O Prazer da Batalha: Como o Conflito, Gentilmente, nos Faz Maiores
Um ensaio filosófico e combativo sobre força, liberdade, conflito, crítica ao niilismo punk e a defesa da esperança como o amor que é como a última barreira contra o nada.
Gabriel G. Oliveira
4/12/202642 min ler
Seja o Demônio dos Seus Inimigos e o Juiz Rigoroso de Si Mesmo
Sim, vou falar de um anime, uma animação daquelas que os adultos costumam fingir que não assistem para manter a aparência de intelectualidade. Hunter x Hunter. Ou Hunter vs Hunter, como era dito antigamente, antes da internet se transformar em um tribunal moral e fanboy, uma condição psiquiátrica. Continuo chamando de Hunter vs Hunter, e quem não gostar que procure terapia. Togashi nunca escreveu para satisfazer crianças mimadas ou adultos imaturos; sua obra é voltada para quem entende símbolos, ambiguidade e conflito. E talvez seja por isso que Hisoka é um dos personagens mais mal interpretados da história dos animes: por não se enquadrar na moral convencional nem na ética progressista.
Embora se vista como palhaço, Hisoka é mais racional do que muitos professores universitários que citam Foucault sem entender uma única linha. Ele não é ético no sentido cristão, nem humanista, nem civilizado no sentido moderno, e é justamente isso que o torna intrigante. Hisoka é dionisíaco até a essência, mas emprega instrumentos apolíneos. Ele pondera, examina, observa e espera. Ele não briga por justiça, não protege o bem e não se empenha para salvar ninguém. Ele luta pelo prazer de se aperfeiçoar, enfrentando-se contra algo que transcende sua própria essência. Nietzsche chamaria isso de vontade de potência; os moralistas, de perversão; eu, de honestidade brutal.
Nesse mundo, o Nen vai além de uma habilidade mágica usada para vender bonecos. Trata-se de um começo. Trata-se de disciplina. É metafísica disfarçada de shōnen. Refere-se à ideia clássica de um plano invisível que só pode ser atingido por meio de esforço, sofrimento, renúncia e treinamento, algo que se assemelha mais às tradições esotéricas do que às religiões populares atuais, que proporcionam salvação em suaves parcelas emocionais. O Nen exige sacrifício. Envolve perigo. Significa abrir mão de ilusões. Mircea Eliade afirmava que toda iniciação autêntica envolve uma morte simbólica e um subsequente renascimento.
Compare isso com Gon, Killua, Leorio e Kurapika. Gon só luta quando é necessário, não quando lhe dá vontade. Killua começa a matar com prazer, mas abandona essa prática por causa da amizade e da culpa. Kurapika busca vingança, não poder. Leorio luta pela sua sobrevivência social. Todos têm motivos externos. Não, Hisoka. Ele luta somente por lutar. Porque quer descobrir até onde é capaz de ir. Ele é competidor, não vilão; desafio, não inimigo; espelho, não opositor. Como Jung descreveu, ele simboliza a sombra que o herói precisa confrontar para escapar da mediocridade.
Agora, salta para o Clube da Luta, já que o símbolo permanece o mesmo; somente a estética se altera. Tyler Durden é uma representação de Hisoka sem a maquiagem de palhaço, apresentando uma perspectiva mais crítica em relação à sociedade. Tyler personifica a persona da potência contida. Refere-se ao homem que emerge quando a sociedade reprime, submete, humilha e trata como criança. O narrador é fraco não por sua natureza, mas por uma construção social. Ele é fruto de uma sociedade que trocou iniciação por meditação guiada, sofrimento por autoajuda e masculinidade por culpa. Tyler simboliza o retorno agressivo do que foi repudiado.
E aqui está o ponto que incomoda religiosos, ateus militantes e moralistas de sofá: o Clube da Luta é profundamente espiritual no sentido simbólico. O livro é ainda mais claro do que o filme. Há morte, julgamento e transcendência. Deus se revela não como o Deus afetuoso das redes sociais, mas como o Deus temível, que julga, que abandona e que não promete conforto. Como Tyler diz: "Considere a possibilidade de que Deus não gosta de você." Isso não é ateísmo; é uma teologia rigorosa. É mais parecido com Jó do que com qualquer culto atual.
"Nossos pais eram nossos exemplos de Deus", declara Tyler. E quando esses pais falham, Deus também falha. Chesterton dizia que, quando as pessoas perdem a fé em Deus, elas não passam a acreditar em nada, mas em qualquer coisa. Até mesmo em crenças, identidades e terapias milagrosas. Tyler não cria apenas um clube; ele forma um culto. E toda prática de culto decorre da falta de uma iniciação legítima.
A fábula do leão sintetiza tudo isso melhor do que mil palestras motivacionais. Um leão é levado para o zoológico. Há alimento, há refúgio, há leoas. No entanto, perde a dignidade. Cai o pelo, perde o brilho, transforma-se em uma sombra do que já foi. Um dia, ele se dá conta de que isso o está arruinando. Há duas opções. Primeira: atacar o cuidador, símbolo da ordem que o mantém prisioneiro. Resultado? Óbito. A sociedade não acolhe aqueles que confrontam o sistema de forma direta em busca de uma liberdade absoluta. Alternativa dois: enfrentar o leão dominante do sistema. Não para destruir tudo, mas para assumir o papel de poder. Ele luta, vence e assume uma posição. Não é uma questão de liberdade absoluta, mas de uma capacidade concreta.
Esta fábula não trata da violência de maneira literal. Trata de assuntos como disciplina, hierarquia, estratégia e realidade. Aqueles que buscam total liberdade na sociedade acabam sendo oprimidos. Quem aceita o jogo, aprende as regras e supera seus semelhantes, ganha espaço, influência e responsabilidade. Aristóteles chamaria isso de prudência. Nietzsche chamaria isso de transvaloração. A Bíblia chamaria isso de sabedoria serpentina. Só pessoas desinformadas chamam de opressão.
O erro atual é querer ser o leão solto que ataca o tratador e, depois, reclamar quando leva a injeção. O caminho viável é transformar-se em um leão forte, ético e disciplinado. Um Hisoka com princípios morais. Um Tyler Durden com restrições éticas. Um Chesterton munido de punhos intelectuais. Chesterton não destruía pessoas; desafiava ideias. E achava isso agradável. Basta examinar suas conversas com H. G. Wells para ver o sorriso escondido na tristeza.
A luta é fundamental. O prazer pela luta é intrínseco. O homem que não aprecia a luta foi castrado precocemente em aspectos físicos, morais ou espirituais. Contudo, a luta precisa de um alvo específico. Não contra o cuidador. Contra leões da mesma espécie. Em oposição a pensamentos negativos. Contra argumentos pouco persuasivos. Contra a própria irrelevância.
Em resumo, a lição é clara e rigorosa: não existe vida plena sem conflito, não existe potência sem sacrifício e não existe santidade sem batalha. O mundo não precisa de homens subservientes nem de criaturas imorais. Requer homens fortes, disciplinados, perigosos e éticos. Se não absorver isso de Hisoka, fará com Tyler. Se não aprender com Tyler, a vida lhe dará uma lição. E a vida não oferece justificativas duas vezes.
Em Lord Jim, Joseph Conrad escreveu: “Não é preciso descer ao inferno para encontrar monstros; eles estão dentro de nós.” A diferença entre um homem digno e um inútil é evidente: um domina seus monstros; o outro os ignora.
E aqueles que fingem demais acabam sendo devorados por eles.
Ser o demônio dos seus adversários e o juiz mais severo de si mesmo não é um convite à selvageria barata ou ao delírio juvenil de “vingança”, mas uma tática antiga, quase clássica, para sobreviver em um mundo que não aprecia os inocentes úteis. Fui ensinado desde cedo a frase, como essas verdades que não estão em versículos bíblicos ou cartazes motivacionais, mas em palavras diretas de quem já passou por dificuldades e aprendeu a responder com estratégia. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles sustenta que a virtude não é uma mansidão absoluta, mas uma justeza: tratar as pessoas certas de maneira adequada, na medida certa e pelos motivos certos. Ser misericordioso com quem não merece não é virtude; é tolice moral. E, como dizia Chesterton, a estupidez não é falta de inteligência, mas uso inadequado dela.
Há uma confusão deliberada, amplamente alimentada por um moralismo cristão mal interpretado e por pedagogias contemporâneas repletas de boas intenções e resultados desastrosos, entre um verdadeiro inimigo e um simples desafeto. Nem todo mundo que te odeia é teu inimigo; às vezes é só um idiota ferido. O verdadeiro inimigo é outro: é quem age deliberadamente para te arruinar, sabotar, roubar (seja simbolicamente ou materialmente), tomar o teu lugar, manchar o teu nome e devorar a tua reputação como um parasita. Em relação a esse tipo de pessoa, a passividade não é considerada uma virtude cristã, mas conivência com o mal. Na Suma Teológica, São Tomás de Aquino sustentava que é pecado permitir o mal quando se tem a capacidade de impedi-lo, mesmo que os moderninhos torçam o nariz.
Ser o "demônio" do seu oponente não significa vender a alma, mas usar a luz contra aqueles que só entendem a linguagem da exposição. Significa não proteger o canalha de seu próprio veneno. Isso significa usar provas, memória, registros, palavras e instituições, como tribunais, quando necessário, para impedir que o mal vença. Isso não é Maquiavel. O parque Maquiavel ensina a se tornar a pessoa má que você quer combater. Platão, em A República, é ainda mais rigoroso: a injustiça só prevalece quando os justos se negam a agir como adultos.
Agora, o tratamento é diferente para os bons. Com pessoas sinceras, seja sincero. Com quem age de boa-fé, aja com boa-fé. Não há valor em atacar quem não te ofende. Isso não é força, é covardia disfarçada de agressividade. Um homem verdadeiramente forte sabe diferenciar conflito de crueldade. Nietzsche, muitas vezes mencionado sem entendimento, desprezava o ressentido por confundir justiça com vingança e por rotular sua fraqueza como moralidade. O forte não precisa eliminar quem não é uma ameaça; ele economiza energia para a batalha que realmente vale a pena.
E aqui surge o elemento mais desafiador e raro da equação: ser o juiz mais rigoroso de si mesmo. A maioria das pessoas é rígida com os outros, mas indulgente consigo mesma. Isso exemplifica perfeitamente a decadência moral. Platão narra que Sócrates dizia que uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida. E exame não é autoajuda, não é terapia de espelho, não é conversa vazia sobre "se acolher". Exame é sinônimo de avaliação. É se perguntar se você não está fazendo com os outros exatamente o que abomina. É reconhecer suas próprias falhas antes que o mundo o faça, e o mundo não é nada gentil.
Nesse sentido, a religião institucional com frequência falhou ao transformar culpa em espetáculo e perdão em algo sem valor. Como consequência, surgiu uma multitude de hipócritas que aparentavam ser suaves, mas eram cruéis por dentro. Chesterton dizia que o dilema do mundo atual não está na falta de crença das pessoas, mas na sua disposição de acreditar em qualquer coisa, inclusive em sua própria santidade inventada. O juiz interno foi aposentado, permitindo que a autoestima inflada e o vitimismo profissional tomassem conta.
Para ser o demônio dos seus adversários, é preciso possuir autocontrole, inteligência estratégica e senso moral; para ser juiz de si mesmo, é necessário cultivar uma humildade rigorosa. Um sem o outro se transforma em uma anomalia. Apenas agredir o exterior e preservar o interior é tirania. Apenas se punir e absolver os demais é um suicídio moral. A vida adulta exige um equilíbrio entre espada e espelho. Ou, como Camus diz, “o homem revoltado é aquele que diz não mas também diz sim a algo maior do que ele”.
Em suma, essa não é uma estratégia para vencer debates, mas para preservar a dignidade. Aquele que se recusa a enfrentar o mal quando ele aparece aprende, eventualmente, que o mal não é sutil. E aqueles que se recusam a se autoavaliar acabam sendo julgados pelo mundo sem direito a defesa, apelação ou compaixão.
Um Grito Não por Rebeldia, mas por Liberdade Verdadeira
A liberdade à qual me refiro não é essa angústia de adolescente tardio que a confunde com a irresponsabilidade de agir sem assumir as consequências. Não é uma questão de rebeldia estética, cabelo tingido, lema de manifestação ou dessa pornografia moral vendida por liberais de boutique e revolucionários do Twitter. A verdadeira liberdade é uma ideia mais antiga, inflexível e desconfortável. Ela começa internamente e termina na realidade, nunca ao contrário. Ludwig von Mises, muitas vezes citado pelos liberais sem a compreensão adequada, tratava a liberdade econômica como um pré-requisito para a ação humana responsável (Human Action), em vez de uma licença metafísica para desmantelar qualquer forma de ordem. No extremo oposto do pensamento moderno, porém de forma mais perspicaz, Chesterton dizia que “o homem moderno não deixou de acreditar em Deus; passou a acreditar em qualquer coisa”. E tudo o que diz respeito à política e à moral se transforma rapidamente em caos.
Essa confusão entre liberdade e libertinagem não apareceu do nada. Ela tem uma ascendência espiritual. O protestantismo, quer se goste ou não, introduziu no Ocidente uma lógica corrosiva: a ideia de que qualquer indivíduo, desvinculado da tradição, da metafísica e da autoridade, pode reinterpretar a Escritura, a moral, a verdade e a realidade de forma independente. Refere-se à gnose reprocessada com a Bíblia em mãos. Cada cabeça, uma igreja; cada impulso, uma teologia. A consequência não é liberdade, mas desintegração. A ética, a metafísica e o conceito de verdade objetiva se desintegram. Antes disso, o budismo propôs uma versão diferente da mesma tentação: a fuga da realidade concreta por meio da negação do eu, da substância e do sentido último. Contudo, o budismo nunca se espalhou como um câncer civilizacional no Ocidente; manteve-se contido. O protestantismo não funciona dessa maneira. Ele se alinhou ao Iluminismo, teve filhos ilegítimos com o liberalismo radical e, hoje em dia, domina o pensamento contemporâneo, até mesmo entre ateus militantes que fingem desprezo.
Diferentemente do que defendem os partidos liberais contemporâneos e os anarcocapitalistas do YouTube, a verdadeira liberdade não consiste na ausência de limites. Isso representa uma adaptação à realidade. Tomás de Aquino já dizia que a liberdade não se resume a escolher qualquer coisa, mas a escolher o bem de acordo com a natureza do ser. Um peixe vive livremente na água, mas fora dela, ele morre. Um homem é livre quando vive de acordo com a verdade; fora dela, perde a razão. A Doutrina Social da Igreja, muitas vezes desconsiderada e ridicularizada, entende isso melhor do que qualquer tik tok atual: propriedade com função social, economia baseada na moral e política subordinada à lei natural. Isso não é opressão; é civilização.
Platão já havia apontado o problema com uma precisão cirúrgica. Platão, em "A República", retrata a decadência dos sistemas políticos, transitando da aristocracia para a timocracia, da timocracia para a oligarquia, da oligarquia para a democracia e, por fim, da democracia para a tirania. Platão acreditava que a democracia não é o fim da história, mas o começo do caos, um sistema em que todos se veem como capazes de tudo e ninguém aceita ser governado pela razão. Aristóteles, de forma mais moderada, concorda ao afirmar na Política que as formas puras de governo — monarquia, aristocracia e politeia — se degradam quando abandonam seu propósito moral. O rei filósofo não é um ditador de esquerda, como alegam professores preguiçosos; ele é a personificação viva da virtude, razão e autoridade. Afirmar que Platão era comunista é tanto um erro intelectual quanto uma evidência de analfabetismo filosófico militante.
Com a queda das grandes monarquias cristãs, não se perdeu apenas um modelo político, mas também um conceito de limite. O liberalismo contemporâneo considera o rei um tirano por definição, sem levar em conta um ponto essencial: um rei governa como se governa sua própria casa. Ele não pode retirar de si mesmo sem afetar a fundação que mantém seu poder. Em contrapartida, o político atual governa o que não lhe pertence, empregando recursos que não são seus, para uma população que ele desdenha especificamente. O resultado é claro, especialmente no Brasil: uma república fundamentada em conceitos abstratos importados, uma liberdade mal definida, uma população condicionada a opinar antes de aprender e um Estado dominado por juristocracias que se dizem defensoras da democracia, ao mesmo tempo em que a enfraquecem internamente.
A verdadeira liberdade exige hierarquia, mas não servilismo; autoridade, porém não arbitrariedade; participação, contudo não igualitarismo imbecil. Um sistema parecido com o distributismo idealizado por Chesterton e Belloc não elimina a propriedade, mas a distribui; não glorifica o Estado, mas também não o ignora; não entrega o poder político a quem se alimenta dele, mas a quem cria riqueza concreta. Nesse cenário, a aristocracia não é uma nobreza de sangue, mas de função: aqueles que sustentam a sociedade devem ter um papel ativo em sua condução. Uma democracia irrestrita, na qual os que dependem do Estado votam para ampliá-lo sem limites, equivale a um suicídio matemático.
Assim, a liberdade interior está intrinsecamente ligada à ordem exterior. Um homem viciado não é livre, mesmo tendo a capacidade de fazer o que quiser. Uma sociedade que aceita a dependência como normal não é livre, mas conivente com sua própria degradação. Por meio do Grande Inquisidor, Dostoiévski advertia que o ser humano coloca a segurança e o pão acima da liberdade, estando disposto a vender sua alma a quem lhe prometer tais garantias. O liberalismo atual promete liberdade, mas gera dependência; o progressismo promete emancipação, porém trata as pessoas como se fossem crianças.
A verdadeira liberdade é dolorosa, exige disciplina, pressupõe autenticidade e demanda responsabilidade. Ela não grita, não faz performance e não pede aplauso. Ela é formada de maneira progressiva, inicialmente no indivíduo e, em seguida, nas instituições. Todo o resto é ruído, e ruído nunca libertou ninguém.
Os Punks São a Merda do Mundo Tentando Chamar Atenção
Para mim, o punk sempre soou mais como uma amputação do que uma rebelião. Não da sociedade, como prometia, mas da alma de quem acredita ter encontrado lucidez ao ingressar nele. Ele se manifesta como coragem, como impacto, como um clamor contra a falsidade do mundo. Porém, por trás da jaqueta rasgada, do alfinete e do barulho, frequentemente se encontra uma pedagogia da desesperança. Não se trata apenas de um estilo. É um modo de ensinar os jovens a duvidar de tudo ao mesmo tempo, até que nada mais mereça amor, fidelidade, construção ou paciência. E quando nada tem valor, a pessoa não se torna livre. Vira acessível para qualquer coisa.
Não falo isso de maneira confortável, como quem observa de longe. Eu passei por isso quando era mais jovem. Entrei no grupo, passei tempo na praça, andei com aquele pessoal, participei das conversas, ouvi as músicas, percebi o ambiente e observei a mentalidade que se desenvolvia ali. E foi exatamente ao ver por dentro que a coisa deixou de ser glamourosa. A retórica era sempre a mesma: o mundo é uma farsa, a vida não tem valor, toda autoridade é lixo, toda esperança é ingenuidade, toda ordem é opressão, toda crença é prisão. No início, isso pode parecer coragem intelectual. Mais tarde, você percebe que é apenas uma forma mal disfarçada de desistir antes mesmo de tentar.
De fato, o punk surgiu como uma resposta a um mundo que já estava apodrecido. Não surgiu do nada. Surgiu do tédio, do desemprego, da desilusão política e do colapso moral de uma modernidade que prometeu libertação, mas deixou um vazio. Em Nova York, nos porões do CBGB, com Ramones e Patti Smith, e posteriormente na Inglaterra em crise, com Sex Pistols, The Clash e Siouxsie and the Banshees, existia uma ira genuína. A juventude percebia que lhe vendiam um sonho industrializado, enquanto a realidade a forçava contra o asfalto. O desafio reside no fato de que diagnosticar a doença é uma coisa; fazer do veneno a própria identidade é algo completamente distinto.
Foi nesse momento que o punk se mostrou, para mim, como uma contradição ambulante. Ele afirmava detestar o sistema, mas acabou consumido por ele, acondicionado, fotografado, comercializado e transformado em produto. Malcolm McLaren compreendeu isso muito cedo. O grito se transformou em produto. O "No Future" transformou-se em slogan de camiseta. A estética do esgoto chegou à vitrine. E isso não é um aspecto irrelevante. É a evidência de que uma revolta sem foco, sem propósito e sem uma hierarquia moral sólida acaba contribuindo exatamente para aquilo que prometeu eliminar. Quando tudo é negação, qualquer mercado compra.
Porém, o dano mais profundo nem é esse. O mais profundo é de natureza filosófica. Em várias de suas manifestações, o núcleo do punk vai além de ser apenas antiautoritário. É contrário ao teleologismo, ao metafisicismo e à esperança. Ele não se limita a afirmar que as instituições falharam. Ele sugere que o próprio ser falhou, que não há ordem confiável, que não existe bem suficientemente real que justifique sacrifício, e que a vida é um infortúnio gerido por hipócritas. Nesse ponto, a ironia se torna religião, o sarcasmo se transforma em inteligência, a autodestruição é vista como autenticidade e a sujeira é interpretada como sinceridade. O resultado é óbvio: uma geração condicionada a associar ruína com lucidez.
É evidente que o punk também gerou formas de autonomia. O DIY, por exemplo, possuía um aspecto saudável: gravar seu próprio disco, publicar seu próprio zine, costurar suas próprias roupas, fazer o que fosse possível com as próprias mãos. Há um valor nisso. Há uma resistência significativa em confiar completamente em mediadores, empresas e gurus. Acontece que, quando perdeu o critério moral, até isso foi contaminado. Autonomia sem verdade se transforma em capricho. Liberdade sem estrutura se transforma em atitude. Nesse contexto, a pose se torna uma tirania especialmente absurda, pois clama contra o conformismo ao mesmo tempo em que estabelece códigos internos opressivos para determinar quem é "autêntico" e quem é "poseur". O indivíduo gritava “anarquia” e, cinco minutos depois, vigiava a roupa, o gosto, a fala e o comportamento dos demais. É a velha piada humana: o insurgente que deseja comandar.
Isso foi algo que comecei a perceber nos primeiros meses. Fiz parte daquele grupo de 2015 até o final de 2016, e minha saída não se deu porque me tornei "menos radical". Deixei porque percebi que aquilo não estava formando homens livres, mas garotos irresponsáveis. Eu observava o comportamento deles, as festas, as bagunças, a pichação, a necessidade constante de fazer besteira por fazer, como se a ausência de consequência fosse um sinal de bravura. Ainda bem que nunca me ferrei seriamente com isso, pois cometi as mesmas idiotices de adolescente que muitos fazem. No entanto, eu já percebia, desde cedo, que havia algo doentio naquela dinâmica. Eu não estava completamente envolvido na filosofia deles, e talvez isso tenha sido o que me salvou.
Após seis meses de convivência, eu já havia deixado de participar de muitas atividades com aquele grupo, pois a loucura prática deles era evidente. E a vida, que não tem paciência com teorias juvenis, começou a cobrar. Um acabou perdendo a vida. Outro foi esfaqueado. Após uma confusão, um deles precisou se afastar para outra cidade. Outro quase perdeu a vida após ser golpeado no pescoço. O outro ficou com deficiência. Não estou afirmando que todo punk acaba dessa forma. Estou afirmando algo mais exato e perturbador: uma perspectiva de mundo constantemente condicionada à desesperança, ao desdém pela ordem, à banalização do risco e à glorificação do caos raramente gera prudência, organização e futuro. Cria tragédia com música.
Por isso, sempre me parece falso quando tentam romantizar o punk apenas como uma estética agressiva e consciência social. Não. Em várias situações, ele funciona como uma escola prática de dessensibilização moral. Vai removendo, uma a uma, as âncoras do indivíduo. Primeiramente, ele ridiculariza a religião. Em seguida, faz piada da família. Em seguida, ela chama a disciplina de opressão. Mais tarde, chama esperança de ingenuidade. Em seguida, transforma a vida em um jogo sem propósito. Quando se dá conta, o homem já foi condicionado a não venerar nada. E um homem que não respeita nada não se torna nobre. Ele se torna suscetível à corrupção.
Por isso, afirmo que o punk, embora se apresente como anti-ismo, sempre teve um flerte com os ismos mais destrutivos da modernidade. Não porque todos os punks sejam iguais, o que seria absurdo, mas porque qualquer máquina ideológica suficientemente eficaz pode captar a energia central de dissolução. Comunismo, socialismo, fascismo, nazismo, niilismos de boutique, anarco-performances de vitrine, radicalismos de esquerda e de direita: todos esses movimentos se nutrem, de alguma forma, de uma matéria-prima compartilhada: ressentimento sem metafísica, revolta sem propósito, liberdade sem estrutura e destruição vista como sinceridade. Ao aprender a desprezar toda ordem, o indivíduo não se torna imune ao totalitarismo; ao contrário, torna-se suscetível a ser recrutado por qualquer regime totalitário que saiba manipular sua ira.
Marx afirmava que a religião é "o ópio do povo". É interessante notar que o punk, ao ridicularizar Deus e toda forma de transcendência, frequentemente se transformou no ópio do jovem ressentido. Não o tranquiliza; ao contrário, o intoxica com a sensação de superioridade em relação a tudo que cria, ama, nutre ou suporta. O jovem observa o pai que labuta, a mãe que persevera, a fé singela de alguém, o esforço discreto de quem busca organizar a vida, e rotula tudo isso como uma ilusão burguesa, domesticada ou covarde. É um truque antigo: rotular de alienação tudo que impede a adoração à própria revolta.
E então surge uma lembrança que sempre me fez questionar esse imaginário. Quando eu era garoto, A História Sem Fim me marcou de uma forma que o punk nunca conseguiu apagar. Porque ali estava a verdade simbólica que essa filosofia tenta reprimir: o mundo vai além do cinismo. A imaginação não é uma fuga superficial; ela pode servir como um caminho para realidades superiores. Naquela narrativa, o garoto ferido, solitário e oprimido por uma vida sem brilho descobre não uma justificativa para se entregar ao desespero, mas um convite para enfrentar seus medos, resgatar sua coragem e compreender que a realidade é mais ampla do que sua dor momentânea. Isso tem mais valor do que mil slogans gritados com guitarra desafinada. O punk proclamava: "não há futuro". Quando é verdadeira, a grande fantasia responde: há mais mundo do que sua miséria é capaz de ver.
Por isso, desde cedo, comecei a questionar esse culto contemporâneo à secura da alma. Porque ele sempre se apresenta como maturidade. O indivíduo acredita em Deus? Ingênuo. O indivíduo menciona bem, verdade, propósito, transcendência, ordem moral? Ingênuo. O indivíduo acredita que a juventude ainda tem a capacidade de criar algo positivo? Ingênuo. E o que o cínico propõe como alternativa? Nada. Nada em absoluto. Apenas a repetição refinada do mesmo mandamento podre: desista e faça merda. Desista dos seus sonhos, da disciplina, da chance de se tornar uma pessoa melhor, da noção de que a vida possui um peso metafísico e, em seguida, comemore essa desistência como se fosse uma demonstração de lucidez. Isso não se trata de filosofia. É autossabotagem com direito a aplausos.
Quando Chesterton se referiu ao maluco, ele fez uma observação importante. O homem que perdeu a razão por completo não é considerado louco; frequentemente, é o homem cuja razão se restringiu a um círculo muito pequeno. Ele confia tanto em sua própria mente que o mundo inteiro se torna refém de seu esquema mental. E eu testemunhei muito disso nesse contexto. Pessoas que haviam perdido a confiança na realidade tangível, nas hierarquias naturais da vida, na importância dos relacionamentos, no valor da responsabilidade, e começavam a viver em um ciclo fechado de ressentimento. Tudo era interpretado pelo mesmo filtro. Toda generosidade era duvidosa. Toda autoridade era opressão. Toda edificação era opressão. Toda esperança era falsa. Quando o homem chega a esse ponto, ele não se tornou mais profundo. Tornou-se prisioneiro do seu próprio labirinto.
O curioso, se é que se pode chamar assim, é que essa filosofia se apresenta como libertária, mas gera indivíduos previsíveis. O punk protestava contra a domesticação, mas observei muitas pessoas ali se submetendo servilmente aos instintos mais primitivos: violência, vício, promiscuidade, impulsividade, desconsideração pelo futuro, teatralização da sujeira e fetiche pela ruína. Isso não representa liberdade. Trata-se de uma escravidão malcurada. O homem livre não é aquele que age de qualquer maneira. É aquele que consegue organizar a própria alma para não se tornar um animal de ocasião.
E sim, a vida tem valor. Vale mais do que esse tipo de pensamento reconhece. O mundo é mais vasto do que a vaidade científica, mais profundo do que a filosofia superficial de esquina, mais amplo do que o niilismo juvenil que se disfarça de coragem. Há uma infinidade de coisas a descobrir, bens a construir, verdades a contemplar, amores a defender e ordens a restaurar. A pessoa que aprende isso para de considerar grandioso o espetáculo de sua própria autodestruição. Ele começa a se sentir pequeno em relação ao real pela primeira vez, e isso é uma bênção. Porque somente aqueles que reconhecem que o mundo é maior do que eles próprios podem realmente amadurecer.
Foi por esse motivo que eu saí. Não por falta de raiva, mas porque comecei a entender que a raiva sem propósito se transforma em culto ao abismo. Não por medo de parecer menos rebelde, mas porque percebi que existe uma rebeldia muito mais desafiadora do que simplesmente cuspir no chão e gritar contra tudo: é a rebeldia de não se render à falsidade de que nada tem importância. É simples de estragar. É simples fazer zombarias. É simples rotular de ilusão tudo que demanda compromisso. É desafiador formar caráter em um mundo que valoriza a aparência. É desafiador manter a fé no bem quando toda uma subcultura desgastada tenta te persuadir de que a esperança é tolice.
Ao final, o punk não me parece uma filosofia de coragem, mas de cansaço. Ele captou a dor genuína de uma juventude machucada e, em vez de sublimá-la, converteu-a em uma estética de decomposição. E um homem pode até passar um tempo fingindo que isso é suficiente. É possível vestir o caos, usar a ironia como proteção e empregar a destruição como forma de expressão. Porém, a realidade exige. Está sempre cobrando. E, ao cobrar, não se importa com quão autêntico parecia o seu moicano.
A maior falsidade do punk não foi afirmar que o sistema mente. Nisso ele frequentemente teve sucesso. A maior falsidade foi sugerir que, por o sistema ser mentiroso, não há verdade que valha a pena ser servida. E é nesse momento que ele se condena. Porque uma revolta que não se submete a nada acaba se rendendo ao próprio vazio. E, ao contrário do que os adolescentes acreditam, o vazio não liberta ninguém. Apenas engula.
A Maior das Virtudes a Esperança
É precisamente por isso que, neste dia, A História Sem Fim me parece ser um dos principais manifestos antipunk que circulam na cultura popular.. Não porque se contraponha de forma direta a punks com cabelo moicano, jaqueta e alfinete, mas porque ataca o cerne filosófico do que o punk, em sua vertente mais niilista, espalhou como um vírus espiritual: a ideia de que não há futuro, de que sonhar é uma fuga patética, de que o mundo já foi consumido, de que ter esperança é uma imaturidade e de que a melhor opção é transformar a própria decadência em estilo. A História Sem Fim oferece uma resposta que é, de certa forma, bastante humilhante para o niilista: através da imaginação, da infância, dos símbolos, do luto transfigurado e da convicção de que é possível combater o nada. Em outras palavras, aquilo que o punk manda cortar, este trabalho manda manter.
Curiosamente, muitos se lembram dela apenas pela canção "Never Ending Story", que gruda na cabeça e voltou à moda por causa de "Stranger Things", como se a obra inteira fosse apenas uma lembrança pop meio brega dos anos 1980. Isso não é verdade. O que está presente ali é muito mais estranho, sombrio e sério do que a memória emocional costuma aceitar. Mas não podemos nos esquecer de um detalhe importante: mesmo que o longa-metragem tenha sido recebido como um produto dos Estados Unidos, por ter sido exibido em inglês e penetrado no imaginário global por meio desse idioma, ele é, na verdade, muito mais alemão do que a memória apressada costuma reconhecer. O longa de 1984, sob a direção de Wolfgang Petersen, se inspira no livro de Michael Ende, lançado em 1979. Isso é pertinente, já que a ascendência alemã molda o espírito da peça. Não é o vácuo que gera esta melancolia, esta estranheza, esta resposta civilizacional que aqui está.
Isso, de certa forma, esclarece o motivo pelo qual o filme irritou uma parte da crítica americana na época, mas foi mais bem aceito na Alemanha. O estranhamento existia e existe. Ao relembrar a obra adulto, nota-se que ela vai além de "um filme infantil bonito". Ela parece uma menina afundada em mortos do século XX. É como um devaneio de um mundo devastado por conflitos, perdas, falta de fé e a tentação da aniquilação. É fundamental ressaltar que A História Sem Fim não é uma fantasia que nos faz perder a consciência da realidade. Ela é uma fantasia que impede o combate.
Quando eu era criança, assistia ao filme da mesma forma que a maioria das pessoas: como um clássico que atravessa gerações, uma aventura que envolve um dragão da sorte, um cavalo, uma imperatriz, um lobo e um menino que lê um livro em segredo. Mas, ao rever o filme na idade adulta, especialmente depois de entender melhor o impacto cultural do niilismo contemporâneo, a obra assume um novo significado. Ele se apresenta como uma resposta quase programática ao ambiente espiritual de seu tempo. O seu tempo não era simples. A estética provocativa do punk e o grito de "no future" na música não eram as únicas experiências dos anos 1980. Também estavam constantemente sob a ameaça concreta de um holocausto nuclear. Existiam filmes, quadrinhos, um mundo imaginário todo impregnado da noção de que o fim poderia estar próximo. Não era uma paranoia sem fundamento. Era um medo ancestral, que ensinara uma civilização inteira a viver com o fim do mundo rondando. Nesse contexto, A História Sem Fim surge como quase anacrônica e, por isso mesmo, ousada. Enquanto vários diziam que não havia solução, ela clamava que sim, existe solução — mas é necessário ter imaginação.
Além disso, não se entrega à ilusão de uma forma trivial de escapismo. Nesse sentido, a fantasia é um dom do espírito que luta contra o vazio. É por essa razão que a considero uma autora no estilo de Chesterton. O que se encontra ali é profundamente parecido com o que Chesterton realizava com grande habilidade: devolver à realidade sua maravilhosa densidade, sem desconsiderar a tragédia, e neutralizar o cinismo ao empregar exatamente aquilo que o cínico julga infantil. O niilista contempla a imaginação e solta uma gargalhada. O livro responde: é precisamente por ter eliminado a imaginação que o nada está prevalecendo.
A estrutura, que é uma mise en abyme típica - ou seja, uma história dentro de outra história - ajuda bastante nisso. Iniciamos nossa jornada com Bastien, e ao vê-lo novamente como adulto, isso se revela um golpe muito mais forte do que aparentava na infância. Bastien, embora aparente ser um filme voltado para o público jovem, é um garoto que, provavelmente, está deprimido. Isso é impressionante, já que hoje em dia a depressão é muitas vezes considerada o mal único do século XXI, quase uma marca da era digital. Entretanto, obras anteriores já tratavam desse tipo de sofrimento com grande sensibilidade, apenas sem o jargão técnico que hoje empregamos para falar sobre tudo. A mãe de Bastien morreu. Isso não é um aspecto menor da narrativa. Isso é o coração da questão. Ele sente a ausência dela de forma quase sufocante, e o filme está constantemente ciente disso.
É crucial que haja interação com o pai. O pai não é um monstro, e eu não gosto de interpretações simplistas que transformam qualquer adulto emocionalmente imperfeito em um vilão de desenho animado. Ele não é completamente tolo. Faz o filho levantar, arruma o café da manhã dele, fica de olho nas notas da escola e tenta tocar a vida. A tragédia é ainda maior: ele não consegue amar o filho da maneira que ele precisa. Quando Bastien expressa, de forma simples e comovente, que sente falta de sua mãe, o pai responde com a lógica habitual de um adulto pragmático: eu compreendo, mas é necessário que continuemos em frente, pois suas notas não estão satisfatórias. Não existe malícia naquele lugar; existe falta de capacidade emocional. Isso pode ser ainda mais complicado, pois mostra um homem que provavelmente nunca aprendeu a dividir a dor, apenas a suportar.
Bastien é um jovem que se sente deslocado, é um leitor, introvertido e quase um nerd da alta cultura. Não por ser “o garoto inteligente” da caricatura moderna, mas porque de fato lê, gosta de livros, refugia-se na literatura e, por conta disso, sofre socialmente. É alvo de bullying, percorre a cidade a pé, sozinho, assim como muitas crianças de filmes dos anos 80 faziam, de forma tão natural que hoje soa quase surreal, e carrega uma dor para a qual ainda não encontrou palavras. Ele pode nem ter começado a lidar com isso. Talvez seja anterior ao luto, imerso naquela dor intensa da perda ainda não elaborada. Ele não fez crescer; ele cortou. O que não é desenvolvido, deteriora-se internamente.
Então, escapar para a livraria é perfeito. Ele escapa dos bullies, entra naquele espaço quase sagrado, e o livreiro rabugento, com uma espécie de psicologia reversa, o guia para o livro. Bastien pega "A História Sem Fim", vai à escola, percebe que está atrasado, falta à prova, se esconde em um depósito e inicia a leitura. Aqui há um detalhe humano de grande peso: o livro dá paz onde nem a própria casa nem o pai conseguem dar. Enquanto ele lê, a escola termina, o dia passa e dá para imaginar o pai aflito à sua procura. Mas Bastien continua ali, porque aquele livro se tornou mais confortável que a vida real. Isso não significa que a fantasia seja condenada. É um diagnóstico de abandono afetivo parcial, mas sem intenção.
Quando a narrativa interna começa, a alegoria central se revela: o Nada está avançando em direção a Fantasia. A escolha da palavra é genial, uma vez que uma criança percebe que algo de errado está acontecendo, mas a ideia é filosoficamente muito mais profunda do que se imagina. Não se trata de um monstro comum. Não se refere apenas a "o mal" em um contexto pueril. É a ausência. Isso já é complicado até para os adultos. O filme está ciente disso, e é por isso que as interações entre as criaturas folclóricas são tão bem-sucedidas. O Come-Pedra, vindo de um local, e o outro, de outro lugar, ambos como refugiados cósmicos, declarando que de onde vieram não existe mais nada. Quando alguém questiona se aquilo é um buraco, ele fornece uma resposta essencial: não, pois um buraco ainda representa algo. Não há mais nada. Em um filme para a garotada, isso é uma pitada de aniquilamento metafísico.
Perceba a melancolia presente nisso. A fantasia começa como um universo em fase de diminuição. Os seres vivos fogem, se deslocam, perdem seu habitat e deixam suas terras natais. Existe uma sensação de ser um refugiado, um exilado, um povo que foi deslocado de sua terra natal. Isto é algo que não se pode considerar mero acaso, especialmente no contexto da Guerra Fria e do pós-guerra. Nesse sentido, a fantasia não é um paraíso fixo. É um mundo à beira da ruína.
É por isso que eu insisto que A História Sem Fim é um tratado contra o niilismo e, portanto, um tratado antipunk. Enquanto o punk proclamava "no future", esta obra dizia: existe um futuro, mas não será resultado da ironia, da atitude ou da decadência. Provém da capacidade de imaginar, desejar e nomear. É praticamente uma provocação ao cinismo do período. E é por isso que ela envelheceu de forma mais graciosa do que muitas expressões de rebeldia preservadas dos anos 1980.
A Imperatriz Menina representa o coração de Fantasia, e, como é adequado para um verdadeiro símbolo, ela permanece quase invisível na maior parte do filme. Quando somos pequenos, parece que ela está sempre presente. É possível perceber, ao analisar, que a falta dele causa um impacto muito maior do que a sua presença. Fala-se dela, conta-se com ela, padece-se por ela, mas ela teima em não vir. Isso também é importante. A realidade é organizada pelo bem, tanto pela sua presença quanto pela sua falta. E ela está doente. Fantasia está morrendo, e seu governante também está doente.
Então surge Atreyu, que é o escolhido, e isso aumenta ainda mais o interesse quando se revisita a obra destinada ao público adulto. Ele é uma criança nativa. Isso muda completamente o significado. O verdadeiro herói não é o conquistador europeu, nem o soldado do império, nem o colonizador das fronteiras. Em um imaginário ocidental repleto do mito do conquistador que doma a terra, A História Sem Fim escolhe um herói que simboliza uma relação distinta com o mundo: não a exploração predatória, mas a conexão. Não se trata de colonização, mas de comunhão. É como se afirmasse que, ao invés de adotar a lógica contemporânea da conquista, a salvação de Fantasia necessita de um herói que perceba a terra não como um alvo, mas como um espaço habitável. Nesse sentido, o livro também faz ecoar algo que Roger Scruton articulou de forma eloquente, ao tratar da beleza como um caminho de volta para casa: o homem só habita, de fato, aquilo que aprende a amar sem ter que convertê-lo em um mero instrumento de utilização.
No que diz respeito ao romance, essa escolha é ainda mais evidenciada pelo ritual do búfalo, no qual Atreyu se recusa a sacrificar o animal. Mesmo quando se considera essa camada como uma chave simbólica, o encaixe permanece: ele não é escolhido por ser o que destrói, mas por ser aquele que se opõe à lógica sacrificial da força. Seu heroísmo não reside na máquina poderosa, mas na essência do ser que ainda consegue responder ao mundo sem recorrer à brutalidade instantânea.
A Imperatriz presenteia-o com o AURYN, o talismã que possui as serpentes entrelaçadas, e isso carrega um grande significado. Já há uma representação de circularidade, entrelaçamento, dobra entre mundos e uma narrativa que se insere em outra narrativa. Não há nada naquela obra que seja um símbolo inserido aleatoriamente. O próprio traçado sugere persistência, contemplação, retorno e reflexo. É a totalidade do filme condensada em um único objeto.
Atreyu atravessa diversos cenários lúdicos, mas com um peso espiritual que é único. Ele viaja por lugares cujos nomes soam como se fossem frutos de uma educação baseada na dor: deserto do desespero, pântano da tristeza. É neste ponto que o filme se torna quase cruelmente preciso em relação à depressão. O Pântano da Tristeza é, talvez, uma das ilustrações mais delicadas e exatas desse sentimento em palavras acessíveis. Quanto mais se entristece, mais se afunda. O mais lamentável é que o ato de afundar apenas aprofunda a sensação de tristeza, e essa mesma tristeza, por sua vez, torna o afundamento ainda mais profundo. É um circuito ideal e diabólico. Aqueles que já sentiram esse tipo de dor de perto sabem como é. Não se padece apenas porque se está mal; começa a padecer-se também por se estar padecendo, e a consciência do naufrágio torna-se já naufrágio.
Atreyu, por ser uma criança e ainda possuir um forte instinto de vida, luta. Mas Artax não suporta. A cena do cavalo é de uma angústia atroz porque, em questão de minutos, ela resume toda uma teologia da perda. O animal se entristece. O animal perde a motivação. O bicho mergulha. Isso revela uma inteligência emocional notável, pois a obra não restringe a tristeza apenas à razão humana. O sofrimento do animal é evidente. O animal também pertence a essa ordem de feridas. E Bastien, ao se deparar com aquilo, não consegue conter as lágrimas. Sem dúvida, ele chora. Não é apenas porque a cena é triste. Isso se deve ao fato de que ele é um garoto que ficou sem mãe. A morte do cavalo, logo no início da jornada, faz com que ele reviva a experiência da perda. O filme faz isso de propósito. Ele o obriga a passar pela dor da separação através de outro tipo de amor que não deu certo. Não é uma manipulação emocional de baixo custo. É uma liturgia fúnebre.
Depois, surge Morla, a tartaruga velha e sábia, e é aí que fica ainda mais claro como os mundos se cruzam. Bastien berra e parece que os personagens de Fantasia o ouvem. A cena é impressionante porque ainda permite uma interpretação dúbia: pode ser apenas a imaginação do público, pode ser uma quebra real da quarta parede, ou pode ser ambas as coisas ao mesmo tempo. É isso que torna a obra mais rica. Ela não deseja que você escolha entre "tudo é real" e "tudo é imaginação dele". Ela busca destacar o poder da imaginação como uma ponte. A questão não está em saber se o milagre aconteceu de maneira tangível; o importante é o que se tornou possível a partir da sua imaginação.
Quando Falkor faz sua entrada, o filme provavelmente atinge seu ícone mais memorável. O dragão da sorte é uma criatura que se situa entre o absurdo e o sublime. Ele tem traços de cachorro, nuvem, cobra do céu e talismã vivo contra a desesperança. É o tipo de imagem que só existe em um sonho que acredita na sua própria criação. Além disso, no momento em que Atreyu se depara com o casal de gnomos, há um detalhe visual que pode parecer estranho nos dias de hoje: o filme emprega traços que lembram caricaturas europeias antigas associadas a judeus, especialmente no sábio leitor e na composição do casal. A obra não parece ter a intenção de estigmatizar; ao contrário, parece que ela reutiliza formas tradicionais de caricatura e muda sua função. Mas o incômodo fica, e um adulto percebe isso mais claramente do que uma criança poderia perceber.
No entanto, é através das esfinges e dos enigmas que o filme atinge um nível de sutileza ainda maior. A primeira prova é cruzar com firmeza o próprio valor, sem hesitar. Um guerreiro devidamente equipado pode falhar, pois a armadura não substitui a essência da alma. Atreyu apenas avança porque, naquele instante, não tem tempo para questionar a si mesmo. Isso, por si só, já seria uma lição valiosa. Mas a obra não se resume a isso. Ela avisa que essa é apenas a primeira avaliação. A segunda, a genuína, será ainda mais desafiadora: desvendar sua verdadeira identidade. E aí vem um dos momentos mais poderosos do filme, quando o velho sábio praticamente diz que é aí que os corajosos percebem que estão com medo, e os fortes sabem que são fracos. Isso é maravilhoso porque acaba com a auto-estima rasa que acha que ser confiante é o mesmo que se conhecer. A primeira pode ser desempenho ainda. O segundo corta a pele.
Quando Atreyu, finalmente, encontra o espelho e enxerga Bastien, temos uma das mais poderosas ilustrações do funcionamento do mecanismo de identificação narrativa. É incomum que nos identifiquemos com personagens apenas por possuírem características semelhantes às nossas. Identificamo-nos de maneira muito mais intensa com as representações das fantasias de poder que eles encarnam para nós. Atreyu é tudo o que Bastien deseja ser: corajoso, vibrante, bonito mesmo sofrendo, capaz de enfrentar o mundo. Quando o espelho devolve Bastien, a obra mostra que o protagonista e o leitor já estavam, de alguma forma, interligados. Um é a imagem do outro. Isso não se trata de uma escapada pueril. É exatamente assim que funciona a imaginação: ela organiza nossas habilidades ainda caóticas em algo que faz sentido.
Nesse intervalo, Bastien se vê sozinho na escola à noite, durante uma tempestade, e os elementos do mundo ao seu redor começam a invadir sua leitura. A cabeça de lobo taxidermizada, os ruídos, a escuridão, tudo começa a se entrelaçar. A imaginação não se eleva acima da matéria; ela a incorpora. É por isso que este livro é tão perspicaz. Ela mostra que a fantasia não é uma negação do real, mas uma transformação deste.
Depois, chega um dos momentos mais importantes de qualquer leitura adulta: a luta de Atreyu com Gmork. Nesse momento, o livro tira a máscara e deixa claro o que talvez já estivesse desenvolvendo desde o começo. O lobo explica que o Nada produz desespero e que pessoas desesperadas são mais fáceis de serem dominadas. Isso, em um filme alemão de 1984, não é de se desprezar. Isso é, ao mesmo tempo, uma edificação política, psicológica e metafísica. É fundamental destacar que Gmork não se caracteriza como um "vilão" comum, mas sim como um símbolo fascista no sentido profundo. Ele simboliza o dispositivo contemporâneo que emprega o vácuo, a desintegração, a ausência de significado e o temor como formas de controle. Não estou falando da histeria superficial que classifica qualquer oponente como fascista, como faz a retórica pouco elaborada da esquerda contemporânea. Refiro-me a uma questão mais séria: à linhagem espiritual dos modernos 'ismos', que se tornaram mestres na arte de governar os indivíduos após desmantelar o seu universo interior. Nazismo, comunismo, socialismos forçados, fascismos históricos e suas várias expressões morais, embora possam aparecer de maneiras diferentes, geralmente executam a mesma operação essencial: eliminar do indivíduo a medida transcendente e, em seguida, preenchê-lo com aparato, medo, massa e ideologia.
É por essa razão que Gmork é tão eficiente. Ele não se restringe a afirmar "vou te matar". Basicamente, ele diz: quando vocês não acreditam em nada, eu controlo vocês mais facilmente. Isto é impressionante porque indica que o niilismo não é apenas uma força subversiva; ele pode ser uma forma de domesticação em massa. Um povo em desespero, um jovem sem imaginação, uma criança educada para sentir vergonha do maravilhoso: todos eles são presas mais fáceis. O filme trata de um assunto que continua a ser tragicamente relevante. Quantos professores, especialmente nas formações mais precárias a partir dos anos 2000, não passaram anos dizendo às crianças que ter sonhos era tolice, que a imaginação era uma perda de tempo, que a beleza era algo dispensável, e que tudo deveria ser avaliado através do mesmo critério restrito do útil, do mensurável e do ideologicamente aceitável? O prejuízo que isso acarreta é de caráter espiritual. É gente ensinando, em nome da maturidade, a renunciar a capacidade de resistir ao vazio.
Por isso, Gmork pode ser considerado uma figura demoníaca também. Não de maneira ingênua, com chifres, chamas e cauda, mas sim na interpretação mais refinada em que o mal tenta corromper o ser humano internamente, desestruturando sua percepção, fazendo com que tudo se torne relativo e subjetivo, até que a pessoa perca totalmente seu senso de orientação. Sempre achei sensato imaginar Lúcifer não apenas como um adversário arrogante de Deus, mas como uma mente decaída que, por inveja do lugar que o ser humano ocupa na obra da criação, tenta miná-lo através da manipulação psicológica. Não destrói primeiro o corpo; corrói antes a forma como a alma se direciona. É dessa forma que Gmork opera. O Nada em que ele se abandona não é só a morte física. É o fim da esperança, do propósito e da vontade de viver. A partir daí, basta um pequeno passo em direção ao suicídio espiritual, moral ou mesmo físico.
Atreyu vence o lobo, mas isso não é o bastante. Essa é mais uma maneira de inteligência que o filme retrata. Destruir o mensageiro do desespero não para, por si só, a marcha do Nada. Às vezes, mesmo depois de derrotar um inimigo claro, o mundo ainda desmorona. É verdade que a ilusão cai por terra. Pedaços de terra pairam no vácuo, e tudo se desfaz, exceto a Torre de Marfim. É complicado não ver, nesse ponto, o microcosmo da essência de Bastien. Quase tudo foi arrasado. O universo interno ruíu. Sobreviveu uma torre, um núcleo reduzido, um derradeiro ponto não assimilado. Isso é o bastante, porque enquanto existir um centro, haverá conflito.
A Imperatriz, por sua vez, faz sua entrada, e essa cena é, sem dúvida, uma das mais impressionantes de toda a obra. Ela se volta para a câmera e conversa com Bastien. E, quando fala com Bastien, fala também com quem escuta. Você precisa me atribuir um nome. Somente você pode nos salvar. A fantasia só é possível graças a indivíduos como você. É quase surpreendente como é simples. A salvação do gênero Fantasia depende do leitor. Não há um mundo fictício sem alguém que o conceba. Ninguém precisa manter internamente o que ainda não pode ser tocado, se não houver desejo de resistir ao Nada. É aqui que a mãe de Bastien volta, como o fantasma central da obra toda. Porque ele para e pensa: minha mãe tinha um nome tão lindo. Essa frase é devastadora. O enredo do filme inteiro se centra nessa falta, até que, de repente, torna-se evidente: nomear a Imperatriz representa para Bastien reviver a memória de sua mãe sem ser esmagado por ela. O título que redime a Fantasia nasce do amor por tudo que ela já não possui.
É por isso que o filme aparenta ser distinto quando assistido na fase adulta. Não se trata apenas de uma jornada de fantasia. É a narrativa de um jovem que busca compreender como a vida continua após a perda de sua mãe. A existência dele, ao final, se torna uma história interminável no aspecto mais doloroso: continua mesmo quando ele não quer que assim seja. O passado não devolve o que levou. Assim, a pergunta que se impõe é: de que maneira podemos retomar a capacidade de sonhar com o futuro quando nossos sentimentos permanecem ligados ao passado?
O filme oferece a resposta: através da imaginação. Assim, ele consegue menosprezar o punk mais uma vez. Porque o punk diz: abandone as ilusões, pois são enganosas, o mundo é um caos e nada tem valor. A História Sem Fim tem a resposta: sem a fantasia, o Nada triunfa. É dessa forma simples. O niilismo não é superado apenas aumentando o volume de seu diagnóstico. Conquistamos ao atribuir significado, ao desejar, ao nomear e ao querer o mundo.
O longa atinge um nível total de metanarrativa quando a Imperatriz diz a Atreyu que ele trouxe quem poderia salvá-los. O arco do protagonista já estava preparado para envolver o leitor. Atreyu é, de certa forma, a fantasia de poder que leva Bastien ao seu momento de ação. Isso é maravilhoso porque encapsula uma verdade sobre toda grande ficção: o herói não está ali para resolver a história por si só, mas para revelar ao leitor uma força que ele permitiu que se tornasse fraca.
A partir daí, tudo se torna opaco, exceto aquele grão de luz. Esta pode ser a cena mais bela do filme. A fantasia foi minimizada a um nível muito baixo, mas ainda não completamente eliminada. Um ponto. Um brilho diminuído. Em terras brasileiras, é dito que a esperança é a última a perecer, e poucas figuras do folclore popular expressaram isso com tanta força quanto aquele grão de areia que brilha na escuridão. Pode haver depressão, tristeza, luto, desespero, colapso, cinismo; pode parecer que restou quase nada, mas se ainda há vida, ainda existe um ponto que não foi extinguida. É a partir daí que se reergue um mundo.
A Imperatriz, portanto, afirma a Bastien que é essencial que ele deseje. É indispensável sonhar acordado. Ele levanta uma questão pertinente: mas o que exatamente? O que se pode desejar quando se está desequilibrado? O que se pode querer quando o futuro se apresenta bloqueado pelo luto? E ela responde da mesma forma que toda verdade significativa o faz: isso é algo que apenas você pode descobrir. Não existe algoritmo que possa ressuscitar uma alma. Há um anseio de reviver momentos.
Isto é o antinilismo do trabalho. Bastien não só está salvando um reino imaginário; ele está reclamando seu destino. Um menino que perdeu a mãe e teve seu futuro, já incerto, roubado pela falta precisa resgatar seus anseios para não sucumbir ao Nada. Em essência, isso se opõe ao "no future". É por isso que insisto: A História Sem Fim é um manifesto contra o punk. Ela olha para a juventude e diz: há futuro, sim. O futuro, além disso, depende da capacidade que vocês ainda têm de moldá-lo sem alterar a realidade.
O final é perfeito por não cair na seriedade excessiva. Bastien quer, acima de tudo, voar com o Falkor. Sem dúvida. Trata-se de um garoto. Tem vontade de voar, de rir, de sentir o corpo solto no ar. Isso é belo precisamente porque não transforma a cura em uma moral rígida. A felicidade também tem o poder de redimir. A fantasia retorna, os reinos voltam a existir, Atreyu e Artax retornam, e há um alívio quase sagrado nessa restauração. Até o cavalo retorna, e isso traz consolo a uma parte da infância de quem viu o filme e se emocionou naquela cena maldita do pântano.
A seguir, vem o impulso de lutar contra os bullies, e aí o filme abraça totalmente sua lógica de fantasia de poder. Bastien aparece voando em um dragão, causando pavor nos meninos que o subestimaram. É uma falta de maturidade? Certamente, sim. É justamente por isso que dá certo. A imaginação fazendo aquilo que a realidade não consegue ainda: devolver um sentido simbólico ao humilhado, fazê-lo experimentar que não é apenas uma vítima. Quase uma leve implicação apocalíptica, figurando o sentido da expressão: o bem vence, o mal é derrotado, a ordem é restaurada, e o menino oprimido não é exterminado. Nesse sentido, a fantasia não ignora a dor; ela impede que a dor determine o desfecho.
As sequências só servem para evidenciar o quão especial o primeiro filme é. O segundo se afunda em concessões e acaba soando mais imaturo do que realmente infantil. O terceiro, se a memória não me falha, com sua gangue punk transformada em uma força arrasadora no universo da fantasia, quase chega a comprometer de maneira evidente a delicada alegoria que o primeiro construía com tanta astúcia. O primeiro não precisava representar um punk de moicano destruindo castelos para se fazer entender. Como já dissera de maneira mais eloquente: o nada avança quando se perde o desejo, o nome, a imaginação, quando o desespero se torna linguagem e o vazio se transforma em política.
De fato, A História Sem Fim é pertinente, porque o inimigo que combate ainda existe. É possível que se apresente com novas vestimentas, aplicativos recentes, teorias inovadoras e pedagogias diferentes, mas continua a existir. O Nada avança quando uma geração inteira é educada a considerar a transcendência uma piada, a esperança uma tolice, a beleza uma futilidade e a fantasia uma doença. Mas a resposta continua a mesma: não basta apenas denunciar o vácuo. É preciso voltar a deslumbrar o mundo sem esconder seu sofrimento. É preciso devolver ao homem a ousadia de sonhar. É fundamental ensiná-lo, tanto em relação ao lobo quanto ao nada e a todas as formas atuais de controle por meio da desesperança, que a imaginação não é uma evasão da realidade. É uma das últimas barreiras autênticas contra a sua decadência. É por isso que este famoso clássico infantil, em vez de ficar datado, voltou a ser ameaçador. Ele ainda tem a audácia de afirmar, em um mundo repleto de ironia, que um futuro existe.
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