho da mãe. No atual nível da minha caridade, não existe um vocabulário mais especializado. O jumento, que é um verdadeiro imbecil, representa a forma mais pura de idiotice, aquele que se destaca como um idiota de exportação. Hoje, eu vou analisá-lo minuciosamente, com a precisão de um ourives e o toque humorístico de um cômico.

Como sempre digo no Círculo de Estudos, o idiota se apoia em três vícios, três pernas de um banquinho de quinta categoria. Em primeiro lugar, sua arrogância se destaca: ele acredita que está acima de todos, sempre, por princípio, antes mesmo de qualquer prova que possa surgir. Em segundo lugar, temos a teimosia: ele é tão obstinado que nem sequer consegue reconhecer sua própria prepotência, o que o leva a uma autossuficiência fechada e absoluta, comparável a uma garrafa térmica. Em terceiro lugar, a ignorância: ele se expressa sobre assuntos que desconhece, fala bastante e com uma voz alta. Aquele que possui os três vícios não está disposto a se transformar — não por falta de conhecimento da verdade, mas porque essa verdade exigiria renúncia, e ele se recusa a abrir mão até mesmo do controle remoto. Há, de fato, o tipo de pessoa que apresenta uma prepotência moderada e que ainda pode ser salvo: esse indivíduo só aprende quando perde um debate de forma humilhante, sendo esmagado em plena praça pública em uma altitude estratosférica, e, ao se encontrar no chão, cuspindo poeira, finalmente passa a reconsiderar suas posições. Existem, no entanto, aqueles que são irremediáveis: por mais que se confrontem com a realidade de forma intensa e constante ao longo da vida, eles partirão acreditando firmemente que o verdadeiro tolo é você.

A situação se agrava com o passar do tempo, pois a arrogância amadurece como um vinho de má qualidade: não se torna melhor, apenas se torna mais difícil de tolerar. O tolo que envelhece adiciona aos três defeitos um quarto trunfo, a idade, e começa a pensar que cada ano a mais é como um diploma que recebeu. Veja o velho aposentado, esse velho repetidor, esse caminhão de lixo. Ele se considera tão superior que chega à conclusão de que ninguém ao seu redor é capaz de compreendê-lo, e por isso ele repete. E continua a se repetir. Isso se repete. Ele repete, com a mesma paciência de quem ensina lesmas, crente de que sua cabeça é pequena demais para a verdade que carrega. A ideia de que você pode ter compreendido tudo perfeitamente e apenas ter uma opinião diferente não se encaixa de maneira alguma em sua perspectiva; a noção de que ele possa ser o obstáculo na comunicação é ainda mais improvável. A repetição é o método, e o mesmo argumento de estupidez cristalina é o tema, lançado sobre você como se fosse uma pedra, na esperança de que flores diferentes brotem. Quando você apresenta a ele uma alternativa — muitas vezes uma opção que resultaria em um resultado muito superior ao dele — ele imediatamente rejeita, sem sequer considerar, pois em sua mente medíocre, qualquer ideia que não tenha surgido dele não pode ser bem-sucedida.

Gostaria de ver o retrato animado? Visualize a situação: um leão à sua frente, você e o tolo escondidos atrás de um arbusto. Você, que se aprofundou no tema, sussurra a estratégia: permaneça calmo e, caso ele se aproxime, corra em direção a ele, pois isso pode assustá-lo; o leão não é um tigre, ele se assemelha mais a uma onça — se você correr em direção a uma onça, é bem possível que ela fuja, pois ela não tem certeza do que você é e suspeita que você possa ser um predador maior; por outro lado, se você fugir dela, acabou de se tornar parte do seu cardápio. Em seguida, nos afastamos lentamente em direção à caminhonete e partimos inteiros. O plano é straightforward, amplamente reconhecido e é aquilo que todas as pessoas que possuem conhecimento sobre animais reiteram. Mas o tolo, desse tipo de tolo, já está tão protegido pela arrogância de sua própria ignorância que rejeita o aprendizado, nega a zoologia, ignora o consenso dos que estão vivos — e foge da onça. E ele falece. Ele continua a pensar que é astuto o bastante para contradizer a realidade, pois reconhecer que você poderia ser superior a ele em qualquer forma de sabedoria seria mais doloroso do que uma picada. Esse é o grau: ele opta pelo predador em vez do reconhecimento. Nunca lhe passa pela cabeça, nem como uma possibilidade de reflexão, enunciar a frase vetada: talvez eu não seja melhor do que esta pessoa. Ele perde o debate sem apresentar nenhum argumento e continua acreditando fervorosamente em suas próprias ideias equivocadas, até ser corrigido repetidamente — e há aqueles que mesmo assim não mudam de opinião.

Destes três vícios surge o erro geral de conhecimento, a mãe de todas as doenças: relativizar tudo e, depois, subjetivizar tudo a seu respeito. É o que eu designo, no Círculo de Estudos, como o hexagrama da perdição — a figura geométrica que representa o autoengano em sua totalidade, onde a realidade objetiva é gradualmente substituída, peça por peça, por uma decoração interior mais agradável. O indivíduo já não reside mais no mundo; ele habita a visão que possui sobre o mundo e defende essa perspectiva com todas as suas forças.

Precisa de exemplos? Reuni alguns deles, em sua forma original, captados por estes mesmos ouvidos. Desejo ter mais amigos, mas não tenho vontade de sair de casa. Eles podem vir, mas não quero me incomodar lembrando de convidar. Eles não podem aparecer de surpresa, mas podem se convidar, desde que seja no momento em que eu estiver a fim. Quando chegarem, é necessário que saiam antes das sete e meia da noite. Não tenho interesse em iniciar conversas com os outros, mas fico à disposição para que possam falar comigo, desde que seja sobre algo que eu ache interessante. Não se trata de um mero capricho; é uma constituição completa, instaurada por um parlamento formado por uma única cadeira, na qual o mundo deve girar em torno de um ego que não oferece nada em troca, exceto a honra de sua presença.

É por isso que eu afirmo, com a tranquilidade de quem já teve essa experiência: nunca entre em discussão com esse tipo específico de ser humano — e é importante ressaltar que não se trata de qualquer ser humano, mas deste aqui, o exemplar devidamente catalogado. Conversar com ele é mais ou menos desse jeito: você diz que um mais um é igual a dois. Ele balança a cabeça e diz que não é exatamente assim, que não concorda. Você, paciente, pega um lápis: aqui está uma unidade. Pega outro lápis: aqui está outro. Duas unidades. Mais um, dois. E ele, com a pompa de um senador romano, declara: é, mas cada um tem a sua opinião, né? A aritmética expressa sua gratidão, emocionada, pela cortesia democrática. É nesse momento que você percebe que não está participando de uma discussão; está em uma sessão espírita onde o bom senso é a entidade que nunca se manifesta.

É aqui que devo fazer uma confissão sobre meu temperamento. Sou uma pessoa bastante extrovertida — realmente extrovertido, tanto com amigos quanto com pessoas que não conheço. Quando a roda começa a girar por conta própria e a despejar lixo em grande escala, com uma quantidade absurda de bobagens, tolices e desinformação a cada metro quadrado, eu prefiro me afastar. Isso não se trata de timidez ou vergonha, mas sim de seleção. Nós nos mantemos em silêncio porque não temos ideia de como iniciar a correção e, no fundo, sabemos que não compensa entrar em uma discussão. O silêncio do homem reflexivo, em contraste com o barulho dos que não refletem, frequentemente é interpretado como fraqueza; na verdade, é apenas contenção. Você já percebeu, a propósito, como o tempo tem passado rápido demais nos últimos tempos? Então, combine essa percepção com outra: a mente de uma pessoa realmente começa a se formar após os dez anos, e aos dezesseis, essa estrutura já está bem definida. Aqueles que não foram devidamente moldados internamente carregarão essa estrutura imperfeita por toda a vida — e o tempo, que passa rapidamente, geralmente não retorna para reconstruir as bases.

Trocamos de animais, mas continuamos no mesmo zoológico. Cuidado com aqueles que presenteiam de forma excessiva. Paga almoço, paga jantar, entrega iFood na sua residência, envia presentes para sua família, distribui lembrancinhas com frequência, tão pontuais quanto uma conta a vencer. Isso tem um nome, e esse nome não é gentileza: é uma tática de manipulação — principalmente no contexto profissional, entre colegas, empresas parceiras, superiores e subordinados. A pessoa que te mimoseia com um cronograma está, de alguma forma, esperando algo em troca; ela está te adquirindo aos poucos, de maneira suave, e a conta sempre vem. Eu já testemunhei muitas pessoas se prejudicarem devido a isso, e o funcionamento é de uma sofisticação maligna, pois o manipulador habilidoso não ataca a sua lógica: ele ataca o seu excesso de confiança. Ele te coloca em um pedestal — veja como eu te admiro, veja como você é incrível — e aguarda que você se sinta confortável lá em cima. A partir desse ponto, qualquer sugestão medíocre que ele te fizer se encaixará em uma armadilha de dois resultados. Ou você concorda por pena, porque o indivíduo é um grande admirador seu, coitado, e negar seria quase uma crueldade — note que ter compaixão por alguém já implica, em certa medida, considerar-se superior a ele, e o manipulador se aproveita exatamente dessa dinâmica da vaidade. Ou você aceita com uma profunda gratidão, pensando que aquele grande amigo te enviou um presente. Em ambas as direções, o queijo pertencia a ele e o rato era você. O pedestal jamais foi um trono; era uma armadilha para ratos com uma vista espetacular.

Isso ocorre com frequência, de maneira intensa, no ambiente empresarial — e permitam-me afirmar algo que muitos consideram uma brincadeira, mas que é a mais pura verdade: o cenário empresarial contemporâneo está imerso em práticas de caráter satânico. Tranquilo, mantenha o sorriso para si. Não me refiro a capas pretas e velas de ponta-cabeça; estou falando de algo mais simples e mais eficiente. Esses indivíduos elevaram Maquiavel à categoria de ídolo, precisamente o autor que removeu Deus da ética para colocar o homem em seu lugar — e uma ética cujo foco é o próprio sujeito possui um lema antigo, que precede os manuais de administração: faz o que tu queres, pois é tudo da lei. O leitor que presta atenção já identificou a autoria, e falaremos sobre o seu autor mais adiante. Por enquanto, anote o que realmente importa: quando a intenção ética é substituída pelo desejo, o que sobra é apenas uma encenação — e essa encenação corporativa, com suas apresentações, seus rituais semanais e sua liturgia de metas, não passa de uma versão identificada com crachá de um culto tão antigo quanto a própria serpente. Tudo isso é alimentado pelo ego presente nessas filosofias de gestão contemporâneas; é tudo ego. Um homem cuja filosofia é completamente centrada no ego não se submete a algo superior — ele se eleva e ocupa a posição que está disponível. Aí você passa a compreender a razão pela qual muitos dos ricos de épocas passadas eram maçons, ocultistas e membros de ordens iniciáticas: a mentalidade associada à feitiçaria, em essência, consiste em moldar a realidade à sua própria vontade. O ambiente corporativo, por sua vez, simplesmente substituiu o pentagrama pelo organograma.

Há um espetáculo dentro desse circo que me exaspera com uma precisão britânica: o empresário estoico. Todo empresário contemporâneo que me procura para discutir o estoicismo recebe, de imediato, o meu diagnóstico estatístico: há uma alta probabilidade de que você seja apenas um falador, um preguiçoso tentando me iludir. Falo de maneira direta, sem rodeios, porque sei de onde vem esse golpe. Um grande número de estudiosos, entre muitas aspas, tem promovido o estoicismo como se fosse uma ética pessoal, um conjunto de frases para suportar reuniões — mas isso não é verdade. O estoicismo representa uma doutrina espiritual completa, incluindo seus dogmas, cosmologia e prática, que culmina em uma ética objetiva, e não em uma mistura de autoajuda. Vou além: não considero o estoicismo nem mesmo uma filosofia; vejo-o como uma religião. O grupo do canal com a voz automatizada e a imagem de uma estátua musculosa no thumbnail, que repete dez frases de Marco Aurélio como se estivesse vendendo suplementos, se limitou a explorar a superfície de algo que possui porão, sótão e capela.

Vamos nos concentrar nos fatos, que são muito mais interessantes do que a caricatura. O estoicismo, uma escola de pensamento da época helenística, foi fundado por Zenão de Cítio — de acordo com a tradição que Diógenes Laércio nos deixou, um comerciante que, após um naufrágio próximo a Atenas, em vez de lamentar a perda de sua carga, encontrou seu verdadeiro destino: tornou-se aluno de Crates, o cínico, aprendeu sobre dialética com os megáricos e também se influenciou pela filosofia platônica. A sua escola, que poderia ter recebido o nome de zenonismo, acabou sendo nomeada pelo seu endereço: Zenão dava aulas nas estoas, que eram os pórticos de colunas — e assim, a escola de filosofia mais influente do mundo antigo ganhou um nome que se refere a um corredor. Do período grego, sobraram apenas fragmentos; a maior parte do material que nos chegou é de origem romana, datando da época de Sêneca e, principalmente, do imperador Marco Aurélio. Isso ocorreu porque o Império Romano, caracterizado por sua burocracia, praticidade e uma intensa obsessão pela administração pública, incorporou o estoicismo como se fosse um terno feito sob medida. Antes do cristianismo, era a corrente filosófica mais difundida no mundo greco-romano. Os traços que atualmente aparecem em um vídeo de dez minutos são autênticos: viver de maneira virtuosa, agir com ética e ter autocontrole; aceitar o que não se pode modificar e tomar ações sobre o que se pode; enfrentar o destino e a morte com coragem; analisar as emoções com a razão e controlá-las. No entanto, toda a filosofia antiga, além de servir como um guia de comportamento, também abordava as grandes questões — de onde viemos e para onde estamos indo — com uma visão de mundo específica. E é nesse ponto que o coach interrompe o vídeo, pois a cosmologia estoica não se encaixa na planilha.

No estoicismo, o cosmos é limitado — incluindo a terra, o sol, a lua, os planetas e as estrelas — porém, não há vácuos ou espaços vazios: tudo está interligado de alguma maneira. Armazene essa informação, pois ela retornará. Antes do universo, havia o pneuma, o sopro, o espírito, a matéria primitiva, a força geradora de tudo — Deus, em resumo, que criou e formou tudo. A criação tem seu início no fogo, que transforma tudo e, ao final dos tempos, consumirá tudo em um ciclo de incêndio cósmico. Esse Deus-substância é a causa do universo, dos deuses, da natureza e do ser humano — e, ao mesmo tempo, tudo é composto por ele. Por essa razão, quase não existem preces estoicas de solicitação: em um universo racionalmente estruturado, implorar por favores parecia desnecessário; havia, em seu lugar, práticas meditativas — e não é surpreendente que já tenha visto o estoicismo ser comparado ao budismo, uma espécie de budismo ocidental, ou vice-versa. A doutrina é unificada: tudo é um só. É panteísta: Deus é a origem, a natureza e a totalidade da realidade. Ele é tão materialista que choca o leitor contemporâneo: até ideias como justiça e sabedoria possuem uma forma física. Adicione a interação dual entre ativo e passivo — tudo o que existe age ou recebe ação — e a imagem se torna completa: um cosmos material totalmente impregnado pelo pneuma, o sopro divino, racional, que organiza a realidade internamente. Os deuses do panteão? Agiam ali como grandes daimons, demiurgos a serviço do Deus-Éter, moldadores designados para preservar a unidade do todo — um arranjo quase teosófico, no qual cada culto e cada plano serviam como métodos de uma mesma administração celeste, e onde, é importante ressaltar, havia livre-arbítrio para todos. O objetivo da vida era alcançar a felicidade por meio da apatheia: a tranquilidade de quem reconhece que só pode ser responsabilizado pelo que está sob seu controle, e que, em relação ao restante, não pode, de forma honesta, assumir essa responsabilidade.

É uma planilha para acompanhar hábitos? É uma religião de fogo, envolvendo Deus, escatologia, teologia dos intermediários e uma disciplina ascética. Quem te apresenta isso como uma técnica de aumento de produtividade está, ou sendo desonesto com você, ou — uma possibilidade estatisticamente válida — enganando a si mesmo em primeiro lugar, o que é a maneira mais confortável de se iludir.

Eu tenho experiência com estoicismo, muito antes de conhecer seu nome — e não foi por uma busca de sofisticação intelectual, mas sim por necessidade de sobrevivência. Quando eu era criança, meu pai era o tipo de pai que eu costumo comparar, de forma humorística, ao pai do Sylvester Stallone: inflexível como uma viga e irritante como uma vespa. Com uma ressalva que considero justa: o meu possuía características de bondade, não sendo o vilão absoluto da comparação. Mas era extremamente belicoso. Se eu pegasse um copinho, batesse em algo e o copo caísse no chão, rapaz, eu levaria uma surra pesada, de socos mesmo. Além disso, a situação tornava a injustiça ainda maior: eu era autista — muito mais autista do que sou atualmente; hoje, vejo-me como um Asperger leve, mas naquela época, o meu quadro era bastante severo. Não conseguia me comunicar com as outras pessoas, era um garoto muito tímido, e minha memória me decepcionava. A professora dava a lição de casa, eu prestava atenção, e a informação se dissipava antes de eu chegar em casa.

Por que evaporava? Minha agenda se assemelhava à de um ministro de Estado durante um ano de crise. Meu pai me sobrecarregava com tarefas: cursos técnicos, muitas vezes diversos em uma única semana, ocupando o dia todo. Eu deixava minha casa às seis da manhã e retornava às nove ou dez da noite — e isso começou quando eu tinha apenas sete anos, continuando dessa forma até 2014 ou 2015. Uma criança que cresce nesse tipo de ambiente não consegue ter um sono tranquilo; eu sofria de uma insônia imensa e bebia café como se estivesse reabastecendo um caminhão. Aquilo destruiu minha percepção e fez minha memória ir para o fundo do poço. O resultado da equação era que eu esquecia a lição de casa e levava uma bronca. De fato, sempre que eu me esquecia, levava uma surra. É nesse ponto que reside a dor mais intensa, que se compara a golpes: meu pai apenas precisava se dirigir até a sala da professora e registrar as atividades. Ele estava prestes a me buscar na escola, a apenas vinte metros da resposta. Mas estava com preguiça de ir até lá dentro. Meu pai era um relapso na minha educação, preguiçoso de uma preguiça profunda, e por cima da preguiça vinha o desprezo: professores implorando, todos ao redor suplicando — pai, pelo amor de Deus, anote as tarefas do menino, ele enfrenta dificuldades — e ele respondendo que dificuldade nenhuma, que era falta de vontade minha, que se não fizesse era punição. Tudo o que meu pai não concordava, ele rotulava como bandidagem; a possibilidade de uma dificuldade genuína não fazia parte do seu entendimento. O plano educacional dele era bem claro, expresso de forma bastante direta: a razão pela qual temos você é apenas para que você possa nos cuidar quando envelhecermos; você não tem outra função. Todos os dias, eu ia para a escola com a plena convicção de que receberia uma surra ao voltar para casa. Foi dessa maneira que eu desenvolvi um profundo desprezo pela escola — aqui está, sem custo algum, o guia sobre como um pai pode incutir esse sentimento em seu filho.

Então, quando eu tinha cerca de nove anos, decidi não me importar mais. Refleti, com a indiferença de alguém que encerra uma conta: eles podem me assassinar, mas não serei um escravo de um regime em que se trabalha sob a ameaça de uma punição. Eu deixei de responder. Recebia golpes sem reagir, ciente de que, independentemente do que fizesse, continuaria a ser atingido, e reconhecendo que aquilo estava além das minhas capacidades — precisamente a diferença estoica, encontrada no laboratório mais informal e pouco acadêmico que se possa imaginar. Certa vez, ele me agrediu com um soco, irritado exatamente pelo fato de eu não estar chorando, não me encolhendo e não lhe proporcionando o espetáculo que esperava. Quando terminou, eu apenas perguntei: Então, foi só isso? Como se quisesse dizer: já terminou de descarregar suas frustrações sobre mim? Ele ficou parado, perplexo. Retornei ao quarto e retomei o videogame exatamente de onde havia parado. A surra foi em vão. Ele se atirou sobre mim como um burro — e, naquela tarde, eu definitivamente não era o burro.

Isso é o estoicismo em sua essência: eu exercitava a apatheia, pois era a única maneira de me libertar, mesmo que minimamente, da dor. Toda anestesia tem seu custo. Em consequência disso, eu perdi as emoções. Quando eu era jovem, eu habitava um estado de indiferença tão profundo que minha única expressão facial era uma que, aqui na minha região, é conhecida como expressão de paisagem: uma expressão desprovida de qualquer emoção, o semblante de alguém que observa sua própria vida passar pela janela de um ônibus. Eu estava, por assim dizer, aguardando que a vida se arrastasse até que eu morresse de velho; essa era a minha resposta ao mundo. E Chesterton elucida de maneira excelente a razão por trás desse desfecho: ele observa, em sua obra Ortodoxia, que o verdadeiro louco não é aquele que perdeu a razão, mas sim aquele que perdeu tudo, exceto a sua razão. A apatheia levada ao extremo gera precisamente isso — um círculo perfeito, racional, auto-suficiente e diminuto, no qual a razão opera de maneira impecável enquanto a alma se esgota. Eu fui aquele círculo com uma expressão de indiferença. Você é, portanto, tanto aquilo que o estoicismo oferece quanto o que ele exige; e é exatamente por essa razão que me incomoda observar essa filosofia sendo comercializada como um suplemento para a produtividade por pessoas que jamais arcaram com o custo de uma única apatheia genuína.

Retomemos, então, ao que o coach não menciona, pois o estoicismo possui um aspecto esotérico que deixaria o vendedor de frases sem palavras ao microfone. É de se saber que o ocultismo ocidental se alimenta abundantemente da filosofia — do platonismo, do hermetismo. O que realmente impressiona é perceber o quanto se inspira no estoicismo, que é exatamente a escola considerada racional, sóbria e quase ateia na imaginação coletiva. As três principais áreas em que o estoicismo influenciou o esoterismo ocidental são: o perenialismo, a hermenêutica e as correspondências.

Começando pelo perenialismo. Nós, contemporâneos e bem-educados na biologia evolutiva, tendemos a imaginar os primeiros seres humanos como indivíduos primitivos e ingênuos, enquanto a razão seria o resultado de uma conquista gradual ao longo das gerações. Para os estoicos, era totalmente oposto: os primeiros seres humanos, originados do fogo criador, eram intelectualmente profundos, de natureza semidivina, e possuíam sentidos que lhes permitiam compreender o cosmos de forma precisa, sem erros ou incertezas — superiores, em todos os aspectos, aos homens de sua época e, consequentemente, também aos homens de hoje. Argumentávamos, inclusive, que a primeira língua surgiu da interação direta do ser humano com a essência divina da natureza, sendo a linguagem e a natureza conceitos intrinsecamente relacionados desde a sua origem. Daí a obsessão da filosofia estoica com o significado das palavras: cavar a origem de um nome podia descobrir a verdadeira essência da natureza. As verdades fundamentais, acreditavam, estavam conservadas na filosofia da natureza, nas leis e, especialmente, nos mitos religiosos — histórias que transcendem a mera narrativa histórica, impregnadas de um caráter épico que demandava interpretação. Através da linguagem e da análise dos mitos, cultivava-se a piedade no aspecto espiritual, interpretando a sabedoria divina presente nas histórias de heróis e deuses. Os estoicos foram os primeiros a interpretar as narrativas sagradas de uma forma não literal — e essa ideia se espalhou por muito tempo: é a partir dela que surge a filosofia perene, que busca a verdade única que conecta todas as religiões, e que, séculos depois, ocultistas como René Guénon e Blavatsky desenvolveriam de maneiras distintas.

Em segundo lugar, a linguagem como a chave para a compreensão. Se descobrir o verdadeiro nome de algo significa acessar sua essência, então dar nome é exercer poder — e aí está o fundamento de inúmeras tradições esotéricas: o verdadeiro nome de um espírito confere a capacidade de controlá-lo; os nomes são obtidos a partir de quadrados mágicos; a magia enoquiana busca incansavelmente o nome dos anjos. A mitologia enoquiana, que se refere à língua original dos anjos, assim como a busca pela única e primordial língua que existia antes da Torre de Babel, parece ter suas origens nos estoicos. Estes afirmavam que quanto mais antiga fosse uma linguagem, maior seria seu poder. Observe a magia que é realizada atualmente e ria do eco — latim, grego antigo, hebraico, nórdico antigo nas práticas nórdicas. A filosofia estoica se transformou em uma prática universal sem a necessidade de licenças.

Em terceiro lugar, as correspondências. Os estoicos acreditavam em um princípio organizador, o pneuma, que conectava todos os objetos e mantinha a natureza de forma racional e coesa — recorda do cosmos sem espaços vazios? — e que, além de estabelecer essas conexões, disseminava sinais e símbolos por toda a natureza, para serem interpretados. Dessa forma, o sábio conseguia contemplar o leão e, devido à sua semelhança, relacioná-lo ao sol, além de associar tanto o leão quanto o sol ao ouro. Essa conexão entre elementos que, à primeira vista, parecem inconectáveis — como plantas e planetas, ou animais e minerais — surge do impulso estoico de interpretar os sinais deixados pela inteligência divina. Não é à toa que as plantas correspondentes de Marte, o planeta agressivo, sejam a pimenta e as espinhosas, agressivas também. As tabelas de correspondências, que são um dos conceitos mais significativos de todo o ocultismo, parecem ter sua origem nesse contexto — no seio da filosofia que o século XXI reduziu a uma legenda de imagem acompanhada de estátua. O estoicismo é muito mais do que o que as pessoas costumam dizer; e aqueles que o utilizam como uma fachada para comercializar mentoria estão cometendo uma blasfêmia contra uma religião que nem sequer reconhecem.

Agora una as extremidades. A gestão contemporânea consiste em um grupo de pessoas que se dedica a tornar tudo subjetivo, agindo de acordo com aquele princípio que já mencionei anteriormente: na ausência de um núcleo filosófico que represente Deus — a maior parte das pessoas O rejeita de forma explícita —, o ego é o que permanece em destaque. Um indivíduo que foi moldado para se submeter ao próprio reflexo não busca uma religião que o desafie; ele busca uma técnica que o potencialize. É por isso que, entre os grandes — não aqueles pequenos empresários, que geralmente são católicos praticantes, frequentando missas e rezando o terço, mas sim os grandes empresários, os globalistas que participam de painéis internacionais —, a atração por práticas esotéricas é quase uma norma: ordens iniciáticas, centros de ocultismo e círculos discretos. Se não se trata de uma imposição, então é a ala mística de alguma tradição que satisfaça o mesmo desejo: a vertente esotérica da cabala dentro do judaísmo, o budismo esotérico — particularmente o veículo tântrico, que envolve todas as suas evocações de diversas entidades —, a cabala hermética, e tudo aquilo que tende a se inclinar para o aspecto mais apofático da questão. Embora esses caminhos místicos não promovam imediatamente a ideia de autoendeusamento, eles criam um ambiente propício, e com o passar do tempo, essa mentalidade se manifesta. O aparelho doutrinário é sempre parentético: se Adão dá nome às coisas e Deus habita no nomeado, então quem domina o nome opera a presença — tudo o que o Pai possui é nosso, digo, meu — e a vontade do operador torna-se a medida do sagrado. Agrippa já organizava esse misticismo do nome; a gnose contemporânea apenas o tornou popular. O mago, em qualquer época, é assim: o indivíduo que deseja moldar a realidade de acordo com sua própria vontade. O terno pode ter mudado, mas o desejo permanece o mesmo.

Por falar em distorcer a realidade, vamos passar para o capítulo que me custou alguns amigos online: o hermetismo. Que ninguém me interprete de forma equivocada — o antigo hermetismo associado a Hermes Trismegisto é realmente incrível. Li bastante na juventude: A Tábua de Esmeralda, os grandes textos místicos, e, especialmente, o Corpus Hermeticum, que é incrível. Como alguém que estuda e trabalha com gnosiologia — poderia me considerar um gnosiólogo, se preferir —, tenho uma profunda admiração por aquele livro: é denso, poético, mitológico e repleto de simbolismos do universo, a ponto de ser possível refletir sobre a vida inteira a partir dele. Há também um certo encanto nas ambiguidades sinceras: em alguns trechos, é difícil determinar se quem está se expressando é o mensageiro divino — aquele pequeno deus subordinado aos deuses que transmite avisos aos homens, um anjo, para utilizar a palavra que conhecemos bem — ou se é o próprio Hermes fazendo a sua interpretação; essa linha divisória se torna sutil, e a tensão resultante contribui para a profundidade da obra. A questão, que é a maior fonte da ignorância neste país, não é Hermes. Trata-se do Caibalion.

Li o Caibalion pelo menos umas vinte vezes, no começo de meus estudos. Eu compreendo a fascinação: um pequeno e enigmático livro, atribuído a Três Iniciados, que afirma preservar uma tradição oriunda do Egito antigo, enquanto utiliza uma linguagem curiosamente contemporânea — vibração, polaridade, causa e efeito —, como se ciência e misticismo fossem uma única entidade. Por muito tempo, sempre que eu ouvia a palavra hermetismo, imediatamente pensava no Caibalion. Até que cometi o erro irreparável para qualquer engano: fui ler a fonte. Consultei o Corpus Hermeticum, o verdadeiro texto da filosofia hermética, redigido na voz de Hermes Trismegisto para seus discípulos — e constatei que uma coisa não se assemelha nem um pouco à outra.

Um é um texto antigo, complexo, denso de significado e com uma profundidade espiritual imensa. O outro é um guia de pensamento inovador disfarçado de faraó.

Vamos contextualizar, pois a história pede isso. Após a conquista do Egito por Alexandre, o Grande, e durante toda a dinastia ptolomaica, que termina com Cleópatra, as influências grega e egípcia se entrelaçaram em diversos aspectos — na cultura, na arquitetura, na filosofia e na religião —, particularmente em Alexandria, a famosa cidade da biblioteca. Dessa intersecção de espiritualidade surge o hermetismo enquanto tradição filosófica e religiosa. Seu profeta, Hermes Trismegisto, pode ser interpretado tanto como uma figura humana quanto como um deus sincrético: a combinação de dois mestres da magia, da escrita e da comunicação, o grego Hermes e o egípcio Thoth. Assim como toda filosofia antiga, o hermetismo tem suas raízes no paganismo e no politeísmo, exaltando diversos deuses e considerando a adoração a eles como uma virtude. No entanto, traz uma novidade ao abordar Deus como o criador: aquele que faz parte do todo e, ao mesmo tempo, o transcende; que criou até mesmo o ato de criar; que não é apenas um, pois está além do conceito de um; que engendra sem ser engendrado; que é o bem e o maior dos doadores, sem que nada possa ser oferecido a ele. Adoração, oferta, vida digna: um itinerário de reconexão do ser humano com Deus. O saber divide-se em três tipos de conhecimento: a ação do sol, que é a alquimia; a ação das estrelas, chamada de astrologia; e a ação dos deuses, conhecida como teurgia.

Note-se, de passagem, uma afinidade que muitas vezes choca os incautos: muito do que Tomás de Aquino irá reunir provém da mesma raiz socrática — e o hermetismo também provém dessa raiz, razão pela qual tantas coisas estão em harmonia. Ideias que se referem ao que conhecemos como purgatório, por exemplo, são encontradas tanto na tradição católica quanto na judaica; e o judaísmo já havia se aprofundado nessa fonte, com figuras como Moisés Maimônides e outros, que partiram dos fundamentos socráticos e, através de leituras herméticas, adicionaram elementos místicos à cabala prática — e a Igreja, por sua vez, buscou inspiração entre os judeus, pois, naquela época, todos se influenciavam mutuamente. A transmissão ocorreu de forma indireta, de copo para copo. O verdadeiro desastre ocorreu posteriormente, quando alguns cabalistas um tanto insanos decidiram juntar aquilo que não deveria ser unido, comprometendo a essência da tradição — o que levou à confusão gnóstica que se encontra por aí atualmente, disfarçada de profundidade. O hermetismo, que incorporou elementos do neoplatonismo e do estoicismo, passou por séculos de evolução, adquirindo novas camadas de significado — incluindo a noção de oculto, fechado, secreto, iniciático — e mostrou uma notável flexibilidade ao se adaptar a visões de mundo tanto cristãs quanto islâmicas. Uma prática que carrega uma cicatriz de séculos deve ser respeitada, mesmo por aqueles que não concordam com ela.

Mas e o Caibalion? O Caibalion apareceu no começo do século vinte. A obra, atribuída aos enigmáticos Três Iniciados, na verdade é escrita por um autor profissional, extremamente talentoso em estratégias de marketing e vendas — um coach de uma época passada, disfarçado de hierofante —, e o conteúdo se resume a uma síntese apressada: toma as primeiras páginas da cabala, adiciona um tempero da baboseira protestante que resultaria no movimento New Age e na gnose consumista, e se inspira descaradamente no novo pensamento. Aliás, experimente realizar o teste que eu fiz: coloque lado a lado um trecho da filosofia cartesiana — os escritos de Descartes — e o Caibalion, e você poderá perceber a semelhança quase literal, como se alguém estivesse tentando resumir Descartes em uma filosofia esotérica compacta. O cerne da obra é a transformação mental: entenda as sete leis universais e molde sua própria realidade através da mente e de afirmações — isso está totalmente relacionado à lei da atração e a O Segredo, mas é completamente distinto do hermetismo clássico, que visava a ascensão e a união com o divino por meio da alquimia prática, da astrologia e da teurgia. Pior: o Caibalion é contra a teurgia, iguala os deuses a mortais sujeitos às mesmas leis que nós e reduz Deus a um todo mental, ao passo que no hermetismo humildade, adoração e desejo de união estão no centro, com um Deus acima de todos e do próprio logos. Praticamente único, o livrinho é de um hermetismo quase absoluto — com uma única citação, “o que está em cima é como o que está embaixo” — e o restante é uma manifestação do século XX em toda a sua extensão, insistindo em se afirmar como a continuidade do pensamento greco-egípcio. Isso é uma farsa. Uma farsa bem elaborada, eu admito; eu também compartilho de várias ideias apresentadas no livro, embora as expressasse de uma forma diferente. Eu reconheço o valor desse trabalho: por ser o primeiro livro esotérico para a grande maioria das pessoas, ele atua como uma porta de entrada, permitindo que elas se conscientizem da existência de algo além do mundo material, algo sutil e valioso. Excelente. Contudo, se este for o seu livro de estreia, que não seja o único: dirija-se ao Corpus Hermeticum em uma edição bilíngue de qualidade, leia cada palavra com cuidado e mergulhe de verdade no hermetismo greco-egípcio. Eu ainda vejo o Caibalion com interesse — apenas não o classifico como hermético. E venho aqui fazer um pedido formal ao leitor: por favor, não me mencione o Caibalion como se fosse a chave do Egito.

O dano causado por essa mistificação não se restringiu ao universo dos incensos: essas tolices místicas, de certa forma, atingiram, ao longo do tempo, a mente de nossos próprios cientistas. O próximo movimento aborda exatamente isso — a interseção entre magia e religião, magia e ciência, magia e arte, e como a magia se entrelaça com as três.

Vamos começar pelo mais famoso dos cientistas: Isaac Newton, um indivíduo bastante peculiar, que atualmente é objeto de uma disputa acirrada entre duas facções. Os ateus mostram o Newton como o cientista racional, criador da ciência moderna, símbolo da razão. Os cristãos se dedicam a seguir o devoto Newton, que realmente era um crente fervoroso e um estudioso das Escrituras. Ambas as equipes ignoram o terceiro Newton, o bruxo: alquimista, esotérico, místico, ocultista — e eu, sem nenhum pudor, desejo trazer esse para o meu lado da mesa. Poucas pessoas têm conhecimento de que Newton escreveu mais sobre assuntos místicos e esotéricos do que sobre ciência. Por muito tempo, ele foi considerado o primeiro homem da era da razão; no entanto, é mais apropriado referir-se a ele, como ficou conhecido, como o último dos magos — e a biografia de Michael White traz essa verdade em seu título, chamando-o de último feiticeiro. E aqui está o aspecto teológico que é relevante para o nosso entendimento: Newton fez uma combinação única das diversas tradições e acreditava que, no final, tudo era Deus-Pai — nem mesmo manifestações do Deus-Pai, como certa interpretação judaica permite; tudo era o próprio Pai, em um mundo onde não existia o livre-arbítrio. No Círculo de Estudos, todos nós temos consciência de que um mundo sem livre-arbítrio tende a se direcionar para a gnose. É compreensível que tenham encontrado nos escritos dele técnicas místicas, planos esotéricos e cronologias proféticas. O pai da física possuía um laboratório nos fundos da alma.

Também não foi o único. Exemplo mais recente: Jack Parsons, o cientista mais influente na criação da propulsão a jato de foguetes, foi uma figura essencial do programa espacial dos Estados Unidos — se o homem chegou à Lua, isso também se deve ao seu trabalho. Esse mesmo Parsons foi o maior divulgador de Thelema na América do Norte, aluno de Aleister Crowley, integrante da Ordo Templi Orientis, entusiasta e praticante de ocultismo, polêmico por ser ao mesmo tempo cientista genial e ocultista registrado. A exploração do espaço pelos Estados Unidos teve a influência do ocultismo como copiloto, e isso não é mencionado em feiras de ciências. Voltemos alguns séculos, e a narrativa se repete: o Império Britânico, conhecido como o império onde o sol nunca se põe, só alcançou essa designação graças à atuação de John Dee — um mago, matemático, astrólogo e conselheiro da rainha Elizabeth I, cujos conselhos e rituais desempenharam um papel significativo na ascensão da Inglaterra durante o século XVI. Arthur C. Clarke afirmava que qualquer tecnologia que seja suficientemente desenvolvida é indistinguível da magia — uma afirmação com a qual eu concordo e, ao mesmo tempo, discordo, e vou explicar o motivo a seguir.

Eu concordo, pois a genealogia é inegável: muitas das ciências atuais têm suas origens em práticas que hoje são consideradas esotéricas. A astronomia tem suas raízes na astrologia — e o astrólogo do período medieval era um profissional que desempenhava diversas funções: elaborava mapas astrais para os poderosos, confeccionava talismãs, orientava nobres e monarcas sobre os momentos mais propícios para tomar decisões, fazia previsões sobre secas, falta de recursos, abundância e chuvas; era uma figura que mesclava características de sacerdote e meteorologista, com os pés firmemente plantados no chão e a cabeça nas nuvens, enquanto atendia a uma clientela que se encontrava nos tronos. A química, assim como a alquimia, envolve a manipulação de elementos e metais. No entanto, a alquimia — especialmente durante a fase em que se tornou ainda mais espiritualizada — tinha objetivos diferentes, complementando seu trabalho com metais com o uso de ervas, destilações, poções e óleos essenciais. E essa é a distinção que a modernidade não consegue aceitar: na alquimia, não se trata apenas da transformação da matéria; o praticante, o alquimista, também precisa passar por um processo de purificação, espiritualização e transmutação. Para o cientista contemporâneo, a única forma de validar uma hipótese é por meio de experimentos que eliminem qualquer influência subjetiva do operador; na alquimia, dois praticantes realizando o mesmo procedimento podem obter resultados distintos devido à identidade de cada um. O laboratório estéril não possui prateleira para esse fim. Quando nos referimos à magia natural no contexto da Renascença, estamos falando de práticas que envolvem os elementos, bem como de áreas como geologia, ótica, medicina, a invenção da pólvora e a culinária — todo o universo era explorado. Consulte os três volumes da filosofia oculta de Agrippa e observe como a magia é, sem rodeios, denominada filosofia: aguardava-se que o mago, além do conhecimento oculto, possuísse um domínio sobre os antigos filósofos, assim como sobre a matemática e a linguagem — no mínimo, deveria dominar o trívio e o quadrívio do ensino medieval. Ser cientista significava ter sabedoria espiritual, e o contrário também era verdadeiro. Daí minha discordância em relação à metade da afirmação de Clarke: a ciência que, em um segundo momento, rejeitou o que era religioso, espiritual e subjetivo, tornou-se, em parte, irreconciliável com a magia — uma vez que a magia atua por meio de conceitos sutis e refinados, que não podem ser observados em um laboratório estéril, mas sim em florestas esquecidas e calabouços perdidos. A tecnologia não é simplesmente comparada à magia; é que a magia requer um tipo de mundo que a tecnologia tornou estéril.

Enquanto a ciência contemporânea pode ter excessivamente desinfetado, o ocultismo atual, por outro lado, apodreceu em uma direção oposta: desintegrou-se. O exemplo final dessa desintegração é a magia do caos, os praticantes do caos, esse grupo que, nos últimos tempos, defende que é possível criar absolutamente qualquer coisa no plano astral, conforme a solicitação do cliente. Não, meu amigo: não é dessa maneira. Grande parte disso já está presente no plano astral antes que você chegue com sua varinha de design exclusivo. Deseja observar a gnose com um tratamento literário digno? Explore a gnose de Philip K. Dick e aqueles que a tornam mais rica: lá, todos os mundos celestiais estão eretos, como o céu que realmente é, um céu em combate contra o inferno, uma grandiosa mitologia gnóstica de arquitetura impressionante — embora eu discorde dela, não posso deixar de reconhecer a magnificência do pé-direito dessa edificação. Os evangelhos dos seguidores do caos, caso você tenha estômago para lê-los, são absolutamente risíveis, no sentido mais literal da palavra: tratados de arrecadação de fundos metafísicos. A magia do caos, essencialmente, representa uma perspectiva ateísta do mundo que apenas aceita, no âmbito espiritual, aquilo que nós mesmos criamos — um ateísmo com varinha mágica, um materialismo que trocou o jaleco pela capa, convencido de que o invisível é um condomínio sem síndico onde cada um ergue o puxadinho que quiser.

Contudo, nem tudo se resume à demolição; existe um aspecto em que essas tradições realmente merecem uma pausa para a devida justiça: a arte. Tudo que eu amo se chama arte. Por muitos anos treinei a nobre arte — assim se chama o boxe, entre tantas artes marciais. De maneira semelhante, a astrologia, frequentemente rotulada como uma pseudociência, é, na verdade, uma forma de arte; o mesmo se aplica à alquimia; e, por último, à magia, que Crowley definiu de maneira famosa como a arte de provocar mudanças de acordo com a vontade. Embora possa parecer curioso, as tradições esotéricas possuem um sentido estético bastante forte: o sigilo do magista do caos, por exemplo, exige um cuidado visual considerável; as oferendas a espíritos e entidades são dispostas de forma harmoniosa; e os altares de pagãos e magistas devem estar sempre limpos, organizados e com os símbolos apropriados. Se a arte é a manifestação estética do ser humano que comunica, organiza e atribui significado, então existe uma grande quantidade de arte na magia — assim como há uma significativa presença de magia na arte. Se a definição de Crowley estiver certa, tanto o artista quanto o publicitário são, de certa forma, magos: contemplar uma pintura é ser imerso em pensamentos e emoções; escutar uma música é passar por uma metamorfose psíquica induzida por ondas sonoras invisíveis e delicadas. Dá pra ser hipnotizado, enfeitiçado, pelas manifestações humanas. A arte tem o poder de transformar — e também de manipular. Os profissionais de marketing e publicidade conhecem bem quais cores e símbolos utilizar para evocar emoções, pensamentos e, acima de tudo, ações: comprar, consumir, vender, dólares. Uma boa parte da mecânica envolvida na magia prática se fundamenta nos mesmos princípios: o mago faz escolhas conscientes ao selecionar as ervas apropriadas, os símbolos ideais, velas de cores específicas de acordo com o objetivo desejado, e tudo isso em dias e horas favoráveis, conforme a influência dos corpos celestes — da mesma forma, o varejo opta pela paleta de cores da vitrine, pelo jingle e pela data comemorativa que escolher. O encantamento é uma forma de arte; a publicidade é o encantamento que obteve sucesso no cartório.

A alquimia pode, de fato, ser abordada através de três portas de estudo. A primeira é o material: química, destilações, manuais de procedimentos. A segunda refere-se à leitura das alegorias e ao seu vínculo com a psicologia — a metáfora da conversão do chumbo da ignorância em ouro do homem superior. A terceira é a porta da arte: aquelas bizarrices, tipo o leão verde comendo o sol, estão lá para ocultar segredos de operações alquímicas. Observe as ilustrações do Esplendor Solis, o tratado alemão que é considerado o mais bonito da alquimia: não é necessário ter um interesse esotérico para apreciá-las. Explore a árvore da vida na cabala e observe que, além das qualidades espirituais, a própria concepção artística também serve como um meio de organizar e representar a realidade. O mesmo se aplica ao tarô de Rider-Waite: a ilustração transmite o significado de cada carta; nenhuma cor ou elemento foi adicionado apenas para ornamentação — cada arcano possui um valor artístico e simbólico. Mais contemporâneo: Austin Osman Spare, um artista e ocultista inglês, que, além de suas criações artísticas, também deixou para o cenário oculto as técnicas de sigilos, bem como a escrita e o desenho automáticos, os quais exerceram uma influência crucial sobre a magia do caos. Ainda mais contemporâneo: Alan Moore, o célebre quadrinista inglês, conhecido por obras como Watchmen e V de Vingança, também é o autor de Promethea — uma obra pouco familiar no Brasil, mas extraordinária, repleta de referências ocultas, explorando a cabala e sua árvore da vida. Quando se trata de arte, a mais sublime de todas é a vida em si, a própria jornada. Ser um mago, bruxo, feiticeiro ou qualquer outra designação similar é, na verdade, assumir uma postura artística em relação ao mundo, com o objetivo de alcançar a grande obra — e, no final das contas, essa grande obra é uma biografia bem elaborada.

Quando se trata de elogios, dirijo-me novamente ao réu, pois Crowley possuía uma falha fundamental que nenhum dom estético conseguia compensar: para ele, tudo era considerado magia. Não estou sendo dramático — o mero ato de criar algo na natureza era encantador. Ele minimizou tudo com suas palavras, absolutamente tudo; e essa foi a maior besteira de sua carreira. Magia, em seu significado mais autêntico, referia-se a algo bastante particular: uma organização meticulosa no domínio físico — incluindo objetos, rituais e condições — destinada a trazer do plano metafísico para o físico de maneira visível, audível e interativa; a vivenciar de forma sensorial a presença de uma entidade metafísica, dentro do clássico sistema de evocação, invocação e manifestação no ser. O grego antigo, de fato, já possuía um termo para aquilo a que Crowley tentou ampliar o significado: a demiurgia do cosmos — a configuração humana da natureza. Tomar um pedaço de madeira, cortá-lo e transformá-lo em uma cadeira é uma forma de demiurgia do cosmos; nós nos encaixamos nesse papel de demiurgos, não na acepção metafísica de uma entidade, mas na acepção sincera de um construtor: seres que, por sua própria natureza, alteram a realidade, uma vez que a nossa condição é justamente agir dentro dela. Não é necessário um pentagrama para isso; o que se precisa é um serrote. Mas Crowley, ao invés de preservar os conceitos em suas devidas categorias, misturou tudo de uma vez — magia, teurgia, feitiçaria se tornaram a mesma coisa —, e quando tudo é magia, nada é. Por qual motivo ele agiu assim? Porque não pretendia expressar de forma clara o que realmente desejava: Thelema é, essencialmente, a biografia transgressora do autor elevada à categoria de cosmologia, um álibi metafísico para os seus próprios desejos, elaborado em uma escala universal para que ele nunca tivesse que solicitar permissão. E não apareça o defensor de plantão com a interpretação carinhosa de que fazer o que você deseja significa apenas descobrir sua verdadeira vocação: essa frase, na origem que o próprio Crowley afirma, nem mesmo é dele — ela foi transmitida por uma entidade; e o próprio Crowley oscila entre ser sutil e alegórico e, em outros momentos, francamente libertino, de modo que ninguém pode afirmar com certeza qual é a versão domesticada. A moral de Thelema é, de fato, a moral gnóstica: em oposição à ordem terrena e à lógica dos universais — enquanto a Igreja afirma: esta é a ética; Crowley replica: não, existe outra, aquela que favorece as nossas vontades. Noventa e três, amor à flor da pele. A completa subjetivação — inicialmente dos conceitos e, em seguida, da moral — é o que, na minha perspectiva, o transformou em um verdadeiro idiota de luxo: um indivíduo que, ao desmantelar a magia, acabou, de maneira involuntária, estabelecendo o satanismo de mercado. Eu até me divirto com os truques mágicos da biografia dele; mas a filosofia é uma porcaria, e a ruína que ela inaugurou tem herdeiros de terno: quando tudo que você faz no mundo é magia, o diretor de marketing vira sumo sacerdote — e foi exatamente isso que aconteceu com a linha administrativa que bebeu dessa fonte, lotando de místicos de resultado as salas de reunião onde antes se exigia, no mínimo, vergonha na cara.

Então, depois de identificar a ignorância pretensiosa, aquela relacionada aos sistemas e seitas, vamos agora abordar a ignorância simples, a do burro comum, aquele que age de forma completamente oposta ao que estamos fazendo aqui. Mas como assim, Gabriel? — você pode questionar, e eu responderei da forma mais útil possível: através do catálogo. O verdadeiro burro é incapaz de processar informações simples em sua mente; especialmente, ele não consegue manter uma situação hipotética. Ah, Gabriel, pois essa pessoa nem consegue sonhar direito. É verdade, realmente não consegue. Os sonhos dela são bem simples e até um pouco tolos; não têm nada de grandioso, pois para se ter grandes sonhos é preciso ter uma reserva de conceitos, e o armazém está vazio. É realmente uma falta de definição. É preciso ter uma atenção ainda maior com um subtipo particular: aquele indivíduo que afirma que QI não tem importância alguma. Geralmente, são indivíduos que realizaram o teste e não ficaram satisfeitos com os resultados — e, infelizmente, essa categoria abrange psicólogos, psiquiatras, médicos e outros profissionais da área, os quais converteram sua frustração numérica em uma verdadeira doutrina. Existem também os que falam sem pensar, pessoas que não se dão ao trabalho de imaginar um único cenário antes de se pronunciar — e note que o que sai de suas bocas é, na maioria das vezes, absurdamente ridículo e, por vezes, até estranho. O retrato ideal encontra-se naquele famoso diálogo entre dois anciãos: um deles afirma que o homem não poderia ter viajado à Lua; o outro questiona o motivo dessa afirmação; e o primeiro, com a certeza de um concílio, responde: porque na Lua não tem porta. Ele se expressa com muita seriedade. Não refletiu nem um pouco sobre o que acabou de dizer — e esse tipo de discurso se espalha por todo o Brasil, de forma séria, sem qualquer traço de ironia.

Agora, um hábito que se tornou nacional e que merece ser questionado em tribunal: a pessoa vem para trazer uma queixa e não busca uma solução; ela apenas quer desabafar e ser ouvida. Isso foi totalmente aceito — e quem ouve a questão e peca ao apresentar uma solução é visto como o equivocado, o robô incapaz de compreender o funcionamento dos seres humanos. Então, eu sugiro uma mudança: precisamos tornar a resolução de problemas uma prática comum. O que realmente importa é desejar uma solução. Se o que você precisa é apenas desabafar, o ChatGPT está à sua disposição — o plano gratuito é suficiente, e ele fica disponível vinte e quatro horas por dia para te escutar sem mostrar tédio. Quando eu confio um problema a alguém, é porque preciso de ajuda para resolver; que papo furado de só desabafar. O propósito da vida adulta é atingir um ponto em que os problemas sejam praticamente inexistentes, ou idealmente, nenhum — e ninguém alcança isso acumulando plateias. Falo com cicatriz: minha segunda namorada e eu não nos entendíamos exatamente por causa disso. Ela desejava desabafar, conversar e explorar o problema; eu fornecia soluções. O interessante é que, posteriormente, percebi um padrão entre meus amigos: aqueles que adotaram a mesma abordagem em seus relacionamentos foram rotulados como extremamente chatos e, em seguida, enfrentaram o término — no meu caso, fui eu quem decidiu encerrar a relação, mas a estatística em questão se manteve igual. De acordo com a minha experiência — e enfatizo: com a minha experiência de alguém que namorou, liderou e conviveu —, constatei que esse vínculo com o problema, apenas pelo fato de ser um problema, surgiu com mais frequência entre as mulheres que conheci do que entre os homens. É aqui que insisto em enfatizar, tanto no texto quanto verbalmente: uma tendência não equivale a uma essência. Não se trata de que elas sejam assim; o que acontece é que existem formações inteiras que estão constantemente promovendo essa ideia — e, além disso, há quem se lembre, com base em algumas justificativas fisiológicas, que certas fases do ciclo não favorecem ninguém a adotar uma postura estoica; porém, isso deve ser considerado como um tempero, e não como uma tese. A argumentação avança, e isso se aplica a todos os gêneros: é a estufa que molda o comportamento, e, como veremos, essa estufa está operando em pleno funcionamento. Além disso, há uma regra prática: se a pessoa realmente não tem clareza sobre o que deseja ou o motivo de suas reclamações — o que é bastante comum —, é válido guiá-la, seguindo o exemplo do debate socrático, até que ela consiga reconhecer seu próprio problema. Agora, se ela busca especificamente um desabafo que não leve a lugar nenhum, com uma plateia profissional, então a minha orientação técnica é que ela deve ignorá-los e economizar seu tempo à tarde.

Também se inclui nesse contexto a fé na comunicação não verbal. Você já percebeu que a incapacidade de entender o que está implícito é vista como uma deficiência, uma lacuna, quando, na realidade, a comunicação subentendida é a causa de muitos mal-entendidos, discussões e dos famosos "teléfonos sem fio" da vida adulta? A deficiência, o obstáculo, é ela. Comunicação não verbal: para alguém como eu, que vive com autismo, decifrar essas mensagens do emissor da forma que eles esperam é quase impossível — por isso, detesto esse tipo de comunicação. O que é ainda mais preocupante é que a pessoa ao seu lado pode estar enfrentando essa dificuldade sem que você tenha consciência disso, e, como resultado, ela pode não compreender nada ou interpretar tudo de maneira equivocada. Minha filosofia, portanto: evite fazer. Só use o gesto se a mensagem for daquelas que não deixam margem para dúvidas — imagina um tipo de trinta e cinco anos, no seu ambiente de trabalho, aparecendo com uma jaqueta rosa, acolchoada, cheia daquelas bolinhas de pelo que fariam o Pateta parecer discreto; você olha, solta uma risadinha, fita o amigo, volta a olhar para a jaqueta e depois para os olhos do amigo de novo. Pronto: verdadeira comunicação não verbal, uma vez que o ridículo é amplamente reconhecido e o riso se torna inevitável. Exceto em situações de calamidade estética, converse. Coloque em palavras. Evite criar enigmas confusos que a outra pessoa nunca conseguirá resolver. Perceba a ironia clínica: muitos psiquiatras e psicólogos preguiçosos observam alguém se perder nessas nuances subjetivas e imediatamente rotulam — ah, é autista. Não, doutor: a falta de compreensão de sinalizações ambíguas é algo inerente à natureza humana; um critério mais adequado seria, por exemplo, a incapacidade total de lidar com a linguagem simbólica em sua essência — é aí que realmente podemos discutir. Está a fim de um teste divertido? A afirmação: um dia, você ainda vai silenciar todos aqueles que depositaram sua confiança em você. O inocente leva um tempo, sorri, pensa que é um elogio. De maneira alguma. Leia novamente: eles confiaram. É um golpe suave, quase imperceptível, seguido por uma armadilha gramatical — e o autista presente, incluindo-me, é o último a perceber o estalo. Outro exemplo, da vida real: um editor de vídeo que trabalhava comigo enviou uma mensagem de apoio que, traduzida do gentilês para o português, dizia exatamente isto: sei que você está passando por um momento difícil, mas somos amigos — qualquer coisa que você precisar, desde que eu esteja a fim de fazer, ou se quiser conversar sobre qualquer assunto que eu queira falar a respeito, pode contar comigo. É a modernidade em toda a sua plenitude: solidariedade acompanhada de termos convenientes, amizade em detalhes ocultos. Eram questões que qualquer pessoa com um pouco de conhecimento financeiro conseguiria resolver em três passos, mas ele não estava interessado em soluções; queria apenas se queixar com alguém ao seu lado.

Há também outra regra não escrita: se você enfrenta um problema, perguntar a alguém deve ser sua última opção. Primeiro você observa as sinalizações; em seguida, faz uma pesquisa no Google; depois, verifica o manual, caso exista; depois, conversa com uma inteligência artificial; e só então, quando já esgotou todas as opções disponíveis, recorre a uma pessoa.

Afirma isso porque, nos últimos tempos, as pessoas chegaram a um curioso paradoxo: são tão independentes entre si que esqueceram como ter um pensamento próprio. Meus amigos frequentemente me apresentam questões que são tão evidentes que chega a ser constrangedor — eu quase sinto vontade de dizer: meu irmão, se você compartilhasse esse problema com o ChatGPT, em apenas dois minutos ele te forneceria a mesma resposta que eu vou te dar agora. Um exemplo recente: um amigo que está endividado, com um salário de três mil por mês, devendo entre cinco e sete mil — o valor exato varia na lembrança, mas as lamúrias persistem. Eu comentei: meu amigo, considere pegar um empréstimo de dez mil; as parcelas ficarão em torno de setecentos por mês; como você ainda mora com seus pais, poderá quitar a dívida rapidamente e pagar o empréstimo aos poucos. Assim, em doze meses, estará livre de dívidas e ainda terá um dinheiro extra para gastar — ou, melhor ainda, para economizar e evitar problemas financeiros no futuro. Pronto: problema resolvido, simples assim. Ele ficou com os olhos bem abertos, como se tivesse testemunhado um milagre: uau, mas eu nunca fiz um empréstimo. Qualquer caixa de banco ou robô online daria a mesma conta. Mas ele não desejava a conta — ele queria o coro. Ele queria que eu confirmasse, de preferência com uma vela acesa, que a vida dele estava uma porcaria. Há um corolário obscuro dentro dessa categoria: quanto menos inteligente a pessoa, mais ela acredita que você se expressa por meio de subtendidos. Você vem para resolver uma questão específica, de forma direta, e ela começa a investigar a frase em busca de um veneno oculto — pois não consegue interpretar nem o que é literal nem o que é simbólico da maneira adequada. Ela não aceita a simples possibilidade de que alguém tenha se expressado incorretamente por engano, algo bastante comum na vida; em vez disso, ela prefere acumular interpretações até chegar à conclusão de que você é um verdadeiro demônio. Aquele que interpreta o mundo dessa maneira acaba habitando um universo de demônios — criado sob medida, dentro da própria mente.

Eu desembolsei uma fortuna para garantir minha matrícula neste verdadeiro tormento do outro mundo: minha terceira namorada. Tudo nela parecia ter um truque, uma intenção oculta, um aspecto negativo. Ela interpretava o mundo como um símbolo maligno — uma neurose, afinal — na qual todos estavam interessados em ludibriá-la, e eu, como seu namorado, estava no topo dessa lista: eu a trairia, ou estaria ao seu lado apenas para ascender na hierarquia da empresa onde trabalhávamos juntos, ou ainda arquitetava alguma trama desconhecida. Estávamos em um relacionamento, eu a amava, e era isso que se passava na central elétrica dentro dela. Uma amiga em comum — que ainda é minha amiga até hoje — chegou a desafiá-la: o Gabriel te ama; ele é o cara mais tranquilo que eu conheço, e também o mais direto, porque tudo o que ele deseja expressar, ele diz claramente, sem rodeios e no momento certo; se você continuar a ter esses pensamentos negativos, em breve ele poderá descobrir e decidir terminar o relacionamento com você. Profecia com precisão de relojoeiro suíço. Ela respondeu à sua amiga, que acreditava que eu a estava traindo, dizendo que o relacionamento era apenas um passo na minha carreira e que eu estava conspirando contra ela. Soube numa sexta-feira. Não esperei pela segunda oportunidade: enviei um áudio pelo WhatsApp dizendo que não desejo mais nada com você; eu te conheço há seis anos, desde a adolescência, eu te amo, e você tem a audácia de pensar essas coisas de mim? Até logo. Namoro terminado, sem uma despedida formal. Em seguida, ocorreu o segundo ato, tão previsível quanto uma fatura: a campanha de calúnia, o ato de falar mal de mim para Deus e para todos, e a tentativa de me prejudicar na maior medida possível junto a tantas pessoas quanto possível. Daí eu tirei, às minhas custas, uma lei empírica — com a validade estatística da minha própria pele e a hipérbole que a dor permite: quanto mais mimada a beleza, mais incendiário o orgulho; e orgulho incendiário, contrariado, transforma-se em incêndio doloso contra a sua reputação. Já assisti a esse filme várias vezes: a pessoa bela e arrogante, típica daqueles que desprezam as garotas ao seu redor como se fosse um esporte, é rejeitada — e então sai fulminando o rejeitante na praça. Tendência, digo pela milésima vez, não essência; estufa, não cromossomo. O adorável e mimado filhinho da casa segue as mesmas leis da física, como iremos demonstrar em breve.

Antes, porém, é importante mencionar o termo filosófico que se refere a essa perspectiva que identifica maldade em tudo: trata-se de uma visão de mundo gnóstica. Aquele que enxerga cada indivíduo à sua volta como uma ameaça em potencial — com uma probabilidade sempre maior de ser maligno, desprezível e nocivo do que de ser apenas alguém com uma visão distorcida do mundo, ou até mesmo uma pessoa extraordinariamente agradável, que você poderia vir a amar — essa pessoa converteu a desconfiança em uma metafísica. É aqui que entra a minha observação de campo que menos agrada: todo esquerdista que conheci na vida — todos, sem exceção, sempre foram assim e continuam a ser até hoje — age dessa maneira. Das dez interpretações possíveis de sua frase, ele escolhe, com a precisão de um relógio suíço, a mais negativa, desprezível e maligna que existe. Não que você tivesse a intenção de dizer aquilo; isso nunca foi sua vontade. No pensamento dele, essa é a perspectiva, pois ele te vê como um mal em potencial — e quem vê o próximo dessa forma já se aderiu, de maneira inconsciente, à gnose de botequim: o mundo como uma criação defeituosa, habitada por inimigos. A política é apenas a vestimenta; a equipe é de natureza metafísica.

Eu testemunhei em tempo real a criação desse temor através da interpretação negativa do outro em um ambiente escolar. Um grupo de meninos acompanhava-me, todos eles extremamente envergonhados na presença das meninas — e com motivo, é importante ressaltar, um motivo baseado na experiência. Pois, naquela época, quando um garoto de beleza, por assim dizer, singular — vocês captaram a ironia — tomava coragem e questionava uma menina se ela desejava namorar, a resposta comum não era um não cortês: era uma condenação pública. A garota considerava a questão como uma ofensa colossal à sua honra — a ousadia dele de gostar dela! — e quase chegava a lhe cuspir no rosto, diante do público que ria em uníssono. Os pobres coitados que me acompanhavam testemunhavam isso e, assim, perdiam a coragem para sempre; alguns nunca chegaram a fazer uma tentativa sequer, ficando traumatizados indiretamente. Tenho um amigo, que é meu colega desde o quinto ano da escolinha, e ele fez uma única tentativa na vida: a menina o fez sentir-se pior que lixo — ainda pior que as larvas que se encontram no lixo —, de uma forma tão repulsiva que, mesmo cinco anos após aquele ocorrido, as meninas ainda olhavam para o rosto dele e riam. Ele nunca mais se aproximou de nenhuma menina; o medo passou a ser uma presença constante em sua casa. E anoto o que meus olhos viram: naquela escola, pelo menos, nunca testemunhei um menino fazer com uma menina, em plena praça, o equivalente ao que elas faziam com eles em fila. Eu, de forma pessoal, passei por essa selva utilizando um caminho alternativo — e é aqui que o leitor deve ajustar seu julgamento com cautela, pois estamos lidando com crianças, e uma criança não pode ser usada como padrão para o mundo dos adultos. A criança existe em um estado quase primal: é dopamina e corpo antes de qualquer raciocínio, é impulso e uma hierarquia imediata antes de qualquer reflexão — e não faço isso para ofender nenhuma criança; faço porque é uma descrição sincera do ser. Então está certo: eu era aquela criança que sempre devolvia. Se alguém — independentemente de ser menino ou menina, pois isso não importava no universo infantil — me humilhasse em público de uma forma tão intensa, eu revidava na mesma moeda e imediatamente, pois não aceitava ser rebaixado àquele nível. Quando éramos crianças, eu ainda era uma criança e ela também: isso era compreensível em ambas as situações, tanto para ela quanto para mim — é o que se considera normal no universo infantil, onde o garoto mais impulsivo revida uma tolice com um soco e ninguém se dá ao trabalho de escrever um editorial a respeito disso. Que ninguém considere aquilo um exemplo para a sociedade em que vivemos: não é, não deveria ser, e agora, como adulto, quem ofender a minha honra receberá um aviso formal de processo judicial, e não um tapa. A comparação nos proporciona uma valiosa lição sociológica: os outros garotos, moldados pela doutrinação da passividade — não reaja, não responda, suporte —, internalizaram o medo; e esse medo, uma vez estabelecido após uma única humilhação pública realmente repulsiva, pode dominar por décadas. O menininho mais magro, mais nerd, e com menos desenvolvimento físico, era quem mais padecia — e eu percebia, e nunca me esquecerei.

Aqui está a tese da estufa, que foi prometida anteriormente. Pessoas excessivamente mimadas — seja qual for a época ou a cultura — apresentam sempre os mesmos sinais: egos inflacionados, incapacidade de se responsabilizar por algo e um reflexo imediato de desviar a culpa para outra pessoa. Paparico é a manufatura; o restante é um modelo de saída. A nossa era criou estufas industriais. Consideremos a mulher contemporânea — e o leitor já está familiarizado com o procedimento habitual deste estabelecimento: o que é produzido por meio das tendências, e não o que é inerente à natureza; o que se aplica a ela, aplica-se a qualquer indivíduo mimado, independentemente do sexo. A jovem que foi criada durante toda a sua infância como a adorada princesinha do pai e da mãe entra na fase adulta e se depara com o próprio Estado pronto para dar continuidade a esse tratamento: segundo as contas que já realizei — e convido o leitor a repeti-las —, são mais de oitenta os dispositivos legais que a beneficiam de forma específica; seria incoerente e até desonesto da minha parte afirmar que não há aí um privilégio jurídico e social evidente em comparação ao homem. Ela se transforma, na sua essência, quase como uma divindade do direito, uma entidade jurídica. O carinho institucional gera o mesmo resultado que todo tipo de carinho gera. Eu me refiro a esse quadro como a síndrome da deusa — e não síndrome de Deus; da deusa —, pois a dinâmica é reminiscentes das antigas religiões dedicadas a sacerdotisas: a sociedade, ao venerar na mulher o meio através do qual o sagrado se manifesta, a portadora da primogenitura e da capacidade de gerar vida, a eleva a uma posição na qual ela não comete erros, não pode ser ofendida e não pode ser contrariada — e aqueles que se atreverem a fazê-lo enfrentam consequências severas. Nos tempos antigos, insultar uma sacerdotisa resultava em uma maldição e em uma palavra dela direcionada ao governo romano, o que frequentemente tinha um fim letal; atualmente, tal ofensa resulta em um assassinato de reputação, realizado pela população com o mesmo cuidado e devoção que se observa em rituais litúrgicos. Observei a síndrome agir em sua plenitude em um caso que ficou gravado em minha memória, daqueles amplamente cobertos pela mídia: o garoto que foi assassinado pelo padrasto. A mãe não ajudava o garoto enquanto ele levava as surras, não contava nada a ninguém e, após o terrível acontecimento, fez o possível para esconder o crime, afirmando para todos que nada estava acontecendo — pois, em sua cabecinha de conto de fadas, o que atrapalhava a história de amor era o filho, que, ironicamente, era a verdadeira vítima de toda a violência; a culpa, como sempre nesse enredo, recaía em qualquer outro lugar, exceto no homem que era admirado na situação. O desfecho judicial consolidou a argumentação: o padrasto foi encarcerado, enquanto ela foi liberada, sem receber uma pena que fosse digna de tal nome, e agora está livre para viver sua vida — o cuidado excessivo chegou ao tribunal e ocupou a cadeira da decisão. Você percebeu quão ridículo isso é? Agora, por favor, preencha o quadro, pois a estufa não possui um sexo definido: o filhinho querido da casa — e não venha me dizer que não há filho favorito; sempre existe um, é da natureza humana escolher um, geralmente o mais belo, o entre aspas mais virtuoso, ou o caçula — recebe o mesmo tratamento de adoração e amadurece dentro do mesmo padrão, tornando-se, na velhice, exatamente aquele tipo odioso que iniciou este ensaio. É uma constante; sempre ocorre. A estufa não questiona o gênero da muda: ela questiona quanto fertilizante de devoção você derramou sobre ela — e, décadas depois, restituí com juros, o jumento coroado correspondente.

Diante de toda essa confusão, surge a questão prática: é realmente proveitoso discutir com o jumento? É preciso ter a mente calculista de um engenheiro para responder a isso. O único caso em que um ganho real é possível é quando a pessoa em questão possui um papel ou uma posição de destaque — seja um palco, um cargo ou uma audiência — o suficiente para que uma derrota pública se torne um impacto pedagógico em seu ego. Nesse contexto, humilhá-lo de forma argumentativa na frente de todos pode resultar no único abalo capaz de obrigá-lo a se transformar, pois esse tipo de indivíduo, como observamos desde a primeira página, só aprende quando enfrenta uma queda estrondosa. Fora disso, não vale a pena. De fato, não vale a pena. Meu professor Olavo de Carvalho costumava nos avisar durante as aulas do COF, em essência: discuta apenas com aqueles que realmente têm relevância; não perca tempo tentando argumentar com o Jeca da fazenda ou com o bêbado do bar — eles estão desfrutando de suas cervejas, e quando você chega com sua dialética, o que você pode obter, mesmo ao vencer a discussão, é apenas um soco na boca. Debater com as pessoas que realmente merecem, ele costumava dizer, e a fórmula completa permanece a mesma de sempre: ter consciência de quem, quando, onde, como e por qual motivo se está lutando — é isso que transforma um debate em algo frutífero; na ausência dessas informações, é apenas uma batalha contra o vento. É por essa razão que eu não perco tempo com silogismos em discussões com parentes teimosos. Ai, Gabriel, porém minha mãe é esquerdista. Meu irmão: que se danem. Décadas de convicção, alimentadas com mimos, novelas e repetições, não desmoronam em um almoço de domingo — a senhora que passou toda a sua vida sendo tratada como a rainha do lar, com o ego cuidadosamente nutrido pela estufa que mencionei, não irá abdicar de seu trono apenas porque o filho leu trezentos livros; acrescente a isso a calcificação natural que vem com a idade, que já observamos multiplicar a prepotência, e você perceberá que aquele diálogo não é um debate: é um autoflagelo com uma sobremesa. Reserve sua munição para os alvos que realmente fazem barulho.

Além disso, para economizar ainda mais a sua pólvora, apresento três testes rápidos de identificação que você pode fazer em casa e que oferecem resultados imediatos. Teste número um: afirme que você prefere pizza a macarrão; se a pessoa responder com uma pergunta, como "então você odeia macarrão?", ela já está identificada. Experimento número dois: afirme que a altura média dos europeus supera a dos asiáticos; se alguém protestar, dizendo que conhece um japonês que quase chega a dois metros, já está claro. Teste número três: pergunte se, ao gastar mais do que ganha, a pessoa não acabará endividada; se a resposta for afirmativa, siga com "então você está falando que pobre não pode comprar nada?", e se for sim, finalize a sessão, pois está claramente identificada. Observe a estrutura típica das três respostas: a incapacidade de lidar com uma afirmação em sua forma original — comparações se transformam em ódios, médias tornam-se indivíduos, e condicionais convertem-se em decretos de classe. Como mencionei anteriormente, essa característica torna-se evidente de forma didática em indivíduos mais velhos, devido à sua rigidez; ela também se manifesta, com uma frequência que minha experiência tem observado, nos contextos ideológicos onde a leitura distorcida se tornou um método — especialmente na esquerda moderna; no entanto, a estrutura do erro é única e não exige comprovação.

Um parente próximo desses três é o sinal máximo: identificar exemplo com argumento. Você traz uma argumentação, junta um exemplo para dar lastro, para a pessoa imaginar — e ela vai discutir o exemplo. Ilustração: ter uma reserva financeira de emergência é fundamental; no mês passado, meu carro quebrou e, graças a essa reserva, consegui consertá-lo sem contrair dívidas. Resposta do ser: ah, mas meu automóvel não apresenta problemas, é de uma boa marca, eu realizo as manutenções e cuido dele com atenção; isso não ocorre comigo; a propósito, o seu deve ter estragado por ser um Peugeot. Pronto: ela discutiu sobre o carro. O tipo de exemplo não é relevante — poderia ser uma crise de saúde, um cano rompido, qualquer situação; o exemplo serve como suporte, e o jumento morde esse suporte acreditando que derrubou o edifício. Este vício é comum nos círculos mais gnósticos que mencionei, especialmente aqueles que têm uma tendência à esquerda, onde prevalece o que eu chamo — e quando me refiro a isso, sempre em seu grau mais intenso — de apofatismo extremo: a habilidade de se definir unicamente por meio da negação, de existir intelectualmente apenas na oposição. Estatisticamente, ao longo de toda a minha vida, chega-se à conclusão de que, em noventa por cento dos casos — na verdade, noventa e nove por cento — a pessoa em questão, especialmente se for um militante, tende a criticar seu próprio exemplo e não apresenta nenhum resultado, solução ou proposta. Ele não deseja abrir mão do debate; por isso, criou uma concepção de realidade na qual nunca existe um argumento a ser perdido, apenas ilustrações a serem analisadas minuciosamente.

Existe também o representante corporativo da espécie, o burro mais complicado de se lidar no ambiente profissional: aquele que não se deixa influenciar pela pergunta hipotética. Você realiza o mais simples dos exercícios de imaginação: como você se sentiria se não tivesse almoçado hoje? E ele responde: mas eu almocei. Como seria o seu dia se tivesse despertado no horário certo? O fato é que acabei me atrasando. Como seria a sua vida se todas as suas contas estivessem pagas? Uma das minhas características é a preguiça de realizar essa tarefa. Uma pausa para a justiça na classificação: preguiça não é sinônimo de burrice — pertencem a reinos diferentes, que às vezes são vizinhos, mas nunca são o mesmo. Eu sei por que moro em um deles: quando um superior meu chega todo engraçado e me solta uma daquelas perguntas hipotéticas de almanaque, eu dou risada da cara dele na hora, com um comentário de humor ajustado para que todo o grupo ria — e eles riem, e ele não percebe que o riso é dirigido a ele, e às vezes eu acabo me comprometendo um pouco no processo, mas a zoação compensa. Por que não dou explicações? Preguiça, absolutamente evidente: elaborar toda a teoria, transformar a situação em algo didático, desperdiçar minutos valiosos da vida — não desejo fazer isso. A minha resposta íntima habitual, poupada por uma certa preguiça pedagógica, seria um enfático 'vá se danar'; o que realmente digo em voz alta é apenas a versão mais diplomática dessa resposta, apresentada com um tom que remete a uma piada.

Fica então o andar de cima do prédio: o que esses milhões de erros cognitivos, perpetuados por anos a fio sob o manto de visões de mundo, geram ao longo do tempo. Causam transtornos mentais com nome e sobrenome — as distorções cognitivas, que são modos errôneos de pensar que geram emoções negativas e comportamentos danosos, levando a pessoa a acreditar em coisas que não correspondem à realidade. O catálogo clínico reflete tudo o que discutimos até agora, e por isso o exploro com prazer. Existe um tipo de pensamento que é bem polarizado, dicotômico, que só enxerga o tudo ou nada: você realiza um trabalho acadêmico, não consegue a nota máxima, e chega à conclusão de que todo o esforço foi em vão, que não teve valor algum. Existe uma supergeneralização: a partir de uma única experiência negativa, ou de um número muito reduzido de casos, conclui-se que isso se aplica de forma ampla e definitiva — se não foi contratado para uma vaga, então nunca será contratado por nenhuma empresa, e, portanto, as coisas sempre irão dar errado para você. Existe uma filtragem: a totalidade da atenção fixada exclusivamente no aspecto negativo de um acontecimento, desconsiderando de forma imediata todo o restante, como se alguém tirasse uma foto apenas da mancha na parede e afirmasse com convicção que a casa inteira é representada apenas por essa mancha. Há também as conclusões apressadas: crer em uma conclusão que se baseia em poucos ou nenhum indício, assumindo o papel de adivinho sobre eventos futuros e leitor das mentes alheias — a firme convicção de que determinada pessoa não gosta de você, mesmo sem que ela tenha feito ou dito algo contra você; a certeza de que irá reprovar em uma prova, encarada como um fato inquestionável antes mesmo da prova ser aplicada. Existe o raciocínio emocional, possivelmente o mais enganoso: ver a realidade através das emoções do instante — senti, portanto é verdade; estou triste, logo deve ser porque meu relacionamento não está funcionando, mesmo que não seja o caso. Existe a questão da personalização: a responsabilidade excessiva que se impõe a si mesmo por tudo de negativo que acontece ao redor — o indivíduo divorciado que acredita piamente que o fim do casamento se deve unicamente a ele, como se a outra parte não tivesse contribuído de forma significativa para a situação. A necessidade de sempre ter razão: pessoas que enfrentam qualquer repercussão para demonstrar que não cometem erros, para quem a qualidade das relações e os sentimentos dos outros se tornam detalhes insignificantes em comparação com o prêmio de provar sua posição, independentemente do custo envolvido — volte à definição do nosso asno da primeira página e aprecie a semelhança. Existem também os chamados "deveria": avaliar os acontecimentos com base no que deveriam ter sido, em vez do que realmente foram — planejou estudar a tarde inteira, procrastinou, e agora passa a noite se castigando no condicional, gerando uma série de pensamentos negativos.


Eu, que me tornei quem sou através de experiências intensas e do uso de planilhas, desenvolvi, por necessidade, o costume de avaliar a lógica de qualquer tipo de relação — e, em especial, da amorosa — antes de me comprometer de fato: antes de entrelaçar minha vida à de outra pessoa, certifico-me de que ela é capaz de raciocinar de forma lógica sobre uma situação, e não apenas analisá-la de um jeito problematizador, pois muitas dessas distorções emergem exatamente daí, da falta de um treinamento lógico que a vida e os estudos proporcionam. E para aqueles que se identificaram com o que foi mencionado — reconhecer-se já é um grande passo —, as orientações gerais são as seguintes: se você teve uma contribuição negativa, assuma sua parte, mas lembre-se de que raramente é o único responsável — outras pessoas geralmente têm um papel significativo; ao invés de depender da mudança dos outros para ser feliz ou afirmar que não tem controle sobre sua felicidade, assuma a responsabilidade por ela e elenque o que pode fazer para melhorar o que não gosta; e se as metas não estão sendo alcançadas, estabeleça objetivos realistas — estudar a tarde inteira pode ser complicado, e dedicar poucas horas ao estudo, aumentando gradualmente, é mais eficaz do que se lamentar pelo plano ambicioso que não foi colocado em prática. Em meio a tudo isso, a principal orientação é revestida de uma humildade bastante apreciável: busque um psicólogo qualificado em sua área. Essa é a ironia final da cognição humana, e ela conclui o ensaio com a lição que merece ser destacada: as distorções cognitivas que enfrentamos podem nos cegar para o fato de que estamos, de fato, distorcendo nossa percepção — o olho não se reconhece, o trono não levanta suspeitas. No final das contas, a ignorância não é resultado da falta de informação; é, sim, um excesso de ego. O jumento coroado não se precipita ao chão por causa de alguém que o derrube: ele desmorona porque, mais cedo ou mais tarde, foge da onça. E a onça — calma, precisa, e tão implacável quanto a realidade — nunca deixou de vencer uma dessas corridas.

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