O que é o Ressentimento Estrutural que a Sociedade Impõe
A ficção não é um escape da realidade, mas sim uma das maneiras pelas quais a alma se familiariza com a presença de Deus, a virtude, a coragem e a profunda essência do ser humano. Entre criaturas aterradoras, metrópoles opressoras, protagonistas heroicos, dragões e homens feridos, este texto explora de que maneira a imaginação descortina verdades que a vida cotidiana tenta ocultar.
Gabriel G. Oliveira
4/24/202683 min read
Quem são os verdadeiros valentões
A desgraça das pequenas cidades não está em seu tamanho, mas em suas promessas. Elas não solicitam que você “ficar”, mas que “esperar”, o que é ainda pior. Aliás, nesses locais, a qualidade cívica mais apreciada é a paciência. Antecipamos o progresso, aguardamos a corporação salvadora, esperamos pelo shopping messiânico, e esperamos pelo futuro assim como se espera pela chuva em um ano de seca, com uma fé grande o suficiente para não deixar o lugar e uma clareza de pensamento que não é suficiente para perceber que o céu está fechado há muitas décadas. Uma pequena cidade não é cercada por paredes, mas por narrativas. E essas narrativas sempre vencem as grades em termos de eficácia.
Junji Ito entendeu isso melhor do que muitos sociólogos bem pagos. Uzumaki não é, como costumam afirmar, um mangá "sobre obsessão", uma expressão vaga que não elucida nada. É um livro que fala da lenta e corrosiva inevitabilidade, do dia a dia que se transforma em silêncio até que o absurdo se torne normal. Kuroso, o "redemoinho negro", não fica louco de imediato. Ela vai se adaptando. Como Aristóteles afirmava, o hábito é a força mais poderosa que existe. Para o lado positivo ou negativo.
A espiral é uma forma geométrica honesta. Ela não finge que está avançando. Ao contrário da reta, que é uma promessa de avanço, a espiral apenas se dirige para o interior. Assemelha-se a movimento, mas na verdade é a ampliação do mesmo. Todo pequeno município alimenta essa fantasia: atua, cresce, edifica, inaugura, mas sempre em torno do mesmo centro de pensamento. As mesmas discussões, as mesmas mágoas, as mesmas figuras. Curiosamente, ninguém se sente como se estivesse preso. Sentem-se "enraizados", uma metáfora poética para quem parou de caminhar. Chesterton diria que não é a tradição quem se recusa a andar, mas apenas alguém que resolveu se instalar em seu próprio sepulcro e chamá-lo de casa.
No Uzumaki, as pessoas continuam a viver, mesmo diante do colapso do mundo ao seu redor. Há mulheres grávidas chupando sangue no hospital, e ninguém pensa em uma fuga coletiva. Enquanto os corpos se distorcem, a calúnia continua, sem se importar com a questão óbvia: "por que ainda estamos aqui?". Não se trata de uma falha narrativa, mas de um diagnóstico moral. O isolamento não gera solidariedade; ele gera falta de visão. Cada um se enclausura em sua casa, em seus problemas, em seus delírios, e a cidade toda vira um manicômio sem médico. Como de costume, o inferno é um fenômeno coletivo.
Quem passou bastante tempo em cidade pequena conhece o funcionamento de imediato. A maioria das pessoas não é má intencionalmente, apenas medíocre de forma funcional. Pessoas que não são más, mas também não alcançarão a verdadeira bondade, já que ser bom exige coragem, e essa coragem, por sua vez, depende de uma visão mais ampla. Se você lê um pouco mais ou tem um pouco mais de inquietação intelectual, você já é automaticamente uma aberração na sua localidade. Não porque seja brilhante, mas porque o nível médio foi ajustado para que ninguém se sinta incomodado. Em tais lugares, a inteligência é valorizada apenas quando serve a interesses concretos. Depois disso, passa a ser uma ameaça.
Constantemente ouvimos a mesma promessa: "melhora daqui a pouco". O tempo avança, mas a recuperação ainda não ocorre, enquanto a justificativa se torna cada vez mais persuasiva. Os fatores externos são sempre responsabilizados, e não a mentalidade do lugar. O jovem persiste, arranja um trabalho medíocre, cria uma vida que funciona e chama isso de adultice. Anos depois, conclui que não se tornou mais maduro, mas sim mais rígido. A espiral saiu vitoriosa. Com calma, mas sem ser agressivo. O diabo moderno não força; ele disponibiliza um assento.
O desfecho de Uzumaki é brutal precisamente por não oferecer uma sensação de alívio. Não há redenção urbana, nem revolução que venha tarde. Só há a descida para o centro, onde todas as almas da cidade se encontram como depósitos de uma história que nunca foi interrompida a tempo. A cidade subterrânea não é um monstro; é a totalidade. É o resultado inevitável de gerações que escolheram esperar em vez de ir. Quando o medo se torna real, a fuga não é mais uma opção. A espiral não tem saída lateral.
Algumas pessoas idealizam tudo isso em nome da "simplicidade". Refere-se à estética da imobilidade. O silêncio é equacionado à paz, a repetição à segurança, e o isolamento à virtude. Aristóteles jamais seria enganado por isso. A polis é feita para promover o desenvolvimento humano, e não para limitá-lo. Um lugar que carece de verdadeira diversidade, troca de ideias e fluxo de bens simbólicos não pode ser chamado de cidade, mas sim de uma aldeia cujo tempo de existência já expirou. As aldeias são lugares agradáveis para se nascer, mas não para ficar refletindo.
A pequena cidade promete um futuro, quase como se estivesse anunciando um milagre. Constantemente amanhã, mas nunca hoje. Estamos constantemente em evolução, mesmo que o que esteja se desenvolvendo seja apenas o tédio, o ressentimento e a atenção mútua. O curioso de Uzumaki que encontra seu fim atravessado por suas próprias brocas representa de maneira cruelmente precisa: aqueles que se metem na vida alheia acabam sendo devorados pelo próprio vício. Pequenas cidades adoram chamar isso de "comunidade".
Não se trata de menosprezar indivíduos, mas de revelar sistemas. O mal presente aqui não é grandioso; é persistente e intrusivo. Ele se envolve, reduz o ritmo e convence. E, ao perceber, já se vê defendendo aquilo que o está devorando. A espiral não obriga ninguém a ficar. Ela apenas torna o jogo emocionalmente caro demais para aqueles que esperaram o tempo necessário.
Em resumo, a mensagem contida em Uzumaki é clara, mas ao mesmo tempo inquietante: há locais que não são feitos para a vida, mas sim para a repetição. Ficar com eles não é fidelidade, é capitulação. Nenhuma quantidade de promessas adiadas transforma a estagnação em um destino. A espiral sempre vence os que acham que ter paciência é ser virtuoso.
Não foi durante o tempo em que morei em uma cidade pequena que passei a entender o impacto que ela tem na alma — isso é uma experiência comum a qualquer um — mas sim quando, pela primeira vez, percebi que o mundo não precisava se limitar àquele estreito círculo de pensamento. Foi em São Paulo, quando eu tinha dezesseis anos, que eu entendi uma coisa simples, mas arrasadora: o mapa não acaba onde o comum termina. Aquele instante, meu universo se limitava às cidades do Mato Grosso, que pareciam um erro de impressão, um sputo seco no papel, onde tudo acontece cedo ou tarde demais, mas nunca no horário correto. Ali, o tempo não flui; ele consome.
São Paulo não me abraçou; me pegou de surpresa como alguém que acorda. Visitei templos, conversei com sacerdotes, professores, impostores e alguns santos que estavam disfarçados. Explorei feiras dedicadas à cultura nerd e locais onde ninguém parecia se sentir envergonhado por saber ou acreditar em coisas em excesso. O estranho, pela primeira vez, não me excluía, mas me abraçava. E foi então que compreendi algo que ninguém ensina em cidades pequenas: o mundo não existe para te aprovar; ele existe para te contradizer.
Até aquele instante, a única forma que eu tinha de escapar daquela espiral era por meio da literatura. Livros que eu comprava em nome da minha mãe, torcendo para que o boleto não fosse rejeitado, conversando com o gerente do banco como se estivesse pedindo desculpas. Aquilo não era mera apreciação cultural; era contrabando da alma. Cada livro que recebia era como abrir uma janela em um cômodo sem ar. Não havia templos, nem uma autêntica pluralidade religiosa, nem embates simbólicos. Existia duplicidade. A repetição, quando não é ritual, transforma-se em uma forma de anestesia.
A inspiração inicial surgiu de onde é costume: de uma narrativa fictícia que revela a verdade com mais sinceridade do que diversos tratados morais. A Vida Secreta de Walter Mitty. Assisti ao filme no cinema em 2013 e saí com a impressão incômoda de que alguém havia me identificado sem me apresentar. Walter não residia em uma cidade pequena, mas tinha uma vida modesta, o que era ainda mais lamentável. Do labor ao lar, do lar à quietude, da quietude ao sonho acordado. A geografia externa era imensa, mas a interna, por sua vez, era opressora. Isso me impactou porque eu conhecia bem aquele funcionamento. A espiral dispensa um vilarejo; só é preciso ter um hábito.
Meu pai estava doente. O que eu poupa, era para cirurgia, era para vida dele. Ele morreu em setembro. Estive lá em dezembro. Não por coragem, mas porque existem momentos em que ficar é mais humilhante do que sair. Com esse dinheiro, fui para São Paulo. Não foi uma fuga. Foi uma obediência a algo que já havia sido decidido antes de eu chegar. Walter Mitty não me ensinou a explorar o mundo; ele me autorizou a não murchar.
Ben Stiller realizou o melhor filme de sua carreira ao captar algo que a crítica especializada, repleta de diplomas e vazia de vida, sempre esquece: a imaginação não é fuga; é um treino para a bravura. Walter sonhava despierto não por covardia, mas porque ainda não havia encontrado o motivo. Ninguém age sem um motivo. Aristóteles tratou desse assunto na Ética a Nicômaco: nenhuma ação sem objetivo tem significado senão como ruído. O que a modernidade se refere como "zona de conforto", os antigos chamavam de desordem da alma.
O longa é um verdadeiro seminário mudo de simbolismo. O azul é a vida sob controle e o vermelho é a decisão. O botão que muda de cor, o carro escolhido, o avião empregado. Nada é estético por acaso. Ao escolher o vermelho, Walter não busca emoção; ele opta por responsabilidade. Pois cada decisão autêntica traz consigo um preço a ser pago. A ideia de que viajar simplesmente por viajar é uma virtude é o que torna a discussão atual sobre viagens pueril. Isso não é verdade. Viajar sem intenção é só turismo sem sentido. Não adianta jogar games caros no sofá. Ao menos não se ilude acreditando que amadureceu.
Viajar só vale a pena quando é para contemplar ou para procurar. O que sobra é utilizado para o cenário. Não fiz viagens após os dezesseis anos com o intuito de "ver o mundo"; essa expressão é uma pobreza espiritual comovente. Eu fiz isso para ter clareza sobre minha posição em relação à realidade, a Deus e a mim mesmo. Saborear a gastronomia local, mergulhar no simbolismo, na história, na cultura e no ambiente do lugar. Quem se aventura pelo mundo sem se perguntar “por que este lugar está aqui?” volta com imagens e sem alma.
Walter Mitty não tomou as atitudes que tomou para proteger seu emprego. Isso reflete a perspectiva de alguém que nunca assumiu responsabilidades da busca por sua própria satisfação. Ele atua porque outras vidas precisam de algo que somente ele é capaz de fazer. Ele não é um fracassado de última hora em busca de validação; é um homem funcional que ainda não foi chamado. Moisés também tinha outras ocupações quando a sarça ardente apareceu. Não existe horário para um chamado.
Existe uma cena que encapsula tudo: Sean O'Connell não captura a imagem porque aquele momento não deveria ser fotografado, mas sim vivido. “Às vezes, não,” diz ele. A beleza não precisa de observadores; ela pede presença. Walter descobre isso ao longo do filme: parar de documentar a vida e realmente vivê-la. O negativo que ele procura não é a fotografia que sumiu; é a validação que ele nunca pediu.
E este é o ponto crítico: muitas pessoas permanecem na espiral porque não desejam sair para servir, apenas para experimentar. Procura por adrenalina, não por vínculos. Busca-se experiência, não significado. O sentido não é algo que se descobre; é algo que se escolhe. É por essa razão que muitas viagens se transformam em um tédio dispendioso. É por essa razão que tantas pessoas exploram o mundo e continuam pequenas.
Se você vai investir, que seja para desfrutar a vida. Se não, então fique. Deslocar-se sem um objetivo não tem valor algum. A vida pequena assim como a cidade pequena, mata lentamente. A distinção está no fato de que, na maioria das vezes, a segunda opção é escolhida de forma mais entusiástica.
A pergunta não era "para onde ir?", mas sim "a serviço de quê?". O que sobra é um turismo existencial que parece bonito nas imagens, mas sem um propósito verdadeiro no coração.
Há uma questão que assola o ateísmo moderno como um incômodo metafísico: “Se Deus existe, por que Ele não realiza milagres sob demanda para atender às minhas frustrações pessoais e à minha vaidade ferida diante do espelho?” Isso se refere à teologia do pequeno mimado do universo. Nessa imagem mental, Deus aparece como um gerente de atendimento ao consumidor do universo, 24 horas por dia à disposição para receber reclamações do tipo “minha vida não saiu como eu queria, portanto o ser absoluto não existe”. Eu compreendo totalmente esse tipo de raciocínio porque já estive no lugar dessa pessoa. Já me sentei nessa cadeira intelectual torta. Já fui ateu de maneira bastante superficial, depois passei a explorar diversas religiões alternativas, cheguei a flertar com misticismos de consumo, até que fui obrigado, não por gosto, mas por uma questão de honestidade intelectual, a reexaminar de forma séria as questões metafísicas.
O ateu moderno, em geral, não refuta a existência de Deus por uma racionalidade exacerbada, mas sim por um egocentrismo excessivo. Ele não diz "não encontrei razões suficientes"; ele declara "Deus não agiu como eu esperava". Isso é o que se pode chamar de luciferianismo psicológico: a pessoa não quer negar Deus, mas quer que Deus seja submisso a ela. Você quer um Absoluto que seja domesticado e obediente, que apareça quando for chamado e que faça truques quando for provocado, como se o Criador do espaço-tempo tivesse a obrigação de participar de debates na internet ou vir até a Avenida Paulista para provar sua existência gritando com um megafone. A pergunta correta não é "por que Deus não faz o que eu quero?", mas sim "quem eu penso que sou para acreditar que o Todo deve obediência ao nada que sou?"
É aqui que se aplica o antigo "conhece-te a ti mesmo", gravado no templo de Delfos muito antes de surgirem quaisquer fóruns ateístas. Um ateu não carece de informações, mas de uma visão. Ele ignora deliberadamente o fato de que, na teologia tradicional que vai de Platão a Aristóteles, e de Agostinho a Tomás de Aquino, Deus não é uma entidade que reside no universo, mas sim o fundamento do próprio ser. Um Deus que está além do tempo e do espaço não atende a desejos passageiras como um velho ranzinza sentado em uma nuvem. Conforme Boécio ensina ao descrever a eternidade como “a posse total, simultânea e perfeita da vida sem fim”, ele observa o todo de uma única vez. Pedir que esse Deus faça algo para satisfazer desejos individuais é como insultar o mar por não moldar-se ao formato do seu copo.
Quando um ateu levanta a questão do mal, da morte, das tragédias, das injustiças, ele age como se estivesse diante de um roteiro mal escrito, sem perceber que ele mesmo está dentro da história e não fora dela. No terceiro capítulo, uma morte pode parecer sem sentido, mas é o que torna possível o capítulo cinquenta. Tomás de Aquino, ao tratar da providência divina, afirma que Deus permite certos males porque deles podem advir bens maiores, ainda que esses bens não sejam percebidos por aqueles que têm uma visão restrita do presente. A imagem da borboleta é defeituosa, mas proveitosa: um pequeno evento pode mudar toda a futura cadeia de causação. O ateu reduz a intricada realidade do mundo a algo simplista, joga isso fora e declara, com a calma de um chimpanzé irado, que “se Deus fosse bom, isso não teria acontecido”.
O conceito que o ateu moderno possui de Deus é bastante triste: uma mistura de Papai Noel, árbitro de futebol e mensageiro cósmico. Se Ele não atende aos pedidos, então "não é real". É curioso que esse mesmo ateu quase nunca tenha a ousadia intelectual de investigar outras tradições religiosas de maneira séria. Não pratica o hinduísmo, não participa de cerimônias pagãs e não se entrega a práticas espirituais intensas. É um ateu que fica confortável no sofá, um cético que compartilha memes e um crítico que escreve notas de rodapé. O ateu sincero — que é uma raridade — pelo menos se dedica a esse processo: ele investiga, se engaja, estuda, faz experiências, comete erros e retorna. Se, depois desse pensamento, ele ainda se vê como ateu, ao menos não é desonesto intelectualmente. No entanto, a maior parte das pessoas escolhe a covardia confortável de negar sem buscar informações.
É a partir daí que surgem as grandes bobagens, como a afirmação de que o Deus da Bíblia seria uma combinação mal elaborada de deuses pagãos. Isso ignora séculos de pensamento filosófico e teológico. Quando Tomás de Aquino discorre sobre o logos spermatikos, estoico, ele aponta que Deus se manifestou parcialmente em diversas culturas e que o problema não está na revelação, mas na deformação humana dessa revelação. Isso não reduz o monoteísmo do cristianismo; de fato, o fortalece. A revelação total não anula a parcial, mas as ordena. A pergunta "se Deus é perfeito, por que não se revelou de maneira perfeita desde o começo?" levanta uma objeção interessante. uma visão infantil sobre o que é história. As religiões também têm o papel de ensinar a viver com as diferenças, criando um campo intelectual, simbólico e filosófico para entendimentos que virão.
No judaísmo antigo não havia uma ideia clara de messianismo, como viria a ser desenvolvido depois. Com o tempo, essa noção foi aprimorada através da interação com ideias gregas, incluindo Platão, Aristóteles e o conceito de logos de Sócrates, que, por sua vez, se baseavam em tradições ainda mais antigas. Isto não é contaminação; é, por oposição, manifestação histórica da razão. O cristianismo surge em um contexto onde o mundo já estava intelectualmente apto para recebê-lo. Ignorar isso é ignorar também história, sociologia, filologia e filosofia, e para tanto é preciso se esforçar muito.
Quando um ateu pede para que se tome a Bíblia ao pé da letra, como um livro de crianças, ele não está preocupado com a verdade, mas com a falta de competência hermenêutica. Ler obras do passado sem considerar a abordagem histórica, a análise do gênero literário ou o contexto cultural é uma forma de analfabetismo elegante. É desejar ler Heródoto como um relatório do tempo e depois se divertir porque “não bateu com os dados”. Como disse Chesterton, “o problema não é que o cristão leve a Bíblia muito a sério, mas que o crítico a leve pouco demais”.
No fundo, o ateu atual não nega a existência de Deus, mas descarta a ideia de transcendência que o obriga a sair do centro do universo. Ele ignora o fato de que, de acordo com a visão tomista, o livre-arbítrio do homem não é oposto à soberania de Deus, mas a pressupõe. Deus oferece muitas oportunidades, mas as escolhas individuais e coletivas das pessoas definem o destino do mundo. A providência não é um caminho rígido, mas uma composição musical adaptável, onde cada instrumento é crucial. Dostoiévski disse: “cada um é culpado por tudo e por todos”. Isso é demais para quem prefere colocar a culpa no acaso ou na apatia.
O Deus descrito na Bíblia não é apenas uma fusão de várias divindades mitológicas; ele é o Deus que se manifesta através da razão filosófica, o “Motor Imóvel” conforme Aristóteles, o Bem em si segundo Platão, o Uno que não apenas não rivaliza com o mundo, mas que o sustenta. Antes do advento da linguagem filosófica grega, Abraão já operava segundo essa lógica. Estes nomes — Elohim, Adonai — não são deuses distintos, mas diferentes expressões lingüísticas para o mesmo princípio do ser, o que é claro para qualquer um que tenha um pouco de noção histórica antiga.
Em resumo, a crítica ao ateísmo atual não é um ataque sem objetivo, mas um aviso: não confunda revolta emocional com lucidez intelectual. Não transforme a ausência de reflexão em uma qualidade moral. Se você pretende negar a existência de Deus, que seja de forma séria e consciente. Aprenda, investigue, arrisque. Se não for assim, você não é um pensador livre, mas apenas um reclamante frustrado em um mundo que se recusa, com alegria, a girar em torno do seu próprio umbigo.
Não se sabote por bobagem; o mundo já se autossabota com uma eficiência industrial que não precisa da sua ajuda voluntária. A maior parte da autodestruição humana não vem de um mal querer elaborado, mas de uma dor mal resolvida. Beber demais, prejudicar-se moralmente e entrar em colapso psicológico não é resultado de um excesso de tragédia, mas sim da falta de reflexão sobre suas ações. É o rancor camuflado de escolha. Uma resistência metafísica à realidade, como se o cosmos fosse um parente indesejado que poderia ser punido por meio da autossabotagem.
Isso ocorre com frequência entre os mais jovens, o que se torna quase compreensível. A juventude é o momento em que se acredita que sentir algo profundamente é o mesmo que conhecê-lo. A questão aparece quando, aos trinta e cinco, quarenta anos, a pessoa ainda carrega a frustração como se fosse uma filosofia de vida. Nesse caso, não é imaturidade, mas sim apatia moral. No livro Ética a Nicômaco, Aristóteles dizia que o vício é resultado da ausência de um hábito virtuoso, e não do excesso de emoção. Sentimento sem forma vira barulho; dor sem sentido vira lama.
Não estou sendo estoico no sentido típico do Instagram quando digo que já passei por depressão e que, no meu caso, foi uma tolice decorrente de um raciocínio filosófico falho. Estou dizendo algo que é ainda mais insultante: eu estava errado sobre o mundo. A minha visão metafísica era torcida, a minha ética era débil, e eu procurava significado com a urgência de quem exige da realidade respostas instantâneas. Segundo Viktor Frankl, em Em Busca de Sentido, a falta de sentido não destrói porque dói, e sim porque desorganiza. A dor é suportável; o vazio, insuportável.
Foi somente ao descobrir uma estrutura lógica, na qual o catolicismo se insere, que as peças passaram a se encaixar. Não por um alívio emocional superficial, mas por raciocínio. Na Suma Teológica, Tomás de Aquino não conforta; ele ordena o universo. A Igreja Católica conseguiu se manter porque nunca tentou ser excessivamente amigável. Diferente de certas versões protestantes que transformaram a moral em um interruptor kantiano, onde tudo tem o mesmo peso, a mesma culpa e a mesma seriedade. Roubar uma arma e matar alguém se tornam parentes metafísicos próximos. A realidade, condensada em um meme.
No âmbito da Crítica da Razão Prática, Kant argumentava que a moral deveria ser isenta, universal e não dependente das situações. Com uma ironia polida, Aristóteles perguntaria se Kant já havia se deparado com um ser humano real. A vida ética exige phronesis, isto é, discernimento prático. Sem isso, as regras se tornam excessivas e a humanidade se perde. Quando a ética morre, a psicologia vira tirania.
É por isso que sempre defendi que todo psicólogo deveria se aprofundar na filosofia antes de se aventurar a tratar da alma alheia. Sem ética, a psicologia é uma engenharia emocional irresponsável. Freud, ao se deter de maneira obsessiva em reduzir o homem à libido, transformou o drama moral em um problema hidráulico. Tudo é interpretado como uma forma de repressão sexual, como se a figura de São Francisco de Assis carregasse apenas questões não resolvidas relacionadas à sua mãe. Não é detalhado; é raso e com jargão técnico.
O resultado disso é este triste show de terapeutas dizendo às pessoas para seguirem qualquer impulso simplesmente porque existe. "Você sente, logo é verdadeiro." Isso não é uma forma de se libertar; é abrir mão da lógica. Tomás diria que a consciência não é um alto-falante do desejo, mas um juiz orientado para o bem. Atender a todos os impulsos não é sinônimo de coragem; é, na verdade, uma forma de covardia disfarçada de autenticidade.
Às vezes, não se destruir é simplesmente resistir ao psicologismo moderno. Desconfie desse incessante chamado ao vício disfarçado de promoção do bem-estar. Aqueles que apenas procuram a satisfação se tornam prisioneiros de seus próprios anseios. Aqueles que aspiram à virtude, mesmo quando cometem erros, criam algo que perdura. O jovem que erra por falta de conhecimento ainda pode ser perdoado. O adulto que se deixa levar por uma ideologia já escolheu um lado.
Esse raciocínio se aplica também aos relacionamentos interpessoais. O medo de entrar em combate é, talvez, a mais comum das cobardias do homem moderno. Evitar discussões passou a ser considerado um sinal de maturidade, quando na verdade é apenas medo camuflado. Michael Jordan, que definitivamente não era um monge beneditino, entendeu isso mais do que muitos filósofos de sofá. Quando dizia que tinha mais paciência do que coragem, não era passividade, era controle interno. Ele não competia com o futuro ou o passado; ele competia com a próxima jogada. O que sobrou era apenas ruído mental.
Jordan errou muitas vezes, como ele mesmo disse, mas isso não é uma frase motivacional, e sim uma descrição ontológica. O insucesso não o incomodava, pois ele não se considerava um fracassado. Essa é a diferença entre errar e se sabotar. Um recebe lições; o outro é castigado. Nesse sentido, quem é preciso tem a paciência como seu instrumento. A falta de paciência muitas vezes leva a erros ainda maiores.
A modernidade dissemina a ideia de que a liberdade é poder fazer tudo o que se quer. Aristóteles chamaria isso de escravidão infantil. A verdadeira liberdade consiste em escolher não se deixar dominar por seus próprios anseios. Ter o tesouro diante de si e ainda assim não se curvar diante dele. Como eu sempre digo, Deus às vezes pune concedendo desejos. Veja se consegue.
Há casos reais e cruéis disso fora da ficção. Homens que são ricos, famosos e influentes, cercados por mulheres e desfrutando de tudo o que a visão masculina idealiza como um paraíso, ainda assim se sentem vazios, instáveis e angustiados. A paz não é algo que se adquire, visto que não é um item; é um estado de harmonia interna. Sem essa ordem, nenhuma mansão consegue se resolver.
A vida, então, se encarrega de nos lembrar que ninguém está isento. Então, de repente, um cara ideal, em forma e inteligente, acima da média em todos os aspectos, recebe um rótulo de terminal. A ciência determina três meses. Ele treina há nove anos. Sem promessas, sem obrigações, sem proteção. É um sucesso. Não por mérito, mas por teimosia. Quando diz que a vida bateu nele e o fez valorizar cada segundo, não está filosofando; está narrando uma experiência de vida. Só quem lida com o fim dá o devido valor ao que realmente importa.
No sétimo volume da série Harry Potter, As Relíquias da Morte, encontramos uma perspectiva que a modernidade insiste em ignorar. Quando Dumbledore diz que algo que se viveu na cabeça não é menos real, ele se refere a uma verdade psicológica óbvia e a uma metafísica inquietante. O que está dentro determina o que está fora. O efeito placebo não é um milagre; é uma evidência. A ansiedade que surge sem gatilhos externos é um indicativo de que a realidade não se origina no exterior.
Nesse sentido, a depressão é um estado interno cristalizado. Pode até ter um início externo, mas quem realmente alimenta isso é o próprio indivíduo. Aquele que pensa que só o mundo exterior é real será sempre escravo do que acontece ao seu redor. Quando você percebe que o interior também cria o exterior, a responsabilidade retorna, junto com a chance de mudar. Não é magia; é ontologia prática.
Mas há um preço a se pagar. Não dá para ser tudo de uma vez. Esse discurso atual que sugere ser possível ser o maior empresário, o pai perfeito, o atleta exemplar e o monge sereno é uma falsidade disfarçada. Escolher uma meta alta implica sacrifício. Aqueles que almejam se destacar em alguma área devem estar dispostos a aceitar derrotas proporcionais. Whiplash mostra isso de maneira brutalmente sincera: a excelência tem um custo. A questão não está em pagar o valor; mas sim em agir como se ele não estivesse lá.
Não se destruir por falta de sabedoria, portanto, não quer dizer viver com receio, mas sim optar deliberadamente pelo que realmente vale a pena enfrentar sofrimento. A destruição sem propósito já é excessiva em todo o mundo. A questão que realmente se impõe é: por que você permite ser devorado? Todos nós, mais cedo ou mais tarde, seremos consumidos. A questão é saber se isso se transformará em cinzas sem valor ou em algo que ainda possua significado quando a poeira baixar.
A coragem transformou-se em um adorno verbal, já que o mundo que a cultivava foi sendo desconstruído, e agora esperam que o homem aja como se ainda tivesse o seu manual original. Quando, ao caracterizar a andreia na Ética a Nicômaco, Aristóteles fala de uma virtude que domina o medo frente ao que efetivamente merece ser temido, não está pensando em bravatas de rapazes ou em heroísmo de teatro. A questão é que o presente impõe ao homem velhas obrigações com novas punições, como se fosse justo exigir sacrifícios de quem foi legalmente desarmado. Chamam isso de maturidade; na verdade, é apenas uma desorganização institucional que parece ser moral.
Com a confiança serena de quem já passou pela ponte antes que ela caísse, os mais velhos costumam dizer que os jovens devem “proteger mulheres e crianças”. A afirmação pode parecer digna até que se levante a questão: proteger sob qual jurisdição, com que garantias e assumindo quais obrigações legais? Em sua Suma Teológica, Tomás de Aquino argumenta que nenhuma virtude age sem um contexto; toda ação moral necessita de ordem, intenção e harmonia. Demandar coragem sem conceder reconhecimento é equivalente a obrigar alguém a pular em um rio com as mãos amarradas e, depois, processá-lo por ter molhado a beira.
A geração que atualmente censura a próxima por falta de coragem desenvolveu-se em um tempo de prosperidade econômica, relativa estabilidade social e fronteiras morais mais claras. Eric Hobsbawm descreve o século XX como um "breve século" cheio de contrastes, mas até suas crises tinham estruturas reconhecíveis. No século XXI, o ouro virou pó radioativo: brilha ainda nos discursos, mas envenena quem o toca. Não é uma decadência romântica, mas uma entropia social administrada por burocratas que jamais enfrentam as repercussões das regras que impõem.
O resultado disso é, de fato, muito simples e bastante incômodo: o homem funcional, que é trabalhador, responsável e comum, no sentido mais positivo do termo aristotélico, tornou-se descartável do ponto de vista legal. Não devido a uma conspiração de natureza metafísica, mas em decorrência da sobrecarga de legislações que são desiguais. O Estatuto da Criança e do Adolescente, necessário e justo em seu propósito, é muitas vezes usado para tratar todos os pais como suspeitos. Conflitos do casal, que antes eram vistos apenas como brigas e eram resolvidos no âmbito da Lei Maria da Penha, passaram a ser tratados como presunção penal, uma vez que a interpretação da lei foi feita para abarcar também a violência não comprovada, ou seja, a mera alegação da vítima já é suficiente para se configurar a violência. O Código Florestal visa proteger a fauna e a flora, mas o efeito simbólico é cruel quando a vida humana ordinária parece ter menos valor do que um engano administrativo relacionado ao meio ambiente. Não é uma questão de que as plantas “tenham mais direitos”; é que o ser humano perdeu os seus sem que ninguém tivesse a coragem de informá-lo formalmente.
No livro Ortodoxia, Chesterton dizia que o louco não é quem perdeu a razão, mas quem perdeu tudo, exceto a razão. A modernidade jurídica deixou o bom senso de lado, mas manteve uma lógica interna impecável, que se sustenta por si mesma. Dentro desse sistema, o ser humano é apenas um trabalhador, um dado em uma estatística, um risco que pode ser avaliado. Esperar que ele demonstre um altruísmo heroico neste contexto é como pedir a um parafuso que desenvolva uma vocação espiritual. Só nos discursos vai; na vida real, nada.
A narrativa prevalecente continua a ver o homem como um opressor abstrato, uma classe moral, não como um indivíduo real. No Genealogia da Moral, Nietzsche explica como a inversão de valores transforma força em culpa e fraqueza em virtude. O ressentimento necessita de um vilão definido para continuar existindo, e o homem comum é perfeito para esse papel: forte o bastante para ser visto como culpado, mas distante o suficiente para não ter que dar explicações. Isso é denominado justiça histórica, mas na verdade se trata apenas de uma falta de análise disfarçada de um messianismo.
O efeito psicológico é devastador. Desde muito jovem, o homem aprende que sua dor não tem importância, seu erro é inaceitável e seu papel pode ser facilmente substituído. Quando um menino apanha, ele aprende a lidar com isso. Quando uma menina se pôs a chorar, descobriu que o mundo ao seu redor precisava silenciar. Não é malícia, é pedagogia simbólica. Platão já alertava em A República que a educação não oficial tem uma capacidade de formação superior a qualquer legislação. Depois, perguntam por que os adultos estão sempre tão tensos.
No âmbito dos relacionamentos amorosos, a disparidade se transforma em uma roleta russa legal. O divórcio sem causa, legitimado como liberdade civil, com presunções automáticas de guarda e partilha, produz incentivos que nenhum economista de boa reputação deixaria de observar. No The Negro Family, Patrick Moynihan mostrou como políticas públicas mal concebidas promovem a desintegração de laços ao premiá-la. Não foi intenção ruim; foi descuido na gestão. A ignorância, quando se converte em legislação, transforma-se em um trauma que afeta a todos.
O homem sente isso de maneira instintiva e se afasta. Não por desprezo às mulheres, mas por uma tática de sobrevivência. Aristóteles chamaria isso de uma prudência mal direcionada; não é uma virtude, mas também não é insensatez. É a resposta de quem está imerso em um jogo cujas regras se alteram durante a partida, e a responsabilidade é sempre analisada após os fatos. A sociedade considera isso covardia; na verdade, é uma desconfiança racional.
O discurso moral hegemônico ainda exige que ele seja gentil, cuidadoso, submisso e silente, uma espécie de servo ético universal. Tomás lembraria que a caridade sem justiça é um sentimentalismo nocivo. Amar o próximo não é sinônimo de deixar que ele nos arruine legalmente. Quando a ética se curva à psicologia de massas, o que se consegue não é empatia, mas manipulação emocional legitimada por lei.
Não se trata de um exagero retórico, mas de uma observação empírica que revela a metáfora das castas. Em vez de hinduísmo literal, é uma hierarquia de símbolos. Alguns grupos são vistos como um fim em si mesmo, enquanto outros são considerados meios descartáveis. Kant, que tanto exaltava a dignidade, certamente teria dificuldades em reconhecer sua própria teoria na prática atual. A dignidade passou a ser seletiva, condicionada e quase como uma atuação. A funcionalidade do homem não produz capital moral; logo, isso é ignorado.
Isso não significa que o homem deva se tornar um cínico de carreira ou um misantropo ativista. Chesterton nunca pregou o rancor; ele ria porque tinha conhecimento da verdade. A resposta não é criar uma antipatia por mulheres, crianças, animais ou plantas; isso é só uma caricatura forjada por mentes preguiçosas. A chave está em recuperar a noção de propósito. Qual o propósito de um homem? Aristóteles responde: para atingir sua excelência tanto racional quanto ética. Tomás complementa: orientando suas vontades para o que é bom. A cultura contemporânea responde: para agir em silêncio.
Enquanto essa última definição se mantiver, haverá sempre necessidade de coragem de quem apenas é punido, de sacrifício de quem não tem altar, de virtude de quem está treinado para ser suspeito. E assim, referirão ao colapso que se seguirá como “crise de masculinidade”, como se o termômetro fosse o problema e não o incêndio.
O discurso redpill é tão convincente para homens que ainda conseguem realizar cálculos simples sem solicitar autorização ao Ministério da Verdade porque deriva de uma avaliação empírica do risco. Não de uma teoria elaborada, mas de um registro oculto onde o homem moderno percebe, com dificuldade, que cada relação se transformou em um passivo legal. Quando Tomás de Aquino fala de prudência na Suma Teológica, não está falando de timidez social, mas de saber agir segundo a realidade. A experiência da vida mostrou a esses homens que o carinho hoje em dia é com penalidade.
Nesse sentido, a mulher é percebida como o perigo mais claro, não devido a uma essência ontológica, o que seria uma tolice metafísica, mas por sua posição dentro da estrutura institucional. O redpill não odeia mulheres; odeia o Direito Administrativo disfarçado de romance. Aristóteles já avisava que a injustiça não está no indivíduo, mas no sistema que recompensa o exagero (Ética a Nicômaco). Quando a legislação premia o acesso emocional e pune a intenção, o cálculo passa a substituir a virtude. E lidam com isso como um avanço da civilização, tão naturalmente quanto se fala em ressaca como uma “experiência”.
É por isso que o homem se torna capaz de identificar qualquer coisa como uma ameaça em potencial: uma mulher, uma criança, um animal, uma planta, um fungo, um líquen e, se não tiver cuidado, até mesmo o ar que respira. Não por ter perdido a sanidade, mas por ter compreendido como se adaptar a um sistema onde a culpa é aceita e a defesa, questionável. No livro O Homem Eterno, Chesterton dizia que o dilema do mundo moderno é a falta de crença em qualquer coisa, enquanto, por outro lado, leva tudo muito a sério. O redpill é uma consequência ilegítima disso: desconfiado do amor, mas submisso ao medo.
É aqui que a crítica dolorosa aparece, atingindo ambos os lados. O redpill tem um diagnóstico social preciso, mas erra gravemente no diagnóstico humano. Ele combina cautela com timidez, e sagacidade com abandono. Tomás lembra que a verdadeira virtude é o meio-termo, e não a fuga elaborada (Suma Teológica, II-II). Desistir do jogo pode parecer uma escolha lógica, mas muitas vezes é apenas medo camuflado com termos técnicos. O problema não é perceber o risco, mas usar o risco como razão para abdicar do próprio telos.
Em Além do Bem e do Mal, Nietzsche explica como o ressentimento pode se masquer de clareza. O homem que diz "não preciso de ninguém" geralmente está expressando "não quero arcar com as consequências de ser responsável". A sociedade o ensinou a duvidar de maneira justa, mas ele aprende a desprezar de forma injusta. Nesse caso, a coragem clássica é substituída por uma forma de autopreservação mais limpa, que não constrói nada, apenas previne processos.
A fixação do redpill na hierarquia invertida é, sem dúvida, seu lado mais ridículo. Para ele, a mulher é brâmane jurídico, a criança, instrumento simbólico, o animal, objeto moral, e a planta, ídolo verde. Sim, tudo isso pode ser observado. Entretanto, transformar essa observação em uma cosmovisão é abrir mão da filosofia em troca da estatística. Platão já dizia, em A República, que a alma que só reage ao exterior é escravizada por ele. O redpill reage; dirige raramente.
Ela é, por sua natureza, profundamente anticristã e, portanto, antitomista. Não porque Cristo fosse ingênuo, mas porque Ele sabia que sacrifício não significa ser tolo. O homem que se isola totalmente da humanidade não é cauteloso; ele está transferindo sua responsabilidade para o trauma coletivo. O trauma não deve ser visto como um critério ético. A psicologia explica o medo, mas nunca o vê como um fim em si mesmo.
A cruel ironia final é que, enquanto o redpill condena o mundo por tratar o homem como dispensável, ele adota uma ética que faz exatamente isso. Transforma-se em um corpo de defesa, ao invés de um agente moral. Chesterton ressuscitava os pessimistas por acreditarem que eram realistas. "O pessimista", escreve em Ortodoxia, "é aquele que se queixa de que as rosas têm espinhos, enquanto o otimista se alegra porque os espinhos têm rosas". O redpill apenas enxerga o espinho e se orgulha disso.
É sensato reconhecer que a sociedade converteu relacionamentos em verdadeiros campos minados. Escolher viver perpetuamente curvado, aguardando a explosão, é uma forma de covardia com um diploma não oficial. A verdadeira coragem atualmente não se resume a ser o herói romântico ou o eremita legal, mas sim em recuperar a phronesis: agir com lucidez sem renunciar à própria humanidade. A pessoa que troca a virtude por uma proteção absoluta não derrotou o sistema; ela apenas se tornou o seu mais fiel produto.
O diagnóstico, feito de maneira direta, não vem de um grupo obscuro ou de um coach amargurado: ele aparece quando a pessoa analisa o que acontece ao seu redor e percebe, com a mesma surpresa de alguém que descobre que a gravidade não faz concessões, que seu valor jurídico está abaixo do simbólico, do ornamental e, em algumas situações, até abaixo do valor de uma planta protegida por decreto. Não é ódio, é remoção. A resposta imediata não é queimar a pólis, mas sim sair pela porta dos fundos, levando consigo a dignidade que ainda persiste no bolso do casaco. No livro I de Política, Aristóteles não tem uma visão idealizada sobre essa questão: ninguém pertence a uma cidade que o considera apenas como um meio; o resto é apenas retórica para aqueles que não enfrentam as consequências.
A leitura redpill identifica corretamente o estado das coisas, mas falha na proposta de solução. Identifica a doença, mas sugere a amputação da alma por medo da febre. Na Suma Teológica (I-II, q.57), Tomás de Aquino explica que a prudência não é uma covardia requintada; é a razão prática pondo em ordem os meios para se chegar aos fins. Abandonar o jogo devido à inclinação do tabuleiro é substituir uma injustiça externa por uma autossabotagem intencional. É um mau negócio em qualquer época, mesmo nesta, que incentiva a desistência como se fosse uma forma de sabedoria.
É justo afirmar que a metafísica jurídica contemporânea cria incentivos nocivos, ocultando essa anomalia sob uma fachada de inocência ideológica. Em Ortodoxia, Chesterton critica a modernidade inventiva que exige virtudes heroicas de pessoas comuns e depois se espanta quando elas se esgotam. O que não pode acontecer é atribuir à fadiga a mesma clareza de pensamento. O realismo áspero que se desliza para a metafísica do ódio converte-se em niilismo de gravata: rancor travestido de brutalidade evidente.
Quando se transforma cada mulher em uma mera questão legal em movimento, a análise se torna uma superficialidade disfarçada de profundidade. É verdade, existe um risco legal potencial, assim como o existe para animais, crianças, plantas, energia, areia protegida e tudo o que pode ser afetado por um decreto. Reconhecer o risco é agir com sabedoria; transformá-lo em algo definitivo é obstruir o propósito. Na Ética a Nicômaco, Aristóteles diz que a phronesis julga o particular, sem apelar a generalizações medrosas. Chamar isso de "realismo" é recompensar a falta de ação.
A compreensão do cenário, por parte dos adultos, vai além da simples fuga; trata-se de uma ação bem planejada. Quando há disparidade de direitos, a resposta não é o isolamento digital nem a anti-sociabilidade exibicionista; é política no sentido clássico: participação ativa. A tradição clássica não manda destruir a cidade por errada; manda corrigi-la. A vida boa não se altera em função do fim; altera-se, sim, em função dos meios, diria Aquino. Os métodos, nesse caso, são civis, regulares, abertos e sem alarde.
Movimentos masculinistas que se manifestam apenas como um desabafo virtual produzem uma catarse emocional, em vez de promover mudanças. Se o diagnóstico é sério, o tratamento também deve ser. Direitos não são equilibrados através de um vídeo de quinze minutos; eles são restaurados por meio de organização, pressão sobre instituições, confrontos culturais e uma comunicação que não trata o interlocutor de maneira condescendente. A batalha entre os sexos decorre dos sistemas que uniram a proteção à mulher à sacralização do direito. Destronar ídolos exige uma abordagem paciente, não um surto filosófico.
O equilíbrio entre o homem e a mulher não é apenas uma poesia; é a base essencial da realidade. Na Suma (I, q.92), Tomás debate a sequência das naturezas, distinguindo a equivalência moral da identidade de funções. Conceder direitos maternos não implica em aceitar uma assimetria total que reduza o homem a um mero adereço. Justiça é equilíbrio; desequilíbrio é ruído ideológico.
Portanto, o redpill não precisa ser alguém que acusa constantemente; ele deve ser uma solução, e muitas vezes, essa solução causa desconforto, pois exige disciplina. Menos desperdício, maior propósito. Menos mágoa metafísica, mais prudência pragmática. Menos veneração à rendição, mais bravura bem fundamentada. Aqueles que associam clareza mental à falta de compromisso trocam um propósito definido por uma aprovação interna. E, como o próprio Chesterton diria com um sorriso meio torto, isso é sacrificar a cidade em nome da preservação do espelho.
Em cada um de nós, existe uma certa dose de futilidade. O problema surge quando essa pequena dose se converte em um plano de vida. Falo dessa futilidade velada e serena que nos invade quando julgamos o próximo: “Ah, essa pessoa precisa se vestir assim para ser decente” ou “Ela só vale a pena se estudou isso ou aquilo”, como se o valor humano fosse uma fórmula composta por certificados e estilo pessoal. Não, não é uma questão de moralidade; é uma questão de imagem, de aparência, de mérito aparente. E nos tornamos criaturas monstruosas e plácidas, juízes severos de todos aqueles que ousam existir fora dos limites da nossa mediocridade.
O verdadeiro perigo não é o preconceito em si, mas transformá-lo em um modo de vida, em uma orientação moral, em um projeto de vida. Você não confia em ninguém que não se encaixe em certos padrões, não porque considere essa pessoa má, mas porque, em silêncio, decidiu que a medida do mundo será a sua própria limitação. Isto abrange todos os aspectos: educação formal, leitura, comportamento social, sexualidade, gênero e estilo de vida. E enquanto você se entrega a essa falsa realidade, a santidade, de fato, escapa pela saída dos fundos.
É ao mesmo tempo engraçado e lamentável constatar como frequentemente confundimos esforços que não levam a lugar algum com a verdadeira grandeza. Tem gente que vive por grana, por contratos com bandas de faculdade, tentando crescer, garantir notoriedade, status. Tudo isso não serve para nada. Isso tudo devora a alma mais depressa do que qualquer prazer carnal. O funk, o sertanejo universitário, a "arte" comercializada e sexualizada; cada centavo conquistado é como um pequeno golpe na própria santidade. Você acredita que está construindo algo, mas na verdade está cavando um buraco espiritual, aliviando sua consciência com boas ações que mal disfarçam a sujeira do processo.
E não se engane: mesmo o preconceito mais sutil pode causar grande devastação. Não precisa ser uma distinção baseada na raça ou no gênero; é suficiente ter um critério ético que defina quem é digno de atenção e quem não é. Todos têm algum preconceito. A questão é saber se ele tem controle sobre sua própria vida. Há uma distinção sutil entre o preconceituoso violento que cria políticas de destruição e o “Adolfinho” da vez, que acredita apenas estar filtrando opiniões e preferências. No entanto, o resultado permanece o mesmo: afastar-se da santidade. Quando a futilidade interna se torna visível, ela se transforma em uma arma silenciosa, tanto contra o indivíduo quanto contra a humanidade.
É por isso que Cristo afirmava: se a tua mão te levar a pecar, corta-a; se o teu olho te enganar, arranca-o. Não porque o corpo seja algo desprezível, mas porque é o local onde a alma luta suas batalhas. Substitua os pecados da carne por aqueles que são próprios dos nossos tempos: uma vida centrada na imagem, na aparência, no prestígio duvidoso e na superficialidade que você considera um projeto de vida. Isso tudo precisa ser removido. A santidade não é algo que se pode negociar ou adaptar às modas e pressões da sociedade. Ela exige de si mesmo uma brutalidade, uma integridade moral, e a audácia de admitir que o que você mais ama, muitas vezes, está te devorando.
Mas eis a questão: viver dignamente não é sinônimo de existir decorado com likes, contratos ou olhares de aprovação. Uma vida que vale a pena viver é interna, invisível, tranquila e resistente. Sempre que você se dá conta de que sua futilidade se transformou em um estilo de vida, pode optar por continuar na rota do espetáculo ou retirar aquilo que devora sua alma. O que é fácil, agradável e bem visto pela sociedade raramente é algo que eleva; na maior parte das vezes, leva ao fracasso.
Então, pergunte-se: você trabalha para ser santo ou apenas para parecer ocupado? Para estabelecer uma ligação com Cristo ou apenas para suprir a carência gerada pela própria infelicidade? Isso ocorre porque, enquanto a sociedade celebra o que é superficial, o sagrado permanece em silêncio, sendo exigente e eterno. Jamais foi tão crucial, seja de maneira metafórica ou quase literal, amputar um membro ou extirpar um olho.
Para facilitar a sua compreensão, farei uma interpretação simbólica do texto "O Ensino por Trás do Nobre Dragão: A Sabedoria de Paarthurnax".
Ser bom é a escolha mais difícil do mundo. Não é algo que Deus dá ou que o universo presenteia aleatoriamente. No seu Ética a Nicômaco, Aristóteles é impiedoso: a virtude não nasce com você nem se desenvolve sozinha. Ela se forma, ato por ato, esforço por esforço, até que o bem se torne um hábito. E se você pensar em Paarthurnax, o dragão sábio de Skyrim, verá essa mesma lição claramente estampada nas escamas de uma criatura antiga: ele foi feito para causar destruição, para disseminar chamas e morte, mas escolheu, dia após dia, lutar contra sua própria natureza.
Paarthurnax nos provoca: é melhor ser bom de nascença ou ser bom lutando contra o mal? Aristóteles teria uma resposta para isso, com um sorriso ao mesmo tempo irônico e sério. Ele, um ser de poder ilimitado, com olhos que viram o tempo passar, poderia arrasar cidades e exterminar nações, e ninguém seria capaz de impedi-lo. No entanto, ele não o faz. Ele prefere esperar, ser justo e ser sábio. Não porque não reconheça a maldade que vive em seu íntimo, mas porque compreendeu que a verdadeira grandeza da alma, a magnanimidade, conforme diria Aristóteles, consiste precisamente em ter a capacidade de fazer o mal e, mesmo assim, optar pelo bem.
A cruel beleza da ética se revela aqui: a virtude não é a falta de impulsos ruins, mas sim a resistência consciente a eles. É ser mais do que a própria natureza que te leva à autodestruição. É levantar todo dia e decidir não ceder aos impulsos mais primitivos, não permitir que a força, o desejo ou o ódio ditem suas ações. Construir a bondade como uma fortaleza, tijolo por tijolo, hábito por hábito.
Quando Paarthurnax olha nos olhos do Dragonborn e pergunta se é melhor ser bom do que se tornar bom, ele nos provoca a pensar para dentro. Ele levanta a questão: o que é mais virtuoso, não experimentar o mal ou triunfar sobre ele? Aristóteles não hesitaria: a ética genuína é uma forma de transcendência. É uma ordem. É um trabalho. É escolher ser mais do que o que já se é. Nesse desafio, todos nós nos tornamos Dragonborn de nossas vidas, encarando e domando nossos próprios dragões.
Então, agora, de forma direta e sem rodeios, eu lhe pergunto: que parte de você ainda precisa ser superada? Que sombra interna você ainda tolera? A bondade não é um ponto de chegada, mas sim um caminho a ser percorrido. Não se trata de um presente, mas sim de uma conquista. Somente aqueles que escolhem ser bons todos os dias, com a maldade batendo à porta, conhecem a verdadeira grandeza da alma.
Paarthurnax é muito mais do que um dragão inteligente em The Elder Scrolls V: Skyrim. Ele é um ser escamoso que a história nos oferece para que possamos encarar nosso próprio semblante, um semblante de decadência e força, de pobreza e grandeza coexistindo, como se a trajetória do mundo estivesse concentrada naquela criatura ancestral. Ele nos lembra, de maneira dolorosa, que também somos Praça, que também viemos ao mundo com inclinações para o mal, que também lidamos com a tentação de oprimir o outro apenas por termos a capacidade de fazê-lo, e que também carregamos dentro de nós o veneno primitivo dos instintos. Contudo, diferentemente do que algumas teologias protestantes luteranas ou calvinistas sustentam, com a presunção de terem descoberto a verdade definitiva, a virtude não se resume a um mandamento divino que cai do céu como confete de carnaval.
Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles nos ensina que a virtude não é um dom dos deuses, dado a uns poucos privilegiados, mas um hábito construído a partir da repetição de atos morais, escolhas conscientes e resistências, até que o bem se torne parte de nossa natureza. É crucial notar que Aristóteles nunca afirma que o homem se torna virtuoso devido à imposição divina. A virtude é algo que se conquista, e não um privilégio. E Paarthurnax, o dragão que poderia ser o símbolo da destruição, é a verdadeira representação desse conceito: ele luta contra sua própria natureza, contra o que deveria ser biologicamente, sim, mas escolhe ser aquilo que é positivo por sua própria vontade, e não por pressão externa.
Esse movimento é muito semelhante ao que a Igreja, na sua tradição católica, chama de santificação, isto é, o contínuo elevar-se moralmente pelo livre-arbítrio. Não existe santificação automática nem graça que elimine a necessidade de escolher. Há uma graça que capacita a optar pelo bem, mas a escolha ainda é do homem. É aqui que o paralelo com Paarthurnax se aprofunda: ele não é um ser ‘destinado’ a ser bom. Ele é alguém que se opôs a sua própria tendência para o mal.
Isso é o oposto das visões simplistas que encontramos no calvinismo ou no luteranismo tradicional. Essas doutrinas parecem se deliciar em transformar o ser humano em um "saco de merda coberto de neve", incapaz de fazer escolhas e condenado a ser inútil sem a intervenção divina inevitável. Para a tradição cristã ortodoxa, especialmente no que se refere ao pensamento patrístico e tomista, o ser humano não se resume a isso; ela reconhece a tragédia da queda e a habilidade da liberdade humana em cooperar com a graça. É uma ética moral à la Paarthurnax, o dragão que poderia ser a força do caos, mas escolhe ser o governante da paciência.
Você pode se perguntar se Paarthurnax, dentro do cânone de Skyrim, está associado a algum culto ou religião oficialmente reconhecida no universo do jogo. A resposta mais honesta seria: não, não de forma clara ou rígida como entendemos no mundo real. Em Skyrim, os dragões não têm uma crença religiosa estruturada como a nossa. No entanto, sua filosofia possui uma dimensão mais sutil: ele é um paradoxo moral em constante evolução. Ele representa um ethos que, em muitos aspectos, é mais semelhante à ética clássica e à espiritualidade ascética do que a muitos sistemas teológicos sérios que realmente existem. Ele ilustra que ser virtuoso não significa não ter maus impulsos, mas sim resistir a eles, da mesma forma que Aristóteles argumenta.
Isso nos leva a uma verdade inquietante: a santidade, ou algo que se assemelha a ela, pode ser alcançada por um ser destinado à destruição. Isso nos leva a pensar na ideia de que o mal é inevitável e o bem é apenas a ausência de escolha. De jeito nenhum. O bem é uma decisão contínua, um empenho constante. Não existe santidade sem batalha. Não existe grandeza sem resistência. Não existe bondade sem o conflito interno contra o próprio eu corrompido.
No final do jogo, quando o Dragonborn se depara com a escolha de matar Paarthurnax ou poupá-lo, isso se torna um símbolo moral inequívoco. O verdadeiro final não é matar o dragão, mas perceber que o dragão, que poderia ser apenas destruição, é um símbolo de generosidade e grandeza de espírito, admirada por Aristóteles: “aquele que poderia fazer o mal, mas escolhe o bem”. Não se trata aqui de uma metafísica distante ou de uma doutrina abstrata. É uma questão de natureza existencial. Isso é prático. É normal.
O paralelo mais poético e também o mais doloroso, porém, é que também temos um Paarthurnax dentro de nós. Fomos moldados para a devastação, mas ainda assim somos chamados a lutar. Em todas as mitologias, sejam elas bíblicas, heroicas ou folclóricas, a queda da humanidade não é apenas uma narrativa de castigo; é igualmente uma narrativa de potencial. O poder escolher o bem contra a inclinação.
Paarthurnax nos ensina que a verdadeira escolha, a mais desafiadora de todas, não é fazer o mal e se arrepender depois. É algo que todo mundo faz. A escolha mais difícil é dizer não ao mal e dizer sim ao bem, todos os dias, mesmo quando ninguém está vendo, mesmo sem aplausos e mesmo quando a única recompensa é continuar lutando.
E isso é mais digno do que qualquer lâmina encantada, mais profundo do que qualquer fé digital ou religiosa. É a prova de que o homem e o dragão, ambos criados para a fúria, podem superar sua natureza ao optar por fazê-lo. Não por ordem de Deus, nem por uma graça que os puxe como marionetes, mas porque têm a capacidade de introspecção, de entender suas inclinações e escolher ser superiores a elas.
Isto é a ética aplicada, isto é a mensagem do dragão velho. Não é uma narrativa mágica para crianças. É um espelho de nossa própria alma, suplicando: você também pode escolher o caminho do bem.
Há algo de extraordinário nos rejeitados, nos incels, que não diz apenas respeito à sua condição amorosa ou sexual, mas à maneira como o mundo os despreza e, ironicamente, se revela. Eles não se referem a si mesmos; discutem a sociedade que os marginaliza e os valores distorcidos que regem nossas vidas. É curioso que, em uma sociedade que preza a liberdade individual, o único parâmetro de importância social ainda seja o ato sexual. O que segue não é relevante. Toda a inteligência, toda a virtude e toda a capacidade de pensar profundamente se evaporam ao se deparar com a indicação de que alguém não cumpriu as normas sociais de interação com os outros. E, para ser bem claro, não me refiro a um mundo ideal, mas ao Brasil de verdade, esse minúsculo teatro de hipocrisia, inveja e dopamina barata.
O que muitos não conseguem ver é que a desaprovação social dos incels é uma pista. Eles expõem, de maneira brutalmente sincera, que a sociedade brasileira se assemelha a um tribunal de moralidade distorcida, onde mérito, inteligência e caráter são considerados menos importantes do que um ato sexual. Não interessa quantos livros você leu, quantos cursos fez ou quantas experiências acumulou; se você nunca "cozinhou" o ritual do sexo consensual, você é descartável. É de um escândalo tal que dói a vista de quem ainda imagina que habita sociedades pautadas por normas racionais.
O funcionamento da vida espiritual é similar. É factível observar todos os preceitos, realizar penitências e seguir normas como um bom menino da catequese, mas, na ausência de um verdadeiro encontro com Cristo, tudo se mantém em uma camada superficial, assemelhando-se a um espelho trincado que reflete apenas fragmentos de uma imagem que não lhe pertence. "Convertei-vos", ensinava São João Batista aos seus seguidores. O batismo de arrependimento, embora necessário, é apenas um rito legal. É através do encontro com o Cordeiro que revelamos quem realmente somos. Para ilustrar, Simão era comparado à água, que é mutável e instável; Jesus o nomeou de pedra. A transformação não está na maneira como Simão se vê, mas no que Jesus lhe demonstra.
Isto é igualmente aplicável ao incel. A sociedade, em sua falta de visão, apenas enxerga a água; desconsidera a pedra. Critica e zombando tira dele a dignidade sem notar que ali pode haver virtude, inteligência, profundidade de alma. Assim como o mundo espiritual nos exige deixar a penitência para nos encontrarmos com Cristo, o mundo atual nos obriga a seguir comportamentos cruéis e arbitrários para sermos aceitos. Aquele que não se submete, é imediatamente rotulado como inferior, patético, e expulso do jogo. É a lógica do desprezo total.
No entanto, se formos sinceros em nossa análise, perceberemos que o desprezo da sociedade revela mais sobre ela do que sobre a pessoa que é rejeitada. É um espelho moral verdadeiro, ainda que deformado, que captura a fixação pelo aparente e a vitória do efeito sobre o conteúdo. Freud tratou o assunto de forma teórica: somos todos Eros, desejo, instinto. Contudo, Viktor Frankl provou que, mesmo nas situações mais extremas, a espiritualidade e um verdadeiro sentido de propósito podem eclipsar essa necessidade. O ser humano transcende o instinto; ele é vocação, destino, um castelo interior, uma luz oculta no coração da alma.
Segundo Santa Teresa d'Ávila, a oração é o meio que nos conduz ao castelo interior da alma. Não se pode determinar o valor de um ser humano em função de impulsos, caprichos ou sensações efêmeras. O que experimentamos em relação às outras pessoas — como raiva, desejo, aversão ou ciúmes — não é a outra pessoa em si; é apenas uma reação às nossas próprias projeções. Todo casal que se apaixonou intensamente já percebeu: a realidade do outro vai se revelando e é sempre mais complexa do que qualquer sentimento. O verdadeiro amor acontece quando se abraça o que não se conhece, e não quando se observa o espelho das próprias emoções.
Esse constante fluxo de pensamentos, julgamentos e sensações que temos na mente pode ser direcionado a duas fontes: às sensações do corpo e do ego ou à verdade, à realidade que transcende o imediato e nos conecta ao absoluto. Se permanecermos prisioneiros da dopamina gerada pelo nosso celular, do prazer imediato e dos pensamentos autocentrados, nos tornaremos verdadeiros monstros na convivência conosco e com os outros. Entretanto, ao usarmos a nossa razão e a nossa imaginação para buscar a verdade, para encontrar Cristo e entender o mundo, damos espaço para a vocação, para ser autêntico e para viver a virtude.
Aí é que entra a questão da castidade, da moralidade, e tudo o mais. Freud via as restrições impostas, como o celibato ou a fidelidade matrimonial, apenas como superfícies, armaduras desprovidas de função diante do desejo humano. Viktor Frankl fez uma pesquisa que mostrou empiricamente que isso não é verdade. A verdadeira espiritualidade, a vida interior, a busca do bem, tudo isso transcende os instintos e gera liberdade. Santa Teresa compara a alma a um castelo, cuja porta principal é a oração. Embora existam paixões desordenadas, elas não impedem o avanço; apenas testam a generosidade, a coragem e a determinação daqueles que buscam encontrar Deus e, através Dele, descobrir quem realmente são.
Portanto, o incel contemporâneo é uma vítima em dois níveis: da sua própria condição emocional e de uma sociedade que valoriza o sexo mais do que o caráter. No entanto, sua posição revela algo essencial: o valor de uma pessoa não se mede por sentimentos ou realizações passageiras. Há uma dignidade interna, um castelo, um mistério, uma pedra submersa na água. Aquele que desconsidera isso e se baseia apenas nas aparências mostra ser um observador de vista curta, incapaz de captar a profundidade da alma humana.
Ambas, a vida espiritual e a vida social, exigem decisões intencionais: progredir ou estagnar, ver a verdade ou se deixar levar pelas próprias emoções. A regra fundamental é simples: qualquer perna pode se mover, qualquer olho pode enxergar, e toda alma tem a capacidade de encontrar Jesus. Embora existam exceções, barreiras e dificuldades, essas não são capazes de deter a chamada universal à plenitude. Compreender que nossas emoções não são a realidade, mas apenas um reflexo de nossa visão restrita, é o primeiro passo rumo à liberdade, ao encontro com o divino e, de maneira paradoxal, à verdadeira justiça social: perceber o outro não pelo que ele realizou ou não, mas pelo que ele pode ser, pelo que Cristo revela a seu respeito.
Portanto, o incel não é apenas um ser rejeitado; ele é um farol involuntário que destaca a cegueira da sociedade. As críticas, os repúdios e o desprezo que lhe são dirigidos não provêm de sua essência, mas da putrefação moral e intelectual de quem julga. É nesse instante que somos confrontados com uma realidade: todos nós temos a tendência de observar apenas o espelho das emoções e sentimentos, esquecendo que o caminho, a verdade e a vida nos convidam a olhar além do que é superficial, a acolher o desconhecido e a avançar em direção àquilo que revela nossa verdadeira essência.
É absurdamente diminuto e beira uma comédia de quinta categoria essa noção de medir o valor de uma pessoa com base na quantidade de parceiros sexuais que teve. Isso não se limita apenas ao Brasil: atravessa o Oceano Atlântico, chega aos Estados Unidos e se espalha rapidamente por toda a América, como se fosse uma verdade moral indiscutível ou uma regra da natureza. A lógica aqui é repulsiva e evidente desde o início: neste universo invertido, o que define a autoridade não é a inteligência, o caráter, a virtude, a cultura, a coragem, o talento ou a santidade, mas sim o número de vezes que uma pessoa conseguiu ludibriar outra. É ridículo, e ainda o chamam de "experiência de vida".
Contudo, é essencial dar nomes claros às coisas. Certamente, é anti-intelectual. É asqueroso. É uma expressão de brutalidade social camuflada como modernidade. O que se vê aqui é a idolatria do corpo, a divinização da luxúria, a exaltação da lascívia como se fosse o próprio conhecimento. É uma sociedade que se perdeu na ideia de que o pensamento, o caráter e o indivíduo como um ser pensante, criativo e autônomo, capaz de existir por si só, não têm mais relevância. Tudo se trata de um número: quantas pessoas você já teve relações. É o ponto culminante do relativismo sexual transformado em um instrumento de avaliação social, uma engrenagem que aniquila aqueles que ousam manter sua integridade, discrição e individualidade.
Os incels que a sociedade moderna se diverte em criticar são vítimas dessa hipocrisia imensa. Pessoas que poderiam ser grandes, pensantes, criativas, virtuosas, pacientes, corajosas, são transformadas em números do absurdo. Nessa sociedade doente, não dá para considerar alguém merecedor de atenção se antes não se validar o histórico sexual. Independentemente de ler mais livros do que todos os seus colegas juntos ou de ter vivenciado tormentos que dizimaram metade da humanidade, se não teve relações íntimas, você é considerado lixo. É uma forma de avaliar tão rasa e desprezível que é, francamente, totalmente estúpida.
Pense: em quantas ocasiões você testemunhou isso se tornar algo comum? É um verdadeiro escândalo, e é fundamental que se afirme em alto e bom som: a modernidade encontra-se apodrecida em seu interior. Ela exalta os prazeres do corpo, prefere a quantidade à qualidade, confunde impulso com poder, sensualidade com valor e transforma a ignorância em tribunal. É uma violência que se manifesta de forma silenciosa, sutil e presente em todos os lugares. Como está o Brasil? Aqui está o laboratório dessa anomalia. Os Estados Unidos? Esta é a versão industrial da mesma nojeira. Parece que toda a "civilização moderna" chegou a um consenso: vamos reduzir o ser humano ao instinto sexual e avaliar a inteligência com base no número de aventuras amorosas. O mais interessante, se é que podemos considerar isso como algo humorístico, é que eles se veem como racionais.
Cuidem-se bem, incels. Não cedam à hipocrisia, não deixem que a vergonha os domine, nem permitam que a modernidade determine o valor que vocês têm. É um golpe de enorme proporção, tanto ético quanto intelectual. Vocês são os verdadeiros santos em uma era corrompida, os que permanecem íntegros enquanto todos ao seu redor se tornam cúmplices da deterioração moral. A avaliação sexual se transformou em um critério de vida, e vocês não fazem parte dessa farsa. Você sabe qual é a razão? A dignidade não se quantifica por camas, mas sim por alma, raciocínio, caráter e coragem — atributos que a modernidade hesita em reconhecer.
Vocês são objeto de uma ridicularização incessante, mas também se tornam defensores involuntários de uma moral que a humanidade esqueceu: a moral da razão em vez do instinto, do valor em vez da vulgaridade, da integridade em vez do espetáculo. É por isso que qualquer tentativa de menosprezar ou rotular como "fracassados" ou "incapazes" desmorona diante do que realmente importa. Pois quem julga pelo número de conquistas sexuais jamais compreenderá a grandeza de um espírito que permanece sólido, lúcido e íntegro.
A modernidade escamoteia o pensar, o refletir, o entender. Ela procura polêmica, deseja provocações e autorretratos éticos. Nessa obsessão doentia, transforma qualquer oposição ética ou intelectual em alvo de desdém. Tenham cuidado, incels. Mate-os todos. A verdadeira vergonha não recai sobre vocês, mas sobre todos aqueles que compram esse jogo odioso. Vocês ainda são seres humanos; eles, apenas animais de laboratório sociais.
Uma Carta aos Incels: Em Defesa da Vida com Dignidade e da Integridade Pessoal
Caro amigo,
Eu sei que o estilo de vida que vocês levam é frequentemente visto como inferior, sem valor ou até mesmo vergonhoso. Que a sociedade clama, despreza e zomba apenas pelo fato de vocês não fazerem parte da maioria, por não se adequarem ao espetáculo sexual que define quem é digno de atenção, afeto e respeito. Mas escutem-me: a vida de vocês é, sim, uma vida boa e digna. Por mais difícil que seja achar alguém realmente bom, alguém de valor que não se perca nas convenções e caprichos da modernidade, isso não os torna indignos. Encontrar essa "agulha no palheiro" é, de fato, difícil, quase impossível, mas não totalmente inviável. Eu entendo o quão irritante isso pode ser.
Não deixem que a pressão da sociedade os convença de que têm falhas. Vocês são marginalizados não apenas pelas mulheres, mas também pela sociedade que os rodeia, que pune aqueles que se atrevem a ser distintos e que não se adaptam às normas do espetáculo atual. É uma violência sutil, persistente, disfarçada de "normalidade". Mas lembrem do que Alan Moore disse sobre Clark Kent, o Super-Homem: ele vem de uma cidade do interior, leva uma vida simples e normal, e todo o mundo tenta matá-lo. Mesmo assim, ele aparece como um promotor de justiça, acima das fraquezas do mundo.
Assim como Clark, vocês não precisam se matar para agradar todo mundo. Não é sobre ser perfeito, ter o corpo ideal ou se encaixar em padrões para atrair alguém. É uma questão de crescimento espiritual, de solidificar o caráter e de criar uma vida com significado e dignidade. A verdadeira grandeza não se quantifica pelo número de pessoas que você conseguiu impressionar, mas sim pela sua honestidade em um mundo que parece dar valor à superficialidade e à mediocridade.
Há uma beleza notável na comparação entre Superman e Clark Kent: Clark é suave, humano e um pouco tímido diante da deslumbrante Lois Lane, por quem ele nutre um grande afeto, enquanto Superman é poderoso e confiante. No entanto, ambos representam a mesma pessoa. Essa dualidade nos oferece uma lição valiosa: podemos ser excepcionais sem buscar reconhecimento e ter importância sem precisar da validação alheia. Apesar de sua inteligência e renome, Lois Lane não consegue captar a humildade e a dignidade que Clark exibe. Vocês também, meus amigos, vivem em um mundo que muitas vezes não entende a profundidade do que carregam em seus corações.
Vejamos os incels de antigamente, os que se tornaram intelectuais, espirituais e religiosos. Vários santos e doutores da Igreja, entre os mais reconhecidos, eram incels, não por uma teoria sexual estranha, mas por manterem sua integridade, mente e vida interior, sem se render às tentações ou ao espetáculo social. E eles mudaram o mundo muito mais do que qualquer um que se considere apenas pela contagem de conquistas sexuais.
Assim, se alguém falar de vocês com desprezo, lembrem-se: vocês têm dignidade própria. Vocês têm poder, conhecimento e coragem. Assim como Clark Kent e Superman, é possível proteger-se da destruição que o mundo tenta infligir, preservando a sua verdadeira essência e vivendo de acordo com os valores que realmente importam. Vocês não são menos; vocês são fortes, são pessoas, e, quem sabe, heróis discretos em suas próprias vidas.
A sociedade pode gritar, rir e tentar menosprezar vocês, mas a verdadeira dignidade não é determinada por opiniões externas, aplausos ou repulsas. Ela é medida pela coragem de se manter verdadeiro e honesto diante da adversidade. Para que vocês sejam considerados valiosos, não é necessário que sejam "aceitos". E aqueles que os criticam por isso, especialmente os católicos hipócritas que simulam virtude enquanto menosprezam vocês, não têm ideia da grandeza que estão subestimando.
Sejam firmes, sejam íntegros, e lembrem-se: há dignidade em ser Clark Kent, e há mais dignidade ainda em ser Superman. A verdadeira recompensa é interna, não externa: é saber que vocês não venderam sua alma para um mundo que não sabe reconhecer o que é valioso.
Com o respeito e a firmeza de quem escreve este ensaio filosófico.
Qual é a raiz dos verdadeiros inimigos
O geek, no sentido em que essa palavra foi consumida pela cultura pop, não surgiu apenas como um fã de quadrinhos, jogos e fantasia. Ele surgiu, em várias ocasiões, como o antigo bully que vestia a camiseta do herói que antes zombava.
Falo isso porque testemunhei esse fenômeno chegar com atraso, assim como quase tudo que chega em uma pequena cidade do interior do Mato Grosso. Em Primavera do Leste, várias inovações que já eram comuns em outras partes do Brasil levavam anos para serem reconhecidas como novidades. Mesmo o cupcake, esse pequeno bolinho decorado e adorável, que se apresenta como uma iguaria da confeitaria moderna, só começou a ser algo notável por aqui por volta de 2017 ou 2018. Antes disso, muitas pessoas não tinham uma noção clara de que aquilo existia. Pode parecer um pequeno detalhe, mas não é. Uma cidade expressa sua essência através da lentidão com que adota as tendências.
Aqui, quase tudo se apresenta dessa forma: com atraso, surpresa e em grande medida. O médio primaverense, ao se deparar com uma novidade, frequentemente se apressa em buscá-la como uma criança faminta se dirigindo rapidamente a um pote. Não afirmo isso de maneira desprezível, mas com uma forma de compaixão firme, pois muitas pessoas daqui cresceram envoltas em solidão. Cuiabá foi considerada por muitos o máximo que se podia chamar de “cidade grande”. Mato Grosso não se assemelha a São Paulo, onde uma cidade se junta à outra, e onde as estradas parecem entrelaçadas por vilas, bairros, pontos de parada, lojas, sinalizações e uma intensa movimentação. Aqui, frequentemente, é uma longa extensão de vegetação, com horas de viagem de ônibus, aridez, estradas extensas e um grande senso de isolamento. Para qualquer cidade grande, a viagem raramente leva menos de quatro horas. A pessoa se desenvolve aprisionada em seu próprio contexto.
É por isso que eu costumo afirmar que a Primavera possui um aspecto espiralado. Ela arrasta a pessoa para dentro. Aqueles que não se opõem acabam sendo consumidos.
Foi nesse tipo de ambiente que eu testemunhei a chegada da palavra “geek”, ali pela onda de 2010, quando eu ainda era garoto. E eu era geek, é verdade, mas nunca fui o geek submisso que se curvava diante do bully. Eu era o nerd que se interessava por leitura, videogames, quadrinhos, RPG, literatura e cultura simbólica, mas que também não hesitava em responder quando alguém tentava me menosprezar. Daí veio o apelido de infância, “Godoi cachorro louco”. Eu tinha muito pelo, cabelo comprido, sobrancelhas espessas, e uma barba que estava começando a surgir cedo demais, era um garoto de dez anos que parecia um mini-Wolverine. Uma amiga chegou a comentar que eu estava tão peludo que parecia um cachorro. O nome se popularizou não apenas pela sua aparência, mas também pela sua intensidade.
Eu não era aquele garoto que recebia um empurrão, dava um pequeno soco hesitante e saía chorando. Se alguém ultrapassasse os limites, eu respondia com toda a força que uma criança rude, criada em um ambiente severo, era capaz de demonstrar. Isso teve origem em casa, na infância, com os primos mais velhos, nas brincadeiras que não eram exatamente o que se pode chamar de brincadeiras, e na convivência com adultos, em fazendas, na natureza, na caça, com chumbo, pombas, arroz, na falta e na necessidade de improvisar. Eu fui criado em um mundo onde a realidade não era suavizada. Às vezes faltava carne, outras vezes se adaptava com o que tinha, e até pomba se tornava uma refeição. Isso pode parecer barbaro para aqueles que foram criados em um apartamento com valores morais, mas para aqueles que experimentaram certos ambientes internos, era apenas a vida se desenrolando sem pedir permissão.
Também havia uma grande sede de cultura dentro de mim. Esta é a parte que muitos não conseguem compreender: o verdadeiro nerd não é o fraco. O verdadeiro nerd é aquele que possui uma imaginação mais vasto do que o que a vida social permite. Eu apreciava X-Men, Vingadores, Deadpool antes que o personagem se transformasse em uma fantasia de shopping, Mulher-Hulk rompendo a quarta parede, Watchmen, V de Vingança, Alan Moore, Grant Morrison, Homem-Animal, Doom Patrol, Os Invisíveis. Aquela sensação de que o quadrinho era mais do que apenas ilustrações coloridas, mas sim um símbolo, uma metafísica acessível, um drama moral, uma mitologia de banca, me encantava.
Ele também jogava. RPG de mesa, Dungeons & Dragons, jogos emuladores, jogos de tabuleiro, tardes com amigos em casa, imaginação operando como uma cidade secundária dentro da cidade real. Aquilo ia além de um simples passatempo. Era um treino para o mundo. Um jovem que participa de RPGs descobre que a realidade é composta por diversas camadas, que as escolhas que fazemos têm repercussões, que os personagens carregam seu próprio destino e que os monstros geralmente simbolizam algo que já existe dentro de nós ou ao nosso redor.
É aqui que reside a diferença fundamental: o nerd apaixonava-se por isso porque percebia a grandiosidade. O geek de massa chegou mais tarde, pois percebeu uma oportunidade de mercado, uma imagem, uma identidade já definida, e uma chance de assumir o papel de algo que nunca conseguiu entender.
O antigo valentão era facilmente identificável. Ele era o menino que ridicularizava o nerd, ria de quem se dedicava à leitura e desprezava aqueles que apreciavam heróis, fantasias, jogos, livros e símbolos. Para ele, a vida se resumia a duas ou três ambições modestas: enriquecer, conquistar mulheres, aparentar superioridade e menosprezar aqueles que não faziam parte do mesmo espetáculo. Ele era a pessoa que, aos dez, doze ou quatorze anos, já conseguia simplificar tudo em termos de sexo, status e poder social. A alma não se elevava. Não existia criatividade moral. Não existia ambição de se superar. Existia apenas um instinto exagerado simulando adultice.
O nerd, por outro lado, frequentemente era excessivamente educado. Possuía conhecimento, sensibilidade, curiosidade e um certo receio de gerar conflitos. É por isso que levava surras. Não por não conseguir, mas porque fora treinado a não responder. A escola, a família e a comunidade sempre diziam a mesma coisa: ignore, não se importe, não revida, não responda, seja amigável, mantenha a calma, seja gentil. Isso soa como virtude quando é proclamado por um adulto medroso. No cotidiano de uma criança que é alvo de perseguição, isso pode se transformar em uma condenação à humilhação.
Um garoto que se ensina a não reagir, eventualmente, pode passar a achar que nasceu para ser pisado.
É nesse ponto que grande parte da educação contemporânea falha de maneira absurdamente ingênua. Paz é sinônimo de passividade, bondade é igual a impotência e prudência se confunde com covardia. Instruímos a criança a oferecer um sorriso àqueles que a ferem, e em seguida ficamos surpresos quando ela se mergulha em tristeza, ressentimento, depressão ou ódio. Não estou promovendo a brutalidade sem propósito. Estou afirmando que uma ética que não permite a legítima defesa não pode ser considerada ética: ela se torna uma forma de conivência com o agressor.
Eu me desviei para o lado oposto antes da hora. Quando eu tinha cerca de oito anos, após passar por experiências de brigas e observações, percebi que tentar impressionar meu pai, minha mãe, meus professores ou a sociedade era uma verdadeira armadilha, e isso me fez romper internamente. Deixei de ter a intenção de agradar. Deixei de lado a busca por ser o garoto que todos consideram aceitável. Não foi algo esteticamente agradável. Não teve poesia. Estava seco. Eu apenas refleti: se a condição para ser amado é renunciar ao meu senso de realidade, então esse amor tem um preço muito alto.
Desde então, alcancei uma independência que se manifesta em minha vida até hoje. Se alguém se tornar uma pessoa negativa, eu me afasto. Se uma amizade se deteriora, eu me afasto. Se uma relação começa a me fazer mal, eu me afasto. Muitas pessoas se referem a isso como frieza. Eu me refiro a isso como limpeza moral. Há uma grande distinção entre amar alguém e deixar que essa pessoa encha sua vida de lixo emocional.
Isso se manifestou até mesmo em relacionamentos. Estive em um relacionamento onde, com o passar do tempo, a jovem começou a me inundar com questões que não esclarecia, sofrimentos que não compartilhava e rancores que não organizava. Eu tinha um profundo amor por aquela garota imaginava um futuro juntos, incluindo casamento, filhos e uma vida estável. Mais amor não significa permissão para agressões psicológicas semanais. Quando me dei conta de que nenhum diálogo conseguia transpor aquele muro, eu parei. E, em seguida, surgiram distorções, falsidades, segredos fabricados e tentativas de arruinar minha reputação. Aquilo confirmou algo que eu já desconfiava: quem não consegue lidar com sua própria dor, geralmente a converte em uma acusação contra alguém.
A falta de controle sobre a própria vida emocional é uma característica do indivíduo moderno. Ela se manifesta tanto no bully quanto no pseudo geek e também no militante de cultura de boutique. O indivíduo não deseja se retratar. Ele deseja que o mundo todo seja reconfigurado para justificar seus pecados.
Daí a captura da cultura nerd ter sido tão emblemática. O nerd de antigamente admirava os heróis, pois eles sempre indicavam a direção do alto. Superman possuía uma qualidade solar, quase cristológica, não pelo fato de ser “Jesus de capa” de modo simplório, mas por representar a imagem do sacrifício, da força controlada, da bondade disciplinada e do poder subordinado à responsabilidade. Batman era a justiça machucada mergulhando no abismo sem se perder nele. Mulher-Maravilha não era cartaz de faculdade: era princesa guerreira amazona, feminina, aristocrática, associada a um imaginário mítico muito anterior a qualquer bordão de rede social. Doutor Estranho apresentava o indivíduo ao invisível, ao demoníaco, ao divino e ao custo espiritual do saber. Novos Deuses, Apokolips, Quarto Mundo; tudo isso carregava um significado metafísico popular que, hoje em dia, muitos não conseguem perceber.
O geek comum não deseja isso. Ele quer transformar o herói num espelho do próprio afeto. Se ele é complicado, o protagonista também deve ser complicado. Se ele é rancoroso, o herói deve se transformar em um rancor disfarçado. Se ele depende de assuntos para se sustentar, o herói precisa se tornar um assunto. Se ele não tolera a grandeza, é necessário que ele diminua toda forma de grandeza até que se ajuste ao seu léxico político, sexual, identitário ou mercadológico. É desse modo que o símbolo para de indicar o alto e começa a rastejar pelo chão.
A cultura nerd foi infiltrada por pessoas que não desejavam ser valorizadas por ela. Desejava controlá-la.
Essa é a questão fundamental. O geek, neste sentido crítico, é o agressor de antigamente que agora se expressa com as palavras da vítima. Antigamente, ele se referia ao nerd como estranho. Atualmente, utiliza-se termos como “nerdola”, “incel”, “problemático”, “tóxico”, “atrasado”. Alterou-se o vocabulário, mas o gesto permaneceu o mesmo. Permanece o mesmo indivíduo afirmando ao verdadeiro nerd que ele não pode amar aquilo que sempre apreciou, a menos que adote as novas diretrizes.
A cartilha frequentemente apresenta a mesma ameaça: se você não concorda, é considerado ruim. Criticar é ter preconceito. Observa-se uma falsificação simbólica, que é reacionária. Quando se defende a virtude, ela é reprimida. Quando se menciona Deus, propósito, honra, masculinidade, disciplina, beleza ou uma hierarquia moral, isso se torna um alvo. O mundo contemporâneo passou a rotular de ódio qualquer forma de oposição à sua própria falta de ordem.
Era isso que eu observava na escola também. Professor tentando transformar o aluno em um instrumento político. Um adulto que se sente inseguro, mas tenta aparentar que tem autoridade. Pessoas que não conseguiam refutar um argumento vindo de uma criança e, em seguida, buscavam recuperar sua autoridade por meio de sua posição. Certamente há professores competentes, professores excepcionais, indivíduos dedicados que realmente amam o ato de ensinar e compreendem a responsabilidade de sua função. Entretanto, também existe o professor ideológico, que não ensina: impõe. Não desenvolve inteligência: seleciona personalidade. Não estimula o pensamento: condiciona respostas.
Quando um jovem compreende isso rapidamente, ele se torna uma fonte de problemas.
Eu me tornei um problema por causa das minhas discussões. Porque não aceitava um raciocínio fraco apenas por ser de um adulto. Porque vejo um professor tentando vender uma moral distorcida como se fosse uma verdade absoluta. Porque vejo amigos sendo empurrados para uma passividade prejudicial. Pois vejo rapazes com verdadeiro potencial sentindo-se inferiores por terem sido tratados como se não valessem nada. O nerd, muitas vezes, não é covarde. Ele foi persuadido de que sua força é perigosa demais para ser mantida.
A sociedade contemporânea adora esse tipo de garoto ferido. Ele é um jovem que é apaixonado, inteligente, mas também se sente inseguro; é sensível, mas carrega a culpa; é forte, mas foi domado; é capaz, mas se sente envergonhado. Ela o oprime e, em seguida, lhe apresenta uma identidade já formulada, para que ele possa se sentir parte do grupo, contanto que nunca volte a afirmar sua autonomia.
É por isso que afirmo: o nerd não é o beta. O beta é o submisso. O nerd é algo diferente. O nerd pode ser machucado, introvertido, peculiar e fora do lugar, mas há uma postura dentro dele que o mundo detesta. Ao tomar conhecimento disso, ele deixa de ser uma vítima simbólica e se transforma em uma ameaça concreta à falsidade prevalente.
O nerd que desperta não precisa se tornar um delinquente, nem violento, nem uma caricatura de macho. Ele precisa deixar de solicitar permissão para ser. É fundamental que você se dedique a estudar, praticar e trabalhar, além de organizar sua vida e defender sua honra. É importante também escolher suas companhias com mais cuidado, denunciar quando for necessário, cortar abusos, responder de forma inteligente e aproveitar as oportunidades que a lei oferece quando ela é útil. Às vezes, é melhor manter distância quando a presença se torna prejudicial, e é preciso ser firme quando a conversa já não é mais produtiva. Isso representa indignação, mas não da maneira típica de um adolescente que deseja destruir tudo. É uma revolta interna: a rejeição de permanecer de joelhos perante aqueles que não têm a autoridade moral para exigir respeito.
Eu já tive uma classe desse tipo. Éramos um pequeno grupo, uma espécie de crianças estranhas, envolvidas em jogos, conversas, imaginação, discussões, medos e um fascínio pela espiritualidade, fantasia e mistério. Se alguém observasse de fora, poderia afirmar que se assemelhava a uma versão rural e distorcida de Stranger Things, porém sem uma cinematografia elaborada, sem uma trilha sonora envolvente e sem um roteirista para estruturar o trauma. Havia camaradagem, descoberta, bravura, confusão, rituais, medos, e aquela sensação de que o mundo dos adultos era cego para coisas que nós víamos com demasiada clareza.
Eu era, de certa forma, a mente inquieta do grupo. Não por ser melhor em tudo, mas porque conduzia a interpretação, a resposta e a compreensão do que estava se passando. E uma lição que absorvemos é a seguinte: quando alguém ataca os mais vulneráveis e ninguém intervém, esse indivíduo passa a pensar que tem o direito de dominar tudo ao seu redor. Ao deparar-se com um limite, percebe que não passava de um covarde em um espetáculo.
Não vejo tudo o que aconteceu de forma romântica hoje. Crianças muitas vezes encontram soluções de maneira inadequada devido a falhas anteriores dos adultos. Compreendo a lógica daquela época: a instituição não oferecia proteção, a família minimizava a situação, a escola simulava um ambiente equilibrado e o agressor seguia em frente. O que resta para o garoto? Ou ele desmorona, ou aprende a se proteger da maneira que pode. O que realmente se deseja é que haja justiça. Quando a justiça é inexistente, a infância cria seus próprios tribunais.
É exatamente por isso que a mudança do valentão para geek oficial me causa tanto desgosto. Já que ele não se desculpou com o nerd. Ele não se deu conta do que havia feito. Ele apenas notou que a cultura nerd se tornou financeiramente vantajosa e passou a fazer parte dela como um intruso. Antes ele zombava do RPG; agora adquire camisetas com estampas de dragões. Antigamente fazia piadas sobre histórias em quadrinhos; agora aparece na estreia de um filme. Antigamente, considerava o garoto criativo como esquisito; agora, utiliza o estilo desse garoto para ser aceito. Pior ainda, deseja controlar o significado daquilo.
O geek de mentira não aprecia o herói. Ele adora ver sua própria imagem refletida no herói.
É por isso que ele precisa refazer tudo. É necessário converter personagens em panfletos, símbolos em slogans, arquétipos em competições de representação e mitologia em uma planilha de moralidade. Não é suficiente inventar novos personagens que sejam fortes, bem desenvolvidos e com uma profundidade própria. É necessário substituir, preencher e ajustar o passado, como se toda obra anterior estivesse em falta com o espírito humorístico e ideológico do presente. Se alguém se queixa, a resposta imediata é: você é contra a mudança. Não. Frequentemente, a questão não reside na mudança. É a adulteração.
A verdadeira representação surge da forma, do propósito, do drama e da beleza. Representação falsa surge de rancor administrativo. Um personagem é criado. A outra ocupa uma cota simbólica.
Isso se aplica a muitas questões atuais. O problema não está em ter uma mulher forte, um personagem negro, um personagem gay, um personagem trans ou um personagem de qualquer origem. O problema surge quando a obra não se questiona mais “quem é esta pessoa?” e começa a indagar “que função ideológica ela cumpre?”. Ali não existe personagem. Há cartaz com pernas. Um cartaz com pernas não é capaz de preservar ou promover qualquer cultura.
O mesmo se aplica à utilização descuidada da linguagem de “minoria”. Existem grupos que enfrentam injustiças reais, e isso deve ser reconhecido de maneira séria. Entretanto, quando o termo minoria se torna um mecanismo automático de poder, ele deixa de refletir a realidade e passa a induzir culpa. As mulheres não constituem uma minoria em termos numéricos no mundo. Em diversos aspectos, a população do Brasil é principalmente parda e negra. Brancos claros, ruivos, albinos e outros grupos também podem ser marginalizados em determinados contextos. A realidade é mais intricada do que a publicidade sugere. Entretanto, a publicidade evita a complexidade. Deseja controle emocional.
O verdadeiro nerd geralmente consegue identificar essas contradições antes que os outros o façam, pois aprendeu, através da dor, a desconfiar de consensos simplistas.
Ele está ciente de que o grupo pode não dizer a verdade. Você sabe que a maioria das pessoas pode ser bem cruel. Está ciente de que um adulto pode estar equivocado. Você está ciente de que um professor pode ser ignorante. Tem consciência de que a família pode favorecer um filho em detrimento de outro. É ciente de que o discurso de benevolência pode disfarçar a covardia. É possível que aqueles que mencionam o acolhimento estejam apenas construindo uma jaula mais adornada.
Esse contraste se manifesta até mesmo dentro da própria família. Existe o filho mimado, raramente corrigido, que é tratado como se fosse o centro do universo, e que cresce com a crença de que o que se deseja é o que se deve alcançar. Há também o filho que é mais exigido, menos amparado e mais machucado, que descobre logo que ninguém virá para resgatá-lo. Não é garantido que o primeiro sempre falhe e que o segundo sempre triunfe, mas há uma tendência observável: um excesso de proteção pode criar adultos moralmente frágeis, enquanto a falta de atenção pode levar à destruição ou ao endurecimento da personalidade. Quando se torna bem firme, é sinônimo de independência. Quando se torna difícil, se transforma em amargura. A distinção reside em converter uma ferida em critério, ao invés de apenas usá-la como justificativa.
Eu observei isso em familiares, amigos, colegas e em diferentes relacionamentos. O indivíduo que é excessivamente mimado muitas vezes se torna alguém que não consegue agir de forma eficaz. O indivíduo que é ajustado pela realidade aprende, muitas vezes através da dor, que cada ação tem suas consequências. Isso ajuda a entender bastante do “chadzão” escolar: o garoto bonito, popular, com dinheiro, corpo, lábia, mas sem eixo moral. Ele fascina, controla e surpreende, mas frequentemente não edifica nada. Existência marcada por estímulos, conquistas, renúncias e ciclos. Está presente, mas falta propósito.
O mundo de hoje equaciona presença a importância.
Aquele tipo de cara que costumava zoar os nerds na escola se tornou um ícone cultural em diversos contextos. A figura desejável, inesperada, um pouco cruel, com uma presença social marcante, sexualmente reconhecida, mas eticamente superficial. Muitas pessoas se deixam levar por isso, pois misturam intensidade com importância. Busca por emoção, incerteza, dopamina e drama. E depois se queixa das consequências como se tivessem vindo do nada. Eles não caíram. Foram selecionadas gradualmente, em busca do prazer instantâneo.
Em contrapartida, o nerd foi alvo de zombarias por buscar estabilidade, propósito, construção, imaginação e lealdade a algo que o transcende. Chamaram isso de fraqueza, pois o mundo contemporâneo apenas reconhece a força quando ela se manifesta de maneira estrondosa. Há uma grande força em dedicar-se aos estudos de forma solitária, em suportar a solidão, em ser fiel à própria inteligência, em nutrir um amor por símbolos que indicam ascensão, mesmo quando o restante da sala ri descontroladamente no chão.
A verdadeira disputa entre nerds e geeks não se trata de preferências culturais. É o direcionamento da alma.
O indivíduo nerd dirige seu olhar ao herói e indaga: “o que isso exige de mim?”. O geek em geral observa o herói e questiona: “como posso fazer isso parecer comigo?”. O primeiro deseja ser grandioso. O segundo deseja diminuir o que é elevado a um ponto em que já não se sinta incomodado.
Portanto, é fundamental que o nerd reconquiste a esperança, mas não aquela esperança superficial e decorativa, cheia de clichês. Esperança como rebeldia ética. Esperança é a resistência em deixar que os burocratas do ressentimento controlem a imaginação. Esperança é a escolha de não permitir que o brigão se esconda atrás da imagem de um herói para, mais uma vez, menosprezar aqueles que sempre admiraram o heroísmo.
A trajetória não consiste em se tornar um instrumento manipulável de outro grupo. Não se trata de substituir um manual por outro. Não podemos permitir que a nossa própria dor se transforme em uma justificativa para agir com crueldade. É organizar a vida. Dedicar mais tempo aos estudos. Fortalecer-se. Orar, acredita-se. Pensar, caso ainda consiga. Laborar. Gerar. Amar de forma mais intensa. Fazer escolhas mais acertadas. Proteger-se de forma mais eficaz. Deixe de buscar a aprovação de pessoas que apenas respeitam o que temem ou o que podem aproveitar.
O nerd precisa compreender que não foi feito para habitar no porão simbólico da cultura. Ele foi lançado lá. Quem foi jogado pode se levantar.
O geek comum pode usar a camiseta, adquirir a figura, repetir a frase, memorizar a referência, publicar fotos de eventos, debater a cronologia dos filmes e fingir que faz parte do grupo. No entanto, existe algo que ele não consegue simular por muito tempo: reverência. Ele não venera o ícone. Ele o devora. Tudo aquilo que é apenas consumido se transforma em lixo.
O verdadeiro nerd, antes de ser esmagado, encara o símbolo e percebe que está sendo convocado. É por essa razão que ele permanece uma ameaça. Pois aqueles que se sentem vocacionados não se contentam com sobras estéticas. Buscamos a verdade, a beleza, a coragem, a ordem, o que transcende, a amizade, o sacrifício, a aventura, Deus ou, ao menos, uma pálida e sincera representação do que é sublime. Ele deseja que a vida signifique mais do que reproduzir, acumular riquezas, ser notado e falecer com uma biografia repleta de instintos satisfeitos.
E talvez isso explique o motivo de tanto ódio direcionado a ele.
Pois o nerd recorda à sociedade contemporânea que ainda existe uma porção da alma que não se encaixa na publicidade.
O egoísmo passou a ser considerado um termo ofensivo devido à predominância de indivíduos imorais que confundem generosidade com exibição e virtude com submissão. Então vamos começar do começo, com a suavidade de uma palmada no rosto: cuidar de si mesmo não é pecado; pecado é ser idiota em nome de uma generosidade universal que só engorda o ego de quem nunca ajudou ninguém de verdade. O Brasil, esse laboratório tropical de imbecilidade crônica, está cheio de empresários de palco, um pouco coach, um pouco profeta do PowerPoint, que repetem os bordões de Ayn Rand como um papagaio que repete um palavrão, sem nunca ter lido uma linha consistente de filosofia moral. Certamente, Ayn Rand, a figura venerada por muitos executivos do LinkedIn que acreditam que ler "A Revolta de Atlas" substitui caráter, teve uma vida pessoal repleta de tumultos, assim como sua filosofia. A biografia é repleta de laços emocionais disfuncionais, dependência emocional e uma obsessão quase doentia com a própria imagem intelectual (Burns, Goddess of the Market, 2009). Converter essa imagem em um oráculo de ética é tão sensato quanto ensinar etiqueta a um javali de cartola.
Isso não quer dizer que Rand estivesse errada em tudo, mas que seus leitores frequentemente erram em quase tudo. O egoísmo que ela promovia passou a ser uma desculpa para indivíduos medíocres justificarem sua própria apatia, quando o que deveria ser considerado é outra coisa: a hierarquia das responsabilidades. Como já dizia Aristóteles em sua Ética a Nicômaco, a virtude é sempre concreta, no meio adequado e em relação aos que estão mais próximos. Tomás de Aquino também endossa essa perspectiva, afirmando que a caridade começa pelo próximo mais próximo e não por abstrações universais (Suma Teológica, II-II, q. 26). É uma distorção moral, e não um ato altruísta, amar toda a humanidade enquanto se menospreza a própria família. Com uma ironia de precisão cirúrgica, Olavo de Carvalho observou que o esquerdista contemporâneo “ama o distante e odeia o próximo”. É por isso que o longe não exige um sacrifício real, só palavras.
Daí a ideia de doar para o exterior, através de grandes ONGs e governos ávidos por recursos, muitas vezes deixa de ser uma virtude para se tornar um fetiche moral. Estudos meticulosos sobre o funcionamento de ONGs internacionais apontam para altos níveis de desperdício administrativo e desvio de foco (Easterly, The White Man’s Burden, 2006). Enquanto isso, a pessoa necessitada que caminha por sua rua continua a passar despercebida, pois não produz curtidas nem absolvição ideológica. A caridade organizada é uma das indústrias mais corruptas que existem. Olavo estava certo ao dizer que lhe era insuportável não apenas a corrupção, mas também a caridade organizada, essa máquina que transforma a pobreza em instrumento de domínio. Dar de comer a quem tem fome é ser humano; dar dinheiro a instituições que lucram com a fome é uma sofisticada cumplicidade.
Aqui estamos falando do egoísmo saudável, aquele que devia ser ensinado nas escolas, se estas não estivessem tão ocupadas em ministrar aulas de ressentimento. Você não precisa nada com quem sempre te tratou com desonestidade. Não deve nada em dinheiro, não deve explicações, não deve estar acompanhada. Nietzsche já alertava que a moral dos fracos é fruto da culpa que os fracos imputam aos fortes (Genealogia da Moral). A cultura brasileira é mestre nisso: exige que você seja condescendente com quem te menospreza, benevolente com quem te faz mal e educado com quem te ofende. Ele continua chamando isso de maturidade emocional. Não é questão de maturidade, mas de masoquismo socialmente tolerado.
Não é digno de aplausos ajudar alguém que sempre te fez mal quando essa pessoa vem em busca de apoio. Certamente, existe a estupidez. A misericórdia só é significativa quando há, de alguma maneira, um mínimo de justiça do outro lado. Ao contrário, isso pode promover o vício. Santo Agostinho dizia que a misericórdia sem critério é cumplicidade com o mal. O mesmo se aplica a relacionamentos pessoais: círculos que praticam gaslighting, uma forma traiçoeira de manipulação psicológica que a psicologia clínica moderna definiu (Dorpat, 1994), não são verdadeiros grupos de amizade, mas sim arenas de batalha desgastantes. Continuar nesse lugar em busca de "pertencimento" é aceitar ser apenas um coadjuvante na mediocridade alheia.
O egoísmo necessário também aparece na escolha de quem ajudar. Ajude as pessoas ao seu redor. Ofereça ajuda a todos que estiverem ao seu alcance. Auxilie aqueles a quem você consegue olhar nos olhos. Um sem-teto que solicita alimento merece receber alimento, e não um discurso sobre cidadania. Dar dinheiro e deixar a pessoa dispor dele como desejar é um reconhecimento da sua dignidade, e não uma negação. Como disse Dostoiévski: “a compaixão é a principal lei da existência humana”. No entanto, a compaixão não é sinônimo de controle ou manipulação social. É um respeito que se materializa.
O grande drama de nossa época é que as pessoas escolhem salvar o mundo na teoria e esquecer o ser humano de carne e osso que está ali na rua. Discutem sobre estruturas, sistemas e revoluções, mas não conseguem oferecer dignidade a uma pessoa pobre. Olavo expressou isso de maneira esplêndida ao dizer que o maior desafio do miserável não é a falta de dinheiro, mas sim a exclusão simbólica, o desdém e a brutalidade por parte dos que são considerados civilizados. Uma sociedade que se diz refinada, mas não é capaz de oferecer dignidade ao que padece, é uma sociedade selvagem de terno.
Em resumo, a mensagem é clara e firme: seja egoísta o suficiente para não gastar sua generosidade com aqueles que não a valorizam, mas seja humano o bastante para ajudar quem realmente necessita. Não equivoque virtude com fraqueza, nem caridade com publicidade. Georges Bernanos disse que “o pior dos males não é ser injusto, é acostumar-se à injustiça”. O egoísmo que é benéfico é aquele que preserva sua dignidade, possibilitando que você ofereça ajuda a alguém de forma genuína, sem ostentação, sem hipocrisia e sem a necessidade de receber aplausos.
É imprescindível que, para dar seguimento ao que foi mencionado, se faça uma transição do plano das abstrações morais para a realidade palpável, especialmente no terreno árido do concreto, que Olavo de Carvalho sempre enfatizou a importância de explorar. O texto intitulado Pobreza e grossura não apenas valida tudo o que foi exposto a respeito do egoísmo saudável, da hierarquia de deveres e da caridade prática, mas também elabora esses conceitos de forma exemplar e quase didática, evidenciando como a falsa virtude se converte em brutalidade social disfarçada de boas maneiras. Ao dizer que “neste país você não pode pedir emprego e muito menos dinheiro emprestado a um conhecido sem que ele instantaneamente assuma ares paternais e comece a lhe dar conselhos”, Olavo revela o mesmo defeito moral que já critiquei antes: a substituição da verdadeira ajuda por uma exibição narcísica de superioridade ética. O não-doante retira-se satisfeito sem contribuir; o necessitado permanece necessitado, mas agora humilhado e culpado. Aqui se encontra a perfeita perversão.
Esse tipo de pessoa é aquele que, como menciona Olavo, “na mesma noite, [é] capaz de oferecer um jantar tomando o máximo cuidado para que a arrumação da mesa e a distribuição dos convidados obedeçam estritamente às regras da mais fina etiqueta”. A questão central é que a civilidade se transformou em uma encenação, e não em uma verdadeira virtude. Por isso, ele diz, sem rodeios, que “um indício seguro de barbarismo num povo é a atenção excessiva concedida aos sinais convencionais de boa educação e o desprezo ou ignorância dos princípios básicos da convivência”. O verdadeiro bárbaro dos dias atuais não é aquele que simplesmente cospe no chão; é, sim, aquele que conhece todas as regras de convívio e as ignora, desconsiderando o outro.
A importante lição do pai de Olavo, que desmantelava toda a moralidade superficial: “ele se dirigia a cada mendigo que o abordava na rua como ‘senhor’”. Não se trata de sentimentalismo, mas de uma compreensão ontológica: aqueles que se encontram em dificuldades necessitam de mais respeito, e não menos. Isso se conecta diretamente à ideia de egoísmo correto: ajudar aqueles que estão próximos a você não é um altruísmo teórico, mas sim uma obrigação real. É por isso que Olavo afirma que essa regra básica é “sistematicamente ignorada entre as nossas classes médias e altas”, especialmente entre as que se julgam mais civilizadas. A civilização, quando não se traduz em ações humanas, é apenas superficialidade.
A crítica chega ao seu clímax quando ele declara: "nunca vi alguém enxotar um flanelinha como se fosse um cachorro com a desenvoltura... de um intelectual de esquerda". É aqui que se fecha o ciclo: a mentalidade que rejeita a ajuda individual em favor de “mudanças estruturais” gera gerações inteiras de miseráveis que são usados como combustível ideológico. O diagnóstico se confirma quando diz que a caridade pessoal foi desvalorizada, enquanto a institucional foi sacralizada: “os frutos da bondade humana não devem ir direto para o bolso do necessitado: devem ir para as ONGs e os órgãos públicos”. Aqui está o fetichismo moderno: transferir a culpa moral para uma máquina burocrática e chamar isso de consciência social.
Não há nada que se aproxime mais da defesa do egoísmo saudável do que a brutalmente honesta frase: “Há quem neste país tenha nojo da corrupção oficial. Porque eu tenho a verdadeira caridade oficial.” Nesse sentido, o egoísmo necessário significa não passar adiante a responsabilidade moral que lhe compete. Ajudar é agir, é correr riscos, é tocar, é olhar, é falar. É por isso que a clássica objeção “vai beber na primeira esquina” perde sua força quando Olavo replica: “Pois que beba! Assim que ele colocou o dinheiro no bolso, ele era o dono. O respeito deve vir antes de qualquer tipo de ensino; sem respeito, toda educação é imposição.
Ao afirmar que o principal empecilho à ascensão dos pobres é “menos econômico do que social”, a ideia de que apenas dinheiro ou políticas públicas são suficientes é desmistificada. O indigente tem permissão para se alimentar, mas é vedado a sua entrada; pode existir, mas não faz parte. A cena em que um homem é expulso de uma loja de roupas, mesmo tendo dinheiro para comprar, ilustra que a exclusão tem um caráter mais simbólico do que material. É por essa razão que, como Olavo observa, “é mais falta de educação ainda” do que qualquer desconforto estético do gerente mandar alguém comer na rua.
No fim das contas, toda crítica se resume à mesma mensagem: o brasileiro que “clama contra a miséria no meio da abundância” padece de um platonismo infantil, aguardando soluções milagrosas enquanto se recusa a agir no âmbito pessoal. A última ironia em relação à propaganda do Collor, “se isso fosse verdade eu ficaria satisfeito de votar no Lula”, não é política, mas moral: só acredita em pessoas ajudando pessoas, “uma por uma”. Isso rejeita totalmente a caridade abstrata e reafirma o dever concreto.
Ao dizer que “a principal [causa cultural da pobreza] não está nos pobres: está na falta de educação dos outros”, Olavo retoma o ponto principal deste capítulo do livro: o egoísmo que salva não é o da indiferença, mas o da responsabilidade bem ordenada. Nesse sentido, ser egoísta é recusar a hipocrisia, recusar o show moral e agir no que se pode agir. O que sobra é simplesmente grosseria camuflada de bondade, e nada que se possa chamar de etiqueta é capaz de combater isso.
A verdadeira humildade é uma das qualidades mais silenciosas que incomoda profundamente os que estão em constante agitação. Talvez isso explique por que ela é tão rara. A Escritura fala de maneira direta, clara e firme com os arrogantes: “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a direita” (Mateus 6:3). Não é uma metáfora literária, um conselho que se pode levar ou deixar, uma hipérbole para se discutir em um grupo de jovens; é uma condenação moral. Aquele que faz o bem e torna suas boas ações públicas não está praticando caridade, mas sim marketing espiritual. Não é digno: é carente. Não se trata de humildade: é um comediante que necessita de platéia.
A verdadeira pessoa boa não se faz de promotora. Ela atua de maneira discreta, ora em silêncio, faz contribuições sem ser notada e, em seguida, se retira. Santo Agostinho dizia que “a soberba imita todas as virtudes, mas as corrompe por dentro”. Aquele que presta auxílio a outrem e, em seguida, sente a necessidade de relatar essa ação três vezes, mencionando a data, a hora e o CNPJ da igreja, de fato não prestou assistência alguma; utilizou o necessitado como um reflexo para saciar seu próprio ego. Ajudar, nesse sentido, é uma forma sofisticada de masturbação moral.
Eu já conheci e fui essa pessoa. Tive três amigos que eram verdadeiros campeões olímpicos da hipocrisia. Sim, eles doavam, mas insistiam em mostrar cada valor como se fosse uma condecoração. Eram mestres em transformar caridade em capital simbólico, como descreve Pierre Bourdieu: a virtude passa a ser moeda social em vez de uma questão ética. O curioso, porém previsível, detalhe é que os três eram protestantes. Não é sem motivo. Existe uma cultura protestante moderna, particularmente no neopentecostalismo, que substituiu a humildade cristã por uma ética de desempenho em relação à salvação. Max Weber já havia identificado essa carência em "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo": a exigência constante de demonstrar externamente que se pertence ao grupo dos “eleitos”.
Esses amigos constantemente repetiam um discurso irritante: “Você precisa contribuir com a minha igreja”, “Você precisa apoiar tal projeto”, “Você nunca faz nada”. É interessante notar que aqueles que realmente praticam o bem nunca comentam sobre isso. Apenas os que precisam de validação espiritual pedem testemunhas. Eles notaram que eu não costumava sair aos fins de semana, uma vez que nunca fui muito adepto da agitação humana sem propósito, e passaram a me observar como se fossem guardiões da santidade dos outros. Acha que eu andava esquisito por ir praticamente à missa, ao cinema ou a encontros informais com grupos de leitura e intelectuais da cidade. Para eles, a virtude deve brilhar, não ficar em silêncio.
Certa ocasião, durante uma conversa sobre humildade intelectual, surgiu a crítica habitual: “Você fala tanto de humildade, mas nunca te vi fazer caridade”. Em uma tradução do jargão protestante para um português mais claro: "Se eu não vi, não existe; se não foi na minha igreja, não vale." Eu respondi da maneira que qualquer homem razoável responderia: quem foi que disse que eu preciso prestar contas da minha consciência? Há quanto tempo a caridade virou um relatório trimestral? O pecado não me pertencia; era deles. A presunção evidente de pensar que a bondade deve ser fiscalizada.
Quando chamei aquilo de soberba, vaidade, mediocridade moral, quem se ofendeu fui eu, naturalmente. É sempre assim. Nietzsche afirmou que “a vaidade dos outros ofende nosso orgulho”. A pessoa ainda teve a audácia de sugerir que eu realizasse doações na igreja dele, como se a bondade só fosse válida se fosse legitimada por uma instituição da qual ele faz parte. Em tal situação, não estamos falando de fé, mas sim de liberdade espiritual. Transformar Deus em uma corporação e a caridade em um investimento em imagem.
Deixei claro o que é claro: não ajudo para ser visto, não ajudo para me elevar moralmente e muito menos para alimentar a vaidade religiosa. Quem se comporta dessa maneira não é uma pessoa boa, mas sim medíocre, tentando aparentar ser santo. E, para ser honesto, é extremamente antiético utilizar um mendigo como um argumento moral em um debate sobre o ego. Quando questionei se ele havia feito algo realmente impactante, como ajudar alguém a sair da pobreza, quitar uma conta essencial, ensinar uma profissão ou criar um laço humano, obtive a resposta mais cínica que se pode imaginar: “Jesus dava ensinamento, não convivência”.
Isso não é apenas falta de conhecimento da Bíblia, mas também é analfabetismo espiritual. Cristo interagia com indivíduos como leprosos, cegos, prostitutas, cobradores de impostos e pessoas em situação de pobreza. Ele habitou entre eles, mesmo entre aqueles que deixaram esses caminhos para trás e se tornaram seus apóstolos. Eles acompanharam Jesus, abandonaram seus pecados e transformaram suas vidas, o que significa que Cristo não tinha mais qualquer conivência com eles. Teve o almoço ao lado deles. Tomás de Aquino nos ensina que caridade é querer o bem do outro como fim, e não como meio, porque não se trata apenas de dar. O que sobra é apenas teatro.
O final que todos esperavam: separação. Essas pessoas não conseguem suportar reflexos. Eles se foram e nunca voltaram. E isso foi vantajoso. Como meu pai dizia, um homem que estende a mão sem fazer alarde e se distancia daquele que anseia por reconhecimento, porque quem clama por gratidão em meio à generosidade não merece receber ajuda alguma. Aquele que se orgulha de suas realizações revela, na verdade, sua verdadeira essência: uma pessoa oca tentando se completar com a bondade dos outros.
Essa cultura protestante moderna, que se origina nessa tradição mas se espalhou por toda parte, transformou a humildade em espetáculo, a caridade em hierarquia e a fé em exibição. Isto não é cristianismo; é narcisismo religioso. O homem realmente bom é reservado, fala pouco e é extremamente incômodo para aqueles que dependem da autopromoção. Ele não fala sobre seu trabalho. Ele age e depois some.
Dostoiévski disse que “o amor ativo é um trabalho duro e terrível comparado ao amor nos sonhos”. É por isso que muitos escolhem sonhar em voz alta com a bondade, ao invés de praticá-la de forma silenciosa. Quem entendeu isso não precisa provar mais nada. Quem não entendeu, grita.
Eles não desapareceram imediatamente após aquele evento. Um erro comum é acreditar que esse tipo de pessoa se afasta quando é desafiada. De jeito nenhum. Pessoas desse tipo realmente gostam de se exibir e persistem enquanto houver espectadores. Essas mesmas pessoas continuaram a fazer parte do meu círculo social, em especial um grupo de amigos que é mais jovem do que eu. Curiosamente, eu participava mais desse grupo por paciência do que por afinidade. Antes do rompimento final, eu já mandava avisos simples e quase administrativos naquele grupo: quando era preciso fazer doações, eu lembrava que a Igreja Católica estava sempre aberta, sem precisar de horário marcado, evento especial ou show. Podia ir a qualquer hora. Chegar, participar, ir embora. Calma. Privado. Seguidor de Cristo.
E foi exatamente isso que o incomodou.
Não à contribuição. Nunca se trata de contribuir. É o rumo. Estamos falando do endereço. O problema é a falta de atenção. É uma questão de não passar pelo templo certo, nem pelo pastor adequado, e também não pela narrativa correta. Esses mesmos "amigos" foram se queixar ao meu primo, que é um dos administradores do grupo. Com aquele tom de voz doce e falso, disseram-me que eu deveria cessar o envio desse tipo de mensagem. Mais uma vez, interpretando o discurso hipócrita: é permitido doar, contanto que seja na igreja deles; é possível ajudar, mas somente se for da forma que eles aprovam; é aceitável fazer o bem, desde que se torne uma forma de publicidade. Também não é aceitável. A caridade não tem mais um valor prático, apenas simbólico. Se não conferir status, não tem valor.
A lógica é implacável e evidente: o que realmente conta é o carimbo, não a pessoa necessitada. O púlpito é o que realmente importa, não a fome de quem está lá. O importante não é o bem em si, mas sim quem tem a última palavra moral ao final. É exatamente esse tipo de comportamento que Jesus expulsaria do templo com um chicote, mas que hoje em dia é aplaudido, tem microfone e transmissão ao vivo. Guy Debord chamaria isso de "sociedade do espetáculo"; eu prefiro denominar como circo espiritual com mendigo como ator coadjuvante.
É nesse aspecto que a imagem do meu pai aparece como um contraste quase irritante para esse tipo de pessoa. Para eles, meu pai era uma verdadeira fonte de escândalos. Ele andava descalço, sem camisa, com um short curioso, quase sempre verde, sem se preocupar minimamente com a opinião alheia sobre sua aparência. Só se cobria com a camisa quando o vento da noite se lembrava de que o corpo também podia ter frio. Não mostrava a postura de um patriarca solene, nem o aspecto de um líder religioso, e muito menos o rosto de um homem "abençoado". Talvez por isso ele fosse um homem de grande integridade.
Ele tinha um tratamento uniforme para todos. Iguais. Mulheres, homens, crianças, idosos. Ele, de fato, tratava a criança como um igual, o que já representa mais do que o que muitas religiões conseguem fazer. Não falava de maneira infantil, não subestimava e não usava a autoridade como apoio. Para ele, apenas dois princípios eram genuínos: raciocínio e instrução. O que sobrou foi apenas barulho. Não importava de onde a pessoa era, qual igreja frequentava ou qual discurso seguia. Se tivesse um mínimo de educação e raciocínio lógico, seria seu igual. Se não fosse por isso, eu poderia usar um terno, gravata, e carregar uma Bíblia debaixo do braço, mas ainda assim não conquistaria um milímetro de respeito.
Isso falta, em especial, nas religiões protestantes modernas, sobretudo nas vertentes mais puritanas, que equiparam moral a vigilância e virtude a controle social. Não há coerência. Não há instrução. Há uma abundância de normas sem substância, muita encenação, exigências direcionadas aos outros e uma generosa indulgência em relação a si mesmo. O puritano atual não procura um homem de virtude, mas sim um homem que se submeta. Não tolera uma caridade que passe despercebida; demanda uma obediência que chame a atenção.
O mais irônico é que essa pressão não se origina apenas dos líderes, mas também dos próprios membros da comunidade. Pessoas comuns perguntam: onde você doou, quanto, por que, se compartilhou, se anunciou, se postou. Estamos diante da patrulha moral dos medíocres, que Ortega y Gasset descreveu com precisão em seu livro sobre a rebelião das massas: pessoas sem grandeza interior que tentam dominar a consciência alheia por não suportarem a própria mediocridade.
No fundo, não se trata de Deus, religião ou amar o próximo. Trata-se de pertencimento tribal e vaidade moral. A contribuição torna-se uma senha de acesso ao grupo. A humildade passa a ser uma moeda falsificada. Aqueles que não seguem as regras do jogo apropriado, ou que oferecem ajuda sem buscar reconhecimento espiritual, podem acabar se tornando uma ameaça. Pois nada irrita mais o hipócrita do que alguém que faz o bem sem precisar se promover.
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